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Bacharelado em

Teologia

Fundamentos
hermenêuticos
Organizador

www.metodista.br
Nicanor Lopes

julho de 2008 - 1a edição


Universidade Metodista de São Paulo
Conselho Diretor: Wilson Roberto Zuccherato (presidente), Augusto Campos de Rezende, Clovis
de Oliveira Paradela, Eric de Oliveira Santos, Paulo Roberto Lima Bruhn, Maria Flávia Kovalski,
Nelson Custódio Fer (titulares), Henrique de Mesquita Barbosa Corrêa

Reitor: Marcio de Moraes


Pró-Reitoria de Graduação: Vera Lúcia Gouvêa Stivaletti
Pró-Reitoria de Infra-Estrutura e Gestão de Pessoas: Elaine Lima de Oliveira
Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa: Lauri Emílio Wirth
Direção da Faculdade de Teologia: Rui Josgrilberg

Coordenador do Curso Coordenação Editorial


de Teologia Nicanor Lopes
Nicanor Lopes
Editoração Eletrônica
Organizador Editora Metodista
Nicanor Lopes
Projeto Gráfico
Professores Autores Cristiano Leão
Claudio de Oliveira Ribeiro
José Carlos de Souza Revisão
Luiz Carlos Ramos Eliane Viza Bastos Barreto
Magali do Nascimento Cunha
Suely Xavier dos Santos Impressão
Tércio Machado Siqueira Assahi Gráfica e Editora Ltda.

Assessoria Pedagógica Data desta edição


Adriana Barroso de Azevedo 2o semestre de 2010
Patricia Brecht Innarelli
Rosangela Spagnol Fedoce
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Biblioteca Central da Universidade Metodista de São Paulo)

Universidade Metodista de São Paulo


expediente

Fundamentos Hermenêuticos / Universidade Metodista de São Paulo. 2. ed. São


Bernardo do Campo : Ed. do Autor, 2010.
104 p. (Cadernos didáticos Metodista - Campus EAD)
Bibliografia
ISBN: 978-85-7814-150-9

1. Teologia 2. Hermenêutica - Aspectos religiosos I. Título


CDD 230

UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO


Rua do Sacramento, 230 - Rudge Ramos
09640-000 São Bernardo do Campo - SP
Tel.: 0800 889 2222 - www.metodista.br/ead

É permitido copiar, distribuir, exibir e executar a obra para uso não-comercial, desde que
dado crédito ao autor original e à Universidade Metodista de São Paulo. É vedada a
criação de obras derivadas. Para cada novo uso ou distribuição, você deve deixar
claro para outros os termos da licença desta obra
Bacharelado em
Teologia

Fundamentos
hermenêuticos

www.metodista.br
Organizador
Nicanor Lopes

umesp

2o semestre de 2010 - 2a edição


Aprendizagem
e autonomia

Prezado/a aluno/a do Campus EAD Metodista,

Seja bem-vindo(a) à Universidade Metodista de São Paulo! A modalidade de educação a distância,


escolhida por você, está em crescente expansão. Para ter uma ideia, um em cada cinco alunos que
ingressaram no ensino superior no início de 2010 optaram pela EAD, segundo dados do Ministério
da Educação. Isso significa que vem ganhando confiança e credibilidade o ensino a distância, graças
também ao desempenho bastante positivo dos alunos no ENADE (Exame Nacional de Desempenho
Estudantil), se comparado àqueles matriculados na modalidade presencial.

O melhor de tudo isso é a democratização do acesso ao curso superior, facilitada pela EAD,
permitindo a uma parcela cada vez maior da população condições mais adequadas de inserção no
mercado de trabalho com a qualidade exigida. Tal atributo, associado a valores ético-cristãos que
como uma instituição ligada à Igreja Metodista a Universidade defende, são marcas e atributos que
buscamos vivenciar na prática pedagógica de nosso dia a dia acadêmico.

Este Guia de Estudos reúne os principais conceitos relacionados às disciplinas que integram o curso
que você escolheu. Nosso desejo é que tal material seja um norteador de trabalhos, atividades e outros
afazeres acadêmicos a serem desenvolvidos no decorrer do período em que estiver na Metodista.
Importante também é incentivá-lo no sentido de que as temáticas sejam aprofundadas em outras
fontes de pesquisa (livros, revistas e outras referências que os docentes podem oferecer-lhe).

Bons estudos e um ótimo semestre!

Prof. Dr. Marcio de Moraes


Reitor
Teologia
Módulo: Comunicação na Ação Pastoral

09 Introdução às regras da comunicação científica I

15 Introdução às regras da comunicação científica II

21 Temas básicos em comunicação

25 Técnicas básicas de expressão oral

29 Técnicas básicas da expressão e escrita

33 Comunicação eficaz na celebração comunitária da fé

Módulo: Fundamentos de teologia e história

37 O que é teologia?

41 Teologia latino-americana: histórico e métodos

45 História do cristianismo e as origens cristãs

49 O catolicismo antigo

53 Cristianismo e Estado Imperial

57 A cristandade medieval

Módulo: Literatura e contexto histórico do


Antigo Testamento

61 O Pentateuco
sumário
65 Israel chega à Canaã

69 O período profético em Israel

73 O período pós-exílico

77 Hermenêutica bíblica I

83 Hermenêutica Bíblica II
Comunicação na ação pastoral

Módulo

Introdução
às regras da
comunicação
científica I
Prof. Luiz Carlos Ramos

Objetivos:
Introduzir as regras do universo
acadêmico, seus métodos, seus
pressupostos e sua maneira própria
de expressão;
Apresentar os princípios da leitura
sistemática.

Palavras-chave:
Metodologia científica, teologia, fé,
razão, leitura sistemática.

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Introdução ao jogo científico
Há muitas maneiras de aprender, conhecer e pensar. A
maneira como isso se dá na Universidade distingue-se daquela
que vulgarmente se experimenta cotidianamente. Muito do que
sabemos foi descoberto de forma intuitiva, a partir de experiências
sensoriais, estéticas, afetivas, religiosas, etc. Todas essas são formas
Muito do que sabemos
legítimas e produzem conhecimento verda­deiro. foi descoberto de forma
Não obstante, há um tipo de conhecimento que pretende se
intuitiva, a partir de
basear em algo menos subjetivo que os sentidos, a intuição ou experiências sensoriais,
a fé. Esse outro tipo de conhecimento é a grande aspiração da estéticas, afetivas,
ciência. Assim, a ciência, começando pela observação das coisas, religiosas, etc.
e terminando pela demonstração de suas causas, pertence a um
outro tipo de conhecimento: trata-se do gênero do conhecimento
científico. E isso não é tarefa para os sentidos corporais ou a intuição, mas uma tarefa
para a inteligência.
Embora haja quem advogue a supremacia do gênero científico sobre os demais tipos
de conhecimento, tal como o conhecimento vulgar, o estético, o teológico ou religioso, o filosófico,
etc., preferimos considerar o conhecimento científico apenas como sendo diferente dos demais.
Tendo, cada qual, seu valor, desde que devidamente contextualizados.
Fique claro, porém, que, uma vez na Universidade, deve-se jogar com as regras do jogo acadêmico
ou científico. É como nos esportes: não se pode jogar vôlei com as regras do basquete, e vice-versa.
Por essa razão, deve ficar entendido porque os textos acadêmicos não se parecem com as cartas de
amor, ou com os romances, nem com os sermões ou as orações. Cada um desses textos pertence a
um gênero distinto, e tem seu valor dentro do seu próprio contexto. O equívoco é tentar impor as
regras de um gênero sobre o outro.

Quais são, então, as regras do gênero científico?


Há muitos métodos considerados científicos que foram desenvolvidos em diferentes épocas,
destinados a diferentes tipos de abordagens e pesquisas, depen­dendo do problema ou objeto de
estudo. Estritamente falando, porém, há, basica­mente, duas maneiras de se chegar a uma conclusão
científica: ou pela via descendente, por meio da dedução (que é a aplicação de alguma lei ou regra
geral a um objeto de estudo em particular), ou pela via ascen­dente, por meio da indução (que
consiste na reunião ampla de dados a respeito do objeto em questão, até que se possa estabelecer
uma regra mais geral).
Seja como for, a ciência sempre almeja, nos passos que dá rumo ao conhecimento, ser racional,
objetiva, factual, analítica e sistemática. Além disso, ela pretende transcender os fatos, buscando a clareza
e a precisão no seu processo comunicativo, adotando procedimentos seguros de registro e verificação;
reconhecendo-se, portanto, como falível. Por essa razão, a ciência deve sempre estar aberta à revisão
dos seus postulados para que suas investigações metódicas sejam úteis para a humanidade.
Dependendo do objeto a ser pesquisado, a ciência obtém mais ou menos sucesso. A pretendida
objetividade científica é mais facilmente alcançada quando se trata de pesquisas no contexto das
ciências exatas. Quando se trata de ciências humanas, entretanto, por ser extremamente mais difícil
exercer mecanismos de verificação e controle em função da complexidade dos seres humanos e de
suas expressões sociais, os ventos já não sopram tão favoráveis. Isso exige uma série de adequações
dos métodos e procedimentos.
Seja como for, uma vantagem do emprego do método científico, sobre os métodos subjetivos e
intuitivos, é que o conhecimento científico pode ser comunicado e sua experiência repetida por qualquer
um que se disponha a seguir os passos registrados rigorosamente por um primeiro pesquisador. A
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experiência intuitiva é única para cada indivíduo, ao passo que o
conhecimento científico é comum a qualquer pessoa.
Talvez, a esta altura, alguém esteja levantando a seguinte
pergunta: Mas por que um curso de teologia precisa da ciência? A experiência intuitiva
A religião não é uma questão de fé? Esta é mesmo uma boa é única para cada
pergunta, e merece uma boa resposta. Ao contrário do que o
senso comum poderia supor, não há oposição entre fé e teologia.
indivíduo, ao passo
A partir do momento em que que o conhecimento
Alguém queira expressar sua fé, como experiência pessoal e
científico é comum a
íntima, ao fazê-lo por meio de palavras (seja oralmente ou por qualquer pessoa.
escrito), terá de recorrer, neces­sariamente, à razão. Ora, a teologia
é precisamente isso: a expressão racional da fé. Da mesma forma, toda vez que alguém,
por intermédio do testemunho (falado ou escrito) de outra pessoa, interioriza esse
testemunho, passa a ter uma experiência de fé. Logo, conclui-se que a fé, enquanto
experiência íntima, fica restrita ao indivíduo, mas quando expressa de modo que possa
ser compreendida, torna-se acessível a muitos. A teologia é, portanto, a fé expressa de maneira
inteligível. Na próxima aula, o Prof. Cláudio Ribeiro nos ajudará a compreendermos um pouco
melhor o que é teologia.
A nós interessa, particularmente nesta aula, entender como as regras do jogo científico se
aplicam ao nosso curso. Como na maioria dos cursos de graduação, o Curso de Teologia utiliza-se
amplamente de fontes bibliográficas no processo de construção do conhecimento. Dizendo de outro
modo, muito do que precisamos saber, para nos tornarmos teólogos e teólogas, está nos livros. Mas
toda essa informação não nos servirá de nada enquanto continuarem nas estantes da biblioteca. É
preciso que nos apropriemos desse conhecimento. Por onde começar? O que fazer com tantos livros?
Quais são os melhores? O que fazer com tanta informação?

Como ler sistematicamente?


Primeiramente você deve se recordar que os textos acadêmicos diferem dos outros textos. Não
lemos obras científicas da mesma maneira que lemos uma carta da namorada ou namorado, nem da
mesma forma que lemos um romance ou a Bíblia. Alguns textos dirigem-se mais diretamente à nossa
sensibilidade, tais como os poé­ticos; outros se dirigem mais especificamente à nossa vontade, tais
como os textos publi­citários, e sermões; e há os que se dirigem à nossa inteligência, esse é o caso
dos textos científicos e técnicos. Sabendo disso, não se deve esperar muito sensacionalismo, nem
muita diversão na maioria dos textos que deverão ser lidos ao longo do curso. Como “o combinado
não sai caro”, é bom que se diga de saída, e fique
Banco de imagens

bem claro, que tipo de textos teremos de enfrentar


daqui por diante..
Vamos lá. Tomemos um livro nas mãos. Por
onde começamos? Pela capa, é óbvio. Os títulos
dos textos científicos não tendem a ser muito
divertidos, mas a ser mais técnicos e precisos.
Assim, temos mais chance de saber a respeito do
que trata um livro científico lendo seu título, do
que pelo título de um desses livros puramente
comerciais, de títulos enigmáticos (exemplo de
título comercial: “Quem mexeu no meu queijo?”).
Além disso, alguns livros acadê­micos também
incluem um subtítulo mais preciso ainda, que
detalham a aborda­gem do texto.
A teologia é a fé expressa de maneira inteligível
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Lido o título, deve-se dar uma olhada na quarta capa que
costuma conter uma breve resenha do livro em questão. Fique
a leitora ou o leitor advertido, porém, de que quem faz essa
resenha, em geral, são os editores, que têm interesse comercial
na obra. Assim, você dificilmente encontrará alguma crítica mais Lida a quarta capa,
contundente ao conteúdo, ou comentários que indiquem alguma deve-se dar uma
debilidade ou imprecisão do texto, mas muito mais provavelmente espiada nas orelhas
você lerá algo como “este livro não pode faltar na sua biblioteca...”.
do livro. Nelas, você
Feita essa ressalva, o breve resumo apresentado poderá servir
para uma primeira apreciação do conteúdo do texto, e ajudará na encontrará uma
tomada de decisão a respeito de se valerá a pena lê-lo ou não. resenha um pouco
Lida a quarta capa, deve-se dar uma espiada nas orelhas mais elaborada.
do livro. Nelas, você encontrará uma resenha um pouco mais
elaborada e, muito provavelmente, uma breve biografia do autor da obra. Sabendo
quem é o autor, qual a sua formação e qualidades acadêmicas, você poderá julgar
entre um livro e outro.
Finalmente chegou a hora de abrir o livro. Resista, porém, à tentação de correr para o miolo e
começar a ler compulsivamente. Comece pelo sumário, que apresenta uma relação esquemática
do conteúdo do livro por meio da menção dos títulos dos capítulos e de suas seções. Assim, você
poderá saber qual parte do livro interessa mais especificamente à sua leitura, poupando você de
perder um tempo considerável lendo o que
não interessa até chegar ao ponto desejado. O
Banco de imagens

índice — que pode ser de autores, de assuntos,


ou de citações bíblicas — também é muito útil,
pois pode indicar precisamente qual a página na
qual o autor aborda alguma questão específica
que o leitor está buscando.
Verificados o sumário e os índices, corra os
olhos pela bibliografia. Não, isso não é perda
de tempo, não. Além de familiarizar o leitor com
os expoentes e principais pensadores ligados ao
tema tratado no livro, a avaliação da bibliografia
ajudará o leitor a decidir entre um livro e outro,
caso não disponha de tempo para ler todos
os livros disponíveis, julgando qual é a obra
mais bem fundamentada, qual a bibliografia
mais completa, qual a menos restrita científica,
ideológica e teologicamente.
Finalmente chegou a hora de abrir o livro Não, ainda não é hora de ler o miolo. Agora é a
vez de lermos a introdução e a conclusão. Pode ir
se acostumando desde já: a ciência costuma começar sempre pelo
fim. Os textos científicos têm o compromisso de dizer logo de saída
o que pretendem. Eles não sonegam nem escondem informações
Atenção! fundamentais em parágrafos obscuros em subunidades secundárias.
Nunca salte ou deixe de ler Assim, na introdução, o autor dirá logo qual é o assunto do livro, que
a introdução e a conclusão hipótese pretende verificar, quais os referenciais teóricos assumidos,
de um livro. Você saberá qual a metodologia empregada e qual a estrutura básica do texto.
muito mais sobre uma obra Na conclusão, ele explicitará o caminho percorrido e resumirá
lendo sua introdução e sua as principais conclusões a que chegou. Em outras palavras: na
conclusão, do que lendo introdução o autor diz o que pretende dizer; no corpo do livro, o
pedaços do seu miolo. autor desenvolve o que ele disse que iria dizer; e na conclusão, o
autor reafirma que disse o que pretendia dizer.
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Universidade Metodista de São Paulo
Chegou a hora de ler sistematicamente!
Para isso é preciso compreender que a leitura se dá em diferentes níveis. O primeiro é o nível
inspecional, que é o procedimento que descrevemos anteriormente, de aproximação do texto.
O segundo é o nível textual, para o qual é imprescindível o domínio do código adotado pelo texto
e o conhecimento básico do vocabulário empregado. Se alguém não sabe russo, de nada lhe servirá
querer ler um livro escrito nessa língua. Conhecimento elementar de gramática e do vocabulário
é, portanto, uma primeira condição. Para isso, são absolu­tamente necessários os dicionários (se
você não sabia por onde começar sua biblioteca, então aí está: comece pela aquisição de um bom
dicionário de língua portuguesa).
O terceiro é o nível conceitual. Não basta sabermos em que língua um texto está escrito, se não
compreendermos os conceitos expostos. Não basta, por exemplo, saber que a palavra “Iluminismo”
deve ter alguma coisa a ver com luz, ou iluminação. Iluminismo, conceitualmente falando, é muito
mais do que isso. Como é que eu posso descobrir o que esse e outros conceitos significam? É aqui
que entram os livros de referência, as enciclopédias e os dicionários específicos. Esses
não são livros feitos para serem lidos de capa a capa, mas são obras de consulta, às quais
devemos voltar assiduamente para podermos nos apropriar dos conceitos recorrentes que
dizem respeito ao objeto das nossas pesquisas
(um bom dicionário teológico será imprescindível
_________________________________________ para alguém que pretenda fazer o curso de
teologia. Aos poucos, na medida da necessidade,
_________________________________________ poder-se-á acrescentar à biblioteca um dicionário
de filosofia, de sociologia, de psicologia, etc.).
_________________________________________
O quarto é o nível analítico. A análise é o
_________________________________________ desdobramento de assuntos complexos em
unidades menores, de tal maneira que permita
_________________________________________ a compreensão gradual de questões difíceis por
meio do estudo de suas subpartes mais simples.
_________________________________________
Em geral, os capítulos e subtítulos dos textos
_________________________________________ acadêmicos já nos ajudam nessa tarefa, mas isso
também pode ser feito no âmbito dos parágrafos e
_________________________________________ dos períodos ou frases. A identificação das palavras
e idéias centrais dos capítulos, das seções e dos
_________________________________________ parágrafos, devidamente anotadas, permitirá a
elaboração de um esquema do texto lido, que seja
_________________________________________
mais preciso e detalhado do que o sumário.
_________________________________________ O quinto é o nível sintético, que resulta de
todo o processo anterior. Uma vez de posse do
_________________________________________
esquema da leitura, poder-se-á elaborar uma
_________________________________________ síntese ou resumo do texto. Este resumo deve
ser escrito tendo como referência o esquema
_________________________________________ analítico, resultante dos apontamentos do leitor
ou leitora, e não mediante a transcrição de partes
_________________________________________
do livro. Nesse estágio, o livro deve ser fechado e
_________________________________________ deixado de lado. Assim, o leitor e a leitora poderão
escrever a síntese do livro usando as suas próprias
_________________________________________ palavras para transformar em redação fluente o
que antes estava em forma esquemática. Até esta
_________________________________________ etapa, o fundamental é o leitor apropriar-se das
idéias do autor, independentemente de concordar
_________________________________________
ou não com ele.
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O sexto, e último, é o nível crítico. Somente depois que o leitor

Banco de imagens
tiver certeza de que compreendeu o que o autor quis dizer é que
ele poderá arriscar reagir às idéias expressas no texto. Aqui, o leitor
poderá apresentar suas dúvidas e discordâncias em relação ao livro,
bem como poderá compa-rar as idéias desse autor em particular
com outros autores e textos lidos pelo resenhista. Um resenhista
é alguém que escreve uma resenha. O resultado de todo esse
procedimento é justamente a resenha, que deve começar com
uma apresentação do autor e da obra a ser resenhada, seguida de
um resumo das principais idéias do autor, terminando com uma
apreciação crítica na qual o leitor emite seu parecer sobre a obra Se você não sabia por onde começar
lida. Pedir resenhas é uma das tarefas preferidas pelos professores sua biblioteca, então aí está: comece
e professoras universitárias. Por isso, é bom que você compreenda pela aquisição de um bom dicionário
de língua portuguesa...
o que é isso e comece a gostar de ler sistematicamente, caso ainda
não o esteja fazendo.
Próximos passos: uma vez aprendidos os
critérios para uma leitura sistemática (ver maiores
instruções nas orientações e indicações para _________________________________________
aprofun­damento), resta abordarmos o tema do
raciocínio científico e da redação acadêmica. _________________________________________
Disso trataremos na nossa próxima aula. Até lá.
_________________________________________

_________________________________________

_________________________________________
Uma vez de posse do esquema da _________________________________________
leitura, poder-se-á elaborar uma
_________________________________________
síntese ou resumo do texto.
_________________________________________

_________________________________________

_________________________________________

_________________________________________

_________________________________________

Referências
ALVES, Rubem. Filosofia da ciência: introdução ao jogo e a suas regras. São Paulo: Loyola, 2000.
(Leituras Filosóficas).
AZEVEDO, Israel Belo de. O prazer da produção científica: diretrizes para elaboração de trabalhos
acadêmicos. 10 ed. SÃO PAULO: Hagnos, 2002.
BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico. Petrópolis: Vozes, 1998.
IDE, Pascal. A arte de pensar. Tradução de Paulo Neves. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
(Ferramentas).

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Universidade Metodista de São Paulo
Comunicação na ação pastoral

Módulo

Introdução
às regras da
comunicação
científica II
Prof. Luiz Carlos Ramos

Objetivos:
Aprofundar o conhecimento das
regras do universo acadêmico, seus
métodos, seus pressupostos e sua
maneira própria de expressão;
Apresentar os princípios do raciocínio
científico e da redação acadêmica.

Palavras-chave:
Raciocínio científico, silogismo,
indução, analogia , entimema,
redação acadêmica.

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Hoje retomaremos a nossa conversa sobre as regras do jogo científico no curso de teologia.
Em nosso primeiro encontro, conversamos brevemente sobre os princípios e os métodos científicos
como sendo o gênero de conhecimento privilegiado pelas universidades. Vimos também que,
fundamen­talmente, a fonte do conhecimento acadêmico são os livros. Por isso, refletimos sobre a
necessidade de estabelecer critérios consistentes para garantir uma leitura sistemática proveitosa.
Assim, conversamos sobre os níveis de leitura: o inspecional, o textual, o conceitual, o analítico, o
sintético e, finalmente, o crítico.
Agora está faltando considerarmos, com um pouco mais de atenção, o processo de reflexão que
permite um julgamento crítico e criterioso dos conteúdos veiculados nos livros. Para isso, precisamos
pensar sobre o pensamento, do mesmo modo que temos lido sobre a leitura. Ora, o pensamento
científico não se contenta com meras afirmações; ele exige que se sejam apresentadas as causas e
que sejam demonstradas as razões que permitem que certas afirmações sejam feitas. Isso é possível,
precisamente, por meio do raciocínio. O raciocínio permite a demons­tração da causa da união de
determinado predicado a um determinado sujeito.
Comparando com a estrutura grama­tical, pode-se dizer que
as operações intelectuais dependem de três elementos básicos:
o conceito (que equivale na gramá­tica às palavras), o juízo (que
equivale à sentença) e o raciocínio (que equivale ao parágrafo).
O raciocínio permite
Um raciocínio é feito de diferentes proposições (pelo menos a demons­tração da
três): duas premissas (que servem para aproximar os termos
da problemática) e uma conclusão (que expressa o postulado
causa da união de
pretendido pela afirmação, ou negação resultante desse determinado predicado
procedimento intelectual). a um determinado
Quando alguém faz uma afirmação e outra pessoa pergunta sujeito
“por quê?”, está-se a exigir um raciocínio, pois a pergunta está em
busca da causa daquela afirmação. Os filósofos chamam a causa
de Termo Médio. Foi Aristóteles que, 350 anos antes de Cristo, constatou que, a rigor,
só existem quatro tipos de Termo Médio: a causa, os exemplos ou casos singulares,
a similitude e o sinal. Daí concluiu que existem quatro tipos de raciocínio:
• O silogismo, ou dedução, que se baseia nas causas;
• A indução, que se baseia num conjunto de casos;
• A analogia, que se baseia na similitude com um único caso;
• O entimema, que se baseia no sinal secundário, que é uma espécie de “descaso” para
com a causa última.
Também foi Aristóteles quem perce­beu que o silogismo e a indução são raciocínios adequados
à demonstração, enquanto a analogia e o entimema se aplicam mais à persuasão. Vamos tentar
compreender isso melhor.
Pascal Ide, em seu livro A arte de pensar (que consta da nossa bibliografia), sugere quatro
exemplos do emprego desses ra­ciocínios. Vejamos: Suponhamos que alguém quer demonstrar que
“o aborto é um mal”. Para isso ele poderia recorrer ao raciocínio silogístico da seguinte maneira:
“Todo homicídio é um mal; ora, o aborto é um homicídio; logo, o aborto é um mal”. A força do
silogismo está no fato de que ele emprega uma lei geral a um fenômeno em particular, levando à
conclusão inevitável imposta pela lei geral, uma vez que, de fato, esse fenômeno esteja sujeito a essa
lei. A única maneira de contra-argumentar em relação a um silogismo é questionando-lhe a validade
de suas premissas. Neste caso, especificamente, poder-se-ia questionar a afirmação de que “todo
homicídio é um mal” evocando, por exemplo, a legítima defesa, ou o fato de que, em muitos casos,
mãe e filho morreriam, caso a gravidez fosse levada em conta etc. O que levaria à relativização da
afirmação, pois considerados certos casos “nem todo homicídio seria um mal”.

16
Universidade Metodista de São Paulo
Banco de imagens Vejamos outro exemplo, desta vez de um
raciocínio indutivo, para defender a mesma tese de
que “o aborto é um mal”: “As mulheres que conheci,
que cometeram o aborto, ficaram traumatizadas.
Ora, o trauma/culpa é um mal. Logo, o aborto é
um mal”. A indução tira sua força da quantidade
de casos que consegue evocar para demonstrar
sua tese. Nisso está sua força e sua fraqueza; pois,
para desmontar o argumento indutivo, basta que
seja evocado um único caso contrário às estatísticas
apresentadas. Se no auditório houvesse uma mulher
que se levantasse e declarasse ter cometido aborto e
afirmasse não ter ficado traumatizada, enfraqueceria
consideravel­mente o nosso empenhado combatente
do aborto.
Agora consideremos um exemplo de raciocínio
Um raciocínio é feito de diferentes proposições
analógico: “O aborto reedita os horrores do
holocausto; ora, o holocausto foi um mal terrível cometido contra inocentes; logo, o aborto, ao matar
um ser inocente, reedita o holocausto, e comete um mal igualmente terrível”. De longe, o argumento
analógico é muito mais contundente, conquanto muito mais frágil que os anteriores. O problema do
argumento analógico é que sua força não depende da consistência das provas apresentadas, mas do
estado de ânimo do seu interlocutor. No exemplo dado, a reação do auditório poderia ser bastante
diferente da esperada, caso este fosse composto de neonazistas, ou de skinheads.
Um último exemplo, agora de raciocínio por entimema: “Matar um ser vivo é um mal; ora, ao
abortar você mata um ser vivo, prova disso é que ele se move; logo, o aborto é um mal”. Este também
é um argumento forte do ponto de vista da persuasão psicológica. Embora impressione, trata-se de
um argumento que não resiste a uma análise minima­mente lógica. Ora, nem tudo que se move é
vivo: as nuvens se movem, a água do rio se move etc., e nem por isso são seres vivos. O entimema
contenta-se com apenas um sinal — o movimento é um dos sinais característicos do ser vivo, mas
não é expressão essencial e causal dos seres vivos.
Esses são os argumentos que Aristó­teles considerava legítimos ao processo de argumentação,
objetivando a demonstração e a persuasão. Há outras formas de procurar convencer alguém que,
no entendimento do filósofo e da ciência contemporânea, não são dignas de serem levadas a
sério. Dentre elas está o argumento de autoridade, muito recorrente, principalmente no contexto
religioso. Com freqüência, ouve-se dizer que algo deve ser crido ou feito porque o pastor disse que
deve ser assim; porque a Bíblia diz que deve ser assim; porque o Papa falou que é assim... Para a
ciência, os méritos de quem disse contam pouco. Os argumentos devem convencer pelas
qualidades intrínsecas ao próprio raciocínio. Para isso, o raciocínio deve ser correto quanto
à formulação, e verdadeiro no que diz respeito às suas premissas. É isso que garantirá a
força de um raciocínio.
Pois bem, sabendo desses princípios lógicos, podemos aplicá-
los para julgar a consistência argumentativa de um texto que
Existem quatro tipos
estamos lendo. Podemos julgar se este tem de fato fundamento de raciocínio são
ou se está tentando nos manipular. Quanto mais racional e lógico, eles:
mais demonstrativo será o texto. Ao passo que, quanto mais - Silogismo;
passional e adjetivado, mais manipulador e persuasivo ele tenderá - Indução;
a ser. Identificar, portanto, se um texto está se dirigindo à minha
inteligência ou à minha sensibilidade já é um bom começo para
- Analogia;
evitarmos a manipulação e iniciarmos um processo de julgamento - Entimema
crítico do texto.

17
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Estas informações também nos aju­darão quando tivermos de

Imagem 1
escrever os nossos próprios textos científicos. Quando tivermos
de elaborar os trabalhos acadêmicos que nos serão solicitados ao
longo do curso, devemos privilegiar os argumentos dedutivos e os
indutivos, e recorrermos com moderação às analogias e entimemas.
Na verdade, a base de uma conclusão deve ser sempre uma
dedução ou uma indução, que poderá ser “ilustrada” com analogias
e entimemas. Mas nunca devemos construir teorias sobre estes
últimos, pois seria como edificar castelos de areia. Como, então,
redigir um artigo científico? Isso é o que veremos a seguir.
• Comecemos pela identificação do autor e do texto.
Titulo e subtítulos: Textos acadêmicos/científicos
se distinguem dos publicitários ou comerciais por
serem mais precisos, técnicos e menos (ou nada)
Aristóteles
sensacionalistas. Assim, os títulos de um artigo
acadêmico não podem prometer mais do que o
artigo oferece, além do que o título e os subtítulos deverão dar uma idéia clara e
corresponder precisamente ao conteúdo que será abordado.
• Autoria: O/a autor/a deverá oferecer aos editores os dados mais importantes e recentes
sobre sua formação acadêmica. Forneça sempre seu nome completo, sua titulação
acadêmica e mencione a principal atividade atual (e o local onde a desenvolve). Se
desejar, poderá divulgar seu endereço eletrônico para eventuais contatos da parte
dos/as/ leitores/as.
• Abstract ou Resumo: Este é muito importante para poupar o tempo dos/as leitores/
as. O resumo deverá apresentar explicitamente qual é a idéia principal do texto e a
linha de raciocínio que a demons­trará. Deverá vir no início do artigo, logo abaixo do
título e do nome do autor, na forma de um único parágrafo.
• Palavras-chave: As palavras-chave ajudarão o/a leitor/a a medir a relevância do
artigo. Sugere-se que tais palavras sejam colocadas em ordem de aparição no texto,
separadas por vírgulas. Assim, o resumo oferecerá aos/às leitores/as
uma espécie de índice de assuntos.
• Correção política: a Faculdade de Teologia da
Igreja Metodista – Umesp – não admite o emprego
de expressões com conotação sexista, racista, Quando tivermos
depreciativa ou desrespeitosa em relação ao objeto de elaborar
em estudo. É imprescindível a explicitação dos créditos os trabalhos
de textos e idéias de terceiros, ainda que não sejam
transcritos literalmente.
acadêmicos que nos
serão solicitados
Os textos acadêmicos, a rigor, tem três partes: uma introdução, o
corpo argumentativo (ou desen­volvimento) e a conclusão. Vejamos
ao longo do curso,
o que deve conter a introdução: devemos privilegiar
• Aproximação: A introdução deverá aproximar o/a
os argumentos
leitor/a do assunto, do tema e da perspectiva a dedutivos e
partir da qual ele será abordado. os indutivos,
• Primeiro parágrafo: Deve-se dar especial atenção e recorrermos
ao primeiro parágrafo. Um texto acadêmico diz logo com moderação
de saída o que pretende; deve facilitar ao máximo às analogias e
a leitura; não deve “esconder” idéias centrais em entimemas.
parágrafos secundários.
18
Universidade Metodista de São Paulo
Banco de imagens • Outros parágrafos: Também os demais
parágrafos devem ser construídos preferen­
cialmente obedecendo à seguinte hierarquia:
primeiro deve vir o mais importante (a
idéia principal), a seguir os detalhes (escla­
recimentos, definições, demonstrações) e, por
último, os exemplos (analogias, aplica­ções...).
Esta orientação serve igualmente para as
demais partes do artigo.
• Justificativa: O/a autor/a pode jus­tificar seu
interesse pelo assunto proposto.
• Delimitação: A introdução deve deli­mi­tar o
assunto. Dificilmente se poderá dizer tudo sobre
algum objeto de estudo, portanto aquilo que
será necessariamente deixado de fora deve sê-lo
O resumo é importante para poupar o tempo dos/as
conscientemente. Aqui deve ser explicado por
leitores/as que o objeto será analisado de tal perspectiva
e não de outra, por que tal aspecto será
considerado em detrimento de outro etc.
• Revisão bibliográfica: O tema deverá ser
situado, dando informação de “a quantas
Os textos acadêmicos, a rigor, anda” a pesquisa sobre o assunto, a partir de
tem três partes: uma introdução, uma revisão bibliográfica (ou de literatura).
o corpo argumentativo (ou • Fontes: Devem ser, igualmente, apre­sentadas
as fontes, os métodos e as teorias que
desen­volvimento) e a conclusão.
fundamentam a pesquisa do/a autor/a.
• Transição : Deve-se fazer uma transi­ç ão
natural para o desenvolvimento do texto.
Uma boa maneira de fazer isso é explicar
como as próximas seções (subtítulos) estão
concebidas, quais seus conteúdos, por que
_________________________________________ estão naquela ordem e por que será abor­
dado tal assunto em primeiro lugar. Então,
_________________________________________
é só passar imediatamente a tratar do
_________________________________________ assunto no desenvolvimento, isto é, no corpo
demonstrativo do artigo.
_________________________________________
Como se pode notar, a redação da introdução
_________________________________________ pode dar mais trabalho do que a redação do
corpo argumentativo, porque ela leva em conta
_________________________________________ a pesquisa como um todo. Com relação ao
desenvolvimento, pode­mos considerar:
_________________________________________
• Discussão: Nesta parte do artigo, procede-se
_________________________________________ à discussão do tema proposto, comentando e
demonstrando o(s) resul­tado(s) da pesquisa
_________________________________________ realizada.
_________________________________________ • Divisões: A divisão do texto em capí­tulos ou
subtítulos ajuda o/a leitor/a a compreender as
_________________________________________ várias fases da pesquisa e da discussão, bem
________________________________________ como a evolução dos raciocínios do/a autor/a.
As divisões devem ser: exclusivas (não devem
19
www.metodista.br/ead
se confundir), exaustivas (não devem omitir abordagens fundamentais), necessárias
(deve-se eliminar tudo o que não é absolutamente relevante), simétricas (as partes
devem ser propor­cionais tanto na quantidade quanto na qualidade), coerentes (não se
deve usar categorias diferentes) e conseqüentes (uma divisão deve surgir da anterior
e desembocar naturalmente na seguinte).
Finalmente, podemos considerar o conteúdo da conclusão:
• Considerações finais: Em ciências humanas
é difícil falar em “conclusão” definitiva. Cabem
melhor expressões, como “considerações
Uma série de normatizações finais”, ou “implicações da pesquisa”, ou ainda
sobre a formatação, que devem “pistas...”.
ser levadas em conta na hora • Síntese: A conclusão deve oferecer uma síntese
de se redigir um trabalho das principais descobertas do/a autor/a.
acadêmico. Essas regras são • Sugestões : O/a autor/a poderá oferecer
estabelecidas pela ABNT sugestões para possíveis aplicações dos
resultados da pesquisa.
• Continuidade da pesquisa: Da mesma forma,
poderá dar indicações de como o tema poderá
vir a ser aprofundado em pesquisas futuras.
Há, ainda, uma série de normatizações sobre
a formatação, que devem ser levadas em conta
_________________________________________ na hora de se redigir um trabalho acadêmico.
Essas regras são estabelecidas pela Associação
_________________________________________ Brasileira de Normas Técnicas, a famosa ABNT. Nós
elaboramos para você um modelo de trabalho
_________________________________________ acadêmico com a demon­stração prática e concreta
da aplicação dessas normas — o modelo contém
_________________________________________
ainda uma série de orientações úteis sobre redação
_________________________________________ e o uso do computador no processo de formatação.
Sugerimos que você dedique um tempo para
_________________________________________ conferir esse modelo, para lê-lo com atenção e para
experimentá-lo. Se você fizer isso, eu garanto, a
_________________________________________
sua vida acadêmica será tremendamente facilitada.
_________________________________________ Bons estudos.

_________________________________________

_________________________________________ Referências de imagens


Imagem 1: http://upload.wikimedia.org/
_________________________________________ wikipedia/commons/a/a4/Aristoteles_Lou-
________________________________________ vre.jpg. Acesso em 20’Jun’06.

Referências
GONÇALVES, Hortência de Abreu. Manual de artigos científicos. São Paulo: Editora Avercamp, 2004.
IDE, Pascal. A arte de pensar. Tradução Paulo Neves. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

20
Universidade Metodista de São Paulo
Comunicação na ação pastoral

Módulo

Temas básicos
em comunicação

Profa. Magali do Nascimento Cunha

Objetivos:
Introduzir elementos básicos da teoria da
comunicação que devem ser aplicados
à reflexão da prática pastoral, como o
conceito da comunicação, o valor da
linguagem, os tipos de comunicação e o
processo da comunicação;
Abordar o tema da comunicação sob
uma perspectiva teológica, a partir
dos princípios da comunhão, da
solidariedade e do diálogo.

Palavras-chave:
Comunicação, linguagem,
mídia, religião.

www.metodista.br/ead
Comunicação é elemento-chave na ação pastoral. Afinal, um pastor ou pastora ou uma liderança
leiga que atua em igrejas ou qualquer outro agrupamento do campo religioso lida com pessoas;
relaciona-se com um público. Saber comunicar bem, desenvolvendo boas relações interpessoais e
liderança de qualidade e disseminando mensagens que sejam bem recebidas por seu público-alvo, por
meio de uso correto e eficaz da palavra, é requisito fundamental na ação pastoral clériga ou leiga.
Nesta primeira unidade de estudos, vamos buscar na teoria da comunicação alguns conceitos
que nos ajudam a compreender elementos muito importantes na prática pastoral e que envolvem
o ato de comunicar.

Comunicação é elemento-chave na ação pastoral


Conceito. Comunicação é uma palavra que vem do latim comunicare, que quer dizer “tornar
comum”. Tornar comum, o quê? Exteriorizar idéias e sentimentos, com o fim de estabelecer comunhão
com o outro. Esse ato de tornar comuns elementos significativos levou estudiosos a estabelecerem
uma premissa: todos os seres vivos são capazes de se comunicar. No que diz respeito ao ser humano,
é possível afirmar que a comu­nicação é um processo inerente à condição humana e existe desde que
as pessoas surgiram no mundo. Um homem ou uma mulher se comunicam de forma articulada ou
mesmo de forma involuntária, pois o corpo humano está programado para comunicar,
seja com a fala, um sorriso ou a indicação de fome ou dor. Portanto, o ser humano é
comunicação pois, para existir, precisa comunicar-se. Comunicação
é necessidade social.
Estudiosos, com base nesta referência, passaram a identificar Comunicação é
duas principais formas de comunicação humana: a verbal (oral uma palavra que
e escrita) e a não-verbal (sonorizadora, gestual, sinalizadora –
gráfica ou não). A linguagem aqui é elemento fundamental a ser
vem do latim
enfatizado, pois é a forma de o ser humano se expressar, exprimir a comunicare, que
capacidade de raciocínio (os pensamentos) e os senti­mentos. Com quer dizer “tornar
a linguagem, verbal ou não, damos nomes e atribuímos sentido comum”
às coisas que fazem parte da nossa vida.

Linguagem, cultura e ideologia


Falando em linguagem, é importante destacar que ela é elemento que compõe a cultura de um
grupo social, pois ela reflete o modo de ser e de pensar dele. Dito de outro modo, é a forma de
um grupo social produzir/atribuir/dar sentido a alguma coisa. Por ser resultado de uma produção
social, a nossa linguagem também carrega ideologias que assimilamos em nossa sociedade. E o
que é ideologia? De acordo com a filósofa Marilena Chauí, é o conjunto de representações (idéias e
valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade;
o que devem pensar e como devem pensar; o que devem valorizar e como devem valori­zar; o que
devem sentir e como devem sentir; o que devem fazer e como devem fazer.
É assim que, por meio de expressões que usamos, assimilamos valores e idéias que determinam
por exemplo, cores “boas” e cores “ruins”. Dizemos, por exemplo: “A situação está preta”; “Isto vai
denegrir a minha imagem”; “Meu coração era preto; encontrei Jesus e ele se tornou branco”. Por que
é a cor preta que indica o que é ruim? Daí, também passamos à classificação de pessoas, como em
“Neguinho não sabe o que faz”; “Não faz besteira. Isto é coisa de preto”. Por meio da linguagem,
também determinamos que o gênero masculino é superior ao feminino, como por exemplo, quando
se diz: “Deus enviou seu filho para salvar o homem dos seus pecados”; “Quero que todos que estão
aqui, na igreja, compre­endam que somos uma comunidade de irmãos”; “Parabéns, alunos do Curso
de Teologia, pelo esforço para estudar”. Por que é o masculino que determina o que é genérico ou
coletivo? Ainda, com as pala­vras, determinamos quem é socialmente aceitável, como em: “Os deficientes

22
Universidade Metodista de São Paulo
precisam de que se abram vagas de empregos
para eles” ; “Arrume este quarto, menina, parece
uma favela!”. Com estas reflexões, levantamos
a necessidade de interpretarmos critica­mente a
nossa linguagem e a transformarmos para que _________________________________________
ela adquira uma dimensão mais inclusiva. Com
a nossa linguagem podemos ser excludentes e _________________________________________
reforçar preconceitos e discriminações, ainda
que de forma inconsciente. Claro! É assim que a _________________________________________
ideologia funciona. _________________________________________

_________________________________________
O processo da comunicação
_________________________________________
A partir da compreensão das formas de
comunicar e de construção da linguagem, _________________________________________
podemos identificar tipos de comunicação
(intrapessoal, interpessoal e social) e o processo _________________________________________
como esta comu­nicação acontece. “Alguém
emite uma mensagem para alguém” seria a _________________________________________
concepção básica desse processo. No entanto,
_________________________________________
outros elementos se fazem necessários para uma
compreensão mais profunda do processo que _________________________________________
envolve o ato de comunicar: em que contexto
acontece o processo? qual é o repertório utilizado _________________________________________
nesta comunicação? como a mensagem foi
_________________________________________
articulada? (a codificação); qual é o meio utilizado
para fazer a mensagem chegar ao receptor? _________________________________________
(o canal); como a mensagem é recebida? (a
decodificação); há proble­mas que envolvem o _________________________________________
ato de comunicar? (o ruído); qual é o retorno
oferecido pelo receptor? (o feedback). Se a _________________________________________
comunicação é desenvolvida na perspectiva
_________________________________________
da comunhão, do diálogo e da interação, esses
elementos devem ser levados em conta, em toda _________________________________________
a sua com­plexidade.
_________________________________________

Abordagem teológica _________________________________________


No campo da teologia, podemos desenvolver _________________________________________
uma leitura dessa mesma compreensão de comu­
nicação: o ser humano é comunicação porque
Deus o criou com tal dom. Na narrativa da Criação, registrada em Gênesis 2.18, lemos: “Não é bom
que o homem viva só...”. O termo original, do hebraico, que no português é normalmente
traduzido como “homem” é Adam, que, na verdade, quer dizer muito mais do que
“homem”. Adam significa “o ser humano”, “a pessoa humana”.
Com isso, podemos ter uma perspectiva muito mais ampla do
O ser humano sentido da Criação: Deus criou o ser humano para viver junto, não
em solidão, portanto, deu-lhe o dom da comunicação para que
é comunicação houvesse comunhão, integração e cooperação.
porque Deus o criou
Dessa forma, é possível afirmar que comunicaçõ é dom de Deus, e
com tal dom. que ninguém existe para viver sozinho, daí a necessidade de comunicar.

23
www.metodista.br/ead
O ser humano é comu­nicação, por isso precisa do
outro. Sem o outro o ser humano não é. O contrário
disso é comunicação aparente, superficial, ou
mesmo incomunicação, como preferem alguns. A
ação pastoral que leva em conta esses aspectos não _________________________________________
se concentra nem se esgota na palavra, nem nos
gestos, nem nas imagens, e busca, acima de tudo, _________________________________________
o desejo de Deus, de que sua Criação experimente
o diálogo e a comunhão. _________________________________________

_________________________________________
Meios de comunicação e religião _________________________________________
Um dos grandes fenômenos no Brasil de
_________________________________________
hoje é a intensa presença dos grupos religiosos
nos meios de comunicação eletrônicos. Desde _________________________________________
o advento da eletrônica no século XIX, as
diferentes igrejas já procuraram colocar a mídia _________________________________________
a seu serviço. Não pode restar dúvida de que
a presença nos meios de comunicação é hoje, _________________________________________
na era da eletrônica, importante para qualquer
_________________________________________
grupo social, religioso ou não, que queira tornar
públicas suas propostas e mensagens. Porém, _________________________________________
o desafio que se coloca aos cristãos e cristãs
de hoje, em especial no Brasil, é res­ponder à _________________________________________
pergunta: Para que estar presente na mídia? Com
_________________________________________
quais valores e objetivos? O aprofundamento
dessa reflexão é impor­tante para pensar uma
ação pastoral comprometida com a dimensão
teológica da comunicação que está exposta acima.

Referências
BORDENAVE, Juan E. Díaz. O que é comunicação. São Paulo: Brasiliense, 1991.(Col. Primeiros Passos).

Bibliografia complementar
ASSMANN, Hugo. A Igreja eletrônica e seu impacto na América Latina. Petropólis: Vozes, 1986.
BABIN, Pierre. A era da comunicação. São Paulo: Paulinas, 1989.
CUNHA, Magali do Nascimento. O crescimento do marketing evangélico no Brasil – resultado da
inserção da doutrina neoliberal no discurso religioso das igrejas evangélicas. Comunicação &
Política. Rio de Janeiro: Cebela, n.s., v. VI, n. 2 e 3, p. 63-133.
CUNHA, Magali do Nascimento. A influência da ideologia neoliberal na religiosidade evangélica.
Caminhando, São Bernardo do Campo, v. 7, n. 10, p. 9-30, 2002.
CUNHA, Magali do Nascimento. A vida e a missão da Igreja Metodista (1987-1997): uma tentativa
de avaliação. In: CASTRO, Clóvis Pinto de; CUNHA, Magali do Nascimento. Forjando uma nova
Igreja: dons e ministérios em debate. São Bernardo do Campo: Editeo, 2001.
DIEZ, Felicísimo Martinez. Teologia da Comunicação. São Paulo: Paulinas, 1997.
KELLNER, Douglas. A cultura da mídia: estudos culturais: identidade e política entre o moderno
e o pós moderno. Bauru: Edusc, 2001.
MORAN, José Manuel. Mudanças na comunicação pessoal. 2.ed. São Paulo: Paulinas, 2000.

24
Universidade Metodista de São Paulo
Comunicação na ação pastoral

Módulo

Técnicas básicas
de expressão
oral

Profa. Magali do Nascimento Cunha

Objetivos:
Fornecer orientações aos estudantes sobre
técnicas de comunicação oral com vistas
a uma comunicação eficaz, com ênfase no
volume, no tom, no gestual e na pronúncia;
Identificar e indicar correção para os erros
comuns de vocabulário no processo de
comunicação oral.

Palavras-chave:
Comunicação verbal oral, comunicação não-
verbal, pronúncia, vocabulário.

www.metodista.br/ead
Uma das formas de comunicação mais utilizadas na ação pastoral é a expressão oral. Vamos nos
dedicar nesta etapa a este tema e é bom ressaltarmos, desde já, que expressão oral não significa
apenas falar, exprimir corretamente e articuladamente as palavras por meio da voz mas um conjunto
de formas combinadas.

Volume, tom e gestual


Quando nos expressa­mos oralmente, usamos a voz que precisa de recursos como volume e
tom. Usamos ainda elementos de reforço à comunicação como os gestos e a expressão facial. Para
comunicarmos bem, precisamos desen­volver formas eficazes de utilizar esses recursos, e pensar em
outros como os materiais visuais que auxiliam a expressão oral.Com isso estaremos trabalhando para
que nossa comunicação contribua e não atrapalhe a nossa ação.
Para começar, é preciso atentar para o seguinte:
• Quem fala em público tem que se preocupar com o volume da emissão vocal e para
a entonação das frases.
• Quem fala em público deve saber jogar, adequadamente com os gestos do corpo,
dos braços, das mãos, e com a fisionomia.
Estes recursos físicos, que já possuímos a priori, podem facilitar a comunicação oral quando bem
empregados, mas podem se transformar em pesadelo e destruir nosso contato com as pessoas. Isto
aliado aos fenômenos psíquicos da simpatia e da antipatia. Há ainda a necessidade de prender a
atenção e de se levar em conta as características do local (contexto e repertório) e dos meios (canais
e possíveis ruídos) por onde acontece a comunicação.
O equilíbrio do volume, da tonalidade e o bom uso dos gestos e da fisionomia são aspectos para
as quais devemos dar amplo valor para que possamos comunicar bem com as pessoas com quem
vamos desenvolver a ação pastoral.

A pronúncia
Outro elemento importante na expressão oral é o cuidado com
a pronúncia. Uma boa pronúncia das palavras implica em usar a
Quem se preocupa
acentuação tônica correta e na atenção às terminações como o “r”
e o “s”. Quem se preocupa em pronunciar bem as palavras e frases, em pronunciar bem as
cuida também da velocidade da exposição oral: pessoas que falam palavras e frases, cuida
muito rápido muitas vezes atropelam-se nas palavras, o que causa também da velocidade
sérios ruídos na comunicação. Por outro lado, uma fala lenta e da exposição oral
muito pausada, cansa os ouvintes. É preciso equilibrar a velocidade.
Há exercícios de pronúncia que são realizados freqüentemente
por todos os profissionais que têm a fala como ferramenta e podem ser utilizados na
prática pastoral. Da mesma forma há cuidados físicos a serem tomados: com
o aparelho fonador, a respiração e com a ingestão de alimentos e líquidos
apropriados para estimularem um bom uso da voz.

‘‘...pessoas que falam muito O vocabulário


rápido atropelam-se nas Preocupar-se com a expressão oral eficaz é
palavras, mas por outro lado também dedicar atenção ao vocabulário. Atentar
para o vocabulário significa usar corretamente
uma fala muito lenta e pausada, as palavras e expressões e construir boas
cansa os ouvintes...’’ frases, evitando erros comuns como falta de
concordância verbal e nominal, o uso equivocado
26
Universidade Metodista de São Paulo
de pronomes, a atribuição de significados que não correspondem
ao sentido da palavra, os modismos, os gerundismos, os
coloquialismos, os estrangeirismos, as redundâncias. Dedicar
atenção ao vocabulário é elemento fundamental para que um/a
orador/a adquira credibilidade e respeitabilidade. Atentar para o
vocabulário
A leitura oral significa usar
corretamente as
Outro aspecto significativo para quem trabalha com igrejas,
grupos religiosos ou similares é a leitura oral. Na ação pastoral há
palavras e
dois tipos de leitura em público, no caso das celebrações religiosas: expressões...
aquela que faz parte do conteúdo de uma apresentação, como as
leituras bíblicas, as antifônicas (litanias), os anúncios outros textos
para meditação; e a leitura da própria apresentação
ou do sermão. O problema, na maioria das vezes,
é que, por não se preocupar com a audiência,
quem faz a leitura oral a faz para si próprio/a, _________________________________________
em boa parte das situações, burocraticamente e
mecanicamente, e transforma a leitura em pública
_________________________________________
em uma das atividades mais desagradáveis (para _________________________________________
não dizer “chatas”) da comunicação, que perde
apenas para a fala decorada. _________________________________________
Quem não sabe ler em público, não sabe porque: _________________________________________
teve poucas oportunidades de praticar, não se
preocupa com o público e nem com a capacidade _________________________________________
que o texto que foi escrito tem de comunicar.
_________________________________________
Para comunicar bem, ao se fazer uma leitura
em voz audível, é preciso atentar para o tom _________________________________________
e o volume da voz, o gestual, a fisionomia, a
velocidade da leitura, a pronúncia, da mesma _________________________________________
forma que na expressão espontânea.
_________________________________________

_________________________________________
Base fundamental
Além de tudo isso que merece a nossa atenção _________________________________________
para uma boa apresentação em público, há três
_________________________________________
elementos fundamentais e que estão na base de
qualquer técnica de expressão oral: _________________________________________
• Não falar sem conhecer o assunto.
Nesse caso, já se começa com _________________________________________
insegurança. Ao receber um convite _________________________________________
para falar para um determinado
grupo sobre determinado tema _________________________________________
e não se dominar o assunto, é
melhor recusar o convite do que _________________________________________
sofrer as conseqüências da decisão
_________________________________________
de aceitar.
• Não falar sem ter um mínimo de _________________________________________
informação sobre os ouvintes.
Mesmo dominando-se um tema, _________________________________________

27
www.metodista.br/ead
ele não deve ser apresentado da mesma forma para contextos e públicos diferentes. O
conhecimento do nível intelectual do público, do nível do conhecimento do assunto, da
faixa etária e do gênero predominantes são essenciais para uma comunicação eficaz.
• Cuidar da apresentação visual. A vestimenta é importante instrumento de comunicação
não-verbal: ela pode dizer muito de quem se apresenta em público e, de acordo com o
contexto da apresentação, pode contribuir para captar a atenção dos/as ouvintes para
o assunto ou criar rejeição.
Na ação pastoral, respeitabilidade e credibilidade são requisitos básicos para um líder,
o que exige uma apresentação visual que expresse asseio, sobriedade e elegância, sem
exageros para mais ou para menos. Combinação
de cores, comprimento de mangas, calças
compridas e saias merecem atenção redobrada.
Para os homens, o cuidado com a cor das _________________________________________
meias, das gravatas e com o corte do cabelo
e da barba é importante. Para as mulheres,
_________________________________________
evitar decotes, acessórios grandes (brincos e _________________________________________
colares) e maquiagem carregada é fundamental.
Esses itens aqui mencionados podem, com _________________________________________
uso incorreto, transformar-se no objeto de
atenção da audiência, deixando o conteúdo, _________________________________________
que deve ser o destaque, em último plano. Um
_________________________________________
modelo para quem se apresenta em público em
igrejas, grupos religiosos e similares é o visual _________________________________________
de apresentadores/as dos principais telejornais
– buscam respeita­bilidade e credibilidade e _________________________________________
para tal expõem-se com um visual sóbrio e
elegante. Claro que há situações no contexto
_________________________________________
da ação pastoral que expressam informalidade _________________________________________
e não exigem visual formal e sóbrio, o que não
descarta as indicações acima, pois mesmo na _________________________________________
informalidade, lideranças religiosas precisam de
credibilidade e respeitabilidade. _________________________________________

_________________________________________

_________________________________________

Referências
CÂMARA JR, J. Mattoso. Manual de Expressão Oral e Escrita. 17 ed. Petrópolis: Vozes, 1986
POLITO, Reinaldo. Assim é que se fala. 26 ed. São Paulo: Saraiva, 2004
HALLIDAY, Tereza Lúcia. O que é retórica. São Paulo: Brasiliense, 1990. Coleção Primeiros
Passos.
PROFESSOR REINALDO POLITO (Como Falar em Público): http://www.polito.com.br
FALAR EM PÚBLICO: http://www.falarempublico.com.br/

28
Universidade Metodista de São Paulo
Comunicação na ação pastoral

Módulo

Técnicas básicas
de expressão
e escrita

Profa. Magali do Nascimento Cunha

Objetivos:
Fornecer orientações aos estudantes
sobre técnicas de comunicação escrita
com vistas a uma comunicação eficaz,
com ênfase nos elementos básicos que
compõem um texto;
Identificar e indicar correção para os
erros comuns de redação para um
bom uso da língua escrita.

Palavras-chave:
Comunicação verbal escrita, redação,
língua portuguesa

www.metodista.br/ead
Uma liderança religiosa, clériga ou leiga, precisa muitas vezes da comunicação escrita em suas
atividades. É freqüentemente demandada a redação de uma carta ou ofício, de material para um
informativo da comunidade ou um artigo ou texto, solicitado muitas vezes por um veículo da localidade
onde atua. O que importa é que quem escreve tem de escrever bem e corretamente, se deseja uma
comunicação eficaz e obter credibilidade e respeitabilidade com o seu trabalho.
Na expressão oral, podemos muitas vezes disfarçar um erro ou mesmo apostar que tal deslize cairá
no esquecimento dos/as ouvintes (o que nunca deve servir de desculpa para que se cometam erros
freqüentes). Na expressão escrita, no entanto, é impossível disfarçar ou apostar no esquecimento: o
material redigido estará sob os olhos de alguém que terá a chance de ler, reler, ler uma terceira vez
e ainda mostrar a outras pessoas.
Portanto, nesta terceira unidade de estudos, vamos nos dedicar ao estudo das noções básicas
para se elaborar textos, inclusive os acadêmicos que serão solicitados pelos professores do Curso
de Teologia. Vamos ainda listar alguns erros comuns de redação e fornecer orientações básicas para
um bom uso da língua escrita.

Banco de imagens
Tipo e forma do texto
Um princípio básico de redação é que o tipo de
texto determina a forma do texto. Na universidade,
por exemplo, os tipos de textos mais comuns
que professores/as e estudantes desenvolvem
são: monografias, papers, fichamentos, resumos,
resenhas, ensaios. Já na ação pastoral, os mais
comuns são as cartas, os ofícios, as reflexões/
meditações, os artigos, os estudos, os relatórios,
os projetos. Cada contexto tem o próprio
público-alvo e o repertório (vocabulário) que
lhe é adequado. Portanto, ao se redigir um texto
é preciso começar com algumas perguntas: por
que e para quem vou escrever? Qual vai ser o
formato do meu texto?
Redação de uma carta ou ofício

O roteiro
Um texto deve ter início, meio e fim e ser redigido com objetividade, sem rodeios (redundâncias).
Para se alcançar este objetivo, uma ação importante é listar os principais tópicos a serem abordados
no texto como ponto de partida para organizar as idéias. Essa pequena providência inicial pode
simplificar o trabalho de redigir. Um roteiro deve conter: assunto, introdução, desenvolvimento e
conclusão.

O título
O título é o cartão de visitas do texto: ele deve resumir o assunto para o/a leitor/a. Quem lê o
título deve ser capaz de entender sobre o quê trata o texto. Um bom título atrai leitores/as. Exemplos:
Em seus passos que faria Jesus; A mosca azul. Já um título ruim pode revelar um
trabalho ruim ou mesmo esconder um bom trabalho. Exemplos: O encontro; Relatório
final. Comissão Internacional Anglicano-Católica Romana.
Importante: o título é o último elemento a ser redigido em um
O título é o cartão texto porque ele deve refletir o que está escrito (resumir) e não o
de visitas do texto. que vai ser escrito. Começar pelo título é redigir com problemas,
pois o processo pode ficar “engessado” desde o início.
30
Universidade Metodista de São Paulo
Abertura
É um elemento importante do texto que serve para prender o/a leitor/a. Em qualquer texto, o
mais importante é o primeiro parágrafo; no primeiro parágrafo, a primeira frase; na primeira frase,
as primeiras palavras. O segundo parágrafo deve ser a continuação do primeiro com a finalidade de
introduzir o texto e criar no/a leitor/a o desejo de continuar a leitura. A abertura deve conter de dois
a três parágrafos em textos longos e um parágrafo em textos curtos.

Intertítulos
São usados para auxiliar a leitura do texto e torná-lo mais
agradável e menos pesado. É recomendável colocar intertítulos a
Intertítulos:
cada 20 linhas de um texto curto e a cada cinco a sete parágrafos
de um texto longo. O primeiro intertítulo deve, preferencialmente, São usados para
vir logo após a abertura (como recomendamos, ela deve ocupar auxiliar a leitura
os dois primeiros parágrafos). O intertítulo pode ser apenas uma do texto e torná-lo
palavra, uma locução ou mesmo uma frase. Evite apenas que seja mais agradável e
longo, para que a linha não se quebre em duas.
menos pesado.

Parágrafos
Existem para indicar que uma idéia foi exposta e outra será iniciada dentro do mesmo assunto, é,
portanto, uma unidade de pensamento, e serve para facilitar a leitura. Não devem ser tão curtos nem
tão longos. Para um texto longo (acadêmico, por exemplo), os parágrafos devem conter de quatro a
oito linhas cheias de um texto digitado em papel A4. Para um texto curto (carta ou reflexão pastoral,
por exemplo), os parágrafos devem conter de quatro a cinco linhas cheias de um texto
digitado em papel A4. Interligue um ao outro de acordo com o roteiro, mas cuidado:
expressões de ligação devem ser usadas com
moderação. Evite usar uma em cada parágrafo
para estabelecer as conexões. Ao usar, varie as
_________________________________________ expressões para que não fiquem repetitivas.
Exemplos de expressões de ligação de frases e
_________________________________________ parágrafos: Portanto, Entretanto, Não obstante,
Nesse caso, Conforme mencionado anteriormente
_________________________________________
[acima], Conforme visto anteriormente [acima].
_________________________________________

_________________________________________ Frases
_________________________________________ Devem ter uma característica básica: clareza.
Para redigir com clareza, é preciso pensar com
_________________________________________ clareza, em seguida, colocar as idéias na ordem
direta, ou seja, na velha fórmula que sempre facilita
_________________________________________ a redação: sujeito + verbo + complemento. As
frases devem ser curtas. O ponto deve ser usado
_________________________________________
à vontade. Pontos encurtam frases. Facilitam a
_________________________________________ compreensão. Já as vírgulas não devem ser usadas
em excesso, pois provocam confusão e cansaço.
_________________________________________ Quando bem empregadas, contribuem para dar
clareza, precisão e elegância ao texto. Só se deve
_________________________________________ usar palavras necessárias, precisas, específicas,
_________________________________________ concisas, simples. Não se deve dizer nem mais
nem menos do que se quer dizer.
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www.metodista.br/ead
Conclusão
Funciona como fechamento do que foi dito
anteriormente. Como a Abertura, deve ter dois ou
três parágrafos em textos longos e um parágrafo
_________________________________________ em textos curtos.
_________________________________________
Providência imprescindível
_________________________________________
Para um texto estar bem apresentado, é
_________________________________________ preciso que quem redigiu faça uma leitura do que
produziu. Para isso recomenda-se uma leitura e
_________________________________________ três releituras ao final do trabalho: na primeira,
checam-se os conteúdos; na segunda, os erros
_________________________________________
de digitação e grafia; na terceira, eliminam-se
_________________________________________ as repetições; na quarta, corta-se tudo o que for
desnecessário.
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_________________________________________ Para redigir com clareza, é


preciso pensar com clareza.
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Referências
CÂMARA JR, J. Mattoso. Manual de Expressão Oral e Escrita. 17 ed. Petrópolis: Vozes, 1986.
MANUAL DE REDAÇÃO DA PRESI­DÊNCIA DA REPÚBLICA: http://www.planalto.gov.br/legisla.htm
NOVO MANUAL DA REDAÇÃO DA FOLHA DE S. PAULO: http://www1.folha.uol.com.br/folha/circulo/
manual_introducao.htm
NOSSA LÍNGUA PORTUGUESA: http://www2.uol.com.br/linguaportuguesa/

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Universidade Metodista de São Paulo
Comunicação na ação pastoral

Módulo

Comunicação
eficaz na
celebração
comunitária da fé
Profa. Magali do Nascimento Cunha

Objetivos:
Orientar os estudantes sobre princípios
e técnicas para uma comunicação
eficaz nos momentos de celebração
comunitária da fé (liturgias);
Introduzir elementos básicos para
a elaboração de uma liturgia e na
pregação da Palavra (sermão) em
momentos de celebração comunitária
da fé com ênfase na comunicação oral

Palavras-chave:
Liturgia,homilética, comunicação
verbal oral.

www.metodista.br/ead
Um dos espaços de maior atuação do pastor e da pastora, e de muitas lideranças leigas, são os
momentos de celebração comunitária da fé, na tradição católico-romana denominados “missas”, e
na tradição evangélica, denominados “cultos”. É um momento que exige, especialmente, uma boa
expressão oral, que, como já estudamos, não significa apenas falar corretamente, mas também
desenvolver eficazmente a comunicação do ponto de vista não-verbal.

Clareza do sentido

Banco de imagens
Para estudarmos técnicas de comunicação
nos momentos de celebração da fé, é preciso
primeiro termos clareza do sentido desses
momentos. O culto ou a missa para ser fiel à
tradição bíblica e teológica dos/as cristãos/ãs tem
de ser: (1) centralizado na presença de Deus; (2)
fundamentado na Palavra de Deus; (3) afirmação
da vida comunitária; (4) oportunidade de
experiência de renovação de vidas; (5) dinâmico
e participativo; (6) um convite à participação na
missão de Deus. Depois, é preciso ter clareza do
sentido do espaço do culto/da missa, o local de
reuniões regulares da comunidade para celebrar a
sua fé. Na tradição cristã, esse espaço é composto
de três elementos: (1) o altar (de onde atuam
os/as celebrantes) – espaço de orientação; (2) o Momentos de celebração comunitária da fé
atrium ou a nave (onde estão localizados/as os/as
participantes) – espaço de missão; (3) o decoro (a ornamentação/decoração) – espaço de beleza.
É preciso ter também clareza sobre o que se realiza no culto e na missa, e, com isso, recorrer ao
sentido do termo liturgia. Esta palavra vem do grego leiturgia que quer dizer “serviço”, “trabalho do
povo”. Na prática cristã, liturgia quer dizer o serviço que prestamos a Deus e ao próximo por meio de
palavras, gestos, símbolos e ritos. Por isso, liturgia é o serviço cúltico a Deus prestado pela comunidade
quando se reúne para celebrar a sua fé. É a liturgia que dá significado e coerência à reunião dos/
as fiéis. Na tradição cristã, a inspiração para os momentos litúrgicos vem do texto de Isaías 6 1-8:
adoração (v. 3-4); confissão (v. 5-7); louvor e ação de graças (pelo amor e pelo perdão e por todas as
bênçãos alcançadas); edificação (ênfase no caráter profético da comunidade; a Palavra); intercessão
(apresentação dos sofrimentos, das dores e das necessidades); envio (v. 8).

Um tema comunica bem


Para uma boa comunicação nos momentos de celebração da fé, é importante que se atribua
um sentido à liturgia (um tema), para que tudo o que for realizado aconteça em função dele. Os
cultos/as missas podem ser: regulares (as celebrações freqüentes, geralmente dominicais); especiais
(relacionados a datas do calendário cristão, como Páscoa, Natal, ou a momentos específicos de ações
de graças, como aniversários, bodas, ou de evangelismo). Na escolha do tema, portanto, deve-se
levar em conta essas características, que precisam nortear as leituras que serão feitas, as palavras
que serão pronunciadas e as canções que serão cantadas.

Linguagens
No culto/missa são várias as linguagens desenvolvidas. A linguagem falada é normalmente
trabalhada na direção/orientação da liturgia; na pregação da Palavra (sermão/homilia/meditação); na
realização dos rituais (eucaristia, batismos, outros); nas orações em voz audível; nas leituras bíblicas
e outras leituras audíveis; nos anúncios; nas comunicações diversas; nas palavras de saudação; nos
depoimentos e testemunhos. Utilizar as técnicas de expressão oral que estudamos é imprescindível
para uma boa comunicação nesses momentos.
34
Universidade Metodista de São Paulo
A linguagem visual é geralmente desenvolvida
em dois formatos: visual simbólica, por meio
das cores, dos ícones, dos objetos, dos gestos;
visual ilustrativa, por meio da decoração, dos
_________________________________________ audiovisuais, dos cartazes, das coreografias. O
espaço do culto/missa, como já mencionamos,
_________________________________________ tem um sentido, portanto, tem uma linguagem.
No altar fica a mesa fixa, podendo também ser
_________________________________________ móvel, destinada à celebração eucarística. É o
_________________________________________ espaço mais importante da comunidade de fé,
de onde atuam os celebrantes (pastores/padres/
_________________________________________ sacerdotes) e de onde se renova o sacrifício
redentor de Cristo. O que se coloca no altar
_________________________________________ representa, portanto, o que é mais importante
para a tradição de uma comunidade de fé.
_________________________________________
A localização dos objetos no altar também tem
_________________________________________ uma mensagem sobre como o grupo crê. Em
alguns templos, por exemplo, vamos encontrar
_________________________________________
o púlpito (espaço de onde se faz a pregação
_________________________________________ da Palavra) no centro do altar e a mesa da
eucaristia, atrás dele ou ao lado, o que significa
_________________________________________ que a pregação da Palavra é o mais importante
no momento celebrativo. Em outros, já vamos
encontrar a mesa no centro e o púlpito ao lado
dela ou mesmo fora do altar, o que indica que a eucaristia é o momento mais significativo para
a celebração da fé. Em algumas comunidades, podemos perceber a localização de instrumentos
musicais no altar ao lado da mesa da eucaristia e do púlpito, o que comunica que a música tem tanta
importância religiosa quanto a eucaristia e a pregação da palavra.
Vale ressaltar que a linguagem visual, mais do que as palavras, provoca sentimentos e motiva
atitudes. Estudos no campo da psicologia demonstram que uma pessoa memoriza: 10 a 15% do que
ouve; 30 a 35% do que vê; 50 a 60% do que ouve e vê ao mesmo tempo. Portanto, a utilização de
recursos visuais aliados aos orais contribuirá para uma comunicação mais eficaz no culto.
A linguagem musical aparece nos momentos de celebração da fé por meio da música instrumental
e da música cantada coletivamente ou por meio de apresentações. Para que a música comunique
bem, é preciso distribuir as canções pela liturgia, atribuindo-lhes sentido e coerência com cada
momento proposto.
Na liturgia, há também a linguagem do silêncio. É importante lembrarmos que o silêncio é forma
de comunicação de muitas culturas, inclusive a judaico-cristã. Nessa tradição, o silêncio existe para:
interiorizar o que se ouve ou a experiência vivida, valorizar a audição (ouvir), intensificar a expressão
(pausa, ruptura que chama a atenção para alguma coisa), simbolizar respeito. Ele pode acontecer: nos
atos de confissão/contrição; antes das orações comunitárias; depois de leituras bíblicas
e mensagens; depois da eucaristia.

Referências
ROMERO, Pedro. Comunicação e Vida Comunitária. São Paulo: Paulinas, 2002. (Col. Carisma
e Missão).
TEIXEIRA, Nereu de Castro. Comunicação na Liturgia. São Paulo: Paulinas, 2003.
VV.AA. Mosaico Apoio Pastoral São Bernardo do Campo: Editeo, Ano 12, n. 31. jun./ago. 2004.

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Universidade Metodista de São Paulo
Fundamentos de teologia e história

Módulo

O que é
Teologia?

Prof. Claudio de Oliveira Ribeiro

Objetivo:
Em nossas primeiras reflexões, a intenção
é dar uma idéia do surgimento e do
desenvolvimento da teologia, tratando-a
como uma estrutura e método de pensar a fé
cristã, buscando uma visão sistemática aberta
que articule as doutrinas bíblico-teológicas
fundamentais com a realidade. Para isso, serão
apresentados exemplos de teologia na Igreja.
O objetivo deste tema é apresentar, de modo
panorâmico, as principais formas do pensar
teológico, assim como as questões e conflitos
entre fé e razão que marcaram a história do
pensamento teológico.

Palavras-chave:
Método, teologia liberal,
fundamentalismo, neo-ortodoxia.

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Teologia e Bíblia
A teologia é um esforço humano, racional e metódico para se
compreender mais adequadamente o amor de Deus. Ela não é a
Palavra de Deus, mas, sim, uma tentativa sistemática de compreendê-
la melhor e, em sentido amplo, discernir a vontade de Deus para a
humanidade e para o mundo. A teologia se distingue da Bíblia. Esta, A teologia não é a
ainda que tenha se formado também a partir de reflexões sobre a fé, Palavra de Deus, mas,
é a fonte básica da teologia. Isso significa dizer que há outras fontes, sim, uma tentativa
como a história da igreja e a história da cultura e as ciências. sistemática de
compreendê-la melhor...
Teologia como ciência
Não obstante a natureza da teologia como conhecimento crítico, metódico e
sistemático da fé e como disciplina científica – especialmente em função de sua relação
com a filosofia e com as ciências humanas –, há forte tendência de se compreender
a teologia como linguagem e interpretação da vida humana e da sociedade. Tal perspectiva não
elimina o caráter científico da teologia, uma vez que o seu próprio surgimento e desen­volvimento,
desde o período bíblico, reve­lam-na como uma estrutura e método de pensar os conteúdos da fé
cristã. O caráter hermenêutico da teologia revela-se funda­mentalmente na concepção que a compre­
ende como um pensar que se faz e se modifica no tempo a partir de fontes mais permanentes. Nesse
sentido, articulam-se o rigor metodológico e científico, de um lado, e, por outro, uma certa liberdade
e intuição – não arbitrárias – que diferentes grupos possuem em suas avaliações crítico-religio­sas de
cada momento e circunstância histórica.

Teologia e pastoral
A teologia contemporânea defende a articulação entre teoria e prática. Uma teologia meramente
teórica, especulativa, fechada em sistemas formais, perde a sua relevância histórica. A teologia precisa ser
uma resposta às perguntas que surgem da realidade social e eclesial. Tal resposta, segundo
o teólogo Paul Tillich (1886-1965), necessita articular duas dimen­sões funda­mentais da
teologia: a kerigmática (no sentido de garantir o núcleo central da mensagem bíblica) e a
apologética (no sentido de “colocar em prática”; defender concre­
tamente a idéia). Também a teologia latino-americana, que se
A teologia precisa desenvolveu a partir dos anos de 1960, parte sempre da realidade,
procura refletir bíblica e teologicamente a partir dela e propor ações
ser uma resposta
concretas de transformação da socieda­de e da Igreja. Trata-se do
às perguntas que conhecido método ver-julgar-e-agir. Outras correntes teológicas
surgem da realidade como a teologia wesleyana de John Wesley (1703-1791), líder inicial
social e eclesial. do movimento metodista na Ingla­terra também se consti­tuem como
teologias essencialmente práticas.

Teologia e modernidade
No campo da experiência judaico-cristã, as tensões entre fé e razão estão presentes desde os
primórdios. Cada momento histórico expressou formas diferenciadas de tensão, mas foi, sobretudo, no
século 19, após os impactos do Racionalismo e do Iluminismo na civilização ocidental, que a teologia
precisou enfrentar mais deti­damente as questões relativas ao método científico. No referido século,
o liberalismo teológico de Schleiermacher (1768–1834), Ritschl (1822–1899), Harnach (1851–1930)
e outros, foi a expressão que mais fortemente demonstrou o interesse pela articulação entre fé e
ciência. Entre as ênfases da teologia liberal (ou liberalismo teológico) podem ser listadas: a busca de
aproximação entre teologia e ciências e entre fé e racionalidade moderna; visão antropológica positiva,
com forte expectativa em relação à educação como possibilidade de promoção humana; relativização
38
Universidade Metodista de São Paulo
das perspectivas cristocêntricas e eclesiocêntricas, com vistas à perspectiva universalistas e seculares;
abertura para as questões próprias da relação Igreja e sociedade, e a valorização do mundo como
espaço do Reino de Deus; valorização da exegese bíblica e uma conseqüente visão histórico-crítica
da Bíblia; aceitação dos valores culturais modernos; reforço das dimensões da individualidade e da
subje­tividade reduzindo a religião à esfera dos sentimentos; interpretação predomina­ntemente ética
do cristia­nismo, em especial, em relação ao dado salvífico.

O fundamentalismo
Como reação a essa perspectiva, consolida-se, no início do
século 20, o fundamentalismo, cujos pontos principais são: visão
religiosa contrária às perspectivas secularizadas e às interpretações Fora da Igreja
modernizantes da fé cristã; visão antropológica negativa, baseada na não há salvação
corruptibilidade humana resultante de um pecado inicial (original);
perspectivas cristocêntricas e eclesiocêntricas, base do exclusivismo
salvífico; combate às iniciativas socialistas e comunistas e às formas do
“Evangelho Social”; defesa da inerrância da Bíblia, com refutação aos
princípios básicos do contexto bíblico e da exegese; crítica a valores
da sociedade moderna que reforcem a autonomia, a secularização e
o pluralismo; visão histórica baseada no dispensacionalismo, que a
No campo da
partir da Bíblia compreende a história em etapas fixas e distintas, já
previstas e pré-determinadas; perspectiva de exclu­sivismo salvífico, experiência judaico-
em geral identificada com a adesão religiosa formal e institucional: cristã, as tensões
“Fora da Igreja não há salvação”. entre fé e razão estão
presentes desde os
A neo-ortodoxia teológica renciadas de tensão
Também em contraposição ao liberalismo, a conhecida neo-
ortodoxia teológica ou Teologia Dialética, de Barth (1886–1968),
Brunner (1889–1966) e Bonhoeffer (1906–1945) e outros, realçou, no século XX, outra
metodologia teológica. As ênfases dessa corrente revelam a inovação que a reflexão
teológica vivenciou. Entre elas destacam-se: o esforço em não aprisionar a reflexão
teológica aos limites da razão, destacando para isso os elementos da fé, da graça e do absoluto; a
visão antropológica negativa, baseada na corrupção humana resultante dos processos socioculturais;
um destaque para o caráter cristológico e eclesiológico da reflexão teológica cristã; avaliação teológica
permanente dos problemas sociais e políticos e as implicações deles para a fé cristã e para a Igreja;
defesa da centralidade da Bíblia na vida da Igreja e na reflexão teológica, considerando os avanços da
pesquisa e da exegese bíblica; crítica aos valores da sociedade a partir de uma correlação com a fé cristã;
distinção entre fé e religião, destacando a primeira como elemento fundamental da vida, que
chega ao ser humano como dádiva graciosa de Deus. Desde essa época, variadas correntes
teológicas e pensadores surgiram, cada qual com especificidades metodo­lógicas.

Referências
BARTH, Karl. O lugar da Teologia In: Introdução à teologia evangélica. São Leopoldo:
Sinodal, 1977.
LIBANIO, J. B. & MURAD, Afonso. Conceito de Teologia In: Introdução à teologia, perfil, enfoques
e tarefas. São Paulo: Loyola, 1996.
ROLDÁN, Alberto F. O que é teologia In: Para que serve a teologia? Método história pós-
modernidade. Curitiba-Londrina: Descoberta Editora, 2000.
TILICH Paul. Introdução. In: Teologia sistemática. São Paulo-São Leopoldo: Paulinas-
Sinodal, 1967.

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Universidade Metodista de São Paulo
Fundamentos de teologia e história

Módulo

Teologia latino-
americana:
história e métodos

Prof. Claudio de Oliveira Ribeiro

Objetivo:
O objetivo deste tema é
mostrar como o contexto
socioeconômico, político e
cultural da América Latina, na
segunda metade do século
20, marcou o surgi­mento e o
desenvolvimento de um novo
método teológico.

Palavras-chave:
Teologia da libertação, missão
integral, socialismo.

www.metodista.br/ead
O surgimento da teologia latino-americana da libertação
Aspectos do contexto socioeconômico e político (décadas de 1950 a 1970)
Como já referido, cada contexto exige a formulação de uma nova teologia. No caso da
teologia latino-americana, os pontos que se destacam no processo de sua elaboração
são: (1) o conflito ideológico do pós-guerra: a “guerra fria”; (2) a
disputa entre capitalismo e socialismo; (3) o impacto da revolução
socialista cubana (1959); (4) os processos de industrialização e de Golpes militares
urbanização na América Latina, com o crescimento da pobreza na America do Sul:
e da desigual­dade social no Continente; (5) a crítica ao modelo
desenvolvimentista e à constituição da teoria da dependência; (6) Brasil (1964),
as lutas políticas de libertação social e de contestação ao regime Uruguai (1973),
(1960-1970) e a força dos movimentos estudantis e sindicais; (7) Chile (1973),
a contes­tação aos golpes militares: Brasil (1964), Uruguai (1973), Argentina (1976)
Chile (1973), Argentina (1976); e (8) a influência dos movimentos
negros, feministas e contraculturais.

Aspectos do contexto eclesial (décadas de 1950 a 1970)


Relacionados com o contexto social, há no ambiente das igrejas vários acon­tecimentos que marcam
o início da teologia latino-americana.
No mundo evangélico, os mais destacados são: (1) o fortalecimento do movimento ecumênico
internacional, desde a formação do Conselho Mundial de Igrejas (CMI); (2) a discussão sobre a temática
da responsabilidade social da Igreja; (3) o desenvolvimento do ecumenismo na América Latina, em
especial com o trabalho de ISAL (Igreja e Sociedade na América Latina) e o da revista Cristianismo y
Sociedad; (4) os esforços da Confederação Evangélica Brasileira (CEB); (5) a realização da Conferência
do Nordeste (Recife-PE, 1962) com o tema: “Cristo e o processo revolucionário brasileiro”; (6) a dinâmica
dos movimentos de juventude (1950-1960) e a busca de uma fé inculturada; (7) a contribuição do
teólogo Richard Shaull (1919–2002).
No mundo católico-romano, igualmente, encontramos fatores que contribuíram para o surgimento
da teologia latino-americana. Entre vários, destacamos: (1) os movimentos bíblicos e de renovação
litúrgica, em vários continentes, desde os anos de 1950; (2) a realização do Concílio Vaticano II
(1962-1965) que, entre outros aspectos, possibilitou maior abertura da Igreja para a sociedade e
para o ecumenismo; (3) as propostas pastorais politizadas das ações católicas: as articulações da
juventude universitária, estudantil e operária (JUC, JEC, JOC); (4) a formação das Comunidades Eclesiais
de Base (CEBs); (5) a Conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín (Colômbia) (1968), que
procurou efetivar as mudanças da Igreja Católica indicadas no Concílio Vaticano II e destacou a opção
preferencial pelos pobres como ênfase pastoral; (6) o desenvolvimento das pastorais especializadas
(da Terra, Operária e outras).

O método teológico latino-americano


A novidade metodológica, o apelo de articulação entre teoria e prática, a expe­riência de leitura
da Bíblia por grupos populares, e uma sensibilidade especial pela realidade desumana e opressiva
vivida pelas populações empobrecidas geraram, na América Latina, entusiasmo e novas pers­pec­tivas
eclesiais e sociopolíticas a partir da década de 1960.
Entre diferentes análises, pelo menos cinco pontos podem caracterizar a teologia latino-americana
da libertação: (1) A práxis de libertação dos pobres e o compromisso evangélico de outros setores
sociais com eles. A consciência dessa práxis gera uma nova linguagem religiosa e teológica, fruto
da relação dialética entre práxis e teoria presente na metodologia desse novo pensar teológico.

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Universidade Metodista de São Paulo
(2) A necessidade de análise científica da realidade social com o recurso da teoria da
dependência e, posteriormente, com o que se denominou mediações socio­analíticas. (3)
A cons­ciência do condi­cionamento socioeconômico da teologia
e da Igreja e a crítica de ambos a partir da ótica da libertação
histórica dos pobres. (4) A perspectiva de a reflexão teológica estar O evangelicalismo
a serviço da transformação da sociedade, com indicações práticas surge no
e concretas de caminhos históricos de libertação sociopolítica.
contexto do
Nesse sentido, a Teologia da Libertação não se esgota no âmbito
acadêmico. (5) fundamentalismo,
sobretudo com
O lugar central da economia na reflexão teológica para,
entre outros aspectos, estabelecer uma crítica ao mes­sianismo a influência do
tecnologista, às relações entre capital e trabalho, e vislumbrar Congresso Mundial
alternativas de cunho socialista. de Evangelização
A “nova forma de ser Igreja” relacionada à Teologia da Libertação
está vinculada às possi­bilidades de transformação social e política e possui como uma das referências
centrais a busca por uma sociedade igualitária, participativa e firmada nos princípios bíblicos da
justiça social. Tal proposta representa, desde os primórdios, uma contraposição ao modelo econômico
capitalista, devido ao seu caráter excludente e concentrador de riquezas para grupos minoritários. Nesse
contexto, a Teologia da Libertação – de Gustavo Gutierrez, dos irmãos Clodovis e Leonardo Boff, José
Comblin, Miguez-Bonino, Júlio de Santa Ana, Elza Tamez e tantos outros – como elaboração teórica,
procura compre­ender a realidade por meio de mediações científicas, julgá-la mediante a tradição bíblica,
com destaque para o aspecto profético, e indicar uma nova inserção prática dos cristãos.

O movimento evangelical e a missão integral


Há outras expressões teológicas que não se auto-identificam como teologia da libertação, mas
que são consideradas como teologia latino-americana. A teologia evangelical é uma delas. As raízes
dessa visão teológica remontam à formação da Aliança Evan­gélica Mundial (1923), fruto das Alianças
Evangélicas nacionais do século 19. O evangelicalismo surge no contexto do fundamentalismo,
sobretudo com a influência do Congresso Mundial de Evangelização (Berlim, 1966), na liderança do
evangelismo de Billy Graham. Com a realização do Congresso Interna­cional de Evangelização Mundial
(Lausanne-Suíça, 1974), como o tema “Para que o mundo ouça a Sua (de Deus) Voz”, deu-se o Pacto
de Lausanne – uma reação ao conservadorismo fundamentalista, tendo em vista maior abertura às
questões sociais. Os teólogos latino-americanos de destaque desse proces­so foram: Rene Padilla,
Samuel Escobar, Orlando Costas.
A teologia evangelical se desenvolveu a partir dos Congressos Latino-Americanos de Evangelização
(I – Bogotá-Colômbia, 1969. II – Huampani-Peru, 1979. III – Quito-Equador, 1992. IV – Quito-Equador,
2000), com papel de destaque para a Fraternidade Teológica Latino-Americana. Outras insti­tui­ções
brasileiras afins são: FTL-B, ABU (Aliança Bíblica Universitária), Vinde, Visão Mundial, Associação
Evangélica Brasileira (AevB), Revista Ultimato. Entre os líderes brasileiros ligados ao movimento
evangelical, podemos destacar: Valdir Steuernagel, Robinson Cavalcanti, Ricardo Barbosa, Ricardo
Gondim, Caio Fábio, Darcy Du­silek, Paul Freston (inglês).
Para Valdir Steuernagel, a Missão Integral, base da teologia evangelical, “quer expressar duas
coisas básicas:
• O compro­misso de todo o Conselho de Deus. Na missão não se deveria fazer da Bíblia
um picadinho, onde e quando se trabalha com a Bíblia com um critério de seleção
limitante. A Bíblia quer e precisa ser considerada na sua totalidade.
• A missão da igreja leva em conta a pessoa na sua totalidade, bem como o contexto
no qual a pessoa vive. A missão veste a roupa da encarnação”.

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www.metodista.br/ead
Referências
BOFF, Clodovis. Fundamentos In: Teoria do método teológico. São Paulo: Cesep-Vozes, 1998.
(versão didática).
RIBEIRO, Cláudio de O. A teologia da libertação morreu? Revista Eclesiástica Brasileira, s.l., 63
(250) abr. 2003.

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Universidade Metodista de São Paulo
Fundamentos de teologia e história

Módulo

História do
cristianismo e as
origens cristãs

Prof. José Carlos de Souza

Objetivos:
Identificar os pressupostos, a
metodologia e as principais tarefas de
uma história do cristianismo;
Analisar as origens, a formação e
o desenvolvimento das primeiras
comunidades cristãs no contexto das
sociedades palestinenses e greco-
romanas.

Palavras-chave:
História, movimento de Jesus,
cristianismo judaico, cristianismo
gentílico.

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Cristianismo e história
Não há dúvidas de que, como escreveu Marc Bloch, “o cristianismo é uma religião de historiadores”
a fé não se fundamenta em narrativas legendárias ocorridas em esferas distantes do convívio humano.
Antes, o contrário! Os acontecimentos relatados nas Escrituras judaicas e cristãs estão inseridos na
trama de encontros e desencontros, de alianças e conflitos, de acordos de paz e tempos de guerra,
que constituem o cotidiano das sociedades humanas. Daí a preocupação constante em registrar os
eventos, buscando discernir o seu sentido de acordo com o que se supunha ser a vontade divina.

Eusébio de Cesaréia
Apesar da importância dada à história pelas comunidades

Imagem 2
cristãs, somente no século IV, apareceu uma obra intitulada
História Eclesiástica, isto é, da Igreja, escrita pelo então bispo de
Cesaréia, Eusébio (c. 263-339). É claro que o seu empenho teve
precedentes, como por exemplo, o livro de Atos dos Apóstolos
no Novo Testamento. Porém, o que distingue a obra de Eusébio
de todas as iniciativas anteriores é a sua visão abrangente, o seu
respeito pelas fontes, isto é, pelos documentos que cita abundan­
temente, e o seu esforço por acompanhar o padrão rigoroso dos
historiadores gregos, mas sem deixar de lado a racionalidade
teológica cristã. Muito do que sabemos sobre os três primeiros
Eusébio de Cesaréia
séculos do cristianismo devemos a ele. Talvez, com algumas
alterações, o propósito que estabeleceu nos primeiros parágrafos de sua obra pudesse ainda hoje ser
aceito, se não totalmente, ao menos em parte (cf. HE, I, 1, 1-2). De fato, o seu estilo, o seu programa,
e mesmo as suas conclusões, têm encontrado, ao longo do tempo, muitos seguidores. Portanto, não
é causal que Eusébio de Cesaréia seja lembrado como “pai” da história da Igreja e que muitos autores
falem até mesmo da existência de uma tradição eusebiana nos estudos da história do cristianismo.
Contudo, não podemos silenciar as críticas que lhe são feitas.

Tradição crítico-profética
Eusébio reflete o momento vivido pelos cristãos no século IV quando o Império Romano deixa de
perseguir e passa a favorecer progressivamente a Igreja. Assim, ele estrutura a sua exposição acerca
do passado cristão a partir da aliança que surge entre o Estado e a igreja e, por isso, privilegia os que
estão no poder. A sua visão está centralizada na Igreja como instituição, identificada principalmente
com os seus líderes, cuja mera sucessão garante a fidelidade à doutrina dos apóstolos. Judeus, gentios
e hereges, isto é, todos que não se ajustam à grande igreja que está se formando, são considerados
inimigos. Os leigos, as mulheres, os pobres, e todas as pessoas que ousam protestar, são ofuscados
pelo brilho das “grandes personalidades”, sejam bispos ou teólogos. Entretanto, sempre houve
correntes que não aceitaram essa interpretação e procuraram
reviver a memória radical de Jesus, que acolheu aqueles que a
sociedade de seu tempo marginalizou e excluiu.

Não há neutralidade!
Logo se vê que fazer história, inclusive história do cristianismo,
O cristianismo é uma
não é uma tarefa neutra. As nossas opções, os nossos compromissos, religião de historiadores
o nosso lugar social sempre interferem na maneira como Marc Bloch
interpretamos os acontecimentos. Hoje há uma expressiva
tendência de romper com a tradição eusebiana, ressaltando
a Igreja como comunidade, composta por homens e mulheres

46
Universidade Metodista de São Paulo
comuns; chamando a atenção para todo o povo, e não apenas para sua liderança; reconhecendo
que, desde as suas origens, o cristianismo é um fenômeno plural e, conseqüentemente, recusando
estabelecer um padrão normativo entre as diferenças; situando a presença cristã no contexto social,
ao qual influencia e do qual recebe influências; enfim, destacando menos as grandes construções
dogmáticas e mais a vivência cristã no enfrentamento das questões do dia-a-dia (trabalho, lazer,
sexo, família, educação, justiça, relação com o mundo da cultura e da política). Nada disto substitui,
é verdade, o rigor do método; e todo aquele que examina a história do movimento cristão não pode
ceder à sua imaginação em detrimento da análise apurada dos documentos que lhe dão acesso, de
alguma forma, aos fatos sob investigação. Por sua vez, é preciso ter consciência de que suas escolhas
no presente e seus projetos para o futuro condicionam a leitura que faz do passado. Não é isso que
torna o estudo da história tão intrigante quanto fascinante?

O movimento de Jesus
Já é hora de perguntarmos sobre as origens
cristãs. A resposta é simples e complexa ao
mesmo tempo. Simples, porque remete à figura _________________________________________
histórica de Jesus de Nazaré, o qual, supõe-se,
é bem conhecido por nós. Complexa, porque _________________________________________
tudo o que sabemos dele procede quase que
exclusivamente dos evangelhos canônicos, ou seja, _________________________________________
do círculo de seguidores direta e pessoalmente
_________________________________________
comprometidos com sua mensagem. As fontes
extrabíblicas, como Flávio Josefo e Fílon de _________________________________________
Alexandria, importantes para se conhecer o
seu meio social, são de pouca ajuda quando _________________________________________
se buscam informações sobre sua trajetória.
_________________________________________
O mesmo se pode dizer das fontes romanas.
É difícil até mesmo estabelecer com precisão _________________________________________
uma cronologia, considerando que o chamado
“calendário cristão” que assinalou o nascimento _________________________________________
de Cristo como marco zero só foi proposto no
século VI e, com certeza, não sem equívocos. De _________________________________________
todo modo, há certo consenso em reconhecer
_________________________________________
que Jesus iniciou o seu ministério após a prisão de
João, o Batista, a quem a literatura cristã considera _________________________________________
como seu precursor. Estima-se que Jesus tivesse
cerca de 30 anos quando recebeu o batismo e deu _________________________________________
início à carreira de pregador itinerante e profeta.
_________________________________________
De acordo com os primeiros evangelhos, a vida
pública de Jesus teria durado pouco mais de um _________________________________________
ano. Já para João, ela se estendeu por três anos,
pelo menos. No centro de sua pregação, estava o _________________________________________
anúncio do reino de Deus, que incluía uma radical
transformação da ordem social vigente. É certo _________________________________________
que Jesus evitou os caminhos oficiais. Boa parte
_________________________________________
de sua vida transcorreu na conflitiva região da
Galiléia, onde as esperanças messiânicas eram tão _________________________________________
intensas quanto a exploração social e a pobreza.
Não tardou para que a identificação de Jesus com _________________________________________
os impuros, os pobres, as mulheres e as crianças,
_________________________________________
aliada às suas duras críticas aos dirigentes (cf. Mt

47
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23), despertasse a fúria da elite política e religiosa,
que ardilosamente tramou a sua morte. A sua
crucificação dispersou os seus discípulos que,
no entanto, renascem fortalecidos anunciando
a sua ressurreição como prova de que ele era o É difícil até mesmo estabelecer
Messias esperado. A partir daí, tem-se a formação com precisão uma cronologia,
das primeiras comunidades cristãs, a difusão considerando que o chamado
da pregação nos limites do Império Romano e
além dele, e o início do processo, que segue até
“calendário cristão” que assinalou
os nossos dias, buscando responder à pergunta o nascimento de Cristo como
“quem foi mesmo Jesus, chamado o Cristo?”. marco zero só foi proposto no
século VI
Nascimento da Igreja
São poucas as informações sobre as primeiras
comunidades. Nossas únicas fontes são
praticamente Atos dos Apóstolos e Eusébio de
Cesaréia. Há indicações de que a comunidade de Referências de imagens
Jerusalém cresceu rapidamente, incluindo tanto Imagem 2: http://upload.wikimedia.org/
os judeus da diáspora, quanto naturais da Galiléia wikipedia/pt/6/66/Eusebio.jpg.
e da Judéia. O nome “igreja” foi logo adotado, Acesso em 12’Jun’06.
e expressa a convicção de que os discípulos
constituíam o verdadeiro Israel. No entanto, até
esse momento os seguidores de Cristo eram vistos como mais um partido judaico ao lado de outros,
como os saduceus e fariseus. A perseguição levou à dispersão da primeira comunidade e ao anúncio
da pregação do Evangelho, não só além dos seus limites geográficos iniciais, mas para populações não
alcançadas pelo judaísmo. Sem dúvida, a passagem do contexto judaico palestinense para o helenista
urbano foi um passo decisivo para a história do cristianismo. Ao aderir à fé cristã, o apóstolo Paulo
contribuiu decisivamente para que as tendências universalistas fossem vitoriosas sobre as correntes
judaizantes. Com as revoltas judaicas dos anos 70 e 135, o cristianismo judaico entrou em ocaso e
basicamente apenas o cristianismo gentílico sobreviveu. Em todo o caso, a relevância dessa primeira
expressão da fé cristã se torna evidente quando se pondera que ela se tornou fonte e manancial de
onde brotam o ensino e a prática que ainda hoje orientam as igrejas.

Referências
CESARÉIA, Eusébio de. História Eclesiástica. São Paulo: Paulus, 2000.
GONZÁLEZ, Justo L. A Nova Geografia da História. In: Wesley para a América Latina Hoje. São
Bernardo do Campo: Editeo, 2003, p. 93-104.
HOORNAERT, Eduardo. O Movimento de Jesus. Petrópolis: Vozes, 1994.
SIMON, M.; Benoit, A. Judaísmo e cristianismo antigo. São Paulo: Pioneira- Edusp, 1987.

48
Universidade Metodista de São Paulo
Fundamentos de teologia e história

Módulo

O catolicismo
antigo

Prof. José Carlos de Souza

Objetivos:
Distinguir os principais desafios
externos e internos enfrentados pelas
comunidades cristãs até o início do
século IV;
Avaliar o processo de mudanças
então ocorridas no sentido da
institucionalização do movimento cristão.

Palavras-chave:
Perseguição, apologistas, gnosticismo,
catolicismo antigo, cânon, credo, bispos.

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Ambiente hostil
No final do primeiro século, já havia comu­nidades cristãs
espalhadas por quase todo o Império, em particular na província
da Ásia. Porém, as relações dos cristãos com a sociedade ao seu As relações dos
redor eram tensas, manifestando-se, muitas vezes, sob a forma de cristãos com a
violenta perseguição. sociedade ao seu
Muitos boatos populares distorcendo o sentido de práticas redor eram tensas
cristãs legítimas alimentavam o ódio nutrido pelo público em
geral. Atenágoras, em sua veemente Petição a favor dos cristãos,
faz uma síntese desses rumores: “São três as acusações que se propagam contra nós: o ateísmo, os
convites de Tiestes, e as uniões edípicas”. Em outras palavras, os cristãos eram considerados ateus,
pois não participavam das cerimônias religiosas nas cidades e recusavam os seus deuses; canibais,
pois, numa refeição sacramental, comiam a carne e bebiam o sangue do seu Senhor, o que, segundo a
imaginação de quem não era cristão, implicava um ritual macabro em que crianças eram sacrificadas;
e incestuosos, pois se reuniam à noite para orgias e bebedeiras, e assim davam plena vazão a paixões
descon­troladas entre “irmãos” e “irmãs”. Com certeza, o simples conhecimento da vida exemplar dos
cristãos seria suficiente para desfazer essas falsas impressões.

Crítica dos intelectuais


Já os questionamentos dos sábios e políticos não eram tão
fáceis de serem desfeitos. Alguns, como o filósofo platônico
Os questionamentos Celso, escreveram obras bem fundamen­tadas contra as principais
dos sábios e políticos doutrinas cristãs. Tais críticos, usualmente partilhavam do
desprezo disseminado contra o cristianismo que descreviam como
não eram tão fáceis de
“superstição nova e maléfica”; censuravam, ainda, o que lhes parecia
serem desfeitos ser arrogância e fanatismo; e tinham os cristãos como inimigos da
cultura e do Estado. Seus ensinamentos, cheios de contradições,
seriam imitações grosseiras da, sem dúvida mais antiga e bem
fundamen­tada, sabedoria egípcia e grega.

Perseguições
O pior de tudo é que tais opiniões justificavam as perseguições movidas pelo Estado. A essa
altura, é preciso desfazer um equívoco muito comum: supor que as comunidades cristãs foram
implacavel­mente caçadas pelas autoridades romanas em toda a extensão do Império e durante todo
tempo até o seu reconhecimento como religião lícita no ano de 313. Na verdade, a intensidade, a
extensão, as motivações e as formas da perseguição se diversificaram conforme as circunstâncias,
além do que se alternaram com prolongados períodos de paz. A perseguição de Nero, no ano 64,
por exemplo, esteve limitada à cidade de Roma. No final do primeiro século, com Domiciano, entre
as vítimas estavam não apenas os cristãos de Roma, mas também as comuni­dades da Ásia Menor,
como testemunha o livro do Apocalipse. Já no segundo século, prevaleceu a política definida na
corres­pondência entre Plínio, o Jovem, governador da Bitínia, e o Imperador Trajano: ser cristão é
crime punível com a pena da morte, porém o processo só é instaurado mediante acusa­ção. Em sua
apologia, Tertuliano denunciou a incoerência dessa decisão: “Oh sentença necessariamente confusa!
Nega-se a buscá-los como a inocentes; e manda castigá-los, como culpados”. Apenas com Décio,
em meados do século terceiro, e com Diocle­ciano, no início do quarto, a perseguição alcança todos
os limites do Império.
50
Universidade Metodista de São Paulo
Mártires
É impossível precisar o número de mártires. Pensou-se em
200 mil, embora hoje há quem considere que 10 mil é ainda uma
estimativa elevada. Em todo o caso, a memória cristã conserva O que faz o mártir
muitos nomes de homens e mulheres, como Inácio de An­tioquia,
Policarpo de Esmirna, Justino, Blandina, Perpétua e Felicidade, entre
não é a pena, mas
outros, que selaram com sangue o seu testemunho de fé. Aqui a causa!
vale a máxima de Santo Agostinho: “O que faz o mártir não é a Santo Agostinho
pena, mas a causa!”E a causa, naquela época, era o estilo de vida
inspirado pelo evangelho, de solidariedade e justiça, de comunhão
e oposição às forças que semea­vam a morte e a destruição.

Apologistas
Nesse contexto, era urgente que os cristãos
oferecessem respostas à altura dos seus críticos. _________________________________________
Estava em jogo a própria sobrevivência das
_________________________________________
comunidades. À tarefa de defender e apresentar
a fé cristã ao público pagão, dedicaram-se os _________________________________________
autores cristãos conhecidos como apologistas.
Entre os gregos se destacam Aristides e _________________________________________
Atenágoras, ambos de Atenas, Taciano, o Sírio,
Hermas, Teófilo, o autor da Carta a Diogneto _________________________________________
e, sobretudo, Justino Mártir e Orígenes de _________________________________________
Alexandria; entre os latinos, Tertuliano e Minúcio
Felix. É certo que os apologistas não conseguiram _________________________________________
mudar a opinião pública, porém reforçaram a
convicção dos cristãos acerca da nobreza da sua _________________________________________
causa. Ademais, o seu empenho em dialogar com
_________________________________________
a cultura helênica e expor a fé para os “pagãos”,
fazendo uso de conceitos filosóficos, favoreceu _________________________________________
o desenvolvimento da teologia.
_________________________________________

Movimentos gnósticos _________________________________________


Entretanto, o maior desafio enfrentado pelos _________________________________________
cristãos não vinha de fora, mas nascia dentro das
próprias comunidades. Enquanto a ameaça externa _________________________________________
fortalecia os laços de coesão e solidariedade, a
_________________________________________
ameaça interna dividia as opiniões e espalhava
a cizânia entre seus membros. Referimo-nos às _________________________________________
várias formas de gnosticismo, que assimilavam
elementos de diversas tradições religiosas e _________________________________________
filosóficas, integrando-as ao cristianismo. O
recém-encontrado Evangelho de Judas provém _________________________________________
desses círculos. A expressão vem do grego gnosis
_________________________________________
e significa conhecimento. Trata-se do conheci­
mento místico, sobrenatural, revelado apenas _________________________________________
para um pequeno grupo de eleitos e que diz
respeito à salvação da alma aprisionada nesse _________________________________________
mundo inferior. Aliás, no geral, os gnósticos
51
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sustentavam um dualismo radical que encarava
com desdém a realidade material e o corpo,
e exaltava as coisas espirituais. Jesus, como
mensageiro do Deus Supremo, distinto do
demiurgo que criou este universo mau, era um _________________________________________
ser espiritual, sendo o seu corpo apenas aparente.
Muitos gnósticos se orgulhavam de possuir os _________________________________________
segredos revelados por este ou aquele apóstolo.
Marcião, por exemplo, rejeitou o Antigo e formou, _________________________________________
o que poderíamos considerar, o primeiro Novo _________________________________________
Testamento, composto por dez cartas de Paulo e
pelo evangelho de Lucas truncado (ele eliminou _________________________________________
o relato do nascimento de Cristo e as referências
ao Antigo Testamento). A situação requeria ações _________________________________________
determinadas das comunidades.
_________________________________________

_________________________________________
A resposta das Igrejas
Vários pensadores cristãos se mobilizaram para _________________________________________
contestar os pregadores gnósticos, com destaque
_________________________________________
para Irineu (c. 135-203) e Tertuliano (c. 155-220).
Nesse embate, as comunidades cristãs acabaram _________________________________________
assumin­do formas mais institucionalizadas e
menos espontâneas, definindo padrões de _________________________________________
crença, de culto e de organização mais rígidos.
_________________________________________
Como escreveu o historiador alemão Heussi: “Por
volta do ano 50, pertencia à igreja quem tivesse _________________________________________
recebido o batismo e o Espírito Santo e atribuísse
a Jesus o nome de Senhor. Já por volta de 180, _________________________________________
membro da igreja era aquele que aceitasse a
regra de fé (credo), o cânon do Novo Testamento _________________________________________
e a autoridade dos bispos” (WALKER. 1967, v. 1,
_________________________________________
p. 88). Foi Inácio de Antioquia quem usou pela
primei­ra vez, em sua Carta aos Esmirnenses _________________________________________
(8.2), a expressão “Igreja Católica”, ou Universal,
em oposição aos inúmeros grupos gnósticos _________________________________________
espalhados pelo Império. E, de fato, o catolicismo
_________________________________________
antigo corresponde exatamente a esse período
de comunidades mais bem estruturadas. O tempo _________________________________________
dos apóstolos já havia passado definitivamente!

Referências
Bettenson, H. Documentos da Igreja Cristã. São Paulo: Aste-Simpósio, 1998.
Hoornaert, Eduardo. A memória do povo cristão. Uma História da Igreja nos três primeiros
séculos. Petrópolis: Vozes, 1986.
Walker, W. História da Igreja Cristã. São Paulo: Aste, 1967, v. 1.

52
Universidade Metodista de São Paulo
Fundamentos de Teologia e história

Módulo

Cristianismo
e Estado
imperial

Prof. José Carlos de Souza

Objetivos:
Discernir qual o sentido das
mudanças em processo no
movimento cristão durante o século
quarto, quando se estabeleceu a
aliança entre Igreja e Estado;
Investigar como os arranjos sociais
e políticos afetaram a vida e a
missão da Igreja nos séculos IV e V.

Palavras-chave:
Era constantiniana, aliança entre
Igreja e Estado, donatismo,
movimento monástico, concílios
ecumênicos, doutores da Igreja.

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Era constantiniana
Nada teve efeitos tão duradouros na história do movimento
cristão quanto a ascensão de Constantino ao poder. Após sua vitória
na Ponte Múlvia, supostamente com a bênção do Deus cristão, ele
...após derrotar o se apressou em assinar, em 313, junto com Licínio, que governava
seu rival e assumir a parte oriental do Império, o famoso Edito de Milão, assegurando
o controle total do a todos os súditos, inclusive os cristãos, a plena liberdade de culto.
Estado, Constantino Finalmente, após derrotar o seu rival e assumir o controle total do
Estado, Constantino passou a favorecer gradualmente os cristãos.
passou a favorecer Pela primeira vez desde a sua origem, a Igreja, equiparada às
gradualmente os demais religiões do Império, foi reconhecida como corporação de
cristãos. direito público, com os bispos gozando de um status similar ao dos
senadores. O clero obtém privilégios e isenções. As propriedades,
confiscadas durante a última perseguição, são restituídas e se
constroem, com recursos públicos, novos edifícios consagrados para o culto, as assim chamadas basílicas.
Tornou-se comum o emprego de símbolos cristãos nos selos e nas moedas romanas. O dia de culto dos
cristãos logo é declarado dia de descanso. Pouco a pouco, aprova-se uma legislação que inibe práticas
pagãs, como a magia e a consulta às entranhas de animais. O prestígio social da Igreja organizada não
pára de crescer, sepultando totalmente o seu passado de minoria odiada e perseguida.

Mudanças internas
Não apenas as condições exteriores da Igreja se modificaram, como tiveram um forte impacto,
tanto sobre as práticas quanto sobre a própria consciência das comunidades cristãs. O
grande número de pessoas que afluíam às igrejas, seja por conversão real ou por adesão
interessada, atenuou as exigências e o tempo da catequese, gerando uma vivência
cristã superficial que convivia pacificamente com resquícios da
religiosidade mágica pré-cristã. A ordem interna da Igreja também
Os bispos não são mais se estabiliza imitando o modelo imperial. O clero, diferencia-se e se
vistos como ministros, distancia dos leigos por suas vestimentas, pela pompa e tratamento
isto é, servidores, e sim, que recebem, e, sobretudo, pela concepção de poder sacerdotal
como dignitários que que justifica sua autoridade. Os bispos não são mais vistos como
ministros, isto é, servidores, e sim, como dignitários que devem
devem ser honrados e ser honrados e obedecidos. Impõe-se igualmente uma estrita
obedecidos hierarquia com os bispos das grandes metrópoles subjugando as
sés menores. Tudo isso se reflete no culto que assimila a influência
do protocolo da corte, com a introdução de procissão, coros e
veneração das relíquias dos mártires.

Legitimação do Estado
Sendo a Igreja favorecida dessa forma pelo poder do Estado, é compreensível que não poucos
cristãos o vissem como expressão da providência divina. Eusébio de Cesaréia chega a saudar
Constantino como amigo de Deus e uma espécie de novo Moisés (HE, X, 9, 2), porém nada fala acerca
de sua conduta reprovável do ponto de vista da ética cristã, como a condenação à morte de sua
esposa, filho mais velho e outros familiares. Convém lembrar que Constantino só recebeu o batismo
em 337, pouco antes de sua morte. De todo jeito, a aliança que vai se construindo entre Igreja e
Estado subtrai da mensagem cristã a sua virtude profética e a leva a legitimar incondicionalmente
o exercício do poder. Por outro lado, torna a Igreja refém do Estado que sempre interfere em seus
assuntos internos, quando julga que seus interesses estão envolvidos. A propósito, é interessante
verificar como o imaginário cristão passa a representar, em função dessa aliança, a figura de Cristo.

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Universidade Metodista de São Paulo
As imagens do rabi da Galiléia, ou do profeta messiânico, ou ainda do servo sofredor, desaparecem
por completo e cedem lugar à do Rei universal que, soberano, dirige todas as coisas. Obviamente,
essas mudanças não ocorreram da noite para o dia, nem sem tensões. Aliás, o processo, iniciado
por Constantino, atingiu o seu ápice com Teodósio, que reconheceu, em 380, o cristianismo como
religião oficial do Império. Doravante, a oposição à Igreja se transforma em crime contra o Estado.
Assim, de perseguidos, os cristãos passam a ser perseguidores, inclusive daqueles que, professando
a mesma fé em Cristo, não se submetem às novas condições.

Protestos
A resistência se fez tanto de forma aberta como velada. Entre os primeiros estão os donatistas
que, logo após a subida de Constantino ao poder, protestam, no Norte da África, contra
a ordenação de bispos considerados traditores, isto é, que fraquejaram durante a última
onda de perseguição. Para eles, os sacramentos
celebrados por tais ministros, considerados
indignos, não eram considerados válidos. Logo
identificado com as aspirações das populações _________________________________________
locais, exploradas pelas classes latinizadas, o
donatismo vai dirigir a sua crítica ao consórcio _________________________________________
espúrio entre a Igreja e as forças imperiais. Entre
os que se opõem indiretamente a essa aliança _________________________________________
está o movimento monástico, que surge ainda no
_________________________________________
final do terceiro século. Numa época em que a
grande maioria dos cristãos se deixa seduzir pela _________________________________________
ambição das riquezas, do prestígio e do poder,
os monges apregoam uma vida de pobreza e _________________________________________
simplicidade, em comunidades ou em lugares
_________________________________________
ermos como os desertos ou as montanhas,
onde a dependência da graça divina é sua única _________________________________________
segurança. Sem posicionar-se frontalmente
contra o sistema, essa era uma forma alternativa _________________________________________
de viver as exigências do evangelho naqueles
tempos conturbados. _________________________________________

_________________________________________

_________________________________________
Imagem 3

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Concílio de Nicéia

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Efervescência teológica
Esse período, marcado pelas grandes controvérsias teológicas em torno da doutrina trinitária e
da cristologia, também foi palco dos primeiros concílios ecumênicos. Era a primeira vez que bispos
de diferentes partes do mundo, reuniam-se para debater assuntos que afligiam as igrejas. O primeiro
Concílio, convocado por Constantino, aconteceu em Nicéia, em 325, e rejeitou as idéias de um Ário, um
presbítero da igreja em Alexandria que negava a divindade de Cristo. O Concílio de Constantinopla,
em 381, reafirmou a fé na Trindade, sustentando igualmente que o Espírito é Deus. Os Concílios de
Éfeso, em 431, e de Calcedônia, em 451, definiram que, em Cristo, havia duas naturezas unidas numa
só pessoa, sendo ele, portanto, plenamente Deus e plenamente humano. Infelizmente, nem sempre
o consenso era alcançado e a ambigüidade da linguagem filosófica empregada deixava margem
para novos conflitos que sedimentaram as divisões.

Doutores da Igreja
Provavelmente em função de tantos desafios, mudanças e debates, floresceu uma geração de
escritores cristãos que marcaram decisivamente os rumos do cristianismo tanto no Oriente como no
Ocidente e que foram honrados como o título de doutores. Na impossibilidade de fazer uma lista
completa, apenas mencionamos, entre os orientais, Efrém, o Sírio (306-373); entre os gregos, Atanásio
(295-373), João Crisóstomo (354-407), Basílio de Cesaréia (330-379), Gregório de Nissa (335-394) e
Gregório de Nazianzo (330-390); e, entre os latinos, Ambrósio de Milão (333-397), Jerônimo (347-
420), Agostinho (354-430) e Gregório Magno (540-604). Sem a contribuição deles, o cristianismo
não seria o que é!

Referências de imagens
Iimagem 3: http://upload.wikimedia.org/
wikipedia/commons/3/31/Nicaea_icon.jpg.
Acesso em 21’Jun’06.

Referências
COMBY, Jean. Para Ler a História da Igreja I Das origens ao século XV. São Paulo: Loyola, 2001.
DREHER Martin N. A igreja no império romano. São Leopoldo: Sinodal, 1993. (Col. História
da Igreja, v. 1).
GONZÁLEZ, Justo L. A era dos gigantes. São Paulo: Vida Nova, 1980. ( Col. E até aos Confins da
Terra: Uma História Ilustrada do Cristianismo, v. 2).
PIERINI, Franco. A idade antiga. São Paulo: Paulus, 1998. (Col. Curso de História da Igreja I).

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Fundamentos de teologia e história

Módulo

A cristandade
medieval

Prof. José Carlos de Souza

Objetivos:
Traçar um panorama geral dos
principais fatos e elementos que
caracterizam o movimento cristão no
período medieval;
Indicar como o desenvolvimento
institucional da cristandade medieval
e a discussão teológica se desenrolam
entre muitos conflitos.

Palavras-chave:
Povos germânicos, islamismo,
cruzadas, papado, cristandade,
monasticismo, escolástica.

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Um período intermediário?
Em nossa última etapa, vamos abordar o que se convencionou
chamar de Idade Média. É um largo período, praticamente dez
séculos, que separam, conforme a visão tradicional, a Antiguidade Os bispos não são mais
e a Renascença. É usual fixar seus limites entre os anos de 476, vistos como ministros,
quando Odoacro invade Roma e põe fim ao Império Romano no
Ocidente, e de 1453, quando os turcos otomanos conquistam
isto é, servidores, e sim,
Constantinopla decretando o ocaso do Império Bizantino. Contudo, como dignitários que
não há consenso quanto a tal proposta. Não apenas estes marcos devem ser honrados e
cronológicos são debatidos, mas o próprio conceito de Idade obedecidos
Média é questionado. De fato, quando os humanistas do século
XVI forjaram esse conceito, deram-lhe uma conotação fortemente
negativa. A época medieval seria apenas um hiato entre duas etapas realmente essenciais,
a Antiguidade greco-romana e a era moderna. Hoje não se admite mais um juízo tão
categórico quanto este. Realmente, muito do que constitui a civilização européia e a
cultura no Ocidente encontra suas raízes na Idade Média e, ademais, um milênio de história está
carregado de altos e baixos, de esplendor e de crises, e não comporta, em hipótese alguma, qualquer
generalização. Também por essa razão, os parágrafos a seguir pretendem apenas destacar alguns
aspectos que devem ser aprofundados em nosso estudo.

Uma nova geografia


Talvez o primeiro fato que chama a atenção, nesse novo período, é a alteração de nossas referências
geográficas. Se nas primeiras etapas da história do movimento cristão, deslocávamos, principalmente,
pela Costa do Mediterrâneo – Norte da África, Oriente Médio, Ásia Menor, Sul da Europa – agora, o
foco está situado, sobretudo, no Norte e no Oeste da Europa. Não apenas a Península Itálica, mas
a região hoje ocupada pela Espanha, França, Grã-Bretanha e Alemanha compõem o novo cenário.
Duas ondas de acontecimentos explicam essa mudança.

Os povos germânicos
Imagem 4

Em primeiro lugar, está a expansão dos povos


germânicos – vândalos, visigodos, ostrogodos e
francos, entre outros – rompendo as fronteiras
da Europa e Norte da África, impondo o final
do domínio do Império Romano no Ocidente e
isolando-o da parte oriental. Muitos supunham
que a decadência do antigo modo de vida
comprometesse também a vitalidade da Igreja,
mas o que ocorreu foi justamente o contrário. Aos
poucos, os povos germânicos que, anteriormente
haviam sido evangelizados pelos arianos, aderem
à fé católica e a Igreja, como portadora da cultura
e civilização antigas; desempenha um significativo
papel como educadora dos povos. Por sua vez,
Imperio Bizantino. a desarticulação do poder político abre espaço
para que bispos e outras autoridades eclesiásticas
ocupem o vazio deixado pela ausência da administração pública. No caos que se estabelece, com as
freqüentes batalhas e os deslocamentos populacionais, a Igreja é a instituição mais bem organizada,
senão a única. Mais tarde, por ocasião do avanço de normandos, escandinavos e húngaros, a Igreja
responderá com a mesma determinação aos novos desafios.

58
Universidade Metodista de São Paulo
Surgimento do Islamismo
Em segundo lugar, situa-se o nascimento, as conquistas políticas e a difusão da religião muçulmana.
O profeta Mohamed (570-632), apregoando o mais absoluto monoteísmo, unifica as tribos árabes
e dá origem à última das grandes religiões mundiais. Após a sua morte, vários califas ampliam o
domínio árabe em direção tanto ao Oriente quanto ao Ocidente. Egito, Síria, Pérsia, mas também
todo o Norte da África e a Península Ibérica – domínios onde, antes, prevalecia a presença cristã
–, submetem-se aos novos senhores. O isolamento do antigo Império Romano no Oriente agora é
completo, culminando com a separação definitiva das Igrejas Ocidental e Oriental no ano 1054. Na
Europa, o avanço do Islã só não é maior porque é contido pelos francos em 732, na batalha de Poitiers.
Aliás, boa parte da história medieval registra os encontros e desencontros entre os dois mundos,
cristão e muçulmano. Disto fazem parte as lutas pela reconquista da Península Ibérica, que chegam
ao seu termo somente em 1492, quando Granada, o último reduto ocupado pelos muçulmanos, é
retomada; e as cruzadas que, a partir de 1095, procuram, em vão, retomar o controle da denominada
Terra Santa. No geral, as suas conseqüências foram desastrosas.

O papado
Outro aspecto significativo que diferencia a Igreja Antiga da
Medieval é a centralidade do papado. Se, no catolicismo antigo e Outro aspecto
na Igreja imperial, conforme foram analisados anteriormente, os
significativo que
bispos eram figuras fundamentais, na Idade Média, a instituição
do papado é incontestável. Inúmeros fatores explicam esse diferencia a Igreja
desdobramento, porém, é mais importante observar como a Antiga da Medieval
autoridade do papa foi sendo gradualmente admitida no Ocidente é a centralidade do
(no Oriente, o Patriarca de Constantinopla não só jamais aceitou a papado.
sua interferência, como também reivindicou, para si próprio, uma
jurisdição universal). De qualquer modo, foi apenas no século
V, com a crise política e administrativa gerada pelo avanço dos germânicos, que amadureceram
as condições para o aparecimento do papado. Nesse sentido, o título de primeiro papa deve ser
atribuído a Leão Magno, que esteve à frente da Igreja nos anos 440-461, embora nem sempre os
seus sucessores atingissem o mesmo desempenho. Independentemente disso, a história medieval
está marcada pelos conflitos entre os poderes políticos e os papas, cujas pretensões parecem não
ter medida. O auge da influência papal se alcançou no pontificado de Inocêncio III (1198-1216) que
afirmou: “Do mesmo modo que a lua recebe sua luz do sol, assim também o poder real recebe da
autoridade pontifical o esplendor de sua dignidade”. A história subseqüente, no entanto,
mostra uma instituição progressivamente desgastada pelo surgimento dos estados
nacionais, pela ascensão do espírito leigo, pelo chamado Cativeiro Babilônico da Igreja,
quando o papado, submetido à coroa francesa, foi transferido para
Avignon (1309-1377), pelo Grande Cisma (1378-1417), quando
Do mesmo modo que dois e até três papas reclamavam o primado na direção da Igreja,
a lua recebe sua luz enfim, pelas críticas que circulavam por toda a sociedade. Essa
do sol, assim também decadência já prenunciava o final de uma época.
o poder real recebe da
autoridade pontifical
Cristandade
o esplendor de sua
A importância da instituição eclesiástica e do papado nesse
dignidade
período corresponde ao que muitos autores denominam com
Inocêncio III o termo cristandade, o qual descreve um modo de relação de
intensa cooperação e aliança entre sociedade, Estado e Igreja.
A religião modela todas as instituições e sanciona as relações
sociais, recebendo, em troca, benefícios e proteção das autoridades

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A vida religiosa e o ideal monástico estão
presentes durante todo o tempo e em toda a
parte, adaptando-se às condições em mudança
constante, como comprova o florescimento das
_________________________________________ ordens mendicantes dos franciscanos (1209) e
dos dominicanos (1216). Mesmo a contestação
_________________________________________ contra o sistema social assume a forma religiosa,
com destaque para os valdenses e os cátaros
_________________________________________ no século XII, violentamente reprimidos pela
_________________________________________ Inquisição.

_________________________________________
Escolástica
_________________________________________
Por último, é preciso assinalar o desenvolvimento
_________________________________________ extraordinário da discussão teológica especialmente
vinculada às escolas e às universidades, sobretudo a
_________________________________________ partir do século XIII. A introdução da argumentação
filosófica, em particular das idéias de Aristóteles,
_________________________________________ trouxe precisão e revolucionou o modo de se
fazer teologia, ainda que a maioria dos teólogos
_________________________________________
pretendesse apenas sistematizar a herança
_________________________________________ recebida do passado. As obras de pensadores
como Santo Anselmo, Pedro Abelardo, Pedro
_________________________________________ Lombardo, São Boaventura, Alexandre Magno,
Tomás de Aquino, Duns Scotus e William de
_________________________________________
Ockham, têm sido publicadas e o seu estudo, ainda
_________________________________________ hoje, é considerado indispensável.

_________________________________________

_________________________________________

_________________________________________

_________________________________________ Referências de imagens


_________________________________________ Imagem 4: http://www.lib.utexas.edu/maps/
historical/shepherd/byzantine_empire_1265.
_________________________________________ jpg. Acesso em 18’Jun’06.

_________________________________________

Referências
DREHER, Martin N. A Igreja no mundo medieval. São Leopoldo: Sinodal, 1994. (Col. História
da Igreja v. 2)
IRVIN, Dale T. ; Sunquist, Scott W. História do movimento cristão mundial. São Paulo: Paulus,
2004. (Volume I: do cristianismo primitivo a 1453)
PIERINI, Franco. A idade média. São Paulo: Paulus, 1997. (Col. Curso de História da Igreja II).
VAUCHEZ, André. A Espiritualidade na idade média ocidental (Séculos VIII a XIII). Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.

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Universidade Metodista de São Paulo
Literatura e Contexto Histórico
do Antigo Testamento

Módulo

O Pentateuco

Prof. Tércio Machado Siqueira

Objetivos:
Os livros do Pentateuco não devem ser lidos
como um documento histórico, mas como um
testemunho da ação de Deus na história.
O Pentateuco deve ser lido à luz do credo
de fé do povo de Deus (Dt 26,5b-9; conforme
6,20-23). A narrativa do êxodo é a matriz de todo
testemunho para o mundo.

Palavras-chave:
Pentateuco; família; libertação;
Javé e ensino (Torá).

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O nome
O Pentateuco é um conjunto literário formado de pequenas histórias. Ao contrário da História
Deuteronomista (Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis) que contém longas redações (1Sm 16,1 a
2Sm 5,25). As micro-estruturas, ou pequenas histórias, são próprias da casa, isto é, do período em
que Israel vivia no ambiente pastoril.
O nome Pentateuco é grego. Pentateuco é formado por duas palavras: penta, cinco + teucos,
instrumento, estojo. Daí, o nome Pentateuco significa a caixa onde se costumava guardar os papiros
ou pergaminho dos cinco livros. Mais tarde, teucos passou significar livros.
A forma literária.
É fácil fazer um esboço da primeira parte da Bíblia. Ela começa com a história primeira do
mundo (Gn 1 – 11) e segue com as histórias dos Patriarcas (Gn 12 – 50). Eis a estrutura dos livros do
Pentateuco:

A. A primeira história - capítulos 1 a 11


1. As narrativas da Criação 1,1 a 2,25
2. O surgimento do pecado 3,1 a 4,26
3. A genealogia: de Adão a Noé 5,1-32
4. A corrupção da humanidade 6,1 a 9,28
5. A tábua das nações 10,1-32
6. A Torre de Babel 11,1-9
7. A genealogia de Noé a Abraão 11,10-32.

B. A história Patriarcal - capítulos 12-50


1. As histórias de Abraão 12 a 25
a) A emigração 12 a 14
b) A aliança 15 a 20
c) O nascimento dos filhos 21 a 24
d) A morte de Abraão 25
2. As histórias de Jacó-Esaú 25 a 36
a) O direito de progenitura 25 a 28
b) Jacó na casa de Labão 29 a 31
c) O encontro dos irmãos 32 a 36
3. As histórias de José 37 a 50

O livro de Gênesis discorre sobre a Criação e o projeto de Deus para estabelecer ordem no mundo.
Para tanto, Deus privilegia a família como instrumento da ordem. As gerações passam e a maldade,
entre os seres humanos, diversifica. O historiador bíblico narra que os filhos de Abraão se encontram
no Egito, oprimidos sob o comando de Faraó. Lá, eles eram chamado de hebreus (Ex 1,15; 2,6; 3,8).
Portanto, o livro de Gênesis, na estrutura do Pentateuco, parece ser um prólogo à história de Moisés
e do êxodo.

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Universidade Metodista de São Paulo
O historiador, agora no livro de Êxodo, relata que, em meio do sofrimento, a mão libertadora de
Deus alcança os seus filhos e filhas.

A. Do Egito ao Sinai Ex 1,1 a Nm 10,10


1. Viagem para o Sinai Ex 1 a 18
2. Eventos do Sinai Ex 19 a Nm 10,10
B. Do Sinai a Moab Nm 10,11 a Dt 34,12
1. Viagem para Moab Nm 10,11 a 36,13
2 Eventos nas planícies de Moab Dt 1,1 a 34,12.

A maneira como que os hebreus foram libertos da escravidão tranformou-se no testemunho


mais eloquente da história do AT, somente comparado ao episódio da ressurreição de Jesus, no NT.
Os relatos contidos nos livros de Êxodo a Deuteronômio reafirmam a força libertadora do Deus dos
hebreus, através da figura de Moisés.
Observando a estrutura acima, vamos notar que, no percurso entre o Egito e as cercanias de
Canaã, há duas etapas: do Egito ao Sinai (Ex 1,1 – Nm 10,10) e do Sinai até Moab (Nm 10,11 – Dt
34,12). Dessas duas etapas, a passagem pelo Sinai é a mais significativa para a história, a teologia e
a liturgia bíblica.
A forma canônica do Pentateuco apresenta esta primeira parte da Bíblia em duas formas de
linguagem: Os gêneros literários narrativo e legal. O primeiro concentra-se no livro de Gênesis e o
segundo prevalece nos livros Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
O livro de Gênesis cobre um espaço de tempo que vai da Criação até a morte de José. Isso
corresponde a 25% do total de textos do Pentateuco. Gênesis tem sua história resumida na
genealogia.
Os livros Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio têm como referência a vida de Moisés. A
história de Moisés cobre o tempo de 120 anos e ocupa um espaço de 75% dos textos do Pentateuco.
Enquanto as histórias da Criação e dos Patriarcas são narradas em 50 capítulos (Gênesis), a história
de Moisés (de Êxodo a Deuteronômio) ocupa 137 capítulos.

O Pentateuco e a história
Pouco se pode afirmar sobre a história de Abraão, fora da Bíblia. Sabe-se, porém, que ele fez parte
das imigrações que ocorreram entre 2000 e1700 aC, vindos da Mesopotâmia para a Síria e Canaã.
O livro de Gênesis relata que ele se ficou no sul de Canaã, na periferia das terras férteis e cultivadas
onde viviam os pastores, tal como a Bíblia relata.
A índole do ser humano é encontrar a veracidade histórica para as narrativa bíblicas. Por mais que
as descobertas arqueológicas possam trazer provas documentais, dois detalhes têm que ser ditos: (1)
A fonte mais importante, sobre a veracidade das narrativas do AT, continuam ser os textos bíblicos,
embora estes escritos, não necessariamente, podem ser tomados como documentos históricos; (2)
É preciso que o/a estudante da Bíblia a leiam, não como um documento histórico, mas, acima de
tudo, como testemunho da ação de Deus.
Para entender este ponto é preciso compreender que o processo de surgimento do texto bíblico,
especialmente do Pentateuco, aconteceu através da transmissão oral. No processo de contar, recontar
e escrever uma dada história, ela perde alguns detalhes mecânicos e ganha o elemento da fé. Assim,
o texto bíblico contem mais declaração de fé do que a reprodução factual de um acontecimento.
Por exemplo, a forma como o Pentateuco apresenta a figura de Moisés está mais próximo de uma
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proclamação de fé, do que a preocupação com a história científica. Eis aí o grande mistério da
verdade bíblica.
Como o livro de Gênesis é uma espécie de introdução à história de Moisés, o livro de
Deuteronômio é a conclusão dessa história e a introdução aos livros históricos: Josué, Juízes, 1
e 2 Samuel e 1 e 2 Reis.

Bibliografia
Schwantes , Milton. História de Israel. v. 1: Local e origens. São Leopoldo: Oikos Editora,
2008.
______________. A família de Sara e Abraão: Texto e contexto de Gênesis 12-25. São Leopoldo:
Editora Sinodal, 1986.

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Universidade Metodista de São Paulo
Literatura e Contexto Histórico do
Antigo Testamento

Módulo

Israel chega à Canaã

Prof. Tércio Machado Siqueira

Objetivos:
O deserto é fértil: No deserto, o povo
olham para cima e vêem o sol; olham para os
lados e vêem areia quente. Se ele
não acreditar em Deus, ele morre.
A aprendizagem do deserto preparou o
povo para os desafios da vida em Canaã.

Palavras-chave:
Deserto; Instrução (Torá); terra; juiz e rei.

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Com o livro de Deuteronômio encerra a primeira fase da história do povo israelita. Com o livro
de Josué inicia uma nova fase na história do povo de Deus. Essa primeira fase é caracterizada pelo
semi-nomadismo da vida pastoril, na periferia das terras férteis de Canaã, da opressão egípcia e
no aprendizado do deserto, especialmente no Sinai.
A história bíblica descreve que os escravos hebreus e seus descendentes caminharam 40 anos,
do Egito à Canaã (Ex 16,35; Nm 14,33). A data precisa da chegada de Israel não é possível consta-
tar. Todavia, é possível prever que foi um tempo muito significativo para o Antigo Oriente Médio
(AOM) e, consequentemente, para a teologia bíblica.
O Historiador Deuteronomista – compilador e redator dos livros Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel e
1 e 2 Reis – resumiu o início da história dos israelitas, em Canaã, em três partes.
O primeiro período foi a conquista da terra. O longo preparo no deserto não se referia à guerra
de conquista, mas ao testemunho ético. O povo israelita

Momento novo na história de Canaã.


A chegada dos escravos israelitas, em Canaã, ocorreu no período num período de grandes trans-
formações. Até então, o território de Canaã vivia sob o sistema de cidades-estados. Os cananitas
viviam sob o domínio dos senhores donos de amplas propriedades. Todavia, o povo israelita chegava
com um novo conceito de vida societária que viria revolucionar as práticas sociais daquela época.

O AOM e, particularmente, Canaã recebia os primeiros resultados do descobrimento


da liga do ferro. Na agricultura, aconteceu uma verdadeira revolução com o uso da
enxada, do facão e do arado. Ao mesmo tempo, as batalhas entre os povos se tornaram
mais violentas, com as lanças, couraças entre outros instrumentos.
Os instrumentos de ferro possibilitaram, também, a abertura de cisternas nas mon-
tanhas, local, até então, inabitado pelos cananeus. A abertura de poços possibilitou a
retenção de água da chuva por vários meses. Consequentemente, os hebreus, recem
chegados, puderam habitar as montanhas, hoje chamadas de Cisjordânia.
Estas duas ocorrências fazem parte da história do AOM. Todavia, a teologia as toma como
um testemunho da ação de Deus. Os livros de Josué e Juízes descrevem, cada um ao modo, os
primeiros anos da história dos hebreus em Canaã.
O povo de Israel foi, pouco a pouco, assumindo um novo estilo de vida: jeito de vestir e ali-
mentar, adaptação à cultura cananita, incluindo o novo jeito de morar. O trabalho pastoril, semi-
nômade, foi lentamente perdendo força para a prática agrícola e sedentária. Pouco a pouco, a vida
agrícola se tornou o meio de vida mais comum entre os israelitas, conforme o livro de Rute e as
proclamações proféticas do 8º. século aC. Contudo, sendo pastor ou agricultor, o povo manteve a
família como organização básica de sua sociedade.
Não levou muito tempo e os problemas foram surgindo. A nova geração de israelita, que não
participou das experiências da caminhada pelo deserto, encarou o problema da identidade de fé.
O livro de Josué descreve parte desse problema (Js 24, 1-15). Isso mostra que a vida sedentária
trouxe muitos problemas para israelitas. As tentações do lucro proporcionado pela produção das
terras férteis, a carência de uma liderança central e as atrações da religião dos cananeus foram
contribuindo para que a identidade social e religiosa fosse perdendo sua forma original. A frase
“Os israelitas fizeram o que é mau aos olhos de Javé. Esqueceram Javé seu Deus para servir aos
baalins e às aserás” é repetida, pelo menos seis vezes, no livro de Juízes. Esta observação, do autor
do livro de Juízes, representa uma crítica profética sobre o futuro do povo de Israel.
A conquista de Canaã e o novo projeto político.

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Universidade Metodista de São Paulo
Martin Noth, em sua pesquisa (O Deuteronomista, Revista Bíblica Brasileira, Ano 10, 1093, no.
1-2, Fortaleza), propôs a tese que os livros Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis constituem uma
obra histórica compilada, no período exílico, por um grupo residente em Canaã. A constatação
desse grupo de historiadores é percebida pelo registro encontrado em 2 Reis 25,27-30. Martin
Noth deu, a essa obra, o nome de Obra Historiográfica Deuteronomista.
Na verdade, a Obra Historiográfica Deuteronomista (OHD) não deve ser vista, simplesmente,
como uma história, propriamente data. Ela é uma história crítica e profética. Por exemplo, a OHD
valoriza o ensino (da Torá) e, consequentemente, a disciplina; exalta a fidelidade a Deus e condena
a idolatria; ela não incentiva o ódio racial aos cananeus, mas age severamente contra aquele que
pratica injustiça. Para os redatores da OHD, a terra é um dom de Deus para todas as famílias e a
luta pela terra é reponsabilidade das famílias, e não de exércitos profissionais. Daí, o conceito de
Guerra Santa (conforme o Cântico de Débora - Jz 5).
O livro de Juízes descreve a luta do povo bíblico pela sobrevivência sob a ameaça interna e
externa. O relato dessa batalha revela a forma ideal proposta pela Bíblia para construir uma nova
sociedade. O testemunho de Nabote é típico para retratar o projeto divino (1Rs 21,1-3).

Do juiz para o rei.


Não se sabe exatamente quando os israelitas chegaram à Canaã, mas é possível supôr que eles
chegaram por volta do ano 1200 aC. Em Canaã, o povo desbravou as montanhas. Lá, eles viveram
sob o regime tribalista. Somente por volta do ano 1030 aC que surgiu o primeiro rei de Israel.
O surgimento do regime monárquico, em Israel, deveu-se a três fatores: (a) O enfraquecimento
do regime dos juízes (1Sm 8,1-6); (b) Necessidade de um comandante de guerra (1Sm 8,20); e (c)
A comparação com as nações vizinhas (1Sm 8, 5.20). Observando toda a história bíblica, pode-
mos concluir que estes três argumentos são tímidos. Na verdade, o Historiador Deuteronomista,
conforme 1Sm 8,10-17, descreve três inconvenientes, usando a expressão “Ele tomará... (v.11. 13
e 14). Aqui, ele critica o sistema monárquico, argumentando que ele acumula riqueza, espoliar e
empobrece o povo. Ao mesmo tempo, o historiador afirma que que o reinado fortalece a idolatria
(1Sm 10,19; 12,6-8). Essa foi uma das razões do chamado de Elias (1Rs 17,1 – 22,54). Em resumo,
o historiador levanta uma questão inquietante: “Não há rei sem idolatria”.
A OHD oferece aos seus leitores e leitoras uma visão completa do reinado em Israel. Dessa visão
passamos entender que o reinado constitui-se uma ruptura na história do povo de Israel. Ainda
que o historiador tenha alguma simpatia por alguns reis (Davi, Josias, entre outros), ele mostra-se
negativo para com a maioria.
A história da monarquia, em Israel, começa com a escolha de Saul, um rei sem palácio e sem
coroa (1030 aC). Em 1010 aC, Davi assume o governo, depois de cortejá-lo durante o reinado de
Saul (1Sm 16 a 2Sm 5 – História da ascensão de Davi). Em 970 aC, Salomão assume o trono em
Jerusalém. A OHD descreve seu período de governo de maneira negativa. Com a morte de Salomão
(931 aC) concretizou-se o que era uma ameaça: A divisão do Reino de Israel. A partir daí, Israel
passou a ter dois reinos: Reino do Norte ou Israel e Reino do Sul, ou Judá.

Bibliografia
Schwantes, Milton. Breve história de Israel. São Paulo: Paulinas, 2006.
_________. Breve história de Israel. São Leopoldo: Oikos Editora, 2008.

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Universidade Metodista de São Paulo
Literatura e Contexto Histórico
do Antigo Testamento

Módulo

O período profético
em Israel

Prof. Tércio Machado Siqueira

Objetivos:
O projeto do povo de Deus sofreu a pri-
meira decepção com os reis. Os profetas falam
e criticam em nome de Deus.
Apesar do revés, o povo de Deus nunca
perdeu a esperança de construir uma
sociedade justa e feliz: surge o movimento
messiânico.

Palavras-chave:
Profeta; Elias; Ungido; Messias;
Reforma e Assíria.

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A atuação profética está intensamente entrelaçada com a história de Israel. As propostas pro-
féticas não dizem respeito à reformas jurídicas ou à discussões doutrinárias, mas suas atuações
estão diretamente ligadas com a história de suas épocas. Competentes na interpretação da Torá,
a instrução divina, eles leram e analisaram atentamente a vida do povo comum e de seus líderes
políticos e religiosos. Enfim, os profetas foram intérpretes da história.

Os profetas pré-literários
Inicialmente, é preciso dizer que no tempo dos patriarcas não se falava em profetas. Somente
no período da monarquia o termo “profeta” foi usado com frequência. Isso nos leva a dizer que
os profetas e os reis foram contemporâneos.
No período de transição da época dos juízes para a monarquia, no início do reinado de Saul,
os historiadores utilizam o termo “profetas”, no plural (Ism 10; 18). A figura do profeta não é muito
antiga, em Israel, só aparecendo nos dias de Samuel e Saul. Nesse período, os profetas atuavam
em grupos.
Só vamos reconhecer o profeta, com características israelitas, nos dias de Davi. É Natan, do seu
marido Urias (2Sm 12,1-12). Daí para frente, a história bíblica destaca Aías de Silo que se opôs ao
rei Salomão e à idolatria de Jeroboão (1Rs 11,29-40; 14,1-20). Também. O historiador menciona o
profeta Jeú que atuou e contesteou o rei Baasa,
no Reino do Norte (1Rs 16,1).
Somente nos dias da dinastia de Amri, ou
Omri, no século IX aC, que a figura de um pro- _________________________________________
feta tornou-se uma figura notável, com Elias e
Eliseu. Muitos detalhes tornam a profecia de Elias _________________________________________
como importante para a história bíblica. Primei-
_________________________________________
ro, a história colhida pela Obra Historiográfica
Deuteronomista (OHD) apresenta elementos da _________________________________________
história de Moisés. Segundo, a atuação de Elias
revela algumas novidades não encontradas nas _________________________________________
pessoas, até então conhecidas como “profetas”
(1Rs 17,1 – 22,54). _________________________________________

Se de um lado, esta história mostra as ca- _________________________________________


racterísticas dos profetas de Israel, do outro, o
rei Acab revela a personalidade da maioria dos _________________________________________
monarcas de Israel e Judá. Como no governo _________________________________________
de Acab o grande injustiçado foi Nabote (1Rs
21,1-3), nos outros reinados, certamente, o _________________________________________
grande prejudicado era o povo pobre e traba-
lhador. Em todas as ocasiões, os profetas tiveram _________________________________________
uma atuação corajosa e exemplar em defesa do
_________________________________________
povo pobre e fiel.a Javé. A história de Elias nos
leva a concluir que os profetas exigem ser lidos _________________________________________
e interpretados em uma ótica política. A trilha
deixada por Elias fez com que os profetas literá- _________________________________________
rios de Issrael fossem marcados pelas seguintes
características: A defesa dos pobres; Oposição à _________________________________________
idolatria patrocinada pela Estado; Demonstração _________________________________________
de zelo pelo culto a Javé; Crítica ao templo de
Jerusalém e Ausência de discurso genérico e _________________________________________
doutrinários.

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Universidade Metodista de São Paulo
Resumindo: A cronologia dos profetas pré-literários
“Profetas estáticos”, nos dias de Saul (1Sm 10); Natan, nos dias de Davi (2Sm 7,1-17; 12,1-12);
Aías de Silo, no reinado de Salomão (1Rs 11,29-40: 14,1-20); “Um homem de Deus vindo de Judá”
(1Rs 13,12-14); Jeú, no reinado de Baasa (1Rs 16,1); Elias, no reinado de Acab (1Rs 17,1-2R 2,18);
Eliseu, no reinado de Jorão e Jeú (2Rs 2,19-13,21). Da atuação desses primeiros profetas, desta-
camos algumas características: (a) Estes profetas são conhecidos como pré-literários; (b) Dentre
todos, o que mais se destacou foram Elias e Eliseu; (c) A maioria deles tem origem no Reino do
Norte; (d) Suas atuações levam-nos crer que eles herdaram a tradição dos juízes libertadores; (e)
O que move esses profetas é a crítica aos reis em defesa dos pobres e a denúncia da idolatria
promovida pelo Estado.

Profetas literários
A história de Israel é marcada pela atuação dos profetas. A partir do século VIII, suas ações
foram registradas nos pergaminhos. A presença desses documentos escritos assinala um avanço na
transmissão das pregações proféticas, especialmente. Até então, as proclamações eram guardadas
na memória e transmitidas oralmente.

Profetas do século VIII aC.

O século VIII aC foi de grande importância para a história do povo bíblico. Acomodados, os reinos
de Israel e de Judá viviam em função do bem-estar da classe dominante. O AT não faz referência
à presença de um profeta que pudesse adverti-los do perigo, ainda oculto, da Mesopotâmia.
Na virada do século IX para o VIII, o grande e perigoso inimigo, a Assíria, estava preparando-se
para as suas expansões por todo AOM. O período bom e tranquilo de Israel foi quebrado pelas
pregações Amós, Oséias, Isaías e, poucos anos depois, Miquéias. Foram estes profetas que tiveram
um olhar bastanto crítico e perceberam o perigo mortal que vinha com a expansão assíria. Os
profetas, então, procuram admoentando os governantes e os religiosos para a responsabilidade
de agirem em defesa da população pobre, mas, contudo, fiéis a Deus.
A profecia de Israel chega, nesse período, ao seu auge intelectual e religioso. Apesar dessa
pregação estar baseada nas raízes mais profundas da fé javista, os líderes políticos e religiosos não
reconheceram a legitimidade de suas advertências. Duas diferentes ameaças trouxeram terríveis
dificuldades para o povo de Deus: A primeira ameaça veio da coligação Siro-efraimita, buscando
apoio para se defender contra a invasão assíria, em 732 aC. A segunda ameaça foi mais ampla,
tendo como sujeito a Assíria, em 701 aC.
O comandante assírio, Tiglate-Pileser III, invadiu o território de Canaã e destruiu a região onde
se localizava o Reino do Norte, em 722 aC. Anos mais tarde, depois do Reino de Judá, negar o pa-
gamento de tributo, os assírios cercam Jerusalém. A invasão não ocorreu em virtude do pagamento
de tributo (2Rs 16,8). Nesse tempo de desesperança, Isaías e Miquéias pontuam que a esperança
não está mais na dinastia de Davi, mas na figura de um Ungido, o Messias.
Judá e Jerusalém escaparam da submissão total aos assírios, e sua população de uma deportação
como ocorreu às tribos do Reino do Norte. A aniquilação do Norte proporcionou um fato especial
na história do povo bíblico. Judá passou a representar todo Israel e as tradições do Norte de Israel
foram acolhidas e agregadas em Judá. Assim, tradições do Norte foram assumidas, compiladas e,
muitas vezes, atualizadas para o contexto do povo de Judá.
Resumindo, a cronologia dos profetas do século VIII aC é a seguinte: Amós e Oséias profeti-
saram, entre 745 a 722 aC, no Reino do Norte. Enquanto isso, os profetas Isaías, em Jerusalém,

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www.metodista.br/ead
e Miquéias, no interior de Judá, atuaram entre 740 a 700 aC. Os dois últimos foram os grandes
proclamadores da esperança messiânica.

Os profetas do século VII aC.

O Reino de Judá escapou da destruição, mas continuou submisso ao domínio dos assírios.
O rei Acaz ofereceu-se como vassalo, e permitiu que, no templo de Jerusalém, construísse um
altar, segundo o modelo assírio. Com isso, Javé ganhou a posição de um deus secundário. Eze-
quias, filho de Acaz, continuou a política pró-assíria do pai. Após dominar Jerusalém, os assírios
dedicaram-se à conquista do Egito. Em 671 aC, os assírios formaram um dos maiores impérios da
história, naturalmente, com a ajuda do rei Manassés (2Rs 21,1-18). Surpreendentemente, poucos
anos após, a Assíria entrou em decadência. Assim, em 640 aC, o Povo da Terra encontra-se livre
para escolher o seu segundo mais famoso rei, Josias (2Rs 21,24). A ascensão ao trono do menino
Josias resgata e reacende muitas antigas tradições do povo, e o menino rei, acessorado pelo Povo
da Terra, empreende um grande reforma com base no livro de Deuteronônomio, supostamente
encontrado durante a fachina no templo de Jerusalém (2Rs 22,3-10).
Resumindo, a cronologia dos profetas do século VII é a seguinte: Sofonias atuou no reinado de
Josias (640-609 aC); Naum, atuou no final do reinado de Josias. Os profetas Habacuque e Jeremias
participaram do final do período da Reforma de Josias. Porém, Jeremias dedica mais tempo de seu
livro antes, durante e após a destruição de Jerusalém.

Bibliografia
Schwantes, Milton. A terra não pode suportar suas palavras: Reflexão e estudo sobre
Amós. São Paulo: Paulinas, 2004.
Siqueira, Tércio Machado; Santos, Suely Xavier dos. O Messianismo: Desde o AT até Jesus
Cristo. São Paulo: Editora Cedro, 2008.

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Universidade Metodista de São Paulo
Literatura e Contexto Histórico
do Antigo Testamento

Módulo

O período
pós-exílico

Prof. Tércio Machado Siqueira

Objetivos:
Apesar da destruição de Jerusalém e exílio dos
líderes do povo, a mão de Deus e a
esperança do povo se fizeram presente nos
anos mais críticos do povo bíblico.
A história bíblica faz descobrir novas
formas de Deus agir e falar: Os profetas
silenciam-se e o movimento apocalíptico
preocupando-se com todos os povos da terra.

Palavras-chave:
Babilônia; exílio babilônico; reconstrução
do Templo; Esdras e Apocalípse

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O movimento reformista, sob a liderança do rei Josias, foi rápido como um relâmpago na noite,
mas deixou elementos positivos. O Império Assírio foi derrotado pelo Império Babilônico, em 612
aC, deixando um vazio de liderança na região de Canaã. O Egito acordou momentaneamente,
reacendendo sua esperança de domínio sobre Judá. Depois de assassinar o rei Josias e desinstalar
o rei Joacaz (609 aC), os egípcios seduzem as autoridades políticas e religiosas de Jerusalém, por
apoio à sua política. O interesse dos egípcios provoca a reação do profeta Jeremias. Ele dedica boa
parte de suas pregações sobre esse tema.
Tentando evitar uma catástrofe maior, especialmente, sobre o povo camponês do interior,
Jeremias prefere que os reis – Joaquim (609-597 aC), Joaquin (597 aC) e Sedecias (597-587 aC) –
façam acordos e submetam-se aos babilônios, e não estabeleçam aliança com o Egito. Tudo em
vão, pois a liderança do povo, em Jerusalém, insistia desafiar o poder babilônico. Reafirmando o
seu poderio, Nabucodonozor, comandante do exército dos babilônios, exilou parte da população
israelita e destruiu Jerusalém, em 587 aC.
Na Babilônia, os exilados israelitas tiveram grandes dificuldades, no início, conforme relatos de
Ezequiel e, principalmente, do profeta anônimo, por nós denominado Dêutero Isaías (Is 40-55).
O vigor político e guerreiro da Babilônia não foi muito longe. Em 539 aC, Ciro, comandante
da Pérsia, outro povo localizado na Mesopotâmia, derrotou a já fragilizada Babilônia, e assumiu o
controle político do Antigo Oriente Médio (AOM). Em 537 aC, Ciro assina um edito libertando os
israelitas no exílio (Esd 1,2-4). Apesar do Profeta Anônimo atribuir-lhe o título de messias (Is 44,28;
45,1-4), o retorno dos exilados não foi tão concorrido. O primeiro grupo de “retornantes” não
realizou as obras necessárias (Ag 1,1-11). Somente o segundo grupo se destacou, reconstruindo
o Templo de Jerusalém (520-515 aC). Os profetas Ageu e Zacarias estão entre os que realizaram
essa obra histórica.
A reconstrução do Templo não trouxe os re-
sultados previstos e esperados pelos anúncios
apocalípticos. O que a história conta é que os
funcionários persas deram muita atenção aos
_________________________________________
postos da cobrança de tributo. Jerusalém, sem
os muros, era uma cidade modesta, mas o povo _________________________________________
camponês, que não dependiam de Jerusalém, é
que manteve a identidade israelita. _________________________________________
No século V aC, o comércio de perfume, _________________________________________
especialmente, cresce e Jerusalém passa ter
importância no cenário do AOM. Os nabateus, _________________________________________
com suas sedes na cidade de Petra e nas mon-
tanhas de Edom, são os novos sujeitos do co- _________________________________________
mércio. Os caminhos desse comércio passam _________________________________________
por Berseba, Jerusalém e Palmira, no deserto
siro-arábico, valorizam essas localidades. É _________________________________________
nesse contexto que deveremos ler a notícia da
construção dos muros de Jerusalém, liderado _________________________________________
por Neemias.
_________________________________________
Não devemos ler a reconstrução de Je-
rusalém de modo poético, como o relato bíbli- _________________________________________
co faz. Por trás dessa obra, houve um enorme
_________________________________________
conflito político. Os samaritanos, que eram
os representantes oficiais dos persas naquela _________________________________________
região, chamada Transeufratênia, não queriam
a restauração de Jerusalém e de Judá, pois além _________________________________________
do surgimento de um novo entreposto comer-
74
Universidade Metodista de São Paulo
cial, ressurgiria, de novo, a identidade dos judeus, com base na sua história e na sua fé. O exemplo
de Neemias abriu caminho para a obra de Esdras. O símbolo externo da cidade de Jerusalém,
com sua identidade própria, passa a ser um diferenciador na tentativa de um ampla reconstrução
do povo de Israel, em tempos tão adversos. A obra de Neemias em Jerusalém transforma-se em
semente para a formação de um imorredouro ideal de fé.
O texto de Neemias, capítulos 1-2, sugere que a reconstrução da cidade de Jerusalém teve a
participação do rei Artaxerxes I (465-424 aC), porém a obra de Esdras tem muito a ver com o an-
seio da comunidade de judeus. Por exemplo, observamos o interesse de Neemias é eliminar todo
foco que induz à escravidão na comunidade judaica (Ne 5).
Embora ser de origem sacerdotal, a obra de Esdras foi centralizada na codificação da lei, na
sua releitura e na ressignificação da Bíblia. O entusiasmo gerado por essa obra está refletido nos
Salmos 19 e 119, especialmente.
A atuação de Esdras foi além da canonização das leis inseridas no Pentateuco. Diante da obra
de Neemias, Jerusalém voltou a ser povoada e a produção agrícola do interior de Judá foi revi-
talizada e a sociedade judaíta passou a estar inserida nas atividades internacionais de comércio.
Contudo, a fé e o culto perderam a força entre a população. Percebendo isso, Esdras procura pre-
parar a população judaíta para viver sua identidade de fé. Para ele, os judeus precisavam cumprir
a lei para marcarem a presença social e religiosa Para tanto, os judeus tinham que expressar a fé,
através, especialmente, através da obediência à Lei: Não aos casamentos mistos; Obrigatoriedade
para com a guarda do sábado, a prática do dízimo e a circuncisão.
No período pós exílicos, a atividade dos profetas cessa. Os que atuam, como Ageu e Zacarias
e Malaquias, têm a ver com o intento de restaurar o davidismo. Joel está mais próximo do apoc-
alipsismo. Ei-los em resumo: Malaquias (O desânimo enfraqueceu a fé: é preciso organizar); Isaías
56-66 (É tempo de reconstruir a nação). Todos estes profetas atuaram no século VI aC.
Os demais profetas atuaram no fim do século V até o século IV. Em Joel, o movimento apoc-
alítico mostra a sua face; Abdias ou Obadias anuncia as boas novas de Deus, incluindo o julga-
mento divino sobre o desleal Edom; Enquanto isso, Jonas é anti-profeta, mas o livro afirma que
Javé é Deus do mundo, em bom tom apocalíptico.
O tipico da profecia é a sua atuação no período dos reis de Israel e Judá. Como fim da monar-
quia, cessou a atividade profética que se restringia, particularmente à Judá e Israel. Quando o
povo israelita perdeu a terra, surgiu um novo fenômeno na proclamação da palavra: o apocalip-
sismo está focado numa mensagem para a terra e o mundo.
Ainda que a linguagem apocalíptica seja típica do período grego (333-63 aC), a sua origem
deve ser pesquisada nos dois séculos anteriores.

Bibliografia
Schwantes, Milton. Sofrimento e esperança no exílio: História e teologia do povo de
Deus no século VI aC, São Leopoldo: Oikos Editora, 2009.
Siqueira, Tércio Machado. Tirando o pó das palavras: História e teologia de palavras e
expressões bíblicas. São Paulo: Editora Cedro, 2005.

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Universidade Metodista de São Paulo
Literatura e Contexto Histórico
do Antigo Testamento

Módulo

Hermenêutica
Bíblica I

Profa. Suely Xavier dos Santos

Objetivos:
Apresentar os conceitos que ajudam na
compreensão da história da hermenêutica
bíblica, assim como apresentar uma definição
de hermenêutica.
Discorrer sobre as principais correntes
hermenêuticas no decorrer da história e suas
contribuições para o estudo da Bíblia.

Palavras chaves:
Hermenêutica Bíblica; método; Bíblia;
interpretação.

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Texto Base

Estudar Teologia é debruçar-se sobre textos, uma vez que a Teologia é a ciência centrada no
texto. Deste modo, se faz necessário o conhecimento de alguns métodos de interpretação que darão
clareza ao texto e fará emergir um significado, tanto do contexto que foi escrito, quanto para o/a
leitor/a em sua realidade. Neste sentido a Hermenêutica Bíblica se propõe a apresentar métodos
de interpretação para leitura e análise do texto bíblico, a fim de demonstrar eixos pelos quais o
texto pode ser lido. Neste sentido, podemos compreender que “a hermenêutica bíblica trabalha
com textos que passaram por uma longa trajetória de criação, interpretação e reelaboração”.1
Há que se levar em consideração que a hermenêutica tem diante de si três aspectos que fazem
parte do texto:

A autoria do texto no seu lugar de origem; o texto como produção de sentidos para uma de-
terminada época; e o leitor como receptor do texto, que não tem vínculo com o autor/a, mas que
precisa dele para ressignificar a mensagem para os seus dias.
Para uma melhor compreensão do significado de Hermenêutica, a partir de agora, vamos
conceituar o termo e abordar um pouco a história da transmissão do texto bíblico a partir das
hermenêuticas existentes em cada época.

1. Definição de Hermenêutica

Hermenêutica é a arte de interpretar. A origem desta palavra está no verbo grego hermeneuein
que significa traduzir, interpretar. Presente nos textos clássicos da filosofia grega, o termo
hermenêutica aparece no Organon de Aristóteles como unidade que merece um tratado
próprio: Peri hermeneias. Da interpretação. Ou seja, Aristóteles demonstrou a importância
da interpretação do texto ao escrever um tratado sobre o tema em sua época.

1 CROATTO, J. Severino. Hermenêutica Bíblica. p. 14.

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Universidade Metodista de São Paulo
A etimologia da palavra Hermenêutica, também tem sua origem na palavra grega hermeios com
referência ao sacerdote do oráculo de Delfos e o mensageiro-alado Hermes. A função de Hermes
não se restringe a proclamação da mensagem, mas ele tem como tarefa torná-la compreensíveis,
ou seja, ele deve interpretá-las. No mundo grego, Hermes está associado à descoberta da lingua-
gem e da escrita, neste sentido observamos sua estreita ligação com os instrumentos da razão
para chegar ao significado das coisas e as mediações para uma boa comunicação.
Assim sendo, podemos observar que a hermenêutica tem como objeto de análise os discursos
realizados ao longo da história, no caso da história bíblica, considerando as dinâmicas próprias da
produção e abrangência da recepção das mensagens.

2. Uma visão panorâmica da história

Para uma melhor compreensão dos discursos e das interpretações feitas ao longo da histó-
ria, vamos no deter sobre os processos hermenêuticos, como forma de se conhecer melhor o
texto, em várias etapas da produção de sentido da religião cristã. Vejamos alguns métodos de
interpretação:

“Leram no livro, na Lei de Deus, claramente, dando explicações,


de uma maneira que entendessem o que lia.” (Ne 8.8)

2.1. Exegese Judaica Antiga


O texto de Ne 8.8 indica que por ocasião da volta do cativeiro Babilônico, Neemias faz uma
interpretação do Pentateuco de forma que a população entendesse a leitura. Lia-se em hebraico
e traduzia-se para o aramaico, explicando o significado do texto em mãos. Aqui observamos um
processo hermenêutico ocorrido na volta do cativeiro. Nos tempos do cristianismo primitivo,
também havia a releitura dos textos do Antigo Testamento (Torah, Profetas e alguns Escritos – Lc
24.27), de maneira que os cristãos/ãs pudessem compreender as Escrituras.
A exegese judaica no período de Jesus era literal, midráshica, pesher e alegórica. Que significa
o seguinte:
 Literal: o que se lê é fato; há uma leitura fundamentalista do texto.
 Midráxica: concentrava-se na identificação de significados ocultos de detalhes gramaticais,
escola do Rabi Hillel. Para esta escola as regras de interpretação são as seguintes:
o Dava significado a textos, frases e palavras sem levar em conta o contexto em que se
pretendia ser aplicados;
o Combinava textos que continham palavras ou frases semelhantes, sem considerar se
tais textos referiam-se á mesma idéia;
o Tomava aspectos incidentais de gramática e lhes dava significação interpretativa.
o Também se devia fazer inferência ao texto por analogia.

Midraxe: palavra hebraica cujo significado é método de


interpretação da escritura, com caráter homilético. Faz
as interpretações, principalmente, das narrativas bíbli-
cas. (BARRERA, 1996; p.697

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Outra escola de interpretação conhecida na época de Jesus é a escola de Shammai, que faz
uma leitura mais conservadora do texto, apesar de reconhecer mais, por exemplo, os direitos da
mulher e a validade de seu testemunho.

 Pesher: a forma interpretativa própria da midraxe, acrescentou-se o enfoque escatológico


e apocalíptico (Comunidade de Qumran).

2.2. Exegese Patrística: 100-600 d.C.

A exegese da Patrística priorizou o método alegórico, no qual o verdadeiro sentido jaz sob o
significado literal da Escritura.

Método Alegórico: este método trabalha com o texto como


produtor de sentido que é transmitido através de símbolos.
O seu sentido em grego é “falar algo mais do que parece
dizer”. Um exemplo de alegoria está nas cartas de Paulo, que
apresentam algumas interpretações alegóricas de temas do
Antigo Testamento: 1 Co5.6-8; 9.8-10; 10.1-11; Gl 4.21-31.

• Para Filão de Alexandria (20 a.C. – 50 d.C.)


o sentido literal da Escritura representava
um nível imaturo de compreensão;
já o significado alegórico era para os _________________________________________
maduros. _________________________________________
• Clemente de Alexandria (150-215 d.C.),
usou este método e alegava que as _________________________________________
Escrituras ocultavam o verdadeiro _________________________________________
sentido. Para ele, cinco sentidos estão
ligados às Escrituras: histórico, doutrinal, _________________________________________
profético, filosófico e místico.
_________________________________________
• Orígenes (185-254 d.C.?), sucessor de
Clemente no uso deste método, dizia que _________________________________________
nas Escrituras havia uma vasta alegoria,
na qual cada detalhe é simbólico (1Co _________________________________________
2.6-7). O corpo, alma e espírito tem sen-
_________________________________________
tido literal, moral e alegórico/místico.
• Agostinho de Hipona (354-430 d.C.) en- _________________________________________
tendia que a Escritura também deveria
_________________________________________
ser lida de forma alegórica (2Co 3.6). E
ainda, no que diz respeito a interpreta- _________________________________________
ção dos textos, dentre outros requisitos,
deveria observar os seguintes2:

2
Cf. PIRES, Carlos Alberto. O que é hermenêutica. p. 24-25.

80
Universidade Metodista de São Paulo
O intérprete deve possuir fé cristã autêntica

Deve-se ter em alta conta o significado literal e histórico da Escritura.

A Escritura tem mais que um significado e, portanto, o método alegórico é adequado.

Há significado nos números bíblicos.

O Antigo Testamento é documento cristão porque Cristo está retratado nele do prin-
cípio ao fim.

Compete ao expositor entender o que o autor pretendia dizer, e não introduzir no texto
o significado que ele, expositor, quer lhe dar.

Um versículo deve ser estudado em seu contexto, e não isolado dos versículos que o
cercam.

• A Escola de Antioquia da Síria desenvolveu, através de Teodoro de Mopsuéstia (350-428


d.C.), o princípio da interpretação histórico-gramatical, isto é, que um texto deve ser inter-
pretado segundo as regras da gramática e dos fatos históricos. Evitava a exegese dogmática
e criticava os alegoristas. Os princípios exegéticos da escola de Antioquia lançaram a base
da hermenêutica moderna.

2.3 Exegese Medieval: 600-1500 d.C.


Na interpretação da Idade Média, há a reedição dos trabalhos dos Pais da Igreja. Neste sen-
tido, a interpretação está vinculada a tradição e ao método alegórico. O sentido agostiniano de
interpretação era o que vigorava.

2.4 Exegese da Reforma: século XVI

• Lutero (1483-1546 d.C.), para ele interpretação da Bíblia é feita através da fé e iluminada
pelo Espírito Santo. Neste sentido, as Escrituras devem determinar o que a Igreja ensina.
Por isso o método que vigorava era o sentido literal e cristocêntrico do texto (o AT e o NT
apontam para Cristo). Mesmo sendo uma leitura literal, ele dizia que era necessário consi-
derar a história, a gramática e o contexto.

• Calvino (1509-1564 d.C.) diz que a alegoria é uma “artimanha de Satanás para obscurecer o
sentido da Escritura”. Assim, ele não partilhava da idéia de que Cristo deve ser encontrado
em toda a Escritura, e ainda deve-se deixar o autor dizer o que ele de fato diz.

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1.5 Exegese de Pós-Reforma

Na exegese da pós-reforma há quatro momentos que se expressam da seguinte forma:

• O Confessionalismo que trata a exegese como uma “criada da dogmática”


• O Pietismo que reage à exegese dogmática. Os expoentes deste movimento ressaltam,
conforme Spener (1635-1705), o retorno ao interesse cristão mútuo e às boas obras;
melhor conhecimento da Bíblia e melhor preparo espiritual para os ministros. Ora leitura
histórico-gramatical, ora leitura com base na luz interior ou unção.
• O Liberalismo prioriza a razão com graus de inspiração, e nega o caráter sobrenatural
da interpretação por alguns.
• A Pós-modernidade que desconfia do método hermenêutico. Isso porque se abre
para o relativismo hermenêutico, para o qual todas as interpretações são arbitrárias ou
válidas.

4. Considerações finais
Como podemos observar a Teologia tem contribuições significativas a dar às discussões não
só sobre interpretação bíblica, mas também sobre hermenêutica em geral. Para Martim Buber, o
que o cristianismo dá ao mundo é a hermenêutica, isto porque o que se conhece do cristianismo
são interpretações feitas ao longo da história.
Vale a pena salientar que o/a intérprete é limitado pelo tempo, espaço, geografia e língua, no que
concerne a intepretação da Bíblia, assim sendo há que se levar em consideração a importância dos
métodos exegéticos para se fazer Hermenêutica Bíblica, ou seja, para se interpretar o texto bíblico.

Bibliografia
BARRERA, J. Trebolle. Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã: introdução à história da Bíblia. Pe-
trópolis: Vozes, 1994.
CROATTO, Severino. Hermenêutica bíblica. São Paulo: Paulinas, 1985.
VIRKLER, Henry A. Hermenêutica avançada: princípios e processos de interpretação bíblica.
São Paulo: Vida, 2001.
VANHOOZER, Kevin. Há um significado neste texto? Interpretação bíblica: os enfoques
contemporâneos. São Paulo: Vida, 2005.

82
Universidade Metodista de São Paulo
Literatura e Contexto Histórico
do Antigo Testamento

Módulo

Hermenêutica
Bíblica II

Prof. Tércio Machado Siqueira

Objetivos:
Levar os/as alunos/as analisarem com maior
profundidade a relação entre o Antigo Testamen-
to e o Novo Testamento.

Palavras-chave:
Hermenêutica/interpretação; Palavra de Deus,
Tora/lei/ensino divino e cânon bíblico.

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A relação entre Antigo e Novo Testamento
Apesar dos grandes estudiosos da Bíblia sustentarem que a teologia cristã tem que ser vista
e interpretada à luz do Antigo Testamento, a prática das igrejas mostra o contrário. Pretendemos
abordar este atraente e desafiador tema que a Igreja Cristã enfrentou, ao longo de dois milênios,
e continua enfrentando nos dias de hoje.
Paira sobre o povo cristão uma inquietante pergunta: Como se lê e interpreta o Novo Testa-
mento frente ao Antigo Testamento? Há muito detalhes que estão na base desta questão: (1) A
Igreja Cristã canonizou, como Bíblia Sagrada, o Antigo Testamento e o Novo Testamento; (2) É,
praticamente, impossível conhecer o Novo Testamento sem conhecer o Antigo Testamento. Por-
tanto, não se deve aproximar deste tema com emoção e superficialidade.
Para analisar esta questão, vamos iniciar nossa análise com duas afirmações de dois estudiosos
da Bíblia. Eles são sérios defensores do cânon bíblico, e condenam a idéia de que Deus se revelou
de modo progressivo ao longo da história bíblica.

Inicialmente, a afirmação de Dietrich Bonhoeffer: “Quem deseja ser muito rapidamente


e muito diretamente neotestamentário não é, a meu ver, um cristão” (Citado por Frank
Crüsemann, Em: Cânon e história social, São Paulo: Loyola, 2009, p. 411).

A Igreja Cristã, ao longo de sua história, “reconhece que o Antigo e o Novo Testamento,
juntos, representam a fonte original e o fundamento da verdade cristã, a serviço de
Jesus Cristo, e que o AT e NT estão mutuamente abertos um ao outro” (Rolf P. Knierim,
A interpretação do AT, São Bernardo do Campo: Editeo, 1990, p.63).

A constatação do problema.
O biblista alemão, Frank Crusemann, procura discutir este tema levantando a seguinte questão:
“Até que ponto a teologia cristã pode ser veterotestamentária?” Para ele, a origem desse conflito
encontra-se no segundo século da Era Cristã, quando Marcião levantou uma histórica controvérsia
sobre a validade do AT para a Igreja Cristã. Para Crusemann, o Deus do AT seria um outro deus,
inimigo do Deus cristão (conforme Antonius H. Gunneweg, Hermenêutica do Antigo Testamento,
São Leopoldo: Editora Sinodal, 2003, p. 131).
Evidentemente que essa crise teológica já existia, antes de Marcião. Ele apenas a aprofundou e a
tornou público. O agravante desse conflito aconteceu logo em seguida: Suas teses foram consideradas
heréticas pelos Pais da Igreja, em Roma, no ano 144 dC. A condenação de Marcião, pelos tribunais
eclesiásticos, não eliminou a discussão em torno da importância do AT em relação ao NT.
O preconceito para com o AT continuou sem a agressividade dos marcionitas, mas intenso e
sutil. Seguiu uma aparente paz na convivência entre cristãos judeus e cristãos de outras nacio-
nalidades, caracterizada como enganosa. Isso fica claro que muitas doutrinas cristãs, através de
concílios, são substanciadas apenas de modo neotestamentário.
A dúvida sempre esteve presente na vida das igrejas cristãs: “Pode a teologia da Igreja Cristã ser
veterotestamentária?” Essa dúvida tem uma razão de ser: Ela nasce do medo de perder o elemento
autêntico e próprio da mensagem cristã. Este receio gera desconfiança entre o povo cristão, ainda que
de forma oculta. Este medo faz sugerir que o significado do AT para a fé cristã é e deve ser limitado.
Diante disso, parte do povo cristão interpreta e confessa através do argumento que o NT conduz
intensamente a revelação maior da Bíblia, nos níveis lingüístico e no de conteúdo teológico.

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Argumentando em favor de uma nova hermenêutica bíblica.
Entre tantos exegetas e teólogos cristãos, Martin Lutero representa um marco. Como professor
de Bíblia, no século XVI de nossa era cristã, ele elaborou uma marcante tradução da Bíblia para a
língua alemã. Todavia, o decisivo, em toda sua obra, não foi a tradução, mas a motivação para ler
e compreender as Escrituras, proporcionando ao leitor/a a vontade de ir às raízes do testemunho
bíblico. Ao contrário da Igreja Primitiva, que privilegiava a leitura dos Evangelhos, Lutero incentivava
uma leitura que busca o fio condutor da história da salvação.
Inspirado na obra de Lutero, Dietrich Bonhoeffer, morto pelos nazistas em 1945, argumentou
em favor da importância do AT para o NT. Não desprezando o evento-eixo, Jesus Cristo, ele enten-
deu que a Igreja Cristã e a teologia tornaram-se mais cristãs quando redescobriram o valor do AT
para a fé. Bonhoeffer é considerado um mártir cristão. Foi ele que formulou algumas afirmações
dirigidas aos que vêem o AT com certo preconceito.

O nome divino: “Apenas quando se conhece a indescritível e inefabilidade do nome


de Deus, Javé, também se pode enunciar uma vez o nome de Jesus Cristo”. Em oração,
Jesus mostra com clareza que a Sua obra é tornar conhecido o nome do Pai: Eu lhes fiz
conhecer o teu nome e ainda o farei conhecer, a fim de que o amor com que me amaste
esteja neles, e eu neles esteja (Jo 17,26).

Novos céus e nova terra: “Apenas quando se ama a vida e a terra de modo tal que
com elas tudo parece perdido e no fim pode-se crer na ressurreição dos mortos e num
novo mundo”. Com efeito, criarei novos céus e nova terra... (Is 65,17; conforme 11,2-10).
Os teus mortos tornarão a viver; Os teus cadáveres ressurgirão. Despertai e cantai, vós
os que habitais o pó... (Is 26,19); E muitos dos que dormem no solo poeirento acordarão,
uns para a vida eterna e outros para o opróbrio... (Dn 12,2).

Torá/lei e graça: “Apenas quando se deixa a lei de Deus valer sobre si próprio pode-se
também falar uma vez de graça”. A Torá, no AT, é definida como ensino divino. O Salmo
19 a define como restauradora da vida e doadora de sabedoria às pessoas humildes;
ela traz alegria ao coração, ilumina os olhos e é considerada tão doce como o favo
de mel (v.7-10). Enfim, o salmista definia a Torá como um instrumento de graça. Das
profundezas clamo a ti, Javé; Senhor, ouve o meu grito! Que teus ouvidos estejam atentos
ao meu pedido por graça... (Sl 130,1-2).

Ira e perdão: “Apenas quando a ira e a vingança de Deus contra seus inimigos perma-
necem como realidade válida, então algo do perdão e do amor ao inimigo pode tocar
nosso coração”. O perdão torna-se mais vivo e necessário na comunidade quando a
ira de Deus volta-se contra o malfeitor. Javé! Javé! Deus de ternura e de piedade, lento
para a cólera, rico em graça e em fidelidade... (Ex 34,6-7). Por trás da pregação de Jesus
– “amarás o teu próximo... Amai os vossos inimigos” (Mt 5,43-44) estão as instruções
de Levítico: Não andarás caluniando entre teu povo; Não levantarás contra a vida de teu
vizinho ... Não odiarás o teu irmão, em teu coração; Certamente tu repreenderás o teu
compatriota (Lv 19,16-17). Portanto, Jesus se serve do conteúdo da Torá para instruir
os contemporâneos.

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Conclusão
Por trás de todo preconceito para com o AT está uma leitura equivocada. É certo afirmar que a
Bíblia é Palavra de Deus, contudo, ela também tem palavras dos homens. No capítulo 28 do livro
de Jeremias, encontramos um exemplo disso. Há um diálogo acirrado entre dois profetas: Jeremias
e Hananias. Ambos reivindicam que têm a autoridade de Deus, mas o verso 17 diz que somente
Jeremias tinha autorização para tal.
Os grandes temas do AT não estão em contradição com os do NT. A renovação de toda criação,
a disciplina como sinal da graça e a supremacia do perdão sobre a ira estão presentes tanto no AT
como no NT. A vida boa e feliz prevalece sobre toda a Bíblia derrotando toda maldade que tenta
desestruturar a vida no mundo.

Bibliografia
Mesters, Carlos. Por trás das palavras. Petrópolis: Editora Vozes.
Gunneweg, Antonius H.,Hermenêutica do Antigo Testamento. São Leopoldo: Editora
Sinodal.
Croatto, J. Severino. Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Edições Paulinas.

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