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Dicas de roteiro

a realidade é surreal
A melhor maneira de aprender a escrever um roteiro na formatação
correta é ler a maior quantidade possível de roteiros prontos. Só
assim o escritor conseguirá obter um conhecimento avançado do
processo de construção da obra no formato Master Scenes. Aqui
apresentarei apenas o básico.

Em termos gerais, o roteiro de cinema pode ser basicamente dividido


em quatro partes: Cabeçalho de Cena, Ação, Diálogos e
Transições. Vamos começar a analisá-las através de um exemplo
(sempre a melhor forma de aprender):

INT. QUARTO DE HOTEL DE CHARLOTTE - NOITE Cabeçalho de Cena

De costas, Charlotte olha a grande janela. Ação

John chega e lhe dá um beijo. Mais Ação

CHARLOTTE Personagem que faz o


diálogo
Como foi hoje? Diálogo

JOHN
Bom...Eu estou cansado.

Ele a abraça por um momento, inclinando-se.

JOHN (CONT)
Eu tenho que encontrar Kelly para
um drinque lá embaixo. Ela quer
conversar sobre algo de foto.

CHARLOTTE
Ok. Talvez eu desça com você.

JOHN
Você quer vir?

CHARLOTTE
Claro.

JOHN
(não quer que ela
vá)Parenthetical
Ok.

CUT
TO:
Transição

Importante: a escrita do roteiro só deve ser iniciada após o autor ter


estabelecido toda a estrutura de sua história e de ter preparado uma
descrição resumida de cada cena e personagem. A escrita do roteiro
é o penúltimo passo para a elaboração de uma obra, sendo a revisão
do roteiro o último passo. Nada de se apressar e iniciar a escrita do
script sem planejamento.

1. Cabeçalho de Cena

Serve para introduzir uma nova cena. Na grande maioria das vezes
teremos uma nova cena quando ocorrer uma mudança no espaço
e/ou tempo no roteiro. Escrito sempre em maiúsculas, o cabeçalho é
composto por três elementos:

* Tipo de Localidade: INT. (Interior) ou EXT. (Exterior). Serve para a


equipe de produção determinar a logística e os locais de filmagem. Se
a câmera percorrer o ambiente, podemos ter algo como INT./EXT.,
mas esse tipo de escrita não é recomendado, deixando a escolha
para o diretor.

* A localidade: O nome do local. Por exemplo: CASA DE VERANEIO. Em


alguns casos devemos especificar um local dentro de outro: CASA DE
VERANEIO - COZINHA.

* O tempo: Aqui o autor irá usar na grande maioria dos casos ou DIA
ou NOITE, mesmo se o tipo de localidade for interior. Em raras
ocasiões veremos termos como ENTARDECER ou AMANHECER. Só se for
necessário para o andamento da história. Se a cena precisar do uso
do relógio, poderemos usar o tempo exato: 1:15, MEIA-NOITE,
1984.

Muitos escritores numeram as suas cenas. A numeração aparece


antes e depois do cabeçalho:

1 EXT. ESTÁDIO - DIA 1

2. Ação

É o que basicamente ocorre na cena. O autor pode introduzir a ação


com uma pequena descrição, caso seja a primeira vez que o local
apareça no roteiro. Seja sutil na escrita, e não exagere nas
descrições. Um roteiro de cinema não é escrito da mesma
forma que um romance literário! Devemos descrever apenas o
necessário para o andamento e entendimento da história.
Deve-se evitar ao máximo dar ordens diretas para o diretor sobre
posicionamento de câmera e ângulos de filmagem. Devemos notar
que muitos autores não respeitam muito essa recomendação e
acabam às vezes querendo agir como diretores.

Ao invés de escrever um largo bloco de texto, divida a ação em


pequenas partes com uma linha de espaço. Dessa forma, até ângulos
de filmagem podem ser sutilmente sugeridos ao diretor, sempre com
cuidado.

INT. QUARTO DE NEO - DIA

Neo acorda de um sono profundo, se sentindo melhor. Ele


começa a se auto-examinar. Há um cabo futurista conectado
em seu antebraço. Ele o retira, observando a tomada
enxertada em sua pele.

Ele passa a mão sobre a cabeça, sentindo um curto cabelo


que agora a cobre. Seus dedos acham e exploram uma larga
tomada na base do seu crânio.

Logo que ele começa a se descolar, Morpheus abre a porta.

É aconselhável o escritor escrever sempre no tempo presente.

Os personagens são primeiramente introduzidos na ação, e toda vez


que um novo personagem for introduzido ele deve aparecer em
LETRAS MAIÚSCULAS. A maioria dos personagens também devem ser
descritos de forma resumida quando aparecem pela primeira vez.
Essa descrição deve ser basicamente uma descrição física:

No ringue temos dois pesos pesados. Um branco e o outro


negro. O lutador branco é ROCKY BALBOA. Ele tem trinta
anos. Sua face tem cicatrizes e é rígida em torno do nariz.
Seu cabelo preto brilha e pende sobre seus olhos.

Além da introdução de personagens, as letras maiúsculas na Ação


algumas vezes são utilizadas ao se referirem a um som (um GRITO,
um ASSOBIO) , a objetos utilizados (um REVOLVER, um MARTELO), e
qualquer outra coisa que o escritor queira chamar a atenção. Fica a
critério do autor, mas é bom não exagerar.

Quando uma cena é interrompida devido ao fim de uma página,


alguns escritores utilizam o termo (CONTINUA), com alinhamento
justificado na direita, onde era para ser a transição. Na página
seguinte escrevem CONTINUA, com alinhamento justificado para a
esquerda, no lugar do cabeçalho de cena.

3. Diálogos
O bloco de diálogo é composto de dois componentes obrigatórios,
Personagem e Diálogo, e um opcional, o Parenthetical.

Os blocos de diálogos mais comuns usam apenas o nome do


personagem e o que ele diz:

ALVY
Oh, você é uma atriz.

ANNIE HALL
Bem, eu faço comerciais, algo
assim...

O Parenthetical deve ser utilizado somente para indicar algo que não
tem como escrevermos de outra forma no script. O Parenthetical
deve indicar uma ação ou emoção de um personagem, ou a direção
de sua fala:

ANNIE
(sorrindo)
Bem, eu...
(uma pausa)
Você é o que vovó Hall chamaria
de verdadeiro judeu.

ALVY
(Limpando sua garganta)
Oh, obrigado.

Evite dizer para o ator como ele deve fazer o seu trabalho. Por isso
tenha muito cuidado com os Parentheticals. Nenhum ator gosta de
receber ordens do escritor. A escrita do roteiro deve ser boa o
suficiente para o ator entender a expressão facial que ele deverá
utilizar sem precisar toda hora ler um Parenthetical.

Se uma ação é colocada entre os diálogos de um mesmo


personagem, devemos indicar que o diálogo continua, escrevendo
(CONT) após o nome do personagem.

Se um diálogo é interrompido pelo final da página, escrevemos (MAIS)


embaixo do diálogo com a mesma margem do nome do personagem.
Na página seguinte escrevemos (CONT) ao lado do nome do
personagem.

Quando o escritor precisa do diálogo de um narrador, ele deve usar o


termo V.O., de Voice Over ao lado do nome do personagem:

LESTER (V.O.)
Meu nome é Lester Burnham. Este é
meu bairro. Esta é minha rua. Esta
é...minha vida. Tenho quarenta e
dois anos. Em menos de um ano eu
estarei morto.

Quando um personagem está falando em uma cena mas não aparece


na tela, usamos o termo O.S. de Off Screen ao lado do seu nome:

CLOSE em um rádio de madeira, tocando uma música quieta. A


visão
é a de um quarto escuro, com cortinas impedindo a luz do
sol.

MICHAEL (O.S.)
Teremos uma quieta cerimônia civil
no salão da cidade, sem agitação,
sem família, apenas alguns amigos
como testemunhas.

4. Transições

Assim que a primeira imagem aparecer na tela temos que escrever


FADE IN no roteiro, dar duas linhas de espaço e começar a primeira
cena. Na esmagadora maioria das obras, FADE IN é a primeira coisa
que o autor escreve. Quando a imagem desaparece da tela, como no
fim de um filme, escrevemos FADE OUT. Após a última transição do
filme, dar três linhas de espaço e escrever com alinhamento
centralizado THE END.

A transição mais comum é CUT TO (CORTAR PARA), que significa


cortar para uma outra cena. Muitos escritores não utilizam mais o CUT
TO entre as cenas, pois presume-se que a própria introdução de um
novo cabeçalho de cena já seja suficiente para indicar a mudança.
Além disso, para muitos é papel do diretor fazer a passagem de uma
cena para a outra, e não do roteirista.

5. Formatando

Não há uma regra obrigratória para a formatação. O roteirista não


pode é variar de forma radical o modelo sugerido chamado de Master
Scenes, cujas características básicas estamos aqui analisando.
Existem pequenas variações entre os roteiros. Seguindo a formatação
Master Scenes, cada página de roteiro tem em média um minuto.

Para uma melhor construção de roteiros, existem alguns programas


de computador que já formatam o script automaticamente. O melhor
deles é o Final Draft, que é também o mais caro. Temos o Celtx que é
de graça, existe em português e também faz um belo trabalho. Para
quem sabe usar um processador de texto, é também possível a
configuração dos espaçamentos no Microsoft Word.
Nem todos os roteiristas escrevem da mesma maneira. Inclusive
existem roteiros que mudam ligeiramente a formatação mais comum.
Saiba analisá-los e diferenciá-los e vá criando o seu estilo.

Evite escrever em itálico, negrito, ou sublinhado.

O tipo de papel utilizado é o carta (letter) de 21,59cm x 27,94cm.

A capa não é numerada e nem conta como uma folha no script. Ela
deve conter o nome da obra e do autor centralizados na página. Na
última linha deve conter o copyright e o contato.

A fonte do roteiro tem que ser sempre Courier New tamanho


12.

A numeração da página deve ser feita na parte superior direita.

5.1 Margens

Margens superior e inferior - 2,5cm

Margem da esquerda - 3,8cm

Margem da direita - 2,5cm

Cabeçalhos de Cena - 3,8cm

Ação - esquerda 3,8cm

Personagem - 9,4cm

Parenthetical - esquerda 7,8cm, direita 7,4cm

Diálogo - esquerda 6,5cm - direita 6,5cm (justificado para a


esquerda)

Transição - Alinhamento justificado para a direita (exceto FADE IN,


que tem margem de 3,8cm na esquerda, a mesma da ação).

5.2 Espaçamento

Espaçamento Simples (Nenhuma linha de espaço, apertar uma vez a


tecla Enter):
* Entre o Personagem e o Parenthetical
* Entre o Personagem e o Diálogo
* Entre o Parenthetical e o Diálogo
Espaçamento Duplo (Uma linha de espaço, apertar duas vezes a tecla
Enter):
* Cabeçalho de Cena para a Ação
* Ação para Ação
* Ação para nome do Personagem
* Diálogo para Ação
* Diálogo para nome de outro Personagem
* Diálogo para Cabeçalho de Cena
* Ação para Cabeçalho de Cena
* Ação para Transição
* Diálogo para Transição
* Transição para Cabeçalho de Cena

Podemos ver que temos espaçamento simples apenas no bloco de


diálogos, sendo o restante do roteiro escrito na sua maioria com
espaçamento de uma linha (duplo Enter).

6. Conclusão: LEIA ROTEIROS

Segue uma lista de sites para download de roteiros. Para analisar


somente a formatação, prefira os roteiros em .PDF, que geralmente
são os originais. De resto, pegue todos e leia a maior quantidade
possível, pois agora que possuímos o básico, absorver as variações
mais avançadas fica mais simples. A maioria dos sites contém apenas
roteiros em inglês.