Vous êtes sur la page 1sur 12

ROUSSEAU E A FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO

Ricardo Almeida Marques

Resumo: O presente trabalho tem por objetivo apresentar e elucidar a estrutura da obra “Emílio, ou da Educação”, de Jean-Jacques Rousseau, bem como mostrar as principais contribuições do livro para o processo de ensino em geral e a filosofia por trás do mesmo. Por meio de uma análise de cada divisão da publicação, foram identificados e elencados os fatores inovadores presentes nela.

Palavras-Chave: Educação; Sociedade; Estado de Natureza.

1. INTRODUÇÃO

Considerado um dos principais representantes do Iluminismo do século XVIII, o filósofo e escritor suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) é um dos maiores nomes no campo da filosofia, e em especial sua vertente política, ao lado de nomes como Thomas Hobbes (1588-1679) e John Locke (1632-1704). Com sua análise e interpretação do estado de natureza humano (a saber, naturalmente bondoso, porém influenciado negativamente pelo contexto social em que se insere) e do Contrato Social (elemento responsável por reconduzir o homem a um estado positivo, visando garantir as liberdades e a igualdade entre os homens, garantido pelo Estado), expressas em suas obras “Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade Entre os Homens” (1755) e “Do Contrato Social ou Princípios do Direito Político” (1762), é de se esperar que o nome do autor seja recorrente ao se discutir as bases da Ciência Política e do Direito. Nas palavras de Frazão (2017), “o pensamento de Rousseau influenciou as ideias da Revolução Francesa. Pregava que a liberdade era o valor supremo do homem. Anti-racionalista, foi favorável ao preceito de que os homens nasciam bons, a sociedade é que os corrompiam”.

O autor, no entanto, não foi expoente apenas em questões filosófico -políticas. Sua filosofia também percorreu diversos outros campos, e um dos mais destacado s em suas obras foi o da educação, com sua publicação “Emílio, ou da Educação”. De fato, o próprio Rousseau em dada ocasião afirmou esta ser a melhor e mais importante de suas obras. De acordo com Coura (2005):

2

Rousseau, um dos mais bem conceituados pensadores do Século XVIII, na sua obra Emílio ou da Educação, propõe um projeto para a formação de um novo homem e de uma nova sociedade, apresentando-nos os princípios gerais para uma educação de qualidade. A sua influência, no campo educacional, deve-se assim a esta obra.

Trata-se, como o autor diversas vezes colocou, de um tratado. Que basicamente consiste, segundo a história tem mostrado, em um texto de natureza filosófica cujo objetivo é instaurar uma nova proposição a respeito de um assunto, trazendo à luz o resultado de novas descobertas e rompendo com antigas concepções” (OLIVEIRA, 2012, p. 21).

Na obra em questão, Rousseau retrata o processo de educação de uma criança sob os moldes mais naturais o possível, não influenciados pela corrupção da sociedade. Para tanto, o personagem Emílio contava com um tutor responsável por eliminar tais influências negativas. Observa-se que a obra retrata bem a filosofia do autor, que considerava as convenções sociais como danosas para o estado natural do ser humano, e que o processo de educação nos moldes então preconizados serviam para nada mais do que reproduzir tal dano, enquanto preparava o sujeito para os aspectos da vida em coletividade. Ele defendia, portanto, uma educação do ser humano voltado para si mesmo, valorizando o fator liberdade acima de qualquer outro, e assim não se utilizando de recursos que padronizem os métodos educacionais. Padronização esta que seria de fato a principal função das instituições de ensino.

Por conta de sua temática não conformista com o sistema educacional do período,

a obra gerou uma série de críticas, além de sérios problemas para o autor. Seu tom crítico

e incisivo fez com que o livro ganhasse considerável impopularidade entre as classes que tinham interesse na manutenção do status quo educacional, ainda que não se tratasse de um guia completo e detalhado de forma sistemática, mas sim um conjunto condensado de vários conselhos sobre o tema.

Aplaudido no particular, mas rejeitado publicamente, o livro foi elaborado, finalizado e publicado em um tempo de transformações históricas decisivas para a vida política e cultural da modernidade. Tendo sido execrado oficialmente em Paris e em Genebra, ele conduziu o autor à condenação, obrigando-o à fuga e ao abandono de sua vida tranquila (OLIVEIRA, 2012, p. 8).

A obra se divide em cinco capítulos, denominados “livros”, sendo os três primeiros discorrendo sobre a infância do protagonista, o quarto falando sobre a fase da

3

adolescência e o final sobre a educação de sua futura esposa, Sofia, e sobre a formação adulta de Emílio, abarcando suas dimensões doméstica, civil e política.

2. PRIMEIRO LIVRO

O primeiro dos livros, intitulado “Idade da Natureza – o bebê”, discorre sobre “a importância e o objetivo da educação e defende a ideia da mãe como a verdadeira ama e o pai como o verdadeiro preceptor” (SILVA, 2016, p. 28). O capítulo foca no período de desenvolvimento da criança dos zero aos cinco anos, em que não há subjetividade racional, sendo uma fase puramente física, em que o corpo deve ser nutrido e fortalecido através do aleitamento materno. Nesse ponto, Rousseau enfatiza veementemente o papel da mãe no processo de educação do filho, dado que ela é responsável pela nutrição física, pode acompanhar mais de perto o crescimento do mesmo e não é tão sujeita ao risco de morte como o homem, sendo portanto a única encarregada em caso de falecimento do pai. O autor confere a tal organização uma incumbência natural, e isso fica bem claro quando afirma que “a primeira educação é mais importante e cabe incontestavelmente às mulheres. Se o autor da natureza houvesse desejado que ela coubesse aos homens, ter- lhes-ia dado leite para alimentar as crianças(ROUSSEAU, 2004, p. 7). Tal importância só deve ser observada, porém, durante a primeira infância.

No caso do personagem, de acordo com as ideias de Rousseau, “a infância é uma fase que exige muitos cuidados, pois a criança necessita ser protegida das forças corruptoras da sociedade degenerada e, justamente por isso, para Emílio é pensada uma vida campesina” (SILVA, 2016, p. 29). Assim, é pensado na obra o fato de que a educação leva à corrupção moral do indivíduo e que, portanto, os esforços deveriam se projetar em direção a uma instrução oposta à então ministrada. Daí a figura do tutor, que apesar de ser no livro um personagem específico (o próprio Rousseau), pode ser comparado na vida real com diversos entes, tais como os pais, o professor, o governante, a autoridade de justiça, etc. Logo se trata de um cargo, que ao longo da vida do homem pode ser ocupado por diversos indivíduos, grupos ou organizações, inclusive mudando de acordo com o ambiente e a ocasião.

4

3. SEGUNDO LIVRO

O segundo livro retrata a fase dos cinco aos doze anos de idade, e dá prosseguimento à análise da infância, desta vez considerando os contatos do infante com o mundo exterior em seu aspecto puramente natural. Além disso, não contará com a intervenção ativa do preceptor, nem mesmo nas faculdades mais básicas do seu desenvolvimento: “Emílio não terá nem barretinhos protetores, nem carrinhos, nem andadeiras; logo que souber pôr um pé na frente do outro, só o sustentarão nos caminhos calçados e por eles só passarão às pressas” (ROUSSEAU, 1979, p. 48). Sua educação se dará, portanto, diretamente através do contato sensorial não inibido por qualquer norma social, mesmo as que em tese o protegeriam. Nesse aspecto, Rousseau afirma que mesmo sem o advento dos mecanismos de proteção, Emílio ainda teria grande vantagem sob os demais. “Meu aluno terá muitas contusões, em compensação estará sempre alegre. Se os vossos tiverem menos, mostrar-se-ão sempre contrariados, sempre acorrentados, sempre tristes. Duvido que o proveito esteja do lado deles” (ROUSSEAU, 1979, p. 48). Tal processo também desenvolverá as forças do protagonista, bem como sua iniciativa e coragem, o que o tornará uma pessoa menos queixosa.

Essencialmente, Rousseau defende que a criança não seja tolhida por qualquer norma porque tal ato nada mais é do que tentar impor uma lógica adulta em uma mente que segue sua lógica própria, não “contaminada” pelos estigmas sociais. Nas palavras do autor:

A natureza quer que as crianças sejam crianças antes de ser homens. Se quisermos perturbar essas ordem, produziremos frutos precoces, que não terão maturação nem sabor e não tardarão em corromper-se; teremos jovens doutores e crianças velhas. A infância tem maneiras de ver, de pensar, de sentir que lhe são próprias; nada menos sensato do que querer substituí-las pelas nossas; e seria o mesmo exigir que uma criança tivesse cinco pés de altura como juízo aos dez anos. Com efeito, que lhe adiantaria ter razão nessa idade? Ela é o freio da força, e a criança não tem necessidade desse freio (ROUSSEAU, 1979, p. 60).

O autor sugere que, portanto, seja reformulada a educação, e o arauto dessa reforma seja o tutor em questão. Ele defende que a educação não seja ministrada de forma a lapidar o indivíduo utilizando como instrumento o professor, mas que seja conferida ao tutor a responsabilidade de preservar a criança de modo que ela venha a aprender o necessário pela experiência própria, sem se deixar influenciar por qualquer elemento corruptível. Utiliza-se a denominação “educação negativa” para indicar a forma defendida

5

por Rousseau, e “educação positiva” para as práticas tradicionais, criticadas por ele. Vale ainda deixar claro que os termos “positiva” e “negativa” não dizem respeito a um julgamento de valor, mas sim ao intervencionismo direto na criança ou não, respectivamente.

4. TERCEIRO LIVRO

No terceiro capítulo é retratada a vida dos doze aos quinze anos, quando o personagem é submetido ao aprendizado de matérias especializadas e também de um ofício. Nessa fase Emílio já é considerado capaz de utilizar a razão.

Isso permite ao educador evoluir para níveis mais abstratos e complexos tanto na dimensão da educação física quanto na dimensão da educação mental, o que deverá ajudar o educando a desenvolver-se cada vez mais física e mentalmente, seja aprendendo algum ofício manual, seja aprendendo a refletir sobre questões intelectuais, sociais e morais, desde que não se perca o fio condutor da utilidade (BATISTA, 2005).

Ao evocar o fator razão, Rousseau deixa clara também a necessidade de comedi- lo com as experiências físicas, dado que faz parte do próprio projeto da natureza estimular e consolidar a racionalidade do homem. A exemplo, ele sugere que, se há a pretensão de ensinar o adolescente sobre o movimento dos astros, que lhe seja mostrado o nascer do sol, para que sem alegorias desnecessárias ele possa entender a dimensão real do que é estudado. Nas palavras do próprio autor: “Não façais para a criança discursos que não pode compreender. Nada de descrições, nada de eloquência, nada de figuras, nada de poesia. Não se trata agora de sentimento, nem de gosto. Continuai a ser claro, simples e frio” (ROUSSEAU, 1979, p. 134). Somente deveria se mostrar o símbolo ou imagem do objeto de estudo caso este não possa, por qualquer motivo, ser apresentado diretamente, pois o simbolismo absorveria a atenção da criança e a faria esquecer-se do objeto em si, desassociando as dimensões conceitual e física.

Nessa mesma fase, Rousseau introduz o ensino de um ofício à criança. Ele salienta a importância de não fazer com que tal aprendizagem se torne um enfado para Emílio. Para tanto, é importante que o mestre não crie expectativas exageradas ou assuma que o aprendiz tenha os mesmos gostos que ele.

A criança deve estar bem interessada na coisa: mas vós deveis estar inteiramente atento à criança, observá-la, fiscalizá-la sem cessar e sem que isso se perceba, pressentir todos os seus sentimentos, e prevenir os

6

que não deve ter, ocupá-la, enfim, de maneira que não somente se sinta útil à coisa como ainda que com ela se agrade à força de bem compreender para que serve o que faz (ROUSSEAU, 1979, p. 154).

O autor coloca ainda que o ofício a ser ensinado deve ser condizente com os

gostos e aptidões da criança, uma vez que somente dessa forma ela atingirá um estado de plenitude e identificação com seu trabalho. Isso reafirma a necessidade de um ensino quase completamente voltado para o indivíduo, já que as necessidades, faculdades e preferências variam entre as pessoas. Nas palavras do próprio autor: “Seja como for, meu método é independente de meus exemplos; assenta na medida das faculdades do homem em suas diversas idades e na escolha das ocupações que convêm a suas faculdades(ROUSSEAU, 1979, p. 157).

5. QUARTO LIVRO

O quarto capítulo apresenta diversas outras dimensões do adolescente. Dentre

outras, são observadas inclinações sociais, religiosas, sentimentais e morais. Além disso, é

introduzido ainda o fator das paixões: “No livro IV, Rousseau expõe Emílio também como um ser passional, uma vez que as paixões, ou seja, os desejos, as emoções ou os sentimentos, são elementos que fazem igualmente parte da condição humana, ao lado da razão” (BATISTA, 2005). Surge aí a necessidade de ensinar a Emílio a ter controle sobre estas, já que elas podem obscurecer ou mesmo obstruir completamente a razão. De fato, seu efeito pode ser tão danoso que não se descarta a possibilidade de o indivíduo passar a sentir, agir e pensar de forma excessivamente passional continuamente, prejudicando assim toda a sua trajetória desse ponto em diante.

Para Rousseau, o equilíbrio deveria ser atingido usando como ferramenta a religião e a moral. No entanto, defende que não se deve seguir pensamentos e doutrinas padronizadas, relegando muito de tal disciplina à própria natureza do homem.

Ele espera responder aos problemas religiosos e morais de sua época argumentando que existe uma religião natural, da qual se pode extrair uma moralidade também natural, que dispensa o fanatismo e o pertencimento a determinada instituição religiosa, visto que as diversas religiões ou igrejas disputavam entre si a hegemonia, mergulhando a sociedade e a política num oceano turbulento de conflitos intermináveis, promovendo perseguições, torturas e mortes (BATISTA, 2005).

7

O autor defende que a solução seria o indivíduo atingir um estado em que ele seja

capaz de respeitar toda e qualquer convicção moral e religiosa dos demais, sem no entanto se deixar levar por ideias de superioridade ou fanatismo. Para muitos, passagens como essa são fatores indicantes de subversão, tanto que por obras como Emílio, Rousseau “foi perseguido pelos protestantes, mas a convite do filósofo Inglês David Hume refugiou -se na Inglaterra” (FRAZÃO, 2017).

Vale lembrar que as paixões não são inerentemente boas ou ruins para o indivíduo, mas devem o tempo todo ser comedidas pela razão, de modo a evitar excessos e assim não permitir a predominância descontrolada das mesmas. Através das paixões, Rousseau resgata a dimensão emocional/sentimental humana, cunhando assim mais uma crítica ao racionalismo extremo de sua época, que para muitos teóricos recriminava tudo o que não é racional, bem como o mecanicismo dos processos educativos vigentes.

6. QUINTO LIVRO

O capítulo final da obra retrata a formação de Emílio como adulto, englobando

aspectos como a vida social, moral e religiosa, porém mantendo os aspectos positivos aprendidos na infância e adolescência, dado que “para se alcançar uma boa educação, faz-

se necessário preservar os hábitos da infância, pois não é porque se tornou adulto que excluirá estes hábitos de quando criança; ao contrário, deve-se mantê-los” (COURA, 2005). Nessa parte o autor já passa a considerar o estudante como educado e preparado para conviver em uma sociedade que tem por característica a corrupção do ser humano em seu estado natural. Ele deve agir, portanto, como um agente influenciador em tal meio, para começar a modificar a realidade social.

Além disso, tal parte também discorre sobre a questão do casamento e educação da esposa, chamada Sofia (não por acaso o nome tem por significado, em tradução livre, o termo “sabedoria”). Tal fator chega a fim de auxiliar o protagonista, pois a fim de atingir sua plenitude como agente de influência na sociedade, ele necessita de uma companheira adequada e certa, que o compreenda e que o ame tal como é, e que, sobretudo, não ponha a perder a educação por ele recebida, razão pela qual tem de ser uma mulher educada segundo os mesmos princípios nos quais Emílio o fora” (BATISTA, 2005).

Ao introduzir a questão do casamento na vida de Emílio, Rousseau inicia uma nova discussão antes não contemplada: a convivência conjugal. Ela representa uma prova

8

de fogo para a disciplina do adulto, uma vez que, se seus sentimentos para sua esposa não forem comedidos e controlados racionalmente, existe o risco de se perder tudo o que já fora conquistado e aprendido até o momento. Surge então a necessidade de Emílio se afastar de Sofia, para que ele possa racionalizar e refletir se ela realmente é a parceira ideal. De fato, a escolha correta de uma esposa é, na visão do autor, algo de central importância para o homem, uma vez que “Sofia deve ser mulher como Emílio é homem, isto é, ter tudo o que convém à constituição de sua espécie e de seu sexo para ocupar seu lugar na ordem física e moral” (ROUSSEAU, 1979, p. 305).

O afastamento de Emílio é uma oportunidade perfeita para que ele viaje e tenha contato com diferentes culturas e realidades. Ao ter contato direto com os distintos costumes, instituições, políticas e pessoas, lhe é dada a chance de aprender por experiência em primeira mão, o que acaba por lapidar seu conhecimento cada vez mais, guiando-o à sabedoria.

Ao viajar, Emílio trava conhecimento de outros povos, com suas diferentes organizações políticas, econômicas, sociais e culturais. Ao contrário do conhecimento estritamente livresco, Emílio tem conhecimento por experiência própria, condição indispensável para se adquirir a sabedoria. O momento das viagens é o momento em que Emílio também se aperfeiçoa em seu conhecimento sobre política, indispensável ao cidadão bem educado (BATISTA, 2005).

Na viagem Emílio aprende sobre o funcionamento do Estado, bem como a utilização das políticas, leis e sistemas de governo, de seu local de origem e de outros. Isso lhe dá consciência não apenas das funções de suas lideranças políticas, mas também das potencialidades, limites e extensões das mesmas. Isso o torna um cidadão consciente de seus direitos e deveres, sendo capaz de assumir responsabilidades a nível social, sem se deixar manipular por falta de conhecimento, e dada sua educação e valores aprendidos enquanto criança e mantidos ao longo de todo o processo de educação, também não poderia ser comprado ou subornado. De acordo com o próprio Rousseau (1979, p. 375), “quereis estender por uma vida inteira o efeito de uma educação feliz, prolongai durante a juventude os bons hábitos da infância; e quando vosso aluno for o que deve ser, fazei com que seja o mesmo em todas as épocas.

Rousseau descreve Sofia de maneira detalhada, especialmente no que tange à educação e comportamento que ela deve ter, de modo a se tornar a parceira ideal para o homem educado à natureza.

9

Aluna da natureza como Emílio, ela é feita para ele mais do que qualquer outra; ela será a mulher do homem. É sua igual pelo nascimento e o mérito, inferior pela fortuna. Não encanta à primeira vista mas agrada sempre e sempre mais. Seu maior encanto se exerce aos poucos; não se desenvolve senão na intimidade das relações e seu marido o sentirá mais do que ninguém no mundo (ROUSSEAU, 1979, p. 355).

O autor defendia que a esposa ideal para Emílio deveria ser igualmente educada, porém menos instruída, ou seja, ter toda a predisposição para o aprendizado, porém com um nível inferior de informação. Seria essencial que ela tivesse lido poucos livros, porém que já tivesse passado pela experiência da leitura engajada. Dessa forma, a mulher se tornaria discípula do marido, e não mestra dele. Ela aprenderia e adotaria os gostos e hábitos do cônjuge, sem impor os seus próprios a ele, e por sua vez, seu companhe iro teria todo o prazer de ensiná-la tudo o que fosse necessário. Era, portanto, alguém apta o suficiente para auxiliar e apoiar com inteligência, porém sem a instrução nem a ambição necessárias para dominar. A bem saber, Rousseau a via como “uma terra bem preparada e que só espera a semente para produzir” (ROUSSEAU, 1979, p. 356).

Ao retornar da viagem, Emílio está pronto para assumir seu papel como cidadão, chefe de família e futuro pai, casando-se com Sofia. Suas paixões já foram dominadas e o necessário já foi aprendido. Ao iniciar tal etapa, o protagonista deve estar pronto para assumir novas responsabilidades não apenas no campo social e material, mas também no intelectual. A partir do momento que ele se torna pai, surge a necessidade de tornar -se mestre, e passar para a geração seguinte a forma e os valores com que foi educado.

Ao final da obra, Rousseau retoma a ideia da satisfação e plenitude que tal método educacional é capaz de providenciar:

Imaginais meu Emílio, com pouco mais de vinte anos, bem formado, bem constituído de espírito e de corpo, forte, sadio, bem disposto, hábil robusto, sensato, dotado de razão, de bondade, de humanidade, de bons costumes, de gosto, amando o belo, fazendo o bem, liberto do império das paixões cruéis, isento do jugo da opinião, mas submisso à lei da sabedoria, e dócil à voz da amizade; possuindo todos os talentos úteis e vários talentos agradáveis, preocupando-se pouco com as riquezas, carregando seus recursos nas mãos, não tendo medo de carecer de pão, em nenhuma circunstância (ROUSSEAU, 1979, p. 363-364).

Por fim, Emílio comunica a Rousseau que em breve se tornará pai, e pede para que ele continue a auxiliá-lo na educação de seu filho. Tal passagem representa o ápice do

10

sucesso do modo de ensino, pois o educado, que se tornou um cidadão pleno, deseja que seu próprio descendente tenha o mesmo ensino.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em um primeiro momento, pode-se observar que Rousseau não trouxe grandes preocupações com um rigor teórico-filosófico em sua obra, pois assumidamente ele quis produzir um estudo que pudesse auxiliar o educador no campo prático. Trata-se, portanto, de um documento de cunho muito mais especulativo sobre o âmbito educacional. No entanto, é possível perceber a filosofia sobre educação característica do autor.

Rousseau traz à tona toda a problemática do seu tempo no que tange a formação e papel do professor, bem como sobre a metodologia de ensino. Seguindo seu preceito de que a sociedade é um ente corruptor da natureza humana, o autor relega a educação às experiências sensíveis e naturais, salvo quando não houver a possibilidade de fazê -lo vivenciar diretamente. Todo esse processo deve ser intermediado e minimamente guiado por um tutor, que será responsável por guiar o aprendiz para que ele tire o máximo de tal jornada.

A obra retrata o processo de crescimento e amadurecimento do protagonista até o momento em que ele se torna mestre por si mesmo. As divisões e a preocupação específica com cada uma das fases indicam que o processo como um todo deve ser mutável e adaptável, alterando-se de acordo com as necessidades do aprendiz. Admite-se aí o fato de que cada sujeito é singular e possui diferentes demandas. Além disso, a trajetória contempla elementos como relacionamentos, ensino de um ofício, cidadania e política. Isso demonstra que Rousseau via o processo educativo como integral e indissociável da vida pessoal do indivíduo. Ele não pode, portanto, ser delimitado a certo horário em dada instituição, sem haver preocupação em outros momentos.

Configurando-se em uma incisiva crítica ao sistema de ensino de sua época, a obra gerou uma série de problemas para o autor, sendo proibida em certos lugares e até mesmo forçando Rousseau a se mudar, a fim de evitar maiores complicações. O trabalho é imbuído da noção do autor de sociedade corruptora, e a educação tem seu papel no sistema como instrumento perpetrador de tal corrupção. Tendo isso em mente, é de se esperar que ele sofresse duras críticas das entidades que controlavam o sistema e a metodologia de ensino.

11

Apesar de ser uma obra de cunho prático, Emílio traz reflexões importantes sobre o processo educativo, sobretudo ao explicitar que a educação ideal deve ser um processo individual e contínuo, que seja capaz de explorar as potencialidades de cada um da melhor forma possível, porém sem forças valores explicitamente adultos na criança ou no adolescente. Além disso, a defesa do aprendizado por meios majoritariamente práticos denota a predileção do autor para tanto, em detrimento da teoria pura. Por fim, é importante salientar que a obra eventualmente obteve uma grande projeção por seus elementos inovadores, em especial servindo como inspiração para o sistema educacional após a Revolução Francesa.

12

8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BATISTA, Gustavo Araújo. Emílio ou da Educação: as categorias axiológicas do pensamento educacional e pedagógico de Jean-Jacques Rousseau Chaves para uma

possível reflexão sobre a formação do professor. In: II COLÓQUIO ROUSSEAU, 2005,

Campinas. Anais

Campinas, 2005.

COURA, Aline Sarmento. Princípios fundamentais da educação em Rousseau. In: II

COLÓQUIO ROUSSEAU, 2005, Campinas. Anais

Campinas, 2005.

FRAZÃO, Dilva. Biografia de Jean-Jacques Rousseau. Disponível em https://www.ebiografia.com/jean_jacques_rousseau/. Acesso em 01/10/2017.

OLIVEIRA, Fernando Bonadia de. O Emílio de Rousseau: uma obra de Pedagogia? Filosofia e Educação, vol 4, n 2. Out. 2012 Mar. 2013.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou Da educação. Tradução: Sérgio Milliet. São Paulo:

Difel, 1979.

Emílio ou Da educação. Tradução: Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

SILVA, Dail Nelsy. Emílio ou da Educação: Sobre a Arte de Educar. Dissertação (Mestrado em Educação), 121 p. Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Centro de Ciências da Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação. Florianópolis, SC, 2016.