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FUNDAÇÃO VISCONDE DE CAIRU

FACULDADE VISCONDE DE CAIRU


CEPPEV – CENTRO DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA VISCONDE DE CAIRU
MESTRADO PROFISSIONAL MULTIDISCIPLINAR EM DESENVOLVIMENTO HUMANO E
RESPONSABILIDADE SOCIAL

IURI BRANDÃO NASCIMENTO

O FUTEBOL COMO AGENTE DE INCLUSÃO SOCIAL:


UM ESTUDO SOBRE O DESENVOLVIMENTO HUMANO A PARTIR
DAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS EM ESCOLINHAS DE FUTEBOL DE
SALVADOR - BA

SALVADOR – BA
2009
IURI BRANDÃO NASCIMENTO

O FUTEBOL COMO AGENTE DE INCLUSÃO SOCIAL:


UM ESTUDO SOBRE O DESENVOLVIMENTO HUMANO A PARTIR
DAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS EM ESCOLINHAS DE FUTEBOL DE
SALVADOR - BA

Dissertação apresentada ao curso de Mestrado


Profissional Multidisciplinar em Desenvolvimento
Humano e Responsabilidade Social da Fundação
Visconde de Cairu, Salvador-Bahia, como parte
dos requisitos para a obtenção do título de Mestre
em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade
Social.

Orientadora:
Profª. Dra. Nívea Maria Fraga Rocha

Salvador – BA
2009
Nascimento, Iuri Brandão.
O futebol como agente de inclusão social: um estudo sobre o
desenvolvimento humano a partir das práticas pedagógicas nas
escolinhas de futebol de Salvador / Iuri Brandão Nascimento;
Salvador, 2009.
86.

Dissertação (Mestrado) – Mestrado Profissional em


Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social. Fundação
Visconde de Cairu. Faculdade Visconde de Cairu. CEPREV –
Centro de Pós-Graduação e Pesquisa Visconde de Cairu, 2009.

1. Escolinhas de Futebol. 2. Desenvolvimento Humano. 3.


Prática Pedagógica. I. Rocha, Nívea Maria Fraga, orientadora. II.
Fundação Visconde de Cairu. Centro de Pós-graduação e
Pesquisa Visconde de Cairu. III. Título

CDU - XXXXX
IURI BRANDÃO NASCIMENTO

O FUTEBOL COMO AGENTE DE INCLUSÃO SOCIAL:


UM ESTUDO SOBRE O DESENVOLVIMENTO HUMANO A PARTIR
DAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS EM ESCOLINHAS DE FUTEBOL DE
SALVADOR - BA

Dissertação apresentada ao curso de Mestrado Profissional


Multidisciplinar em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social
da Fundação Visconde de Cairu, Salvador-Bahia, como parte dos
requisitos para a obtenção do título de Mestre em Desenvolvimento
Humano e Responsabilidade Social.

23/11/2009

Profª. Dra. Nívea Maria Fraga Rocha


Orientadora – Presidente da Banca

Profª. Dra. Maribel Oliveira Barreto


Componente da Banca

Prof. Dr. Hélio José Bastos Carneiro de Campos


Componente da Banca
Dedico este trabalho à minha família. Em especial, aos meus irmãos (Vitor
e Lisa), e principalmente à minha mãe (Graça), pelo apoio irrestrito em todos os
momentos da minha vida.

Gostaria, também, de dedicar este trabalho ao universo de estudiosos da


área de Educação Física, em especial aos alunos e professores do Curso de
Educação Física da Rede de Ensino FTC.
AGRADECIMENTOS

Meu agradecimento muito especial à pessoa que foi muito mais que uma
orientadora, foi amiga, conselheira e paciente. Cobrando no momento certo e
apoiando sempre que necessário, exigindo disciplina. Quero agradecer de coração o
apoio e os valiosos ensinamentos dados pela professora Nívea Rocha.
À professora Noemi Salgado, pelas importantes contribuições durante as
primeiras reflexões para construção deste trabalho.
À coordenadora do curso, professora Maribel Barreto, pelo empenho para
efetivação do curso ao longo destes anos, acreditando na perspectiva de uma
formação continuada, pela via de integração de ensino e pesquisa.
À professora Bárbara Amorim, pela amizade e valiosas contribuições
desde a seleção para ingresso no mestrado.
A todos os colegas e professores que integraram o programa do curso,
com os quais foi possível estabelecer ricos diálogos, e que tanto contribuíram na
minha formação.
Aos professores Humberto Filho e Rosemary Lacerda, pela oportunidade
e confiança creditada ao longo desses dois anos.
Aos professores que integram o colegiado do curso de Educação Física da
FTC Salvador, em especial Diana Tigre, Wilson Filho e Wilkem Pimenta.
Aos professores Marcos Paulo, Cícero, Gerson e Jair, pela
disponibilidade durante a realização da parte prática da pesquisa nas escolinhas de
futebol.
Ao amigo Orlando Hage (in memorian), pela grande amizade ao longo de
dez anos de convivência, e pela oportunidade que me deu ao ingressar na carreira
universitária.
Ao trio de amigos / irmãos, Carlos Gustavo, Henrique César e Luis
Eduardo, pela grande força.
À tia Zélia, pela tradução do resumo para língua inglesa.
À Karine pelo carinho e compreensão, que vem demonstrando durante
esse período que estamos juntos.
À minha família, pelo apoio e grande incentivo.
A Deus, por existir, o meu muitíssimo obrigado!
O brinquedo essencial do homem é a bola.
Quem ganha uma bola descobre dois mundos,
o de dentro e o de fora”.

Paulo Mendes Campos


(O gol é necessário, Crônicas esportivas).
RESUMO

O futebol é o esporte mais popular e praticado no mundo, faz parte da cultura e é


uma paixão da nação brasileira e mundial. A presente pesquisa tem como objetivo
geral analisar as práticas pedagógicas adotadas pelos professores de escolinhas de
futebol, para identificar possíveis contribuições no Desenvolvimento Humano de
crianças de modo a promover a inclusão social das mesmas. Pretende-se também
como objetivos específicos: refletir sobre o futebol enquanto fenômeno esportivo,
para que possamos redimensionar seu trato pedagógico nas escolinhas; analisar
práticas pedagógicas que podem ser utilizadas em escolinhas de futebol que
favoreçam o Desenvolvimento Humano e a inclusão social; identificar conexões
entre os princípios da educação esportiva e algumas teorias acerca do
Desenvolvimento Humano, de modo a propiciar a inclusão social nas escolinhas de
futebol. Realizou-se uma pesquisa exploratória qualitativa e descritiva, com opção
por estudos de caso em 3 escolinhas de futebol de um bairro da cidade do Salvador.
Cada escolinha contemplou uma das três dimensões de escolas esportivas: social,
comercial e formativa. Como instrumento de coleta de informações, utilizou-se
entrevistas semi - estruturadas com professores que coordenam o trabalho nas
escolinhas. Para análise e interpretação das informações coletadas foi utilizada a
técnica de análise de conteúdo, sendo necessário agrupar as informações em torno
de quatro categorias de análise: infra-estrutura institucional, capacitação técnica-
científica dos professores, organização pedagógica, metodologias adotadas. As
informações evidenciaram ser o professor de Educação Física que trabalha com o
Futebol nas escolinhas, o principal responsável pela formação integral de crianças,
introduzindo estratégias de ensino compatíveis aos interesses, necessidades e
possibilidades das mesmas, promovendo-as e elevando a qualidade das aulas. Num
processo contínuo de reflexão, o professor precisa criar e re-criar uma pedagogia
comprometida com o desenvolvimento humano de crianças, numa perspectiva
emancipatória que favoreça a cidadania, tendo o futebol como agente de inclusão
social.
.

Palavras-chave: Escolinhas de Futebol. Desenvolvimento Humano. Prática


pedagógica. Inclusão social.
ABSTRACT

Soccer is the most popular and practiced sport in the world, it’s is part of the culture
and also a passion of the Brazilian nation and the world. This research aims to
analyze teaching approaches used by teachers of soccer schools, to identify possible
contributions to human development of children in order to promote their social
inclusion. It is also intended as specific objectives: to address soccer as a
phenomenon of sports, so that we can resize its educational approach in small
soccer schools, examining teaching practices that can be used in soccer schools
and that promote human development and social inclusion and to identify possible
contributions of the theory about the process of human development in order to foster
social inclusion in soccer schools. A qualitative and descriptive exploratory research
was done, with an option for a case study on 3 soccer schools in a district of
Salvador city. As a tool for gathering information, we used structured interviews to
teachers that coordinate the school works. For the analysis and interpretation of the
information collected it was used the technique of analysis of content about the
teaching practices it was necessary to group the data into four categories of analysis:
institutional infrastructure, teachers’ technical and scientific skills, educational
organization, the methodologies adopted. The research showed that it’s the physical
education teacher who works in the soccer schools, the main agent responsible for
the formation of children and as whole, introducing teaching strategies compatible
with their interests, needs and possibilities , promoting and raising the quality of the
classes. In a continuous process of reflection, the teacher needs to create and re-
create a pedagogy committed to human development of the children and
adolescents, in a emancipatory perspective that promotes citizenship with soccer as
an agent of social inclusion.

Keywords: Human Development. Soccer schools. Social Inclusion. Teaching


practice.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 – Escolinha de Futebol A - Dimensão Social


Figura 2 – Escolinha de Futebol B - Dimensão Comercial
Figura 3 – Escolinha de Futebol C - Dimensão Formativa
LISTA DE ABREVIATURAS

CREF - Conselho Federal de Educação Física


FIFA - Federation International Football Association
IES - Instituição de Ensino Superior
FAB - International Football Association Board
ONU - Organização das Nações Unidas
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 13

1 O FUTEBOL ENQUANTO FENÕMENO ESPORTIVO 17

1.1 PRIMEIROS CHUTES: CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA 20


1.2 PAPEL DO FUTEBOL NA SOCIEDADE 25

2 A PEDAGOGIA DAS ESCOLINHAS DE FUTEBOL 35

2.1 A CRIANÇA, A PRÁTICA ESPORTIVA E O FUTEBOL 41


2.2 A INICIAÇÃO NO FUTEBOL E A COMPETIÇÃO ESPORTIVA 46

2.3 ALTERNATIVAS PARA O PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM DO 49


FUTEBOL EM ESCOLINHAS

2.3.1 Pedagogia do Futebol: A teoria de João Batista Freire 50

3 EDUCAÇÃO ESPORTIVA PARA O DESENVOLVIMENTO HUMANO: 55


INCLUSÃO SOCIAL NAS ESCOLINHAS DE FUTEBOL

4 ESTUDOS DE CASO EM AÇÃO: ANÁLISE E DISCUSSÃO 60

4.1 ELABORAÇÃO DO ROTEIRO DE ENTREVISTAS 63

4. 2 CARACTERIZAÇÃO DAS UNIDADES DE ESTUDO 63


4.2.1 Escolinha de Futebol A 64
4.2.2 Escolinha de Futebol B 65
4.2.3 Escolinha de Futebol C 66

4.3 ESCOLINHAS DE FUTEBOL: PERCEPÇÕES DOS SUJEITOS 67

CONCLUSÃO 73

REFERÊNCIAS 76

APÊNDICES 81

APÊNDICE A: ROTEIRO DE ENTREVISTAS 82


APÊNDICE B: COMPILAÇÃO DOS PLANOS DE AULAS 86
13

INTRODUÇÃO

O futebol é o esporte mais popular e praticado no mundo, faz parte da


cultura e é uma paixão da nação brasileira e mundial. No nosso país é
representado, pela sua abrangência cultural, e como diz Da Matta (1997), um
eleitoral instrumento para diversos usos no cenário brasileiro. Para os políticos e a
cartolagem1, em função de o futebol mobilizar grandes legiões de fanáticos, tem
servido para alavancar o seu poder e sua capacidade de barganhar favores. Para a
mídia em geral, representa um largo campo para a veiculação de ideologias e
atitudes, além de associar produtos através de espaços publicitários, fato que lhe
atribui um enorme poder econômico. A influência da mídia televisiva é tão marcante
que, por vezes chega interferir nas regras dos esportes, na organização dos
campeonatos oficiais, determinando o calendário, os horários e locais dos jogos, as
formas de disputas. Para os jogadores e o povo em geral, representa também pelo
menos no imaginário, oportunidade e ascensão econômica e de alcançar um status
social mais elevado, principalmente nas classes populares, que vêem no esporte
uma das únicas possibilidades de ascensão na vida. O jogador é o protagonista do
espetáculo. Ele o produz na sua etapa mais importante.
Ser jogador de futebol é o sonho de muitas crianças em nosso país. Freire
(2003), cita que jogar bola (jogar futebol) tem sido a maior alegria da infância
brasileira, sobretudo da infância mais pobre e masculina, dos garotos de pés
descalços, das periferias, dos lugares onde sobra algum espaço para brincar.
Freire (2003) e Venlioles (2004) explicam que, no tempo em que havia
mais espaço e brincadeiras nas ruas, nem fazia sentido falar de Escolas de Futebol,
mais popularmente conhecidas como “Escolinhas de Futebol”. Como o Brasil vem
sendo vítima da urbanização descontrolada (crescimento das cidades), faltam locais
para os campos de várzea2, onde se formaram grandes jogadores como, Garrincha
e Romário. Então, quando algumas pessoas das grandes cidades perceberam essa
urbanização descontrolada e constataram a escassez de espaços para jogar bola,
tiveram a iniciativa da idealização das escolinhas de futebol. Após a conquista do
tetra campeonato mundial na Copa dos Estados Unidos (1994), e a preocupação

1. O termo “cartolagem” faz alusão aos indivíduos que dirigem os clubes de futebol (presidentes,
diretores, conselheiros etc).
2. Campos de terra com terreno irregular, nos quais as crianças e os jovens do nosso país
desenvolvem suas habilidades futebolísticas.
14

dos pais com a educação e segurança de seus filhos, aumentou à procura pelas
escolinhas de futebol. De fato, dentre as escolinhas esportivas, as de futebol são as
mais procuradas, em razão da grande representatividade em nossa sociedade.
O presente estudo surgiu da necessidade de refletir os princípios que
norteiam as práticas pedagógicas dos professores nas escolinhas de futebol, diante
das atividades desenvolvidas, já que este é o esporte mais praticado no país.
Pessoas de todas as idades praticam esta modalidade esportiva. Com isso, muitos
professores pensam ser conhecedores e capazes de ensinar.
Podemos acrescentar a isso a necessidade de um maior número de
trabalhos de pesquisa na área, além de bibliografias adequadas, relacionadas ao
desenvolvimento da criança e os respectivos vínculos com a aprendizagem do
futebol.
Referenciando-se em autores importantes como Da Matta (1997) Freire
(2003), Scaglia (2005), Arruda (2006) argumentamos, na presente pesquisa,
questões pertinentes ao fenômeno esportivo (futebol) à pedagogia do esporte, além
do processo de Desenvolvimento Humano nas escolinhas.
Este estudo encontra-se inserido em um campo investigativo de
problemática significativa que busca responder aos desafios que dizem respeito a:
Em que medida as práticas pedagógicas adotadas pelos professores de escolinhas
de futebol podem contribuir para o processo de Desenvolvimento Humano de
crianças de modo a promover a inclusão social das mesmas?
O problema de pesquisa levantado propicia uma reflexão acerca dos limites e das
possibilidades de intervenção dos professores, na tarefa de ensinar futebol em
escolinhas a crianças, tendo o futebol como verdadeiro agente de inclusão social.
Partindo desse princípio, o presente estudo vem questionar, fornecer
argumentos e subsídios ao trabalho realizado pelos professores desta modalidade
esportiva.
Diante da perspectiva de estudar o futebol, a partir da problemática da
pesquisa exposta, levantamos indagações que se configuram em pontos que
ampliam as discussões, considerando as seguintes hipóteses:

1. A preocupação de um professor que vai ensinar futebol a seus alunos


deve estar centrada nas questões pedagógicas que permeiam essa
aprendizagem, ou seja, nas propostas em si, no ambiente do trabalho e
15

na metodologia a ser desenvolvida na aplicação das atividades


mostrando diferentes possibilidades de aprender um movimento.
2. Os aspectos lúdicos da pedagogia esportiva apresentam um caminho
viável e estimulante no processo de ensino–aprendizagem do futebol.
3. Ainda há uma tendência ao ensino tradicional/tecnicista que se aproxima
das características do futebol performance.

Neste sentido a investigação em curso apresenta grande relevância, pois


trata da necessidade do futebol receber maior atenção pedagógica para o seu
desenvolvimento do que vem recebendo atualmente.
Este estudo procura ainda motivar os profissionais que trabalham nas
escolinhas de futebol, para investir e aprimorar suas capacidades e conhecimentos,
para um melhor desempenho de suas funções.
O objetivo geral deste trabalho é analisar as práticas pedagógicas
adotadas pelos professores de escolinhas de futebol, e suas possíveis contribuições
para o Desenvolvimento Humano de crianças de modo a promover a inclusão social
das mesmas. Tem como objetivos específicos: refletir sobre o futebol enquanto
fenômeno esportivo, para que possamos redimensionar seu trato pedagógico nas
escolinhas; analisar práticas pedagógicas que podem ser utilizadas em escolinhas
de futebol que favoreçam o Desenvolvimento Humano e a inclusão social; identificar
conexões entre os princípios da educação esportiva a algumas teorias acerca do
Desenvolvimento Humano, de modo a propiciar a inclusão social nas escolinhas de
futebol.
A pesquisa bibliográfica foi realizada para fundamentar a problemática do
estudo. Selecionamos os trabalhos (conteúdo dos textos de livros, periódicos e
outros) de autores que almejam, com seus estudos, apontar um caminho ou
apresentar um modelo para se ensinar futebol às crianças, além da minha
experiência profissional enquanto professor desta modalidade.
A opção metodológica foi o Estudo de Caso (YIN, 2002), em três
escolinhas de futebol de um bairro da cidade do Salvador. Cada uma das escolinhas
contemplou uma das três dimensões de escolas esportivas apontada pela literatura,
ou seja, a dimensão social, a comercial e a formativa. Para coleta de informações
foram utilizadas entrevistas semi - estruturadas com três professores que
coordenam o trabalho nas escolinhas. Para facilitar a análise de conteúdo (BARDIN,
16

2004), as informações coletadas a respeito das práticas pedagógicas foram


agrupadas em torno de quatro categorias de análise: infra-estrutura institucional,
capacitação técnica-científica dos professores, organização pedagógica e
metodologias utilizadas nas aulas. Enfim, a estrutura da dissertação está
apresentada em quatro capítulos:
O primeiro, “O futebol enquanto fenômeno esportivo”, enfatiza a
necessidade de analisar os diversos fatores culturais, sociais e históricos desta
modalidade, e o contexto em que está inserido em nossa sociedade.
O segundo, “A pedagogia das escolinhas de futebol”, elucida questões
relacionadas à criança, a atividade física, a iniciação esportiva, o trato pedagógico
diante da competição e a especialização precoce. Aponta uma metodologia
alternativa para o ensino do futebol nas escolinhas tomando como referência a
experiência do professor João Batista Freire e sua pedagogia de rua.
O terceiro, “Educação esportiva para o Desenvolvimento Humano: inclusão
social nas escolinhas de futebol” apresenta conexões entre os princípios da
educação esportiva e algumas teorias acerca do Desenvolvimento Humano, de
modo a propiciar a inclusão social nas escolinhas de futebol.
O quarto, “Estudos de caso em ação: análise e discussão”, representa o
cerne dessa dissertação, pois traz a apresentação e análise das informações
coletadas, onde se expõe e examina as contribuições das práticas pedagógicas
adotadas pelos professores de escolinhas de futebol para o processo de
Desenvolvimento Humano de crianças e conseqüente inclusão social das mesmas.
E, por último, a conclusão decorrente da análise construída à luz da
fundamentação teórica que embasou a presente dissertação, apontando caminhos
para uma pedagogia que contemple o prazer de jogar de muitas crianças em nosso
país, sem perder de vista a possibilidade do Desenvolvimento Humano e inclusão
social.
17

1 O FUTEBOL ENQUANTO FENÔMENO ESPORTIVO

“O futebol ainda é a melhor metáfora do Brasil como um todo”.

Carlos Heitor Cony, jornalista.

O presente capítulo objetiva refletir sobre o futebol enquanto fenômeno


esportivo, para que possamos redimensionar seu trato pedagógico nas escolinhas.
Será que as escolinhas de futebol investem em uma metodologia de ensino que
reflita sobre esse fenômeno esportivo? Quais os reflexos tem tido as escolinhas de
futebol a partir da prática dissociada de uma teoria que levem ao entendimento do
fenômeno futebol enquanto prática pedagógica?
Para que tenhamos conhecimento dos aspectos que envolvem a iniciação
esportiva em escolinhas (escolas de esporte) e especificamente, o ensino do futebol,
é necessário analisarmos os diversos fatores culturais, sociais e históricos deste
fenômeno esportivo, e o contexto em que está inserido em nossa sociedade.
Apesar de sua origem etimológica latina, a palavra esporte vem do inglês
sport. Conforme Werneck (1997), esta expressão alterou os significados do francês
desporte e do espanhol deporte, vocábulos usados, tradicionalmente, com os
sentidos de jogos e recreações.
Para muitos estudiosos, o esporte como realização humana, está
permeado pela complexidade da vida das sociedades que o produzem; ou seja, que
ele não se faz apenas por motivações puramente “esportivas”, mas também pelos
diversos interesses e contradições presentes no contexto social. Na verdade, não
nos importa, então, como os professores de Educação Física, tão somente
produzirem o esporte, e sim buscar compreendê-lo e discuti-lo enquanto realização
humana e social.
De Paula (1997) esclarece que, o esporte, enquanto fenômeno
contemporâneo mundial, apesar de ter assumido as características hegemônicas
das sociedades em que se inseriu, foi também influenciado por interesses
regionalistas específicos a cada modalidade, considerando o ambiente cultural em
que se desenvolvem. No que diz respeito ao futebol, relata que:
18

Nesse sentido podemos dizer que o futebol no Brasil, como fenômeno


sociocultural, além de ter sido impulsionado pela força de um movimento em
nível mundial, assumiu também diretrizes e características específicas que
retratam as peculiaridades do encontro da cultura brasileira com o
fenômeno esportivo, numa construção historicamente colocada pela
interface de seus atores sociais com o cotidiano desse esporte no país (DE
PAULA, 1997, p.289)

O objetivo, a natureza, e as características do esporte dizem respeito


invariavelmente ao sentido de competição entre dois ou mais grupos de interesse,
que se concretiza através de alguma atividade motora, e na qual há o
estabelecimento de um vencido e um vencedor. As diferentes instalações,
equipamentos e outras peculiaridades que compõem esta prática caracterizam
diferentes modalidades esportivas, e não esportes. O conceito de esporte, segundo
Oliveira (2000, p.28), se remete a:

[...] uma competição que permita a comparação de resultados obtidos por


dois ou mais grupos de interesse deva apresentar critérios bem definidos
para a aferição dos mesmos, além de normas e regulamentos
internacionalmente aceitos. De um modo geral, os melhores desempenhos
e resultados deverão surgir em conseqüência, entre outros fatores, do nível
de habilidade dos participantes e da dedicação dos mesmos em termos de
tempo despendido na preparação para a competição esportiva.

O autor considera que, é essencial um estudo científico e acadêmico do


esporte, por se tratar de um fenômeno cultural de grande repercussão, tanto na
mídia eletrônica quanto na impressa. O convívio da organização social com o futebol
é um aspecto que não deve passar despercebido. Quanto à estrutura administrativa
da mesma, é comum a existência de entidades ligadas ao esporte, tais como
Secretarias, Conselhos, Comitês, Departamentos, Confederações, Federações,
Ligas, Associações e Clubes (OLIVEIRA, 2000).
Outra questão que é ressaltada pelo mesmo autor é a discussão baseada
na premissa de que esporte não é sinônimo de Educação Física. Ele cita Augelli
(1987) ao explicar que esta confusão ocorre devido à maioria das modalidades
esportivas, inclusive o futebol apresentarem como ponto comum à atividade física3.
Além disso, os professores no ambiente escolar são tão esportivos no tratamento da
Educação Física, que as modalidades terminam por se transformar em objetivos a
serem almejados. No entanto, esta diferença se faz bem clara, quando se remete ao

3. Qualquer movimento corporal produzido pela musculatura esquelética, que resulta em gasto
energético (PITANGA, p. 15, 1998). É importante ressaltar que as atividades físicas (motoras),
características do futebol devem ser cuidadosamente sistematizadas durante o processo de ensino.
19

âmbito do Conselho Federal de Educação Física (CREF), que as considera como


duas habilidades específicas e diferenciadas: habilitação de professor de Educação
Física e habilitação em técnico de desportos (OLIVEIRA, 2000).
Para Bracht (1995), é importante situar que o advento da modernidade fez
surgir o fenômeno esportivo. Segundo ele, o processo de construção do esporte
moderno sofre influência das transformações socioculturais e absorve uma série de
características da sociedade moderna. Diante desse aspecto, a racionalidade
científica característica da modernidade, cujo paradigma hegemônico está
direcionado para a identificação das leis inerentes as coisas ou fenômenos, com a
finalidade de maior poder e controle sobre elas, foi co-produtora do esporte
moderno. Neste contexto, pelo fato do futebol ter adquirido uma importância, sócio-
política, e mais recentemente econômica, requisitou os serviços da ciência,
objetivando garantir o sucesso4 dos resultados esperados nas competições,
apagando assim o acaso dos acontecimentos.
Por este motivo, segundo o mesmo autor, os interesses que norteiam a
produção de conhecimento são fundamentalmente os interesses técnicos, estando
num plano muito secundário os interesses práticos e emancipatórios. Isso ocorre
também nas Ciências do Esporte, extraindo da racionalidade o que ela tem como
essência, que é refletir levando em consideração os interesses globais da
sociedade. Então, a comunidade das Ciências do Esporte perdeu a capacidade de
refletir sobre o seu sentido numa perspectiva que não seja funcional e pragmática5.
Perdeu, portanto, sua capacidade de auto-reflexão e de discussão sobre o sentido
da prática científica no âmbito das Ciências do Esporte (BRACHT, 1995).
Percebemos, entretanto que a manifestação esportiva que mais mexe com
o nosso sentido de brasilidade, é o Futebol, que se constituiu ao longo do século XX
como a modalidade esportiva mais popular do planeta. Considerando que o esporte
é uma prática cultural tão significativa quanto o carnaval, o cinema, a música,
nenhuma dessas manifestações, todavia, consegue como o Futebol mobilizar tanta
gente ao mesmo tempo, mexendo tão forte com o a “alma” do brasileiro.
Melo (2000), ressalta que o Futebol é um fenômeno mundial e esclarece tal
fato com algumas evidências: existem mais países filiados a FIFA (Federation

4. O sucesso está associado a um melhor desempenho técnico, tático, físico e psicológico,


possibilitando a conquista de vitórias e títulos em competições.
5. Segundo Ferreira [s.d.], suscetível de aplicações práticas; voltado para a ação.
20

International Football Association), entidade mundial que “controla” o Futebol, do que


a ONU (Organização das Nações Unidas).
Segundo Turíbio (2004), a FIFA possui mais de 200 milhões de atletas
registrados, sendo 204 paises filiados em toda parte do mundo. Outro dado
relevante é a mobilização para uma Copa do Mundo, competição que atrai mais
público no local e através das transmissões esportivas pelo rádio, televisão e mais
recentemente pela internet do que os Jogos Olímpicos, que reúne mais de vinte
modalidades esportivas, em competições realizadas á cada quatro anos.
Portanto, faz-se necessário uma reflexão cuidadosa do futebol enquanto
fenômeno esportivo, para que possamos redimensionar seu trato pedagógico nas
escolinhas.

1.1 PRIMEIROS CHUTES: CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

Segundo Freire (2003), muitos podem até pensar que inventamos o futebol,
tamanho nosso sucesso com a bola nos pés. Somos, como dizem alguns
especialistas, “a pátria de chuteiras”, já que conquistamos cinco vezes a Copa do
Mundo (maior competição futebolística do planeta) e outros tantos títulos e vitórias
que nos colocaram como “magos” na arte de jogar com os pés.
Mas, quem inventou o futebol? Chineses, japoneses, gregos, franceses,
ingleses, todos reivindicam para si a paternidade do futebol. (UNZELT, 2002). Muitos
são os que afirmam que as origens do futebol se perdem no tempo. Melo (2000) e
Unzelt (2002) citam que, na verdade, não existe registro consensual sobre os
primeiros indícios dos jogos com bola que originaram a prática do Futebol. Aquino
(2002) menciona um levantamento feito por historiadores e arqueólogos de que
seriam o Egito e a Babilônia os pioneiros na prática de algo que lembrava o futebol
praticado por nós brasileiros. No entanto, revela que informações mais precisas se
referem aos países asiáticos essa condição. Na China, por exemplo, existia um jogo
chamado "tsutchu" (golpe na bola com o pé), que era praticado por volta de dois mil
e trezentos anos atrás, no período da dinastia Han (202 a.C. - 226 d.C.). Baixos-
relevos referentes à dinastia Ming (1368 - 1644) revelam que este jogo era praticado
em três modalidades, como mostra a passagem de Aquino (2002, p. 11).
21

Em uma delas, havia a participação de um único jogador fazendo


malabarismos com a bola. Outra modalidade envolvia a competição entre
duas equipes empenhadas em lançar a pelota sobre uma rede no meio do
campo. Aos adversários cabia evitar que a bola tocasse o solo antes de ser
devolvida à outra metade do campo. A terceira modalidade opunha duas
equipes empenhadas em arremessar a bola em algo parecido com gols
colocados em cada canto do campo [...].

Da mesma forma, segundo o autor, no Japão, há mais de dois mil anos,


existiu uma prática semelhante chamada de “kemari” (ke = chutar, mari = bola),
utilizada primeiramente como treinamento militar (por fortalecer os membros
inferiores) e esporte da nobreza. Em Quioto e em outras cidades japonesas, sua
prática estava associada à religião predominante no país, o xintoísmo. Era jogado
em torno de uma cerejeira (árvore repleta de simbolismos para os japoneses) por
oito participantes divididos em duas equipes, num campo quadrado, com uma bola
redonda de cerca de 22 centímetros e recheada com crinas de cavalo. Consistia em
tocar a bola para o adversário depois de passá-la sobre uma linha de corda elevada
a uns dois metros e firmada por dois postes. Os vencedores poderiam ser premiados
com flores ou lingotes de prata. Porém, ambas as atividades eram muito mais uma
exibição de habilidade com a bola do que efetivamente uma competição esportiva.
Ainda hoje o kemari é considerado um esporte japonês tradicional. (UNZELT, 2002).
Unzelt (2002) e Saldanha (1971) mencionam o aparecimento do jogo com
bola por volta de 2500 a.C., sendo China e Japão, os países onde encontraram um
maior desenvolvimento. Isto porque, inventaram primeiro uma bola de melhor
qualidade, feita de fibras de bambu, que tinha certa flexibilidade e até pulava, em
contraposição a outras de bronze, ocas, ou mesmo de couro cheias de palha,
serragem ou areia. Também há registro de outras civilizações que tinham suas
modalidades de futebol, como os gregos, romanos e inclusive os povos indígenas da
América pré-colombiana, entre eles tehuelches, araucanos e maias, os últimos
apresentando formas de disputa muito desenvolvidas. Segundo Saldanha (1971)
quando Hernán Cortez chegou ao planalto mexicano, por volta de 1520, encontrou
os maias praticando um jogo de bola numa quadra de mais ou menos quarenta
metros de comprimento por quinze de largura, que possuía um disco vertical
pregado numa parede a pouco mais de dois metros do chão. Havia dois times, de
seis jogadores cada um e eram marcados pontos ao atravessar a bola (que quicava)
pelo arco, muito semelhante ao basquete que nós conhecemos, mas com o disco
vertical e não horizontal.
22

Unzelt (2002) esclarece que, no centro das duas linhas de fundo, havia
dois templos elevados, onde o atirador – mestre da equipe perdedora era
sacrificado. Seus restos mortais eram oferecidos a jaguares e serpentes.
De acordo com Saldanha (1971), mesmo com tantas atividades com bola,
nas quais eram utilizados os pés por diversos povos, apenas aconteceram
modificações importantes e elementos novos, depois de quase mil anos após a
queda do Império Romano. No final do século XV, em Florença (Itália), aparecia um
jogo mais esquematizado e com algumas leis claras denominado “calccio”, que em
muito se aproxima do futebol moderno. Havia duas balizas (ou barracas), uma de
cada lado do campo, cuja finalidade, era colocar a bola dentro delas. Contudo, cada
equipe possuía vinte e sete participantes e a bola era feita de qualquer material
cheio de palha. Devido aos inúmeros conflitos (brigas), o jogo foi proibido, ficando
restrita sua legalidade às disputas na praça pública central de Florença, onde a
torcida chegava um dia antes para poder assistir.
Da mesma forma, na Inglaterra, as primeiras disputas também eram vistas
como violentas, sendo uma forma de resolver conflitos e discussões entre feudos,
condados e pequenas vilas, e que não possuíam motivos suficientes para serem
transformadas em guerras. Estas eram mais ou menos caracterizadas por uma bola
grande colocada no centro entre um local e outro, cujo objetivo era chegar com ela
na “casa do outro”, utilizando mãos, pés, paus e objetos possíveis de arremessar.
Ao final, sempre aconteciam “combates violentos” que acarretavam enormes
prejuízos, o que levou as autoridades a proibir o jogo, tornando-se assim uma
prática clandestina. Tempos depois, Carlos II, na época rei do país, resolveu
regulamentá-lo, introduzindo regras como uso adequado de material esportivo e
número limitado de jogadores. Este jogo ficou posteriormente conhecido como
massfoot-ball. Foi proibido novamente por quase um século, reaparecendo no final
do século XVIII, bastante organizado e com muitas restrições, levando a
consolidação de duas correntes diferentes, os que jogavam com bastões e os que
jogavam com pés e mãos.
Melo (2000) argumenta que seria perigoso afirmar que tais práticas antigas
foram ás origens do futebol, embora não devamos negar que naquele período,
possamos ter herdado algumas “injunções simbólicas” 6.

6 Para Melo (2000), tais práticas contribuíram, de certa forma, para a formatação do futebol moderno.
23

Saldanha (1971) cita também um conflito quanto ao surgimento do futebol


moderno praticado por nós brasileiros. Assim como os escoceses e os alemães, os
italianos reivindicaram para si o posto (tanto que diferentemente de todos os países
do mundo, ainda chamam o futebol de “calccio”). Contudo, considera-se a Inglaterra
como a percussora do futebol moderno e organizado. Aliás, a expressão “futebol” se
origina do inglês “football” (foot, pé; e ball, bola). (Melo, 2000). O fato é que,
independentemente dessa discussão, foi na Universidade de Cambridge de onde
partiram as primeiras leis e idéias do futebol moderno. E foi no mesmo país onde foi
criada a liga inglesa e a Football Association, no ano de 1863, com o finalidade de
padronizar as regras. (UNZELT, 2002)
No entanto, por certas leis do jogo não serem muito claras, e por existir
uma variedade de interpretações delas entre clubes, cidades e países, houve a
necessidade de unificação e interpretação das regras do futebol. Assim, com a
finalidade de universalizar sua prática e defender a pureza do jogo, foi criado um
órgão chamado IFAB (International Football Association Board), mais conhecido por
International Board, responsável por toda e qualquer aprovação de lei neste esporte.
Segundo Aquino (2002), este órgão foi criado em 1886, detendo até hoje a
soberania das decisões sobre as alterações de regras. É composto por um
representante de cada uma das quatro associações britânicas (Inglaterra, Escócia,
País de Gales e Irlanda) que são fundadoras, mais o delegado da FIFA,
representando as entidades a ela filiadas, com direito a quatro votos e o voto de
minerva. (UNZELT, 2002)
De acordo com Saldanha (1971), a evolução das regras, além de permitir
ao futebol ser praticado entre equipes de todo mundo, possibilitou o aparecimento e
desenvolvimento de determinadas táticas e organizações de jogo, que por sua vez
tornaram as disputas mais agradáveis e sedutoras. Um exemplo disso foi à criação,
em 1886, da regra do off-side (impedimento), que de fato, é considerada a regra
mais polêmica entre ás dezessete existentes, visto que proporcionou uma autêntica
transformação nos sistemas táticos e posicionamento dos jogadores.
Segundo alguns historiadores, o futebol teria chegado ao Brasil com
marinheiros ingleses ou holandeses, ou por padres jesuítas que haviam trazido a
novidade da Europa.
Ainda Saldanha (1971) explica que, quem de fato trouxe o futebol para o
Brasil, foram os ingleses no final do século XIX, período de surgimento das
24

indústrias e das grandes cidades no nosso país. Nesta época, era constante o
processo de massificação do futebol na Inglaterra, atraindo gente não só para jogar
como também para assistir. Em qualquer local onde havia ingleses, era possível
constatar sua prática. Porém, não se sabe ao certo em qual cidade o futebol
apareceu primeiro, se foi no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais,
Pernambuco ou São Paulo. Todas estas cidades reivindicam para si o título,
justificando pela sua presença nas fábricas e ferrovias da época. Há controvérsias
até mesmo sobre qual o primeiro clube de futebol do Brasil. Aquino (2002) e Unzelt
(2002) constatam que foi em São Paulo onde tudo começou, inclusive é do estado o
primeiro clube que se destinou à prática deste esporte, chamado de Associação
Atlética Mackenzie College, em 1898. Contudo, Aquino (2002) afirma que o primeiro
clube criado no Brasil com este objetivo foi o Sport Club Rio Grande, em 1900, no
estado do Rio Grande do Sul. Vale ressaltar ainda, o caráter elitista do futebol
quando chegou ao Brasil, pois o esporte era praticado somente nos clubes por
homens das classes mais favorecidas, enquanto as mulheres eram apenas
expectadoras.
Segundo Unzelt (2002) e Saldanha (1971) foi Charles Miller, filho de um
cônsul britânico de São Paulo, nascido no Brasil, o grande impulsionador do futebol
no país. No ano de 1894, ao retornar da Inglaterra, trouxe em sua bagagem duas
bolas de couro, camisetas, chuteiras, calções, além das regras já formatadas pelos
britânicos. Sua contribuição foi imprescindível, pois além de ser um jogador muito
hábil e profundo conhecedor das regras, organizou competições mais importantes
no campo do São Paulo Athletic (de rugby e outros esportes). Fez isso juntamente
com um alemão chamado Hans Nobbling. Os dois eram excelentes jogadores e uns
dos poucos que jogavam com chuteiras próprias para o futebol, que só eram
confeccionadas na Europa. No início, os ingleses participavam das diversas ligas de
futebol criadas por eles mesmos, mas aos poucos foram deixando-as, e os clubes
fundados por eles que não desapareceram tornaram-se brasileiros, enfatiza
Saldanha (1971).
Nos anos que antecederam a volta de Charles Miller ao Brasil, o futebol já
era praticado, mas sem a necessária obediência às regras ou com equipes
constituídas formalmente para a disputa de competições. Em busca de modalidades
que se enquadrassem ao perfil recomendado por alguns políticos da época, as
melhores instituições de ensino do país optaram por enviar “embaixadores” a vários
25

colégios europeus. Lá, pela primeira vez, o futebol virou uma opção para o Brasil.
Este fato fez com que o Colégio São Luís de Itu (SP), dirigido por jesuítas,
escolhesse o futebol, entre outros esportes, para ser praticado por seus alunos,
relata Santos Neto (2002).
Witter (1996, p. 10-11) enfatiza a versão dos marinheiros terem praticado
futebol no Brasil antes da chegada de Miller, dizendo:

No entanto, há informações de que, antes disso, já se praticava o “jogo de


bola” no Brasil. As partidas de futebol teriam sido jogadas nos litorais de
Pernambuco e de Santos, em São Paulo. Os times adversários teriam sido
organizados por marinheiros ingleses e por brasileiros residentes nesses
locais. Essas informações são difíceis de serem comprovadas, porém
devem ter muito de verdade.

Um grande avanço para o futebol brasileiro foi dado em 1919, quando foi
organizado o campeonato sul-americano de futebol, indicando possibilidades
internacionais. O ano de 1933 também foi de grande relevância para a consolidação
da modalidade no Brasil, pelo fato de ser um marco rumo a sua profissionalização. A
partir daí, houve mudanças estruturais que gradualmente, demarcaram novas
formas de relação entre os jogadores, dirigentes, torcida e imprensa.
Embora, alguns fatos referentes ao contexto histórico do futebol não
estejam bem esclarecidos, é fundamental que busquemos entender a forma pela
qual este esporte foi difundido pelo mundo e seu papel na sociedade, pois somente
assim teremos a real dimensão da responsabilidade em ensinar futebol em
escolinhas.

1.2 PAPEL DO FUTEBOL NA SOCIEDADE

Antes de tentarmos compreender qual o sentido da prática pedagógica nas


escolinhas, é preciso saber como o futebol, se insere na sociedade brasileira. Trata-
se de um fenômeno de repercussão mundial, que movimenta milhões de cifras,
presente no cotidiano das pessoas e na imprensa diariamente. Daolio (2000, p. 50)
reforça este fato ressaltando [...] o quanto nosso cotidiano está impregnado de
termos futebolísticos, tais como “pisar na bola”, “fazer o meio campo”, “dar um
chute”, “bater na trave”, “fazer um gol de placa” e assim por diante.
26

Assim, o futebol é um dos elementos chave na cultura brasileira, e a partir


dele podemos resgatar questões extremamente relevantes para o entendimento da
história social do nosso país, em diversas perspectivas. E dada a dimensão e
relevância que atingiu hoje, é importante que tenhamos conhecimento de como se
configurou este processo e quais as características que o futebol veio adquirindo
simultaneamente às mudanças sociais pelas quais nossa sociedade veio passando,
para que possamos compreender o fenômeno em sua totalidade, ou seja,
entrelaçado pelas relações políticas, econômicas e sociais de cada momento
histórico.
Para Toledo (2000), a evolução das regras, formas e táticas de jogar
propiciam a compreensão dos significados simbólicos que permeiam as práticas
sociais entre os integrantes do futebol. Isso fica evidente quando se observa que o
futebol, passou de um aglomerado de indivíduos correndo atrás de um objeto nem
sempre esférico para uma configuração mais estável e organizada. Assim, a
alteração das regras, revela um processo crescente de disciplina e adestramento
corporal, social e moral, sendo um fenômeno que regula as atividades lúdicas, em
fusão com mecanismos similares políticos, econômicos e sociais. Por exemplo, o
ethos7 competitivo que os jogos com bola adquiriram por sua dinâmica e fruição
generalizou-se com outras dimensões da sociedade burguesa igualmente regida
pelos princípios da equivalência competitiva e individualista.
Outro exemplo do mesmo autor é que as sucessivas adaptações às regras,
de acordo com os interesses e leituras destas, estimularam a fragmentação de
estilos de jogar em diferentes locais, proporcionando maneiras e concepções
diferentes de perceber, num universo sensível, o jogo. Assim, durante a década de
30, enquanto em outros países do mundo existia um maior contato físico e uso da
força entre os jogadores durante uma partida de futebol, no Brasil a utilização da
força e do tranco (contato corporal mais intenso) era concebida como falta. Isso
favoreceu o surgimento de um estilo brasileiro de jogar, com técnicas mais voltadas
para o controle da bola ao invés do choque. Esta resistência ao uso do tranco no
Brasil é reveladora de uma característica social, no caso, um Ethos Civilizador que
servia como elemento de controle para determinados segmentos das elites que o
cultivavam e, num outro sentido, operava como um elemento de distinção social ante

7. Caráter ou atitude peculiar a determinado povo, cultura ou grupo, que o(s) distingue de outro(s)
povo(s), cultura(s) ou grupo(s). Ferreira [s.d.].
27

outras distinções futebolísticas vindas do seio das camadas mais populares. Dessa
forma, as acusações e comportamentos intimidatórios que os jogadores de estratos
sociais diferenciados recorrentemente sofriam na década de trinta, no início do
regime profissional (mais precisamente em 1933), transfiguravam o próprio campo
para adquirir os contornos de uma distinção social e simbólica coletiva e de classe
(TOLEDO, 2000).
Por outro lado, esta forma de jogar serviu como uma via de aproximação
do futebol a práticas sociais. Isso fica evidente na citação de Toledo (2000, p.34):

Se, por um lado, um certo desestímulo ao uso do tranco provinha dessas


concepções ditas 'cavalheirescas', auto-assumidas pelos segmentos
esportistas das elites, por outro, tal desestímulo encontrou também em
muitas manifestações populares, junto com a auto-defesa da esquiva social,
uma via de aproximação do futebol a certas práticas sociais. Estas se
expressavam nos variados manejos corporais e culturais disseminados
pelas populações urbanas nos ritmos, danças e lutas que privilegiavam a
ginga, o requebrar e outros movimentos como elementos estéticos e
performáticos definidores de outros modos de vida, nitidamente mais
populares, freqüentemente perseguidos e socialmente discriminados.

O autor acha que as diversas maneiras de praticar o futebol no mundo


trazem a tona, dimensões identitárias de uma dada configuração cultural. Isto quer
dizer, que as escolas e estilos de jogo, apesar de serem derivadas umas das outras,
representam a “comunidade moral” em torno de cada equipe, ou seja, são uma
representação partilhada de uma linguagem aceita coletivamente. Dessa forma, o
modo de jogar de uma seleção de futebol deveria expressar igualmente às auto–
percepções, que cada um confere a si, traduzidas na personalidade, fisionomia ou
características marcantes de cada povo. Um bom exemplo são as seleções
nacionais, caracterizadas por estilos diferentes, como a garra Argentina ou
Uruguaia, a disciplina alemã a malícia brasileira8. Contudo, isto não significa que os
padrões de jogo são fixos, pelo contrário, são fruto de uma negociação intensa,
conjuntural, inacabada e pouco consensual entre os jogadores, torcedores,
comissão técnica, diretoria, imprensa, etc. Para ele, o que define a maior ou menor
popularidade do esporte e o grau de adesão e permanência dele como popular, é
justamente essa sua capacidade de expressão da identidade nacional. (TOLEDO,
2000).

8. Ao meu entender, a malícia brasileira denota a esperteza e a malandragem, que caracteriza um


estilo de jogar futebol.
28

Além disso, deve-se ressaltar aqui que tais repertórios, por consistirem
numa linguagem codificada e aceita mundialmente, servem como um solo comum
de comunicabilidade, sendo possível através dos mesmos interpretar e ler a cultura
esportiva de outros povos.
Outra característica do nosso futebol é o pensamento “abstrato”. A crença
nos poderes sobrenaturais manifesta-se através de crendices, superstições,
mandingas, trabalhos, atos da fé católica. Aquilo que não se explica no futebol é
atribuído pelo sobrenatural de Almeida, personagem criado pelo intelectual Nelson
Rodrigues. (TOLEDO, 2000).
Portanto, segundo Toledo (2000), existe três naturezas do futebol: a
primeira consiste nas regras, onde sua formatação e universalização foram
fundamentais para afirmação e consolidação da prática esportiva no mundo, não
apenas para os jogadores, mas também para os torcedores, proporcionando
disputas com beleza, continuidade e variabilidade.
A segunda diz respeito às formas de jogo, onde sua sistematização foi
também imprescindível para popularizar o futebol e, como já foi dito, viabilizar
diversas maneiras de jogá-lo, organizando as atuações, por onde se expressam as
qualidades individuais e coletivas dos jogadores em relação, e funcionando como
uma linguagem franca entendida mundialmente.
Já a terceira natureza do jogo de futebol, se refere às representações
coletivas que consolidam as anunciadas escolas, jeitos e estilos, auto-
representações dos diferentes modos de vivenciar e entender o futebol em cada
local, com linguagem e característica próprias. Na opinião dele, é no senso comum9
que se configura de maneira mais continuada a terceira natureza do jogo.
Da Matta (1982), autor fundamental para o estudo da sociologia do esporte,
acredita que é possível realizar uma leitura do sistema social brasileiro através do
futebol, pois nesse esporte, através de dramatizações do mundo social, a sociedade
se expressa, apresenta e revela características particulares de sua cultura.
Um bom exemplo disso, para o autor, é a maneira pela qual o esporte é
conceituado no Brasil, em comparação a sociedades como a americana e a inglesa.
Nestas, o soccer, tennis, football, etc. são concebidos como “sports”. No nosso país,
diferentemente, o termo futebol é sempre precedido do qualitativo jogo, revelando

9. Do meu ponto de vista, esta expressão é utilizada para se referir a algo que é tido como verdade e
está impregnado em determinado contexto social.
29

uma associação entre estes dois fatos. Isso fica mais claro quando se observa que
no Brasil, a idéia do “jogo de azar” é indicada pela expressão jogo, enquanto que
nos EUA é designada por “gamble”, algo que está distante da atividade esportiva
propriamente dita. A própria definição da atividade esportiva do dicionário Oxford
denota esta diferença. O autor explica:

[...] a tônica da conceituação do esportivo no universo anglo-saxão é na


competição, na técnica e na força, ficando a sorte em último lugar. Parece,
pois, que nos Estados Unidos e na Inglaterra, o domínio do esporte tem
muito a ver com um realce no controle do físico e na coordenação de
indivíduos para formar uma coletividade. Tudo, enfim, que conduz a uma
luta pelo controle do mundo exterior ou do que vem de fora. Ao passo que,
no Brasil, o esporte é vivido e concebido como um jogo. É uma atividade
que requer táticas, forca, determinação psicológica e física, habilidade
técnica, mas também depende das forcas incontroláveis da sorte e do
destino. (DA MATA, 1982, p.25)

Somada a esta idéia, Da Matta (1982) enfatiza que não é por acaso que o
futebol está associado em alguns países a um sistema nacional de loteria,
atualizando todo um conjunto de valores associados ao sistema da sorte e do azar.
Para ele, este fato possibilita vários tipos de jogos serem “jogados”
simultaneamente, mas em planos diferenciados. Um jogo que se passa no gramado,
outro que se passa na vida real (jogado pela população brasileira em constante
busca de transformação do destino), e ainda um terceiro, jogado em “outro mundo”,
que são as entidades chamadas para influenciar o evento e provocar
transformações nas diferentes posições sociais. Dessa forma, enquanto jogo,
exprime um conflito entre o destino impessoal e a vontade individual revelando um
paradigma social de coletivização x individualização, de combate entre forças
coletivas do destino e as vontades individuais que buscam escapar do ciclo da
pobreza e da derrota.
O autor defende este ponto de vista, porque enxerga o futebol como
metáfora da vida (drama), capaz de expressar conflitos e ideologias nacionais. No
caso, permite expressar um conflito básico existente na sociedade brasileira entre os
homens e as forças que se colocam em seu caminho, ou seja, faz uma analogia ao
fato desta modalidade esportiva ser um sistema fechado e dotado de regras fixas, ao
mesmo tempo em que têm a vontade, esforço, planejamento, e técnica que
possibilitam mudanças. O próprio termo “destino” é uma categoria social
recorrentemente utilizada nos dois meios num “processo de alocação de
30

responsabilidades”, ou seja, na tentativa de mediar e explicar esse conjunto de


forças impessoais, incontroláveis, que movem o mundo sem a influência dos
homens, e o plano individual das biografias que interferem nesse sistema,
controláveis. Isso ocorre principalmente em sociedades onde existe a desconfiança
estrutural do sistema global de regras, do governo, e é também ponto crítico em
sociedades marcadas nem por um individualismo radical nem por um universo social
onde as relações e gradações desempenham um papel crucial na ordenação social.
A derrota que a Seleção Brasileira de futebol sofreu na final da Copa do
Mundo de 1950 (única copa sediada pelo Brasil) para a equipe do Uruguai, em pleno
Maracanã (o mais famoso estádio de futebol do país), no Rio de Janeiro, é um ótimo
exemplo da utilização da categoria destino como um “processo de alocação de
responsabilidades”. (DA MATTA, 1982). Ninguém compreendia como uma seleção
tão forte, saiu derrotada naquelas condições. O resultado foi uma busca inacabada
de explicações, desde a má sorte até a identificação de fatores raciais, no caso a
presença de três jogadores negros (Barbosa, Juvenal e Bigode), como os
responsáveis pelo ocorrido. Para este autor esta foi talvez a maior tragédia da
história contemporânea do Brasil, pelo fato de ter trazido à sociedade a sensação da
perda de uma oportunidade histórica de mostrar ao mundo a importância do Brasil
como uma nação que tinha um grande destino a cumprir. Tal decepção quanto aos
planos e motivações fez o povo se questionar se valia à pena tudo aquilo (um
grande investimento) quando no final eram sempre perdedores e a boa sorte não
lhes sorria. Isto foi retomado na conquista do tri-campeonato de futebol em 1970,
momento que representou uma espécie de vingança nacional contra essas forças
impessoais do destino que sempre insistiam em colocar o Brasil na situação de país
negativo e inferior. Ainda houve uma redefinição do valor da raça, principalmente a
negra, pois se em 1950 eles foram responsabilizados pela derrota, em 1970, um
super–negro, chamado Pelé conduziu o país a uma grande conquista. O Brasil se
consagrava como tri-campeão mundial de futebol.
Outra característica do futebol de acordo com Da Matta (1982) e ratificado
por Soares et al. (1992) é o fato dele ser um sistema complexo de comunicação de
valores essenciais, ou seja, muito se descobre através dessa prática. É um meio
altamente significativo, que permite associar mensagens sobre o que é realmente
ser brasileiro, sobre o sentido da vida, do destino, sobre qual o papel da técnica no
universo social, por exemplo. Isso acontece através de algo concreto, literal,
31

profundo e dramático, construído por um sistema fechado de regras fixas. Revela,


então, diferenças sociais significativas, permitindo que um mesmo esporte possa ser
concebido como diversão nos Estados Unidos e um elo de comunicação social e de
construção da identidade nacional em países como o Brasil.
Portanto, Da Matta (1982) considera que somente é possível compreender
os fenômenos ligados ao futebol e ao esporte no Brasil levando-se em conta todas
as suas importantes conotações sociais. Dessa forma, deve-se analisar esta
modalidade não apenas como um esporte, mas como um evento significativo, um
jogo a serviço de todo outro conjunto de valores. Isso permite explicar o porque, em
nosso país, o expectador seja chamado de torcedor. Igualmente, possibilita
entendermos o motivo das conversas sobre futebol (assim como sobre política e
religião) serem classificadas como discussões. Isso ocorre, porque discutir é falar de
um tema de forma séria, não se podendo tomar uma atitude neutra, pois tudo o que
é sério e apaixona é discutido e jamais falado.
O mesmo autor, enxerga também o futebol como um ritual, detentor de
relações, valores e ideologias que são diferentes em cada sociedade onde a
modalidade é praticada. Possuindo uma visão particular e diferenciada de outros
estudiosos e da linguagem popular, o autor critica aqueles que rotulam o futebol de
ópio do povo, sendo um modo de desviar a atenção do povo de outros problemas
sociais mais básicos, como acontece com mais intensidade durante a realização de
uma Copa do Mundo. Ele acredita que esta frase possui uma dimensão valorativa
contida numa ideologia social da classe dominante, que classifica o trabalho como
uma necessidade e a guerra como um dever, estes mais importantes do que o
esporte ou a religião, classificados como ópio e, portanto, menos relevantes. Assim,
o trabalho nos mantém vivos, o poder mantém a ordem e a guerra é necessária para
manter a paz e garantir a integridade das nações, ou seja, são condições
necessárias e verdadeiramente humanas para a existência da sociedade. Enquanto
isso, o esporte, a arte e a religião localizam-se dentro da mesma, estando
associados a valores como amor, diversão e devoção, e são instrumentos
destinados a mitificar a “realidade” concreta. Segundo o autor, deve-se analisar o
esporte não como se ele estivesse em oposição com a sociedade, mas como algo
que faz parte dela, como [...] duas faces de uma mesma moeda e não como o
telhado em relação aos alicerces de uma casa. Continua ele:
32

Enquanto uma atividade da sociedade, o esporte é a própria sociedade


exprimindo-se por meio de uma certa perspectiva, regras, relações, objetos,
gestos, ideologias, etc., permitindo, assim, abrir um espaço social
determinado: o espaço do esporte e do jogo [...]". (DA MATTA, 1982, p.24)

Ainda segundo Da Matta (1982), o uso do esporte como “disfarce” para


conflitos sociais importantes, no entanto, acredita que classificá-lo como ópio do
povo é uma visão funcionalista e utilitarista10, já que a própria palavra ópio é
referente a algo dispensável, ilusório e fácil.
Diz ainda o autor que a popularidade do futebol configura-se, na
capacidade de proporcionar uma experiência de legitimidade e acatamento de leis
através de “estruturas permanentes”, definidas por regras universais e imutáveis. É,
portanto, um recurso que permite em seu campo de disputa experimentar uma
igualdade aberta e democrática, onde é premiado quem possuir o melhor
desempenho, e não quem possuir, a política das relações de favorecimento como no
meio hierarquizante dominante, por exemplo, títulos, poder, origem social ou
dinheiro. Há uma possibilidade de expressão individual e livre de o jogador se
revelar tal como ele é, com suas habilidades e fraquezas, sem colocar em risco
relações pessoais, e uma chance de vencer pela própria vontade. Além disso,
proporciona uma certa intimidade com símbolos nacionais que se disseminam pelo
meio da massa anônima, não ficando restritos ao Estado, e também um sentimento
de “União Nacional” em torno de algo concreto, como um time que sofre, vibra e
vence adversários, ou uma equipe que reage a incentivos positivos e negativos.
Dessa forma, segundo o autor, o futebol permite:

[...] à massa destituída ter o sentimento de totalidade nacional, do valor do


povo representado pelos seus ídolos e, mais importante que tudo isso, da
vitória plena e merecida (p.35).

[...] expressar uma série de problemas nacionais, alternando percepção e


elaboração intelectual com emoções e sentimentos concretamente sentidos
e vividos [...] (DA MATTA, 1982, p.40).

Além de um meio privilegiado pelo qual a vida se define com sua força e
plenitude, é instigante, porque é ao mesmo tempo um jogo que pode ser separado
da “vida real”. Assim:

10. Relativo ao, ou o que é partidário do utilitarismo. O utilitarismo é um tipo de ética normativa
segundo a qual uma ação é moralmente correta e tende a prover felicidade e condenável se tende a
prover infelicidade.
33

A vantagem do futebol é, certamente, a de poder veicular muitos problemas


fundamentais e, não obstante, ser apenas um jogo e um esporte. Talvez
esteja aqui a significação central do sport na sociedade moderna. (DA
MATTA, 1982, p.30)

Na opinião de Toledo (2000), a chave para a compreensão das diferenças


fundamentais entre o futebol e outros esportes reside no fato do primeiro possuir
uma imponderabilidade maior, ou seja, haverem menores “coincidências” internas
entre performance, técnicas, regras e resultados esperados. Também existe no
futebol maior diálogo entre as escolas e estilos diferentes, o que é evidente num
padrão de jogo menos determinado pelas regras e mais envolto por características
locais.
Já para Saldanha (1971), a principal razão de o futebol ser o grande
esporte, o que mais empolga e reúne gente, é que nele a arte é o elemento principal
que diferencia fundamentalmente os atletas, enquanto que em outros esportes o
físico é o fator determinante de resultados. No vôlei e no basquete, por exemplo, o
porte físico e a estatura são essenciais para o desempenho dos jogadores. Por outro
lado, no futebol, estes atributos são importantes, porém não fazem com que os de
estatura baixa disputem em condição inferior frente aos de maior estatura e força
física. Isso possibilita que os mais habilidosos e talentosos se destaquem. Além
disso, para o autor, esta característica do futebol permite que qualquer torcedor em
seus sonhos e desejos se sinta capaz de fazer o que os jogadores fazem dentro de
campo. Que torcedor nunca se imaginou dentro de um estádio marcando um gol?
De Paula (1997) ressalta que o espetáculo esportivo é o clímax do
envolvimento dos sujeitos sociais que participam ativamente do futebol, mas são os
jogadores (atletas), os “artistas da bola”, “os palhaços do circo” que o fazem
materializar-se. O autor reitera:

Nessa perspectiva, o espetáculo esportivo pode, então, pelo poder de seus


principais autores, torna-se palco para o festejar de todos, por que não?,
espaço para denúncias das contradições da nossa sociedade, ao contrário
de representar, como muitos dizem, “o ópio do povo. (DE PAULA, 1997,
p.293).

Portanto, o futebol deve ser considerado como mais que um


esporte e, desta forma, como as demais modalidades esportivas, necessita receber
muito mais atenção cientifica e pedagógica para o seu desenvolvimento nas
escolinhas, do que vem recebendo até agora. Daí nosso interesse em aprofundar
34

estudos nas pedagogias utilizadas por professores, em escolinhas de futebol, frente


às necessidades de crianças que buscam na prática do futebol a oportunidade de
inclusão social.
35

2 A PEDAGOGIA DAS ESCOLINHAS DE FUTEBOL

“Quem não sonhou em ser um jogador de futebol”.

Samuel Rosa e Nando Reis.

O presente capítulo aborda a questão pedagógica11 das escolinhas de


futebol, analisando práticas pedagógicas que podem ser utilizadas em escolinhas de
futebol que favoreçam o Desenvolvimento Humano e inclusão social, elucidando
questões relacionadas à criança, a atividade física, a iniciação esportiva, o trato
pedagógico diante a competição e a especialização precoce. Será que as escolinhas
de futebol utilizam ferramentas que contemplem as características e necessidades
da criança?
Desde pequena, a criança brasileira tem contato com a bola, fazendo com
que os fundamentos do futebol12 (passe, condução, domínio, cabeceio etc.), sejam
praticados muito cedo. Em qualquer lugar que tenha espaço para se jogar futebol,
encontraremos sempre uma criança jogando, pelas areias das praias, pelas quadras
de futebol de salão, pelas ruas de terra ou de asfalto, por cada pedacinho de chão
onde uma bola possa rolar.
O atleta do século, Pelé, certa vez falou sobre as peladas dos meninos de
rua, nos campos de várzea, de terreno esburacado e cheio de pedras, com os
meninos de rua vizinha, segundo ele, “melhor arrumada”, justificando que o campo
ruim facilita a aprendizagem do domínio de bola. Em outro momento, comenta que
nessas disputas ficavam vinte ou trinta garotos em cada time, o que exigia muita
habilidade por terem que definir uma jogada rapidamente. Muitas vezes ele
levantava a bola e “dava um chapéu” nos adversários. O rei do futebol ressalta, que
só se tornou jogador de futebol porque teve a oportunidade de brincar. (KORSAKAS,
2002). Isso implica dizer que o aspecto lúdico13 teve fundamental importância em
sua vida.

11 É permeada por um conjunto de conhecimentos sistemáticos relativo ao fenômeno educativo, que


no nosso estudo está relacionado à prática do futebol em escolinhas.

12 Os fundamentos do futebol são habilidades motoras específicas que caracterizam a modalidade


em questão.
13 Ver as obras de Marcelino (1987, 1990) e Huizinga (1974), que discutem a importância do lúdico
na formação dos seres humanos.
36

Santana (2004) e Freire (2003) ressaltam a importância das brincadeiras


de rua (bobinho, disputa, controle, golzinho, gol a gol, pelada e tantas outras) no
processo de aprendizagem do futebol brasileiro.
Esta facilidade em aprender o futebol tem o seu lado positivo. A
criatividade14 adquirida. Porém, muitas vezes, o jogador tem dificuldade em realizar
corretamente algumas tarefas mais simples.
Melo (2002, p.9), ressalta algumas características de indivíduos que
aprendem a jogar futebol sem orientação:

[...] normalmente joga com apenas uma das pernas, de cabeça baixa, não
tendo uma visão do posicionamento dos companheiros, é muito
individualista, prendendo a bola em demasia, é deficiente no domínio de
bola, e tem dificuldade de passar a bola corretamente [...].

Voltando a falar sobre os fundamentos do futebol (habilidades específicas),


logo refletimos sobre a “técnica”, termo muitas vezes incompreendido por muitos
professores de Educação Física em escolinhas de futebol. Leal (2000), refere-se à
técnica do futebol como um conjunto de fundamentos básicos, cuja peculiaridade
está principalmente, no uso dos pés e pernas para executar ações básicas para
defender (desarmar), manter a bola (dominar, controlar, levantar, proteger, conduzir
e passar) e atacar (fintar, driblar, assistir, chutar, cabecear, e finalizar), para marcar
gols (principal objetivo do jogo). A cabeça, o peito, e os ombros, também são usados
para execução de algumas ações motoras no contexto do jogo. Voser (2002), nos
traz uma definição acerca da técnica:

Defini-se técnica como gesto ou movimento realizado pelo atleta que lhe
permita dar continuidade e desenvolvimento ao jogo. É descrita também
como uma série infindável de movimentos realizados durante uma partida,
tendo como base os fundamentos do esporte (p.43.)

Leal (2000), ainda ressalta as diferenças entre técnica e estilo, dizendo que
a técnica é “impessoal” e o estilo é algo “particular”, característica inata de cada
jogador.

14 Samulski et al. [...] apresentam as principais correntes de estudo da criatividade e suas relações
com o esporte. [...] no esporte não poderia ser diferente, a criatividade se manifesta no sentido de
algo inesperado, inovativo ou fora dos padrões normais de ação que o atleta consegu e realizar na
modalidade em que ele está inserido.
37

Freire (2003), salienta a importância de compreendermos o gesto esportivo,


pois facilita bastante o ato de ensinar. Para ensinarmos Futebol, assim como outra
modalidade esportiva é necessário conhecer seus fundamentos, a fim de
desenvolvê-los através de processos pedagógicos, propiciando o aprendizado das
crianças.
Há algum tempo atrás não imaginaríamos o que se vê atualmente na
questão do ensino-aprendizagem do futebol: escolinhas e professores. Não havia
compromissos com horários de aulas, competições oficiais e ensino sistematizado.
Ainda há crianças que jogam bola na rua, mas principalmente nas grandes cidades,
com exceção da periferia é incomum. (FREIRE, 2003, SANTANA, 2004,
VENLIOLES, 2004)
Percebemos que nas escolinhas de futebol, os pais não têm motivos para
maiores preocupações, pois à criança no clube, na escolinha de esporte da escola
estão de certa forma seguras diante do inegável clima de insegurança que paira em
grande parte das cidades brasileiras. A violência e as drogas amedrontam muitas
famílias em nosso país.
Venlioles (2004) divide os tipos de escolinhas de futebol em: sociais,
comerciais e formativas. Na nossa pesquisa, esses tipos serão citados como
“dimensões de escolinhas”. As escolinhas sociais são idealizadas para atender
comunidades de baixo poder aquisitivo, muitas usadas em projetos que visam a tirar
as crianças da rua e, assim, educar através do esporte. Já, as escolinhas
comerciais, são voltadas para a comercialização dos seus serviços, necessitando,
dessa forma, cobrar para sua sobrevivência. As escolinhas formativas têm como
finalidade principal a formação de atletas de futebol. São preparadas para a
descoberta de valores e voltadas para equipes de alto rendimento.
Na visão de Torrellez e Alcaraz (2003), as escolinhas de futebol são
caracterizadas por uma estrutura própria e exclusiva dedicada ao futebol de base;
programa, direção e técnicos especializados no futebol de base; objetivos e formas
de trabalho específicos para formação desportiva do jogador que possui aptidões
para isso.
Santana (2004) esclarece que com o advento das escolinhas, muitas delas
pagas, crianças ficam à margem. De uma maneira geral são muito tímidas as
iniciativas públicas de fomentar o esporte numa perspectiva educacional. O que se
vê, na maioria dos casos são escolas de esporte com a pretensão de revelar
38

talentos esportivos15, os futuros “craques de bola”. Até a década de oitenta, eram


poucas as escolinhas de futebol. Muitos dos que se propuseram a ensinar as
crianças não eram professores de Educação Física, mas sim abnegados.
Provavelmente muitos equívocos foram cometidos nesta época, no que se refere à
pedagogia do esporte, pela falta de profissionais capacitados.
Outro fato que deve ser ressaltado, é que em muitas escolinhas de futebol,
o professor é normalmente um ex-jogador profissional ou amador. É claro que o
problema não esta no fato de a pessoa que ensina ser um ex-atleta e sim, preparada
para o que faz. (FREIRE, 2003)
Esses ex-atletas seduzem a garotada, que acredita na possibilidade do
aprendizado do futebol de forma orientada e que esse processo facilita a ascensão
futura de jogador profissional. Freire (2003, p.2), esclarece tal fato:

A garotada, louca para brincar e imitar seus ídolos, corria para se matricular,
achando que aprenderiam futebol tanto quanto os craques aprenderam.
Aquilo que se aprendia tão bem com uma pedagogia de rua teria que ser
aprendido com a pedagogia da escola.

Saber jogar significa saber ensinar? Nista-Piccolo et al.16 (2005), diz que
ex-jogadores nem sempre são capazes de adaptar suas habilidades a “exercícios
educativos”, que possam preparar bem seus alunos. Na verdade parece que a
maioria desses ex-jogadores, apenas reproduz suas experiências nas escolinhas.
Voltando a falar da pedagogia utilizada pelos professores de escolinhas,
um dos focos do nosso estudo, sabemos que nos dias de hoje, muitos deles utilizam
metodologias de ensino pautadas em referenciais de rendimento, conquistas e
resultados imediatos. Portanto, uma pedagogia distante de preocupações
educacionais.
Essa nova forma de aprender futebol se difere daquela pela qual os
brasileiros aprendiam a jogar nos campos de várzea, sem o compromisso da
performance e do rendimento, de modo a influenciar também na forma como vai se
ensinar futebol. Souza e Homrich (2003, p.43), afirmam que “[...] os tempos

15 Paes e Balbino (2005, p. 44) identificam o conceito de talento esportivo de duas maneiras e com
fortes ligações com a performance esportiva: a) pela qualidade superior do seu desempenho
esportivo, em comparação com os padrões e os valores característicos para sua idade e sexo; b) pela
reunião, numa espécie de retrato-robô, dos traços biológicos, motores e comportamentais que são
supostos constituírem estrutura da performance.
16 Além do futebol, os autores trazem propostas pedagógicas para o ensino do voleibol, da ginástica
rítmica, da natação, e da ginástica.
39

mudaram e a intencionalidade pela qual se aprende ou ensina a jogar futebol


também [...]”.
Kunz (2003), diz que o saber-fazer (técnica), substituiu o saber-pensar
(sentido). O ser que se movimenta passou a ter menos importância do que o
movimento. Esse parece ser o cenário da maioria das escolinhas, quando o assunto
a ser discutido, é a prática pedagógica.
Muitos professores cometem equívocos diante da perspectiva de serem
reconhecidos e respeitados como técnicos esportivos. Seus alunos são os atletas
em potencial. Tal operação simbólica foi constituída pelo ensino tradicional /
tecnicista17 (SADI, 2005).
Souza e Homrich (2003, p.45) fazem a seguinte reflexão:

[...] ao mesmo tempo nos empresários, diretores, proprietários de


escolinhas, professores, desperta um grande desejo de fomentar futuros
atletas com o objetivo de subsidiar os clubes profissionais e fechar um
grande negócio.

Até nos cursos de graduação, os docentes parecem viver um conflito


interno, entre formar o técnico esportivo ou o educador. Neste contexto, Santana
(2004, p.31) faz a seguinte reflexão:

Penso que o ensino superior brasileiro, por conta da proliferação das


instituições passa por um momento inusitado. Por conseqüência, a
formação de professores não se afirma na qualidade. Não se justifica,
porém, apenas nesse ponto o despreparo de alguns professores de esporte.
A meu ver, além de pedagógica, a questão é ética.

Podemos questionar as atividades das escolinhas de futebol: Elas ensinam


futebol? De que maneira? É possível afirmar com certeza que as crianças aprendem
o futebol e os valores sociais do esporte? Além disso, aprendem a ter autonomia e
se tornarem homens e mulheres inteligentes? Na verdade parece que as escolinhas
se prestam pouco a essa finalidade. Como sabemos, tradicionalmente, ensinam
gestos técnicos separados do contexto dos jogos, normalmente em fila, para depois
do processo, juntar os fundamentos dos jogos e aplicá-los em situação concreta de
competição. A ilusão desta forma (método) de ensinar é exatamente esta: Nem

17. Ao longo da minha trajetória de professor de Educação Física, sempre fiz ressalva a esta prática
de ensino, que enfatiza a execução dos gestos técnicos de determinada modalidade esportiva, de
forma fragmentada, sem contextualizar adequadamente as características da modalidade em
questão.
40

sempre os fundamentos do futebol podem ser utilizados em situações concretas,


pois os jogos são constituídos por uma dinâmica de múltiplas funções. Envolvem um
movimento rápido da inteligência humana18 e a todo instante são requeridos
mecanismos de mudança (SADI, 2005).
A dinâmica do jogo é diferente, como enfatiza Santana (2004, p.47),
quando teoriza o ensino-aprendizado do futsal (futebol de salão):

[...] a bola, o adversário para roubar a bola, o colega em movimento


procurando aparecer para recebê-la, o objetivo de se fazer o gol, a pressão
de se ter que se fazer escolhas num tempo, quase sempre, curto, o respeito
às regras, espaços distintos a percorrer, enfim, vive-se sob o signo da
imprevisibilidade [...].

Durante os exercícios técnicos, a criança e a bola situam-se num espaço e


tempo predeterminados. A previsibilidade do exercício ensinará a criança, além da
técnica de determinada habilidade, a ser previsível.
Em se tratando de método, o que é mais interessante? A automatização
desse ou daquele gesto, posicionamento, jogada ou a capacidade de adaptação a
situações novas, de solucionar problemas e de improvisar? A criança precisa
executar o gesto técnico com perfeição para depois jogar? Na fase de aprendizado
podemos entender o gesto técnico apenas como referência, e não como padrão de
movimento considerado, “correto”, pois o que conta é a eficácia desse gesto durante
o jogo. Daolio (1992) afirma que a eficiência técnica deve ser substituída pela
eficácia simbólica19.
Pode não parecer, mas o futebol, como a maioria das modalidades
esportivas, requer um processo de informação de uma variedade de fontes e o
desempenho de mais de uma habilidade em uma mesma situação, o simples
movimento do jogador se deslocando no espaço de jogo com a bola requer uma
série de informações que vão se processando com a finalidade de decisão -
fabricação de estratégias, e, quanto mais experiências os jogadores forem
adquirindo durante a sua fase de aprendizagem, mais facilidade em processar estas
informações eles terão no seu desenvolvimento futuramente.

18 O autor refere-se à inteligência corporal cinestésica, que, de acordo com Paes e Balbino (2005),
caracteriza-se pela capacidade de usar o próprio corpo de maneira altamente diferenciadas e hábil
para propósitos expressivos, assim como voltados a objetivos.
19 O termo nos induz a refletir sobre as possibilidades de aprendizado de um gesto esportivo.
41

Para um melhor entendimento reportamo-nos às palavras de Garganta


(1995, p. 52):
As estratégias mais adequadas para ensinar os jogos desportivos coletivos
passam por interessar o praticante, recorrendo a formas jogadas
motivantes, implicando-o em situações problema que contenham as
características fundamentais do jogo.

Scaglia (2005) enfatiza que uma boa pedagogia não é aquela que
demonstra um gesto para ser copiado: é aquela que permite ao aluno vivenciar um
processo de ensino-aprendizagem em que, por meio de explorações possa
estruturar seu gesto motor.
Para muitos professores, a predominância do jogo na aula exclui o
aprendizado de habilidades. Santana (2004, p. 48) afirma que “Em se tratando de
pedagogia do esporte, a função do professor é planejar diferentes tipos de jogos”.
Os jogos devem ser adaptados a vários níveis de desenvolvimento em prol do
processo de aprendizado.
Para que possamos analisar as práticas pedagógicas que podem ser
utilizadas em escolinhas de futebol que favoreçam o Desenvolvimento Humano e a
inclusão social é necessário entender as questões que permeiam à pedagogia do
esporte, ou seja, entender as características da criança, os benefícios da prática
esportiva, os cuidados necessários durante a iniciação e o trato pedagógico com a
competição.

2.1 A CRIANÇA, A PRÁTICA ESPORTIVA E O FUTEBOL

Quando perguntamos a qualquer criança por que está praticando esporte,


é comum escutar: “Porque gosto de jogar com meus amigos”; “Porque quero ser um
jogador rico e famoso”; ou “Porque meus pais querem que eu pratique esporte”.
Surgiriam muitas outras respostas, porém, todas indicando que o esporte é
um dos fenômenos mais notáveis da nossa sociedade moderna.
A valorização da prática de atividades físicas e esportes na perspectiva de
uma melhor qualidade de vida é algo constante em nosso meio. Segundo Ferraz
(2002), a tendência de considerar a prática esportiva tão importante quanto as
atividades intelectuais tem crescido bastante em nossa sociedade nos últimos anos.
42

Outro fato relevante, é que, pesquisas têm demonstrado que os pais consideram a
prática de esportes benéfica para saúde e favorável ao rendimento escolar.
A literatura especializada argumenta que esse posicionamento relaciona-se
à aquisição de regras de conduta, de normas de comportamento e de valores sociais
que fundamentam nossa cultura. Pressupõe-se que atitudes de perseverança, de
disciplina e cooperação exigidas na prática esportiva contribuem para formação da
personalidade da criança.
É importante ressaltar que as crianças necessitam de amplas
oportunidades numa variedade de atividades motoras diárias com o objetivo de
desenvolver suas capacidades de movimento (enriquecendo seu repertório motor),
contribuindo para formação de um cidadão apto a participar de programas esportivos
em geral.
A criança tem seu mundo próprio onde vive de forma unitária e integral,
interessando-se pelo seu bem estar e das pessoas em sua volta, vendo tudo com
alegria. Respeitar seus limites, suas possibilidades e saber identificar suas
características básicas de comportamento nas diferentes faixas etárias, facilita muito
a relação, educador-educando no processo de ensino.
Lucena (2001) sistematiza as características de crianças de quatro aos
doze anos de idade, na perspectiva de identificar seus interesses, necessidades,
possibilidades, anseios e dificuldades, para a partir daí estabelecer uma proposta de
ensino:

· A criança de quatro anos - repete tudo que ouve e vê, tendo o corpo
como instrumento de relação, a musculatura de membros inferiores é
mais independente capaz de andar com ritmo alternado de passos, não
exerce controle sobre sua unilateralidade. Interessa-se por atividades
tipo correr, saltar, trepar, sendo bastante expansiva. Sua capacidade de
concentração é menor. Maior facilidade em executar movimentos
amplos, equilíbrio em desenvolvimento (estático e dinâmico);
· A criança de cinco anos – Tem como grande alicerce o lar e os pais,
apresentando traços de possessividade em relação às coisas que as
cercam, sua capacidade de concentração é maior, estando aberta a
receber instruções de forma a satisfazer pessoalmente, e ao mesmo
tempo, busca ter aceitação em seu ambiente social. Aponta traços de
43

melhor compreensão em relação ao espaço e tempo. Identifica-se mais


com atividades naturais. Já apresenta lateralidade bem definida a si
própria. Melhor equilíbrio estático;
· A criança de seis anos – Necessidade de experiências na relação com
pessoas gerando insegurança em relação aos ambientes
desconhecidos, tendo maior facilidade para participar de atividades com
um companheiro, o que com dois ou mais. Assim como nas idades
citadas anteriormente, tem o corpo como grande veículo de
comunicação, sua participação em atividades fortalecem seu
aprendizado em razão de sua auto-motivação, capacidade de
concentração, melhor compreensão de informações verbais, apresenta
maior capacidade de realizar ações motoras de baixa complexidade e
maior domínio sobre as extremidades;
· A criança de sete anos – Maior capacidade de comparar e ordenar
experiências vividas, maior satisfação em atividades que lhes propiciem
satisfação, mais reflexiva, maior compreensão e domínio sobre a
lateralidade, melhor noção de tempo e espaço, gosta de imitar e
reproduzir ações. Melhor equilíbrio;
· A criança de oito anos – Maior aceitação em atividades em grupo, sendo
bem expansiva, e com maior facilidade de expressão. Em termos
motores esta mais apta à realizar tarefas em ritmos mais acelerados,
gosta de ser testada em atividades que envolvam força, agilidade,
velocidade e destreza, não gosta de ser muito cobrada podendo
apresentar respostas de intranquilidade emocional;
· A criança de nove anos – Maior persistência no exercício de suas
habilidades em razão de maior maturidade do seu sistema neuromotor,
maior desenvoltura na execução de ações motoras de maior
complexidade, mais crítica em relação aos acontecimentos a sua volta
estando seus interesses subordinados aos interesses do grupo que
pertence. Tem maior interesse pelo esporte em razão de ter um
comportamento motor mais bem elaborado. Exerce bom domínio sobre o
corpo, sendo capaz de executar gestos técnicos mais refinados;
44

· A criança de dez anos – Individualidade bem definida, estando aberta às


informações oriundas do meio ambiente. Apresenta maior interatividade
nos jogos em grupo, maior capacidade de concentração e melhor noção
de tempo e espaço, lateralidade definida e domínio das extremidades
mais estruturado. Maior interesse por atividades que envolvem
competição;
· A criança de onze e doze anos – Idade de transição, onde a criança
demonstra maior amadurecimento bio-psíco-físico e social, exercendo
maior participação no conjunto de atividades que a envolvem, senso
crítico aguçado, tendo maior domínio sobre suas capacidades motoras,
facilitando sua relação com as atividades esportivas em geral. Seus
sentidos estão mais bem coordenados em relação às respostas motoras,
facilitando a execução de ações motoras bem mais complexas.
(LUCENA, 2001).

Respeitar as diferentes etapas de desenvolvimento da criança20, conhecer


seu perfil nas diferentes faixas etárias e estabelecer uma linha de ensino bem
elaborada, fortalecem o aprendizado tornando-o seguro e duradouro.
Sabemos que o futebol é mágico, principalmente para atrair às crianças,
por isso, passa a ser um aliado poderoso no desenvolvimento da mesma, por
proporcionar uma atividade agradável, auxiliando no seu desenvolvimento cognitivo
e sensório motor.
Para Araújo (1993, p.56), "através da prática do futebol pode-se transmitir à
criança um amplo repertório de respostas comportamentais que poderão ser úteis
em diversas situações vivenciadas no dia-a-dia".
O autor afirma que:

O ser humano de modo geral, e a criança, de forma especial, satisfazem


suas curiosidades e suas necessidades por meio de atividades motoras.
Além disso, a prática desportiva serve como veículo para ampliar os
contatos sociais e de aprendizagem para cooperar com outras pessoas.
Fortalece também sua capacidade de pensar, solucionar problemas e tomar
rápidas decisões.

20 O desenvolvimento da criança é abordado com profundidade por Papalia et al. (2006).


45

Tem-se, de acordo com os trabalhos realizados por Rarick e Makee apud


Araújo (1993, p.56), uma correlação entre capacidades motoras e traços de
personalidades.

Estes autores, trabalhando com crianças de terceira série, puderam


constatar que aquelas crianças superiores em eficiência motora eram
ativas, calmas, populares, dotadas de imaginação e cooperadoras,
enquanto que as de capacidades motoras inferiores eram inclinadas à
timidez, retraídas e tensas.

Os professores de escolinhas de futebol, devem ter cuidado de não exigir


das crianças tarefas e desempenhos acima de suas possibilidades, fato que
promoveria sentimentos de fracasso e inferioridade.
A depender das características psicológicas da criança, o fracasso pode
tornar-se um motivo relevante para se tentar outra vez, ou seja, nossos alunos
devem ser sempre motivados a almejar suas expectativas, desde que possam ser
realmente concretizadas. Contudo, num ambiente social e coletivo onde as
comparações são inevitáveis, o fracasso acaba sendo uma porta que se fecha em
relação à determinada experiência motora. (GALDINO, 2005).
Outro fato que não deve ser esquecido, é que a formação dos hábitos
motores e desenvolvimento das qualidades físicas dos nossos alunos, nem sempre
acontecem paralelamente, enfatiza Filin (1996).
Nós, enquanto professores, devemos nos tornar capazes de encontrar
soluções para os problemas que ocorrem no contexto da prática esportiva e
solucioná-los, mesmo que isso não ocorra da forma ideal. Este aspecto parece ter
um importante papel, na busca incessante pelo prazer e felicidade na prática
esportiva
Parece fácil concluir a importância da prática esportiva para a criança, e o
futebol, além de proporcionar inúmeros ensinamentos, é, pelas suas características,
uma excelente escola de socialização e vida, pois, como já foi ressaltado
anteriormente, nos revela influência decisiva na formação da personalidade do
indivíduo. A atitude do professor condiciona o aprendizado de todos os fatores
inerentes à prática dos esportes. Não se deve valorizar o sucesso e ou fracasso,
além de ser tolerante e paciente diante das dificuldades e dos erros, pois cada
indivíduo aprende de forma bem peculiar, num ritmo próprio, desenvolvendo
46

diferentes curvas de aprendizagem. Mas tudo depende da forma de iniciação dos


jovens no futebol e competições esportivas.

2.2 A INICIAÇÃO NO FUTEBOL E A COMPETIÇÃO ESPORTIVA

A iniciação deve se constituir no período que a criança inicia de forma


especifica e regular a prática de uma determinada modalidade esportiva. O trato
pedagógico com o futebol deve permitir a criança iniciante à obtenção de uma
cultura corporal21, proporcionando assim uma aprendizagem motora adequada.
Segundo Incarbone apud Scaglia (2005, p.60):

O professor deve ter muito em conta que não deve modelar o menino à
semelhança de..., e sim ele deve dar uma grande bagagem de experiências
motoras, contribuindo para o armazenamento motor, que lhe permita
desenvolver no futuro, com grande variedade de habilidades motoras, que
não só apontariam, para um esporte, mas também para sua vida diária.

Uma criança rica em seu aspecto motor pode vir a se adaptar mais
facilmente à prática de muitas atividades na escolinha de futebol.
Determinar uma idade ideal para iniciar a criança na prática do futebol
talvez não seja tão importante quanto conseguir desenvolver nela o prazer em “jogar
bola”, para que, de maneira paulatina e seqüencial, ela possa evoluir
progressivamente dentro desta modalidade.
Para Scaglia (2005), um ingrediente especial e essencial para que a
criança goste desse esporte é a competição22. Santana (2004) afirma que a
competição é conteúdo do esporte. Cabe ao professor da escolinha a tarefa de
saber utilizá-la como instrumento pedagógico.
Muitas vezes, a competição exacerbada leva o professor a impor a criança
o desenvolvimento máximo por meio da técnica específica do futebol, levando-a a
uma extrema especialização (APOLO, 2007). E quando isso acontece nas
escolinhas de futebol, temos especialização precoce difundida de forma
indiscriminada e seletiva. A especialização precoce é um tema de extrema

21 Soares, C. et AL. (1992) abordam a cultura corporal na obra “Metodologia do Ensino da Educação
Física”, que reporta-se a questões teórico-metodológicas da Educação Física Escolar.
22 O termo competição tem duas raízes: uma está ligada a competência, capacidade de melhorar o
próprio desempenho, torna-se cada vez mais eficiente e melhor. A outra é “competere”, ligada à
cizânia, à encrenca, à difamação, à injuria, à calunia, a vencer derrotando o outro, e não sendo
melhor que ele...
47

relevância, pois, traz riscos de natureza, biológica, psicológica e de desenvolvimento


social. (Federação Internacional de Medicina Esportiva, 1997). [...] Crianças que são
muito cobradas quase sempre perdem a motivação. A maioria acaba abandonando
o esporte antes dos quinze anos, afirma Paes (1997).
Matsudo (médico e presidente do Centro de Estudos do Laboratório de
Aptidão Física de São Caetano do Sul) recomenda que as crianças se dediquem em
média uma hora por dia a uma mesma modalidade.
O apelo do esporte-performance ou de rendimento, através dos meios de
comunicação de massa, principalmente da televisão, levam os donos de escolinhas
de um modo geral a desconhecer a magnitude da utilização pedagógica do esporte
como meio de educação. Tubino (2002), esclarece que embora, tenham sido
identificadas finalidades opostas entre o esporte-performance e o esporte-educação,
desde a década de sessenta, persistem as exacerbações dos talentos e até os
vícios do esporte de alto nível, no ambiente escolar. Nas escolinhas de futebol esse
quadro é ainda mais evidente, já que muitos donos e professores não se preocupam
com a formação integral do indivíduo.

[...] os jovens, no sonho de ascender a carreira profissional, não


compreendem este processo, e os “interessados” não o levam em
consideração. Com isto, os procedimentos de ensino vão se direcionando
cada vez mais a especialização de funções, automatizações de gestos e
técnicas desportivas, juntamente com incrementos de carga de treinamento
físico, o que leva a renunciar ao prazer de jogar pela seriedade de treinar.
(SOUZA; HOMRICH, 2003, p. 46).

Santana (2004) enumera alguns riscos possíveis que a pedagogia corre ao


especializar a criança no esporte:

· Estresse de competição: caracteriza-se por um sentimento de medo e


de insegurança e intranqüilidade, que tem como causa uma prática
competitiva excessiva. A criança, neste caso, tem medo de errar, sente-se
insegura e com auto-estima ameaçada;
· Saturação esportiva: manifesta-se quando a criança demonstra sinais
de desânimo e desinteresse em continuar a prática do esporte. Sente-se
assim porque o praticou em excesso e quer abandoná-lo;
· Lesões: surgem, principalmente, pelo risco de choques e quedas que
aumentam a depender da característica do terreno onde o esporte é
48

praticado. Logo, se praticado em excesso, inadequadamente e por longo


período de tempo, pode ocasionar fraturas, lesões epifisárias e tendinites;
· Formação escolar deficiente: a criança acaba se dedicando
excessivamente às exigências do treinamento especializado em
detrimento das atividades escolares (tem criança que fica a semana
ansiosa para vencer o jogo do final de semana e passa a semana seguinte
sendo cobrada por perdê-lo!);
· Unilateralização de desenvolvimento: esta relacionada com a
especialização técnica de determinadas habilidades específicas
(fundamentos) ao invés de um desenvolvimento amplo, que enfoque a
diversidade de movimentos;
· Reduzida participação em jogos e brincadeiras infantis: o método
de ensino (fragmentado) acaba, de certa forma, afastando a criança de
jogos e brincadeiras (momento lúdico), elementos importantes para
capacidade, de criação e improviso.

Scaglia (2005) esclarece que introduzir a competição para crianças na fase


de iniciação, não significa dizer que as escolinhas de esportes tenham a
incumbência de formar atletas. A competição também apresenta virtudes educativas
que não devem ser esquecidas.
O trato pedagógico com a competição no futebol deve proporcionar a
criança à própria superação. O professor deve determinar a “rota” da competição.
Tem-se então, a possibilidade de mudar as regras ou mesmo criá-las na perspectiva
de uma melhor compreensão por parte dos alunos.
O objetivo da competição nas escolinhas de futebol assim como nas
escolinhas de outras modalidades esportivas deve estar voltado para auto-
superação. Porque não, fazer com que o aluno reflita que além do adversário, ele
está competindo consigo mesmo?
As escolinhas esportivas de um modo geral não devem negar a
competição, mas encará-la, como um instrumento de educação, mostrando aos
alunos os valores que podem ser transmitidos pela competição esportiva.
Muitos professores de escolinhas de futebol montam seus times para
enfrentar equipes de outras escolinhas, deixando de fora os menos habilidosos. Os
professores que optam, pela intervenção pedagógica no ensino-aprendizagem do
49

futebol devem possibilitar a participação de todos os seus alunos, inclusive aqueles


menos “dotados” do ponto de vista técnico, e físico.
Scaglia (2005, p. 64) afirma que [...] precisa-se entender a competição,
alocada na iniciação, como um resgate de todo seu compromisso educacional, moral
e social embutido no processo [...]
De Rose Jr. (2002) reforça as idéias citadas afirmando que praticar
esporte, e competir como conseqüência dessa prática é direito de todos e isso deve
ser incentivado. Chegar a altas performances é o destino de poucos.
Paes (2002) ressalta a importância do jogo em sua interface com o esporte.
As crianças mostram-se de forma verdadeira quando jogam, motivo suficiente para
justificar o jogo no processo educacional.
A competição não deve ser negada nas Escolinhas de esportes, deve ser
um instrumento de avaliação, ensinando os alunos a ter uma visão clara dos valores
que podem e devem ser transmitidos pelo esporte e pela competição. A vitória não
deve ser almejada a qualquer preço, mas o aluno precisa conhecer o mundo da
competição, e entender o sentido do fair play23 (SCAGLIA, 2005).
A função do professor nas escolinhas é proporcionar à criança a
oportunidade de vivenciar esta prática através da orientação de ações conscientes,
na perspectiva de contribuir para o desenvolvimento integral do ser humano. Como
conseqüência teremos crianças ativas, saudáveis e felizes e, quem sabe, até um
atleta de futebol profissional.

2.3 ALTERNATIVAS PARA O PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM DO


FUTEBOL EM ESCOLINHAS

Discutir o futebol nas escolinhas como possibilidade pedagógica, significa


admitir que este não foi ainda compreendido em sua totalidade. Tratar o futebol com
uma “intencionalidade pedagógica” é compreender a grande relevância social que
este esporte possui para os brasileiros. (CARDOSO, 2003)
Apontar uma metodologia alternativa para o ensino do futebol em
escolinhas é um grande desafio. Tomando como referência a experiência do

23 Fair play é uma expressão da língua inglesa muito utilizada no meio esportivo para se referir ao
“jogo limpo”, ou seja, honesto e justo, que respeita as regras e o adversário em qualquer
circunstancia.
50

professor João Batista Freire e sua pedagogia de rua, buscamos uma análise das
práticas pedagógicas adotas por professores de escolinhas e suas contribuições
para o processo de Desenvolvimento Humano e inclusão social.

2.3.1 Pedagogia do futebol: a teoria de João Batista Freire

Há muitos anos o professor João Batista Freire24 centra seus estudos nas
brincadeiras de rua, afirmando serem elas as grandes responsáveis pelo
aprendizado dos jogadores em nosso país. A todo este processo vivido pelas
crianças na rua e suas brincadeiras com a bola nos pés, ele chamou de pedagogia
da rua. “... Pés descalços, bola, brincadeiras, são alguns dos ingredientes mágicos
dessa pedagogia de rua que ensinou um país inteiro a jogar futebol melhor do que
ninguém...” (p.2).
Se aqueles que gostam de futebol, lembrarem das brincadeiras favoritas de
suas infâncias veremos que o prazer em engajar-se em tais brincadeiras era,
principalmente decorrente do sucesso e desafios que elas proporcionavam, dizia
Galdino (2005).
Já Freire (2003) se mostra defensor da idéia de que as escolinhas de
futebol devem ensinar as crianças através de brincadeiras, não apenas repetindo o
que é ou era feito nas ruas, mas sim, pedagogizando a cultura das brincadeiras de
bola com os pés: [...] rua e escola são instituições bem diferentes. Há, na pedagogia
de rua, diversas coisas que não gostaria de ver repetidas na escola...” (p. 7). Neste
sentido, a concretização desta proposta, esta respaldada por especialistas que
teorizam a aprendizagem, segundo a linha construtivista25. O autor destaca quatro
princípios pedagógicos que norteiam todo processo de ensino aprendizagem no
futebol, resgatando a ludicidade e criando espaço para utilização da cultura popular
infantil.

24 O autor almeja dar ao futebol, todo sentido social que dele pode extrair, ensinando a perder e a
ganhar, a lidar com a vitória e com a frustração, habilidades que, quando assimiladas, só fazem o
homem ser mais feliz e ajustado.

25. O conhecimento é construído nas relações entre o sujeito e seu meio ambiente.
51

O primeiro princípio fala da necessidade de se ensinar futebol a todos, sem


discriminar os que têm menos habilidade para o jogo; o segundo princípio reforça o
primeiro, nos mostrando que não basta ensinar, deve-se ensinar bem a todos, ou
seja, aqueles que já jogam bem devem aprender a jogar melhor e os que pouco
sabem avançar em seus conhecimentos. O terceiro princípio ressalta a questão de
que não basta o ensino se restringir apenas à prática do futebol, mas, deve-se
possibilitar na práxis pedagógica26 o resgate de valores éticos e morais entre outros,
portanto, ao educador cabe ensinar muito mais que futebol a todos. Já o quarto e
último, refere-se à necessidade constante de fazer com que os alunos passem a
gostar de esporte, levando-o assim para o resto de suas vidas.
Em relação ao desenvolvimento das habilidades e coordenações motoras,
o autor, diz que os músculos só podem relaxar e contrair, aparecendo em meio a
uma infinidade de combinações destas ações, um grupo de habilidades motoras que
concretizam as necessidades e realizações humanas. Estas habilidades se
sustentam nas capacidades, que são propriedades do organismo, ou seja, são
necessárias as capacidades físicas para a consolidação e aparecimento das
habilidades motoras. Já, a coordenação motora, termo tão banalizado e pouco
compreendido na Educação Física, segundo ele, deve ser entendido como [...]
movimentos ordenados espacial e temporalmente, para realizar as ações que
concretizem as intenções de uma pessoa [...] (p.20). Isto faz com que a história de
vida tenha um papel decisivo no futuro motor dos indivíduos.
Para o autor, as experiências motoras variadas, os desafios
caracterizando-se em problemas possíveis aos quais as crianças são expostas,
fazem com que elas ampliem em muito o seu acervo de possibilidades motoras, em
conseqüência, a sua interação com o mundo, em todos os seus aspectos: motor,
afetivo / social e cognitivo. [...] Uma história rica em experiências formará bases
sólidas para a inteligência, para a afetividade ou para a sociabilidade da criança. Por
outro lado, uma história pobre levaria a um comprometimento dessas estruturas
[...](p.21).
Portanto, antes dos sete anos a criança carece de uma diversidade de
experiências motoras para o seu desenvolvimento. Necessita adquirir e dominar as
formas básicas de movimentos, pois, antes de falar o indivíduo aprende a se

26. Relação permanente entre teoria e prática. Percebo uma constante necessidade dos professores
de Educação Física teorizarem suas práticas e ao mesmo tempo praticarem suas teorias.
52

movimentar, depois da fala aprende a combinar estes movimentos adquiridos e, por


volta dos sete anos, começa a perceber a necessidade de se socializar com as
outras crianças, utilizando os movimentos aprendidos. (PAPALIA, 2006)
Neste sentido, Freire (2003) defende a idéia de que as escolinhas de
esportes, portanto, também as de futebol, devem ter seu início somente a partir dos
seis, sete anos, período em que a criança se encontra com sua estrutura madura o
suficiente para um aprendizado mais estruturado; não, em hipótese alguma,
especializado como citado anteriormente neste capítulo. É preciso que as escolas de
esportes em geral, possibilitem às crianças continuarem adquirindo, ampliando e
coordenando suas habilidades básicas e suas noções de espaço e tempo de
maneira gradual, junto às necessidades que a motivem e, ainda, por intermédio das
brincadeiras (SCAGLIA, 2005). O futebol deve ser ensinado como brincadeira nas
escolinhas, pois crianças encaram a brincadeira com seriedade, e na seriedade de
aprender a brincadeira aprende-se futebol. (FREIRE, 2003)
Então, as atividades lúdicas e as brincadeiras infantis adaptadas são
utilizadas para o aprendizado dos fundamentos do futebol.
Mas, para se jogar futebol são necessárias várias combinações de
habilidades, pois não acontecem no jogo apenas chutes, ou apenas fintas, mas
momentos únicos que exigem a combinação de todas estas formas de expressão.
Preocupado com isto, Freire (2003) propõe um grande repertório de jogos
adaptados, que têm por função enfatizar um fundamento do futebol dentro de um
jogo em que todas as outras habilidades específicas estão também fazendo parte,
sem deixar de contextualizar o jogo de futebol, propriamente dito.
Sendo assim, ele, discute a importância e dispõe de uma devida atenção
sobre a integração das habilidades ao conhecimento do jogo, pois as habilidades
individuais perdem sentido quando o jogo coletivo não é compreendido. [...] Se suas
habilidades individuais puderem ser utilizadas no contexto geral do jogo, elas serão
úteis, caso contrário, ele será apenas um malabarista, mais indicado para exibições
que para desempenhar um papel relevante no jogo de futebol [...] (p.65)
Para um melhor entendimento desta integração de todos os aspectos,
motor, cognitivo e afetivo/social, com o aprendizado do futebol, e para uma
organização didática do planejamento das aulas, que devem partir do mais individual
- simples, egocêntrico - para o mais coletivo - complexo, heterocêntrico, hipotético,
tático - Freire divide as habilidades do jogo, agrupando-as em: habilidades
53

individuais (finalização, condução, cabeceio, controle); habilidades coletivas de


oposição (dribles, desarmes e defesas do goleiro); habilidades coletivas de
cooperação (passe, cruzamento e lançamento); habilidades cognitivas de integração
(constituídas pelas habilidades de compreender o jogo como um todo, tornando o
jogador capaz de antecipar jogadas, de criar hipóteses de jogo, de analisar o jogo,
de aplicar planos táticos).
Seguindo uma organização pedagógica que contemple todo o
conhecimento teorizado até então, a aula é dividida em cinco partes, onde a primeira
é destinada à formação de uma roda de conversa em que o professor expõe e
explica a aula; na segunda parte realiza-se um jogo adaptado dando-se ênfase a
uma das particularidades do jogo, de preferência a última trabalhada na aula
anterior, pois em cada aula destacam-se dois fundamentos para serem trabalhados;
já na terceira parte, de preferência de forma lúdica, exercita-se uma das habilidades
do futebol, ou seja, uma nova não enfatizada na aula anterior; no quarto momento
deve-se realizar um jogo de futebol que pode conter ou não algumas regras
adaptadas. A aula se encerra sempre com uma roda de conversa onde ela é
discutida e avaliada pelo grupo em conjunto com o professor.
Ao final do processo de ensino-aprendizagem o aluno tem o livre arbítrio
para escolher qual o caminho a seguir, se o do esporte (futebol) performance, ou
esporte (futebol) participação, tendo por base o esporte (futebol) educação
vivenciado, aprendido e desenvolvido na escolinha de futebol. (TUBINO, 2001).
Esporte participação porque possibilitou a aprendizagem do futebol para
todos, em todos os níveis. Esporte educação, pois acreditou e oportunizou a
transmissão de valores educativos através do futebol. Esporte performance porque,
após percorrido todo o processo de ensino-aprendizagem, tem-se a possibilidade de
buscar uma especialização que levará o aluno ao encalço do alto rendimento, pois
não se pode negar esta oportunidade aos que se dedicam e se destacam.
(SCAGLIA, 2005)
Os ensinamentos teorizados por Freire, são um marco nacional em relação
à pedagogia do futebol, pois nos remetem a constantes reflexões e
conseqüentemente possibilitam um salto qualitativo em prol do ensino desta
modalidade.
Portanto, a iniciação esportiva necessita ser, na teoria e na prática, um
exercício criador e responsável, que regido por uma pedagogia consistente,
54

transmita muito mais que o aprendizado de gestos técnico-esportivos. Valores


éticos, sociais e morais devem ser ensinados através das várias possibilidades que
o conceito de esporte abrange, para que se possa fazer do aluno um sujeito de
transformação do seu tempo, preocupado com uma cidadania que lhe permita viver
bem em qualquer que seja o caminho do esporte escolhido por ele a seguir.
(SCAGLIA, 2005)
É fundamental que no universo de abrangência das escolinhas de futebol,
tenha-se espaço para a Educação, a Pedagogia, a Iniciação, a Competição e o
Futebol, pois, é através do trabalho de professores compromissados com sua tarefa
de ensinar esporte (futebol), que novas experiências possam ser alicerçadas em
teorias consistentes, que possam vir a confirmar o futebol como agente de inclusão
social.
55

3 EDUCAÇÃO ESPORTIVA PARA O DESENVOLVIMENTO HUMANO:


INCLUSÃO SOCIAL NAS ESCOLINHAS DE FUTEBOL

“Antes que planejemos nossa aula, a vida nos planejou. Os professores são
mais que os livros que leram, os discursos que ouviram, as correntes
pedagógicas que se impuseram”.

João Batista Freire.

O objetivo deste capítulo é identificar conexões entre os princípios da


educação esportiva e algumas teorias acerca do Desenvolvimento Humano, de
modo a propiciar a inclusão social nas escolinhas de futebol. Para tanto, é
importante esclarecer que o termo “Desenvolvimento Humano” é utilizado
normalmente para retratarmos índices relacionados aos aspectos sócio -
econômicos de um determinado contexto social. (ARRUDA, 2006). Para muitos
professores de escolinhas esportivas, é concebido apenas pelo ponto de vista
biológico. O Desenvolvimento Humano deve ser analisado por diversas abordagens:
econômica, ecológica, neurociências, educacional etc.

O processo de Desenvolvimento Humano implica re-significação das


sensações dos seres humanos diante suas trajetórias de vida contemplando uma
multiplicidade de aspectos do comportamento humano, relacionados aos fatores
culturais, sócio-econômicos, físicos e espirituais em prol da evolução de ser
planetário. (SOARES, 2007)
De acordo com Arruda (2006), a idéia de Desenvolvimento Humano está
intimamente relacionada com a expressão “aperfeiçoamento”, “transformação”, uma
vez que o Desenvolvimento Humano se define como a superação dos
condicionamentos que impedem a plena expressão das potencialidades humanas, e
a consciência da unicidade, da integralidade e o reencontro como o outro e com a
totalidade.
Antes de falarmos sobre a educação esportiva, abordaremos a educação no
sentido mais amplo. Considerada como fator primordial para o processo de
desenvolvimento humano, a educação tem tomado nova concepção, deixando de
lado o paradigma newtoniano/cartesiano, o qual se caracteriza por uma concepção
de vida mecânica e material, racionalista, deixando de lado os sentimentos e os
56

valores humanos. Essa nova concepção chamada de educação transdisciplinar27


prima pela unidade de pensamento entre os conhecimentos religioso, filosófico e
científico, a partir da compreensão da necessidade de integração de todos os níveis
e de todas as dimensões do Ser Humano. (SOARES, 2007).
Para Soares (2007), pensar em educação transdisciplinar é considerar o
indivíduo na sua totalidade. É considerá-lo como um ser trino, que sente, pensa e age.
A educação transdisciplinar objetiva proporcionar ao indivíduo a possibilidade de
romper com os paradigmas construídos ao longo de sua existência. Paradigmas que
os têm levado a um estado de adestramento e escravidão a valores que são impostos
pela própria sociedade, como a exarcebação do alto rendimento esportivo nas
escolinhas de futebol. O princípio da transdisciplinaridade está pautado na arte de
autoconhecer-se, na arte de buscar descobrir seus verdadeiros valores, sentimentos,
emoções, no sentido de nortear suas ações. Assim sendo, acredita-se que esse deve
ser o basilar para o processo de desenvolvimento humano.

Diante dos novos paradigmas não há mais espaço para a educação


utilitarista, de só oferecer informações úteis para a competitividade e para obter
resultados. De acordo com Gadotti (2002) os desafios desse novo século impõem que
se ultrapasse a visão instrumental da educação e evolua para uma educação
fundamentada em valores humanos. O foco agora é o ser humano na busca de seu
desenvolvimento para que ele descubra e desenvolva o potencial que tem dentro de si.
Soares (2007), nos diz que educação incorreta ou disciplinar tem como propósito a arte
de “desaprender”. É, portanto, uma educação que fragmenta o ser humano.
Educar o indivíduo através da prática transdisciplinar, seja ele da educação
básica ou nas escolinhas, é possibilitá-lo à busca pela autoconsciência, condição
essencial para o processo de desenvolvimento humano. A autoconsciência
fundamenta-se na busca pelo autoconhecimento, na liberdade de aprender e integrar
os sentimentos, pensamentos e atos, fato que só é possível se pensar quando existir
uma educação correta que oportunize a liberdade da arte de aprender e de estar
sempre aberto ao novo. É importante que a educação tenha a tarefa de educar

27 Os princípios da educação transdisciplinar são abordados com profundidade na obra intitulada


“Educação Transdisciplinar e Arte de Aprender: a pedagogia do autoconhecimento para o
desenvolvimento humano” Soares (2007).
57

integralmente, de preparar a criança para ser feliz e contribuir para a felicidade das
demais.
De fato, o “aprender a ser” revela a preocupação da educação esportiva com
o desenvolvimento pleno do ser humano, isto é, com a possibilidade dele saber sentir,
pensar e agir de forma integrada, sem causar tanto caos e desequilíbrio na sociedade.
Para contemplar nosso objeto de estudo, se faz necessário pensar em uma
“educação esportiva” que possibilite o desenvolvimento humano, pois nos interessa
identificar e analisar as práticas pedagógicas de professores em escolinhas de futebol,
buscando estabelecer uma concepção de desenvolvimento humano voltada para
evolução.
A educação esportiva carece de uma evolução no sentido de vincular o
processo de desenvolvimento humano às práticas pedagógicas de professores em
escolinhas esportivas. Até que ponto, a educação esportiva utilizando o futebol como
agente de inclusão social, pode apresentar um salto qualitativo alicerçado pelas
teorias do Desenvolvimento Humano?
O esporte é um poderoso fator de desenvolvimento humano, num sentido
mais amplo, porque contribui de forma decisiva para formação física e intelectual
dos indivíduos. Valores como solidariedade, respeito ao próximo, tolerância, sentido
coletivo, cooperação, disciplina, capacidade de liderança, respeito às regras e
noções de trabalho em equipe, são fundamentais para formação do cidadão.
(WILPERT, 2005)
A socialização deve ser entendida pelo processo através do qual um
indivíduo se torna membro funcional de um grupo social, assimilando características
e hábitos desse grupo, assimilando também a cultura presente no grupo social em
que se insere. É um processo interminável, que começa pela assimilação dos
hábitos, dos gestos, das falas dos membros do grupo com o qual queira se
sociabilizar e se realiza através da comunicação e da adesão aos costumes deste
mesmo grupo. (GOELLNER, 2009).
Quando nos reportamos ao termo inclusão, refletimos sobre o direito de
convivência das pessoas que se afastam do padrão dominante, em diferentes
espaços, independente das diferenças face ao padrão.
De acordo com Wilpert (2005) a inclusão social se apresenta como um
processo de atitudes afirmativas, pública e privada, no sentido de inserir no contexto
social mais amplo todos aqueles grupos e populações excluídas. Ou seja, devemos
58

entender a inclusão como processo oposto à exclusão. Não basta construir teorias
para induzir ações transformadoras, pois uma das dimensões do processo de
inclusão social é a educação esportiva, ou seja, é necessário oportunizar a prática
esportiva, nas escolinhas esportivas, sejam elas sociais, comerciais ou formativas.
Então, constata-se que a inclusão social é o compromisso fundamental,
norteador de ações pedagógicas, e a partir desta, toda e qualquer manifestação e
divulgação da cultura corporal de movimento. Para isso é preciso que se adote uma
perspectiva metodológica de ensino aprendizagem que busque o desenvolvimento
da autonomia, a cooperação, a participação social e a afirmação de valores e
princípios democráticos.
Desta forma, se a inclusão significa garantia dos direitos do cidadão, se a
prática do futebol é utilizada intensamente para o lazer, sendo o lazer um direito do
cidadão, pode-se pressupor que o futebol tem um grande potencial de inclusão
social. (WILPERT, 2005). Neste sentido, pensando nas escolinhas como um
caminho para tomada de consciência para inclusão social, pergunta-se: qual é o
público alvo de tal educação inclusiva através do esporte nas escolinhas de futebol?
Incluir socialmente significa garantir a participação do indivíduo em todo e
qualquer ambiente que o cerca. Portanto, sendo as escolinhas de futebol, um
espaço contextual de ensino do futebol, apresenta-se como uma possibilidade
bastante interessante para o exercício da inclusão, da oportunidade, da garantia dos
direitos para todos, não só nas escolinhas sociais, mas também nas comerciais e
formativas de acordo com as dimensões estabelecidas em nossa pesquisa.
A educação esportiva pautada pelo processo de Desenvolvimento
Humano, deve estar alicerçada por princípios educacionais que ressaltem o auto-
conhecimento, o auto-controle, o respeito a diversidade28, enfim, o desenvolvimento
bio-psico-social.
Pensamos em uma educação esportiva, que também busque o auto-
desenvolvimento. O auto-desenvolvimento impulsiona o desenvolvimento do outro,
da comunidade, do individuo, da coletividade, até porque, não é possível se
conceber o indivíduo no seu isolamento absoluto, sem que haja interação ao menos
consigo próprio. É certo que o indivíduo vive em constante interação e suas ações

28 Termo utilizado para fazer referencia as diferenças existentes entre as pessoas, tais como as
diferenças culturais, de gênero, étnicas, raciais, religiosas, de geração, de inserção social, e de
situação econômica, entre outras. (GOELLNER, p. 10, 2009)
59

repercutem na coletividade. O auto-desenvolvimento perpassa pela autoconsciência,


na percepção de cada indivíduo acerca de sua existência e de seu propósito para
com a vida. (SOARES, 2007). A educação esportiva correta é um dos pilares para o
desenvolvimento humano, e a partir dela é que o indivíduo terá a possibilidade de
plantar e disseminar boas ações para ele e para toda a sociedade.
As escolinhas esportivas precisam rever o seu papel e seus
procedimentos. Precisam sintonizar-se com as exigências da sociedade atual,
revendo seu modelo de ensino-aprendizagem.
O processo educativo nas escolinhas deve promover o desenvolvimento
integral do aluno, ou seja, seu desenvolvimento cognitivo, psicológico, emocional,
intuitivo, que o leve não somente a tomar consciência da sua autoridade interna sobre
si mesmo, e da sua responsabilidade relacionada às suas eleições de vida, como
também exercitar essa autoridade interna com equilíbrio, discernimento, autonomia e
liberdade, através do exercício autoconsciente da auto-educação e do
autoconhecimento. (SOARES, 2007). Desta forma, não se pode pensar em
desenvolvimento humano se não pensarmos nessas suas três dimensões.
Assim sendo, na prática a educação esportiva se confunde com a finalidade
da vida, seus esforços devem ser dirigidos no sentido de desenvolver seres humanos
para ajudá-los a alcançar a auto-realização, buscando equilíbrio, oportunizando ao
indivíduo ser tudo o que ele é, nem mais, nem menos, portanto, deve atuar como
agente não só de reformas ou mudanças, mas, sobretudo, de transformação no
ambiente das escolinhas
60

4 ESTUDOS DE CASO EM AÇÃO: ANÁLISE E DISCUSSÃO

“O menino brasileiro aprende cedo a amar a bola e a ser fiel a ela. Nesse
amor – ou nessa fidelidade – o presente e o futuro do futebol brasileiro”.

João Máximo e Luis R Porto.

O presente capítulo tem como objetivo apresentar a partir da análise das


informações coletadas durante a realização da nossa pesquisa, o diálogo
interpretativo com a realidade pesquisada, na intenção de revelar as práticas
pedagógicas dos professores de escolinhas de futebol, no que tange o processo de
Desenvolvimento Humano.
Após a formulação das questões básicas, estabelecemos procedimentos
investigativos na perspectiva de delinear o método que norteou a investigação.
Percorremos diversos caminhos. Os caminhos percorridos foram cheios de
dificuldades, próprios a um estudo que exige:

a) O diálogo com os autores da área – análise de conteúdo dos textos de


livros, periódicos e outros;
b) Observação das aulas nas escolinhas;
c) Opinião e análise das falas dos professores que coordenam o trabalho
nas escolinhas.

Nessa caminhada ter a compreensão mais alargada da metodologia


exercitada, é de fundamental importância para orientar o processo de investigação,
para a tomada de decisões, na “seleção dos conceitos, das percepções
sensibilizadoras, técnicas e dados”. (SANTOS, 2000). A propósito, Thiollent nos
indica um caminho reflexivo a ser percorrido na busca do método.

Consiste em analisar as características dos vários métodos disponíveis,


avaliar suas capacidades, potencialidades, limitações ou distorções e
criticar os pressupostos ou as implicações de sua utilização. Ao nível mais
aplicado, a metodologia lida com a avaliação de técnicas de pesquisa e com
a geração ou a experimentação de novos métodos que remetem aos modos
efetivos de captar e processar informações e resolver diversas categorias
de problemas teóricos e práticas da investigação. Além de ser uma
disciplina que estuda os métodos, a metodologia é também considerada
como modo de conduzir a pesquisa (1992, p. 25).
61

Realizamos uma pesquisa de abordagem qualitativa, porque a fonte onde


foram coletadas as informações foi o ambiente natural, e as ações puderam ser
melhor compreendidas e observadas (SANTOS, 2008). No que concerne a
pertinência e relevância dos recursos metodológicos utilizados, temos que uma
pesquisa qualitativa é aquela que nos permite reconhecer a partir da “descrição,
análise e interpretação das informações” adquiridas durante o processo
investigativo, os sentidos e significados dos sujeitos e torná-los contextualizados aos
nossos achados, sem uma preocupação em generalizar. (SANTOS, 2000)
Segundo Magnani (1984), a fala dos sujeitos permite reconhecer o nosso
objeto de estudo com maior detalhe, podendo a partir daí, re-significá-lo, percebendo
cada atitude, cada detalhe que possibilite sentidos e significados que venham
aparecer durante a pesquisa, ou seja, ir além das aparências que normalmente
estão presentes nas pesquisas de cunho única e exclusivamente quantitativas.
Para caracterizarmos as dimensões de escolinhas de futebol, foi seguida a
sistematização proposta por Venlioles (2004) no capítulo dois. Para um melhor
entendimento da nossa pesquisa, deve ficar claro que o sujeito 1, representou a
dimensão social, o sujeito 2, representou a dimensão comercial e o sujeito 3,
representou a dimensão formativa. Essa denominação teve o intuito de preservar o
anonimato dos sujeitos e das unidades de estudo.
Foram realizados estudos de caso em três escolinhas de futebol de um
bairro da cidade do Salvador. A escolha das escolinhas se deu em virtude do
contato direto do pesquisador com os gestores dos espaços, além do bairro em
questão ter escolinhas dos três tipos por nós pesquisadas.
Foi configurada a opção por estudos de caso, porque em adaptar-se a
diferentes contextos, possibilita a participação e valoriza a percepção do
pesquisador, ao tempo em que proporciona exaustivo e profundo estudo do objeto
ou fenômeno pesquisado, permitindo o alcance de um conhecimento amplo e
aprofundado. Neste caso, Yin (2002) salienta que este é um tipo de pesquisa
empírica que busca investigar um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto
real, considerando que as fronteiras entre o fenômeno e o contexto não claramente
evidentes.
Macedo (1998) apud Santos (2000) salienta que a preocupação principal
dessa opção metodológica é compreender uma instância singular, especial. Chega a
62

firmar que os estudos de caso visam à descoberta partindo do entendimento de que


o conhecimento é algo sempre em construção e se re-significa a todo o momento.
A coleta de informações foi feita com a utilização de entrevista semi -
estruturada29 com professores que coordenam o trabalho nas escolinhas, além de
observação das aulas e fotografia. Durante a realização da pesquisa utilizamos
como forma de registro, roteiro de entrevista (questionário), fotografias, gravações e
conversas informais com os pais dos alunos das escolinhas.
Para procedermos à análise e interpretação das informações coletadas a
respeito das práticas pedagógicas, foi utilizada a técnica de análise de conteúdo,
sendo necessário agrupar as informações em torno de quatro categorias de análise,
apresentadas no roteiro de entrevista: infra-estrutura institucional, capacitação
técnica-científica dos professores, organização pedagógica, metodologias adotadas
nas aulas. (APÊNDICE A)
A análise de conteúdo procurou conhecer aquilo que está por trás das
palavras. Isso porque dos sujeitos pesquisados, a análise de conteúdo buscou
outras realidades através das mensagens. “[...] visa o conhecimento de variáveis de
ordem psicológica, sociológica, histórica, etc., por meio de mecanismo de dedução
com base em indicadores reconstruídos a partir de uma amostra de mensagens
particulares”. (BARDIN, 2006, p. 39).
A significância do uso do Método de Análise de Conteúdo está centrada
nas possibilidades que o método oferece em ser associado a outros instrumentos de
coletas de dados, como neste caso, que envolveu entrevista semi - estruturada,
observação livre, pesquisa bibliográfica e documental, analisando não só aspectos
culturais, atitudinais, sociais ou econômicos, mas ainda descortinando os conteúdos
ocultos na aplicação de uma única técnica de coleta de dados.
As respostas dadas durante as entrevistas, pelos sujeitos responsáveis
pelas unidades de estudo, foram analisadas, no sentido de identificar as reais
práticas pedagógicas adotadas pelos professores das escolinhas em dimensões
distintas, e ao mesmo tempo foi possível realizar uma análise das falas, dialogando
com autores que teorizam as categorias de análise apresentadas no estudo.

29 [...] combina perguntas fechadas (ou estruturadas) e abertas, onde o entrevistado tem a
possibilidade de discorrer sobre o tema proposto, sem respostas ou condições prefixadas pelo
pesquisador” (MINAYO, 2004, p. 108)

.
63

4. 1 ELABORAÇÃO DO ROTEIRO DE ENTREVISTAS

Almejamos a construção de um roteiro de entrevistas que teve como


objetivo, a solução do problema de pesquisa. Na categoria infra-estrutura
institucional, foram levantadas informações das escolinhas de futebol, quanto a sua
natureza social, local das aulas, tipo de piso, bem como informações sobre a
diversidade de recursos didático-pedagógicos. Em relação à categoria, capacitação
técnica - científica dos professores, verificamos a especificidade das experiências
acerca da prática do futebol pelos professores, tempo de atuação como professor
das escolinhas, motivação para intervenção profissional nas escolinhas, formação
acadêmica e cursos de aperfeiçoamento. Em termos de organização pedagógica,
buscamos identificar as faixas etárias estabelecidas, a existência de projeto
pedagógico e os principais objetivos de cada unidade pesquisada. Por fim,
levantamos informações acerca das metodologias adotadas, importância da cultura
do futebol, valores transmitidos através da prática pedagógica, visão sobre a
competição, comportamento dos pais e dos filhos (alunos).
As respostas dadas durante as entrevistas, pelos sujeitos responsáveis
pelas unidades de estudo, foram analisadas, no sentido de identificar as reais
práticas pedagógicas adotadas pelos professores das escolinhas em dimensões
distintas, e ao mesmo tempo foi possível realizar uma análise das falas, dialogando
com autores que teorizam as categorias de análise apresentadas no estudo.

4. 2 CARACTERIZAÇÃO DAS UNIDADES DO ESTUDO

De acordo com os tipos de perfil de cada unidade de estudo, optamos pela


denominação das escolinhas em A, B e C, no intuito de preservar as características
de cada organização.
Essas denominações foram detalhadas, tendo como parâmetro as
categorias de análise estabelecidas. A pesquisa apontou algumas características
básicas baseadas na entrevista com os professores que coordenam o trabalho nas
escolinhas, que passamos a descrever:
64

4.2.1 Escolinha de Futebol A - Dimensão Social

Figura 1 - Escolinha de Futebol A - Dimensão Social


Foto: arquivo pessoal

Foi verificado que esta escolinha não possui sede própria, além disso, é
vinculada a um projeto de uma Organização Não Governamental (ONG), que
estabeleceu uma relação de parceria com o clube. Seus alunos (cerca de 60: 45 do
sexo masculino e 15 do sexo feminino), não pagam mensalidade e em grande
maioria residem nas proximidades do bairro, estudam em escolas públicas e
apresentam baixo poder aquisitivo.
As aulas acontecem às segundas, quartas e sextas (turnos matutino e
vespertino), com duração de 1h30min. As atividades são desenvolvidas numa
quadra poli - esportiva às segundas e quartas-feiras e ministradas por um professor
de Educação Física, que é ex-atleta amador de futebol com experiência de cinco
anos como professor da escolinha. As sextas-feiras acontecem às aulas de
Formação para Cidadania, que são coordenadas por um psicólogo, assistido por um
grupo de alunos de uma IES privada de Salvador.
A escolinha não estabelece divisões por categoria e sexo. Meninos e
meninas, de oito aos 14 anos participam conjuntamente das atividades. O projeto
pedagógico traz como principais objetivos a possibilidade de inclusão social,
oportunidade de lazer e formação do cidadão.
A escolinha não participa de competições externas. Ao final do ano é
realizada uma competição interna, com regras adaptadas que contemplam a filosofia
do trabalho pedagógico desenvolvido pelo professor e o psicólogo.
65

4.2.2 Escolinha de Futebol B - Dimensão Comercial

Figura 2 - Escolinha de Futebol B - Dimensão Comercial


Foto: arquivo pessoal

Esta escola pesquisada não possui sede própria. Contempla uma iniciativa
privada que aluga os espaços do clube para suas atividades. Seus alunos (cerca de
120: 90 do sexo masculino e 30 do sexo feminino), pagam mensalidade; 10% das
vagas são destinadas a crianças carentes.
As aulas acontecem ás terças e quintas (turnos matutino e vespertino),
com duração de 1h30min. As atividades são desenvolvidas num campo de grama
sintética e ministradas por dois professores de Educação Física, que são ex-atletas
amadores de futebol, ambos com experiência de mais de três anos como
professores da escolinha.
A escolinha é organizada em cinco categorias, segundo as faixas etárias:
quatro a seis anos, sete a 10 anos, nove aos 12 anos, 13 aos 15 anos. O projeto
pedagógico traz como principal objetivo, a formação do cidadão.
A escolinha participa de competições externas, entretanto todos participam
dos jogos.
66

4.2.3 Escolinha de Futebol C - Dimensão Formativa

Figura 3 - Escolinha de Futebol C - Dimensão Formativa


Foto: arquivo pessoal

A pesquisa detectou que a Escolinha de Futebol possui sede própria, além


disso, é vinculada a um Clube de Futebol Profissional da cidade do Salvador. Seus
alunos (cerca de 60, todos do sexo masculino), pagam mensalidade, embora
participem alguns convidados que são encaminhados por professores de outras
escolinhas, por apresentarem boas condições técnicas para prática do futebol.
O coordenador entrevistado informou que as aulas acontecem ás terças e
quintas (turnos matutino e vespertino), com duração de 1h30min. Os sábados são
reservados para jogos internos. As atividades são desenvolvidas em dois campos
(um de grama natural e outro de grama sintética) e conduzidas por um ex-atleta
profissional de futebol com experiência de dezoito anos como professor de
escolinhas, embora não tenha formação superior em Educação Física.
A escolinha é organizada em quatro categorias: quatro a seis anos, sete a
10 anos, 11 a 12 anos, 13 a 16 anos. O projeto pedagógico traz como principal
objetivo à formação de atletas, que possam integrar as divisões de base do clube, a
qual é vinculada.
A escolinha participa de competições externas. Os alunos que representam
a escolinha nestas competições são aqueles que se destacam durante as aulas.
67

4.3 ESCOLINHAS DE FUTEBOL: PERCEPÇÕES DOS SUJEITOS

As escolinhas de futebol parecem ser espaços que possibilitam


experiências significativas em prol da formação da criança que almeja a prática
desta modalidade.
Achamos necessário discutir com maior profundidade questões pertinentes
a educação esportiva pautada pela teoria do Desenvolvimento Humano, já que o
foco do nosso estudo é a possibilidade de inclusão social, tendo o futebol como
agente.
No período de observação nos chamou à atenção a metodologia utilizada
nas aulas, principalmente porque tivemos acesso aos planos de aulas / atividades,
das três unidades de estudo. Após análise dos documentos, realizamos uma
compilação30 dos itens, no sentido de propor um documento que contemple as
realidades pesquisadas. (APENDICE B). Quando nós nos deparamos com situações
excludentes do ponto de vista social, estamos diante daquilo que denominamos de
discriminação que decorre de diferentes fatores: gênero, orientação sexual,
raça/etnia, classe social, habilidade, idade, padrão corporal, entre outros.
(GOELLNER et al, 2009).
Como objetivamos percepções relevantes dos sujeitos acerca do problema
da pesquisa, buscamos analisar alguns posicionamentos, que foram frutos das
entrevistas.
O sujeito 1, nos trouxe um relato interessante no que diz respeito as suas
práticas pedagógicas no trato das relações de gênero e idade das crianças

A questão social agente acaba misturando, dos oito aos 14 anos, meninos e
meninas juntos. Agente faz algumas adaptações às regras, que possibilitam a
participação das meninas. (Sujeito 1).

Embora a maior parte dos gestores de escolinhas de futebol, não serem


adeptos a este tipo de organização, achamos possível a adoção de práticas
pedagógicas, que possibilitem a participação de indivíduos de faixas etárias

30 Ver detalhes sobre as características da pesquisa documental, na obra organizada por Rocha et
al (2008).
68

distintas, além de unir meninos e meninas num mesmo espaço. (KUNZ, 2005).
Contudo a viabilidade para tal deve ser estudada com critérios e algumas
adaptações. Nessa mesma linha de pensamento o sujeito 1 completa:

Nos jogos, cada aluno participa no máximo cinco minutos continuadamente, depois
tem que dar o lugar a outro colega. Só menina chuta de fora da área, os meninos só
chutam de dentro.

Para os sujeitos 2 e 3, as faixas etárias devem ser bem definidas para


otimização do trabalho. Em relação a participação de meninas, fica notório a
característica marcante de modalidade masculina em nossa sociedade.

Controlamos muito, as divisões por idade para evitar problemas. Aqui não temos
meninas. Sujeito 2

Aqui pra nós... futebol não é coisa pra mulher. (Sujeito 3)

Em relação à faixa etária, o sujeito 3 salienta que nem sempre a idade


acompanha o nível de desenvolvimento da criança, dizendo:

Ás vezes temos um menino com certa idade, que é meio bororó, ai a gente bota
numa categoria mais baixa. (Sujeito 3)

O entrevistado refere-se a uma criança com poucas qualidades técnicas,


táticas e físicas, em relação ao que seria ideal de acordo com sua experiência.
Percebemos também um viés de discriminação pelo termo pejorativo atribuído a
criança.
Quando indagados sobre a influência dos pais, no dia a dia das escolinhas,
algumas falas foram destacadas para nossa análise:

Os pais que mais comparecem as aulas são dos filhos mais bem comportados.
Esses não fazem muitas cobranças em termos de rendimentos técnicos. (Sujeito 1).
69

Os pais citados pelo sujeito 1, parecem focar a formação do cidadão, ou


seja valores proporcionados pela prática esportiva orientada em grupo. Não estão
preocupados com o talento esportivo dos filhos. Os sujeitos 2 e 3 se mostram
preocupados com a participação dos pais:

O que preocupa mais a gente são os pais. O menino não consegue chutar a bola...
ele acha que consegue. Sujeito 2

O grande problema das escolinhas são os pais. Chega aqui o filho do barão com o
pai cheio de expectativa. O ideal seria juntar a cabeça do pai com a força do filho.
Sujeito 3

Muitos pais depositam suas frustrações nos “ombros” dos filhos. Querem
ver as crianças se destacando. Esse tipo de pressão pode afetar, o prazer de
jogar/brincar das crianças. Níveis de desenvolvimento devem ser respeitados. Um
bom rendimento está condicionado não só a fatores biológicos, mas a fatores
psicológicos e sociais. Os pais também são responsáveis pela sedução
proporcionada pelo mundo da bola. As cobranças devem ser evitadas. Pensamos
que os pais devem fomentar a busca pela auto-superação e os professores devem
se configurar como articuladores deste processo.
O trato pedagógico com a competição é outro ponto que merece destaque
em nosso estudo. De fato temos percepções distintas dos sujeitos da pesquisa.
Essa constatação fica muito clara, quanto ao posicionamento dos sujeitos. O sujeito
1, diz que:

Olha, a competição aqui tem um caráter de inclusão mesmo. Na nossa competição


de final de ano todos participam, fazemos um rodízio, cada aluno ou aluna, joga
cinco minutos e descansa dois. Assim todos participam igualmente. Para nós a
competição vira um festival de futebol. (Sujeito 1)

A competição é concebida pelo sujeito 1, pelo seu caráter emancipatório,


ou seja, muito pode ser aprendido com a possibilidade de competir. Saber vencer
pode ser muito mais difícil do que saber ganhar. Na competição a criança tem a
70

grande possibilidade do auto-conhecimento. O sujeito 2, relata a insatisfação das


crianças quando competem na presença dos pais:

Muitas vezes, os meninos não querem a presença dos pais nas competições. Tento
trabalhar a cabeça deles, mas percebo o nervosismo de muitos. Parece que abola
começa a queimar nos pés deles (Sujeito 2)

Para o sujeito 3, a competição tem características, criticadas anteriormente


por nós, ainda que reconheçamos o perfil da escolinha coordenada pelo mesmo. Em
relação ao assunto em questão ele enfatiza:

O mirrado tem que ser excelente para jogar. O futebol tem uma dinâmica só, é matar
ou morrer. Eles sabem que tem que jogar tudo o que sabem. Hoje agente vê vários
jogadores profissionalizados que passaram pela mão da gente. Foram observados
nas competições.(Sujeito 3).

Em muitas situações, professores são influenciados por empresários e


olheiros, e esquecem da sua função de educador. A pressão exercida pode causar
uma lesão psicológica na criança31. Chama atenção pela análise da condição física
da criança, ou seja, para competir, tem que estar preparado fisicamente, devendo
ser forte e alto. Este é o biótipo almejado por muitos treinadores e preparadores
físicos do futebol profissional.
Onde ficou a percepção de que o futebol é uma modalidade democrática
em termos de qualidades físicas dos seus praticantes? Temos que ter muito cuidado
com esses estereótipos. Acreditamos que a rigidez por um padrão corporal ideal,
pode afastar muitas crianças da prática esportiva. Será que meninos como o
“baixinho” Romário ou o “magrinho” Robinho não podem ter oportunidades nas
escolinhas formativas?
Em relação aos aspectos que favorecem a emancipação do ser humano,
podemos discutir as questões que permeiam a cidadania, O sujeito 1, enfatiza a
questão dizendo que:

31 Muitas crianças têem dificuldades de lidar com o extresse provocado pelas cobranças durante
competições esportivas. Weineck (1999), nos traz valiosas contribuições para compreensão dos
aspectos relacionados à competição esportiva.
71

O professor de cidadania nos cobra, um posicionamento em relação a melhora


individual de cada aluno na escola. (Sujeito 1)

O sujeito 1 revela a preocupação no acompanhamento acerca da


comportamento das crianças. Ainda que seja um acompanhamento subjetivo,
acreditamos que às aulas de Formação para Cidadania tenha uma importante
influência nas relações interpessoais das crianças, ainda que seja difícil quantificá-
las.
A formação do cidadão também é enfatizada pelo sujeito 2, ratificando a
prática pedagógica alicerçada na teoria do esporte como meio de educação.
(FREIRE, 2003)

Se você for olhar, utilizamos uma pedagogia que busca a formação do cidadão.
(Sujeito 2).

Para o sujeito 3, a prática esportiva nas escolinhas, deixa a criança menos


vulnerável do ponto de vista social. O interesse pelo futebol desvia o foco de
atenção de muitas crianças. Ele diz:

O menino tem a oportunidade de sair do vazio. O esporte tira o menino do vício... tira
mesmo. Já imaginou quanto menino que fazia coisa que não presta, acabou
gostando de jogar bola. Isso é muito bom (Sujeito 3).

Após analisarmos questões pertinentes às práticas pedagógicas nas três


escolinhas de futebol, percebemos que tais práticas contribuem para o
desenvolvimento humano de crianças, nas dimensões aqui apresentadas, através
do exercício autoconsciente, da auto-educação e do autoconhecimento, em todas as
experiências vivenciadas, sejam com os pais, professores e principalmente os
próprios colegas.
Embora o sujeito 3, tenha nos revelado características típicas de uma
prática pedagógica, dissociada de princípios que respeitem as características da
criança, além da ética, no que tange a competição, podemos levar em consideração
a falta de formação especifica na área de Educação Física. Desta forma, podemos
ratificar a fala de autores, como (Santana, 2004) que questionam a prática
72

pedagógica de alguns professores de futebol, que atuam em escolinhas, que


possuem formação específica na área de Educação Física, contudo insistem em
perpetuar as características das competições vivenciadas por atletas de alto
rendimento. (PAES, 2005) e (SANTANA, 2004)
Acreditamos que as falas dos sujeitos 1 e 2, aproximam-se do que seja
ideal, em termos de pedagogia do esporte, de acordo com a maior parte da literatura
que alicerçou o marco teórico do nosso estudo.
Portanto, as discussões acerca das questões de gênero, faixa etária,
influência dos pais, competição, padrão corporal, níveis de habilidade e cidadania,
são essenciais para estabelecermos práticas que possam favorecer a inclusão
social, por isso devem ser analisadas com atenção para construção de uma
identidade pedagógica que favoreça o processo de Desenvolvimento Humano.
73

CONCLUSÃO

O futebol ainda é pouco estudado, pesquisado e seriamente tratado como


assunto pedagógico nas escolinhas. Para a Educação Física o “fenômeno
esportivo”, futebol, sempre teve um tratamento diferenciado. Muitos professores
ainda têm a falsa idéia de que a predisposição para se aprender futebol está nas
“entranhas” do brasileiro, e que, por este motivo não é grande a necessidade de nos
preocuparmos tanto com discussões pedagógicas.
As práticas pedagógicas dos professores nas escolinhas evidenciam a
necessidade de um uma reflexão criteriosa dos processos de ensino–aprendizagem
de crianças, levando em consideração todas as características dessa modalidade
tão fascinante.
Se entendermos o termo “pedagogia” como a teoria que permeia a ação,
saberemos que o conhecimento não deve se resumir á formulações teóricas, mas
que sem se dissociar da prática, possibilite uma intervenção da realidade.
Consideramos ter alcançado a construção de uma dissertação que
respondesse ao problema de pesquisa e contemplasse os objetivos estabelecidos
do estudo.
De fato, as práticas pedagógicas em escolinhas de futebol de Salvador,
por nós analisadas neste estudo, contribuem para o processo de Desenvolvimento
Humano, sendo o futebol um excelente agente de inclusão social, tanto nas
escolinhas sociais, como nas comerciais e formativas.
A discussão a respeito dos princípios pedagógicos apresentados deve se
materializar em metodologias práticas no desenrolar de um processo de ensino-
aprendizagem. As obras pesquisadas, dentro das limitações, asseguram um
caminho para práticas pedagógicas que contemplem a inclusão social nas
escolinhas de futebol.
Vale destacar, em termos de contribuição por parte do esporte nesse
estudo representado pelo futebol, a importância na formação integral do indivíduo,
permitindo seu autodesenvolvimento, a fim de favorecer a livre escolha da
modalidade esportiva por parte de quem a deseja vivenciar. Essa escolha já deve
ser possibilitada na infância e deve-se contar com o apoio de educadores, pais,
médicos e psicólogos, sem que se faça o processo inverso, ou seja, a criança não
74

deve ser estimulada a praticar a modalidade esportiva para satisfazer interesses de


quem quer que seja. O prazer deve estar em primeiro lugar nesta escolha.
Quanto ao primeiro objetivo específico, podemos contatar que a
compreensão dos diversos fatores culturais, sociais e históricos acerca do futebol, e
o contexto em que está inserido em nossa sociedade favorece a construção de
práticas pedagógicas significativas em prol do processo de desenvolvimento
humano, assim contribuindo para inclusão social.
No que se refere ao segundo objetivo específico, verificamos que ao lidar
com a iniciação esportiva e o ensino desta modalidade, o professor deve se
configurar como o grande responsável por mudanças e transformações significativas
para o desenvolvimento integral do ser humano ao invés da perpetuação das
características do esporte profissional (alto rendimento) tão conhecido por nós.
A ética, o respeito, o conhecimento e a conscientização do professor por
seu compromisso assumido com seus alunos, é o que pode garantir a escolha de
uma boa pedagogia a ser adotada.
A intervenção do professor de Educação Física torna-se relevante, na
medida que, através do estudo, acumula conhecimento, podendo dialogar e
argumentar com os pais e gestores de escolinhas, iniciando assim um possível
processo de transformação da mentalidade imediatista, ou seja, a necessidade de
formar novos talentos.
O professor de Educação Física, poderá assumir o compromisso de evitar a
especialização esportiva precoce, introduzindo métodos (caminhos) compatíveis aos
interesses, necessidades e possibilidades da criança. Neste sentido, devemos
reconhecer a importância dos jogos e brincadeiras na perspectiva de um processo
viável e prazeroso.
Em relação ao terceiro objetivo específico, podemos identificar que as
teorias acerca do Desenvolvimento Humano trazem contribuições para educação
esportiva nas escolinhas, já que ressaltam valores como o auto-conhecimento, o
auto-controle, o respeito a diversidade, a sociabilização, a consciência corporal das
crianças, enfim o desenvolvimento bio-psico-social, que favorece a inclusão social
nas escolinhas de futebol
Podemos constatar a grande necessidade de políticas públicas que
venham a reestruturar a concepção das escolinhas esportivas em nosso país. Outro
fato que deve ser ressaltado é a responsabilidade dos cursos de graduação em
75

Educação Física em formar profissionais capazes de uma intervenção criteriosa no


que diz respeito à pedagogia do esporte. Ainda posso acrescentar a carência de
fóruns de discussões que contemplem o esporte, e especificamente o trato do
futebol em escolinhas, sem perder de vista a possibilidade de desenvolvimento
humano.
Muitos aspectos puderam ser levantados neste trabalho, mas que pelas
suas complexidades não foram esgotados em sua análise. É apenas uma reflexão
para formação dos profissionais, que atuam e que pretendem atuar em escolinhas
de futebol.
Mas, ciente dos limites, as reflexões apresentadas visam um
aprimoramento teórico dos professores, na intenção de possibilitar uma melhor
formação de crianças, numa perspectiva emancipatória que favoreça a cidadania,
tendo o futebol como agente de inclusão social.
76

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81

APÊNDICES
82

APÊNDICE A - ROTEIRO DE ENTREVISTA SEMI - ESTRUTURADA

Entrevistados: coordenadores de Escolinhas de Futebol de Salvador

Prezados Senhores:

A presente entrevista faz parte da Dissertação “O Futebol como agente de inclusão


social: um estudo sobre o Desenvolvimento Humano a partir das práticas
pedagógicas em escolinhas de futebol de Salvador – Ba”, do Curso de Mestrado
Profissional em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social da Fundação
Visconde de Cairu. O objetivo desse instrumento é coletar dados e /ou informações
sobre as práticas pedagógicas que estão sendo adotadas pelos professores de
escolinhas de futebol de Salvador e suas contribuições para o processo de
Desenvolvimento Humano e inclusão social de crianças. Não é necessário que se
identifique. Solicita-se clareza e objetividade nas respostas. De sua sinceridade e
contribuição, dependerá a qualidade dessa pesquisa científica.

Categorias de análise:
I – Infraestrutura institucional;
II – Capacitação técnica – científica dos professores;
III – Organização Pedagógica;
IV – Metodologia utilizada nas aulas

I - Questões relativas à infraestrutura das escolinhas de futebol

A - Qual a natureza social dessa escola de futebol?

Associação/Clube ( ) Iniciativa privada ( )


Iniciativa pública ( ) Outra Situação ( )

B – A Sede da escola é:

Própria ( ) Convênio ( ) Alugada ( )


83

C – Qual o tipo de piso do local das aulas?

Terra ( ) Gramado ( ) Sintético ( ) Cimento ( )

D – Quais são os principais recursos didático-pedagógicos utilizados nas aulas de


futebol?
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________

II - Questões relativas à capacitação técnico-científica dos(as) professores(as)


das escolinhas de futebol:

A – Você é ex-atleta de futebol?


Sim ( ) Não ( )

B – Há quanto tempo atua como professor de escolinha de futebol?


( ) Seis meses ( ) Um ano ( ) Mais de um ano ( ) Mais de cinco anos

C – Cite três motivos por ter escolhido trabalhar em escolinha de futebol:


_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________

D - Qual sua formação acadêmica?

Superior em Educação Física ( ) Curso Superior em outra área ( )


Nenhuma formação superior ( )

E – Já fez algum curso de capacitação específico para atuar com iniciação esportiva
em escolinhas de futebol?
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
84

III - Questões relativas à organização pedagógica das escolinhas de futebol

A - A escolinha funciona com quantas categorias de alunos (grupo de alunos


dentro de limite de idades) e quais suas faixas etárias?
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________

B – A Escolinha de Futebol tem projeto pedagógico?


Sim ( ) Não ( )

C – Quais são os objetivos da Escolinha de Futebol? Quais estratégias são


utilizadas para o alcance desses objetivos?
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________

IV - Questões relativas à metodologia utilizada nas aulas das escolinhas de


futebol

A – Quais as metodologias utilizadas que reforçam as práticas docentes e


facilitam a motivação e, consequentemente, o processo ensino–aprendizagem?
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________

B - Como contextualizar / situar o ensino do futebol a partir de um resgate


histórico da cultura do mesmo?
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
85

C - Quais são os valores prioritários que pretende desenvolver em seus alunos e


por quê?
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________

D - A escolinha participa de competições?

Sim ( ) Não ( )

E - Em caso afirmativo, todos os alunos participam ou são utilizados critérios que


condicionam essa participação? Quais?
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F - Como se comportam os pais em relação à atuação de seus filhos na


escolinha?
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G - Como se comportam os filhos diante da presença dos pais na escolinha?


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86

APÊNDICE B - PLANO DE AULA ESTRUTURADO A PARTIR DA ANALISE DOS


COCUMENTOS DAS TRES UNIDADES DE ESTUDO

ESCOLINHA DE FUTEBOL ....................................

PLANO DE AULA OU DE ATIVIDADE – Nº

DATA LOCAL PERÍODO

PROFESSORES

PÚBLICO ALVO / CATEGORIA

TEMA DA AULA / TRABALHO TÉCNICO, TÁTICO E FÍSICO

DURAÇÃO

QUESTÕES GERADORAS

OBJETIVO GERAL DA AULA

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

METODOLOGIA

RECURSOS DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS
87

DESCRIÇÃO DAS ATIVIDADES

Partes: Inicial – Principal - Final

PROPOSTA DE AVALIAÇÃO

CONSIDERAÇÕES E COMETÁRIOS

REFERÊNCIAS

ASSINATURA DO PROFESSOR
88

Iuri Brandão Nascimento


___________________________________

iuri.nascimento@uol.com.br