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FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

ISSN 2177-1383

Revista de Filosofia do Direito, do Estado e da Sociedade


Editores-Gerais
Caio Vinicius Fernandes Terto, UFRN, Brasil
Mateus Ricardo Rodrigues de Sousa, UFRN, Brasil

Diretoria de Editoração
Alice Raquel Neves Ortiz, UFRN, Brasil
Beatriz Lodônio Dantas, UFRN, Brasil
Beatriz Moura Barbosa, UFRN, Brasil
Brenda Borba dos Santos Neris, UFRN, Brasil
Elias Cândido da Nóbrega Neto, UFRN, Brasil
Graciele de Araújo Dantas Targino, UFRN, Brasil
Lílian Nicodemos Furtado Noca, UNI-RN, Brasil
Lorenna Medeiros Toscano de Brito, UNI-RN, Brasil
Mateus Rodrigues Soares, UFRN, Brasil
Vanessa Medeiros de Lira, UFRN, Brasil

Professores Orientadores
Anderson Souza da Silva Lanzillo, UFRN, Brasil
Fabiana Dantas Soares Alves da Mota, UFRN, Brasil
Zéu Palmeira Sobrinho, UFRN, Brasil

Edição da Capa:
Thaylson Djony Dantas Rodrigues
thaylsondjony0612a@hotmail.com

Diagramação:
Paulo André - www.pauloandrepa.com.br
contato@pauloandrepa.com.br
EDITORIAL:

Com imensurável satisfação, a Revista de Filosofia do Direito, do Estado e da Socie-


dade (FIDES) lança mais uma edição. A 16ª edição ousou ir além do que comumente vinha
sendo realizado na Revista, posto que inovou ao expandir o Conselho Científico para além
das fronteiras brasileiras e, igualmente, ao trazer artigos escritos em língua estrangeira. Nessa
ordem, importa destacar o empenho e a competência aplicados no trabalho desenvolvido pelos
membros do Conselho Editorial da Revista, os quais exerceram sua função com vigor. Outros-
sim, cumpre agradecer aos professores que formam o Conselho Científico desta edição, sempre
responsáveis e atenciosos, peça chave para o sucesso do periódico.
Embora alçando novos caminhos, realizando o afã de crescimento exponencial, a Re-
vista se mantém ligada às raízes que desde o início alicerçam e nutrem todo o Corpo Editorial,
em especial nos momentos de desânimo. Assim sendo, a simplicidade, informalidade e a de-
mocratização do conhecimento continuam sendo os pilares essenciais de mais uma edição da
Revista FIDES, lastreando da primeira até a ultima palavra dessa edição.
Ademais disso, tendo em vista o objetivo empregado pela Revista de impulsionar tanto
os autores quanto os leitores a um a uma reflexão crítica, finda-se em um amplo espaço carac-
terizado pela diversidade e liberdade. Nas páginas seguintes, constam artigos redigidos por
professores e graduandos, trazendo, para o plano acadêmico e social, inquietações jurídicas,
filosóficas, sociais e demais outras, conforme a proposta multidisciplinar adotada pela Revista.
Nesse viés, optou-se por trazer, para o evento de lançamento da 16ª edição da Revista
FIDES, a discussão acerca do reconhecimento dos novos arranjos familiares e o direito homoafe-
tivo, assunto de extrema relevância no contexto social por tratar de questão com pauta tímida
e por envolver minorias da sociedade. No mais, ressalta-se que o evento é livre, sendo aberto
ao público, não impondo qualquer restrição para aqueles acometidos de interesse em participar.

Uma excelente leitura a todos!

Natal, 14 de novembro de 2017.


Conselho Editorial.
SUMÁRIO
ARTIGOS CIENTÍFICOS CONVIDADOS

8 A IGUALDADE NO MEDO E NA PROPRIEDADE, NOTAS PONTUAIS SOBRE


O LEVIATÃ E OS DOIS TRATADOS SOBRE O GOVERNO CIVIL
Alex Sander Xavier Pires

25 AMATYA SEN SOBRE A GÊNESE, O DESENVOLVIMENTO E AS


CARACTERÍSTICAS DAS TEORIAS DE JUSTIÇA FOCADAS EM ARRANJOS
Danilo Christiano Antunes Meira
Horácio Wanderlei Rodrigues

36 A RESPONSABILIDADE CIVIL POR DANOS MORAIS NO DIREITO


BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO
Belmiro Vivaldo Santana Fernandes
Ricardo Maurício Freire Soares

51 A CONVENÇÃO DE ISTAMBUL E A “VIOLÊNCIA DE GÊNERO”: BREVES


APONTAMENTOS À LUZ DO ORDENAMENTO JURÍDICO-PENAL
PORTUGUÊS
Margarida Maria Oliveira Santos

61 DE HOBBES A PUFENDORF – A CONSTRUÇÃO DOS CARACTERES DO


CONCEITO JURÍDICO MODERNO DE SOBERANIA
Pedro Fernández Sánchez

75 A RACIONALIDADE COMUNICATIVA DE HABERMAS E O PARADIGMA


PROCEDIMENTAL JURÍDICO DE RESOLUÇÃO DE CONFLITOS
Lauro Ericksen

83 DESAFIOS HERMENÊUTICOS DA JURIDICIDADE PÓS-MODERNA: ENTRE


TEXTO, NORMA E MÉTODO/ PARA LÁ DA INTERPRETAÇÃO NEGATIVA
Joana Maria Madeira Aguiar e Silva

101 DIREITO FRATERNO: A RACIOVITALIDADE NECESSÁRIA PARA A


CONSTITUIÇÃO DE UMA SOCIEDADE-MUNDO
Sérgio Ricardo Fernandes de Aquino
122 ENSINO JURÍDICO: É POSSÍVEL ENSINAR DIREITO?
Sandra Regina Martini
Vitoria Josefina Rocha D´almeida Mota

141 A SEXUALIDADE HUMANA E O DIREITO DA FAMÍLIA NOS


ORDENAMENTOS DE PORTUGAL E MACAU*
J. P. Remédio Marques

158 CONTROLAR E PUNIR – O DIREITO PENAL EM MUDANÇA?


Anabela Maria Pinto de Miranda Rodrigues

172 RESPONSABILIDADE CIVIL DO PRODUTOR E NEXO DE CAUSALIDADE:


BREVES CONSIDERAÇÕES
Mafalda Miranda Barbosa

191 CONFLITO DE VALORES E FUNDAMENTO DA INTERVENÇÃO DO ESTADO


NO CONTEXTO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA EM PORTUGAL
Maria Elisabete Ferreira

ARTIGOS CIENTÍFICOS

208 O PAPEL DO DIREITO NO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SUA


RELAÇÃO COM A ECONOMIA POLÍTICA
Rogério Cesar Marques

222 A RAZÃO PRÁTICA COMO LIAME ENTRE O RACIONAL E O RAZOÁVEL


EM “UMA TEORIA DA JUSTIÇA”
Victor Cristiano da Silva Maia

231 A TUTELA DOS DIREITOS DOS USUÁRIOS DOS SERVIÇOS PÚBLICOS:


BREVES APONTAMENTOS SOBRE A LEI Nº 13.460/2017
Júlio César Souza dos Santos

243 PROCESSO JUDICIAL ELETRÔNICO: CONCRETIZAÇÃO DOS PRINCÍPIOS


PROCESSUAIS?
Ana Carolina Guilherme Coêlho
Ingrid de Lima Barbosa
260 O PROBLEMA DA JUSTIÇA: TOTALITARISMO, DIREITO E A ASCENSÃO
DAS DEMOCRACIAS CONSTITUCIONAIS
Gabriel Campos Soares da Fonseca

275 REFORMA OU REVOLUÇÃO? A VISÃO DE KANT SOBRE O DIREITO DE


RESISTÊNCIA
Suzana Melo de Oliveira

285 POLÍTICAS PÚBLICAS E A EDUCAÇÃO COMO DIREITO FUNDAMENTAL


SOCIAL NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
Valter da Costa Santos

ARTIGOS CIENTÍFICOS EM LÍNGUA ESTRANGEIRA

298 EL FENÓMENO JURÍDICO Y FORMAS BÁSICAS DE PENSAR EL DERECHO


Henrique Alexander Grazzi Keske
Claudine Rodembuch Rocha

319 SOCIAL CONTROL THROUGH SHAME SANCTION: AN AMERICAN


PERSPECTIVE
Jonathan Hernandes Marcantonio

LITERATURA E DIREITO

325 A DESGRAÇA DA CULTURA DO ÓDIO NA “DESONRA” DE COETZEE:


LIÇÃO PARA OS CONTURBADOS DIAS ATUAIS
Morton Luiz Faria de Medeiros

329 HARRY POTTER, JURAMENTO INQUEBRÁVEL E CLAÚSULA PENAL


Rute Saraiva

340 SUPREMO OU SOBERANO?


Ana Beatriz Ferreira Rebello Presgrave

344 WEAK COURTS, STRONG RIGHTS


Raimundo Márcio Ribeiro Lima
352 O CUIDADO ENTRE A ILICITUDE E A CULPA
Rui Paulo Coutinho de Mascarenhas Ataíde

359 RESPONSABILIDADE SOCIAL DAS EMPRESAS: RECENTES ESCÂNDALOS


E PROPOSTAS DE SOLUÇÃO
Madalena Perestrelo de Oliveira

364 O DESAFIO DO ENSINO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA NO BRASIL


CONTEMPORÂNEO
Patrícia Borba Vilar Guimarães

368 HÁ POSSIBILIDADE DE CANDIDATURAS INDEPENDENTES NO BRASIL?


UMA ANÁLISE À LUZ DO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS
HUMANOS
Thiago Oliveira Moreira

375 APONTAMENTOS SOBRE A APURAÇÃO, SANÇÃO E REPARAÇÃO À


TORTURA NO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS
Eloísa Machado de Almeida
A IGUALDADE NO MEDO E NA PROPRIEDADE, NOTAS PONTUAIS SOBRE O
LEVIATÃ E OS DOIS TRATADOS SOBRE O GOVERNO CIVIL

Alex Sander Xavier Pires1

RESUMO
Desde o século XV se acirrou o debate entre o dogma e a razão em vais
de fortalecer as teorias democráticas em detrimento das absolutistas
justificadas no direito divino, deslocando o Homem para o centro do de-
bate. Liberdade e igualdade passaram a ser os valores supremos a serem
defendidos em sociedade. As formulações de Hobbes e Locke marcam
o discurso de garantias do indivíduo em sociedade civil com ênfase
num pacto social pendente a submissão por necessidade de se expungir
o medo do estado de guerra, ou por consentimento para proteção na
aquisição de bens para satisfação das necessidades.
Palavras-chave: Homem. Igualdade. Pacto. Garantia.

1 INTRODUÇÃO

A abertura racional amadurecida desde o século XV repercutiu nas teorias políticas,


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em especial quanto ao fenômeno de legitimidade e de transferência do poder político. Neste


sentido, a máxima quase uníssona do “todo o poder vem de Deus”2 passava a ser questionada
pela assunção de que o poder temporal poderia seguramente conviver com o transcendental;

1  Pós-Doutor em Direito (Portugal), Doutor em Ciências Jurídicas e Políticas (Argentina), Doutor em Ciência Política (Brasil), Professor
do Departamento de Direito da Universidade Autónoma de Libsoa (AUL/Portugal), Pesquisador/investigador do Centro de Investigação
e Desenvolvimento sobre Direito e Sociedade da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa (CEDIS/FD/UNL/Portugal), e
Pesquisador/Investigador do Centro de Investigação e Desenvolvimento em Ciências Jurídicas – Ratio Legis – da Universidade Autó-
noma de Lisboa (RL/UAL/Portugal).
2  De assento latino, “omnis potesta a Deo”.

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afinal, poder-se-ia dar ao homem o que é do homem (bens civis) e a Deus o que é de Deus
(produtos de fé).
A refutação a dogmas seculares gerou uma insurgência que precisava ser combatida
por argumentos sólidos o bastante que afastassem a intangibilidade do absolutismo de direito
divino e as teorias patriarcalistas que o amparavam. Neste âmbito, surgia a necessidade de co-
locar o homem no centro do debate político.
Falar de homem e política numa mesma frase exige que se determine a hierarquia dos
valores (quem vem antes?); e, num mundo em expansão que tem na ciência a melhor resposta
aos desafios das novas fronteiras, cujo acúmulo de riquezas passa a ser a pauta do dia, melhor
que se conciliem em prol da satisfação de uma nova classe transnacional: a burguesia.
No ambiente burguês, quanto mais livre, melhor; a liberdade ganha os discursos
políticos e a disputa do poder altera o enfoque da legitimidade para a garantia; ser livre
pressupõe que todos possam fazer de tudo (o problema é a definição de todos e de tudo). Eis
o ponto nodal: encontrar a explicação para que todos, num tom de igualdade, estejam auto-
rizados a tudo fazer (liberdade), sem que haja o perecimento da sociedade civil e tampouco
prejuízos a burguesia.
Para a presente análise, a questão da igualdade na liberdade será analisada pelo
viés das teorias de Thomas Hobbes (Leviatã) e de John Locke (Segundo Tratado sobre o
Governo Civil), mormente quanto as construções da passagem do estado de natureza para
o de sociedade civil via concepção de um pacto social que justifique a releitura da liberdade
natural para a liberdade política. Assim, o panorama histórico-político de análise é a Ingla-
terra renascentista imersa em crise religiosa que se desdobrou em instabilidade política que
somente pode ser contornada com o reconhecimento dos interesses do parlamento liberal,
isso em torno do século XVII.

2 CONTEXTO: DO ABSOLUTISMO AO LIBERALISMO POLÍTICO NA


INGLATERRA DA REVOLUÇÃO GLORIOSA

A tomada de Constantinopla marca não só a queda do Império Bizantino, como tam-


bém a derrocada do domínio dos dogmas e verdades levianas sobre a razão, construídos pelas
máximas de fé. Tudo isso em razão dos movimentos insurgentes que possibilitaram – em tom
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de exigência – uma nova construção: a) social (fortalecimento dos burgos); b) comercial (reno-
vação das práticas mercantis com a ascensão da burguesia); c) política (abertura do movimento
expansionista culminando com a colonização de além-mar); d) econômica (acúmulo de riquezas
pela burguesia – movimentação de divisas – e pelas Coroas - usurpação de fontes naturais das
novas colônias); e) militar (necessidade de proteção para o crescimento das cidades, controle de
fronteiras entre os Reinos, desenvolvimento para a armada e provimento bélico aos exércitos
de dominação); f) religiosa (aversão aos santos domínios eclesiásticos romano-germânicos que
culminou com a Reforma Protestante, entre outros movimentos); e, g) científica (afinal, as gran-

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des navegações “comprovaram” que o mundo era “redondo”).
Tais fatos puseram o Homem no centro do debate e, com ele, a razão, capaz de mo-
dificar a natureza em vias de dar respostas aos novos acontecimentos, sobretudo ao progresso
científico que garantisse o melhor resultado possível das novas práticas (vejam-se as técnicas de
navegação, os meios de extração de recursos naturais, os meios de produção de bens e serviços,
etc.). Em síntese, os valores e verdades foram postos em discussão; o conflito e a dúvida assu-
miam como palavras de ordem.
As constatações permitem inúmeras linhas de análise que podem se espraiar pela:
a) filosofia do conhecimento (releitura das Hipotiposes Pirrônicas escrita por Sexto Empí-
rico entre os séculos II e III a.C. com a cediça linha voltada a refutação dos dogmas como
verdades incontestáveis, mas carentes de comprovação como propuseram, à luz das inova-
ções trazidas pelo Renascimento, o alemão Agrippa de Nettesheim, o português Francisco
Sanchez e o francês Michel de Montaigne); b) filosofia científica (como variável do ceticismo
moderno, a virada cartesiana contida no cogito ergo sum que prestigia o pensamento como
produção da razão; e, mais adiante, as inovações de Francis Bacon com a proposta da Grande
Instauração voltada a releitura da relação entre o homem e a natureza); e, c) pelo humanis-
mo (desde Erasmo de Rotterdã até a proposta de uma sociedade voltada ao comunitarismo
de Thomas More), dentre outros.
A preferência, no entanto, envereda pela análise de filosofia política com repercussão
na estrutura equilibrada de gestão de poder político do Estado ante as funções públicas fun-
damentais; e, nesta, pela repercussão iniciada com as disputas temporais sobre o poder que se
assenta na gestão dos domínios eclesiásticos e na influência sobre a monarquia e sobre o parla-
mento inglês. Em apertada síntese: a reforma religiosa e a tensão na leitura do poder político na
Inglaterra dos séculos XV ao XVIII3 que serviram de panorama fático-histórico para a formu-
lação das teorias de Thomas Hobbes e John Locke acerca da liberdade tomada em igualdade na
passagem do estado de natureza para o civil.
Há que se dizer que a simples menção à ruptura com as estruturas tradicionais e a
inversão do paradigma, por si só, já conclama aos atos revolucionários que servirão, desde já,
como fundo histórico para compreensão dos pensamentos de Hobbes e Locke, sendo certo que
a Revolução Gloriosa se apresenta como a manifestação de resgate de uma monarquia que se
reportasse aos interesses do Parlamento.
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2.1 Delineamento histórico: dos Tudors à Revolução Gloriosa

A Inglaterra renascentista estava entregue a dinastia dos Tudors (1485/1603), cuja habi-
lidade em conservar o absolutismo chamava a atenção, essencialmente por equilibrar a relação
entre o parlamento e a burguesia, ou seja, entre o apoio político e o financiamento econômico.

3  Por coerência metodológica, passa-se à margem da influência e da virada conceitual advindas das construções teóricas de Nicolau Ma-
quiavel e de Jean Bodin quanto a gestão do poder político, desde a aquisição até o exercício.

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No campo religioso, no entanto, a harmonia se perdeu desde que Henrique VIII pro-
pôs a ruptura com a Igreja Católica e a subseqüente criação da Igreja da Inglaterra [Anglicana]
para satisfação de seus interesses pessoais, de sorte que em 1531 declarou-se protetor da Igreja
Inglesa, cujo ato foi ratificado pelo Parlamento em 1534.
Com a morte de Elisabeth I chegou ao fim a dinastia dos Tudors e se iniciou, com
Jaime I, a primeira monarquia dos Stuarts (1603), que foi marcada pela campanha para jus-
tificar o “direito divino dos reis” com justificação no texto bíblico que fundamentaria o ab-
solutismo transcendente aos súditos (enquanto homens subordinados). Esta teoria lhe foi
tão própria que se desdobrou em conflito com o Parlamento, seja porque lhe desmerecia a
autoridade política conquistada até então, seja em função da ingerência administrativa que
fez sangrar os cofres da coroa, o que exigiu a imposição de nova política tributária sem a
autorização da casa legislativa.
Carlos I sucedeu a seu pai, Jaime I, em 1626, aumentando as tensões entre a Monarquia
e o Parlamento, uma vez que também era defensor do “direito divino dos reis”. Dentre seus atos
destacam-se a dissolução do parlamento com a implementação de uma ditadura que assustou
até seu seus partidários, e o recrudescimento das reformas religiosas para que dessem maior
lastro a teoria do absolutismo garantido por Deus4.
Neste panorama de instabilidade política e de pouca habilidade de Carlos I, o Parla-
mento se engajou em promover a deposição do rei, o que o fez com a instauração da Guerra
Civil que teve em Oliver Cromwell seu principal líder militar. Em meados de 1649 a revolução
quedou-se vitoriosa e Carlos I foi decapitado, o que decretou a abolição da monarquia levando
a Inglaterra à condição de República (Commonwealth of England) tendo Cromwell como seu
Lorde Protetor (chefe de Estado).
Com a morte de Cromwell (1658), a sucessão de seu filho e o estado caótico em que se
encontrava a República (crise político-econômica), consentiu o Parlamento com a restauração
da monarquia – segunda dos Stuarts – que se deu com a coroação de Carlos II, em 1660; e,
com a sua morte, em 1685, Jaime II foi coroado rei, sendo certo que herdou um reino dividido
pelas disputas entre católicos e anglicanos, no campo religioso; e, entre conservadores e libe-
rais, no campo político.
A desconfiança religiosa (pairava sobre si a desconfiança dos anglicanos desde que se
converteu ao catolicismo, em 1668/1669) não foi acompanhada da política, haja vista que, no
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início de seu reinado, Jaime II contava com o apoio do Parlamento. No entanto, após a Rebelião
de Monmouth ocorrida logo após a sua nomeação, passou a desconfiar de seus súditos e a pra-
ticar a política do temor por seus “juízes sangrentos”, ao mesmo tempo que aumentou sua força
militar com a composição de um exército que contava com católicos nos mais elevados posto, o

4  “No século XVII (...) A burguesia já estava suficientemente fortalecida e poderia prescindir de governos fortes para solidificar seu domí-
nio sobre a nação. (...) todo o século XVII ficou marcado pelos constantes conflitos entre a autoridade real e a autoridade do Parlamento.
Esses conflitos assumiam aspectos religiosos, envolvendo protestantes contra católicos, mas, sobretudo, eram expressão de interesses
econômicos divergentes. (...)” (Martins, 2005, p. 5).

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que gerou a desconfiança do Parlamento.
Por volta de 1688 com o Parlamento em recesso, a política católica de Jaime II (Decla-
ração de Indulgência assentada na ordem de perdão dos dissidentes religiosos, especialmente
os católicos) e a gravidez de sua esposa em vias de dar à luz a um varão, inspiraram a liderança
política inglesa a buscar socorro na sucessão ao trono.
A linha sucessória levava à Holanda, onde residia Maria II – filha de Jaime II e protes-
tante por opção – casada com Guilherme d’Orange. Após alguns ajustes políticos costurados
pelo Parlamento inglês que esmoreceram a relutância de Guilherme, o exército holandês entrou
em Londres sob a chancela política que, em função da fuga de Jaime II para a França, declarou
o trono em vacância e a sucessão por sua filha em comunhão com seu esposo. Tinha lugar a
Revolução Gloriosa que “assinalou o triunfo do liberalismo político sobre o absolutismo e, com
a aprovação do Bill of Rights em 1689, assegurou a supremacia legal do Parlamento sobre a rea-
leza e instituiu na Inglaterra uma monarquia limitada” (Mello, 1991, p.82).
Diante de tal manobra, o Parlamento deixava claro que o poder real derivava do seu e,
também, que esta Casa política deveria ser respeitada em sua autonomia como forma de con-
servar-lhe a “liberdade”.

2.2 Uma ode a tolerância religiosa

A Revolução Gloriosa foi marcada não só pelo repatriamento de Maria II e a assunção


ao trono de Guilherme III, mas também pelo regresso de outras personalidades da Corte in-
glesa que se refugiaram na Holanda em busca da liberdade de pensamento que se cerceara em
Londres. Dentre tantos, John Locke aguardava ansiosamente para retornar a Inglaterra “livre”
e segura, o que aconteceu na véspera da assinatura da Bill of Rights.
A bagagem de Locke estava mais pesada que o de costume em função de um opúscu-
lo, escrito nos idos das disputas político-religiosas e publicado conjuntamente com os Tratados
(1690), cujo objetivo era de resgatar os valores cristãos da virtude e da piedade, denominado
Carta acerca da Tolerância5.
A Carta era destinada a todos aqueles que cometeram – e cometem – atrocidades em
nome da religião, com justificativa na fé. De sorte que constituiu um instrumento de conclama-
ção à liberdade religiosa como representação da liberdade política6. Em suma, fornece lições
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sobre o embate entre os bens civis e os religiosos; a conduta dos magistrados e dos líderes religio-
sos; da política e da religião; e o faz pela distinção entre a sociedade civil e a instituição religiosa.
Neste âmbito, defende que a sociedade civil tem o dever de cuidar das coisas materiais
(bens civis), garantindo a segurança e a proteção da propriedade, além de elaborar, seguir e

5  Nas entrelinhas, Locke pretendia ver revogado o Edito de Nantes assinado pela Coroa inglesa em 1685, como lembra J. R. Milton: “A
Epistola de Tolerantia [Carta acerca da Tolerância] foi escrita durante o inverno de 1685-86, quando Locke voltou para Amsterdã e pas-
sou a viver discretamente na casa de Egbert Veen. Locke estava muito preocupado com o problema da tolerância no contexto da política
inglesa, mas o impulso imediato foi provavelmente dado pela revogação do Edito de Nantes, em outubro 1685” (Milton, 1994, p. 16).
6  Com o avançar de seu texto, Locke assenta uma questão interessante: “se permitimos aos judeus terem propriedades e casas próprias,
por que não lhes permitir que tenham sinagogas?” (Locke, 1973, p. 32).

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aplicar a lei humana, pelos olhos atentos do magistrado; enquanto a instituição religiosa tem o
dever de cuidar das coisas do espírito (bens espirituais), resguardando seus dogmas e perpe-
tuando seus ritos, sempre nos limites da lei divina e por intermediação direta dos eclesiásticos.
Assentada a diferenciação entre a sociedade civil e a religiosa, passa a esmiuçar os
deveres de tolerância como meio de garantir o convívio harmônico e pacífico entre as pessoas; e
o faz discorrendo sobre a Igreja, os indivíduos, os membros da Igreja e os magistrados. Em con-
vergência, antepõe dois fenômenos: o compromisso ante o poder em si, e a missão ante os pares.
Pela primeira linha, para a Igreja, defende o poder de expulsar o seu membro, inclusive
com a excomunhão, impedindo, por conseguinte, que participe da liturgia, mas, nunca, aplicar-
-lhe penas físicas ou expropriações (Locke, 1973, p. 14); enquanto para os indivíduos, sustenta
que ninguém pode atacar outrem por motivo de fé, inclusive quanto aos bens pessoais que de-
vem ser protegidos pelas leis que regem a sociedade civil – este comando é tão verdadeiro que
leva as Igrejas à condição de indivíduo nesta relação (Locke, 1973, p. 16).
Pela segunda linha, para os membros da Igreja, ensina que o poder deve ser exercido
nos limites de seus domínios, de sorte que se deve conservar o respeito às pessoas e aos seus
bens civis, sem ou a prática de violência, pilhagem perseguição, e devem, ainda, praticar o ofí-
cio de aconselhar os seus seguidores no sentido da caridade e da benevolência (Locke, 1973, p.
16); quanto aos magistrados, reconhece que devem se abster de cuidar das almas já que esta ta-
refa se refere a cada um individualmente, orientado pela sua crença em dogmas sustentados por
certa religião, e assim deve ser considerada na sociedade civil, de modo que o magistrado deve
criar e aplicar leis contra os outros (terceiros) que atentem contra a vida e as demais propriedade
dos indivíduos, e nunca para impor regras sobre a religião alheia ou que obrigue alguém a se
submeter a dogmas impostos (Locke, 1973, p. 17).
Percebe-se, enfim, que Locke defende a liberdade religiosa como meio de resguardar o
indivíduo (cada um é responsável e suficientemente racional para escolher qual a melhor crença
para si7); além de proteger-lhe a propriedade (cada um tem o direito de adquirir coisas, cons-
tituindo propriedade, e o direito de defendê-las contra quem as desaproprie injustamente, cujo
limite da justiça seria a lei humana dissociada da divina8). Eis a grande base do pensamento po-
lítico de Locke que melhor será trabalhada nos Tratados: a relação entre liberdade e individuali-
dade que garanta, em sociedade civil, a propriedade em sentido amplo e em estado de igualdade.
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3 THOMAS HOBBES: TODOS SÃO IGUAIS NO MEDO

Antecessor e contemporâneo de John Locke, Thomas Hobbes nasceu nos arredores de

7  “(...) a liberdade facultada aos homens em assuntos que dizem respeito à vida futura: cada um pode fazer o que acredita agradar a Deus,
em cuja vontade se baseia a salvação dos homens. Porque se deve, antes de tudo, obediência a Deus, em seguida às leis (...)” (Locke,
1973, p. 27).
8  Dentre tantas passagens: “(...) as pessoas são maltratadas e, portanto, não se pode suportá-las. Suprima-se a injustiça, a discriminação
legal contra elas, modifiquem-se as leis, cancelem-se as penalidades a que são submetidas, e tudo se tornará tranquilo e seguro (...)”
(Locke, 1973, p. 31).

13
Malmesbury, em 1588, de sorte que, nascido em família de poucas posses e em relativa proximi-
dade do mar, fê-lo cultivar o medo como principal característica pessoal9: seja pela ameaça de
invasão externa pela temida armada espanhola, seja pela defesa da legitimidade do absolutismo
recrudescida por sua simpatia ao rei Carlos I, e, mais tarde, como preceptor de Carlos II10.
Autor de obras de manifesta importância política das quais se destacam Do Cidadão11
(1642) e o Leviatã (1651); Hobbes faleceu, em 1679, antes de ter notícia da Revolução Gloriosa,
ou seja, alheio a vitória liberal que reformulou a monarquia inglesa. Pontualmente, o Leviatã foi
escrito em quatro partes (do homem, do Estado, do Estado cristão e do reino das trevas) tenden-
tes a justificar o absolutismo advindo de um pacto social (que se afasta da tendência da época de
teorizar pelo senso teológico – o direito divino) pelo qual os homens transfeririam seus direitos
ao Estado (dado em sociedade civil) que exerceria o poder em vias de afastar o temor, imposto
pela guerra de todos contra todos, instaurado no estado de natureza.
Percebe-se que o núcleo central para compreensão da teoria hobbesiana se assenta
em sua concepção de homem que, diferente do que se tentou impor12, é civilizado e atemporal,
nunca selvagem ou moldado por seu tempo, ou seja, é o mesmo homem que vive em sociedade
e dado em qualquer época histórica que se possa analisar13. Em síntese, o homem não muda da
natureza para a sociedade14; afinal, o homem perquire seus interesses, sendo certo que o inte-

9  “(...) A mãe deu-o à luz prematuramente, devido ao terror que lhe causou a notícia da chegada da ‘Armada Invencível’, de modo que, em
sua Autobiografia, brincando, ele afirma que sua mãe, junto com ele, havia dado à luz como seu irmão gêmeo o medo. Trata-se, porém,
de uma observação que, para além da brincadeira, constitui como que uma marca de sua psicologia: a sua teorização do absolutismo tem
suas raízes, sobretudo, no terror pelas guerras que ensanguentaram a sua época” (Reale, 1990, p. 485).
10  O absolutismo aqui proposto não é aquele fortalecido à época e de forte apego tradicional baseado nas teorias de direito divino dos reis
amplamente defendida pelos teóricos da monarquia absolutista, senão no pacto social de transferência de direitos. Em verdade, o poder
absoluto resultaria de uma “transferência dos direitos dos indivíduos ao soberano, e é em nome desse contrato que deve ser exercido, e
não para a realização da vontade pessoal do soberano” (Marcondes, 2004, p. 198).
11  A obra Do Cidadão, originariamente escrita em latim de que recebeu o título De Cive, foi traduzida ao inglês pela longa e conclusi-
va epígrafe: Philosophical Rudiments Concerning Government and Society, de onde se abstrai a origem dos conceitos das categorias
hobbesianas, bem como a formulação de sua teoria sobre o poder. Para a presente proposta, basta analisar o capítulo inaugural que versa
sobre a Liberdade, cujos limites bem são assentados pelo próprio Hobbes em seu prefácio: “(...) quais são os ditados da razão, que podem
com propriedade ser denominados leis de natureza; e tudo isso está contido naquela parte do livro que intitulo Liberdade. Estas bases
assim depostas, mostro adiante o que é o governo civil, e nele o poder supremo e suas diversas espécies; por que meios ele se constitui,
e que direitos os particulares, que pretendem constituir esse governo civil, necessariamente têm de transferir ao poder supremo, quer
este esteja num homem, quer numa assembléia de homens; porque, se não o fizerem, evidentemente se notará que não há governo civil,
mas permanecerão os direitos que todos têm a todas as coisas, isto é, os direitos de guerra (...)” (Hobbes, 1998, p. 16). Ademais, é nesta
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

obra que aparecem as duas frases mais citadas de Hobbes: “o homem é lobo do homem” (Hobbes, Do Cidadão, op. cit., p. 3) e “a guerra
de todos contra todos” (Hobbes, 1998, p. 16) que será objeto de divagação em todo o capítulo XIII do Leviatã.
12  Como se lê, por exemplo, em Henry Sumner Maine: “(...) por outro lado, a teoria de Hobbes sobre o mesmo tema [formação da socie-
dade] foi propositadamente concebida para repudiar a realidade do direito natural como idealizado pelos Romanos e seus discípulos.
Estas duas teorias [estende a crítica a Locke], que dividiram a reflexão política inglesa por muito tempo favorecendo a discussão hostil,
apegavam-se ao senso de uma concepção fundamental sobre condição racial ser não-histórica e não-verificável. Seus autores divergiam
quanto as características do estado pré-social e sobre a natureza da ação anormal em que os homens se lançam para fora dela no sentido
da organização social que estamos acostumados; mas eles concordam que um grande abismo separava o homem primitivo daquele posto
em sociedade, e esta noção, não se pode duvidar, foi emprestada, consciente ou inconscientemente, dos Romanos” (Maine, 1861, p. 114).
13  “Poderá porventura pensar-se que nunca existiu um tal tempo, nem uma condição de guerra como esta, e acredito que jamais tenha
sido geralmente assim, no mundo inteiro; mas há muitos lugares onde atualmente se vive assim. (...) muitos lugares da América (...)”
(Hobbes, 1983, p. 76).
14  “(...) o homem natural de Hobbes não é um selvagem. É o mesmo homem que vive em sociedade. Melhor dizendo, a natureza do homem
não muda conforme o tempo, ou a história, ou a vida social. (...) não existe a história entendida como transformando os homens. Estes
não mudam. (...)” (Ribeiro, 1991, p. 54).

14
resse público e o privado são duas faces de uma mesma moeda15.
Ademais, perquirindo sua vinculação, essencialmente contratualista, aplicada a esta
posição sobre a essência do homem, não deixa dúvida sobre a igualdade que se instaura entre
os indivíduos no estado de natureza16, quer proveniente da força, quer derivada do espírito, de
sorte que vê claramente que os homens são iguais tanto no que concerne a compleição física
(ainda que substituída por meios advindos da razão), quanto na sabedoria (o conhecimento
sobre todas as coisas).
Assevere-se que, no primeiro caso, o uso da força corporal é fruto da essência humana,
pouco importando a compleição física em si, uma vez que “o mais fraco tem força suficiente
para matar o mais forte, quer por secreta maquinação, quer aliando-se com outros que se en-
contrem ameaçados pelo mesmo perigo” (Hobbes, 1983, p. 74); em contraponto ao uso da força
corporal, o homem nasceria com a convicção de ser mais sábio (ainda que viesse a adquirir seu
conhecimento pela experiência comum) do que seu semelhante17.
A princípio, pode parecer que esta igualdade seria convergente no sentido de funda-
mentar a constituição da sociedade. Porém, não o é: para Hobbes, a natureza do homem baseada
na igualdade leva a discórdia, principalmente pela necessária atitude de auto-proteção, fincada
no sentimento de conservação18 do indivíduo, sendo certo que o filósofo destaca três causas para
esta discórdia: “Primeiro, a competição; segundo, a desconfiança; e terceiro, a glória” (Hobbes,
1983, p. 75), e complementa:

A primeira leva os homens a atacar os outros visando o lucro. A segunda, a segurança.


A terceira, a reputação. Os primeiros praticam a violência para se tornar senhores das
pessoas, mulheres, filhos e rebanhos dos dominados. Os segundos, para defendê-los.
Os terceiros por ninharias, como uma palavra, um sorriso, uma diferença de opinião
e qualquer outro sinal de desprezo, quer seja diretamente endereçado a suas pessoas,
quer indiretamente a seus parentes, amigos, nação, profissão ou seu nome (Hobbes,
1983, p. 75).

Dessa premissa, abstrai que o sentimento inato do homem o lança na árdua tarefa de FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

15  A simplicidade desta assertiva foi acrescida por identificar o ponto nodal a que se apega Hannah Arendt para creditar a Hobbes a pa-
ternidade da única “teoria política segundo a qual o Estado não se baseia em nenhum tipo de lei construtiva – seja divina, seja natural,
seja contrato social – que determine o que é certo ou errado no interesse individual com relação à coisas públicas, mas sim nos próprios
interesses individuais, de modo que o ‘interesse privado e o interesse público são a mesma coisa’.” (Arendt, 2007, p. 168).
16  “A natureza fez os homens tão iguais, quanto às faculdades do corpo e do espírito” (Hobbes, 1983, p. 74).
17  “(...) a natureza dos homens é tal que, embora sejam capazes de reconhecer em muitos outros maior inteligência, maior eloqüência ou
maior saber, dificilmente acreditam que haja muitos tão sábios como eles próprios. Pois vêem sua própria sabedoria bem de perto e a dos
outros homens à distância. Isso prova que os homens são iguais quanto a esse ponto e não que sejam desiguais” (Hobbes, 1983, p. 74).
18  O sentimento de conservação deriva da própria desconfiança do homem de que será subjugado pelo outro e desapossado, ou de seus
bens (perda da propriedade), ou de sua vida (corre o risco de ser assassinado ou mutilado). Assim, para manter a conservação de seus
bens (propriedade e vida) deveria se antecipar e, ele mesmo, subjugar aos outros: “Contra esta desconfiança de uns em relação aos
outros, nenhuma maneira de se garantir é tão razoável como a antecipação. Quer dizer, pela força ou pela astúcia, subjugar todos os
homens que puder, durante o tempo necessário para chegar ao momento em que não veja qualquer outro poder suficientemente grande
para ameaçá-lo. Isso não é mais do que sua própria conservação exige, conforme é geralmente admitido” (Hobbes, 1983, p. 75).

15
aniquilar o outro para se defender19, o que o leva a afirmar que a natureza do homem só é capaz
de lançá-lo em disputa, “uma guerra que é de todos contra todos os homens. A guerra não con-
siste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas naquele lapso de tempo durante o qual a vontade
de travar a batalha é suficientemente conhecida” (Hobbes, 1983, p. 75).
Percebendo a evidente desordem que recai sobre os homens no estado de natureza
como fruto da guerra de todos contra todos é que Hobbes reconhece que não existe sociedade
até que os homens se subsumam a necessidade de se impor limites mutuamente20, o que somen-
te seria possível pela criação de leis derivadas da razão humana e, isto, sob a chancela de um
Estado que exerça a coerção.
Importante frisar que sua definição de lei se espraia pela vinculação com o Direito, e,
deste, para com a liberdade21; assim, “o direito consiste na liberdade de fazer ou de omitir, ao
passo que a lei determina ou obriga a uma dessas duas coisas” (Hobbes, 1983, p. 78). Portanto,
com a determinação da necessidade de se formularem leis, sustenta Hobbes que duas seriam
objeto da própria razão humana22, cuja retroatividade lhes outorgaria a condição de “leis da
natureza”, quais sejam: a procura pela paz (primeira lei da natureza) e a defesa própria baseada
numa concordância com os outros que derivaria de uma convergência de vontades – e porque
não dizer necessidade – no sentido de respeito mútuo acerca da convivência pacífica (segunda
lei da natureza)23.
Neste sentido, os homens seriam instados a ceder, direta e mutuamente, seus direitos
ditos naturais, em prol da própria existência pacífica – eis a noção de contrato para Hobbes24.
Ademais, da necessidade percebida pelos homens de afastar o medo que deriva da guerra ins-
taurada no estado de natureza vem a necessidade de se instituir um contrato que vise a paz, cujo
objeto seria a cessão mútua de direitos, Hobbes afirma que para o cumprimento é importante
que surjam leis legítimas dotadas de poder absoluto e unipessoal capaz de coatar o renegado a
cumprir o contrato social:

Porque as leis da natureza (como a justiça, a eqüidade, a modéstia, a piedade, ou, em

19  Tem-se, aqui, o ponto nevrálgico da teoria contratualista de Hobbes, em que se distancia do apego aristotélico do zoon politikon pelo
que os homens tenderiam naturalmente a constituição da polis como único meio de satisfazer suas necessidades racionais (é na política
– arte de bem viver na pólis – que o homem se realiza), isto é, o homem se associa a sociedade civil por ser um sentimento que já nasce
consigo; e, também, se afasta de Locke por conceber um homem anti-social que precisa da sociedade para se proteger e, não, para ma-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

nifestar toda a plenitude se sua arte de bem viver.


20  “Hobbes mostra que, na luta pelo poder, como na capacidade inata de desejá-lo, todos os homens são iguais, pois a igualdade do homem
reside no fato de que cada um, por natureza, tem suficiente potencialidade para matar um outro, já que a fraqueza pode ser compensada
pela astúcia. A igualdade coloca todos os homens na mesma insegurança; daí a necessidade do Estado. A raison d’être do Estado é a
necessidade de dar alguma segurança ao indivíduo, que se sente ameaçado por todos os seus semelhantes” (Arendt, 2007, p. 169).
21  “Por liberdade entende-se, conforme a significação própria da palavra, a ausência de impedimentos externos, impedimentos que mui-
tas vezes tiram parte do poder que cada um tem de fazer o que quer, mas não podem obstar a que use o poder que lhe resta, conforme o
que seu julgamento e razão lhe ditarem” (Hobbes, 1983, p. 78).
22  “É neste ponto que interfere a razão humana, levando à celebração do contrato social. Apesar de suas paixões más, o homem é um ser
racional e descobre os princípios que deve seguir para superar o estado de natureza e estabelecer o ‘estado social’” (Dallari, 1993, p. 10).
23  “Desta lei fundamental da natureza, que ordena a todos os homens que procurem a paz, deriva esta segunda lei: que um homem con-
corde, conjuntamente com outros, e na medida em que tal considere necessário para a paz e para a defesa de si mesmo, em renunciar a
seu direito a todas as coisas, contentando-se, em relação aos outros homens, com a mesma liberdade que aos outros homens permite em
relação a si mesmo” (Hobbes, 1983, p. 79).
24  “A transferência mútua de direitos é aquilo que se chama contrato” (Hobbes, 1983, p. 80).

16
resumo, fazer aos outros o que queremos que nos façam) por si mesmas, na ausência
do temor de algum poder capaz de levá-las a ser respeitadas, são contrárias a nossas
paixões naturais, as quais nos fazem tender para a parcialidade, o orgulho, a vingança
e as coisas semelhantes. E os pactos sem a espada não passam de palavras, sem força
para dar qualquer segurança a ninguém. Portanto, apesar das leis da natureza (que cada
um respeita quando tem vontade de respeitá-las e quando pode fazê-lo com segurança),
se não for instituído um poder suficientemente grande para nossa segurança, cada um
confiará, e poderá legitimamente confiar, apenas em sua própria força e capacidade,
como proteção contra todos os outros” (Hobbes, 1983, p. 128).

Ratifica-se, assim, que a finalidade do Estado (sociedade civil) é a consecução da paz


e a preservação de todos; bem como o meio de garanti-los é a força desta instituição posta nos
limites da lei que coloque as paixões em seu íntimo lugar, garantindo, agora e em sociedade, a
igualdade na prestação das garantias (Hobbes, 1983, p. 109).

4 JOHN LOCKE: TODOS SÃO IGUAIS NA PROPRIEDADE

Leitor: (...) Tens aqui o início e o fim de um discurso que diz respeito ao governo; o
destino imposto pela fortuna às páginas que deveriam compor a parte central, mais
numerosas que todo o resto, não merece ser-te relatado. Espero que estas, as restantes,
sejam suficientes para consolidar o trono de nosso grande restaurador, o atual rei
Guilherme; para confirmar seu título no consentimento do povo, o único de todos os
governos legítimos, e o qual ele possui mais plena e claramente que qualquer príncipe
da Cristandade: e para justificar perante o mundo o povo da Inglaterra, cujo amor por
seus direitos justos e naturais e determinação em conservá-los salvou a Nação, quando
esta se encontrava na iminência da escravidão e da ruína (Locke, 2005, p. 197).

O prefácio de uma obra tem muito a dizer de seu espírito; e, neste que inaugura os Dois
Tratados sobre o Governo25, Locke deixa a dica de todo o teor e o desvelar de seu argumento:
para sustentar a legitimidade da sucessão por vias transversas ao trono da Inglaterra, garantir
a defesa dos interesses do parlamento liberal e apaziguar as intempéries religiosas, não restava
outra saída que empreender um discurso baseado na conservação da liberdade individual quan-
to à aquisição de bens indispensáveis a existência. Eis a gênese da defesa de seu contratualismo
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

voltado à conservação da propriedade.


Diferente de Hobbes, John Locke nasceu no seio de uma família capitalista-burguesa
de influência puritana e que detinha algumas propriedades na região de Wrington, o que lhe
permitiu freqüentar os círculos políticos26, cujo alvorecer se deu com o vínculo pessoal-ideoló-

25  Conjuntamente com o Ensaio acerca do Entendimento Humano avocam a condição de suas obras de referência científica, uma vez que
versam sobre epistemologia (Ensaio) e sobre filosofia política (Tratados).
26  Catedrático por vocação (professor de Oxford por 32 anos – 1652 a 1684 – junto à Christ Church); médico por necessidade (graduou-se
em medicina para fugir da ordenação como padre); intelectual e literato por reconhecimento.

17
gico junto ao Conde de Shaftesbury27.
Diante da agitação política que pairou sobre a Inglaterra do século XVII e a nota-
da simpatia pelos interesses da burguesia que moldaram o pensamento liberal de Locke, não
restaria outro caminho que a perseguição política que o levou, derradeiramente, à Holanda em
idos de 1683, cujo regresso somente foi possível com a coroação de Guilherme d’Orange como
rei da Inglaterra (conjuntamente com sua esposa, Maria II).
Com o regresso vieram a Carta acerca da Tolerância (comentada linhas acima) e
os Dois Tratados sobre o Governo Civil (com divergência, datado de 1690). Este dividido em
duas partes bem distintas, em que o Primeiro Tratado preocupa-se em refutar o patriarcalismo
defendido principalmente por Robert Filmer em o Patriarca28; enquanto o Segundo Tratado se
preocupa em apresentar “a tese de que nem a tradição nem a força, mas apenas o consentimento
expresso dos governados é a única fonte do poder político legítimo” (Mello, 1991, p. 84).
Percebe-se que o homem natural (aquele analisado no estado de natureza) lockeano é
diametralmente oposto ao hobbesiano, haja vista que não padece com a conduta animal de ani-
quilamento ao semelhante; mas, ao contrário, vive em perfeito estado de harmonia amparado no
respeito ao poder e à jurisdição recíprocos em que perdura a evidente liberdade e igualdade29.
Assim, o estado de guerra30 em Locke é exceção ao estado de natureza – e, não, um estado
contingencial como o era em Hobbes –, sendo certo que, se a natureza nos congraça a paz, a
boa vontade, a assistência mútua e a preservação; a guerra inverte tais valores e faz aflorar a
inimizade, a malignidade, a violência e a destruição mútua.
Ademais, pontualmente por força do risco desta excepcionalidade de se instaurar o
estado de guerra no de natureza é que os homens decidiriam passar à sociedade civil criando
mecanismos de garantia via aposição de leis positivas que garantissem principalmente a conser-
vação da propriedade e a delegação do poder comum ao magistrado para que pudessem conser-
var a paz social nos estreitos limites das necessidades. Pois bem, como se dá esta passagem do
estado de natureza à sociedade civil?
No estado de natureza todos os homens seriam livres e iguais, conservando o direito

27  A relação com o Lorde Shaftesbury (um dos homens mais ricos e influentes da Inglaterra de Locke) iniciou-se casuisticamente, haja
vista que, em 1666, na condição de médico, cuidou de sua hidátide, de onde nasceu uma relação de amizade que transbordou da medici-
na para os diálogos políticos. Locke ganhou um patrono e Shaftesbury um confidente. Há indícios de que o Segundo Tratado floresceu
desta relação e que ganhou forma para satisfazer ao conde (Ver Laslett, 2005, p. 37), sendo certo que o Locke filósofo nasceu da relação
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

empírica e direta com os bastidores da política tendo Saftesbury como protagonista e, não, no mundo acadêmico (Laslett, 2005, p. 38).
28  Em síntese: vê no poder, hereditário e permanente, transmitido às linhas sucessórias do povo hebreu desde os descendentes de Adão
(supostamente o primeiro pai e o primeiro rei), uma legitimação divina, pela qual todos os demais são súditos sem liberdade por sujei-
ção. Inicia a obra afirmando: “A escravidão é uma condição humana tão vil e deplorável, tão diametralmente oposta ao temperamento
generoso e à coragem de nossa Nação, que é difícil conceber que um inglês, muito menos um fidalgo, tomasse a sua defesa. E, na verda-
de, eu consideraria o Patriarca, do sr. Robert Filmer, bem como qualquer outro tratado que pretendesse persuadir todos os homens de
que eles são escravos” (Locke, 2005, p. 203).
29  A mera definição de estado de natureza permite esta certeza: “(...) é um estado de perfeita liberdade para regular suas ações e dispor de
suas posses e pessoas do modo como julgarem acertado, dentro dos limites da lei da natureza, sem pedir licença ou depender da vontade
de qualquer outro homem. (...) Um estado também de igualdade, em que é recíproco todo o poder e jurisdição, não tendo ninguém mais
que outro qualquer (...)” (Locke, 2005, p. 382).
30  “é um estado de inimizade e destruição; portanto, aquele que declara, por palavra ou ação, um desígnio firme e sereno, e não apaixo-
nado ou intempestivo, contra a vida de outrem, coloca-se em estado de guerra com aquele contra quem declarou tal intenção e, assim,
expõe sua própria vida ao poder dos outros, para ser tirada por aquele ou por qualquer um que a ele se junte em sua defesa ou adira a
seu embate. Pois é razoável e justo que eu tenha o direito de destruir aquilo que me ameaça de destruição (...)” (Locke, 2005, p. 395).

18
natural à vida, à saúde, à liberdade e às posses, que constituem o núcleo básico da proprieda-
de, sendo certo que se se tem o direito natural individual, nascem dois deveres: um pessoal,
respeitar o direito natural alheio; e, outro coletivo, conservar e cuidar para que outros também
observem os direitos naturais.
Falar de propriedade no pensamento lockeano requer o dever de distingui-la do uso
ordinário, principalmente pela importância fundante de todo o sistema, como destaca Richard
Ashcraft (1994, p. 235):

Curiosamente, a ‘propriedade’ é um conceito crucial para ambos argumentos nos Dois


Tratados. Por um lado, Locke sustenta que a eleição na assembléia legislativa é essencial
para a proteção e segurança dos direitos de propriedade dos indivíduos na Inglaterra
da Restauração; e, por outro, ele argumenta que a posse da propriedade precede o
estabelecimento da sociedade política e deve conseqüentemente ser compreendida
nos termos dos princípios morais pertencentes aos direitos e deveres dos indivíduos
e a origem da sociedade política.

Ademais, em Locke, a propriedade assume dois tratamentos: um, dito amplo, repousa
nos bens naturais de fácil e universal percepção (direito à vida, liberdade, saúde e posses); e ou-
tro, dito restrito, que versa sobre um direito natural nascido sobre bens móveis e imóveis sempre
que o homem o modifique ou se relacione com o fruto de seu trabalho.
Neste segundo, abstraem-se dois traços marcantes: a) é um direito natural, em que
Locke, diferentemente de Hobbes, reconhecia a propriedade como pré-existente a sociedade ci-
vil, isto é, presente no estado de natureza (p. ex., o homem possuía a sua vida, saúde, liberdade e
trabalho); e, b) o trabalho vem como fundamento originário da propriedade, ou seja, “o trabalho
de seu corpo e a obra de suas mãos, pode-se dizer, são propriamente dele. Qualquer coisa que
ele então retire do estado com que a natureza a proveu e deixou, mistura-se a ele com o seu tra-
balho e junta-lhe algo que é seu, transformando-se em sua propriedade” (Locke, 2005, p. 409).
Assentadas as bases da propriedade lockeana como pré-existente a sociedade civil e,
portanto, de preservação como direito natural, passa a enfrentar a questão dos direitos e deveres
individuais, de sorte que a violação ao dever individual gera o direito, a um só tempo, próprio e
coletivo, de punir o infrator na proporção de sua ofensa, como indicado pela razão e na medida
da retribuição (manifestação do poder executivo da lei da natureza). Assim é que, concebendo
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

que o direito de punição exige a retribuição proporcional a lesão, reconhece-se, também, uma
variável a esta medida que nasce da injúria e exige uma reparação proporcional ao ato.
Ocorre que a punição pessoal ou coletiva advinda de seus pares tende a ser parcial e
desproporcional como intuída pela vingança; ao mesmo tempo em que se concebe que, consi-
derando a igualdade entre todos, aquele que pune pode ser o ofensor, tal qual aquele que ofende
pode ser, em outra ocasião, executor da medida.
Tal inconveniência exige um remédio que deriva do consentimento dos homens, livre
e incontroversamente, em delegarem o poder de punir a terceiro (idéia de corpo único) que o

19
exercerá a título coletivo e em interesse público (magistrado). Este consentimento31 pressupõe a
passagem da liberdade natural para a liberdade em sociedade32 que exige a regulamentação das
leis naturais para que sejam postas nos exatos limites dos anseios daquele grupo social em vias
de resguardar-lhes a propriedade contra outrem.
Assim, a comunidade constituída passa a ser considerada em sua unidade (corpo úni-
co), cujo exercício da força se reporta a vontade e a determinação da maioria. Este pacto coletivo
que institui a sociedade civil33 confere-lhe o poder legislativo e transfere-lhe o poder executivo.

5 CONVERGÊNCIA: A NATUREZA DO PACTO SOCIAL PELA ÓPTICA DA


IGUALDADE

A análise sobre as teorias contratualistas de Hobbes e Locke exige a abordagem sobre


o individualismo. Afinal, ambos concebem o homem pela sua condição de indivíduo (do homem
para a formação da sociedade civil); e, não, pela óptica da relação com o corpo social (comuni-
tarismo, socialismo ou qualquer outra variável).
Ademais, analisar o individualismo não é tarefa fácil uma vez que inúmeras são as
formas de abordar o tema. A presente tarefa pende a resolução de uma única questão: qual é a
natureza do pacto social de cada um pela conduta do homem inspirado na igualdade?
Por força do que se expôs, o homem hobbesiano é dotado de um sentimento de auto-
-conservação que o impele a atacar o outro pela simples razão de se defender (o homem é lobo
do homem), o que, num juízo universal de valores, outorgaria a condição de mau; e, justamente
porque este sentimento é comum a todos os indivíduos, que se concebe a igualdade (a guerra de
todos contra todos), haja vista que a compleição física é tão eficaz quanto a astúcia intelectual
quando o tema é o aniquilamento.
Para proteger a sua vida contra o ataque de outrem, isto é, para afastar o medo da morte
certa que reina no estado de natureza por força da guerra de todos contra todos, é que o homem
hobbesiano se submete a uma comunidade que tem o dever de lhe prestar a segurança em de-
trimento da perda da liberdade plena e irrestrita, especialmente porque é da essência do pacto a
transferência da força coercitiva a um terceiro que a exercerá em nome do Estado-Leviatã. Eis
o fenômeno que permite afirmar que o pacto social em Hobbes é de submissão34.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

31  O consentimento em Locke (tema central de sua teoria contratual): “sendo todos os homens (...) naturalmente livres, iguais e indepen-
dentes, ninguém pode ser privado dessa condição nem colocado sob o poder político de outrem sem o seu próprio consentimento. A
única maneira pela qual uma pessoa qualquer pode abdicar de sua liberdade natural e revestir-se dos elos da sociedade civil é concor-
dando com outros homens em juntar-se e unir-se em uma comunidade, para viverem confortável, segura e pacificamente uns com os
outros, num gozo seguro de suas propriedades e com maior segurança contra aqueles que dela não fazem parte” (Locke, 2005, p. 468).
32  Duas faces de uma mesma Liberdade: a natural (não estar sujeito a nenhum poder superior sobre a Terra, seja de homens ou de leis po-
sitivas, senão apenas das leis naturais) e do homem em sociedade (não estar sujeito a nenhum poder que não seja o legislativo consentido
para a formação da sociedade civil, de onde se está livre de qualquer vontade ou lei que não seja expedida por tal poder).
33  Sociedade política ou sociedade civil indica a renúncia ao poder executivo da natureza, em comunhão com a reunião consensual de
pessoas para formar um corpo único sob um só governo – povo – (Locke, 2005, p. 460), em vias de proteger a propriedade (Locke, 2005,
p. 456) combinada com a criação de leis gerais e iguais que fixem as condutas daquela sociedade e pela submissão a uma judicatura hábil
em desvelar os conflitos nos limites da lei (Locke, 2005, p. 458/459).
34  “(...) Em Hobbes, os homens firmam entre si um pacto de submissão pelo qual, visando a preservação de suas vidas, transferem a um
terceiro (homem ou assembléia) a força coercitiva da comunidade, trocando voluntariamente sua liberdade pela segurança do Estado-
-Leviatã” (Mello, 1991, p. 86).

20
O homem lockeano é bom em sua essência, uma vez que busca a paz, a harmonia e a
conservação da propriedade do que lhe é comum (vida, saúde, liberdade, trabalho, etc.) e do que
lhe é legitimamente passível de aquisição (as coisas modificadas pelo trabalho próprio), sendo
certo que o estado de guerra constitui exceção ao estado de natureza e ganha corpo quando
alguém inadvertidamente atenta contra a propriedade alheia (desde o atentado contra a vida
até a desapropriação das coisas diminutas). Reconhecendo que todos têm o direito natural de
adquirir e de defender tal propriedade é que se percebe a igualdade.
Para perpetuar e expandir as benesses construídas sobre os direitos naturais, os ho-
mens concordam em trocar a liberdade ampla e irrestrita, bem como o direito pessoal de pro-
teger diretamente a sua propriedade, pela garantia da lei, a proteção do magistrado e a força do
corpo único. Daí porque se diz que a natureza deste pacto social é de consentimento35.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O texto que se encerra foi dividido em quatro partes que convergiram para uma visão
geral sobre as teorias de Thomas Hobbes e John Locke acerca do pacto social para passagem do
estado de natureza para a sociedade civil tendo o homem como centro do debate e a liberdade e
a igualdade como filtros de análise.
O início foi dedicado ao contexto histórico da Inglaterra dos séculos XV ao XVII (dos
Tudors à imposição liberal sobre a casa dos Stuarts, passando pela Guerra Civil e pela Revolu-
ção Gloriosa) em que se abordou a crise político-religiosa instaurada na relação social entre a
monarquia e o parlamento que, indubitavelmente, teve influência nos pensamentos de Hobbes
(o medo trazido pelas guerras sangrentas, em especial o perigo de invasão pela Armada Espa-
nhola) e de Locke (necessidade de se frear a política católica de enfraquecimento dos valores
anglicanos – Carta acerca da Tolerância – e de garantias aos interesses liberais do Parlamento
em detrimento do absolutismo de direito divino sustentado pela coroa – Dois Tratados sobre o
Governo Civil).
Firmadas as bases históricas, adentrou-se ao pensamento de Hobbes com fundamento
em sua obra de vulto: o Leviatã. O sentimento inato do homem de perquirir o aniquilamento
dos outros (o homem é lobo do homem) que leva o estado de natureza a uma perpétua guerra
de todos contra todos, conclama o indivíduo ao uso da razão pela qual conclui que somente a
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

transferência do poder sobre as coisas a um terceiro capaz de garantir-lhe a preservação da vida


por ser dotado de coercitividade necessária, permitiria a existência da sociedade. Surge, então,
o Estado-Leviatã que transforma a igualdade no poder de dizimar o próximo (por força física
ou por astúcia intelectual) concebido no estado de guerra em igualdade no direito à proteção da

35  “Em Locke, o contrato social é um pacto de consentimento em que os homens concordam livremente em formar a sociedade civil para
preservar e consolidar ainda mais os direitos que possuíam originalmente no estado de natureza. No estado civil os direitos naturais
inalienáveis do ser humano à vida, à liberdade e aos bens estão melhor protegidos sob o amparo da lei, do árbitro e da força comum de
um corpo político unitário” (Mello, 1991, p. 86).

21
vida pelo Estado por dever de cumprimento das leis e dos deveres.
Do pensamento hobbesiano vem o lockeano. Locke, no Segundo Tratado sobre o Go-
verno Civil, vê um estado de natureza diferente do de Hobbes, sendo certo que o estado de
guerra é exceção, haja vista que os indivíduos viveriam em perfeita paz e harmonia, de forma
que os direitos naturais evidentes (vida, liberdade, saúde e trabalho) estariam preservados e
bem distribuídos. Assim, a guerra somente ocorreria quando alguém, inadvertidamente, aten-
tasse contra a propriedade alheia invertendo os valores de igualdade, mas admitindo o direito
de defesa para garantia das posses; e, como esta defesa individual carece de bases sólidas (seja
pela falta de força necessária, seja pelo sentimento de vingança que macula a presteza do direito
esvaziando-lhe a finalidade), haveria um pacto consensual para transferência deste direito de
punir à totalidade dos membros da comunidade que o exerceria coletivamente (idéia de corpo
único) resguardando, em última análise, a propriedade pelas vias coletivas. Eis a justificativa
para a formação da sociedade civil: aumentar as garantias para o exercício dos direitos naturais
sobre a propriedade individual para todos, em tom de igualdade.
A síntese das teorias permitiu a convergência para determinação da natureza dos pac-
tos sociais pela óptica da igualdade, o que se fez tomando o indivíduo (o homem como ser único
da espécie) como cerne da questão, isto é, como a igualdade orienta a passagem do indivíduo do
estado de natureza para a sociedade civil. Em tom concreto, para Hobbes trata-se de um pacto
de submissão; enquanto que para Locke seria um pacto de consentimento.
As últimas palavras impõem o dever de retorno à epígrafe para renovar a intenção da
presente proposta que não foi outra, senão a de garantir o debate vivo sobre a igualdade no medo e
na propriedade como extratos das teorias de Hobbes e Locke, mormente pela contemporaneidade
dos temas e as inusitadas soluções que se demonstram lógicas até a atualidade.

REFERÊNCIAS

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EQUALITY IN FEAR AND PROPERTY, POINT NOTES ON LEVIATAN AND TWO


FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

TREATISES ON CIVIL GOVERNMENT

ABSTRACT
Since the fifteenth century the debate between dogma and reason has
intensified, in order to strengthen democratic theories to the detriment
of the absolutists justified in divine law, shifting man to the center of
the debate. Freedom and equality have become the supreme values to
be defended in society. The propositions of Hobbes and Locke mark the
discourse of guarantees of the individual in civil society with emphasis

23
on a social pact the submission by necessity of expunging the fear of the
state of war, or by consent for protection in the acquisition of goods to
satisfy the needs.
Keywords: Man. Equality. Pact. Guarantees.

FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

24
AMATYA SEN SOBRE A GÊNESE, O DESENVOLVIMENTO E AS
CARACTERÍSTICAS DAS TEORIAS DE JUSTIÇA FOCADAS EM ARRANJOS

Danilo Christiano Antunes Meira1


Horácio Wanderlei Rodrigues2

RESUMO
Este artigo apresenta de forma perspectiva e sistemática a categoria Teo-
ria de Justiça Focadas em Arranjos proposta pelo economista Amartya
Sen. A sua estrutura busca favorecer a compreensão do desenvolvimen-
to do conceito. Os três primeiros tópicos delimitam o enfoque pelo qual
o debate sobre o conceito de justiça deve ser compreendido e ressalta
elementos relevantes na construção da categoria Teoria de Justiça Fo-
cadas em Arranjos, como a discussão pública racional e a influência
recebida do Iluminismo. O quarto e o quinto tópico dizem respeito à ca-
racterização da tradição contratualista e da perspectiva institucionalista
transcendental, que funcionam como fundamentos e condicionantes das
Teorias de Justiça Focadas em Arranjos. O sexto e o sétimo tópico sin-
tetizam o próprio conceito de Teorias de Justiça Focadas em Arranjos
e suas características. Como conclusão, o texto apresenta uma série de
considerações que pode ser tomada como ponto de partida para novos
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

1  Doutorando em Direito pela UFSC. Mestre em Direito pela UFSC. Graduado em Direito pela FADISA. Pesquisador do grupo de
pesquisa Fundamentos e Dimensões dos Direitos Humanos (IMED). Membro do grupo de pesquisa NECODI – Núcleo de Estudos Co-
nhecer Direito (IMED/UFSC). Membro do grupo de pesquisa Centro de Estudos Jurídico-Econômicos e de Gestão do Desenvolvimento
(UFSC). Bolsista CNPq. danchristiano@gmail.com.
2  Doutor em Direito (Filosofia do Direito e da Política) pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestre em Direito (Institui-
ções Jurídico-Políticas) pela UFSC. Realizou Estágios de Pós-Doutorado em Filosofia na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNI-
SINOS) e em Educação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação
em Direito (PPG Direito) da Faculdade Meridional (IMED/RS). Professor Titular de Teoria do Processo do Departamento de Direito e
Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação Direito da UFSC, de 1991 a 2016. Coordenador do Mestrado Profissional em Di-
reito em Direito da UFSC, de 2015 a 2016. Sócio fundador do Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Direito (CONPEDI)
e da Associação Brasileira de Ensino do Direito (ABEDi). Membro do Instituto Iberomericano de Derecho Procesal (IIDP). Pesquisador
do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação Meridional. Presidente da Comissão de
Educação Jurídica da OAB/SC. Publicou diversos livros e uma centena de artigos em coletâneas e revistas especializadas, em especial
sobre Ensino e Pesquisa em Direito, Direitos Humanos e Teoria do Processo. horaciowr@gmail.com.

25
estudos, indicando os flancos que Amartya Sen aparentemente deixou
abertos à críticas e potenciais de desenvolvimento dessa proposta.
Palavras-chave: Amartya Sen. Teorias de Justiça Focadas em Arran-
jos. Teoria do Direito.

1 INTRODUÇÃO

Amartya Sen costuma ser lembrado enquanto pesquisador do campo da economia do


bem-estar, especialmente pelo desenvolvimento do seu conceito de capabilities. Talvez esse moti-
vo explique, ao menos em parte, o baixo impacto de seus trabalhos no âmbito da Teoria do Direito.
Todavia, por uma série de razões, a análise crítica que ele propõe sobre um determinado conjunto
de teorias de justiça merece ser incluída na pauta de estudos daqueles que se interessam pela área.
A análise crítica em questão diz respeito às Teorias de Justiça Focadas em Arranjos,
uma categoria na qual, segundo Sen, se insere a maior parte das teorias de justiça contemporâ-
neas. Para o economista e filósofo indiano, essa categoria possibilita uma percepção mais abran-
gente da concepção, do desenvolvimento e das características das teorias de justiça que dela
fazem parte. Ao menos em princípio, portanto, essa proposta teria o mérito de revelar deficiên-
cias e traços compartilhados por teorias que não costumam ser percebidas como semelhantes.
Exposta a pertinência e a relevância do debate, o objetivo que o presente artigo espera
alcançar é o de apresentar a categoria Teoria de Justiça Focadas em Arranjos de forma perspec-
tiva e sistemática, organizando a proposta de Amartya Sen de uma maneira que favoreça a com-
preensão dos caminhos que ilustram o desenvolvimento do conceito. Além disso, essa estratégia
também busca favorecer uma leitura de aproximação e a demonstração da pertinência do assunto
para muitos dos principais debates na área do Direito que tangenciam o conceito de justiça.
Para tanto, o texto será estruturado com uma configuração específica. Os três primei-
ros tópicos contextualizam a discussão sobre o conceito de justiça que Amartya Sen privilegia,
isto é, demarcam o enfoque pelo qual o debate sobre o conceito de justiça deve ser compreendi-
do na proposta desse autor. Ao mesmo tempo, os tópicos de contextualização buscam permitir
que o leitor perceba elementos relevantes na construção da categoria Teoria de Justiça Focadas
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

em Arranjos, como a discussão pública racional e a influência recebida do Iluminismo. O quar-


to e o quinto tópico dizem respeito à caracterização da tradição contratualista e da perspectiva
institucionalista transcendental, que funcionam como fundamentos e condicionantes das Teo-
rias de Justiça Focadas em Arranjos. O sexto e o sétimo tópico sintetizam o próprio conceito
de Teorias de Justiça Focadas em Arranjos e suas características, indicando quais exemplares
contemporâneos poderiam ser considerados como filiados a essa forma de pensar sobre os pro-
blemas de justiça. Como conclusão, o texto apresenta uma série de considerações que pode ser
tomada como ponto de partida para novos estudos, indicando os flancos que Amartya Sen apa-

26
rentemente deixou abertos à críticas e potenciais de desenvolvimento dessa proposta.

2 PRIMEIRA CONTEXTUALIZAÇÃO: DISCUSSÕES RACIONAIS ESTIMULADAS


PELA NECESSIDADE DE REMOVER INJUSTIÇAS

Amartya Sen inicia o seu livro A Ideia de Justiça chamando a atenção para a impor-
tância das emoções estimuladas por circunstâncias percebidas como injustas. Para ele, são essas
percepções de injustiças que estimulam as reflexões sobre a justiça avançarem de um plano
eminentemente teórico para um plano de concretizações. É esse o tipo de debate que interessa à
Sen: reflexões sobre a justiça com fins à formulação de soluções para problemas práticos. Toda-
via, explica o autor, essas emoções precisam ser assimiladas através de uma ponderação racio-
nal, pois o senso de injustiça “demanda um exame crítico, e deve haver um exame cuidadoso da
validade de uma conclusão baseada principalmente em sinais” (SEN, 2011, p. 8).
Não se trata, porém, de excluir as impressões de caráter emocional das avaliações
racionais sobre a justiça, como afirmam alguns, e nem de afastar as emoções da argumentação
racional, como dizem outros3. Para Sen (2011, p. 18), não é “plausível considerar as emoções, a
psicologia ou os instintos como fontes independentes de valoração, sem uma avaliação arrazoa-
da. Contudo, os impulsos e as atitudes mentais continuam sendo importantes, visto que temos
boas razões para levá-los em conta na nossa avaliação da justiça e da injustiça no mundo”.
Por tais motivos, Amartya Sen conclui ser imprescindível que qualquer debate sobre
a ideia de justiça, para ser relevante, deve começar por um caminho já sedimentado por John
Rawls, para quem a interpretação da justiça estaria necessariamente vinculada com o uso da
razão pública, ou, mais precisamente, uma “estrutura pública de pensamento” que proporcione
“uma noção de acordo nos juízos entre agentes razoáveis”4.

3 SEGUNDA CONTEXTUALIZAÇÃO: A RAZÃO PÚBLICA NO ILUMINISMO

Como Amartya Sem (2011, p. 42) observa, “ainda que a justiça social tenha sido discutida
por séculos, a disciplina recebeu um impulso especialmente forte durante o Iluminismo europeu
nos séculos XVIII e XIX, encorajado pelo clima político de mudança e também pela transformação
social e econômica em curso na Europa e nos Estados Unidos”. Por conseguinte, o apelo ao uso da
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

razão pública, pelo qual seria possível construir acordos entre os indivíduos para o enfrentamento
das questões ligadas à justiça, leva Amartya Sen delimitar o marco temporal inicial das discussões
sobre a justiça que interessam à sua análise. Essas discussões, como percebido, teriam início apenas

3  SEN, 2011, p. 39. A esse respeito, é também interessante notar a resposta que o economista indiano dá em seu livro Desenvolvimento
como liberdade, de 2010, a Carl Manger e Friedrich Hayek sobre a conclusão que eles chegam a respeito do caráter impremeditado das
mudanças e realizações sociais. Ver SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Trad. Laura Teixeira Motta. São Paulo: Compa-
nhia das Letras, 2010. p. 324-332.
4  SEN, Amartya. O que queremos de uma teoria da justiça? Trad. Mário Nogueira de Oliveira. FUNDAMENTO – Revista de Pesquisa
em Filosofia, Ouro Preto, n. 5, jul–dez – 2012, p. 23.

27
no “período de descontentamento intelectual durante o Iluminismo europeu” (SEN, 2011, p. 14).
De fato, esse recorte parece ser justificado. As novas exigências decorrentes dos parâ-
metros de racionalidade introduzidos pelas ciências naturais daquele momento histórico logo
alcançaram as demais áreas do conhecimento. O pensamento e a cultura daquela época produ-
ziram alterações em toda a dinâmica social5. O que se teve, em síntese, “não foi apenas a pro-
fanação da cultura ocidental, mas, sobretudo, o desenvolvimento das sociedades modernas”6.
Por um lado, “o sucesso das ciências experimentais alimentou a ideia de que o mesmo método
leva a um progresso concreto em todas as áreas da cultura e da vida”7. Por outro lado, diversas
instituições sociais perderam seus respectivos pilares de sustentação. Algumas simplesmente
deixaram de existir. Outras, por ainda serem necessárias, demandavam por explicações que as
justificassem de acordo com o pensamento racionalista da época.
Nesse contexto, isto é, no caso das instituições sociais que demandavam uma susten-
tação racional que justificasse sua existência após o abandono das concepções pré-modernas,
encontrava-se a questão da legitimidade da autoridade dos governantes e dos princípios morais
que regiam a vida em sociedade. Immanuel Kant, um dos mais conhecidos representantes do
Iluminismo, definiu esse momento de um modo particularmente útil para compreender a essa
questão. Para ele, o Iluminismo significava “a saída do homem de sua menoridade”, isto é, da
“incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo” (KANT,
1985, p. 100). Era preciso criar hipóteses explicativas para a vida em sociedade mais adequadas,
posto ser inviável sustentá-la na vontade divina e ou na mera submissão à força. Era preciso
criar hipóteses explicativas para a legitimação dos governos e do dever de obediência às leis a
partir da afirmação da própria razão dos indivíduos.

4 TERCEIRA CONTEXTUALIZAÇÃO: O CONTRATUALISMO COMO RECURSO


EXPLICATIVO

Uma espécie de explicação particularmente conhecida dos elementos que configuram


e condicionam a vida em sociedade foi dada pelo filósofo político Thomas Hobbes. Para Hobbes
(1651, p. 85), é o desejo de sair da mísera condição de guerra e de isolamento do estado da na-
tureza e o cuidado com a própria conservação e com uma vida mais satisfeita que fizeram com
que os indivíduos se aglomerassem e impusessem restrições sobre si mesmos. Essas restrições
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

recíprocas, responsáveis pela viabilização dessa nova forma de vida, materializavam-se na for-
ma de leis. Para que essas leis fossem observadas por todos e para que a proteção dos indiví-
duos em face dos seus iguais e dos estrangeiros fosse efetiva, completa Hobbes, era necessária

5  BRISTOW, William. Enlightenment. The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2010 Edition), Edward N. Zalta (ed.). Disponível
em <http://plato.stanford.edu/archives/fall2010/entries/enlightenment/>. Acessado em 16 de junho de 2015..
6  HABERMAS, Jürgen. (1985) O Discurso Filosófico da Modernidade: doze lições. Trad. Luiz Sérgio Repa e Rodnei Nascimento. São
Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 4.
7  BOBBIO, Norberto; MATTEUCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. Trad. de Carmen C, Varriale et ai.; coord.
trad. João Ferreira; rev. geral João Ferreira e Luis Guerreiro Pinto Cacais. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 11a ed., 1998, p. 606.

28
a criação de um poder que lhes fosse comum e superior. Era preciso que todos os indivíduos
designassem um homem ou uma assembleia de homens como seus representantes e a eles trans-
ferissem o direito que cada um tem de governar a si próprio. É da união da multidão na figura
de uma só pessoa ou assembleia que veio a ideia do grande Leviatã, ou o Deus mortal, e é nele
que consiste a própria ideia de Estado (HOBBES, 1651, p. 87-8).
Fica claro que a consistência racional da resposta hobbesiana repousa na pressuposição
de um acordo entre os indivíduos que buscam satisfazer seus próprios interesses. É justamente
esse acordo pressuposto que possibilita a aceitabilidade das noções de convergência de vontades
dos indivíduos em busca da autoconservação e da promoção do próprio bem-estar e a outorga do
poder ao soberano serem explicadas a partir de critérios adequados ao espírito daquele período.
Não foi por outro motivo que Hobbes (1651, p. 88.) definiu o Estado como “uma pessoa
de cujos atos uma grande multidão, mediante pactos recíprocos uns com os outros, foi instituída
por cada um como autora, de modo a ela poder usar a força e os recursos de todos, da maneira
que considerar conveniente, para assegurara paz e a defesa comum”. Essa ideia de acordo entre
os indivíduos em busca de um bem comum foi largamente utilizada e dela se originou a teoria
que hoje se conhece como Teoria do Contrato Social.

5 CARACTERÍSTICAS COMUNS ÀS TEORIAS CONTRATUALISTAS

Como pontuado, o contratualismo surgiu a partir de uma dupla recusa: a de se funda-


mentar os valores morais e a autoridade política na vontade divina ou em outro elemento que
escapasse às exigências de racionalidade do Esclarecimento. Isso explica o fato de a Teoria do
Contrato Social ter se desenvolvido em duas modalidades. A primeira está mais próxima da
Teoria Política e diz respeito à legitimidade da autoridade política. Ela sustenta que a autoridade
legítima do governo deve derivar do consentimento dos governados e que a forma e o conteúdo
desse consentimento reflete os termos do contrato ou acordo mútuo. A segunda modalidade
do Contrato Social está mais próxima da Ética ou Teoria Moral e se ocupa da origem ou do
conteúdo legítimo de normas morais. De igual modo, ela também afirma que as normas morais
derivam sua força normativa da ideia de contrato ou acordo mútuo8.
O desenvolvimento da teoria contratualista ocorreu de maneira gradual. Depois de
Thomas Hobbes, Jean-Jacques Rousseau, John Locke e Immanuel Kant foram os sucessores
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

modernos imediatos (SEN, 2011, p. 17). Cada um a seu modo ofereceu versões em alguma me-
dida diferenciadas. Todavia, a presença de alguns elementos nucleares nessas diversas aborda-
gens justifica uma identidade contratualista comum. Os principais são a caracterização de uma
situação inicial e a caracterização das partes do contrato (CUDD, 2013).
A situação inicial, também chamada de estado de natureza, posição original ou po-

8  CUDD, Ann. Contractarianism. (2013) The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Winter 2013 Edition. Edward N. Zalta (ed.). Dis-
ponível em: <http://plato.stanford.edu/archives/win2013/entries/contractarianism/>. Acesso em: 1 abr. 2014.

29
sição de negociação inicial, é a situação na qual se encontram as partes do contrato antes de
firmá-lo ou ao não aceitar os termos negociados. É uma situação que apresenta um caráter de
hostilidade e sociabilidade que varia de acordo com a ideia que o respectivo teórico faz de uma
sociedade sem regras morais e sem uma autoridade central.
A caracterização das partes do contrato diz respeito à racionalidade e à motivação que
os contratantes têm para chegar a um acordo em relação aos termos do contrato. O fundamental
nas teorias contratualistas é a escassez ou a motivação para a competição sem regras entre os
indivíduos na situação inicial e a possibilidade de ganhos a partir da interação social e da coo-
peração facilitada pelo contrato social.

6 DO CONTRATUALISMO AO INSTITUCIONALISMO TRANSCENDENTAL

Como observa Amartya Sen (2011, p. 36), a ideia de um contrato social hipoteticamen-
te escolhido foi uma alternativa explicativa particularmente adequada ao “caos que de outra
forma caracterizaria uma sociedade”. Todavia, o seu desenvolvimento não ficou confinado à
perspectiva explicativa inicial, isto é, à explicação racionalmente adequada sobre a vida em so-
ciedade, os governos, suas leis e seus preceitos morais. Como os aspectos mais discutidos pelos
contratualistas diziam respeito à identificação das instituições mais elementares que influencia-
vam a caracterização de uma sociedade, logo se abriu espaço para a especulação a respeito das
instituições necessárias para sociedades ideais.
A explicação da vida em sociedade a partir do modelo contratualista, na verdade, já
vinha acompanhada desde o início em maior ou menor medida dos elementos que o respectivo
teórico identificava como termos contratuais mais adequados à concepção de uma sociedade
justa e ao mesmo tempo desejável por todas as partes contratantes. A diferença entre o contrato
enquanto hipótese explicativa e enquanto idealização é, por conseguinte, muito tênue. Essa ati-
tude é verificada, inclusive, desde Hobbes. Obviamente, a pretensão de alcançar uma sociedade
ideal tem suas raízes em períodos mais remotos, mas no contratualismo ela aparece como uma
possibilidade de escolha racional a partir da identificação dos princípios que orientariam a cria-
ção e o funcionamento das instituições dessa sociedade.
Como resultado desse esforço se teve “o desenvolvimento de teorias da justiça que
enfocavam a identificação transcendental das instituições ideais” (SEN, 2011, p. 36). Em outras
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

palavras, o que se também tentava era buscar a identificação das leis e arranjos sociais que, trans-
cendentalmente, produziam a sociedade justa. A essa postura das teorias derivadas do contra-
tualismo o economista indiano Amartya Sen deu o nome de Institucionalismo Transcendental.

7 INSTITUCIONALISMO TRANSCENDENTAL E AS CARACTERÍSTICAS DAS


TEORIAS DE JUSTIÇA FOCADAS EM ARRANJOS

De modo preliminar, já parece possível compreender o Institucionalismo Transcen-

30
dental como uma linha de argumentação racional sobre a justiça social derivada das teorias
contratualistas que surgiram no período do Esclarecimento, impulsionadas pelo clima político
de mudanças sociais e econômicas em curso na Europa e nos Estados Unidos. Todavia, é preci-
so avançar para a apreciação das suas duas características distintivas herdadas diretamente da
tradição contratualista e a influência desse tipo de abordagem na criação da categoria Teorias
de Justiça Focadas em Arranjos.
A primeira característica é que o Institucionalismo Transcendental “concentra a sua
atenção no que identifica como a justiça perfeita, e não nas comparações relativas de justiça e
injustiça. Ela apenas busca identificar características sociais que não podem ser transcendidas
com relação à justiça; logo, seu foco não é a comparação entre sociedades viáveis, todas não
podendo alcançar os ideais de perfeição”. Assim, a sua linha de investigação se dá no plano da
natureza do justo e não no da identificação de critérios que possibilitem a afirmação sobre que
uma alternativa é menos injusta que outra (SEN, 2011, p. 36).
A segunda característica corresponde ao fato de o Institucionalismo Transcendental se
preocupar principalmente em acertar as instituições justas. Com efeito, o termo Instituciona-
lismo Transcendental decorre justamente da vinculação que as teorias de justiça pertencentes a
essa tradição fazem entre a ideia de realização da justiça e o caráter de justiça das instituições.
Para Amartya Sem (2011, p. 40), não haveria nessas teorias problematização ou reflexão poste-
rior a respeito dos tipos reais de sociedade que poderiam emergir das instituições idealizadas.
Alguns autores simplesmente estabeleceriam que o limite de se pensar a justiça se encontra no
nível institucional, não importando o que desse arranjo possa surgir.
Além disso, é necessário perceber uma consideração que o economista indiano fez a
respeito da abordagem institucionalista transcendental que aponta a possibilidade de teorias
de justiça apresentarem características transcendentais sem estar acompanhadas do foco em
instituições. Nela, explica-se o motivo pelo qual ele escolheu o termo arranjos, e não institui-
ções, para designar o conceito específico de teorias de justiça aqui estudado. Nas palavras de
Amartya Sen (2011, p. 68),

ainda que a abordagem contratualista da justiça, iniciada por Hobbes, combine


transcendentalismo com institucionalismo, é importante observar que as duas
características não precisam necessariamente ser combinadas. Por exemplo, podemos
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

ter uma teoria transcendental que focalize as realizações sociais em vez das instituições
(a procura do mundo utilitarista perfeito, povoado de pessoas maravilhosamente felizes,
seria um exemplo simples de busca da “transcendência baseada em realizações”). Ou
podemos enfocar avaliações institucionais usando perspectivas comparativas em lugar
de empreender uma busca transcendental do pacote perfeito de instituições sociais
(a preferência por um papel maior — ou mesmo menor — para o livre mercado seria
um exemplo de institucionalismo comparativo).

Resumidamente, Amartya Sen reconhece que muitos teóricos vinculados à tradição


Institucionalista Transcendental, dentre os quais inclui Kant e Rawls, fornecem em suas teorias

31
análises “dos imperativos morais e políticos para o comportamento socialmente apropriado” e,
por tal motivo, elas “podem ser vistas, de forma mais ampla, como abordagens da justiça foca-
das em arranjos, em que arranjo se refere tanto ao comportamento certo como às instituições
certas” (SEN, 2011, p. 42-43). De qualquer modo, tal arranjo seria objetivado também pela es-
colha racional de um ou mais princípios orientadores a partir de um contrato social hipotético.

8 CARACTERÍSTICAS E DEFICIÊNCIAS DAS TEORIAS CONTEMPORÂNEAS DE


JUSTIÇA FOCADAS EM ARRANJOS

Compreendidas as razões pelas quais Amartya Sen denominou um conjunto de pers-


pectivas como Teorias de Justiça Focadas em Arranjos, bem como as principais características
que contribuíram para a sua definição, interessa verificar quais traços distintivos ainda ecoam
nas teorias contemporâneas de justiça e quais seriam essas teorias.
Sobre a primeira questão, as observações de Amartya Sen permitem descrever as Teo-
rias de Justiça Focadas em Arranjos contemporâneas como um tipo de abordagem sobre os
problemas de justiça que poderia ser identificado a partir das seguintes características gerais: a)
parte da premissa de que as questões que envolvem a promoção da justiça devem ser conduzidas
pelo uso da razão pública; b) concentra a atenção naquilo que identifica como a justiça perfeita
e não em comparações entre alternativas viáveis, o que faz com que a sua investigação se dê no
plano da natureza do justo; c) procura acertar as instituições e comportamentos justos que carac-
terizariam, por si, a realização da justiça; e d) compreende a escolha dos princípios de justiça e
de seu respectivo arranjo como objetos ou cláusulas de uma deliberação contratualista unânime.
Para Amartya Sen (2011, p. 38), essas características estariam presentes na maior parte
das teorias de justiça contemporâneas. Em suas palavras, “é sobre o institucionalismo transcen-
dental que a filosofia política de hoje se apoia”, de modo que “a caracterização de instituições
perfeitamente justas transformou-se no exercício central das teorias da justiça modernas”.
Em termos práticos, o critério de se aferir a realização da justiça usado pelas Teorias de
Justiça Focadas em Arranjos segue os mesmos moldes da tradição do Institucionalismo Trans-
cendental ao se propor que a justiça seja conceitualizada em termos de arranjos organizacionais,
como instituições, regulamentações e regras comportamentais que dão origem a sociedades justas
(SEN, 2011, p. 40). Variáveis que não possuem natureza institucional seriam ignoradas ou toma-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

das como pressupostas de uma maneira perfeitamente adequada ao que se espera como resultado
das instituições (SEN, 2011, p. 36). Uma vez escolhidos os princípios que orientariam a criação e o
funcionamento da instituição, a tarefa de se pensar a justiça se conclui. Por conseguinte, também
tomariam como certo o caráter justo das sociedades que podem surgir (SEN, 2011, p. 37).
Sobre a segunda questão, isto é, sobre a identificação das próprias teorias contempo-
râneas de justiça que Amartya Sen tem em mente quando fala em Teorias de Justiça Focadas
em Arranjos, um dado preliminar precisa ser considerado. De certa forma, não parece haver
muito debate sobre quais teóricos contemporâneos se filiam à tradição contratualista. É comum

32
identificar as propostas de Robert Nozick, John Rawls, David Gauthier, Jan Narveson, James
Buchanan e Thomas Scanlon, por exemplo, como propostas contratualistas (CUDD, 2013). To-
davia, Amartya Sen não parece suficientemente seguro em classificar todos os contratualistas
contemporâneos como filiados às Teorias de Justiça Focadas em Arranjos.
Ele apresenta uma modesta lista de nomes que, além de John Rawls, se completa ape-
nas com “Ronald Dworkin, David Gauthier, Robert Nozick, entre outros” (SEN, 2011, p. 44)
como representantes dessa tradição. Não fica claro quem ele inclui nesse “entre outros”. Em
certas passagens, ele parece sugerir que a concepção de justiça de Jürgen Habermas, especial-
mente ao que se refere à deliberação pública como critério de objetividade e ao uso da razão,
não estaria muito distante da concepção rawlsiana (SEN, 2011, p.86-87). Em outras, indica que a
perspectiva contratualista de Thomas Scanlon estaria bem mais aberta, completa e comparativa
em relação ao hermetismo contratualista visto, por exemplo, no próprio exercício deliberativo
da Justiça como equidade de John Rawls (SEN, 2011, p.304-307). Até mesmo a concepção de
justiça de Ronald Dworkin parece ser revisitada apenas para que a crítica à abordagem de capa-
cidades da sua teoria de justiça seja respondida, ainda que para isso ele faça breves comentários
sobre o experimento mental do hipotético mercado de seguros que, na teoria de Dworkin, ocor-
re numa posição original sob o véu da ignorância rawlsiana (SEN, 2011, p.392-397).
Em todos esses casos, porém, ficam expressas diversas ressalvas que podem ser inter-
pretadas ou como um relativo caráter de acessoriedade que essas teorias apresentam na obra de
Amartya Sen ou como reticências que, por alguma razão, interrompem a demonstração de que
a abordagem da justiça focada em arranjos e suas respectivas características se apresenta como
exercício central das contemporâneas teorias de justiça fica fragilizada.

9 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A proposta de Amartya Sen em classificar um dado conjunto de abordagens sobre os


problemas de justiça como uma categoria definida por características compartilhadas é uma
estratégia bastante ambiciosa e tem, em princípio, um bom potencial analítico. Todavia, é pre-
ciso considerar um certo número de ressalvas antes de tomá-la como um pressuposto seguro de
fundamentação de novos estudos.
Em primeiro lugar, a afirmação de que as Teorias de Justiça Focadas em Arranjos se
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

apresentam como a corrente majoritária parece inconsistente. O autor não demonstrou esse
caráter majoritário, mas se limitou a mencionar poucos casos pontuais. Isso parece indicar a ne-
cessidade de uma verificação mais consistente de exemplares específicos de teorias da justiça,
especialmente aqueles que se autodeclaram contratualistas.
Em segundo lugar, é interessante notar que a caracterização que Amartya Sen preten-
deu atribuir às Teorias de Justiça Focadas em Arranjos pode não ser tão inovadora como se pre-
tende. Críticas aos modelos ideais de sociedades justas construídas a partir da escolha de insti-
tuições justas existem, talvez, desde a primeira proposição nesse sentido. As considerações que

33
Karl Popper (1974. p.173-175) fez ao que denomina de mecânica social utópica, por exemplo, é
uma abordagem muito semelhante, embora concebida com outros propósitos e metodologias.
Neste ponto, também é possível e desejável que outros estudos coloquem em questão o caráter
inovador das conclusões de Sen.
Em terceiro lugar, um dado não mencionado no desenvolvimento do conceito de Teo-
rias de Justiça Focadas em Arranjos e que precisa ser considerado é a ausência de diálogo entre
Amartya Sen e autores clássicos da Teoria do Direito. A citação aos estudos de John Rawls,
Dworkin e outros contemporâneos não esgota tudo o que já foi escrito sobre os assuntos rela-
cionados à sua proposta. Obviamente, não se trata de uma exigência inexequível de considerar
minuciosamente todas as obras de Teoria do Direito. O que se coloca em questão aqui é apenas
o fato de se ter ignorado reflexões já consagradas no campo, como O Problema da Justiça, de
Hans Kelsen, e Ética e Direito, de Chaïm Perelman.
De qualquer modo, tais ressalvas não indicam a inviabilidade da proposta em seu
conjunto. Até os pontos aparentemente deficientes são relevantes ao ponto de encorajar novas
pesquisas e estudos. São trabalhos que ainda estão em aberto e que, caso concluídos, podem
contribuir significativamente para a compreensão de um dos temas mais delicados da Teoria do
Direito e para a tradução dessa compreensão em termos de estratégias práticas.

REFERÊNCIAS

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Trad. de Carmen C, Varriale et ai.; coord. trad. João Ferreira; rev. geral João Ferreira e Luis
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2013 Edition. Edward N. Zalta (ed.). Disponível em: <http://plato.stanford.edu/archives/
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34
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POPPER, Karl (1957). A sociedade aberta e seus inimigos. v. 1. Trad. Milton Amado. Belo
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SEN, Amartya. O que queremos de uma teoria da justiça? Trad. Mário Nogueira de Oliveira.
FUNDAMENTO – Revista de Pesquisa em Filosofia, Ouro Preto, n. 5, jul–dez, 2012.

AMARTYA SEN ON GENESIS, DEVELOPMENT AND THE CHARACTERISTICS


OF THE ARRANGEMENT-FOCUSED THEORIES OF JUSTICE

ABSTRACT
This article presents the category Arrangements-Focused Theories of
Justice on proposed by the economist Amartya Sen in a perspective and
systematic way. Its structure seeks to promote understanding of the de-
velopment of the concept. The first three topics delimit the approach by
which the debate about the concept of justice should be understood and
highlights relevant elements in the construction of the category Arrange-
ments-Focused Theories of Justice, such as rational public discussion and
the influence received from the Enlightenment. The fourth and fifth top-
ics concern the characterization of the contractualist tradition and the
transcendental institutionalist perspective, which function as foundations
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

and determinants of the Arrangements-Focused Theories of Justice. The


sixth and seventh topics synthesize the concept of Arrangements-Focused
Theories of Justice and their characteristics. As a conclusion, the text
presents a series of considerations that can be taken as a starting point
for further studies, indicating the flanks that Amartya Sen apparently left
open to the criticisms and potential of development of this proposal.
Keywords: Amartya Sen. Arrangements-Focused Theories of Justice.
Theory of Law.

35
A RESPONSABILIDADE CIVIL POR DANOS MORAIS NO DIREITO BRASILEIRO
CONTEMPORÂNEO

Belmiro Vivaldo Santana Fernandes1


Ricardo Maurício Freire Soares2

RESUMO
Da interlocução entre a Constituição e o Direito Civil, examinou-se o
valor filosófico da dignidade humana e seu reconhecimento jurídico
como princípio, com plena aplicabilidade no pensamento pós-positi-
vista. Objetivando o reconhecimento de sua máxima eficácia, pôs-se
em aproximação a dignidade humana perante os direitos de personali-
dade e direitos fundamentais, enquanto suas decorrências normativas,
enfrentando-se, com relação a estes últimos, o regramento da direta
aplicação do direito à igualdade às relações jurídicas entre particulares.
Reconhecidos tais limites, estudou-se detidamente o instituto da res-
ponsabilidade civil por danos morais, mediante o levantamento de seus
pressupostos e das diversas correntes que regulam sua aplicação.

1  Belmiro Fernandes é advogado integrante de MB Poças e Albuquerque, atuando nas esferas criminal, processual civil (especial na atua-
ção em processos de execução e recursos para instância superior e Tribunais Superiores), crimes tributários, direito tributário e eleitoral.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

Possui graduação em Bacharelado em Direito pela Universidade Católica do Salvador (2003) e mestrado em Direito pela Universidade
Federal da Bahia (2006). Atualmente é professor do CENTRO UNIVERSITÁRIO ESTÁCIO DA BAHIA – ESTÁCIO/FIB e professor
da UNIVERSO – Universidade Salgado de Oliveira. Também é Colunista da Revista A Barriguda. Contato: belmirofernandes@gmail.
com e www.professorbelmiro.com.
2  Pós-Doutor em Direito pela Università degli Studi di Roma “La Sapienza”, Università degli Studi di Roma
“Tor Vergata” e Università del Salento. Doutor em Direito pela Università del Salento. Doutor e Mestre em
Direito pela Universidade Federal da Bahia. Professor dos Cursos de Graduação e Pós-graduação em Direito
da Universidade Federal da Bahia (Especialização/Mestrado/Doutorado). Professor da Faculdade Baiana de
Direito e da Faculdade Ruy Barbosa. Professor visitante em diversas instituições: Università degli Studi di
Roma “La Sapienza”, Università degli Studi di Roma “Tor Vergata”, Università degli Studi “Roma Tre”, Uni-
versità degli Studi di Milano, Università di Genova, Università di Pisa, Universidade Autônoma de Lisboa,
Universidade de Algarve, Universidad de Burgos e Martin-Luther-Universität. Membro do Instituto dos Ad-
vogados Brasileiros e do Instituto dos Advogados da Bahia. Membro do Instituto Geográfico e Histórico da
Bahia. Palestrante e Autor de diversas obras jurídicas pela Editora Saraiva. E-mail: ric.mauricio@ig.com.br

36
Palavras–chave: Danos morais. Reponsabilidade civil. Dignidade.

1 INTRODUÇÃO

Etimologicamente, “responsabilidade” se origina do latim “respondere”, podendo


ser traduzido como obrigação que alguém tem de assumir com a consequência dos seus atos
(PAMPLONA, 1999, p. 21). Como subespécies da responsabilidade jurídica, encontram-se a
“responsabilidade civil” e a “responsabilidade penal”, cuja diferença básica é a consequência
sancionadora para o agente da conduta3. Pereira (2004, v. 1, 632) define a responsabilidade civil
como:

[...] a efetivação da reparabilidade abstrata do dano em relação a um sujeito passivo


da relação jurídica, que se forma. Reparação e sujeito passivo compõem o binômio
da responsabilidade civil, que então se anuncia como o princípio que subordina a
reparação à sua incidência na pessoa do causador do dano.

A conduta individual pode revelar-se conforme ou desconforme o direito. Segundo a


classificação doutrinária dos atos humanos (PEREIRA, 2004, v. 1, p. 654), os atos ilícitos re-
presentam a concretização de um agir em desacordo com a ordem legal. Em razão disso, não
deve o ordenamento jurídico permitir que o agente venha a se beneficiar de uma conduta ilícita,
merecendo, portanto, ser sancionado, por proteção ao direito de outrem. Ao passo em que o
ato lícito cria para o agente direitos e obrigações, o ilícito apenas lhe gera deveres (PEREIRA,
2004, v. 1, p. 653).
De acordo com Pereira (2005, v. 1, p. 654), o ato ilícito reúne certos requisitos para ser
ensejador de responsabilização civil, expostos da seguinte maneira: a) uma conduta intencional
ou previsível de um resulta; b) a violação do ordenamento jurídico, por ser contrária às normas;
c) a imputabilidade do resultado antijurídico à consciência do agente; d) a penetração da con-
duta na esfera jurídica alheia4.
Servindo de pressuposto para a responsabilização civil, o ato ilícito funda-se na noção
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

3  Sobre a diferença entre responsabilidade civil e penal, Dias (1995, p. 7-10), citando Mazeaud et Mazeaud, afirma que é a mesma que
existe entre o direito penal e direito civil. Assim, explica que enquanto a reparação civil reintegra, realmente, ao prejudicado na situação
patrimonial anterior, a sanção penal não oferece nenhuma possibilidade de recuperação ao prejudicado, pois sua finalidade é restituir
a ordem social ao estado anterior à turbação.
4  Explica Pereira (2004, v. 1, p. 655-656) que na estrutura explicitada, são cabíveis todas as espécies de ilícitos, sejam civis, sejam penais.
Em suas palavras: “Não se aponta, em verdade, uma diferença ontológica entre um e outro. Há em ambos o mesmo fundamento ético:
a infração de um dever preexistente e a imputação do resultado à consciência do agente. [...] Mesmo no caso de um ilícito ser reprimido
simultaneamente no cível e no criminal, há diferenciação, pois enquanto este tem em vista a pessoa do agente para impor-lhe sanção,
aquele se preocupa com o resultado e cogita da recomposição patrimonial da vítima. Enquanto o direito penal vê no ilícito a razão de
punir o agente, o direito civil nele enxerga o fundamento da reparação do dano. Por isto mesmo, a responsabilidade civil é independente
da criminal, ainda que haja a superposição das duas áreas.” O ponto sobre responsabilidade civil e penal será retomado mais adiante,
quando se tratar sobre a figura do dano punitivo.

37
de culpa5 do agente, em sentido amplo, abrangendo o dolo e a culpa em sentido estrito. Vale
ressaltar que o direito civil brasileiro abandonou tal distinção, porque de difícil aplicação nos
casos concretos, permanecendo, todavia, no campo penal6. (PEREIRA, 2004, v. 1, 657).
Na opinião de Cavalieri (2006, pp. 28-29), a violação de um dever jurídico é que con-
figura o ilícito, pois acarreta um dano para outrem, gerando, portanto, um novo dever jurídico7.
Assim, existe um dever jurídico originário, que, uma vez violado, gera um dever jurídico suces-
sivo, que é o de indenizar o prejuízo.
O referido autor acrescenta que o ato ilícito pode ser analisado sob duas perspectivas.
Num sentido estrito, é considerado como o conjunto de pressupostos da responsabilidade, ao
passo em que no sentido amplo, refere-se apenas a uma conduta humana voluntária e contrária
à ordem jurídica. (CAVALIERI, 2006, pp. 33-34)8. Conclui que:

O ato ilícito, portanto, é sempre um comportamento voluntário que infringe um dever


jurídico, e não que simplesmente prometa ou ameace infringi-lo, de tal sorte que, desde
o momento em que um ato ilícito foi praticado, está-se diante de um processo executivo,
e não diante de uma simples manifestação de vontade. Nem por isso, entretanto, o ato
ilícito dispensa uma manifestação de vontade. Antes, pelo contrário, por ser um ato
de conduta, um comportamento humano, é preciso que ele seja voluntário.

Convém assinalar que a velha noção de ato ilícito vem sendo superada, na responsabi-
lidade civil, em decorrência da primazia de que goza o princípio da dignidade da pessoa huma-
na, sobre as relações jurídicas no direito brasileiro. Tal reformulação é sensível, pois, segundo
Bodin de Morais (2003, p. 174) a adoção do critério do dano injusto, é mais eficaz para a prote-
ção da dignidade da pessoa, pois objetiva não apenas reparar “prejuízos”, mas preveni-los. Isso
ocorreu em razão da mudança do paradigma interpretativo - puramente patrimonialista – outro-
ra vigente no direito brasileiro da época do Código Civil brasileiro de 1916, em especial no pe-

5  Seguindo as lições de Pereira, sobre o nascimento da teoria do risco, que é o pressuposto da responsabilidade civil (2004, v. 1, p. 663),
diz-se que: “Em verdade, a culpa, como fundamento responsabilidade civil, é insuficiente, pois deixa sem reparação danos sofridos por
pessoas que não conseguem provar a falta do agente. O que importa é a causalidade entre o mal sofrido e o fato causador, por influxo do
princípio segundo o qual toda pessoa que cause a outra um dano está sujeito a sua reparação, sem necessidade de se cogitar do problema
da imputabilidade do evento à culpa. [...] Ante uma perda econômica, pergunta-se qual dos dois patrimônios deve responder, se o da
vítima ou o do causador do prejuízo. E, na resposta à indagação, deve o direito inclinar-se em favor daquela, porque dos dois é quem não
tem o poder de evitá-lo, enquanto o segundo estava em condições de retirar um proveito, sacar uma utilidade ou auferir um benefício da
atividade que originou o prejuízo. O fundamento da teoria é mais humano que o da culpa, e mais profundamente ligado ao sentimento
de solidariedade social”. Em razão dessa teoria se referir apenas à responsabilidade objetiva, sua análise extrapola o presente estudo,
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

que versa exclusivamente os danos morais provocados pelos particulares, cuja teoria aplicável é a da culpa.
6  Nas palavras de Dias (1995, p. 120), “Nem mesmo a classificação dos atos ilícitos em dolosos ou culposos apresenta interesse para o
civilista brasileiro, que só cogita do gênero ato ilícito, que é o fato, não autorizado pelo direito, causador de dano a outrem [...]. Vale
ressaltar que o fato do Código Civil de 1917 ter utilizado, em seu artigo 159 as expressões “imprudência” e “negligência” – institutos
típicos da conduta culposa em sentido estrito – isso não significa que fosse necessária a sua consideração para a aplicação – ou não – da
responsabilidade civil a agentes infratores.
7  Por dever jurídico, entende ser “a conduta externa de uma pessoa imposta pelo Direito Positivo por exigência da convivência social”
(p. 28). Acrescenta ainda que o dever jurídico não se refere apenas a um aconselhamento ou recomendação, mas comandos aptos a
se tornarem obrigações de indenizar. Sobre estas últimas, é importante ressaltar que se trata de uma modalidade obrigacional inse-
rida no art. 927 do Código Civil, contradizendo com a teoria clássica do direito civil, na qual a responsabilidade é a consequência do
descumprimento de uma obrigação. Então, sua natureza jurídica é de obrigação-sanção, opondo-se àquela surgida voluntariamente a
partir da criação de negócios jurídicos (op. cit. p 26).
8  Cavalieri expõe que o conceito tradicional de ato ilícito tornou-se insuficiente para a configuração da responsabilidade subjetiva, pois é
impossível enfeixar em sua teoria todos os fatos da vida que possam causar danos. No campo da responsabilidade objetiva, a deficiência
é ainda maior, só se pode compatibilizar a noção de ato ilícito em seu sentido objetivo (p. 33).

38
ríodo anterior à promulgação da Constituição para um modelo humanista, baseado na proteção
da pessoa humana. Seguindo o mesmo entendimento, Perlingieri (2002, p. 156) complementa:

A personalidade é, portanto, não um direito, mas um valor (o valor fundamental do


ordenamento) e está na base de uma série aberta de situações existenciais, nas quais
se traduz a sua incessantemente mutável exigência de tutela. Tais situações subjetivas
não assumem necessariamente a forma do direito subjetivo e não devem fazer perder
de vista a unidade do valor envolvido. Não existe um número fechado de hipóteses
tuteladas: tutelado é o valor da pessoa sem limites, salvo aqueles colocados no seu
interesse e naqueles de outras pessoas. A elasticidade torna-se instrumento para
realizar formas de proteção também atípicas, fundadas no interesse à exigência e no
livre exercício da vida de relações.

Nessa linha, todas as manifestações contrárias ao princípio da dignidade da pessoa


humana devem ser repelidas, não como um fim em si mesmo, mas como um meio de proteção
o citado valor supremo do referido princípio constitucional. Conhecer o caminho da citada mu-
dança paradigmática é fundamental para a compreensão dos fundamentos do dano moral, ape-
nas reconhecido como categoria autônoma da responsabilidade civil porque valoriza-se, hoje, a
dignidade da pessoa humana. Por tais motivos, passa-se a analisar tal evolução.

2 TEORIAS SOBRE A OCORRÊNCIA DOS DANOS MORAIS NA


RESPONSABILIDADE CIVIL

Tradicionalmente, poder-se-ia extrair da palavra “dano” a noção de “prejuízo”, seja


material, seja moral. A maioria dos doutrinadores pátrios, contudo, limita-se a vislumbrar os
aspectos materiais deste prejuízo, quando se propõem a conceituar “dano”. Dias, citando Paoli
(1925, p. 120 citado por DIAS, 1995, p. 714) afirma que “o dano, sem sentido jurídico, quer dizer
‘abolição ou diminuição, mesmo parcial ou temporária, de um bem da vida...”. Explica ainda
que seja possível identificar duas concepções sobre dano: a) a vulgar, no tocante a prejuízo que
alguém sofre na alma, no seu corpo ou nos seus bens, sem indagação de quem seja o autor da le-
são de que resulta; b) jurídica, delimitada pela condição de pena ou de dever de indenizar, sendo
o prejuízo do sujeito em consequência de violação por fato alheio (DIAS, 1995, p. 715). Dessa
maneira, o dano que interessa à responsabilidade civil é o que constitui obrigação de indenizar,
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

sendo dividido entre danos patrimoniais e danos morais (DIAS, 1995, p. 716).
Apesar disso, assevera Dias (1995, p. 737), que nem sempre se reconheceu o fato de
que o dano moral poderia ser indenizado. Os argumentos que a doutrina coleciona são os se-
guintes: a) falta de efeito penoso durável; b) incerteza do direito violado; c) dificuldades em
descobrir a existência do dano moral; d) indeterminação do número das pessoas lesadas; e)
impossibilidade de rigorosa avaliação em dinheiro; f) imoralidade da compensação da dor com
dinheiro; g) extensão do arbítrio concedido ao juiz.
Esta antiga tendência teve como reflexo a prevalência, durante muito tempo, da tese

39
da irreparabilidade (mais precisamente da não indenização) do dano moral, o que hoje já se
encontra superado. Se a existência do direito à indenização por dano moral é, atualmente, in-
questionável, o mesmo não se pode dizer quanto ao seu conceito e à sua amplitude ou dimensão,
porque ainda não houve um assentamento da doutrina quanto ao seu conceito. Em consequên-
cia, a jurisprudência mostra-se vacilante no reconhecimento das situações em que se configura
essa espécie de dano. Por conta disso, alguns critérios são utilizados, objetivando-se viabilizar
a sua aplicação.
A doutrina comumente definia o dano moral sob a forma negativa, como exclusão ao
dano patrimonial ou material. Dias (1995, p. 852) afirma que: “Quando ao dano não correspon-
dem às características do dano patrimonial, dizemos que estamos em presença do dano moral.”
Esse modo de conceituar o dano moral nada esclarece a respeito de seu conteúdo e não
permite uma precisa compreensão do fenômeno. Define-se essa espécie de dano com uma ideia
negativa, algumas vezes acompanhada de uma fórmula redundante, usando expressões que fa-
zem alusão ao aspecto moral do dano, sem, verdadeiramente, explicá-lo.
Atualmente, outras categorias de danos não-patrimoniais têm sido reconhecidas pelo
direito civil brasileiro, como o dano estético e à imagem. Dessa maneira, a fórmula em que
se exclui da esfera patrimonial aquilo que se entende por moral implica caracterizar situações
diferentes de maneira idêntica. Uma pessoa que perde a mobilidade de um dos seus braços em
razão de uma agressão física sofre, simultaneamente, um dano patrimonial (pelo necessário
pagamento de despesas médicas e com fisioterapia, além de eventual incapacidade para certos
tipos de trabalho), um dano estético (a desarmonia gerada em seu corpo) e um dano moral (pelo
abalo psíquico que lhe fora e sempre lhe será causado, em saber sofrera uma tão cruel dor).
Portanto, deve ser abandonada, desde já, a concepção negativista do dano moral, tendo em vista
que tal definição, conquanto afaste a classe mais distante (dano patrimonial), não esclarece as
características do fenômeno deste estudo.
A insuficiência da concepção negativa levou à busca de um objeto para o dano moral.
Procurando adentrar o próprio conteúdo dessa espécie de dano, parte da doutrina apresenta
definições que têm, em comum, a referência ao estado anímico, psicológico ou espiritual da
pessoa.
Cavalieri (2006, pp. 101-102) tece duras críticas a essa teoria. Ensina que pode existir
dano moral sem que haja dor, vexame, sofrimento, como também pode existir dor, vexame,
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

sofrimento sem que exista dano moral, sendo tais estados anímicos, em geral, consequências, e
não causas. Assim, em se admitindo reparação por danos morais apenas em caso de sofrimento,
crianças, doentes em estado anímico ou doentes mentais não estariam fora da órbita de proteção
do instituto. Conclui que:

Por mais pobre e humilde que seja uma pessoa, ainda que completamente destituída
de formação cultural e bens materiais, por mais deplorável que seja seu estado
biopsicológico, ainda que destituída de consciência, enquanto ser humano será
detentora de um conjunto de bens integrantes de sua personalidade, mais precioso

40
que o patrimônio. É a dignidade humana, que não é privilégio apenas dos ricos, cultos
ou poderosos, que deve ser por todos respeitada.

Dias (1995, p. 852) observa que para caracterizar o dano moral, impõe-se compreen-
dê-lo em seu conteúdo, que:

[...] não é o dinheiro nem coisa comercialmente reduzida a dinheiro, mas a dor, o
espanto, a emoção, a vergonha, a injúria física ou moral, em geral, uma dolorosa
sensação experimentada pela pessoa, atribuída à palavra dor o mais largo significado.

O indivíduo que termina seu relacionamento com outrem pode, em consequência, so-
frer angústia e tristeza. O empreiteiro que não entrega a obra no prazo pode provocar grande
irritação ao contratante do serviço. O condômino que litiga com o condomínio ou com o vizi-
nho em razão de infiltrações existentes em seu imóvel passa por grandes constrangimentos e
aborrecimentos. Em nenhum desses casos, no entanto, é possível vislumbrar a existência de um
dano moral - pelo menos não de acordo com o senso médio. As dores, as angústias, aflições,
humilhações e padecimentos que atingem a vítima de um evento danoso não constituem, de or-
dinário, mais do que a consequência ou repercussão do dano (seja ele moral ou material). A dor
sentida em razão da morte do cônjuge, a humilhação experimentada por quem foi atingido em
sua honra, a vergonha daquele que ficou marcado por um dano estético, a tensão ou a violência
experimentadas por quem tenha sido vítima de um ataque à sua vida privada são estados de
espírito contingentes e variáveis em cada caso, e que os indivíduos os sentem ou experimentam
ao seu modo. (ANDRADE, 2006, p. 40)
Modernamente, uma das teorias mais aceitas é a de que o dano moral decorre da le-
são a direito da personalidade. Cavalieri (2006, p. 74) afirma: “o dano moral é lesão de bem
integrante da personalidade, tal como a honra, a liberdade, a saúde, a integridade psicológica,
causando dor, sofrimento, tristeza, vexame e humilhação à vítima”.
Por sua vez, Morais (2003, p. 132-133) assevera que:

O dano moral tem como causa a injusta violação a uma situação jurídica subjetiva
extrapatrimonial, protegida pelo ordenamento jurídico através da cláusula geral de
tutela da personalidade que foi instituída e tem sua fonte na Constituição Federal, em
particular e diretamente decorrente do princípio (fundante) da dignidade da pessoa
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

humana (também identificado como o princípio geral de respeito à dignidade humana).

A dimensão da regra do dano moral enquanto lesão a direito da personalidade ainda


é um debate recorrente no Brasil, que deve ser objeto de reflexão dos juristas e operadores do
Direito, sobretudo ao se considerar que existe uma proteção geral à personalidade, pelo reco-
nhecimento da dignidade humana.
Segundo Cavalieri (2006, p. 100-102), o conceito de dano moral merece ser analisado
à luz da Constituição, sobretudo em razão da consagração expressa da dignidade humana como
um dos fundamentos do Estado brasileiro. Em sua opinião, os direitos da personalidade, como

41
o direito à honra, ao nome, à intimidade, à privacidade e à liberdade estão englobados no núcleo
da dignidade humana, merecendo, por isso, igual proteção.9 Em razão disso, foi o instituto do
dano moral elevado a categoria constitucional, conforme redação dos incisos V e X do art. 5º
do texto constitucional.
Conforme asseverado no capítulo um deste estudo, a dignidade é um valor intrínseco
do ser humano e, em sendo assim, não lhe pode ser tirado. Quando um indivíduo sofre um dano
moral, o que ocorre, na verdade, é uma pretensão violadora de sua dignidade, pois alguém – o
agente do ilícito – atua como se desconhecesse ou pretendesse simplesmente ignorar a digni-
dade de outrem. Assim, é mais prudente falar em direito subjetivo-constitucional à punição de
pretensões violadoras da dignidade humana.

3 FUNÇÕES REPARATÓRIAS E PUNITIVAS DOS DANOS MORAIS

Segundo Bodin de Morais (2003, pp. 295-296), em razão do direito brasileiro não
apresentar um tabelamento ou indicativo prévio do valor a ser pago a título de indenizações por
danos morais, a aplicação do estudo à luz dos casos concretos, deverá seguir alguns indicativos:
a) o grau de culpa e a intensidade do dolo do ofensor; b) a situação econômica do ofensor; c) a
natureza, a gravidade e a repercussão da ofensa (amplitude do dano); d) as condições pessoais
da vítima (posição social, política, econômica; e) a intensidade do seu sofrimento.
Maria Helena Diniz (2003, p. 99) afirma que o ressarcimento do dano moral, às vezes,
ante a impossibilidade de reparação natural, isto é, da reconstituição natural, na restituitio in
integrum (sem tradução equivalente no português) procurar-se-á [...] atingir uma “situação ma-
terial correspondente”.
Por seu turno, Bernardo (2005, p. 165) entende que apenas deva ser levada em conside-
ração a extensão do dano, afirmando serem mutuamente excludentes este requisito com o grau
da culpa do ofensor.
Dias (1995, p. 730 e ss.), apesar de não apresentar critérios para a reparação do dano
moral, adverte que a maior dificuldade para sua reparação é justamente o fato de não existirem
parâmetros valorativos, diferentemente do que ocorre com o dano patrimonial, em que se pauta
na noção de prejuízo. Ao tempo em que este nunca é irreparável, no tocante aos danos morais,
todas as dificuldades se acumulam, diante das diversas lesões que este causa, que só têm em
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

comum o fato de não serem patrimoniais.

9  É importante assinalar que CAVALIERI fala de “direito à dignidade” ou “direito subjetivo constitucional à dignidade”. Discordamos
desse posicionamento, porque o ser humano não pode ter direito àquilo que ele simplesmente é, pois a dignidade é seu valor intrínseco.
Nessa perspectiva, portanto, não se pode exigir que o Estado lhe conceda dignidade, porque esta não se encontra em seu poder. Preferi-
mos dizer que os cidadãos possuem um “direito à não pretensão violadora de sua dignidade”, porque a dignidade não é um bem que se
concede ou se retira de alguém, não podendo, por meio do dano moral, alguém perder a sua dignidade.

42
Da análise dos dispositivos legais10, verifica-se, no Brasil, o principal aspecto que fixa
o valor indenizatório é a extensão do dano. A culpa também é considerada, mas apenas de for-
ma subsidiária, se ocorrer uma das seguintes hipóteses: a) dano desproporcional com a culpa do
agente; b) concurso de culpas entre agente e vítima.
Sobre esse assunto, Bernardo (2005, p. 171) empreende uma severa crítica acerca do
pensamento do legislador:

[...] grau de culpa e extensão do dano são opostos e mutuamente excludentes. Ou se


repara tendo em vista a extensão do dano ou se repara tendo em vista a gravidade da
culpa. E entendemos que a extensão do dano é parâmetro muito mais eficaz. Causa
espanto tenha o legislador adotado no caput do artigo 944 a extensão do dano e no
parágrafo único aberto a possibilidade de redução da indenização tendo em vista o
grau de culpa. [...] A graduação da culpa nunca importou, em épocas passadas, para a
responsabilização civil. A doutrina clássica, de fato, considerava que nenhuma relação
deveria haver entre a amplitude dos danos e a gravidade da culpa. Nestes casos, então, e
com absoluta independência do grau de culpa do agente, caberia sempre indenizar toda
a extensão do dano, mesmo sendo a culpa levíssima causadora de um dano gravíssimo.

De um lado, há tribunais que procuram compensar as vítimas pelos danos sofridos,


mediante a condenação de indenizações módicas, normalmente expressas em salários míni-
mos. Por outro, em certas situações, observa-se a aplicação de pesadas indenizações, expressas
em quantias de dezenas ou centenas de milhares de reais, ou ainda em milhões, conhecidas no
common law (Direito Comum) como danos punitivos (punitive damages). Em razão de sua apli-
cação demonstrar-se controversa no Brasil, faz-se necessária a análise de suas características, a
fim de se concluir qual é a melhor fórmula para se proteger a dignidade humana.

4 LINHAS GERAIS ACERCA DOS DANOS PUNITIVOS

Ao tempo em que se aplica o instituto da responsabilidade civil no Brasil indistinta-


mente – mas de forma peculiar – aos danos contraídos tanto nas relações contratuais, como
extracontratuais, no direito dos países de common law (Direito Comum) o quadro se mostra
diverso. Nesses referidos países, o dano causado a alguém em razão de um inadimplemento
contratual recebe o nome de damage11. Por outro lado, o ato ilícito extracontratual praticado
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

contra outrem recebe o nome de tort, sendo estudado pela tort law ou law of torts (direito do ato
ilícito extracontratual). Uma grande diferença entre os dois é que a reparação de danos decor-

10  O Código Civil Brasileiro estabelece os seguintes delineamentos:


Art. 944. A indenização mede-se pela extensão do dano.
Parágrafo único. Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir equitativamente, a indeni-
zação.
Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso, a sua indenização será fixada tendo- se em conta a gravidade de
sua culpa em confronto com a do autor do dano.
11  As expressões injury, harm e loss também são utilizadas para expressar o tipo de dano causado por inadimplemento contratual. (op.
cit. p. 181).

43
rentes de inadimplemento contratual (damage law) apenas tem caráter reparatório. Entretanto,
é intrínseco ao tort law (direito do ato ilícito extracontratual), além da reparação específica, a
prevenção de danos futuros.
Com a proliferação dos códigos e atos legislativos uniformes que têm crescido re-
centemente nos países de direito common law (Direito Comum), o law of torts (direito do ato
ilícito extracontratual) ainda se apresenta como uma medida jurídica não sistematizada, sendo
estudado à luz da casuística. Nas palavras de Kionka: “O tort law é, talvez, o último bastião do
common law. Mesmo nesta era de legislação, com a proliferação de códigos e atos uniformes,
o tort law permanece não codificado e em grande parte não afetado pela lei.” (citado por AN-
DRADE, op. cit. p. 183)12.
Os danos punitivos13 se inserem nesta última categoria, sendo definidos como “Indeni-
zação outorgada em adição à indenização compensatória, quando o ofensor agiu com negligên-
cia, malícia ou dolo”14. (BLACK citado por ANDRADE, 2006, p. 194). Constituem:

uma soma de valor variável, estabelecida em separado dos compensatory damages,


quando o dano é decorrência de um comportamento lesivo marcado por grave
negligência, malícia ou opressão. Se a conduta do agente, embora culposa, não é
especialmente reprovável, a imposição dos punitive damages mostra-se imprópria.
(ANDRADE, 2006, p. 195).

Segundo Andrade (op. cit. p. 186), os estudiosos do instituto dos danos punitivos (ou
punitive damages, no original) localizam sua estrutura nos textos da Antiguidade, como o Có-
digo de Hamurabi (2000 a.C.), o Código Hiita (Séc. XV a.C), Lei das XII Tábuas (450 a.C.) e o
Código de Manu (200 a.C.). Entretanto, foi na Inglaterra que o instituto ganhou a sua moldura
atual15, tendo sido disseminada, alguns anos depois, nos Estados Unidos da América16.

12  A expressão “dano moral” não aparece no common law (Direito Comum) como uma categoria específica, pois seu exame ocorre a
partir de categorias esparsas. Como exemplo, podem ser citados os “danos não-pecuniários” (nonpecuniary loss), os general damages
(conhecidos também como direct damages ou necessary damages), personal torts, personal injury (em oposição ao property tort), emo-
tional harm, emotional distress, mental distress, mental suffering e mental anguish. Há, também, figuras que se referem a danos morais
mais específicos, como a defamation, intrusion (invasão de privacidade), bodily harm (dano à integridade física), impairment of social
life (dano às relações sociais), dentre outros. cf. ANDRADE (op. ct., p. 184)
13  Segundo ANDRADE (op. cit. p. 195), muitas são as denominações dos danos punitivos, presentes nos países anglo-saxões que os
adotam. Encontram-se, ao lado de punitive damages (danos punitivos), as expressões vindictive damages, punitory damages, specu-
lative damages, imaginary damages, presumptive damages, added damages, penal damages e punies. Há ainda uma outra expressão,
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

denominada smart-money, que não faria menção à gíria estadunidense traduzida como “esperto”, “inteligente” ou “sabido”, mas indica-
tiva da soma em dinheiro estabelecida para compensação das dores da pessoa lesada.
14  No original: Damages awarded in addition to actual damages when the defendant acted with reckless, malice, or deceit.
15  Segundo Andrade (2006, p. 187), a primeira articulação explícita da doutrina dos punitive damages (danos punitivos) ocorreu em
1763, no julgamento Wilkes v. Wood. Wilkes foi um jornalista, que escrevera um artigo inflamado, ofensivo à reputação do Rei George
III e seus ministros. Em contrapartida, o Rei ordenou que seus mensageiros invadissem e revirassem sua casa, apreendendo livros e
papéis privados. Diante disso, Wilkes ajuizou uma ação denominada action of trespass (ação de trasnsgressão) contra o senhor Wood,
subscretário de Estado que havia pessoalmente supervisionado a execução da ordem do Rei, objetivando a aplicação de danos punitivos.
O juiz considerou a demanda procedente e condenou Wood a pagar-lhe a significativa soma (para a época) de £1000 (mil libras). O refe-
rido episódio serviu de precedente ao caso Huckle v. Money. Huckle teria sido detido com base numa ordem arbitrária de um oficial da
Inglaterra. Embora não tivesse ficado confinado por mais do que seis horas, o juiz condenou Money a pagar-lhe £300 (trezentas libras),
valor igual a quase trezentas vezes o salário que Huckle recebia de seu empregador semanalmente.
16  Em 1784, Genay ingressou com uma ação contra Norris, porque este colocou uma substância em sua bebida, causando-lhe grande dor,
num drinque de reconciliação, pois ambos iriam disputar um duelo com pistolas. A Corte considerou que Genay tinha direito a danos
punitivos.

44
Algumas teorias tentam explicar a origem dos danos punitivos. Por uma, de enfoque
histórico-sociológico, os danos punitivos teriam surgido a partir da própria estrutura do sistema
judicial inglês, que se baseia no julgamento popular pelo júri. Inicialmente, os jurados eram
cidadãos locais, com grande familiaridade com os fatos e, a partir daí, formando seu convenci-
mento para a resolução do conflito, não sendo possível, nesta época, que os juízes revisassem
suas condenações indenizatórias. Posteriormente, com a composição dos júris ser elaborada por
pessoas que não tinham prévio conhecimento dos fatos, tornou-se possível, segundo o entendi-
mento das cortes inglesas, revisar os valores atribuídos nas condenações, embora não o façam
com frequência, talvez em nome da tradição, bem característica do sistema jurídico inglês, do
tipo common law (Direito Comum)17
Outra corrente afirma que os danos punitivos foram desenvolvidos como meio repa-
ratório especificamente para danos morais, já que a jurisprudência inglesa até o século XIX
apenas reconhecia o direito à indenização aos prejuízos estimáveis pecuniariamente. Assim,
o dano que fosse puramente moral não daria ensejo à indenização.18 Nesse sentido, embora se
utilizasse a expressão punitive damages (danos punitivos), pelos quais os agressores eram con-
denados, esses danos não eram absolutamente excessivos, revelando, na verdade, um caráter
muito mais compensatório do que punitivo das indenizações por danos morais.
Finalmente, consagrou-se o posicionamento da aplicação da indenização punitiva para
compensar as vítimas que tivessem sofrido uma ofensa intangível (moral), quando presentes
circunstâncias agravantes19.
A indenização punitiva ganhou destaque internacional a partir dos julgamentos reali-
zados nos Estados Unidos da América. Lá, o instituto tem sido aplicado comumente em casos
como responsabilidade pelo fato do produto (direito do consumidor), difamação, erro médi-
co, acidentes de trânsito, responsabilidade profissional, invasão de privacidade, assédio sexual,

FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

17  Segundo lição de David (1998, p. 340-344), no direito das famílias romano-germânica, a jurisprudência apenas é utilizada para de-
sempenhar um papel, normalmente, secundário, não sendo criadoras – salvo casos excepcionais – de regras de direito. Na Inglaterra,
o direito tem uma tradição basicamente jurisprudencial, em que esta destaca as regras de direito, tendo, as decisões das cortes (stare
decisis), servido de precedentes (rule of precedent) para outras decisões.
18  Andrade (2006, p. 190) adverte que, excepcionalmente, admitia a fixação de um montante em dinheiro para danos não mensuráveis
pecuniariamente para determinadas categorias de atos ilícitos, como o dano à honra (defamation), abuso processual (malicious prosecu-
tion), agressão física (assault), prisão legal ( false imprisonment), sedução (seduction) e adultério (adultery).
19  Ainda existiam algumas outras teorias, como a que entendia que os danos punitivos serviam para a correção de injustiças ocorridas
nos processos criminais (hipótese conhecida no Brasil como “indenização por erro judiciário”) ou para controlar o ímpeto de vingança
da vítima. Para mais detalhes, consultar Andrade (2006, p. 190-192).

45
dentre outros20. É comum que tais indenizações ultrapassem a casa das centenas de milhares
de dólares ou dos milhões, embora muito do que se divulgue seja exagero do que realmente é
aplicado na prática.
A Suprema Corte americana, em diversos momentos, fora convocada para decidir se
os danos punitivos constituiriam uma violação ao princípio do devido processo legal, tendo
ganhado projeção a partir da decisão sobre o caso BMW of North America, Inc v. Gore (KIRS-
CHER e WISEMAN, citado por ANDRADE, p. 210).
Explica Andrade (2006, pp. 210-211) que:

No ano de 1990, após comprar um automóvel BMW sports sedan novo de uma
revendedora autorizada, pelo preço de US$ 40.750,88, o autor Ira Gore, depois de
dirigir o veículo por aproximadamente nove meses, levou-o para um polimento.
Descobriu, então, que o carro havia sido repintado. Convencido de que fora enganado,
Gore ajuizou uma ação em face da BMW of North America [...] alegando fraude. A
ré, durante o julgamento, admitiu que havia adotado, em 1983, uma política nacional
acerca de automóveis novos danificados durante a fabricação ou o transporte: se o
custo do reparo excedesse 3% do preço sugerido de venda, o carro era vendido como
usado; se, todavia, o reparo não excedesse esses 3%, o carro era vendido como novo,
sem advertir o revendedor que algum reparo fora feito. Sustentando que o custo de
repintura do veículo do autor encontrava-se em torno de 1,5% do preço sugerido de
venda, a ré entendeu que não estava obrigada a revelar ao revendedor o reparo que
havia sido realizado. [...] Ao final, o júri condenou a ré ao pagamento de compensatory
damages de US$ 4,000 e punitive damages de US$ 4 milhões, por considerar que a
política de não-revelação de danos nos veículos configurou conduta maliciosa ou
fraudulenta. A Suprema Corte do Alabama, entendendo que o júri, no cálculo dos
punitive damages, computara impropriamente fatos semelhantes ocorridos em outra
jurisdição, reduziu o montante indenizatório para US$ 2 milhões.

Apesar da Suprema Corte do Alabama ter reduzido o montante indenizatório conde-


nado à BMW em quase cinquenta por cento, esta resolveu ainda recorrer à Suprema Corte dos
Estados Unidos, objetivando uma redução maior ainda. Acabou sendo bem-sucedida, pois, de 2
milhões de dólares, a indenização foi reduzida para cinquenta mil dólares.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

20  Um caso famoso envolveu a rede de fastfood Mc Donald’s e uma senhora idosa. Afirma Andrade (2006, p. 228) que “em fevereiro de
1992, em Albuquerque, no Estado do Novo México, Stella Lieback ocupava o banco de passageiro do automóvel conduzido por seu neto
e segurava um copo de café quente que havia acabado de comprar em uma lanchonete McDonald’s pelo sistema drive-thru. Após ter
recebido o café, o neto da Sra. Lieback movimentou o veículo para a frente e o estacionou. Em seguida, ela colocou o copo descartável
de polietireno entre suas pernas e tentou remover a tampa de plástico para adicionar creme e açúcar. O café, então derramou em seu
colo. [...] O café derramado foi imediatamente absorvido pelo tecido da calça que a Sra. Lieback vestia, queimando-a severamente. Um
especialista em cirurgia vascular constatou que ela sofreu queimaduras de terceiro grau em mais de seis por cento do corpo, incluindo
a parte interna da coxa, o períneo, as nádegas e a região genital. Ficou hospitalizada por oito, durante os quais teve de se submeter a
debridamento na área atingida e a enxertos de pele. Depois, permaneceu sob cuidados em casa por cerca de três semanas. Ao final
desse período, havia perdido aproximadamente vinte por cento do seu peso corporal. Em consequência das queimaduras e da cirurgia
subsequentes, ficou com cicatrizes permanentes em mais de dezesseis por cento do seu corpo. [...] De acordo com as provas produzidas,
o McDonald’s servia o seu café a uma temperatura que variava de 180 a 190 graus fahrenheit (cerca de 82 a 87 graus centígrados), en-
quanto os outros estabelecimentos similares serviam café a uma temperatura média que variava de 135 a 140 graus fahrenheit (cerca de
57 a 60 graus centígrados). [...] O júri condenou a empresa a pagar à autora US$ 2,7 milhões ao McDonald’s no período de dois dias. [..] O
juiz, considerando excessivos os punitive damages fixados pelo júri, reduziu-os para US$ 480.000,00, valor somado aos compensatory
damages e iguais a três vezes estes.”

46
Com este caso, criou-se o precedente para orientação da condenação indenizatória,
que deverá obedecer aos seguintes critérios: a) o grau de reprovabilidade da conduta do réu; b)
a proporção entre o dano efetivo ou potencial e a indenização punitiva; c) a diferença entre a
indenização e penalidades civis e criminais previstas em casos similares. Com tais parâmetros
fixados, aumentou-se a segurança jurídica na aplicação da indenização punitiva, preservando-
-se o seu caráter de prevenção21.

5 ANÁLISE CRÍTICA DA APLICAÇÃO DA INDENIZAÇÃO PUNITIVA E DA


INDENIZAÇÃO COMPENSATÓRIA DO BRASIL

Para Bodin de Morais (2003, p. 303), a valoração do dano moral só pode ser feita com
base no princípio da dignidade da pessoa humana como critério de sua proteção, sendo prove-
nientes da violação do dever de respeito aos indivíduos. A indenização deve ser eminentemente
reparatória, pautando-se no critério do Código Civil, que versa sobre a extensão do dano.
Por outro lado entende, para que se reconheça o caráter punitivo da reparação do dano
moral, devem ser levados em conta o grau da culpa e, do outro, o nível econômico do ofensor,
sendo uma punição não pelo o que se fez, mas por quem o praticou (MORAIS, 2003, p. 259).
Ainda de acordo com a doutrinadora, a aplicação da indenização punitiva ocorre exclusivamen-
te através do arbítrio do juiz, violando o princípio da legalidade penal. Explica que (MORAIS,
2003, p. 261):

De nada adianta clamar por moderação e equilíbrio na fixação do quantum indenizatório


quando o sistema que se veio delineando aceita a coexistência de duas regras,
antagônicas por princípio, no âmbito da reparação dos danos morais: a punição, de
um lado, e o arbítrio do juiz, de outro. Nesses casos, em geral a função punitiva “corre
solta”, não tendo qualquer significação no que tange a um suposto caráter pedagógico
ou preventivo. Por outro lado, representa, não há como negar, um forte incentivo à
malícia, além de gerar a mercantilização das relações existenciais.

Bodin de Morais (2003, p. 263), reconhece que, entretanto, excepcionalmente, pode-se


aplicar uma figura semelhante ao dano punitivo, para que se faça de exemplo alguma lesão à
sociedade, por meio de uma conduta ultrajante ou insultuosa, em relação à consciência coletiva,
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

mas, para isso, entende que será necessária a manifestação do legislador. Também reconhece
a utilidade dos danos punitivos na reparação de situações potencialmente lesivas a um grande
número de pessoas.

21  A título de informação, é importante falar do movimento de reforma do direito de indenizações, conhecido por tort reform, que tem
ganhado projeção nos Estados Unidos. a ATRA (American Tort Reform Association), entidade representada por associações de classe
e grandes corporações, tem apresentado argumentos que contestam a aplicabilidade do instituto dos danos punitivos, que podem ser
resumidos da seguinte maneira: a) a tarefa de punir o ofensor compete ao Direito Penal, não ao Direito Civil, este servindo apenas para
compensar o dano da vítima; b) as indenizações decorrentes dos danos punitivos vão para a vítima, causando-lhe um ganho inesperado;
c) a finalidade dissuatória nem sempre é alcançada, porque muitas das indenizações são suportadas não pelos agressores, mas por suas
empresas seguradoras. (ANDRADE, 2006, p. 208).

47
Corroborando a opinião de Bodin de Morais, Andrade (2006, p. 312) entende que a
indenização punitiva tem a sua utilidade social, pois:

[...] há situações nas quais os direitos da personalidade não têm como ser efetivamente
protegidos se não através da imposição de uma soma em dinheiro que constitua fator
de coerção sobre o causador do dano e terceiros. Assim [...] na ponderação entre o
princípio substancial do art. 1º, inciso III, da Constituição Federal, que consagra a
dignidade da pessoa humana como fundamento da República e o princípio consagrado
no art. 5º, inciso XXXIX, que estabelece a garantia instrumental de que não deve haver
pena sem prévia cominação legal, a balança pesaria francamente a favor do primeiro.

Invocando Alexy, afirma Andrade (2006, p. 313) que a relação entre os princípios da
dignidade humana e anterioridade da pena existe uma “relação de precedência condicionada”,
na qual o princípio da anterioridade apenas existe em decorrência da dignidade. Tem-se, de um
lado, o interesse em não surpreender o lesante com a imposição de uma pena pecuniária não
prevista em lei e, do outro, o interesse de prevenir comportamentos lesivos à dignidade humana.
Entende Andrade (2006, p. 313) que a indenização punitiva atenderia a um interesse sensivel-
mente mais relevante.
Bernardo (2005, p. 177-178) sugere que os danos punitivos possam ser aplicados no
Brasil, desde que mediante: a) uma fixação legislativa das hipóteses de utilização do instituto;
b) parâmetros legais versando sobre os limites de atuação do juiz; c) obrigatoriedade da senten-
ça destacar a verba a título de danos punitivos; d) parte da verba paga em danos punitivos ser
revertida para algum fundo a ser criado por lei.
Retomando-se o objeto principal desta pesquisa, que é a discriminação por orientação
sexual, a indenização compensatória é mais adequada em situações menos gravosas, como uma
ofensa feita por um desconhecido, num ambiente reservado e com poucas pessoas presenciando
o fato. Como se verá adiante, tal situação viola a dignidade humana sob o âmbito da honra sub-
jetiva, que poderá ser reparada mediante o pagamento de uma módica indenização.
Por outro lado, a indenização punitiva ganha destaque em situações mais sérias, a
exemplo de uma humilhação pública e/ou contínua motivada por discriminação por orientação
sexual, ou ainda em casos de violência e agressões físicas. Pela repercussão e importância social
destes fatos, torna-se imperiosa a aplicação de uma indenização mais robusta, pois seu caráter
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

exemplar tem como condão o de desestimular outros membros da sociedade a incidirem no


mesmo tipo de prática.
Propugna-se, também, que os Juízes, ao aplicarem indenizações por danos morais,
especifiquem nas suas sentenças a natureza de cada parcela indenizatória. Assim, a fixação em
separado de valores pagos a título de indenização punitiva e compensatória possibilitam um
melhor controle do judiciário sobre tais situações, inclusive para fins de revisão dos valores na
segunda instância ou perante o Superior Tribunal de Justiça. Sobre tal assunto, o colendo Tribu-

48
nal já decidiu: “22Em âmbito de recurso especial, é consenso nesta Corte - e principalmente na
3ª Turma - que só se pode alterar o valor originariamente fixado por dano moral, se o quantum
arbitrado for realmente exorbitante ou, ao contrário, tão insignificante que, em si, seja atentató-
rio à dignidade do ofendido” (Agravo Regimental sobre o Recurso Especial n.º 653.861).

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O instituto da responsabilidade civil por dano moral insere-se no contexto da proteção


à dignidade humana, em especial nos casos de discriminação em decorrência de orientação
sexual.
Verificou-se que, enquanto na doutrina tradicional o dano moral esteve vinculado a um
sofrimento, contemporaneamente a pretensão lesiva a direitos da personalidade ou à cláusula
geral de proteção à pessoa humana já são suficientes para a aplicação de indenização para a
vítima.
Demonstrou-se que o dano moral apresenta duas maneiras genéricas de reparação: a
compensatória e a punitiva. A reparação por via compensatória ainda se encontra enraizada na
acepção do dano moral enquanto consequência de um sofrimento, de modo a ser utilizada para
reparar tal estado anímico-psicológico.
Os danos punitivos, por outro lado, objetivam não apenas a reparação de danos, mas a
exemplificação, perante a sociedade, de que ataques à dignidade humana não são tolerados pela
ordem jurídica.
Embora seja controverso o entendimento que esta modalidade seja aplicável no Brasil,
a doutrina compreende que pode ser útil para casos em que existam situações severas de viola-
ção à dignidade humana, dada a importância da exemplificação perante a sociedade.

REFERÊNCIAS

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damages na experiência do common law e na perspectiva do Direito brasileiro. Rio de Janeiro:
Forense, 2006.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

BERNARDO, Wesley de Oliveira Louzada. Dano moral: critérios de fixação de valor. Rio de
Janeiro: Renovar, 2005.

BRASIL. Constituição. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF:


Senado, 1988.

22  STJ. AGRAVO REGIMENTAL SOBRE RECURSO ESPECIAL 653.861. 3ª Turma. Rel. Min. Castro Filho. 21.03.2006. DJU
10.04.2006.

49
CAVALIERI, Sérgio. Programa de responsabilidade civil. São Paulo: Malheiros Editores,
2006.

DAVID, René. Os grandes sistemas do Direito contemporâneo. São Paulo: Martins Fontes,
1998.

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Saraiva, 2003.

________. Danos à pessoa humana: uma leitura civil-constitucional dos danos morais. Rio
de Janeiro: Renovar, 2003.

PAMPLONA FILHO, Rodolfo. O dano moral na relação de emprego. São Paulo: LTr, 1999.

PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. São Paulo: Forense, 2004.

PEREIRA, Jane Reis Gonçalves. Apontamentos sobre a aplicação das normas de direito
fundamental nas relações jurídicas entre particulares. In: BARROSO, Luís Roberto (Org.). A
nova interpretação constitucional. Rio de Janeiro: Renovar, 2003, pp.119-192.

PERLINGIERI, Pietro. Perfis de direito civil: introdução ao direito civil-constitucional. Rio


de Janeiro: Renovar, 2002.

CIVIL LIABILITY TO MORAL DAMAGES THROUGH THE CONTEMPORARY


BRAZILIAN LAW

ABSTRACT
From the interlocution between the Constitution and the Civil law, the
philosophical value of human dignity and its legal recognition as a prin-
ciple were examined, as its applicability in the thought after-positivism.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

Aiming for its maximum effectiveness, the dignity was seen alongside
with the personality’s and constitutional rights, as their normative re-
sult, searching for the immediately regulation for application of equality
to the legal relationships between individuals. Once these limits were
recognized, the institute of civil liability for moral damages was care-
fully studied, by means of the survey of its assumptions and the diverse
currents that regulate its application.
Keywords: Moral damages. Civil liability. Dignity.

50
A CONVENÇÃO DE ISTAMBUL E A “VIOLÊNCIA DE GÊNERO”: BREVES
APONTAMENTOS À LUZ DO ORDENAMENTO JURÍDICO-PENAL PORTUGUÊS

Margarida Maria Oliveira Santos1

RESUMO
O presente texto analisa o âmbito de aplicação da Convenção do Conse-
lho da Europa para a Prevenção e o Combate à Violência Contra as Mu-
lheres e a Violência Doméstica, de 11 de Maio de 2011, conhecida por
Convenção de Istambul, que foi ratificada por Portugal a 21 de janeiro
de 2013 e que entrou em vigor a 1 de agosto de 2014, acentuando a sua
importância para a proteção da vítima, em especial da vítima mulher,
no contexto internacional. De uma forma perfunctória, dá-se conta, ain-
da, das implicações em sede de direito penal substantivo, refletindo em
torno da inexistência da perspetiva de gênero no ordenamento jurídico-
-penal português.
Palavras-chave: Convenção de Istambul. “Violência de gênero”. Prote-
ção da vítima mulher.Ordenamento jurídico-penal português. FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

1 INTRODUÇÃO

A 11 de maio de 2011 foi aprovada a Convenção do Conselho da Europa para a Preven-


ção e o Combate à Violência Contra as Mulheres e a Violência Doméstica, designada por Con-
venção de Istambul, tendo sido ratificada por Portugal pelo Decreto do Presidente da República
n.º 13/2013, de 21 de Janeiro, e entrado em vigor a 1 de agosto de 2014.

1  Investigadora na Universidade do Minho desde 2013; mestre em Direito na Universidade do Minho e Professora assistente na Univer-
sidade do Minho desde 2009.

51
Apesar da existência de vários instrumentos jurídicos (como, de resto, vem sintetizado
no próprio preâmbulo da Convenção de Istambul)2, ressalta-se a importância desta Convenção
na prevenção/combate da violência contra as mulheres e proteção destas, constituindo este o
primeiro instrumento vinculativo nesta matéria na Europa. Com efeito, este documento interna-
cional, adotando uma perspetiva holística e multidisciplinar, alcança diferentes planos, quer ao
nível da proteção e assistência das vítimas, quer ao nível da prevenção e repressão da violência3.
Neste contexto a Convenção abrange, desde logo, as “Políticas integradas e recolha de dados”
(Capítulo II: artigos 7.º a 11.º); a “Prevenção” (Capítulo III: artigos 12.º a 17.º); a “Proteção e
apoio” (Capítulo IV: artigos 18.º a 28.º); o“Direito material” (Capítulo V: artigos 29.º a 48.º); a
“Investigação, ação penal, direito processual e medidas de proteção” (Capítulo VI – artigos
49.º a 58.º); a “Migração e asilo” (Capítulo VII – artigos 59.º a 61.º), além dos Capítulos VIII a
XII, que se referem, respetivamente, à “Cooperação internacional”, ao “Mecanismo de moni-
torização”, à “Relação com outros instrumentos internacionais”, às “Emendas à Convenção” e
“Disposições finais”.

2 O ÂMBITO DE APLICAÇÃO DA CONVENÇÃO DE ISTAMBUL

Como se acentua no Preâmbulo da Convenção de Istambul, as:

(...) mulheres e raparigas estão muitas vezes expostas a formas graves de violência,
tais como a violência doméstica, o assédio sexual, a violação, o casamento forçado, os
chamados ‘crimes de honra’ e a mutilação genital, os quais constituem uma violação
grave dos direitos humanos das mulheres e das raparigas e um obstáculo importante
à realização da igualdade entre mulheres homens e homens”.

Salienta-se igualmente que “(...) a realização de jure e de facto da igualdade entre mu-
lheres e homens é um elemento-chave na prevenção da violência contra as mulheres”.
Ressalta-se aí que “(...) a violência contra as mulheres é uma manifestação das relações
de poder historicamente desiguais entre mulheres e homens que conduziram à dominação e
discriminação contra as mulheres pelos homens, o que as impediu de progredirem plenamente”.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

2  Cf. Convenção para a Proteção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais (STE n.º 5, 1950) e respetivos Protocolos, a
Carta Social Europeia (STE n.º 35, 1961, revista em 1996, STE n.º 163), a Convenção do Conselho da Europa Relativa à Luta contra o
Tráfico de Seres Humanos (STE n.º 197, 2005) e a Convenção do Conselho da Europa Relativa à Proteção das Crianças contra a Explo-
ração Sexual e o Abuso Sexual (STE n.º 201, 2007); Recomendação Rec(2002)5 sobre a proteção das mulheres contra a violência, a Re-
comendação CM/Rec(2007)17 sobre normas e mecanismos para a igualdade de género, a Recomendação CM/Rec(2010)10 sobre o papel
das mulheres e dos homens na prevenção e resolução de conflitos e na construção da paz, e outras recomendações pertinentes; o Pacto
Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (1966), o Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais (1966),
a Convenção das Nações Unidas sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW, 1979) e o seu
Protocolo Opcional (1999), bem como a Recomendação Geral n.º 19 do Comité CEDAW sobre a violência contra as mulheres, a Con-
venção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança (1989) e respetivos Protocolos Facultativos (2000) e a Convenção das Nações
Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006); o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (2002); a Convenção
(IV) de Genebra Relativa à Proteção de Pessoas Civis em Tempo de Guerra (1949) e respetivos Protocolos Adicionais I e II (1977).
3  Ver artigo 1.º da Convenção (“Finalidade da Convenção”), onde, designadamente, no n.º 1, alínea c), se aponta para a construção o de
um quadro normativo global para a prevenção e proteção às vítimas de violência contra as mulheres. Esta abordagem holística afigura-se
essencial, no contexto de uma “estratégia eficaz e não numa ótica de remédios pontuais” – assim, ver o Parecer da APAV (2014), p. 5.

52
Neste contexto, o âmbito de aplicação da Convenção abrange todas as formas de vio-
lência contra asmulheres, incluindo a violência doméstica (artigo 2.º da Convenção). No âmbito
do artigo 3.º da Convenção definem-se os conceitos de “violência contra as mulheres”; “vio-
lência doméstica”; “Gênero”; “Violência de gênero exercida contra as mulheres”; “Vítima” e
“Mulheres”.
Desde logo, a“violência contra as mulheres” é entendida como:

uma violação dos direitos humanos e (...) [como] uma forma de discriminação contra as
mulheres, abrangendo todos os atos de violência que resultem, ou possam resultar, em
danos ou sofrimentos físicos, sexuais, psicológicos ou económicos para as mulheres,
incluindo a ameaça de tais atos, acoação ou a privação arbitrária da liberdade, tanto
na vida pública como na vida privada (artigo 3.º da Convenção).

Sendo que a “violência doméstica” inclui “todos os atos de violência física, sexual,
psicológica ou económica que ocorrem na família ou na unidade doméstica, ou entre cônjuges
ou ex-cônjuges, ou entre companheiros ou ex-companheiros, quer o agressor coabite ou tenha
coabitado, ou não, com a vítima”; o “Gênero” atende “ aos papéis, aos comportamentos, às
atividades e aos atributos socialmente construídos que uma determinada sociedade considera
serem adequados para mulheres e homens”; a“violência de gênero exercida contra as mulheres”
designa “toda a violência dirigida contra a mulher por ser mulher ou que afeta desproporcional-
mente as mulheres”.
Ou seja, podemos encarar que a “a prioridade” é a eliminação da violência contra a
mulher, estando o conceito de violência de gênero numa “posição instrumental” relativamente
àquela violência (SOUSA, 2016, p. 267). Ainda assim:

“[d]o ponto de vista da vítima, toda a violência contra as mulheres , tal como está
definida na Convenção, é violência de gênero. Mas nem toda a vítima de violência
de gênero é mulher (...). Facto é que na Convenção (...) a violência de gênero[é]
exclusivamente considerada da perspetiva da violência contra as mulheres” (SOUSA,
2016, p. 267).

Especificamente ao nível do direito material (artigos 29.º a 48.º da Convenção), subli-


nhe-se, que a Convenção impõe aos Estados-partes a obrigação de adotar medidas que assegu-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

rem que os atos de violência aqui contemplados sejam tidos em conta nas decisões respeitantes
ao direito de guarda, direito de visita das crianças e sua segurança (artigo 31.º da Convenção);
de criminalização dos atos de violência psicológica, física, sexual, perseguição, de casamento
forçado, de mutilação genital feminina, aborto forçado e esterilização forçada e assédio sexual
(artigos 33.º a 40.º), devendo existir “sanções efetivas, proporcionais e dissuasoras, tendo em
conta a sua gravidade” (art.º 45.º, n.º 1).As partes obrigam-se, ainda, no artigo 48.º da Conven-
ção, a proibir os processos alternativos de resolução de conflitos obrigatórios relativamente aos

53
atos de violência aqui abrangidos4.
Neste sentido, a Convenção apoia-se em vários planos no âmbito da proteção da vítima
mulher contra os atos de violência, incluindo o criminal. Com efeito, embora o âmbito de aplica-
ção da Convenção diga respeito aos atos de violência contra as mulheres (art. 2.º da Convenção),
referindo-se ainda expressamente que “(...) as partes deverão dar particular atenção às mulheres
vítimas de violência de gênero” (n.º2, do artigo 2.º da Convenção), o certo é que a Convenção
não obriga, nesta sede, a elaboração de tipos legais que adotem a perspetiva de gênero.

3 A “VIOLÊNCIA DE GÊNERO” E O ORDENAMENTO JURÍDICO-PENAL


PORTUGUÊS

Foram significativas as alterações introduzidas na legislação portuguesa que tiveram


como desiderato a adequação do ordenamento jurídico português àquela Convenção, embora
nem sempre este leitmotiv seja referido expressamente. Refira-se, contudo, que, ainda assim,
grande parte das obrigações decorrentes da Convenção já estavam consagradas na legislação
portuguesa.
No que diz respeito, especificamente, ao direito penal substantivo, foram publicadas,
desde logo, as Lei n.º 83/2015, de 5 de agosto e 103/2015, de 24 de agosto (esta última não o
refere explicitamente, mas podemos compreendê-la como inserida neste escopo).
Com efeito,a Lei n.º 83/2015 de 5 de Agosto, em cumprimento do disposto na Con-
venção de Istambul, trouxe uma série de alterações ao Código Penal: autonomizou o crime de
mutilação genital feminina, criou os crimes de perseguição e casamento forçado e alterou os
crimes de violação, coação sexual e importunação sexual.
Neste cenário, e analisando as novas incriminações típicas e as alterações normativas
em sede de direito penal substantivo, numa visão de conjunto, assiste-se a um fortalecimento
da tutela jurídico-penal. Efetivamente, “(...) as novas incriminações típicas têm um significado e
um simbolismo claramente assumido na direção da proteção da vítima, em especial, da mulher”
(MONTE, 2016, p. 283), “(...) como sujeito igual, por um lado, mas necessitado de um olhar di-
ferente, por outro lado, a merecer uma maior discriminação positiva, no sentido da sua efetiva
proteção jurídico-penal” (MONTE, 2016, p. 284).
Concordando com Monte (2016, p. 277-278) “(...) nunca se tinha ido tão longe como se
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

foi em 2011. (...) Mas mais: (...) nunca como agora a vítima foi encarada como um desafio jurí-
dico-penal”. Este modo de intervir jurídico-penal, baseado, como nos diz o autor, num “outro

4  Efetivamente, o recurso a estes mecanismos não deve ter natureza obrigatória, devendo o acesso às práticas
de justiça restaurativa. As condições para recurso às práticas de Justiça Restaurativa deverão obedecer aos
critérios estabelecidos no artigo 12º da Diretiva 2012/29/UE do Parlamento Europeu e do Conselho de 25 de
outubro de 2012 que estabelece normas mínimas relativas aos direitos, ao apoio e à proteção das vítimas da cri-
minalidade e que substitui a Decisão-Quadro 2001/220/JAI do Conselho. A participação voluntária da vítima
deve ser conditio sine qua non, devendo o consentimento ser prestado de forma livre e informada e passível de
ser retirado em qualquer momento do processo – neste sentido, ver o Parecer da APAV, 2015, p. 5.

54
modo de olhar o problema criminal”, rompe com a tradição que “assenta sobretudo numa certa
perenidade dogmática que é resistente a intervenções ideológicas” (MONTE, 2016, p. 285-286).
Assim, vislumbra-se uma alteração de paradigma, que, como salienta Monte (2016, p.
277-278), “embora começando por um certo tipo de criminalidade (...) significa, para além de
outras implicações, a assunção de que a vítima nem sempre tem sido devidamente protegida
pelo direito penal. Nisto consiste o resgate jurídico-penal da vítima, em particular da mulher”.
Não obstante, refira-se que no arsenal jurídico-penal português não consta, efetiva-
mente, como noutros ordenamentos jurídicos5, a perspetiva de gênero, protegendo-se tanto o
homem como a mulher6.
Neste sentido, apesar da utilização em diferentes contextos da expressão “violência de
gênero”7, em termos internacionais8 e nacionais9, da mesma não resultam tout court (simples-
mente), repercussões penais (GRANGEIA; SANTOS, 2017) , na medida em que na legislação
penal portuguesa não há expressa consagração da perspetiva de gênero10. Desde logo, não se
opta por uma concessão de gênero na formulação do tipo legal de crime, assumindo-se, ao in-
vés, uma concessão neutra face ao gênero.
Assim, apesar de ser evidente, quer no cenário internacional, quer nacional, que as
mulheres são as principais vítimas de determinados crimes, pode a vítima ser igualmente um
homem na legislação portuguesa.
Ainda assim, na vertente político-criminal, refira-se que o legislador tem dado des-
taque à violência de gênero, alertando a comunidade para a gravidade da violência contra as

5  Neste contexto, tem-se sobretudo verificado nos ordenamentos jurídicos política e socialmente semelhantes ao português duas grandes
linhas político-criminais: quer uma comprometida com o sexo da vítima, quer outra gender-neutral (AGRA et al., 2015, p. 20). Apenas a
título de exemplo, o ordenamento jurídico espanhol optou, nomeadamente, por, em cada tipo legal - para os delitos de lesiones (artículo
36), malos tratos (artículo 37), amenazas (artículo 38), coacciones (artículo 39) e vejaciones leves (artículo 41) - prever uma qualificação
quando o crime for cometido contra mulher em contexto de violência relacional; do mesmo modo que existem regras específicas para
a substituição da pena de prisão (artículo 35) e para o incumprimento da “condena, medida de seguridad, prisión, medida cautelar,
conducción o custodia” (artículo 40); entre outras especificidades, refira-se, ainda, a criação de tribunais de competência especializada,
designados por Juzgados de Violencia sobre la Mujer (artículo 43 e ss.) - ver a Ley Orgánica n.º 1/2004, de 28 de dezembro – “Medidas de
Protección Integral contra la Violencia de Género”. Para uma perspetiva do ordenamento jurídico-penal espanhol, retratanto a limitada
intervenção penal relacionada com a “violência de género”, Cuesta Aguado, 2013, p. 57 e ss. O regime espanhol tem sido alvo de críticas.
Para uma análise desta problemática, ver, entre outros, Rodríguez Álvarez et al, 2013.
6  Na verdade, inexiste no Código Penal português a expressão “violência de género”, apenas constando a expressão “identidade de gé-
nero da vítima” em duas disposições: na al. f), do n.º 2, do art.º 132.º (Homicídio qualificado) e nas als. a), b) e c), do n.º 2 do art.º 240.º
(Discriminação racial, religiosa ou sexual).
7  Acentue-se, na senda de Álvarez García (2013, p. 90), que a violência de gênero é uma “figura criminológica más que delictiva”.
8  Para uma descrição de alguns dos principais instrumentos ao nível internacional e europeu, v. Torrado Tarrío, 2013, p. 68 e 69.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

9  Veja-se, apenas a título de exemplo, o II Plano Nacional de Ação para a Implementação da Resolução do Conselho de Segurança das Na-
ções Unidas 1325 (2000) sobre Mulheres, Paz e Segurança (2014-2018) - Resolução do Conselho de Ministros n.º 50/2014: “A elaboração
de planos nacionais de ação é, por isso, uma obrigação dos Estados, independentemente da sua situação interna, pois visam assegurar
que a dimensão de género seja integrada nas atividades diplomáticas, militares, de segurança, da justiça e de desenvolvimento, quer
ao nível interno quer ao nível internacional. As exigências centrais da RCSNU 1325 são a plena participação das mulheres em todos os
níveis de tomada de decisões relativas à paz e segurança, a proteção de mulheres, raparigas e meninas contra a violência de género, e a
integração da perspetiva de género em todas as estratégias de implementação e construção da paz e nas ações realizadas pelas Nações
Unidas e pelos Estados -membros. (...) Importa, pois, que a integração da perspetiva de género seja tida em conta nas ações de coope-
ração internacional. Deve, por isso, ser favorecida e reforçada a formação sobre direitos humanos, direito internacional humanitário,
igualdade de género e violência contra as mulheres, raparigas e meninas, incluindo violência sexual e violência de género. Deve ainda
ser ministrada formação sobre as matérias que constam nas Resoluções do CSNU sobre mulheres, paz e segurança ao pessoal das for-
ças armadas e de segurança e aos civis destacados para missões de manutenção e construção da paz e segurança internacionais e para
cenários de emergência e gestão de crises”.
10  Efetivamente, inexiste no Código penal português a expressão “violência de género”, apenas constando a expressão “identidade de gé-
nero da vítima” em duas disposições: na al. f), do n.º 2, do art.º 132.º (Homicídio qualificado) e nas als. a), b) e c), do n.º 2 do art.º 240.º
(Discriminação racial, religiosa ou sexual).

55
mulheres. Assim, por exemplo, como se refere no V Plano Nacional de Prevenção e Combate à
Violência Doméstica e de Gênero 2014 -2017 (V PNPCVDG)11.
Ora, cumpre, por isso, indagar, ainda que de forma breve, se o direito penal deveria
adotar a perspetiva de gênero, tendo por base a premissa, desde logo, de que o estudo da cons-
trução jurídica das relações de Gênero, é ainda uma forma de promover a igualdade (Beleza,
2004), permitindo compreender a necessidade de ponderação quer a elaboração das decisões
jurisprudenciais como criação jurídica no caso concreto, como as restantes práticas dos contro-
los formais que circundam essa aplicação da lei (Beleza, 2004).
Ora, como sintetizam Agra e outros (2015, p. 21), a opção entre a expressão “violência
de gênero” e por exemplo a utilizada na nossa legislação assume-se, muitas das vezes, como
“uma questão mais ideológico-simbólica que político-criminalmente orientada em termos te-
leológicos”.
É certo que poderemos, em abstrato, apontar vantagens e desvantagens para a adoção
de uma concessão de gênero na formulação do arquétipo legal.
Como bem salienta Sousa (2016, p. 265), podemos acentuar, desconsiderando as des-
vantagens da categorização, que “(...) a relevância do conceito de Gênero se prende com a pos-
sibilidade de remeter para o quadro da violência originada na estrutura patriarcal, formas de
violência que de outro modo não lhe seriam reconduzíveis”. Ou seja, como induz a autora (p.
265-266), “[a] perspetiva de gênero faz, então, esta distinção entre a biologia e os papeis social-
mente adjudicados à mulher e ao homem, reconhecendo a posição de desvantagem das mulhe-
res em todas as sociedades”.
Ainda assim, alerta a autora (p. 268) que “(...) a dificuldade não deixará de estar em
classificar, com objetividade, num dado caso concreto, se a situação é de violência de Gênero
ou de violência contra as mulheres, ou se o não é”, havendo situações onde a fronteira se revela
difícil de alcançar. Além disso, devemos igualmente ter presente que a violência de gênero pode
ser exercida por mulheres e contra mulheres, sobretudo “(...) como meio de eliminar a competi-
ção e assegurar a afirmação pessoal e mesmo a própria sobrevivência em entornos sociais que
são determinados e dominados pelos homens” (SOUSA, 2016, p. 271).
Na verdade, no âmbito da violência contra as mulheres, e muito especificamente no
conceito de “violência doméstica”, inexiste uma rigorosa conceitualização, cruzando-se, por
vezes, “(...) noções infiltradas por ideologias, atitudes morais, mediatismo, movimentos…”, pelo
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

que “[a]s formas de problematização ainda estão longe da exigência crítica, ponto de partida
para uma sistemática e metódica conceitualização e teorização próprias do pensamento cientí-
fico” (AGRA e outros, 2015, p. 22).
A este propósito Agra e outros (2015, p. 21) alertam que “(...) a designação de gender

11  Publicado no Diário da República, 1.ª Série – n.º 253, de 31 de dezembro de 2013, onde se lê, por exemplo que: “O V PNPCVDG as-
senta precisamente nos pressupostos da Convenção de Istambul, alargando o seu âmbito de aplicação, até aqui circunscrito à violência
doméstica, a outros tipos de violência de género. Esta mudança de paradigma faz com que o V PNPCVDG abranja outras formas de
violência de género, como a mutilação genital feminina e as agressões sexuais”.

56
violence (...) deixa vários factos da realidade social que mereceriam tutela jurídico-criminal sem
ela, não sendo exato que se vislumbre um fundamento para tal distinção”.
Ademais, refira-se que a opção pelo gênero pode assumir desvantagens na própria
proteção da mulher, na medida em que, dependendo da técnica legislativa utilizada, o preen-
chimento do objetivo e subjetivo pressupõe, como referem Agra e outros (2015, p. 21, 22) “(...)
a prova de que o ato ou omissão se devem a um desejo de repulsa, de diminuição, de rejeição
da figura feminina, da sua condição e de todo o universo que, de acordo com as convenções
sociais, se associa a uma mulher”. Ou seja, como apreendem os autores (p. 22):

“(...) não será difícil perceber que tal torna não somente o tipo objetivo, mas sobretudo
o subjetivo (dolo-do-tipo), de mais difícil preenchimento, o que acaba por redundar,
na prática, numa contradição nos termos: um Tatbestand apostado numa proteção
penal qualificada (em muitos casos) da situação prototípica de um arguido homem e
de uma ofendida mulher, pode, amiúde, não se cumprir em virtude de tais exigências
acrescidas”.

Propugnando que “[o] mesmo não sucede já se a abordagem for neutral do prisma do
chamado ‘objeto de ação’ do delito”.
No entanto, podemos adiantar, concordando com Monte (2016, p. 283), a propósito das
alterações introduzidas no art.º 154.º (coação), que apesar do tipo proteger tanto o homem como
a mulher, atendendo ao fato de as vítimas serem sobretudo mulheres, “(...) pode dizer-se que é a
vítima-mulher que, maioritariamente, está na mira desta proteção”.
Neste sentido, cremos que uma (eventual) introdução da perspetiva de gênero no direito
penal português teria de assentar numa profunda reflexão criminológica em torno das causas que
lhe estão subjacente e dos fatos da realidade social que merecem esta tutela jurídico-penal acres-
cida, de forma a compreender as implicações em sede de política criminal e dogmática penal12.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Convenção de Istambul constitui um instrumento relevante na prevenção/combate da


violência contra as mulheres e proteção destas. Este instrumento normativo convoca um novo
olhar jurídico-penal em torno da vítima mulher, apelando a fundamentos de jaez político-crimi-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

nal assentes na proteção da vítima mulher contra os atos de violência abrangidos na Convenção.
A Convenção promove uma visão holísta e interdisciplinar, vertida em vários planos
no âmbito da proteção da vítima mulher contra os atos de violência, incluindo o criminal.
Não obstante, não obriga os Estados-partes à elaboração de tipos legais que adotem a pers-

12  Alertando para este problema na legislação espanhola, ver Rodríguez Álvarez et al., 2013, p. 791 e seg. Acentuando as problemáticas
(probatórias) em torno do preenchimento do tipo – objetivo e subjetivo – no âmbito das formulações legais que atendem à conceção do
género, relacionados com “…a prova de que o ato ou omissão se devem a um desejo de repulsa, de diminuição, de rejeição da figura
feminina, da sua condição e de todo o universo que, de acordo com as convenções sociais, se associa a uma mulher” – ver Âgra, 2015,
p. 21 e 22.

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petiva de gênero.
Assim, apesar de ser evidente, quer no cenário internacional, quer nacional, que as
mulheres são as principais vítimas de determinados comportamentos abrangidos pela Conven-
ção, pode, no contexto português, a vítima ser igualmente um homem. Não obstante, refira-se
que no arsenal jurídico-penal português não consta, efetivamente, como noutros ordenamentos
jurídicos, a perspetiva de gênero, protegendo-se tanto o homem como a mulher.
Neste sentido, da expressão “violência de gênero” não resultam tout court (simples-
mente), repercussões penais, na medida em que na legislação penal portuguesa não há expressa
consagração da perspetiva de gênero. Desde logo, não se opta por uma concessão de gênero na
formulação do tipo legal de crime, assumindo-se, ao invés, uma conceção neutra face ao gênero.
É certo que poderemos, em abstrato, apontar vantagens e desvantagens para a adoção
de uma concssão de gênero na formulação do arquétipo legal.
Neste sentido, cremos que uma (eventual) introdução da perspetiva de gênero no direito
penal português teria de assentar numa profunda reflexão criminológica em torno das causas que
lhe estão subjacente e dos factos da realidade social que merecem esta tutela jurídico-penal acres-
cida, de forma a compreender as implicações em sede de política criminal e dogmática penal.

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THE ISTANBUL CONVENTION AND “GENDER VIOLENCE”: BRIEF NOTES IN


THE LIGHT OF THE PORTUGUESE LEGAL-CRIMINAL ORDER
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

ABSTRACT
This text analyzes the scope of the Council of Europe Convention on
Prevention and Control of Violence against Women and Domestic Vio-
lence of 11th May, 2011, known as the Istanbul Convention, which was
ratified by Portugalon January 21th, 2013 and which came into force
on August 1st, 2014, emphasizing its importance for the protection of
the victim, especially the female victim, in the international context. In
a perfunctory way, it also takes into account the implications of sub-

59
stantive criminal law, reflecting the lack of a gender perspective in the
Portuguese legal system.
Keywords: Istanbul Convention. “Gender violence”. Protection of the
victim woman. Portuguese legal system.

FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

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DE HOBBES A PUFENDORF – A CONSTRUÇÃO DOS CARACTERES DO
CONCEITO JURÍDICO MODERNO DE SOBERANIA

Pedro Fernández Sánchez1

RESUMO
Não obstante a tendência para a relativização do conceito de soberania,
o constitucionalismo continua a não dispensar o recurso ao tradicional
conceito tridimensional que retrata um Poder exercido sobre uma co-
munidade política numa dada circunscrição territorial. Nesse contexto,
se os investigadores associam o conceito jurídico de soberania ao tra-
balho de Bodin e Hobbes, mais difícil tem sido a compreensão do papel
que Samuel Pufendorf, partindo da sua distinção entre entes físicos e
morais, desempenhou nesse processo. Tal papel revelou-se decisivo para
o Estado Moderno; sem ele, a concetualização jurídica da soberania
não teria sido concluída nos termos que hoje conhecemos. Sobretudo,
dele se extraiu uma fórmula que, após adaptações posteriores (Sieyès),
superou o antagonismo entre os conceitos de soberania e de separação
de poderes, fazendo com que, atualmente, a sindicabilidade dos atos do
poder legislativo – poder não soberano e subordinado à Constituição –
conviva com a indisindicabilidade das normas constitucionais, enquan-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

to expressão do poder soberano que se declara insuscetível de controlo


jurídico por autoridades constituídas e não soberanas.
Palavras-chave: Soberania. Constituição. Bodin. Hobbes. Pufendorf.

1  Doutor em Direito e Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Membro da Direção do Instituto de Ciências Ju-
rídico-Políticas. Investigador Principal do Centro de Investigação em Direito Público da mesma Faculdade. Advogado da Sérvulo &
Associados, Sociedade de Advogados.

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1 INTRODUÇÃO

Multiplicam-se os esforços atuais de construção de uma ideia não essencialista de


soberania, a qual, à luz do sentido evolutivo da democracia constitucional, permita a compati-
bilização do exercício eficaz e estável do poder público com o inevitável reconhecimento da su-
perioridade axiológica da dignidade da pessoa humana, sobre a qual assenta hoje a legitimação
dos candidatos ao poder.
Se se enumerarem apenas algumas das tentativas encetadas ainda nas últimas duas
décadas, esses esforços têm levado a que se procure distinguir dentro da soberania ou distinguir
da soberania, consoante os casos, a “autoridade”, a “autonomia” e a “autonomia reconhecida”
(DEUDNEY, 1995, p. 191-198); a “autoridade” e o “controle” (THOMSON, 1995, p. 213); o
“controle” e a própria “soberania” que dele se distinguiria concetualmente (MORGADO, 2012,
p. 161-162); o sentido “político” e jurídico” da soberania2; o sentido da soberania perante o Di-
reito positivo e perante a Teoria do Direito3; ou, enfim, na bem conhecida categorização quadri-
partida de Krasner, a “soberania interna” ou “doméstica”, a “soberania de interdependência”, a
“soberania legal internacional” e a “soberania vestefaliana”4.
Em bom rigor, o propósito que se procura alcançar é o da construção de um conceito
de “soberania num sentido não-absoluto”, de modo a “dissolver o problema normativo de uma
elite despótica” que “já não poderia sobreviver à aplicação dos [novos] limites à soberania”5.
Não obstante essa tendência, as patentes dificuldades que os Estados contemporâneos
enfrentam em face dos fenômenos resultantes da globalização política e econômica e da cons-
trução de mecanismos de constitucionalismo transnacional6 não impedem que, ainda hoje, o
estudo do fenômeno constitucional raramente dispense o recurso ao tradicional conceito jurí-
dico tridimensional de soberania, que retrata (i) um poder exercido (ii) sobre uma determinada
comunidade política (iii) numa dada circunscrição territorial – poder esse que ainda vem sendo
definido “no sentido clássico ou bodiniano do termo”, isto é, sendo imputado a “um Estado que
não reconhece nenhum outro poder que lhe seja superior na ordem interna (soberania interna),

2  Embora concentrado no plano internacional, propondo a superação da dicotomia entre o sentido “político” e o sentido “jurídico” da
soberania, cfr. M artti Koskenniemi, From Apology to Utopia: The Structure of International Legal Argument, 2.ª ed., Cambridge:
Cambridge University Press, 2005, pp. 228 e segs..
3  Michel Troper, Sovereignty, in Michel Rosenfeld / A ndrás Sajó (org.), The Oxford Handbook of Comparative Constitutional Law,
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

Oxford: Oxford University Press, 2012, p. 352.


4  Stephen K rasner, Sovereignty: Organized Hypocrisy, Princeton: Princeton University Press, 1999, pp. 3-4. E, ainda, alternativa-
mente, entre tantos outros, Quentin Skinner, A Geneology of the Modern State, Proceedings of the British Academy, 162 (2009), pp.
325 e segs.; idem, The Sovereign State: A Geneology, in K almo / Skinner (eds.), Sovereignty in Fragments: The Past, Present and
Future of a Contested Concept, Cambridge: Cambridge University Press, 2010, pp. 26 e segs.; Denis Baranger, The Apparition of Sov-
ereignty, ibidem, pp. 47 e segs.; Neil Walker, Late Sovereignty in European Union, in Neil Walker (ed.), Sovereignty in Transition:
Essays in European Law, Portland: Hart Publishing, 2003, p. 6.
5  Cfr. James Tully, Strange Multiplicity: Constitutionalism in an Age of Diversity, Cambridge: Cambridge University Press, 1995, p.
195, definindo a “soberania neste sentido não-absoluto [como significando] a autoridade de povos ou associações de povos culturalmente
diversos para se governarem a si mesmos através das suas próprias leis e escolhas de modo livre de qualquer subordinação externa”.
6  Em especial, v. Dieter Grimm, Souveränität: Herkunft und Zukunft eines Schlüsselbregriffs, Berlin: Berlin University Press,
2009; Petra Dobner / M artin Loughlin (eds.),The Twilight of Constitutionalism?, Oxford: Oxford University Press, 2010; Gunther
Teubner, Constitutional Fragments: Societal Constitutionalism and Globalization, Oxford: Oxford University Press, 2012; M atej
Avbelj / Jan Komárek, Constitutional Pluralism in the European Union and Beyond, Oxford: Hart Publishing, 2012; Rui Medeiros,
A Constituição Portuguesa num Contexto Global, Lisboa: Universidade Católica Editora, 2015.

62
nem na ordem externa (soberania externa)” (OTERO, 2008, p. 121).
Na atual democracia constitucional, que atribui ao poder constituinte o poder máximo
a exercer numa comunidade política que tem a capacidade de autogoverno e de autogestão dos
seus destinos coletivos, o “Estado que se define constitucionalmente como soberano” é o Estado
no qual “a soberania só pode resultar de uma decisão imputada [ao] povo através do exercício
do poder constituinte” (MORAIS, 2015, p. 148). Por isso, sob esta perspectiva tradicional, “sen-
do soberano, o poder constituinte não é passível de ser heterolimitado no plano jurídico, sem
prejuízo de, naturalmente, se poder auto-limitar, pelo que uma Constituição gerada por esse
mesmo poder só experimenta as formas de heterolimitação que tiverem sido ditadas pelo poder
constituinte ou por um poder de revisão constitucional não contrário aos limites de identidade
constitucional fixados por esse poder constituinte” (MORAIS, 2015, p. 148).

2 AS PREMISSAS FIRMADAS POR BODIN E HOBBES

Ora, se não têm sido sentidas dificuldades pelos investigadores em reconstituir a clás-
sica associação do nascimento do conceito jurídico de soberania ao trabalho de Jean Bodine de
Thomas Hobbes (FERNÁNDEZ SÁNCHEZ, 2017, p. 90), mais complexa tem sido a compreen-
são do papel que Samuel Pufendorf desempenhou nesse processo histórico – papel que se re-
velou decisivo para o Estado Moderno e sem o qual a concetualização jurídica da soberania não
teria sido concluída nos termos que servem hoje de alicerce para o labor dos constitucionalistas.
Num plano inicial, é sabido que Bodin e Hobbes partilhavam traumas paralelos como
resultado da situação anárquica que viram os seus países atravessar, ficando firmemente con-
vencidos acerca da necessidade de edificação de uma autoridade robusta para a obtenção de paz
e estabilidade para as suas comunidade políticas7. Se, por isso mesmo, Bodin afirmara desejar
construir um conceito de soberania “à imagem do Deus Todo-Poderoso” (BODIN, 1986, p. 179
e p. 295) – mas fazendo-o ainda de modo teoreticamente impreciso e carecendo de especifica-
ções adicionais –, também Hobbes fez notar que o Leviatã a quem confiava a satisfação das ne-
cessidades políticas era construído como “Deus mortal, a quem todos nós devemos, sob o Deus
imortal, a nossa paz e defesa” (HOBBES, 1839). Mais do que uma simples imagem, a escolha
do ser aterrador descrito no Cap. XLI do Livro de Jó (HOBBES, 1839) – “não há na Terra poder
que se lhe compare”, segundo a tradução literal da versão escolhida por Hobbes para ilustrar a
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

capa da primeira edição do Leviatã – assumia uma correspondência perfeita com os propósitos
do seu Autor8.
Por isso é que Hobbes afirmava que, “em virtude desta autoridade” atribuída ao “Deus
mortal”, a qual incluiria “o direito sobre a vida e sobre a morte, bem como sobre todas as ofen-

7  Para uma apreciação comparativa dos condicionamentos fácticos que rodearam Bodin e Hobbes, Preston K ing, The Ideology of Order
– A Comparative Analysis of Jean Bodin and Thomas Hobbes, 2.ª ed., London: Frank Class, 1999, pp. 47 e segs. e 56 e segs.
8  Sobre a escolha do “Leviathan” bíblico para imagem do soberano hobbesiano e sobre a sua caracterização de acordo com as caracterís-
ticas que lhe são apontadas em Jó, Freitas do A maral, História das Ideias Políticas, I, Coimbra: Almedina, 2010, pp. 356-357.

63
sas corporais” (HOBBES, 1983), “ele dispõe e usa de um tal poder e de uma tal força que lhe
são concedidos que o terror que eles inspiram lhe permite conformar as vontades de todos, para
conseguir a paz no interior e o auxílio contra os inimigos do exterior” (HOBBES, 1839).
Hobbes tampouco deixou por esclarecer o sentido – bem mais preciso do que no caso
de Bodin – que atribuía à natureza “absoluta” da soberania:

Há em cada Cidade perfeita [...] um Poder Supremo atribuído a alguém que é maior do
que o poder que por direito poderia ser conferido pelo homem e maior do que qualquer
mortal pode ter sobre si próprio. A tal poder, maior do que o homem poderia transferir
para outro homem, chamamos de absoluto, pois quem quer que tenha submetido a sua
vontade à vontade da Cidade, permitindo-lhe que, impunemente, possa fazer qualquer
coisa, aprovar leis, julgar controvérsias, definir penas, fazer uso, a seu bel-prazer, da
força e da riqueza dos homens, e tudo isto por direito, verdadeiramente lhe ofereceu
o maior domínio que alguma vez poderia ser concedido a alguém (HOBBES, 1839).

Como o próprio Hobbes explicitamente confessava, não haveria qualquer fenômeno


político conhecido pelo homem e suscetível de ser descrito através de uma abordagem materia-
lista, alheia às imagens construídas durante um milénio pelas escolas europeias, que pudesse
comparar-se ao estatuto ambicioso que o Autor acabava de respigar de Bodin e de aperfeiçoar9.
Daí que nenhum “soberano mortal” pudesse adquirir tal poder se não fosse concebido como
“deus mortal”, à imagem do “Deus imortal” a quem unicamente ficava sujeito10.
Porém, mais do que a juridificação do conceito de soberania que Bodin preparara de
forma ainda embrionária, Hobbes foi sobretudo responsável por propor uma transferência para
uma nova entidade coletiva dos poderes que o autor francês já sugerira que o monarca sobera-
no exerceria sobre uma circunscrição territorial delimitada e sobre a comunidade (povo) a ela
adscrita.
É que, sublinhe-se, se é verdade que Bodin já promovera esse esforço de juridificação
do conceito de soberania com um alcance bem adiantado para a sua época, não conseguira,
porém, evitar a tendência, própria do seu tempo, de cair numa certa patrimonialização da sobe-
rania, confundindo-a com a pessoa privada do soberano. Era esta tendência que Hobbes agora
evitava, conduzindo o tratamento do conceito de soberania ao perfil próprio da modernidade
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

9  Nas palavras de Goyard -Fabre, por esta via “Hobbes soube utilizar de modo soberbo o modelo epistemológico que lhe foi oferecido
pelos Seis Livros da República”, porquanto, “mais filósofo do que Bodin”, e aproveitando a sua paixão pela aplicação da infalibilidade
matemática ao terreno político, radicalizou aquele modelo ao recorrer ao contrato social para dar uma forma “geométrica” à soberania,
vendo no poder soberano “o resultado matemático do acto contratual que fez nascer a Commonwealth” – cfr. La Législation Civile
dans l’État-Leviathan, in M artin Bertman / Michel M alherbe (eds.), Thomas Hobbes: De la Métaphysique a la Politique, Paris:
Vrin,1989, p. 179.
10  Ao proceder a um estudo comparativo dos caracteres do Deus omnipotente descrito no Livro deJó e os caracteres apresentados pelo
Leviathan hobbesiano, H alliday, K enyon e R eeve puderam concluir que, ao pretender fazer coincidir ambos, Hobbes “demonstrava
acreditar que [o exercício] da arte da política consiste numa imitação dos comandos do Deus omnipotente”; “exactamente nos termos em
que o Livro de Jó revelara o irresistível poder de um Deus omnipotente, o Leviathan demonstrava o poder irresistível da personificação
de Deus, o soberano mortal” – cfr. Hobbes’s Belief in God, Political Studies, 31, 1983, pp. 418 e segs.. Numa perspectiva distinta, mas
reconhecendo ter Hobbes concedido ao Leviathan “propriedades similares às divinas”, tornando-o “num deus salvador que faz pelos
humanos aquilo que eles individualmente não podem fazer por si mesmos”, v. A loysius P. M artinich, Introduction, in A loysius P. M ar-
tinich / Brian Battiste ,Leviathan, Ontario: Broadview Press, 2011, p. 19.

64
constitucional.
E sem esta transferência – que Hobbes começou mas que, como seguidamente se nota-
rá, somente Pufendorf conseguiria concluir –, a concetualização do Estado moderno não teria
sido possível nos termos em que a conhecemos.
Em concreto, o exercício que Hobbes propôs consistiu numa reutilização de uma figura
que Francisco Suárez apresentara no quadro da herança tomista, quando ensinara que, para a
construção de uma verdadeira comunidade política, a mera “multidão” desordenada deveria ser
transfigurada num “corpo uno que, por conseguinte, necessita de uma só cabeça”, dando origem
a uma “persona ficta” ou “idealis” (SUÁREZ, 1967-1968).
Ora, se o pensador espanhol soubera distinguir este corpo coletivo em face dos indi-
víduos que o compõem, o que faltava seria distinguir ainda a personalidade jurídica estadual
em face daquele corpo colectivo – do próprio povo. E foi essa a tarefa de Hobbes. É certo que
este também seguiu Suárez quando sustentou que o resultado do acordo dos fundadores da
Comunidade das Nações consistiria na criação de “uma unidade real de todos os homens numa
só pessoa, construída por contrato de todos os homens com todos os homens”(HOBBES, 1839).
Mas para a artificialização da personalidade jurídica do Estado, o contributo decisivo foi traça-
do no Do Cidadão, ao apresentar a ideia de que a união empírica da vontade de todos os homens
daria origem a uma vontade jurídica própria e autônoma da Cidade, que se não confundiria
com a vontade de todos os seus membros – aliás, com isso abrindo um caminho sem o qual
dificilmente Rousseau teria podido alcançar a sua construção da “vontade geral”.
Com efeito, para Hobbes:

Esta união chamada de Cidade, ou de sociedade política, é também uma Pessoa; pois,
quando existe uma só vontade de todos os homens, esta deve ser considerada como
uma só Pessoa, e pela palavra «uma» se distingue de todos os homens particulares,
tendo os seus próprios direitos e propriedades, pelo que nenhum dos cidadãos, nem
sequer todos eles juntos (excepto aquele cidadão cuja vontade representa a de todos)
deve ser confundido com a Cidade. Portanto, uma Cidade é uma pessoa cuja vontade,
pela união de muitos homens, deve ser aceite como a vontade de todos eles, pelo que
pode usar todo o poder e as faculdades de cada pessoa individual para a manutenção
da paz e para a defesa comum” (1983).

Numa palavra: a juridificação de uma pessoa coletiva estatal permitia atribuir-lhe uma
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

vontade distinta e autónoma em face do próprio conjunto de cidadãos que formara a Cidade.

3 O CONTRIBUTO DE PUFENDORF

Traçado este passo adicional no caminho da construção do conceito moderno de so-


berania, restava um último – mas decisivo – avanço sem o qual não seria possível atribuir os
poderes soberanos a uma pessoa jurídica artificial. E esta seria justamente a responsabilidade
assumida por Samuel Pufendorf.

65
É que essa construção não teria sido exequível se o germânico, apenas duas décadas
depois do aparecimento do Leviatã, quando desejou conceber um sistema de direito natural
dotado das características da autonomia e auto-suficiência – por procurar extrair dedutivamente
toda uma noção de sistema de Direito a partir de um postulado inicial de matriz natural-antro-
pológica (e não natural-teológica)11 –, não tivesse decidido fundar a sua visão explicativa dos
fenómenos sociais e humanos na conhecida distinção entre entes físicos e entes morais (entia
physica e entia moralia).
Como é sabido, estes últimos entes foram concebidos, na sua visão, como as criações
que os seres inteligentes aditam às coisas naturais e aos movimentos físicos (os “modos” ou
“atributos” que lhes imprimem) para conformar a ordem social e dirigir a conduta humana12.
Qualquer fenômeno social ou político e qualquer instituição jurídica – como o Estado e a sobe-
rania em torno do qual este se organiza – seria reconduzido a um tal ente moral, intencional-
mente imposto13 por seres inteligentes para a viabilização de uma ordem social e para a direcção
dos actos voluntários dos seus membros14.
Todavia, por assumir a natureza de ente modal, e não de ente substancial – justamente
por consistir num “modo” inscrito nas coisas substanciais e “imposto” para a direcção destas
últimas –, nenhum ser moral poderia subsistir em si mesmo, apenas existindo enquanto integra-
do na coisa substancial que visasse disciplinar15.
Ora, é razoável admitir que esta premissa poderia ser utilizada por quem fosse inspi-

11  E isto porque, numa construção silogística do sistema jurídico, cada conclusão racionalmente extraída servia, por sua vez, de premissa
para a conclusão seguinte – pois que “demonstrar é deduzir silogisticamente uma conclusão necessária sobre qualquer matéria a partir
de princípios que constituem as suas causas, os quais devem ser reconhecidos além de qualquer dúvida ou disputa” (cfr. Samuel Pufen-
dorf, De Iure Naturae et Gentium Libri Octo, ed. bilíngue de Walter Simons, Oxford / London: Clarendon Press / Humphrey Milford,
1934, Livro I, Cap. II, 2); SAMUEL PUFENDORF, De Officio Hominis et Civis Juxta Legem Naturalem Libri Duo, ed. bilíngue de
Walther Schücking, Oxford / New York: Oxford University Press, 1927, Livro I, Cap. III, 9; e, no mesmo exato sentido, Christian Wolff,
Institutiones Juris Naturae et Gentium, Halle: Officina Rengeriana, ed. de 1754, Parte I, Cap. III, 44.
12  Samuel Pufendorf, De Iure Naturae…, cit., Livro I, Cap. I, 3: “podemos definir os entes morais como certos modos acrescentados por
seres inteligentes às coisas naturais e aos movimentos, especialmente com o fim de guiar e temperar a liberdade dos actos voluntários e
para alcançar uma regularidade aceitável na vida humana”. E, novamente, Samuel Pufendorf, De Iure Naturae…, cit., Livro I, Cap. I,
4: “estes são acrescentados, segundo a vontade das Criaturas inteligentes, aos seres já perfeitos num sentido natural”. Esboçando já esta
definição a propósito do tratamento do conceito de status como ente moral que cria um espaço de autodeterminação no qual os seres
físicos podem praticar as suas acções, em analogia com as substâncias físicas que corporizam o espaço onde aqueles podem realizam
os seus movimentos físicos, Samuel Pufendorf, Elementorum Iurisprudentiae Universalis Libri Duo, ed. bilíngue de William Old-
father, Oxford / London: Clarendon Press / Humphrey Milford, 1931, Livro I, Definição III, 1; a partir daí se desenvolvia o tratamento
do conceito de “coisa moral”, destinada ao estudo da aquisição de direitos reais sobre as coisas (Samuel Pufendorf, Elementorum
Iurisprudentiae Universalis Libri Duo, ed. bilíngue de William Oldfather, Oxford / London: Clarendon Press / Humphrey Milford,
1931, Livro I,Definição V); do conceito de “título” como “atributo moral” (Definição VI); e dos conceitos de “autoridade” (Definição
VII) e de “direito” como “poderes morais activos” (Definição VIII).
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13  Porque resultava de um acto de “imposição” [impositionis] e não de “criação”, “pois estes [entes morais] não procedem de princípios
incorporados na substância das coisas” da Natureza criada, antes sendo-lhes “aditados” –Samuel Pufendorf, De Iure Naturae..., cit.,
Livro I, Cap. I, 4 e 23.
14  Samuel Pufendorf, De Iure Naturae..., cit., Livro VII, Cap. III, 1 e segs.. Eis a sua definição de Estado: “O Estado é uma pessoa moral
composta, cuja vontade, formada e unida a partir dos pactos previamente celebrados pela multidão, é considerada a vontade de todos,
devendo recorrer às suas forças e capacidades para prosseguir os fins da paz e da segurança comuns” –Samuel Pufendorf, De Iure Na-
turae..., cit., Livro VII, Cap. II, 13. Por sua vez, definindo também a “autoridade soberana como qualidade moral”,Samuel Pufendorf,
De Iure Naturae..., cit., Livro VII, Cap. III, 1.
15  Samuel Pufendorf, De Iure Naturae..., cit., Livro I, Cap. I, 6. Para compreender mais amplamente o significado da natureza modal
(não substancial) dos entes morais de Pufendorf, alguns comentadores já ilustraram a sua não-subsistência autónoma com as caracte-
rísticas que A ristóteles imprimira às formas, quando tentara extinguir a dualidade entre as ideias e as coisas sensíveis proposta por
Platão, sustentando que nenhuma ideia (forma) valeria por si e subsistiria em si, apenas existindo quando integrada no mundo físico de
que Platão a expulsara (cfr. Cabral de Moncada,Filosofia do Direito e do Estado, 2.ª ed., Coimbra: Coimbra Editora, 1995 [reimpr.],
I, pp. 187-188). Assim ocorreria com os seres modais de Pufendorf: não teriam existência em si, valendo somente se incorporados nas
coisas físicas para cuja direcção o Homem os houvesse projectado.

66
rado por uma matriz humanista para concluir que o Estado e qualquer outro fenômeno político
não podem constituir fins em si mesmos nem extravasar a natureza de meros instrumentos de
prossecução dos fins antropológicos dos homens que lhes deram vida.
Porém, Pufendorf, que se movia noutro plano, procurando uma síntese dos jusna-
turalismos grociano (racionalista-dedutivista) e hobbesiano (naturalístico-materialista)16, não
hesitou em apelar à sua construção precisamente com o propósito de explicar que, na qualidade
de ente modal (não substancial), o Estado só é e só ganha vida jurídica (moral) quando os fun-
dadores da comunidade política concretizam o pactum subjectionis por constituir ex novo uma
soberania que não existe antes (isto é, no próprio povo fundador) e só nasce quando é alocada
ao soberano que exerce as funções de “alma que informa, anima e dirige o corpo público” (PU-
FENDORF, 1934).
Nesta construção, após criarem uma sociedade pela celebração do (primeiro) pacto
social destinado a pôr fim ao estado de natureza e determinarem através do (segundo) pacto
social a forma de governo a implementar, os Homens dariam origem ao Estado enquanto ente
moral somente quando concluíssem o (terceiro) pacto social (PUFENDORF, 1934), em cujos
termos “todos os membros do Estado, ao submeterem as suas vontades à Vontade de um único
comandante, também se obrigaram, ao mesmo tempo, a lhe não resistir” (PUFENDORF, 1934).
Sob pena de não poder exercer uma soberania efectiva, a “autoridade civil recebe um
poder natural, pelo qual, quando o súbdito recusa obedecer, pode ser aterrorizado para o cum-
primento dos seus deveres através do medo da punição” (PUFENDORF, 1934). E enquanto
tal não sucedesse e não fosse possível aglutinar o Estado em torno da autoridade centrípeta
do soberano, “nenhuma comunidade subsistiria” (PUFENDORF, 1934), pois que nenhum ente
físico ou coisa natural sustentaria o ente moral criado pelos homens e em si mesmo desprovi-
do de substância: reproduzindo expressamente as palavras de Hobbes, “o Estado é concebido
como um homem artificial, «no qual o soberano é a alma, dando vida e movimento a todo o
corpo»”(PUFENDORF, 1934).
Em suma, da juridificação do conceito de Estado como pessoa artificial (moral) nas-
cia a convicção de que seria inconcebível, dos pontos de vista jurídico, lógico e ontológico, a
organização de uma comunidade política que não assentasse na instituição de uma autoridade
investida do poder de soberania – a qual seria juridicamente insindicável e irresistível pelos
indivíduos integrados nessa comunidade.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

Assim, bem se vê que, se Bodin e Hobbes haviam dado o passo inicial para a sedi-
mentação deste dado fundamental na caracterização da matriz continental do Estado de tipo
europeu, por estabelecerem a premissa segundo a qual não há organização política (Estado)
sem soberania, Pufendorf completara-o por afirmar que, sem a incorporação da soberania (ente

16  Por todos, v. o estudo mais autorizado de Fiammetta Palladini, Samuel Pufendorf Discepolo di Hobbes. Per una Reinterpretazione
del Giusnaturalismo Moderno, Bologna: Il Mulino, 1990, passim; mais recentemente, embora preferencialmente centrado na questão
antropológica e na doutrina da sociabilidade,Fiammetta Palladini, Pufendorf Disciple of Hobbes: The Nature of Man and the State of
Nature: The Doctrine of Socialitas, History of European Ideas, 34 (2008), pp. 26 e segs..

67
moral) na pessoa do soberano, a quem seria reconhecido o poder de aprovação de atos jurí-
dicos incontroláveis e insindicáveis, a primeira só poderia ser pensada como autêntica “alma
sem corpo” (PUFENDORF, 1934), não podendo sequer obter reconhecimento ôntico nem ser
logicamente aceite nas categorias admitidas pela mente humana.
De resto, no caso de Pufendorf, a identificação teorética de sete partes potentiales
summi imperii – os poderes legislativo; de estabelecer penas; judicial; de fazer a guerra e a paz
e concluir tratados; de nomear os ministros e funcionários; de fixar e arrecadar impostos; e de
disciplinar o ensino público (PUFENDORF, 1934) – não podia ir além de um juízo de decom-
posição abstrata das manifestações da soberania. Para o germânico, o Estado não deixaria de
ficar desmembrado no momento em que essa decomposição se reflectisse num esquema compe-
tencial concreto de atribuição de partes da soberania a autoridades distintas.
4 ELEMENTOS EXTRAÍDOS PARA A TEORIA CONSTITUCIONAL CONTEM-
PORÂNEA
Quando aceitou o conceito de soberania como elemento estruturante do Estado mo-
derno, o constitucionalismo adotou como sua a ideia de que nenhuma comunidade política (co-
munidade num território delimitado e sujeita a um poder político) sobrevive e alcança os seus
fins se se não alicerçar em torno de uma autoridade concebida nos termos propostos por Bodin
e Hobbes – a saber: una, indivisível e impartilhável17.
Mas, obviamente, essa ideia-chave teria de vir a ser compatibilizada com a crença, já
previamente sugerida no pensamento europeu mas que só mais tarde se estabilizaria, de que
não há liberdade sem separação de poderes (FERNÁNDEZ SÁNCHEZ, 2017, p. 106). Como é
compreensível, tais duas ideias contraditórias não podiam deixar de provocar graves dificulda-
des aos teóricos que assumiam – e, até hoje, nunca mais deixaram de assumir – a impossibilida-
de de conceber um sistema constitucional satisfatório sem a presença de ambas.
É que, longe de meramente suporem a sua inconveniência e de quererem evidenciar as
desvantagens da sua implementação, os proponentes do conceito de soberania haviam sublinha-
do, apresentando tal axioma como “verdade analítica” (FRANKLIN, 1993, p. 39), a absoluta
impossibilidade jurídica e lógica de proceder à divisão dos poderes nela integrados – sobretudo
tendo em vista o seu controlo mútuo e a sua fiscalização e sindicabilidade por contra-poderes.
Em vez de se limitarem a alegar os seus possíveis efeitos indesejáveis, haviam afirmado que
uma tal divisão seria, não desaconselhável (no sentido da perda da eficiência na prossecução
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

das atribuições do Estado), mas simplesmente insuscetível de implementação jurídica (no sen-
tido da pura implosão do Estado que a procurasse concretizar).
Foi essa incongruência que foi transportada até à atualidade: sendo certo que, na de-
mocracia constitucional, não seria possível renunciar à separação de poderes como princípio
estruturante da organização política, a verdade é que os centros de autoridade que têm exercido

17  Adoptou, por outras palavras, o entendimento que pôde ser resumido por Hobbes ao iniciar o Cap. XXXI do Leviathan: “um Estado
sem poder soberano é como um conceito sem substância e não pode subsistir”.

68
o poder constituinte – reclamando para si próprios a natureza soberana do poder que ostentam
– tampouco aceitaram abdicar do axioma básico de Hobbes, segundo o qual “não pode haver
governo quando existe mais do que um poder soberano” (HOBBES, 1969, p. 77).
A solução que – pela mão de Sieyès (FERNÁNDEZ SÁNCHEZ, 2017, p. 151-152) –
vem sendo encontrada para coadunar essas duas ideias contraditórias consiste num curioso
fenómeno teorético-jurídico.
Logo que se verificou que seria impossível continuar a qualificar o legislador ordiná-
rio como “soberano” – visto que ele próprio ficaria subordinado a um outro poder do Estado
(poder constituinte), o que só por si implicaria justamente o seu caráter não soberano –, o
constituinte, sentindo ainda a necessidade de proclamar a subsistência de um qualquer poder
soberano, remeteu-o, desta vez, para o próprio “povo”, o qual, estranhamente, afirmando-se
“soberano”, aceitaria auto-submeter-se às directrizes constantes de um texto historicamente
situado (Constituição) sobre as formas e os termos em que a “soberania” seria exercida. E às
normas jurídicas constantes de tal texto seria assegurada a garantia de insindicabilidade por
qualquer autoridade constituída e, logo, não soberana.
Mas o que importa notar é que, quando concretizaram este fenômeno, os constituintes
contemporâneos não precisaram minimamente de inovar quando construíram uma ficção ju-
rídica, consistente na identificação de uma entidade artificial a quem deram o nome de “povo”
e em quem realocaram o poder de soberania, permitindo por essa via manter o dogma da sua
indivisibilidade e insindicabilidade por uma autoridade superior.
Com efeito, ainda que vindicassem a relevância de uma assembleia representativa de-
mocrática – colocando-se pois num plano divergente de Hobbes e Pufendorf –, os constituintes
não deixaram de aproveitar a poderosa construção que Hobbes apresentara no Do Cidadão,
censurando o equívoco daqueles que:

[…] não distinguem entre um Povo e uma Multidão. O Povo é algo que é único,
tendo uma só vontade, e a quem uma só acção pode ser atribuída; este não pode
ser chamado de Multidão. O Povo governa em todas as formas de governo, porque
mesmo nas Monarquias o povo governa, pois quer [wills] através da vontade [will] de
um só homem; já a Multidão são os Cidadãos, isto é, os Súbditos. Numa Democracia
e numa Aristocracia, os Cidadãos são a Multidão, mas o Conselho é o Povo. E numa
Monarquia, os Súbditos são a Multidão e (ainda que pareça um paradoxo) o Rei é o
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

Povo (HOBBES, 1983).

Se, com base nessas palavras, algumas leituras do pensamento hobbesiano, desperce-
bendo o ponto que o Autor pretendia sublinhar, se apressaram em inferir deste ponto a ideia de
que Hobbes não recusava em absoluto a “democracia”, parecendo até colocá-la no mesmo plano
da monarquia (TUCK, 2006, p. 183), o verdadeiro significado normativo daqui emergente con-
sistia antes na proposta, que o pensador inglês ofereceu ao pensamento moderno, no sentido de
aceitar sempre, e independentemente da forma de governo adoptada ou da identidade do res-
pectivo titular, que a soberania, como alicerce indispensável do fenômeno do Estado, residiria

69
numa pessoa artificial única – podendo pois manter sempre a sua indivisibilidade–, a qual não
poderia ser objeto de controlo por qualquer contra-poder do Estado, sob pena de negação da sua
qualidade soberana.
Para justificar essa insuscetibilidade de controle jurídico, podia pois alegar-se, com
base nas sugestões de Hobbes e Pufendorf, que, quando a maioria dos cidadãos componentes
da comunidade política aprovasse num momento pretérito um ato limitativo do exercício do
Poder – hoje, um ato com força constituinte –, o “Povo”, embora vinculado nas suas gerações
futuras por esse ato restritivo, nunca deixaria de governar – não havendo assim qualquer expro-
priação ilícita da sua autoridade –, pela simples razão de que a sua soberania já teria sido plas-
mada naquele ato supremo. E isso tornaria supérflua e até antijurídica a ulterior sindicabilidade
de um ato que fora reconhecido como soberano no seu momento constitutivo.
Daí que a sindicabilidade dos atos do poder legislativo – enquanto poder atualmente
não soberano e subordinado à Constituição – conviva hoje com a indisindicabilidade das nor-
mas constitucionais – enquanto expressão do poder soberano no Estado – nas nossas democra-
cias constitucionais.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O divinizado “Povo”, titular absoluto do Poder, não surgiu pois, na construção de Bo-
din, Hobbes e Pufendorf, como o mero produto empírico da aglutinação dos indivíduos que

o compõem; em vez disso, surgiu como ficção jurídica que pretendeu resolver o problema de
encontrar um depositário da soberania pensada à imagem de Deus (indivisível e insindicável) e
de evitar precisamente aquela divisibilidade e sindicabilidade (logo, a sua destruição).
Uma vez sujeita ao posterior trabalho rousseauniano de normativização da respectiva
“vontade geral” (FERNÁNDEZ SÁNCHEZ, 2017, p. 119), tal ficção jurídica seria utilizada para
assegurar a sobrevivência da noção de soberania como centro aglutinador do Estado moderno,
ainda quando os constituintes iluministas e pós-iluministas viessem a reconhecer a impres-
cindibilidade de uma separação dos poderes – agora (somente) dos poderes constituídos pelo
soberano poder constituinte reconhecido ao “Povo”, esse sim, sempre indivisível e insindicável,
como Hobbes e Pufendorf ensinaram.
Em suma, se de Bodin e de Hobbes obteve-se a inversão das fórmulas de organiza-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

ção política e institucional dominantes na Europa no milénio anterior – fórmulas de natureza


atomística e social-judiciária –, formando os alicerces do Estado moderno, a verdade é que do
próprio Hobbes e de Pufendorf se obteve também a fórmula para a superação do antagonismo
entre os conceitos de soberania e de separação de poderes, que não mais deixaram de se as-
sumir como os pólos do constitucionalismo ocidental, contornando as não poucas dificuldades
dogmáticas e pragmáticas de todos os constituintes que, desde então, não aceitaram abdicar do
seu acolhimento simultâneo.
Com essa fórmula foi possível que, mesmo num regime democrático, se continue a

70
reconhecer no Estado a presença de um poder máximo que, fruto da sua qualidade soberana,
continua a ostentar a insuscetibilidade de sujeição a qualquer controlo jurídico por autoridades
constituídas.

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73
THE MODERN LEGAL CONCEPT OF SOVEREIGNTY

ABSTRACT
However the tendency towards the relativization of the concept of so-
vereignty, the constitutionalism keeps to does not dispense the recou-
rse to the traditional concepto f the three-dimensional that portrays a
Power exercised over a political community in a given territorial cir-
cumscription. In this context, if researchers associate the legal concept
of sovereignty with the work of Bodin and Hobbes, it has been more
difficult to understand the role that Samuel Pufendorf, from his dis-
tinction between physical and moral entities, played in this process.
This role proved decisive for the Modern State; without it, the juridical
realization of sovereignty would not have been completed in the terms
we now know. Above all, it derived a formula which, after subsequent
adaptations (Sieyès), overcame the antagonism between the concepts of
sovereignty and the separation of powers, making the acts of legislati-
ve power - non-sovereign power subordinate to Constitution - coexists
with the indiscernability of constitutional norms, as an expression of the
sovereign power that declares itself to be insusceptible to legal control
by constituted and non-sovereign authorities.
Keywords: Sovereign. Constitution. Bodin. Hobbes. Pufendorf.

FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

74
A RACIONALIDADE COMUNICATIVA DE HABERMAS E O PARADIGMA
PROCEDIMENTAL JURÍDICO DE RESOLUÇÃO DE CONFLITOS

Lauro Ericksen1

RESUMO
O artigo discute as possibilidades de uma compreensão comunicati-
va intersubjetiva sob a égide do pensamento de Habermas. Tem como
objetivo geral explorar os elementos metodológicos de uma nova ra-
cionalidade jurídica, calcada no agir prático e comunicativo. Objetiva,
especificamente, indicar o enquadramento da racionalidade haberma-
siana, no enquadramento dos modelos conflitivos. Tem como hipótese
de trabalho que, ainda que Habermas possua uma visão negativista do
conflito, seu desenvolvimento é sempre em prol de um consenso da
comunicação prática do agir. Resulta que o agir comunicativo haber-
masiano se convola em uma premissa procedimentalista do paradigma
resolutivo-jurídico.
Palavras-Chave: Filosofia do Direito. Teoria Geral dos Conflitos. Ra-
cionalidade Comunicativa. Paradigma Procedimental.

1 INTRODUÇÃO

O artigo em desenvolvimento tem o intuito primordial de fornecer um primeiro con-


tato, ainda que perfunctório e introdutório com as premissas básicas do pensamento de Jürgen
Habermas, um influente (jus) filósofo alemão contemporâneo. Um dos elementos básicos do
pensamento habermasiano é a o agir comunicativo, uma forma de comunicação calcada na-
quilo que ele denomina de racionalidade comunicativa, uma nova forma racional de interação
intersubjetiva. Esses conceitos são básicos para a compreensão daquilo que se denominou de
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

compreensão negativista clássica do conflito sócio-jurídico.


Dessa maneira, o artigo busca abordar a teoria clássica do conflito sob o paradigma do
procedimental (formal) levando em conta as premissas habermasianas do agir e da racionalida-
de comunicativa, depreendendo que toda a raiz conflitiva se baseia, de maior ou menor monta,

1  Doutor, mestre e bacharel em Filosofia (UFRN), especialista em Direito e Processo do Trabalho (UCAM-RJ), bacharel em Direito
(UFRN). Oficial de Justiça Avaliador Federal do Tribunal Regional do Trabalho da 21ª Região. Possui livros e artigos publicados na
área do Direito e da Filosofia. Contato: lauroericksen@yahoo.com.br Lattes: http://lattes.cnpq.br/8447713849678899 orcid.org/0000-
0002-4195-1799

75
em um problema de comunicação entre os indivíduos, que, sem atingir um consenso elementar
sobre o discurso, acabam divergindo.
Outrossim, o artigo possui, didaticamente, uma divisão quadripartida, em introdu-
ção, com duas seções dedicada ao desenvolvimento das principais ideias. Assim, na segunda
seção, aborda-se a questão da racionalidade comunicativa e como ela é posta como elemento
inarredável da construção e resolução do conflito. Na terceira seção, demarca-se o aspecto
metodológico da argumentação jurídica baseada no agir comunicativo, e como essa forma de
atuação é plausível no contexto da resolução procedimental dos conflitos. Derradeiramente,
há uma seção de fechamento, contendo as principais considerações finais acerca do conteúdo
abordado. Assim, espera-se fornecer uma contribuição singela, ainda que substancial, sob o
paradigma procedimental da resolução dos conflitos, sob a égide do pensamento habermasiano,
tão influente e importante para a filosofia contemporânea e também para a filosofia do direito
como um todo.

2 OS CARACTERES BÁSICOS DA TEORIA DA RACIONALIDADE


COMUNICATIVA DE HABERMAS E A CONCEPÇÃO NEGATIVISTA DO
CONFLITO

A teoria do conflito possui uma importante ramificação dentro do estudo do Direito.


Essa perspectiva é imbuída de um forte caráter filosófico (ainda que possua uma influência so-
ciológica considerável), haja vista que uma gama de filósofos e juristas já se debruçaram sobre
ela. Ainda assim, no presente trabalho, há de se focar na aplicabilidade da teoria da racionalida-
de comunicativa desenvolvida pelo filósofo alemão Jürgen Habermas à resolução dos conflitos
sociais que o Direito almeja e espera pacificar, como escopo máximo de sua efetividade para-
digmática de Justiça.
O ponto de partida para a formulação de uma teoria do conflito, a qual engloba, ne-
cessariamente, os principais aspectos jurídicos por ora discutidos, funda-se na compreensão de
quais formas ou procedimentos normativos de atos jurídicos podem ser aplicados corretamente
através de processos (em sua acepção mais ampla) de entendimento motivados racionalmente
no interior de uma sociedade estruturalmente construída.
Nesse passo, há de se ter em destaque que Habermas levanta a hipótese de que a va-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

lidade das normas do direito é determinada pelo grau impositivo que elas conseguem impor à
sociedade que elas buscam reger, ou seja, a sua validade é aferida a partir de sua aceitação fática
no círculo “dos membros do direito”. Isso tudo ocorre em detrimento da legitimidade das regras
normativas, a qual é medida pela capacidade de resgate discursivo das pretensões de validade
normativa ocorrentes em processos de aplicação do Direito disciplinados pelas próprias regras
estatuídas (HABERMAS, 1997, p. 50). Essa premissa se foca nos elementos teórico-discursivos
de como ou de que modo a questão da validade do direito se presta à resolução dos conflitos
sociais, por isso a sua importância singular no estudo da teoria do conflito, em sua vertente

76
eminentemente jurídica.
Comentando os aspectos paradigmáticos levantados por Habermas, José Eduardo
Elias Romão (2003, p. 61) pontua que o filósofo da escola de Frankfurt sustenta que “a racio-
nalidade comunicativa só se tornou possível com a modernidade”. Outrossim, diferentemente
das sociedades ditas “tradicionais”, na pós-modernidade (ou hipermodernidade, como preferem
alguns teóricos) passa-se a ter um momento de difração das funções sociais, no qual as facetas
da faticidade, da normatividade jurídica e da subjetividade individual não mais se diferenciam
e já não são aspectos dominados por uma unidade “verdadeira total”2.
Nesse panorama, tanto a ação dos indivíduos quanto a ação dos grupos sociais passa
a ser acompanhada e coordenada em consentâneo com critérios de uma racionalidade co-
municativa (o elemento discursivo do direito, segundo Habermas, é um dos pontos de maior
destaque dentro da progressão social, tanto individual quanto coletivamente falando). Em re-
sumo, essa racionalidade própria do processo comunicativo social visa, em última instância, o
entendimento amplo3.
A partir desses breves delineamentos já há como perceber que a “nova racionalida-
de do direito” proposta por Habermas se atém a uma concepção negativista do conflito, tal
como os teóricos da linha clássica posicionam. A grande diferenciação do pensamento desse
filósofo alemão consiste na atribuição central dos processos discursivos, e não apenas em
um foco de poder, que ao ser desorganizado ou desestabilizado conduziria a um processo de
instabilidade conflitiva.
Assim sendo, a proposição habermasiana é, em algum sentido, dotada de uma forma
idealizada de compreender os fenômenos sociais que dão azo à formação conflitiva, haja vista
que os processos comunicativos racionais conduzem a uma forma de entendimento amplo. Não
obstante, caso o citado processo racionalizado do entendimento humano seja dinamizado4 a se
estabelecer plenamente, os conflitos tenderão a não existir (embora a concepção de existência
para ele seja algo diverso da simples ocorrência factual do conflito).
Ao se adentrar especificamente no referido processo racional-comunicativo, percebe-

2  Com essa argumentação Habermas tenta a um só tempo desbancar tanto os elementos lógicos-ontológicos de Georg Wilhelm Friedrich
Hegel, que deposita na unidade lógica do devir o elemento metafísico essencial de sua dialética, quanto as acepções anti-metafísicas de
Martin Heidegger, afinal, se não unidade verdadeira total, não há sequer verdade a ser perquirida dentro desse sistema filosófico. Ainda
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

assim, há que se pontuar que a fundamentação proposta por Habermas é uma espécie de retomada neokantiana conservadora do estabe-
lecimento de condições de possibilidade para a existência do convívio social. Algo que não se diferencia muito das categorias propostas
por Kant (1987, p. 38) como necessárias e indispensáveis para que haja o estabelecimento de qualquer metafísica que se proponha a
descrever os processos filosóficos de uma sociedade estruturada. Assim, por mais que Habermas seja tido como um grande teórico da
pós-modernidade, vários de seus argumentos encontram espeque na fundamentação transcendental kantiana, uma vez que ainda tratam
de adequação e de condições de necessidade e universalidade.
3  O processo comunicativo para Jürgen Habermas (2002, p. 53) acontece quando os sujeitos, agindo comunicativamente, tratam-se lite-
ralmente como falantes e destinatários, nos papéis das primeira e segunda pessoas, no mesmo nível do olhar. Desta forma, eles contraem
uma relação interpessoal, na qual se entendem sobre algo no mundo objetivo e admitem os mesmos referentes mundanos (relações
objetivas-subjetivas em fluxo contínuo). Nessa posição performativa, diante do pano de fundo de um mundo da vida intersujetivamente
compartilhado, fazem simultaneamente, uns para os outros, experiências comunicativas entre si. Ou seja, o estabelecimento desse tipo
de comunicação racional é o único que possibilita o entendimento (ou o desentendimento) dos sujeitos partícipes.
4  Nesse ponto, ao se falar de dinamização de processos comunicativos, indubitavelmente as raízes aristotélicas de Habermas são ressalta-
das. Somente a partir desse processo de atualização (dinamização) da base material (causa material) humana, que é a própria inteligência
racional, é que se consegue alcançar um patamar mais elevado da própria natureza humana, um parâmetro “energético” – no próprio
sentido de Energeia (ἐνέργεια) definido pelo estagirita (Aristóteles) – de aferição do desenvolvimento humano.

77
-se que cada locutor possui uma função bem definida, de modo que cada agente participante
tem pretensões de validade em relação às suas próprias proposições. Tais proposições podem
estar intimamente direcionadas a cada uma das esferas de completude do sistema de comuni-
cação racional, tais como a objetividade material (as coisas), o espectro social (a própria nor-
matividade da sociedade) e o domínio da subjetividade (as vivências e experiências de cada
indivíduo ou de cada grupo social).
É justamente em torno dessas pretensões de validade que se pode desenrolar o conflito.
Isto é, desdobram-se em função dessas pretensões o consenso imediato (hipótese de inexistência
conflitiva) ou, ao contrário, um processo argumentativo (conflito propriamente dito) para,
mediatamente, obter-se um entendimento.
Como bem ressalta Miracy Barbosa de Souza Gustin (1999, p. 189), a racionalidade
nos moldes descritos por Habermas seria a capacidade dos locutores de galgarem um saber fa-
lível ou justificável, segundo as dimensões esféricas já colocadas (objetiva, social e subjetiva).
Isso porque, no processo argumentativo, deve haver a apresentação de provas e contraprovas
entre os interlocutores, na tentativa de um ajuste recíproco e, possível e finalmente, a obtenção
de um resultado consensual através da argumentação racional.

3 A RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS POR MEIO DA ARGUMENTAÇÃO:


A NECESSIDADE DA JUSTIFICAÇÃO RACIONAL COMO PARADIGMA
METODOLÓGICO E O ENCERRAMENTO CONFLITIVO

Somente a partir dos delineamentos da racionalidade, tal como apresentado, que os


interlocutores conseguem qualificar a pujança argumentativa posta, graduando-a, e retirando
desse processo uma definição do que deve ser mantido ou rejeitado na busca de resolução ade-
quada dos conflitos por eles suscitados.
Um ponto de ressalto nessa metodologia da teoria do conflito consiste no fato de que
mesmo que um dos locutores não apresente habilidade ou disposição suficiente para fundamen-
tar a pretensão lançada isso não representa a total desconsideração de sua proposição. Nesse
sentido, Robert Alexy (2001, p. 110) assevera que esse processo comunicativo não se limita
apenas à personalidade do autor, de modo que ele “depende muito mais dos princípios por trás
dos atos de discurso”. Existem elementos que perpassam a própria limitação da justificação
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

subjetiva individualizada, tal como será a seguir mais bem investigado.


É possível, portanto, que, dentro de um processo comunicativo, algum dos interlocutores,
após levantar uma pretensão qualquer, recuse-se a produzir uma fundamentação sobre ela, ou
que simplesmente se negue a apresentar as razões de sua recusa ou afirme que a sua pretensão é
dotada de uma completude imanente de modo que nenhuma outra fundamentação é necessária
para que ela se sustente.
É comum que a parte contrária levante uma contra-argumentação calcada na
necessidade de justificação da proposição lançada, exigindo que razões devam ser dadas para

78
que a validade de suas pretensões seja aferida. Ou concluindo, se nenhuma fundamentação for
feita para a pretensão lançada, que ela deva ser tida como inválida, por não ser possível atribuir-
-lhe validade alguma.
Essa argumentação que se foca em sentenças com expressões deontológicas (as quais
usam os termos do “dever ser” para basear seu fundamento) são um sinal claro que os interlocu-
tores recorrem a um princípio de motivação e justificação das pretensões enunciadas por eles.
Isso é o que Robert Alexy (2001, p. 111) denomina de “regra geral de justificação”.
O jurista alemão define essa regra como sendo aquela que “todo locutor precisa dar
razões para o que afirma quando lhe pedirem para fazê-lo, a menos que possa citar razões que
justifiquem uma recusa de dar uma justificação”. Segundo essa regra, ainda que os interlocuto-
res exijam uma justificação, não é imprescindível que todos tenham que dar explicações plausí-
veis para cada afirmação feita, a qualquer pessoa, a qualquer tempo.
Para esse nível de discussão conflitiva no âmbito jurídico é suficiente apenas que ra-
zões sejam dadas para atestar a incapacidade ou o não desejo de dar a justificação necessária
para uma situação específica, ou ainda os interlocutores delegam essa função a outrem.
Desta feita, essa regra não exige que haja uma justificação plena e individual por parte
do interlocutor para cada uma pretensão que deduza (ainda que haja resistência do outro in-
terlocutor), mas apenas ordena que todas as afirmações remanesçam susceptíveis à discussão.
Dizendo isso de uma melhor forma, as próprias razões das razões apresentadas pelos interlo-
cutores do processo de comunicação-conflito também ficam abertas à própria discussão em
torno do dissenso (GUSTIN, 1999, p. 190). Em última instância, do ponto de vista filosófico, há
uma fundamentação única para a discussão das pretensões deduzidas, pois, só assim é possível
analisar de maneira plena, não só as razões, mas as suas próprias justificativas (que podem ser
dissolvidas nas próprias razões das razões – daí o seu caráter reflexivo).
Esse critério é clarificado pelo próprio Habermas, que esclarece que a sua teoria da
ação comunicativa não é apenas uma meta-teoria, na qual não há um ponto de partida (Anfang)5
próprio. Ao comentar esse quesito, José Eduardo Elias Romão (2003, p. 61) coloca que a teoria
enunciada pelo filósofo de Frankfurt se vincula a uma “racionalidade comunicativa espontânea,
pré-reflexiva, que está efetivamente presente nas estruturas de um mundo de vida compartilha-
do pelas pessoas”.
Em síntese, essa teoria tenta se afastar da vacuidade de um posicionamento anti-meta-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

físico (no qual não haveria nenhum lastro teórico para sua fundamentação) e coloca como seu
ponto de partida (Anfang) uma teoria da sociedade que se esmera para justificar seus parâmetros

5  Esse esclarecimento também é uma crítica à dialética hegeliana, uma vez que, por rejeitar a circularidade dialética do sistema lógico
de Hegel, Habermas pontua que a estrutura lógica do devir hegeliano não possui uma fundamentação idônea para o início da filosofia
(e da própria lógica).

79
críticos, ainda que a abertura para tais razões deva sempre estar à disposição de seus locutores6.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A importância dessa teoria da comunicação racional de Habermas é salutar. Nesse pas-


so, essa nova proposta de racionalidade habermasiana se encontra firmemente ancorada em um
chão social, e com a qual todos são plenamente contemporâneos. Esse comentário assume um
aspecto filosófico de destaque, pois se ancora na linguagem cotidiana para explanar como todos
os indivíduos podem ser tidos como interlocutores no processo de comunicação-conflito. Ou
seja, a simples capacidade de se expressar na linguagem cotidiana (linguagem ordinária, para
se utilizar o termo técnico wittgensteiniano apropriado) confere a validade dos posicionamentos
assumidos pelos interlocutores envolvidos no citado processo.
Sob esse enfoque, é fácil concluir que os sujeitos de direito, e não apenas especialistas
e tecnicistas, podem, efetivamente, promover a aplicação de um Direito válido face às situações
de conflito, haja vista que as normas e os atos jurídicos podem ser processos de entendimen-
to motivados racionalmente no interior de uma associação de membros do direito (HABER-
MAS, 1997, p. 75). Essa é uma forma de abertura formal e procedimental para a resolução dos
conflitos, propondo, portanto, que a resolução e o agir ético prático não é algo estanque nem
unicamente afeito aos técnicos e aos juristas, é algo que se espraia e se desenvolve livremente
no seio social, sem nenhuma definição fechada ou definitiva de como sobre o conflito deve ser
resolvido, apenas indicando que, sua resolução, é premente e factível.
Essa é uma crítica direta aos teóricos, principalmente os positivistas de outrora, como
Hans Kelsen (1998, p. 210) do direito que, a partir de uma compreensão unicamente objetiva,
colocavam a análise dos desdobramentos jurídicos como algo plenamente apartado da própria
compreensão dos seus sujeitos (não-especialistas). Assim, o fenômeno de validade do direito
deixa de ser algo calcado apenas na descrição objetiva (e purista) e passa a ser compreendido
multi-dimensionalmente, como já explanado.
A hodierna consideração dos pressupostos comunicativos e as condições procedimen-
tais de formação de opinião e vontade democráticas, que são a única fonte de legitimidade no
espectro de compreensão procedimentalista do Direito, fazem com que seja imprescindível que
se maneje uma concepção teórica do conflito mais apropriada e consentânea com a complexi-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

dade das sociedades “pós-modernas”.


Nesse diapasão, uma concepção discursiva do direito (capaz de redefinir o conflito
como a confrontação comunicativa de atos de linguagem ordinária que enunciam pretensões de

6  Nesse ponto, ao falar de abertura para a discussão dentro da sociedade, Habermas está a criticar as definições de Martin Heidegger
(2008, p. 124) acerca da “abertura do ser”. Na filosofia de Ser e Tempo de Heidegger, a questão da abertura (Erschlossenheit) é um termo
técnico tratado como um “des-fechar”, de modo que, abrir, jamais significa, portanto, concluir através de mediações. Somente através
dessa abertura de ser que ocorre o “acontecimento” (Ereignis), conceito fundamental da filosofia heideggeriana que trata da própria
verdade (imediata). Já na filosofia habermasiana, a mediação entre os sujeitos interlocutores é algo imprescindível, não há como haver
racionalidade comunicativa se não houver mediação entre os interlocutores e as demais esferas ou dimensões envolvidas nesse processo,
sejam elas objetivas, sociais ou subjetivas.

80
validade distintas) afigura-se apta a abarcar a pessoa humana em sua vasta diversidade de di-
mensões existenciais, objetiva, social e subjetiva (ROMÃO, 2003, p. 62). Isto porque essa nova
racionalidade comunicativa do direito é capaz de enquadrar de maneira mais flexível a realidade
dos sujeitos interlocutores, sem que haja um encerramento peremptório dos mesmos em catego-
rias ou classes predeterminadas. Em síntese, a teorização proposta por Habermas formaliza o
método adequado a ser utilizado na aplicação legítima de um Direito válido e capaz de dirimir
conflitos, fulminando-os com justiça, e, principalmente, não se depreendendo do exposto que
esses processos sejam apenas manejados pelos próprios entes estatais.

REFERÊNCIAS

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teoria da justificação jurídica. Trad. Zilda H. Schild Silva. São Paulo: Landy, 2001.

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Aragão. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2002.

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Siebeneichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. v.1.

HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. 3. ed., Trad. Márcia Sá Cavalcante Schuback. Rio de
Janeiro: Vozes, 2008.

KANT, Immanuel. Prolegômenos a toda a metafísica futura: que queira se apresentar como
ciência. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1987.

KELSEN, Hans. Teoria pura do Direito. 6.ed. Trad. João Baptista Machado. São Paulo:
Martins Fontes, 1998.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

ROMÃO, José Eduardo Elias. O novo sistema de solução de controvérsias do Mercosul. In:
AZEVEDO, André Gomma de (Org). Estudos em arbitragem, mediação e negociação.
Brasília: Grupos de Pesquisa, 2003, v. 2, p. 49-68.

HABERMAS’ THEORY OF COMMUNICATIVE RATIONALITY AND


CONFLICT’S RESOLUTION PROCEDURAL PARADIGM

ABSTRACT

81
The paper discusses the possibilities of comprehension of intersubje-
tive communication on Habermas thinking of Law Philosophy. It aims,
in a broad way, to explore the methodological aspects of a new legal
racionality, based on practical and communicative acting. Its specific
objetive intends to indicate the framing of habermasian racionality, on
conflicts classifications and models. Its hypothesis is based on the prem-
isse that, even though, Habermas still has a negative vision on conflict,
its development points toward a consensus of communication and a col-
ective understanding of practical action. It, thus, results in knowing,
that communicative acting becomes a procedural premisse on resolu-
tive legal paradigm.
Key-Words: Law Philosophy. Theory of Conflict. Comunicative Racio-
nality. Procedural Paradigm.

FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

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DESAFIOS HERMENÊUTICOS DA JURIDICIDADE PÓS-MODERNA: ENTRE
TEXTO, NORMA E MÉTODO/ PARA LÁ DA INTERPRETAÇÃO NEGATIVA

Joana Maria Madeira Aguiar e Silva1

RESUMO
Os séculos XX e XXI trouxeram consigo uma manifesta erosão dos
fundamentais pressupostos sobre os quais anteriormente se erigiam as
garantias e determinações do conhecimento e da verdade científicos.
Ressentindo-se dessa erosão, o edifício jurídico-normativo tem procu-
rado assimilar no seu seio as modulações em que, a esse nível, os desen-
volvimentos hermenêuticos se traduziram, trazendo à superfície irrecu-
sáveis tensões em cuja dinâmica o Direito se tem vindo a reconstituir.
A fragmentação e fluidez da condição pós-moderna projectam-se assim
na centralidade dos processos de construção jurídico-hermenêutica.
Palavras chave: Hermenêutica. Pós-modernidade. Método.

1 INTRODUÇÃO

Quando, em 1805, Jacques de Maleville publicou um dos primeiros comentários ao


FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

Código Civil napoleónico, promulgado no ano anterior, diz-se que o próprio Napoleão terá rea-
gido exclamando: ‘mon code est perdu!2’.
O tema sobre o qual nos propomos reflectir prende-se de diversas maneiras com este

1  Licenciada em Direito pela Universidade de Coimbra; Mestre e Doutora em Direito pela Universidade do Minho; Áreas de interesse:
Metodologia, Filosofia e História do Direito; Direito e Literatura; Hermenêutica Jurídica.
2  Jacques de Maleville foi um dos juristas que integrou a comissão nomeada por Napoleão para, sob a direcção de Jean-Jacques-Régis de
Cambacérès, proceder à elaboração do Código Civil francês. Os outros membros eram Jean-Étienne Portalis, Félix Julien e Jean Bigot de
Préamenon. Entre 1804 (data da promulgação do Code) e 1806, Maleville foi dando à estampa os 4 volumes de que se compôs L’Analyse
raisonée de la discussion du Code Civil, obra que motivou o desabafo do próprio Napoleão, e que pretenderia disponibilizar ao jurista
prático aquelas que haveriam sido as intenções do legislador (e que constituíam elemento fundamental para determinar o sentido da lei).

83
imperial desabafo, que encontra igualmente paralelo nas conhecidas recomendações transmiti-
das por S. Francisco de Assis no seu Testamento (1226) aos monges da Ordem por si fundada,
segundo as quais estes se deveriam limitar a cumprir as regulae da Ordem sem as comentar ou
interpretar3.
Estes, com efeito, dois impressivos exemplos do fulgor e influência daquela que Vitto-
rio Frosini apelidou de interpretação negativa, e cuja expressão mais emblemática associamos
ao brocardo latino in claris non fit interpretatio. Uma regra que diríamos de ouro no enquadra-
mento da chamada doutrina do sens clair, ou doutrina do sentido claro, desenvolvida precisa-
mente no contexto do direito francês pós-revolucionário. Exemplos retirados daquelas que são,
talvez, como diz Garcia Amado, as duas disciplinas mais condenadas à interpretação: o direito
e a teologia.
Uma vez aceite o repto de nos debruçarmos sobre as alternativas pós-modernas à in-
terpretação negativa, mister se torna começar por esclarecer em que consiste esta e, sobretudo,
sondar os fundamentais pressupostos dogmáticos, conceptuais e ideológicos que lhe subjazem.

2 INTERPRETAÇÃO NEGATIVA: IN CLARIS NON FIT INTERPRETATIO

2.1 Pressupostos histórico-conceituais, ideológicos e dogmáticos

Falamos em interpretação negativa para, no âmbito limitado da interpretação das nor-


mas de direito positivo, identificar o princípio de acordo com o qual a interpretação deve ser
afastada sempre que nos encontremos face a normas cujo sentido é evidente, claro e unívoco.
Nessas situações, propugna-se a aplicação pura e simples da disposição normativa cujo sentido
“textual” surge como inequívoco e natural.
Apesar da frequência com que é ainda encontrado quer na actual doutrina quer na ac-
tual jurisprudência, quase como se de uma verdadeira regra interpretativa se tratasse, a verdade
é que a validade do princípio em causa, e da própria cultura e mentalidade que lhe subjaz, há
muito se mostra profundamente desadequada da nossa realidade jurídica e judiciária.
O alcance com que ao longo da história foi sendo entendido revela a sua natureza
ideológica e política, mais do que propriamente jurídica, sendo patentes as desvirtuações que
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

sofreu para permitir alcançar resultados que claramente excediam os de mera técnica aplicativa
das normas de direito positivo. Embora recorrentemente referido como característico princípio
da interpretatio iuris medieval, é inegavelmente com os alvores da Modernidade jurídica que

3  “Ordeno com toda a firmeza a todos os meus irmãos, clérigos ou laicos, que, por obediência, não acrescentem explicações à Regra ou
a estas palavras, afirmando que devem entender-se deste modo. Pelo contrário, com simplicidade e sem comentários, deveis compreen-
dê-las e observá-las santamente, até ao fim”. Cfr. Vittorio FROSINI, Teoría de la interpretación jurídica, Santa Fe de Bogotá, Editorial
Temis, 1991, p. 104. A aprovação papal das sucessivas versões da regra franciscana, como sabemos, esteve envolta em larga controvér-
sia, e deu azo a consideráveis contendas de natureza jurídica e teológica.

84
vem a encontrar um eco nunca antes alcançado4. Mais concretamente, o seu êxito vem-se a
consagrar pela mão das elaborações doutrinais levadas a cabo pelos exegetas do código civil na-
poleónico, e a estender-se a toda a metodologia jurídica implicada pelo movimento codificatório
oitocentista. A ideia é a da perfeição dos códigos, que em toda a sua completude lógica e no seio
de um rigoroso entendimento do princípio da separação de poderes, prometem a tão almejada
segurança e certeza jurídicas. Valores como os da imparcialidade e da igualdade jurídicas serão
alcançados com a identificação do direito com aquele que é o produto de um legislador racional,
clarividente, que actua em nome de todos no seio de um estado de assembleia representativa. Ao
judicial não caberá senão verter na prática os comandos textual e objectivamente consagrados
por aquele, numa lógica de perfeita autonomia das funções que a cada figura competem: ao
legislador a criação do direito, aos magistrados a sua aplicação.
É neste contexto que encontra razão de ser o princípio em causa, do in claris non fit
interpretatio. O objectivo último é, naturalmente, o de constituir um fundamental travão a
ímpetos discricionários por parte do julgador / aplicador do direito. E de assim preservar as
pretensas neutralidade e assepsia legislativas.
Ao mesmo tempo que a actividade interpretativa se vê assim identificada com uma
tarefa de mero reconhecimento e intelecção dos sentidos previamente oferecidos no texto da
disposição normativa (qual estátua no interior do bloco de mármore5), vai-se ainda mais longe
no intuito de preservar a vontade do legislador prescrevendo-se a não interpretação das mes-
mas disposições nas situações (tendencialmente normais) em que da literalidade do preceito o
sentido do mesmo seja clara e inequivocamente inferível. Naquelas situações em que, por defi-
ciência ou obscuridade da expressão linguística, esse sentido não for imediatamente apreendido
- situações anómalas, portanto -, prescreve-se então o cumprimento de um conjunto de pautas
hermenêuticas, legislativamente consagradas de modo preciso, que permitirão ao intérprete
alcançar o espírito da disposição subjacente à intenção do legislador, sem ferir a objectividade
do processo de atribuição de sentidos.
De acordo com alguns autores, a intenção seria a de preservar a todo o custo a inter-
pretação dita declarativa, em que se manifesta a coincidência entre o sentido literal e o espírito
imanente à norma6. O travão dirigir-se-ia, aí, a eventuais correcções extensivas e restritivas por
parte do intérprete. Na medida em que a interpretação declarativa mais não faria senão declarar,
repetir, reproduzir, o texto da disposição a interpretar, ela suporia uma opção pela não interpre-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

4  Período em que, caracteristicamente, o Direito se vê consubstanciado no império da lei, com a confusão subsequente entre interpretatio
iuris e interpretatio legis.
5  Defendendo a ideia segundo a qual o elemento volitivo, o “hunch”da sentença, vinha em primeiro lugar, Radbruch entendia que “o erro
de acreditar que a regra singular dormia já no texto, «como a estátua num bloco de mármore», só se (poderia) aceitar como um saudável
travão à arbitrariedade judicial”. Apud Josef ESSER, Grundsatz und Norm in der RichterlichenFortbildung des Privatrechts, 1956, trad.
esp. Eduardo ValentíFiol, Princípio y Norma en la elaboración jurisprudencial del Derecho Privado, Barcelona, Bosch, 1961, p. 327. A
inspiração para a imagem teria sido encontrada, para Fernando José Bronze, num poema de Miguel Ângelo: “Não tem o melhor artista
alguma ideia / Que o mármore só em si não circunscreva”. Cfr. Fernando José BRONZE, Lições de Introdução ao Direito, Coimbra,
Coimbra Editora, 2002, p. 821-822, n. 29.
6  Neste sentido, veja-se, entre outros, Giuseppe ZACCARIA, L’arte dell’interpretazione. Saggi sull’ermeneutica giuridica contempo-
ranea, Padova, CEDAM, 1990, p. 47; Luis PRIETO SANCHÍS, Apuntes de teoría del Derecho, Madrid, Editorial Trotta, 2005, p. 235.

85
tação, em sentido, digamos, crítico7. Quer-nos parecer, no entanto, que o alcance do princípio
se pretendia mais abrangente, levando o aplicador a abdicar - pelo menos formalmente - das
suas competências de verdadeiro intérprete. A aplicação seria, digamos, directa e automática,
defendendo-se, no fundo, a possibilidade (e adequação) de uma leitura das disposições sem um
concomitante processo de interpretação (ainda que meramente declarativa).
Não terá sido exactamente este o sentido com que o princípio foi assimilado pelo pen-
samento jurídico medieval, que, pretendendo pôr freio às capacidades inventivas dos comen-
tadores, o entendeu sobretudo enquanto critério de hierarquia normativa através do qual se
expressava a prevalência dos clássicos e autoritários textos de direito romano e canónico8.
Não deixa de ser curioso que não se tenha conseguido até hoje determinar a origem do
aforismo latino em questão. Embora pareça reconduzir-se ao Digesto, onde essa mesma ideia
vai estando presente, ele não se encontra literalmente no seu texto, sendo que as referências
feitas ao princípio surgem em matéria de testamento. Esse, aliás, parece ter sido o domínio
por excelência em que os romanos recorreram à limitação da interpretação em caso de clareza
absoluta da disposição literal: o das declarações negociais9. Estendê-la à interpretação da lei
parece ter sido deformação hábil desse mecanismo ao serviço do processo de endeusamento do
legislador e do seu exclusivo enquanto criador de Direito10.

3 DECADÊNCIA DO PRINCÍPIO E DA MENTALIDADE SUBJACENTE

A decadência do princípio in claris non fit interpretatio, ou da negação da interpreta-


ção em função da clareza literal da disposição normativa, começa a fazer-se sentir já no final do
século XIX, com a ascensão de sucessivos movimentos e correntes anti-formalistas (a própria
Escola da Exegese se mostra em declínio, com François Gény a publicar, em 1899, o seu mo-
numental Méthode d’interprétation et sources en droit privé positif ), que têm como detonador
o crescente abismo que se vai fazendo sentir entre teoria e praxis. Movimentos que se vêm a
consolidar, sobretudo, a partir da segunda metade do século XIX.

3.1 Modernidade e Pós-modernidade

7  Como nos mostra PRIETO SANCHÍS, ”in claris non fit interpretatio supunha postular uma interpretação declarativa face a qualquer
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

tentação de correcção extensiva ou restritiva. No fundo, continuava latente a ideia ilustrada de que a melhor lei é a que não precisa de
interpretação, ou de que a interpretação equivale à corrupção da lei”. Mais à frente, no entanto, não deixa o autor de sublinhar aquilo
que temos também bem presente para nós: “na verdade, esta classificação repousa sobre um pressuposto que muitos não podem aceitar,
e que é o de que as disposições têm sempre um significado objectivo e independente da própria interpretação, significado que umas
vezes seria respeitado (interpretação literal), mas que noutras poderia ser «ampliado» ou «restringido»”. Cfr. ibidem, pp. 228 e 235. Ver
ainda o ensaio de Laura MIRAUT MARTÍN, “Reflexiones en torno a la doctrina del sentido claro de los textos jurídicos”, in Anuario
de Filosofia del derecho, 2002, disponível em https://www.boe.es/publicaciones/anuarios_derecho/anuario.php?id=F_2002_ANUA-
RIO_DE_FILOSOF%C3%8DA_DEL_DERECHO, consultado em 31.01.2016.
8  Cfr. v.g. Luis PRIETO SANCHÍS, op. cit., pp. 227-228.
9  Os juristas medievais ter-se-iam inspirado, no entender de Castanheira Neves, numa proposição de Paulus - cum in verbis nulla
ambiguitas est, non debet admiti voluntatis quaestio (D.32, 25, 1) – que, referindo-se a matéria testamentária, estaria longe de com ela
exprimir “a verdadeira atitude do pensamento jurídico romano sobre o ponto em causa”. Cfr. António CASTANHEIRA NEVES, O
actual problema metodológico da interpretação jurídica – I, Coimbra, Coimbra Editora, 2003, p. 14, n.13.
10  Neste sentido, ver também o interessante estudo de M. Aquilina SÁNCHEZ RUBIO,” La interpretación en el derecho: in claris non fit
interpretatio”, Anuario de la Facultad de Derecho, vol. XXII, 2004, 417-435, passim.

86
Esta, aliás, uma das notas características da chamada pós-modernidade jurídica, que,
se por algo se identifica, é precisamente pela reacção aos formalismos do modelo legalista e
estadual que caracterizou as ordens jurídicas, um pouco por todo o continente europeu, no res-
caldo da Revolução Francesa.
De sublinhar que, quando falamos em modernidade jurídica nos remetemos invaria-
velmente aos desenvolvimentos a que assistiu o Direito no período de oitocentos, com a fulgu-
rante ascensão da lei, e da lei codificada. Um período em que o Direito claramente se verteu
em formulações lógicas e sistemáticas, procurando chamar a si os critérios e modelos racionais
que dotavam de autoridade e legitimidade as ciências naturais. Pela mão de um nítido contro-
lo estadual, manifestação da imperante vontade popular, ao Direito caberia assegurar valores
fundamentais da vida do homem em sociedade, como a igualdade e a liberdade. No seio de
um discurso unificador e universalizante, e à imagem da própria ciência oitocentista, o Direito
assumir-se-ia como verdade, determinação e objectividade.
Se as porosidades deste modelo, e do paradigma que alimentou, se começaram a fazer
sentir já em finais do século XIX, elas tornaram-se mais flagrantes a partir de meados do século
XX. No específico domínio jurídico, o descrédito da lei enquanto exclusiva matriz de juridi-
cidade, dotada de autonomia, exaustividade e completude, implicou a recuperação de modos
de pensar antes abafados pelos consensos racionalistas da modernidade. A razão da ciência
moderna - jurídica incluída - deixa de ser considerada como fonte de verdades inquestionáveis,
passando a pretensão universalista da metodologia científica, a partir de certa altura, a suscitar
uma forte reserva.
Numa perspectiva mais ampla, a crença no progresso científico e civilizacional, a li-
nearidade histórica no sentido evolutivo, mediatizada pela racionalização e categorização da
vida pública e artística, vão perdendo credibilidade enquanto projecto/manifestação vital da
modernidade. O positivismo oitocentista vê-se questionado em toda a linha, sublinhando-se a
impossibilidade de dissociar os factos daquele que os observa, bem como da cultura que produ-
ziu as categorias em função das quais os factos são descritos11.
E é assim que a chamada pós-modernidade se vai instalando, configurando, nas pala-
vras de Ernst Gellner, um movimento contemporâneo poderoso e muito na moda. “Para além
disso”, continua Gellner, “ninguém sabe ao certo do que se trata”12. Se desde o início do século
XX, em domínios mais ou menos circunscritos, a expressão vai tendo algum curso, é maiorita-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

riamente a partir da década de 70, pela mão de Jean-François Lyotard, que “a condição pós-mo-
derna” emerge como reflexo de uma “mudança geral da circunstância humana”13. Se representa
verdadeiramente, como pretendem alguns, uma superação da modernidade e dos seus padrões

11  Cfr. Ernest GELLNER, Pós-Modernidade, razão e religião, Lisboa, Instituto Piaget, 1994, p. 43.
12  “É quase impossível fornecer uma definição ou uma descrição coerentes do pós-modernismo”, diz a dada altura o autor. Cfr. ibidem,
p. 39 e 48.
13  Cfr. Jean-François LYOTARD, The Postmodern Condition: a report on knowledge, Manchester, Manchester University Press, 1997,
trad. do francês La condition postmoderne: rapports sur le savoir, 1979; Perry Anderson, As origens da pós-modernidade, Lisboa,
Edições 70, 2005, p. 39.

87
epistemológicos, é contestável14, como controversas são as tentativas de com ela identificar al-
gum ou alguns projectos ou discursos mais concretos ou substanciais. Para Lyotard, a pós-mo-
dernidade representaria a perda de credibilidade das grandes narrativas que haviam sustentado
a sociedade, as suas formas de vida e de conhecimento, ao longo do século XIX. O que parece
ser característico daquilo que habitualmente se designa de pós-moderno é a desconfiança em
relação a qualquer discurso que se apresente como totalizante; é o desconforto face a um dis-
curso racional-científico que se pretenda garantia de compreensão e explicação categórica dos
mundos interior e exterior. Numa perspectiva pós-moderna, as realidades física e social têm-se
por fragmentadas, fluidas e multiformes, justificando a preferência de Zygmunt Bauman pela
expressão (crítica) modernidade líquida15. Justificando igualmente o entendimento de Gellner,
segundo o qual o conjunto de ideias que compõem a pós-modernidade, apesar de demasiado
etéreo e volátil para ser apreendido e absorvido de forma exacta, reflecte um denominador
comum: a relatividade. “O pós-modernismo parece ser claramente favorável ao relativismo, no
sentido em que é propenso à transparência e avesso à ideia de uma verdade única, exclusiva,
objectiva, externa ou transcendente. A verdade é evasiva, polimorfa, íntima, subjectiva… e algo
mais, talvez. Linear é que não”.16
Se o juspositivismo foi a face da modernidade jurídica, uma noção de direito pós-mo-
derno implicará um afastamento relativamente àquelas notas distintivas que antes referimos.
Os métodos lógico-sistemáticos de construção e aplicação do direito começam a ser insistente-
mente contestados sobretudo a partir do final da Segunda Grande Guerra, com a concomitante
ascensão / recuperação de movimentos anti-formalistas que, não deixando de atender ao valor
da lei e do seu enquadramento dogmático, reconhecem as indubitáveis virtualidades transfor-
mativas e criadoras que para a realidade jurídica no seu todo representa o contexto pragmático
da concretização judiciária.

3.2 Correntes anti-formalistas e erosão da lei e do código modernos

Subjacente a estes movimentos está um lento mas inexorável processo de erosão da lei
nos moldes em que a concebeu a mentalidade e a cultura de oitocentos. A crise da lei é denun-
ciada pelo desenvolvimento manifesto das correntes anti-formalistas, na medida em que nestas
vão sublinhadas as fragilidades da lei enquanto exclusiva potência criadora de juridicidade e
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

o fracasso histórico dos códigos enquanto corpos normativos dotados de exaustividade e de


eternidade. A filosofia das leis uniformes, precisas, gerais e abstractas, que alcançara o seu

14  À pergunta “o que é, afinal, o pós-moderno?”, o próprio Lyotard responde bastante elipticamente dizendo que “é indubitavelmente
uma parte do moderno”. Cfr. Jean-François LYOTARD, “Answering the question: what is postmodernism?” in op.cit., pp. 71-81, p. 79.
15  Para alguns o grande teórico da pós-modernidade, Bauman tem apontado o dedo às fragilidades éticas e morais de uma contempo-
raneidade entregue à lógica do imediatismo, do consumismo e da artificialidade. “Depois de terem desaparecido ou passado de moda
os princípios universais e as verdades absolutas, pouco importa doravante que princípios pessoais e que verdades privadas o indivíduo
adopta (tanto mais que o seu compromisso nunca é profundo) e segue (mas nunca com excessivo zelo ou dedicação, disso podemos
estar certos)”. Cfr. Zygmunt BAUMAN, A vida fragmentada. Ensaios sobre a moral pós-moderna, Lisboa, Relógio d’Água, 2007, p. 18;
Liquid modernity, Cambridge, Polity Press, 2004.
16  Cfr. Ernest GELLNER, op. cit., p. 41.

88
auge com o movimento codificador, com a sua vocação de regular as relações sociais de um
modo unitário e conclusivo, onde nada pudesse ser deixado ao arbítrio do intérprete, é agora
abertamente contestada17. Criação e aplicação do direito, que surgiam então como operações
autónomas, perfeitamente racionais, constituindo o código um monumento de geometria social
e jurídica e construindo-se a interpretação à imagem desse mesmo código, enquanto silogismo
perfeito e subsuntivo, são igualmente sujeitas a revisão.
Consequência daquele modelo era a vigência de um direito profundamente alheado
do dinamismo social, que conscientemente se recusava a servir a vida na medida em que pres-
crevia a submissão desta às suas próprias pautas formais e logicistas. A ilusão da segurança,
da certeza e da igualdade era mantida mediante o sacrifício recorrente da justeza normativa e
da adequação material das soluções encontradas ao mérito das situações em que esse mesmo
direito era chamado a verter-se. E isto acontecia, indubitavelmente, graças à igualmente ilusória
doutrina do sentido claro da literalidade das disposições normativas.

3.3 Viragem linguística e interpretativa

A partir do momento em que se reconhece o absurdo de entender os sentidos dessas


disposições como previamente determinados a uma sua concreta aplicação – naquilo a que Alf
Ross designa de dogma do ordenamente jurídico pré-judicial18 – somos forçados a reconfigurar
uma série de concepções jurídicas tidas por tradicionais; concepções que vão desde a função
do jurista até às noções de segurança e certeza do direito. Não é apenas a possibilidade de dar
como claros e inequívocos os sentidos da disposição normativa que está em causa. É, sobretudo,
a impossibilidade de isso suceder sem a forçosa mediação de processos interpretativos.
A norma não transporta em si a absoluta determinação do seu próprio sentido, como
pretendia o pensamento juspositivista de oitocentos, antes resultando este, sempre e necessaria-
mente, de uma sua reconstituição criadora por parte do intérprete. Uma reconstituição a acon-
tecer num determinante e determinativo contexto pragmático. A compreensão dos enunciados
jurídicos não é nunca uma tarefa meramente receptiva, passiva ou mecânica, antes requerendo
uma especial atitude hermenêutica, aberta à sociedade e à cultura. E isto acontece assim por
diferentes razões.
As transformações ocorridas na viragem do século XIX para o século XX a propósito
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

do fenómeno linguístico, vêm não só expor a natureza necessariamente contextual de toda a lin-
guagem, que nessa medida vê os sentidos que veicula condicionados ao respectivo contexto de
utilização, como vêm igualmente mostrar a natureza linguística de todo o acto de compreensão.
O meaning is use wittgensteiniano e os jogos de linguagem em que a determinação dos sentidos
literais se vêem mergulhados a partir deste momento de viragem linguística e interpretativa,

17  Cfr. Luis PRIETO SANCHÍS, op.cit., pp. 185 e ss..


18  Cfr. Alf ROSS, Teoría de las fuentes del derecho. Una contribución a la teoría del derecho positivo sobre la base de investigaciones
histórico-dogmáticas, trad. de José Luis Muñoz de Baena Simón, Aurelio de Prada García y Páblo López Pietsch, Madrid, Centro de
Estudios Políticos y Constitucionales, 1999, pp. 102 e 103.

89
obrigam necessariamente a adoptar uma outra concepção do fenómeno da interpretação jurídi-
ca. Obrigam a ver o aplicador do direito, enquanto fundamental intérprete de uma ordem jurí-
dica complexa integrada numa complexa ordem cultural e dela dependente, mais como agente
interventivo e verdadeiramente criador de sentidos do que como mero espelho de um direito
pressuposto em todas as suas determinações19.
Não se trata de recusar à interpretação uma dimensão cognitiva, que ela indubitavel-
mente preserva. Até na medida em que é no enquadramento desse direito pressuposto que ela
encontra o fundamento da sua legitimidade e da sua autoridade. Mas patente se torna, agora, a
insuficiência de toda a solução jurídica baseada exclusivamente na lei. Se se parte da errónea e
ilusa ideia de que o juiz sempre aplica um direito já existente, com os seus significados pré-de-
terminados ao momento de verdadeira aplicação do mesmo - porque essa a sua vocação, emi-
nentemente prático-normativa, - não é possível entender adequadamente a função jurisdicional.
Não é possível ao aplicador-intérprete das normas jurídicas evitar a interpretação a
partir do momento em que entende estar em presença de uma norma de sentido claro, precisa-
mente porque a fronteira entre a clareza ou obscuridade da disposição normativa constitui já
de si um resultado interpretativo. A literalidade do texto não pode ser o elemento determinante
da sua clareza, que depende inequivocamente das circunstâncias em que é empregue esse tex-
to20. Já nem se trata de imputar a dificuldade em traçar essa linha à natural indeterminação ou
vagueza semântica da linguagem comum. Aquela que é maioritariamente empregue pelo legis-
lador quando consagra os textos legislativos que, nessa medida, vão partilhar dessa mesma plas-
ticidade significativa. Ou à constatação da textura aberta da linguagem, vincada por Waismann
em 1945 e desde então assimilada por largas franjas da doutrina e do pensamento jusfilosófico21.
Aquilo que, para além disso, se afirma, é a própria impossibilidade de reconhecer o
estatuto de clareza a uma qualquer disposição sem a mediação da operação hermenêutica. E isto
porque não é possível considerar em abstracto as situações de clareza ou dúvida de um texto, na
medida em que tal texto será claro ou duvidoso nas suas determinações semânticas – nos sen-
tidos que lhe deverão ser imputados e no âmbito de aplicação que se lhe reconhece – segundo
os concretos contextos do seu uso. A natureza convencional da linguagem e a necessidade de
adequar o sentido do enunciado jurídico às diferentes situações que possam cair dentro do seu
âmbito de regulamentação tornam indefensável a configuração da interpretação jurídica como
uma actividade meramente cognoscitiva.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

Não existe uma coisa como o significado próprio das palavras, que têm apenas o signi-

19  Referindo-se ao que denomina mito da “interpretação negativa” como o espelhismo de que é possível prescindir do trabalho do intér-
prete, Vittorio Frosini considera a expressão in claris non fit interpretatio não só enganosa como mesmo hipócrita, uma vez que “essa
atribuição da «clareza» constitui, na realidade, um postulado interpretativo, sobre o qual se constrói a consequência da lei. A verdadeira
clareza, pelo contrário, é a que resulta da interpretação, nunca a que a precede”. Cfr. Vittorio FROSINI, op. cit., p. 2.
20  Sobre o tema se debruçou largamente António CASTANHEIRA NEVES, op.cit., passim. No mesmo sentido se pronuncia Prieto
Sanchís, quando sublinha que “decidir que um texto é claro ou obscuro é justamente uma conclusão que só se alcança depois e não antes
de interpretar o texto, e esta conclusão também não será universalmente partilhada por todos os intérpretes”. Cfr. Antonio PRIETO
SANCHÍS, op.cit., p. 229.
21  Cfr. Joana AGUIAR E SILVA, Para uma teoria hermenêutica da Justiça. Repercussões jusliterárias no eixo problemático das fontes
e da interpretação jurídicas, Coimbra, Almedina, 2011, max. cap. IV.3

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ficado que lhes vem atribuído por quem as usa e por quem as interpreta, em contextos específi-
cos de exigência. Nessa medida, não só o significado e as decisões interpretativas são sempre,
em certa medida, variáveis, como inevitável será admitir que a actividade do jurista-intérprete
é sempre simultaneamente normativa e criativa. Para além de incontornável em qualquer mo-
mento de aplicação jurídica.

3.4 Méritos actuais da doutrina do sentido claro

Isto que vimos de dizer, reconheçamo-lo, não retira um certo acerto à doutrina subja-
cente ao princípio in claris non fit interpretatio. Os problemas interpretativos mais relevantes
surgem precisamente nos casos duvidosos ou controvertidos. Simplesmente estes não se deter-
minam a partir dos enunciados legislativos em si mesmos considerados, senão a partir dos con-
textos concretos em que estes vêm a ser utilizados, ou nos chamados contextos de decisão (ou
de enunciação). Uma mesma disposição suscita dúvidas numas ocasiões e não noutras. O que é
ponto assente é que a atribuição de sentidos à disposição e a delimitação do respectivo âmbito
de aplicação comportam sempre uma interpretação. E que, em algumas situações, essa seja fácil
de adoptar não significa que deixe de ser uma interpretação. Isto mesmo justifica a afirmação de
um jurista como Enrico Pattaro que, na linha aliás das contemporâneas teorias literárias ditas
da recepção, e dos trabalhos de Iser, Jauss, ou, no concreto domínio jurídico, Stanley Fish, mos-
tra de que forma o significado dos termos que compõem as expressões linguísticas, não estando
completamente ínsito nas palavras, se mostra dependente dos processos de aprendizagem atra-
vés dos quais passou o receptor, o leitor, o intérprete. Um processo em que desempenham um
papel fundamental os usos linguísticos consolidados, verdadeiro instrumento da comunicação
linguística. A tendência para considerar que as palavras têm um significado imanente, e assim
potencialmente claro, advém do facto de no seio de cada comunidade linguística, que adoptou
processos de aprendizagem semelhantes, palavras iguais suscitarem imagens ou noções simi-
lares22. É este processo de aprendizagem comum a todos os membros de uma determinada
colectividade social que cria essa falsa imagem segundo a qual determinados enunciados têm
significados óbvios. Muito emblematicamente, uma das obras que Fish dedica à questão tem
como título Doing what comes naturally.
Mas isso não nos pode desviar daquela que é a realidade, e que é a de que a atribuição
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

de sentidos a um qualquer enunciado linguístico, normas jurídicas incluídas, sempre resulta da


mediação de mais ou menos complexos e conscientes processos interpretativos.
É esta constatação que, de certo modo, sustenta parte das críticas que tivemos já
oportunidade de partilhar quanto à sobejamente conhecida distinção consagrada por Hart entre
casos fáceis e casos difíceis. Apenas nestes últimos, não previstos pela regra ou caindo sob a zona
de penumbra e incerteza do seu âmbito de aplicação, estaria o poder judicial legitimado a usar

22  Cfr. Enrico PATTARO, Introduzione al corso di filosofia del diritto, vol.II, apud Laura MIRAUT MARTÍN, op. cit., pp. 394 e 395.
Veja-se ainda, a este respeito, o magnífico texto de Hans-Georg GADAMER, “Hombre y lenguaje”, in Wahrheit und Methode, trad.esp.
Ana Agud Aparício y Rafael de Agapito, Verdad y Método, Salamanca, Sígueme, 1977, II vol., pp. 145-152.

91
de discricionariedade. O que Hart parece esquecer, no entender de autores como Castanheira
Neves, ou como Giuseppe Zaccaria, é que o facto de traçar fronteiras entre a facilidade ou
dificuldade de um caso, ou entre a clareza ou obscuridade de um texto normativo que se visa
aplicar, ainda que podendo parecer uma operação mecânica e imediata, é, com efeito, o resultado
de toda uma série de decisões interpretativas23.

3. 5 Metamorfose do conceito de norma jurídica

Este reconhecimento vem igualmente a projectar-se numa metamorfose do próprio


conceito de norma jurídica e dos conteúdos normativos. Se a teoria tradicional da interpretação
jurídica se atribuía a função de descoberta ou esclarecimento de sentidos das normas jurídicas,
hoje muitos são os que reclamam a consideração da norma não como dado que preceda a inter-
pretação mas antes como resultado ou produto da mesma. Destacada vai assim a competência
do intérprete enquanto aquele que verdadeiramente determina o conteúdo normativo das dispo-
sições jurídicas, e destacada vai também a interpretação como operação dirigida a estabelecer
algo que antes de realizado o processo interpretativo não existia, ou existia em mero estado
potencial: a norma jurídica. Desta forma, esta não se confunde com o documento normativo,
antes constituindo o resultado ao qual se chega através da realização da interpretação daquele
documento.
De acrescentar que a este resultado se chega ultrapassando claramente os conteúdos da
mensagem legislativa, que se vê reanimada e iluminada no contacto com o seu contexto de apli-
cação. Com efeito, é no contacto com a vida que pretende servir e regular que a disposição legal
ganha verdadeira densidade e concretude normativa. A norma que vai permitir resolver cada
situação é fruto de um processo hermenêutico que integra elementos não apenas da disposição
legal interpretada como das circunstâncias factuais a que com a mesma se visa atender. É isto
que nos permite afirmar que quando falamos em interpretação no âmbito da experiência jurídi-
ca nos estamos a referir não apenas à interpretação em sentido estrito de normas e material jurí-
dico, mas também à concretização aplicativa do direito, que compreende operações como sejam
a qualificação jurídica de casos concretos e a formulação de preceitos individuais (normas de
decisão) para a resolução de controvérsias materiais. A escolha das notas características que se
consideram relevantes em cada situação de facto vai influir na interpretação que fazemos dos
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

preceitos normativos, do mesmo modo que esta se vai repercutir sobre aquela, num processo de
constante vaivém de que resultará a determinação dos sentidos normativos.

23  “Também nos casos ditos fáceis, ou seja, quando a inclusão de uma determinada fattispecie no campo aplicativo de uma certa norma
parece relativamente indiscutível, o pressuposto é sempre representado pela interpretação e pela decisão relativa ao significado mais
apropriado a atribuir ao texto. Quando se defende que in claris non fit interpretatio confunde-se o ponto de chegada com o ponto de
partida: longe de ser pré-condição garantida, a clareza é o resultado de um procedimento intelectual, que é precisamente o procedimento
interpretativo…. “. Cfr. Francesco VIOLA / Giuseppe ZACCARIA, Diritto e interpretazione. Lineamenti di teoria ermeneutica del di-
ritto, Roma, Editori Laterza, 2004, 5.ª ed., pp. 116-117; 177 e ss..; António CASTANHEIRA NEVES, op.cit., pp. 21-22; Joana AGUIAR
E SILVA, op.cit., pp. 303-314.

92
4 HERMENÊUTICA E HERMENÊUTICA JURÍDICA

4.1 Mediação entre tensões existenciais da experiência jurídica

É precisamente neste esforço de redefinição da relação entre teoria e prática do direito,


através da acentuação do momento da aplicação no processo interpretativo, que a hermenêutica
jurídica encontra, ao longo do século XX e no que vai de século XXI, o seu carácter específico.
Colhendo frutos sobretudo da hermenêutica filosófica de Gadamer, mais do que da hermenêutica
historicista de Emilio Betti (mas não desprezando os seus inegáveis contributos), o programa de
trabalho da teoria hermenêutica do direito vem precisamente a focar-se na delimitação ou re-
organização da concretização dos sentidos normativos da lei através da sua referência ao caso
concreto. Reconhecendo que a determinação do direito é sempre e necessariamente também um
acto criativo do sujeito intérprete, e não apenas da vontade legislativa, torna-se agora inaceitável
uma teoria que mascare, remova ou relegue para segundo plano esse elemento constitutivo da
realidade jurídica24.
Nesta medida, a hermenêutica jurídica assume verdadeiramente a tarefa de operar a
mediação entre a natureza abstracta e universalizante da norma e a singularidade das circuns-
tâncias factuais, reconhecendo o abismo existente entre estas duas grandezas e o absurdo do
modelo clássico da subsunção silogística. É no momento da aplicação que estas tensões encon-
tram pacificação, precisamente pela via hermenêutica. É a conexão entre a interpretação dos
enunciados normativos e as circunstâncias de facto que abre a lei a significados normativos de
uma incessante vitalidade e renovação.
Enquanto aplicação – applicatio –, o discurso da hermenêutica jurídica opera a realiza-
ção do direito no caso singular, caracterizando-se estruturalmente como contínua mediação da
universalidade da norma no caso concreto, entre a racionalidade técnica e abstracta do comando
legal e a racionalidade prática convocada pelas exigências da materialidade concreta. Entre a
tradição dogmática do sistema e a consciência social impressa no problema. E isto num proces-
so em que nenhuma das polaridades se anula, antes encontrando momentos de equilíbrio que
representam a própria e ininterrupta positivação de um direito vivo e em constante renovação25.
Partindo do fundamental contributo que para a determinação de sentidos de um qual-
quer objecto linguístico - para a sua compreensão - representa o sujeito dessa determinação – o
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

intérprete, aquele que compreende -, a doutrina hermenêutica assimilada pela experiência jurí-
dica vem a revelar toda a sua dimensão ética e responsabilizante. Pois se, por um lado, toda a
hermenêutica parte de um impulso para compreender, e para compreender o que vem do outro,

24  Cfr. Giuseppe ZACCARIA, L’arte dell’interpretazione. Saggi sull’ermeneutica giuridica contemporanea,p. 58.
25  Para Gadamer, o potencial constitutivo que encerra a noção de applicatio, enquanto aditamento de sentido, encontra na hermenêutica
jurídica um lugar privilegiado. Cfr. Hans-Georg GADAMER,op. cit., I vol., pp. 378-414. Sobre a ideia de a partir da análise hermenêu-
tica instituir uma diferente noção de positividade jurídica, ver o nosso Para uma teoria hermenêutica da justiça, max. pp. 345 e ss., e
a bibliografia aí referida. Fundamental quanto à questão é a obra já citada de Giuseppe Zaccaria, L’arte dell’interpretazione, max. pp.
52-58. Cfr., igualmente, Arthur KAUFMANN, Filosofia do Direito, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 4.ª ed., 2010, pp. 67-70.

93
numa fundamental abertura e receptividade a esse outro, ela assume não apenas a complexi-
dade desse acto de compreensão, marcado por uma complexa rede de contextualidade e conse-
quente incerteza, como reconhece inequivocamente a construção de sentidos resultante como
função da natureza situada de quem compreende. De quem interpreta26.

4.2 Hermenêutica e dogmática metodológica

Assim concebido, o acto de compreensão não se compagina nunca com uma mera re-
cepção passiva do objecto a interpretar, e questiona inclusivamente o valor objectivo de regras
que pretendam delimitar o próprio iter interpretativo. Isto vem, naturalmente, contender com
toda a tradição interpretativa do direito, consagrada pelos estados legisladores de oitocentos.
Não é apenas a possibilidade de considerar como objectivos e claros os textos legais a inter-
pretar a que se põe em causa. É o próprio relevo das pautas metodológicas que o legislador da
modernidade tão diligentemente procurou consagrar que passa a ser encarado com reservas,
lançando no espírito dos mais cépticos a semente da desconfiança pelo receio de novamente se
cair em inadmissíveis arbitrariedades ou na irracionalidade da experiência prática do direito.
Dissemos antes que a mentalidade jurídica dominante de oitocentos acolheu de braços
abertos a doutrina da interpretação negativa, numa clara manifestação de apreço pela supe-
rioridade do legislador enquanto representante da vontade colectiva, assim corporizada numa
racionalidade positiva incontestável e auto-suficiente. Nos casos em que a literalidade da dis-
posição legislativa não bastasse para alcançar a clareza do seu sentido, haveria ainda assim
mecanismos legislativamente cogentes que impediriam a arbitrariedade judicial, conduzindo o
intérprete à determinação do mais exacto e correcto sentido imanente à norma. É assim que ao
juiz competirá interpretar a norma de acordo com uns critérios hermenêuticos canonizados já
em princípios do século XIX, e para cuja doutrina contribuiu decisivamente a obra de Friedrich
Karl von Savigny27.
Ora, para a hermenêutica, e de sobremaneira para a hermenêutica de raiz gadameria-
na, que bebe indubitavelmente dos trabalhos de Heidegger sobre o círculo hermenêutico, uma
noção que se configura central a todo o processo de compreensão/interpretação, é a de pré-com-
preensão. É esta que condiciona todo o acto compreensivo, que o antecipa, que determina os
seus resultados concretos. Identifica-se com um conhecimento pré-predicativo que vai referido
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

à irrecusável situacionalidade do acto compreensivo e à radical pertença do intérprete ao ‘ser’


da situação histórico-social28. Com esta ideia visa Gadamer delimitar os próprios sentidos a al-
cançar no curso do processo hermenêutico, subtraindo-os aos inóspitos domínios da irracionali-

26  Cfr. Francesco D’AGOSTINO, “Interpretación y hermenêutica”, in Persona y derecho, n.º 35, 1996, 39-56, pp. 45 e ss..
27  Desde logo a partir dos trabalhos consagrados em System des heutigen Römischen Rechts, v. I, 1840, trad. do alemão por M. Ch. Gue-
noux e vertido em esp. por Jacinto Mesía e Manuel Poley, Sistema del derecho romano actual, tomo I, Madrid, F. Góngora y Compañía
Editores, 1878, pp. 149 e ss..
28  A noção de pré-compreensão é por Gadamer reconduzida a Bultmann, quem a haveria adoptado para referir a relação vital do
intérprete com o texto, bem como a sua relação anterior com o tema do mesmo, que seriam ambas pressuposto de todo o acto de
compreensão. Cfr. Hans-Georg GADAMER, op. cit., p. 403.

94
dade ou do puro arbítrio, e isto na medida em que, embora ligada ao intérprete singular – aquele
que é chamado a aplicar a disposição abstracta a um caso concreto – a pré-compreensão não
configura um elemento de subjectivismo ou um acto individual, antes resultando da participa-
ção do intérprete num conjunto de ‘sentidos comuns’, fruto de uma socialização profissional
e de uma formação cívica e jurídica, de uma cadeia de interpretações que passam a constituir
uma tradição comum.
A subjectividade do jurista intérprete situa-se, pois, no interior de um contexto ob-
jectivo, no seio da “identidade estrutural da experiência jurídica no seu unitário sistema de
permanência”. Só a partir da radicação neste património comum de experiência e de conheci-
mento ganha significado o papel activo de quem a vai interpretar, receber e transmitir. Assim se
garante a própria racionalidade e coerência dos processos de interpretação jurídica29.
Ora, esta noção de pré-compreensão, aliada à fundamental dependência contextual
dos processos de interpretação e da determinação de sentidos das disposições normativas, tem
consequências inevitáveis ao nível da própria metodologia e do entendimento que se faz daque-
las consagradas pautas hermenêuticas. Poderíamos dizer que a hermenêutica filosófico-jurídica
torna transparentes as limitações das regras metodológicas da interpretação no direito, mos-
trando que aos resultados da compreensão é sempre imanente um momento criativo. A teoria
hermenêutica do direito torna mais nítido o facto de a compreensão se fundar na praxis da vida,
mostrando que as hipóteses apresentadas para a interpretação de um texto não são descobertas
através de um processo orientado por regras mas resultam do viver quotidiano, que se imprime
no texto que se procura compreender.
Esta uma crítica fundamental que atravessa Verdade e Método, apontando Gadamer
o erro que terá sido deixar que as regras a que obedece a procura da verdade nas ciências na-
turais do século XIX invadissem espaços que com elas não se compaginavam. Desde logo os
das ciências ditas do espírito, vertidas em formas de experiência em que se expressam verdades
que não podem ser verificadas com os meios ao dispor da metodologia científica oitocentista30.
E não se diga que esta reserva com que é encarado o recurso a pautas metódicas na
esfera da interpretação levada a cabo nas ciências do espírito, Direito incluído, se vem a tradu-
zir numa entrega ao relativismo ou ao subjectivismo. Os limites, os controles e a racionalidade
discursiva estão lá. E estão lá, distribuídos por vários patamares. O facto de se reconhecer a
insuficiência do objecto interpretado para justificar os resultados interpretativos não implica um
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

desprezo pelos limites representados por esse mesmo objecto. Como nos ensinou Umberto Eco,

29  Cfr. Giuseppe ZACCARIA, op.cit., p. xvi. A este propósito, e sobre o modo como a noção de pré-compreensão se entrelaça com o
conceito teológico da auto-compreensão, veja-se o texto de GADAMER intitulado “Hermenéutica y Historicismo”, in Verdad y Método,
I vol.pp. 599 e ss..Cfr., ainda, Benoît FRYDMAN, Le sens des lois, Bruxelles, Bruylant, 2.ª ed., 2007, max. pp. 636-639.
30  Esta ideia justifica o desabafo do filósofo alemão quando, em 1960, data da publicação da obra Verdade e Método, observa que “te-
remos que penosamente abrir o caminho até essa tradição (retórico-humanística), mostrando em primeiro lugar as dificuldades que
oferece para as ciências do espírito a aplicação do moderno conceito de método. Com vista a esse objectivo perseguiremos a questão
de saber como se chegou a atrofiar esta tradição e como as pretensões de verdade do conhecimento espiritual-científico caíram com
isso sob o padrão do pensamento metódico da ciência moderna, um padrão que lhes era essencialmente estranho”. Cfr. Hans-Georg
GADAMER, op. cit., vol.I, p. 54.

95
o texto permanece sempre parâmetro das suas próprias interpretações31. Da mesma forma, a
noção vital de pré-compreensão oferece garantias de fidelidade a uma comunidade de sentidos
históricos e de expectativas partilhadas que, se se imprimem na subjectividade do intérprete,
não deixam de constituir uma plataforma normativa de referência colectiva32.
Naquilo em que se traduz aquela doutrina jurídico-hermenêutica, é na desmistificação
da presumível objectividade da interpretação jurídica, e na desvalorização da crença dogmática
na superioridade do método jurídico, enquanto duas faces que são de uma mesma realidade.
Nisso, e num esforço diligente e inteligente de justificar de modo realista e razoavelmente mais
adequado aquela que é a realidade fenomenológica do direito e da jurisdição33.

4.3 Perversidade da doutrina do sens clair: os limites do método jurídico

A obrigação moderna que impende sobre o intérprete do direito de se ater estritamente


à lei é absurda, como absurda é a convicção de que a obediência estrita ao método proporcio-
nará indefectíveis garantias de certeza e de verdade científica. Nisto têm razão os autores que
apontam o dedo aos efeitos perversos da doutrina do sentido claro dos textos jurídicos. A falsa
transparência dos textos jurídicos vai, neste sentido, identificada com um “abrigo aparentemen-
te inocente por trás do qual se pode dissimular o exercício dogmático de um poder que assim
oculta ou dissimula os motivos reais das suas decisões, subtraindo-as a todo o controle ou dis-
cussão verdadeiramente racionais”34.
A exigência de uma estrita obediência à lei, assente nos pressupostos anteriormente
referidos, e aparentemente fundada na noção de Estado de direito, não vem a traduzir-se num
cumprimento mais exacto das prescrições legais por parte da jurisprudência, mas sim no ar-
tifício que consiste em esta dar a entender que se limita a cumprir as mesmas. Além de que,
para satisfazer uma tal obrigação, essa jurisprudência irá camuflar as inseguranças e incertezas
representadas pelos factores situacionais e contextuais subjacentes à sua interpretação, sob o
manto de uma demonstração de coerência, racionalidade metódica e inevitabilidade.
Os métodos jurídicos podem ser mais ou menos razoáveis, e úteis, mas, a partir do
momento em que, como mostra Zaccaria, têm que operar e ser aplicados em condições de
incerteza, dependentes do contexto de aplicação do direito, condicionados pela presença da
pré-compreensão do intérprete, limitados pela ambiguidade e pela textura aberta da linguagem,
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

não podem ser dotados de uma certeza absoluta. E não podem garantir essa certeza absoluta.

31  Cfr. Umberto ECO, Os limites da interpretação, Lisboa, Difel, 1990, p. 60.
32  A natureza potencialmente ideológica e, nessa medida contingente, desta pré-compreensão virá a suscitar vivo debate entre Gadamer
e Habermas, para quem o recurso a um ethos dominante (como o subjacente à noção de pré-compreensão), por via da interpretação,
não constituiria fundamento legítimo ou adequado da validade das decisões jurídicas. Cfr. Jürgen HABERMAS, Droit et Démocracie.
Entre faits et normes, Paris, Gallimard, 1997, p. 220; Benoît Frydman, op. cit., pp. 639 e ss..
33  Sobre o tendencial anti-metodologismo gadameriano, veja-se o que tivemos oportunidade de escrever em Para uma teoria hermenêu-
tica da justiça, max. pp. 371 a 373 e cap. V., ponto 7; no mesmo sentido, também Ulrich SCHROTH, “Hermenêutica filosófica e jurídica”,
in A. KAUFMANN / W. HASSEMER, op.cit., pp. 381 – 403, e ainda Francesco VIOLA / Giuseppe ZACCARIA, op.cit., p. 198.
34  Cfr. Michel VON DE KERCHOVE, “La doctrine du sens clair des textes et la jurisprudence de la Cour de cassation de Belgique”,
in Michel von de Kerchove, dir., L’Interprétation en droit. Approche pluridisciplinaire, Publications des Facultés universitaires Saint
Louis, Bruxelles, 1978, p. 49, apud Laura MIRAUT MARTÍN, op. cit., p. 398.

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Em última análise, a pluralidade de cânones hermenêuticos não possui um carácter jurídico
cogente35. E este é um aspecto em que a hermenêutica jurídica se mostra particularmente sen-
sível ao impulso antimetódico de Gadamer e à crítica por este dirigida à intenção oitocentista
de reduzir qualquer verdade científica a uma verificabilidade metódica. Protagonizando uma
viva resistência à pretensão de universalidade da metodologia científica, aquilo que pretende o
filósofo germânico é estudar a experiência da verdade em domínios que ultrapassam aqueles
que se mostram mais sensíveis ao controle da metodologia científica36.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

De tudo quanto vai dito, resulta a necessidade de convocar a hermenêutica naquilo


que possa constituir uma consciência pós-moderna em torno do método jurídico. Implicada irá,
como ao longo do texto procurámos mostrar, não propriamente uma rejeição pura e simples de
qualquer doutrina metodológica, mas a necessidade de reconfigurar a concepção de método à
luz de pressupostos que superam o ideal do formalismo e do procedimentalismo jurídicos oito-
centistas de não sujar as mãos com a vida que ao direito cabe regular. Fazendo do condiciona-
lismo histórico-cultural da compreensão jurídica, das infra-estruturas do pensamento jurídico e
das expectativas de sentido com que são interrogados os textos um problema interno da raciona-
lidade jurídica, aquilo que se propõe é uma concepção mais refinada e mais crítica do problema
do método jurídico, que não é senão o problema da racionalidade das soluções jurídicas.
Deste ponto de vista, o método jurídico não se reconduz a uma doutrina jurídica par-
ticular e determinada, seja ela de tendência logicista, formalista ou naturalista, antes se encon-
trando em todas as posições que rejeitam o improviso e a irracionalidade do direito37. Não é
pelo facto de se reconhecer que o raciocínio do intérprete não é passível de ser descrito aprio-
risticamente ou recondutível a critérios de lógica silogístico-dedutiva que ele se torna por isso
desprovido de regras que o subtraiam ao arbítrio ou à casualidade. As regras são precisamente
aquelas que sugere o pensamento hermenêutico, reconhecendo a natureza profundamente ética
do acto interpretativo, reconhecendo o condicionamento histórico e a delimitação de possibi-
lidades da dogmática metodológica, e reconhecendo assim, igualmente, o âmbito de liberdade
e de dinamismo em que forçosamente se movem os processos da interpretação jurídica. Uma
liberdade e um dinamismo que não deixam de ser, assim, informados por um conjunto de
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

constrangimentos que impõe uma aura de racionalidade e de razoabilidade a toda a experiência


jurídica enquanto realização de uma justiça material. Uma racionalidade e uma razoabilidade
que, desde logo, se vertem e se espelham na necessidade da fundamentação e da motivação de
cada decisão interpretativa, operações em que aos tradicionais cânones hermenêuticos caberá

35  Cfr. Giuseppe ZACCARIA / Francesco VIOLA, op.cit., pp. 211 e ss..
36  “À medida que os métodos da ciência se estendem a todo o existente”, diz-nos Gadamer, “torna-se mais duvidoso que os pressupostos
da ciência permitam colocar a questão da verdade em todo o seu alcance”. Cfr. Hans–Georg GADAMER, op.cit., pp. 52; pp. 23-27; 31-74.
37  Cfr. Jean-Louis BERGEL, Méthodologiejuridique, PUF, Paris, 2001, p. 29.

97
porventura um importante papel orientador.
Em larga medida, tem razão Zaccaria quando sublinha que, na senda do antigo ensina-
mento aristotélico, para Gadamer, e para a hermenêutica, o método se desenvolve e se verifica
apenas na medida em que se pratica: aquilo que ele é, mostra-se no seu uso. Ou, invocando as
palavras imortaisde Antonio Machado,o caminho faz-se ao andar38.
E isto, para terminar, traz-nos à memória um comentário proferido por um velho teólo-
go alemão, citado por Paulo Cunha nas suas meditações sobre o Código Civil: “deixemos a teo-
ria ser céu e a realidade ser terra”39. Poderíamos dizer que na teoria hermenêutica da interpre-
tação jurídica encontramos uma plataforma de integração que nos permite preservar o melhor
daqueles dois mundos pela sua recriação num terceiro: nem pura teoria nem mera praxis, mas
uma noção alternativa de direito que, superando as limitações de cada uma daquelas polarida-
des, as caldeie hermeneuticamente num verdadeiro constituendo de justiça jurídica.

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38  Cfr. Giuseppe ZACCARIA / Francesco VIOLA, op. cit., p. 223; Joana AGUIAR E SILVA, op. cit., pp. 373 e ss..
39  Cfr. Paulo CUNHA, “Do Código Civil (Meditações sobre a lei mais importante do País)”, O Direito, anos 106.º-119.º, 1974/1987,
reproduzido de O Direito, ano 98 (1966), pp. 313 e ss., e ano 99 (1967), pp. 8 e ss..

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HERMENEUTICAL CHALLENGES OF POSTMODERN LEGAL THINKING:


BETWEEN TEXT, NORM AND METHOD / BEYOND THE NEGATIVE
INTERPRETATION

ABSTRACT
The twentieth and twenty-first centuries brought with it a manifest ero-
sion of the fundamental assumptions upon which the assurances and de-
terminations of scientific knowledge and truth were previously ground-
ed. Resulting from this erosion, the legal-normative body has sought to
assimilate within itself the modulations in which, at that level, the her-
meneutical developments have been translated, bringing to the surface
irrefutable tensions in whose dynamics the Law has been reconstituting
itself. The fragmentation and fluidity of the postmodern condition are
thus projected in the centrality of the legal-hermeneutic construction
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

processes.
Keywords: Hermeneutics. Postmodernity.Method.

100
DIREITO FRATERNO: A RACIOVITALIDADE NECESSÁRIA PARA A
CONSTITUIÇÃO DE UMA SOCIEDADE-MUNDO

Sérgio Ricardo Fernandes de Aquino1

RESUMO
Esse artigo destina-se a refletir os significados propostos pela Amizade
no pensamento de Sêneca e Elígio Resta como fundamento de se propor
um Direito Fraterno o qual se desvela por meio da Sociedade-Mundo.
O objetivo geral é investigar se a Amizade possibilita criar condições
sustentáveis para a disseminação da socialidade no mundo preservadas
pelo Direito e Fraternidade no ambiente da Sociedade-Mundo O méto-
do utilizado é o Indutivo. Ao final, conclui-se que sem a Amizade não é
possível constituir a Sociedade-Mundo. O Direito Fraterno surge como
vetor organizacional para esclarecer sobre a necessidade do exercício
permanente das virtudes humanas.
Palavras-chave: Amizade. Sustentabilidade. Direito Fraterno. Socie-
dade-Mundo. Raciovitalidade.

“[...] Quando as pessoas são amigas, não tem necessidade de justiça, enquanto
mesmo quando são justas elas necessitam de amizade; considera-se que a mais
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

autentica forma de justiça é uma disposição amistosa”. (Aristóteles)

1  Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu – Mestrado – em Direito da Faculdade Meridional – IMED (Passo
Fundo-RS, Brasil). Doutor e Mestre em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI. Pesquisador da Faculdade
Meridional. Membro do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciências Humanas, Contingência e Técnica na linha de pesquisa
Norma, Sustentabilidade e Cidadania da Universidade Federal do Maranhão - UFMA. Membro associado do Conselho Nacional de
Pós-Graduação em Direito - CONPEDI. Coordenador do Grupo de Pesquisa em Ética, Cidadania e Sustentabilidade no Programa de
Mestrado em Direito (PPGD) da Faculdade Meridional - IMED. Membro do Grupo de Pesquisa sobre Direitos Culturais e Pluralismo
Jurídico da Faculdade Meridional - IMED. Membro do Grupo de Pesquisa sobre Transnacionalismo e Circulação de Modelos Jurídicos
da Faculdade Meridional - IMED. Líder, em participação com o Professor Dr. Neuro José Zambam, no Centro Brasileiro de pesquisa
sobre a teoria da Justiça de Amartya Sen. Membro associado da Associação Brasileira de Ensino de Direito - ABEDi. Membro do Grupo
de Pesquisa em Direito Empresarial e Sustentabilidade, do Instituto Blumenauense de Ensino Superior.

101
1 INTRODUÇÃO

A Amizade surge como fenômeno a qual desestabiliza a individualidade egoísta pro-


curada como bem moral supremo. A conquista de riquezas materiais, os prazeres fugazes, mo-
mentâneos, segundo o pensamento de Aristóteles, não conduzem à Felicidade, compreendida
como elemento de manutenção social e política da convivência humana.
Nessa linha de pensamento, a Amizade amplia os espectros sociais e político, permite
a constituição de outros paradigmas, como é o Direito Fraterno. A Amizade aposta na Fraterni-
dade ao desvelar que a nossa humanidade compartilhada não se refere apenas ao tão somente
a um significado antropocêntrico, mas de toda a cadeia vital de seres que habitam a Terra.
Não existe Direito Fraterno sem a sua razão interna: a Amizade. Percebe-se que essa última
expressão citada conduz à formação da Terra-Pátria e de uma Sociedade-Mundo. Somente a
Amizade viabiliza a Sustentabilidade dessa perspectiva integradora quando se compreende a
expressão unitas multiplex (do latim, unidade múltipla).
O critério metodológico utilizado para essa investigação e a base lógica do relato dos
resultados apresentados reside no Método Indutivo2. Na fase de Tratamento dos Dados3, uti-
lizou-se o Método Cartesiano4 para se propiciar indagações sobre o tema e a necessidade de
se refletir como a Amizade representa um fundamento teórico e prático para que se possa
desenvolver o Direito Fraterno e preservar a Sociedade-Mundo a partir da Sustentabilidade.
As técnicas utilizadas nesse estudo serão a Pesquisa Bibliográfica5, a Categoria6 e o Conceito
Operacional7, quando necessário.
O problema desta pesquisa pode ser descrito na seguinte indagação: a Amizade surge
como possibilidade – teórica e prática – que modifica o paradigma do Direito proposto na Ida-
de Moderna de “forte” e “fraco”, “vencedor” e “vencido” e possibilita a criação de condições
sustentáveis às Relações Humanas, representada na expressão Sociedade-Mundo8? A hipótese
para essa pergunta surge, inicialmente, como positiva na medida em que a referida categoria
cria cenários mais pacíficos, pois se dissemina o esclarecimento de nossa humanidade com-

2  “[...] base lógica da dinâmica da Pesquisa Científica que consiste em pesquisar e identificar as partes de um fenômeno e colecioná-las
de modo a ter uma percepção ou conclusão geral”. (PASOLD, 2011, p. 205)
3  “[...] os frutos da Investigação são os Dados Recolhidos, que no caso da Ciência Jurídica, são as formulações doutrinárias, os elemen-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

tos legais e jurisprudenciais colecionados em função do Referente estabelecido; [...]”.(PASOLD, 2011, p. 83). Grifos originais da obra
em estudo.
4  “[...] base lógico-comportamental proposta por Descartes, [...], e que pode ser sintetizada em quatro regras: 1. duvidar; 2. decompor; 3.
ordenar; 4. classificar e revisar”. (PASOLD, 2011, p. 204).
5  “[...] Técnica de investigação em livros, repertórios jurisprudenciais e coletâneas legais”. (PASOLD, 2011, p. 207).
6  “[...] palavra ou expressão estratégica à elaboração e/ou expressão de uma idéia”. (PASOLD, 2011, p. 25). Grifos originais da obra
em estudo.
7  “[...] uma definição para uma palavra ou expressão, com o desejo de que tal definição seja aceita para os efeitos das idéias que
expomos [...]”.(PASOLD, 2011, p. 37). Grifos originais da obra em estudo. Toda Categoria que aparece neste estudo será destacada com
letra maiúscula.
8  A categoria, para esse estudo, designa os modos de interação entre as pessoas, enquanto nessa relação existir o reconhecimento mútuo
como seres humanos. As Relações Humanas comportam os ires e vires sobre a certeza e incerteza de nossa humanidade perante o Outro.
Segundo Morin, na medida em que o ego não se abre para a diferença do Outro, esse se torna estranho para nós. Sob diferente ângulo,
a abertura altruísta frente ao semelhante o torna simpático. Não há interação humana se o Outro não é reconhecido como Pessoa, mas
tão somente objeto. (MORIN, 2007, p. 77).

102
partilhada como esse apelo à condição de humanidade a qual todos estão expostos: somos
precários, finitos, provisórios, incompletos. É necessário, sob esses argumentos, que o Outro
seja percebido pelo “Eu” a partir dessas características. A partir desse cenário, a Amizade surge
como fundamento para se estabelecer vínculos sustentáveis de Socialidade9 e Fraternidade em
todo o território terrestre.
O Direito precisa (re)conhecer a Amizade como modo de se preservar, indefinida-
mente, as relações humanas na Terra. Por esse motivo, o Direito não consegue cumprir com as
finalidades deste fundamento – o da Amizade – se esse não for esclarecido e perpetuado (Sus-
tentabilidade) no decorrer do tempo.
O Objetivo Geral deste estudo é investigar se a Amizade possibilita criar condições
sustentáveis para a disseminação da Socialidade no mundo preservadas pelo Direito e Fraterni-
dade no ambiente da Sociedade-Mundo. Os Objetivos Específicos podem ser descritos como: a)
Definir Amizade; b) Definir Sustentabilidade; c) Identificar as proposições teóricas para Amiza-
de; d) Avaliar as proposições de Amizade como fundamento para a constituição de um modelo
de Direito Fraterno na Sociedade-Mundo por meio da Sustentabilidade.

2 OS FUNDAMENTOS DA AMIZADE NO PENSAMENTO DE SÊNECA10

Desde Aristóteles, percebe-se a importância da Amizade como fundamento político


do conviver. O ambiente criado pela citada categoria possibilita o exercício da Virtude e conduz
à Felicidade. Entretanto, essa categoria, sob o ângulo da Filosofia Estoica11, parece trazer indí-
cios que se tornaram esquecidos na sociedade contemporânea.
Nesse caso, Sêneca destaca as qualidades necessárias para uma vida feliz. Verifica-se,
conforme o pensamento de Sêneca, a convergência de argumentos aos propostos por Aristó-

9  Essa categoria distingue-se de sociabilidade porque aquele exprime uma solidariedade de base na qual explana esse estar-junto. Aproxi-
ma-se da categoria societal vista em Durkheim, ultrapassa o sentido de solidariedade mecânica e é reenviado à solidariedade orgânica.
(MAFFESOLI, 2001, p. 26).
10  “Tanto por sua obra política, como por sua obra escrita, Sêneca pertence à Filosofia. É, com toda justiça, um dos representantes mais
célebres da ‘filosofia vivida’, característica do espírito romano. Situa-se, cronológica e espiritualmente, entre um Catão de Útica e o
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

imperador Marco Aurélio. Seu pensamento, filiado à tradição escolar helênica e romana, também foi marcado pelas experiências por que
passou. Sêneca é oriundo de uma família romana instalada na província de Bética, em Córdoba, uma cidade que conservara simpatias
pelo partido pompeano e tradições de rigor moral. O menino (nascido por volta de 2 a. C., mas isto é muito incerto) foi levado a Roma
muito cedo e foi lá que recebeu sua formação, tanto com o retórico como com os filósofos, dos quais foi um ouvinte assíduo e entusiasta.
Conheceu, também, durante a adolescência, o ensino de Átalo, um estóico, depois o do ‘pitagórico’ Sócion, um alexandrino místico, que
iniciou o rapaz numa vida ascética. Outro mestre, Papírio Fabiano – discípulo do estóico romano Q. Sexto Nigro,que escrevia e lecionava
em grego, mas cujas idéias eram totalmente romanas -, acentuava a possibilidade que o homem tem de conseguir uma vida feliz, à força
de coragem e energia. Tudo indica que Papírio Fabiano deu ao ensino de Sexto sobretudo uma forma eloqüente, que seduzia o jovem
Sêneca”. (HUISMAN, 2004, p. 912).
11  Segundo Störig: “A filosofia estóica, pelo menos em sua parte mais importante, a ética, está estreitamente ligada à escola socrática
dos cínicos. Mas ela ameniza os numerosos exageros do antigo cinismo, o que constituiu uma condição para que suas doutrinas fossem
mais amplamente aceitas, conferindo um lugar muito mais importante ao saber. As duas coisas, estar ligado aos cínicos assim como o
ultrapassá-los, já se manifestam na vida do próprio Zenão, que de início, em Atenas, ligou-se estreitamente ao cínico Crates [...], mas que
depois de algum tempo reconheceu que esta doutrina não podia, sozinha, fornecer um programa de vida válido para todos; por isso ele
começou a estudar entre os filósofos, terminando por funda a sua própria escola, na qual os ensinamentos cínicos estavam associados
aos de outros filósofos, por exemplo de Heráclito”. (STÖRIG, 2008, p. 161).

103
teles, pois a constituição da vida sadia não se distancia da Virtude12 e da Razão. Entretanto,
adverte esse autor que a tarefa de conseguir a Felicidade como Bem Supremo13 não é fácil.
Qualquer desvio desse caminho, promovido pelos prazeres efêmeros, dificulta a manutenção de
uma vida feliz no seu sentido duradouro.
A Felicidade não pode ser caracterizada pelas divergências, pelos rumores, pela dis-
córdia das multidões as quais não se guiam pelo discernimento14 sereno da Razão. Para Sêneca
(2009, p. 3): “[...] é o cuidado de não seguir os que nos precedem, à maneira do gado, em que os
de trás seguem os dianteiros, dirigindo-se não onde devem ir, mas aonde vão os da vanguarda”.
A busca pela vida feliz não concorda com a fugacidade das riquezas materiais, da adu-
lação àqueles que detêm o Poder15. A leitura da obra de Sêneca (2009, p. 7) revela que as pessoas
nas quais admiram essas qualidades (ou quem as exercita com habitualidade) se tornam poten-
ciais inimigos ou invejosos. O caminho desejado para a Felicidade é sadio, vigoroso. Pauta-se
em valores originários, autossuficientes, diferente da natureza efêmera de valores instrumentais
que não conseguem, no decorrer do tempo, satisfazer a necessidade humana de promover o bem
por meio de ações consideradas boas em si.
A partir desses argumentos, o que seria, para Sêneca, uma vida feliz? É aquela na
qual concorda com a natureza16. Os princípios enunciados pelo mundo natural são diferentes
da condição (e natureza) humana. Revelam-se como imutáveis, perfeitos, ataráxicos17. Por esse
motivo, devem ser observados pela Razão a fim de todas as pessoas buscarem (e promoverem)
o bem, a proximidade, o belo, o justo, o equilíbrio.
Trata-se de escolher bens os quais não se diluem, nem se esvaziam de significados – es-
pecialmente axiológicos - no decorrer do tempo. Esses são sólidos, permanentes, constantes, mas
precisam ser garimpados diante a multiplicidade de desejos e ambientes nos quais a vontade pre-
cisa conhecer, eleger e decidir para ser expressa por meio de nossas ações (SÊNECA, 2009, p. 8).

12  Nas palavras do citado filósofo: “[...] A virtude é algo elevado, excelso e régio, invencível, infatigável; o prazer é baixo, servil, fraco,
passageiro; seu lugar e morada são os bordéis e as tavernas. Encontrarás a virtude nos templos, no foro, na cúria, em pé diante das
muralhas, coberta de pó, tez queimada pelo sol, mãos calejadas; o prazer, pelo contrário, muitas vezes o verás escondido, em busca das
trevas, ao redor dos banhos, saunas, nos lugares temerosos da vigilância do edil, mole, desfibrado, gotejando vinho e perfumes,
descorado, maquilado, embalsamado como um cadáver”. (SÊNECA, 2009, p. 18).
13  “[...] o bem supremo é imortal, não sabe o que é perecer, não fica saciado nem se arrepende. Uma alma reta nunca se transforma nem
é odiosa em si mesma, em nada se afasta do melhor modo de viver; o prazer, porém, extingue-se justamente quando mais deleita, o seu
campo não é muito amplo e, por isso, logo sacia, causa tédio e definha depois do primeiro impulso”. (SÊNECA, 2009, p. 19).
14  “[...] devemos discernir tanto aquilo para que tendemos quanto o meio de conseguir o desejado, não sem escolher um perito, conhe-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

cedor profundo do caminho em que nos metemos, porque as condições dessa viagem não são as mesmas que as dos demais itinerários”.
(SÊNECA, 2009, p. 2).
15  “[...] o Poder é a encarnação dessa energia provocada no grupo pela idéia de uma ordem social desejável. É uma força nascida da cons-
ciência da consciência coletiva e destinada ao mesmo tempo a assegurar a perenidade do grupo, a conduzi-lo na busca do que ele consi-
dera seu bem e capaz, se necessário, de impor aos membros a atitude exigida por essa busca. [...] Portanto, não é verdade que a realidade
substancial do Poder seja o mando, o imperium; ela reside na idéia que o inspira. Não há duvida que essa idéia pode ser respeitável ou
suspeita; pode ser geradora de crimes bem como de iniciativas felizes. Mas, como toda política é ação finalizada, não se concebe como
um Poder, agente de uma política, poderia, em sua própria essência, não ser marcado pelo fim que a determina ou serve para legitimá-la”.
(BURDEAU, 2005, p. 5). Grifos originais da obra em estudo.
16  O filósofo esclarece: “[...] Ora, isso não poderá ocorrer se, em primeiro lugar, a mente não for sã e não estiver em perpétua posse da
própria saúde e, em seguida, corajosa, enérgica, nober, paciente e acomodada às várias situações. Ela deverá também cuidar sem ansie-
dade do corpo e que se refere a ele, das coisas que adornam a vida, sem se deixar deslumbrar por nenhuma, e estar pronta a utilizar os
dons da fortuna, sem ser escrava deles”. (SÊNECA, 2009, p. 9).
17  A Ataraxia, sob o ângulo da Filosofia Estóica, denota “[...] o ideal de imperturbalidade ou da serenidade da alma, em decorrência do
domínio das paixões ou da extirpação destas [...]”. (ABBAGNANO, 2003, p. 87).

104
O ser humano feliz18 é descrito pelo citado filósofo como aquele no qual não se permite
deslumbrar com a fugacidade dos prazeres, pratica o bem e se contenta com a Virtude. A vida
conduzida pela Felicidade se revela a partir de almas livres as quais conhecem o Bem Supre-
mo19. Dentre essas virtudes as quais conduz todos para a Felicidade, está a Amizade.
A categoria estudada nesse tópico, conforme as palavras de Sêneca, não ocorrerá sem
escolha prudente, sem discernimento promovido pela Razão. Caso contrário, a escolha dos ami-
gos torna-se uma atividade perigosa e caracteriza a palavra como banal20. A proximidade entre
o “Eu” e o (pretenso) amigo se desvela na medida em que o conheces como a ti próprio. É ideal
uma vida, rememora Sêneca, na qual se possa partilhar os segredos íntimos com todos, inclusi-
ve os inimigos. Entretanto, essa via nem sempre é possível. Esse é o fundamento necessário de
se ter (e confiar nos) amigos21.
Esse filósofo expõe, ainda, os benefícios da Amizade na partilha (e cumplicidade) da
Sabedoria22. O espaço fértil criado pela categoria estudada possibilita diversas metamorfoses23,
especialmente àquelas as quais revela (e torna viável reconhecer) a existência dos próprios defei-
tos. O vínculo amistoso forja a Sabedoria, reivindica a autocrítica e autorreflexão. É nesse ir e vir
dialogal24 que se produzem as mudanças desejadas a fim de se humanizar permanentemente25.
Se a Amizade produz a Sabedoria, indaga Sêneca, o sábio necessita de amigos ou se
torna autossuficiente pela produção do conhecimento26? Sob esse argumento, evidencia-se, num
primeiro momento, a desnecessidade da daquela primeira categoria citada no início desse pa-
rágrafo, pois a Razão é capaz se iluminar qualquer dúvida humana. Entretanto, o mencionado
filósofo descarta essa possibilidade. Não existe ser humano capaz de viver fora do espaço das
sensações. Segundo Sêneca (2002, p. 45): “[...] o nosso sábio vence todos os desagrados, mas
nem por isso os deixa de sentir”.

18  “[...] pode ser chamado de feliz quem não ambiciona nem teme, graças à razão, pois as pedras carecem de temor e tristeza, assim como
o gado. Contudo, ninguém as dirias felizes, já que não têm a compreensão da felicidade”. (SÊNECA, 2009, p. 14).
19  “[...] o conhecimento da verdade nos trará uma alegria imensa e imutável, a bondade a expansão da alma. Com isso a alma se deleitará,
não por serem bens, mas por provirem do seu próprio bem”. (SÊNECA, 2009, p. 13).
20  “[...] Se tu vês um homem como amigo sem teres nele tanta confiança quanto em ti mesmo, tu te enganas muito e só tens uma vaga
idéia do valor da verdadeira amizade”. (SÊNECA, 2002, p. 37).
21  “[...] é um erro não confiar em ninguém, bem como confiar em todos; direi que num caso nós agimos de maneira mais segura, e no
outro de maneira mais honesta”. (SÊNECA, 2002, p. 39).
22  “Não podes imaginar quantas mudanças sinto produzirem-se em mim a cada dia! ‘Faze com que eu me beneficie, tu me dirás, desse
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

remédio tão eficaz!’ Claro que desejo fazer com que tu o absorvas por completo, pois se tenho prazer em aprender é para ensinar; nenhu-
ma descoberta poderia interessar-me, por mais útil e importante que fosse, se eu tivesse que ser o único a lucrar com ela. Se me derem a
sabedoria com a condição de que eu a guarde para mim sem poder transmiti-la, eu a recusarei. Não é agradável possuir um bem quando
não podemos dividi-lo”. (SÊNECA, 2002, p. 42).
23  “Eu sinto Lucílio, não apenas que me corrijo, mas que me torno outro! Não poderia afirmar, nem esperar que não houvesse mais nada
em mim que não fosse passível de mudança: ainda que tenho muitas qualidades a adquirir ou a reforçar e fraquezas a atenuar. Mas já é
uma melhora reconhecer os próprios defeitos que até então eram ignorados”. (SÊNECA, 2002, p. 41).
24  “[...] a conversa de viva voz te será mais útil do que a exposição escrita. Tu precisas ficar diante das coisas: primeiro, porque damos
mais confiança aos olhos do que aos ouvidos; depois, porque com as lições o caminho é longo, ao passo que com exemplos ele é curto
e seguro”. (SÊNECA, 2002, p. 42).
25  “[...] Enquanto aguardo, já que te devo a minha contribuição diária, eu te envio esta frase que hoje tive o prazer de ler em Hecatão: ‘Per-
gunta-me, escreve ele, que progresso eu fiz? Tornei-me meu amigo.’ Grande progresso! Nunca mais estará só”. (SÊNECA, 2002, p. 43).
26  “Tem Epicuro razão em censurar, numa de suas cartas, os que pretendem que o sábio basta a si mesmo, e que, portanto, não precisa
de amigos? Eis o que desejas saber. Tal censura é dirigida por Epicuro a Stilpon e àqueles que consideram a alma impassível como o
soberano bem”. (SÊNECA, 2002, p. 45).

105
O sábio, ainda que consiga vencer as paixões, esclarecer sobre si e os fenômenos por
meio da Razão, exercer a Virtude habitualmente, precisa de amigos27. A Amizade, conforme o
pensamento desse filósofo, precisa ser praticada não apenas nos casos de enfermidade, necessi-
dade ou quando sua Liberdade sofrer ameaça. Caso o(a) pretenso(a) amigo(a) aja conforme essas
características, não se trataria de Amizade, porém de “interesse circunstancial”28. Essa ação
não pode ser considerada virtuosa, tampouco conduzir para uma vida feliz.
Percebe-se que a condução para uma vida feliz, nas palavras desse filósofo, é a orienta-
ção conforme as regras do mundo natural: mente sadia, esclarecida por meio da Razão, na qual
exercita a Virtude e evita as adulações políticas, os exageros das riquezas materiais e a ilusão
forjada pelos desejos efêmeros. A busca pelo Bem Supremo consiste na caracterização de ações
equilibradas, cujo resultado é a Felicidade.
A Amizade, para Sêneca, não nasce, apenas, de uma escolha racional, mas se origina,
também, dos nossos instintos. As pessoas procuram conviver e não se isolarem. Na medida em
que estabelecem vínculos amistosos, cria-se um ambiente fértil para as relações humanas e a
produção do conhecimento. A vivência da Amizade esclarece como a proximidade não-circuns-
tancial do “Eu” com o “Tu” estabelece, na maior amplitude possível, a nossa humanidade com-
partilhada29. Esse é o início de uma Sociedade-Mundo que já se observa em Sêneca (2008, p. 44):

[...] Quando estou com meus amigos, não me distancio de mim mesmo. Não me
deixo ser tomado por pessoas as quais a obrigação social colocou-me em companhia:
pertenço apenas aos mais virtuosos. Seja onde for a sua pátria ou em que século tenham
vivido, é para eles que se volta o meu pensamento.

Entretanto, apesar dessa amplitude social, política e filosófica estudada nas ações
amistosas, é possível observar os seus efeitos, ainda, na formulação do Direito? O pensamento
de Elígio Resta apresenta a Amizade como fundamento de um fenômeno no qual ultrapassa os
interesses nacionais. Trata-se do Direito Fraterno.

3 OS FUNDAMENTOS DA AMIZADE NO DIREITO FRATERNO A PARTIR DE


ELÍGIO RESTA

Sob ângulo diverso aos argumentos apresentados por Sêneca, a Amizade, segundo o
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

pensamento de Resta, não pode ser considerada como elemento nostálgico que representa uma
promessa esquecida. Ao se relembrar dessa palavra cujo conteúdo viabiliza condições de Frater-

27  “[...] O homem detesta a solidão e por natureza vai em direção ao próximo; nele também há o impulso que o leva a procurar a amizade”.
(SÊNECA, 2002, p. 50).
28  “[...] O amigo escolhido por interesse só agradará enquanto for útil”. (SÊNECA, 2002, p. 47/48).
29  Antes de se despedir de Lucílio, Sêneca rememora o significado amistoso do “Conhece-te”: “[...] Saibas que se tiveres semelhante
amigo, terás o gênero humano por amigo”. (SÊNECA, 2002, p. 43).

106
nidade30 no planeta, não se pode encerrá-la numa definição. As portas fechadas que constituem
a definição de “Amizade” podem gerar diferenciações, ressentimentos, segregações.
A expressão anteriormente mencionada é caracterizada pelos seus paradoxos que se
desvelam na vida de todos os dias. Trata-se de lugar no qual é possível criar as estratégias huma-
nas do Direito31 que pode vir a ser, do Direito desejável. A má compreensão desses paradoxos
produz a chamada “lei da amizade” e reforça o modelo amigo/inimigo (RESTA, 2004, p. 19/20).
Desconfigura-se a Fraternidade quando a Amizade perde seu caráter espontâneo. O
sedimento das relações humanas e jurídicas proporcionado pela amizade fraterna dilui-se para
constituir uma “proteção institucional às avessas”, ou seja, torna-se apenas uma descrição legal
vazia de significado. Exige-se a obediência ao Poder sem qualquer vínculo de proximidade e
reconhecimento. Essa é a garantia soberana de neutralização dos conflitos, das hostilidades e
controle da Paz.
Por que a Fraternidade tem como fundamento a Amizade? A leitura da obra de Resta
parece deixar claro essa resposta: a Amizade tem um efeito estético32 que integra as pessoas
reveladas pelas situações paradoxais as quais são sentidas em comum por todos (RESTA, 2004,
p. 20). A Amizade não é força que paralisa, quando desconfigurada da postura paternalista
do Estado-nação, mas representa a regeneração utópica33 daquilo no qual favorece a conti-
nuidade do conviver.
A Amizade anima a Fraternidade e ambas produzem a Estética da Convivência34 por
representarem, sob o ângulo da ação, uma obra de arte estritamente humana. A Humanidade é
descoberta nas esquinas e diálogos amistosos do dia a dia35. Eis o nascedouro de deveres36 junto
ao Outro expressos pela Amizade como fundamento do Fraterno.
Percebe-se, ainda, que os amigos estão em qualquer lugar do território terrestre, mas
são desconhecidos. Toda vida compartilhada se torna mais significativa pela proximidade de
sentimentos que se desdobra de significados junto com o Outro, porém não significa que na

30  “[...] forma intensa de solidariedade que une pessoas que, por se identificarem com algo profundo, sentem-se ‘irmãs’. [...] Por essa espe-
cificação, portanto, somos induzidos a considerar a fraternidade uma das facetas com as quais se manifesta o princípio da solidariedade,
de firme arraigamento jurídico, [...]”. (PIZZOLATO, 2008, p. 113).
31  Categoria multidisciplinar que se revela como “[...] compreensão [...] in acto, como efetividade de participação e de comportamentos,
sendo, essencial ao seu conceito a vivência atual do direito, a concreta correspondência das formas da juridicidade ao sentir e querer,
ou às valorações da comunidade”. (REALE, 2010, p. 31). Grifos da obra original em estudo.
32  “[...] O Direito e a Política na transmodernidade poderão estimular as estratégias necessárias para a autonomia das pessoas e da socie-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

dade, a fim de que estas tenham possibilidades de ser criativas e de buscar razões mais profundas de viver. Falo de vida em que o respeito
ao outro e a beleza no exprimi-lo sejam suas marcas indeléveis e sua busca permanente”. (MELO, 1994, p. 19).
33  “A Política Jurídica, descomprometida com fórmulas e paradigmas em perecimento, estará engajada com esse novo pensar e partici-
pará da realização de novas utopias carregadas de esperanças”. (MELO, 1994, p. 19).
34  Sob o ângulo da Política Jurídica, a categoria denota sensação de “[...] harmonia e beleza que rescende dos atos de convívio social
que se apóiam na Ética e no respeito à dignidade humana. Assim, podemos considerar como um dos fins mediatos da Política Jurídica a
criação normativa de um ambiente de relações fundadas na Ética que venham a ensejar o belo na convivência social, em atendimento a
necessidades espirituais latentes em todo ser humano [...]”. (MELO, 2000, p. 37/38).
35  “[...] Nunca como neste caso, a atenção aos paradoxos, longe de paralisar, realiza uma forte conscientização e recoloca a questão aos
atores sociais em sua concretude, em sua dimensão da vida cotidiana, em sua inalienável responsabilidade de escolha”. (RESTA, 2004,
p. 20).
36  Nessa linha de pensamento, Diderot e D’Lambert rememoram: “os deveres da amizade se estendem para além do que se acredita. De-
ve-se à amizade na medida de seu grau e de seu tipo, que produz diferentes graúdas e tipos de deveres. Reflexão importante para acabar
com o sentimento de injusto daqueles que se queixam de terem sido abandonados, mal servidos ou pouco considerado pelos amigos”.
(DIDEROT, Denis; D’ALEMBERT, 2015, p. 35/36).

107
ausência da proximidade torna-se improvável o compartilhamento de alegrias, tristezas, angús-
tias, agonias, virtudes, entre outras manifestações. A Amizade possui, conforme as palavras
de Resta (2004, p. 21), essa particularidade: “[...] une independentemente de vínculos e liames
visíveis”.
A Amizade está presente em qualquer relação humana, mas a sua ocorrência não de-
pende de tempo e espaço. A sua manifestação é incerta. Não existe, rememora Resta, um “des-
tino” de Amizade, porém possibilidades conexas as quais possibilitem reconhecer um amigo no
mundo37. Pode-se sintetizar essa afirmação nas palavras do mencionado autor: “[...] a gênese da
amizade é ao mesmo tempo contingente e transcendente: depende do acaso e do evento, e jun-
tamente existe, como mundo de possibilidades, independente do jogo do seu manifestar-se”38.
O pensamento de Resta refere-se, ainda, a duas diferenças na constituição da Amizade:
reconhecimento e gratidão. A primeira expressão constitui um sentimento de filiação à família
humana, o que evita a segregação das relações intersubjetivas por meio de classes, estamen-
tos, castas, destaques acerca de desenvolvimento econômico (países desenvolvidos, emergentes
e subdesenvolvidos), entre outras manifestações individuais e sociais. Reconhece-se o Outro
como humano absolutamente diferente de meu Ego.
Entretanto, adverte Resta, o reconhecimento não é capaz de criar ou estimular novos
cenários mais fraternos porque a sua ação consiste tão somente em declarar uma situação na
qual já existe39. A referida postura não cria algo novo, mas torna público, torna visível essa
realidade que sempre esteve entre todos. Essa declaração não se direciona apenas ao momento
presente. É indiferente ao citado período de tempo. Qualquer que seja o tempo, a natureza da
declaração será de confirmar e repetir um cenário de Amizade comum a todos. A diferença está
na sua disseminação, o tornar público, porque esse cenário comum transfigura-se de invisível
para visível.
A leitura da obra de Resta indica que o reconhecimento não altera, não estimula o
surgimento de algo novo nas Relações Humanas. Nas palavras do citado autor, a declaração é
elaborada com a precisão de um tabelião40. O reconhecimento sugere, conforme essa descrição,
a imutabilidade das interações humanas, resguardando-se à função de declarar algo que existe
entre todos? A resposta parece negativa porque o reconhecimento precisa ser conjugado com
outra expressão capaz de modificar a geografia das mencionadas relações, qual seja, a gratidão.
O surgimento da gratidão cria o novo, permite outras perspectivas daquilo que já ha-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

via se tornado visível por meio do reconhecimento. A gratidão pelo reconhecimento é o húmus

37  “[...] os amigos podem não ser conhecidos, mas poderiam em cada momento ser reconhecidos, e é a este difícil evento do reconhe-
cimento que se remete sua visível concretude. [...] Ocorrerá alguma coisa talvez significativa que nos fará reconhecer um amigo, mas
exatamente isso pressupõe que o amigo já existisse em lugares indefinidos e em tempos incomensuráveis”. (RESTA, 2004, p. 21).
38  “[...] os amigos podem não ser conhecidos, mas poderiam em cada momento ser reconhecidos, e é a este difícil evento do reconhe-
cimento que se remete sua visível concretude. [...] Ocorrerá alguma coisa talvez significativa que nos fará reconhecer um amigo, mas
exatamente isso pressupõe que o amigo já existisse em lugares indefinidos e em tempos incomensuráveis”. (RESTA, 2004, p. 21/22).
39  Essa declaração, no pensamento de Resta, refere-se à mesma linguagem utilizada no universo jurídico (RESTA, 2004, p. 22).
40  “Não é por acaso que na linguagem das relações obrigacionais utiliza-se a expressão ‘reconhecimento de um débito’, que tem por
conseqüência a publicização de um débito existente e que não é contestado em sua validade; [...]”. (RESTA, 2004, p. 23).

108
capaz de tornar fecundas as Relações Humanas. Trata-se de sedimento que, quando vivenciado,
experimentado na vida de todos os dias conecta dois mundos distantes (ou sequer conhecidos).
Estabelece-se pela gratidão e reconhecimento vínculos fraternos que não se desfazem com o
tempo independentemente do território que se encontram41. É aqui que se contempla a imagem
de Humanidade, descrito no pensamento de Diderot e D’Lambert (2015, p. 72):

Humanidade é um sentimento de benevolência por todos os homens que somente se


inflama numa alma grande e sensível. Esse nobre e sublime entusiasmo atormenta-se
com os sofrimentos dos outros e a necessidade de aliviá-los; desejaria percorrer o
universo para abolir a escravidão, a superstição, o vício e o mal. Ele esconde-nos os
erros de nossos semelhantes ou nos impede de senti-los. Mas nos torna severos para
com os crimes: arranca das mãos do celerado a arma que seria funesta ao homem de
bem. O que ele faz não é nos afastar de elos particulares, mas, ao contrário, torna-nos
amigos melhores, cidadãos melhores, esposos melhores. Ele se apraz em expandir-
se pela benevolência em relação aos seres que a natureza aproximou de nós. Vi essa
virtude, fonte de tantas outras, em muitas cabeças e em poucos corações.

Essa gratidão não pode aparecer como simples promessas normativas, desprovidas
de significados entre os seres humanos. Sob semelhante argumento, para a Ciência Jurídica na
Pós-Modernidade42, a gratidão precisa ser compreendida como vetor de organização social cujo
exercício e exigência pode ser protegida por meio de Princípio proposto pela Constituição de
um Estado, mas que não se esgota, nem exime os seres humanos de a expressarem por ações
anódinas na vida cotidiana de todos os dias.
A referida expressão, junto ao reconhecimento, precisa convergir esforços que tornem
a Fraternidade viável como práxis estética43 do cotidiano. Não basta a previsão de uma (possí-
vel) solidariedade horizontal44 – as atitudes assistenciais45 – sem a compreensão de todos pela
integração que surge pela humanidade compartilhada. O citado autor sintetiza o significado de
Amizade:

A amizade, portanto, aguarda este reconhecimento, esta ali, pronta a reencontrar algo
que existia, mas ainda não tinha visibilidade; nela, não tanto a incapacidade de ver a
amizade onde ela já se encontra, mas sim o fato de que, existindo independentemente
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

41  “A verdadeira mudança na ‘consciência’ da pertença comum é devida, por conseguintes, ao reconhecimento que altera cada cons-
ciência precedente e constitui mundos. Na linguagem de Goodman, ela é o mais nítido way of worldmaking”. (RESTA, 2004, p. 22/23).
42  “[...] A palavra é usada, no continente americano, por sociólogos e críticos. Designa o estado da cultura após as transformações que
afetaram as regras dos jogos da ciência, da literatura e das artes a partir do final do século XIX”. (LYOTARD, 2006, p. XV).
43  Para se elaborar este estudo, compreende-se que a Estética não reside tão-somente na obra de arte, mas, sob igual critério, nas ações
humanas praticadas no cotidiano. Não se procura o que é “belo em si”, mas o belo como qualidade do agir humano. (MELO, 1994, p. 59).
44  Citam-se como exemplo os artigos 3º, 6º e 203 da Constituição Federal brasileira.
45  “Se tudo isso [...] não se constituir em apenas um mero jogo de palavras, fugaz retórica ou solerte demagogia, então podemos racioci-
nar que a República Federativa do Brasil tem o dever de construir uma sociedade solidária e de garantir assistência aos desamparados,
expressão que deve ser entendida em sentido amplo (econômico e moral), pois o texto constitucional não traz qualquer restrição. Na
prática, o que vimos historicamente foi a constante abstenção do Estado em atender a esses casos de necessidades morais. E as razões
são várias, entre elas a difícil identificação desse tipo de necessitado, absoluta falta de experiência socorrista oficial nesses casos e a
tradição de deixar tal assunto ao encargo da ação caritativa da iniciativa religiosa, mesmo sabendo-se que esta é voluntária, geralmente
condicionada e não exigível”. (MELO, 2009, p. 103). Grifo original da obra em estudo.

109
do gesto voluntarista e subjetivo de procurá-la, ela estabelece por si só os conteúdos
de um vínculo que vive de comunidade. (RESTA, 2004, p. 23)

A Amizade é despretensiosa, não possui objetivos ou interesses. A sua existência é


silenciosa e oculta, porém está em todos os lugares deste planeta. Quando o reconhecimento
desvela, torna visível a Amizade, vive-se por meio da gratidão, alterando-se a geografia humana
da segregação para integração, da individualidade solipsista ao Estar-Junto46.
Não existe uma única identidade, seja individual ou coletiva, mas identifica-se a plu-
ralidade de identidades, todas complexas e ricas de experiências nas quais mostram, cada vez
mais, a profundidade oceânica do sentimento de Humanidade. A Amizade é a epifania do reco-
nhecimento na expressão “um em todos, todos em um”. A partir dessa visibilidade, a gratidão, o
desinteresse na Amizade se manifesta de modo transfronteiriço e cria vínculos de Fraternidade
e Responsabilidade que não se desfazem no tempo47.
As palavras de Resta demonstram a constituição de uma comunidade identitária hu-
mana na qual a complexidade e riqueza de suas vidas formam um vínculo fraterno que aguarda
o seu reconhecimento. Trata-se de um tecido social capaz de elaborar possibilidades de comu-
nhão daquele sentimento de Humanidade. Insiste-se: o reconhecimento da Amizade não ocorre
com dependência do tempo e espaço.
Essa condição de tornar visível e audível a Amizade se torna mais dificultosa se o
Estado nacional e o Direito convergirem esforços para consolidar o Outro, o estranho, como
inimigo. Os esforços para se consolidar essa pertença à família humana indicam a necessidade
de um Direito Fraterno, no qual todos se tornam responsáveis pelas suas escolhas e decisões. A
Amizade é pressuposto para a elaboração de uma Antropolítica48 a qual não está encerrada nos
limites territoriais da Nação.
A inimizade, a eliminação do Outro o qual aparece como hostilidade, torna a Amizade
um fenômeno contingencial. A motivação das Relações Humanas não é algo que se convencio-
nou, se jurou conjuntamente, de modo fraterno, para se criar regras mínimas de convivência, ao
contrário, essas regras são impostas por uma autoridade (paternalista)49. A Amizade não pode

46  “[...] O estar-junto moral ou político, tal como prevaleceu na modernidade, não é senão uma forma profana de religião. Ou, ainda, ele
exprime bem a história da salvação, de início cristã: espera da parusia, depois progressista: mito do desenvolvimento, particularmente
forte no século XIX. Mas a partir do momento em que o fundamento divino perde sua substância, do momento em que o progresso não
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

é mais considerado como um imperativo categórico, a existência social é, desde então, devolvida a si própria. Para ser mais preciso, a
divindade não é mais uma entidade tipificada e unificada, mas tende a se dissolver no conjunto coletivo para se tornar o ‘divino social’.
É quando o mundo é devolvido a si mesmo, quando vale por si mesmo, que vai acentuar o que me liga ao outro: o que se pode chamar
‘religação’”. (MAFFESOLI, 2005, p. 27).
47  “Só nesses termos poderemos tratar do desejado direito de solidariedade, incondicional, sem contraprestações, sem preço, sem trocas,
utopia até agora apenas pensada, mas que pode e deve ser realizada em nome da dignidade da pessoa humana”. (MELO, 2009, p. 102).
48  “[...] a política deve tratar da multidimensionalidade dos problemas humanos. Ao mesmo tempo, como o desenvolvimento se tornou
um objetivo político maior e a palavra desenvolvimento significa (certamente de forma pouco consciente e mutilada) a incumbência po-
lítica do devir humano, a política se incumbe, também de forma pouco consciente e mutilada, do devir dos homens no mundo. E o devir
do homem no mundo traz em si o problema filosófico, doravante politizado, do sentido da vida, das finalidades humanas, do destino
humano. A política, portanto, se vê de fato levada a assumir o destino e o devir do homem assim como do planeta”. (MORIN; KERN,
2005, p. 137). Grifos originais da obra em estudo.
49  “A ‘comunidade de apoio’ já perdeu o sentido universalista e se confinou às relações numericamente mensuráveis de uma amizade
definida: somos amigos porque existem inimigos, somos amigos porque não somos estranhos, somos amigos porque nos escolhemos
para nos contrapor a outras formas de relações impostas ou involuntárias”. (RESTA, 2004, . 25).

110
ser determinada por obrigações, especialmente legais, mas precisa ser compreendida pelo
seu duplo (e ambíguo) caráter: trata-se de um princípio de inclusão e exclusão.
O mundo criado pela Modernidade, para Resta, é o lugar que tenta definir50 a Amizade,
embora reconheça o seu jogo inquietante de luzes e sombras, para se identificar quem será ca-
racterizado como inimigo comum. Enfatiza-se a inimizade. Nesse momento, cria-se a inclusão,
mas, ao mesmo tempo, exclui-se porque existe alguém no qual não pertence aos “iguais pré-de-
terminados pela lei” e precisa ser posto à margem ou, ainda, eliminado.
A obsessão por uma identidade nacional para se determinar o amigo e inimigo estimu-
la a inimizade, a incompreensão da Fraternidade como Princípio que anima a convivialidade,
aos critérios civilizacionais movidos pela Antropoética51 e Antopolítica. Aumenta-se a distância
de conexão entre indivíduo, sociedade e espécie. A solidão sobrepõe-se à Solidariedade. A pri-
meira expressão deforma52 a segunda porque ao se privar (ou ser privado) da comunhão viven-
cial com o Outro, determina-se, em termos econômicos e jurídicos, o seu reembolso, o consolo
que aparece, muitas vezes, pela remuneração dessa falta (RESTA, 2004, p. 27).
As palavras deste autor (RESTA, 2004, p. 27) descrevem, ainda, como esse caminho
que se afasta da integração à família humana produzida humanidade compartilhada: “[...] bus-
camos distâncias e diferenciações, mas as chamamos de volta, com prepotência, buscando e
prestando solidariedade, juntando as nossas solidões através de processos não apenas simbóli-
cos que ‘nos unem’ aos outros”.
Ao se determinar, de modo criativo, infelizmente, novas maneiras de segregar, obser-
va-se a formação de várias galáxias sociais, vários grupos que se unem pela sua “identidade
comum excludente” e não estabelecem qualquer ligação ou filiação à humanidade que se com-
partilha. Tornam-se galáxias, grupos isolados uns dos outros, destinados a não compreenderem
– e não instituírem – a unidade na qual se encontra na diversidade humana. O Direito criado
pelo Estado-nação promove a Paz “entre iguais” pela violência da exclusão53.
Nesse caso, o Direito Fraterno opõe-se a essas medidas nas quais privilegiam a força
ao diálogo, a determinação nacional de Fraternidade à improbabilidade – temporal e espacial -
de seu desafio inscrito na família humana espalhada pelo planeta. Por esse motivo, é necessário

50  “[...] Não é por acaso que o no mundo grego a amizade era representada simbolicamente como um daimon alado que esvoaçava entre
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uma pessoa e outra, assinalando linhas inesperadas, transversais, diríamos hoje, seguindo desenhos imprevisíveis”. (RESTA, 2004, p.
24).
51  Essa categoria “[...] deve ser considerada como a ética da cadeia de três termos indivíduo/sociedade/espécie, de onde emerge nossa
consciência e nosso espírito propriamente humano. A antropo-ética compreende, assim, a esperança na completude da humanidade,
como consciência e cidadania planetária. Compreende, por conseguinte, como toda ética, aspiração e vontade, mas também aposta no
incerto. Ela é a consciência individual além da individualidade”. (MORIN, 2001, p. 106).
52  “[...] usamos a expressão ‘estender a mão’ para indicar aproximações generosas e solidárias, mas freqüentemente o estender a mão
pode exceder-se e transformar-se em ‘alongar as mãos’, que é um gesto odioso, exatamente como quando, [...], o sorriso que avizinha e
torna amigáveis os rostos freqüentemente é o mesmo que arregaça dos dentes”. (RESTA, 2004, p. 26/27).
53  “[...] Destituindo o jogo do amigo-inimigo, o direito fraterno é não violento. Não incorpora a idéia do inimigo sob outra forma e, por
isso, é diferença em relação à guerra. É, se dizia, jurado conjuntamente, mas não produzido por aquela conjura que leva simbolicamente
à ‘decapitação do rei’ e que, é notório, leva consigo sentimentos de culpa que sobrevivem ao jogo ‘sacrifical’ de qualquer democracia.
Por isso, não se pode defender os direitos humanos enquanto os está violando; a possibilidade da sua existência está toda no evitar o
curto-circuito da ambivalência mimética (típica do pharmakon), que transforma o remédio em doença, de antídoto em veneno”. (RES-
TA, 2004, p. 135).

111
compreender a proposição de um Direito Fraterno nas palavras de Resta (2004, p. 133) como:

[...] direito jurado em conjunto por irmãos, homens e mulheres, com um pacto em
que se ‘decide compartilhar’ regras mínimas de convivência. Então, é convencional,
com olhar voltado para o futuro. O seu oposto é o ‘direito paterno’ que é o direito
imposto pelo ‘pai senhor da guerra’ sobre a qual se ‘deve’ somente jurar (iusiurandum).
A coniuratio dos irmãos não é contra o pai, ou contra um soberano, um tirano, um
inimigo, mas é para a convivência compartilhada de soberania e da inimizade. Esse
é um juramento conjunto, mas não é uma conjura.

Percebe-se que a Fraternidade retorna como Princípio político e jurídico para evitar
a acentuada erosão das formas de Estado e Direito autossuficientes. Ao criarem situações de
igualdade, excluem-se as pessoas da participação nas decisões públicas. O Direito Fraterno
surge como evidência dessa comunhão antropológica terrestre na qual se criam regras mínimas
para a convivência fundamentadas nessa perspectiva Antropoética e Antropolítica.
A Humanidade começa a ser descoberta pela sua fragilidade e finitude. Todos co-
mungam essa “natureza perdida”, ou seja, somos precários, provisórios, incompletos. O Di-
reito Fraterno é, conforme essa linha de pensamento, uma exigência histórica que reivindica
o reconhecimento, a cortesia, o amor, a compaixão, a diferença como “lugares comuns” dessa
constituição da nossa Comunidade de Destino.
Fraternidade implica dificuldades e complexidade para se criar os vínculos de proxi-
midade e Responsabilidade entre todos no âmbito local, regional, nacional, continental ou
planetário. Não basta ser humano, mas é preciso desenvolver o sentimento de filiação (e proxi-
midade) à Humanidade54 junto com todos os seres vivos nos quais habitam o território terres-
tre. Insiste-se: a referida categoria é uma sinfonia (sempre) inacabada cuja composição ressoa,
também, no Direito.
A Humanidade despoja-se daqueles conteúdos puramente metafísicos e enfrenta seus
paradoxos, aporias e outras dificuldades pela integração responsável a partir de sua fragilidade,
finitude, agonias, angústias e ameaças55. Esse é o primeiro passo para ações com fundamentos
antropolíticos e antropoéticos capazes de integrar todas as diversidades – humanas ou biológi-
cas – que habitam a Terra-Pátria.
A Fraternidade56 surge como princípio que anima o resgate e a compreensão histórica
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

da “unidade da humanidade”, devido à Auto Ética. A postura introspectiva, numa descrição

54  “[...] Ser homem não garante que se possua aquele sentimento singular de humanidade. A linguagem, com as muitas sedimentações de
sentido que encerra, é um infinito observatório de paradoxos com os quais convivemos. Leva seus traços mesmo quando estes parecem
pálidos e apagados: muitas vezes o “apagamento” dos traços deixa marcas”. (RESTA, 2004, p. 13).
55  “[...] o humano não é mais idealizado, racionalizado, visto como uma consciência clara. É o humano de hoje, com suas grandezas, suas
verdadeiras misérias, suas experiências ligadas a certa época e que oferecem uma paleta inteiramente nova. Isso só é possível, aliás,
depois deste século de desconstrução que teve pelo menos o mérito de liberar dimensões até então inexploradas da existência humana
[...]”. (FERRY, 2015, p. 107)
56  “A Fraternidade como princípio do universalismo político propõe a articulação entre o ‘liberalismo selvagem’ e um ‘comunitarismo
ou um republicanismo fechado e intolerante’, evitando fazer com que a humanidade tenha que fazer a escolha impossível. Busca-se,
então, na Fraternidade, um precedente teórico de grande valor e, ainda, inédito para se reportar na atualidade [...]”. (SILVA, 2015, p. 113).

112
fenomenológica, coloca a referida categoria em suspensão e possibilita a indagação: E se não
houvesse a Fraternidade? Sob semelhante argumento: É possível obter Paz por meio do Direito
sem a Fraternidade na Pós-Modernidade? A resposta parece ser negativa.
O Direito Fraterno é uma manifestação da Pós-Modernidade57 porque não se trata de
considerar a integração humana, para fins desta pesquisa, como postura ingênua, mas de valo-
rizar possibilidades diferentes, alternativas que se manifestam em diferentes lugares do mundo
como próprias ao estar-junto global.
Por esse motivo, essa condição se constitui num convite de se refletir se esses mode-
los perpetrados pelo Direito criado na Modernidade e instigados pela sua obsessão política de
neutralização das hostilidades contra o inimigo capaz de abalar a estabilidade soberana no ter-
ritório nacional justificam como condições para se pensar e viver a Paz no mundo. Insiste-se: a
Fraternidade é uma aposta no improvável que, aos poucos, se torna realidade.

4 A AMIZADE COMO FUNDAMENTO RACIOVITAL À SUSTENTABILIDADE DE


UMA SOCIEDADE-MUNDO

A leitura das obras de Sêneca e Resta indicam que a Amizade representa esse espaço
fértil, aberto, para se consolidar as relações humanas. Estabelece-se a concórdia porque se com-
partilha, habitualmente, a busca de valores e condições necessárias para torna a vida sustentável
no mundo. Essa ação inicia-se, microscopicamente, na presença com o Outro, na formação do
Estar-Junto. Nesse momento, surge uma epifania: a humanidade compartilhada que apela para
a Fraternidade58.
Por esse motivo, a proposição de Resta direciona a Amizade para além dos cenários
sociais e políticos. A referida categoria em estudo constitui outro paradigma no universo jurídi-
co: o Direito Fraterno. A elaboração desse Direito não pode ser criado pela Racionalidade Ins-
trumental da Idade Moderna porque se privilegia a exclusão do inimigo, a eliminação do fraco.
Nada caracterizado como inútil serve ao propósito de progresso jurídico. Não se trata de um
Direito paterno, imposto pelo “pai” (Estado), mas jurado entre iguais, entre homens e mulheres
os quais decidiram estabelecer um mínimo necessário para a sua convivência.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

57  Nas palavras de Bittar: “[...] A pós-modernidade é, por isso, como movimento intelectual, a crítica da modernidade, a consciência da
necessidade de emergência de uma outra visão de mundo, a consciência do fim das filosofias da história e da quebra das grandes meta-
narrativas, demandando novos arranjos que sejam capazes de ir além dos horizontes fixados pelo discurso da modernidade. Ao mesmo
tempo, como contexto histórico, a pós-modernidade é sintoma de um processo de transformações que estão profundamente imersas em
uma grande revolução cultural, que desenraiza paradigmas ancestralmente fixados”. (BITTAR, 2009, p. 146).
58  “o apelo da fraternidade não se encerra numa raça, numa classe, numa elite, numa nação. Procede daqueles que, onde estiverem, o
ouvem dentro de si mesmos, e dirige-se a todos e a cada um. Em toda parte, em todas as classes, em todas as nações, há seres de ‘boa
vontade’ que veiculam essa mensagem. Talvez eles sejam mais numerosos entre os inquietos, os curiosos, os abertos, os ternos, os mes-
tiços, os bastardos e outros intermediários. O apelo à fraternidade não deve apenas atravessar a viscosidade e a impermeabilidade da
indiferença. Deve superar a inimizade. A existência de um inimigo mantém ao mesmo tempo nossa barbárie e a dele. O inimigo é pro-
duzido por cegueira às vezes unilateral, mas que se torna recíproca quando respondemos com uma inimizade que nos torna igualmente
hostis. É verdade que os egoísmos e os etnocentrismos, que suscitaram e não cessam de suscitar inimigos, são estruturas inalteráveis da
individualidade e da subjetividade, mas, assim como essa estrutura comporta um princípio de exclusão no eu, ela comporta um princípio
de inclusão num nós, e o problema chave da realização da humanidade é ampliar o nós, na relação matri-patriótica terrestre, todo ego
alter e reconhecer nele um alter ego, isto é, um irmão humano”. (MORIN; KERN, 2005, p. 167/168).

113
A Amizade existe, mas não é visível nesse início de século XXI. Soma-se a esse ar-
gumento outra característica: essa categoria, além de invisível, não é compreendida. O prefixo
“com” do verbo “com-preender”, segundo a leitura da obra de Morin (2005, p. 113), tem esse
significado59 de envolver, enlaçar, tomar em conjunto.
O esclarecimento e vivência de um Direito Fraterno, o qual se dissemina pela Amiza-
de, precisa de uma compreensão complexa60, pois enlaça o sentido da subjetividade (a experiên-
cia emocional, afetual) e o da objetividade (explicar, desdobrar, reunir, articular informações
necessárias para se conhecer um fenômeno), conforme sugere Morin (2005, p. 112).
A Amizade se torna visível nas ações habituais, anódinas, de todos os dias. A sua ma-
nifestação, nas palavras de Resta, ocorre por meio da gratidão e reconhecimento. Entretanto,
é necessário somar uma terceira proposição a essa idéia, qual seja, o perdão. Não é possível
reconhecer o Outro como irmão, ser grato pelo seu existir o qual complementa o “Eu”, mas,
também, perdoar. A ausência do perdão revela a cegueira, a ignorância no agir (desmedido)
frente ao semelhante. Trata-se daquela expressão: “eles não sabem o que fazem”.
O perdão, nas palavras de Morin, é uma aposta. A primeira expressão denota com-
preensão de que o Ser humano não pode ser reduzido tão somente aos atos censurados, aos
crimes cometidos, às omissões – breves ou duradouras. O perdão aposta61 nesse enlace, nesse
tecido – complexo - o qual se compõe de vias comunicativas biológicas, antropológicas, afeti-
vas, culturais, entre outros, ou seja, compreende-se o Ser humano nesse ir e vir entre a certeza
e incerteza de seu pensar e agir.
O ato do perdão é altruísta, generoso e dissolve a animosidade da vingança, do ódio,
do ressentimento. Trata-se de um ato que liberta. Por esse motivo, os amigos disseminam gra-
tidão, reconhecimento e perdão62 nas suas ações. Esses instauram outro ambiente o qual a paz
se torna longeva. A concórdia se torna o solo fértil, cujas raízes procuram se alimentar a fim de
produzirem frutos doces.
O Direito Fraterno somente se torna viável na aposta da Amizade, a qual se manifesta
pela gratidão, reconhecimento e perdão. Essa é o fundamento – mínimo – para um espaço de
concórdia duradoura que não se circunscreve nos territórios nacionais, nas sociedades contra-

59  “O significado é essencial para os seres humanos. Temos a contínua necessidade de captar o sentido de nossos mundos exterior e
interior, de encontrar o significado do ambiente em que estamos e das nossas relações com outros seres humanos, e de agir de acordo
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

com esse significado. Estamos falando aqui, em específico, da nossa necessidade de agir de acordo com uma determinada intenção ou
objetivo. Em virtude da nossa capacidade de projetar imagens mentais para o futuro, nós, quando agimos, temos a convicção – válida ou
não – de que nossas ações são voluntárias, intencionais e voltadas para um determinado objetivo”. (CAPRA, 2005, p. 96).
60  “O conhecimento pertinente deve enfrentar a complexidade. Complexus significa o que foi tecido junto; de fato, há complexidade
quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do todo (como o econômico, o político, o sociológico, o psicológico, o afeti-
vo, o mitológico) e, há um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entre objeto de conhecimento e seu contexto, as partes e
o todo, o todo e as partes, as partes entre si. Por isso, a complexidade é a união entre a unidade e a multiplicidade. Os desenvolvimentos
próprios a nossa era planetária nos confrontam cada vez mais e de maneira cada vez mais inelutável com os desafios da complexidade”.
(MORIN, 2001, p. 38).
61  “Chego a este ponto capital: o perdão é uma aposta, um desafio ético; é uma aposta de regeneração daquele que fraquejou ou falhou;
é uma aposta na possibilidade de transformação e de conversão para o bem daquele que cometeu o mal. Pois o ser humano, vale repetir,
não é imutável: pode evoluir para melhor ou para o pior”. (MORIN, 2005, p. 127).
62  “O perdão é um ato de confiança. As relações humanas só são possíveis numa dialógica de confiança e desconfiança. Claro que se pode
enganar a confiança. Mas, a própria confiança pode vencer a desconfiança. Embora incerta, a confiança é necessária. Por isso o perdão,
ato de confiança na natureza humana, é uma aposta”. (MORIN, 2005, p. 129).

114
tualistas, mas se amplia no mundo pelo apelo à nossa humanidade compartilhada.
Por esse motivo, verifica-se que a Amizade é a razão seminal63 de um Direito Fraterno.
O raciovitalismo representa, para Maffesoli, essa sinergia entre razão e sensibilidade. Trata-se
de uma racionalidade aberta a qual difere do racionalismo64, em outras palavras, não se identi-
fica tão somente com as explicações (enlace objetivo)65, mas as complementa com as múltiplas
vivências (enlace subjetivo) no momento presente, no cotidiano. A ausência dessa compreensão
caracterizaria os fenômenos sociais66 como incompreensíveis.
A razão seminal67, no pensamento de Maffesoli, representa essa “razão interna”. Cons-
tata-se, a partir da leitura dos argumentos propostos pelo citado autor, que essa “razão interna”
é uma estrutura antropológica na qual somente se atualiza, se realiza, num momento particular.
É uma racionalidade “de fundo” a qual se expressa na clandestinidade – e no silêncio – da
vida cotidiana.
Percebe-se a necessidade de se encontrar o significado próprio, “de fundo”, dos fe-
nômenos os quais sintetizam esse ir e vir entre objetividade e subjetividade68. Não se trata de
uma clausura anterior, mas que se expressa, também, por um sentido afetual, amoroso69 o qual
somente a experiência das sensações na vida cotidiana podem esclarecer, tornar luminoso70 a
obscuridade e os limites impostos pelo racionalismo – busca-se, de modo complementar, um
sentido posterior. Novamente, indaga-se: Qual é o fundamento raciovital, a “razão interna”, de
um Direito Fraterno? A Amizade.
Não é possível pensar essa categoria sem cogitar que a Terra seja o nosso único habitat.
Segundo o pensamento de Morin, é a nossa genuína pátria. A Terra – por meio de sua biosfera
e humanidade – representa essa “espaçonave”, a qual está à deriva no espaço sem um piloto. É

63  As expressões raciovitalismo, razão seminal, razão interna ou razão sensível serão utilizadas nesta pesquisa como sinônimas.
64  O Racionalismo, fundado pela Lógica, difere da Razão. Segundo Maffesoli: “[...] se existe uma lei é a da coincidentia oppositorum,
que faz com que as coisas, seres, fenômenos, totalmente opostos, se combinem. Ao negligenciar isto, o racionalismo, especialmente
sob a forma moderna, empenha-se em sufocar, excluir porções inteiras da vida, até que estas por sua vez se vinguem, exacerbando-se e
subindo aos extremos [...]”. (MAFFESOLI, 2005, p. 30). Grifos originais da obra em estudo.
65  “[...] se monstros existem são aqueles que têm a pretensão de um saber absoluto. O saber do Universalismo. O saber da coisa em si. São
esses os verdadeiros paranóicos. São perigosos pois é em nome desse saber absoluto que se abriram os campos de concentração. Ou que
o justificaram. O universalismo sempre foi o berço do totalitarismo. O totalitarismo em questão pode ser o do racionalismo dogmático
ou do cientificismo sem horizontes, pode ser também aquele do republicanismo obtuso”. (MAFFESOLI, 2009, p. 40).
66  “É necessário que o ato de compreensão da vida social se justifique e se normatize pelo seu sentido amoroso. Quando a vivência de
uma realidade se torna uma abstração intelectual pura, essa se distancia, lamenta ou ignora as ações humanas. Deixa-se de perceber
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

e/ou compreender um estar-junto que fomenta a organicidade social e tampouco visualiza como essa possibilidade vital se sustenta”.
(AQUINO, 2016, p. 34).
67  “[...] Já na filosofia medieval, retomando-se aí a noção de logos spermatico, cara aos gregos, falou se ‘razão seminal’, isto é, de um
germe do qual cada individuo recebeu uma parcela. Trata-se de algo que permanece, ou melhor, que preexiste no coração de todo homem
antes de qualquer construção intelectual”. (MAFFESOLI, 2005, p. 58).
68  “[...] Isso pode nos levar à seguinte proposição: forte de si mesma, segura de sua razão interna, uma cultura pode difundir-se, uma vez
que tenha sabido metabolizar os elementos que tomou emprestados”. (MAFFESOLI, 2005, p. 63).
69  “[...] o amor é a experiência fundamental de ligação dos seres humanos. Leva-nos à realização pela nossa união. Se o amor leva ao
paroxismo a aptidão integracionista do princípio altruísta de inclusão, corre o risco de ser apropriado pelo princípio egocêntrico da
exclusão, que monopoliza o ser amado e o encerra numa posse ciumenta. O verdadeiro amor considera o ser amado como igual e livre;
[...]”. (MORIN, 2005, p. 107/108).
70  “[...] Iluminação que nada tem de excepcional, que não deve inquietar ou ser, forçosamente, considerada como algo anormal, de
emanações anômicas ou obscurantistas, umas ‘iluminação’ que leva ao seu ponto último a lógica das luzes, isto é, que se empenha em
compreender, e não em julgar, todos os fenômenos, ações, representações humanas pelo que são e não em função daquilo que deveriam
ser”. (MAFFESOLI, 2005, p. 54).

115
no seu interior que se encontra todos os significados para uma vida que precisa de proteção e
preservação (Sustentabilidade)71, especialmente com a amplitude de atuação da Cidadania.
O apelo para uma Cidadania Mundial responsável é a epifania de uma Amizade a qual
expressa por uma humanidade compartilhada. A superação do Estado-nação, rememora Morin,
não está no seu aniquilamento, mas na instituição de associações72 mais amplas, na limitação
do poder sobre a vida e morte de etnias e pessoas, na manutenção de todas as competências as
quais essa entidade pode regular (princípio da subsidiariedade)73.
Nesse caso, a Sociedade-Mundo – ou Sociedade Civil Mundial – ainda não existe e
tampouco se esclareceu que a Terra é a nossa única Pátria. Têm-se os primeiros pilares – como
o Direito Fraterno o qual se manifesta pela Amizade-, mas não se constituiu, ainda, o edifício74.
A Sustentabilidade75 se torna esse novo Valor a ser depurado e constituído historica-
mente no século XXI. Sob semelhante argumento, a categoria anteriormente mencionada pre-
cisa ser estudada, ainda, a partir da Amizade no cenário da Sociedade-Mundo, para se difundir
essa práxis que acolhe, reconhece, protege e a importância dessa biodiversidade planetária.
A categoria anteriormente mencionada não pode ser definida, exaurida nos limites
epistemológicos de uma caracterização, porque sua natureza axiológica demanda a tarefa de,
continuamente, encontrar novas situações as quais favoreça uma interação maior entre “Indi-
víduo-Sociedade-Espécie” e a Terra para se criar e desenvolver meios de vida mais razoáveis e
fraternas para todos, indistintamente. Não se trata de uma postura cujo enfoque é exclusivo ao
universo do Meio Ambiente76, mas de consolidar os vínculos antropológicos, biológicos e ecoló-
gicos no tempo e espaço para que haja formas de vida e convivência sempre mais sustentáveis.
A partir desses argumentos, a Sustentabilidade, especialmente no seu sentido social,
assemelha-se a categorias como Justiça e Dignidade as quais seus conteúdos renovam-se no de-
correr do tempo, da interação e percepção humana. A clausura da definição de Sustentabilidade
provoca o desvio dos significados, dos devires que se deseja constituir na diversidade da biosfera
terrestre. A sua intenção está além dos interesses passageiros ou de ações caridosas promovidas

71  “[...] a Terra é o único lugar habitável e amável no cosmo; ela é nosso habitat, nossa Arché na imensidão cósmica, não apenas a nossa
Mátria, mas também a nossa Pátria”. (MORIN, 2011, p. 72).
72  Cita-se como exemplos dessas associações: Anistia Internacional, Greenpeace, Sobrevivência Internacional, Médicos sem Fronteiras,
Cidadãos do Mundo, entre outros. (MORIN, 2011, p. 70/71).
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

73  “A superação do Estado-nação rumo a associações mais amplas só pode ser vivida, portanto efetiva, [...] se cada um e todos reconhe-
cerem essa qualidade à Terra, ela própria mátria e pátria de todos os humanos”. (MORIN; KERN, 2005, p. 116).
74  “[...] se o planeta constitui um território que dispõe de um sistema de comunicações, de uma economia de uma civilização, de uma
cultura, de uma vanguarda de sociedade civil, falta-lhe certo número de disposições essenciais de organizações, de direito, de instância
de poder e de regulação para a economia, a política, a polícia, a biosfera, a governança, a cidadania”. (MORIN, 2011, p. 72).
75  Para fins desta pesquisa, adota-se o seguinte conceito operacional para Sustentabilidade elaborado pelo autor deste estudo: É a
compreensão ecosófica acerca da capacidade de resiliência entre os seres e o ambiente para se determinar - de modo sincrônico e/ou
diacrônico - quais são as atitudes que favorecem a sobrevivência, a prosperidade, a adaptação e a manutenção da vida equilibrada.
76  Rememora Ferrer: “[...] Sin embargo y como también hemos visto, las preocupaciones de la comunidad internacional han ido am-
pliando su espectro de lo puramente ambiental –nuestra relación con el medio natural- a aspectos que lo que tienen que ver es con
la relación con nuestros semejantes, con el modelo de sociedad que tenemos que construir. Una sociedad que no colapse los sistemas
naturales pero que, además, nos permita vivir en paz con nosotros mismos, más justa, más digna, más humana. Una sociedad que dé
un salto significativo en el progreso civilizatorio, que deje atrás o al menos aminore las grandes lacras de la Humanidad que a todos
nos deben avergonzar, como el hambre, la miseria, la ignorancia y la injusticia. El paradigma actual de la Humanidad es la sostenibi-
lidad”. (FERRER, 2013, p. 319).

116
por instituições econômicas – públicas ou privadas - presentes em todo o território mundial77.
A Amizade se torna critério de Sustentabilidade na Sociedade-Mundo na medida em
que estabelece vínculos de responsabilidade, de compreensão sobre todos os seres vivos que
habitam a Terra. A amplitude planetária da Amizade produz efeitos sociais, éticos, políticos e
jurídicos os quais permitem a presença indefinida do Ser humano em todo o território terrestre.
Contata-se, por meio desses argumentos, que o Direito Fraterno, segundo o contexto
da Sociedade-Mundo, preserva as formas de desenvolvimento das relações amistosas em todo
o território terrestre. É a Amizade, esse sumo bem, o qual possibilita os cenários de concórdia
e reivindica a importância do cuidado e responsabilidade por todos os seres vivos que habitam
a única Pátria na qual oferece condições de vida em plenitude: a Terra.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A sensação de cumplicidade e cordialidade produzidas pela Amizade conduz a modos


de vida mais hospitaleiros, transfronteriços, porque reivindica da Fraternidade como aposta de
metamorfose do Ser humano no decorrer do tempo. A desejada concórdia entre todos somente
se viabiliza pela presença do amigo na Terra.
Esse compartilhar o existir (para fora do “Eu”) evidencia a incompletude humana e a
necessidade de se esclarecer como a nossa humanidade compartilhada é a expressão na qual
permite transpor os interesses nacionais por necessidades humanas fundamentais. As relações
humanas amistosas precisam ser compreendidas e exercitadas com habitualidade para se
difundir que o todo está inscrito em cada ser vivo e cada ser vivo é a imagem desse todo. O uno
é múltiplo e vice-versa.
Entretanto, não é suficiente difundir Amizade e Fraternidade como elementos neces-
sários ao esclarecimento dessa humanidade compartilhada. Na medida em que a Terra se torna
nossa Pátria e surgem novos espaços para o conviver entre todos os seres vivos, é necessário a
constituição de estruturas para se preservar, educar, reconhecer, exercitar e exigir a importância
da vida como bem supremo.
A Sociedade-Mundo não existe, entretanto, percebem-se silenciosas evidências de
suas manifestações e reivindicações. As diversas associações que agem de modo transfronteiri-
ço – Greenpeace, Médicos Sem Fronteiras, Cidadãos do Mundo – revelam a necessidade de se
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

consolidar essas estruturas, as quais formalizam a citada Sociedade e dissemina a preservação


de todos no planeta.
Sem a Amizade sequer é possível cogitar a Sustentabilidade da Sociedade Civil Mun-
dial. É por meio das relações amistosas, da cumplicidade no existir junto com o Outro (Estar-
-Junto), das alegrias, angústias, tristezas, mágoas, ressentimentos, comemorações, afetos que

77  “Hoje, devido a uma evolução que ainda vai demandar tempo para ser entendida, o substantivo – sustentabilidade – passou a servir a
gregos e troianos quando querem exprimir vagas ambições de continuidade, durabilidade ou perenidade. Todas remetendo ao futuro”.
(VEIGA, 2010, p. 12).

117
se criam condições e espaços para se ampliar e reconhecer esse estar-junto. A Sustentabilidade
da Sociedade-Mundo demanda a aposta e apelo de um Direito Fraterno cuja razão interna é a
Amizade.
É a partir desses argumentos que se necessita retornar à Introdução deste estudo e
verificar se a hipótese de pesquisa foi confirmar ou refutada pelo fundamento teórico apresentado
ao leitor ou leitora. Nesse caso, ratifica-se, como inicialmente mencionado, a resposta como
positiva, pois somente por meio da Amizade é possível pensar num Direito Fraterno que se
desenvolve, se aperfeiçoa no tempo por meio das relações humanas que ocorrem em diferentes
territórios e culturas. Essa é a imagem da Humanidade: a constituição de uma tessitura social
global que se manifesta pelas atitudes anódinas do cotidiano.

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SENAC, 2010.

FRATERNAL LAW: THE NECESSARY RACIOVITALITY FOR THE


CONSTITUTION OF A WORLD SOCIETY

ABSTRACT
This paper meditates about the purposes of Friendship by Seneca and
Elígio Resta as a basis for a Fraternal Law which is revealed through

120
World-Society. The objective is to investigate if Friendship makes it
possible to create sustainable conditions for the spread of sociality in the
world preserved by Law and Fraternity in the World-Society environ-
ment. The method used was the Inductive. As conclusion, it`s possible
to understand that without Friendship it is not possible to constitute the
World-Society. The Fraternal Law arises as an organizational instru-
ment to clarify the need for a permanent exercise of the human virtues.
Keywords: Friendship. Sustainability. Fraternal Law. World-Society.
Ratiovitality.

FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

121
ENSINO JURÍDICO: É POSSÍVEL ENSINAR DIREITO?

Sandra Regina Martini1


Vitoria Josefina Rocha D´almeida Mota2

RESUMO
A análise do artigo versa sobre as questões atinentes à crise do ensino
jurídico no Brasil, além das variáveis da crise e consequências no âm-
bito acadêmico. Aborda-se também questões atinentes à transdiscipli-
naridade, bem como os reflexos do ensino jurídico nos sistemas sociais,
cada vez mais complexos.
Palavras-chave: Ensino jurídico. Transdisciplinaridade. Transforma-
ção social.

“Uma das conclusões a que cheguei é que a atividade docente deveria


ser mais coletiva, ela é muito individual, ainda.”
(Loussia Felix)

1 INTRODUÇÃO
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

1  Possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (1983), mestrado em Educação pela Pontifícia Uni-
versidade Católica do Rio Grande do Sul (1997), doutorado em Evoluzione dei Sistemi Giuridici e Nuovi Diritti pela Università Degli
Studi di Lecce (2001), Pós-doutorado em Direito (Roma Tre, 2006) e Pós-doutorado em Políticas Públicas (Universidade de Salerno,
2010). Foi Professora titular da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, da Scuola Dottorale Internazionale Tullio Ascarelli e profes-
sora visitante da Universita Degli Studi Di Salerno. Foi diretora da Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul (janeiro de 2007 a
fevereiro de 2011), foi membro (de janeiro de 2008 a dezembro de 2013) do Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS). Atualmente é Pesquisadora Produtividade nível 2 CNPq, professora do Centro Universitário
Ritter dos Reis (Uniritter), professora-visitante no programa de pós-graduação em Direito da UFRGS (PPGD). É avaliadora do Basis
do Ministério da Educação e Cultura e do Basis do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Parecerista
ad hoc CNPq e CAPES. Conferencista no Brasil e no exterior. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em sociologia jurídica,
atuando principalmente nos seguintes temas: Saúde Pública, Políticas Públicas, Sociologia Jurídica e Sociedade e Direitos Humanos
2  Possui graduação em direito pela Universidade Estadual da Paraíba (1998). Atualmente é professora do Centro de Ensino Superior do
Vale do Parnaíba e da Faculdade São José - Timon. É advogada e cursa pós-graduação strictu sensu em Direito Público na Universidade
do Rio dos Sinos - Unisinos. É graduada em Letras-Português pela Universidade Federal do Piauí. (2000).

122
A análise do ensino jurídico no Brasil, desde os seus primórdios3, implica no (re) co-
nhecimento deste como fator essencial à constituição do próprio Estado, uma vez que a conso-
lidação de um pensamento jurídico nacional se dá apenas com a chegada dos primeiros cursos
jurídicos, na primeira metade do século XIX.
Este artigo trata da importância do ensino jurídico e suas repercussões no âmbito das
sociedades modernas, complexas e repletas de paradoxos. Para atender a essa realidade impõe-
-se que professores e acadêmicos dos cursos jurídicos sejam capazes de pensar o Direito de
modo transdisciplinar de sorte que possam, ambos, enfrentar as contingências atuais de forma
reflexiva, uma vez que o modo atual de ensinar/estudar o Direito não atende às crescentes de-
mandas sociais
Também se investigou as origens da crise paradigmática por que passa o ensino jurídi-
co, em seus aspectos históricos, políticos e ideológicos. Analisar a crise4 é, portanto, condição
para a elaboração de novos referenciais para o ensino em debate, o que se fez, ao longo do tem-
po, através das inúmeras reformas educacionais promovidas pelos diversos órgãos competentes
para este fim.
Dessa abordagem, dois aspectos se apresentam como fundamentais: a função social
das Faculdades de Direito, e os efeitos do modo de pensar o Direito enquanto saber produzido
pelo ensino. Este pensar o Direito remete às raízes da história brasileira atrelada a Portugal,
sua metrópole, a quem o Brasil esteve subordinado, durante três longos séculos, deixando a
marca indelével da subordinação na formação do Direito brasileiro, e do pensar o Direito, como
ciência social. Essas relações deixaram consequências no imaginário social no que tange à
compreensão do Direito.
O debate sobre ensino jurídico, já tem lugar na tradição da história acadêmica no Brasil
e continua sendo retomado constantemente, sobretudo em tempos em que se percebe que os ca-
minhos por ele percorridos não se alinham a um ideal da formação comprometido com a ética
e a capacidade reflexiva dos formandos, como atualmente se verifica. Assim, tem razão Loussia
quando afirma que a atividade de docência continua sendo isolada, cada professor pensa fazer o
melhor, mas não reflete com os pares o “melhor, deste melhor”. As motivações para esta postura
individualista vão desde o medo do desemprego (sim, o professor é um empregado e não um
vocacionado, a professora não é a “tia” e nem a “profe”, formas carinhosas, mas carregadas de
significados e significantes), até a arrogância muito típica da profissão e em especial nos opera-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

dores do direito.
Em meio a esse descompasso entre o que se espera de uma formação jurídica superior

3  Sobre a revisão histórica de fatos ligados a origem do direito e seus imapctos, temos pesquisas consolidadas, que mostram como muitas
vezes utilizamos de forma equivocada a Historia. Recomendamos o texto de Gustavo Siqueira, em especial no texto “pequeno ensaio....”,
onde o autor resgata vários educadores jurídicos para demonstrar que a História não pode ser contata por um jurista como se fosse um
historiado. Aqui, temos já a importância de pensar a Transdisciplina como método de análise, a qual nos “permite” ir para outras ciên-
cias mas sempre “voltar” para o nosso foco de análise.
4  A crise, em especial no sistema da educação está sempre relacionada com a idéia de Reforma, mas paradoxalmente não se relaciona com
a necessidade de reformar os reformadores. Sobre isso ver: CORSI, Giancarlo. Sistemi Che aprrendono. Pensa: Lecce, 1998.

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e o que se percebe no cotidiano da vida prática surgem acalorados debates sobre que caminhos
devem-se seguir para alcançar um melhor resultado nesse processo de aprendizado do direito.
Muito já foi dito acerca do tema, e muito há por dizer, uma vez que os diversos trabalhos, aná-
lises e pesquisas ainda não conseguiram uma resposta adequada para os problemas enfrentados
pelo ensino jurídico ou apontaram para caminhos que não foram seguidos.
É certo que o crescimento5 exponencial dos cursos de Direito no Brasil tem sido um
dos elementos de incremento das dificuldades, sendo imperioso aliar qualidade a quantidade, o
que tem se tornado pouco provável, já que são muitos os componentes que envolvem a questão,
como qualificação docente, critérios de ingresso nas instituições de ensino, infraestrutura. Se o
tema suscita muitas discussões, que encontram eco em grandes expoentes do mundo jurídico,
a exemplo de Rui Barbosa, cumpre especificar os passos trilhados na pesquisa e debater o(s)
problema(s) que envolvem o ensino jurídico.

2 DIREITO E TRANSDISCIPLINARIDADE

Como é sabido, há muito o Direito ocupa um papel fundamental nas diversas socie-
dades, que é servir como seu instrumento de controle e regulação. Todavia, essa condição vem
cada vez mais perdendo eficácia nesse papel de controle, não por haver recursos melhores, mas
porque o direito não tem respondido às necessidades sociais na medida das exigências, que
crescem em razão do incremento das comunicações, das fragilidades dos laços humanos e da
quantidade de direitos a ser abrigados nas legislações, impossibilitando-lhes, muitas vezes, a
efetividade.
O curso de Direito no Brasil veio para fortalecer o Estado nacional, mas sua função
foi-se modificando, aliada às novas demandas sociais. Hoje, o sistema do direito tem de oferecer
respostas que ultrapassam seus objetivos iniciais. Novas demandas sociojurídicas vão surgindo,
mas o direito fundamentado na perspectiva acima apresentada não responde às demandas da
sociedade. Esses problemas podem ser enfrentados através de uma análise da complexidade
típica da sociedade atual, onde cada vez mais o sistema do direito é chamado a responder ques-
tões que ultrapassam os limites do formalismo e do normativismo.
Percebem-se as dificuldades do Direito de lidar com as novas condições vividas pelo
mundo globalizado e repleto de novas exigências decorrentes dessas modificações do ritmo
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

das sociedades, sendo possível fazer uma clara associação com o ensino jurídico. Que tipo de
direito está sendo ensinado nas instituições de ensino no Brasil? A quantas anda a condição
desse ensino? Como o ensino jurídico é o principal meio de difusão da cultura jurídica vigente
no Brasil, baseado em algumas situações práticas do cotidiano de trabalho da mestranda: o ma-
gistério e as angústias vivenciadas na formação jurídica.

5  Disponível em: <http:// www.oab.org.br/noticia/20734/brasil-sozinho-tem-mais-faculdades-de-direito-que-todos-os-paises>. Acesso


em: 07 maio. 2017.

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Talvez nenhum espaço possa servir de melhor parâmetro para perceber as condições
do ensino jurídico que a própria sala de aula. Nesse contexto, falar em formação jurídica implica
reconhecer-lhe a importância para a consolidação de uma cultura jurídica nacional e mais ain-
da, significa a necessidade de refletir sobre o papel desempenhado pelas instituições de ensino
jurídico no Brasil, porque o curso de Direito não forma apenas advogados, mas também os
que ocupam, privativamente, os cargos com poder de decisão de uma das funções do Estado, a
jurisdicional.
Nesse sentido, convém observar a deficiência vivida nos cursos de formação jurídica
quanto aos aspectos pedagógicos, que se revelam atrelados ao saber exegético e sem as devidas
interações com os demais campos do saber, e até mesmo relações estabelecidas nas próprias
disciplinas que estruturam os cursos jurídicos.
Faltam, portanto, dentre outros, recursos didáticos, pedagógicos que possam contornar
uma parte do déficit desse ensino. Claro, sem assim isentar os demais problemas existentes na
formação acadêmica na grande maioria das instituições de ensino superior no Brasil. Não causa
espanto que o modelo didático-pedagógico em uso tenha a cara da visão normativista, cuja fi-
nalidade precípua é a busca teórica da validade da norma, o que gera verdadeiros vícios e defor-
mações no ensino do direito, o que os teóricos denominam de exegetismo, judicialismo praxista
ou diletantismo (RODRIGUES,1993,p.38-45), termos que, segundo Ferraz Junior (1980, p.90),
“representam distorções didáticas e epistemológicas sem que uma esteja isolada da outra”.
O exegetismo configura o intento de identificar o Direito com a lei e resumir a sua herme-
nêutica à busca do sentido da lei. Conforme Machado Neto (1984, p.23), a idolatria da lei reduz a
ciência jurídica a uma coletânea de glosadores, que se ocupam em entender o direito a partir de um
conhecimento filológico, apoiado na letra da lei.
Percebe-se quão reduzido está o saber jurídico a esses exatos pontos referidos, dema-
siado repetidos nos cursos de Direito disseminados pelo Brasil. Em síntese: direito é lei, que
emana do legislador, que o direciona conforme a sua vontade e, depois, se aplica via interpre-
tação judicial.
As dificuldades vividas pelo ensino jurídico encontram-se tão inter-relacionadas que
momentos há em que a diferenciação entre os vícios citados se torna complexa, como no caso do
judicialismo praxista, o segundo vício do modelo pedagógico vigente. Nessa perspectiva, o di-
reito só se concretiza depois de aplicado ao caso concreto pelo magistrado, de sorte que a ciên-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

cia do direito fica, mais uma vez, resumida a outro aspecto relevante, o da decisão, levando a
uma cultura cada vez maior do decisionismo jurídico e a consequente judicialização do direito.
Para além dessas situações, não se percebe de maneira difundida, na cultura do ensino
jurídico, os recursos de interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, entendendo-se estes como
estratégias que possibilitam a integração disciplinar para reunir as diversas possibilidades de
conhecimento, em oposição ao conhecimento monodisciplinar ou mesmo multidisciplinar, no
quais não se percebem as relações entre as várias disciplinas.
Nesse sentido ensina Nicolescu:

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como o prefixo trans indica, a transdisciplinaridade diz respeito ao que está, ao mesmo
tempo, entre as disciplinas, através das diferentes e além de todas as disciplinas. Seu
objetivo é a compreensão do mundo presente, e um dos imperativos é a unidade do
conhecimento.

A teoria surge, sobretudo em função do avanço do conhecimento e dos desafios que o


mundo globalizado apresenta para o século XXI. Seus conceitos, acabam por romper com os
princípios cartesianos de fragmentação do conhecimento e dicotomia das dualidades (DES-
CARTES, 1973, p.33-81) e propõem outra forma de pensar os problemas contemporâneos.
A fragmentação do conhecimento se generalizou e reproduziu também por meio da
organização educacional o modo de ser e pensar dos sujeitos. Assim, a transdisciplinaridade,
propõe uma religação de saberes compartimentalizados e oferece uma perspectiva de superação
do processo de atomização (SANTOS, 2008, p.71).
Esse processo de separação dos saberes não esteve ausente do mundo do conhecimen-
to jurídico, ao contrário, encontrou terreno fértil para sobreviver e ter fôlego suficiente para se
sobrepor aos meios integrados de construção dos saberes. Não é sem razão que é disseminado
no mundo acadêmico que o curso de Direito é conservador e pouco afeito à integração com o
mundo social e as realidades fluidas do contemporâneo, formando, por consequência, profissio-
nais com o mesmo perfil, ou seja, conservadores e pouco sensíveis à percepção da realidade.
Sendo essa ideia verdadeira, tem-se um ciclo vicioso continuado, posto que os acadê-
micos, uma vez orientados por essas características, em retornando à academia como professo-
res irão reproduzir o viés da formação recebida. O que se pode fazer para rompê-lo? Eis uma
questão que se pretende averiguar no decorrer do trabalho.
Um dos aspectos que aqui se coloca como possibilidade para o enfrentamento da ques-
tão é o uso das diferentes modalidades de exercício do trabalho pedagógico sob o viés da inter-
disciplinaridade e transdisciplinaridade, como meio de permitir novas visões de mundo ao es-
tudante dos cursos jurídicos, que serão os (re)produtores dos saberes assimilados na Academia.

Uma atitude transdisciplinar procura respeitar o ser humano integralmente, em sua


totalidade/complexidade de corpo físico, mente e espírito inseridos em realidades
socioculturais específicas. (...) Aceitar a alteridade exige tolerância e flexibilidade
para reconhecer e aceitar que há outras maneiras de perceber o mundo, diferentes das
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

nossas, o que pode nos levar a frustração. Exige também esforço para a integração
do diferente, sem discriminação, sem juízo de valor e, portanto, sem exclusão. Esse
objetivo não é fácil de ser alcançado, pois exige uma articulação entre o dizer e o fazer
que não é simples (BLATYTA; RUBINSTEIN, 2005).

Assim como a perspectiva transdisciplinar é fundamental para o sistema da educa-


ção, o mesmo se dá para o sistema da saúde. Mais do que isso, a construção da própria Teoria
Sistêmica parte da abertura para várias áreas do conhecimento. Luhmann buscou em outras
disciplinas e áreas os fundamentos para a construção e elaboração do marco de referência, com

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uma atitude transdisciplinar. Ele saía e voltava para a teoria, buscando o que cada área do co-
nhecimento tinha para contribuir para a solidificação desta nova teoria: saiu da sociologia para,
na verdade, torná-la mais “sociológica” e saiu do direito para mostrar a diferença entre o sistema
do direito e da moral, por exemplo.
Na educação, a postura transdisciplinar faz parte do cotidiano, mesmo que, muitas
vezes, isso seja imperceptível. Os alunos e professores trazem para o ambiente escolar toda
uma vivência, um contexto no qual não é possível se libertar e nem oportuno seria, pois sem
a educação, dificilmente se poderia assimilar comportamentos sofisticados ligados ao viver
cotidianamente. Por isso, educação é, sobretudo, intenção pedagógica. Ou seja, o professor
educa intencionalmente e o aluno deve reagir a tal intenção, o que reforça a necessidade da
perspectiva transdisciplinar, pois ela está estruturada na constante ousadia, na transgressão,
na saída e no retorno.
A relação entre a formação de operadores dos sistemas do direito e da saúde no Brasil
foi descrita de modo particular por Gilberto Freyre em 1953, inicialmente escrito para “Year
book of education” – Londres, traduzido para o português em 2003, ele observa:

(...) Como bacharéis, advogados, doutores em medicina, jovens de origem menos


aristocrática e até plebeia tiveram então a oportunidade de formar nova aristocracia:
uma aristocracia de beca coroada por outra de borla e capelo. E nessa nova aristocracia,
era natural que os professores das faculdades de Direito e de Medicina se tornassem
importantíssimos príncipes acadêmicos: eles não somente eram formados em escolas
superiores, mas professores ou mestres das mesmas escolas. Nenhum advogado
importante tinha seu prestígio completo se não era professor da faculdade de Direito.
Nenhum médico era considerado entendido profundo em Medicina se não fosse
professor de escola de Medicina (FREYRE, 2003, p.88).

Note-se que, no caso brasileiro, a relação entre saúde e direito está presente desde a
formação até a consolidação da própria democracia. A saúde pode ser considerada uma “ponte”
na efetivação dos mais diversos sistemas sociais e um dos fatores determinantes da própria saú-
de é a educação. Assim, a postura transdisciplinar está presente nos dois sistemas sociais, pois a
produção científica é fundamental para o desenvolvimento e transformação da atual sociedade,
na qual o conhecimento disciplinar perdeu o sentido. Nesta sociedade de mundo, a produção do
saber parte de múltiplas facetas.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

Nesta sociedade inflacionada por informações de todos os tipos e ordens, é necessário


identificar quais destas comunicações se tornam de fato conhecimento, quais são efetivamente
apropriadas, pois o conhecimento não é mais dado: é construído e resultado de um trabalho de
cooperação e diálogo entre saberes. Exatamente este diálogo entre as ciências que aproxima
saúde e educação. Em termos teórico-sistêmicos, temos outra aproximação entre estes sistemas:
o seu modo de operar através de um código, que é ativado não pelo aspecto “positivo”, mas pelo
negativo.
O retrato da estrutura educacional brasileira, alicerçada em princípios seculares, tem

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levado os docentes a uma prática de ensino insuficiente para uma compreensão significativa do
conhecimento, deixando muitas vezes os alunos vazios de respostas, como se verifica em ques-
tões do tipo: “por que tenho que aprender isso?”. No âmbito do ensino jurídico essa realidade se
verifica muito intensamente em questões atinentes à lei. Sem entender as razões da existência
de determinadas demandas ou exigências normativas, os alunos questionam: “mas por que é as-
sim?” e a resposta mais comum e óbvia por parte dos professores, que, provavelmente, tenham
ouvido a mesma retórica: “porque a lei diz assim. Por isso! Se você quiser que seja diferente,
terá que ser legislador, ou magistrado para ter o poder de dizer diferente”.
Assim, caminham as orientações acerca dos questionamentos pouco óbvios sobre a
construção do Direito. Tome-se como exemplo como o caso da Sociologia inserida nos currí-
culos acadêmicos dos cursos jurídicos. A interdisciplinaridade e a consequente transdiscipli-
naridade não deveriam ser meros discursos acadêmicos. Sabe-se que a relação entre ambas as
ciências leva ao estudante uma melhor capacidade de compreender a realidade social, e deveria
assim ser exigência de quem e por quem ministra o ensino jurídico a partir do pressuposto da
interação avançada dos saberes ali representados. De acordo com Pinto (2000, p. 97):

Quando o discurso acadêmico projeta a formação dos operadores do Direito com


fundamento na percepção dos valores e sentimentos sociais, a sua credibilidade passa,
necessariamente, por uma prática reveladora de que esse compromisso deve ser de
todos, especialmente dos que exploram como atividade econômica o ensino jurídico.

Desse pensamento se extrai que a prática docente entrelaçada a partir de diferentes


percepções e conceitos resulta em melhor aproveitamento, ao contrário da adoção exclusiva de
um único caminho ou método que seccione o aprendizado como conteúdo isolado. Desse modo
tem-se um ensino aprendizagem que tende à transdisciplinaridade, servindo, esta de instrumen-
to para a observação da realidade.
Para Santos (2008, p.72), na prática do magistério, esse referencial representa mudan-
ça epistemológica e vem sugerindo reconceitualizações de categorias analíticas, em vez de se
ater à lógica da objetividade e da racionalidade aliada à descontextualização. Segundo ele, a
construção do conhecimento por essa perspectiva, retira a compreensão da subjetividade, da
articulação dos saberes disciplinares e do contexto.
Ainda para o mesmo autor:
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

Essa visão descontextualizada e simplificadora, difundida pela ciência moderna,


tornou-se hegemônica ao longo dos últimos 400 anos e manteve latente a questão
da complementaridade dos pares binários. A partir das últimas décadas, no entanto,
o que permanecia implícito se manifesta com força significativa e se transforma
em princípios científicos, evolução acontecida no próprio seio da ciência moderna
(SANTOS,2008, p.73).

Certo é que inobstante exista ainda uma grande relutância na aceitação dos processos

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transdisciplinares, sobretudo no ensino jurídico, já não se pode mais ignorar a penetração, na
vida acadêmica, da articulação dos pares binários e da conectividade dos saberes, como leciona
Morin (2001).
A transdisciplinaridade exige, por si, uma postura democrática no aprendizado, no
sentido de que os diversos saberes são igualmente importantes, superando assim a visão clássi-
ca da hierarquização dos saberes, que torna alguns, naturalmente maiores ou mais importantes
que outros. É possível observar, nessa perspectiva, que a ideia pré-concebida dessa hierarquiza-
ção, se reflete não apenas no mundo das ciências de modo geral, como encontra guarida dentro
das próprias instituições de ensino jurídico e são reproduzidas fielmente pelos ditos operadores
do direito, como se convencionou chamar os que militam na área jurídica.
A propósito não é apenas nas instituições de ensino de cursos jurídicos que se percebe
essa pouca inter-relação entre as diversas áreas do saber. Felix (2009, p.21) acentua essa reali-
dade ao expor sobre os problemas do ensino jurídico em seus diversos aspectos metodológicos:

Do ponto de vista metodológico, se estou em uma universidade, deveria levar isso em


conta ao planejar as atividades de uma dada disciplina; a maior parte dos professores
não é induzida a fazer isso. Infelizmente, essa não é uma prática somente do ensino
de Direito, da formação jurídica, de um modo geral ficamos muito isolados em nossos
cursos; aliás a maior parte dos professores de outros cursos também não leva isso em
consideração, apesar de vivermos em um momento “interdisciplinar”.

Tem-se a partir da reflexão da autora, que a dificuldade de partilhas e discussões entre


as diferentes áreas do saber não são privilégio dos cursos de direito, mas da vida das academias
de modo geral, demonstrando que inobstante o momento peça cada vez mais as interações, ain-
da nos encontramos distanciados dessa realidade.
Percebe-se que determinadas áreas do direito, enquanto ciência, ganham mais expres-
são que outras, em razão de algum prestígio ou poder que a militância daquela área possa
representar. Assim, volta-se à ideia do ensino disciplinar isolado e distante dos intercâmbios ne-
cessários ao aprimoramento da condição humana. Fora da seara jurídica o fenômeno se repete
ao atribuir a determinadas ciências ou conhecimentos a categoria de mais ou menos relevantes
que outros, pondo-os em condição hierárquica, de uns em relação aos outros.
Essa banalização requer uma mudança conceitual quanto ao conhecimento no sentido
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

de não mais se conceber o conhecimento como neutro, estático ou imutável, e sim de concebê-lo
como histórico, não-neutro, dinâmico e provisório (ARAGÃO,1993, p.15-17). O conhecimento
nunca é definitivo, mas um produto da humanidade, estando sempre ligado a circunstâncias
históricas, que são dinâmicas como o são os indivíduos que o vivenciam e o projetam.
A óptica da transdisciplinaridade traz ainda em grande desafio para o mundo do en-
sino jurídico, qual seja o de transitar de modo mais livre pela gama de conhecimentos que lhe
cercam e são, tantas vezes, distanciados, da realidade concebida como central do e pelo direito.
Essa imagem parece formar uma espécie de pódio, onde o direito ocupa o posto de primeiro

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lugar, seguido de outras ciências e conhecimentos que se posicionariam em segundo, ou tercei-
ros lugares gradativamente em torno do primeiro, como ocorre com Antropologia, Sociologia,
Filosofia, Linguagem, que gravitam em torno do saber principal.
Por todos os aspectos suscitados, é comum se buscar a resposta a partir de um paradig-
ma que se consagrou no universo do ensino jurídico: o da crise.

3 CRISE DO DIREITO OU DO ENSINO JURÍDICO?

A resposta ao questionamento que intitula este tópico não é simples, muito ao contrá-
rio, tem sido objeto de dúvidas e cada vez mais debates e discussões acerca tema. De modo que
ao que indicam os caminhos e pesquisas, um aspecto parece não estar dissociado do outro: a
crise do ensino e do direito enquanto instituição e fonte de legitimação do poder.
Em se tratando de crise do ensino muito se tem falado dos problemas que envolvem o
ensino jurídico no Brasil e não restam dúvidas da necessidade de reformas nos conteúdos e nos
métodos utilizados em seu aprendizado, partindo-se da premissa do elevado alcance político e
social que os cursos de formação jurídica representa(ra)m para o Brasil, como mostra a forma-
ção política, econômica e social do país.
Sobre a crise, Felix (2017) destaca: “me deparei com essa, não diria crise, mas tragédia
do ensino jurídico”, lembra-se. Havia em São Carlos um curso noturno de Direito, 160 alunos
por classe. Fiquei perplexa por aquilo ser chamado de faculdade”.
Que rumos tomaram o ensino jurídico ao longo do tempo? Que elementos respondem
pelas dificuldades de professores e alunos? A discussão é ampla e não há uma verdade acerca do
tema enfrentado. Este estudo parte da perspectiva de que o direito, como fenômeno jurídico, é
dinâmico e multifacetado, com dimensões não apenas normativas, mas também política, social,
econômica e cultural, de sorte que seu movimento não se dá apenas na e pela norma, mas como
resultado impulsionado pela própria sociedade.
Nesse sentido, é oportuno que se ressalte que inobstante esse olhar ampliado acerca
do fenômeno jurídico, ainda é bastante corrente percebê-lo como estático, reduzido à expressão
da norma. Um ou outro entendimento é captado pelo imaginário social sob a forma do ensino
e modo de transmissão do saber, gerando um tipo próprio de atuação do profissional, conforme
o modelo, por assim dizer, do que lhe foi repassado e assim será (re) produzido nos diversos
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

âmbitos de atuação dos profissionais da área, seja elaborando a norma e difundindo um fazer
político-ideológico, seja decidindo nas diversas esferas jurisdicionais.
Nessa esteira de pensamento, Perelman (1998, p.243) afirma que a argumentação dos
juristas depende da ideia que têm do Direito e do seu funcionamento na sociedade, sendo ne-
cessário admitir que ambos os vieses são utilizados como tônica de ensino e transmissão do
saber, ainda que a sociedade não mais se coadune com um modelo de Direito estanque, o que
parece ser um dos primeiros elementos desencadeadores da crise que de longas datas perpassa o
caminho do ensino jurídico no país: o descompasso entre sociedade e Direito. Aliás, o vocábulo

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crise, tanto no sentido comum, quanto dicionarizado, remete direta e inevitavelmente a algo
que já esteve bem e deixou de sê-lo. Segundo o Aurélio, a palavra significa “ponto de transição
entre um período de prosperidade e outro de depressão”, “momento perigoso ou difícil de uma
evolução ou de um processo” ou “decadência, queda, enfraquecimento”.
Nessa perspectiva, só se pode rigorosamente falar em crise quando algo põe em risco
o que já funcionou a contento. Quando se diz, por exemplo, que um casamento está em crise,
pressupõe-se que o casal vivia em harmonia e um ou vários fatores afetaram essa estabilidade,
podendo isso servir para um avanço de uma dada situação ou por seu fim. Infelizmente, obser-
vando-se o histórico dos cursos jurídicos no Brasil, percebe-se que sempre estiveram relaciona-
dos a conflitos. Segundo Feitoza (2011),

[...] a primeira constatação [disso] é a de que os cursos de Direito no Brasil, desde sua
criação, sempre tiveram um padrão de qualidade de limites estreitos e acanhados,
apresentando no decorrer da história uma evolução linear. Os principais problemas
estruturais que hoje enfrentamos não são novos ou mesmo momentâneos, sempre
acompanharam a história do nosso ensino jurídico. Todas as reformas educacionais
feitas, sejam reformas diretas ou com repercussão na seara jurídica, nunca alcançaram
plenamente seus objetivos.

Ora, é possível, assim, inferir que os cursos jurídicos no Brasil já nasceram em crise,
um entendimento semelhante ao de Adorno (1988, p. 26) quando analisa esse ensino no império
alemão, sustentando a hipótese de que nunca houve um ensino efetivamente jurídico naquele
período, mas uma relação construída para o aprendizado dos alunos a partir da didática do pro-
fessor. O que ocorria, de fato, era um ambiente extra ensino, aliado a características da vida aca-
dêmica, que foi considerado como responsável pela profissionalização do bacharel em Direito.
De outra sorte, nominar a pretensa crise do Direito parece mais complexa, uma vez que
o próprio termo Direito possui alcance amplo no universo simbólico e concreto do Estado. De
acordo com Freitas Filho(2013), o que se convencionou chamar de crise do Direito,

é um conjunto de condições que apontam para a possibilidade de mudança e que


se revela em disfunções, ou para usar os dizeres de KHUN, anomalias (segundo o
paradigma vigente) reveladoras da incapacidade do modelo de saber hegemônico de
dar respostas satisfatórias a determinados problemas contemporâneos apresentados na
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

concretude fática. É certo que o Direito somente se realiza na prática, como resultado
do embate dialético entre a norma com o seu caráter de abstração e a realidade na
qual se aplica a mesma. A realidade para a qual se preparam os atores jurídicos e para
a qual teoricamente se produziu o juspositivismo parece não existir. A natureza dos
conflitos se alterou, as características do sujeito de direito se modificaram, e, portanto,
os conhecimentos do ator jurídico devem ser outros. Questões macroeconômicas, novos
direitos, a globalização econômica, a perda de capacidade normativa do Estado-nação,
entre outros fatos, provocam o ator jurídico a pensar o Direito de forma diversa daquela
de uma realidade sócio-econômica de matriz liberal na qual a tradição do pensamento
jurídico ocidental foi conformada.

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Do pensamento do autor, percebe-se que as mudanças político-econômicas havidas no
cenário mundial estão sendo reconfiguradas pelos Estados. E sendo o direito um instrumento
regulador do Estado, provavelmente o mais importante, dentro da premissa do funcionamento
deste, o direito também precisa ser reconfigurado. Como consequência: se o Estado está em
crise, o direito também vive a crise. Ainda para Freitas Filho(2013, p.24), a crise atual do Estado
indica que os mecanismos econômicos, sociais e jurídicos de regulação, postos há um século,
já não funcionam.
O sistema da educação, refletido por Luhmann, também segue este mesmo percurso.
Temos definições óbvias, as quais não dão respostas para a constante produção de complexida-
de. O autor reflete como as respostas pedagógicas se apresentam do seguinte modo:

La impresionante ambición crítico social de la pedagogía de la última década, que


en retrospectiva podemos considerar casi una historia fatal, ofrece pocos elementos
útiles al respecto. Esta ambición, a su vez, ha articulado las relaciones entre educación
y sociedad de manera deficiente en muchos sentidos y definitivamente no ha operado
a partir de una base teórico social suficiente(LUHMANN; SCHORR,1993, p.32).6

O que pretendem os autores com esta reflexão é, inicialmente, mostrar que as expe-
riências pedagógicas pretendem que todos os alunos aprendam da mesma forma ou que a escola
seja um locus de igualdade e inclusão. Na realidade, não passam de aspirações: teorias políticas
de determinadas esquerdas nem resolvem os problemas reais nem produzem teoria. Por isso,
algumas questões se apresentam como relevantes quando se estuda o sistema da educação.
Inicialmente, Luhmann trata da educação como intenção de educar: a educação não eleva os
indivíduos a um estado de perfeição ou plenitude; educação é sempre seleção, é produção cons-
tante de diferenças. Assim, a escola não é o lugar onde as diferenças não se fazem presentes,
ao contrário: estar incluído no sistema educacional significa a constante produção de diferença.
Entretanto, estas diferenças só podem acontecer para aqueles que estão incluídos; quem está
fora do sistema educacional não tem a possibilidade de “disputar”. Aqui está claro o paradoxo
da inclusão/exclusão. Ou seja, mesmo incluído em “igualdade de condições”, o sistema da edu-
cação – como qualquer outro sistema social – produz constantemente diferenças.
A escola nasce para incluir todos os que têm direito de estarem incluídos. A inclusão
universal que vivemos não garante a plena satisfação das expectativas. Por isso, Luhmann afir-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

ma que aprendemos mais com a frustração das expectativas do que quando elas são satisfeitas,
como apresenta (BARALDI; CORSI; ESPOSITO, 1996, p.48):

La delusione di aspettative ha una funzione importante, poiché consente di trattare


ciò che accade di sorprendente nell’ambiente, in particolare nelle situazioni di doppia
contingenza: un sistema può transformare una complessità indeterminata in dilusione

6  Tradução: “A impressionante ambição crítico-social da pedagogia da última década, que em retrospectiva podemos considerar quase
uma história fatal, oferece poucos elementos úteis a respeito. Esta ambição, por sua vez, tem articulado as relações entre educação e
sociedade de maneira deficiente em muitos sentidos e definitivamente não operou a partir de uma base teórica suficiente”.

132
e quindi affrontare le diverse situazione che si presentano nel suo ambiente. La
delusione rende evidente il referimento di un’aspettativa alla realtà esterna, realtà la
cui rilevanteza perturbativa può essere colta proprio attraverso le delusione.7

Assim, se a criação de escolas para todos é uma forma moderna de redução da com-
plexidade, ela, ao mesmo tempo, cria novas complexidades, pois estamos sempre em evolução.
Assim, os mais variados problemas decorrentes da educação de massa devem ser – e são – ab-
sorvidos pelo sistema da educação através da comunicação.
Para contemplar mais um olhar acerca dessa ideia do ensino e seu direcionamento,
ainda na perspectiva luhumanniana, é possível perceber uma relação no que estamos aqui tra-
tando por crise e ou dificuldades no ensino e aprendizado das escolas jurídicas. É o que aponta
Siqueira(2016) ao analisar as dificuldades e problemas do ensino da história do direito, ao longo
da sua experiência docente em diferentes instituições de ensino superior. Em sua abordagem o
autor faz uma análise mais detida acerca do ensino da história do direito, mas indica situações
que não estão limitadas a esse âmbito da discussão.
Observe-se que a noção de lei quando usada como indicador de uma dada realidade,
comumente não reflete o que se dá entre o texto legal e a prática vivenciada na sociedade. Para
tanto, o autor se utiliza de um exemplo bastante significativo acerca do tema, ao invocar a Cons-
tituição Federal em seu art. 6º, IV, o qual reza:

Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à
melhoria de sua condição social:

IV - salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas
necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação,
saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes
periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para
qualquer fim;

Da leitura do texto, o autor expõe que:

Em 2016, o salário mínimo no Brasil é de 880,00. Qualquer brasileiro sabe que o


salário mínimo não consegue garantir tudo que é prometido na Constituição. Existe
uma diferença entre direito e realidade. Entre os dois há uma série de variáveis que
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

interferem: economia, local de residência, inflação, política entre outros.

Podemos observar que da mesma forma que na escola, o princípio da universalidade


e da igualdade intencionados pela lei, não se verificam de forma plena. Percebe-se então que
num exemplo atual, previsto na mais importante lei do País, as diferentes situações e contextos

7  “A desilusão de expectativa tem uma função importante, uma vez que consente em tratar o que acontece de surpreendente no ambiente,
em particular nas situações de dupla contingência: um sistema pode transformar uma complexidade indeterminada em desilusão e, por
esta razão, enfrentar as diversas situações que se apresentam no seu ambiente. A desilusão desenvolve evidente o referimento de uma
expectativa à realidade externa, realidade a qual relevante perturbativa pode ser colhida precisamente através das desilusões.” Tradução
livre.

133
sociais não asseguram que as determinações ali presentes serão fielmente observadas, demons-
trando assim que a lei não pode ser apresentada, tampouco estudada fora do contexto ao qual
será aplicada. Nesse sentido reitera-se o pensamento de Luhmann para demonstrar que é muito
mais da frustração da expectativa do que da sua concretização que se retiram as lições necessá-
rias ao aprendizado, que só se concretizará de forma eficaz pela reflexão e discussão.
A escola para todos é recente. Nascida em função da necessidade de uma educação
de massa, ela passa a ser uma importante estrutura social na sociedade nas últimas décadas.
Porém, desde sua criação, observamos que a escola se tornou um lugar de alta complexidade
porque, por um lado, é a estrutura que pode incluir todos, porém produz internamente várias
formas de exclusão (refiro-me, por exemplo, às dificuldades que os alunos e professores apre-
sentam no processo aprendizagem, como é o caso dos “alunos especiais”, dos “alunos-pro-
blema”, dos “alunos informatizados”, dos alunos interessados em “qualquer coisa”, menos em
aprender). Por outro lado, temos professores não “especiais”, professores-problema, professores
não informatizados. Deparamo-nos, hoje, em sala de aula, com um novo perfil de alunos, em
um contexto tecnológico em que poucos professores foram formados e capacitados para ensinar.
As comunicações relevantes para o sistema da educação, advindas de outros sistemas,
irritam-no e provocam assimilação através do código do sistema da educação. Exemplificando:
o sistema da política tem a função de tomar decisões coletivamente vinculantes; estas, quando
chegam em qualquer sistema social, são absorvidas pelos códigos e estruturas internas de cada
sistema. Este processo de assimilar o que vem do sistema da política não significa satisfação e
inclusão plenas. O que, então, diferencia as comunicações educativas de outras comunicações?
A resposta, segundo Corsi(1998, p.66-67):

L’educazione se differenzia dagli altri processi comunicativo proprio in questo: nel


tentativo di forzare la socializzazione indirizzando il comportamento individuale
verso una direzione precisa, qualificata come corretta e giusta, e a tale scopo essa
richiede la costituizione di situazioni particolari, come le classi scolastiche , dove
diventa visibile l’artificialità dell’educazione stessa. Naturalmente l’educazione non
elimina la socializzazione; essa anzi pressupone ed è costretta ad ammetterla nelle
classi scolastiche in ogni situazione comunicativa che intenta essere educativa.8

Para a teoria sistêmica, é fundamental entender como o sistema da educação, ou qual-


FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

quer outro sistema, se diferencia dos demais. Todos os sistemas são fruto do processo evolutivo
social, o qual, especializando as comunicações internas, faz com que a estrutura do sistema se
organize para isso. No caso do sistema da educação, a escola “nasce” quando se torna necessá-
rio que os indivíduos, independentemente de local ou família, tenham acesso à formação e não

8  “A educação se diferencia dos outros processos comunicativos especificamente nisto: na tentativa de forçar a socialização endereçan-
do o comportamento individual a uma direção precisa, qualificada como correta e justa, e a tal objetivo essa requer a constituição de
situações particulares, como as salas de aula, onde se torna visível a artificialidade da educação mesma. Naturalmente a educação não
elimina a socialização; essa, ao contrario, a pressupõe e é obrigado a admiti-la nas salas de aula em cada situação comunicativa que
tenta ser educativa”. Tradução Livre.

134
apenas à socialização, que ocorre já na família. Assim, a educação não prescinde da socializa-
ção, mas é mais do que mera socialização, porque encaminha os indivíduos para uma formação,
que só pode ocorrer após a socialização e que leva os indivíduos a comportamentos diferentes.
Justamente por isso que a educação não é um processo simples que possa ser exercido por qual-
quer um e em qualquer lugar. Por esta razão, Luhmann reforça a ideia de que a educação não
pode ser explicada simplesmente pela socialização.
Este contexto – educação e socialização – propõe uma reanálise das intenções pedagó-
gicas e a necessidade de seleção, utilizando a possibilidade de influenciar o comportamento do
aluno, mudando seu estado psíquico no qual podemos observar o antes e o depois e a evidente
proposição de que socialização e educação são diferentes. Além disso, observamos que educa-
ção é seleção, pois trata da relação entre professor e aluno ou educador e educando, que por si
só se apresenta como seleção, em que a própria intenção pedagógica torna necessária a seleção.
Este fato, segundo Corsi (1998, p.73), é o ponto central: “senza la possibilità di selezionare non
avrebbe luogo l’educazione, ma solamente la socializzazione”9. Em outros termos, é esta dua-
lidade, como segue afirmando o autor, que evidencia a diferença entre ter um título e a capaci-
dade de exercitar a função proposta pelo mesmo: “la differenza tra conoscenze efetive (qualità
dell’educazione) e carriera educativa (selezione) costituisce l’aspetto più típico e peculiare del
sistema dell’educazione” (CORSI, 1998, p.73)10. É o que permite que a educação se diferencie e
evolua constantemente.
Este pressuposto nos leva a evidenciar o quanto as intenções educativas são comple-
xas. Claro que é melhor educar do que não o fazer, pois a educação busca melhorar as condições
psíquicas do aluno na sociedade. Este é o motivo principal pelo qual continuamente se coloca o
sistema educativo em questionamento, em reforma (o que não é diferente do sistema da saúde).
Como nenhum dos dois sistemas consegue os níveis máximos desejados, entram permanente-
mente em crise.
Assim, com a função de reduzir a complexidade, a escola é criada e recriada constan-
temente, pois é nela que os indivíduos são “educados” ou “deseducados”! Este tema tem sido
constante preocupação dos pedagogos, irritados constantemente por outros atores sociais que
propõem, constantemente, a reforma da educação.
Aqui podemos observar um ponto em comum entre o sistema da educação e da saúde:
ambos estão sempre no foco das reformas. A questão é saber quem reforma os reformadores, o
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

que vale para ambos os sistemas e é o tema que abordaremos no próximo ponto.
Parece-nos importante que entendamos a diferença entre educação e socialização. A
primeira significa aprendizagem intencional; já a socialização existe sempre que produzimos
alguma comunicação. Para Luhmann, por exemplo, socialização significa aprender a reagir às
expectativas que os outros têm de nós: este aprender a reagir não significa, necessariamente,

9  “Sem a possibilidade de selecionar, não haveria local para a educação, mas somente a socialização”. Tradução Livre.
10  “A diferença entre conhecimento efetivo (qualidade da educação) e carreira educativa (seleção) constitui o aspecto mais típico e pecu-
liar do sistema da educação”. Tradução Livre.

135
satisfazer as expectativas que os outros têm de nós mesmos, mas podemos inclusive desiludir.
Esta é a diferenciação que adotamos no nosso trabalho.
Quando se fala de desiguaglinaza e selezione, entendemos, como os autores citados,
que embora a escola sirva para a redução de complexidade do sistema educativo, também pro-
move seleção e desigualdades, na medida em que, por exemplo, estabelecem-se dentro desta
instituição mecanismos de competição, porque a escola confema... il fenomeno di una divisione
(CORSI, 1998, p.73).Outra forma evidente desta seleção é a questão das notas ou conceitos, bem
como a forma como valorizamos mais um aluno que outro. Qual o significado de uma nota dez
ou de uma nota zero? Poderíamos falar longamente sobre os mecanismos de desigualdade e de
seleção dentro da escola ou de qualquer outra instituição, mas para este estudo nos é suficiente
este entendimento, ou seja, não temos uma escola igual ou não seletiva porque, na medida em
que podemos fazer com que alguns alunos cresçam mais que outros, por melhor que seja nossa
intenção, produzimos diferenças quando não damos a todos as mesmas condições. Portanto, o
acesso “livre e universal” ao sistema educativo permanece no âmbito dos valores “humanitá-
rios”. A grande questão é como traduzir em um programa escolar este ideário humanista.
Sem a produção de comunicação, não existem os sistemas sociais. Neste sentido, e
retornando ao pensamento de Giancarlo Corsi(1996, p.72-73):

La comunicazione è però un evento improbabile. In particolare, la produzione della


comunicazione presenta tre livelli di improbabilità. Ad un livello basilare, è improbabile
che la comunicazione venga compresa e, quindi, realizzata. Ad un secondo livello, che
si produce in base a maggiori presupposti di complessità, è improbabile che l’emissione
raggiunga l’interlucutore. In situazioni ancora più complesse, infine, è improbabile
che la comunicazione venga accettata. Il problema per la sociologia è chiarire come
una comunicazione di per sé improbabile divenga probabile... la comunicazione viene
resa probabile, attraverso l’uso di alcuni media: il linguaggio, i mezzi di diffusione e
i mezzi di comunicazione generalizzati simbolicamente. 11

Entendemos por comunicações educativas uma implicação entre educação e ações


que desenvolvemos. Em alguns de nossos atos, pode aparecer uma faceta educativa. Quando
aparecem, significam informação, aprendizagem e compreensão. Portanto, por intermédio das
nossas atividades, constantemente, produzimos comunicações, e algumas destas podem gerar
“aprendimento”, ou seja, podemos produzir comunicações educativas que podem ser expressas
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

de diferentes formas.
As comunicações educativas podem ser percebidas por intermédio do efeito que nos-
sas ações cotidianamente apresentam. Por exemplo, um juiz, ao dar uma sentença, poderá, por

11  “A comunicação é, porém, um evento improvável. Em particular, a produção da comunicação apresenta três níveis de improbabilidade.
A um nível básico, é improvável que a comunicação venha comprimida e, portanto, realizada. A um segundo nível, que se produz na
base dos maiores pressupostos de complexidade, é improvável que a emissão consiga o interlocutor em situações ainda mais complexas,
enfim, é improvável que a comunicação venha aceita. O problema para a sociologia é esclarecer como a comunicação, por si só impro-
vável, venha a ser provável. Com a comunicação, vem o provável rendimento através do uso de alguns meios: A linguagem, os meios de
difusão e os meios de comunicação generalizados simbolicamente”. Tradução Livre.

136
intermédio desta produzir, entre outros efeitos, também o efeito educativo; da mesma forma um
advogado, quando orienta um cliente a respeito do seu processo. Ou seja, produzimos educação
dentro e fora da escola. Tradicionalmente, o sistema jurídico não tem uma função educativa,
mas os atos de seus operadores e os dos incluídos neste sistema podem produzir comunicações
educativas que gerarão, por sua vez, efeitos educativos. A comunicação é essencial para a exis-
tência e sobrevivência dos sistemas sociais. Tornam-se educativas porque promovem alterações,
informam, orientam.
Uma comunicação é educativa quando, ao mesmo tempo ensina e informa: para falar
de comunicação educativa, não basta que haja um tema qualquer. Deve haver, também, a von-
tade de mudar o comportamento de outro. Não é suficiente que se fale de qualquer coisa, mas
deve haver a vontade de mudar o comportamento daquele que está de fora. Um professor ensi-
na, um pai ensina buscando comunicar-se para educar (ou seja, educar é uma ação que implica
mudanças de comportamento). Temos educação quando esperamos que o outro, através de co-
municações educativas, melhore ou modifique. Esta comunicação se dá através de atos e ações.
Temos outros instrumentos que mostram a constante necessidade de Reforma do Sis-
tema da Saúde e Educação, escolhemos este porque é atual e mostra o caráter de normalidade
das reformas, como observa Corsi ao afirmar o caráter “normal” das reformas na educação, o
que, para nosso estudo, também repercute no sistema da saúde. Embora o autor afirme que na
educação temos uma tendência específica:

La sindrome riformista nel sistema dell’educazione è decisamente qualcosa di differente


dall’esigenza di flessibilità e di capacità di adattamento richieste alle organizzazioni
in campo economico o amministrativo. Si avverte cioè un’aspirazione universalistica
e totalizzante che non vuole e forse nemmeno può limitarsi ai problemi di una singola
scuola o università (1998, p.23-24).12

Ora, vemos que a educação busca por experimentação. A novidade se dá com a mesma
frequência no sistema de saúde brasileiro e de muitos países da América Latina, onde o direi-
to à saúde e os direitos sociais em geral, são recentes em relação à Europa, onde o Estado (de
Bem-Estar) Social já estava consolidado quando nós ainda lutávamos pela constitucionalização
destes direitos. Além do mais, hoje não se entende mais a Educação isoladamente. Assim,
as expectativas de que na escola seja possível produzir uma sociedade mais justa passa a ser
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

um ponto de contínua frustração de expectativas, assim como no sistema da saúde: se temos


como expectativa a plena saúde, teremos, constantemente, a frustração de expectativa e, em
consequência, a constante necessidade de reforma.

12  “A síndrome reformista no Sistema da Educação é definitivamente algo de diferente da exigência de flexibilidade e de capacidade
de adaptação exigidos das organizações no campo econômico ou administrativo. Se adverte que há uma inspiração universalista e
totalizante que não quer e talvez nem ao menos possa limitar-se aos problemas de uma única escola ou universidade”. Tradução Livre

137
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base nas reflexões aqui apresentadas percebe-se que o ensino jurídico no Brasil,
desde sua implementação, sempre teve um comprometimento com uma ideologia dominante,
deixando em plano secundário o compromisso com a transformação da realidade. Ao aluno,
refém deste ensino, coube a tarefa de reproduzir e operar as fontes do Estado, sem questioná-las.
As novas realidades sociais evidenciam a necessidade de transformação do ensino
jurídico tradicional das faculdades de direito. É mister a criação e/ou construção de um ensino
voltado a realidade e ao estímulo da consciência crítica do aluno, para que o mesmo esteja cons-
ciente da necessidade da transformação da realidade sócio-jurídica.
As transformações e mudanças ocorridas na sociedade, tornaram o direito caótico,
uma vez que este não conseguiu e ainda tem sérias dificuldades em dar respostas positivas as
novas demandas emergentes, gerando as constantes necessidades de reformas do ensino no
âmbito jurídico.
Além disso, faz-se necessário transpor os limites da teoria, compreendendo o mundo e
refletindo sobre ele, agindo conscientemente, entendendo a necessidade de propor novos olhares
sobre a realidade e associar a este novo olhar a ação, adentrando-se na seara da efetividade. No
entanto, forçoso reconhecer que estamos diante de um desafio enorme frente a uma crise social
espelhada na crise do ensino em todos os seus graus.
É certo que as proposições enfocadas neste estudo não pretendem esgotar ou a temáti-
ca, que gera múltiplas relações nas sociedades multifacetadas e seus sistemas interligados. Em
razão da complexidade e grande relevância da problemática cabe buscar novas ideias, vieses e
reflexões na busca de um ensino jurídico de qualidade que beneficie o direito, o estudante e a
sociedade como um todo.

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LEGAL EDUCATION: IS IT POSSIBLE TO TEACH LAW?

ABSTRACT
The article analyzes the issues related to the crisis of legal education in
Brazil, beyond the crisis variables and consequences in the academic
field. It also addresses issues related to transdisciplinarity, as well as the
effects of legal education on increasingly complex social systems.
Keywords: Legal education. Transdisciplinarity. Social transformation.

FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

140
A SEXUALIDADE HUMANA E O DIREITO DA FAMÍLIA NOS ORDENAMENTOS
DE PORTUGAL E MACAU*

J. P. Remédio Marques 1

RESUMO
Este estudo analisa as diferentes dimensões da expressão da sexuali-
dade e do gênero no Direito da Família de Portugal e da Região Ad-
ministrativa Especial de Macau (v.g., casamento, paternidade, mater-
nidade, responsabilidades parentais e orientação sexual, mudança de
sexo e esterilização), expondo algumas diferenças de tratamento destes
problemas nos dois ordenamentos jurídicos. Apesar de o ordenamento
jurídico (direito público e direito privado) de Macau revelar uma forte
matriz portuguesa, a consciência axiológica jurídica desta Região
Administrativa Especial da China assenta em pressupostos culturais
diferentes, o que explica a descontinuidade de algumas soluções
jurídicas.
Palavras-chave: Direito da Família. Gênero. Homossexualidade. Res-
ponsabilidades parentais. Reprodução medicamente assistida.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

1 FONTES DE RELAÇÕES JURÍDICO FAMILIARES EM PORTUGAL E EM


MACAU. A QUESTÃO DA UNIÃO DE FACTO

1  * Texto de apoio à conferência que o Autor proferiu na Universidade de Macau, no quadro da 9ª Conferência Internacional sobre As
Reformas Jurídicas de Macau no Contexto Global – O Direito, a Sexualidade e a Família. Organização: Centro de Estudos Jurídicos,
Faculdade de Direito de Macau, com o apoio da Direção dos Serviços de Assuntos de Justiça do Governo de Macau e da Fundação Rui
Cunha (Macau).
Professor Titular da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e da Universidade Lusíada do Porto (Portugal). Professor Visitante
de Faculdades de Direito em Espanha, Brasil, Angola, Moçambique e Macau.

141
O Direito da Família acolhe múltiplas expressões — e expressões multiformes e entre
si diferenciadas — da sexualidade humana. Isto é assim porque a Medicina e o Direito têm
construído discursos que constituem sistemas simbólicos; sistemas que se alicerçam nos valores
aceitos por determinadas culturas e sociedades e exercem um poder de regulação sobre dimen-
sões como o casamento, a sexualidade, a procriação e a maternidade.
As fontes de relações jurídico-familiares são os receptáculos dessas expressões da
sexualidade, quais sejam: parentesco, o casamento, a afinidade e a adoção. A união de facto
(com o sentido sociológico de união estável para o ordenamento jurídico brasileiro) é objeto de
tratamento jurídico específico em cada um dos ordenamentos jurídicos. E cada ordenamento
jurídico modela tais expressões de acordo com as conceções sócioculturais e ético-axiológicas
dominantes.
O art. 1576.º do Código Civil português (doravante CC) considera expressamente
como fontes de relações jurídico-familiares o casamento, o parentesco, a afinidade e a adoção.
A mesma solução decorre do art. 1461.º do CC de Macau. Porém, o artigo 1471.º deste último
Código oferece-nos uma noção de união de facto, no sentido de a considerar como “elação ha-
vida entre duas pessoas que vivem voluntariamente em condições análogas às dos cônjuges”;
dispondo o art. 1472.º as circunstâncias fático-jurídicas de cuja verificação o legislador de Ma-
cau considera emergir uma relação denominada união de facto, à qual irá, depois, aplicar um
específico regime jurídico.
Isto significa que, tanto em Portugal como em Macau, o legislador não reconhece à
união de facto efeitos idênticos aos que reconhece ao casamento; em suma, não equipara as
duas situações. Trata-se de situações jurídicas (ou com relevo jurídico) completamente dife-
rentes, tanto no plano da constituição, dos efeitos jurídicos e da extinção, segundo (PINHEI-
RO,2008,p.642). Isto é constatado em várias dimensões do respetivo regime jurídico: p. ex., o
ex-companheiro não é herdeiro legitimário por morte do outro e somente beneficia de direito a
alimentos sobre os bens da herança, nos termos do art. 2020.º do CC português2, e art. 1862.º do
CC de Macau3, bem como, em Portugal, do direito real de habitação sobre a casa de morada de
família e uso do respetivo recheio durante um prazo de cinco anos4; o unido de facto que viva
com o arrendatário somente sucede na posição jurídica emergente do contrato de arrendamento
por morte deste se viver com ele no locado em união de facto há mais de um ano, diferentemen-
te do que ocorre com o cônjuge sobrevivo (art. 1106.º, n.º 1, alínea a), do CC português), para
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

cuja sucessão na posição jurídica de arrendatário a lei não exige qualquer prazo de duração da

2  O n.º 1 desta norma dispõe que “o membro sobrevivo da união de facto tem o direito de exigir alimentos da herança do falecido”.
3  Segundo o n.º 1 desta norma “tem direito a ser alimentado pelos rendimentos dos bens deixados pelo autor da sucessão, nos termos do
artigo 1859.º, quem à data da morte deste se encontrasse a viver com ele em união de facto há pelo menos 4 anos, desde que o unido de
facto não estivesse casado ou estivesse separado de facto há mais de 4 anos”. Todavia, o n.º 2 do mesmo artigo desgradua este direito
a alimentos, ao dispor que “O direito do unido de facto a exigir alimentos gradua-se abaixo do direito a alimentos que o cônjuge do
falecido, estando este casado à data da morte, ou os filhos deste tenham sobre os rendimentos dos bens da herança”
4  Art. 5.º, n.º 1, da Lei n.º 7/2001, de 11 de maio. Findo o prazo de cinco anos o membro sobrevivo tem o direito de permanecer no imó-
vel na qualidade de arrendatário, nas condições gerais do mercado, e tem direito a permanecer no local até à celebração do respetivo
contrato, salvo se os proprietários satisfizerem os requisitos legalmente estabelecidos para a denúncia do contrato de arrendamento para
habitação, pelos senhorios (n.º 7 do referido art. 5.º).

142
residência conjugal. Isto também significa (e é por isso que estes legisladores consagraram tais
soluções) que as duas situações de vida em comum são materialmente diferentes: os unidos de
facto não assumem, não querem ou não podem assumir um compromisso de vida em comum,
ao invés do que ocorre com as pessoas casadas. A união de facto, em Portugal e em Macau,
não partilha totalmente das características das situações jurídicas familiares; scilicet, não é uma
situação jurídica indisponível, não desfruta de uma funcionalidade e oponibilidade erga omnes
acentuadas; e não tem uma durabilidade virtual5.
Na verdade, na união de facto não é exigido o cumprimento de deveres conjugais,
ao contrário do que ocorre com o casamento e o consentimento (recíproco) para essa situação
existencial ser mantida é renovado quotidianamente. No casamento há apenas um consentimento
inicial para formar o vínculo. Na união de facto existe um consentimento que se renova todos
os dias para que esta situação jurídica perdure. A dissolução do vínculo matrimonial obedece
por isso mesmo a um formalismo muito mais exigente. Um regime que equipare totalmente a
união de facto ao casamento pode ser julgado contrário à Constituição da República Portugue-
sa (art. 36.º, n.º 1, 2.ª Parte) e à Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau (art.
38.º). As pessoas vivem em união de facto precisamente que não desejam celebrar casamentoe
ficar sujeitas a obrigações e deveres jurídicos. Têm, aliás, o direito a não casar. No anverso,
as pessoas que celebram casamento colocam-se sob um manto de diversas obrigações (arts.
1671.º, n.º 2, e 1672.º do CC português; art. 1533.º do CC de Macau), que o legislador ordinário
não pode descaracterizar, no sentido de permitir que o casamento não ficasse dependente de
quaisquer formalismos e a sua dissolução pudesse ser realizada livremente e sem quaisquer
formalidades6. Mesmo em Macau — aqui onde em certos momentos históricos as pessoas se
consideravam casadas segundo os usos e costumes chineses —, a união de facto traduz uma
situação jurídica equiparada (ou conexa), para certos efeitos, às relações jurídicas de família
(PIRES, 2012, p.591/594).

2 CASAMENTO

O casamento, fonte mais importante do ser-com-o-outro e expressão mais íntima e so-


cialmente aceita da sexualidade humana, implica vários problemas de expressão da sexualidade
com incidência tanto no momento da sua celebração, quanto para efeitos da sua dissolução.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

O casamento é um poderoso modelo de relação pessoal em muitas sociedades ociden-


tais e é validado legalmente com muita força, oferecendo reconhecimento e legitimação social

5  Sobre estas características das situações familiares, cfr. Pinheiro, Jorge Duarte (2008), pp. 89-97.
6  Sobre isto, Coelho, F. M. Pereira; Oliveira, Guilherme de, Curso de Direito da Família. Vol. I. Introdução. Direito Matrimonial. 5.ª
ed. Coimbra: Imprensa da Universidade, 2016, pp. 61-63; sobre a necessidade de a situação jurídica familiar implicar deveres familiares,
Varela, João de Matos Antunes, Direito da Família. Vol. I., 5.ª ed. Lisboa: Livraria Petrony, 1999, p. 31; ou, em alternativa, essa situa-
ção jurídica familiar implicar um estado pessoal, cfr. Mendes, João de Castro; Sousa, Miguel Teixeira de, Direito da Família. Lisboa:
Associação Académica da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, 1990/1991, p. 15.

143
às relações heterossexuais e, recentemente, em muitos países, às relações homossexuais.

2.1 Unicidade versus diversidade de sexo/género

A heterossexualidade era, no direito português, uma característica indiscutível do ca-


samento, tanto civil como católico, e a sua justificação parecia elementar. Isto porque a diversi-
dade de sexos era exigida pelo fim do matrimónio, que é o de estabelecer entre os cônjuges uma
plena comunhão de vida, nos termos do art. 1577.º do CC português e do art. 1462.º do CC de
Macau. O regime e a justificação ainda são estes em Macau, mas deixou de o ser em Portugal,
por força da Lei n.º 9/2010, de 31 de maio, que alterou o art. 1577.º do CC, ao dispor que o ca-
samento “é o contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família mediante
uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código”. Em Macau, o casa-
mento entre cônjuges do mesmo sexo é considerado inexistente (art. 1501.º, alínea e), do CC).
Por identidade de sexo deve entender-se identidade legal de sexo, ou seja, só é relevan-
te a concreta menção do sexo que conste do assento de nascimento.
Há identidade de sexo se, não obstante, um dos nubentes proceder a alterações do seu
aspecto fenotípico (isto é, os caracteres sexuais externo-genitais, incluindo os seios e o formato
do rosto e/ou das ancas), permanecer no registo civil com a menção da identidade sexual diversa
da que passa a ostentar por efeito de tais alterações cirúrgicas e/ou hormonais.
Em Portugal, a receção constitucional do conceito histórico de casamento como união
entre duas pessoas de sexo diferente radicado intersubjetivamente na comunidade como insti-
tuição não permitiu retirar da Constituição Portuguesa um reconhecimento directo e obriga-
tório dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Todavia, a Constituição Portuguesa não
proibia necessariamente o legislador de proceder ao seu reconhecimento ou à sua equiparação
ao casamento. Isto veio a suceder com a Lei n.º 9/2010, de 31 de maio, que alterou o art. 1577.º
CC, suprimindo as palavras “de sexo diferente”, e revogou a alínea e) do art. 1628.º, que deter-
minava a inexistência do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

2.2 Casamento civil/casamento religioso

Em Portugal o sistema matrimonial é o do casamento civil facultativo na segunda


modalidade, no sentido de que o legislador atribui relevância civil não apenas ao casamento
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

celebrado perante o funcionário do Registro Civil, mas também ao casamento celebrado de


acordo com algum dos cultos religiosos admitidos ao abrigo da Lei da Liberdade Religiosa,
com a singularidade de os casamentos celebrados segundo o culto católico serem disciplinados
pelo Código do Direito Canónico, de 1983, quanto aos aspetos respeitantes à sua nulidade e à
dissolução do casamento católico rato e não consumado, e não pelo CC português; com a exce-
ção de a capacidade matrimonial ser determinada pelo direito civil português (já assim, desde
a Concordata de 1940, entre Portugal e a Santa Sé). Ao que acresce a atribuição de competência
exclusiva aos tribunais eclesiásticos (tribunais estrangeiros situados junto dos bispados exis-

144
tentes em Portugal) e não aos tribunais portugueses para conhecer de tais causas de nulidade do
casamento canónico e da dissolução do casamento ratus et non consumatus (art. 1625.º do CC,
na sequência da manutenção do regime pretérito na nova concordata que a República Portugue-
sa celebrou com a Santa Sé, em 2004); decisão, esta, que, se for procedente, é objeto de revisão
e confirmação nos termos da lei processual civil pelos Tribunais de 2.ª Instância.
Em Macau vigora um sistema de casamento civil facultativo na primeira modalidade
(art. 121.º/1 do Código do Registo Civil de Macau). Vale dizer: os nubentes podem casar pe-
rante o funcionário do registo civil, bem como estão livres de celebrar uma vez que os efeitos,
quanto aos requisitos de fundo do casamento, sua invalidade e dissolução, são exclusivamente
regulados pelo CC de Macau.

2.2.1 Demonstração da realização de exames médicos no quadro do processo preliminar


para casamento

O processo preliminar para casamento inclui, como primeiro acto dentro do procedi-
mento administrativo, a declaração para casamento acompanhada de vários documentos (alí-
neas a) e b) do n.º 1 do art. 137.º do Código do Registo Civil português).
Porém, nenhum desses documentos é a certidão médica passada em laboratório de
análises respeitante à despistagem de doenças sexualmente transmissíveis. Os países que pre-
veem a junção deste documento (p. ex., a França) não impedem a celebração do casamento se
ele não for junto. A ideia é a de apenas levar ao conhecimento do outro nubente, de uma forma
oficial, a condição médico-sexual do nubente com quem pretende casar, contribuindo para me-
lhor formar a sua vontade de contrair ou rejeitar a celebração do casamento.

2.2.2 O casamento católico (em Portugal) como espaço que (também) visa a procriação

O casamento católico é encarado pelo Código de Direito Canónico, de 1983, como


“ato da vontade, pelo qual o homem e a mulher, por pacto irrevogável, se entregam e recebem
mutuamente a fim de constituírem o matrimónio (Cânone 1057, § 2). O direito civil português
admite que certas causas de invalidade do casamento católico sejam reguladas exclusivamente
pela legislação eclesiástica e os respectivos litígios sejam dirimidos nos tribunais e repartições
eclesiásticas
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

O Código de Direito Canónico, de 1917, considerava fim primário do casamento, a


“procreatio atque educatio prolis” e fim secundário o “mutuum adjutorium” e o “remedium
concupiscentiae” (Cânone 1013, § 1), admitindo embora que o casamento visasse o fim secun-
dário, e só ele, no caso de o fim primário não poder ser alcançado. Já não é assim no actual Có-
digo de 1983 (Cânone 1055, § 1), o qual define o casamento como “comunhão íntima de toda a
vida, ordenada por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole”.
O “bem dos cônjuges” e a “procriação e educação da prole” são postos, lado a lado, como fins
do casamento.

145
Isto significa que a consumação (isto é, a existência de relações sexuais com potencia-
lidade para serem fecundantes) continua a ter no casamento católico um relevo que não possui
no casamento civil.
Vale dizer: a consumação como que torna o acto matrimonial mais estável, pois só
depois de consumado é que o casamento católico goza de indissolubilidade. Observe-se que
o casamento católico não consumado pode dissolverse por graça ou dispensa pontifícia (“dis-
pensa do casamento rato e não consumado”), nos termos do Cânone 1142 do Código de Direito
Canónico. Refira-se, por outro lado, que no direito canónico a impotência é impedimento ma-
trimonial dirimente (Cânone 1084), o que também revela como o espírito do direito canónico é
diverso, neste ponto, do direito civil.
O casamento católico evidencia três “bens do matrimónio” (bona matrimonii): o bo-
num prolis (a procriação e educação dos filhos), o bonum fidei (a mútua fidelidade) e o bonum
sacramenti (a indissolubilidade). Os elementos essenciais que individualizam o casamento ex-
primemse assim em direitos e deveres recíprocos dos cônjuges. Ora, se os nubentes (ainda
antes da celebração do casamento) têm intenção de não assumir esses deveres, excluindo um
ou alguns daqueles “bens”, então o casamento católico é inválido por falta de consentimento
matrimonial. Como diz o Cânone 1101, § 2, “se uma ou ambas as partes, por um ato positivo
de vontade, excluírem […] algum elemento essencial do matrimónio ou alguma propriedade
essencial, contraemno invalidamente”.

2.3 O consentimento para casar e a sexualidade

O consentimento para celebrar casamento deve ser livre, o que a lei também presume
(art. 1634.º do CC português). É assim necessário que a vontade dos nubentes tenha sido esclare-
cida, ou seja, formada com exacto conhecimento das coisas, e se tenha formado com liberdade
exterior, isto é, sem a pressão de violências ou ameaças.
A expressão e conformação da sexualidade de cada um dos nubentes pode contaminar
o consentimento para casar. Estou a referir-me ao erro. Este, como é sabido, deve recair sobre a
pessoa com quem se realiza o casamento e versar sobre uma qualidade essencial dessa pessoa.
Algumas dimensões dessa sexualidade podem ter implicações em matéria de erro na
celebração do casamento. O erro só é relevante (como causa de anulação do casamento) se
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

versar sobre qualidade essencial da pessoa do outro cônjuge (art. 637.º do CC português; art.
1509.º do CC de Macau. São essenciais as qualidades particularmente significativas, que, em
abstracto, sejam idóneas para determinar o consentimento para casar. Neste sentido, a vida
e costumes desonrosos, a impotência, deformidades físicas graves, doenças incuráveis e que
sejam hereditárias ou contagiosas, etc., serão circunstâncias que, entre outras, poderão assu-
mir relevância para este efeito. A impotência instrumental (falta, mutilação ou conformação
anormal dos órgãos sexuais), a impotência funcional (os órgãos sexuais existem e têm a sua
conformação normal, mas não são aptos para a cópula), a impotência seja absoluta ou relativa
(ou seja, quer se manifeste em relação a qualquer pessoa ou só em relação a certas pessoas e,

146
em particular, à pessoa do outro cônjuge) constituem qualidades essenciais (COELHO; OLI-
VEIRA,2016, p.282-284).

2.4 Impedimentos matrimoniais e sexualidade

Como se sabe, os impedimentos matrimoniais são as circunstâncias que impedem a


celebração do casamento; isto é, as circunstâncias verificadas que, uma vez concretamente ve-
rificadas, obstam a que o casamento se possa celebrar, sob pena de anulabilidade do acto ou de
sanções de natureza essencialmente patrimonial.
A expressão da sexualidade antes e durante o casamento não é, por si só, impedimento.
Mas a expressão dessa sexualidade entre pessoas unidas por determinados graus de parentesco
pode sê-lo. Em primeiro lugar, temos o vínculo e casamento anterior não dissolvido. Visa-se
proibir a bigamia ou a poliandria. Nos países que adoptam sistemas de casamento civil na 2.ª
modalidade (em que o casamento católico é regido, em parte, por normas do Código de Direito
Canónico), é possível aos nubentes celebrar casamento católico e, depois, celebrar entre si ca-
samento civil. O parentesco na linha recta (art. 1602.º, al. a), do CC português; art. 1480.º do
CC Macau) e no segundo grau da linha colateral (art. 1602.º, alíneac), CC português; 1480.º
do CC Macau), assim como a afinidade na linha recta (art. 1602.º, alínead), do CC português)
impedem sempre o casamento entre os familiares visados (p. ex., entre avô e neta; entre irmãos)
ou os afins atingidos. E o mesmo se deve entender na adoção plena relativamente ao adoptante e
adoptado e familiares de um e de outro.Trata-se de proteger aqui o valor da proibição do incesto,
com todas as razões de ordem ética, eugénica que fazem desta proibição social um dos tabus
mais sólidos da civilização.
Em Portugal, a Lei n.º 137/2015, de 7 de Setembro, acrescentou um novo impedimento
dirimente relativo na alínea b) do art. 1602.º do CC: a relação anterior de responsabilidades pa-
rentais. Isto é, o cônjuge de um pai ou mãe, ou unido de facto com estes que, nos termos daquela
lei, tenha assumido responsabilidades parentais relativamente ao filho desse pai ou mãe, fica
impedido de casar com esse filho, mesmo após a dissolução do casamento da mãe ou do pai ou
de o menor ter atingido a maioridade. Este impedimento não se funda no parentesco e valem a
favor dele motivos de índole social.
Já o impedimento do prazo internupcial previsto no artigo 1605.º, n.º 1, do CC portu-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

guês, impõe-se a ambos os cônjuges para fazer respeitar as convenções sociais, o luto; por outro
lado, e em relação à mulher, o maior prazo internupcial pretende evitar as dúvidas que poderiam
suscitarse sobre a paternidade do filho nascido depois do 2.º casamento. Note-se que estas pes-
soas não podem celebrar casamento (civil ou religioso) dentro dos referidos, mas podem eviden-
temente expressar a sua sexualidade no seio de uma união de facto, de um concubinato dura-
douro ou de relações sexuais efémeras com um ou vários parceiros sexuais, ao mesmo tempo ou
de forma sucessiva. De igual modo, o parentesco no terceiro grau da linha colateral (art. 1604.º,
alíneac), do CC português: tios e sobrinha; tia e sobrinho) é, igualmente, um impedimento, mas
pode ser dispensado por autorização da Conservatória do Registo Civil, ponderados motivos da

147
pretensão dos nubentes. Estes não são, porém, impedimentos matrimoniais em Macau.
2.5 Deveres conjugais; incapacidade física dos cônjuges; danos indirectos causados
por facto ilícito de terceiro
Tal como em Portugal, em Macau o dever conjugal de coabitação e de fidelidade estão
expressamente previstos na lei (art. 1533.º do CC de Macau).
A jusante há, porém, diferenças, pois Macau mantém o sistema do divórcio-sanção por
causa de violação culposa de deveres conjugais (art. 1635.º/1). Portugal aboliu expressamente
este sistema, em finais de 2008, embora ele esteja implicitamente presente no divórcio-ruptura
quando se alega a violação de tais deveres que, objectivamente, constata uma situação de crise
matrimonial a que urge por termo por meio da pretensão do divórcio. É verdade que está em
causa apenas a ruptura, independentemente das razões que a tenham determinado, designa-
damente a recusa em manter relações sexuais ou outras formas de expressão da sexualidade
dentro do casal.

2.6 Mudança de sexo na constância do casamento

Em Portugal, para alguns autores (Coelho; Oliveira, 2016,p.240), o casamento de um


transexual, conseguisse obter a mudança legal de sexo no registo civil, tornava-se inexistente:
se o casamento contraído entre pessoas do mesmo sexo era inexistente, devia, logicamente,
deixar de ter existência jurídica se os cônjuges passassem a ter o mesmo sexo, embora fossem
de sexo diferente à data da celebração do casamento.
Tratava-se de uma inexistência sucessiva ou superveniente não corresponderia
inteiramente ao da inexistência originária, única que a lei previu no art. 1630.º (idem, art. 1501.º,
alínea e), do CC de Macau), pois o casamento do transexual mantinha todos os efeitos que pro-
duzira desde a data em que fora celebrado até à do trânsito em julgado da sentença que reconhe-
cesse a mudança de sexo. A inexistência podia em princípio ser invocada por qualquer pessoa e
a todo o tempo, independentemente de declaração judicial; mas se o casamento estivesse regis-
tado e a inexistência não resultasse do próprio contexto do registo este não era inexistente (art.
85.º/1, alíneaa), do Código do Registo Civil português), tornandose necessária uma ação judicial
em que se pedisse a declaração de inexistência do casamento e, acessoriamente, o cancelamento
do registo.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

Outros autores (Remédio Marques7e Jorge Duarte Pinheiro) preferem ver nessa mu-
dança de sexo a causa da dissolução automática do casamento por meio do recurso à figurada
ineficácia jurídica (ineficácia por isso mesmo superveniente), a qual, pela sua própria configu-

7  Marques, J. P. Remédio.Mudança de Sexo. O Critério Jurídico. Tese (Mestrado em Direito). Coimbra: Faculdade de Direto da Uni-
versidade de Coimbra (existente no fundo bibliográfico desta Faculdade e na Biblioteca Nacional), 1991, p. 413 ss., p. 424.

148
ração negocial, verifica-se sempre após a celebração do ato/negócio jurídico8.
Em Macau, a discussão permanece, uma vez que a identidade de sexo é requisito
essencial da celebração de casamento (civil). Em Portugal, após a admissão de celebração de
casamento entre pessoas do mesmo sexo, Pereira Coelho e Guilherme De Oliveira, entendem
que a mudança de sexo de um dos cônjuges não torna o casamento inexistente nem gera qual-
quer causa de invalidade.
Eu julgo, porém, que há dois de casamento (homossexual e heterossexual) cujo regime
jurídico é praticamente idêntico após a sua celebração, mas é diferente até ao momento da sua
celebração: o cônjuge que celebra um casamento heterossexual forma o seu consentimento
com base na diversidade de sexos; qualquer alteração do sexo legal do outro cônjuge atinge,
por via de regra, a formação de tal consentimento, visto que o sexo, nesse outro modelo social,
constitui um elemento essencial da pessoa do outro cônjuge (art. 1636.º CC português), cuja
diferente conformação (desconhecido do outro) vicia a vontade e conduziria à anulação desse
casamento. Neste sentido, o casamento heterossexual seguido da mudança legal de sexo de
um dos cônjuges já não implica a dissolução automática desse casamento, após o trânsito em
julgado da decisão que afirme e constitua essa mudança do sexo, mas abre a possibilidade de o
outro cônjuge peticionar a anulação do casamento.
Se o casamento for originariamente celebrado entre pessoas do mesmo sexo legal (o
que não é possível em Macau), a mudança legal de sexo de um dos cônjuges poderá ter relevân-
cia, igualmente, em matéria de vícios da vontade — pode conduzir à anulação do casamento por
erro —, não devendo importar a dissolução automática de tal casamento.
Deve, por outro lado, ser afastada a solução que autorize um dos cônjuges a divorciar-se
do outro (cuja legitimidade activa caberia ao cônjuge que não foi objecto de mudança de sexo)
na sequência da mudança de sexo e nome no registro civil. É verdade que o comportamento do
cônjuge, que, sem o consentimento do outro, se faz submeter a operação cirúrgica de mudança
de sexo, podia conduzir ao divórcio nos termos gerais de um casamento heterossexual. Todavia,
a operação cirúrgica pode ter sido acordada entre os cônjuges; por outro lado, não se justificaria
que a sorte de um matrimónio outrora considerado pela lei de como inexistente (e agora como
ferido eventualmente com um vício na formação da vontade de um dos nubentes ficasse na
dependência da vontade do outro cônjuge, mantendose o casamento entre cônjuges do mesmo
sexo no caso de não ser requerido o divórcio.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

3 UNIÃO DE FACTO

8  Com a admissão do casamento (civil) entre pessoas do mesmo sexo, em Portugal, por força da Lei n.º 9/2010, de 31 de maio, a questão
não é tão líquida no sentido da dissolução automática do casamento anteriormente celebrado com diversidade legal de sexos. Parece que
o cônjuge do transsexual estará livre de peticionar a anulação do casamento, nos termos do art. 1636.º do CC, uma vez que o estado de
transexualismo seja (como é) anterior À celebração do casamento e recai por via de regra sobre uma circunstância que foi decisiva ou
determinante na formação da vontade de esse cônjuge casar, exceto se o estado de transexualismo já fosse conhecido pela pessoa desse
cônjuge que agora se vê confrontado com a mudança legal de sexo (e nome) do outro.

149
A vida em comum em condições análogas às dos cônjuges é o que caracteriza a deno-
minada união de facto, uma vez que a lei portuguesa continua a não definir esta situação jurí-
dica de expressão da sexualidade humana. O CC de Macau procedeu a uma maior densificação
desta situação jurídica familiar (arts. 1471.º e 1472.º). No Brasil, esta situação tem o nome de
união estável, cujos efeitos jurídicos patrimoniais são idênticos aos das pessoas casadas, pelo
menos no que tange à maioria dos efeitos patrimoniais inter vivos9 e aos efeitos sucessórios, na
sequência da recente decisão do Supremo Tribunal Federal brasileiro, de 10 de maio de 201710.
As pessoas vivem em comunhão de leito, mesa e habitação, como se fossem casadas,
apenas com a diferença de que não o são, pois não estão ligadas pelo vínculo formal do casa-
mento. A circunstância de viverem como se fossem casadas cria uma aparência externa de
casamento, em que terceiros podem confiar, o que explica alguns efeitos atribuídos à união de
facto. Relações sexuais fortuitas, passageiras, acidentais, não configuram uma união de facto.,-
Tão pouco o concubinato duradouro traduz a vivência em união de facto. Uma pessoa só pode
viver em união de facto com outra, não com duas ou mais. É claro, porém, que não deixa de
haver união de facto porque um dos sujeitos da relação não é fiel ao outro, tal como não deixa
de haver casamento se um dos cônjuges viola o dever de fidelidade e mantém relações sexuais
com outra pessoa.

3.1 Unicidade versus diversidade de sexo/género na união de facto

Em Portugal (diferentemente de Macau), a noção de união de facto cobre não apenas a


relação entre pessoas de sexo diferente, que vivam como marido e mulher, mas também (desde
a Lei n.º 7/2001), a união de facto entre pessoas do mesmo sexo, a qual é tratada, para todos os
efeitos legais, à união de facto entre pessoas de sexo diferente.

4 ADOPÇÃO: ORIENTAÇÃO SEXUAL DOS ADOPTANTE(S)

No processo de adopção não se inquire a orientação sexual dos adotantes (PI-


TÃO,2006,p.147); isto também é assim na adoção conjunta (ou do adoptante, na adopção
singular). O artigo 1825.º/2 do CC de Macau refere-se apenas ao inquérito sobre a personalidade
e a saúde do adoptante e do adoptando, a idoneidade do adoptante para cuidar do adoptando
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

e educá-lo, bem como a situação familiar e económica do adoptante. Isto não significa que essa
orientação seja irrelevante, à luz das circunstâncias do caso concreto, caso seja voluntariamente

9  Cfr., muito antes desta decisão do STF, Dias, Maria Berenice, Manual de Direito das Famílias. 4.ª ed. revista, atualizada e ampliada.
São Paulo: Editoria Revista dos Tribunais, 2007, p. 166, Autora que já afirmava que a união estável “gera um quase casamento na iden-
tificação dos seus efeitos, dispondo de regras patrimoniais quase idênticas”.
10  Como é sabido, o SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL entendeu que a união estável e o casamento possuem o mesmo valor jurídico
em termos de direito sucessório, tendo o companheiro os mesmos direitos a heranças que o cônjuge (pessoa casada), julgando inconsti-
tucional a interpretação diversa que se possa retirar do art. 1790º do CC brasileiro. O texto da decisão com repercussão geral é o seguin-
te: “É inconstitucional a distinção de regimes sucessórios entre cônjuges e companheiros prevista no art. 1.790 do CC/2002, devendo ser
aplicado, tanto nas hipóteses de casamento quanto nas de união estável, o regime do art. 1.829 do CC/2002» (SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL, REs 878.694 e 646.721, T. Pleno, rel, min. Luís Roberto Barroso, j. 10/5/2017).

150
revelada pelo adoptante ou venha ao conhecimento dos técnicos de serviço social ou do juiz
antes da emissão da sentença que decreta a adopção.
O superior interesse do menor, cuja adopção é requerida exige, a meu ver, que seja
ponderada a orientação sexual e a vivência dos progenitores na construção da identidade pes-
soal (e, sexual) do menor, e no seu ser-com-os-outros.

5 PODERES-DEVERES PARENTAIS

A relação de filiação (materna ou paterna) impõe não só deveres mútuos de respeito,


auxílio e assistência (art. 1874.º, n.º 1, do CC português), mas também um conjunto de situações
jurídicas cujo cumprimento incumbe aos pais na relação com os filhos menores não emanci-
pados (arts. 1877.º e 1878.º do referido CC). Situação jurídica complexa e heterogénea, esta, da
qual decorrem poderes funcionais dos pais para com os filhos, por isso mesmo indisponíveis,
típicos e com tutela reforçada, mas em cujo exercício se reconhece, por vezes, as limitações
postuladas pela autonomia do menor (MOREIRA,2001,p.159/181-92), mesmo em sede de auto-
determinação sexual.

5.1 Autodeterminação sexual dos menores

Os menores de 18 anos estão sujeitos ao poder paternal (ou aos poderes-deveres paren-
tais). Todavia, esta incapacidade de exercício projecta-se sobretudo na vertente patrimonial. Em
outras dimensões da existência dos menores, designadamente, na expressão da sexualidade, os
menores desfrutam de notórias maioridades especiais antes de perfazerem 18 anos. Vejamos.

5.2 As «maioridades especiais» dos menores de 18 anos e a sua autodeterminação dentro


da família

Do ponto de vista da expressão da sexualidade, o artigo 26.º da Constituição da Repú-


blica Portuguesa consagra o direito ao desenvolvimento da personalidade. E o mesmo ocorre
nos termos do art. 67.º do CC de Macau, bem como ao abrigo do Ponto 2, n.º 4, da «Decla-
ração Conjunta Do Governo Da República Portuguesa e Do Governo Da República Popular
Da China Sobre a Questão De Macau». Os menores de 18 anos são assim titulares de direitos
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

fundamentais. E esta titularidade projecta-se no domínio do Direito Civil, no Direito Criminal


e em várias dimensões do Direito Administrativo.
Surpreendem-se várias «maioridades especiais» que traduzem a autonomia dos me-
nores no exercício dos seus direitos de personalidade, mesmo dentro da família e face aos
poderes-deveres parentais.
Por exemplo, em Portugal, o juiz deve ouvir a opinião do menor que tenha 14 anos se
tiver que dirimir um desacordo entre os progenitores respeitante ao exercício das responsabili-
dades parentais (poder paternal), nos termos do artigo 1901.º/2 do Código Civil; em matéria de

151
adopção, exige-se o consentimento do adoptando com mais de 12 anos (art. 1981.º/1, alíneaa),
do mesmo Código); o menor de 16 anos pode escolher livremente a sua religião (art. 1886.º,
idem; também assim no CC de Macau); os menores com 16 anos podem celebrar casamento
válido (art. 1649.º do CC português); em geral, nos processos de regulação de responsabilidades
parentais e demais processos tutelares cíveis, os menores com capacidade natural para entender
devem ser ouvidos pelo juiz, sob pena de nulidade processual.
No domínio da saúde e da sexualidade humana, estas «maioridades especiais» são
mais intensas. Vejamos. Admite-se o acesso livre às consultas de planejamento familiar a todos
os jovens em idade fértil, sem quaisquer restrições, independentemente de autorização prévia
dos pais (em Portugal: art. 5.º da Lei n.º 3/84, de 24 de Março; n.º 2 da Portaria n.º 52/85, de 26
de janeiro). Neste domínio da informação sexual e contracepção, os menores não se sujeitam
ao poder paternal. No que respeita à saúde sexual e reprodutiva, a Resolução da Assembleia da
República n.º 51/98, de 2 de novembro recomenda ao Governo a criação de consultas próprias
de ginecologia e obstetrícia para adolescentes nos centros de saúde e hospitais, o que já se ve-
rifica desde finais dos anos noventa do século passado. A Lei n.º 120/99 de 11 de agosto, que
reforça as garantias do direito à saúde reprodutiva, reafirma que os jovens podem ser atendidos
em qualquer consulta de planeamento familiar, mesmo que o centro de saúde não seja o da sua
área de residência.
De igual maneira, não há restrições etárias, em Portugal, para a venda de contracep-
tivos de venda livre; aliás, estes são inclusivamente fornecidos nos centros de saúde aos jovens
menores que os solicitem. Enfim, o livre acesso individual, com garantia de confidencialidade,
garante maior liberdade aos adolescentes relativamente à sua autodeterminação com a saúde
reprodutiva, pois o artigo 5.º, n.º 3, do Decreto-Lei n.º 157/99, de 10 de maio, determina que são
utentes dos centros de saúde todos os cidadãos que neles se queiram livremente inscrever.
No que toca à interrupção voluntária da gravidez não criminalmente punível, a lei
portuguesa dá o poder de decisão à grávida com 16 anos ou mais (art. 142.º do Código Penal). O
consentimento é prestado por documento escrito pela mulher grávida, sempre que possível com
a antecedência mínima de três dias relativamente à data da intervenção.
No que respeita à capacidade para perfilhar, a lei portuguesa reconhece-a aos menores
de 16 anos, se não estiverem interditos por anomalia psíquica ou não forem notoriamente de-
mentes no momento da perfilhação (art. 1850.º, n. 1, do CC); idem, no ordenamento de Macau
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

(art. 1705.º, n. 1, do CC).


Em Macau, o art. 3.º, alíneas b), c) e d) do Decreto-Lei n.º 59/95/M, de 27 de novembro,
exclui a punibilidade da interrupção da gravidez se for realizada até às 24 semanas de gesta-
ção, contanto que estejam verificadas determinadas circunstâncias factuais atendíveis (isto é,
doença incurável do nascituro, malformações graves, a mãe tiver sido vítima de crime contra a
liberdade e autodeterminação sexual; perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o cor-
po ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida). O consentimento da grávida deve ser
prestado se tiver 16 anos ou mais. Para as menores de 16 anos, esse consentimento deverá ser

152
prestado pelo representante legal, por ascendente ou descendente ou, na sua falta, por quaisquer
parentes da linha colateral (art. 3.º/3, alínea b), do citado decreto-lei).
Quanto às demais intervenções médicas, incluindo as de alteração dos caracteres ge-
nitais externos e/ou internos, só os menores de 16 anos, ou os que não possuam o discernimento
necessário para avaliar o sentido e alcance do consentimento é que serão substituídos pelos
representantes11. A idade de 16 anos constitui assim no direito português uma presunção de
capacidade para consentir intervenções médicas (OLIVEIRA,199,p.228). Porém, em certos ca-
sos, o médico deverá chamar os pais a colaborar no esclarecimento, na formação da vontade do
menor de 16 anos, quando este aponta para uma solução com resultados graves e irreversíveis
para a sua saúde ou a sua vida.
Quanto aos menores com idade inferior a 16 anos, há quem entenda que é o médico
a pessoa que tem o ónus de demonstrar que o menor desfruta do discernimento e capacidade
suficiente para consentir, independentemente da vontade dos representantes legais. Todavia, aos
menores com mais de 14 anos e capacidade de entendimento internados em unidades de saúde
mental é reconhecida a capacidade de consentir12. Com efeito, se o menor for capaz de com-
preender o alcance, a índole e as consequências da intervenção e da recusa do tratamento, de
modo que se deva considerar capaz para consentir, ele deve também ser considerado capaz para
dissentir. Por outro lado, sempre que, nos termos da lei, um menor careça de capacidade para
consentir numa intervenção, esta não poderá ser efetuada sem a autorização do seu representan-
te, de uma autoridade ou de uma pessoa ou instância designada pela lei. A opinião do menor é
tomada em consideração em função da sua idade e do seu grau de maturidade.
Na verdade, o art. 46.º, n.º 3 do Código Deontológico da Ordem dos Médicos (Portu-
gal) determina que “A opinião dos menores deve ser tomada em consideração, de acordo com a
sua maturidade, mas o médico não fica desobrigado de pedir o consentimento aos representan-
tes legais daqueles”. Também o n.º 2 do artigo 6.º da Convenção sobre os Direitos do Homem
e a Biomedicina, dispõe que: “Sempre que, nos termos da lei, um menor careça de capacidade
para consentir numa intervenção, esta não poderá ser efetuada sem a autorização do seu repre-
sentante.

6 ESTERILIZAÇÃO (TERAPÊUTICA/NÃO TERAPÊUTICA) VOLUNTÁRIA/


FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

COACTIVA

Em Macau, o artigo 6.º do Decreto-Lei n.º 111/99/M, de 13 de dezembro, determina


que, sem prejuízo do disposto no artigo 16.º, qualquer intervenção sobre uma pessoa incapaz de
prestar o seu consentimento apenas pode ser efectuada em seu benefício directo. E estatui ainda
que, sempre que, nos termos da lei, um menor seja incapaz de consentir numa intervenção, esta

11  Cfr. o art. 38.º, n.º 3 do Código Penal português.


12  Cfr. o art. 7.º, alínea b), da Lei n.º 36/98, de 24 de julho.

153
não pode ser efectuada sem a autorização do seu representante ou, na sua impossibilidade, do
tribunal competente, sendo a opinião do menor tomada em conta, em função da sua idade e do
seu grau de maturidade.
Em Portugal, o artigo 10.º, n.º 1, da Lei n.º 3/84, requer idade acima de 25 anos, declara-
ção escrita e assinada, requerendo a realização do procedimento, bem como explicitando que a
pessoa foi esclarecida sobre a intervenção; essa declaração deverá ter ainda o nome e assinatura
do médico solicitado a intervir.
Já quanto aos incapazes de facto, em virtude de distúrbio mental, de doença ou de
motivo similar, a intervenção não pode ser efectuada sem a autorização do seu representante ou
do suprimento judicial do consentimento, devendo a pessoa em causa, na medida do possível,
participar no processo de autorização.
Em Portugal não há legislação específica sobre a esterilização não terapêutica de
maiores incapazes. A referida Lei n.º 3/84 limita-se a estatuir que o limite mínimo de idade
de 25 anos é dispensado nos casos em que a esterilização é determinada por razões de ordem
terapêutica. Todavia, o Conselho de Ética para as Ciências da Vida (Portugal) já emitiu pare-
cer (n.º 35/CNECV/01)13, no sentido de que a esterilização não terapêutica de incapazes através
da laqueadura só deve ser realizada como medida de último recurso, tendo em vista sua difícil
reversibilidade; ademais, a decisão deve partir de uma autorização do Tribunal.
O Código Deontológico da Ordem dos Médicos de Portugal determina, no seu art.
66.º, n.º 4, que os métodos de esterilização irreversíveis só devem ser executados após pedido
devidamente fundamentado no sentido de evitar graves riscos para a sua vida ou saúde dos seus
filhos hipotéticos e, sempre, mediante prévio consentimento judicial. A família do incapaz e
dos médicos são aqueles em quem a lei faz recair a difícil decisão acerca da esterilização não
terapêutica como meio de controlo de natalidade. Isto sem prejuízo de, como referi, o incapaz
dever ser ouvido. Mas tal como em Portugal, em Macau o consentimento é tolerante, pois nos
termos do n.º 5 deste artigo 6.º a autorização referida pode ser retirada, em qualquer momento
até à execução da intervenção, no interesse da pessoa em causa.

7 A FERTILIZAÇÃO MEDICAMENTE ASSISTIDA

As crenças e os padrões comportamentais são muito diferentes ao longo do planeta. E


FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

isso tem que ser reflectido na regulação jurídica e no Direito. A doação de óvulos e até de em-
briões levanta menos problemas do que a doação de esperma. Isto por causa de ideias em torno
da experiência do nascimento e da ligação maternal durante a gravidez.
Na China (e, logo, na Região Administrativa Especial de Macau), a doação de óvulos
é mais aceite do que a de esperma por causa dos valores patriarcais e das preocupações com

13  MACHADO, Pinto. Laqueação de Trompas em Menores Com Deficiência Mental Profunda. Conselho Nacional de Ética para as
Ciêcias da Vida. Lisboa, 3 abr 2001. Disponível em: <http://www.cnecv.pt/admin/files/data/docs/1273057418_P035_LaqueacaoTrom-
pas.pdf>. Acesso em: 1 out. 2017>.

154
a continuidade das linhagens patriarcais, ao passo que acontece exatamente o contrário, por
exemplo, em Israel, onde a identidade judaica é estabelecida através da mãe. No Reino Unido e
nos EUA a doação de esperma é vista de modo sexualizado – talvez porque a doação atravessa
as fronteiras de género –, enquanto a doação de ovos é vista como assexuada e altruísta.

8 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todas as sociedades atravessam actualmente momentos de forte ambiguidade nas re-


presentações e no atuar da sexualidade humana a que o Direito tem respondido de forma insu-
ficiente. Portugal e Macau não escapam a este fenómeno.
Na verdade, Macau não dispõe de uma lei das uniões de facto. Porém, o art. 25.º da sua
Lei Básica (e, implicitamente, a Declaração Conjunta subscrita entre Portugal e a República
Popular da China, por ocasião da cedência, por Portugal, da soberania deste território à China,
em 1 de janeiro de 2000) proíbe a discriminação por orientação sexual. Também não existe um
debate público e político que certamente acerca da legalização do casamento civil entre pessoas
do mesmo sexo.
Macau revela um sentido negativo relativamente à adopção por casais homossexuais,
mas dispõe de algumas (poucas) regras sobre procriação medicamente assistida no próprio Có-
digo Civil (arts. 1723.º a 1728.º).
Portugal tem, desde 2006, um regime específico de procriação medicamente assistida,
mas que até muito recentemente vedava, em absoluto e sem qualquer derrogação, o acesso por
parte de mulheres solteiras, viúvas ou divorciadas (não unidas de facto) e por casais de mulhe-
res às técnicas de procriação medicamento assistida e aos acordos de gestação para terceirosem
casos de ausência de útero, de lesão ou de doença desteórgão que impedisse de forma absoluta
e definitiva a gravidez.
O regime jurídico português assim descrito mudou coma Lei n.º 25/2016, de 29 de julho.
Aquele regime condicionador e até impeditivo vigora, todavia, em Macau. As lésbicas
portuguesas (e supõem-se também o mesmo em Macau) têm recorrido a formas de reprodução
que passam sobretudo pelas seguintes estratégias: o recurso à procriação medicamente assistida
no estrangeiro, por parte das mulheres; o recurso a um dador amigo, com ou sem definição de
futuro envolvimento parental deste; projectos de co-parentalidade, com um/a amigo/a ou casal;
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

o recurso à adopção singular com ocultamento da (ou prévio à) existência de um/a parceiro/a.
Noutros casos, nacionais da China continental recorrem às autoridades sanitárias de
Macau para realizar técnicas de procriação assistida ilícitas face ao ordenamento da República
Popular da China (e, por vezes, de Macau).
De todos estes novos e radicais casos a bibliografia mais recente sobre estes assuntos
sugere que os modelos construídos por famílias, parceiros e pais gays e lésbicas, bem como
pelos pais de crianças nascidas graças a novas tecnologias reprodutivas, assentam igualmente
em ideias radicais e em ideias conservadoras.

155
Durante muito tempo a sexualidade, a procriação, a filiação e a aliança coincidiam,
mesmo que apenas idealmente, assim como a produção e reprodução da família. Hoje, em mui-
tos países (de que são expressão os ordenamentos jurídicos português e macaense), a cada vez
maior saliência cultural da homoparentalidade ainda vai confrontar-se, por muito tempo, com
os efeitos das normas jurídicas geralmente aceitas e produzidas nos Parlamentos, para efeitos da
constituição das subjectividades (neste caso de “pais” e “filhos”). E isto será tanto mais assim
quanto, sobretudo em contextos contemporâneos na Europa e nos E.U.A., a lei segue e apoia o
biologismo da cultura e a biologia tende a seguir e a apoiar o biologismo da lei14.

REFERÊNCIAS

Almeida, Miguel Vale de. O Esperma Sagrado: Algumas Ambiguidades da


Homoparentalidade em Contextos Euro-Americanos Contemporâneos.Quaderns, n.º 25, 2009,
pp. 109 ss.

Coelho, F. M. Pereira; Oliveira, Guilherme de.Curso de Direito da Família. Vol. I.


Introdução. Direito Matrimonial. 5.ª ed. Coimbra: Imprensa da Universidade, 2016.

Dias, Maria Berenice. Manual de Direito das Famílias. 4.ª ed. revista, atualizada e ampliada.
São Paulo: Editoria Revista dos Tribunais, 2007.

Marques, J. P. Remédio, Mudança de Sexo. O Critério Jurídico. Tese (Mestrado em


Direito). Coimbra: Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (existente no fundo
bibliográfico desta Faculdade e na Biblioteca Nacional), 1991.

Mendes, João de Castro; Sousa, Miguel Teixeira de, Direito da Família. Lisboa: Associação
Académica da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, 1990/1991.

Moreira, Sónia. Autonomia do Menor no Exercício dos seus Direitos. Scientia Iuridica,
2001, p. 159 ss.

Oliveira, Guilherme de. O Acesso dos Menores aos Cuidados de Saúde. Temas de Direito da
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

Medicina. Coimbra: Coimbra Editora, 1999.

Pinheiro, Jorge Duarte. O Direito da Família Contemporâneo. Lisboa: Associação


Académica da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, 2008.

14  Nestes termos, Almeida, Miguel Vale de, “O Esperma Sagrado: Algumas Ambiguidades da Homoparentalidade em Contextos Eu-
ro-Americanos Contemporâneos”, in: Quaderns, n.º 25, 2009, pp. 109 ss., pp. 119-120, acessível, igualmente no seguinte endereço
eletrônico: http://miguelvaledealmeida.net/wp-content/uploads/2012/11/193726-328868-1-PB.pdf

156
Pires, Cândida Antunes da Silva. O direito da Família e a Prova Legal do Estado Civil
em Macau. In: Repertório do Direito da Macau. Macau: Centro de Estudos Jurídicos da
Universidade de Macau, 2012, p. 591 ss.

Pitão, França. Uniões de Facto e Economia Comum. 2.ª ed. Coimbra: Almedina, 2006.

Varela, João de Matos Antunes. Direito da Família. Vol. I., 5.ª ed. Lisboa: LivrariaPetrony,
1999.

THE HUMAN SEXUALITY AND THE FAMILY LAW IN THE PORTUGUESE AND
MACAU LEGAL FRAMEWORK

ABSTRACT
This paper analyses some of the multiple dimensions of sexuality and
gender in Family Law in the Portuguese and Macau legal framework
(e.g., marriage, fatherhood; motherwood; adoption; parental respon-
sibilities and sexual orientation; sex reassignment, sterilization). Al-
though the legal system of Macao (public law and private law) reveals a
strong Portuguese matrix, the ethical and axiological awareness of this
Special Administrative Region of China is based on different cultural
assumptions, which explains the discontinuity of some legal solutions.
Keywords: Family Law. Sexuality. Gender. Homosexuality. Parental
responsibilities.Medical assisted reproduction.

FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

157
CONTROLAR E PUNIR – O DIREITO PENAL EM MUDANÇA?

Anabela Maria Pinto de Miranda Rodrigues1

RESUMO
Este estudo analisa o controle social e a punição na sociedade do ris-
co e globalizada, em que se desenvolve uma nova criminalidade al-
tamente danosa e geradora de elevados sentimentos de insegurança.
O enfraquecimento do poder estatal ligado ao questionar do mode-
lo social, sob o pano de fundo da crise econômica desencadeada em
2008, alimentou uma cultura de controle e a penalização da seguran-
ça. O Estado Penal e uma ideologia securitária levam à crescente uti-
lização das penas de prisão e alternativas como puro controle. Apenas
uma reinterpretação da dimensão socializadora da punição, permiti-
rá restaurar a responsabilidade e autonomia, recriando o laço social.
Palavras-chave: Risco. Globalização. Segurança. Punição. Socialização

1 INTRODUÇÃO

Falar de controle social e de punição significa ter presente que a sociedade e o crime
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

se transformaram. A nova sociedade e a nova fenomenologia criminal se colocam como um


desafio muito próximo daquelas épocas marginais de que falava Jaspers.
Esta proposta de percurso postula naturalmente um olhar aberto a diferentes azimutes,

1  Professora de Direito e Processo Penal da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Foi Presidente da Comissão para a Refor-
ma do Sistema de Execução de Penas e Medidas e Presidente da Comissão de Reforma da Legislação sobre o Processo Tutelar Educati-
va. É colaboradora permanente da Revista Portuguesa de Ciência Criminal. É colaboradora do Comentário Conimbricence do Código
Penal - Parte Especial, É membro da Associação Internacional de Direito Penal. É Secretária-Geral da Fundação Internacional Penal e
Penitenciária. É Secretária para os Assuntos Europeus da Sociedade Internacional de Defesa Social. Foi diretora do CEJ. Presentemente
é Diretora da FDUC.

158
o perscrutar dos sinais emitidos em diferentes linhas de fronteira.
Os desafios estão bem esculpidos nas experiências da realidade social e em substâncias
e formas de criminalidade que marcam a contemporaneidade. A legitimidade do punir deve
limitar-se a um eidético mundo da vida, de inspiração husserliana? Isso não significará uma
política criminal míope, incapaz de responder à necessidade de proteger novos valores e de
perseguir e punir novos criminosos,em que a referência pode ser a catástrofes ambientais ou nu-
cleares? Mas até onde se pode ir naperseguição e punição da criminalidade mais grave, sobre-
tudo daquele que emerge nos dias atuais como desafio aos fundamentos da própria democracia?
E até onde se pode oferecer proteção àqueles que se propõem destruí-la, como acontece com
certas manifestações de criminalidade econômica ou de terrorismo?
O direito penal e, com ele, o direito de punir, tocam o seu próprio destino.
Ainterrogação, ao mesmo tempo mais genérica e mais funda, atravessa o atual tempo:
até onde pode recuar a liberdade para assegurar a segurança?
Tinha razão Saramago quando se referiu ao presente tempo como o tempo das pergun-
tas: sobram as perguntas e faltam as respostas.

2 GLOBALIZAÇÃO E SOCIEDADE DO RISCO

Ao indagar a razão destas súbitas interrogações, a resposta parece incontroversa. As-


sisti-se ao advento de uma nova sociedade, global e do risco, caótica e de fluxos instantâneos,
que assumiu o significado de uma rutura epocalcom um passado ainda recente. E, com as
ameaças, as incertezas e a instabilidade – as crises -, os Estados mostraram as suas vulnerabi-
lidades e as dificuldades que enfrentam em lidar com a questão da segurança.
Trata-se, no fundo, de ganhar consciência de que a crença na superioridade ética e na
eficácia da política criminal estatal está abalada. E, desta forma, é o próprio direito de punirde-
mocráticoque está em causa.
Volvidas três décadas sobre a publicação de Ulrich Beck, em 1986,2 a propósito da
sociedade do risco, em que captou com apurada sensibilidade a insegurança inerente ao pro-
jeto da sociedade industrial da modernidade, o seu diagnóstico não perdeu atualidade e é hoje
reforçado pela crise energética,as alterações climáticas, a disrupção dos sistemas econômico e
financeiro, as pandemias ou pela criminalidade grave organizada e pelo terrorismo global.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

Os progressos alcançados na promoção dos direitos humanos, nos avanços da demo-


cracia e do Estado de direito, a crença na ciência e na técnica e nas suas possibilidades ilimita-
das deram lugar a um risco existencial perante os problemas políticos, econômicos, ambientais,

2  O autor definiu a “sociedade do risco” como aquela que, juntamente com os progressos da civilização, apresentava a contrapartida da
produção de novos riscos conaturais àqueles progressos, por exemplo, perigos ambientais ou nucleares. Hoje em dia, como o próprio
Beck destaca (BECK, Ulrich; WILLMS,Johannes.Conversations with Ulrich Beck, Cambridge, Polity Press, 2003, p. 34), a lista dos
“riscos” poderia ser ampliada: riscos laborais (precariedade, flexibilidade laboral e despedimentos); riscos sanitário-alimentares (conta-
minações, adulterações, transgénicos, pestes de animais); riscos derivados da alta sinistralidade (laboral e em acidentes com veículos);
riscos próprios de desasjustamentos psíquico-emocionais e derivados das “patologias do consumo” (anorexias e bulimias).

159
de saúde pública, de segurança pessoal ou de segurança comunitária que, no novo milênio,
confrontam a humanidade com desafios avassaladores3.
Interagindo com o risco, a globalização – também já descrita como uma compressão
do Mundo - é o outro fenômeno responsável pela emergência de uma sociedade impregnada por
uma ideologia neoliberal, que não por acaso recebe o ápodo de “globalização neoliberal”4. O
primado da lex mercatoria - a entronização do mercado, para utilizar a terminologia do prêmio
Nobel Joseph Stiglitz – e a ausência de regulação pública efetiva são caraterísticas reconhecidas
da globalização, designadamente econômica, mas não só.
É esta sociedade que se confronta com mudanças que colocam a sua humanidade no
fio da navalha.
É, desde logo, (INNERARITY, 2009, p. 57) a invisibilidade dos poderes que a domi-
nam, cada vez menos identificáveis. A globalização trouxe consigo a questão de saber quem
manda aqui – ou, se se preferir, quem ordena o caos.
Foi também Beck5 que chamou a atenção para que a globalização, ao contrário do
que à primeira vista se poderia pensar, não apontava para o “fim da política”, mas para “novos
atores” da política num “novo espaço”: os grandes empresários em empresas internacionais à
escala mundial. A atuação destesnovos protagonistas, situada fora das fronteiras nacionais, sig-
nificou mais política – a politização da economia -,porque permite que desempenhem um papel
chave, não só na configuração das relações econômicas, mas na sociedade no seu conjunto:
têm uma localização incerta, escapam aos controles estatais e não prestam contas a qualquer
eleitorado. A abertura a espaços de tratamento diferenciado de certas atividades, ilícitas em um
lugares e lícitas noutros, permitem-lhes escolher o local em que querem instalar-se, em busca
da máxima rentabilidade em função das diferentes disciplinas legais, em domínios tão varia-
dos como o fiscal, laboral, segurança social ou ambiental, ou ainda os domínios financeiro ou
econômico. E onde se inclui, também, o direito penal, cujas opções legislativas condicionam o
investimento e são, em contrapartida, condicionadas por ele. (BASOCO, 2015, p. 8) Por sua vez,
o capitalismo financeiro de Sillicon Valley ou de Wall Street, aliado à aceleração da revolução
tecnológica e à proliferação dos cibermundos, converteu a economia real em algo quase obsole-
to e fez surgir uma economia virtual e imaterial, um capitalismo de acionistas e especuladores,
de “proprietários ausentes”, segundo Zygmunt Bauman (1999, p. 18). Desregulação, deslocali-
zação ou financiarização da economia são sinais de ameaça e geram desigualdade, assimetria
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

e enfraquecimento dos Estados. O que se observa équeos Estados nacionais definham na sua
capacidade de produzir riqueza e veem diminuídoo seu poder para gerir os assuntos internos,

3  São sete as áreas de (in)segurança identificadas, em 1994, no Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
(PNUD): econômica, alimentar, sanitária, ambiental, pessoal, comunitária, política.
4  Sobre o fenômeno da globalização, no que se segue: RODRIGUES,Anabela Miranda. “Direito penal económico – é legítimo? É neces-
sário?”, Revista Portuguesa de Ciências Criminais (RPCC), Ano 26, 2016, p. 42.
5  Chama a atenção, exatamente nestes termos (e no que se segue), para a análise de Ulrich Beck (Que és la globalización? Falacias del
globalismo, respuestas a la globalización, Paidós, 1998, p. 15.), Eduardo Demetrio Crespo, “El significado político del derecho penal
económico”, E. Demetrio Crespo y M. Maroto Calatayud, Crisis financeira y derecho penal económico, BdeF-Edisofer, Montevideu,
Madrid, 2014, p.4 e 5.

160
para tomarem as decisões que podem melhorar as condições de vida dos seus cidadãos. E, por
exemplo, quando os mercados “afundam” ou ficam “nervosos” não há nenhum interlocutor que
possa criticar ou tranquilizar. O poder é invisível e só é possível questioná-loatravés da especu-
lação argumentativa ou derrubando o World Trade Center (INNERARITY, 2009 p. 79)
É este o cenário da nova sociedade do risco ou “sociedade invisível” - como a apeli-
da Daniel Innerarity -, em que tudo aponta para que se vai viver num estado de permanente
insegurança.
Criminalidade e medo da criminalidade desempenham aqui um papel fundamental
(RODRIGUES, 2003, p. 39).
A globalização traz consigo a dimensão transfronteiriça dos problemas que desenca-
deia e o aumento da interligação e interdependência entre os Estados. Potenciando a liberdade
de circulação de pessoas e a utilização das tecnologias de comunicação e informação, não ape-
nas facilitou a prática de atividades criminosas como também o surgimento de uma realidade
criminológica especificamente global. Tornou o crime mais eficaz, mais lucrativo e exponen-
cialmente mais danoso.
Estreitamente ligado à globalização estáo nascimento e a expansão de uma criminali-
dade que utiliza as suas lógicas e potencialidades, permitindo que grupos criminosos aprovei-
tem as vantagens que oferece o novo espaço mundial. Por um lado, no mercado gigantesco para
que evoluiu a economia mundial, existe uma procura de bens proibidos que alimenta um mer-
cado de produtos e serviços ilegais. A atividade criminosa adquiriu uma enorme capacidade de
diversificação, organizando-se estrutural e economicamente de forma altamente lucrativa, para
explorar os mais variados domínios. A criminalidade dita econômica é hoje, assim, uma cate-
goria que pode alargar-se e dizer respeito, quer ao branqueamento ou a diferentes modalidades
de corrupção política, de funcionários ou de privados, como ainda aos tráficos internacionais de
droga, de moeda falsa, de armas, de órgãos humanos, de crianças para a adoção internacional,
de pessoas para a prostituição, de migrantes e de trabalhadores.
Entretanto, no espaço sem poderes visíveis em que se tornou o mundo, a definição do
crime e do delinquente diluem-se e tornam difícil a sua identificação enquanto tais. Estas inter-
rogações surgem hoje com frequência: É crime? Quem é o responsável? Não está só em causa
a fronteira, que é muito tênue, entre uma atividade econômica lícita ou ilícita, como será o caso
entre uma fuga, lícita, ao pagamento de impostos e uma fraude fiscal. Os chamados Papeis do
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

Panamá ocuparam, há bem pouco tempo, a atualidade informativa e os prime time dos noticiá-
rios de todo o mundo – até que, tão depressa como apareceram, bruscamente desapareceram.
Curiosamente, o que se observou, foi que, em vez de negar a veracidade da informa-
ção, a principal estratégia de defesa, que foi utilizada pelos implicados, foi a de sustentar a
legalidade das contas ou das atuações refletidas nos diversos documentos filtrados. Se aparece
um cadáver, o primeiro impulso será pensar que esta-se perante uma vítima de homicídio. Pelo
contrário, a mera descoberta de uma série de documentos como os que figuram nos Papeis do
Panamá não é suficiente para determinar a existência de indícios de crime com um grau de

161
segurança equivalente. Provavelmente, na maioria dos casos, bastará para fundar um juízo ne-
gativo no plano moral, mas já não no plano legal, onde ficará a mera suspeita.
O fenômeno migratório é outro bom exemplo do que está em causa, em que, entre a ex-
ploração de quem auxilia à imigração ilegal e à própria imigração em si, se confundem, tantas
vezes, realidades diferentes. Também para a atividade terrorista falham as explicações causais
e os conceitos tradicionais de crime e de criminoso não dão respostas bastantes. A primeira
discussão em torno do 11 de setembro foi sobre se se estava perante um ato de guerra ou um ato
de terrorismo. A seguir ao atentado que deu início à nova era do terrorismo, Innerarity (2009, p.
103) preconizou que “assistiríamos a conflitos sem uniformes, com explosões dispersas, méto-
dos de destruição sinistros (…), sem sinais nos mapas como os que sinalizam uma guerra, com
estratégias desenhadas mais para produzir medo do que baixas”. E Martin Creveld viu em tudo
isto algo que iria para além do militar: afirmou que terminara a época da “estabilidade moder-
na, da soberania reconhecível, do monopólio da força monopolizada e da segurança garantida”
(citado por INNERARITY, 2009, p. 104).

3 A TRANSFORMAÇÃO DO ESTADO SOCIAL E A PENALIZAÇÃO DA


SEGURANÇA

A situação é especialmente delicada, na medida em que, perante as novas ameaças, a


sociedade transforma-se numa sociedade de segurança.
Com a globalização e a expansão da revolução neoliberal não foi só o poder regulador
dos Estadosque se enfraqueceu: assistiu-se ao questionar do modelo estatal social, tudo com
implicações ao nível da segurança.
A transformação do Estado no domínio social,6 a que está subjacente uma ideia de
menos Estado, é contrabalançadapor mais Estado para controlar os perdedores, os que não
ganham no jogo do mercado. Desenvolve-se uma cultura de controle, que progressivamente
ganha terreno. Crime e castigo tornam-se um tema dominante na política. O crime tende a estar
obsessivamente sobre-representado no discurso e impregna, designadamente, as campanhas
eleitorais, e a atenção dos media tornou-o a metáfora preferida para todas as formas de ansieda-
de social. A pena, por sua vez, é a metáfora que serve para apontar o remédio.
O novo “capitalismo regulatório”7emergente, designadamente na atividade econômica
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

- uma técnica de “autorregulação regulada”, como a designou Ulrich Sieber, do lado dos pena-
listas8 -, surge como resposta inovadora – de que a compliance é um exemplo paradigmático

6  Sobre isto, cf. RODRIGUES, Anabela Miranda. “Execução penal socializadora e o novo capitalismo – uma relação (im)possível?”.
Revista Brasileira de Ciências Criminais (RBCC), Ano 23, vol. 112, jan.-fev./2015, p. 20.
7  A referência é ao “regulatory capitalismo”, a expressão com que John Braithwaite cunhou o liberalismo regulador no seu, já hoje um
clássico, livro de 2008 com o mesmo nome, The regulatory capitalism, Oxford. Cf., também, do autor, “The new regulatory state and
the transformation of criminology”, British Journal of Criminolog, vol. 40, 2000, p. 197.
8  ULRICH SIEBER. Programas de compliance no direito penal empresarial: um novo conceito para o controle de criminalidade eco-
nômica. (tradução de Eduardo Saad-Diniz), Direito penal econômico: estudos em Homenagem aos 75 Anos do Professor Klaus Tiede-
mann, William Terra Oliveira, Pedro Ferreira Leite Neto, Tiago Sintra Essado, Eduardo Saad-Diniz (orgs.), São Paulo, Liber Ars, 2013.

162
- na estratégia de controle do comportamento institucional ou empresarial para garantir a apli-
cação das múltiplas disposições que regulam estas atividades, mas pode ter por efeito reduzir o
Estado a funções de controle9. As regras desta nova forma de regulação incluem possibilidades
normativas de pressão, que podem ir desde o direito civil, designadamente o direito das socie-
dades ou o direito do trabalho e passar pelo direito administrativo. Mas, no fim da linha, está o
direito penal.
A utilização da conhecida técnica do pau e da cenoura para assegurar o cumprimento
de mecanismos de controle, que visam antes de tudo ser eficazes, inscreve-se numa lógica mais
geral de despersonalização do controle ou de “governança impessoal global” como a designou
Carlo Bordoni, com “um grau cada vez menor de interferência dos políticos” e “um alto grau de
controlo social” (2016, p.168) Que, no direito penal, não só reduz o delinquente ao “inimigo”-
desdimensionando-o no seu valor absoluto como pessoa -, mas abre ainda o caminho à “socie-
dade robotizada”, de que fala Zaffaroni (2006, p. 56), em que os humanos seriam os robots.
Estados enfraquecidos para garantirem a segurança, comprometem-se cada vez mais na
sua realização, exigindo, “qual gato doméstico, precisão de movimentos por entre cristais”(ZAF-
FARONI, 2006, p. 40) para a garantir. E aí estão deveres cada vez mais estritos e minuciosos
que devem ser cumpridos na atuação quotidiana, para não lesar o Fisco, para não alimentar os
tráficos, para não branquear capitais, para não financiar o terrorismo. O direito, e o direito penal,
faz dos cidadãos cada vez mais garantes do que nunca imaginaria-se que se teria de garantir.
Os programas de compliance, com o “deslizamento para baixo” da responsabilização penal que
geram e a criação de bodes expiatórios; ou as elaboradas teorias de “cegueira deliberada” para
punir generalizadamente comportamentos negligentes, revelam-se como pretextos para legiti-
mar um controle social (que no final da linha é) punitivo. Estar-se-ia no caminho de criminalizar
aqueles que não denunciarem uma mala abandonada num aeroporto ou na estação de metro?
Há, sem dúvida, uma dimensão social que tem de impregnar a ação individual e insti-
tucional das presentes sociedades democráticas. Mas o Estado não pode retirar-se e, ao mesmo
tempo, responsabilizar e transformar a todos em whistleblowers (assopradores de apito).
A partir daqui é apenas um pequeno passo até à penalização da segurança. Perante
um espaço que se abre e se alarga ao tamanho do mundo, nasce, contraditoriamente, uma cul-
tura de controle estatal, fechada e monolítica e a segurança emerge com um novo estatuto, cujo
traço é a redução ao penal. O Estado penal é também o resultado desta reorientação do Estado
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

e da sua nova legitimidade – que não se contesta - para assumir o controle dos novos e grandes
riscos, mas cujo poder e competências não cessam de aumentar em matéria de criminalização
generalizada, polícia, repressão e segurança.
Este processo não pode ser visto unicamente através das lentes dos penalistas.
É, com efeito, um fenômeno muito parecido com o que já está a acontecer através da

9  Sobre a “democracia do controlo”, vide ROSANVALLON, Pierre.La contrademocracia. La politica en la era de la desconfianza.Bue-
nos Aires: Manantial, 2007, p. 49.

163
localização de telefone celular, do uso da internet, dos drones e câmaras nas cidades. Mas, como
alerta Bordini, é “muito mais sofisticado e complexo” (2016, p. 169)
É a “desdemocratização”, de que fala Charles Tilly (citado por BORDINI; BAUMAN,
2016, p. 169), com normas para restringir liberdades e direitos individuais, limitação de direi-
tos políticos ou medidas excepcionais para lidar com acontecimentos excepcionais (terrorismo,
catástrofes naturais). Ou, numa perspetiva mais abrangente, é a “pós-democracia”, que Colin
Crouch., (citado por BORDINI; BAUMAN, 2016, p. 176) conceituou como “crise do igualita-
rismo e de trivialização do processo democrático”, e cujo exemplo clássico, que aponta Bordini
(2016, p. 176), é a insegurança no emprego de contratos a termo, cuja introdução se normaliza,
como “prática necessária para satisfazer a exigência de flexibilização da indústria”.
Como afirmou Innerarity (2009, p. 60) a propósito do terrorismo e ao procurar explicar
o fenômeno, a sua “verdadeira gravidade” reside nas “injustiças e desigualdades” do mundo
atual, disfarçadas ou “protegidas” na sua invisibilidade“por uma aparência correta”, e nas novas
proibições, na vigilância, na insegurança e na ambiguidade em relação aos direitos garantidos.

4 SISTEMA PUNITIVO E SEGURANÇA

É sabido como esta ideologia de segurança alimentou a indústria contra o crime e o


business penitenciário. Para perceber esta orientação político-criminal é preciso compreender a
evolução que se produziu nas formas de controle dos indivíduos.10
Quando a segurança tem a ver com perigosidade do delinquente - e não com culpa pela
prática do crime - e com a suspeita de ser delinquente - e não com prova da prática do fato -, a
utilização da prisão e a sua utilização por um tempo cada vez mais longo e como um mecanis-
mo de confinamento do indivíduo definem o sistema punitivo. À luz desta lógica securitária,
promove-se a ideia de que a prisão funciona e fomenta-se uma estratégia punitiva institucional.
Se a prisão não pode fazer mais nada, pode retardar o início da atividade criminosa por parte
de indivíduos perigosos. Esses períodos de tempo produzem a redução do crime na sociedade,
embora sem mudar nem o delinquente, nem a sociedade.
Esta tendência está ligada ao “desenvolvimento autoritário da justiça criminal”, de que
falou Alessandro Baratta, (2001, p. 232) e é um aspeto de verificação generalizada, que atinge,
quer os países europeus, quer o continente americano, com expressão paradigmática nos Esta-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

dos Unidos da América, dando azo ao fenômeno de superpopulação carcerária. A alteração é


substancial. Enquanto a “velha” penologia era baseada no indivíduo e estava preocupada com
as causas do crime - onde quer que elas sejam encontradas -, tendo em vista responder-lhes, por

10  Sobre o que se segue, cf. RODRIGUES,Anabela Miranda. L’éxécution de la peine privative de liberte. Problémes de politiquecrimi-
nelle, L’éxécution des sanctions privatives de liberte et les impératifs de la sécurité/The implementation of prison sentences and aspects
of security (sous la direction/under the direction of Peter Take t/and ManonJendly), Actes du Colloque de la FIPP, Budapest; Hongrie
16-19 février 2006/Proceedings of the Colloquium of the IPPF, Budapest, Hungary, 16-19 February 2006, p.51; id, «Novo olharsobre a
questãopunitiva», Educar o outro. As questões do género, dos direitos humanos e da educação nas prisões portuguesas, Humana Glo-
bal. Publicações Humanas, 2007, p. 117. Superpopulação carcerária. Controlo da execução e alternativas.Revista Eletrónica de Direito
Penal, AIDP – GB, Ano1, Vol.I, n.1, jun. 2013.

164
contraposição, à “nova” penologia passou a interessar a categoria ou o grupo de risco em que
o indivíduo se insere, para o neutralizar, vigiar e controlar. A máxima de Casablanca, “prenda
os indivíduos do costume”, foi substituída pela ordem de “prender os grupos do costume”. É a
entronização da segurança.
Já quanto às penas alternativas à prisão, verifica-se uma renovada manifestação de
interesse quanto a elas por parte dos decisores políticos e assiste-se à criação de um crescente
e complexo mosaico de sanções diferentes da privação de liberdade intramuros. Mas, vistas
meramente como managerialistic tecnics que se destinam a limitar a liberdade de movimentos,
reduzem os seus efeitos à intensificação do controle sobre o indivíduo, mais uma vez sem nada
mudar quanto ao delinquente ou na sociedade. Para além disso, uma análise do movimento
dos delinquentes ao longo de um certo período de tempo assinala uma corrente contínua de
indivíduos entre a comunidade para cumprimento de sanções e a prisão, ligada a uma menor
tolerância que, não por acaso, se verifica quanto à violação das condições que possibilitam o
cumprimento das sanções na comunidade. O aspeto agora em causa é o da transincarceração,
resultante do sistema autopoiético criado pela proliferação de sanções que se reforçam mutua-
mente, e que permite o que já se chamou a “reciclagem” do indivíduo, favorecendo a sua circu-
lação por diferentes instâncias de controle.
Desta forma, é, ainda, e mais uma vez, a utilização acrescida da prisão que está em
causa, agora potenciada por uma expansão generalizada do sistema punitivo que favorece o
encarceramento.
A questão da segurança e do lugar que ocupa no Estado em mudança da atualidade colo-
ca-se ainda sob o pano de fundo da influência que sobre ela tem a crise econômica que atravessa a
década que estars-se a viver, como consequência dos abalos financeiros desencadeados em 2008.
Esta situação foi denunciada, ao nível europeu, pelo European Prison Observatory,
em 201311. A crise econêmica é apontada como diretamente responsável pela degradação das
condições de detenção, em clara violação dos direitos humanos dos presos e das Regras Peniten-
ciárias Europeias, que enunciam como princípio fundamental que “as condições de reclusão que
violem os direitos humanos não podem ser justificadas com invocação da falta de recursos”.12
Com efeito, destaca-se que a crise econômica, em muitos Estados europeus, teve um
impacto direto no orçamento anual destinado às administrações prisionais, que diminuiu. No
discurso político, o contexto de “contenção financeira” é a razão de “vetar qualquer proposta
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

para melhorar as condições de detenção”. Desta forma, denuncia-se como piorou a qualida-
de da vida quotidiana nas prisões, designadamente, ao nível dos serviços prestados e pelo
que diz respeito à insuficiência de técnicos e trabalhadores sociais (MACULAN; RONCO;
EDIZIONI, 2013, p. 53, 54). Já em Estados onde os orçamentos das administrações prisionais

11  Cf. RelatórioPrison in Europe: overview and trends. Detention conditions in the European Union, apresentado em Roma, em setem-
bro de 2013, da responsabilidade de Alessandro Maculan, Daniela Ronco e Francesca Vianello.
12  Cf. Recomendação Rec (2006)2 do Comité de Ministros aos Estados Membros sobre as Regras Penitenciárias Europeias (adotada
pelo Comité de Ministros na 952ª reunião de Delegados dos Ministros, de 11 de Janeiro de 2006), Anexo à recomendação REC (2006)
2, Parte I, Princípios Fundamentais, 4.

165
não diminuíram ou foram mesmo aumentados, a maior parte dos fundos adicionais foram
destinados à construção de novas prisões, alimentando o business penitenciário que foi-se re-
ferido em vez de serem dirigidos a promover iniciativas de socialização (MACULAN; RON-
CO; EDIZIONI, 2013, p.53).
A “insegurança econômica” das pessoas, elevada a níveis sem precedentes nos tempos
mais recentes de bem-estar, acrescida da atitude de uma comunicação social que desfoca a atenção
do público do alvo das elites econômicas e políticas, são também apontadas como contribuindo
para um tratamento mais “punitivo” dos presos. (MACULAN; RONCO; EDIZIONI, 2013, p. 55).
Por sobre tudo isto, e também como consequência da crise econômica, muitos gover-
nos europeus sentiram a necessidade de reduzir as taxas de população prisional: construir cada
vez mais prisões para uma população prisional que não cessa de aumentar, é caro para o erário
público, mesmo recorrendo a parcerias privadas. Verificou-se, então, tal como já se referiu, a
expansão da utilização de penas “ditas” alternativas à prisão. O resultado pretendido pode ob-
ter-se a curto prazo, mas o Estado encobre a exasperação punitiva que significa a sua utilização
como penas que visam o puro controle generalizado da vida dos cidadãos e desinteressa-se do
efeito expansivo do sistema carcerário a longo prazo, pelo qual, com forte probabilidade, não
terá de responder.

5 A REINTERPRETAÇÃO DO CONCEITO DE SOCIALIZAÇÃO

Foi feita uma proposta de percurso, de que já se cumpriu uma parte, mas encontra-se
longe de um conjunto articulado de respostas de teor político-criminal. Ambiciona-se recolher
à Sombra Maiúscula de um sociólogo como Zygmunt Bauman que, a propósito da nova ordem
global, confessou não estar preparado para “visualizar” e “muito menos, desenhar uma plan-
ta” da “nova ordem global”, afirmando que “seria completamente irresponsável se o fizesse
enquanto subimos, como estamos a fazer agora, uma encosta íngreme”, sem poder “ver o que
há do outro lado do cume da montanha”. Concluindo que: “O máximo que podemos ousar é
pensar nos obstáculos para o topo”, “nas coisas que temos de transpor ou remover do caminho”
(BORDINI; BAUMAN, 2016, p. 187).
A questão que conduz diretamente ao âmago do problema, é esta: exigem as condições
da nova realidade criminológica, determinada pelas transformações assinaladas, uma atitude
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

radical de abolição do direito penal e, com ele, do sistema punitivo? Entende-se que a melhor
resposta é aquela que segue o eco de Radbruch: não quero algo diferente do direito penal, quero
um direito penal melhor. E assim, quem sabe, talvez ele até deixe um dia de existir e desabem
os poderes formais de controlo.
No âmbito punitivo, entende-se que o compromisso do jurista deve ser com uma refle-
xão crítica sobre a trama do sistema, que se nutra do pensamento criminológico e sociológico.
Estes saberes, com os seus movimentos e correntes e as ligações que estabelecem com o sistema
penal, podem despertar alertas criativos. Partilha-se, neste trabalho, inteiramente da posição

166
de Alvino Augusto de Sá (2014) em relação aos penalistas, e inspiro-se nela para defender que
estes devem não só conhecer as reflexões oriundas daquelas áreas sobre o “ato de punir, as
instâncias punitivas e a conduta que o sistema punitivo costumeiramente seleciona e pune”,
como devem também “apropriar-se”das suas reflexões e sobretudo “angustiar-se sadiamente”
com elas. Se caírem as pontes desta reflexão, crítica e atualizada, sobre o controle e a punição,
haverá a continuação, mais e mais, da assistência ao aumento da criminalidade; e, mais e mais,
a admitir a barbárie, com o regresso da tortura, das prisões em terra de ninguém, da prisão
perpétua ou da pena de morte.
Uma coisa é aceitar passivamente que a punição perpetua a injustiça e a desigualdade.
Outra, diferente, é, nas palavras do criminólogo Álvaro Pires,13 “observar quais são as ideias
que o sistema penal moderno valoriza e que constituem um obstáculo cognitivo da sua própria
evolução. Em outras palavras, quais são as ideias que ele considera ainda boas, mas que, na
verdade, o impedem de se transformar qualitativamente e de se adaptar para o novo milénio”.
(2012, p. da internet)
A reflexão de que não são satisfatórios os resultados da política securitária e de contro-
le, com o aumento da severidade das penas para responder aos problemas da criminalidade na
sociedade atual, é um bom e singelo exemplo da necessidade de “ressignificação” dos fatos, das
condutas e das normas de que fala Alvino de Sá para o direito penal. (SÁ, 2014, p 10)
A “ressignificação” da intervenção socializadora na execução da pena de prisão e das
penas alternativas será, porventura, um dos grandes desafios do direito penal da atualidade,
acompanhando a reinterpretação dos direitos sociais que está a marcar as transformações do
Estado social. A questão não se reflete tanto na legitimação, quanto na compreensão do conteú-
do do direito à socialização.
Há que reconhecer que este direito se inscreve numa redefinição do Estado Social
que enfrenta hoje uma espécie de “revolução sociológica”, no sentido de que “os seus sujeitos
mudaram” (ROSANVALLON, 1995, p. 189). Deixaram de ser grupos ou classes relativamente
homogêneas. Regressam os “indivíduos” - regressa a pessoa - que se encontram em situações
específicas.O que está em causa é que, por variadas razões – entre elas, a desregulação esta-
tal-econômica -, é hoje muito difícil “decifrar a sociedade”, que não é mais uma sociedade de
grupos, organizada hierarquicamente e de movimentos relativamente lentos.
O que se diz – é Rosanvallon que o afirma - é que a redefinição do Estado Social está
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

a passar por uma “evolução cognitiva” e que as sua formas de intervenção se reconformam,
abrindo-se ao “miolo social” (ROSANVALLON, 1995, p. 202, 201). O que isto significa é um
novo enfoque (do) social (ROSANVALLON 1995, p. 194). Assim, a propósito dos fenômenos de
exclusão - de que a delinquência pode ser um deles –, o que se observa é que não faz qualquer
sentido tentar apreender os excluídos através de uma “classificação categorial”. O que importa

13  Os desafios do Direito no século XXI. Entrevista especial com Álvaro Pires, Instituto Humanitas UNISINOS, ADITAL, 03 de abril
de 2012.

167
é antes tomar em conta os “processos de exclusão” e “analisar a natureza das ‘trajetórias’ que
conduzem às situações de exclusão, na medida em que estas são resultantes de um processo
específico e particular”14.
A par desta redefinição dos “sujeitos da ação social”, o Estado converte-se num “Es-
tado Serviço”(ROSANVALLON 1995, p. 210): o objetivo do Estado (social) é agora oferecer a
cada um os meios específicos – “propor ajudas diferenciadas” - para “modificar o curso de uma
vida”, “superar uma rutura” ou “prever um problema”.
A partir daqui, assiste-se a uma transformação global da relação dos indivíduos com
as instituições sociais, no sentido da sua cada vez maior individualização, a que a justiça penal
não é alheia.O que está em causa, como se observa, é uma reinterpretação dos direitos sociais,
de acordo com uma perspetiva contratualista, que articula direitos e deveres.
Na execução da prisão recupera-se o conceito de socialização que lhe aponta o sentido
de prevenção da reincidência, isto é, que apela ao dever, por parte do Estado, de oferecer ao
preso condições que lhe permitam voltar a viver em sociedade sem praticar crimes. Acentua-se,
assim, que será muito difícil recusar que é tarefa do Estado responder à situação de especial
necessidade que traduz o estado de reclusão.
Uma socialização renovada funda-se no reconhecimento da necessidade de oferecer ao
preso condições de aderir à intervenção – a palavra-chave é aqui motivação - e na importância
e vantagens da utilização da noção de “contrato” para se obter a sua participação voluntária nos
programas de tratamento.
Na ótica contratualista, devem alargar-se os programas orientados para problemáticas
específicas do preso. A adesão e a participação – em termos claros, o consentimento do pre-
so – excluirão qualquer hipótese de intervenção coativa. Trata-se de sublinhar a necessidade
de colocar serviços à sua disponibilidade. São várias as hipóteses: prestar ajudas aos reclusos
desfavorecidos, promovendo a igualdade real; restabelecer a saúde física e mental e diminuir
as taxas de suicídio; dotá-los de competências sociais tais como, criar o seu próprio trabalho ou
arranjar emprego.
Não pode-se aqui, alongar-se na análise detalhada do que nesta evolução está em cau-
sa.15 Apenas retenhe-se dela, com Rosanvallon,16(ROSANVALLON 1995, p. 172, 173 e 174)
que, embora a pessoa possa estar numa situação de carência – como quem é punido está -, a sua
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

14  Neste contexto, explicita Rosanvallon (1995, p. 195) que “os excluídos formam mesmo uma ‘não classe’,
no sentido de que constituem a sombra projetada das disfuncionalidades da sociedade, resultam de uma (…)
dessocialização no sentido forte do termo (…). Os fenómenos de exclusão são manifestações da diferença e da
não agregação social (…). Neste sentido, a exclusão não é um novo problema social, é uma outra maneira de
descrever as dificuldades para estabelecer solidariedades (…). Falar de inserção é então tratar das diferentes
formas de agregação social existentes ou por promover”.
15  Sobre a reinterpretação do conceito de socialização, aplicado aos presos, no sentido de “evitar a dessocialização” e de “promover a
não dessocialização”, RODRIGUES, Anabela Miranda.Novo olhar sobre a questão penitenciária.2ª edição, Coimbra Editora, 2002,
p.47; id, RBCC, cit, p.29s
16  O Autor fala ainda, neste contexto, da via de um “individualismo contratual”, em que “o respeito essencial pelo indivíduo vai de par
com a reconstrução do vínculo social” (1995, p. 180).

168
relação com o Estado traduz “uma relação de reciprocidade”, uma “obrigação de meios da parte
da sociedade” em relação a um “beneficiário” considerado como “ator do seu próprio futuro”.
Visto como “sujeito da ação social”, é considerado como uma pessoa “autónoma, responsável,
capaz de assumir compromissos e honrá-los”. O contrato de inserção permite voltar a ligar o
indivíduo ao princípio gerador da sociedade, o contrato social. A obrigação que o acompanha
não é uma forma de restrição da liberdade, é antes um momento de construção do social.
Na execução da prisão recupera-se o conceito de socialização que lhe aponta o sentido
de prevenção da reincidência, isto é, que apela ao dever, por parte do Estado, de oferecer ao
preso condições que lhe permitam voltar a viver em sociedade sem praticar crimes.
Por aqui passamposições como as de Salomão Shecaira (2014, p. 54) que entende que
o criminoso “tem vontade própria”, uma “assombrosa capacidade de transcender, de superar o
legado que recebeu e construir o seu próprio futuro”, e uma “capacidade ímpar de conservar
a sua própria opinião e superar-se, transformando e transformando-se”. Ou, como tem-se de-
fendido, que a ideia de socialização tem de voltar a ocupar lugar no sistema punitivo, fundada
numa cultura de participação e consenso e de revalorização dos direitos humanos em que se
deve buscar, cada vez mais, a relegitimação do penal, assim se promovendo a responsabilidade
e a autonomia da pessoa, considerando-a na sua dignidade única.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A vulnerabilidade da sociedadeestá exposta.Não são respostas securitárias, em que


o controle social se exacerba e se penaliza, que lhes permitirá manter-se enquanto sociedades
democráticas. O desafio reside em saber se essa mesma vulnerabilidade as pode tornar mais
resistentes. Entende-se que a sua força reside na complexidade, na recusa a fecharem-se, na
convicção inabalável de que o poder absoluto ou os populismos são sinais de desmoronamento
da força da política. E na aprendizagem de que nenhuma sociedade se pode proteger totalmente
contra o conflito ou contra o diferente ou alcançar a segurança total,mas pode transformar e
transformar-se.

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Universidad Santo Tomás, Bogotá, 2006.

ROSANVALLON, Pierre. La nueva cuestión social. Repensar el Estado providencia.


Buenos Aires: Editiones Manatial, 1995.

CONTROL AND PUNISH – CRIMINAL LAW IN CHANGE?

ABSTRACT
This study analyzes the social control and punishment in the risk and
globalized society, in which is developed a highly harmful and gener-
ates high feelings of insecurity new criminality. The weakening of state
power linked to question the social model, under the economic crisis
unleashed in 2008 scenario, fueled a culture of and the penalization of
security. The Penal State and the security ideology lead to increasethe
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

use of prison sentences and alternatives as pure control. Only a rein-


terpretation of the socializing dimension of punishment will restore re-
sponsibility and autonomy, recreating the social bond.
Keywords: Risk. Globalization. Safety. Punishment. Socialization.

171
RESPONSABILIDADE CIVIL DO PRODUTOR E NEXO DE CAUSALIDADE:
BREVES CONSIDERAÇÕES

Mafalda Miranda Barbosa1

RESUMO
Tendo em conta que a jurisprudência portuguesa tem exigido, no âm-
bito da responsabilidade do produtor, a prova quer do defeito, quer da
causalidade entre aquele e o dano gerado e que o Tribunal de Justiça da
União Europeia, num caso concreto sobre o qual foi chamado a pronun-
ciar-se, embora tenha afastado a exigência de uma prova científica e ir-
refutável do nexo causal, recusa igualmente a comprovação do requisito
com apelo a uma presunção que leve a demonstrar automaticamente o
nexo de causalidade, propomo-nos, neste artigo, confrontar o tradicio-
nal entendimento acerca da causalidade com uma perspetiva imputa-
cional. No final, estaremos em condições de perceber em que medida a
exigência da jurisprudência portuguesa e europeia faz ou não sentido.
Palavras-chave: Responsabilidade do produtor. Jurisprudência. Nexo
de causalidade.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

1 INTRODUÇÃO

Se a necessidade de garantir a proteção do consumidor determinou a consagração de


uma hipótese de responsabilidade civil independentemente de culpa, fundada no risco que o
produtor assume ao colocar no mercado um determinado produto defeituoso2, o certo é que a

1  Doutora em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Professora Auxiliar da Faculdade de Direito de Coimbra.
Investigadora do Instituto Jurídico da Faculdade de Direito de Coimbra.
2  Cf., com amplo desenvolvimento, escreve João Calvão da Silva emResponsabilidade civil do produtor.

172
complexidade com que os problemas surgem na realidade não permitiu que só pela objetivação
da responsabilidade se eliminassem todas as dificuldades que a esse nível se podem enfrentar.
Na verdade, a previsão da responsabilidade do produtor garantiu que se ultrapassasse o estrito
domínio contratual, viabilizando que o consumidor/adquirente de um bem que, por causa de um
defeito que ele contivesse, sofresse danos demandasse o fabricante e não apenas o fornecedor
direto3, ao mesmo tempo que permitiu afastar a necessidade de prova do desvalor objetivo de
cuidado, sempre difícil de apurar pela intermediação dos diversos agentes do circuito produtivo.
Mas nem por isso arredou a exigência quer da prova do defeito, quer da prova da causalidade
entre aquele e o dano gerado.
A jurisprudência portuguesa tem sido perentória na afirmação dessa exigência. O Su-
premo Tribunal de Justiça, no Acórdão de 25 de Março de 20104, recordou que, numa ação de
responsabilidade do produtor, “o lesado terá de alegar e provar os seus elementos constitutivos:
danos, defeitos, nexo causal entre estes e aqueles”, não obstante admitir que, porque a prova da
causalidade se pode revelar extremamente árdua, “as regras da experiência da vida, o id quod
plerumque accidit e a teoria da causalidade adequada poderão permitir a preponderância da
evidência, uma espécie de causalidade” (CORDEIRO, 2010). Também no Acórdão de 20 de No-
vembro de 20075, a Relação do Porto, a propósito de um caso em que A, produtora de vinhos,
adquiriu postes de suporte de vinha, que acabaram por se degradar e rachar, caindo e provocan-
do danos decorrentes da necessidade de remoção dos mesmos, considerou que o “lesado não
tem de provar a culpa e a ilicitude, bastando provar a existência do defeito, do dano e do nexo de
causalidade entre um e outro”, razão pela qual se deveria conceder a indemnização solicitada,
por aplicação do regime da responsabilidade do produtor6. E, no Acórdão de 13 de Setembro de
20077, a Relação de Évora voltou a repetir a disciplina, negando o ressarcimento, porque não foi
demonstrada a existência do defeito, nem o nexo causal entre o defeito do automóvel que tinha
sido adquirido e o acidente que com ele foi sofrido.
A lição resulta, aliás, da disciplina legal, fruto da transposição da diretiva comunitária
sobre responsabilidade decorrente dos produtos defeituosos, segundo a qual cabe ao lesado a
prova do dano, do defeito e do nexo causal.
Não se estranha, por isso, que sejam diversas as ações que improcedem a este nível e
que, em virtude disso, se procurem forjar expedientes de facilitação do ónus probandi. Menezes
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

3  Sobre a questão de saber se, no domínio contratual, haveria ou não possibilidade de se obter o ressarcimento junto do produtor do bem,
cf. Luís Menezes Leitão, “A responsabilidade civil do produtor pelos danos causados ao consumidor”, Panóptica, 6/2, 2011, 16 s. (www.
panoptica.org), considerando a possibilidade de se aplicar o artigo 800º CC, vendo-se o produtor como um auxiliar do vendedor, o que
permitiria tornar o último responsável perante o consumidor; ou a possibilidade de se configurar a existência de um contrato entre o
produtor e o consumidor.
4  Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 25 de Março de 2010, Processo nº 5521/03.OTBALM.S1, www.dgsi.pt
5  Acórdão do Tribunal da Relação do Porto de 20 de Novembro de 2007, Processo nº0725464, www.dgsi.pt
6  Não se entende a decisão do Tribunal da Relação do Porto, por dois motivos. Em primeiro lugar, os postes de suporte da vinha não se
destinavam a um uso não profissional; em segundo lugar, os danos que se verificaram não resultam de uma lesão num objeto diferente
daquele que é reputado de defeituoso. A decisão, aliás, contraria a decisão do Tribunal da Relação do Porto de 17 de Junho de 2004, que
distingue claramente, a propósito de um carro defeituoso, a responsabilidade do produtor e a responsabilidade do vendedor por falta de
conformidade ou qualidade das coisas vendidas
7  Acórdão do Tribunal da Relação de Évora de 13 de Setembro de 2007 (Processo nº1139/07-2), www.dgsi.pt

173
Cordeiro (2010) aduz a este respeito que o ponto delicado da prova do vício e da causalidade “foi
suplantado com a ideia de prova da primeira aparência (alemã) ou da res ipsa loquitur (common
law): as coisas falam por si; se uma roda se desintegra, é porque houve negligência no seu fabri-
co, ainda que não seja possível provar como tal ocorreu”. Embora o autor se refira a um período
anterior à consagração definitiva da responsabilidade objetiva do produtor, não é menos seguro
afirmar que desses mesmos mecanismos se socorre hoje a jurisprudência e a doutrina para fazer
face aos problemas que tem de enfrentar.
A este propósito e recentemente, o Tribunal de Justiça da União Europeia, no Acórdão
no processo C-621/158, foi chamado a pronunciar-se sobre a questão de saber se, numa situação
em que não há um consenso científico, o juiz se pode ou não basear, a despeito da exigência de
prova do dano, do defeito e do nexo causal pelo lesado, em indícios graves, precisos e concor-
dantes para estabelecer a ligação que se exige entre um determinado produto e o resultado lesivo
advindo. Em causa estava a administração de uma vacina, entre finais de 1998 e meados de 1999,
contra a hepatite B, produzida pela Sanofi Pasteur. Em Agosto de 1999, o senhor a quem tinha
sido administrada começou a apresentar diversas perturbações, que levaram ao diagnóstico de
esclerose múltipla, acabando por falecer em 2011. No quadro da ação proposta contra a Sanofi
para obter uma indemnização, a Cour d’Appel de Paris considerou que não estaria provado o
nexo de causalidade, por não haver consenso científico entre a vacinação contra a hepatite B e
o aparecimento de esclerose múltipla. Chamado a pronunciar-se, o Tribunal de Justiça da União
Europeia, fazendo referência ao excelente estado de saúde anterior do lesado, à inexistência de
antecedentes familiares e à relação temporal entre a vacinação e o aparecimento da doença, veio
considerar que é compatível com a diretiva comunitária na matéria um regime probatório que,
na falta de provas certas e irrefutáveis, permita ao juiz concluir pela existência de um defeito e
do exigível nexo de causalidade. Basta que haja um conjunto de indícios que levem a considerar,
com um grau suficientemente elevado de probabilidade, que essa conclusão corresponde à reali-
dade. Tais indícios devem ser suficientemente graves e precisos, de molde a permitirem extrair
as conclusões que se procuram. Mais considerou o Tribunal de Justiça da União Europeia que
o legislador nacional não pode lançar mão de uma prova por presunção que leve a demonstrar
automaticamente o nexo causal, quando estejam reunidos certos indícios predeterminados.
Em face do exposto, suscitam-se diversas dúvidas. Com efeito, o Tribunal de Justiça da
União Europeia orienta-se pela ideia de (elevado gau de) probabilidade, não indo ao ponto de im-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

por a prova certa e irrefutável, ao mesmo tempo que recusa a possibilidade de comprovação do re-
quisito com apelo a uma presunção que leve a demonstrar automaticamente o nexo de causalidade.
Portanto, haverá que, em primeiro lugar, perceber qual a probabilidade relevante para este efeito.
Tal não será, contudo, bastante: de facto, orientando-se a jurisprudência pelo critério
da causalidade adequada, o centro nevrálgico da indagação é exatamente a probabilidade de
que se fala. Simplesmente, a leitura atenta do acórdão em questão parece apontar para a ideia

8  Cf. Comunicado de imprensa nº66/17

174
de que, ao invés de se recorrer ao juízo probabilístico próprio da adequação, se está a alijar o
ónus probatório ao nível fáctico. Nessa medida, questiona-se se, afinal, não entra em cena um
primeiro patamar de indagação causal, a identificar-se com uma noção de condicionalidade.
O dado importa uma terceira consideração, talvez a mais relevante: saber, então, do
que se fala quando se fala de causalidade, e, consequentemente, quando se lida com o problema
da prova do nexo que se procura erigir.

2 O REGIME DA RESPONSABILIDADE CIVIL DO PRODUTOR (BREVE


EXCURSO). CAUSALIDADE ADEQUADA E CONDICIONALIDADE. A
PROBABILIDADE DO SURGIMENTO DO DANO

O artigo 1º DL nº383/89, de 6 de Novembro, alterado pelo DL nº131/2001, de 24 de


Abril, estabelece que o produtor é responsável, independentemente de culpa, pelos danos cau-
sados por defeitos dos produtos que põe em circulação, entendendo-se por produtor o fabricante
do produto acabado, de uma parte componente ou de matéria-prima, e ainda quem se apresente
como tal pela aposição no produto do seu nome, marca ou outro sinal distintivo (artigo 2º, nº1).
De acordo com o nº2 do artigo 2º, é também considerado produtor aquele que, na Comunidade
Económica Europeia e no exercício da sua atividade comercial, importe do exterior produto
para venda, aluguer, locação financeira, ou qualquer outra forma de distribuição, bem como
qualquer fornecedor do produto cujo produtor comunitário ou importador não esteja identifi-
cado, salvo se, uma vez notificado por escrito, comunicar ao lesado no prazo de três meses a
identidade de um ou outro ou a de algum fornecedor precedente.
Não basta que o produtor coloque o produto em circulação. É necessário que o produto
seja defeituoso. O defeito de que se cura tem, no entanto, uma abrangência muito mais do que
ampla do que aquela com que somos confrontados ao nível da linguagem corrente ou no qua-
dro de outros regimes privatísticos. Na verdade, o produto tem-se por defeituoso quando não
oferece a segurança com que legitimamente se pode contar, tendo em atenção todas as circuns-
tâncias, designadamente a apresentação, a utilização que dele razoavelmente possa ser feita e o
momento da sua entrada em circulação, nos termos do artigo 4º.
Há, no entanto, exceções a esta responsabilidade, que estão consagradas no artigo 5º. O
produtor não é responsável se provar que a) não pôs o produto em circulação; b) que, tendo em
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

conta as circunstâncias, se pode razoavelmente admitir a inexistência do defeito no momento da


entrada do produto em circulação; c) que não fabricou o produto para venda ou qualquer outra
forma de distribuição com um objetivo económico, nem o produziu ou distribuiu no âmbito da
sua atividade profissional; d) que o defeito é devido à conformidade do produto com as nor-
mas imperativas estabelecidas pelas autoridades públicas; e) que o estado dos conhecimentos
científicos e técnicos, no momento em que pôs o produto em circulação, não permitia detetar a
existência do defeito; f) que, no caso de parte componente, o defeito é imputável à conceção do
produto em que foi incorporada ou às instruções dadas pelo fabricante do mesmo.

175
Além disso, o artigo 8º estabelece um limite aos danos ressarcíveis, considerando que
só o são os que resultem de morte ou lesão pessoal e os que ocorram em coisa diversa do pro-
duto defeituoso, desde que seja normalmente destinado ao uso ou consumo privado e o lesado
lhe tenha dado principalmente este destino. E o artigo 9º consagra que os danos causados em
coisas só são indemnizáveis na medida em que excedam o valor de 500 euros.
Fundamental passa a ser, como se compreenderá, o estabelecimento de um nexo de
ligação entre o defeito do produto e os danos que sobrevenham. Embora o diploma não se refira
especificamente ao requisito, ele resulta com naturalidade quer da finalidade da responsabili-
dade civil do produtor (ressarcitória), quer do fundamento último que para ela encontremos: o
produtor não deve ser onerado com uma hiper-responsabilidade, mas tão só deve ser chamado
a responder pelos danos que tenham sido gerados pelo seu produto.
O busílis da questão está em saber o que entender por este nexo de causalidade. Tradi-
cionalmente, a doutrina maioritária tem deposto no sentido de que ele se descobre com base na
questão “é normal e provável (adequado) que de um comportamento do tipo do do lesante – no
caso, a colocação de um produto com aquele tipo de defeito em circulação – resulte um dano
daquele género?”. Tal indagação surgiria na sequência de uma prévia inquirição condicional,
por meio da qual se procuravam afastar todos os comportamentos irrelevantes para o surgimen-
to do dano – haveria de determinar se o dano teria surgido se não tivesse existido aquele defeito.
Porque a realidade não se nos oferece em termos determinísticos e continuamente li-
neares, a resposta que se pudesse obter para a questão da condicionalidade acabaria por ser ofe-
recida, as mais das vezes, em termos probabilísticos. A aproximação entre os dois critérios de
estabelecimento da causalidade passa, portanto, a ser notória, sem que, contudo, se confunda a
sua intencionalidade9. Se a condicionalidade surge a depor no sentido de afastar comportamen-
tos irrelevantes, a adequação pretenderia introduzir uma solução normativizada para o proble-
ma. Simplesmente, dependendo da perspetiva do observador que se assuma, assim chegaremos
ou a uma formulação probabilística-estatística que não só quadra mal com a intencionalidade
predicativa da juridicidade, como não nos permite avançar em relação ao resultado que se ob-
tém com a conditio; ou a uma formulação que, porque baseada nos dados do conhecimento do

9  Veja-se, a este propósito, Wester-Ouisse, “Définition de la causalité dans les projets européens sur le droit de la responsabilité”, www.
grerca.univ-rennes1.fr/digitalAssets/267/267962_vwesterouisse.pdf, 6, considerando que, no articulado em análise, a conditio sine qua
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

non dá, em muitas situações, lugar à probabilidade, sendo consideradas pertinentes todas as causas que, de maneira provável, causaram
ou contribuíram para causar o dano. No fundo, haveria uma aproximação à doutrina da causalidade adequada em casos como aqueles
em que a) há múltiplas causas que isoladamente terão causado o dano; b) há múltiplas causas que, em conjunto, causaram o dano; c) há
múltiplas putativas causas, não se sabendo qual delas causou efetivamente o dano; d) há muitas vítimas de uma atividade, a ser tratadas
igualmente em termos de causa provável; e) há a contribuição causal da vítima.
Para uma aproximação entre a doutrina da conditio sine qua non e da causalidade adequada, cf. Florence G’Sell-M acrez, Recherches sur
la notion de causalité, Université Paris I – Pantheon – Sorbonne, 2005, 163 e 171. Afirma a autora francesa que a teoria da causalidade
adequada implica, também, um raciocínio contrafactual na medida em que leva a interrogar sobre o aumento da probabilidade do dano
gerado por um antecedente. Ao mesmo tempo, explica que, “mesmo centrando-nos no concreto e individual, temos de recorrer, pela
referência ao curso normal das coisas, às regras da experiência, às generalizações causais que pensávamos reservadas para a teoria da
causalidade adequada. De facto, a lógica probabilística da teoria da adequação ressurge quando o carácter sine qua non da condição
examinada não se impõe pela evidência”, ou seja, “o raciocínio contrafactual supõe que se represente aquilo que teria sido o curso
provável dos eventos na ausência do fator considerado”, pelo que “a resposta à questão da conditio sine qua non não é dada senão em
termos de probabilidade”.
Sobre o ponto, cf., também, Mafalda Miranda Barbosa, Do nexo de causalidade ao nexo de imputação. Contributo para a compreensão da
natureza binária e personalística do requisito causal ao nível da responsabilidade civil extracontratual, Princípia, 2017, 98 s.

176
agente concreto, nos aproxima da culpa, não permitindo dar uma resposta consistente para a
indagação causal.
Em tudo isto, o que se deteta é uma predominância da probabilidade, a cumprir di-
versos papéis. Por um lado, ela é critério do juízo causal, por outro lado é índice probatório de
determinação do iter conducente ao dano.
Percebe-se, portanto, que não existe um grande desvio entre as soluções a que chegamos
no seio do nosso ordenamento jurídico e aquelas que são veiculadas pelo Tribunal de Justiça da
União Europeia. A referência ao elevado grau de probabilidade parece, claramente, apontar no
sentido da determinação da concatenação ao nível factual. E, se ela nos desonera em certa medi-
da, por não nos impor a prova certa e irrefutável, nem por isso afasta todos os nossos problemas.
Em primeiro lugar, haveremos de questionar qual o grau de probabilidade de que se
cura. Exigir-se-á, apenas, uma probabilidade de 50% ou a elevada probabilidade implicará a
presença de índices estatísticos superiores? Acresce que o facto de existir, por exemplo, uma
probabilidade de 99% não garante que o facto efetivamente ocorrido não se situe no intervalo
percentual remanescente, pelo que não se conseguirá determinar com certeza qual a causa na-
tural do dano. Por outro lado, o critério probabilístico estatístico parece claudicar sempre que
em causa esteja um comportamento omissivo ou qualquer outro que escape a uma lógica natu-
ralística de regularidade causal. Ademais, o resultado que se obtém para a indagação variará
consoante os termos de descrição dos eventos, mais ou menos pormenorizados, correndo-se o
risco de termos de lidar com o que a doutrina designa, a propósito da causalidade adequada,
por fórmula vazia. In fine, enfrentar-se-ão problemas sempre que a probabilidade estatística nos
indicar mais do que um eventual efeito causador do dano, sem que nos ofereça, concomitante-
mente, a possibilidade de discernir com certeza sobre qual foi a verdadeira causa. No fundo,
entramos aí no cerne do que vem conhecido por causalidade múltipla, com as suas nuances
próprias, mais ou menos dilemáticas, que se agigantam nas hipóteses de causalidade alternativa
incerta e justificaram, inclusivamente, no seio da responsabilidade do produtor, a teorização de
critérios como o da market share liability10.

3 AS CRÍTICAS À TEORIA DA CONDITIO SINE QUA NON E À TEORIA DA


CAUSALIDADE ADEQUADA
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

As dificuldades anunciadas no ponto expositivo anterior correspondem, afinal, às di-


ficuldades a que somos conduzidos, isoladamente, pela teoria da conditio sine qua non e pela
teoria da causalidade adequada.
Segundo a doutrina da conditio sine qua non, uma conduta é causa do dano sempre

10  Sobre a teoria e a sua inviabilidade no quadro do ordenamento jurídico português, quer porque, numa perspetiva, afronta a intenciona-
lidade predicativa da juridicidade, quer porque, mesmo que surja normativizada de acordo com um ideal de justiça, quadra mal com os
dados intrassistemáticos, cf. Mafalda Miranda Barbosa, “Responsabilidade por danos em massa : reflexões em torno da market-share
liability”, Estudos de Direito do Consumidor, nº10, 2016.

177
que se conclua que este não se teria verificado sem aquela. Fortemente inspirada na doutrina
filosófica de Stuart Mill11, percebe-se que a mesma tenha colhido grande entusiasmo no século
XIX, fruto do clima cientista e positivista que naquela época se viveu12-13. Para o autor, a causa
é tida como a soma de todas as condições que conjuntamente se mostrem suficientes para a
produção de um evento de tal modo que, uma vez verificadas, invariavelmente o resultado será
aquele. Importada para o mundo jurídico pelas mãos de Von Buri14, a recondução da causa à
simples condição baseia-se, sobretudo, na impossibilidade científica de se eleger, de entre as
várias circunstâncias potenciadoras do resultado, aquela que efetivamente possa ser vista como
determinante15. A intervenção da condição seria necessária para a produção do dano e nessa
medida suficiente para a imputação da responsabilidade 16. A despeito da aparente simplicidade
da teoria, a granjear adeptos pela desoneração a que conduz o julgador, a verdade é que não só
aquela é meramente aparente – conduzindo, na prática, ao artificialismo do critério mobilizado
em concreto –, como se improcedente na prática judicativa17.

11  Para Stuart Mill, a causa real é o grupo de antecedentes que determinaram o fenómeno e sem o qual ele não teria lugar, pelo que “nin-
guém tem o direito, filosoficamente falando, de dar o nome de causa a um deles” (Sistema de lógica dedutiva e indutiva, apud Pereira
Coelho, “Onexo de causalidade na responsabilidade civil”, Boletim da Faculdade de Direito, suplemento IX, 1951, 181. Cf., ainda, A
system of logic: raciocinative and inductive, John W. Parker, London, 1843, 392 s.)
12  Sobre a justificação para esta equiparação entre a causa e qualquer condição sem a qual o evento não se teria verificado, cf. Pereira
Coelho, “Onexo de causalidade na responsabilidade civil”, Boletim da Faculdade de Direito, suplemento IX, 1951, 183. Veja-se, ainda,
Christophe Quézel-A mbrunaz, Essai sur la causalité en droit de la responsabilité civile, Dalloz, 2010, 31 s., expondo a transição entre
o mundo da juridicidade da doutrina filosófica de Mill através da ideia de sinédoque.
13  Neste sentido, cf. A ntunes Varela, Das obrigações em geral, vol. I, 10º edição, Almedina, Coimbra, 2003, 883. Note-se que o autor,
apesar de repudiar a teoria, salienta que a mesma configura já uma forma de delimitação dos danos a ressarcir, designadamente no
cotejo com o critério puramente empírico do post hoc ergo propter hoc. Limita a obrigação de indemnizar aos danos que se inserem no
processo de causalidade em que interfere aquele facto e, dentro desses, àqueles que não se verificariam sem tal facto. No mesmo sentido,
cf. R ibeiro de Faria, Direito das Obrigações, I, 497. Veja-se, também, R ené Demogue, Traité des obligations en générale, I, Source des
obligations, t. IV, Libraire A. Rousseau, Paris, 1923, 25.
14  Aderindo à doutrina, cf., ainda, Demogue, Traité des obligations en générale, I, Source des obligations, Libraire A. Rousseau, Paris,
1923, t. IV, 24.
15  Para outras considerações, veja-se A ntunes Varela, Das Obrigações, 916; Menezes Cordeiro, Da responsabilidade civil dos admi-
nistradores das sociedades comerciais, Lex, Lisboa, 1997, 532 s.; M. Franzoni, “Dei fatti illeciti. Art. 2043-2059”, in F. Galgano (ed.),
Commentario del codice civile Scialoja-Branca, 1993, 95 s.; Trimarchi, Causalità e danno, 194 s.; G. A lpa, M. Bessone, V. Zeno -Zenco -
vich, “I fatti illeciti”, Tratatto di diritto civile, 14, Obligazioni e Contratti, VI (a cura di Pietro R escigno), 2ª edição, UTET, Torino, 1995,
63 s.; Fritz H aueisen, “Die Theorie der wesentlichen Bedingund – ein wichtige Ursachenlehre”, Juristenzeitung, 16, Heft 1, 1961, 9 s.
16  Qualquer condição seria vista como causa e nessa medida todas as condições seriam equivalentes. Não há, portanto, uma importação
literal do pensamento de Mill para o mundo jurídico, já que não é a soma das condições que determinaria a relevância da causa.
É, aliás, neste ponto que se localiza a crítica de Birkmeyer a Von Buri. É que, partindo da ideia de que o evento só ocorre pelo concurso
de todas as condições predispostas para o efeito, Von Buri, sustentando a impossibilidade de alguma se destacar das demais, defende
a equivalência entre todas, recusando a ideia de causa eficiente ínsita à teoriaprotagonizada pelo primeiro autor. Acontece que este,
exatamente porque todas se mostram necessárias para a produção do dano, deduz daqui o corolário da insuficiência dela, dizendo que,
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

consentaneamente com o ponto de partida do autor, se deveria sustentar como causa a soma de todas as condições. Afasta, desta forma,
a crítica que Von Buri lhe dirige relativamente à impossibilidade de eleição de uma causa eficiente entre as diversas condições. Cf., à
frente, o que se explicita – de forma sumária – acerca da teoria daquele.
Para uma análise comparatística entre os dois autores, cf. Pereira Coelho, “O nexo de causalidade”, 186 s. O autor afirma, contundente-
mente, que Von Buri parte de um sofisma. Parte da ideia de que todas as condições são necessárias para chegar à conclusão que o efeito
é produto de cada uma delas, porque cada uma das condições torna causais as restantes. Ora, como salienta Pereira Coelho “se A+B+-
C+D são iguais a E, é evidente que só uma dessas grandezas não pode ser igual a E. E é isto que em resumo afirma Buri” (cf. pág. 187).
Acentua, por isso, o autor a nuance da conceção hodierna da teoria da equivalência das condições. “Os jurisconsultos que hoje em dia
defendem a teoria da conditio sine qua non limitam-se a acentuar que todas as condições são necessárias para o efeito e que portanto
elas são, neste sentido, equivalentes, não sendo possível fazer entre elas qualquer distinção”. Dito de outro modo, todas podem ser
consideradas causas.
Cf., ainda, Oliveira Ascensão, Acção finalista e nexo causal, Dissertação do Curso Complementar de Ciências Jurídicas, Faculdade de
Direito de Lisboa, 1956, 112 s.
17  Cf. G. M arty, “La relation de cause à effet comme condition de la responsabilité civile”, 691 s.; François Chabas, L’influence de la
pluralité de causes, nº100;R aniero Bordon, Il nesso di causalità, 42. Para outras considerações, cf. M afalda Miranda Barbosa, Do
nexo de causalidade ao nexo de imputação, cap. II

178
Assim, o critério quadra mal com a intencionalidade jurídica. Parte de uma visão de-
terminística do mundo, que não é sequer aceite no campo das ciências exatas, esquecendo que,
ao nível jurídico, o direito não pode ser determinado pelo ser, na medida em que se traduz num
dever-ser. Por outro lado, deixa-nos sem resposta em todos os casos em que o dano tem origem
no comportamento da vítima. Desde logo, há a considerar todos aqueles casos em que se desvela
um comportamento do lesado que, concorrentemente, desempenha um papel ativo no processo
causal. E não falamos só das hipóteses de concorrência de culpas do lesado – a encerrar a vexata
quaestio da qualificação do seu âmago como um problema atinente à culpa ou à causalidade –,
mas também daqueloutras em que o processo causal tem início num comportamento da vítima,
adotado em face da influência psicológica que um terceiro sobre ela exerceu. Lembramo-nos,
num exercício de chamada à colação de uma memória predisponível dos problemas com que o
sistema se vai debatendo, das situações de responsabilidade por informações18.
Ao mesmo tempo, conduz a uma extensão desmedida da responsabilidade19. Na verda-
de, o imbricamento em cadeia de acontecimentos opera-se com uma tal voracidade na realidade

FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

18  Na verdade, sempre que o processo causal seja integrado por uma dimensão psicológica torna-se extremamente difícil, ou mesmo
impossível, raciocinar em termos contrafactuais. Será que, sem o conselho recebido, o lesado teria atuado de forma diferente? Mas isso
não afeta o núcleo de autonomia que predica a decisão em que radica, afinal, o agir humano?
19  Nesse sentido, cf. Vaz Serra, “Obrigação de indemnização”, 22-23; Pereira Coelho, “O nexo de causalidade”, 189 s.; A ntunesVarela,
Dasobrigações, 884-885; A lmeida Costa, Direito das Obrigações, 761-762; Pessoa Jorge, Ensaio, 390 s. e Direito das Obrigações, 1º
vol., AAFDL, Lisboa, 1975/1976, 569 e 573; Sinde Monteiro, “Rudimentos da responsabilidade civil”, Revista da Faculdade de Direito
da Universidade do Porto, ano 2º, 2005, 379; Carneiro da Frada,Direito Civil. Responsabilidade civil, 101; M anuel de A ndrade, Teoria
geral das obrigações, 349; Menezes Cordeiro, Da responsabilidade civil dos administradores, 547 e Direito das Obrigações,334; R i-
beiro de Faria, Direito das Obrigações, I, 498; Galvão Telles, Direito das Obrigações, 404 s.; Paulo Mota Pinto, Interesse contratual
negativo, 655;Christophe Quézel-A mbrunaz, Essai sur la causalité, 35; R aniero Bordon, Il nesso di causalità, 45; G. Valcavi, “Intorno
al rapporto di causalità nel torto civile”, 488; W.V.H. Rogers, Winfiel and Jolowicz 212 e 213, adiantando que a conditio sine qua non,
identificada ao nível da Common Law com o but-for test, não serve para restringir a responsabilidade, sendo, amiúde, visto como um
primeiro filtro no sentido da eliminação das condições irrelevantes.

179
prática que torna imprestável um critério assente na pura conexão causal20-21. Do mesmo passo,
mas sem contradição, restringe, noutras situações, a responsabilidade, impedindo uma decisão
justa. Pense-se no âmbito de relevância dos casos em abstrato assimiláveis pela intencionalidade
problemática do conceito de causalidade cumulativa ou alternativa. A e B disparam ao mesmo
tempo sobre C, pelo que nenhum dos ferimentos pode ser visto como condição sem a qual o
dano não teria ocorrido, já que qualquer um deles poderia desaparecer, continuando o processo

20  Sobre esta crítica em especial, cf., inter alia, A ntunes Varela, Das obrigações, 885; Pereira Coelho, “O nexo de causalidade”, 80;
Gomes da Silva, O dever de prestar, 67 s.; LuísMenezes Leitão, Direito das Obrigações, I, 359 e n.760.
21  Porque a doutrina da conditio sine qua non remonta, como dissemos, ao quadro filosófico de inspiração millesiana, importa dar aqui
nota da advertência feita por Pereira Coelho (cf. “O nexo de causalidade181, n. 1). Na verdade, afirma-se amiúde que a doutrina em
causa abre a porta ao infinito. Alerta o jurista português que tal não é necessariamente assim, no quadro filosófico do problema. E não é
porque, quando Stuart Mill “define a causa como a totalidade das condições, não compreende entre tais condições também os seus ante-
cedentes mediatos, isto é, as condições das condições”. Cf. Stuart Mill, A system of logic, 392 s. Diante da explicação – que, saliente-se,
não leva o autor a aderir à posição jurídica equivalente – concita-se uma dúvida e afiguram-se razoáveis alguns esclarecimentos. Em
bom rigor, como distinguir as condições das condições, os tais antecedentes mediatos, das condições imediatas e próprias? A impresta-
bilidade de tal juízo – quando normativamente assumido, ao vestir a roupagem da teoria da equivalência das condições – só se logrará
compreender, porém, na bifurcação de perspetivas. Centrando-nos no dano concretamente sofrido, indagamos ex ante se ele foi causado
pelo comportamento do putativo lesante para, de acordo com a doutrina em apreço, respondermos que sim, sempre que surja como uma
condição sem a qual não teria sobrevindo. Pergunta-se, então, e se confluir mais do que uma causa juridicamente atendível como eleger
uma como o polo de imputação da responsabilidade? Prospetivamente, olhamos para a multiplicidade de danos sobrevindos. Operando
a realidade segundo uma cadeia de causas e efeitos, como balizar o dano indemnizável? Contrariamente à pressuposição epistemológica
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

da condicionalidade como padrão explicativo da realidade, do ponto de vista da intencionalidade jurídica ela nada nos comunica, senão
a idoneidade do meio para produzir um determinado dano. Tanto mais que, no seio do que pode ser identificado com o kantiano reino
dos fins, a estrutura dos acontecimentos é menos linear e mais tentacular.
No plano jurídico, Pereira Coelho mostra-se crítico da doutrina da conditio sine qua non exatamente pela “latitude verdadeiramente de-
marcada e incomportável” que ela fornece à noção de causa (cf. “O nexo de causalidade” 188 e 190 s. Nelas, o autor, afastando visões
caricaturais acerca da teoria, mostra que o que releva é saber em que medida o dano pode ser causalmente reconduzido ao facto que
viole ou ofenda um direito de outrem).
Também no sentido de mostrar a impraticabilidade da adoção da doutrina da condition sine qua non no quadro do direito civil, embora não
se pronuncie sobre a prestabilidade da mesma no âmbito penalista, cf. Vaz Serra, “Obrigação de indemnização”, 23; Oliveira Ascen-
são, Acção finalista e nexo causal, 115.
Acerca da possível recondução do pensamento a um regresso ad infinitum, veja-se, ainda, Larenz, Schuldrecht, I, 434.
Cf., igualmente, Paul Esmein, “Trois problèmes de responsabilité civile. Causalité. Concours des responsabilités. Conventions d’irresponsa-
bilité”, 317-369. Para uma sistematização das críticas apontadas à doutrina, Christophe Quézel-A mbrunaz, Essai sur la causalité, 34 s.
(alargamento desmesurado do número de potenciais responsáveis, risco de condução da responsabilidade ad infinitum, impossibilidade
de repartição do encargo ressarcitório entre os diversos coautores ou entre a vítima e um dos autores do dano, insusceptibilidade de
resolução dos problemas de sobredeterminação causal)

180
causal a seguir o seu curso letal22.
Em face das inconcludências da doutrina da condicionalidade, os autores passaram,
com formulações diversas, a propor um entendimento causal que – aparentemente – se afasta
de uma impostação naturalista e lógica para abraçar, do ponto de vista da juridicidade, a espe-
cífica intencionalidade que a predica23. Já não se indaga qual a causa do dano, mas olha-se para
o comportamento do lesante para ver se, em abstrato, ele é ou não idóneo a produzir um dano
daquele tipo. Encontra-se, por isso, o ponto de clivagem entre esta perspetiva e as doutrinas que

22  Cf., no mesmo sentido, dando este exemplo, A ntunes Varela, Das obrigações, I, 884, n. 1 e 739 s.
Note-se que a crítica pode ser contornada, considerando que o que importa para o estabelecimento da conexão causal é o evento concreto
– a morte tal como ela ocorreu – e não abstrato. Cf. Pereira Coelho, O problema da causa virtual, 9, n. 6 e 180 s. [Entre os principais
argumentos invocados pelo autor, referência nacional em matéria de causalidade, contam-se o facto de o juízo de condicionalidade dever
ser um juízo puro, não devendo resvalar para nenhuma seleção segundo razões atinentes à valiosidade do comportamento e as dúvidas
suscitadas pelos casos de causalidadecumulativa]; Vaz Serra, “Obrigação de indemnizar. Colocação. Fontes. Conceito e espécies de
dano. Nexo causal. Extensão do dever de indemnizar. Espécies de indemnização. Direito de abstenção e de remoção”, Boletim do Mi-
nistério da Justiça, nº84, Março 1959, 63-64 e n. 185; Trimarchi, Causalità e danno, 5; Bydlinski, “Mittäterschaft im Schadenrecht”,
Archiv für die civilistische Praxis, 158, 1959, 416 [De Bydlinski veja-se, porém, Probleme der Schadensverursachung nach deutschem
und österreichischemRecht, F. Enke, Estugarda, 1964, 17, colocando em evidência algumas das aporias a que pode conduzir a conside-
ração do resultado em concreto]; R ibeiro de Faria, Direito das Obrigações, 499; Geraldes de Carvalho, “A causalidade. Subsídios para
uma teoria da responsabilidade jurídica em geral” , 26 s.; Jorge Carlos da Fonseca, “A relevância negativa da causa virtual ou hipotética
na responsabilidade civil (Delimitação do problema. Sua incidência no Direito Português)”, Revista Jurídica, AAFDL, nº4, 1984, 43;
H art e Honoré, Causation in the law, 2nd edition, Claredon Press, Oxford, 2002, reimpressão, 124, 235, 252 e ss.; Larenz, Lehrbuch des
Schuldrechts,Allgemeiner Teil, 14 Auflage, Verlag C. H. Beck, München, 1987, I, 360; ChristophRothenfusser, Kausalitätund Nachteil,
Beck, München, 2003, 75-81, mostrando-se crítico da configuração concreta do resultado (cf. pág. 60 s.).
Sobre o ponto, cf., também, Vaz Serra, “Obrigação de indemnização”, 95. No âmbito dos trabalhos preparatórios do atual Código Civil, e
aderindo previamente à doutrina da causalidade adequada, Vaz Serra pondera uma hipótese prática com uma intencionalidade análoga
à que problematizámos em texto. Relativamente a ela, pode aí ler-se: “poderia julgar-se que falta a conexão causal entre o facto e um dos
autores e o dano, pois esse facto não é condição sine qua non do dano. No entanto, tal não seria razoável. A vítima ficaria sem indem-
nização apesar de o facto de qualquer dos autores ter sido suficiente para produzir o dano. Portanto, deve cada um deles considerar-se
responsável pelo dano total”. Note-se que o discurso do civilista se dirige à doutrina da causalidade adequada, mostrando, em sintonia
com o que posteriormente denunciaremos, que, ao partir-se da doutrina da equivalência das condições para a corrigirmos, continuamos
a ser contagiados com alguns dos seus anátemas. Saliente-se, ainda, que em debate está a possibilidade de, no seio do ordenamento
jurídico pátrio, se chegar a uma solução como a que é viabilizada pelo §830 BGB.
Mais se diga que, no que à teoria da conditio sine qua non tange, a possibilidade corretiva a que aqui aludimos se traduz, afinal, na total
subversão do seu núcleo predicativo, já que com ela deixa-se de conseguir eliminar os acontecimentos irrelevantes para a emergência
do resultado.
Acerca desta problemática, veja-se, ainda, com amplo desenvolvimento, Paulo Mota Pinto, Interesse contratual negativo e interesse con-
tratual positivo, volume I e II, Coimbra, Coimbra Editora, 2008,659 s.Fala o autor, ademais, num outro desafio lançado às teorias por si
designadas de contrafactuais, a coincidir com a problemática da causalidade virtual, que receberia uma possível resposta com base no
argumento da conformação concreta do resultado. E nesse ensejo, dualiza as posições dos autores, agrupando-as entre aqueles segundo
os quais “é indispensável abstrair de algumas características do resultado, de acordo com um critério jurídica, sob pena de se chegar a
resultados estranhos” e aqueloutros para quem há que “considerar o resultado na sua configuração concreta, com as suas características
individualizadoras, isto é, tal como ocorreu, naquele momento e lugar e daquele modo”. Entre os primeiros encontrar-se-ia Traeger; en-
tre os segundos Müller e Engisch. Ponderando argumentos a favor e contra cada uma das posições, Paulo Mota Pinto erige como nódulo
problemático central destas lucubrações a indagação: “o problema é, pois, o de saber qual é a configuração concreta do resultado rele-
vante e o que são circunstâncias adjacentes irrelevantes: a separação entre circunstâncias ou elementos laterais em relação à produção
do resultado e irrelevantes para este (mas que o caracterizam em concreto), por um lado, e circunstâncias ou elementos relevantes para
o resultado.” [A propósito do pensamento de Müller, cf. Die Bedeutung des Kausalzusammenhangs im Straf- und Schadensersatzrecht,
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

Mohr, Tübingen, 1912]


No fundo, parece resultar a dificuldade do facto de contra cada uma das posições poderem ser desferidas críticas que as atingem no seu
cerne. Assim, no que à conformação concreta do resultado concerne, há que considerar a consequência da elevação de todas as circuns-
tâncias acidentais a fatores causais (cf. Paulo Mota Pinto, Interesse contratual negativo, 661s., acompanhando de perto a lição de Ca-
naris vertida em “Die Vermutung aufklärungsrichtigen Verhaltens und ihre Grundlagen”, Franz H äuser et alii, Festschrift für Walther
Hadding zum 70. Geburststag, De Gruyter, Berlin, 2004, p. 3-24, aqui 13-14), bem como o facto de ela permitir “obter as conclusões
causais que se pretender, manipulando a descrição do resultado, isto é, incluindo na descrição do resultado concreto justamente aquelas
circunstâncias para as quais aquela pessoa, cujo comportamento se pretende que seja considerado causal para o resultado, põe uma
condição necessária, caindo assim num círculo vicioso” (Paulo Mota Pinto, Interesse contratual negativo,663), pelo que se exigiria
a seleção dos elementos relevantes à luz da intencionalidade da norma. É, aliás, essa a posição de Canaris (cf. “Die Vermutung au-
fklärungsrichtigen”, 15). Sobre a consideração do resultado em concreto, v., igualmente, Wolfgang B. Schünemann, “Unzulänglichkeit
der Adäquanztheorie? AG und LG Regensburg, VersR 1977, 459”, Juristische Schulung, 19. Jahrgang, Heft 1, 1979, 22; e Christophe
Quézel-A mbrunaz, Essai sur la causalité, 43
23  A teoria, tendo origem doutrinal, terá sido consagrada na jurisprudência tudesca em 1913 e confirmada em 1951, a propósito do
naufrágio do navio Edelweiss – cf. H art e Honoré, Causation, 474 s. Com a mesma referência, acrescentando ainda um outro acórdão,
datado de 1972, v. Florence G’Sell-M acrez, Recherches, 111.

181
se integram naquilo que Honoré apelidou de necessity theories e de explanatory theories24. A
questão que passa a orientar o jurista é – numa formulação positiva – a de saber se é normal e
adequado (provável) que aquele tipo de comportamento gere aquele tipo de dano; ou – numa
formulação negativa – a de saber se é de todo indiferente para a produção de um dano daquele
tipo um comportamento como o do lesante.
Sobre a doutrina da causalidade adequada haveremos desde já de considerar que ela
não constitui um magma uniforme. Pelo contrário, no seu seio albergam-se formulações abso-
lutamente díspares que vão desde uma visão probabilística-estatística, que quadra mal com a
intencionalidade jurídica, até um conceito normativizado de causalidade. O certo, porém, é que
mesmo numa visão normativa de adequação as inconcludências a que a doutrina aporta o jurista
não são de pequena monta25.
Assim, colocam-se desde logo problemas ao nível da descrição dos relatas, isto é, dos
termos a relacionar. Na verdade, se se perguntar “é normal e provável que um pequeno golpe na
face provoque a morte de uma pessoa”, a resposta será, em princípio, negativa. Mas se se per-
guntar “é normal e provável que um pequeno golpe na face provoque a morte de um hemofílico
em último grau”, a resposta pode já ser afirmativa. Quer isto dizer que consoante a descrição
que se faça dos eventos, assim a resposta já vai contida na indagação. E não será fácil optar por
uma descrição dos relata em abstrato – porque se perde a necessária relevância do caso concre-
to – ou em concreto, porque a pormenorização pode, de facto, condicionar uma solução que, a
priori, não deveria estar estabelecida. Isto quer dizer, no fundo, que – consoante afirmam certos
autores – a adequação é critério de coisa alguma, uma fórmula vazia (Leeformel)26.
Por outro lado, coloca-se o problema de saber qual o ponto de vista que se deve adotar
nesta indagação: o ponto de vista do sujeito que atuou, o ponto de vista do homem médio ou
o ponto de vista do observador ótimo e experiente? E devem ou não ter-se em conta os conhe-
cimentos efetivos do lesante que, em concreto, podem alterar o juízo de prognose a encetar?
Basta pensar, por exemplo, na hipótese em que o sujeito sabia da hemofilia da vítima e por isso
desfere contra ela um golpe. Mas, ao considerarmos esta probabilidade corrigida por índices de
subjetividade, não estamos a aproximar-nos da culpa e da previsibilidade, sendo certo que os
autores a rejeitam – e bem – para estabelecer o nexo de causalidade? O mesmo não se poderá
perguntar se o nosso juízo um juízo ex ante? Mas, por outro lado, se o juízo for absolutamente
objetivo e formulado ex post, não estaremos a condenar-nos a uma resposta de tipo estatístico
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

que quadra mal com a intencionalidade predicativa da juridicidade e nos afasta de soluções jus-
tas, como no exemplo apresentado anteriormente? E, in fine, qual o grau de probabilidade que

24  A propósito da classificação das teorias causais, cf. Christophe Quézel-A mbrunaz, Essai sur la causalité, 23 s.
Para outros desenvolvimentos e uma enunciação destas diversas doutrinas, cf. M afalda Miranda Barbosa, Do nexo de causalidade ao
nexo de imputação, 86 s.
25  Para um acompanhamento mais pormenorizado das diversas críticas que lançamos sobre a causalidade adequada, cf. M afalda Miran-
da Barbosa, Do nexo de causalidade ao nexo de imputação, 99 s., bem como a demais bibliografia aí citada.

26  Menezes Cordeiro, Da responsabilidade, 534, ao afirmar que ela não é bitola de coisa nenhuma, mas “espaço que iremos preenchendo
com base no senso comum e em juízos de tipo ético”; Menezes Leitão, A responsabilidade do gestor,325; Günther Bernert, “Die Lee-
formel von der Adäquanz”, Archiv für die civilistische Praxis, 169, 1969,421-442

182
deve ser requerido?
A causalidade adequada mostra-se ainda falha noutras situações. Em primeiro lugar,
ela não nos oferece uma resposta satisfatória sempre que esteja em causa a chamada causalida-
de psicológica, isto é, sempre que o sujeito atua para levar o lesado ou um terceiro a agir. Do
mesmo modo, mostra-se insuficiente nas hipóteses de causalidade cumulativa necessária. Por
último, ao partir de uma ideia de condicionalidade, acaba por ficar refém dos problemas ante-
riormente patenteados.
As dúvidas e dificuldades expostas acerca da justeza das soluções alicerçadas na pro-
babilidade refletem estes dados, embora, pela confluência a que aludimos entre a condicionali-
dade sem a qual e a causalidade adequada, eles possam surgir miscigenados.
Do mesmo passo, permitem-nos perceber que não podemos – se quisermos ser con-
gruentes na busca de uma solução normativamente fundada e materialmente justa – ficar presos
às soluções doutrinais tradicionais. Há que, portanto, repensar o problema.

4 UMA PERSPETIVA IMPUTACIONAL DO PROBLEMA CAUSAL

Metodologicamente, se toda a interpretação da norma faz apelo aos princípios que ela
leva pressupostos, então o cumprimento das exigências de sentido comunicadas pelo direito –
desvelável na ideia de liberdade e responsabilidade (no sentido da role-responsability colimada
na pessoalidade) – só será logrado se e quando todas as categorias harmonicamente articuladas
para fundar a sua procedência forem interpretadas, no cotejo com o caso concreto, tendo em
consideração, não só as finalidades primárias desse ressarcimento, mas ainda a intencionalida-
de normativa dela. Na interpretação que se faça dos referidos requisitos, há que trancendê-los
pela pressuposição da intencionalidade ético-axiológica daquele princípio da responsabilidade
assente na pessoalidade. Assim, em relação à causalidade: mais do que ser vista como um pro-
blema normativo, há-de ser recortada, entre outros aspetos, com base na ideia de pessoalidade
livre em que se ancora toda a juridicidade. A leitura ético-axiológica do pressuposto delitual
não pode, contudo, apagar do nosso referente dialógico as outras notas que, num nível menos
rarefeito de compreensão delitual, concorrem para a caracterização do sistema. Nessa medida,
importa não esquecer a ideia de comutação a que somos conduzidos pela análise da teleologia
primária da responsabilidade civil. Se a finalidade precípua do instituto é a reparação dos danos,
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

torna-se urgente considerar o resultado lesivo, sem o qual a indemnização não terá razão de ser.
É ele que torna a causalidade imprescindível como requisito delitual: permite estabelecer a pon-
te entre a teleonomologia e a teleologia da responsabilidade civil. Ou dito de outro modo, é ela
que evita o desenho puramente sancionatório do instituto, impondo que este apenas assimile a
relevância do caso concreto quando e se o comportamento ilícito e culposo se projete num dano.
Na verdade, não basta que se olhe para uma dimensão de validade. Qualquer critério jurídico
há-de ser perpassado por uma ideia de eficácia. Nessa medida, na busca dos contornos com que
deve ser desenhada a causalidade, importa não obnubilar o dado ontológico envolvente. Será

183
ele a chamar-nos a atenção quer para a complexidade causal, quer para o imbricamento condi-
cional. Nesta medida, influenciará, numa dialética entretecida com o plano axiológico, a própria
modelação da causalidade enquanto requisito do direito delitual. O risco é, assim, chamado para
o centro do discurso do decidente. O apelo à conformação societária como uma comunidade de
risco serve menos para evidenciar a perigosidade de cada ato concreto – ou atividade encabeça-
da – do que para mostrar que, sendo aquele risco imanente ao modus vivendi, não será possível
ajuizar causalmente abstraindo do contexto relacional de esferas que se cruzam. É, aliás, este o
único recorte compaginável com a noção de ação em se estrutura o nosso delito.
Nas hipóteses de responsabilidade pelo risco, como aquela que estamos a contemplar
a propósito da responsabilidade do produtor27, o risco cumpre, ainda, a função de fundamento
da própria responsabilidade.
A mutação de perspetiva é possível a partir do momento em que olhamos para a respon-
sabilidade do ponto de vista ético-axiológico e não apenas dogmático28. A própria ação, de onde
se parte, deve ser vista como uma categoria onto-axiológica o que, no diálogo com a pressupo-
sição do risco, nos permite inverter alguns dos aspetos tradicionais do problema. Assim, e desde
logo, podemos afirmar que o filão fundamentador da imputação objetiva não pode deixar de se
encontrar numa esfera de risco que se assume. Não basta contemplar a esfera de risco assumida
pelo agente de uma forma atomística, desenraizada da tessitura antropológico-social e munda-
nal em que ele está inserido. Dito de outro modo, e relacionando-se isso com o pertinentemente
aceite em matéria de definição da conduta juridicamente relevante, salienta-se aqui que, porque
o referencial de sentido de que partimos é a pessoa humana, matizada pelo dialéctico encontro
entre o eu, componente da sua individualidade, e o tu, potenciador do desenvolvimento integral
da sua personalidade, há que cotejá-la com a esfera de risco encabeçada pelo lesado, pelos ter-
ceiros que compõem teluricamente o horizonte de atuação daquele, e ainda com a esfera de ris-
co geral da vida. Ao que, aliás, não será também estranho o facto de todo o problema vir ener-
vado pela teleologia primária da responsabilidade delitual, ou seja, pelo escopo eminentemente
reparador do instituto. A pessoa, ao agir, porque é livre, assume uma role responsibility, tendo
de, no encontro com o seu semelhante, cumprir uma série de deveres de cuidado. Duas hipóte-
ses são, então, em teoria, viáveis: ou a pessoa atua investida num especial papel/função ou se
integra numa comunidade de perigo concretamente definida e, neste caso, a esfera de risco apta
a alicerçar o juízo imputacional fica a priori desenhada, hipótese que ocorre, concretamente,
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

no caso da responsabilidade objetiva; ou a esfera de risco/responsabilidade que abraça não é


suficientemente definida para garantir o acerto daquele juízo. Exige-se, por isso, que haja um

27  A este propósito – e em geral acerca de toda a responsabilidade do produtor –, cf. Calvão da Silva, Responsabilidade civil do produtor,
503 s., considerando que se trata de uma responsabilidade objetiva. Em sentido contrário, sustentando que em causa está uma respon-
sabilidade subjetiva, veja-se Menezes Cordeiro, Tratadode Direito Civil Português, II, Direito das Obrigações, tomo III, Almedina,
2010, 692
28  Cf., para maiores desenvolvimentos, Mafalda Miranda Barbosa, Do nexo de causalidade ao nexo de imputação, 890 s. e 1130 s.,
bem como a demais bibliografia aí citada e que aqui damos por reproduzimos. Repristinamos algumas das conclusões a que, naquela
investigação, chegámos.

184
aumento do risco, que pode ser comprovado, exatamente, pela preterição daqueles deveres de
cuidado. Estes cumprem uma dupla função. Por um lado, permitem desvelar a culpa (devendo,
para tanto, haver previsibilidade da lesão e exigibilidade do comportamento contrário tendo
como referente o homem médio); por outro lado, alicerçam o juízo imputacional, ao definirem
um círculo de responsabilidade, a partir do qual se tem de determinar, posteriormente, se o dano
pertence ou não ao seu núcleo. A culpabilidade não se confunde com a “causalidade”. Pode o
epicentro da imputação objetiva residir na imputação subjetiva firmada, sem que, contudo, os
dois planos se confundam. Condicionam-se dialeticamente, é certo, não indo ao ponto de se
identificar. O condicionamento dialéctico de que se dá conta passa pela repercussão do âmbito
de relevância da culpa em sede de imputação objetiva. Isto é, a partir do momento em que o
agente atua de forma dolosa, encabeçando uma esfera de risco, as exigências comunicadas em
sede do que tradicionalmente era entendido como o nexo de causalidade atenuam-se. Acresce
que, ainda que a previsibilidade releve a este nível, o ponto de referência dela será diferente.
Assim, a previsibilidade de que se cura deve ser entendida como cognoscibilidade do potencial
lesante da esfera de risco que assume, que gera ou que incrementa. Ela não tem de se referir
a todos os danos eventos. Designadamente, não terá de se referir aos danos subsequentes ou
àqueles que resultem do agravamento da primeira lesão. Por isso, quando afirmamos que, ao
nível da primeira modalidade de ilicitude, a culpa tem de se referir ao resultado, acompanha-
mos, entre outros, autores como Lindenmaier, Von Caemmerer ou Till Ristow, para sustentar
que a previsibilidade que enforma a culpa deve recuar, no seu ponto referencial, até ao momento
da edificação da esfera de risco que se passa a titular. Assim, para que haja imputação objetiva,
tem de verificar-se a assunção de uma esfera de risco, donde a primeira tarefa do julgador será
a de procurar o gérmen da sua emergência. São-lhe, por isso, em princípio, imputáveis todos
os danos que tenham a sua raiz naquela esfera, donde, a priori, podemos fixar dois polos de
desvelação da imputação: um negativo, a excluir a responsabilidade nos casos em que o dano
se mostra impossível (impossibilidade do dano), ou por falta de objeto, ou por inidoneidade do
meio; outro positivo, a afirmá-la diante de situações de aumento do risco.
Exclui-se a imputação quando o risco não foi criado (não criação do risco), quando
haja diminuição do risco e quando ocorra um facto fortuito ou de força maior. Impõe-se, ade-
mais, a ponderação da problemática atinente ao comportamento lícito alternativo.
No tocante à responsabilidade pelo risco, a esfera de risco é definida previamente pelo
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

legislador, atento o modelo de tipicidade com que nos confrontamos, sendo encabeçada no mo-
mento em que o sujeito (pretensamente responsável) a assume.
Abre-se, posteriormente, o segundo patamar da indagação “causal”.
Contemplando, prima facie, a esfera de risco geral da vida, diremos que a imputação
deveria ser recusada quando o facto do lesante, criando embora uma esfera de risco, apenas
determina a presença do bem ou direito ofendido no tempo e lugar da lesão do mesmo. O cotejo
com a esfera de risco natural permite antever que esta absorve o risco criado pelo agente, por-
quanto seja sempre presente e mais amplo que aquele. A pergunta que nos orienta é: um evento

185
danoso do tipo do ocorrido distribui-se de modo substancialmente uniforme nesse tempo e
nesse espaço, ou, de uma forma mais simplista, trata-se ou não de um risco a que todos – indi-
ferenciadamente – estão expostos?
O confronto com a esfera de risco titulada pelo lesado impõe-se de igual modo. São a
este nível ponderadas as tradicionais hipóteses da existência de uma predisposição constitucio-
nal do lesado para sofrer o dano. Lidando-se com a questão das debilidades constitucionais do
lesado, duas hipóteses são cogitáveis. Se elas forem conhecidas do lesante, afirma-se, em regra,
a imputação, exceto se não for razoável considerar que ele fica, por esse especial conhecimento,
investido numa posição de garante. Se não forem conhecidas, então a ponderação há-de ser
outra. Partindo da contemplação da esfera de risco edificada pelo lesante, dir-se-á que, ao agir
em contravenção com os deveres do tráfego que sobre ele impendem, assume a responsabilida-
de pelos danos que ali se inscrevam, pelo que haverá de suportar o risco de se cruzar com um
lesado dotado de idiossincrasias que agravem a lesão perpetrada. Excluir-se-á, contudo, a im-
putação quando o lesado, em face de debilidades tão atípicas e tão profundas, devesse assumir
especiais deveres para consigo mesmo. A mesma estrutura valorativa se mobiliza quando em
causa não esteja uma dimensão constitutiva do lesado, mas sim uma conduta dele que permita
erigir uma esfera de responsabilidade, pelo que, também nos casos de um comportamento não
condicionado pelo seu biopsiquismo, a solução alcançada pelo cotejo referido pode ser intuída,
em termos sistemáticos, a partir da ponderação aqui posta a nu. Há que determinar nestes casos
em que medida existe ou não uma atuação livre do lesado que convoque uma ideia de autorres-
ponsabilidade pela lesão sofrida. Não é outro o raciocínio encetado a propósito das debilidades
constitucionais dele, tanto que a imputação só é negada quando se verifique a omissão de deter-
minados deveres que nos oneram enquanto pessoas para salvaguarda de nós mesmos.
Não se estranha, por isso, que o pensamento jurídico – mormente o pensamento jurí-
dico transfronteiriço – tenha gizado como critério guia do decidente o critério da provocação.
Tornam-se, também, operantes a este nível ideias como a autocolocação em risco ou a hetero-
colocação em risco consentido.
Havendo essa atuação livre do lesado, temos que ver até que ponto os deveres que
oneravam o lesante tinham ou não como objetivo obviar o comportamento do lesado. Tido isto
em mente, bem como a gravidade da atuação de cada um, poderemos saber que esfera de risco
absorve a outra ou, em alternativa, se se deve estabelecer um concurso entre ambas.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

O juízo comparatístico encetado e justificado não dista sobremaneira pelo facto de a


titularidade da segunda esfera de risco, concorrente com aquela, vir encabeçada por um tercei-
ro.A triangular assunção problemática a que nos referimos leva implícita uma prévia alocação
imputacional, posto que ela envolve que, a jusante, se determine que o comportamento dele não
é simples meio ou instrumento de atuação do primeiro lesante. Donde, afinal, o que está em
causa é a distinção entre uma autoria mediata e um verdadeiro concurso de esferas de risco e
responsabilidade, a fazer rememorar a lição de Forst, embora não a acolhamos plenamente. O
segundo agente, que causa efetivamente o dano sofrido pelo lesado, não tem o domínio absoluto

186
da sua vontade, ou porque houve indução à prática do ato, ou porque não lhe era exigível outro
tipo de comportamento, atenta a conduta do primeiro agente (o nosso lesante, a quem queremos
imputar a lesão). Neste caso, ou este último surge como um autor mediato e é responsável, ou a
ulterior conduta lesiva se integra ainda na esfera de responsabilidade por ele erigida e a imputa-
ção também não pode ser negada.
Maiores problemas se colocam, portanto, quando existe uma atuação livre por parte
do terceiro que conduz ao dano. Há, aí, que ter em conta alguns aspetos. Desde logo, temos de
saber se os deveres do tráfego que coloram a esfera de risco/responsabilidade encabeçada pelo
lesante tinham ou não por finalidade imediata obviar o comportamento do terceiro, pois, nesse
caso, torna-se líquida a resposta afirmativa à indagação imputacional. Não tendo tal finalidade,
o juízo há-de ser outro. O confronto entre o círculo de responsabilidade desenhado pelo lesante
e o círculo titulado pelo terceiro – independentemente de, em concreto, se verificarem, quanto
a ele, os restantes requisitos delituais – torna-se urgente e leva o jurista decidente a ponderar se
há ou não consunção de um pelo outro. Dito de outro modo, a gravidade do comportamento do
terceiro pode ser de molde a consumir a responsabilidade do primeiro lesante. Mas, ao invés,
a obliteração dos deveres de respeito – deveres de evitar o resultado – pelo primeiro lesante,
levando à atualização da esfera de responsabilidade a jusante, pode implicar que a lesão perpe-
trada pelo terceiro seja imputável àquele. Como fatores relevantes de ponderação de uma e outra
hipótese encontramos a intencionalidade da intervenção dita interruptiva e o nível de risco que
foi assumido ou incrementado pelo lesante.
O modelo cogitado para a causalidade, assim transmutada em imputação, continua a
ser válido para a responsabilidade pelo risco. Pensemo-lo, então, por referência à responsabi-
lidade do produtor. Ao colocar no mercado um determinado produto (defeituoso), o produtor
assume uma esfera de risco, pelo que responderá, em regra, por todos os danos que possam
ligar-se funcionalmente ao defeito detetado. Não se exige, para que a ligação se estabeleça, um
qualquer grau de probabilidade bastante, contentando-nos antes com a mera possibilidade. Na
verdade, a densificação da imputação que se começa, assim, a erigir será oferecida pelo cotejo
entre esta esfera de risco com outras esferas de risco que com ela se confrontem.
Tal como no caso da responsabilidade subjetiva, a esfera de risco geral da vida conduz
à exclusão da imputação quando a atividade em questão (a colocação do produto defeituoso no
mercado), identificando embora uma esfera de risco, apenas determina a presença do bem ou
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

direito ofendido no tempo e lugar da lesão do mesmo.


A consideração da esfera de risco do lesado, por seu turno, levar-nos-á, igualmente,
a ponderar a este nível o problema das predisposições constitucionais do lesado. Ao assumir
uma atividade arriscada, o agente assume a responsabilidade pelos danos que se inscrevem na
sua esfera de risco, pelo que haverá de suportar o risco de se cruzar com um lesado dotado de
idiossincrasias que agravem a lesão perpetrada. Excluir-se-á, contudo, a imputação quando o
lesado, em face de debilidades tão atípicas e tão profundas, devesse assumir especiais deveres
para consigo mesmo. Fundamental neste juízo – porque de uma responsabilidade alargada se

187
trata – é considerar a própria intencionalidade da responsabilidade em questão. Ora, no caso da
responsabilidade do produtor, a defeituosidade de que se parte implica a falta de segurança do
produto, tendo em conta todas as circunstâncias, entre as quais a utilização que razoavelmente
dele se faça, donde as predisposições constitucionais do lesado podem ser de molde a, se deter-
minarem uma utilização não razoável do bem, excluir a imputação. Já não será esta a pondera-
ção se o defeito não for afastado, mas o impacto que o produto tiver no lesado determinar uma
lesão agravada. Nessa hipótese, parecem-nos ser mobilizáveis os critérios predispostos em geral
para resolver a questão imputacional, a partir dos quais a responsabilidade pode ser excluída ou
limitada.
É nesse sentido que deve ser interpretado o artigo 7º/1 DL nº383/89, nos termos do
qual, “quando um facto culposo do lesado tiver concorrido para o dano, pode o tribunal, tendo
em conta todas as circunstâncias, reduzir ou excluir a indemnização”. Tal como por referência
ao artigo 570º CC, a ideia de culpa não deve ser compreendida em sentido estrito, por não
ser possível fazer recair um juízo de censura ético-jurídica sobre a própria pessoa, pelo que
a simples presença de uma predisposição constitucional não acompanhada dos deveres de
cuidado em relação a si mesmo que deveriam ser adotados pode ser de molde a desencadear a
consequência jurídica.
Finalmente, há que confrontar a esfera de risco do lesante com a esfera de risco enca-
beçada por um terceiro. Fundamental é, então, perceber em que medida o comportamento do
terceiro é ou não livre, qual a amplitude do risco assumido pelo lesante e qual a gravidade do
comportamento do terceiro. Ao contrário do que se sustentou durante largo tempo, a disciplina
da responsabilidade civil do produtor abre-nos as portas para situações de concurso entre culpa
e risco, afastando soluções radicais de exclusão da responsabilidade pelo risco, sempre que se
verifique uma hipótese concorrente de culpa29.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A aceitar-se como boa a perspetiva imputacional assim delineada, o problema da pro-


va, ou melhor, do ónus probatório ganha outros contornos. Na verdade, transmutada numa
questão imputacional, a causalidade adquire um cunho normativo, consubstanciando-se num
juízo a ser levado a cabo pelo julgador. É claro que ele se há-de alicerçar em dados da realida-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

de concreta. Mas, para tanto, basta que o lesado prove a edificação de uma esfera de risco e a
existência do evento lesivo. O juízo acerca da pertença deste àquela esfera traduzir-se-á numa
dimensão normativa da realização judicativo-decisória do direito.
Perguntar-se-á, contudo, e sobretudo porque estamos diante de uma hipótese de res-
ponsabilidade pelo risco (em que a esfera de risco é assumida a montante, no momento em que
se dá início a uma qualquer atividade tida pelo legislador como arriscada ao ponto de, com

29  Cf. artigo 6º e 7º DL nº383/89

188
base em critérios de justiça distributiva, se admitir a imposição de uma obrigação ressarcitória
independentemente de culpa), se será bastante a comprovação da edificação/assunção da esfera
de risco de que se cura, para, de imediato, se responder que urge, num caso como este, provar a
interferência daquela atividade na história de surgimento do evento lesivo. Mas, para tanto, não
nos precisamos de enredar numa lógica contrafáctica, própria de um juízo condicionalista (que,
aliás, se mostra irrealizável em concreto), nem necessitamos de partir em busca de uma verdade
científica acerca dos factos.
Numa hipótese de responsabilidade do produtor, devemos contentar-nos com a prova
da utilização/consumo/aquisição do produto defeituoso pelo lesado e do dano. A ligação entre
a colocação do produto no mercado e a emergência da lesão implica o referido juízo normativo
a cargo do julgador.
Resta, porém, um problema de não pequena monta. Confrontados com a decisão do
Tribunal de Justiça da União Europeia, torna-se forçoso pensar em que medida é que o que fica
dito é compatível com a ideia de que, embora haja a possibilidade de se dar por estabelecida a
causalidade com base num grau suficientemente elevado de probabilidade, deixando de lado
a exigência de uma verdade científica, se posterga a hipótese de se lançar mão de uma prova
por presunção que leve a demonstrar automaticamente o nexo causal, quando estejam reunidos
certos indícios predeterminados.
A dúvida, sendo pertinente, não nos conduz a uma aporia. Em primeiro lugar, embora
a diretiva pretenda harmonizar os diversos ordenamentos jurídicos nesta matéria, introduzin-
do uma proteção bastante para o consumidor e, assim, consolidando as bases de um mercado
único, ela não vai ao ponto de impor uma dada conceção dogmática acerca dos pressupostos de
procedência da pretensão indemnizatória em relação aos quais, explicitamente, não crie uma
disciplina excecional. Embora no artigo 4º Diretiva 85/374/CEE se disponha que cabe ao lesado
a prova do dano, do defeito e do nexo de causalidade, o certo é que a prova que se exige a este
nível ficará sempre dependente do entendimento que se derrame sobre o requisito. Ora, a partir
do momento em que a nossa perspetiva é imputacional, a prova que se requer não pode ir além
do que ficou explicitado supra.
Note-se, aliás, que, de acordo com o modelo que edificámos, não está em causa qual-
quer presunção de causalidade. O que se propõe não é que o julgador presuma a ligação exigível
a partir de qualquer dado apresentado pelo lesado, mas que edifique um juízo normativo com
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

base na comprovação da existência de uma esfera de risco, na comprovação da participação


dessa esfera de risco na história de surgimento do evento e na comprovação do próprio evento
lesivo. Estas provas terão de ser oferecidas pelo lesado, prescindindo-se, contudo, da prova da
ligação entre eles. Se em certo sentido se pode aqui falar de uma inversão do ónus probatório,
fazendo-se recair o risco processual sobre aquele que assume, ab initio, o risco substancial, não
menos seguro é afirmar que tal inversão se alicerça quer nos princípios normativos operantes a
este nível, quer em pressupostos metodológicos, não redundando na discussão fáctico-probabi-
lística a que se refere o Tribunal de Justiça da União Europeia.

189
REFERÊNCIAS

BURI, Von, Die KausalitätundihrestrafrechtlicheBeziehung, 1885, nº308 e ÜberKausalität


undderenVerantwortung, Leipzig, 1873.

CORDEIRO, António Menezes. Tratado de Direito Civil PortuguêsII, Coimbra: Almedina.


2010.

CORDEIRO, António Menezes. Tratado de Direito Civil Português III, Coimbra:


Almedina. 2010.

MILL, John Stuart. Sistema de lógica dedutiva e indutiva, 1843.

SILVA, João Calvão da. Responsabilidade civil do produtor, Coimbra: Almedina, 1999.

CIVIL LIABILITY OF THE PRODUCER AND NEXUS OF CAUSALITY: BRIEF


CONSIDERATIONS

ABSTRACT
Taking into consideration that the Portuguese Courts, in the context of
product liability, require the proof of defect and of causation between
the defect and the damages and that the European Union Court of Jus-
tice, in a specific case, even considering that it is not required a scien-
tific and irrefutable proof of the causal link, also refuses the proof by
presumption that automatically demonstrates causation, we intend to
confront the traditional understanding of causation with an imputation-
al perspective of the requisite. In the end, we will be able to conclude
to what extent the requirement of Portuguese and European case-law
makes sense.
KeywordsProducer liability. Jurisprudence. Nexus of causality.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

190
CONFLITO DE VALORES E FUNDAMENTO DA INTERVENÇÃO DO ESTADO NO
CONTEXTO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA EM PORTUGAL

Maria Elisabete Ferreira1

RESUMO
A violência doméstica é um grave problema social dos dias atuais. O
presente trabalho pretende refletir sobre a legitimidade da intervenção
do Estado, no contexto da violência conjugal e parental, à luz da legis-
lação em vigor no ordenamento jurídico português, partindo da afirma-
ção do princípio fundamental da não-ingerência na família, para o re-
conhecimento da necessidade de salvaguarda dos direitos fundamentais
inalienáveis de cada um dos seus membros.A intervenção do Estado é
constitucionalmente imposta, mas delimitada pelos princípios da subsi-
diariedade e da proporcionalidade.
Palavras-chave: Violência doméstica. Estado. Intervenção. Limites
imanentes. Proporcionalidade.

1 INTRODUÇÃO
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

O sociólogo Giddens (2001, p. 193) não tem dúvidas em afirmar que: “O lar é o lugar
mais perigoso nas sociedades modernas.”. Este autor sustenta que uma pessoa de qualquer sexo
ou idade tem maiores probabilidades de vir a ser fisicamente atacada dentro de casa, do que na
rua, à noite. Estamos em face do fenômeno da violência doméstica ou familiar.

1  Professora Auxiliar da Escola do Porto da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa. Investigadora do CEID – Católica
Research Centre for the Future of Law. Licenciada em Direito pela Escola de Direito do Porto da Universidade Católica Portuguesa, em
1999. Mestre em Direito pela Escola de Direito do Porto da Universidade Católica Portuguesa, na área das Ciências Jurídico-Civilísti-
cas, em 2004. Doutoramento em Direito pela Escola de Direito do Porto da Universidade Católica Portuguesa, em 2014. Principal área
de investigação: Direito Penal/ Violência Doméstica/ Direito das Crianças.

191
Na sua abordagem são empregues, comummente, as expressões violência familiar
ou violência doméstica, de forma mais ou menos indistinta. A expressão violência doméstica
entrou no vocabulário jurídico, proveniente da sociologia anglófona, após se ter generalizado
na linguagem comum (BELEZA, 2007, p. 2). Seria, porventura, mais apropriada a expressão
violência familiar, mas a segunda acabou por dominar. Ambas as expressões traduzem, com a
amplitude possível, este fenômeno, ainda que, numa perspetiva estritamente jurídica, nenhuma
delas consiga, em rigor, abarcar todas as manifestações do mesmo. Em face das objeções apon-
tadas a ambas as designações, será de preferir o emprego associado das mesmas – violência
familiar e doméstica – expressão que beneficia de amplitude suficiente para deixar a coberto
todas as situações que o legislador penal considerou serem dignas e carecidas de tutela jurídi-
co-penal autônoma.
Nos dias de hoje, encontra-se já afastado o modelo liberal de família. Neste modelo,
ao Estado cabia a regulação da esfera pública, ao mesmo tempo que as instituições legais prote-
giam agressivamente a esfera privada contra a intervenção estatal, que era pouco solicitada, de
modo a salvaguardar a intimidade e o livre desenvolvimento da família. Na atualidade, porém,
parece seguro afirmar que o Estado se deve preocupar com a intervenção na família, procuran-
do assegurar a sua proteção social, econômica e jurídica, mas também promovendo o respeito
pelos direitos fundamentais de cada um dos seus membros.
No presente trabalho, pretendemos discutir se, ou em que medida, é legítima ao Es-
tado a intervenção junto da problemática da violência doméstica, em particular, da violência
conjugal, stricto sensu, e da violência parental, tomando por referência a legislação vigente no
ordenamento jurídico português a este respeito.

2 A INTERVENÇÃO DO ESTADO E O PRINCÍPIO DA NÃO-INGERÊNCIA NA


FAMÍLIA

Mais antiga que o Estado, a família é um organismo natural que preexiste ao Direito
escrito e dentro do qual vive uma ordenação íntima, complexa e difícil de racionalizar (COE-
LHO; OLIVEIRA, 2011, p. 145; XAVIER, 2008, p. 59).
À família, natural ou adotiva, é reconhecido um direito à proteção da sociedade e do
Estado, sendo objeto de uma garantia institucional. Por essa razão, a família tem sido objeto
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

de preocupação por parte de instrumentos jurídicos internacionais. A Declaração Universal


dos Direitos do Homem (DUDH) proclama afamília como elemento natural e fundamental da
sociedade, no seu artigo 16.º, n.º 3, reconhecendo-lhe o direito à proteção desta e do Estado.
Idêntica afirmação decorre, respectivamente, dos artigos 10.º e 23.º dos Pacto Internacional
sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais e Pacto Internacional sobre os Direitos Civis
e Políticos.
A Convenção Europeia dos Direitos Humanos (CEDH) consagra no artigo 8.º o di-
reito ao respeito pela vida privada e familiar, estabelecendo o princípio da não-ingerência da

192
autoridade pública no exercício deste direito, senão quando esta ingerência estiver prevista na
lei e constituir uma providência que seja necessária para a proteção da saúde ou da moral, ou a
proteção dos direitos e das liberdades de terceiros. No mesmo sentido, encontramos os artigos
7.º e 33.º da Carta de Direitos Fundamentais da União Europeia.
No artigo 67.º da Constituição da República Portuguesa (CRP), integrado já no capítulo
dos direitos e deveres sociais, reconhece-se à Família, enquanto elemento fundamental da so-
ciedade, o direito à proteção da sociedade e do Estado e à efetivação de todas as condições que
permitam a realização pessoal dos seus membros.
A Constituição da República Portuguesa (CRP) consagra diversas disposições à famí-
lia, enquanto célula fundamental da sociedade, decorrendo das mesmas a afirmação de determi-
nados princípios constitucionais do direito da família2, designadamente: o direito de constituir
família; o princípio da igualdade dos cônjuges; o princípio da atribuição aos pais do poder-de-
ver de educação dos filhos; o princípio da inseparabilidade dos filhos dos seus progenitores; o
princípio da proteção da adoção; o princípio da proteção da família; o princípio da proteção da
maternidade e paternidade (COELHO; OLIVEIRA, 2011, p. 111 e seg).
Logo no artigo 36.º, n.º 1, a CRP prevê o direito de todos a constituir família e a con-
trair casamento em condições de plena igualdade, e no n.º 3 do mesmo preceito, a igualdade de
direitos e deveres dos cônjuges, quanto à capacidade civil e política e à manutenção e educação
dos filhos.
No n.º 5 do artigo 36.º reconhece-se o direito e o dever de educação e manutenção dos
filhos. O artigo 68.º, relativo à proteção da maternidade e paternidade, reforça esta ideia, deter-
minando que “Os pais e as mães têm direito à proteção da sociedade e do Estado na realização
da sua insubstituível ação em relação aos filhos, nomeadamente quanto à sua educação”. No n.º
2, o preceito reconhece a maternidade e a paternidade como valores sociais eminentes, admitin-
do-se, assim, um verdadeiro direito fundamental dos pais e das mães, enquanto tais, à proteção
da sociedade e do Estado no desempenho dessa tarefa.
Por sua vez, no n.º 6 do artigo 36.º da CRP, encontramos outro princípio fundamental
no domínio das relações paterno-materno filiais: o princípio da inseparabilidade dos filhos dos
pais, ressalvados os casos de incumprimento por estes dos seus deveres fundamentais para com
os filhos, sempre mediante decisão judicial. Desta garantia constitucional decorre “a natureza
primordial e insubstituível da intervenção dos pais na tarefa de educação e acompanhamento
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

dos filhos, (...) só se justificando o afastamento de uns e outros em casos extremos, de irrespon-
sabilidade ou negligência” (MIRANDA; MEDEIROS, 2010, p. 828 e 834).

3 A TUTELA CONSTITUCIONAL DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS DOS


MEMBROS DA FAMÍLIA, EM PARTICULAR, DA INFÂNCIA

2  Cfr. os artigos 36.º, 67.º, 68.º e 69.º da CRP.

193
Muito embora a Constituição confira tutela autônoma à família, enquanto tal, ela não
perfilha uma conceção personalista da família e do casamento, não sendo admissível uma confi-
guração legal da família de acordo com um modelo autoritário ou com uma visão que absolutize
o interesse supra individual e coletivo da família, pese embora a tutela constitucional da família
não se identifique com a proteção dos indivíduos que a integram (XAVIER, 2003, p. 154).
Desde logo, a CRP reconheceu também às crianças um direito à proteção perante a
sociedade e o Estado, ao acolher expressamente o direito das crianças à proteção contra o exer-
cício abusivo da autoridade na família3. A reforma de 1977 do Código Civil pôs termo à refe-
rência ao poder de correção, para passar a consagrar apenas um dever de obediência dos filhos
em relação aos pais. Hoje, em particular, desde a entrada em vigor da Lei n.º 61/2008, de 31 de
outubro, no que respeita à proteção das crianças e dos jovens, o Código Civil não se limita a
estabelecer limites ao exercício da autoridade, mas impõe aos pais um dever positivo de respeito
pela personalidade dos filhos4.
O preceito constitucional de que decorre o princípio da proteção à infância é o artigo
69.º da CRP, que, sob a epígrafe Infância, declara, no seu n.º 1, que “As crianças têm direito à
proteção da sociedade e do Estado, com vista ao seu desenvolvimento integral, especialmente
contra todas as formas de abandono, de discriminação e de opressão e contra o exercício abusi-
vo da autoridade na família e nas demais instituições.”. Nesta norma da CRP, encontra-se con-
sagrado um direito das crianças à proteção, “impondo-se os correlativos deveres de prestação
ou atividade ao Estado e à sociedade” (CANOTILHO; VITAL MOREIRA, 2007, p. 869). Está
em causa um direito social típico, que implica deveres de legislação e de ação administrativa
para a sua realização e concretização, mas que pressupõe um direito negativo das crianças a não
serem abandonadas, discriminadas ou oprimidas. Os sujeitos passivos deste direito são não só
o Estado como os poderes públicos e a sociedade em geral, incluindo a família e, dentro desta,
os pais. Este mesmo n.º 1 do artigo 69.º impõe também a definição legal e a limitação da autori-
dade sobre as crianças no seio da família, justificando a concretização legislativa das inibições
e limitações ao exercício das responsabilidades parentais, bem como as medidas de vigilância
e punição dos maus tratos e das sevícias contra as crianças no ambiente doméstico (CANOTI-
LHO; MOREIRA, 2007, p. 870).
No n.º 2 do artigo 69.º proclama-se a especial proteção que o Estado deverá assegu-
rar às crianças órfãs, abandonadas ou por qualquer forma privadas de um ambiente familiar
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

normal, especialmente contra todas as formas de abandono, de discriminação e de opressão e


contra o exercício abusivo da autoridade na família e nas demais instituições. Estas formas de
abandono, discriminação e opressão incluem a violência física e psíquica, tais como as sevícias
ou o abandono, mas também a exploração econômica e social (CANOTILHO; MOREIRA,
2007, p. 870).Neste n.º 2 encontra-se assim delimitadas três situações de perigo para as crian-

3  Cfr. o artigo 69.º, n.º 2, da CRP de 1976.


4  Cfr. o artigo 1878.º, n.º 2 do Código Civil.

194
ças, a saber: a orfandade, o abandono e a privação de um ambiente familiar normal, mas no
âmbito normativo deste preceito poderão entrar outras situações, como a violência doméstica,
as atividades ou trabalhos excessivos ou inadequados à idade da criança, os comportamentos e
atividades gravemente lesivas da sua saúde, segurança, formação, educação ou desenvolvimen-
to, conferindo-se à criança especial proteção contra o exercício abusivo da autoridade na família
(CANOTILHO; VITAL MOREIRA, 2007, p. 871).
Finalmente, no domínio dos Direitos, Liberdades e Garantias, encontramos nos artigos
24.º a 27.º o reconhecimento, respetivamente, dos direitos fundamentais à vida, à integridade
pessoal, à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cida-
dania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e
familiar e à proteção legal contra quaisquer formas de discriminação, à liberdade e à segurança.
Todos estes direitos poderão resultar ameaçados ou violados, nos casos de violência doméstica.
É no âmbito deste enquadramento constitucional que terá que perspetivar-se a inter-
venção estatal no contexto da violência doméstica. Caberá ao Estado tomar posição quanto ao
conflito de valores aqui subjacente: a privacidade e o direito à diversidade das famílias – a não-
-ingerência – por um lado, e a tutela dos direitos fundamentais de cada membro da família – os
cônjuges e as crianças, por outro.

4 O CONFLITO DE VALORES

A intervenção do Estado na violência doméstica constitui o maior dos desafios, ao


introduzir-se naquela que é por todos considerada como a mais privada das esferas. Ao Estado
impõe-se a proteção social, econômica e jurídica da família, mas também a promoção do res-
peito pelos direitos fundamentais de cada um dos seus membros (ROCA, 1999, p. 80). “Todas as
medidas pressupõem um envolvimento do Estado, assumindo a função de proteção das vítimas
(...) uma vez que neste tipo de crimes está em causa, em regra, a proteção de vítimas que estão
especialmente desprotegidas face aos seus agressores.” (SILVA, 2011, p. 305).
Desconstruindo o dilema em face do qual se encontra o Estado, reconheça-se a família
como unidade fundamental natural da sociedade, ambiente natural para o crescimento e bem-
-estar de todos os seus membros, particularmente das crianças. À família cabe o papel principal
como garante da segurança física e emocional dos seus membros, num ambiente marcado pela
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

privacidade e pela autonomia, valores prezados em todas as sociedades e reconhecidos pelos


instrumentos internacionais. Mas afirme-se, ao mesmo tempo, que o direito de cada um dos
membrosda família à vida, à sobrevivência, ao desenvolvimento, à dignidade e à integridade
física não podem ficar à porta da casa de morada da família.“O momento regulativo encara hoje
dilemas de enorme importância e difícil discernimento: dimensão comunitária e respeito pelos
direitos individuais; (…) enquadramento institucional e autonomia privada, respeito pela auto-
-regulação e orientação das condutas.” (XAVIER, 2008, p. 17).
Do ponto de vista jurídico-constitucional, estão em jogo, em grande medida, os direi-

195
tos que fazem parte da tutela geral da personalidade, consagrada no artigo 26º da CRP. Esta
tutela constitui uma expressão direta do postulado básico da dignidade humana (MIRANDA;
MEDEIROS, 2010, p. 613).
Nela se inclui o direito à própria formação da personalidade, que abarca o direito ao
desenvolvimento de todas as potencialidades e capacidades, assumindo particular importância
quando estão em causa crianças ou jovens ainda em formação da sua personalidade (MIRAN-
DA; MEDEIROS, 2010, p. 614). Por outro lado, no âmbito desta tutela geral da personalidade,
encontramos também presente o direito à reserva da intimidade da vida privada e familiar (MI-
RANDA; MEDEIROS, 2010, p. 620). Este direito não é um direito ilimitável. Ao contrário, em
matéria de colisão de direitos fundamentais, é daqueles direitos que apresenta um maior índice
de conflitualidade possível de antecipar (MIRANDA; MEDEIROS, 2010, p. 624).
O Estado encontra-se perante um dilema, que se poderia representar pela imagem de
uma balança cujos pratos buscam incessantemente o equilíbrio. Se por um lado, a intervenção
do Estado é imposta, como forma de garantir o respeito pelos mais elementares direitos dos
membros individuais da família, ou a reintegração destes direitos, por vezes grosseiramente
violados, por outro lado, não poderemos deixar de perceber que tal intervenção se faz no seio da
família, a quem é reconhecida liberdade, autonomia e reserva da vida privada. Mas o princípio
da não-ingerência nos assuntos privados não pode ser invocado para impedir a luta contra a
violência doméstica5.
Mas esta intervenção do Estado só será admissível se lograr obter um justo equilíbrio
entre os dois pratos da balança. No que concerne àviolência parental, por exemplo, nem mesmo
a Convenção dos Direitos da Criança (CDC) nos sugere critérios infalíveis de decisão, que per-
mitam assegurar uma justa composição entre os interesses em presença, tais como o direito dos
filhos a estar e conviver com os seus progenitores e o direito a serem protegidos contra os maus
tratos. Torna-se, por isso, indispensável realizar a avaliação dos diferentes interesses em crise,
no caso concreto (HAMMARBERGcitado por CLEMENTE, 2009, p. 51). Esta dicotomia torna
delicada, mas ao mesmo tempo, mais aliciante, a definição de estratégias de intervenção. A con-
secução do objetivo de equilíbrio entre este conjunto de valores fundamentais constitui o maior
desafio que ao Estado se coloca no plano da intervenção no contexto da violência doméstica.

4.1 O caso particular da violência parental: limites imanentes e abuso institucional do


FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

direito (?)

Os direitos, liberdades e garantias não são absolutos nem ilimitados, visto que a co-
munidade liga os direitos a uma ideia de responsabilidade social e integra-os no conjunto dos
valores comunitários (ANDRADE, 2012, p. 263). Todos os direitos fundamentais têm limites,
que consistem essencialmente num conflito prático entre valores, entre os valores próprios dos
direitos, ou entre esses e outros valores comunitários, no contexto do sistema constitucional

5  Cfr. a Resolução n.º 55/99, do Conselho de Ministros, de 15 de junho.

196
(ANDRADE, 2012, p. 264).
A solução para o conflito enunciado no ponto precedente, no caso da violência paren-
tal, entre o direito à reserva da intimidade da vida privada, ao direito dos pais à educação e
manutenção dos filhos e sua inseparabilidade, consagrados nos artigos 26.º e 36.º, n.ºs 5 e 6, da
CRP, por um lado, e a garantia dos direitos fundamentais da criança, por outro, poderá obter-se
através do reconhecimento de limites imanentes ou intrínsecos a estes direitos, ou mesmo pela
constatação de verdadeiras colisões de direitos, carecidas de uma resolução particular, atinente
aos dados do caso concreto.
A doutrina utiliza a expressão limites imanentes para designar os contornos de con-
sagração constitucional de um direito consagrado na Constituição. “A expressão não é, porém,
inteiramente feliz, mormente quando ela é utilizada no sentido de limites máximos de conteúdo
ou de limites do objeto, pois deste modo não se expressa claramente que o designado limite
imanente está fora da proteção constitucional.” (VAZ, 1996, p. 316).
Os limites imanentes constituem restrições constitucionais, expressas ou implícitas, ao
conteúdo “natural” do direito (VAZ, 1996, p. 317). Estamos à procura do conteúdo protegido por
cada preceito, uma vez que a Constituição não dá cobertura a todas as situações, formas ou mo-
dos de exercício pensáveis para cada um dos direitos. Pode-se encontrar limites expressamente
formulados no texto constitucional, no próprio preceito, ou em outros preceitos constitucionais,
ou, noutros casos, essas limitações só são determináveis por via interpretativa. Em qualquer
destas hipóteses, o direito não existe enquanto dimensão constitucional protegida, pelo que
não se chega a levantar o problema da restrição legal, ou de colisão de direitos. Concretamen-
te a respeito da violência parental, Vieira De Andrade (2012, p. 273) questiona: “Fará sentido
invocar o direito de educar os filhos para os espancar violentamente?” Para logo concluir que,
neste, como em muitos outros casos, não estamos propriamente numa situação de conflito en-
tre o direito invocado e outros direitos ou valores, mas é o próprio preceito constitucional que
não protege essas formas de exercício do direito fundamental. Assim, deveremos entender que
a reserva da vida privada e os outros direitos constitucionais conflituantes apenas têm um de-
terminado âmbito de proteção constitucional, havendo, pois, esferas de ação no exercício deste
direito que se encontram a descoberto desta proteção6. A unidade valorativa da Constituição
coloca-as fora da proteção constitucional ou é mesmo contrária a essa unidade valorativa. “A
Constituição confere uma unidade de sentido, de valor e de concordância prática ao sistema de
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

direitos fundamentais. E ela repousa na dignidade da pessoa humana, ou seja, na conceção que
faz da pessoa fundamento e fim da sociedade e do Estado” (MIRANDA, 2012, p. 219).
No Direito Internacional encontramos disposições que afloram este conceito: o artigo

6  Vide, a este respeito VIEIRA DE ANDRADE(2012, p. 267), que sustenta a admissibilidade de uma interpretação das normas consti-
tucionais que permita restringir à partida o âmbito de proteção da norma que prevê o direito fundamental, excluindo os conteúdos que
possam considerar-se in limineconstitucionalmente inadmissíveis. O direito pessoal à reserva da intimidade da vida privada e familiar,
constitucionalmente protegido pelo artigo 26.º, n.º 1 da CRP, não comporta todas as configurações imagináveis de exercício desse direi-
to. Torna-se aqui necessário proceder a uma interpretação restritiva, em abstrato, da norma constitucional que prevê este direito, que se
justifica como forma de assegurar plenamente o núcleo essencial de outros direitos fundamentais em presença.

197
30.º da DUDH determina que “Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpre-
tada de maneira a envolver para qualquer Estado, agrupamento ou indivíduo o direito de se en-
tregar a alguma atividade ou de praticar algum ato destinado a destruir os direitos e liberdades
aqui enunciados.”. Em sentido quase coincidente encontramos o artigo 17.º da CEDH e o artigo
54.º da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia.
No plano infraconstitucional, no Direito Civil, encontramos consagrado o instituto
do abuso do direito7, que talvez nem necessitasse de prescrição positiva, porquanto se trata de
um princípio normativo (NEVES citado por ABREU, 2006, p. 49). “O instituto do abuso do
direito representa o controlo institucional da ordem jurídica quanto ao exercício dos direitos
subjetivos privados, garantindo a autenticidade das suas funções”(HÖRSTER, 1992, p. 281).
Resulta evidente que a ordem jurídica implica a delimitação de poderes, podendo, nessa medi-
da, afirmar-se que todos os direitos são relativos, porque circunscritos por necessários limites
legais, a fim de que os vários poderes possam coexistir (ABREU, 2006, p. 39). Por essa razão,
no plano infraconstitucional, aintervenção legislativa estatal tanto poderá traduzir-se numa ati-
vidade concretizadora, isto é, uma tarefa de interpretação dos limites imanentes do direito fun-
damental impressos no preceito constitucional, nada acrescentando, ou retirando ao conteúdo
constitucional, como numa atividade restritiva, desta feita, apenas se estiver protegida aquela
dimensão constitucional do exercício do direito(VAZ, 1996,p. 313, 317).
Os direitos familiares pessoais característicos da relação jurídica paterno-materno fi-
lial são poderes individuais que correm o risco de ser objeto de um exercício abusivo. Quem
age em abuso do direito invoca um poder que aparentemente lhe pertence, mas que não tem
fundamento material. “Há abuso de direito quando um comportamento, aparentando ser exer-
cício de um direito, se traduz na não realização de interesses pessoais de que esse direito é
instrumento e na negação de interesses sensíveis de outrem.” (neste caso, os interesses do filho)
(ABREU, 2009, p. 43). Por comportamento entender-se-á tanto uma ação como uma omissão.
Hörster (1992, p. 283) distingue entre o abuso institucional e o abuso individual. Quando o pai
ou a mãe invocam o seu direito de educação para, por hipótese, aplicar regularmente castigos
corporais ao filho, por força do artigo 1878.º do Código Civil, a questão coloca-se no plano do
abuso institucional. O direito é, neste caso, invocado para fins que estão fora dos objetivos para
os quais ele foi atribuído pela norma. A norma não confere este direito com o conteúdo invoca-
do. Encontra-se, em rigor, perante o exercício de um direito apenas aparente, mas não existente
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

na realidade (HÖRSTER,1992, p. 283).É caraterística desta forma de abuso, a contradição com


os princípios fundamentais da ordem jurídica, ou a desvirtuação da função, ou dos objetivos de
um dado instituto jurídico – no caso, o das responsabilidades parentais.
Para a maioria da doutrina, contudo, os direitos abrangidos no conteúdo das responsa-
bilidades parentais não encaixam perfeitamente na categoria dos direitos subjetivos em sentido

7  Cfr. o artigo 334.º do Código Civil: “É ilegítimo o exercício de um direito, quando o titular exceda manifestamente os limites impostos
pela boa-fé, pelos bons costumes ou pelo fim social ou económico desse direito”.

198
estrito, tratando-se antes de direitos de estrutura complexa que, do ponto de vista do seu conteú-
do, apresentam uma natureza específica, que comporta direitos e deveres (HÖRSTER, 1992, p.
256-257). Leite De Campos (1997, p. 139), reforça este entendimento: “o titular do poder não o
exerce no seu interesse, mas antes (“também”) no interesse do sujeito passivo.” O seu exercício
não é inteiramente livre, mas controlado pela ordem jurídica, tendo em conta as funções a que
de destina. Por essa razão, a tese da invocabilidade do instituto do abuso do direito consagrado
no artigo 334.º do Código Civil ao exercício das responsabilidades parentais não é pacífica na
doutrina.
Ao invés, só é admitida por aqueles autores que as classificam como direitos subjetivos
stricto sensu(em sentido estrito). Recorde-se aqui a posição defendida por Jorge Miranda(2006,
p. 28-29), segundo a qual, os limites a impor ao exercício das responsabilidades parentais expli-
cam-se pela categoria geral que pode aplicar-se a quaisquer direitos subjetivos – a noção de abu-
so de direito. O autor acolhe a ideia de que todo o direito é conferido para desempenho de uma
função, razão que motiva a sua adesão ao conceito de abuso do direito para as hipóteses em que
os pais, em vez de educarem, pervertem ou deixam perverter a função em razão da qual esse
direito foi concedido – a formação da personalidade do filho e o desenvolvimento da sua própria
personalidade; então, cessarão as razões porque lhes foi reservado o correspondente poder.
Em sentido inverso, Meneses Cordeiro (2011, p. 242), ao deter-se sobre a interpretação
a conferir aos diversos segmentos da norma prevista no artigo 334.º do Código Civil, pronun-
cia-se sobre o entendimento a retirar da locução “fim social ou económico do direito”. Referin-
do-se em detalhe às diversas teorias do abuso do direito(2011, p. 351 e seg.), o autor recusa que
nas teorias funcionais se possa encontrar a chave do abuso. Os direitos podem ser concedidos
com uma certa função – são direitos ou poderes funcionais ou direitos-deveres, mas, quando
tal suceda, as normas em jogo devem ser respeitadas sob pena de ilicitude, não havendo lugar a
abuso – os valores sociais devem ser defendidos, mas com clareza e em face de normas a tanto
dirigidas; não há aqui planos para o abuso (CORDEIRO, 2011, p. 354-355).
Há ainda autores que aproximam os poderes-deveres ou poderes funcionais dos pode-
res discricionários das autoridades administrativas. A liberdade de que goza o titular destes po-
deres-deveres – no caso, as responsabilidades parentais – seria idêntica àquela de que disfrutam
os órgãos da Administração quando, no uso da discricionariedade, escolhem o se, o como ou
o quando da atuação em concreto do interesse público. Falar-se-ia a este respeito de desvio de
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

poder e não de abuso do direito (ABREU, 2006,p. 81). Mas Coutinho De Abreu (2006,p. 82-83)
acaba por concluir que estar-se aqui perante direitos subjetivos, na medida em que podemos ain-
da falar de uma livre disposição, muito embora resulte inegável a menor liberdade de atuação
nos poderes funcionais, do que nos típicos direitos subjetivos. A despeito destas afirmações, re-
cusada a aplicabilidade a estas hipóteses do desvio de poder, o autor acaba também por concluir
pela inaplicabilidade do abuso do direito, ao considerar que, em consonância com a intensidade
dos laços afetivos materno-paterno filiais, são proibidos aos pais determinados comportamen-
tos, podendo decretar-se a inibição do exercício das responsabilidades parentais, quando esses

199
poderes-deveres não possam, ou não sejam, devidamente exercidos – por essa razão, Coutinho
De Abreu(2006,p. 84) rejeita a aplicabilidade da cláusula geral do abuso do direito a este nível
das relações entre o titular do poder funcional e do beneficiário deste, enquanto Castro Mendes
(1979, p. 117) refere explicitamente o abuso do direito a propósito do n.º 2 do artigo 69.º da CRP,
relativo ao exercício abusivo da autoridade na família.
Por fim, ainda será pensável a verificação de uma colisão ou conflito de direitos, em
sentido estrito, quando se puder entender que a Constituição protege simultaneamente os dois
valores ou bens, em contradição numa determinada situação concreta (real ou hipotética) (AN-
DRADE, 2012, p. 299). Quando as dimensões dos dois direitos são constitucionalmente prote-
gidas, o aplicador do Direito tem que conferir a ambas proteção jurídica.
No domínio das relações paterno-materno filiais, Vieira De Andrade (2012, p. 299)
interroga-se se deverá punir-se por homicídio um pai que, por convicção religiosa, não permita
a realização de uma transfusão de sangue a um filho menor, indispensável à sua sobrevivência.
“Até que ponto podem os pais dispor da maneira de viver dos filhos?” A solução dos conflitos
e colisões entre direitos, liberdades e garantias não pode ser resolvida sistematicamente através
de uma preferência abstrata, com o mero recurso à ideia de uma ordem hierárquica dos valores
constitucionais.
Nas situações de verdadeiros conflitos de direitos, ou seja, na ausência de disposição
legislativa que o preveja e dirima, antecipadamente, lançar-se-á mão, de acordo com a doutrina
constitucional, do princípio da harmonização ou da concordância prática, procurando que o
conteúdo essencial dos direitos em conflito nunca seja afetado e pugnando pela realização má-
xima de cada um desses direitos. Vieira De Andrade (2012, p. 299-300) propõe para estas hipó-
teses de conflitos de direitos a atinência a três fatores, ponderando, num juízo global, em função
de cada um deles, todas as circunstâncias relevantes no caso concreto. Deverá atender-se ao
âmbito e graduação do conteúdo dos preceitos constitucionais em conflito, à natureza do caso,
apreciando o tipo, o conteúdo, a forma e as demais circunstâncias objetivas do facto conflitual;
e finalmente, a condição e o comportamento das pessoas envolvidas, que podem ditar soluções
diferenciadas.
No contexto da intervenção do Estado na violência parental, o problema prende-se
muito mais com a delimitação de limites imanentes e, logo, pelo preenchimento do conteúdo
constitucionalmente protegido do direito, ou princípio fundamental em causa, do que com o
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

conflito de direitos, uma vez que, da exposição precedente, resulta que os princípios constitucio-
nais de Direito da Família e os direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição aos pais
não comportam um conteúdo protegido, ou formas de exercício tais, que coloquem em causa os
direitos constitucionalmente reconhecidos à criança. Hipóteses de genuíno conflito de direitos,
a solucionar em face do caso concreto, à luz dos critérios propostos por Vieira De Andrade, são
pouco frequentes.

200
5 FUNDAMENTO DA INTERVENÇÃO: A INTERVENÇÃO DO ESTADO
COMO EXCEÇÃO AO PRINCÍPIO DA NÃO-INGERÊNCIA - REQUISITOS DE
ADMISSIBILIDADE ESPECIFICAMENTE EM SITUAÇÕES DE VIOLÊNCIA
PARENTAL

O fundamento para a intervenção estatal no contexto da violência doméstica resulta


do disposto em instrumentos internacionais, entre os quais a CEDH. O seu artigo 3.º, sobre a
proibição da tortura, impõe ao Estado obrigações substantivas: uma negativa, de não aplicar a
tortura, ou os tratamentos desumanos, ou degradantes; outra positiva, de proteger contra os atos
que violam a integridade física, mesmo quando infligidos por particulares (ALVES, 2008,p. 30).
A vida privada entra em jogo, quando está em causa a integridade física e moral das pessoas – a
intervenção judiciária e administrativa acontece, obviamente, em contextos de crise e conflito
(XAVIER, 2008, p. 18).
A intervenção estatal encontra também fundamento em diversos preceitos constitucio-
nais, sistematicamente distintos. O legislador constitucional consagrou, no artigo 9.º, na defini-
ção dos Princípios Fundamentais, como tarefa fundamental do Estado, a garantia dos direitos e
liberdades fundamentais – existe uma vinculação positiva do Estado aos direitos fundamentais,
incluindo direitos, liberdades e garantias, daí decorrendo o dever de proteger o interesse dos
membros da família e, em última análise, o dever de proteger a sua vida, a sua integridade
pessoal, o desenvolvimento da sua personalidade e outros direitos fundamentais (MIRANDA;
MEDEIROS, 2010, p. 1381). A violência doméstica constitui um atentado dos direitos fun-
damentais dassuas vítimas. Do artigo 12.º, constante do capítulo concernente aos Princípios
Gerais, decorre o princípio da Universalidade, que determina que todos os cidadãos gozam
dos direitos consignados na Constituição, proclamando o artigo 13.º a mesma dignidade social
e a igualdade de todos os cidadãos perante a lei. A base constitucional do princípio da igualda-
de é a igual dignidade de todos os cidadãos, traduzindo-se num corolário da igual dignidade
humana de todas as pessoas, significando que todos os cidadãos têm idêntica validade cívica,
independentemente da sua inserção económica, social, cultural e política, proibindo formas de
tratamento discriminatórias (CANOTILHO; MOREIRA, 2007, p. 338 e seg).
Mas o princípio da igualdade é compatível e até impõe a diferenciação, como forma
de compensar a desigualdade de oportunidades, o que pressupõe a eliminação, pelos poderes
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

públicos, de desigualdades fácticas de natureza social, econômica e cultural. Proíbe, em sínte-


se, os privilégios no gozo de qualquer direito, ou na isenção de qualquer dever, mas também
a proibição de prejuízo na privação de qualquer direito ou na imposição de qualquer dever. A
obrigação de diferenciação – sustentam estes autores – deriva da função social do princípio da
igualdade, que pressupõe o dever de eliminar ou atenuar as desigualdades sociais, econômicas
e culturais, a fim de se assegurar a igualdade material. Nesse sentido se devem interpretar
normas como as constantes do artigo 69.º, n.º 2, por exemplo, que consagram, neste caso, uma
discriminação positiva, imposta constitucionalmente e que, a não existir, fundamentaria uma

201
inconstitucionalidade por omissão.
A acentuação da privacidade das relações familiares expôs as fragilidades das famí-
lias e recordou a importância da intervenção do Estado, no sentido da proteção dos mais vul-
neráveis. Mas esta intervenção deve reger-se pelo princípio da subsidiariedade. dirigindo-se,
sobretudo, à promoção e à proteção dos direitos destas pessoas mais frágeis. Esta intervenção
estatal deve traduzir-se numa atividade de regulação e fiscalização, mas também de promoção
e facilitação das funções próprias das famílias (RITA LOBO XAVIER, 2010, p. 368).
A intervenção do Estado na família e, particularmente, no problema da violência do-
méstica, deve reger-se por dois princípios fundamentais: a subsidiariedade da intervenção e
a cooperação do Estado com a família. Assim, os problemas derivados das fragilidades das
famílias e das ruturas familiares devem ser encarados nas suas causas e as soluções para os
mesmos devem procurar-se, através de ações que visem regular e prevenir a desagregação fa-
miliar (XAVIER, 2010, p. 370).
O artigo 8.º da CEDH consagra, como vimos, o direito ao respeito pela vida privada e
familiar, estabelecendo o princípio da não-ingerência da autoridade pública no exercício deste
direito, senão quando esta ingerência estiver prevista na lei e constituir uma providência que
seja necessária para a proteção da saúde, ou da moral, ou para a proteção dos direitos e das
liberdades de terceiros. Do n.º 2 do artigo 8.º da CEDH decorre a afirmação do princípio da
proporcionalidade – as medidas excecionais aí previstas têm que ser proporcionais.
Por sua vez, o artigo 18.º, n.º 1, da CRP proclama que “Os preceitos constitucionais
respeitantes aos direitos, liberdades e garantias são diretamente aplicáveis e vinculam entidades
públicas e privadas”. Sendo entidades públicas, “desde logo, os poderes públicos: o legislador, o
governo/administração, e os Tribunais” (CANOTILHO, 2000, p. 437). Detendo-se mais concre-
tamente sobre a figura do legislador, a vinculação deste assume uma importante dimensão po-
sitiva, que se traduz no dever de o legislador conformar “as relações da vida, as relações entre o
Estado e os cidadãos e as relações entre os indivíduos, segundo as medidas e diretivas materiais
consubstanciadas nas normas garantidoras de direitos, liberdades e garantias. Neste sentido, o
legislador deve “realizar” os direitos, liberdades e garantias, otimizando a sua normatividade e
atualidade.” (CANOTILHO, 2000, p. 438). Dito de outra forma, no domínio concreto da violên-
cia doméstica, incumbe ao legislador adotar as medidas legislativas que tiver por convenientes,
para assegurar a plena realização dos direitos, liberdades e garantias dos membros da família:
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

“Porque ao falar-se de violência doméstica é a dignidade do ser humano que é posta em causa de
forma intensa e, frequentemente, de um modo dramático, cabe ao Estado, em constante articu-
lação com as respostas, válidas mas insuficientes, que têm sido dadas pela sociedade civil, um
papel fundamental na sua identificação, prevenção e combate.” (LOURENÇO; CARVALHO,
2001, p. 101).
O n.º 2 do artigo 18.º da Constituição determina que: “a lei só pode restringir os direitos,
liberdades e garantias nos casos expressamente previstos na Constituição, devendo as restrições
limitar-se ao necessário para salvaguardar outros direitos ou interesses constitucionalmente

202
protegidos”. Toda a intervenção estatal no domínio da salvaguarda dos direitos fundamentais
das vítimas de violência doméstica, terá que reger-se pelo princípio da proporcionalidade, es-
pelhado em critérios de indispensabilidade, adequação e proporcionalidade em sentido estrito.
O princípio da proporcionalidade, também denominado princípio da proibição do ex-
cesso, desdobra-se em três subprincípios: princípio da adequação ou idoneidade; princípio da
necessidade, exigibilidade ou indispensabilidade e princípio da racionalidade ou proporcio-
nalidade em sentido estrito (CANOTILHO; MOREIRA, 2007, p. 392-393)(MIRANDA, 2012,
p. 308-309).
Pressuposta a legitimidade do fim consignado na norma, a idoneidade ou adequação
traduz-se na existência de um meio adequado à sua prossecução. Perante um bem juridicamente
protegido, a intervenção ou a providência a adotar, seja ela legislativa, ou de outra índole, deve
constituir um meio adequado à prossecução dos fins visados pela lei, que serão, à partida, a
salvaguarda de outros direitos ou bens constitucionalmente protegidos.
Colocada a questão em relação à violência parental, o princípio da proporcionalidade,
nesta vertente, só estará respeitado se a intervenção estatal proposta no caso permitir satisfazer
adequadamente as necessidades de proteção dos direitos fundamentais da criança, violados ou
colocados em risco. De destacar que, a par de violações do princípio por excesso de proteção,
poderão também verificar-se violações por defeito, isto é, derivadas do incumprimento, por par-
te do Estado, de deveres de proteção relativos ao exercício dos direitos fundamentais. Constitui-
rá intervenção violadora do princípio da proporcionalidade, por hipótese, aquela intervenção do
Estado que se traduza no afastamento do filho dos progenitores, após a constatação da inflição
esporádica de castigos corporais de pouca gravidade, sem a prévia tentativa de colaboração com
os pais, no sentido da sua reeducação para a parentalidade, como a não intervenção do Estado,
perante a sinalização de uma situação de maus tratos físicos, ou psicológicos, de gravidade
apreciável, de que venha a decorrer dano para o desenvolvimento da criança.
A necessidade do meio, ou se preferirmos, a exigibilidade ou indispensabilidade, tradu-
z-se na imposição para o Estado de, perante várias soluções em abstrato aplicáveis ao problema
versado, se decidir pela adoção daquela que melhor satisfizer, em concreto, a realização do fim a
atingir, seja por força dos menores custos, ou eventualmente dos maiores benefícios, que aquela
solução possa representar – as medidas devem ser necessárias8, porque os fins visados pela lei
não podiam ser obtidos por outros meios menos onerosos para os direitos, liberdades e garantias.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

Finalmente, no que concerne à racionalidade, ou proporcionalidade em sentido es-


trito, pretende com isto significar-se que os meios legais restritivos e os fins obtidos devem
situar-se numa “justa medida”, impedindo-se a utilização de medidas desproporcionadas, ou
excessivas, em relação aos fins obtidos (CANOTILHO; MOREIRA, 2007, p. 392-393). Implica
que o órgão em causa proceda a uma correta avaliação da providência em termos quantitativos,
de maneira a que ela não fique além, ou aquém do necessário, para se alcançar o resultado al-

8  A noção de necessidade implica a proporcionalidade da ingerência relativamente ao fim visado (ALVES, 2008, p. 215).

203
mejado (MIRANDA, 2012, p. 308).
A intervenção do Estado deverá ser excecional e conformar-se pelos princípios da
necessidade e da proporcionalidade. Mas incumbe ao Estado o direito – e o dever – de intervir,
quando o gozo, ou o exercício de direitos cívicos, sociais, econômicos, ou culturais, de que cada
membro da família é titular, são ameaçados por fatores que lhe são exteriores, como a incúria,
a exclusão social, o abandono, ou os maus tratos (RODRIGUES, 2003, p. 8). No conflito de in-
teresses pais-filhos, prevalecerá o interesse dos filhos (ALVES, 2008, p. 203). No ordenamento
jurídico português, esta afirmação terá que ser entendida cum grano salis (como um grão de
sal), uma vez que a prevalência do superior interesse da criança terá que ser sempre interpretada
em consonância com as regras constitucionalmente vigentes para a resolução de conflitos de
direitos, que não estabelecem prevalência absoluta de nenhum direito fundamental em relação
aos demais.
O artigo 8.º da CEDH impõe às autoridades nacionais o estabelecimento de um justo
equilíbrio entre os interesses da criança e os interesses dos pais e a atribuição de particular re-
levância ao superior interesse dacriança que, de acordo com a natureza e a gravidade do caso,
poderá justificar a prevalência sobre o interesse dos pais (ALVES, 2008, p. 203). Por essa razão,
muito embora se reconheça a importância da convivência em família de pais e filhos, o artigo 8.º
não autoriza, por exemplo, a pretensão do progenitor a que sejam tomadas medidas prejudiciais
à saúde, ou ao desenvolvimento da criança.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em fase do que supra de escreveu, será forçoso concluir-se que a intervenção do Esta-
do no domínio da violência doméstica se encontra internacional e constitucionalmente imposta,
desde que contida dentro dos limites definidos pelos artigos 8.º, n.º 2, da CEDH, e 18.º, n.º 2 da
CRP, designadamente, para a proteção da vida, da integridade física e psíquica, da identidade
pessoal, do livre desenvolvimento da personalidade dos membros da família e do seu desenvol-
vimento integral como pessoa.
É pacífica, na atualidade, a aceitação da necessidade de intervenção do Estado na
família, mas não se confunda intervenção, com intromissão. Numa perspetiva da prática con-
creta, a intervenção é por vezes objeto de “tibieza, de bloqueios e de confusão de conceitos que
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

não são confundíveis: intervenção, que implica a capacidade de decisão oportuna; e invasão, de
que resulta uma intromissão sem decisão oportuna, inútil” (FONSECA 2002, p. 9).
É um direito dos cidadãos que o Estado intervenha, sempre que a segurança, a saúde,
a formação, o desenvolvimento físico, psíquico e emocional, o bem-estar, de um membro da
família estejam em perigo. E nessa perspetiva, a intervenção só deverá verificar-se, quando for
necessária para defender e assegurar os direitos fundamentais constitucionalmente protegidos
e deverá ser feita de harmonia com os princípios orientadores decorrentes da Constituição e da
Lei.

204
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FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

CONFLICT OF VALUES AND THE STATE INTERVENTION EXPLANATION IN


THE CONTEXT OF DOMESTIC VIOLENCE IN PORTUGAL

ABSTRACT
Domestic violence is a serious social problem nowadays. The present
work intends to reflect on the State intervention legitimacy, in the con-
jugal and parental violence context, under the light of the current leg-

206
islation inPortuguese legal system, from the affirmation of the nonin-
terference in the family fundamental principle, for the recognition of
safeguarding the inalienable fundamental rights of each member neces-
sity. State intervention is constitutionally imposed, but delimited by the
principles of subsidiarity and proportionality.
Keywords: Domestic violence. State Intervention. Immanent bounda-
ries. Proportionality.

FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

207
Recebido 21/07/2017
Aceito 30/10/2017

O PAPEL DO DIREITO NO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SUA RELAÇÃO


COM A ECONOMIA POLÍTICA

Rogério Cesar Marques1

RESUMO
A discussão sobre o papel do Direito e a economia política no desen-
volvimento econômico é complexa, remetendo à problemática de defi-
nição de desenvolvimento e instituição. As instituições são essenciais
ao desenvolvimento, se impregnando na sociedade por meio do Direito.
O próprio ordenamento jurídico é uma instituição, sendo a mais im-
portante delas uma vez que cria, modifica e extingue outros arranjos
institucionais. A economia política auxilia neste estudo, facilitando o
entendimento das instituições existentes na sociedade em um determi-
nado contexto histórico. É importante em razão da influência que exer-
ce na seara jurídica e nas instituições, sendo um princípio estruturante
do Direito.
PALAVRAS-CHAVE: Desenvolvimento. Direito. Instituições. Eco-
nomia. Sociedade.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

1 INTRODUÇÃO

Uma questão importante no panorama da América Latina diz respeito ao desenvolvi-


mento econômico, seu conceito e como este deve ser alcançado. Isso porque deve-se estabele-

1  Graduado em Direito pela Universidade de São Paulo – USP em 2009. Pós Graduado em Direito Empresarial, com ênfase em Planeja-
mento Tributário pela Fundação Getúlio Vargas – GV Law em 2011. Mestre em Direito Econômico, com ênfase em Tributação e Desen-
volvimento Econômico pela Universidade de São Paulo – USP em 2017. Advogado Tributarista em São Paulo, no escritório Gasparini,
De Cresci e Nogueira Lima Advogados.

208
cer, desde logo, a premissa de que o desenvolvimento somente pode ser alcançado se houver a
disponibilização de instituições para toda a sociedade, sendo papel do Direito criar instrumen-
tos que possibilitem esta disponibilidade. Surge, assim, a necessidade de se estudar qual o papel
do ordenamento jurídico no desenvolvimento e a sua relação com a economia política. Para tal,
deve-se analisar o conceito de arranjos institucionais e sua função dentro do desenvolvimento,
uma vez que o próprio Direito é uma instituição.
Essa discussão envolve questões complexas e termos de textura aberta, dificultando a
delimitação de importantes conceitos acerca do assunto. Para auxiliar na presente análise, de-
ve-se socorrer do campo da economia política, o qual, além de possuir importantes reflexos no
Direito e nos arranjos institucionais, facilita a compreensão das instituições e arranjos jurídicos
existentes na sociedade.
Pretende-se analisar até que ponto o ordenamento jurídico é elemento apto a conferir
meios de desenvolvimento ao país, a importância das instituições para tal, bem como a influên-
cia da economia política neste debate. Também serão tecidas considerações acerca do caso do
Brasil, que muito embora tenha conseguido progressos recentes, ainda não conseguiu se livrar
do subdesenvolvimento.
A solução para alterar o referido cenário varia de acordo com as inflexões de economia
política vividas no Brasil, existindo momentos nos quais é defendida maior presença do Estado
na economia, com momentos mais liberais. As alterações de paradigmas criam desafios institu-
cionais em decorrência da necessidade de adaptação ao novo contexto.
Um exemplo é a emergência, no país, do denominado Novo Ativismo Estatal, o qual fez
surgir importantes desafios ao Direito, que terá de repensar os arranjos institucionais existentes
no Brasil, de forma a criar novos e adaptar os existentes para atender essa nova conformação
de economia política.

2 A FUNÇÃO DO DIREITO NO DESENVOLVIMENTO

Ao analisar o campo do Direito e desenvolvimento, um primeiro desafio que surge é


justamente trazer uma definição para desenvolvimento. Tal se deve uma vez tratar-se de uma
questão complexa que não pode ter a sua compreensão apequenada, tratando-o tão somente
como aumento do produto interno bruto de um país ou geração de riquezas.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

De acordo com Fábio Nusdeo (2001, p. 349), desenvolvimento é mais do que o simples
crescimento econômico, envolvendo “uma série infindável de modificações de ordem qualitati-
va e quantitativa de tal maneira a conduzir a uma radical mudança de estrutura na economia e
da própria sociedade do país em questão”.
No mesmo sentido, Amartya Sen (2010, p. 16) amplia o conceito de desenvolvimento,
entendendo-o como algo que “requer que se removam as principais fontes de privação da liber-
dade: pobreza e tirania, carência de oportunidades econômicas e destruição social sistemática,
negligencias dos serviços públicos e intolerância ou interferência de Estados repressivos”.

209
Não obstante, embora o crescimento econômico possa ser considerado meio de se pro-
mover o desenvolvimento, ambos não podem ser confundidos. Para que um Estado se desenvol-
va, são necessárias alterações estruturais na própria sociedade de sorte que haja uma redução
do mal-estar causado pelo subdesenvolvimento, conferindo-se formas para que todos usufruam
dos bens de consumo e tenham suas necessidades básicas saciadas.
Tomando por base o referido conceito de desenvolvimento, cumpre verificar se há
ou não uma relação com o Direito. Kevin Davis e Michael Trebilcock (2008, p. 4-5) identi-
ficam uma corrente teórica que acredita ser possível a utilização dos arranjos jurídicos para
gerar mudanças estruturais, bem como outra, segundo a qual o Direito, ou é incapaz, ou é
dispensável, na determinação de mudanças estruturais na sociedade. Focar-se-á na primeira,
conhecida como corrente otimista, a qual, segundo Kevin Davis e Michael Trebilcock (2008,
p. 5), é majoritária.
Dentro da referida corrente teórica, chama-se atenção para a análise funcional do or-
denamento jurídico, que tenta compreendê-lo de acordo com sua efetiva ação na sociedade.
Deve-se, assim, buscar a criação e manutenção de uma estrutura jurídica organizada, sendo
esta condição necessária para expansão do capitalismo e crescimento econômico, sendo uma
das principais funções do Direito conferir previsibilidade e segurança jurídica ao mercado,
fundamentais para uma ação conjunta das instituições estatais e organizações privadas em prol
do crescimento econômico que, muito embora não seja o desenvolvimento propriamente dito, é
um dos meios pelo qual deve ser alcançado.
No mesmo sentido, Dani Rodrik, Arnind Subramanian e Francesco Trebbi (2002, p.
22), analisando o desenvolvimento de China e Rússia, concluíram que a diferença verificada en-
tre ambos os países relaciona-se à certeza e à segurança dos investidores em relação à proteção
da propriedade, sendo que o Estado chinês é mais bem sucedido na atração de investimentos,
uma vez que a proteção da propriedade é maior na China do que na Rússia. Não obstante este
entendimento dos autores, destaca-se o alerta de Ha-Joon Chang (2006, p. 8) de que a segurança
da propriedade não deve ser um fim em si mesmo, havendo a necessidade de o Direito determi-
nar em quais circunstâncias e condições haverá esta proteção.
Ainda dentro da corrente otimista, Marina Mota Prado (2010, p. 3) identifica duas
teorias: i) direito no desenvolvimento, a qual possui uma visão instrumental do Direito, sendo
este um meio para viabilizar o desenvolvimento, com enfoque no crescimento econômico, quer
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

por meio de intervenção estatal, quer por meio de uma presença mínima do Estado; e, ii) direito
como desenvolvimento, com uma visão finalística do Direito, com o enfoque maior nos avanços
sociais, os quais devem ser garantidos pelos arranjos jurídicos. Prado (2010, p. 19) destaca que
a principal diferença entre ambas é que, enquanto a primeira entende o desenvolvimento mais
relacionado com o crescimento econômico, a segunda se alinha à teoria de Sen (2010), relacio-
nando desenvolvimento como garantia de liberdades individuais.
Ainda de acordo com Prado (2010, p. 6), deve-se identificar interconectividades entre
as correntes teóricas do Direito no desenvolvimento e do Direito como desenvolvimento, afir-

210
mando que não são excludentes, mas que uma serve como meio para outra. Assim, ao mesmo
tempo em que os arranjos jurídicos podem prover as instituições necessárias para garantir os
objetivos alcançados, podem ser concomitantemente um meio para se alcançar outras metas de
desenvolvimentos, sendo ambas funções complementares.
Conforme destacado por Davis e Trebilcock (2008, p. 11-12), outro enfoque da corrente
teórica em análise acerca de Direito e desenvolvimento relaciona-se com o surgimento da Nova
Economia Institucional, que defende a existência, nos países desenvolvidos, de uma relação pró-
xima entre instituições públicas e organizações privadas, no sentido de serem criados estímulos
para a sociedade. Estes estímulos podem ser no sentido de incentivar atividades produtivas,
bem como distribuição dos ganhos, permitindo acesso da população à riqueza gerada, permi-
tindo o desenvolvimento do Estado. Por outro lado, segundo Douglass North (1995, p. 20), os
países do terceiro mundo não seriam desenvolvidos por não terem logrado êxito em construir
instituições que fossem eficientemente voltadas para a criação destes estímulos produtivos.
Prado (2010, p. 14), embora destaque a importância da teoria institucional no campo
do Direito e desenvolvimento, apresenta algumas críticas à referida teoria, dentre as quais: i)
falta de consenso sobre o conceito de instituição; ii) incapacidade de explicar a existência, em
países desenvolvidos, de instituições ruins. Tais críticas não a tornam menos importante, haja
vista que, como apontado por Davis e Trebilcock (2008, p. 60), há um entendimento crescente
no sentido de que existe uma relação entre instituições e desenvolvimento.
Este debate termina remetendo, invariavelmente, à análise do conceito de instituição
e seu papel dentro do desenvolvimento, pois, conforme será abordado, o próprio Direito é um
arranjo institucional. O Direito é responsável por criar e dar efetividade às demais instituições
da sociedade, já que o ordenamento jurídico é um elemento essencial ao desenvolvimento.

3 O ORDENAMENTO JURÍDICO COMO INSTITUIÇÃO CRIADORA DE


ARRANJOS INSTITUCIONAIS

Os debates sobre Direito e desenvolvimento remetem à análise de outra discussão que


é tão, ou mais, complexa e problemática, qual seja, a relação entre o ordenamento jurídico e as
instituições. Tal qual ocorrido em relação ao desenvolvimento, não há uniformidade de entendi-
mentos sobre qual a definição de instituições, sendo que o primeiro desafio corresponde, exata-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

mente, a se estabelecer o seu conceito e se determinar sua relação com o ordenamento jurídico.
Dentro da perspectiva da Nova Economia Institucional, North (1995, p. 23) entende
que “as instituições são limitações comportamentais criadas pela própria sociedade, dentro de
sua estrutura, abrangendo regras formais e restrições informais, bem como os meios de apli-
cação coercitiva de ambos”. Devem ser assim entendidas como as regras do jogo existentes em
determinada sociedade que constrangem o comportamento dos indivíduos, induzindo-os a agir
ou não agir de determinada maneira.
Sob a óptica institucionalista, Geoffrey Hodgson (2006, p. 2) entende que instituições

211
são importantes estruturas da sociedade, responsáveis por disciplinar a vida social, permitindo
ou limitando comportamentos individuais para conferir previsibilidade e estabilidade às ex-
pectativas comportamentais dos indivíduos. Para a teoria de Hodgson, instituições são regras,
incluindo neste conceito as normas jurídicas, normas sociais e organizações.
Destaca-se o fato que, por uma questão de recorde metodológico, optou-se por manter
a objetividade do presente trabalho e não adentrar na crítica que Hodgson (2006) faz à North
(1995) em relação ao conceito deste acerca de instituição, que a diferencia de organização, abar-
cada no entendimento de instituição apresentada por Hodgson (2006). Porém, apenas registra-
-se a existência da referida divergência entre os autores.
Para Hodgson (1998, p. 179-180) “o cerne das instituições são os hábitos, os quais são
o resultado da consolidação de uma conduta usual dos indivíduos, alterada quando há uma
mudança de comportamento”. Ademais, segundo John Harris (2003, p. 347-348), “também de-
vem ser consideradas questões culturais e políticas, uma vez que, por estarem impregnadas no
tecido social, influenciam diretamente no comportamento individual e, consequentemente, nos
arranjos institucionais”.
Verifica-se, assim, que entre instituição e indivíduo há uma relação de retroalimenta-
ção, por meio da qual na medida em que um evolui, influencia mudanças no outro de sorte a
acompanhar esta alteração.
Sob a ótica jurídica, Maurice Hauriou (1925, p. 97-98) conceitua instituições como
formas estáveis de organização da sociedade, correspondendo a fenômenos sociais, impessoais
e coletivos, com elementos de dinamismo e mutabilidade, que se infiltram, por meio do Direito,
no meio social, mas com ele não se confundindo.
Santi Romano (2008, p. 85-86), por sua vez, entende que o Direito é um arranjo ins-
titucional, se enquadrando no conceito por ele apresentado, segundo o qual “instituições são
agências fechadas, existentes em termos concretos e objetivos, constituindo-se como um ele-
mento social detentor de autonomia e separabilidade relativa”. Romano (2008, p. 92-93) traz,
ainda, outro elemento marcante das instituições, que diz respeito à noção de objetivação, a qual
corresponde ao fato de transcenderem, por meio do ordenamento jurídico, às pessoas que as
compõem, sendo independentemente identificáveis.
Portanto, tratam-se as instituições de um fenômeno social, impessoal e coletivo, tendo
o hábito da coletividade como elemento central. É por meio delas que são estabelecidas limi-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

tações aos indivíduos por meio de normas jurídicas e sociais, aplicadas coercitivamente, que
estimulam os indivíduos a agir de determinada maneira. Possuem por função disciplinar a vida
social, permitindo ou restringindo ações individuais para conferir previsibilidade e estabilidade
às expectativas comportamentais da sociedade.
Conforme destacado por Hauriou (1925) e por Romano (2008), as instituições se im-
pregnam no corpo social pelo do Direito, sendo por meio deste que ocorre a sua instituciona-
lização e objetivação, configurando-se, o ordenamento jurídico, um elemento de conservação
e mudanças institucionais. É por meio do Direito que os arranjos institucionais são criados,

212
modificados e extintos, configurando-se como a mais importante instituição social.
Pois bem, conforme estudo de Rodrik, Subramanian e Trebbi (2002, p. 4), no âmbito
do desenvolvimento, as instituições preponderam sobre as demais variáveis por eles identifica-
das, quais sejam, geográfica e de integração do comércio internacional. As instituições exer-
cem, conforme bem apontado por Chang (2006, p. 2), três funções principais, na promoção do
desenvolvimento econômico, sendo elas: i) coordenação e administração; ii) aprendizagem e
inovação; e, iii) distribuição de renda e coesão social.
Cabe ao ordenamento jurídico, segundo Rodrik, Subramanian e Trebbi (2002, p. 21-
22), a construção dos arranjos institucionais específicos, de acordo com as vicissitudes ambien-
tais da sociedade, em atenção ao contexto no qual o Estado está inserido. O referido processo
de criação e adaptação das instituições deve se dar por meio de um complexo processo de arti-
culação e balanceamento das formas das instituições e funções que se esperam destes arranjos.
O enfoque dos referidos autores está em linha com a teoria de Roberto Mangabeira
Unger (1996, p. 19), o qual entende “ser tarefa do Direito auxiliar na imaginação institucional,
mapeando e criticando os arranjos institucionais existentes de sorte a reestruturá-los, se neces-
sário for, conferindo-lhes maior eficiência”.
Verifica-se que, a construção dos arranjos institucionais, bem como a manutenção e
eventual extinção de instituições, é um processo complexo, envolvendo todo contexto no qual a
sociedade está envolvida, abrangendo questões históricas, políticas e culturais. As peculiarida-
des de cada país apareceram no processo de imaginação institucional, sendo importante que os
arranjos institucionais sejam desenhados de acordo com as características intrínsecas de cada
país, em respeito ao contexto no qual a sociedade se faz inserida.
Assim, é importante destacar que o Direito não age sozinho, mas em conjunto com
as conformações de economia política existentes em determinado país, que auxiliam o sistema
jurídico na criação, manutenção, aprimoramento ou extinção de outros arranjos institucionais.

4 INFLUÊNCIA DA ECONOMIA POLÍTICA NA CONFORMAÇÃO DOS


ARRANJOS INSTITUCIONAIS

Na esteira da teoria de Romano (2008) em relação ao seu entendimento de que o Direito


é uma instituição, cumpre analisar a influência da economia política no ordenamento jurídico,
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

refletindo em seu mister de conformar os arranjos institucionais de uma determinada sociedade.


Isto porque o estudo do conceito e evolução da economia política auxilia na verificação de como
o contexto histórico, político e cultural influenciaram nas instituições existentes.
O cerne da questão é a não existência de uma economia pura, sendo esta uma constru-
ção jurídico-institucional, cabendo à economia política, por meio do ordenamento jurídico, criar
limitações à ação política na economia. De acordo com Unger (1996, p. 20), “Direito e economia
política atuam conjuntamente no mister da imaginação institucional”. Dessa forma, o campo
da economia política termina por agregar elementos importantes na análise institucional, tais

213
como: historicidade, distribuição de riquezas, conflito distributivo, democracia, legitimidade e
variabilidade institucional.
Tal empreitada ocorre por meio de análise empírica, realizada segundo as conforma-
ções de economia política vigente, refletindo o contexto no qual a sociedade está inserida. A
partir de tal crítica, por meio do ordenamento jurídico, são formatadas ferramentas para discutir
as condições básicas da vida social, reformando os arranjos institucionais existentes, conferin-
do-lhes maior eficácia, bem como criando ou extinguindo instituições conforme seja necessário.
Para se entender esta relação, cumpre analisar, inicialmente, o conceito de economia
política, o qual parte do pressuposto de que política e economia são indivisíveis, ou seja, as de-
cisões econômicas possuem um viés político, devendo ser analisadas dentro do contexto social.
Este foi a primeiro nome que a ciência econômica teve em sua história, se referindo, nos séculos
XVII e XVIII, à produção, circulação e distribuição de riqueza, não sendo possível dissociar a
economia da política.
A economia política é o campo que busca compreender a realidade econômica em seu
contexto político, social, histórico, geográfico e jurídico. Para Nusdeo (2001, p. 92):

a economia política é o segmento ou a versão didática da ciência econômica com um


enfoque destinado precisamente a fazer a síntese entre análise estrita e aplicação,
entre teoria e prescrições normativas, juntando as partes artificialmente separadas
para efeito de análise, com vistas a apresentar o fenômeno econômico na sua inteireza
e em todas as suas dimensões.

Jonh Reitz (2001, p. 1.123-1.124) entende, corretamente, que a economia política é um


princípio estruturante do Direito, correspondendo ao meio pelo qual o Estado interfere na esfera
individual econômica do indivíduo, variando ao longo do tempo de acordo com o contexto no
qual a sociedade esta inserida. De acordo com Reitz (2001, p. 1.124), os princípios de economia
política são enunciados normativos que refletem os conceitos que predominam dentro dos paí-
ses acerca de qual deve ser a relação adequada entre os indivíduos e o Estado, figurando, assim,
como um importante elemento que modela o Direito de cada país, sendo possível, por meio
de uma análise histórica de suas conformações, entender as vicissitudes de cada ordenamento
jurídico.
Diogo Coutinho e Mario Shapiro (2013, p.1-2) entendem que:
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

a economia política e Direito possuem uma relação de vasos comunicantes no seguinte


sentido: i) a economia política refere-se às opções de organização econômica e o modo
que atenderão as necessidades da população, refletindo na estruturação do Direito e das
instituições; e, ii) o ordenamento jurídico oferece os instrumentos normativos e arranjos
institucionais pelos quais os objetivos da política econômica serão concretizados por
meio de políticas públicas, forjando as ferramentas de intervenção estatal na economia.

Verifica-se que, em qualquer teoria de economia política, o Estado tem papel central,
tanto para se defender uma maior autuação deste na economia, quanto o contrário, sendo a de-

214
cisão de não intervenção também uma decisão estatal.
Ao analisar a questão, Reitz (2001, p. 1.139-1.140) identifica duas correntes filosóficas
que explicam a concepção do papel do Estado na economia: i) a primeira é baseada na filosofia
de Thomas Hobbes, a qual permite uma interpretação mais abrangente da atuação do Estado;
e, ii) a segunda concepção é a que considera a teoria de John Locke, que interpreta o Estado
como um moderador entre os vários grupos sociais, com uma participação menor na economia.
Segundo a teoria de Reitz, quanto mais centrada a economia política no Estado, como
acontece na França e na Alemanha, maior a valorização, pelo Direito, da burocracia estatal,
havendo maior presença do Estado na economia. Por sua vez, quanto mais focada no mercado
for a economia política, como ocorre nos Estados Unidos, maior a valorização do indivíduo em
detrimento da burocracia estatal, com um Estado regulador menos presente na economia.
O que é possível verificar é que Direito e economia política possuem uma intrínseca
relação de influência mútua, retroalimentando-se mutuamente ao longo do tempo, conforme
o ambiente sócio-político da sociedade se altera. A economia política está equidistante entre
o direito, de um lado, e a economia do outro, sendo possível, através de sua análise, entender
questões concernentes ao ordenamento jurídico de um determinado país.
O ordenamento jurídico é a instituição basilar dos demais arranjos institucionais, os
quais foram juridicamente moldados de acordo com as conformidades da economia política.
Dessa forma, é correto o entendimento de que o Direito é o arranjo institucional necessário
a institucionalizar e objetivar os conceitos do capitalismo, que irão servir de força motriz da
economia do país. Porém, ao fazê-lo, não o realiza de forma independente, mas sim dentro dos
contornos e cenários traçados pela economia política, que lhe servem como princípio estrutu-
rante que delimita seus contornos.
De acordo com Diogo Coutinho e Mario Shapiro (2013, p. 3-4), a economia política ad-
mite que o capitalismo é processo histórico, somente podendo ser analisado através do contexto
no qual a sociedade encontra-se inserida. Segundo essa teoria, em cada época há uma ligação
peculiar entre o papel do Estado e instituições jurídicas dentro de um cenário econômico, de
acordo com as variações peculiares de cada momento.
Portanto, deve-se reconhecer que o capitalismo varia de acordo com aspectos ideo-
lógicos referentes ao mercado e ao Estado, bem como relativos aos arranjos institucionais de
cultura, política, economia e Direito. De tal sorte, não há uma economia política homogênea,
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

mas tantas quantas forem os contextos históricos nos quais a sociedade está inserida.
No Brasil, a Constituição de 1988 apresenta diversos dispositivos para regular a ação
estatal na economia, determinando momentos de maior ou menor atuação, bem como elencando
os arranjos institucionais disponíveis para o Estado intervir, direta ou indiretamente, no do-
mínio econômico. Nestas conformações, faz-se presente a economia política, que variaram de
acordo com a evolução do contexto sócio-político da sociedade brasileira.

215
5 O NOVO ATIVISMO ESTATAL DO BRASIL E OS DESAFIOS JURÍDICOS

Assim como em outros países, o Brasil vivenciou momentos históricos desenvolvi-


mentistas alternados com momentos liberais, ou seja, contextos de maior presença do Estado na
economia com de maior distanciamento estatal do mercado, sempre refletindo inflexões de eco-
nomia política. As alterações nestas conformações terminam por criar desafios institucionais,
em decorrência da necessidade de adaptação ao novo contexto.
Para se entender o atual desenho institucional do Brasil e os desafios existentes, de-
ve-se traçar um estudo histórico da evolução da economia política brasileira. Ao analisar a
questão, Coutinho e Shapiro (2013, p. 2) identificam três momentos: i) desenvolvimentismo e o
direito econômico interventor, existente no país principalmente nas décadas de 1960 e 1970; ii)
neoliberalismo moderado e regulacionismo econômico, com seu auge na década de 1990; iii)
novo ativismo estatal e direito econômico seletivo e indutor, designado de Novo Ativismo Esta-
tal, iniciado a partir de 2002, que ganhou força após a crise financeira de 2008.
Coutinho e Shapiro (2013, p. 19) afirmam que o Novo Ativismo Estatal trata-se de uma
configuração de economia política que reúne: i) ativismo estatal indutor e seletivo; ii) modera-
ção na discricionariedade e reforço de mecanismos de legitimidade democrática; e, iii) indução
desenvolvimentista com políticas industriais e de redução da desigualdade.
Acerca deste contexto histórico das conformações de economia política existentes no
Brasil, algumas considerações devem ser feitas. Em primeiro lugar, deve-se notar que, dentro
dos modelos de Reitz (2001, p. 1.139-1.140), o Brasil, mesmo nos momentos de neoliberalismo
moderado, entendendo necessária uma presença maior do Estado na economia, de sorte a pos-
sibilitar o desenvolvimento econômico, conferindo bem-estar geral à população, ou seja, privi-
legiando a ideia de Estado de bem-estar social;
Em segundo lugar, interessante notar algumas características deste Novo Ativismo Es-
tatal. Coutinho, Shapiro e Trubek (2013, p. 12-13) fazem o seguinte destaque acerca do assunto:

o seu surgimento foi algo não planejado, referindo-se a uma experiência de


desenvolvimento não acabada ou consolidada, tendo sido gerado por diversos fatores
relativos ao contexto político, econômico e social, dos quais merecem destaque: i)
oportunidade política, relativa a eleição, em 2002, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, representando a chegada ao poder de um partido ideologicamente comprometido
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

com um maior papel do Estado na economia e na sociedade; ii) insatisfação do setor


produtivo com o cenário econômico de desaceleração do crescimento e alta taxa de
desemprego; e, iii) cenário, a partir de 2008, de pós-crise financeira global.

Ademais, ainda em conformidade com Coutinho, Shapiro e Trubek (2013, p. 7-8), este
modelo é marcado pela experimentação institucional e mudança gradual, caracterizando-se,
fundamentalmente: i) pela continuidade da política macroeconômica neoliberal do governo an-
terior, lastreada na responsabilidade fiscal, taxa de câmbio flutuante e metas de inflação; e, ii)
pela adoção de políticas microeconômicas de indução de crescimento que compensam os efeitos

216
colaterais dessa política de origem neoliberal, tais como política industrial e política social mais
robusta.
Em terceiro lugar, é interessante observar que este novo ativismo estatal brasileiro está
em linha com uma corrente otimista que defende a função instrumental do ordenamento jurídi-
co no desenvolvimento, denominada direito nos Estados em desenvolvimentos, segundo a qual,
de acordo com Prado (2010, p. 6), “para que o Direito possa atingir plenamente o seu mister, é
necessária uma presença estatal no sentido de garantir o desenvolvimento”. A atuação do Esta-
do, assim, é um importante meio de promoção, pelo ordenamento jurídico, do desenvolvimento,
devendo ser realizado para estruturar os arranjos institucionais que os instrumentalizam. Neste
sentido, Chang e Peter Evans (2000, p. 2) afirmam que “o desenvolvimentismo é um clássico
exemplo de como as instituições podem atuar no sentido de promover o desenvolvimento”.
Importante pontuar aqui a análise de Evans (1992, p. 163), a qual entende que a atuação
estatal pode ser determinante para o desenvolvimento do país, como no caso de Japão, Coréia
do Sul e Taiwan, na hipótese de haver uma burocracia eficiente, capaz de criar um ambiente
propício para a conjunção de investimentos externos com os esforços domésticos, buscando
uma parceria entre as instituições e organizações. Por outro lado, Evans (1992, p. 149-150) cita
o modelo do Estado predatório “no qual a atuação estatal gera empecilhos ao desenvolvimento
em razão de uma burocracia corrupta e de arranjos institucionais ineficientes, como é o caso do
Zaire”. Neste Estado, a falta de arranjos institucionais adequados e a existência de uma estru-
tura política e estatal corrupta, voltada exclusivamente aos seus próprios interesses e não aos
da coletividade, levaram o país a uma grave crise econômica e social, causando enormes pro-
blemas humanitários, ou seja, em outras palavras, foram na direção oposta do desenvolvimento
econômico.
De acordo com Evans (1992, p. 166), o Brasil está enquadrado em um terceiro modelo,
composto por países que, não obstante tenham conseguido avanços recentes, ainda encontram
dificuldades para se desenvolver. No caso brasileiro, muito embora tenha se verificado certo
grau de desenvolvimento nos últimos anos, ainda existem problemas institucionais decorrentes
de instrumentos burocráticos sem muita base técnica, ineficientes e com surtos de corrupção.
Tais entraves institucionais afetam a produção, crescimento e distribuição das riquezas, fazendo
com que o desenvolvimento não alcance toda população. Logo, o Brasil não conseguiu estrutu-
rar arranjos institucionais sólidos que possibilitem o desenvolvimento.
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

Os reflexos destes problemas institucionais, por exemplo, são as altas taxas de juros,
que atravancam o crescimento econômico e o desenvolvimento brasileiro. Nesse sentido, im-
portante destacar o entendimento de Pérsio Árida, Edmar Lisboa Bacha e André Lara-Rezende
(2004, p. 2-3):

muito embora economistas afirmem que as elevadas taxas de juros são explicadas
pela política monetária ortodoxa, metas e ajustes fiscais insuficientes para garantir
um resultado nominal positivo ou subsequentes choques externos e internos que
aumentam a percepção de risco do país no cenário internacional, o principal motivo

217
é a incerteza jurisdicional, que pode ser decomposta: i) no risco do Estado alterar o
valor do contrato antes do momento de sua execução; ii) na hipótese de interpretação
desfavorável ao investidor no caso de judicialização da relação contratual.

Um interessante aspecto levantado pelos autores é que esta incerteza jurisdicional é


resultado de uma longa tradição do país de um processo histórico, no qual houve manipulação
de indexadores, mudanças de padrões monetários, congelamento de bens financeiros, anula-
ção judicial de cláusulas de reajuste, alterações repentinas de entendimento tributário sobre os
contratos em vigor, atrasos nos pagamentos de débitos perante terceiros. Em decorrência destas
práticas, houve um aumento na percepção de risco do país, com investidores exigindo um prê-
mio maior em operações de longo prazo com o governo.
O conceito de incerteza jurisdicional se conforma, segundo Arida, Bacha e Lara-Re-
sende (2004, p. 7), com o crescente consenso de que as instituições de determinada sociedade
são determinantes para seu desempenho econômico. Neste sentido, verifica-se que o principal
problema do Brasil refere-se à incapacidade do país de desenvolver instituições sólidas, lastrea-
das em uma burocracia estatal crível, que crie os estímulos necessários para o desenvolvimento.
Assim, para que o novo ativismo estatal surta efeito, deve-se resolver tais entraves institucio-
nais, aperfeiçoando-se as instituições para conferir maior eficiência ao aparato estatal e sanar o
ambiente de incerteza jurisdicional, podendo ser este um dos grandes desafios do Direito neste
novo cenário.
Ademais, conforme anteriormente mencionado, a economia política e o ordenamento
jurídico possuem uma relação de influência mútua. Dessa forma, os arranjos jurídicos do Novo
Ativismo Estatal possuem algumas feições próprias que tanto influenciam como são influencia-
das por esta nova experiência estatal. Neste sentido, Coutinho, Shapiro e Trubek (2013, p. 22-23)
afirmam que este novo modelo traz para o Direito o desafio de desempenhar novas funções,
quais sejam: i) salvaguardar a flexibilidade das políticas e regras emanadas pelo Estado; ii) es-
timular a sincronia entre instituições públicas e organizações privadas; iii) estruturar a sinergia
entre os atores; e iv) assegurar legitimidade das intervenções estatais.
Em outro texto, Coutinho e Shapiro (2013, p. 26) identificam as seguintes funções do
Direito:

i) viabilizar o arcabouço normativo e institucional, tanto no sentido de funcionalizar


FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

novos objetivos de economia política, quanto no sentido de combinar ferramentas e


instrumentos jurídicos já existentes; ii) assegurar a legitimidade, almejando uma melhor
combinação possível entre efetividade e legitimidade, entre capacidades políticas e
capacidades técnico-administrativas; e, iii) forjar governança institucional, por meio
de imaginação institucional para mapear problemas e formular novas arquiteturas
institucionais.

Verifica-se, portanto, que na referida nova conformação de economia política, o Direi-


to deve instrumentalizar o Estado de meios para remover as barreiras estruturais que impedem

218
o desenvolvimento, aperfeiçoando os arranjos institucionais, aumentando a eficiência da buro-
cracia estatal, de sorte a conferir os estímulos necessários ao desenvolvimento.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Verificou-se que o campo do Direito e desenvolvimento é complexo por tratar de con-


ceitos de textura aberta e em constante evolução, que variam de acordo com os modelos de
desenvolvimento de cada contexto de economia política. Cada momento histórico de economia
política vai atribuir um papel diferente ao ordenamento jurídico de cada Estado, influenciando
nos arranjos institucionais existentes.
As instituições são essenciais ao desenvolvimento, impregnando-se na sociedade por
meio do Direito, sendo este o responsável pela sua objetivação e institucionalização. Ademais, o
próprio ordenamento jurídico, por ser o mais importante arranjo institucional, uma vez que cria,
modifica e extingue instituições, também é um elemento primordial para o desenvolvimento.
As instituições são importantes por se tratar de regras que estruturam relações sociais
que alteram e são alteradas pela sociedade, não apenas para restringir, mas também para pro-
mover e constituir comportamentos que pavimentem o caminho do desenvolvimento. A varia-
bilidade institucional é histórica e politicamente situada, de modo que não há modelo replicável
em qualquer momento e em qualquer lugar que posa ser adotado.
Importante destacar que, em seu mister de arquitetar e imaginar os arranjos institu-
cionais, o Direito não age sozinho, sendo as conformações de economia política existentes em
determinado país de grande importância, auxiliando na criação, manutenção, aprimoramento
ou, inclusive, extinção de outros arranjos institucionais.
Pois bem, na história econômica brasileira é possível identificar momentos de maior e
de menor presença do Estado neste cenário. Atualmente, vem ganhando força desde a última
década o modelo do Novo Ativismo Estatal, o qual criou desafios ao Direito, que passou a ter de
exercer funções que instrumentalizam o Estado de meios para viabilizar e construir comporta-
mentos que levem ao desenvolvimento, tendo-o mais como ator deste processo.
O desenvolvimento do país somente será alcançado com a remoção de barreiras es-
truturais que excluem parcela da sociedade da vida econômica, cabendo ao Direito criar meios
de remover estes empecilhos, por meio de sua função de arquitetar e imaginar novos arranjos
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

institucionais, bem como aperfeiçoar os já existentes.

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THE FUNCTION OF LAW IN THE ECONOMIC DEVELOPMENT AND ITS


RELATION WITH THE POLITICAL ECONOMY

ABSTRACT
The discussion on the Law and economic development is complex, cre-
ating the necessity of defining development and institutions. Institutions
are important for development, is embedded in society through Law,
and through this it is the objectification and institutionalization of insti-
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

tutional arrangements. The legal system is the most important institu-


tion because it is through it that institutional arrangements are created,
modified and extinguished. The political economy helps, facilitating the
understanding of existing institutions in society. It is also important
because of the influence it exerts on legal harvest and institutional ar-
rangements, being an architectural principal of Law.
KEY-WORDS: Development. Law. Institutions. Economy. society.v

221
Recebido 12/08/2017
Aceito 30/10/2017

A RAZÃO PRÁTICA COMO LIAME ENTRE O RACIONAL E O RAZOÁVEL EM


“UMA TEORIA DA JUSTIÇA”

Victor Cristiano da Silva Maia1

RESUMO
O presente artigo busca compreender qual é o papel da razão prática
na interpretação rawlsiana de Kant. Para isso, leva em consideração a
maneira pela qual a própria racionalidade prática kantiana repercute no
conceito de razoabilidade em Rawls, no intuito de identificar os distin-
tos estatutos e âmbitos de sua aplicação.  Propõe-se, portanto, enten-
der como a racionalidade prática kantiana é aproveitada e reconfigurada
por Rawls à luz da especificidade da proposta teórico-política de “Uma
teoria da justiça”, notadamente no que diz respeito à noção de consenso
sobreposto.
Palavras-chave: Razão Prática. Racionalidade. Razoabilidade.

“A justiça é a virtude primeira das instituições sociais, assim como a


verdade o é dos sistemas de pensamento.”

(John Rawls)
FIDES, Natal, V. 8, n. 2, jul./dez. 2017.

1 INTRODUÇÃO

As sociedades contemporâneas são pautadas pelo dissenso moral, uma vez que o plu-
ralismo de ideias, advindo do ideal democrático, faz com que o Estado não imponha uma con-

1  Graduando do curso de Direito da Universidade Federal de Lavras (UFLA).

222
cepção única de bem, excelência humana ou valor moral supremo, cabendo aos seus cidadãos
seguirem seus próprios ideais de vida. Assim, o respeito com relação àqueles que devem ser
considerados como os fins últimos de cada cidadão é uma condição necessária para o bom
funcionamento das instituições políticas, notadamente em uma concepção teórica, liberal e
igualitária.
No intuito de alcançar um conteúdo consensual mínimo que possa pautar essas deci-
sões morais, John Rawls busca encontrar uma determinada configuração de valores que seja
capaz de enfrentar essa problemática. A tal fim, como é notório, Rawls propõe que os indiví-
duos sejam compreendidos, na posição original, como pessoas morais, isto é, agentes livres que,
através do uso de racionalidade, são capazes de identificar princípios aptos à formulação de uma
concepção de justiça.
O projeto de Rawls, portanto, a partir do pressuposto do intrínseco pluralismo moral
que caracteriza as sociedades contemporâneas, propõe-se a dar um passo no intuito de articular
uma perspectiva normativa preferível a outras, a saber, que respeite um rol de questões polític