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Revista VEJA | Edição 2015 | 4 de julho de 2007 Page 1 of 4

Crime

Socos pontapés...
...e uma lição: os jovens abaixo poderiam ter tido um
futuro brilhante, mas serão lembrados como o bando
que espancou e humilhou uma mulher indefesa no Rio

Ronaldo Soares

Ernani D'Almeida Severino Silva/Ag. O Dia

Sirlei: cortes, hematomas, vômito, Felippe, Leonardo, Júlio, Rubens e


náuseas e fortes dores de cabeça são o Rodrigo, algemados, na escada da
resultado da violência que sofreu delegacia: bandidos comuns

O primeiro chute atingiu em cheio o rosto. Com a violência do


golpe, o corpo da empregada doméstica Sirlei Dias, de 32 anos, se
curvou e seu olho esquerdo inchou. A pancada deu início ao
martírio a que ela seria submetida na madrugada de 23 de junho.
Antes do golpe, de pé em um ponto de ônibus em frente à Praia da
Barra da Tijuca, bairro de classe média do Rio de Janeiro, o
pensamento de Sirlei vagava com a primeira brisa da madrugada
tocando seu rosto e o barulho das ondas estourando na praia. É o
som que mais lhe apraz quando está na Barra, onde trabalha em
um apartamento de frente para o mar. Alguma razão a fez lembrar
de seu filho, João Gabriel, de 3 anos. Seus pensamentos foram
interrompidos pelo primeiro golpe e agora ela se encontrava
agachada, tentando se proteger com o braço dos chutes na cabeça.
Havia se tornado um alvo fácil, imóvel, para uma sucessão de socos
e pontapés desferidos por um grupo de delinqüentes juvenis de
classe média que voltavam de uma festa. Sem nenhum motivo
aparente, ela foi espancada, xingada e humilhada. O ato de
selvageria foi um choque mesmo para os anestesiados sentidos de
brasileiros submetidos diariamente a notícias de crimes. Os algozes
eram cinco universitários, de 19 a 21 anos de idade. Todos com
família estruturada. Tinham tudo para seguir o caminho da
civilidade. Não foi esse o rumo que escolheram. Quando o Brasil os
descobriu, na semana passada, espancavam uma mulher indefesa.

Hipólito Pereira/Ag. O Globo

http://veja.abril.com.br/040707/p_094.shtml 1/4/2008
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Sirlei é observada pelo pai de um dos


agressores: a lei não vale para os jovens
delinqüentes?

Sirlei foi atacada quando saía da residência em que trabalha para ir


a um posto de saúde perto de sua casa, em Duque de Caxias, na
Baixada Fluminense. Madrugou no ponto de ônibus porque teria de
encarar três conduções e um percurso total de 63 quilômetros até o
posto. Depois da consulta, faria um trabalho extra em seu dia de
folga: uma faxina que lhe renderia 70 reais e reforçaria o salário do
mês, de 550 reais. Os golpes que recebeu (veja quadro) fizeram
com que ela faltasse ao compromisso. Eles poderiam tê-la matado.
Ao se proteger com o braço, agachada, ela não sofreu lesão mais
grave. Os exames não acusaram fraturas. Mas a doméstica ficou
com hematomas no rosto e teve de imobilizar o braço direito. Além
disso, ainda sente dores de cabeça constantes, tontura e ânsia de
vômito. Com o pescoço dolorido por causa dos solavancos causados
pelos golpes, ela não consegue movimentar livremente a cabeça. O
sofrimento da mãe impactou o filho. Toda vez que ela sai de casa,
João Gabriel chora. Diz que tem medo de que ela seja agredida. Se
é apenas uma reação natural da criança ou se é um trauma – o que
é um dano psicológico – o tempo dirá. A extensão de uma violência
assim pode ser imprevisível. Vai além da dor física. Sirlei, que fala
mansamente e gesticula pouco, comove-se ao lembrar que,
enquanto era espancada, pensava na possibilidade de jamais voltar
a ver o filho. "Achei que em algum momento eles iam pegar uma
arma e me matar", disse a VEJA.

O que pode ter levado os jovens a cometer essa atrocidade? Os


cinco envolvidos – Felippe Nery, Rodrigo Bassalo, Rubens Arruda,
Júlio Junqueira e Leonardo Pereira – moram em confortáveis
condomínios na Barra da Tijuca e estudaram em boas escolas.
Oportunidades não lhes faltavam. Rodrigo, por exemplo, voltou
recentemente de uma temporada de sete meses na Austrália, onde
foi estudar inglês, e estava selecionado para trabalhar na equipe de
apoio dos Jogos Pan-Americanos. Júlio tomava conta de dois
quiosques do pai na orla da Barra. Felippe havia acabado de ganhar
do pai um Gol zero-quilômetro. Leonardo, que aos 19 anos tem um
filho de 3, trabalha com o pai. O que os teria levado a isso? "Foi
uma variante daquela velha frase: 'Você sabe com quem está
falando?'. Esses jovens se julgam superiores e acham a doméstica
inferior", diz o antropólogo Roberto DaMatta. O que está por trás do
comportamento desses jovens é uma distorção que lhes permite
encarar as diferenças de classe social, cor, orientação sexual como
sinal de inferioridade e submissão. A explicação de um deles para a
barbárie foi ainda mais cruel: eles confundiram Sirlei com uma das
prostitutas que costumam fazer ponto naquela região.

Por ironia ou lição do destino, foi justamente uma prostituta quem


salvou a vida de Sirlei, conforme ela mesma confirmou a VEJA.
Quando os jovens a atacaram, a garota de programa que
presenciou a cena gritou por socorro, o que os afugentou. Eles
foram embora levando a bolsa de Sirlei. No caminho até o carro
bateram em outras duas mulheres. Os agressores foram indiciados
por tentativa de latrocínio (quando a vítima é roubada e
assassinada) e podem pegar até quinze anos de prisão. Além disso,

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o advogado da doméstica, Marcus Fontenele, vai tentar na Justiça


uma indenização por danos morais e materiais. O delegado Carlos
Pinto deverá indiciá-los também por formação de quadrilha, pois
suspeita que ao menos parte deles costumava bater em prostitutas
com freqüência. Uma vítima, agredida pouco antes do ataque a
Sirlei, já os reconheceu. O pai da doméstica, Renato Carvalho,
tentou explicar o desvio de conduta dos agressores de sua filha com
base em seu exemplo: "Eu criei quatro filhos e nunca tive condições
de dar uma bicicleta para eles, mas soube dar limites". O
pensamento é incompleto. Foram seus filhos que fizeram a escolha
certa. Os meninos da Barra da Tijuca, não.

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Fotos Reprodução

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