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UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO


PROGRAMA DE PÓS-GRADUÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL
MESTRADO 1ACADÊMICO

ANTÔNIO MARCOS MELO COSTA

PICHAÇÃO E GANGUE NA DÉCADA DE 1990: experiências de intervenção


urbana na cidade de São Luís

SÃO LUÍS
2015
2

UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO


PROGRAMA DE PÓS-GRADUÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL
MESTRADO ACADÊMICO

ANTÔNIO MARCOS MELO COSTA

PICHAÇÃO E GANGUE NA DÉCADA DE 1990: experiências de intervenção


urbana na cidade de São Luís

Dissertação apresentada ao Mestrado de


História Social da Universidade Federal
do Maranhão como quesito para obtenção
do título de Mestre em História Social.
Orientador: Prof. Dr. Alexandre Guida
Navarro.

SÃO LUÍS
2015
3

Costa, Antonio Marcos Melo.

Pichação e gangue na década de 1990: experiências de


intervenção urbana na cidade de São Luís/ Antonio Marcos
Melo Costa. –São Luis, 2015

122f. : Il.
Impresso por computador (fotocopia)
Orientador: Alexandre Guida Navarro
Dissertação (Mestrado) – Curso de Mestrado em História
Social da Universidade Federal do Maranhão, 2015.

1. Pichação –- São Luís. 2. - Gangue- Década de 1990

CDU
4

ANTÔNIO MARCOS MELO COSTA

PICHAÇÃO E GANGUE NA DÉCADA DE 1990: experiências de intervenção


urbana na cidade de São Luís

Dissertação apresentada ao Mestrado de


História Social da Universidade Federal
do Maranhão como quesito para obtenção
do título de Mestre em História Social.
Orientador: Prof. Dr. Alexandre Guida
Navarro.

Data da defesa: ____/____/____

BANCA EXAMINADORA

_______________________________________________
Prof. Dr. Alexander Guida Navarro(Orientador)
Universidade Federal do Maranhão

________________________________________________

1° EXAMINADOR

________________________________________________

2° EXAMINADOR
5

AGRADECIMENTOS

A todas as entidades supremas dos mais variados cantos do universo, em


especial àquelas com que tenho mais afinidade, a saber, Deus.
Aquela que foi a grande incentivadora material e espiritual por minha
passagem pelo Mestrado em História Social/UFMA, Josiane Cristina. A ela devo
todos os mais sinceros e especiais agradecimentos, por toda a dedicação e
paciência que teve comigo ao longo do mestrado. Para ela deixo eternizado meu
grande amor, carinho, respeito e dedicação.
À minha mãe, dona Jucileide, que soube criar e dotar de virtude todos os
seus sete filhos, em especial o quinto, eu. Se não fosse a sua criação, pautada nos
estudos como o melhor caminho para uma vida melhor, talvez eu não estivesse
escrevendo este trabalho, por isso agradeço a ela, que carinhosamente chamo de
“velha”.
À minha ex-sogra e grande amiga, dona Rosiane, pelos inúmeros
incentivos, em forma de “pressão”, que foram tão importantes para o correto
andamento deste trabalho. Agradeço a ela pela disponibilidade e dedicação ao ouvir,
perguntar, questionar e opinar objetivando o sucesso acadêmico do seu ex-genro
doidinho, Marcos.
Aos meus irmãos e irmãs (Ana, Barbara, Carol, Nelson, Raí e Lena), meu
pai, minha ex-cunhada, e hoje comadre, Jacqueline, meu filhão Dudu e minha
filhada Fernanda pelos inúmeros momentos de apoio e descontração que se deram
ao longo desse período de dissertação.
A minha tia (Conceição) pelo apoio financeiro e pelas palavras
motivadoras que foram tão essências nos momentos inicia da minha vida
universitária.
Aos ex-integrantes dos grupos de pichadores, a saber: Augusto Três,
Hally, Costelo, Júnior Enrolado, Kaká kiss, Pig City, Dost, Ratai. Agradeço por todo o
empenho que demonstraram ao longo desses 1ano de convivência e pesquisa
comigo. A eles meus sinceros agradecimentos.
Ao orientador de toda a pesquisa, professor Alexandre Guida Navarro.
Agradeço por ser, desde o inicio,sincero comigo ao dizer que não tinha domínio
6

suficiente sobre minha temática mas que na medida do possível ia me ajudar. E


ajudou muito lendo este material e fazendo as devidas correções de coerência e
coesão.
À diretora da Biblioteca Pública Municipal José Sarney, Rita Oliveira, que
tantas e tantas vezes me liberou mais cedo do serviço, entendendo minha situação
de pesquisador. Também pela preocupação que a mesma tinha com o andamento
desta pesquisa. Por tudo isso tem uma enorme gratidão e respeito por ela.
Aos meus colegas de trabalho, na biblioteca pública Municipal José
Sarney, em especial dona Ângela, Marta, Maria das Neves, Fabiano, Hamilton e
Ivonete. Agradeço pela preocupação que os mesmos tinham com o andamento das
entrevistas. E aqui fica um agradecimento especial a Marta Avelar pelo ajuda que
deu na normatização deste trabalho.
7

RESUMO

O estudo com gangues no tempo presente requer paciência, dedicação e coragem.


Estes três alicerces práticos foram essências para o andamento desta pesquisa, que
foi realizada a partir de entrevistas com ex-pichadores ludovicenses da década de
1990 e material impresso do referido período histórico e local citados. No trabalho
em questão, busca-se problematizar a cerca da pichação na cidade de São Luís no
decênio de 1990, e como esta inscrição em muros e marquises da referida cidade é
vista pelo olhar dos pichadores e dos periódicos locais. Deste modo, entendendo
que um trabalho acadêmico necessita de aportes teóricos, a referente pesquisa
apoiou-se na antropologia urbana de José Magnani, nas análises sobre gangues
juvenis de Miriam Abramovay e Glória Diógenes, na História oral e na História
Cultural do Urbano de Sandra Pesavento, a fim de tecer argumentos coerentes e
compatíveis com as mais recentes discussões historiográficas.

Palavras Chaves: Pichação. Gangue. São Luís. Década de 1990.


8

ABSTRACT

.The study of gangs in this time requires patience, dedication and courage.
These three practical foundations were essences for the progress of this research,
which was conducted through interviews with former taggers ludovicenses 1990s and
printed material of that historical period and place cited. In the current study, we seek
to discuss about the graffiti in the city of St. Louis in the 1990 decade, and how this
application on walls and canopies of that city is seen through the eyes of taggers and
local journals. Thus, understanding that an academic work requires theoretical
contributions, the related research was supported in urban anthropology Joseph
Magnani, in the analyzes of youth gangs Miriam Abramovay and Glory Diogenes, in
oral history and cultural history of Sandra Pesavento Urban in order to make a
consistent and compatible arguments with the latest historiographical discussions.

Key Words: Graffiti. Gang. São Luís. 1990 Decade.


9

LISTA DE FIGURAS E IMAGENS.

FIGURA 1 – Pichação de Pastorno estilo enrolado...............................................60

FIGURA 2 – Pichação de Júnior Enrolado...............................................................70

FIGURA 3 –Ratai em vários estilos diferentes de pichação....................................73

FIGURA 4 – Pichação de Augusto três em forma de protesto.................................76

FIGURA 5 – Pichadores e a marca do grupo...........................................................82

FIGURA 6 – Pichadores e a marca do grupo............................................................82

FIGURA 7 – Parte de pichação de Kaká kiss...........................................................91

FOTO 1 – Reportagem sobre grupo de pichadores. Fonte: Jornal O Estado do


Maranhão, 1993........................................................................................................94

FOTO 2 – Reportagem sobre pichadores. Fonte: Jornal de Hoje,


1993..........................................................................................................................97

FOTO 3 – Reportagem sobre a morte de grafiteiro. fonte: O Imparcial.....................99

FOTO 4 – Reportagem sobre pichação como sujeira pública. Fonte: jornal O Estado
do Maranhão............................................................................................................104
10

LISTA DE SIGLAS

AT- Augusto três ..................................................................................................

GBP –Garotos da Bota Preta ...............................................................................

CEGEL - Centro de Ensino Governador Edison Lobão ........................................

DPCA - Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente ...............................

FN - Falange Negra ..............................................................................................

FV - Falange Vermelha ........................................................................................

GC- Garotos Cruéis ..............................................................................................

GG 2000 - Garotos Geração 2000 .......................................................................

MC - Mensageiros de Cristo .................................................................................

GR- Garotos Rebeldes...........................................................................................

NT- Novos Terroristas ..........................................................................................

PR - Pichadores Rebeldes ...................................................................................

SEGUP - Secretaria de Segurança Pública do Estado do Maranhão ..................

UFMA - Universidade Federal do Maranhão ........................................................

RB- Ratos do Barulho............................................................................................

EUA- Estados Unidos da América..........................................................................

CE- Ceará...............................................................................................................

CEGEL- Centro de Ensino Governador Edison Lobão...........................................

BCA- Bernardo Coelho de Almeida..........................................................................

BF- Bairro de Fátima...............................................................................................

KR- Kebradores Rebeldes.....................................................................................

LG- Legião de Grafiteiros........................................................................................

GE- Grafiteiros Escrotos.........................................................................................

EV- Esquadrão Vermelho..........................................................................................


11

JJ- Jovens Justiceiro....................................................................................................

SG- Solitários Grafiteiros..............................................................................................

JCP- Jovens Contra Pichadores...................................................................................

DR- Detonadores Rebeldes..........................................................................................

TAA- Teatro Arthur Azevedo.........................................................................................

GD- Gonçalves Dias......................................................................................................

SSP-MA- Secretaria de Segurança Pública do Maranhão..........................................

TER- Tribunal Regional Eleitoral.................................................................................


12

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO .......................................................................................... 14

1.1 Os percalços da pesquisa ...................................................................... 18

1.2 Do método e técnicas de pesquisa ........................................................ 21

2PICHAÇÃO, GANGUES E JUVENTUDE: (re)desenhando a questão .............. 24

2.1 Pichação como “problema”: alguns “rabiscos” conceituais.................... 25

2.1.1 Práticas de pichação ao longo do tempo .................................................. 28

2.1.2 Práticas de pichação no Brasil................................................................... 30

2.1.3 Práticas de punição aos pichadores .......................................................... 32

2.2 Gangues e delinquência: rixas teóricas .................................................. 33

2.2.1 As gangues na literatura norte-americana ................................................. 33

2.2.2 A temática gangue na literatura latina americana.........................................37

2.2.3 As gangues na literatura brasileira: entre a delinquência juvenil e o imaginário


da violência..............................................................................................................39

2.3 Juventude: escritas de sonho e risco ....................................................... .46

2.3.1 A juventude na teoria das Ciências Humanas ........................................... 49

3 JOGANDO A MARCA: pichação em São Luís na década de 1990


pela perspectiva dos pichadores .......................................................................... 56

3.1 Influências da pichação em são luís: galeras na mídia ......................... 57

3.2 A “Família Da Rua”: o entrar numa gangue/galera .................................. 62

3.3 Pichação como um rito de entrada ...........................................................65

3.4 “Pichar é arte, correr faz parte” .............................................................. 67

3.5 Pichação: a arte de desafio ...................................................................... 69

3.5.1 Pastor, o pichador do Enrolado ................................................................. 70

3.5.2 Fiel: o pichador solitário ............................................................................. 73


13

3.5.3 Augusto Três: quanto mais alto, melhor! ................................................... 74

3.6 Marcas no território: eles nos pedaços e nas manchas .......................... 77

3.7 Marcas no território: queimando pichação .............................................. 83

3.8 Marcas no território: os contra-pichadores....................................................86

3.9 Gangues, pichação e mulheres: papéis sociais em (re) construção ...... 88

4 JOGANDO A MARCA: pichação em São Luís na década de 1990 pelo


olhar da mídia impressa ....................................................................................... 92

4.1 gangue e pichação: casamento perfeito? ................................................ 93

4.2 Quando o grafiteiro é o pichador! .......................................................... 96

4.3 A aurora da pichação para a mídia impressa ludovicense .................. 100

4.4 Quem é o pichador para a mídia impressa ludovicense? .................... 102

4.5 Quando a marca vira gangue de pichadores: o caso de Augusto três .. 108

4.6 Quando o nome do grupo vira significado para os pichadores: o caso


do grupo Pichadores Rebeldes (PR ..................................................................... 110

4.7 Dando um tempo na escrita: quando chega a hora de parar de escrever


em muros! ............................................................................................................ 113

5 CONCLUSÃO ................................................................................................... 119

REFERÊNCIAS ......................................................................................... 124


14

1INTRODUÇÃO

“Mas me diz uma coisa: o que tu ainda quer com isso? Deixa isso pra lá!
Quem foi preso foi, quem morreu e quem tá quer esquecer disso”. Esta foi a
declaração proferida por Augusto três, na primeira entrevista formal que foi realizada
com ele. Em uma análise preliminar, para um mestrando em História, a indagação
do entrevistado teria uma resposta simples, isto é, porque isso é História! Porém, no
que diz respeito às testemunhas oculares do evento, o fato de recordar e narrar este
processo histórico se torna uma questão delicada e até mesmo difícil de ser
relembrada.
No que concerne ao tema deste trabalho, frisa-se que a pichação é
situação cotidiana em minha vida desde quando eu cursava a 5ª série na Unidade
Escolar General Artur Carvalho, localizada no Bairro de Fátima, em São Luís. Em
qualquer canto da escola, eram visíveis as marcas de identificação das galeras de
pichadores. Mas somente na 7ª série, no ano de 2001, que despertou uma espécie
de curiosidade, mesclada com uma sensação de “estranheza” e medo à pichação,
após um episódio.
O fato aconteceu no turno matutino, quando ocorria uma reunião rotineira
entre pais e professores, no instante que os alunos saíam da unidade de ensino, por
volta das 9h30. A minha sala de aula, de nº 302, era formada em sua maioria por
integrantes de gangues, dos quais muitos eram pichadores. Nela, havia um aluno de
nome Wescley, de 13 anos, que riscou a pichação de outro aluno, chamado Nitão,
do Centro de Ensino Médio Gonçalves Dias1, que fica em frente àquela escola.
Assim, os alunos estavam agrupados na porta da escola, aguardando o
fim da reunião. Nitão, que teve sua pichação “queimada”2, esperava Wescley, o
autor da façanha. O matriculado do Gonçalves Dias estava acompanhado de cerca
de cinco rapazes; todos munidos com pedaços de madeira e uma arma branca. Em
seguida, ocorreu o conflito, sendo que Wescley sofreu perfurações nas regiões do
fígado e rim. À época, ele não morreu, mas possui sequelas decorrentes do

1
A escola fica localizada na Avenida Kenedy.
2
Termo do grupo de pichadores referente à riscar a pichação de outro pichador.
15

atentado. A partir daquele dia, percebi que pichar significava muito mais que uma
óbvia inscrição em paredes.
Em 2011, anos após o referido episódio, iniciei a minha pesquisa
monográfica, que discorre sobre os Garotos da Bota Preta3 (GBP), sempre
recordando o desentendimento que culminou na agressão física ao estudante do
Artur Carvalho. Durante o levantamento de dados para o meu trabalho, observei a
grande quantidade de matérias em jornais veiculados em São Luís enfatizando a
pichação e a consequente preocupação do poder público em combatê-la. Embora
procurasse reportagens sobre o grupo Garotos da Bota Preta (GBP), eu me
deparava com textos jornalísticos abordando a pichação. Desse modo, cataloguei
matérias acerca desta temática, a fim de, em momentos posteriores, realizar um
trabalho abordando a pichação.
O desejo acadêmico e individual em pesquisar sobre a temática foi
reforçado depois de o professor Flavio Soares4, orientador da minha monografia,
pontuar algumas questões e, simultaneamente, realizar indagações pertinentes
referentes à pichação ludovicense. Uma de suas colocações foi a seguinte: “Onde
está essa galera toda da década de 1990 que pichou a cidade quase toda?! Eu me
lembro que a cidade era quase toda pichada!”5.
Logo após a defesa do meu trabalho de conclusão da graduação,
disponibilizei a monografia em formato virtual6, numa tentativa de expandir as
produções acadêmicas para além das fronteiras da Universidade. Então, houve
comentários de leitores que se indagavam sobre a pichação em São Luís da década
de 1990, mencionando pichadores como Augusto Três, Lando, Pastor, Cacau e
Black. Explicitamente, eles desejavam ser informados e esclarecidos sobre a
situação atual dessas pessoas.
Portanto, convém salientar que a motivação surgiu após as ponderações
do professor Flávio e os comentários nas redes sociais. Contudo, a faltava a
oportunidade, que se concretizou com o mestrado em História na UFMA. Na
elaboração do projeto para ingresso no processo seletivo do referido programa de
pós-graduação stricto sensu, planejei de maneira sistemática e coerente um possível

3
Monografia apresentada em 2011 pelo curso de História da Universidade Federal do Maranhão.
4
Docente do curso de História da Universidade Federal do Maranhão.
5
Tradução que fiz da frase do professor Flávio Soares.
6
Costa, Antônio Marcos Melo. Os garotos da Bota Preta: entre práticas de visibilidade pública e de
delinquência, 2011. Disponível em http://www.ebah.com.br/content/ABAAAe_RYAC/gangue-bota-preta
16

trabalho que abordasse a pichação, a fim de preencher uma lacuna do próprio


processo histórico da juventude ludovicense da década de 1990.
Desde 2013, procurava os ex-pichadores da década de 1990, já iniciando,
por assim dizer, a pesquisa. Eu os encontrei, mas apenas uma parte deles. O
primeiro que localizei foi Hally, o qual já o conhecia, quando ele era professor do
Centro de Ensino Médio Doutor João Bacelar Portela7, escola na qual eu estudava.
Conversamos sobre pichação em sua residência, o que me possibilitou abranger o
assunto.
Como resultado, encontrei Costelo, cujo primeiro diálogo perdurou por
aproximadamente duas horas. A partir deste contato, soube da existência de
Augusto Três, também pichador da década de 1990 na capital maranhense. Ele
seria uma incógnita neste trabalho, caso eu não conversasse com Robocop, do
grupo Garotos da Bota Preta (GBP), em 2011, pois o nome Augusto Três era
descrito em inúmeras matérias publicadas em jornais como sendo nomenclatura de
uma gangue.
Desse modo, ao observar a suposta gangue “Augusto Três” nas
reportagens da época, pedi detalhes deste grupo a Robocop, que, em tom de
exclamação, comentou que, na verdade, a denominação se referia a um dos
maiores pichadores da década de 1990 e, não, a um agrupamento jovem.
Esclarecido, decidi ainda em 2013 tentar manter um diálogo com Augusto Três,
fazendo levantamentos sobre seu provável endereço.
Durante as buscas, fui informado sobre diversas situações relacionadas
ao ex-pichador. Para Robocop e outros dois ex-integrantes da GBP, a saber, Range
e Bob, Augusto Três já havia morrido, provavelmente, em virtude de disputas entre
gangues da época ou decorrente de intervenção policial. Já Hally assegurou que ele
estava vivo e, inclusive, atuou como evangélico por um período de tempo longo; mas
não comunicou o endereço de Augusto Três, pois disse não ter conhecimento deste
detalhe.
Apesar das dificuldades e distintas informações, prossegui procurando-o.
Em uma igreja evangélica situada em uma rua próxima ao Terminal de Integração
do São Cristóvão, o pastor ressaltou não conhecê-lo, destacando que ninguém com
aquela identificação frequentou seu templo, em datas recentes ou não. Interrompi a

7
Localizada na avenida Ivar Saldanha.
17

procura e entrevistei Costelo. Este transmitiu que Augusto Três poderia ser
encontrado a poucos metros do local em que conversávamos.
Assim, soube que ele trabalhava próximo de onde ocorria a entrevista
com Costelo. Consegui, então, o número do celular de quem eu procurava e agendei
uma conversa. No entanto, houve muitos desencontros. Em duas ocasiões, falei ao
telefone com um rapaz no qual eu acreditava ser Augusto Três. Por alguns
momentos, concluí que o ex-pichador estava se esquivando da entrevista. Dúvida
esta que se dissipou quando ele me ligou, perguntando sobre o porquê eu não
comparecia aos locais sugeridos para o diálogo entre nós, explicando que, na
verdade, o autor deste trabalho conversava ao celular com um companheiro de
trabalho dele, cujo nome é similar ao seu.
A aguardada entrevista se concretizou em meados de junho de 2013,
sendo que ocorreram três conversas; o que me possibilitou o levantamento de
informações e dados referentes à pichação em São Luís na década de 1990 e,
também, sobre a percepção que a mídia inferia sobre sua imagem enquanto
pichador e membro de uma gangue. Mas ele não foi o último a ser entrevistado para
a pesquisa, pois ainda mantive contato com Kaká e Júnior Enrolado. Conheci este
casal ao comentar acerca da minha dissertação com uma professora, que declarou
ter dois amigos, hoje cônjuges, que foram grandes pichadores daquele período.
Então, entrevistei ambos, em dias distintos. Durante os diálogos, a filha
deles, de 14 anos, contribuiu ao comparar a época juvenil dos seus pais com a atual.
Percebi, naquele momento, que não havia segredos na referida família no que
concerne à temática da minha dissertação, isto é, Kaká e seu marido interagiam com
a adolescente suas vivências na década de 1990 em São Luís. Isto, portanto, para
mim, era um fato inédito em meus estudos práticos sobre pichação e gangues, uma
vez que, desde a minha monografia, os entrevistados escondiam de seus filhos o
que fizeram enquanto integrantes de “gangues”8.
Depois de Kaká e Júnior Enrolado, ainda entrevistei dois de meus amigos,
Rataí e Dost. Descobri, por meio das conversas informais, que eles também eram
atuantes como pichadores da década de 1990 e ponderei que seria relevante
entrevistá-los. Dos meus diálogos com Dost, deduzi que ele se sentia satisfeito por
ter sobrevivido naquela fase de sua mocidade, agradecendo, de maneira explícita,

8
Será problematizado de forma mais detalhada o uso e abuso do conceito “Gangue” para as Ciências Humanas.
18

por estar vivo. Já Rataí demonstrou ter vivenciado uma etapa juvenil da qual soube
usufruir dos momentos, mas alertou que eles devem ser observados como “fases”,
onde não é recomendável se tornar estático, senão “você vira paisagem” (Rataí,
2014).
Prosseguindo o processo de entrevistas para a pesquisa, encontrei um ex-
integrante do grupo Mensageiros de Cristo (MC). Ele pediu sigilo em seu nome e
alcunha no trabalho, embora tenha contribuído para o assunto abordado nesta
dissertação. Salienta-se que a conversa foi marcada por momentos de tensão, tendo
em vista que o entrevistado, a quem denominei de Anônimo MC, deduzia que eu
fosse agente do sistema de segurança pública do Maranhão.
Por fim, entrevistei Pernambuco e Pig City, ambos em suas residências. O
primeiro se mostrou arrependido por sua vivência juvenil ter sido marcada pela
pichação; o que levou a concluir que, caso pudesse retornar àquela época, se
comportaria de outra maneira. Com PigCit, por sua vez, que era grafiteiro, e, não,
pichador na década 1980, me possibilitou analisar a pichação a partir do prisma do
grafite. Ao entrevistá-lo, senti como se estivesse assistindo a um filme narrado em
primeira pessoa, com imagens e palavras interagindo em minha mente, de forma até
emocionante.
Assim, as entrevistas com ex-pichadores da década de 1990 na capital
maranhense foram bastante úteis, embora eu não tenha conseguido conversar com
outros personagens marcantes da época no que diz respeito às inscrições em
prédios públicos e privados ludovicenses. Dessa forma, ocorreram muitos percalços
em minha pesquisa, como ocorre em todas, exemplificados por pessoas que se
recusaram a manter contato sobre o assunto em questão. Nesses instantes, percebi
que era o momento de parar e planejar alternativas e escolher outras fontes.

1.1 Os percalços da pesquisa

No início da introdução deste trabalho, citei uma declaração de Augusto


Três, cuja indagação poderia ser vista como um bloqueio à pesquisa, e,
simultaneamente, como uma motivação, devido à persistência. Observa-se, neste
ponto, que insistir, no que concerne a trabalhos acadêmicos, gera consequências
vantajosas ou, por outro lado, prejudicaria o pesquisador, que pode ser tachado de
19

impertinente ou inconveniente. Em algumas ocasiões, esta dialética se tornou


presente no levantamento de dados.
Logo que iniciei a pesquisa em 2013, verifiquei os nomes das gangues da
época, percebendo que suas siglas remetiam à pichação. Nesse sentido, cita-se a
PR, que significa “Pichadores Rebeldes”; bem como a GG 2000, que é denominada
ora como “Garotos Grafiteiros” ora como “Garotos Geração 2000”. Ao procurar ex-
membros da PR, fui aconselhado a interromper as buscas, sendo que os
interlocutores desta recomendação demonstravam medo e angústia em suas falas.
Nos bairros do Lira e da Macaúba, localizados em São Luís, por
exemplo, fui comunicado que a maioria dos ex-integrantes da PR trabalhavam no
setor de segurança privada. Assim, na década de 1990, eles eram monitorados
pelas forças policiais da capital. Apesar das recomendações, decidi ao menos tentar,
mas um ex-membroda “Pichadores Rebeldes” se recusou a ser entrevistado,
solicitando que eu não o procurasse em outras ocasiões.
Após este episódio, iniciei as buscas a ex-integrantes da GG 2000, que
não tem uma denominação definida por parte das pessoas que a conheciam, e,
também, pela mídia impressa ludovicense da década de 1990. Impulsionado pela
nomenclatura “Garotos Grafiteiros” e por reportagens de jornais de 1994 e 1995, que
categorizavam esta “galera” como uma das maiores gangues de pichadores de São
Luís, resolvi me deslocar ao Bairro de Fátima, tido como localidade dominada pela
GG 2000 naquele período.
Lá, quando eu perguntava a moradores mais antigos da comunidade
sobre ex-integrantes dessa gangue, notava que a receptividade não condizia com a
minha expectativa para a pesquisa, sendo informado que os rapazes que integravam
a GG 2000 haviam migrado para facções criminosas que protagonizavam uma
disputa sangrenta na capital e em cidades do interior do Estado. Objetivando
preservar a minha vida, não prossegui com minhas análises na comunidade,
sobretudo porque, em 2013, ocorreu um surto de homicídios na região decorrentes
de rivalidades entre organizações criminosas.
Por meio de informantes, busquei outros contatos. Loro, ex-pichador de
uma gangue não definida, surgiu em minha pesquisa, mas a impossibilidade de
dialogarmos com mais detalhes sobre a temática deste trabalho me estimulou a
20

desistir de entrevistá-lo. Concluí que ele resistia em não resgatar seu passado;
demonstrado desde o primeiro dia em que o encontrei.
Depois de Loro, entrevistei Pernambuco, ex-integrante da gangue “Ratos
do Barulho” (RB), que me disponibilizou contatos de outros ex-membros desta
“galera”, que foram procurados no bairro da Divineia, que fica perto do Sol e Mar, e
no município de Raposa. Nessas áreas, as pessoas realizaram declarações como
“eu não sou essa pessoa que tu tá procurando” e “quem foi que te disse que eu fui
da RB?”. Outros dois resistiram, apesar de eu explicar os pormenores da pesquisa.
Soube, então, de outras pessoas que poderiam contribuir para esta
dissertação, mas fui aconselhado pelos entrevistados a não procurá-los. Nesta linha,
citaram Nanda Kiss, com quem gostaria de conversar, a fim de examinar a visão
feminina sobre a pichação. O diálogo com ela, porém, não se concretizou, pois me
relataram que Nanda evitava falar sobre o assunto, devido a situações das quais a
possível fonte demonstrava não querer recordá-las.
Esta entrevista seria importante porque forneceria uma visão mais
aprofundada da vivência feminina no que tange à pichação. Além dela, não foram
possíveis conversas com Lando e Pastor, que, segundo opinado por ex-pichadores
entrevistados, estavam no mesmo patamar de Augusto Três. Frisa-se que eles não
são descritos na pesquisa, na parte das entrevistas, devido a informações distintas
transmitidas pelas fontes sobre suas situações atuais. Salienta-se, contudo, que os
procurei, mas não os localizei, pois determinadas pessoas comentaram que ambos
já estavam mortos e outras disseram que eles haviam migrado da capital para o
interior maranhense ou demais estados da federação.
Assim, entre encontros e desencontros, a pesquisa foi realizada. Destaca-
se, como ponto positivo, no que diz respeito à sua redação, a produtividade de
informações e, também, o aspecto emotivo manifestado durante as entrevistas.
Entretanto, convém ressaltar que um trabalho acadêmico que tem como
componente a oralidade não é possível somente por meio de entrevistas, como,
também, a partir de uma abordagem teórica e metodológica que guie a escrita, a fim
de se obter a configuração sugerida para uma produção universitária; o que é
tratado a seguir.

1.2Do método e técnicas da pesquisa


21

Como abordado, uma parte considerável deste trabalho foi feita tendo
como base as entrevistas realizadas com os ex-pichadores. Assim, pelo uso deste
tipo de fonte, para fins históricos, esta pesquisa se inscreve nos domínios da
chamada História Oral. Mas, pelo tipo de tratamento dado a essas fontes,
relacionando-as com outras, a dita pesquisa passa a ser categorizada como fazendo
parte do ramo da Nova História Cultural.
O trabalho em questão tem como alicerce metodológico o campo
historiográfico denominado de Nova Historia Cultural (BURKE, 2005), em especial
um dos seus desdobramentos, a História Cultural do Urbano (PESAVENTO, 1995) e
a abordagem da Antropologia Urbana (MAGNANI, 2002). Já como técnicas, a fim de
tecer uma melhor compreensão das fontes, tem-se a análise do discurso produzido
pela mídia escrita e a história oral, sobretudo, em relação aos informantes orais.
A chamada Nova História Cultural é datada do final da década de 1980 e
se caracteriza por novas abordagens no seio da História. Dentre essas abordagens
tem-se a chamada História das Cidades, que tem como preocupação, “[...] as
subculturas urbanas, em particular com a cidade grande como palco que oferece
muitas oportunidades para a apresentação ou mesmo a reinvenção do eu [...]”
(BURKE, 2005, p. 69).
Neste sentido, como forma complementar e desenvolvida da História das
Cidades, tem-se a História Cultural do Urbano que, de acordo com a historiadora
Pesavento (2005), teria como função resgatar os inúmeros discursos sobre a “cidade
do desejo”, a cidade que se quer elaborar e as representações sobre aqueles atores
e práticas que devem ser excluídos deste projeto. Dessa forma, Pesavento (1995, p.
284)aponta que
Ler a cidade dos excluídos, pobres e marginalizados conduz o historiador a
‘escovar a história a contrapelo’, como diz Benjamim, buscando os cacos,
vestígios ou vozes daqueles que figuraram na história como ‘povo’ ou
‘massa’ ou mesmo que se encontram na contramão da ordem, como
marginais

Nesta perspectiva, a História Cultural do Urbano se interessaria por dois


enfoques principais: as representações oficiais sobre uma “cidade desejada” e as
dos excluídos deste processo. Assim, este trabalho se insere neste campo de
estudo historiográfico porque busca as (re) significações da pichação e de seus
22

autores pelos discursos oficiais da mídia impressa ludovicense e dos ex-integrantes


de grupos de pichadores.
Como forma complementar e interdisciplinar da História Cultural do
Urbano tem-se a abordagem da Antropologia Urbana que, de acordo com Magnani
(2002), tem como objeto de estudo a sociabilidade que envolva grupos na área
urbana. A preocupação desta abordagem estaria nos personagens urbanos
excluídos e silenciados pelo processo urbano, como bem aponta Magnani (2002,
p.14-15) ao expor que:

[...] observa-se a ausência dos atores sociais [nos estudos sobre a cidade].
Tem-se a cidade como uma entidade à parte de seus moradores: pensada
como resultado de forças econômicas transnacionais, das elites locais, de
lobbies políticos, variáveis demográficas, interesse imobiliário e outros
fatores de ordem macro; parece um cenário desprovido de ações,
atividades, pontos de encontro, redes de sociabilidade. [...] Já os moradores
propriamente ditos, que, em suas múltiplas redes, formas de sociabilidade,
estilos de vida, deslocamentos, conflitos etc., constituem o elemento que em
definitivo dá vida à metrópole, não aparecem, e quando o fazem, é na
qualidade da parte passiva (os excluídos, os espoliados) de todo o
intrincado processo urbano [...]

Desta forma, os estudos de Antropologia Urbana, desenvolvidos por José


Magnani, objetivam dar voz à mobilidade urbana, a sociabilidade na área urbana.
Assim, como esta pesquisa tem como pretensão a visibilidade da dinâmica da
pichação e de seus autores, para além das escritas dos jornais, no entorno urbano
de São Luís, achou-se, pois, pertinente fazer esse diálogo de leituras da História
Cultural do Urbano com a Antropologia Urbana. Nesta perspectiva, a técnica
utilizada para a melhor apreensão das entrevistas será a História Oral, que se torna
pertinente para este trabalho pois, “[...] dá atenção aos ‘dominados’, aos silenciados
e aos excluídos da história [dando preferência] a uma ‘história vista de baixo’ [...]
atenta às maneiras de ver e de sentir [...]” (AMADO; FERREIRA, 1996, p. 04).
Assim, a técnica da oralidade, no campo historiográfico, que em suas
origens (década de 1940) tinha como preocupação as narrativas de pessoas ditas
importantes da sociedade norte-americana (THOMPSON, 1992), vem se
modificando, nas últimas décadas, ao privilegiar as narrativas de pessoas
consideradas como os “excluídos” e “marginalizados” da história, ou seja, o povo, as
mulheres, os negros, os homossexuais e os jovens e suas práticas no espaço
urbano. Desse modo, a técnica da história oral é viável para este estudo porque
23

privilegia a voz dos silenciados da história, a saber, os pichadores e suas práticas,


em contraposição ao discurso produzido pela mídia, no espaço urbano de São Luís,
entre os anos de 1992 e 2000.
Ciente de que “[...] nenhum documento pode ilumina por si só um tema
[...]” (MALANTIAN, 2009, p 205), o trabalho em questão pretende fazer um confronto
de fontes historiográficas escritas e orais. Como fontes escritas têm-se a análise dos
seguintes periódicos: O Imparcial, Jornal de Hoje, O Debate e O Estado do
Maranhão, entre os períodos de 1993 a 1995. Ano de 1993 foi tomado como
referência porque é nesse ano (dentre os de 1990 a 1992), que aparece pela
primeira vez uma reportagem sobre a pichação na cidade de São luís e o ano de
1996 como marco final porque os anos de 1997 e 1998 os pichadores não mais são
mencionados nas reportagens.
Dessa forma, se “[...] um documento é dado como documento histórico
em função de uma determinada visão de uma época” (KARNAL; TATSCH, 2009), o
que se pretende com as fontes historiográficas em questão é ter as mais variadas
visões sobre a problemática da pichação na cidade de São Luís, encarada aqui
como historicamente datada.
São visíveis, na arquitetura de São Luís, as experiências de intervenção
urbana dos pichadores, porém, são palavras que foram silenciadas ao logo das
décadas de 1990 a 2000, por um discurso que privilegiou uma cidade pautada nos
princípios da ordem, do equilíbrio e da unidade, uma cidade desejada. Assim, as
memórias dos pichadores devem ser encaradas como ”memórias subterrâneas”
(ABRAMOVAY, 2010), práticas e pensamentos que foram, por um ou outro motivo,
silenciados, mas que cabe ao historiador resgatá-las, a fim de, se ter uma visão mais
ampla e apurada de uma dada realidade.
24

2 PICHAÇÃO, GANGUES E JUVENTUDE: (re)desenhando a questão

A discussão sobre as temáticas “pichação”, “gangue” e “juventude” é


contemporâneo no universo acadêmico. A primeira, encontrou visibilidade nas
Ciências Humanas na segunda metade do século XX. Já as outras duas se tornaram
fonte de debate, do ponto de vista epistemológico e conceitual, dos pesquisadores
na primeira metade do referido século. Entretanto, as três se caracterizam por uma
relação de complementaridade, uma vez que as construções teóricas sobre tais
conceitos se relacionam de forma mútua. Sendo assim, faz-se necessária uma
revisão sobre essas três categorias.
Esta revisão, nesse sentido, pretende centrar-se nas realidades
ocidentais, no que tange ao tema. Sobre a “pichação”, discutem-se, principalmente,
as experiências europeia, norte-americana e brasileira, tendo em vista que os
primeiros registros de experiências em riscar muros com letras, surgiram na Roma
antiga (SOUSA, 2007). Já no século XX, na década de 1960, observaram-se
inscrições em muros na cidade de Paris e em Nova Iorque (CARVALHO, 2011;
SZACHER, 2012). Acerca do contexto brasileiro, este será descrito quando for
mencionado o período da ditadura militar (1964 a 1985), no fim da década de 1990,
com as inscrições feitas pelas “gangues” nos equipamentos urbanos, públicos e
privados.
As experiências norte-americana e latino-americana serão analisadas
neste trabalho, no que concerne à temática “gangue”. A delimitação espacial desta
temática, assim, deu-se pelo fato de que foi nos Estados Unidos, mais
especificamente na Escola de Chicago9, na década de 1920, que as gangues
surgiram como objeto de estudo na academia (ABRAMOVAY, 2010), configurando,
atualmente, nos EUA, o que Davis (1991 apud JANKOWSKI, 1997) denomina de
uma “growthindustry”, isto é, um assunto sobre o qual “todo mundo escreve”.

9A Escola de Chicago teve suas origens nos Estados Unidos, na década de 1910, por iniciativa de
professores americanos de Sociologia da Universidade de Chicago. Por esse termo, entendesse um
conjunto de trabalhos de pesquisas sociológicas realizados no período compreendido entre 1925 e
1940, por professores desta localidade. Sua maior relevância foi no campo da criminalidade, ao trazer
discussões sobre a temática das gangues como fruto da desorganização social. Essa escola foi,
também, responsável por um estudo mais detalhado a respeito de fenômenos sociais que ocorriam
na parte urbana das metrópoles norte-americanas, devido ao aumento na imigração para o centro e
sul dos Estados Unidos (BECKER, 1996).
25

Em se tratando da realidade latino-americana, é relevante frisar as


características comuns entre as “gangues” (padillas, maras e bandas), derivadas da
situação de extrema desigualdade social nesses países e o forte domínio territorial
que, em alguns momentos, entra em conflito com os interesses do Estado.
Por fim, tem-se a discussão da temática “gangue” nas Ciências Humanas
brasileiras. Aqui, serão enfatizadas as formas diferenciadas de surgimento desses
agrupamentos jovens, bem como sobre o imaginário ocidental que se produziu sobre
as gangues, ao caracterizar seus integrantes como “delinquentes” e suas atividades
como um “desvio” da ordem vigente (DIÓGENES, 1998).
Assim, além de realizar uma revisão bibliográfica sobre as gangues nas
Ciências Humanas, será enfatizado neste capítulo como a construção de um
conceito, pautado no imaginário ocidental da violência, foi adaptado em outros
contextos, a fim de tornar inteligíveis atos categorizados como “desviantes” da
norma estipulada.
Ainda no sentido de uma revisão bibliográfica, é importante entender
como ocorre a inserção da temática “juventude” nas Ciências Sociais; assim como
sobre modificações conceituais que lhe são atribuídas, saindo de uma cultura da
rebeldia e da desordem em direção a outra que objetiva a prática de visibilidade
pública e integração no espaço urbano. Nesse contexto, faz-se necessária uma
análise sobre os conceitos de “tribo urbana”, de Maffesoli(1987), de “cultura jovem”,
de Feixa(1998), e de “circuito jovem urbano”, de Magnani(2005).
Dessa forma, espera-se que o diálogo com diversos autores acerca
dessas categorias possa contribuir para o desenvolvimento de uma análise
pertinente sobre a sociabilidade dos pichadores no espaço urbano ludovicense da
década de 1990, objeto deste trabalho.

2.1 Pichação como “problema”: alguns “rabiscos” conceituais

A pichação, enquanto problemática das Ciências Humanas, conseguiu


visibilidade na segunda metade do século XX, tendo na Sociologia e na Linguística
os suportes acadêmicos de análise. A Sociologia discute sobre a pichação inserindo
esta prática tanto no rol da marginalidade e da delinquência jovem como no da
resistência juvenil, percebendo os pichadores como sujeitos desviantes a uma
26

determinada ordem (SPINELLI, 2007; CARVALHO, 2011). Essa discussão segue


um modelo de estudos sobre juventude e gangues da Escola de Chicago, que os
analisava como sujeitos desviantes a uma determinada ordem de equilíbrio social,
sendo, simultaneamente, as causas e consequências das ações teóricas de seus
respectivos estudos.
Já a Linguística, analisa a pichação, quando discutida no campo da
comunicação e da linguagem. Nesta perspectiva, o pichador é avaliado como
emissor/receptor de um determinado código linguístico (SPINELLI, 2007). Desse
modo, a discussão que esta disciplina realiza relaciona-se à multiplicidade de
diálogos na urbe moderna, na qual alguns conseguem se sobressair em relação a
outros, cabendo ao referido estudo problematizar este tópico, tendo a pichação,
aqui, como uma comunicação de resistência.
Acerca de uma conceituação do que seria a pichação, os autores Spinelli
(2007) e Carvalho (2011) analisam, respectivamente, que a pichação “[...] pode ser
caracterizada como letras ou assinaturas de caráter monocromático, feita com spray
ou rolo de pintura [...]” (SPINELLI, 2007, p. 113). E que sua prática trata-se de uma
forma de comunicação; porém, fechada, pois “[...] os pichadores, embora acabem,
também, chamando a atenção da sociedade, pretendem se comunicar apenas com
outros pichadores [...]” (CARVALHO, 2011, p. 126).
O autor pontua, ainda, que “[...] a pichação tem como suporte a cidade,
local onde o indivíduo se apropria do espaço urbano a partir de suas intervenções na
arquitetura das metrópoles [...]” (CARVALHO, 2011, p. 121). Assim, a pichação é
vista, pelos pesquisadores, como uma intervenção urbana que tem como
características as letras inscritas na arquitetura das metrópoles, sendo, portanto,
uma forma de linguagem, mas fechada, restrita aos círculos dos pichadores.
Dentro desta discussão, um debate pertinente que surge diz respeito à
diferença entre a pichação e o grafite. Essa demarcação conceitual é importante
porque delimita, e especifica melhor, o campo de análise do presente trabalho.
Como ponto inicial dessa discussão, temos Schultz (2010,p.2560), quando aborda
que

Grafite tem origem no termo italiano graffito, que deriva do latimgraphium.


Inicialmente, designou um estilete utilizado para escrever sobre placas de
cera. Posteriormente, a forma plural, graffiti, nomeou as inscrições gravadas
na pré-história e na antiga Roma. Em 1965, a palavra graffiti foi utilizada
para definir as pichações com spray e, nos anos 70, para indicar as
27

modernas pinturas feitas com a mesma tinta. O termo pichação remete às


inscrições realizadas com piche em muros na antiga Roma. Adquiriu
arbitrariamente uma conotação pejorativa, quando tornou uma prática de
protesto social nos bairros periféricos de Nova Iorque, na década de 1960,
e, mais tarde, quando foi utilizado por torcidas organizadas em práticas
ilegais ou por grupos de controle do narcotráfico, mais especificamente nos
bairros do Bronx e Harlem.

Partindo de um estudo do que seria o grafite e a pichação para a


contemporaneidade, Sousa (2007, p. 18), pontua de forma detalhada a diferença
entre essas duas formas de intervenção urbana:

A principal diferença entre as duas formas de intervenções consiste em que


a pichação advém da escrita enquanto o grafite está relacionado com as
artes plásticas, com a pintura e a gravura. A primeira privilegia a palavra e a
letra ao passo que a segunda relaciona-se com o desenho, com a
representação plástica da imagem.

De forma complementar aos argumentos de Sousa (2007), Ramos (1994)


e Gitahy (1999) compreendem que tanto a pichação como o grafite têm como
suporte o espaço urbano, diferenciando-se no modo como esse local vai ser
ressignificado. Aos pichadores interessa os locais de risco e de grande visibilidade
pública, inscrevendo suas letras, em forma de descontentamento, na arquitetura das
cidades.
No que diz respeito aos grafiteiros, as inscrições se referem às imagens
como forma de desmitificar os símbolos de dominação da sociedade. Já os autores
Raggi e Almeida (2010) alargam essa visão ao concluir que os grafiteiros preferem
locais marginalizados pelo poder público, enquanto que o pichador objetiva o
contrário, ou seja, a visibilidade pública de sua marca.
Desse modo, pichação e grafite têm o mesmo espaço de intervenção, isto
é, a cidade, cuja diferença estaria no uso desse espaço, sendo que, para os
primeiros, as letras são as melhores formas de obter notoriedade pública; enquanto
que, para os grafiteiros, a imagem é o melhor recurso para esta pretensão coletiva e
individual. No entanto, surge o conceito de “grapicho”, quando se pretende delimitar
o que seria a pichação. Este termo é assim descrito por Sousa (2007, p. 22) que
aduz:
Existe, porém, uma modalidade que se pode dizer intermediária entre a
pichação e o grafite. Chamada por alguns de ‘grapicho’, a técnica relaciona-
se à estilização do apelido do grafiteiro [...] em letras altamente elaboradas,
coloridas, com contornos e preenchimentos. Estabelece conexão com o
grafite pela questão da elaboração e detalhamento dos trabalhos, sempre
muito coloridos, e a pichação por constituir algo similar à uma assinatura,
estando diretamente ligado à escrita.
28

Assim, o “grapicho” seria algo intermediário entre a pichação e o grafite,


sendo destacado neste trabalho porque especifica com mais objetividade o que se
entende por “pichação”. Esta é caracterizada neste estudo como letras, em forma de
assinaturas ou frases, registradas no ambiente urbano e cujas práticas podem ser
realizadas por integrantes de grupos, também chamados de “gangues”, e que
intervêm no espaço urbano com as mais diversas finalidades, tendo, com isso,
diferentes compreensões e percepções.

2.1.1 Práticas de pichação ao longo do tempo

Sousa (2007) sugere que a gênese da pichação situa-se na Roma antiga,


sendo que a cidade de Pompeia, vítima do vulcão Vesúvio em 79 d.C., mas
redescoberta em 1748 por meio de trabalhos arqueológicos, tornou-se um local de
visibilidade desse meio de comunicação. Nesse contexto, de acordo com Lourdes
(2001) e Feitosa (2005), as inscrições em Pompeia eram feitas em muros, paredes
de casas, edifícios e tabernas. À época, diversos segmentos populares eram
responsáveis por esse tipo de inscrição, como agricultores, comerciários, artesãos,
gladiadores, criadores de animais, soldados, entre outros. Assim é que, para
Lourdes (2001, p. 50)

Nestas inscrições, as pessoas expressavam suas opiniões sobre os mais


variados assuntos como os seus desejos e aspirações; amores
conquistados e perdidos; apoio e críticas aos políticos, ao imperador;
mensagens a amigos; trechos de obras literárias; opinião sobre bordéis;
cálculos aritméticos; letras do alfabeto e lutas gladiatórias.

Feitosa (2005) se distancia dos argumentos de Lourdes (2001) ao


analisar que estas inscrições seriam um suporte à cultura popular, em que não
haveria muita relação e dependência para com a cultura aristocrática romana. No
entanto, as duas observações teóricas se relacionam ao concluir que, nos muros de
locais públicos, há um suporte para uma escrita não oficial, sendo este mesmo
modelo percebido na Europa dos séculos XIV ao XVI.
Assim, Sousa (2007) aponta que, durante o período dos séculos XIV e
XVI, de caça aos hereges no território europeu, os muros de conventos, mosteiros e
de algumas casas eram inscritos com os nomes das mulheres que eram acusadas
de “bruxaria” e de homens que eram vistos como feiticeiros ou adoradores de
deuses da natureza.
29

Adentrando no universo múltiplo da escrita não oficial da segunda metade


do século XX, Ramos (2007) e Carvalho (2011) argumentam que a pichação tem
visibilidade mais expressiva no movimento de “Maio de 1968”, na França, quando os
muros da cidade de Paris foram preenchidos por frases de protestos feitos com
spray. Ramos (2007, p.1262, grifo do autor), assim descreve:

A partir de maio de 1968, culturas jovens populares e/ou de oposição [...]


começaram a ocupar alguns espaços da cidade. Entre inúmeras ações de
protesto, panfletos e jornais, frases curtas e inteligentes como é proibido o
trabalho alienado, é proibido proibir, a imaginação toma o poder,
inscritas nos muros da cidade de Paris, marcaram a presença de jovens na
história do protesto e projetaram para muitas outras cidades e grupos de
jovens a transgressão lúdica de viver a cidade como espaço de
comunicação.

Por outro lado, Szacher (2012, p. 24) aponta outro aspecto ao tratar das
inscrições em paredes públicas e privadas da cidade de Nova Iorque, em 1965

Em Nova Iorque, gangues comunicavam óbitos, palavras de ordem, ideias,


locais de festas e territórios. Eis que as inscrições LADY PINK, ZEPHIT,
BARBARA, EVA 62 e o notável TAKI 183 tomaram conta da cidade [...] Taki
era um jovem trabalhador grego chamado Demétrius. Office boy, ele queria
ver seu nome em todos os lugares aonde fosse. Em 1971, quando o maior
jornal da cidade publicou sua entrevista, centenas de jovens seguiram o
exemplo e saíram munidos para a rua.

Desse modo, tanto pelo sentido de protesto como de resistência, jovens


de Nova Iorque e Paris; populares da Roma antiga e da Europa moderna intervieram
no espaço urbano das cidades, pichando os muros com frases e pseudônimos,
registrando suas marcas na arquitetura desses locais. No entanto, essa forma de se
expressar, pelas letras, não foi uma exclusividade europeia, pois o Brasil também foi
marcado por essas inscrições.

2.1.2Práticas de pichação no Brasil

Esse ato de pichar muros como sinal de protesto também foi utilizado no
Brasil, sendo difundido no período da ditadura militar (1964-1985), e, de acordo com
Sousa (2007, p. 10), essa “[...] prática fora utilizada como veículo de contestação do
regime e eraabsolutamente intolerada [...] pelo regime dos militares”. Frases
clássicas de “abaixo a ditadura” e outras que pregavam a luta armada como único
30

meio legítimo de combater o regime ditatorial foram anotadas publicamente na


referida época.
No entanto, Sousa (2007) observa que a partir de 1977, uma nova
modalidade de pichação surge nas grandes cidades brasileiras, em particular em
Ipanema, quando uma estranha pichação descrita como “CELACANTO PROVOCA
MAREMOTO” despertou a atenção e curiosidade da população. Assim, Sousa
(2007, p. 13)explica:

A pichação ‘CELACANTO PROVOCA MAREMOTO’ é atribuída ao jornalista


carioca Carlos Alberto Teixeira. A origem de tudo passa pelo seriado
chamado National Kid, exibido na década de 1960 [...] Um dos episódios era
sobre os seres abissais, e um deles era o peixe chamado celacanto. Num
dado momento, o Dr. Sanada, que era um dos personagens maléficos, dizia
que o ‘CELACANTO PROVOCA MAREMOTO’. E não provocava nada,
quem provocava era um submarino chamado Guilton [...] Essa história ficou
na cabeça de Carlos até 1977, quando ele bolou no caderno um grafismo
de ‘CELACANTO PROVOCA MAREMOTO’ circundado por uma moldura
com uma seta, que caía em uma gota com dois tracinhos ao lado,
mostrando que estava ‘tremendo’.

Para Sousa (2007), essa nova modalidade de pichação pode ser


entendida como “pichações poéticas”. No mesmo modelo de “CELACANTO
PROVOCA MAREMOTO”, foram feitas “RENDAM-SE TERRÁQUEOS”; “OUVINDO
A VAIA DO VENTO”; “VIOLA, O VIOLÃO” e “HENDRIX MADRAX MANDRIX”. No
entanto, o autor pontua que, dos anos de 1980 a 1990, mudou-se o formato das
pichações

Nas pichações atuais o que se observa é o desenvolvimento de uma certa


economia de tempo e tinta. Nesse processo evolutivo, a enorme frase deu
lugar a vocábulos curtos, com três a quatro letras em média. Os traços
tornaram-se, com o tempo, cada vez mais ligeiros e econômicos e o
crescimento do número de atores gerou o desenvolvimento de redes da
pichação [com] o objetivo de divulgação de uma marca pessoal (SOUSA,
2007, p. 17).

Neste sentido, as décadas de 1980 e 1990 inauguram um novo modelo


de pichação. Assim, as pichações de protesto político, característicos das décadas
anteriores àquela, não têm mais sentido, devido, em um dos fatores, ao novo
momento pelo qual o Brasil passava, ou seja, de abertura política. Esta prática
passa ser vista como a divulgação da marca pessoal do pichador e do seu grupo. As
frases longas, então,cedem espaço a frases curtas, em que apenas se registravam
os nomes do autor da inscrição e do seu grupo.
31

Os autores Sousa (2007) e Soares (2008) observam que este fato ocorreu
em virtude de uma maior repressão à prática da pichação nas grandes cidades,
tanto por parte do aparato legal repressivo, a polícia, como por parte da sociedade
civil, que passou a analisar a pichação não mais como forma de protesto, e, sim,
como uma forma de “sujeira urbana”. Já Diógenes (1998) abrange essa discussão
ao discorrer que as gangues juvenis estavam se difundindo nas grandes cidades
brasileiras entre as décadas de 1980 e 1990, e que existia uma grande competição
entre elas, sendo a pichação, aqui, um meio motivador e, também, estimulador desta
disputa.
Como consequência, a motivação para se pichar sofre alterações, tanto
por parte dos aparatos repressores como em relação aos seus novos agentes
utilizadores, jovens integrantes de gangues de rua. A juventude das grandes cidades
brasileiras das décadas de 1980 e 1990 vai experimentar uma nova forma de
sociabilidade, convívio e conflito, que é o cotidiano em “galeras” de bairros, sendo
estes os responsáveis por um novo sentido à pichação, que é o da divulgação da
sua marca e de seu grupo. Esta modificação abrangeu toda uma geração de
pichadores das décadas de 1980 e 1990, com pequenas, mas significativas,
mudanças de formato em algumas regiões do Brasil.
Como exposto anteriormente, as pichações brasileiras das décadas de
1980 e 1990 se diferenciam de períodos anteriores por utilizarem as letras com
menos frequência. Entretanto, dentro desse conjunto de pichações, há distinções,
que correspondem às peculiaridades de algumas regiões do país. Sousa (2007, p.
26-27) aponta que

Em São Paulo, em Brasília e nas capitais da região sul a pichação tem o


mesmo aspecto estético: traços extremamente retilíneos, angulares e
bastantes mais inteligíveis que os traços cariocas [...] No Rio de Janeiro a
tendência é praticamente inversa a da pichação de matriz paulista: letras
arredondadas, quase sempre ininteligíveis para os leigos e muitas vezes de
difícil decodificação até pelos entendidos, muito variada e pouco
padronizada [...] a de Vitória, capital do Espírito Santos, e nas capitais de
alguns estados do nordeste, como Recife ou Salvador [...] verificamos que
as pichações são geralmente de tamanho grande (estilo top tobottom), ao
contrário das pichações cariocas, que variam na maior parte das vezes
entre tamanho considerados médios e pequenos.

Dessa forma, as pichações no Brasil das décadas de 1980 e 1990


seguem padrões característicos de algumas regiões. Mesmo tendo como pontos
convergentes a pouca utilização das letras, observam-se alterações no formato da
32

escrita, com o uso de letras grandes, médias, pequenas; e outras que, por serem
inelegíveis, dificulta sua leitura até mesmo para aqueles que integram grupos de
pichadores.
Resumidamente, como pontuado anteriormente, a pichação foi se
transformando desde a Roma antiga, passando pelos séculos XIV, XV e XVI, como
também, nas décadas de 1960 e 1990, modificando formatos e significados. Além de
um espaço de frases longas, curtas, apelativas, emotivas ou de insultos, os muros
serviram para essas gerações como um espaço de visibilidade pública e de
sociabilidade por meio das letras.

2.1.3 Práticas de punição aos pichadores

A pichação, enquanto meio de comunicação para a sociedade ocidental


da segunda metade do século XX, não era bem vista, sendo avaliadas como
vandalismo. Seus praticantes eram tidos como marginais, entendidos, em sua
maioria, como integrantes de quadrilhas, gangues, ou usuários de drogas. Como em
outras regiões do planeta, no Brasil o ato de pichar a arquitetura da cidade não era
apreciado pelos órgãos oficiais. Por exemplo, no “[...] período da Ditadura Civil
Militar, essa prática foi combatida pela Lei de Segurança Nacional e pelo Código de
Urbanismo e Obras (Lei n° 7427/61)” (SOARES, 2008, p. 7).
Mesmo com o fim do período da Ditadura Militar, o ato de pichar
equipamentos urbanos, públicos e privados continuou sendo percebido de maneira
negativa, uma vez que a partir das décadas de 1980 e, principalmente, 1990, a
presença dos jovens no espaço urbano ocorrerá por meio da “ [...] formação de
‘turmas’, cujo objetivo, pelas vias mais diversas, é marcar presença impactante no
cenário urbano” (DIÓGENES, 1998, p. 104).
Assim, as chamadas “gangues”serão as principais responsáveis pela
prática da pichação no cenário urbano das cidades brasileiras na década de 1990,
que manifestavam visível interesse em se exibir no espaço público, sendo esta uma
das características principais dos pichadores.
Desse modo, a prática da pichação vai ser legalmente combatida por
meio de leis. A Lei Ambiental nº 9.605 de 1998, assinala que “[...] pichar, grafitar ou,
por outro meio, conspurcar edificações ou monumentos urbanos é crime passível de
33

detenção de três meses a um ano e multa [...]” (CARVALHO, 2011, p. 130), e o


Decreto nº 3.179 de 1999, estipula em seu texto,o “[...] pagamento de multas que vão
de R$ 1.000,00 a R$ 100.000,00 em virtude de pichações, grafitagem ou outras
formas que destruam o patrimônio público tombado ou não [...]” (ABRAMOVAY, 2010,
p. 112). Além disso, no artigo 163 do Código Penal está descrito que “[...] causar
dano, destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia constitui crime[...]” (CARVALHO,
2011, p. 130), sendo a pichação aqui enquadrada como ato passível de punição,
pois utiliza e danifica a arquitetura pública e privada da cidade. Desta forma,
qualquer tipo de intervenção por parte dos pichadores nestes espaços será
legalmente punida e multada pelo discurso oficial competente.
A pichação, entendida neste trabalho, é aquela praticada por jovens que
saíam às ruas para deixar gravado no ambiente urbano sua marca e a do seu grupo.
Esses grupos são intitulados pelo discurso oficial como “gangues”, que, além da
pichação, são responsabilizados por inúmeros outros atos, qualificados como
“delinquentes”, a exemplo de assaltos, uso de drogas e conflitos corporais.
O próximo tópico será direcionado para uma discussão sobre o conceito
de “gangue”, que possui um grau de aproximação e complementaridade com a
prática da pichação. Essa discussão é pertinente para que o leitor se situe com
relação à problemática do uso costumeiro do termo “gangue” atrelado à “pichação”;
bem como de suas implicações nesse contexto.

2.2 Gangues e delinquência: rixas teóricas

Neste tópico será problematizado o conceito de gangue para as ciências


humanas. A importância se dar na medida em que há um entendimento de que a
materialidade de um objeto começa a ser criada a partir de seu conceito. Partindo
deste pensamento será apresentado os usos e abusos deste conceito e sua
associação com a delinquência e a marginalidade.

2.2.1 As gangues na literatura norte-americana

O dicionário Oxford (1999) conceitua gangue como “bando, quadrilha,


turma”, tendo como sinônimo gangster, ou seja, “criminoso, assassino, ladrão,
34

malfeitor” (BUENO, 2000). Nesse sentido, pela conceituação geral e legitima, o


termo traz toda a marca de marginalidade e delinquência atribuídas às ações dos
integrantes destes grupos.
Para além dos léxicos, o sentido de criminalidade atribuído ao conceito
“gangue” encontra seus primórdios na literatura norte-americana. Como pontua
Andrade (2007, p. 18), o estudo internacional sobre as gangues teve sua ocasião
oportuna nos anos de 1920, com a Escola de Chicago, tendo seu contexto na

[...] segregação espacial, social e cultural, a crise motivada pelo


enfraquecimentodos valores, da moral e dos costumes tradicionais da
população pobre imigrada, enfim, o gradual declínio das formas tradicionais
de regular normas e comportamentos, seriam responsáveis pela formação e
multiplicação de gangues, que surgem como uma resposta dos jovens
provenientes de meios desfavorecidos e de famílias com dificuldades de
integração à sociedade ampla à essa desorganização ambiente. Além
disso, as gangues expressariam a busca de uma identidade social, sendo
que suas formas de funcionamento, de pertencimento e posicionamento dos
jovens a elas, bem como os jogos derivalidade, constituir-se-iam em vetores
de uma identidade de substituição,criadora de uma cultura que poderia
favorecer a delinquência [...]

A Escola de Chicago dos anos de 1920 a 1940, no que tange à


problemática das gangues, priorizou um modelo de estudo pautado na sociologia da
delinquência juvenil, em que as ações dos integrantes destes grupos deveriam ser
explicadas a partir de um esquema de causas e consequências para a sociedade
norte-americana. Assim, o início dos estudos sobre gangue na literatura dos EUA
enfatizava as temáticas das “[...] delinquências juvenis, pobreza, segregação
espacial e étnica” (ABRAMOVAY, 2010, p. 54), enquadrando esses agrupamentos
jovens na categoria de marginalidade e criminalidade.
Nos estudos sobre gangues norte-americanas, o antropólogo Martín
Jankowski (1997, p. 28) faz uma análise das principais características atribuídas a
esse agrupamento jovem. Assim, é apontado que essa temática pode ser distribuída
em dois segmentos “Os que consideram as gangues como resultado dos atributos
específicos de seus membros e os que [as] descrevem pelas diversas formas de
ação criminosa ou ‘desviante’ praticadas por seus membros”.
Os que consideram que as gangues são “[...] resultados específicos de
seus membros” (JANKOWSKI, 1997, p. 29), defendem que elas seriam uma

Coleção de indivíduos tão privados de identidades que precisavam


participar ativamente de um grupo capaz de lhes proporcionar uma
35

autoestima positiva e de ajudar a desenvolver uma identidade social.


[Defendem também que] as pessoas de pouca inteligência tendem a
ingressarem [nas] gangues porque são menos capazes de vencer na vida
com os meios convencionais e porque têm menos opções de vida (Ibid., p.
30).

Esta visão sobre as gangues defende ainda que elas “[...] reúnem
indivíduos sádicos que extravasam seus instintos por meio da violência”
(JANKOWSKI, 1997, p. 29.). Outro ponto abordado é a falta de uma perspectiva
escolar e a ociosidade no tempo livre apontada pelos integrantes destes
agrupamentos jovens, que, ao renunciarem à escola, têm o tempo preenchido com
atividades descritas como típicas de gangues.
Jankowski (1997) percebeu que os argumentos alusivos à formação de
gangues norte-americanas consideram também que suas origens estão
relacionadas à desestruturação das famílias:

Essa visão sustenta que as pessoas ligam-se às gangues porque foram


privadas da proteção e dos cuidados de uma família nuclear com o pai e a
mãe presente [não conseguindo] apoio necessário à formação de um ego
positivo (isto é, carecem de um modelo masculino ou feminino adequado),
porque não tiveram condições financeiras de lazer, porque não tiveram boas
companhias e ajuda nos trabalhos escolares (JANKOWSKI, 1997, p. 30).

Na segunda categorização, que entende as gangues como grupos que


praticam ações criminosas, compreende-se o seguinte:

A maior parte das pesquisas tende a definir as gangues como uma


associação fracamente estruturada de indivíduos que cometem atos
delituosos ou crimes. Esses atos podem ser de natureza econômica ou ser
violentos, mas o que distingue tais agrupamentos de outras formas de
associações é o rótulo de ilegalidade colada a esses atos (ibid., p. 30,
grifo nosso).

Neste sentido, percebe-se que os argumentos referentes às


conceituações de gangues apresentados pelo antropólogo norte-americano
Jankowski (1997) remetem à noção de marginalidade, delinquência e desvio social.
Assim, as conclusões associadas à gangue se resumem aos seguintes
pensamentos: entra-se numa gangue a fim de buscar uma identidade; gangue como
uma reunião de pessoas sem um nível de inteligência considerável; reunião de
indivíduos sádicos; união de jovens sem perspectiva de estudos ou um agrupamento
juvenil de famílias desestruturadas. Enfim, atributos que denotam um sentido de
exclusão à ordem legítima.
36

Outros pesquisadores norte-americanos abordam a temática gangue


nesta mesma linha de delinquência urbana (DIÓGENES, 1998). Nesse sentido,
Spergel e Curry (1990) dividem as gangues em: de rua, juvenis tradicionais e posse
crew10, tendo em comum nesses três tipos o caráter da:

[...] coletividade de pessoas envolvidas em um número significativo de


atividades ilegais ou criminosas, essencialmente ameaçadoras e violentas;
aliado a isso, para que se distinga um grupo como gangue seria necessário
haver uma reação da sociedade a julgar as atividades do grupo como
legítimas ou ilegítimas, criminais ou não. (SPERGEL; CURRY, 1990 apud
ABRAMOVAY, 2010, p. 56).

Conforme apresentado, surge a avaliação feita pela sociedade sobre as


ações desses grupos jovens, a fim de categorizá-los como gangues. Desse modo, a
gangue só seria reconhecível se seus integrantes estivessem envolvidos em um
número considerável de atos ilegais e se tais práticas fossem julgadas como
reprováveis pela sociedade.
Em outra linha de pensamento, tem-se a conceituação de gangue feita
por Huff (1993), que reconhece nesses grupos

[...] uma coletividade formada primordialmente de adolescentes e jovens


que: 1) interagem uns com outros com certa frequência; 2) encontram-se
habitual e deliberadamente envolvidos com atividades ilegais; 3)
compartilham a mesma identidade coletiva [...] e 4) essa identidade seria
expressa por símbolos e/ou declaração de controle sobre uma determinada
quebrada (pessoas, lugares, coisas e/ou mercados econômicos) [...] (HUFF,
1993 apudABRAMOVAY, 2010, p. 57).

Por essa compreensão, os integrantes das gangues são inseridos num


universo de simbologia e de posse. Aqui, o caráter da criminalidade e do “desvio”
permanece, mas é enquadrado em um contexto mais amplo e heterogêneo de
atividades. Neste mesmo horizonte, encontra-se o entendimento de Jankowski (1990
apud ABRAMOVAY, 2010, p.56), que assim caracteriza as “gangues”

[Na gangue] haveria uma forma de ideologia, um conjunto de crenças que


dariam aos seus membros 1) uma visão de mundo; 2) uma interpretação
deste mundo; e 3) uma justificativa da superioridade desta visão de mundo.
[Também seria adotada] uma ideologia organizacional, referente a unidade
e identidade, fundamentais no desenvolvimento de uma noção de
irmandade.

10Caracterizada “[...] pelo comprometimento com uma atividade criminal para ganho econômico,
particularmente o tráfico de drogas” (ABRAMOVAY, 2010, p. 56).
37

Como já apresentados, os argumentos de Jankowski (1997) se


apresentam como uma análise das várias conceituações de gangue disponíveis até
aquele momento na literatura norte-americana. Posteriormente, a gangue é vista por
ele como um grupo composto por códigos de identificação, que dariam um sentido
de pertencimento a este tipo de coletividade. Assim, a gangue seria formada por um
conjunto de valores, configurando um ethosgangueiro (ABRAMOVAY, 2010).
Dessa forma, na literatura norte-americana, a temática gangue é formada
por argumentos discordantes/complementares. Ora é vista como um agrupamento
criminal, dotado do estigma da delinquência e da marginalidade, ora como uma
coletividade jovem composta de simbologias e valores.

2.2.2 A temática gangue na literatura latina americana.

As gangues na América Central têm denominações especificas por


região, a saber: padillas na Nicarágua, maras em países como El Salvador,
Guatemala e Honduras, e bandas no território mexicano. As chamadas “gangues”,
nesses países, seriam decorrência de inúmeros fatores, como:

a) o processo de exclusão social; b) a cultura da violência; c) o crescimento


urbano [desorganizado]; d) a migração [para países como os Estados
Unidos com a posterior deportação]; e) a dinâmica da violência; f) a
desorganização comunitária; g) a presença de drogas; h) famílias
problemáticas; i) amigos e companheiros membros de padillas [maras ou
bandas]; j) a dificuldade de construção da identidade pessoal
(ABRAMOVAY, 2010, p. 66).

Nota-se que em todos os atributos está explícita a noção de


marginalidade, delinquência e de desvio atribuídos a esses agrupamentos. A noção
de desvio aqui está associada à falta de algum atributo que coloque esses grupos no
âmbito da ordem, por vários motivos, dentre os quais a falta de uma família
estruturada, de uma identidade formulada ou de uma organização comunitária.
Nesta linha de pensamento, as padillas são agrupamentos relacionados
ao comportamento “delinquente” e “criminoso”. A filiação a um grupo denominado de
padilla se manifestaria “[...] com frequência por meio da utilização de signos,
tatuagem, colares, determinadas peças de vestir e certos tipos de linguagem [...]”
(ABRAMOVAY, 2010, p. 63). Assim, as padillas seriam uma fusão de identidades
relacionadas ao crime e à simbologia de objetos (COSTA, 2011).
38

Já as “maras” agiriam sob uma lógica de demarcação/dominação


territorial e simbólica. As “maras” são “[...] portadoras de um poder paralelo que
destrói a oposição binária entre legal e ilegal [transformando essa realidade de
exceção no] cotidiano” (ABRAMOVAY, 2010, p. 64). Esse modelo de grupo é
formado, principalmente, por:

Jovens filhos de centro-americanos que viviam em Los Angeles e que


voltaram para os seus países principalmente por falta de documentação. [O
controle territorial desses grupos] ocorria muitas vezes para cometer crimes
contra a propriedade e contra pessoas, [tendo com uma das características
as] disputas (simbólicas e físicas) de território – tanto com a polícia como
com os membros do grupo contrário (ibid., p. 65).

Neste sentido, as “maras” são formadas em sua maioria homens, que


migraram para os Estados Unidos. Lá, tiveram que ensaiar uma espécie de
“identidade de defesa” contra outros agrupamentos de imigrantes, mantendo essa
identidade de grupo no retorno aos seus países de origem, tendo que se readaptar
às condições socioeconômicas e culturais, uma vez que eles eram percebidos como
uma junção das culturas norte-americana e latino-americana.
Nessa perspectiva, as formações das maras são uma resposta aos
sentimentos de insegurança e de marginalidade que esses agrupamentos de
pessoas experimentaram tanto nos Estados Unidos como no retorno aos países em
que nasceram (COSTA, 2011).
Por fim, têm-se os grupos latino-americanos denominados “bandas”. Elas
corresponderiam “[...] fundamentalmente a uma associação defensiva utilizada por
jovens para enfrentar as diversas condições críticas de suas vidas” (ABRAMOVAY,
2010, p. 66), tendo suas identidades experimentadas e atualizadas por meio do
entendimento sobre territorialidade e, também, por meio do compartilhamento de
momentos dedicados ao entretenimento, com atos legais e ilegais. Assim, as bandas
refletiriam a situação da falta de oportunidade desses jovens no mercado de trabalho
formal e de uma escolarização básica (ABRAMOVAY, 2010).
Conforme apresentado, os fatores motivadores para a formação das
padillas, maras e bandas estão relacionados à noção de “desvio” e de
marginalidade. É visível nestes agrupamentos, pelos argumentos mencionados, a
ausência de um fator que enquadrariam seus integrantes no discurso da ordem e do
equilíbrio.
39

2.2.3 As gangues na literatura brasileira: entre a delinquência juvenil e o imaginário


da violência

A temática gangue no Brasil possui determinadas divergências com


relação as realidades norte-americana e latino-americana. Neste sentido, Andrade
(2007, p.23) frisa que

As gangues que marcam sua presença o nosso cenário urbano, ao contrário


das gangs estadunidenses, não conduzem negócios com características
empresariais. Geralmente têm, como as gangs, uma demarcação territorial,
liderança definida, interação recorrente e engajamento em comportamento
violento como práticas fundamentais de estruturação distintiva, mas não
objetivam exatamente assegurarem aos seus integrantes um meio de vida
permanente, com possibilidade de mobilidade social pelos ganhos advindos
de práticas delinquentes e ilícitas. Tanto que os jovens integrantes das
nossas chamadas gangues [...] se têm comportamentos transgressores e
engajam-se em atividades ilegais, o fazem de forma passageira e não
acumulam recursos, costumando abandonar essas práticas na idade adulta.

Reforçando a tese de Andrade (2007), a autoraAbramovay (2004, p. 94)


segue pontuando que

No Brasil, quando nos referimos às gangues, não estamos falando de


organização, de um negócio com características empresariais, de uma
racionalidade instrumental que possibilitaria a mobilidade social dos jovens
[características das gangues norte-americanas]. Também os critérios gerais,
tradicionalmente definidores de uma gangue em pesquisas americanas –
estrutura formal de organização, hierarquia, lideranças definidas,
identificação com um território, interação recorrente, longevidade e
engajamento em comportamentos violentos –, não são obrigatoriamente
transponíveis para a [realidade brasileira].

Percebe-se que, pelas conceituações de gangues brasileiras formuladas


por Andrade (2007) e Abramovay (2004), elas têm semelhanças e diferenças
quando comparadas às gangues dos Estados Unidos. Isso porque as gangues em
território brasileiro não são examinadas com finalidades empresariais, como uma
organização planejada a partir de uma racionalidade referente à mobilidade social de
seus membros e, tampouco, como um grupo que permita aos seus integrantes uma
longevidade, uma vida dedicada à organização.
Assim é que as “gangues” no Brasil possuem as características da
violência física, do estigma social da marginalidade e do vínculo de identificação
entre seus membros. Mas tais particularidades são dissolvidas (ou readaptadas) no
40

decorrer das épocas, porque seus membros não possuem o laço de longevidade no
grupo.
Assim, os atos delinquentes dos jovens das gangues brasileiras são
efêmeros e são cessados quando o indivíduo atinge a faixa etária adulta. Entretanto,
apesar dos aspectos particulares no contexto nacional das teorizações sobre as
gangues, permaneceu o estigma da delinquência e da marginalidade presentes nas
realidades norte-americana e latino-americana.
Pesquisando sobre gangues na realidade da cidade de Fortaleza/CE,
Marinho e Bezerra (2008, p. 5) traçam um quadro de causas motivadoras para o
aparecimento deste tipo de agrupamento jovem, tomando como referência seu
espaço de análise. Assim, por suas investigações, tem-se que

[...] as gangues se proliferam em lugares onde a ordem social estabelecida


foi quebrada e onde faltam formas alternativas de comportamentos culturais
comum. Verifica-se também dentre outros fatores: ausência de
oportunidade de mobilidade social, declínio local na aplicação da lei,
escolaridade interrompida, ausência de orientação e apoio familiar,
vitimização em casa e associação com colegas já envolvidos em gangues.

Pelas argumentações de Marinho e Bezerra (2008) percebemos que às


gangues são atribuídas as noções de “desvio” como consequências da ausência de
vários itens, dentre eles, citam-se: escolarização adequada, família estruturada,
práticas culturais que ocupem esses jovens, colegas/amigos que não agem em
desconformidade com normas sociais tidas como aceitáveis e aplicabilidade das leis
brasileiras no que tange às punições para atos de delinquência.
Somado a estes fatores, Marinho e Bezerra (2008) sinalizam que para a
formação desse tipo de turma de jovem são necessários outros aspectos, a saber, o
período de conflito característico da adolescência e a realidade socioespacial de
uma localidade. Desse modo, a adolescência é vista como um período de conflitos,
de busca por uma identidade, que só se agravam com a configuração da realidade
social e espacial da localidade onde estão inseridos (COSTA, 2011). Neste quadro,
o jovem é integrado em um contexto de vulnerabilidade social, definida “[...] por
múltiplos fatores que vão desde aspectos de natureza econômica e política até a
fragilização dos vínculos afetivo-relacionais, de pertencimento social, territorialidade
e outros[...]” (MARINHO; BEZERRA, 2008, p. 12).
41

Nesta configuração, o adolescente encontra-se em uma situação


classificada como desfavorável para que ocorra um desenvolvimento “saudável” e
sistemático em termos etário e social. Assim é que o jovem é compreendido como
ocupante assíduo da fronteira marginal atribuída ao universo das gangues. Porém,
como já enfatizado nas análises de Marinho e Bezerra (2008, p.12), as condições
espaciais também se configuram como caminhos motivadores para a formação das
gangues, pois “[...] alguns especialistas consideram o espaço urbano a própria
causa da chamada violência urbana [devido aos fatores de] uma infraestrutura
precária de vida, impessoalidade das relações nas grandes metrópoles,
desestruturação familiar e baixa oferta de emprego”.
A prática da violência deve ser entendida, por esta perspectiva, como
uma das características das gangues na cidade de Fortaleza. Sendo assim, o
espaço urbano, com todas as suas características de (infra)estrutura
socioeconômica insuficiente, é entendido como outro fator facilitador de formação e
desenvolvimento de grupos jovens praticantes de atos delinquentes, isto é, as
gangues. Conforme visto, o fator “falta de”, presente nas literaturas sobre gangues
norte-americanas e latino-americanas, reaparece nas análises de Marinho e Bezerra
(2008), agora inseridos na realidade brasileira.
Em complementaridade aos argumentos dos autores supracitados,
Andrade (2007) aponta os fatores família desestruturada e conflitos típicos da
adolescência como fatores que os influenciam na integração às gangues. É nesta
perspectiva que

As gangues atraem adeptos que constituem fortes laços de solidariedade,


pautada principalmente nos sentimentos de fraternidade, lealdade e
fidelidade, na motivação de responder pelo coletivo [...]. Esta ‘família de rua’
é percebida com uma comunidade emocional que ampara, apoia e dá
proteção em situações nas quais a ‘família de casa’ não pode intervir,
mesmo porque sempre desconhece as inquietações dos jovens, que são
abertamente discutidas nesse outro cenário de socialização (ANDRADE,
2007, p. 144).

Nota-se que a autora averigua os aspectos emocional e psicológico do


contexto jovem, a fim de responder o porquê aquele indivíduo se torna membro de
uma gangue. Aqui, a gangue é entendida como uma comunidade emocional, sendo
ora a substituição ora o complemento da “família de casa”. É importante pontuar que
mesmo Andrade (2007) resumindo a gangue como uma comunidade emocional, em
42

nenhum momento a autora descarta a possibilidade de existência de atos analisados


como delinquentes e desviantes examinados em integrantes desse grupo.
Abramovay (2004; 2010) é outra pesquisadora que trata da temática
“gangue”. Para esta autora, essa classificação de agrupamento jovem seria
conceituado como “[...] grupos mais ou menos estruturados que desenvolvem desde
atividades lúdicas até atos de delinquência, cujos membros mantêm relações de
solidariedade à base de uma identidade – ainda que incipiente – compartilhada”
(ABRAMOVAY, 1999, p. 95 apud Ibid., 2010, p. 67).
Abramovay (2010) enfatiza a gangue como um grupo que desenvolve
atos delinquentes, mantendo um nível de solidariedade entre seus membros,
configurando-se como um dos vetores de identidade deste grupo. Seguindo este
pensamento, Abramovay (2010, p. 69) aponta outro aspecto de identificação destes
agrupamentos, onde descreve que “ As gangues brasileiras são marcadas por uma
organização atravessada por rituais regidos por valores compartilhados que dariam
uma certa ‘ordem’ ao grupo, fazendo com que determinadas atitudes se tornassem
relativamente previsíveis”.
Assim, as gangues no Brasil são caracterizadas por um conjunto de
rituais que forneceriam uma ideia de valores para estes grupos. Por ter essas
características, algumas condutas dos integrantes destes grupos já seriam
previsíveis, pois seriam relacionadas à concepção de “ordem” e “equilíbrio” destes
agrupamentos.
Desse modo, estudando exemplos de atividades das gangues
pesquisadas por Abramovay (2010), pode-se perceber que pichar equipamentos
urbanos públicos, praticar “guerras” entre turmas, matar, furtar, roubar e usar drogas
ilegais seriam enquadrados nesses sistemas de identificação de uma gangue, tendo
em vista que estão estipulados como valores de “equilíbrio” e “ordem” para essa
modalidade jovem.
Neste caminho de raciocínio, Andrade (2007, p.15) enfatiza o aspecto
territorial das gangues, abordando que:

[as gangues seriam] turmas de jovens com estrutura relativamente


territorializada reunidas em torno de interesses geralmente alheios à
violência, mas que, além de não estarem livres de praticar atividades ilícitas
e atos violentos, costumam manter rivalidades com outros grupos.
43

Assim, as gangues teriam como forma de domínio o território, sendo que


seria nesse local, e por essa noção de posse, que aconteceriam grande parte dos
atos de violência atribuídos a estes grupos. A concepção de territorialidade nas
gangues não elimina ocaráter de delinquência atribuído aos seus membros; apenas
especifica o tipo de delinquência empregada que, agora, tem um sentido,
relacionado à defesa de sua área de domínio, empregando nestas lutas atos
truculentos, o que poderia caracterizar esses grupos como “desviantes”.
A literatura brasileira sobre a temática “gangue” também tem outros
estudos sobre a formação destes grupos, cujo surgimento seria associado às
realidades das favelas cariocas. Nesta senda, em um trabalho realizado com
“galeras” da cidade do Rio de Janeiro, Zaluar (1997) pontuou que as “gangues”
cariocas teriam como componentes básicos uma chefia instituída, com regras e
rituais bem explícitos no grupo, em bairros tidos como periféricos, tendo aí as
escolas de samba e os times de futebol como uma forma de aproximar ou distanciar
esses grupos.
Deste modo, as gangues cariocas teriam suas origens vinculadas à
realidade das favelas, bem como do momento de euforia do Carnaval e das
rivalidades entre clubes futebolísticos. Elas também teriam como características uma
liderança instituída com regras, rituais e atividades ilícitas. Desse modo, elas se
configurariam como inseridas no campo da “marginalidade” brasileira.
Em continuidade às observações sobre as gangues no Brasil, têm-se as
análises de Diógenes (1998). Na reflexão sobre o sentido da violência para a
sociedade ocidental, a autora enfatiza o papel das Ciências Humanas como
construtoras e reprodutoras de um imaginário acerca desta temática. Sendo assim, a
dinâmica de funcionamento e estruturação da sociedade “[...] têm quase sempre se
constituído tendo por base dualizações: as margens em relação à centralidade; o
desvio contraposto à normalidade; a contra-cultura à cultura dominante; o singular
ao universal” (DIÓGENES,1998, p. 74).
Nesse contexto referente ao funcionamento e estruturação social, as
Ciências Humanas vão eleger como campo de observação a “anormalidade”, ou
seja, os comportamentos classificados como distintos aos da dita “normalidade”.
Neste sentido, “A ‘marginalidade’, os ‘desviantes’, os precursores de uma contra-
cultura, fragmentos particulares de experiência social, expõem modos de
44

sociabilidade considerados não ‘integrados’ à dinâmica social mais ampla”


(DIÓGENES, 1998, p. 74).
Por apresentarem características não reconhecíveis pela “normalidade”,
faz-se necessário analisar os “desviantes”, a fim de inseri-los em algumas das
categorias diferentes deste padrão. Dessa maneira, a “[...] normalidade” é entendida
como o ‘centro’, como lugar da ordem[...]” (DIÓGENES, 1998, p. 74), sendo os outros
acontecimentos situados “nas ‘margens’ da vida social” (ibid.,p. 75).
Nessa heterogeneidade marginal do convívio social, surge com ímpeto a
realidade da violência. Ela é “[...] apresentada como uma parte estrangeira da
experiência social, uma ameaça ao consenso, um arcaísmo social a ser eliminado.”
(RIFIOTIS, 1997, p. 1 apud DIÓGENES, 1998, p. 75). À violência é projetado o
medo da “não-unidade” (DIÓGENES, 1998), ideia tão corrente no imaginário
ocidental que privilegia os ideais de ordem e equilíbrio. Dessa forma, a figura
marginal do ato violento se apresenta como uma experiência longínqua do cenário
social, que aspira ao contexto equilibrado.
Utilizando o entendimento sobre violência no campo do “desvio” e da
“marginalidade”, a Escola de Chicago, dos anos de 1920 aos de 1950, enquadrou os
agrupamentos jovens, ditos como violentos, na categoria de delinquência. Como
pontuado por Diógenes (1988, p.83)

A Escola de Chicago introduz, na sociedade americana dos anos 50, a


discussão acerca das denominadas ‘subculturas da delinquência’ [e vai
refletir sobre] os ‘problemas de ajustamentos’ de segmentos delinquentes,
partindo do pressuposto de que a agressividade desses atores se dá devido
a uma ‘frustração de status’. [Dessa forma] as ‘subculturas’ colocam-se
como ‘atraso’ na dinâmica homogeneizadora da ‘cultura de massa’

É desse modo, que as chamadas “gangues” serão estudadas nas


perspectivas da “[...] delinquência juvenil, [da] pobreza, [da] segregação espacial e
étnica” (ABRAMOVAY, 2010, p. 54).
Assim, será necessário formular teorizações que configurem um cenário
inteligível de causas, consequências, prevenções e soluções para esse tipo de
agrupamento jovem, que utiliza a tática da violência para se tornar visível nos
espaços urbanos.
Consoante o apresentado sobre a violência, a sua prática é vista no
imaginário ocidental como marginal, desviante, fora da normalidade e da ordem,
45

porque fere o conceito de equilíbrio social (Costa, 2011). Entretanto, a prática da


violência não se constitui como algo independente, pois necessita dos praticantes ou
adeptos; aqui, é inserida a representação do jovem, que teve várias conotações no
imaginário ocidental ao longo do século XX. Assim,

A juventude constitui-se como categoria social, no que tange à definição de


um intervalo entre a infância e a vida adulta, apenas no final do século XIX,
ganhando contornos mais nítidos no início do século XX. A juventude é uma
invenção moderna, sendo, desse modo, tecida em um terreno de
constantes transformações (DIÓGENES, 1998, p. 93).

A juventude, nessa observação, constitui-se como categoria social a ser


estudada em período próximo ao das gangues; ambas relacionadas nas teorias
sociais. Assim como as práticas da violência e das gangues, à juventude também é
assegurado um imaginário que, mais especificamente nas últimas cinco décadas do
século XX, está “[...] profundamente condensado por referentes da esperança, de
renovação social combinados à ideia de risco e de ameaça que esses próprios
referentes sinalizam” (DIÓGENES, 1998, p. 95).
Desse modo, os jovens, no imaginário ocidental do século XX, são
caracterizados como referências para a esperança e o risco. Logo, o imaginário do
risco, como derivado do comportamento juvenil, prevaleceu na categorização destes
como delinquentes e desviantes, principalmente nas décadas de 1980 e 1990,
quando “[...] a presença dos jovens no cenário urbano vai ser marcada pela
‘agressividade real e simbólica do seu comportamento’[...]” (ibid.,p. 103). Dessa
maneira, as gangues são rotuladas como delinquentes porque delas participam
jovens e, também, porque a elas são atribuídas práticas de atos tidos como
violentos.
Para Diógenes (1998), a conceituação de “gangue” traz, historicamente, a
representação da marginalidade e do desvio, tão presente no imaginário ocidental.
Já a formação destes agrupamentos teria suas especificidades de acordo com a
realidade socioeconômica e espacial de um bairro, cidade ou país. Assim, analisa
que esses grupos surgiram “[...] em meados dos anos 80, de forma mais visível no
final desta década [nos] bailes funk[...]” (DIÓGENES, 1998, p.104). Já Zaluar (1997)
observa que os agrupamentos jovens cariocas teriam suas origens nas realidades
das favelas e num contexto de festividade carnavalesca.
46

Os bailes funk se tornaram ambientes motivadores para a formação de


agrupamentos jovens a partir do momento em que se tornaram visíveis nos espaços
públicos

No final dos anos 80, os bailes extrapolam os espaços da periferia. É nesse


momento que se observa a formação de uma diversidade de galeras de
jovens, representando os espaços de moradias como forma de se ‘destacar’
e disputar o respeito de outras galeras. (ZALUAR, 1997, p. 104)
Dessa forma, os bailes funk se transformaram em locais de visibilidade
pública (DIÓGENES, 1998) ao extrapolarem os espaços privados dos bairros, sendo
este o contexto de formação das galeras/gangues de Fortaleza/CE. Assim, as
noções de visibilidade pública dos agrupamentos jovens, bem como a de gangue
como conceituação decorrente do imaginário ocidental sobre a violência e os jovens,
serão essenciais para o entendimento deste trabalho. Mas é necessário avaliar
outras abordagens, que contribuam com o debate acerca da questão da juventude
como categoria construída historicamente.

2.3 Juventude: escritas de sonho e risco

Para se entender a experiência juvenil dos pichadores como prática de


sociabilidade no espaço urbano, é importante fazer uma revisão histórica de como
foi construída socialmente a imagem da juventude na realidade ocidental. Assim, a
representação do “jovem” como figura autônoma recebe legitimidade no final do
século XIX e ao longo do século XX, quando várias medidas governamentais
impulsionaram esta mudança, como as que ocorreram em “1899 [...] no direito
britânico, [com] a proibição de encarcerar menores de 16 anos ao lado de adultos,
em 1908, se instaurou os tribunais de menores; foram medidas que refletem o
reconhecimento social de uma nova faixa etária, entre a infância e a idade adulta”
(FEIXA, 2006, p. 04, tradução nossa) 11.
Na construção do jovem como uma categoria autônoma foi marcante,
também, o desenvolvimento da instituição escola, que homogeneizou as pessoas
por faixa etária. Conforme o exposto pelo autor

No período pós-guerra, quando o alongamento da permanência dos jovens


e das jovens em instituições educacionais e a aparição do ‘consumidor

11 Todas as citações diretas a CarlesFeixa (2006), colocadas neste trabalho, são traduções livres do
original em espanhol.
47

adolescente’ consagra o nascimento de uma nova classe de idade nos


países industrializados [...] a escola secundária se converte no centro da
vida social de uma nova categoria de idade: o adolescente. A escola não só
oferecia uma cultura acadêmica, mas um espaço de sociabilidade composta
por uma série de rituais [...] em definitivo, era ‘uma cidade dentro da cidade’,
em que a idade era muito mais importante que a classe (FEIXA, 2006, p.
9,tradução nossa).

Seguindo esta linha de raciocínio, Canevacci (2005, p.22) pontua que


“Um elemento posterior de inovação caracterizará ‘os jovens’ como traços decisivos
da contemporaneidade: a escola de massa [que] separa um segmento interclassista
da população, da família e da produção”.
De modo geral, a escola “de massa” (CANEVACCI, 2005) é investigada
por esses dois pesquisadores como um fator essencial para a configuração histórica
do “ser jovem”. A escola é assim vista porque desagregou, pela idade, uma parte da
população e a posicionou em um único local, propiciando, assim, o surgimento de
um “espaço de sociabilidade” (FEIXA, 2006) e de identificação entre esses sujeitos.
No entanto, a escola de massa não é o único fator de configuração
histórica da imagem do jovem. Canevacci (2005, p.22) destaca mais dois fatores que
se desenvolveram no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, como a mídia e o
espaço da metrópole, que assim são citados:

As culturas expressas e veiculadas pelos meios de comunicação social que


então estavam nascendo, que terão como principais sujeitos de consumo
justamente os jovens [...] [Sendo assim] a mídia (discos, rádios, cinema)
produz um novo tipo de sensibilidade e de sexualidade, modos de estilos de
vida, valores e conflitos [enquanto que] a metrópole se difunde como
cenário panoramático repleto de signos e sonhos.

Como concluiu Canevacci (2005), é no cruzamento desordenado desses


três fatores - escola de massa, mídia e metrópole - que será constituída a
conceituação sociológica do jovem. Assim, “[...] em termos sociológicos, a faixa
etária chamada ‘jovem’ é recente. Nasce, grosso modo, nos anos 1950”
(CANEVACCI, 2005, p. 20).
Entretanto, como já abordado por Diógenes (1998), nos trabalhos
relacionados aos jovens, predominaram aqueles que os categorizavam como
“delinquentes” e “desviantes”. Dessa forma, da década de 1960 aos dias atuais, “[...]
tem-se uma visão da juventude como agente de difusão de ‘costumes típicos do
mundo às avessas’, como personagem mobilizador de tensão social”. (DIÓGENES,
1998, p. 98).
48

Outro aspecto apontado sobre a população juvenil é a noção de rebeldia


vista como sinônimo de contestação às ordens vigentes. Segundo HalmicarJúnior
(2008, p. 67- 68), essa característica vai ser inserida no seguinte contexto:

A revolução socialista na China, a guerra da Coréia, a descoberta do


totalitarismo e dos massacres no socialismo soviético, as lutas contra o
colonialismo no norte da África e na América Latina, principalmente a guerra
da Argélia e a Revolução Cubana na década de 1950, espraiaram-se ao
longo dos anos 60 com as manifestações de massa contra a guerra do
Vietnã, as lutas pelos direitos humanos e igualdade racial nos Estados
Unidos, os movimentos estudantis no ‘maio de 68’ na França e na
Primavera de Praga. Acenava-se para uma possível ‘rebelião mundial’ com
a cara da juventude.

A esses eventos somam-se as várias formas de contestação às ditaduras


militares nos países da América Latina; inclusive, no Brasil. Assim, o rótulo de
“juventude rebelde” e revolucionária tem um contexto de objeções às guerras e à
política. Nessa discussão, Diógenes (1998, p. 98) aduz que:

Pode-se afirmar que até o final dos anos 60, seja pelo foco do desvio que
marcou a Escola de Chicago, seja pelo teor transformador/revolucionário
que marcaram as análises das manifestações estudantis, seja pela ideia de
fomentadora de uma contracultura e de crise social, a juventude está
profundamente associada ao referente da rebeldia.

Em alteridade à noção de rebeldia, a geração jovem das décadas de 1970


e 1980 é caracterizada pelo referente da “alienação” (DIÓGENES, 1998, p. 99).
Esse entendimento se deve ao fato de que

Nos anos 70 e principalmente durante toda a década de 80 os jovens se


organizaram em torno de movimentos culturais e se apresentaram
socialmente como difusores de estilos de vida centrados na música, no
lazer e no consumo de produtos identificados com a cultura juvenil.

Nesse período que se desenvolvem as culturas punk12, Skinheads13,

12 Esse estilo cultural surgiu em Londres em meados dos anos 70. Essa cultura jovem tem como
característica estética o vestuário com as calças jeans justas, rasgadas, jaquetas de couro, coturno,
tênis converse, correntes, os cortes de cabelo no estilo moicano ou um pouco comprido e uma
agressividade simbólica, para a sociedade daquele espaço, ao usarem símbolos nazistas e
comunistas. Sua filosofia baseava-se no lema “faça você mesmo”, como crítica à política vigente
naquele contexto. (SOUSA; FONSECA, 2009).
13Skinhead (em inglês: Cabeça raspada) é uma cultura jovem originária da classe operária no Reino

Unido no final dos anos 60, e mais tarde espalhada para o resto do mundo. No contexto do
desenvolvimento da cultura Skinhead, a Europa estava passando por uma crise econômica, com
altas taxas de desemprego, que foi acentuada com a inserção de minorias étnicas, sobretude do
norte da África. Como característica de vestuário, tem-se a cabeça raspada, calças com
suspensórios, botas, coturnos e jaquetas (ARAÚJO, 2005).
49

darks14, dentre outras. São manifestações culturais que privilegiam o


pluralismo de estilos de roupas, cabelos, músicas e danças, (re)produzindo a moda
da cultura de massa, sendo o consumo um meio para se atingir o objetivo único, que
seria viver o presente, o hoje e o agora (COSTA, 2011).
Essa ideia de se “aproveitar o momento” também se observa na geração
jovem da década de 1990, que vai ter como complemento a “[...] necessidade de
formação de ‘turmas’ cujo objetivo, pelas vias mais diversas, é marcar presença
impactante no cenário urbano [...]” (DIÓGENES, 1998, p. 104). Nesta linha, essa
noção de formação de grupos com a finalidade da visibilidade pública, bem como de
se usufruir do presente, são marcas das gerações jovens dos anos 1970 a 1990.
Dessa forma, com o objetivo de evitar a separação do objeto de estudo,
no caso a pichação, do seu agente praticante, o jovem, será realizada a seguir uma
revisão bibliográfica sobre a temática “juventude” nas Ciências Humanas e Sociais,
pontuando os aspectos mais pertinentes para este trabalho.

2.3.1 A juventude na teoria das Ciências Humanas

Entre as décadas de 1920 a 1980, os estudos sobre juventude se


concentravam em problematizar e comprovar o grau de marginalidade, delinquência
e de risco que esse segmento social trazia para a sociedade (DIÓGENES, 1998).
Assim, foram os trabalhos feitos pela Escola de Chicago das décadas de 1920 a
1940, e outros trabalhos acadêmicos da década de 1960 e 1970, que propuseram
uma argumentação sobre o “Maio de 1968” (JÚNIOR, 2008).
A primeira abrangente teorização das Ciências Humanas e Sociais sobre
o “ser jovem” e sua sociabilidade foi realizada pelo sociólogo francês Michel
Maffesoli (1987), em sua obra intitulada O tempo das tribos: o declínio do
individualismo nas sociedades de massa. Nela, o autor trabalha com a noção de
“neotribalismo” como sinônimo dos novos agrupamentos humanos, em especial no

14 Conhecidos assim só no Brasil, principalmente no início da década de 1980. Pelo restante do


mundo são mais conhecidos por cultura gótica, tendo seus princípios no Reino Unido durante o final
da década de 1970, sendo derivados do gênero pós-punk. Essa cultura abrange a estética com
maquiagem e penteados alternativos (cabelos desfiados, desarrumados e desgrenhados), vestuários
essencialmente baseados nas colorações preta, lilás e roxo, e música com temas relacionados à
glorificação da decadência e do lado sombrio das situações, tendo em sua filosofia um constante
apego ao nada e uma constante falta de esperança para qualquer situação. (SOUSA; FONSECA,
2009).
50

segmento jovem. Assim, este conceito seria caracterizado pela “[...] fluidez, pelos
ajustamentos pontuais e pela dispersão.” (MAFFESOLI, 1998, p. 107)
Para o autor, os novos agrupamentos humanos estariam inseridos na
chamada “comunidade emocional”, que teria como características “[...] o aspecto
efêmero, a ‘composição cambiante’, a inscrição local, ‘a ausência de uma
organização’ e a estrutura quotidiana.” (MAFFESOLI, 1998, p. 17).
Nesta realidade, as emoções seriam compartilhadas. Os sentimentos,
então, teriam como principal característica a coletividade. Os indivíduos antes
restritos nos seus lugares, agora, passariam a contemplar os momentos de forma
coletiva, de acordo com a tribo inserida.
Essas novas configurações humanas nas cidades, denominadas de
“tribos urbanas”, seriam formações passageiras e teriam sua inscrição de acordo
com o local ocupado pelo indivíduo. Assim, como forma de melhor entender a
inscrição humana nas tribos urbanas, Maffesoli (1998, p.108) utiliza a denominação
de “socialidade”, como:

A pessoa representa papéis, tanto dentro de sua atividade profissional


quanto no seio das diversas tribos de que participa. Mudando o seu figurino,
ela vai, de acordo com seus gostos (sexuais, culturais, religiosos, amicais)
assumir o seu lugar, a cada dia, nas diversas peças, do theatrummundi.

Este conceito vem em contraponto ao de sociabilidade, entendida por


este como uma configuração em que o indivíduo ocupa uma função na sociedade de
forma estável (MAFFESOLI, 1998). O conceito de socialidade, aliado aos de
neotribalismo, comunidade emocional e tribo urbana, representa as instabilidades
típicas dos novos agrupamentos urbanos, em que o indivíduo assumiria diversos
papéis sociais e se moldaria de acordo com a tribo referente àquele contexto.
Durante a manifestação dos diversos papéis nas tribos, o indivíduo teria
uma preocupação essencial com a aparência. Esse cuidado é assim abordado pelo
autor quando trata da questão da estética

A estética é um meio de experimentar, de sentir em comum e é, também,


um meio de reconhecer-se [assim] os matizes das vestimentas, os cabelos
multicoloridos [...]. O culto do corpo, os jogos da aparência, só valem porque
se inscrevem numa cena ampla onde cada um é, ao mesmo tempo, ator e
espectador. (MAFFESOLI, 1998, p. 108).
51

Aqui, a importância dada à aparência teria como fator principal a


necessidade do indivíduo de “estar junto” da sua tribo (MAFFESOLI, 1998). Desse
modo, assim como no tribalismo tradicional, o neotribalismo do espaço urbano teria
como características os prazeres em grupo, a necessidade do sentimento coletivo;
enfim, o “estar junto”, que “[...] antes de qualquer outra determinação ou
quantificação, consiste nessa espontaneidade vital que assegura a uma cultura sua
força e sua solidez específica. ” (Ibid., p.115).
Por fim, tem-se a concepção de tempo nas análises de Maffesoli
(1998)em que a discussão realizada por este sociólogo origina três análises sobre o
tempo, todas pautadas no contexto histórico ocidental, que são assim descritas: na
Idade Média era enfatizado o passado, pelas várias passagens escritas de cunho
teológico; na Idade Moderna, séculos XVIII e XIX, a ênfase era dada ao fator político
e a todos os atos progressistas advindos deste; por último, tem-se a atualidade, que
é caracterizada “Pela elaboração de uma aura estética onde se reencontrarão, em
proporções diversas, os elementos que remetem à pulsão comunitária, à propensão
mística ou à perspectiva ecológica.” (MAFFESOLI, 1998, p. 20).
Na atualidade, a ênfase é dada aos sentimentos comunitários, coletivos, e
aos rituais que guiam o cotidiano. Não se valoriza mais a contemplação das ações
futuras, comum na modernidade, nem os atos pretéritos, frequentes na Idade Média,
e, sim, as ações concernentes ao presente. Dessa forma, o prazer coletivo em “estar
junto” à sua tribo é o que se valoriza na experiência da sociedade neotribal.
Desse modo, conforme foi apresentado os argumentos de Maffesoli
(1998), entendeu-se que os agrupamentos jovens das grandes cidades são uma
forma de tribo urbana,, uma vez eles têm as características dos encontros pontuais e
efêmeros, bem como gozam de um prazer coletivo e de um momento em que o
importante é o sentimento de unidade e integração. Esse tipo de análise é pertinente
quando o objeto de investigação são os jovens na pichação, mas é necessário
discorrer sobre outras conceituações, a fim de compreender de maneira mais
abrangente e argumentar de forma mais precisa sobre esta problemática.
Posto isso, tem-se a concepção de “cultura jovem”, presente na obra do
antropólogo espanhol, Feixa (1998). Para este autor, as culturas jovens referem-se
“À forma como as experiências sociais dos jovens são coletivamente expressadas
mediante a construção de estilos de vida distintos, localizado principalmente no
52

tempo livre, nos espaços intersociais da vida institucional.” (FEIXA, 1998, p. 84,
tradução nossa).
Nesta senda, os agrupamentos jovens urbanos denominados por Feixa
(1998) como “culturas jovens”, e teriam como característica a experiência coletiva de
vida, que se expressaria nos tempos livres desses jovens, tendo como espaços de
visibilidade os de grande mobilidade humana. Como componente, os estilos de vida
diferenciados.
Neste entendimento, Feixa (1998, p. 85, tradução nossa) salienta a
utilização do termo “culturas juvenis” no plural e não no singular, como forma de “[...]
enfatizar a heterogeneidade interna das mesmas [...]”. Dessa maneira, este enfoque
permite ao autor perceber o universo jovem sob outro aspecto, pois, “[...] transfere a
ênfase da marginalidade para a identidade, das aparências para as estratégias, do
espetacular para a vida cotidiana, da delinquência ao lazer, das imagens aos atores.
” (Ibid., p. 86).
Assim, Feixa (1998) rompe com alguns paradigmas de Maffesoli (1998), o
qual, dentre outras coisas, busca enfatizar o espetáculo das tribos urbanas com as
múltiplas aparências em que o indivíduo assumiria, de acordo com a tribo
pertencente. Em outra perspectiva, Feixa (1998) propõe um deslocamento do
conceito de “tribo urbana” para o de “cultura jovem”, transferindo, assim, a direção
da análise para as identidades que os atores sociais, jovens, assumem ao montar
estratégias distintas de lazer na vida cotidiana.
Outra análise importante do autor em sua definição de cultura jovem é a
sua relação com o território. Assim,Feixa (1998, p.96, tradução nossa) fundamenta
que
A emergência da juventude, desde o período pós-guerra, se traduziu em
uma redefinição da cidade no espaço e no tempo [...]. Deste modo, a ação
dos jovens serve para redescobrir territórios urbanos esquecidos e
marginalizados, para dotar de novos significados uma determinada zona da
cidade, para humanizar praças e ruas através das festas, das rotas de lazer,
mas também do grafite e sua demonstração, diversas gerações de jovens
estão recuperando espaços públicos que se haviam convertido em
invisíveis, questionando o discurso dominante sobre a cidade. [Desse modo,
se] por um lado as culturas jovens se adaptam ao contexto ecológico [por
outro] as culturas jovens criam um território próprio, apropriando-se de
determinado espaço urbano que distingue com suas marcas.

Conforme o exposto, a territorialidade das culturas jovens tem sua


historicidade, pois é datada no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial (1939-
53

1945), quando as manifestações juvenis estavam redescobrindo e remontando o


espaço urbano, de acordo com a sua lógica de território. Por essa lógica, ruas e
praças eram preenchidas com agrupamentos humanos, jovens, que através de
festas e de outras manifestações de “lazer”, a exemplo do grafite, eram resinificadas
como um local de pertencimento àquela determinada cultura jovem; deixando,
assim, registrada a sua marca identitária naquele espaço.
Já Magnani (2005), num trabalho intitulado “Os circuitos dos jovens
urbanos”, traz outra conceituação da dinâmica jovem no espaço urbano. De início, o
autor contrapõe o conceito de “circuito jovem” com outras categorias já utilizadas,
como as de “tribo urbana” (MAFFESOLI, 1998) e a de “cultura jovem” (FEIXA, 1998).
Assim argumenta:

Num trabalho chamado ‘tribo urbana: metáfora ou categoria?’, de 1992, fiz


uma crítica à utilização dessa expressão, mostrando as limitações, para
análise, de seu uso mais metafórico do que conceitual [...]. Uma dessas
limitações deve-se a um mal-entendido entre o sentido que se atribui ao
termo ‘tribo’ nos estudos tradicionais de etnologia – que se aponta para
alianças mais amplas entre clãs, segmentos grupais etc. – e seu uso para
designar grupos de jovens no cenário das metrópoles, que evoca
exatamente o contrário: pensa-se logo em pequenos grupos bem
delimitados, com regras e costumes particulares, em contraste com o
caráter massificado que comumente se atribui ao estilo de vida das grandes
cidades (MAGNANI, 2005, p.175).

Com relação ao conceito de “cultura jovem”, Magnani (2005) indaga sobre


a diferenciação proposta por Feixa (1998) entre cultura jovem e tribo urbana. Além
disso, Magnani (2005, p. 177) também pontua que

Com o objetivo [...] de oferecer uma alternativa a esses enfoques e assim


poder dialogar com eles na forma de contraposição e/ou
complementaridade, proponho outra denominação, ‘circuitos de jovens’.
[Desse modo] em vez da ênfase na condição de ‘jovens’, que supostamente
remete a diversidade de manifestação a um denominador comum, a ideia é
privilegiar sua inserção na paisagem urbana por meio da etnografia dos
espaços por onde circulam, onde estão seus pontos de encontro e ocasiões
de conflitos, e os parceiros com quem estabelecem relações de troca.

O autor prossegue apontando outros aspectos sobre o conceito de


“circuito jovem”. Nesta perspectiva,

[...] a ideia era levar em conta tanto os atores sociais com suas
especificidades [...] como o espaço com o qual interagem – mas não na
qualidade de mero cenário, e sim como produto da prática social acumulada
desses agentes, e também como fator de determinação de suas práticas,
54

constituindo assim, a garantia (visível, pública) de sua inserção no espaço


(MAGNANI, 2005, p. 178).

Com claro objetivo de privilegiar a inserção dos jovens no espaço urbano,


Magnani (2005, p. 179) propõe os conceitos de pedaço, mancha e circuito jovem
urbano, sendo aqui apresentados porque serão operacionalizados ao longo deste
trabalho. Nessa linha, o pedaço designaria

Aquele pedaço intermediário entre o privado (a casa) e o público, onde se


desenvolve uma sociabilidade básica, mais ampla do que a fundada nos
laços familiares, porém mais densa, significativa e estável do que as
relações formais e individuais impostas pela sociedade [...] A qualquer
momento os membros de um pedaço podem eleger outro espaço como
ponto de referência e lugar de encontro.

Entretanto, como bem adverte o autor (Id., 2002, p. 21), no pedaço, há


elementos espaciais, físicos e simbólicos que distinguem os frequentadores daquele
local de outros. Assim,
Uma primeira análise mostrou que essa noção era formada por dois
elementos básicos: um de ordem espacial, física – configurando um
território claramente demarcado ou constituído por certos equipamentos – e
outro social, na forma de uma rede de relações que se estendia sobre esse
território. [Desse modo] o pedaço é o lugar dos colegas e chegados.

Neste sentido, o pedaço abarcaria também locais distantes do âmbito de


transição casa/vizinhança, englobando outros espaços que se configurariam como
de pertencimento ao grupo, ou como bem pontua Magnani (2002), o “efeito pedaço”
continua para além da realidade dos bairros.
Assim, neste trabalho, a noção de pedaçovai englobar aquele espaço
físico e simbólico onde as relações de solidariedade e identidade do grupo serão
mais estáveis ou pontos fixos de encontro das “gangues”, podendo abranger tanto a
realidade dos bairros como suas áreas adjacentes. Já os locais que se distanciam
da conceituação de pedaço, Magnani (2005, p.179) denomina mancha, que é assim
caracterizada:
Manchas são áreas contíguas do espaço urbano dotadas de equipamentos,
marcam seus limites e viabilizam – cada qual com sua especificidade,
competindo ou complementando – uma atividade ou prática predominante.
[A mancha é] resultado da relação que diversos estabelecimentos e
equipamentos guardam entre si, e que é o motivo da afluência de seu
público [que busca também a] oferta de determinado bem ou serviço [e]
uma possibilidade de encontro.

As manchas compreendem os locais de encontro de turmas, que podem


ser em boates, bares, shoppings, cinema, teatro, etc. Esses locais, entendidos como
55

estabelecimentos ou equipamentos, oferecem um determinado bem ou serviço,


concorrendo para um mesmo objetivo, que é agradar um determinado público.
Nesse entendimento, as manchas irão abarcar os locais de consumo e de encontro
das “gangues” com outros grupos - espaços que não estão inseridos na
configuração dos pedaços.
Pelos argumentos apresentados conclui-se que as noções de circuito
jovem urbano, pedaço e mancha serão essenciais neste trabalho como meio de se
analisar as “gangues” e a prática da “pichação” no espaço urbano. Estas
conceituações permitem inseri-los na dinâmica de ocupação dos estabelecimentos e
equipamentos urbanos. Como, também, na lógica de demarcação territorial, de
sociabilidade neste espaço. Assim como estas conceituações, a noção de “cultura
jovem” de Feixa (1998) será, na mesma perspectiva, de grande relevância,
compreendida como as experiências jovens no espaço urbano com suas diversas
ocupações de “lazer”.
56

3 JOGANDO A MARCA: pichação em São Luís na década de 1990 pela


perspectiva dos pichadores

[...] alô galera, atenção rapaziada, se ligue nesse rap, nesse som da
pesada. O rap fala de muita pichação, pois é a única coisa que me dar mais
emoção. Eu sou garoto rebelde e gosto de pichar, pois a tua cidade nós
vamos detonar. Com uma lata na mão e a galera a agitar a galera tá em
peso e eu vou mesmo é detonar. Não picho muro, nem casa de família, eu
só picho órgão público pra poder prejudicar esses políticos corruptos que só
querem é roubar. Quando eu saio com uma lata pra poder detonar! Não tem
civil, nem federal pra me parar! Ecologia, ecolegete, gloralite ou chiclete!Iê,
iê, eu sou Garoto Rebelde (informação verbal)15

É com esta letra de rap que iniciamos este capítulo, que tem por objetivo
analisar a experiência de ocupação, demarcação e de visibilidade pública dos
pichadores no espaço urbano de São Luís da década de 1990. Para tanto, é
utilizada como fonte histórica a memória dos ex-pichadores e de indivíduos que
tiveram um convívio próximo ao mundo da pichação. Estas pessoas serão de
precípua importância para se pontuar as seguintes questões: as influências para o
surgimento da prática da pichação na cidade; motivos para se tornar um pichador; o
cotidiano desses jovens com suas famílias e colegas praticantes das inscrições em
ruas; a pichação como uma linguagem pública, mas somente visível aos seus
praticantes e às representações femininas para os adeptos desta escrita
“marginal”16.
A fim de situar o leitor, listou-se, assim, os nomes dos entrevistados e de
suas “galeras” da década de 1990; como, também, seu tempo de permanência no
mundo da pichação: Dostdos Falange Negra (1998 a 2000); Ratai dos Novos
Terroristas (1997 a 2000); Pig City (Mess/Gana); Júnior Enrolado,ex-integrante dos
Garotos Cruéis (1992 a 1995); Pernambuco, ex-integrante dos Ratos do Barulho
(1994 a 1996); Kaká Kiss (Vários grupos, 1990 a 1996); Augusto Três dosGarotos
Rebeldes (1988 a 1998); Hallytambém dos Garotos Rebeldes (1991 a 1995);
Costelo,ex-integrante do mesmo grupo(1992 a 1995); Robocop e Hipólito,ex-
participantesdo Garotos da Bota Preta (1991 a 1993); Bob, Garotos da Bota
Preta(1991 a 1994) e Anônimo ex - componente do Mensageiros de Cristo (1992 a
1995).

15
Rap feito por Costelo, provavelmente, entre 1993 a 1994, que demonstra as proximidades entre a
pichação e os integrantes do grupo Garotos Rebeldes (GR).
16 Aqui entendido como sendo uma escrita não legalizada e que mesmo visível a todos fica à margem

do entendimento da sociedade.
57

A memória como fonte de análise para os historiadores tem seu período


demarcado. Para o historiador cultural Burke (2006), essa preocupação por parte
dos pesquisadores da área humana é datada no final da década de 1970, com o
advento da “História Oral” e, também, da “História das Mentalidades”; bem como
pelo excesso de críticas à história documental tradicional. Assim, Burke (2006)
pontua que para a memória ser utilizada como fonte histórica, o historiador deve
elaborar sobre ela uma crítica de confiabilidade e compreender os seus mecanismos
de seleção e maleabilidade. Em conformidade com esta assertiva, este trabalho fez
uso da memória na perspectiva da História Oral, tratando as narrativas a partir das
críticas sobre o seu processo de seleção e maleabilidade.
Nesta abordagem, na modalidade memória, o tipo de perspectiva em que
se inserem as narrativas dos ex-pichadores é a “memória subterrânea”
(ABRAMOVAY, 2010), tendo em vista que a juventude ludovicense da década de
1990 ainda tem suas lembranças silenciadas, sendo suas experiências de mocidade
consideradas pelos discursos oficiais como um desvio social, uma delinquência
juvenil, isto é, como memórias não memoráveis. Entretanto, a partir desta pesquisa,
os ex-pichadores têm a oportunidade de ter suas experiências juvenis inscritas nos
espaços públicos, minimizando, assim, o discurso estatal, que os enquadrava em
um ambiente de exclusão e marginalidade.

3.1 Influências da pichação em são luís: galeras na mídia

O historiador que aplica a memória em suas análises sempre se


questiona sobre as origens de um objeto de estudo. Para o pensamento comum,
tudo gira em torno de um começo, meio e um fim, cabendo ao pesquisador resgatar
esse núcleo inicial. Assim é que, neste trabalho, pretendia-se, inicialmente, analisar
como surgiu a prática da pichação em São Luís, mas, devido ao tipo de fonte
utilizada para o desenvolvimento deste capítulo, que é a memória, achou-se mais
viável discutir sobre as influências que propiciaram o surgimento da pichação
ludovicense, e, não, o início desta prática.
Assim, inicia-se essa problemática com Pig City, grafiteiro ludovicense
desde a segunda metade da década de 1980, que faz as seguintes colocações:
58

As pichações eram poucas na década de 1980. Quem pichava era algumas


gangues da época, que era: os Víboras, Spartacus, Cabeça Dinossauro,
Dente de Sabre, Turma da Xuxa, Tira Cabaço, que eram aqui do São
Francisco. Pichava assim, só o nome da gangue [...] Quem influenciou
também muito essa galera, principalmente as da década de 1980, foi um
filme chamado ‘Selvagens da Noite’17. Nesse filme, conta a história de
várias turmas de Nova Iorque que se encontravam e pichavam e brigavam.
Uma forma de incentivo pra galera que assistia ele. A Rede Globo passou
ele e também passou aqui no cinema aqui de São Luís, na época.
(Informação verbal).

Em um trabalho realizado com gangues da década de 1980 na capital


maranhense, Araújo (2005) destacou as atividades de muitos desses grupos, dentre
eles “Os Bárbaros”, “Os Víboras”, “Os Selvagens”, “Os Aniquiladores”, “Dente de
Sabre” e outros mais. Ele pontua que esses grupos se encontravam com mais
frequência nas praças do Centro de São Luís, e que suas ações cotidianas incluíam
disputas com outras turmas, demarcação de território e a dança do break. É
importante frisar sobre a delimitação de territórios que essas fronteiras simbólicas
eram visíveis somente aos seus adeptos, tendo na pichação uma forma de
demarcação territorial.
Convém ressaltar, nesse sentido, a influência de filmes das décadas de
1970 e 1980, que retratavam a juventude norte-americana do período citado. Nesta
linha de pensamento, Bob, ex-integrante do grupo Garotos da Bota Preta (GBP),
expõe que:
Assim, lá pro final dos anos 80 e comecinho do 90, se eu não tô enganado,
passavam muito filme de porrada aqui mesmo na televisão, nos programas
da globo. Aí a galera foi ficando animada e querendo imitar esses filmes.
Sabe como é adolescente; o que tá vendo quer logo imitar. Aí tinha os
filmes desse Rambo; tinha outros de porrada de uns atores famosos aí, e
tinha esse que eu tô querendo lembrar o nome faz um tempão [...] esse que
fez um sucesso tremendo aqui porque mostrava briga entre gangues lá dos
Estados Unidos e o pessoal saia pichando as coisas e cada gangue tinha
sua roupa especifica. Esse filme que eu não tô lembrando o nome foi o que
eu mais gostei! (Informação verbal).

Araújo (2005) cita em seu trabalho essa produção cinematográfica e sua


grande aprovação poro parte da juventude ludovicense da década de 1980. Pig City
e Bob também mencionam esse filme, cujo título em inglês é The Warriors (Os
Selvagens da Noite)16, de 1979. Por se tratar da década de 1980 e destacando as

17
OS SELVAGENS da Noite.Direção de Walter Hill. Disponível em:<http://pt.fulltv.tv/the-warriors.html.
Acessado em: 10 out. 2014.
59

limitações tecnológicas da época, é provável que ele tenha sido transmitido na


capital maranhense somente em meados da segunda metade do referido período. O
filme retrata os conflitos entre gangues da cidade de Nova Iorque, merecendo
destaque nele o uso da pichação como forma de demarcação de território.
Assim, se o longa-metragem foi ou não o grande estimular no que tange à
difusão da prática da pichação em São Luís, esta resposta não tem relevância nesta
pesquisa. A discussão apreendida destas lembranças dos entrevistados diz respeito
a uma motivação para o desenvolvimento da pichação na juventude ludovicense,
que é a exposição de filmes que retratavam a rotina das gangues dos EUA e o uso
da pichação por parte destes grupos.
Em uma segunda linha de raciocínio, mas ainda enfatizando a relação
entre a mídia e pichação, Pig City declara que:

Quando chegou no início da década de 1990, a pichação lá no sul do país


cresceu. Já botando o nome dos pichadores, não mais só o nome da
gangue. Isso lá no sul do país. Com algumas reportagens que a Rede
Globo fez, a Bandeirante e o SBT, mostraram um monte desses
acontecimentos que tava acontecendo no sul do país. Então, a galera daqui
começou a fazer a mesma coisa, a partir do que viram na mídia, na grande
mídia. Assim foi o grande impulso da pichação aqui em São Luís. E aí
algumas rádios começaram a fazer festas. Alguns produtores aqui de São
Luís começaram a fazer festas, as chamadas ‘noites da galera’. Isso fez
potencializar mais ainda esse movimento que tava surgindo da pichação.
(Informação verbal).

Complementando os argumentos de Pig City, Bob lembra que:

Já na década de 90, agente começou a vê muita reportagem de jornais da


Globo e até de revistas mostrando o que tava acontecendo lá no sul,
lá‘praquela’ região do Rio e de São Paulo. E agente percebia que as
gangues lá já tavam ficando muito ousada com muita pichação e briga entre
eles. Aqui, também começou a ter essa que o pessoal chamava de a “noite
das galeras”, promovidas por esse Rubinho Jones e Stênio Kawasaki que,
tipo assim, incentivava o pessoal a montar suas galeras de bairros.
(Informação verbal).

Nota-se, neste ponto, a mídia veiculando sobre o desenvolvimento da


pichação nas grandes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e São Paulo. No
capítulo anterior, foi discutido no tópico 2.1.2, as mudanças da prática da pichação
em importantes centros urbanos nacionais entre os anos de 1980 a 1990. Com
Sousa (2007) e Soares (2008), percebemos que a repressão a esta prática, somado
a um novo formato de agrupamento juvenil, que passou a usar de forma mais visível
60

a violência física e a competitividade entre eles, foram fatores motivadores para uma
nova configuração e semântica na realidade da pichação.
Pigy City, lembra um momento em que a pichação já não era inscrita com
frases longas, ou de críticas políticas, bem características da década de 1960 e
1970 (SOUSA, 2007). A fase de maior desenvolvimento da pichação em São Luís,
na década de 1990, foi aquela em que se colocava o nome do pichador e a sigla de
sua galera18. Percebemos, ainda, pelas memórias de Pigy City e de Bob, que as
festas promovidas pelos produtores musicais da capital (seguindo uma tendência
nacional?), também serviram como meio propício para a proliferação de “galeras” em
bairros; consequentemente, de pichadores. Assim, as reportagens sobre pichadores
no sul do País e os eventos em boates em São Luís foram importantes canais para o
contato da juventude ludovicense com as “galeras” e com a pichação.
Em uma terceira linha de análise para o desenvolvimento da pichação em
São Luís, temos esta prática como algo exterior à realidade desta cidade. Assim,
Hally, ex-pichador do grupo Garotos Rebeldes (GR), ressalta que:

Tinha um pessoal que veio de fora, tipo do Ceará, que vinha pichar aqui.
Tinha um menino chamado PASTOR, que veio do Fortaleza, veio morar
aqui na Macaúba e ele formou a GG, Garotos Grafiteiros. A pichação dele
era mais enrolada. Não era igual à do AUGUSTO TRES, que era visível. Ele
fazia um estilo de letra arredondada, umas mais juntas da outra.
(Informação verbal).

Figura 01: pichação de Pastor no estilo enrolado.19

18
Ressalva-se aqui que as pichações feitas por Augusto Três, Fiel e por outros pichadores que, em
algumas ocasiões, colocavam frases de amor para sua amada ou de provocação aos seus inimigos.
19 Pichação feita por Hally no período da realização da entrevista.
61

Junior Enrolado, ex-pichador do grupo Garotos Cruéis (GC), faz assim


suas colocações:

Quem começou a pichar em grupo, essa pichação de grupo, foi MEL da GR.
Até antes, o pessoal pichava, mas tipo, eles colocavam apelido de guerra,
mas não com esse lance de colocar o nome da galera. Quem começou com
esse lance de começar essa pichação com o nome da galera foi MEL, que
se eu não me engano era de Belém ou Fortaleza, mas ele não era daqui.
(Informação verbal).

Augusto Três, ex-pichador do grupo Garotos Rebeldes (GR), problematiza


mais os posicionamentos anteriores, ao lembrar que:

A GR foi a primeira galera de pichadores de São Luís. Quem formou a GR


foi eu, mel, que era de Belém. Eu comecei a pichar e ele viu e ele gostou.
Porque eu botava o nome e desenhava Brasília (a esplanada dos
ministérios) e colocava ‘casa do roubo’. Quem formou a GR foi Mel e
Augusto três. O Mel já veio de formação de galera de Belém, a GR de
Belém. Lá já tava bem formado as galeras, e esse lance da pichação; tanto
é que ele veio corrido de lá. (Informação verbal).

Pastor e Mel são, respectivamente, de Fortaleza e Belém, ou seja, não


pertencem ao contexto ludovicense, sendo expostos a uma configuração de
gangues e de pichação distantes e distintas da realidade daqui. Na capital
maranhense, tentaram adaptar as suas experiências de “galeras” para a juventude
da referida cidade. Pastor, por exemplo, transmitiu um estilo de pichar tido como
“enrolado”; enquanto Mel pichava escrevendo, além do seu nome, o da gangue,
também. É importante pontuar que já existiam pichadores em São Luís durante o
desembarque de Mel e Pastor, sendo isso descrito nas colocações de Hally, Júnior
Enrolado e de Augusto Três.
Assim, com esta pontuação, finalizamos os três aspectos que teriam
influenciado no surgimento e difusão da prática da pichação em São Luís. Em um
primeiro e um segundo momento, de forma respectiva, temos os filmes norte-
americanos e as reportagens brasileiras como motivadores para o uso da pichação
pelos jovens ludovicenses.
Já no terceiro momento, foi enfatizado o desembarque, na cidade de São
Luís, de pichadores de outros estados, que transmitiram suas experiências juvenis à
mocidade local. No próximo tópico, discutiremos sobre a adesão dos garotos e
moças da Ilha no panorama desta escrita marginal.
62

3.2A “Família Da Rua”: o entrar numa gangue/galera

No tópico anterior, foram discutidos os fatores motivadores para o


desenvolvimento da pichação em São Luís. Desse modo, partiremos, agora, de uma
perspectiva em que essa escrita marginal já está bem difundida na referida cidade
para adentrarmos no ambiente dos grupos de pichadores, salientando a relação
destes com seus familiares e colegas adeptos da pichação. Assim, Júnior Enrolado
expõe que:

A gente era muito unida [falando do GC]. Tu considerava mais o pessoal da


tua galera do que os teus familiares. Se não desse pra um ir num lugar, a
galera toda não ia. [...] Eles [os familiares] até sabiam, mas eles não
entendiam a proporção do que era. A grandeza. O que realmente fazia. Era
muito difícil pra minha mãe me acompanhar. O meu pai tinha problema de
convivência com a família; ele vivia no bar. Ele preferia tá no bar do que tá
com a própria família. Minha mãe, coitada, trabalhava praticamente 24
horas. Na época, ela trabalhava no [Hospital] Dutra. Era eu e uma irmã, que
na época tinha 14. (Informação verbal).

Em um trabalho realizado com ex-integrantes do grupo Garotos da Bota


Preta (GBP), o historiador Antônio Marcos Melo Costa (2011) percebeu o grau
elevado de união e intimidade entre os membros deste grupo, de 1992 a 1995,
tempo em que o GBP permaneceu ativo. Em outro trabalho, sobre gangues em
Brasília, com abordagens teóricas similares às de Costa (2011), Andrade (2007,
p.143) aponta que:

As gangues sempre serão caracterizadas pelo forte elo que une seus
integrantes,que se protegem, se ajudam e brigam uns pelos outros: ‘É tipo
uma família’; ‘O quero lá pra um, rola pra todos’; ‘Todo mundo considera o
outro’. A ideia de solidariedade,construída em torno das noções de
fraternidade, lealdade e fidelidade, damotivação de responder pelo coletivo,
encontra-se ressaltada em frases que serepetem e que indicam que a
mesma é condição essencial para a existênciadas gangues. Ou seja, a
solidariedade entre os pares, como elemento decoesão, é uma das
referências centrais no processo de construção daidentidade do grupo e de
sua instituição diante dos demais.

Aprofundando mais essa problemática, temos Kaká Kiss, uma jovem


ludovicense da década de 1990 que teve participação ativa em vários grupos de
pichadores. Ela recorda o seguinte

Aí eu tinha uma amiga, que também era doidinha da cabeça, chamada


Criss Bell. Eu jogava Kaká Kiss. Aí a Criss era da Cidade Operária e ela
63

conhecia os meninos de lá. E aí eu conheci muita gente através dela. Eu


conheci Augusto Três, Costelo. Só que ela não foi muito pra esse lance da
pichação, mas a gente gostava da pichação, mas era mais por curtir o
momento. [...] Eu fiquei muito com esse negócio de rebeldia por causa do
meu pai; ele batia muito de frente comigo. Ele era uma pessoa que não
queria conversa comigo. Assim, de alguma forma, eu queria atingir ele. Às
vezes, eu fazia as coisas mais por rixa com ele. Teve uma vez que ele
chorou depois de me vê naquele estado de bêbada. Mas ele também [era
assim]. Teve uma vez que ele chegou a ficar de coma alcoólico.
(Informação verbal).

Em trabalho realizado com gangues de Fortaleza, na década de 1990,


Diógenes (1998) percebeu que a ausência de um contato familiar rotineiro foi um
dos fatores motivadores para a proliferação de gangues juvenis nas ruas das
principais cidades brasileiras na década de 1990. Diógenes (1998) aponta que esse
sistema se propagou com o processo de “esvaziamento da família”, tendo como
características a “[...] incursão maciça das mães no mercado de trabalho e a
introdução dos filhos nas creches”. (DIÓGENES, 1998, p. 153).
Com esse processo, o espaço público urbano deixa de ser projetado
como o local do perigo e do proibido, e a família “[...] deixa cada vez mais de se
colocar como ‘um refúgio num mundo sem coração’ e esvazia-se de suas funções,
engendrando nos centros urbanos novas redes de sociabilidade e reconhecimento
mútuo” (DIÓGENES, 1998, p.154).
O movimento de “esvaziamento da família” é percebido nas memórias de
Júnior Enrolado e de Kaká Kiss. A família, na década de 1990, era marcada por uma
desestruturação tão intensa e expressiva que, em um determinado momento, os (as)
filhos (as) teriam encontrado nas amizades, uma forma de restaurar os laços
familiares.
Seguindo essa discussão, temos Anônimo MC, ex-integrante do grupo
Mensageiros de Cristo (MC), que em sua declaração pontua

Agente era aqui do Bequimão, mas, cara, tu ficava o dia todinho sem ter o
que fazer. Teus pais passavam o dia no trabalho, quando não no bar e tu
ficava assim com o dia pro sol. Ai nós nos juntamos e formamos a MC
(Mensageiros de Cristo), que ao meu vê, hoje, foi mais uma forma de te
ocupar.Eu não tinha assunto com meu pai e nem com minha mãe; até
porque, pelo que eu me lembro, eles já chegavam cansados e o final de
semana deles era no bar. Aí, cara, tu não tem como ser alguém que preste
mesmo! (Informação verbal).

Anônimo MC faz uma colocação pertinente nesta dissertação, que foi


percebida por Costa (2011) ao problematizar sobre a formação do grupo Garotos da
64

Bota Preta, ao salientar que o grupo Mensageiros de Cristo (do mesmo período de
atuação do GBP) se formou após vários encontros entre adolescentes de um
determinado bairro de São Luís, no caso, o Bequimão. Seguindo esta mesma linha
de argumentos, Andrade (2007, p. 146) analisa que as “[...] gangues, usualmente,
surgem de modo quase espontâneo, não deliberado. São formadas por grupos de
amigos nas quadras [de bairros, condomínios]”.
As gangues ludovicenses, “família de rua”, inicialmente, serviam como
meio de ocupação de uma lacuna familiar. Assim, Hally relembra que

A família pouco sabia. Não era aberto. Eles sabiam que eu saía de noite.
Uma vez eu cheguei em casa todo quebrado; papai perguntou o que foi e
eu disse que caí jogando bola. Eu caí naquele barranco do Castelão, todo
ralado, fugindo dos seguranças da Coca-Cola que tavam atrás de mim,
porque eu tava pichando lá. (Informação verbal).

Pelo contato que se tem com ex-pichadores ludovicenses da década de


1990, percebemos o mesmo modelo de relação “deficiente” com seus familiares.
Aqui, pais, mães e filhos seriam apenas ocupantes de uma residência. Nesse
sentido, os jovens procuravam no ambiente urbano uma forma de suprir a quase
inexistência de um laço parentesco cotidiano; o que encontravam na pichação.
Dentro desta discussão, temos as colocações de Dost, ex-pichador do
grupo Falange Negra (FN)

[nós] eram só dois irmãos. Eu e uma menina. Só mãe. Pai fez e saiu fora
[...] Nossos pais não tinham acesso à informação. Nossos avós, piorou. Na
escola era uma droga. No bairro que tu mora era quase todo mundo de
gangue. E aí, sem chance! A não ser se teus pais tivessem visão. Foi o que
não aconteceu comigo. Nem pai eu tive. Minha mãe, ambulante [...] A gente
se espelhava em quem tava mais perto. Então, a gente se espelhava
naqueles garotos [de galera] e achava eles o máximo. Aí a gente queria ser
igual a eles. Muitos desses da 1ª geração [da FN] já tinham saído, por
conflitos com outras gangues; outros morreram e muitos foram pra cadeia.
Alguns tiveram que ir embora. Então, a gente foi vítima do meio. A gente foi
se infiltrando e começou de novo a FN. (Informação verbal).

Analisando esta fala, percebe-se que os pichadores (do início ou fim da


década de 1990) possuíam conflitos familiares e características sociais comuns, isto
é, jovens que diziam necessitar de um contato familiar mais íntimo e presente.
Assim, o diálogo seria essencial para a manutenção do entendimento entre pais e
filhos. Depreende-se, então, que esse “escape” dos adolescentes é frequente no
65

universo das gangues, quando não existe uma relação afetiva com pessoas do
mesmo grau de parentesco. Como aponta Andrade (2007, p.145).

Esta ‘família da rua’ é percebida como uma comunidade emocional que


ampara, apoia e dá proteção em situações nas quais a ‘família de casa’ não
pode intervir, mesmo porque quase sempre desconhece as inquietações
dos jovens, que são abertamente discutidas nesse outro cenário de
socialização. Na gangue, ou ‘família da rua’, abre-se um espaço de escuta,
fala-se sobre problemas similares, o que aflige e alegra, cria-se um
ambiente propício para conversar sobre temas que no seio da ‘família de
casa’ seriam menosprezados ou incompreendidos. Na ‘família da rua’, o
jovem pode construir uma outra posição no espaço social, distinta da que é
pautada pela relação vertical e assimétrica existente na ‘família de casa’,
pois encontra interlocutor semelhante com o qual estabelece uma relação
horizontal, de compreensão plena, circunscrita a uma comunidade
linguística comum.

Desse modo, pelo que foi percebido nas entrevistas, houve no cotidiano
desses jovens uma ausência de diálogo familiar. Contudo, não se deseja afirmar que
esse processo “esvaziamento da família” deve ser concluído como uma justificativa
para que indivíduo se filie a uma gangue ou pratique pichação. O que se pretende
destacar neste trabalho é que esses adolescentes não entraram em contato com a
pichação/galeras por um simples ato volitivo, e, sim, que este processo ocorreu por
meio de fatores estimuladores.

3.3 Pichação como um rito de entrada

De acordo com percepções do senso comum, a pichação se resume a


rabiscos feitos por alguns jovens delinquentes com o intuito de macular a cidade. No
entanto, para os pichadores, sua escrita possui significados próprios deste tipo de
inscrição em prédios públicos e privados. Assim, neste tópico, será analisada a
prática da pichação como ritual de entrada em um grupo. Dessa forma,
Pernambuco, ex-pichador do grupo Ratos do Barulho (RB), expressa que:

Na época, isso era 94 ou 95, tinha esse lance de pichar em ônibus e de tu


ser ousado mesmo. Assim, se o cara, se a gente aqui do grupo [RB]
percebesse que o cara não era de parada, não tinha essa coragem, aí dizia
pra ele que não dava e que era melhor ele procurar outra coisa [...] tipo, se
agente marcasse que ia pichar tal horário ou em tal lugar, mais por aquela
região ali do Liceu e Cegel, o cara tinha que ir lá com a gente e ele tinha
que ser o primeiro a pichar. Se ele não tivesse essa coragem, pode pegar
teu ônibus de volta e volta pra tua casa. (Informação verbal).
66

Dost, problematiza mais essa questão, ao pontuar que


Tinha um desafio pra entrar na gangue. Tinha a parte das pichações, tinha
que colocar umas latas de spray e tinha que desafiar alguém. Alguém que o
grupo [FN] não gostava. Tu tinha que ir lá e resolver a coisa: pichando ou
brigando [...] Precisava a pessoa ir lá e pichar. Mostrar coragem pichando!
Pra tu pichar em um lugar, tu precisava ter coragem e paciência, porque a
maioria dos estabelecimentos já tinham vigia. Então, tu chegava lá, ficava
aguardando a hora e quando desse, tu ia e pichava. Só assim tu era
considerado um dos nossos, tu tava na FN! Às vezes, tinha o batizado, que
era de porrada, tipo corredor polonês. Era uma brincadeira entre nós! Só
que nem todos precisavam passar por esses desafios. Tipo, tinha gente lá
do bairro, do nosso meio que nós já sabíamos que o cara era de parada e
de confiança. Aí, nesse caso, a gente dispensava ele disso. Esse entrava
direto. (Informação verbal).

O chamado “ritual de entrada” de uma gangue é analisado por vários


pesquisadores que avaliam as diversas experiências destes grupos. Costa (2011)
investiga que no grupo GBP, esse processo variava desde uma sessão de
espancamento, o chamado “corredor polonês”, até um salto da chamada ponte do
Ipase20, como demonstração de resistência no que concerne à natação.
Textualmente, Abramovay (2004, p. 111-112) explicita que “Para tornar-se membro
de uma gangue um indivíduo pode ter que cumprir certas obrigações e ser
submetido a várias provas ou ‘ritos de iniciação’, a fim de mostrar seu
comprometimento com [seus] códigos de valores”.
Pernambuco e Dost recordam como um indivíduo era aceito em suas
“galeras”, respectivamente, RB e FN. Nas duas colocações, encontramos como
ponto convergente a pichação, em que o candidato tinha de ser ousado e intrépido,
a fim de se tornar um pichador. Neste sentido, Diógenes (1998, p.115), sinaliza que
“[...] ser notado, se garantir, ter destaque são critérios que viabilizam a entrada dos
jovens nas gangues”.
Dost, porém, salienta que esse “ritual” não era imposto a determinados
candidatos, ou seja, alguns não precisavam ser submetidos ao “corredor polonês” ou
ao teste do salto das pontes. Assim, como afirma Abramovay (2004, p.112) “[...] Há
ainda os que não são submetidos a nada porque já deram anteriormente provas de
coragem, força, valentia, já eram famosos, ou porque são ‘muito doidões’, ‘de racha’,
‘tem atitude’ [...]”.

20São duas pontes conhecidas popularmente como Ponte do Caratatiua e que, na verdade, são
denominadas pela Secretaria de Infraestrutura do Estadodo Maranhão de pontes Hilton Rodrigues e
Governador Newton Bello, que interligam os bairros Ipase e Alemanha.
67

Desse modo, a pichação foi utilizada por alguns grupos de São Luís como
meio de aceitação ou rejeição de indivíduos em suas turmas. No entanto, esta
atividade não era única no que diz respeito às condições para que um jovem
integrasse uma “galera”. Augusto Três, ex-pichador do grupo Garotos Rebeldes
(GR), faz sua colocação sobre este assunto

Eu adquiria a lata de spray, eu tinha alguém que trabalhava com tinta e


facilitava na hora da comprar, mas era só pra mim e o pessoal que pichava
comigo. Já teve época que eu fazia com carvão. O spray era caro. Tanto é
que quando foi montada a GR eu disse que quando alguém fosse pra entrar
tinha que trazer uma lata de spray e dizer por que queria entrar. Aí a gente
se juntava e a galera saía pra pichar. Eu saia mais era com Verk, Cacau, o
pessoal já das antigas. (Informação verbal).

Ele descreve outra etapa de inclusão de uma pessoa no grupo, que era
obter latas de spray aos pichadores já membros da “galera”. Essa condição a qual
Augusto Três destaca sobre os candidatos, e futuros integrantes da GR, podem ser
compreendidas como uma atividade de fácil execução. No entanto, como expõem os
ex-pichadores, Pig City e Costelo, respectivamente

Já em 1992 pra 93, a coisa começou a apertar para os pichadores e nós


grafiteiros. No início de 1992, o MESS, deu uma caída porque foi o grande
ano da pichação aqui em São Luís. Então, a repressão foi grande e a gente
foi muito perseguido. As pessoas não liberavam mais os muros pra ser
grafitado e a gente ficou meio retraído. Até pra comprar spray ficou
difícil.Cara, a situação foi se apertando pra pichação e o pessoal começou a
invadir de madrugada as lojas que vendem spray. Eu me lembro de uma
invasão que teve lá numa loja da Beira-Mar e dessa vez a galera se deu mal
porque o dono da loja tava dormindo lá nessa noite [...] (Informação verbal).

Diante dos comentários de Pig City e Costelo, percebemos que a esfera


estatal e privada iniciava a repressão aos pichadores. Mas o ponto em destaque é
que atos considerados intrépidos e audaciosos funcionavam como critério para a
aceitação de um jovem nos grupos daquele período.

3.4 “Pichar é arte, correr faz parte”

“Pichar é arte, correr faz parte”. Com este pensamento do ex-pichador


Costelo, iniciamos mais um tópico, dedicado a teorizar sobre a pichação como
“escrita do desafio”. Assim, temos, respectivamente, as memórias de Costelo e Rataí
(ex-pichador da NT),
68

Tu tinha que analisar bem o lugar antes de tu ir pichar, ainda mais quando
era pra subir. Eu me lembro do Colégio Santa Teresa, lá no Monte Castelo.
A gente sobe pelo lado, pendura na caixa de ar-condicionado, sobe pra
casa do lado correndo o tempo todo. Sobe pro Santa Teresa e joga. Desce
e deixa tua marca lá. Aí vem o outro e sobe, desce e deixa a marca dele lá.
Até o último que vem e subia e quando descia tinha que jogar a lata pra
baixo. Tinha que ser tudo muito rápido. Tu tinha que ter toda uma
artimanha!A gente saía de madrugada. Não tinha ninguém na rua. Então
dava mais fácil pra tu subir em prédios. O prédio mais alto que eu subi foi
aqui no Monte Castelo, naquele antigo Fernando Perdigão. Subiram uns 3,
4 e pichamos de cabeça pra baixo. Sempre saíamos de 3 a 4 porque era
esse o número dos que inteiravam pra uma lata. Aí, tu escolhia o lugar. Às
vezes, a gente fazia uma vistoria antes. A gente dava uma passada de
bicicleta, quando a gente ia jogar bola e ‘éguas, esse muro aqui tá bacana!
Acabou de ser pintado’. Aí ,’éguas, hoje esse é nosso!’. Tu não podia vê
casa pintada, muro pintado. Eu já pichei o BCA, dentro do CEGEL, do
Liceu, aquele viaduto da Camboa.(Informação verbal).

Como se observa, pichar é uma arte, não só por se tratar de uma forma
de escrita, mas, também, por ser submetida a um processo detalhado e organizado
em sua conclusão nos muros. Nesse contexto, corre-se o risco de ser capturado por
policiais ou por agentes de segurança particular. Mas, pelo que se depreende dos
depoimentos dos ex-pichadores, o ato se transformava em uma proeza para as
culturas juvenis da contemporaneidade. Abramovay (2010), desse modo, concorda
com Le Breton (2000, p. 10 apud ABRAMOVAY, 2010, p.122) na seguinte citação,
em que explicita:
A busca pelo risco parece estar relacionada à afirmação da identidade e da
existência própria [...] Segundo Le Breton (2000), ‘joga-se por um instante
com sua segurança ou sua vida, com o risco de perdê-la, para ganhar enfim
a legitimidade de sua presença no mundo ou simplesmente arrancar da
força deste instante o sentimento de existir, enfim, de se sentir fisicamente
contido, assegurada sua identidade’.

Essa sensação de onipotência seria uma das características do pichador.


Costelo e Rataí descrevem esse processo, iniciado na busca pelo local propício para
uma inscrição. Pichar não se resume a rabiscar uma parede branca, e, sim, algo
mais complexo, cuja procura em si pelo muro favorável motivaria esses jovens a
concluir o registro com spray, como bem explica Costelo:

Tinha a aventura de correr. Quando neguinho botava atrás da gente, tu


tinha que correr, te livrar de qualquer jeito e depois que tu tinha te livrado tu
olhava pra trás e sorria. Parece que tu tinha que ter alguma emoção. Correr
de vigilante, da polícia, de outras gangues, de dono de casa, tudo virava
emoção [...] e assim parece que não bastava isso, tu tinha que tá lá no outro
69

dia e vê que teu nome tava lá e neguinho falando que ‘rapaz, fulano é doido
mesmo de colocar a marca dele ali! ’.

Em mais um trecho de suas análises, Le Breton (2000, p. 11 apud


ABRAMOVAY, 2010, p. 118) argumentaacerca de uma das características dessa
façanha juvenil na contemporaneidade, onde afirma que “Nos últimos anos, apenas
a ‘aventura’ tornou-se uma figura de excelência que [...] igualmente como o risco,
mesmo imaginário, exerce uma fascinação sobre os atores das sociedades
modernas”.
Como apontado, a possibilidade do perigo, aliada à liberação de bastante
adrenalina, estimulava o pichador a inscrever em prédios públicos e privados.
Entretanto, como já pontuado, pichar para os jovens ludovicenses da década de
1990 tinha uma motivação mais vinculada ao ato perceptivo; o que pode ser
observado nas colocações dos ex-pichadoresDost e Júnior Enrolado,
respectivamente
A gente gostava mais era de pichar no inverno. A gente sempre gostava de
pichar no inverno porque quando chovia, à noite, a partir das dez horas, a
gente subia pra pichar, porque ninguém tava na rua. A gente gostava de
pichar também aos domingos porque tava quase tudo deserto.A gente
começava pichar a partir do momento que a gente via que as portas do
comércio tava fechada, que o trânsito acabou, era por volta de 10 horas.
Saía do Cohatrac e dava a volta por São Luís, com umas 3 a 4 latas de
spray. A gente tinha muito cuidado, até porque não tinha policial que
dizia‘ah, hoje eu vou atrás de pichador’. Aí tu tinha que ter cuidado e, se
fosse o caso, tu até engolia o pito pra não ser pichado, se a polícia te
pegasse. (Informação verbal).

Dessa forma, pelas entrevistas analisadas dos ex-pichadores, percebe-se


o processo cauteloso e dedicado no momento das inscrições. Apesar da “aventura”,
o pichador deveria ser prudente durante as atividades, em virtude da possibilidade
de a polícia o flagrar registrando as letras nos muros. Em determinadas situações, o
recomendável seria deglutir o pito do spray; evitando, assim, que os militares e
investigadores lançassem a tinta do spray sobre os pichadores capturados.

3.5 Pichação: a arte de desafio

Como pontuado até este momento desta escrita, a pichação envolve toda
uma gama de significações para seus praticantes. Se para o olhar de grande parte
da população ludovicense da década de 1990 uma inscrição em um muro com uma
sigla de um grupo significava sujeira urbana, para os amantes desta escrita o
70

pensamento era bem diferente. Assim, serão apresentadas algumas peculiaridades


do universo dos pichadores desta localidade na referida década citada.

3.5.1 Pastor, o pichador do Enrolado

Ao discorrer sobre a pichação em São Luís na década de 1990, convém


frisar pichadores que se tornaram ícones nesta escrita marginal, pois inovaram nos
estilos caligráficos. Neste sentido, cita-se Pastor, que é assim lembrado por Augusto
Três e Júnior Enrolado, de forma respectiva

A pichação do PASTOR era quase que impossível tu identificar que ali tinha
o PASTOR. Só que quando tua marca tá divulgada em toda a cidade, aí o
pessoal já sabia ‘ah, é o PASTOR’. Tinha também o GILSON, só que
também era enrolado, ficava difícil pro pessoal saber. (Informação verbal).

Eu olhei a pichação dele [do PASTOR]. E aí eu, ‘rapaz, eu vou também


brincar, vou achar umas latas aí’. Aí eu: ‘poxa, mas o que eu vou pichar?! É,
vou pichar meu nome! Mas tem que ser alguma coisa diferente!’ Aí eu fui
olhar a pichação do PASTOR. Aí: ‘rapaz, eu vou fazer meu estilo assim
enrolado’. Aí eu fui praticar no caderno, e fui desenvolvendo até chegar
nesse estilo. (Informação verbal).

Figura 02: pichação de Júnior Enrolado.21

No capítulo anterior, mais especificamente no tópico 2.1, foi discutido


acerca da conceituação do que seria a pichação para este trabalho. Então, foram
descritos os argumentos de Spinelli (2007) e Carvalho (2011), que entendem a

21 Pichação feita por Júnior Enrolado no período de entrevista.


71

pichação como uma assinatura de caráter monocromático, feita com spray ou outro
suporte de rabisco em muro, e que sua prática trata-se de uma forma de
comunicação, mas fechada, pois objetivo é a decodificação da mensagem pelos
pichadores; o que se observa nas colocações de Júnior Enrolado e Augusto Três, ao
destacarem as inscrições de Pastor.
A fim de aprofundar esta problemática, mencionam-se os comentários de
Costelo e Júnior Enrolado, ao citarem, respectivamente, o estilo “enrolado” e o
formato de pichação de Pastor

Tinha o PASTOR, que era de Fortaleza. Ele trouxe as cifras de lá que são
quase que indecifráveis; era um estilo enrolado, ainda estranho pro pessoal
daqui. Só quem sabe é quem participa do bando. Só eles sabem o que
significa aquela letra. (Informação verbal).

A questão do Júnior Enrolado. No início só tinha o meu nome JÚNIOR, só


que era enrolado [o estilo da escrita]. Aí, como a galera ia me destacar?
Como a galera ia me chamar? Tinha um monte de Júnior. Aí foi ‘ah, é o
Júnior Enrolado’. Tinha outros Júnior, que também pichavam; só que
pichavam em outros estilos, essa letra romana ou meio futurista. Aí, eu vim
com o Júnior Enrolado. Aí quando o pessoal via a pichação enrolada, o
JÚNIOR, aí ‘ah, rapaz, esse é o Júnior lá do Cohatrac’. Só que o pessoal
não me chamava de Júnior Enrolado; era só Júnior, mesmo. Só que quando
eles perguntavam que Júnior era, aí ‘ah, é aquele enrolado! ’. (Informação
verbal).

Assim, no prisma de um pichador, aquela letra não só tem um significado,


como foi inscrita em um estilo específico, peculiar. Isso ocorre porque a pichação é
uma forma de comunicação; porém, “fechada”, cuja semântica é interpretada
somente entre os pichadores.
Contudo, o estilo “enrolado” de pichar não ficou restrito à geração do
Júnior Enrolado e de Pastor, sendo observado, também, com Dost, já no final da
década de 1990.

Minha pichação era DOST. Cada um tinha a sua pichação. Cada um


colocava seu nome e cada um colocava no seu estilo. O meu estilo era o
enrolado. O meu nome, na verdade, veio porque eu tinha uns parceiros que
era DUST, tinha o parceiro DEST e o parceiro DAST. Aí o meu nome veio
desse embalo dos nomes deles. (Informação verbal).

Costelo, pontua outro estilo de pichar, agora observado na sua pichação

Aí, eu conheci Toni. Toni era TOCAM. Ele tinha uma maneira de desenhar e
ele inventava umas pichações engraçadas pra porra! Ele me apresentou o
GRINGO com dois olhos. Aí eu já fui fazendo assim. Assim, cada um tinha
uma técnica que eles chamavam de gang, e aí ele me apresentou esse
GRINGO. (Informação verbal).
72

Pelo exposto, percebemos que escrever códigos na parede não era o


suficiente, pois o pichador deveria ter seu estilo peculiar durante as atividades nas
ruas. Como aponta Abramovay (2010, p.125), “[a pichação] quanto mais elaborada,
mais doida for a letra, maior a admiração entre os pares e, por sua vez, maior a
probabilidade de o pichador torna-se conhecido”.
Visando reforçar os argumentos apresentados, no que tange aos estilos
de pichação, descrevem-se as lembranças de Rataí, ex-pichador do grupo Novos
Terroristas (NT).

Minha pichação se chamava RATAI. Veio de índices da minha cabeça.


Porque o pessoal disse ‘ê, rapaz! Tu joga qual?’. Aí veio na minha cabeça
‘rato’. Aí, ‘não, rapaz! Rato já tem’. Aí veio RATAI.Tinha o estilo morcego, a
letra baixa como se fosse a asa do morcego. Tinha o estilo de bolinha, o
estilo quadrado, que é o próprio pra paredes grandes. E o estilo enrolado.
Na época tinha até uma galera que tinha o alfabeto todinho só em formato
de pichação.Tinha também a parada do pito. Cada tipo de tamanho da
pichação tem uma enumeração de pontuação, de tamanho do pito que vem
no spray. Então, os melhores eram 2.0, 1.5 e 3.0. De 3 pra cima já ficava
grosso demais e era melhor para quem fazia estilo quadrado, pra parede
grande. Pros outros estilos, era melhor o 2.0, que ficava fino. (Informação
verbal).

Figura 03: Ratai em vários estilos diferentes de pichação.22

Rataí demonstra os estilos de pichação existentes até o final da década


de 1990, uma vez que o mesmo é ex-pichador do final deste período, e como a
enumeração do pito do spray interferia no formato da pichação. Dessa forma, os

22 Pichação feita por Ratai no período de entrevista.


73

argumentos explanados de que a pichação é uma fonte de comunicação são


complementados.
Nesse sentido, o pichador seria o emissor e receptor; os muros seriam o
canal; a pichação, por sua vez, seria a mensagem. Em outros termos, há uma
inteligibilidade no ato desta escrita marginal, pois há requisitos individuais
(habilidades) para se tornar um pichador; como é o caso de Fiel, o próximo pichador
a ser analisado.

3.5.2 Fiel: o pichador solitário

No universo da pichação ludovicense, outro nome que se tornou


comentado entre os ex-pichadores entrevistados foi Fiel, descrito por eles como o
“pichador solitário”. Hally assim inicia essas lembranças:
A gente pichava mais era o nome. Um dos primeiros a colocar frases, que a
gente achou até estranho, foi um que pichava FIEL. Era um FIEL meio
artístico. Achamos estranho. Ele não era da GR e nem de nenhum grupo
que a gente conhecia. Ele colocava FIEL e uma frase. Era alguém que
pouca gente conhecia. O pessoal tinha muita curiosidade em saber quem
era ele. (Informação verbal).

Costelo e Augusto Três fornecem, respectivamente, suas visões a


respeito das pichações de FIEL:

Com FIEL, foi diferente. Ele tinha um propósito. O FIEL era um cara que tu
via que pichava, mas que tinha um certo nível de estudo. Ele curtia muito
Renato Russo. Ele era o poeta do muro. Ele colocava frases tipo:
‘comparamos nossas vidas e esperamos que nossas vidas um dia possam
ser melhores’. Ele era sozinho. Eu acho que ninguém nunca conheceu ele.
Esse cara, ele não tinha gangue, não tinha parceiro, ele era sozinho, mas
ele mandou muita pichação na cidade. Muita mesmo. (Informação verbal).
Eu era muito discreto. Mas mais discreto que eu era FIEL. Ele jogava M.F.
Ele nunca me disse o que era M.F. Ele também era estudante e uma vez eu
encontrei com ele. Ele era tão discreto que poucos conheciam ele. Ele
pichava com o nome dele e uma frase. (Informação verbal).

Como explicado, o aspecto que discernia Fiel dos outros não era a fonte
inovadora, mas, sim, o seu relacionamento com os outros pichadores e sua
percepção acerca da pichação. Ele pichava sozinho e, além disto, citava frases e
seu nome. Poucos pichadores o conheciam pessoalmente. Aqueles que mantiveram
contato com Fiel, como Augusto Três, não conseguiam descobrir o porquê da
escolha desta alcunha e da sigla M.F.
Costelo diz que Fiel era o “poeta dos muros” e que era possível concluir
que possuía um nível intelectual avançado quando comparado com outros
74

pichadores. Desse modo, como pontuado no tópico 2.1.2, as pichações no Brasil no


fimda década de 1970 seguiram um modelo literário, em estilo poético, como
exemplificadas pelas seguintes inscrições: “CELACANTO PROVOCA MAREMOTO;
RENDAM-SE TERRÁQUEOS; OUVINDO A VAIA DO VENTO”23, dentre outras.
Esse modelo de pichação se dissolveu paulatinamente nas décadas de 1980 e
1990, mas, em São Luís, Fiel manteve esse formato de pichar.

3.5.3 Augusto Três: quanto mais alto, melhor!

Pastor e Fiel se destacaram no universo da pichação ludovicense da


década de 1990 por seus estilos próprios e inéditos e, também, no convívio com
outros pichadores. Entretanto, eles não foram os únicos que se sobressaíram.
Nessa perspectiva, cita-se Augusto Três, o “pichador das alturas”, como é assim
lembrado por Costelo e Hally, de forma respectiva

O Augusto Três pegou um spray como forma de protesto, porque a gente


achava que era um protesto contra o sistema; ele botava o símbolo de
Brasília, do Congresso e botava ‘casa do roubo’.
Augusto Três foi ousado. Meteu na Embratel, na Deodoro. Em plena 7
horas da noite. Por isso que ele era o líder. Na verdade, chegou um tempo
na pichação que quem jogasse mais alto, era o melhor. Pra tu ter uma ideia,
ele jogou em cima da Biblioteca Pública da Praça Deodoro. Na verdade,
isso era a busca pelo respeito da galera, mas,ao mesmo tempo que tu
ganhava respeito, tu ganhava antipatia de outra, porque tinha uma galera
que queria fazer o mesmo, mas não tinha atitude e queria de alguma forma
te agredir. (Informação verbal).

O Augusto Três era pichador de mais. Ele pichava muito. Ele procurava os
lugares mais altos pra pichar. Aqueles lugares que ninguém pensava em
pichar, pois lá tava o nome dele. Chegou um momento, não sei qual foi, que
o ideal era quanto mais alto, melhor. Só que eu tinha muito medo de altura,
mas eu enfrentava. Então, chegou um momento que quanto mais alto,
melhor. Porque era onde tinha mais visibilidade. As pessoas ficavam
olhando, onde dava mais visibilidade. Então, foi tipo uma concorrência
interna; quem colocava mais alto, era o melhor.O Augusto Trêsera o que
pichava mais [da GR]; ele pichava muito. Então, ele era o mais conhecido.
O Augusto Três era o mais visado; o pessoal batia muito nele. [...] O
Augusto Três estudava no SENAC, no Monte Castelo. Ele pichava alto e ele
foi um dos primeiros a subir em prédios, aqui em São Luís, pra pichar, a
subir em marquises, a subir em postes. Isso foi dando uma visibilidade pra
ele muito grande. (Informação verbal).

Neste trabalho, houve a necessidade de se falar em Augusto Três, tendo


em vista que seu nome foi muito expressado nas entrevistas com ex-pichadores
ludovicenses da década de 1990. Ele ficou conhecido por realizar inúmeras
23 Ver tópico 2.1.2.
75

inscrições, o que lhe gerou uma posição de destaque dentre os demais pichadores,
fato este ressaltado por Abramovay (2010, p. 119) quando afirma que

[...] tem mais fama quem picha mais, sendo mais importante a gangue que mais
aparece. Quando a letra eterniza a fama, por apropriação de espaços, muitos
territórios inacessíveis como lugar de circulação e ocupação pelosjovens se
tornam de certo modo acolhedores.

Porém, muitas pichações não significam que o pichador se tornará uma


celebridade neste ramo, pois a escolha estratégica do local a ser pichado seria outro
critério para que o praticante fosse notado e reconhecido entre os demais. Dessa
forma, Augusto Três optava por ambientes de altitude elevada. Assim, podemos
afirmar que ele transformou vários locais antes inacessíveis em espaços propícios à
pichação.
Júnior Enrolado e Anônimo MC, respectivamente, comentam sobre
Augusto Três
O Augusto Três foi o cara que mais pichou em São Luís. Mas os maiores
pichadores mesmo foi Lando, Cacau e Blak. Esses foram os três maiores de
São Luís. Eles picharam os lugares mais altos, mais improváveis. Exemplo:
aquele prédio do Ministério da Fazenda, lá na Embratel. (Informação
verbal).

O Augusto Três pichou muito aqui em São Luís. Praticamente todo canto
que tu olhasse, tinha lá o nome dele. Nós via mais o nome dele era em
lugares altos, tipo em caixa d’água. Eu cansei de olhar o nome dele em
caixa d’água e agente ficava assim pensando ‘rapaz, esse bicho é doido
mesmo’. (Informação verbal).

Júnior Enrolado oferece uma visão diferenciada sobre o que seriam os


grandes pichadores de São Luís, entendidos como aqueles que inscrevem em locais
tidos como inatingíveis. Para Júnior Enrolado, Augusto Três entraria no rol dos que
mais realizaram pichações na cidade e, não, na categoria dos “maiores pichadores”.
Nessa análise, Anônimo MC destaca que o “pichador das alturas” escrevia seus
códigos em ambientes considerados inacessíveis para outros pichadores.
Seguindo essa linha de discussão, Abramovay (2004, p.118) pontua “[...]
quepichação é tida como um grande desafio, uma disputa na qual um tem que
mostrar ser melhor do que o outro. [passa a ser notado] Aquele que picha em
lugares difíceis, altos, nunca antes pichado.”
Lando, Cacau, Blake e Augusto Três disputariam o ranking dos
pichadores que alcançavam o topo de prédios públicos e privados e realizavam suas
inscrições. Como recordado por Hally, ao ser indagado sobre Augusto Três, em um
76

determinado momento ocorreu essa competição. Como pontuado na introdução


deste trabalho, foi muito difícil encontrar Augusto Três, mas, após várias tentativas, o
ex-pichador foi localizado. Sobre as pichações, ele ressaltou o seguinte:

Eu pichava mais é por protesto. Protesto político. Aí eu pegava e desenhava


Brasília. Nessa época, a corrupção tava demais.Nessa época, muita gente
queria me conhecer. Muita gente entrava na GR pra me conhecer e depois
saía. Quando eles me viam, ‘ê, é esse baixinho aí que é Augusto Três?! É
esse que é Augusto Três?!’. E pronto, ia embora.O lugar mais alto que eu
pichei foi no Ministério da Fazenda, no Canto da Fabril. Eu fui lá em cima,
por dentro, em um horário normal de expediente. Fui lá e deixei minha
identidade lá em cima. Fiz e depois voltei pra olhar. Teve outra vez que eu
joguei em frente ao Lusitana, lá na Embratel. Essa ficou muito massa. Acho
que essa e a da Biblioteca da Praça Deodoro foram as melhores que eu
joguei. Tudo de noite. (Informação verbal).

Augusto Três descreve os locais mais altos que pichou, sendo possível
concluir que ele ainda se sente engrandecido por ter conseguido inscrever em
altitudes elevadas. À época, o público imaginava que ele era alto, em virtude de
suas pichações serem notadas em ambientes não procurados por outros
pichadores. Porém, sua estatura é de aproximadamente 1,57 cm.

Figura 04: pichação de Augusto Três em forma de protesto político. 24

Dentre os pichadores destacados nas entrevistas, apenas Augusto Três


foi localizado, pois Lando, Cacau, Blak, Fiel e Pastor não foram encontrados para a
pesquisa. Isso deixa uma pequena lacuna neste trabalho, mas uma grande
possibilidade de futuras pesquisas na medida em que caso eles sejam encontrados

24
Pichação feita por Augusto Três no período de entrevista com este.
77

e entrevistados podemos ter uma visão mais problematizada sobre a pichação


ludovicense na década de 1990.
Como posto no início deste tópico, a pichação é vista por seus praticantes
como uma forma de comunicação, que não necessita ser feita apenas por meio da
escrita. Nesse sentido, atos comuns entre os pichadores do período mencionado na
pesquisa tinham consequência simbólicas e semânticas reconhecidas e
interpretadas pelos adeptos desta prática. Assim, quando alguém inscrevia em uma
caixa d’água, por exemplo, seria uma maneira de desafiar os outros pichadores,
emitindo mensagens que acirravam a competição entre eles.

3.6 Marcas no território: eles nos pedaços e nas manchas

Os grupos analisados tinham espaços bem delimitados na cartografia


urbana de São Luís, sendo alguns pontos específicos do grupo e outros que reuniam
várias “galeras”. Desse modo, neste tópico analisaremos esses locais, a fim de
delinear a fronteira entre o que era permitido e o que era proibido no mundo dos
pichadores de São Luís na década de 1990. Dost (FN) e Hally (GR), de forma
respectiva, narram suas experiências juvenis

A gente se encontrava na praça da Elca. Lá, na praça da Elca, toda sexta-


feira, no final da tarde, a gente se encontrava, quando a gente saía da
escola. Geralmente, os grupos todos se encontravam lá. Porque lá tinha
festa, bebida e muita mulher. Galeras da GBB, KB, FN, AP, NT, DN, GS.
Geralmente, os conflitos a gente resolvia lá. A gente deixava pra se matar
lá. Agora tinha nossos pontos fixos, tipo aqui no BF [Bairro de Fátima], na
porta de algumas escolas, tipo aqui no Artur carvalho, Gonçalves dias e
outras aqui da nossa área. (Informação verbal).
[...] a gente se reunia na praça, se reunia onde hoje é o CEGEL, lá onde
hoje é a Universidade São Luís [Faculdade Estácio São Luís]. Ali era uma
loja, não sei o que de diamantes. Ali, tinha uma pracinha muito grande e aí
a gente se reunia lá. Depois a gente foi pra praça em frente ao LICEU.
Depois a gente foi pra praça que fica de frente pra Santa Casa e depois na
Deodoro. A gente se reunia e ficava conversando e também organizava,
fazer cota pra comprar uma lata de spray, pra pichar à noite. Então, a gente
chegava umas 4 horas da tarde e ficava ali até umas 7 horas da noite. E de
lá a gente saía pra pichar. Aí, a gente conversava e já saía pra pichar.
(Informação verbal).

Em um trabalho realizado com o grupo Garotos da Bota preta (GBP),


Costa (2011) percebeu que o grupo tinha pontos bem delimitados na cartografia
urbana da cidade. Esses pontos delimitados foram denominados de pedaços e
78

manchas, utilizando a nomenclatura do antropólogo urbano José Guilherme Cantor,


quando descreve essas duas categorias

Aquele pedaço intermediário entre o privado (a casa) e o público, onde se


desenvolve uma sociabilidade básica, mais ampla do que a fundada nos
laços familiares, porém mais densa, significativa e estável do que as
relações formais e individuais impostas pela sociedade [...]. A qualquer
momento os membros de um pedaço podem eleger outro espaço como
ponto de referência e lugar de encontro Manchas são áreas contíguas do
espaço urbano dotadas de equipamentos, marcam seus limites e viabilizam
– cada qual com sua especificidade, competindo ou complementando – uma
atividade ou prática predominante. [A mancha é] resultado da relação que
diversos estabelecimentos e equipamentos guardam entre si, e que é o
motivo da afluência de seu público [que busca também a] oferta de
determinado bem ou serviço [e] uma possibilidade de encontro. (MAGNANI,
2005, p. 179)

Desse modo, os pedaços corresponderiam aos locais delimitados do


grupo, dentro dos bairros, mas não necessariamente somente nesses ambientes. No
caso especifico da Bota Preta (GBP), os pedaços corresponderiam à praça do bairro
Alemanha, ao canto da Igreja da Glória, à rotatória da Avenida dos Franceses e à
ponte do Ipase. Já Dost, da Falange Negra, detalha que os pedaços desse grupo
eram limitados a pontos específicos do Bairro de Fátima e entradas de escolas
situadas na Avenida Kennedy.
Magnani (2005) pontua, ainda, que a qualquer momento o grupo poderá
eleger um novo pedaço, tornando o antigo em desuso. Esta colocação é observada
nos comentários de Hally, que frisa que o grupo Garotos Rebeldes tinha como
pontos fixos não bairros, e, sim, praças. Esses locais eram multáveis; inicialmente,
numa praça onde hoje se situa a escola Cegel25; depois, migrou para outra praça,
localizada em frente à escola Liceu26; passando, em seguida, para outra, instalada
diante da Santa Casa de Misericórdia27, culminando na Praça Deodoro28.
Sendo assim, tem-se outra colocação de Magnani (2002,p. 21), que nos
ajuda a compreender o porquê das praças do Centro da cidade de São Luís se
tornarem pedaços da GR, quando afirma que

Uma primeira análise mostrou que essa noção era formada por dois
elementos básicos: um de ordem espacial, física – configurando um

25 Centro de Ensino Governador Edison Lobão, localizado na Rua Osvaldo Cruz s/n, Centro de São
Luís.
26 Centro de Ensino Liceu Maranhense, localizado no Parque Urbano Santos s/n, Centro de São Luís.
27 Hospital situado na Rua do Norte, 233 – Centro de São Luís.
28 Praça situada no Centro da cidade de São Luís.
79

território claramente demarcado ou constituído por certos equipamentos – e


outro social, na forma de uma rede de relações que se estendia sobre esse
território. [Desse modo] o pedaço é o lugar dos colegas e chegados.

Assim, os pedaços não corresponderiam apenas a pontos em bairros,


podendo estar presentes, também, em um local de grande mobilidade urbana, a
exemplo das praças situadas na região central da capital maranhense, sendo
necessária, aqui, a percepção identitária do grupo ao local ocupado ou delimitado.
Como aborda Hally, os integrantes da GR transitavam pelas praças em horários
fixos.
Agora, discutiremos a problemática das manchas e das turmas de
pichadores. Assim, em complemento às colocações de Hally e de Dost, Júnior
Enrolado expõe que:

A minha galera era a GC, que era a galera do Cohatrac. O pessoal


chamava de Garotos Cruéis. A gente tava se reunindo, se reunindo,
principalmente pra ter um volume, pra quando tu fosse em um clube de
música. Porque era arriscado tu ir num clube de música, só tu, um, dois.
Então, era importante tu ter a galera. Tu indo com um volume, tu até
intimidava. O conflito pior que existiu foi com o pessoal da Cohab. O nome
da galera era KR, Kebradores Rebeldes. O líder era Deserk. [...] A gente
frequentava basicamente 3 clubes; tinha outros, mas a gente frequentava
mais esses, que era a Taj Mahal, a Tucanos e o Casino Maranhense. A
KGB e a Scorpions foi muito rápida. A KGB era muito legal também, porque
ela funcionava toda sexta-feira, das 5 da tarde até 10 da noite, na hora que
negada tava saindo da escola. (Informação verbal).

Nas palavras de Magnani (2005, p. 178), a mancha

[...] é mais aberta, acolhe um número maior e mais diversificado de


usuários, e oferece a eles não um acolhimento de pertencimento, mas, a
partir de um bem ou serviço, uma possibilidade de encontros, acenando, em
vez da certeza, com o imprevisto: não se sabe ao certo o que ou quem se
vai encontrar na mancha, ainda que se tenha a ideia do tipo de bem ou
serviço que lá é oferecido.

As galeras de pichadores analisadas escolhiam pontos na cidade, que


eram locais de encontros com outras turmas. Esses ambientes, categorizados como
manchas, têm como uma de suas características a imprevisibilidade, pois o jovem se
deslocava para essas áreas convicto de que iria socializar com outros garotos e
moças, mas sem ter certeza das pessoas que estariam nelas (MAGNANI, 2005).
No caso especifico da FN, de Dost, a principal mancha da turma era a
chamada Praça da Elca. A praça era um local de consumo de bebidas, um ponto de
encontro de outras “galeras”. Nesta praça, inclusive, muitos conflitos entre grupos
80

rivais eram resolvidos e outros gerados. Júnior Enrolado, sobre estas memórias,
discorreu acerca dos ambientes de articulação da GC com outras turmas. Surgem,
então, as boates de São Luís da década de 1990 como sendo estes locais.
As boates ludovicenses da década de 1990 eram pontos de encontro de
turmas, como aponta Kaká kiss e Robocop:

A gente saía ali da escola e ia lá no centro, lá na Scorpions e na KGB, que


foi uma das primeirinhas, que ficava ali pra quem vai descendo a Rua Rio
Branco. Aí depois é que veio essas, Tucanos, Taj Mahal, Ninja, que, antes
da Taj Mahal, se chamava Ninja. Lá, geralmente quando rolava conflitos,
era mais na saída. Assim, quando havia o encontro das galeras na saída.
(Informação verbal).

Antigamente as boates funcionavam Quinta, Sexta e Sábado, aí, depois foi


ficando só Sábado e Domingo, mas no nosso tempo era Quinta, Sexta e
Sábado. A matinê era Quinta e Sexta. No Sábado era Casino e no Domingo
era só pra gente repousar... Na Quinta e na Sexta a gente ficava no Centro,
lá na Deodoro, marcava na danceteria... KGB e... e na Scorpions, que era
no Canto da Fabril. (Informação verbal).

As boates funcionavam como locais de socialização entre os pichadores,


porque se poderiam solucionar conflitos e divergências, advindos ou não da
pichação; além de ser um ambiente em que se curtiam músicas da época. Dessa
forma, frequentá-las e ser notado nelas significavam pertencer a uma mancha, mas
era necessária a percepção identitária de grupos, de turmas, como destacado por
Júnior Enrolado. Este frisou que o indivíduo não era benquisto nesses
estabelecimentos quando se observava nele a ausência de um sentimento que o
unia a um grupo.
Assim, “marcar presença” nas manchas e demarcar pedaços eram formas
de destacar o nome do grupo na cartografia urbana de São Luís. Diógenes (1998, p.
41), nessa abordagem, ressalta que um dos objetivos das gangues em suas
atividades era
[...] ganhar visibilidade [e] fazer excessivamente essa visibilidade tornar-se
um modo não apenas de romper os ‘muros’ e os signos do ‘estigma
territorial’, como também de transposição de dinâmicas localizadas para as
tramas globais de registro público.

Adquirir visibilidade no seio de um grupo de pichadores não significava


apenas estar presente em manchas ou ter pedaços. Havia outras formas de ser
notado. Hally e Kaká Kiss, de forma respectiva, explicam que
81

Às vezes, o Caveira saía à noite e pichava pra mim. Às vezes, eu não ia e


ele colocava pra mim. O Augusto Três também já aconteceu dele colocar
pra mim e de algumas pessoas colocar pra ele. (Informação verbal)

Eles tinham uma mania de se dois saísse e um não fosse tu jogava a dele
[marca] também. Era pra considerar o cara. Ai ‘pô, não deu pro cara vim,
mas a gente vai considerar ele’. (Informação verbal)

A visibilidade numa gangue de pichadores, ou participar ativamente dos


registros públicos, poderia ser obtida ao inscrever os códigos em locais de
mobilidade urbana. Esses espaços poderiam ser uma escola, uma biblioteca, uma
loja ou um hospital. Mas esses prédios teriam de estar instalados em ambientes de
grande visibilidade pública, para apreciação entre os pichadores e a sociedade. No
entanto, como bem aponta Hally e Kaká Kiss, havia momentos em que todos os
membros do grupo não poderiam comparecer aos pontos de encontros, com o
objetivo de inscrever nos locais escolhidos.
Nessas ocasiões, segundo os entrevistados, os presentes no local
“consideravam o cara” (ANDRADE, 2007). Assim, “A busca de ‘consideração’ [nas
gangues] é uma batalha cotidiana em que a respeitabilidade deve ser alcançada a
qualquer preço” (ANDRADE, 2007, p. 53). Esta atitude era uma forma tornar o
pichador ausente visível no espaço público, sendo duplamente representado, por
seu colega e por sua própria pichação.
Por representação nesta discussão, temos, inicialmente, o entendimento
de Roger Chartier (1990), cujo conceito seria uma imagem ou símbolo que pudesse
remeter a uma coisa ausente ou exibir uma presença. Neste mesmo caminho de
pensamento, Peter Burke a analisa como símbolos, imagens e conceitos que fazem
emergir à memória a ideia de um objeto ausente (BURKE, 1994). Em complemento
a esses historiadores, Pesavento (1995) aponta que a substituição de uma imagem
por sua representação não significa uma substituição idêntica à realidade. Assim, a
representação serviria para visualizar uma imagem ausente e, também, para
explicar, justificar e conformar uma dada realidade.
Dessa forma, a visibilidade pública do pichador perpassa pela noção de
representação, uma vez que o pichador é o ausente e a sua escrita, registrada na
arquitetura da cidade. Mas o entendimento de representação, no que tange às
gangues de pichadores, não se resumiria ao ato de inscrever em paredes e muros.
Desse modo, temos, de forma respectiva, Rataí, Dost e Costelo:
82

Eu pichava mais era RATAI e aí às vezes eu jogava pras meninas. Tipo


assim: ‘para Neide NT’. Sempre tinha que vim o nome da gangue. Era tipo,
ali esteve RATAI da NT. Não adiantava tu botar só o teu nome sem o da
galera, porque tinha que dizer de onde tu era. (Informação verbal).

Na nossa época, pra ser ‘os caras’ e ser respeitado tu não precisava ter um
carrão, ter dinheiro, ter uma roupa de marca! Precisava tu ter uma galera,
ter um nome e ser um cara que sabe dar porrada! Ser de gangue e ter um
nome era ser o cara! Os outros iam pensar duas vezes antes de mexer
contigo porque eles sabiam que se mexesse contigo tava mexendo com um
grupo. (Informação verbal).Tu precisava divulgar o teu produto; então, como
divulgar?! Pichando em todos os lugares de São Luís. Aí todo mundo que
olhasse ia falar ‘é, essa gangue tá famosa’, porque a FN tá aqui, a FN tá ali.

O GRINGO tinha que vim junto com o nome GR, porque cada pichador
tinha sua gangue e tu tinha que jogar, que mostrar qual era a tua gangue.Tu
tinha que mostrar de que buraco tu tá saindo. (Informação verbal).

Figuras05 e 06: pichadores e a marca do grupo.29

As galeras de pichadores em São Luís na década de 1990 possuíam


códigos específicos com relação à arte da pichação. Um deles era escrever a
identidade dos pichadores junto ao nome das “galeras”. Rataí, Dost e Costelo
frisaram que o pichador, nesse jogo da comunicação, deveria comunicar ao
praticante de outra turma sobre seu grupo e o bairro de atuação. Nesse sentido,
registravam não apenas uma pichação, como, também, uma ideia de grupo e de
território.
Nessa disputa em busca do reconhecimento público, os pichadores
utilizavam suas estratégias, conforme Anônimo MC descreve, ao recordar que

[...] um tempo desses nós se aliamos com o pessoal da JJ [Jovens


Justiceiros] e agente pagava eles pra colocar nossa pichação; o nome aqui
da MC em alguns pontos ali da Alemanha e Monte Castelo. Tipo assim, nós
dava cachaça, spray, de vez em quando um dinheiro, só pra ter nosso nome
lá, lá no território da Bota preta, acho que da DR e outras galeras que não tô
recordando agora o nome. (Informação verbal).

29
Pichações feita por Augusto Três no período de entrevista com este.
83

Essa visibilidade pública se tornou um dos objetivos dos pichadores de


São Luís na década de 1990; tanto que era permitido até oferecer dinheiro ou
mercadorias para que membros de outros grupos inscrevessem a identidade das
“galeras” e de pichadores em equipamentos urbanos, públicos e privados,
ludovicenses. Esse ato de ser representado publicamente se transformou em
obsessão para várias turmas de pichadores da época.
Mais existia outra forma de o pichador ludovicense e sua turma serem
representados na cartografia da cidade, de acordo com declarações respectivas de
Dost e Pernambuco

[...] a gente ficava unido porque a gente se conhecia e nossas galeras se


dava bem. Aí a gente pichava e colocava lá que a FN tava unido, com o
sinal de adição na pichação, com outras gangues. Isso mostrava poder e
espaço. Tipo assim: a FN aumentou seu espaço. E isso não deixava de
intimidar outras gangues. (Informação verbal).

Acontecia muito assim da RB ir pichar num local e devido alianças que


fazíamos com outras gangues tínhamos que colocar o nome deles lá com o
da gente e colocar o sinal de adição, tipo assim, RB + e aí tu colocava o
nome das turmas que tu tava se aliando. Assim, com isso as gangues rivais
à tua já ficavam mais assim com o pé atrás porque eles já ficavam com
medo porque tua galera não tava só. (Informação verbal).

Dost e Pernambuco relatam a união entre “galeras”, que é aceita com


facilidade em várias situações. Costa (2011), observou isto em seu trabalho com os
Garotos da Bota preta. Estes recordaram uma invasão ao bairro do Bequimão, em
São Luís, na busca pelos integrantes da turma denominada de Mensageiros de
Cristo (MC). Ainda sobre a aliança entre grupos, Dost e Pernambuco pontuam que o
acordo deve ser compreendido por todos os membros dos grupos, sendo que a
pichação exerceria a função de transmitir esta mensagem.
Assim, se um grupo estiver aliado a outro, a mensagem de que houve, de
fato, esta união, deve ser repassada ao receptor de forma objetiva e direta. O
emissor, no caso a FN e a RB, nutre a expectativa de que o receptor decodifique de
forma rápida o recado. Em outros termos, a Falange Negra e os Ratos do barulho
estariam mais resistentes e firmes, tendo em vista que, agora, são aliados.
Neste sentido, para se tornar visível na cartografia da cidade de São Luís,
o grupo de pichadores deveria realizar outras ações além de frequentar manchas.
Isto é, o foco seria abrangido para o ramo da representação no ambiente urbano da
capital, por meio da simples inscrição da sua marca e de seu grupo numa parede,
84

ou, também, por meio de alianças com outras turmas. Destarte, as galeras de
pichadores teriam de decodificar a mensagem remetida sobre esta associação.

3.7 Marcas no território: queimando pichação

Discutimos, no tópico anterior, sobre as formas de visibilidade pública de


um grupo de pichadores, sendo mencionada a demarcação de pedaços, a
frequência nas manchas e a divulgação da sua marca e da sua turma na cartografia
da cidade de São Luís. Agora, iremos enfatizar uma consequência da prática da
visibilidade pública, o ato de se “queimar” uma pichação. Hipólito, ex-integrante do
grupo Garotos da Bota Preta (GBP), destaca uma situação em que ocorre esta
atitude
Aí eles [integrantes da GG 2000] vieram pichar aqui [no bairro da
Alemanha]; aí a gente pegou e queimou tudinho... aí ele veio [um integrante
da GG 2000] falar comigo e a galera toda aqui reunida.
- Ei rapaz, eu vim falar contigo [GG 2000].
- Pois não [GBP].
-Tão falando que a gente é rival de vocês, não tem nada haver. Vocês
andam queimando pichação nossa [GG 2000].
-Rapaz, vocês tão pichando na nossa área [GBP].
-Não, não, foi mal! Nós não sabia que era assim! A gente queria era fazer
as pazes e ser aliados de vocês [GG 2000].

Dentre os motivos mais comuns de se iniciar ou aprofundar um conflito


entre grupos de pichadores é o ato de “queimar” uma pichação. Abramovay (2010,
p. 136) explicita este caso, ao dizer que “anarquizar, ou seja, riscar a pichação de
outra pessoa, é o estopim para a eclosão de uma guerra entre indivíduos ou mesmo
entre gangues”. Problematizando mais essa discussão, temos agora os
posicionamentos, de forma respectiva, de Costelo e Dost:

Queimar pichação era coisa séria. Era um desrespeito. Teve uma minha
que foi queimada e eu dei porrada no guri. É assim, tu tem o maior trabalho
pra botar tua pichação e na hora vem o cara e risca. Tava chamando pro
confronto. (Informação verbal).

Algumas vezes a gente pichava em território alheio, tipo ali no Centro, que
era território da GC. Aí, de vez em quando, a gente pichava por ali. A
pichação era bem-vinda não somente na FN, como em todos os outros
grupos. Aí tinha competição entre as gangues rivais. A gente queimava a
pichação deles e fazia um risco e jogava a nossa por cima.Queimar
pichação era uma coisa muito séria. Se tu for queimar, tua gangue e tu vai
ter que ter estruturar pra segurar o veneno. Quando tinha festa, as gangues
se encontravam e gerava conflitos e tu e tua gangue tinha que tá preparado
pra responder por tuas broncas. Várias vezes eu briguei por queimar
pichação dos outros. Uma vez eu queimei a pichação do pessoal do Bom
Jesus, na época da KGV e a GKV, que eram gangues que viviam se
matando. Tudo, geralmente, começava no CEMA, na escola General Arthur
85

Carvalho. Ela foi formadora de vários e vários garotos que eram de gangue,
que eram pichadores e que eram de periferia. (Informação verbal).

É visível nas falas de Costelo e de Dost a noção de “honra gangueira”, em


que o grupo ou o adepto teria de se posicionar rigorosamente em caso de sua
pichação ser “queimada”. Nesta linha de pensamento, Andrade (2007, p.148)
sinaliza que:

Principalmente entre os jovens de sexo masculino, a honra é um


valorfundamental na decisão de aderir a uma gangue, seja uma
palavrapraticamente inexistente em seus discursos. ‘Honra’ comparece nos
discursos por meio da noção de “reputação”, fortemente presente em suas
consciências.A busca de reputação e prestígio explica numerosas condutas
dos jovens eparticipa, fundamentalmente, da construção da identidade viril.

Aderir a uma gangue de pichadores, portanto, é aceitar e seguir seus


códigos e valores estabelecidos. Desse modo, foi visto em trechos anteriores desta
pesquisa sobre normas direcionadas aos pichadores em São Luís na década de
1990, como a de registrar o seu nome e o do grupo ao qual integra. Neste tópico,
nota-se outra recomendação quando se “queima” uma pichação. A esses códigos
não inscritos, mas devidamente interpretados e vivenciados pelos pichadores,
chamo de ethos da pichação.
Transgredir esses códigos poderia gerar seriíssimas consequências.
Neste sentido, Augusto Três comenta o seguinte:

Eu não tinha nenhum tipo de relação cordial com outras galeras. A minha
identidade era secreta, só o pessoal da GR me conhecia. Até porque eu não
ficava dando trela e nem me aparecendo muito. Aí tem esse Lango, que era
da nossa gangue, só que ele traiu a gente. Ele foi pra outra galera, a EV, a
Esquadrão Vermelho. Ele pediu pra entrar na nossa galera e foi aceito, mas
só que ele entrou tipo como um espião. Só pra vê nossos nomes e falar pra
eles lá da EV. Aí depois que ele soube de tudo da gente, de todos os
nossos nomes, aí ele foi pra lá. Ele traiu a gente, a nossa confiança. Eu bati
nele que quase mato ele. Ele errou! (Informação verbal).

Lango violou o código de um pichador ludovicense da década de 1990, ao


adentrar no grupo GR somente para conseguir os estilos dos pichadores desta
turma e depois repassá-las ao seu novo grupo, o Esquadrão Vermelho (EV). Dessa
forma, as identidades dos integrantes do grupo GR foram reveladas, sendo que os
membros desta turma as preservava com cautela. Augusto Três, por exemplo, não
se exibia em público, nesse sentido. Como punição, Lango foi agredido por vários
outros integrantes da GR.
86

Se entrar em uma gangue de pichador era difícil, permanecer nela


também não era tarefa fácil. Como aponta Andrade (2007, p.152), “Assim como para
ingressar numa gangue, também existem regras para indivíduo permanecer fazendo
parte de uma. O jovem deve manter-se fiel ao pacto inicial de não denunciar
companheiros e seguir a lei do silêncio. ”
Desse modo, “queimar” pichação era uma atitude sórdida no cenário da
pichação ludovicense da década de 1990. Percebemos, assim, que a pichação
significa acionar uma gama de sentidos, tendo sua semântica própria, que perpassa
pela noção de representar a si e ao seu grupo, conforme já descrito neste trabalho.

3.8Marcas no território: os contra-pichadores

A pichação em São Luís na década de 1990 tinha seus códigos


entendidos somente pelos pichadores. Entretanto, no referido recorte cronológico de
pesquisa, surgiram os contra-pichadores, que se tornaram uma repressão à prática
da pichação. Iniciamos as colocações concernentes a este caso, respectivamente,
com Kaká Kiss e Robocop, ex-integrante do grupo Garotos da Bota Preta (GBP)

Na época fizeram uma galera, acho que era mais por inveja, uma gangue
de mulher contra pichadoras mulher! Pra agarrar pichadoras mulher! Elas
acharam de fazer uma gangue, dizendo que eram contra as pichadoras, só
pra querer quebrar as pichadoras mesmo. Foi aí que eu arrumei uma
confusão grande com uma delas, mas só que quando ela veio foi com mais
de dez delas. Aí uma vez, eu lá na GD, aí elas vieram e ‘ah, tu que é Kaká
Kiss?!’, eu digo ‘rapaz, eu sou’. Mas só que se fosse uma de cada vez eu
dava, mas só que vieram tudo de uma vez! Aí foi muita covardia!
(Informação verbal).

A gente tinha raiva de pichador. A gente achava que isso era uma coisa
completamente diferente do que a gente fazia. Era uma coisa que a gente
não admirava e nem adotava. E o pior que era uma coisa que queimava a
gente. Quem olhava a gente reunido, achava que a gente era pichador e
que a gente tava pichando. A gente fazia era quebrar pichador! (Informação
verbal).

Kaká Kiss fala de uma galera de mulheres que se reuniram para


confrontar as pichadoras. Ela, inclusive, foi procurada por essa nova turma. Já
Robocop, ex-integrante do grupo GBP, relata como os membros de seu grupo agiam
de forma agressiva com relação aos pichadores. A fim de entender o porquê do
comportamento de determinados grupos, de aversão à pichação, destacam-se os
pensamentos de Andrade (2007, p.89) quando diz que
87

Existem grupos que se dedicam apenas à pichação. Na maioria dos casos,


são formados por adolescentes que picham pelo aspecto lúdico da
atividade, para se divertir, ‘pra curtir’ e compram o spray com o pouco
dinheiro que conseguem obter da família. Porém, optar unicamente pela
pichação pode ser motivo de discriminação por parte de grupos ou
indivíduos que assumem a vida criminosa, pois deixa margem para ser visto
como uma pessoa medrosa, sem malandragem e sem ’atitude’. Para os que
transpõem o limite da legalidade, os apenas pichadores não merecem
respeito, são considerados ‘comédia’ (bobos, otários) e contam somente
com a admiração de seus companheiros: ‘Os caras só têm fama entre as
gangues deles ali’.

Talvez, os pichadores eram mal vistos por determinadas “galeras” de São


Luís possa ser explicado pelo fato de que eram vistos como desocupados, que
agiam em desconformidade com a norma legal vigente. Robocop diz que o grupo
GBP possuía o receio de ser confundido com pichadores. Costa (2011), em uma
pesquisa de nove meses com onze ex-integrantes do grupo GBP, conseguiu mapear
as atividades deste grupo em seu tempo de vivência, que foi de 1992 a 1994. Das
atividades mapeadas, citam-se a prática do surf urbano, conflitos com outras
galeras, dança do break, consumo de bebidas alcoólicas etc.
No que se refere ao grupo GBP, é importante ressaltar Sagat, que assim
é lembrado por Bob, ex-Bota Preta

Tinha uns da gente que a gente achava diferente. Eles gostavam de pichar,
mas a gente gostava de pichar era nos cadernos das meninas. Mas tinha
esses que saíam pichando os muros.Aí tinha o Sagat. Quando a gente
conheceu ele, ele era pichador demais e como a gente não gostava de
pichador, ele acabou ficando um pouco pra trás. Mas aí a gente ia pras
festas e ele ia também, e aí ele ia e participava de umas rodas de break. O
cara morava no Caratatiua, e a gente não ia quebrar ele só porque ele
pichava. E aí ele acabou ficando com a gente. (Informação verbal).

Sagat era pichador, mas foi aceito no Garotos da Bota Preta, um grupo de
contra-pichadores. Contradição? Nem tanto; afinal, Bob esclarece que Sagat morava
na área de pedaço dos GBP, participava de roda de break30 este grupo, dentre
outros detalhes. Este pichador, convém frisar, se tornou um caso singular no
ambiente do GBT, pois não foi submetido ao “corredor polonês”. Augusto 3, por
outro lado, não escapou da ação dos contra-pichadores. Como relembrou:

Eu vivia me mudando. Mais por causa [da fama] do Augusto Três e da GR.
Eu morei no Sacavém, no Santa Cruz, morei na Cidade Operária, no
Cohatrac. Eu já passava a ir eu só e fui caçado por outras gangues e,

30
Um estilo de dança que pode ser feito com formato robótico ou com passos rápidos, dependendo do
tipo de música.
88

principalmente, pela polícia. [...] Aí tinha JCP (Jovens Contra Pichadores), a


MC, a PR e outras que eram gangues que me odiava. Nessa época, não
era só a GR; tinha a galera dos TOTOL’S. Eles também eram uma gangue
e parece que eles viram um filme americano que passava sobre as gangues
de lá e se inspiraram neles. Fizeram uma misturada e saiu os TOTOL’S. O
líder deles era de Quimbão. Ele tinha muita raiva de mim, principalmente,
porque eu tinha mais fama do que ele. Devido minha fama atiçada.
(Informação verbal).

Interessante pontuar que Augusto Três não foi perseguido apenas pelas
gangues de contra-pichadores, a exemplo da JCP, mas, sim, pelas próprias galeras
de pichadores, em função de sua visibilidade expressiva na cartografia urbana da
cidade de São Luís. Desse modo, não só os pichadores inscreveram em muros
ludovicenses, como, também, aqueles que repreendiam a pichação.

3.9Gangues, pichação e mulheres: papéis sociais em (re)construção

Ser pichador em São Luís na década de 1990 era uma atividade muito
arriscada, não só pela repressão imposta pelos órgãos oficiais do Estado, como,
também, pelas gangues de contra-pichadores. Mas eles eram admirados e
paquerados por jovens da capital maranhense daquela época. Assim, Costelo e
Augusto Três explicam que:

[pichar] Era mais negócio de autoafirmação e também porque esse lance de


pichação dava muita gatinha. Elas andavam assanhadas querendo saber
quem era esse menino que tinha nome em um bando de parede. Aí, os
caras achavam legal e mandava recado pras gatinhas na paredes, tipo: ‘um
beijo pra ti’. (Informação verbal).
Elas ficavam doidas. Elas ficavam mais assim acho que por causa da fama
e da ousadia. Elas ficavam doidas pra sair comigo e contar depois ‘ah, eu
fiquei com Augusto Três'. Meu lema era pichar e protestar, mas depois e
muito depois, eu fui percebendo que isso tava chamando muita mulher pra
minha bacia e aí eu fui aproveitando essa história. Eu pichava muito é pra
Nanda Kiss. A gente se comunicava muito por pichação, tipo, minha
pichação é para Nanda Kiss. (Informação verbal).

A pichação, nesse sentido, é assimilada como meio de comunicação


entre seus adeptos. Aqui, observa-se um diálogo (feedback) entre os pichadores e
as moças ludovicenses. Seguindo as declarações dos entrevistados, deduzimos que
os pichadores com mais notoriedade pública eram os que possuíam o maior número
de pretendentes e jovens admiradoras. Augusto Três, “pichador das alturas”, frisou
que manteve muitas relações amorosas no referido período.
89

Mas, será que a reputação de um pichador atraía, de fato, as mulheres?


Para argumentar sobre tal problemática, temos, de forma respectiva, as
ponderações de Júnior Enrolado, Kaká Kiss e Dost,

[a pichação] Foi tipo um fenômeno, porque todo jovem na época queria ter
uma marca. Nem que ele não quisesse ser pichador, mas ele queria ter uma
marca. Queria ser identificado entre a galera. Era, tipo, um grito de
identificação na época. A pichação chamava mulher porque muitas meninas
queriam pegar carona na fama do pichador. De dizer assim: ‘ô, quando tu
botar tua pichação lá, coloca meu nome’. (Informação verbal).

Eu conhecia meninas que queriam se aproximar com pichadores por causa


da fama. Eu fui por acaso me envolver com SPAY. Mas através dele que eu
fiquei mais famosa. Eu conheci umas que uma vez aqui, outra vez ali se
envolvia com pichadores buscando a fama com a galera. (Informação
verbal).

[...] era tanta mulher que dava pra encher um balde. Tinha muita menina
que queria entrar no grupo, só pra tá junto dos homens. As meninas se
espelhavam na gente. Tipo assim: nós era os caras, os bambambã, a gente
tinha muita fama com elas. Geralmente as meninas vinham e perguntavam
se era eu que era DOST. E eu achava isso muito massa! (Informação
verbal).

Como pontuado por Júnior Enrolado, Kaká Kiss e Dost, as jovens


pretendiam ser reconhecidas tal qual o pichador. Em determinada pichações, por
exemplo, era feito o pedido para que o nome da namorada do praticante fosse
registrado no mesmo espaço em que seria inscrita a identidade do companheiro.
Neste sentido, Abramovay (2010, p. 135), sinaliza que

[...] a pichação é um dos principais construtores de identidade do gangueiro,


uma identidade que é diferenciada entre as meninas, já que a maioria delas
costumam não pichar- em profecia auto cumprida- já que ou acha, que não
sabem ou não se interessam, mas acatam a posição deles sobre sua
inabilidade com a letra.

Pelas colocações de Abramovay (2010), tem-se uma visão dos motivos


que conduziam as garotas a desejar seus nomes inscritos ao lado da pichação do
parceiro. Ainda sobre esta situação, Júnior Enrolado e de Costelo, respectivamente,
destacam que
Geralmente, elas procuravam os pichadores mais famosos pra colocar os
nomes delas, porque elas não tinham coragem de passar a madrugada
andando pela cidade, procurando um lugar bom pra pichar. Esse negócio da
pichação na década de 1990 foi muito importante. (Informação verbal).

As mulheres não pichavam muito. Era mais a gente que jogava pra elas. Até
porque era muita correria, tinha que subir, tinha a questão das marquises e
tinha que ter toda uma estratégia pra subir nelas e ficava complicado
quando tu tinha mulher na parada. Tinha muita menina que chamava a
90

gente: ‘ô, vem aqui, escreve aqui no meu caderno o teu nome e alguma
coisa’. Tinha a questão da divulgação da tua marca entre as meninas, de
divulgar o teu nome. Tinha essas mulheres, as fãnzinhas. (Informação
verbal).

Júnior Enrolado e Costelo explicam por que a presença feminina no ato


da pichação se tornava um empecilho. Como dito por Costelo, “pichar é arte e correr
faz parte”. Ele relembra que pichar não era uma atividade simples, e que
necessitava de estratégias ousadas, como subir em um muro ou em prédios.
Portanto, o comparecimento de mulheres nesses locais seria um obstáculo, algo que
retardaria o processo. Júnior Enrolado, por sua vez, salienta que o pichador
transitava pela cidade durante a madrugada, a fim de encontrar um espaço propício
para o registro das inscrições. Nesse sentido, as jovens não teriam paciência para
permanecer nesta busca.
No entanto, nem todas as mulheres seguiram este comportamento
referente ao registro de seu nome na cartografia da cidade de São Luís a partir do
spray de um pichador. Kaká Kiss se mostrou ser uma exceção, como demonstrado
em seu comentário:

Eu pichava e jogava meu nome, mas conhecia outras meninas que só


pediam pra deixar o nome delas lá. Eu não tinha, assim, preferência por
locais. Mas na época eles tinham esse lance de quanto mais alto, melhor,
não por ser o mais alto, e sim por ser o mais difícil. Agora, assim, quando o
meu nome tava em um local alto é porque o SPRAY jogava. Ele marcava às
vezes à noite e a gente marcava e comprava as latas de spray e saía pra
pichar. Eu, assim, queria era curtir, fazer o que todo mundo tava fazendo, tá
no momento da galera! (Informação verbal).

Kaká Kiss ressaltou que pichava e se reunia com os praticantes, pois se


relacionava sem muitos conflitos com os pichadores, destacando, aqui, o pichador
Spay. Houve casos em que as garotas solicitavam a inscrição marginal de seus
parceiros não em muros ou paredes, mas, sim, em cadernos. Assim, Augusto Três,
Júnior Enrolado e Kaká Kiss abordam, respectivamente, esta discussão:

Elas eram nossas namoradas. Eu pegava muita mulher, mas por causa da
minha pichação e fama. As mulheres ficavam ‘quem é, quem é ele?’. Aí eu
chamava uma pessoa de confiança e perguntava quem era ela. Aí eu via e
via se valia a pena, se fosse bonita. As mulheres tinham um caderno de
pichação autografado. Elas levavam o caderno e deixava com alguém e
passava pra gente. E a gente pegava e autografava o caderno. (Informação
verbal).

Aí as meninas vinham e ‘tu que é o Júnior Enrolado?’ Aí elas pediam pra


botar no caderno delas e [falavam]: ‘agora me explica onde é que tá o J, o
91

U...’. Só tinha aquela curiosidade. Aí eu ia desmontar aquele logo, aquela


marca. Aí, não deixava de ser um orgulho pra mim. (Informação verbal).

Eu cheguei a ter esse caderno de pichação. Era um caderno normal


escolar. Nesse caderno eu jogava minha pichação, Júnior Enrolado, jogava
a dele e assim ia. Tinha colegas minhas que caçavam os pichadores
famosos e pediam pra eles colocarem a marca deles nos cadernos. Rapaz,
era muito massa! (Informação verbal).

Analisando estes comentários, percebe-se que a pichação foi uma forma


de comunicação da juventude ludovicense da década de 1990. As jovens
valorizavam o código dos pichadores e retribuíam, com pretensões amorosas,
àqueles dotados de mais notoriedade. Augusto Três e Júnior Enrolado, por exemplo,
descreveram a satisfação em virtude do retorno comunicativo realizado pelas
meninas daquele período.

Figura 07: parte de um caderno de pichação de Kaká kiss31.

Como bem aponta Kaká Kiss, as ludovicenses que frequentavam a rede


de sociabilidade dos pichadores buscavam os mais reconhecidos, por vários
motivos, pois elas compreendiam o processo de valorização da linguagem da
pichação e apostavam em ter sua fama assegurada ao ser relacionar afetivamente
com os praticantes.
Assim, as meninas buscavam o reconhecimento, a notoriedade. As
pichações de São Luís da década de 1990 expressavam, portanto, mensagens,
cujos sentidos extrapolavam os assimilados pelo senso comum ou aqueles
ignorados pela mídia e os aparelhos repressores do Estado. Isso porque esse

31
Caderno pertencente a Kaká Kiss da década de 1990.
92

modelo de escrita foi utilizado para ser decodificado por um receptor, que poderia
ser um grupo de pichadores ou as jovens ludovicenses. As inscrições em muros e
paredes, então, possuem seu próprio universo de simbologias e conceituações; bem
como de representações.
4 JOGANDO A MARCA: pichação em São Luís na década de 1990 pelo olhar da
mídia impressa

No capítulo anterior analisou-se a experiência de intervenção urbana dos


pichadores, com suas práticas de visibilidade no espaço da cidade de São Luís.
Agora, pretende-se analisá-los em outra perspectiva, a da mídia impressa, ou seja,
como os pichadores foram representados por esta instância discursiva, privilegiando
reportagens da década de 1990, a exemplo de pichações nos equipamentos
urbanos, públicos e privados ludovicenses. Objetiva-se, também, pontuar acerca das
problemáticas criadas pelo discurso midiático, ao classificar a pichação como uma
prática exclusiva das “gangues” e ao relacionar pichadores com grafiteiros.
Será essencial, portanto, a utilização do conceito de
representação,entendidaneste trabalho como categorias de pensamento, que são
acionados para explicar, justificar e conformar a realidade (MINAYO, 1994), mas é
compreendida, ainda, como símbolos, imagens e conceitos, que resgatam o valor
imagético de um objeto ausente (BURKE, 1994). Assim,este conceito é válido como
guia de análise da relação entre os pichadores e a mídia impressa ludovicense, uma
vez que esta é percebida como instância discursiva legitimada pelos órgãos oficiais
(BOURDIEU, 1996).
A metodologia utilizada neste capítulo foi a análise do discurso,
privilegiando os jornais da capital maranhense dos períodos de 1993 a 1996. Esse
tipo de estudo terá como complemento as narrativas dos ex-pichadores e do
grafiteiro Pigy City, todos já apresentados no capítulo anterior. Como já pontuado na
introdução deste trabalho, o ano de 1993 foi escolhido como marco para essa
investigação discursiva porque, à época, veicularam, pela primeira vez, uma
reportagem sobre os grupos de pichadores. Outro esclarecimento a ser feito é com
relação à escolha do ano de 1996 como período-limite para a pesquisa em jornais,
tendo em vista que, no ano seguinte, os jornais“O Imparcial” e “O Estado do
93

Maranhão”,deixaram de divulgar notíciasabordando os pichadores como uma


espécie de ameaça à população.
Desse modo, o capítulo está organizado por temáticas, não seguindo uma
ordem cronológica das reportagens. Assim, na primeira problemática, é discutido
acerca da relação conceitual entre gangue e pichação,tendo como referência amídia
impressa ludovicense, privilegiando o imaginário do “desvio” atribuído às gangues e
como este é repassado aos pichadores. Em seguida, discutem-se as representações
sobre a marginalidade no que diz respeito ao praticante deste tipo de inscrição. E a
relação entre pichaçãoe grafite, da forma comoas semelhanças são apresentadas
pelos jornais locais.
Discorrerá, também, sobre aconcepção de pichação para a mídia
impressa de São Luís. Neste tópico,objetiva-se uma discussão concernenteaos
fatores motivadores para o surgimento dos pichadores a partir do discursomidiático.
Em outra parte do trabalho, discutem-se as representações construídas/ e
reproduzidas nos periódicos locaisno que tange aospraticantes desta linguagem
fechada.
Por fim, privilegiam-se dois casos de análises: como uma inscrição de
pichação é transformada em uma gangue e como o nome de uma “galera” se torna
representativa para todo o universo dos pichadores ludovicenses. Para tal
discussão,destacam-se os casos de Augusto Três e do grupo Pichadores Rebeldes
(PR). Finaliza-se com a discussão sobre uma possível interrupçãoou término da
prática da pichação na cartografia urbana de São Luís.

4.1 gangue e pichação: casamento perfeito?

Grupo de pichadores agem em toda São Luís. Cerca de 18 grupos de


pichadores já foram identificados em São Luís pela Secretaria de
Segurança Pública, através da Delegacia de Proteção à Criança e ao
Adolescente. O trabalho de levantar o cadastro destes grupos registrados
em Setembropermitiu à delegada da DPCA, Rochelle Teixeira Araújo,
concluir que ‘todo pichador faz parte de alguma gangue e toda gangue tem
pichadores’. Ela informou que das gangues identificadas pela polícia a mais
agressiva é a Mensageiro de Cristo, a MC, que atua principalmente no
conjunto Bequimão e cujos integrantes andam armados até mesmo de
revólveres. A MC é liderada por um adolescente conhecido como Big e,
segundo a delegada, quase todos os membros do grupo praticam assaltos e
alguns chegam a ter envolvimento com traficantes de drogas. (O ESTADO
DO MARANHÃO,1993, p. 12, grifo nosso)
94

Foto 01: reportagem sobre grupo de pichadores


Fonte: Jornal O Estado do Maranhão, 1993.

No ano de 1993 a pichação já era uma realidade bastante frequenteno


ambiente ludovicense. Muros de casa, prédios comerciais, escolas e hospitais, tudo
já havia recebido algum tipo de intervenção urbana deste tipo de escrita. Os grupos
e seus integrantes queriam divulgar sua identidade, seu posicionamento, e se tornar
visíveis na cartografia da capital.
Entretanto,surgem os seguintesquestionamentos: pichação e gangue
derivam um do outro e se complementam? Todo pichador é integrante de
determinada gangue e toda gangue possui um pichador?
Como abordado no capítulo 2.2, o conceito de gangue é datado, pois tem
suas origens na década de 1920 nos Estados Unidos (ABRAMOVAY, 2010). Nesse
período, os trabalhos relacionados a esta temáticaa configuravam “ [...] como a
chamada ‘delinquência juvenil’, pobreza, segregação espacial e étnica”
(ABRAMOVAY, 2010, p. 54). No Brasil, o assunto não se desviou muito das
conclusões norte-americanas, sendo atribuídos a estes grupos atos como assaltos,
vandalismo, estupros, homicídios, etc. Diógenes (1998, p. 107-108; 114) pontua
essa questão da seguinte forma:

A gangue é uma conceituação criada pela ideia do desvio, tendo em vista a


expressão juvenil nos guetos de Chicago [...]. O termo gangue é recortado
por toda a visão que tematizou o ‘desvio’ através da vasta produção da
Escola de Chicago nos anos 40 e 50 nos Estados Unidos e, no Brasil,
95

durante toda a década de 60 até os anos 70. Gangue e delinquência


passam a ser termos correlatos tanto na visão policial, no imaginário social,
como na percepção que pontua as diferenciações entre as turmas de
jovens.

Essa representação de gangue como desvio e delinquência


foidespertadano imaginário dos ludovicenses, quando estes tiveram acesso à
relaçãoentre este termo e a pichação. Sendo assim, os pichadores vão ser
identificados como delinquentes, tendo na MC, com notícias veiculadas sobre
práticas de assaltos, envolvimento com tráfico de drogas e porte ilegal de arma de
fogo,os indícios comprobatórios do nível de transgressões sociais de cunho ilícito e
penal.
Em outro momento, em uma entrevista para o jornal O Estado do
Maranhão, no dia 31 de outubro de 1993, a delegada Rochelle Araújo assim reforça
a correlação representativa entre gangue e pichação

Qual a relação que existe entre as gangues e os grupos de pichadores? Os


pichadores são integrantes de gangues. Eles deixaram um pouco de pichar.
Eu creio porque não há mais nem lugar para que eles façam pichação. Já
picharam a cidade inteira, mas os membros das gangues é que são os
verdadeiros pichadores. As pichações representavam a marca da gangue
por onde ela passava. (O ESTADO DO MARANHÃO, 1993, p. 08).

Desse modo, o leitor não encontra dificuldades em assimilar que há uma


relação intrínseca entre gangues e pichação; há, aqui, uma interpretação simbiótica.
Entretanto, como existem vantagens para ambos, o mesmo ocorre com os estigmas
que um dos lados possui, os quais passam a pertencer ao outro.
A titular da DPCA32, ao pontuar que todo pichador faz parte de alguma
gangue e toda gangue tem pichadores,desperta na mente dos consumidores dos
jornais ludovicenses todo o estigma de marginalidade atribuída às gangues, agora
atribuído, também, aos pichadores, acionados por representações em forma de
discurso e de imagens.
Nesse processo de emersão de representações pelo imaginário, a mídia
tem um papel importante. Rondelli (2000, p. 150) pontua essa importância com a
seguinte citação
A mídia é um determinado modo de produção discursiva, com seus modos
narrativos e suas rotinas produtivas próprias, que estabelecem alguns
sentidos sobre o real no processo de sua apreensão e relato. Deste real ela

32
Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente.
96

nos devolve, sobretudo, imagens e discursos que informam e conformam


este mesmo real.
Neste sentido, a mídia tem sua importância por ser um modo de produção
discursivo que tem como objetivo apresentar ao público as “versões” do real,por
meio de imagens e discursos. Sendo assim, concomitantemente ao ato de
apresentação das múltiplas interpretações da realidade, ocorreria a conformação e
produção das práticas cotidianas, pois os meios de comunicação, ao mesmo tempo
em que informam, por meio de imagens e discursos, configura uma ideia do que
seria a realidade. Outra grande importância do discurso midiático estaria no ato de
que “[...] os fatos do cotidiano transformados em notícias são compreendidos como
‘naturais’, e não socialmente construídos através dos múltiplos discursos”. (DARDE,
2008, p. 56).
Sendo assim, as representações acionadas pelo imaginário referentes ao
termo “gangue” para os pichadores forneceu a eles uma roupagem de marginalidade
e de desvio social. Os pichadores, por esta perspectiva, são vistos muito menos
como garotos que usam um spray para inscrever em muros, sendo analisados e
taxados comoindivíduos que assaltam, portam armas de fogo e se relacionam com
traficantes de drogas.

4.2 Quando o grafiteiro é o pichador!

Pichadores ganham espaço e Continuam Sujando a Cidade.Os


grafiteiros e pichadores de São Luís estão ganhando inesperadamente
aliados entre proprietários de muros e construções. Rendendo-se à evidente
constatação de que sem uma enérgica ação policial, eles são importantes
para conter a sanha desses verdadeiros criminosos que sujam a cidade e,
com o beneplácito das autoridades, causam elevado prejuízos à população,
alguns donos de imóveis, que renunciaram ao direito de ter seus muros
limpos, decidiram oferecer ‘democraticamente’, espaçopara que essa nova
praga social possa manifestar-se.Já está se tornando comum em alguns
muros da cidade um espaço cercado, com o seguinte aviso: ‘está área é de
uso exclusivo para grafiteiros’. Se a intenção foi colocar a salvo alguns
metros de muro, que depois poderiam ser usados pelos donos para divulgar
seus produtos- já que quase todos os muros com a ‘licença’ são de
propriedade de empresas- o resultado não tem sido dos mais felizes. A
empresa Olívio J.Fonsecatambém abriu mão dos direitos de limpeza e,
apesar de reservar um espaço nos seus quase 500 metros de muro branco,
os grafiteiros não se contentaram com o que foi lhes oferecidos, e em toda a
extensão do muro só se encontra símbolos das inúmeras gangues que,
durante a madrugada, arriscam vida em busca de notoriedade entre eles
próprios, já que quem consegue a façanha de pichar no local mais alto ou
mais arriscado torna-se um símbolo para outros, quase herói entre esses
pequenos delinquentes. (JORNAL DE HOJE, 1993, p. 11, grifo nosso)
97

Foto 2: reportagem sobre pichadores


Fonte: Jornal de Hoje,1993.

No primeiro capítulo deste trabalho33, foi discutido acerca da conceituação


de pichação e as semelhanças e diferenças desta prática com o grafite. Deste modo,
foram mencionados os argumentos de Sousa (2007), Ramos (1994) e Gitahy (1999).
Nesse campo de investigação,a pichação teria predileção pelas palavras,enquanto o
grafite utiliza desenhos, que podem ser, alguns casos,complementados com letras.
Entretanto, para a mídia impressa ludovicense da década de 1990, esta
diferenciação não existe - pelo menos a nível conceitual, pois a pichação e o grafite
seriam atos equivalentes, isto é, com pretensões“criminosas”, sendo necessária uma
intervenção policial para exterminar estas práticas (JORNAL DE HOJE,1993).Apesar
de esta reportagem do Jornal de Hoje discernir pichadores de grafiteiros, a diferença
logo surgeno decorrer daredação da matéria, quando as duas formas de inscrição
são veiculadas como atos similares, ou seja,uma forma de desrespeito ao direito à
propriedade, no caso, um muro.

33
Especificamente no tópico 2.1.
98

Em uma entrevista realizada com o grafiteiro PigCty, 40 anos, membro do


grupo Gana, ex-Mess, tornam-se evidentes as consequências em se confundir
pichação com grafite

O nome do nosso grupo era MESS; algo assim massa, legal. Foi o primeiro
grupo de grafite do Maranhão, formado por mim, mano jagunço, Paulo
Renato, Roí coco, Play Mobil... quando a pichação voltou com força na
década de 1990, do nosso grupo de 11 ficaram só 3: eu, mano jagunço e
suriba. Com a pichação, a opinião pública bateu forte contra os pichadores
e, consequentemente, os grafiteiros viraram reboque porque era só nós 3.
No início de 1993, o MESS deu uma caída porque foi o grande ano da
pichação aqui em São Luís. Então, a repressão foi grande e a gente foi
muito perseguido. As pessoas não liberavam mais os muros pra ser
grafitado e a gente ficou meio retraído. Até porque pra fazer uma pichação é
rápido, mas pra fazer um grafite demora um pouco. Aí a gente passou a sair
de madrugada. Aí tava muito complicado porque São Luís não conhecia
direito o grafite e ainda veio a pichação! Aí a gente marcava pra se
encontrar umas sete, oito horas da noite em uma rua próxima daqui e
quando dava umas onze horas da noite a gente saia pra grafitar. Se hoje a
gente faz grafite rápido, é por conta dessa nossa escola que foi grafitar de
madrugada e de forma rápida. Aí a gente colocava uns 6 pra grafitar e 6 pra
vigiar - 3 de cada lado. Quando a gente queria fazer aqui no São Francisco
e tinha vigia de muro, ele mandava é mesmo bala na gente. Então, quando
chegou em 93, esse funil se afunilou mais ainda. Se tornou cada vez mais
arriscado sair na noite pra grafitar e consequentemente as pessoas
começaram a dizer um não maior pra grafite.

O grupo de grafiteirosMess sofreu os efeitos práticos de uma concepção


coletiva que compreende pichação como grafite e vice-versa,intermediada pela
mídia impressa ludovicense. No tópico 3.1 foi discutido sobre o imaginário atribuído
às gangues e como estava sendo direcionado para os pichadores. Isto porque para
a mídia jornalística daquidivulgava que gangue e pichação mantinham uma relação
simbiótica.
Desse modo, este mesmo processo é abrangido aos grafiteiros, em
particular ao grupo Mess, que tiveram de, no ano de 1993,agir como os pichadores,
ou seja, sair às ruas durante a madrugada, pois estavam sob constante vigilância
por parte das forças policiais. Caso esta conduta não fosse levada em
consideração,os grafiteiros correriam o risco de morte, como aconteceu com
“Novato”. O caso foi detalhado em edição do jornal O Imparcial do dia 28 de janeiro
de 1995,como demonstrado na foto 3.
99

Foto 3: reportagem sobre morte de grafiteiro


Fonte: O Imparcial,1995.

Vigia mata pichador com um tiro no peito. O estudante Jean Carlos


Costa Mendes, ‘novato’, 17, filho de Oidacimar de Jesus Mendese de
JoseanaOnara Costa, ‘zica’, residente na rua João Vieira Filho, 561
(Fátima), foi assassinado com um tiro de revólver no peito, na madrugada
de ontem, quando pichava um comércio na Avenida Kennedy. O autor do
crime foi o vigia somente identificado por Cláudio, que está foragido.Jean
Carlos, que estudava no Cema, saiu de casa para um aniversário de um
amigo no bairro do Monte Castelo. Na volta para casa, ele e mais três
colegas se sentaram na calçada do comércio do senhor conhecido por
Miranda, localizado na Avenida Kennedy, bem em frente a Caixa
Econômica Federal do Maranhão. Um dos integrantes do grupo de ‘novato’
estava pichando as lojas da redondeza, quando foram surpreendidos pelo
vigia, da distribuidora de auto-peças, conhecido por Claudio, que deu um
tiro no peito de Jean. Enquanto os parceiros de Jean corriam, este
agonizava e morria no local. O vigia também tratou de fugir, para escapar
do flagrante. O crime foi registrado na Delegacia do 2º DP (João Paulo). O
delegado Marco Antônio, titular daquela distrital, instaurou o inquérito
policial, estando aguardando a apresentação do acusado.Ainda no plantão
central foram ouvidos os menores C.S,G.P.N e S.R, integrantes da gangue
‘Os Grafiteiros’ e que estavam com a vítima. Eles contaram que estavam
voltando e naquela ocasião ficaram vigiando, enquanto Jean Carlos com um
spray verde pichava a parede. De repente o vigia apareceu e não tiveram
tempo de avisar a vítima.(O IMPARCIAL, 1995, p 09, grifo nosso).

A matéria relacionada à morte de Jean Carlos Costa Mendes tem dois


títulos, sugerindo que grafiteiro é pichador, e vice-versa, devido à maneira como a
matéria é conduzida. Os integrantes do grupo de ‘Novato’ foram surpreendidos pelo
vigilante, que estava cumprindo seu dever enquanto trabalhador da área de
segurança, que é o de proteger uma propriedade, aqui simbolizada pelo muro.
O ano da matéria é 1995, cujo conteúdo entende grafiteiro ainda como
pichador, na qual a intervenção policial e da segurança privada impede esses atos
tidos como delinquentes. Interessante pontuar que o nome do grupo, pelo menos
100

para a mídia impressa local, é “Os Grafiteiros”, o que reforça o discurso de que as
duas práticas representam uma única conduta.
Assim é que na matéria do dia 22 de agosto de 1993 o jornal “O
Imparcial”fornece uma lista das gangues mais periculosas de São Luís. Nela,
encontramos a “Legião de Grafiteiros” (LG) do bairro da Liberdade e os “Solitários
Grafiteiros” (SG)do bairro da Alemanha. Já na matéria do mesmo impressoem
questão, agora do dia 15 de outubro do ano seguinte, surge um novo rol das
gangues ludovicensesconsideradas perniciosas ou prejudiciais, sendo uma delas a
denominada “Grafiteiros Escrotos” (GE)do bairro do Cohatrac.
Ainda nesse contexto de análises discursivas,é relevante salientar
queamídia impressa não foi a única instância produtora/reprodutora de
representaçõesavaliar a situação das gangues como grupos delinquentes.
Ospróprios integrantes de “galeras”contribuíram para essa realidade, uma vez
escolhiam nomes para seus agrupamentos, pretendendo, com esta atitude,difundir
uma imagem a qual seria transmitida a outros grupos. Esta identidade, anotada em
muros públicos e privados, aliada ao nome do pichador, pode ser entendida como a
marca da coletividade destas formações.

4.3 A aurora da pichação para a mídia impressa ludovicense

Os policiais da DPCA vêm catalogando os grupos e os locais da cidade


ondem atuam mais frequentemente. O primeiro grupo identificado, há 2
anos, foi a Gangue da Bota Preta, que de acordo com a delegada Rochelle
Araújo pratica roubos, assaltos e estupros em áreas como no Anjo da
Guarda, Maiobão e Araçagy. Para a delegada o surto de pichadores virou
modismo em São Luís por causa de uma série de reportagens de televisão
enfocando a ousadia dos grafiteiros do sul do país. Ela faz questão de dizer
que os pichadores não são menores de rua. Geralmente, são filhos de
famílias de classe média, a maioria estuda, que acabam se envolvendo com
traficantes de drogas considerados perigosos pela polícia[...]. A delegada da
DPCA acha que os pichadores são frutos da crise da adolescência,
agravada pela desagregação dos laços de naturezafamiliar. ‘a família,
infelizmente, está falida. Estes garotos são filhos de pais separados, de pais
alcoólatras’, afirmou a delegada da DPCA. (O ESTADO DO
MARANHÃO,1993, p. 12).

O período era fevereiro de 1993 e, nesse momento, a pichação se


tornava um tema bastante abordado,o que estimulava o surgimento de explicaçõesà
sociedade sobrepor quea cidade de São Luís se encontrava quase
101

totalmente“violentada”34 com esse tipo de escrita (DIÓGENES, 1998).Nessa


perspectiva, a mídia impressa ludovicense pretendia explicitar, agregar e normalizar
vários discursos que pudessem analisar as causas e soluções para tais “desvios”,
tornando, assim, a violência inteligível, como é pontuado por Rondelli (2000, p. 155),
ao tratar da relação violência e mídia

Trata-se de um movimento discursivo que busca tornar inteligível os atos de


violência, articulando explicações e interpretações. Assim, a emergência de
atos ou fenômenos compreendidos como violentos mobiliza atores sociais a
procurar ora enquadrá-los discursivamente em suas tradicionais categorias
de explicação dos conflitos, ora avaliá-los a partir de novas interpretações
capazes de dar conta da complexidade do fenômeno. Assim, o que se
produz sobre a violência são representações múltiplas, discursos
polifônicos, por vezes contraditórios, mas coerentes com requisitos
institucionais diversos.

Assim, a mídia torna a violência perceptível ao articular explicações e


interpretações de vários discursos, considerados como competentes.Nesse
contexto, para o público leitor, esses atos delinquentes das gangues, resumidos na
pichação dos equipamentos urbanos públicos e privados, sãoesclarecidos pela
influência da mídia televisiva, que mostravaem seus telejornais a conduta inovadora
das outras turmas de jovens do sul do País. Os jovens ludovicenses, nesse
panorama, eram meros expectadores e, posteriormente, reprodutores desse
comportamento taxado como transgressor.
Em uma tentativa de tornar esses atos violentos inteligíveis ao público
pagante destes periódicos, foi dito, à época, que, talvez, isso se explique pelos
conflitos inerentes à fase da adolescência, descrevendo os atos como típicos
pichadores dessa faixa etária. Aqui, um fator psicológico/natural é direcionado ao
leitor, para que este entenda o porquê de os seus filhos, parentes ou amigos
estarem se enveredando para o universo da pichação. Mas tal explicação por si só
não iria convencer a sociedade, sendo necessário o discurso elucidativodo aspecto
social, que é o fator desagregação familiar.
O comandante William,ao ser entrevistado pelo jornal “O Imparcial” em 09
de setembro de 1994, reforça esses argumentos:

Para o comandante William os pais destes adolescentes envolvidos em


gangues são os primeiros responsáveis por este tipo de violência. O
comandante William explicou que o processo de violência dos adolescentes
de classe média ocorre em 3 níveis: o 1º é por influência da televisão,

34
No sentido de que a pichação é vista pelo discurso oficial, dos jornais, como uma sujeira urbana.
102

desagregação familiar e ensino insuficiente, o que levam às agressões


iniciais com manifestações deviolência. Em seguida vem a formação de
grupo de adolescente e a disputa por território, onde se confrontam para
demostrar força e poder [...] (O IMPARCIAL, 1994, p.09)

Os atos violentos ora são explicados como algo externo à realidade


daquela localidadeora por meio daausência de determinado aspecto interno à
própria cidade, aqui analisada como decorrente de uma família desestruturada e de
um ensino formal deficiente. O fator familiar, nesse contexto, é pontuado nas
reportagens de 1993 e 1994, mencionando (ou sugerindo) os pais como os
responsáveis pela difusão de pichadores na capital maranhense.
Em 1995, observa-se a mesma explicação, agora relacionada a novas
gangues e pichadores que se proliferaram na cidade de São Luís.

Rochelle acredita que essa situação toda se deve a desestruturação da


família brasileira, que passa por momentos muito difíceis, onde a miséria é
acentuada, tudo acarretando no desagregamento familiar. É o pai que sai
muito cedo e só chega à noite, a mãe que não consegue controlar o filho,
enfatizou a delegada.(O IMPARCIAL, 1994, p.13 )

Nesse sentido, o aspecto familiar é noticiado nos doisanos de reportagens


analisados - de 1993 e 1994. Deste modo, os atos de violência praticados pelas
gangues, ao picharem os equipamentos urbanos, públicos ou privados, é tornado
perceptível(BOURDIEU, 1996) para o leitor como fruto da desintegração familiar.
Dentro desta perspectiva, se a arquitetura urbana está repleta de uma
escrita marginalizada, os culpados são os próprios ludovicenses, resumidos na
figura dos pais, tanto aqueles que trabalham o dia inteiro e, aoretornarem para seus
lares, dizem estar exautos,com pouco tempo para dialogar com seus filhos, como os
que adotam uma vida centrada no alcoolismo, enquanto as moças e rapazes,
carentes de uma assistência paterna e materna, transitampela cidade durante a
madrugada,procurando um muro do ambiente urbano para realizarem suas
inscrições.

4.4 Quem é o pichador para a mídia impressa ludovicense?

Pichador nada mais é do que uma pessoa sem princípios morais, sem
sensibilidade artística e sim, um desocupado por vocação. Desrespeita as
leis que regem a sociedade, partindo do princípio de que é invasor de
propriedades alheias e destruidor de patrimônio público e/ou particular.Suas
ações são repudiadas pela sociedade, uma vez que agridem os logradouros
públicos, sem nada fazer em favor do desenvolvimento social. Gasta tempo
103

à toa, é repelido pela população, mas mesmo assim, age como uma criança
e é uma pessoa agressiva por natureza. (JORNAL DE HOJE, 1993, p. 09)

Pichador é uma “criança”, mas não qualquer “criança”, e sim aquelas


classificadas como agressivas. Esta é apenas uma de várias características
veiculadas que o “Jornal de Hoje”publica em sua matéria de 08 de julho de 1993
para descrever um pichador. Como já discutido neste trabalho, por representação
entende-se uma imagem presente que denote algo ausente, um “[...] apresentar algo
novamentepor meio de imagens e palavras” (BURKE, 1994, p. 87).
Aqui, o pichador é representado por palavras, ou melhor, por conceitos
que conduzem o público a realizar uma comparação simbólica com o “objeto
ausente”. O pichador, dentre outras alusões, é entendido como um ser agressivo;
uma pessoa sem princípios morais; uma pessoa isenta da sensibilidade artística; um
desocupado e um especialista em vandalismo. Ao leitor, bastarelacionar estas
características com as representações marginais, para que seconceba uma imagem
ao praticante da pichação.
Assim, seguindo esta linha de pensamento que entende a pichação como
“sujeira” pública e como escrita de cunho delinquente, há a reportagem do jornal O
Estado do Maranhão de 28 de julho de 1993,

Um spray na mão e nenhuma ideia útil na cabeça. Eles têm entre 13 e 18


anos, só se tratam por apelidos, agem em bandos, geralmente na calada da
noite, e suas marcas estão espalhadas por toda a cidade. São grafiteiros,
criaturas que com um vidro de spray na mão se põem a pichar os muros,
prédios e monumentos. Os pontos preferidos são as marquises, locais mais
disputados pelas gangs de rua. Quanto mais alto a pichação, maior é o
‘status’ que a gang adquire. Não se sabe ao certo quantas delas existem,
mas é possível identificar algumas pelos sinais deixados nas paredes. (O
ESTADO DO MARANHÃO, 1993, p.13)
104

Foto 04: reportagem sobre pichação como sujeira pública


Fonte: Jornal O Estado do Maranhão, 1993.

Pelo título, a matéria do “Estado do Maranhão” já conduz o público leitor a


uma interpretação tendenciosa presente em todo o texto no que se refere à conduta
dos pichadores. Um spray na mão e nenhuma ideia útil na cabeça,oferece aos
consumidores deste periódico a mensagem de que pichar é um atoinfrator e ausente
de merecimento legal, político, familiar e cultural; algo que não condiz com a
“normalidade” vigente e legitimada. É possível identificar, pela reportagem, os
pontos prediletos dos praticantes desta inscrição marginal, que são as marquises;o
que tem relação com o status almejado pelo pichador, ou seja, quanto mais alto,
melhor.
Em outra reportagem, do mesmo jornal, veiculada em 03 de fevereiro de
1993, novas representações sobre os pichadores para esta instância discursiva são
transmitidas, como observa-se na reportagem a seguir

Muro branco é a maior atração.Desafiadores, os grafiteiros não resistem a


um muro branco recém-pintado. Mas para comprar um spray, sua principal
ferramenta de trabalho, os pichadores, segundo a delegada Rochelle
Araújo, costumam levar uma vida muita próxima ao mundo do cão. Eles
geralmente começam a carreira com pequenos furtos e acabam praticando
assaltos e até mesmo homicídios. ‘todas as gangues que são verdadeiras
escolas do crime, têm envolvimento com a delinquência. Eles promovem
quebra-quebras em clubes, praticam furtos e assaltos e comumente são
flagrados com porte ilegais de armas’, afirmou a delegada da DPCA (O
ESTADO DO MARANHÃO, 1993, p. 12).

Segundo o jornal “O Estado do Maranhão”, o pichador é capaz de tudo


para realizar sua “arte”: furtar, assaltar e atécometer homicídios. Em suma, a
105

reportagem oferece ao seu público, elementos que denotem ou conotem sinais de


marginalidade, de desvio social e de delinquência juvenil.
Prosseguindo a descrição das representações protagonizadas pela mídia
impressa ludovicense no que diz respeito aos pichadores,há a reportagem do jornal
O Imparcial do dia 02 de março de1994.

Pichadores Tentaram Agir No Arthur Azevedo. Três adolescentes que


tentaram, na noite de anteontem, pichar a fachada frontal do teatro Arthur
Azevedo, mas que tiveram sua ação frustrada por policiais militares que
estavam de serviço naquela casa de espetáculos culturais, foram presos e
autuados, na DFR e logo depois removidos para a DPCA, Delegacia de
Proteção à Criança e ao Adolescente.Ao serem interrogados os três
pichadores disseram pertencer a gangue Herdeiros do Diabo e revelaram
ter conhecimento da existência de muitas outras gangues de pichadores em
nossa cidade, algumas como: Garotos da Arte Proibida, Pichadores
Rebeldes e Anjos do Mal. De acordo com os adolescentes pichadores, eles
se infiltraram entre as pessoas que ali se dirigiam a fim de assistirem o
espetáculo ora em cartaz e, numa rápida conversa, decidiram que
aproveitariam um descuido dos policiais para pichar a fachada frontal do
teatro.A fachada do Teatro Arthur Azevedo está causando uma disputa
acirrada entre as diversas gangues de pichadores, querendo todos serem a
primeira e realizar a façanha e comemorar o feito com uma grande festa,
convidando todas as gangues rivais, num frontal desrespeito e desacato às
nossas autoridades, levando-se em conta que o teatro recebe vigilância
permanente por parte da polícia militar do Estado, tornando-se necessário
um reforço policial na vigilância do teatro Arthur Azevedo e uma ação direta
por parte da Secretaria de Segurança Pública no combate às gangues
desses grupos, que só contribuem para sujar a nossa cidade (O
IMPARCIAL ,1994, p. 15 , grifo nosso).

A discussão promovida pela matéria gira em torno da pichação em um


casarão histórico, o Teatro Arthur Azevedo.O referido estabelecimento cênico havia
sido reformado há um ano, contando da data da reportagem, cujo dinheiro foi
remetido por recursos das esferas estadual, federal e internacional (caso do BID),
para restaurar a área denominada de Centro Histórico 35, tendo sido
primeiramenteutilizado nesta região. A preocupação, nesse contexto, não se limita
ao fato de o teatro ser um equipamento urbano público estadualnem por ter sido
restaurado momentos anteriores com investimento público e privado. Mas, sim, ao
fato de que o jornalsugere a “cidade desejada”(PESAVENTO, 1995) pela mídia
impressa local.

35
O termo Centro Histórico de São Luís aqui citado compreende as áreas definidas pelo Plano Diretor
Urbanístico de 1992 (Lei Municipal nº 2.352, de 29 de dezembro de 1992), que abrange duas áreas:
uma com mais de 2.500 imóveis e de 160 hectares (todas na região central da cidade); e outra que
engloba a área de preservação ambiental do Aterro do Bacanga e do Parque do Bom Menino,
totalizando mais de 3500 imóveis (BOTELHO, 2005).
106

Muito mais que restaurar casarões,simplesmente porque descobriram que


iriam desabar, o ponto máximo deste tipo de análise é perceber que o Centro
Histórico de São Luís é um modelo da “cidade do desejo” (PESAVENTO, 1995).
Nesse sentido, o jornal O Imparcial, no dia 02 de março de 1994, narra uma tentativa
de pichação ao teatro Artur Azevedo pela gangue “Herdeiros do Diabo”,
configurando, pela perspectiva midiática, como um desrespeito, um desacato à
cultura local, algo que macula a identidade maranhense, que tem como um dos seus
alicerces a mitologização de um passado grandioso (CARVALHO, 2009).
O Centro Histórico, assim, seria um dos alicerces de representações
desta cidade pretendida e vivenciada pelos ludovicenses(CARVALHO, 2009). Os
pichadores da gangue “Herdeiros do Diabo” são vistoscomo “marginais” que
impedem esse modelo urbano. Porém, a reportagem enfatiza que há outros
agrupamentos jovens com intuito explícito de pichar a capital do Estado. “O
Imparcial” finaliza a matériadefendendo uma ação repressiva (com mais rigor) da
Polícia Militar àqueles que estavam maculando o ambiente urbano com suas
inscrições em muros e paredes de imóveis tradicionais.
Seguindo a linha de raciocínio deste tópico, tem-se a seguintereportagem
do “Jornal de Hoje”, do dia 13 de agosto de 1993,

O colégio Aplicação, por exemplo, localizado na Jordoa, não ficou livre da


ação dos pichadores nem mesmo nas suas dependências internas.
Segundo o proprietário, Valter Ribeiro, a ideia foi reservar um espaço para
‘brincadeiras de jovens’. Ele classifica a postura dos grafiteiros como parte
das mudanças de comportamento sociais: generoso com os salteadores
noturnos, ele diz que a intenção do grafiteiro é se divertir. Isso faz parte das
mudanças nos padrões sociais- diz Valter Ribeiro, que revela que não é
contra ‘a pichação saudável; como a de Emílio Ayoub, que só passa
mensagens bonitas à população’, mas alerta para um tipo de grafitagem
político, que segundo ele, não respeita o patrimônio público e tem servido
de modelo para as gangues de rua- ‘os políticos não respeitam o patrimônio
público e muito menos a propriedade particular. Estes, como as gangues de
adolescentes, também são pichadores e merecem punição’; dispara o
diretor do colégio aplicação (JORNAL DE HOJE, 1993, p.09 ).

O referido periódico é sarcástico com o diretor do Colégio Aplicação, ao


classificá-lo como “generoso com os salteadores noturnos”. A reportagem sugere
duas linhas de análise, sendo a primeira a pichação feita nas escolas. Para tanto,
será descrita outra matéria, publicada pelo jornal“O Estado do Maranhão”(1996, p.11
)para servir como ponto de apoio à discussão

No Sagarana II, as gangues são mais ousadas: picharam o muro inteiro do


colégio. Segundo a diretora, Iveta Barbosa de Araújo, as pichações ocorrem
107

nos finais de semana. Os vigiais não dão conta. ‘Quando a gente chega
segunda-feira já está tudo pichado’ afirmou a diretora.

Como pontuado no capítulo anterior, que destacou as entrevistas com ex-


pichadores, as pichações deveriam ser inscritas em locais estratégicos. Esses
lugares, ao serem preenchidos com esta escrita,deveriam transmitir para outras
“galeras” a área de domínio de um grupo, como pontos comerciais, muros de
hospitais e de escolas e monumentos públicos. Entretanto, para a mídia impressa
ludovicense,as inscrições em muros de estabelecimentos de ensino eram
percebidas como uma espécie de “afronta” ao Poder Público.
A mídia impressa, dessa forma,insinua ao seu público pagante a ideia de
que os pichadores demonstravam a ilegalidade de sua prática ao inscrever em
paredes de escolas, que são representadas, pelo imaginário vigente, como um local
de culto ao saber, de formação de cidadãos. Mas esta imagemassociada é
rompidaquando um muro é pichado, isto é, “violentado” por uma inscrição marginal,
ou seja,um código só entendidoentre os pichadores.
Deste modo, o pichador é representado como alguém que infringe o
conceito de equilíbrio e ordem, desvalorizando o fato de que a escola é um ambiente
de respeito a valores éticos, morais, familiares, folclóricos e sociais. E sua escrita
não é aceita na capital, em virtude de a mídia impressa o representar como um
“marginal”, um delinquente, cuja família é desestruturada;enfim, um ser desviante à
“normalidade” vigente.
Comoressaltado no início desta discussão sobre pichação na escola, há
outro ponto que merece destaque, sendo frisado nas palavras do diretor do Colégio
Aplicação, Valter Ribeiro, que dissehaver pichações mais perigosas na época,
categorizadas como de cunhopolítico, praticada por candidatos em épocas eleitorais.
Nessa problemática, o jornal O Estado do Maranhão (1996, p.15), inicia o título da
matéria da seguinte forma: “Patrimônio vai combater pichadores: fiscalização do
(DPITAP-MA) vai ocorrer em móveis e monumentos tombados, durante período
eleitoral”.
O diretor do Colégio Aplicação e a fiscalização do DPITAP-
MAdestacamque a mídia impressa persegue os pichadores de rua e ignora os
políticos que “sujam” a cidade durante o período eleitoral. Os políticos, nesse
sentido,não retiram suas propagandas nem em momentos posteriores aos pleitos.
108

É importante mencionar as colocações de Valter Ribeiro e do DPITAP-


MA, poisoferecem aos consumidores destes periódicos outra concepção de
pichador, relacionada ao campo político. Dessa forma, o pichador não é apenas
aquele indivíduo que usa um spray para inscrever em imóveis públicos e
privados,denegrindo a imagem de um “passado glorioso”de São Luís; sendo,
também,os políticos, que disseminam a cidade com propagandas eleitorais.

4.5 Quando a marca vira gangue de pichadores: o caso de Augusto Três

[Delegada Rochelle Araújo]: Algumas gangues estão mudando de nome.


Outras se sofisticam; já têm até emblemas. Quanto mais uma gangue se
expõe a situações perigosas, maior é o seu prestígio. É por isso que a
Augusto Três, que é a que picha maiores altitudes, é a mais respeitada
entre os grafiteiros.Também existem hostilidades entre os grupos. A GBP,
por exemplo, é rival da Mensageiros de Cristo, a MC, e a Augusto Três.
Esta última, segundo a polícia, é a menos perigosa: cultivam
preferencialmente pichações, procurando não se envolver com o crime (O
ESTADO DO MARANHÃO, 1993, p. 12).

Na primeira metade da década de 1990, aconteceu um fato inusitado, que


foiestimulado pela mídia impressa ludovicense. Aqui, Augusto Três é noticiado como
nomenclatura para gangue. As pessoas que não pertenciam ao contexto dos
pichadores conheciam este suposto grupo por meio desta denominação, cuja sigla
era AT. Numa listagem das gangues mais perigosas da cidade de São Luís,
cadastradas pela Secretaria estadual de Segurança Pública em 19 de novembro de
1992,surge a “Augusto Três” neste rol (O ESTADO DO MARANHÃO, 1992).
Partindo desta premissa, a de que “Augusto três” era citada como uma
das gangues mais periculosasda capital maranhense na década de 1990, procurei
este provável grupo,por meio de entrevistas realizadas com ex-integrantes de
gangues daquele período,no início desta pesquisa, no ano de 2013. Dos trêsex-
membros do grupo Garotos da Bota Preta (GBP), a saber, “Bob”, “Hipólito” e
“Robocop”,fui informado de que “Augusto Três”não se referia à nomenclatura de
agrupamento jovem.
Já em 2014, com entrevista realizada com ex-integrantes do grupo
Garotos Rebeldes (GR), comoHally e Costelo, descobri que Augusto Três, na
verdade, era a alcunha de um pichador, e, não, denominação de gangue. Assim é
109

que o encontrei, após vários dias de buscas. Na ocasião, conversamos sobre esta
desinformação de que seu cognome era interpretado como uma perigosa gangue.
Augusto Três, hoje com 41 anos,descreve esta questão da seguinte
forma,
Eu sempre fui muito estudado de ler jornais daqui. Eu sempre quis vê o que
estava acontecendo pela cidade e se tinha alguém me procurando. Assim,
eu via muito estas coisas da minha marca virar gangue, mas nunca foi uma
gangue. Eu era da GR. Eu que fui um dos fundadores da GR. Agora, o que
eu acho que acontecia é que como minha marca tava em vários lugares da
cidade e nos lugares mais difíceis de serem pichados, acho que por causa
disso que o pessoal achava que tinha uma gangue chamada Augusto Três.
Pra eles essa gangue era separada da GR, mesmo eles vendo que perto da
minha marca tava lá o símbolo da GR. (Informação verbal).

Nota-se que, por este prisma, aquela reportagem apresenta,


indiretamente, outro ponto de destaque. Simultaneamente ao fato de queelevou o
número de “galeras” no catálogo da Secretaria de Segurança Pública do Estado do
Maranhão,promoviam mais visibilidade ao próprioAugusto Três, como é bem
demostrado em sua fala complementar

Eu achava engraçado, mas não tava muito aí não. Eu via lá eu nome saindo
de novo como sendo gangue, mas isso não me assustava não porque só
ajudava a dar mais ibope pra minha marca. Tipo assim, se tu picha na
cidade toda, tu ficava famoso, se tu picha em locais difíceis tu fica mais
famoso. Agora, se tua marca sair num jornal, aí tu fica muito mais
famoso.(Informação verbal).

A até então gangue Augusto Três recebia mais visibilidade na mídia


impressa da capital maranhense. Na reportagem publicada pelo jornal O Estado do
Maranhão(1993, p. 12), por exemplo, há o seguinte relato:

Mensageiros de Cristo (Bequimão); Bota Preta (Alemanha); Garotos


Rebeldes (Monte castelo); Vandilhados do Mangue (Cohab/Aurora);
Augusto Três (Filipinho/Coroado/Coroadinho) e Detonadores de Rua
(Liberdade) são algumas das cerca de 50 gangs que dominam a capital e
somente este ano invadiram escolas e residência para pichar e agredir;
mataram, estupraram, ameaçaram e induziram dezenas de menores ao
crime. Embora pratiquem a maioria dos crimes em seus próprios bairros, às
vezes invadem terrenos já demarcados por outros.

Novamente, Augusto Três surge como nome de uma das gangues mais
nocivasde São Luís. A este suposto grupo,atribuíram atos ilícitos como vandalismo,
estupros, agressão e aliciamento de menores. No ano de 1994, com duas novas
listagens de gangues divulgadas pela SSP/MA no jornal “O Imparcial” dos dias 15 e
25 de outubro de 1994, a Augusto Três já não consta do rol. Talvez, o setor de
110

Inteligência da Polícia Militar tenha descoberto que não se tratava de um


agrupamento jovem tido como delinquente36; como, também, não teriam encontrado
pichador que fizesse parte desta gangue. Possivelmente, observaram que, em todas
as ocasiões, perto da inscrição da referida nomenclatura, havia registrada a sigla
GR, do grupo “Garotos Rebeldes”.

4.6 Quando o nome do grupo vira significado para os pichadores: o caso do


grupo Pichadores Rebeldes (PR)

Os moradores que residem nas proximidades do bairro da Macaúba, há


algum tempo, vem presenciando vários atritos envolvendo elementos que
integram gangs, que agem livremente naquela área. No último final de
semana, o menor identificado por ‘morte’ que é um dos integrantes da gang
PR (Pichadores Rebeldes), armado de um revólver calibre 32, investiu
contra o trabalhador autônomo Eliezer Santos do vale, que reside no bairro
do Lira. O confronto entre os dois aconteceu no bairro do Lira, onde o
pichador ‘morte’ sacou do revólver e só não atirou em Eliezer dos Santos,
devido o mesmo ter saído em disparada da sua residência. A ação de
‘morte’ foi presenciada pela sua genitora, que ainda falou para o filho
pichador para que não estragasse a sua vida, pois estava apenas no
começo. (JORNAL DE HOJE, 1993, p.11).

A gangue em debate, aqui, é a Pichadores Rebeldes (PR), com área de


atuação na região do Lira/Macaúba. A PR é um grupo bastante comentado nos
periódicos entre 1992 a 1994. Devido à denominação do grupo, achou-se relevante
procurar algum ex-integrante, uma vez que este trabalho discorre sobre a prática da
pichação.
Iniciei minhaprocura aosex-membrosda PR; porém, não encontrei
situações motivadoras para a pesquisa, pois antigos moradores da região do Lirame
advertirama nem sequer entrar na Macaúba. Recuei, por questão de prudência, mas
soube que um ex-integrante deste grupo, um dos líderes, era vigilante num órgão
público da capital maranhense. Tentei iniciar uma conversa com ele, que me
expulsou do seu local de trabalho, tendo feito o pedido para que eu “nunca mais o
procurasse”.
Acatei a solicitação, masme restaramsomente as representações
retiradas dos jornaisreferentes ao grupo“Pichadores Rebeldes”. No entanto, no
decorrer da pesquisa, percebeu-se que as concepções sobre a pichação e os
pichadores não eram produzidas apenaspelo discurso midiático, pois determinados

36
Augusto Três deixou de pichar em público entre os anos de 1996 a 1998.
111

eventos contribuíam para esta difusão simbólica,por meio da testemunha ocular


(BURKE,2004). Assim, os criadores e/ou reprodutores dessas representações eram
os próprios integrantes de uma gangue; neste caso, da PR.
O Jornal de Hojereferente ao dia 01 de setembro de 1993 esclarece para
o leitor que, além de ser um integrante da gangue PR, “Morte” é um pichador.
Todavia, em nenhum trecho da matéria, a mídia impressa esclarece queeste
praticante estava pichando, e, sim, que portava um revólver calibre 32 e atirou em
um trabalhador autônomo. O periódico ainda finaliza a reportagem comentando
sobre a genitora de “Morte”, que teria suplicado ao filho para que não cometesse o
assassinatoda vítima.
Desse modo, o discurso jornalístico, que tem “[...] seu modo próprio de
falar e de representar a violência, espetacularizando-a a partir de uma lógica da
visibilidade, do sensacionalismo, do fascínio e da banalização” (RONDELLI, 2000, p.
155), tornou dramático o caso de “Morte” ao construir textualmente um cenário de
causas, consequências, culpados, vítimas e “heróis” da situação. Neste sentido, “A
mídia é um dos atores sociais com grande potencialidade de convocar os demais
atores a um posicionamento, e o faz com grandes gestos dramáticos (RONDELLI,
2000, p. 156).
Assim, o pichador “Morte” da PR foi o culpado da situação, enquanto que
sua genitora foi colocadaem posição antagônica à do filho. Otrabalhador
autônomo,por sua vez, como vítima. A fundamental questão discutida aqui observa
quea mídia impressa conclui que portador da arma de fogo e autor do crime contra o
autônomo não se resume apenas em “Morte”, pois atribui a responsabilidade pelo
crime aos outros pichadores.
O grupo PR, consta da catalogação das gangues mais danosasda cidade
em 18 de novembro de 1992 (O ESTADO DO MARANHÃO, 1993). Outro momento
em que ela surgena redação jornalística é no dia 30 de julho de 1993, sendo descrita
nas reportagens sobre gangues até 17 de agosto de 1993 (O IMPARCIAL,
1993),períodono qual se desenrola a investigação sobre a morte de “Jaca Mole”, de
14 anos, ex-integrante do grupo “Garotos Geração 2000” (GG 2000).
A PR foi tida como culpada pela morte de “Jaca Mole”. Suas ações, por
sua vez,foram analisadas como truculentas e repudiadas pela sociedade. É desse
112

modo que a delegada Rochelle Araújo se expressa numa entrevista ao jornal O


Estado do Maranhão (1993, p. 12)

Quais as [gangues] que mais dão trabalho à polícia? A GG 2000 do B.F, a


PR da Macaúba, que já praticam crimes hediondos; a MC (Mensageiros de
Cristo), no Bequimão, que também é uma gangue que está sempre
praticando crimes. Estas são as que estamos combatendo diariamente. Da
PR, já temos mais de 12 jovens respondendo a processo, já em fase de
sentença.

A PR desponta novamente no rol dos grupos jovens mais atrozes de São


Luís em outubro de 1993.Naquela época,aproximadamente doisgarotos da “PR”
respondiam a processos judiciais. Resumidamente, o aconselhável à sociedade era
ser cautelosa com relação à PR e aos seusmembros, pois o nome do grupo em
sidenotavasimilaridades com atos referentes à pichação.
Continuando as representações do pichador para a mídia impressa
ludovicense, tomando-se como referência o grupo PR, tem-se a edição do jornal O
Imparcial, veiculado em 03 de dezembro de 1994.

Gangue desafia a cidade fazendo novo arrastão: chegou ao limite a


violência das gangues em São Luís. Ontem por volta das 18 horas cerca
de 50 integrantes da gangue Pichadores Rebeles (PR) promoveram a maior
baderna na Avenida Jaime Tavares, próximo ao parque do bom Menino, no
centro da cidade. Com foguetes, pedras, pau e outros instrumentos, os
marginais promoveram um verdadeiro arrastão.[a] PR (Pichadores
Rebeldes, que tem como chefe o marginal conhecido por lampadinha e que
tem campo de atuação na Macaúba, Belira, Lira, Coréia e outros bairros
adjacentes, arregaçaram no final da tarde de ontem no centro, próximo ao
parque do bom menino [...] dez foram presos, enquanto a maioria conseguiu
fugir. Entre os que fugiram, segundo chegou ao conhecimento do sargento
Alves, estava Carlos César Barroso, o conhecido ‘mãozinha’.‘Mãozinha’,
que integra a PR, já se envolveu em dois crimes de morte. O primeiro foi o
assassinato de Florisvaldo, o menino conhecido porJaca Mole, morto por
espancamento nas proximidades do TRE (Areinha). O outro em que
‘mãozinha’ se envolveu há duas semanas foi uma tremenda confusão em
que foi assassinado a tiros de revólver, o jovem Marcos Ney Pacheco da
Silva, crime ocorrido no Cohatrac em frente aassociação do Cohatrac I (O
IMPARCIAL, 1994, p. 10, grifo nosso).

A gangue “Pichadores Rebeldes” já é caracterizada por registros de


prisões e indiciamentos. Como redigido na matéria, em situação ocorrida no Parque
do Bom Menino,transeuntes são vítimas de “arrastão” promovido pelos integrantes
da PR. A mídia impressa é concisa e lacônica ao se referir a um dos líderes do
grupo, o “Lampadinha”, como “marginal”, e, também, ao especificar que outro
integrante da gangue, o “Mãozinha”, tinha envolvimento em dois homicídios.Dessa
forma, o público pagante dos periódicos ludovicenses da década de 1990 atribuiu
113

características negativasaos pichadores a partir de notícias publicadas sobre grupo


PR. Dentre os adjetivos associados aos pichadores e ao referido grupo, mencionam-
se baderneiros, assassinos, assaltantes e marginais.
4.7 Dando um tempo na escrita: quando chega a horade parar de escrever em
muros

Combate à pichação: venda de spray pode ser controlada. A proposta é de


que somente maiores de 18 anos, identificados, possam comprar o produto,
em lojas cadastradas pela SEGUP.A venda de spray em São Luís pode ser
controlada. Foi o que admitiu o superintendente de polícia da capital, Rilton
de Deus Rodrigues Carvalho, responsável pela desarticulação de gangue
de pichadores que aterrorizavam e emporcalham a cidade. Nos estados
onde a medida foi tomada diminuiu sensivelmente o número de pichações,
mas, em contrapartida, aumentaram os saques e arrombamentos às lojas
que comercializam o produto. Se o controle na venda de spray for mesmo
adotado, e em São Luís forem tomados os mesmos procedimentos dos
estados que já adotaram a medida só poderão comprar o produto pessoas
maiores de 18 anos que terão de deixar na loja onde adquirirem e a cor do
spray que estão levando para uma melhor fiscalização.Além disso todas as
lojas que vendem o spray teriam de se cadastrar na Secretaria de
Segurança. A polícia e/ou a fiscalização fariam um rigoroso controle nas
lojas para ver se a determinação estava sendo cumprida com advertência,
multa ou até mesmo interdição (O DEBATE, 1993, p. 08, grifo nosso).

O ano de1993, de acordo com Pig City (grafiteiro do grupo Gana), foi o
período de maior incidência de pichações em São Luís. Pig City, que estava
envolvido com arte de rua desde a segunda metade da década de 1980, tem muita
propriedade para falar deste assunto. Assim sendo, ressalta-se que as instâncias
discursivas oficiais planejam estratégias para combater os catalogados grupos de
pichadores da cidade.
A mídia impressa da capital, portanto,havia preparadoum cenário
inteligível(BOURDIEU, 1996), explicando ao seu público leitor o risco de se ter
pichadores na cartografia urbana da cidade. Além disso, ela tem um poder de
convocar outras instâncias discursivas a se posicionarem sobre um determinado
assunto tido como bastante relevante (RONDELLI, 2000), como aconteceu no caso
da Superintendência de Polícia Civil da Capital (SPCC).
Ao comunicar que, possivelmente, haveria uma fiscalização na venda de
spray para menores de 18 anos, o discurso policial estava respondendo ao chamado
da mídia impressa ludovicense, que logo tratou de fazer o seu papel discursivo, o de
explicar para o seu público pagante como ocorreria essa medida.
Entretanto, a mídia, ao tornar a norma da proibição da venda de spray
para menores de 18 anos como algo público, já se antecipa às opiniões da
114

população e sugere como deve ser feita esta fiscalização. Em suma, ela torna o ato
inteligível (RONDELLI, 2000) para seu público e assim ela molda os
fatos,interagindo com a Superintendência de Policia Civil da Capital, apropriando-se
da medida, que, agora, é noticiada como se fosse resultante de interessecoletivo.
Assim, a mídia impressa ludovicense veicula que o comprador do spray
deveria cadastrar a cor do produtoescolhido na loja. Outra dica que o discurso
midiático da capital maranhenseoferece é o registro das lojas que vendem o produto.
Estes estabelecimentos comerciais seriamfiscalizados pela polícia, que averiguaria
se a medida que proibiu a venda desta mercadoria para menores de 18 anos estava
sendo cumprida.
Na teoria, esta propostafuncionaria. Contudo, os ex-pichadores
entrevistados,Júnior Enrolado e Augusto Três, em uma matéria do periódico o
Estado do Maranhão (1993, p.12),opinaram, de forma respectiva, sobre a medida

Na época saiu essa história de que neguinho ia parar de vender spray pra
pichador. Mas assim essa medida já começou errada porque eles
pensavam que o pichador ia lá na loja e comprava de cara limpa o spray.

Dentro mesmo dos grupos tinha quem facilitava o spray pra gente e tipo
assim se tu fosse maior de 18 anos e fosse lá comprar um spray, o cara ia
perguntar pra ti se tu ia usar isso pra pichar ou pra outra coisa e tu é claro
que nunca vai dizer que era pra pichar e sim que era pra pintar tua bike.Eu
mesmo tinha quem facilitava o spray pra mim! Tinha os dos meninos que
tinham que trazer quando quisesse entrar pra GR, mas eu gostava de
pichar com os meus mesmo, e esses não era eu que ia lá comprar. Tu tinha
que ter o teu facilitador, até porque a coisa tava ficando cada vez mais ruim
pro lado dos pichadores.

Para comprar spray, a Cr$ 260 mil o tubo, eles costumam fazer uma
cotinha. Quem não entra com a grana não tem direito a pichar. Visados
pelos vendedores‘já vão rebentar os muros’, dizem- saem-se com a
desculpa que a tinta é para pintar bicicleta. (Informação verbal).

Eles apresentam outra perspectiva concernente à norma, que proibiria a


venda de spray apessoas com faixa etária inferior a 18 anos. Nas palavras de
Augusto Três e Júnior Enrolado, tal soluçãoplanejada pelo Estado não surtiria muito
efeito na realidade da pichação em São Luís,pois o pichadortinha como parceiro
o“facilitador do spray”. Além disso, Júnior Enrolado vai ao encontro da matéria do
Jornal o Estado do Maranhão (1993) quando ambos afirmam que o pichador mesmo
repreendido pelos vendedores de spray conseguia se sair da situação de
marginalidade ao dizer que o objeto de desejo destes, o spray, seria utilizado para
pintar bicicleta.
115

Porém, Augusto Três comenta que a situação se complicou para os


pichadores desta cidade; o que pode ser explicado nas reportagens do jornal O
Estado do Maranhão (1993, p.12) e O Imparcial (1995, p.11 ), quando abordade
forma respectiva, esta temática

Augusto Três assim explica a situação de risco de um pichador: ‘não ando


vacilando, gosto de pichar à noite ou de madrugada’, revela. Mesmo assim
já lhe pegaram com a boca na botija. Foi levado para a delegacia na mala
do carro com uma ‘máquina’ apontado para o ouvido. Por pouco não levou
uma surra.Sorte,menor teve Pastor. Certa vez foi pego por um vigia de um
colégio onde gastava seu spray que o fez tirar a roupa e lhe deu uma surra
de pau. Nu, teve o corpo pichado da cabeça aos pés e depois foi mandado
embora com a mão no bolso.

Cidade suja: o assassinato do pichador Jean Carlos Costa Mendes, foi


considerado por vários comerciantes da Avenida Kennedy, como uma
reação de quem tem, por força de um contrato de trabalho, a
responsabilidade de zelar pelo patrimônio do empregador. ‘A cidade de São
Luís é uma das maiores vítimas de gangues de pichadores, jovens que
aceitam verdadeiros desafios. Eles já picharam prédios importantes na
cidade. O teatro Arthur Azevedo, reinaugurado há pouco mais de um ano,
ainda não foi pichado pelas gangues e isso se deve à vigilância da polícia
militar. Assim como a PM está vigiando o TAA, os proprietários de armazéns
contratam vigias para que as paredes de faixadas dos seus
estabelecimentos comerciais, sejam preservadas, continuem com a pintura
original. Infelizmente, o vigia se deparou com a gangue e deu um tiro,
matando um deles’. Comentou um dos comerciantes que preferiu não se
identificar.

Entre 1993 a 1995, muitos pichadores da primeira metade da década de


1990 estavamse desvinculavamdo movimento da pichação. Apresentaram diversas
razões para este abandono, mas o principal, talvez,teria sido medo de ser morto ou
ser surrado por pessoas que não simpatizavam com a conduta desses praticantes.
Os donos de propriedades, dos muros, estavam começando a reagir à ação dos
pichadores e contrataram serviços de segurança privada para combatê-los. Os
vigilantes convocados, então, se comportavam de acordo com a proposta de
trabalho, isto é, reprimiam quaisquer manifestações de inscrição marginal na
estrutura dos prédios nos quais verificavam a presença de pichadores.
A constante e rigorosa vigilância dos equipamentos urbanos, públicos e
privados de São Luís,provocou a desistência de muitos jovens do mundo da
pichação, como observado por Hally(GR)
Eu saí por três razões: eu já tava com medo, da polícia, de ser preso ou
com medo de morrer. 2º fato: eu ter sido detido, uma no Castelão, depois
delevar uma carreira dos vigilantes da Coca-Cola, e outra na Alemanha,
quando eu e um amigo meu, LORO, a gente foi detido junto. Eu, ele e outro
que eu não lembro o nome agora. Pegaram a gente e levaram a gente. A
116

gente foi colocado no carro da polícia, aí a gente ficou rodando pela


Redenção. Eles ficaram colocando medo na gente, que iam dá-lhe na
gente, matar a gente e a gente tinha até um dinheirinho e ofereceu pra eles.
Andaram, andaram e soltaram a gente perto do viaduto do Café. [...] Eu saí
da GR e entrei no movimento hip hop. (Informação verbal).

A angústia em ser vitimado pela repressão estatalpode ser percebida no


depoimento de Hally; sentimento,este,decorrente da rigorosa ação das forças
policiais e da segurança privada registrada naquele período. Segundo as
recordaçõesdo entrevistado,ele se retirou da GR entre os anos de 1994/1995,
mesmo intervalo da saída de Costelo, também da GR, que detalha de forma sucinta
o porquê de ter se desmembrado do grupo “ [...] me saí porque já tavam metendo é
bala em pichador e também porque eu tava com medo de ser preso [...]”.
(Informação verbal).
Por que Costelo tinha tanto receio em ser preso? A resposta, talvez, está
na reportagem do jornal O Imparcial (1996, p. 12).

Pichadores flagrados por vigilantes no bairro da Alemanha: se deram mal


dois pichadores na madrugada de ontem, quando agiam calmamente no
bairro da Alemanha. Tratam-se do adolescente J.L.M.J, 17 anos, morador
da Rua Doutor José Luís de Carvalho, no próprio bairro, e a garota R.G.F,
16 anos, residente na quadra 81, no São Raimundo. Os dois, que haviam se
conhecido horas antes em um baile na praça Maria Aragão, resolveram
‘deixar suas marcas’ no muro da empresa Mardisa. Só que não foram
felizes. Alguns vigilantes da empresa Norsegel notaram o que estava
acontecendo e levaram o casal de ‘pombinhos’ para a Delegacia do
Menor.Naquela delegacia especializada, eles permaneceram detidos,
momento em que foi solicitado o comparecimento de seus pais e
responsáveis para assumirem a responsabilidade e pagar o prejuízo.

Em nenhum momento das entrevistas, osex-pichadoresrelacionaram


prisão à fama. A fama para os pichadores seria notada quando suas inscrições eram
vistas em ambientes de difíceis acessos, ou ao estar em vários locais, ou, ainda,
quando eram noticiados em jornais de grande circulação.Por este motivo, o medo de
ser capturado pela polícia também fazia parte do cotidiano do pichador, uma vez
que, ao ser levado à delegacia,o nome do pichador seria cadastrado no sistema
policial. Assim, caso o pichador inscrevesse novamente em muros da capital
maranhense, o Serviço de Inteligência daPMnão teria dificuldades em desvendaro
autor da pichação.
Merece atenção aqui o fato de que não havia uma legislação especifica
que punisse os pichadores; o que pode ser comprovado no que tange à prisão de
um casal de pichadores no bairro Alemanhaem 30 de janeiro de 1996 e,ainda, em
117

outra reportagem de O Imparcial, publicada em 02 de março de 1994, que descrevia


a prisão de pichadores que tentaram gravar letras no Teatro Arthur Azevedo
Conforme a delegada Maria do Carmo, os três adolescentes foram
autuados por infração de menores, como manda a lei do menor, e em poder
de um deles foi encontrado um dispositivo retirado de uma lata de spray que
serviria para a pichação da fachada do teatro Arthur Azevedo. Lavrado o
auto de apreensão de menores infratores, a delegada, que trabalha no
plantão central, encaminhou os três para a DPCA, onde ficaram até a
manhã de ontem quando foram liberados. (O IMPARCIAL, 1994, p. 10).

Conforma apresentado, não havia na primeira metade da década de 1990


um mecanismo legal que descrevesse sanções penais ou administrativas aos
pichadores, cujos responsáveis eramconvocados pela Polícia Civil para ressarcir
financeiramente o prejuízo da pichação.
Sobre esta temática concernente a uma legislação que condenasse ou
penalizasse o pichador, Augusto Três opina o seguinte:

Entreguei porque na época houve o nascimento do meu filho; eu tava com


26 anos. Isso fez eu largar de vez. Quando meu filho nasceu, eu entreguei
logo, fiz uma reunião, chamei e disse que Mel ia dar uma força pra GR.
Também porque naquela época já era crime contra o patrimônio. Naquela
época, em 95, quando eu fiquei sabendo, aí eu fui me saindo mais da
galera. Fiquei mais restrito. Aí o pessoal ia lá em casa ‘ê, e aí Augusto,
umbora?! Olha aí a mochila cheinha de lata!’ Aí eu: ‘que nada, eu só picho
sozinho agora!’. Eu lia muito jornal e por isso ficava sabendo de muitas
coisas que a galera não sabia. Aí, por volta de 97, 98 eu me saí de vez.
(Informação verbal).

Ele fala de uma lei que, em sua análise, tratava a pichação como crime.
Trata-se daLei Nº 3.392, de 04 de julho de 199537, que dispunha sobre aproteção do
patrimônio cultural do município de São Luís, merecendo destaque nela o parágrafo
31: “Art. 31 - As intervenções não autorizadas pela FUNC, assim como qualquer
ação ou omissão que ponha em risco a integridade do bem tombado e seu Entorno,
sujeitam os infratores as ações administrativas, civis e penais, previstas em Lei” (LEI
nº 3.392, 1995, p. 03).
Para Augusto Três, essa intervenção não autorizada pela FUNC poderia
ser interpretada como a pichação. Por isso, como concluiu, a pichação já poderia ser
examinada como crime passível de punição especifica, não mais como ato
infracional.

37LEI Nº 3.392, de 04 de julho de 1995. Disponível


em:<http://www.gepfs.ufma.br/legurb/LEI%203392.pdf.> Acessado em: 20 dez. 1014.
118

Entretanto,esta prática só foi legalmente combatida em 1998, com a Lei


Ambiental nº 9.605 de 1998, ao assinalar que “ [...] pichar, grafitar ou, por outro
meio, conspurcar edificações ou monumentos urbanos é crime passível de detenção
de três meses a um ano e multa” (CARVALHO, 2011, p. 130). E tambémpelo
Decreto nº 3.179 de 1999, que estipula, em seu texto, o pagamento de “[...] multas
que vão de R$ 1.000,00 a R$ 100.000,00 em virtude de pichações, grafitagem ou
outras formas que destruam o patrimônio público tombado ou não” (ABRAMOVAY,
2010, p. 112).
Neste período, Augusto Três, Hally, Costelo e Júnior Enroladonão eram mais
pichadores de rua. Eles haviam se retirado dos grupos em períodos anteriores à
vigência das leis que compreendiam a escrita dos pichadores como “marginais”.
Dessa forma, ao escrever na parede de um equipamento urbano, público ou privado,
de uma cidade, o pichador era analisado, no entendimentoda legislação, como um
delinquente e desviante às normas vigentes.
119

5 CONCLUSÃO

Este trabalho estruturou-se em torno de quatroeixos centrais, sendo o


primeiro referente à compreensãoem como se configurou a dinâmica de ordenação
e ocupação dos pichadores nos espaços públicos. Objetivando argumentar sobre
esta problemática, privilegiou-se a pichação no caminho da visibilidade pública nos
espaços da cidade, nos pedaços ou nas manchas. Logo, dando continuidade aos
argumentos, foram tratadas as seguintes temáticas: pichação como linguagem, as
fronteiras entre o universo do pichador e do gangueiro e, por fim, as representações
realizadas pela mídia impressa ludovicense com relação a esta escrita marginal.
Diante desses objetivos, analisa-se que a pichação é, sim, percebida
neste trabalho como uma forma de visibilidade pública, não importando se os meios
utilizados para este ato sejam examinados como delinquentes ou incoerentes com
os princípios da ordem oficial, que visa ao equilíbrio e à estabilidade, como
destacado no decorrer desta dissertação; uma vez que, para esses jovens, o que
importa é o presente, o agora. Nesse sentido, a percepção marginal em suas
experiências teria espaço somente em datas futuras.
Os argumentos de Augusto Três, Costelo, Hally, Júnior Enrolado e Dost,
principalmente, são comprovações suficientes e relevantes para a comprovação de
que pichar na década de 1990 significava se tornar visível na cartografia da cidade.
E nessa realidade da visibilidade pública, a pichação em locais altos ou de difíceis
acessos exemplifica como esta disputa era acirrada, pois o pichador desejava ser
notado de forma diferente e especial dentro da perspectiva urbana da cidade de São
Luís.
No entanto, essa visibilidade pública possuía seus limites, tendo em vista
que, embora a pichação funcionasse como uma maneira de ser “lembrado” nas
paredes dos equipamentos urbanos, públicos e privados, da capital, ela era
caracterizada por ser uma linguagem fechada (Carvalho, 2011). Os ex-pichadores
entrevistados se expressaram de tal forma que foi possível interpretar que suas
escritas em muros eram decifráveis somente para os adeptos ativos desta inscrição.
120

Desse modo, as tidas como indecifráveis só eram dotadas de semântica no universo


da pichação se fossem decodificadas pelos praticantes deste modelo de escrita.
Num segundo momento, tem-se a ação da mídia impressa, que associou
a ação dos pichadores como sendo práticas delinquentes e de caráter marginal. A
pichação foi vista, assim, pela perspectiva dos periódicos locais, como sendo uma
ação especifica das gangues ludovicenses da década de 1990. Ao fazer essa
associação, os jornais da época acionavam todo um imaginário sobre as gangues,
analisadas como uma formação de jovens em situação de delinquência e
marginalidade, transferindo essas interpretações aos pichadores.
Neste sentido, ao serem associados às gangues, os pichadores foram
qualificados como seres desviantes às normas vigentes. A pichação, portanto, foi
representada como uma “sujeira” urbana, algo que surgiu na cidade de São Luís
como se fosse fruto de fatores externos a esta realidade. Citam-se, neste ponto, os
casos de Pastor, Mel e, também, do filme norte-americano “Selvagens da Noite”.
Assim, a juventude ludovicense da década de 1990 foi inocentada, pelo discurso da
mídia impressa, de serem criadoras desta escrita marginal, uma vez que agentes de
foram os responsáveis pela imigração deste modelo de linguagem fechada nos
muros e marquises da capital do estado Maranhão.
Nessa realidade que associou a pichação a uma prática exclusiva das
gangues, foi apresentado um caso peculiar, o do pichador Fiel, que foi apresentado
por Hally, Costelo e Augusto Três como sendo um indivíduo detentor de
determinados diferenciais no ato de pichar. Dessa forma, suas frases longas
inscritas nos muros e o fato de que pichava sozinho, isto é, desacompanhado de
outros pichadores, eram vistos como fatores que o diferenciavam dos outros na
cartografia ludovicense.
Destaca-se, assim, que Fiel era um “pichador solitário” e escrevia em
muros ludovicenses frases analisadas como interessantes e cativantes por outros
praticantes. Por meio deste exemplo, observa-se uma objeção às interpretações da
mídia impressa local da época, que afirmava que todo pichador integrava uma
gangue. Fiel não pertencia a quaisquer agrupamentos jovens, sendo que sua sigla
de pichação, M.F, jamais foi decodificada por Augusto Três, um dos poucos que o
conheceu de maneira mais próxima.
121

Interessante pontuar a noção de juventude e de vida dos ex-pichadores


ludovicenses entrevistados. A prática da pichação requeria, em primeiro lugar, que o
sujeito do ato tivesse uma fronteira entre a vida e a morte muito tênue. Aqui o medo
de jogar sua vida por um instante não tinha espaço, uma vez que o pichador tinha
noção de que a força repressora estatal ou a vigilância privada poderiam, de forma
inesperada, interromper a inscrição em muros e marquises.
Além desses fatores temos que o próprio pichador poderia interromper
sua vida, caso haja um descuido no ato da pichação. Por isso que temos as
preocupações de Costelo e de Augusto três quando detalham todo um manual de
como subir em uma marquise ou como pichar em um local alto a fim de não cair e
quebrar algum osso do corpo. Entretanto como bem aponta Costelo, depois da
pichação feita, de terem corrido o risco de interromperem sua vida, tudo virava
motivo de sorriso e orgulho. Para esses jovens o importante era a sensação de
adrenalina advinda do risco por terem essa linha tênue entre a vida e a morte.
Mesmo tendo essa fronteira frágil entre a vida e a morte o pichador não
era um ser desorganizado para com sua escrita em muros e marquises.
Diferentemente do que apontou a mídia impressa ludovicense, dos periódicos
analisados, os amantes da pichação tinham sim seus códigos bem definidos, o
chamado ethos da pichação. Desse modo, todo pichador tinha que colocar junto ao
seu nome, de galera, a sigla da sua turma, a fim de que os outros escritores
noturnos pudessem identificar quem era aquela pessoa e de onde ela estava
falando.
Seguindo essa linha de pensamento temos as escolhas de nomes a
serem utilizados nos grupos e na pichação. Não poderia ser nomes já utilizados,
como bem pontuou Ratai, e sim algum apelido novo e diferencial. É esse diferencial
que fez com que muitos pichadores passassem a seguir outra característica do
ethos da pichação, a escrita em locais altos e de difícil acesso. Augusto três foi o
maior exemplo de como foi acirrada a busca pela pichação mais alta, perigosa e que
tinha um grau de dificuldade muito mais elevado do que as convencionais.
O pichador das alturas era visto como o diferencial e rapidamente
ganhava fama, entre as mulheres e seus parceiros de pichação. Como pontuou
Augusto três, Hally, Costelo e Júnior Enrolado, em um determinado momento
parecia que todos os jovens pichadores queriam pichar apenas em locais de
122

altíssimo risco. De forma extremamente contraditória o diferencial fazia parte de algo


comum, chamado aqui de ethos da pichação. E esse diferencial trouxe vantagens e
muitos problemas para o amante deste modelo de escrita.
Assim, de forma diferente do postado pela mídia impressa ludovicense
existia sim códigos, não escritos, entre os pichadores. O ethos da pichação equivalia
a um código de honra no universo da pichação ludovicense da década de 1990. E
inserido neste código de honra foi apresentado o ato de queimar uma pichação.
Desse modo, se um pichador riscar ou tornar invisível a escrita de outro pichador, tal
ato deveria ser respondido obedecendo aos códigos de honra, não escritos. Essa
resposta poderia vim em forma de um conflito corporal que nos casos mais graves
poderia trazer sequelas que irão acompanhar um indivíduo por toda sua vida.
Este trabalho estruturou-se em dois pilares principais de analises, a visão
da pichação pelos seus ex-praticantes e pelos impressos locais. Objetivou-se com
essas fontes, problematizar as noções de cidade real e a desejada (Pesavento,
1995). Deste modo, a cidade desejada era aquela pretendida pela mídia impressa
ludovicense, amparada num imaginário pautado nos princípios da ordem, do
equilíbrio e da unidade (Diógenes, 1998). Por estes princípios, qualquer ato violento,
quer seja de forma física ou simbólica, deve ser explicado a fim de torna-los
inteligíveis ao público pagantes destes periódicos (Bourdieu, 1996). E foi assim que
os jornais de São Luís dos anos de 1990 trataram a pichação.
A pichação foi vista como um ser marginal, algo que não fazia parte da
realidade da cidade, mais que foi trazida de fora. A juventude ludovicense que aderia
a esta moda foram sendo qualificados de seres desviantes, marginais e
delinquentes. Os chamados pichadores ganharam muitas matérias nos periódicos
de São Luís, mas todos os categorizados de sujeitos a margem dos princípios da
ordem, do equilíbrio e da unidade.
Entretanto a grande questão que fica é em saber se os pichadores são ou
não sujeitos desviantes e marginais. Certamente para um(a) dono(a) de algum
estabelecimento comercial a pichação é algo feita por vândalos, uma vez que vai
sair é dos bolso destes empresários(as) os recursos financeiros para pintar os muros
de seus pontos comercias que fora pichado. A mesma visão se dar para aqueles(as)
que são amantes de pontos ditos como culturais na cidade, a exemplo de teatros,
bustos, museus e bibliotecas caso as marquises ou fachadas destes sejam visitados
123

por esse modelo de escrita. Estes também qualificariam os pichadores como serem
problemáticos ao sossego ludovicense.
E entre os ex-pichadores? O que pensam a respeito da pichação aqueles
que foram entrevistados e os que não puderam ser? Quase todos os entrevistados
deram, por palavras ou pela linguagem corporal, demonstração de reprovação à
prática da pichação. O momento de vivências nas gangues é visto, pelo discurso de
hoje, como de rebeldia, como se se até eles se encaixassem fora dos princípios
ocidental da ordem e do equilíbrio. Mas como pontuado, esse é o discurso deles no
presente de hoje.
Já no presente do ontem o que percebemos no discurso deles, é uma
sensação de alívio fundida com alegria por ter passado por esta fase e ter deixado
sua marca. Não passa pela cabeça dos entrevistados verem seus filhos ou parentes
jovens como pichadores, uma vez que até eles reconhecem que a força repressora
do estado está hoje mais eficaz de que nos anos de 1990. Entretanto, todos os
entrevistados concordaram em ver na pichação ludovicense da década de 1990 uma
forma de linguagem, um modo de se comunicar com outros pichadores, de
paquerar, de arrumar desafetos, de serem vistos e de deixar cravado na arquitetura
da cidade seus nomes.
124

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