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BOURDIEU, Pierre. “Une libre pensée”. In: ERIBON, Didier. Michel Foucault.

Paris: Flammarion,
2011. p. 579-588.

ANEXO 5 – publicado originalmente em italiano em “L’Indice”, de Roma, em outubro de 1984

“Sem pretender entregar minha intuição do que poderia ser ‘a intuição central’ da obra de
Foucault, em uma tentativa de apropriação da qual todas as grandes obras são objeto, eu
quero, relembrando esse tipo de anticonformismo visceral, de impaciência indócil [rétive] de
toda categorização e classificação, que definia Michel [581] Foucault, contribuir para protegê-
lo contra a redução a uma ou outra de suas propriedades classificatórias: historiador do
conhecimento, historiador da ciência, historiador das ciências sociais, social scientist, filósofo,
historiador da filosofia, filósofo da história, filósofo da história das ciências, nenhuma dessas
etiquetas abusivamente restritivas poderiam defini-lo. Evocar sua relação com o marxismo ou
com a tradição francesa de epistemologia (Bachelard, Canguilhem), de história da filosofia ou
de história das ciências (Guéroult, Vuillemin), de antropologia ou de história estrutural (Lévi-
Strauss, Dumézil) ou ainda com Nietzsche, Artaud ou Bataille, não é reduzi-lo às ‘fontes’ ou às
‘influências’ mas dar o meio de apreender as distâncias pelas quais ele se construiu; não é
colocá-lo na prisão classificatória onde se desejará encerrá-lo, mas permitir-lhe de escapar,
como ele nunca cessou de fazer, como ele faria se ainda estivesse aí; é defender contra os
classificadores , os burocratas do pensamento – Foucault é marxista ou antimarxista, é
realmente um filósofo? – aquele que trabalhou com a última energia e até o último momento
explorando os limites (intelectuais e sociais) de seu pensamento, tomando distância de si
mesmo e de seu próprio pensamento, – e da imagem social de seu próprio pensamento”
(BOURDIEU, 2011, p.580-581, tradução nossa).

“Se poderia começar pela relação com Marx e mostrar como essa tentativa para colocar em
termos materialistas o problema do conhecimento (uma das definições parciais possíveis do
trabalho de Foucault) não se deixa reduzir à alternativa do marxismo e do antimarxismo, que
ela não é nem um nem outro e os dois ao mesmo tempo” p.581.

“À oblação teórica, Foucault prefere a homenagem discreta, mesmo secreta, que implica a
utilização, a aplicação [mise en oeuvre]” p.582.

“esta maneira de fazer de Marx um autor como os outros, tudo isso desconcerta os crentes”
p.582
“o mesmo Foucault que associou à descoberta de Nietzsche a determinação de seu projeto
intelectual diz em algum lugar que a única maneira de prestar homenagem a pensamentos
como aquele de Nietzsche, é utilizá-los, fazer um uso qualquer, mesmo deformador” p.582

“Há pessoas, mesmo entre os intelectuais, para quem é mais fácil se dizer de esquerda quando
a esquerda está no poder. Para Michel Foucault, e alguns outros, é mais difícil, senão
impossível; para grande escândalo dos oportunistas, que denunciam ‘o silêncio dos
intelectuais’” p. 583

Economismo/economicismo de Foucault

Ex. História da loucura e Nascimento da clínica

“A eufemização que aporta a preciosidade do estilo não consegue mascarar uma forma muito
brutal de economismo; o hospital é o lugar de uma troca desigual: o apaziguamento dado ao
sofrimento contra um olhar clínico sobre o corpo dado em espetáculo” p.583

Vigiar e Punir

“Em Vigiar e Punir , Foucault invoca explicitamente a análise marxista do capital constante e
do capital variável para explicar a prisão moderna como instrumento do poder disciplinar e liga
a acumulação de homens e a acumulação do capital” p.583

História da sexualidade

“ele vincula [rattache] a disciplina e a regulação da sexualidade às exigências da produção,


fazendo do poder sobre os corpos uma das condições do desenvolvimento econômico e da
acumulação capitalista. Se poderia assim multiplicar os textos que, tanto em seu modo de
pensamnto como em sua linguagem, têm consonâncias fortemente marxistas” p.584

“Da análise do internamento psiquiátrico à análise da normalização da sexualidade, trata-se


sempre de mostrar, entre outras coisas, que fenômenos de pouca importância para que se
coloque apenas do ponto de vista econômico desempenham um papel capital na manutenção
da ordem política, que poderia ser a condição melhor escondida e a mais decisiva do
funcionamento da ordem econômica” p.584
“Fazendo da história científica do conhecimento uma dimensão da ciência política, Foucault
transforma radicalmente a intenção de Bachelard ou de Canguilhem até no que ela tem de
mais novo e de mais específico. Um e outro haviam procurado na história erros ou falsas
ciências (ver por exemplo, Canguilhem, Idéologie et rationalité dans les sciences de la vie,
1977) a verdade do trabalho científico que não pode revelar a reflexão de tipo kantiano sobre
a ciência já feita, acabada. A ciência como ‘poder-saber’ está sempre exposta à tentação do
erro, que encontra seu princípio em uma vontade de saber carregada de vontade de potência.
Isso não se vê tão bem quanto no caso das ciências sociais, sobretudo na fase de seu começo
da qual elas não acabaram de sair, e por isso: medicina clínica e psicopatologia, direito e
ciência política, Foucault estuda as ciências onde a fronteira entre a verdade e o erro é a mais
frágil, aquelas que são as mais carregadas de ideologia porque os aspectos políticos que elas
manipulam são infinitamente mais vitais do que aqueles das ciências da natureza. Prendendo-
se a domínios abandonados pelos historiadores, o hospital, a prisão ou o confessional, e a
esses tipos de anti-heróis que o francês chama ‘escória da humanidade’ [rebuts de l’humanité]
(criminosos, hermafrodita ou criança selvagem), Foucault trabalha para descobrir o impensado
da ciência normal. Esse projeto se cumpre logicamente em uma história social da ciência
social, o ‘saber-poder’ por excelência. É nesse ponto que se revela [586] o projeto crítico – no
sentido de Kant, de quem Michel Foucault traduziu em francês a Antropologia – que orienta
toda a empreitada. A crítica do conhecimento antropológico se cumpre na análise das
condições sociais e lógicas que tornam possível a ciência do homem pelo homem, quer dizer
na história da invenção histórica do homem. A genealogia histórica que, rompendo com o
antropocentrismo da filosofia clássica, reconstitui a gênese social do homem moderno, realiza
por outras vias a ambição kantiana de conhecer a capacidade de conhecer, isto é, as
tecnologias inseparavelmente políticas e cognitivas, as disciplinas cuja aparição é
contemporânea da industrialização e que funcionaram, sob aparências reformistas, como
instrumentos de polícia e de política, como regras de conhecimento e regras de vida,
psicologia, medicina clínica, psicopatologia, ciências sociais, criminologia, teoria da população,
economia política, psicanálise, psiquiatria. Figura exemplar, o olhar médico é estruturado não
somente pelo sistema dos saberes que ele engaja mas também pela relação social de
dominação na qual ele se cumpre: há uma ‘história política da produção de verdade’” p.585-
586.

“Esta história social da produção do homem que se realiza através da luta pela produção da
verdade sobre o homem é uma forma – senão a forma por excelência – do conhecimento de
si. E a genealogia do conhecimento encontra seu prolongamento lógico em uma ‘genealogia da
moral’. Explorar por um lado os limites sociais do conhecimento ou, o que dá no mesmo, as
condições sociais de possibilidade do conhecimento – notadamente do mundo social – que
nos fornecem os ‘saberes-poderes’ e as disciplinas, explorar por outro lado os limites sociais da
moral, a gênese histórica [587] desse ‘sujeito’ que o antropocentrismo da filosofia clássica
aceitou como um começo absoluto: esta são duas realizações da mesma intenção crítica. Nos
dois casos, a reflexão sobre o limite introduz a uma feflexão sobre os limites da reflexão. O
poder, quer dizer a política, não está ausente da relação aparentemente a mais íntima, a mais
liberada de todo constrangimento e de todo controle social, o conhecimento reflexivo de si. O
conceito de ‘saber-poder’ pretendia evocar que o saber está no poder e o poder no saber. É
assim no caso do saber de si. Destruir o antropocentrismo, é conhecer e reconhecer o limite
antropológico e se proibir de projetar o homem no lugar deixado vazio pelos deuses mortos (à
maneira, em um sentido, exemplar, de Sartre que pretendia restituir ao homem o poder de
criação das verdades e dos valores que Descartes havia conferido a Deus)” p.586-587

“O projeto crítico, genealogia histórica do ‘sujeito’ assujeitado, é inseparavelmente um projeto


científico e político: o conhecimento antropológico é sem dúvida a única chance que nós
temos de nos arrancarmos do ‘sono antropológico’ e a todas as formas de autoindulgência
nascidas do cuidado de si, de nos liberarmos dos limites inerentes à ilusão do pensamento sem
limites históricos, do pensamento sem impensado, de produzir em uma palavra, um sujeito do
qual nós seríamos, tant soi peu, os sujeitos. A teoria, essa visão que desvela, que põe a nu o
poder, é uma prática, e uma prática política. Ela não pretende dizer o todo, a verdade total
sobre o todo. Ela persegue o poder lá onde ele está, frequentemente, melhor escondido, nos
nadas mais insignificantes da ordem ordinária, aceita como indo de si. Rompendo com a
representação, caraterística do homo academicus e notadamente do filósofo universitário, que
divide a vida em duas partes, a do conhecimento, onde se investe o rigor, e aquela da política
onde se investe a paixão, de preferência generosa. Michel Foucault concebeu a atividade
intelectual como a forma por excelência de uma iniciativa política de liberação: a política da
verdade que é a função própria do intelectual se realiza em um trabalho para descobrir e
declarar a verdade da política. É o que faz do desejo (perverso) de saber a verdade do poder
um adversário irredutível do desejo de poder” p.588

Nota 1: “Há quase um ano, em pleno coração do debate em torno do ‘silêncio dos
intelectuais’, nós havíamos definido o projeto de um livro coletivo sobre o estado da política e
da sociedade na França. Michel Foucault trabalhava, nessa perspectiva, em uma história do
discurso socialista” p.588