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PSICOPOLÍTICA.

NEOLIBERALISMO
E AS NOVAS TÉCNICAS DE PODER.

de BYUNG-CHUL HAN

trecho do livro: primeiro capítulo

CRISE DA LIBERDADE

Tradução
Eduardo Fernandes Araújo
SUMÁRIO

Crise da liberdade (trecho traduzido) ......................... 9

Poder esperto ................................................................... 25

Topeira e serpente ........................................................... 29

Biopolítica ........................................................................ 33

O dilema de Foucault ..................................................... 37

Cura como assassinato ................................................... 43

Choque ............................................................................. 47

O amigável Big Brother ................................................. 53

O capitalismo da emoção .............................................. 59

Ludificação (gameficação) ............................................. 69

Big Data ............................................................................ 77

Além do sujeito ............................................................... 103

Idiotismo .......................................................................... 107

Comentários .................................................................... 115

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PSICOPOLÍTICA. NEOLIBERALISMO E AS NOVAS TÉCNICAS DE PODER ♠
Byung-Chul Han
originalmente publicado em 2014

CRISE DA LIBERDADE

A exploração da liberdade

A liberdade tem sido um acontecimento [Episode]. Acontecimento significa entreato. A


sensação de liberdade se situa no trânsito de uma forma de vida a outra, até que finalmente se
mostra como uma forma de coerção. Dessa forma, à liberação segue uma nova submissão. Esse
é o destino do sujeito, que literalmente significa estar submetido.

Hoje cremos que não somos um sujeito submetido, mas sim um projeto livre que
constantemente se repõe e se reinventa. Esse trânsito do sujeito ao projeto vem acompanhado
da sensação de liberdade. Assim, o próprio projeto se mostra como uma figura de coerção,

♠ Traduzido do original em alemão por Eduardo Fernandes Araújo [dubol@yahoo.com] (HAN, Byung-Chul. “Krise der Freiheit”, in:
Psychopolitik. Neoliberalismus und die neuen Machttechniken. Frankfurt: S. Fischer, 2014. pp. 09-23).

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inclusive como uma norma eficiente de subjetivação e de subordinação. O eu como projeto,
que acredita ter se libertado das coerções externas e alheias, submete-se a coerções internas e
próprias na forma de uma coerção ao rendimento e à otimização.

Vivemos numa fase histórica especial na qual a própria liberdade dá lugar a coerções. A
liberdade do poder fazer gera até mais coerções que o dever disciplinar. O dever tem um limite.
O poder fazer, ao contrário, não tem nenhum. É por isso que a coerção que vem do poder
fazer é ilimitada. Encontramo-nos, portanto, numa situação paradoxal. A liberdade é a
contrafigura da coerção. A liberdade, que tem de ser o contrário da coerção, gera coerções.
Doenças como a depressão e a síndrome do esgotamento são a expressão de uma crise
profunda da liberdade. São o sintoma patológico de que hoje a liberdade se converte, por
diferentes caminhos, em coerção.

O sujeito do rendimento, que se pretende livre, é na realidade um escravo. É um escravo


absoluto, na medida em que sem senhor algum se explora a si mesmo de forma voluntária. Não
tem diante de si um senhor que o obrigue a trabalhar. O sujeito do rendimento absolutiza a vida
nua e trabalha. A vida nua [bloße Leben] e o trabalho são as faces da mesma moeda. A saúde
representa o ideal da vida nua. Ao escravo neoliberal lhe é estranha a soberania, inclusive a
liberdade do senhor que, segundo a dialética do senhor e do escravo em Hegel, não trabalha e
unicamente desfruta. Essa soberania do senhor consiste em que se eleve sobre a vida nua e até
aceite a morte. Esse excesso, essa forma de vida e de gozo, é estranho ao escravo trabalhador
preocupado com a vida nua. Ante a presunção de Hegel, o trabalho não o faz livre. Continua
sendo um escravo. O escravo de Hegel também obriga o senhor a trabalhar. A dialética
hegeliana do senhor e do escravo leva à totalização do trabalho.

O sujeito neoliberal como empresário de si mesmo não é capaz de estabelecer com os


outros relações que sejam livres de qualquer finalidade. Entre empresários não surge uma
amizade sem finalidade alguma. Entretanto, ser livre significa estar entre amigos. “Liberdade” e
“amigo” têm em indo-europeu a mesma raiz. A liberdade é no fundo uma palavra vinculativa.
Sentimo-nos livres apenas numa relação exitosa, numa coexistência satisfatória. O isolamento
total ao qual nos leva o regime neoliberal não nos faz realmente livres. Nesse sentido, hoje se
coloca a questão de se não deveríamos redefinir, reinventar a liberdade, para escapar da dialética
fatal que a converte em coerção.

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O neoliberalismo é um sistema muito eficiente, até inteligente, para explorar a liberdade.
Explora-se tudo aquilo que pertence a práticas e formas de liberdade, como a emoção, o jogo e
a comunicação. Não é nada eficiente explorar alguém contra sua vontade. Na exploração alheia,
o produto final é insignificante. Só a exploração da liberdade gera o maior rendimento.

De modo interessante, Marx também define a liberdade como uma relação exitosa com
o outro: “Apenas dentro da comunhão com outros, todo indivíduo tem os meios necessários
para desenvolver seus dons em todos os sentidos; apenas dentro da comunidade é possível,
portanto, a liberdade pessoal” 1. Ser livre, portanto, não significa outra coisa que o realizar-se
mutuamente. A liberdade é um sinônimo para a comunhão bem-sucedida*.

A liberdade individual representa para Marx uma esperteza, uma armadilha do capital. A
“livre concorrência”, que repousa na ideia da liberdade individual, é apenas “a relação do capital
consigo mesmo como outro capital, ou ainda, o comportamento real do capital enquanto
capital” 2. O capital realiza sua reprodução relacionando-se consigo mesmo como outro capital
mediante a concorrência. O capital copula com o outro de si mesmo pela mediação da
liberdade individual. Enquanto se compete livremente, o capital aumenta. A liberdade individual
é uma escravidão na medida em que o capital acumula para sua própria proliferação. Assim,
para se reproduzir, o capital explora a liberdade do indivíduo: “Na livre concorrência não se
põe os indivíduos como livres, mas se põe o capital como livre” 3.

Pela mediação da liberdade individual se realiza a liberdade do capital. Dessa maneira, o


indivíduo livre é degradado a órgão sexual do capital. A liberdade individual confere ao capital
uma subjetividade “automática” que o impulsiona à reprodução ativa. Assim, o capital vai
“parindo” continuamente “crias vivas” 4. A liberdade individual, que hoje adota uma forma
excessiva, não é ao fim e ao cabo outra coisa que o excesso do capital.

1 MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. Die deutsche Ideologie. Berlim: Akademie Verlag, 2009. p. 82.
* [N.T.] Como outras tantas, esta é uma das mais belas frases do texto em alemão, então me permitam compartilhar Han no original:
“Frei sein heißt demnach nichts anderes als sich miteinander realisieren. Die Freiheit ist ein Synonym für die gelingende
Gemeinschaft.”
2 MARX, Karl. Das Kapital. Kritik der politischen Ökonomie. Bd.2. Berlim: Dietz Verlag, 2008. p. 167.
3 Ibid.
4 MARX, Karl. Das Kapital. Kritik der politischen Ökonomie. Bd.1. Berlim: Dietz Verlag, 2008. p. 188.

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A ditadura do capital

Segundo Marx, as forças produtivas (a força de trabalho, o modo de trabalhar e os meios


de produção material), num determinado ponto de seu desenvolvimento, entram em
contradição com as relações de produção dominantes (relações de propriedade e dominação)
Isso se dá porque as forças produtivas progridem ininterruptamente. Assim, a industrialização
gera novas forças produtivas que entram em contradição com as relações de propriedade e
dominação do tipo feudal, o que leva a crises sociais que pressionam a promoção de uma
mudança nas relações de produção. A contradição se elimina mediante a luta do proletariado
contra a burguesia, o que gera a ordem social comunista.

Ante a presunção de Marx, não é possível superar a contradição entre as forças


produtivas e as relações produtivas por meio de uma revolução comunista. É insuperável. O
capitalismo, exatamente por essa condição intrínseca de caráter duradouro, escapa rumo ao
futuro. Desse modo, o capitalismo industrial vira neoliberalismo ou capitalismo financeiro, com
modos de produção pós-industriais, imateriais, em vez de ser substituído pelo comunismo.

O neoliberalismo, como uma forma de mutação do capitalismo, converte o trabalhador


em empresário. O neoliberalismo, e não a revolução comunista, elimina a classe trabalhadora
submetida à exploração alheia. Hoje cada um é um trabalhador que explora a si mesmo em sua
própria empresa. Cada um é senhor e escravo numa só pessoa. Também a luta de classes se
transforma numa luta interna consigo mesmo.

Não é a multidão cooperante que Antonio Negri eleva a sucessora pós-marxista do


“proletariado”, mas sim a solidão do empresário isolado, competindo consigo mesmo,
explorador voluntário de si mesmo, o que constitui o modo de produção contemporânea. É um
erro pensar que a multidão cooperante derruba o “Império parasita” e constrói uma ordem
social comunista. Esse esquema marxista, ao qual Negri se apega, vai se mostrar novamente
como uma ilusão.

Já não é possível manter a distinção entre proletariado e burguesia. O proletário é


literalmente aquele que tem em seus filhos a única propriedade. Sua autoprodução se restringe

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apenas à produção biológica. Hoje, ao contrário, expande-se a ilusão de que cada um, enquanto
projeto livre de si mesmo, é capaz de uma autoprodução ilimitada. Na contemporaneidade, é
estruturalmente impossível a “ditadura proletária”. Hoje todos estamos dominados por uma
ditadura do capital.

O regime neoliberal transforma a exploração alheia na autoexploração, que atinge todas


as “classes”. A autoexploração sem classes é totalmente estranha para Marx. Ela torna
impossível a revolução social, que repousa na distinção entre exploradores e explorados. E pelo
isolamento do sujeito de rendimento, explorador de si mesmo, não se forma nós político algum
com capacidade para uma ação comum.

Quem fracassa na neoliberal sociedade do rendimento faz de si mesmo responsável, e se


envergonha, em vez de pôr em dúvida a sociedade e o sistema. Nisso consiste a especial
inteligência do regime neoliberal. Não deixa que surja resistência alguma contra o sistema. No
regime de exploração alheia, pelo contrário, é possível que os explorados se solidarizem e juntos
se lancem contra o explorador. Exatamente nesta lógica se baseia a ideia de Marx da “ditadura
proletária”. Contudo, esta lógica pressupõe relações de dominação repressivas. No regime
neoliberal da autoexploração, as pessoas dirigem a agressão a si mesmas. Essa autoagressividade
não transforma o explorado num revolucionário, mas sim num depressivo.

Hoje não trabalhamos mais para as nossas necessidades, e sim para o capital. O capital
gera suas próprias necessidades, que nós, de modo equivocado, percebemos como nossas. O
capital representa uma nova transcendência, uma nova forma de subjetivação. Somos novamente
arrancados do nível da imanência da vida, onde a vida se relacionaria consigo mesma em vez de
se submeter a uma finalidade extrínseca.

A emancipação da ordem transcendente, ou seja, das premissas fundamentadas


religiosamente, é o que caracteriza a política moderna. Só no Moderno, em que as recorrências
de fundamentação transcendente já não tinham validade alguma, seria possível uma política,
uma politização completa da sociedade. Desse modo, as normas de ação podiam ser livremente
negociadas. A transcendência cede ao discurso imanente à sociedade. Logo, a sociedade teria de ser
reerguida novamente a partir de sua imanência. Contrariamente, abandona-se de novo a
liberdade no exato momento em que o capital se ergue numa nova transcendência, num novo
senhor. A política acaba se convertendo novamente numa escravização. Transforma-se num
capanga do capital.

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Queremos mesmo ser livres? Acaso não temos inventado Deus para não termos de ser livres?
Diante de Deus somos todos culpáveis. Mas a culpa elimina a liberdade. Hoje os políticos
acusam que sua liberdade de ação está bastante limitada devido ao endividamento altíssimo. Se
estamos livres da dívida, ou ainda, se somos completamente livres, temos de atuar
verdadeiramente. Aliás, talvez nos endividemos constantemente para não termos de atuar, ou
seja, para não termos de ser livres e responsáveis. Não seriam as altas dívidas uma prova de que
não temos em nossa existência o ser livre? Não é o capital um novo Deus que ainda outra vez
nos torna culpados (endividados)? Walter Benjamin concebe o capitalismo como uma religião.
É o “primeiro caso de um culto que não é expiatório, mas sim culpabilizador”. Por não ser
possível liquidar as dívidas, perpetua-se o estado de falta de liberdade: “Uma terrível
consciência de culpa que não sabe como se expiar, recorre ao culto não para expiar a culpa, mas
sim para torná-la universal” 5.

A ditadura da transparência

No início, a rede digital foi celebrada como um meio de liberdade ilimitada. O primeiro
mote publicitário da Microsoft, Where do you want to go today?, sugeria uma liberdade e uma
mobilidade ilimitadas na rede. Pois bem, hoje essa euforia inicial se mostra como uma ilusão. A
liberdade e a comunicação ilimitadas se transformam em controle e vigilância totais. Também
os meios sociais se equiparam cada vez mais aos panópticos digitais que vigiam e exploram o
social de modo cruel. Tão logo nos liberamos do panóptico disciplinar, entramos num novo
ainda mais eficiente.

Os prisioneiros do panóptico de Bentham eram isolados com finalidade disciplinar, e


não era permitido conversar com eles. Os habitantes do panóptico digital, ao contrário, se
comunicam assiduamente, e ficam nus por sua própria conta. Participam de maneira ativa na

5 BENJAMIN, Walter. “Kapitalismus als Religion”, in: Gesammelte Schriften. Bd.4. Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1992. p. 100.

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construção do panóptico digital. A sociedade do controle digital faz uso intensivo da liberdade.
Só é possível graças ao terem lugar, voluntariamente, uma holofotização e um desnudamento
pessoais. O Big Brother digital transfere seu trabalho aos prisioneiros. Assim, a entrega de dados
não acontece por coerção, senão por uma necessidade intrínseca. Aí reside a eficiência do
panóptico.

Também se exige transparência em nome da liberdade de comunicação. A transparência


é na realidade um dispositivo neoliberal. De maneira violenta lança tudo para o exterior, para
convertê-lo em informação. No modo contemporâneo de produção imaterial, mais informação e
comunicação significam mais produtividade, aceleração e crescimento. A informação é uma
positividade que pode circular sem contexto, por carecer de ensimesmamento. Dessa forma é
possível acelerar a circulação da informação.

O segredo, a estranheza ou a alteridade representa obstáculo para a comunicação


ilimitada. Daí que sejam desarticulados em nome da transparência. A comunicação fica
acelerada quando é alisada, ou seja, quando se eliminam quaisquer estrias, quaisquer muros e
abismos. Também as pessoas são desinteriorizadas, porque a interioridade obstaculiza e desacelera
a comunicação. Essa desinteriorização não ocorre de modo violento. Tem lugar de maneira
voluntária. Desinterioriza-se a negatividade da alteridade ou da estranheza, em prol da diferença
ou da diversidade comunicável e consumível. O dispositivo de transparência demanda uma
exterioridade total, a fim de acelerar a circulação da informação e da comunicação. A abertura
serve, no fim das contas, para a comunicação ilimitada, já que o fechamento, o hermetismo e o
ensimesmamento bloqueiam a comunicação.

Uma conformidade total é uma consequência adicional do dispositivo da transparência.


Reprimir os desvios é constitutivo da economia da transparência. A rede e a comunicação totais
têm já como tais um efeito alisador. Geram um efeito de conformidade, como se cada um vigiasse o
outro, e isso antecipadamente a qualquer vigilância e controle por serviços secretos. Hoje a
vigilância ocorre também sem vigilância. Como por obra de moderadores invisíveis, alisa-se a
comunicação e a reduz à opinião geral. Esta vigilância primária, íntima, é muito mais
problemática que a secundária, por obra de serviços secretos.

O neoliberalismo converte o cidadão em consumidor. A liberdade do cidadão cede


diante da passividade do consumidor. O eleitor, enquanto consumidor, não tem interesse real
pela política, pela configuração ativa da comunidade. Não está disposto nem capacitado para a

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ação política comum. Só reage de maneira passiva à política, resmungando e se queixando, idêntico
a um consumidor diante das mercadorias e serviços que o desagradam. Os políticos e os
partidos também seguem a lógica do consumo. Precisam providenciar. Desse modo, eles se
degradam a provedores que devem satisfazer os eleitores enquanto consumidores ou clientes.

A transparência que hoje se exige dos políticos é tudo menos uma reivindicação política.
Não se pede transparência pelos processos políticos de decisão, pelos quais nenhum consumidor
se interessa. O imperativo da transparência serve antes para despir os políticos, para
desmascará-los, para transformá-los em temáticas de escândalo. A reivindicação da
transparência pressupõe a posição de espectador que se escandaliza. Não é a reivindicação de
um cidadão com iniciativa, mas sim de um espectador passivo. A participação ocorre na forma
de reclamação e queixa. A sociedade da transparência, que está povoada de espectadores e
consumidores, funda uma democracia de espectadores.

A autodeterminação informativa é uma parte essencial da liberdade. Na sentença do


Tribunal Constitucional da Alemanha sobre o censo nacional, em 1984, então se afirmava
assim: seriam incompatíveis com o direito à autodeterminação informativa uma ordem social e
sua respectiva ordem jurídica em que o cidadão não pudesse saber quem dele sabe, bem como
o quê, quando e em que ocasião se sabe dele. Entretanto, tratava-se de uma época em que se
acreditava ter de se enfrentar com o Estado como uma instância de dominação que arrancava
informação dos cidadãos contra sua vontade. Faz muito tempo que essa época ficou para trás.
Hoje nos despimos sem nenhum tipo de coerção nem de prescrição. Carregamos na rede todo
tipo de dados e informações sem saber quem, nem o quê, nem quando, nem em que lugar se
sabe de nós. Esse descontrole representa uma crise da liberdade que devemos levar a sério.
Diante da quantidade e do tipo de informação que voluntária e indiscriminadamente se joga na
rede, o conceito de proteção de dados se tornou obsoleto.

Estamos em direção à época da psicopolítica digital. Passa de uma vigilância passiva a


um controle ativo. Projeta-nos numa crise de liberdade com maior alcance, pois agora afeta a
própria autonomia de vontade. O Big Data é um instrumento psicopolítico muito eficiente que
permite adquirir um conhecimento integral da dinâmica inerente à sociedade da comunicação.
Trata-se de um conhecimento de dominação que permite intervir na psique, e adestrá-la a um nível
pré-reflexivo.

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A abertura ao futuro é constitutiva da liberdade de ação. Contudo, o Big Data permite
fazer prognósticos sobre o comportamento humano. Assim, o futuro se torna previsível e
controlável. A psicopolítica digital transforma a negatividade da decisão livre na positividade de um
estado de coisas. A própria pessoa se positiviza em coisa, que é quantificável, mensurável,
controlável. No entanto, coisa alguma é livre. Sem dúvida alguma, a coisa é mais transparente que
a pessoa. O Big Data anuncia o fim da pessoa e da vontade livre.

Qualquer dispositivo, qualquer técnica de dominação gera objetos de devoção que são
introduzidos com a finalidade de submeter. Materializam e estabilizam o domínio. “Devoto”
quer dizer “submisso”. O smartphone é um objeto digital de devoção, até mesmo um objeto de
devoção do digital em geral. Enquanto aparato de submissão, funciona como o rosário, que é
também, em seu manuseio, uma espécie de móbile. Ambos funcionam como prova e controle
de si mesmo. A dominação aumenta sua eficácia ao delegar a cada um a própria vigilância. O
Like é o amém digital. Quando clicamos no botão de agrada-me, submetemo-nos a uma trama de
dominação. Facebook é a igreja, a sinagoga global (literalmente, a congregação) do digital.

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