Vous êtes sur la page 1sur 1

GILLES DELEUZE (França, 1925 – França, 1995) - DO CAOS AO CÉREBRO

Pedimos somente um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada é mais doloroso, mais angustiante
do que um pensamento que escapa a si mesmo, ideias que fogem, que desaparecem apenas esboçadas,
já corroídas pelo esquecimento ou precipitadas em outras, que também não dominamos. São
variabilidades infinitas cuja desaparição e aparição coincidem. São velocidades infinitas, que se
confundem com a imobilidade do nada incolor e silencioso que percorrem, sem natureza nem
pensamento. É o instante que não sabemos se é longo demais ou curto demais para o tempo. Recebemos
chicotadas que latem como artérias. Perdemos sem cessar nossas ideias. E por isso que queremos tanto
agarrarmo-nos a opiniões prontas. Pedimos somente que nossas ideias se encadeiem segundo um
mínimo de regras constantes, e a associação de ideias jamais teve outro sentido: fornecer-nos regras
protetoras, semelhança, contiguidade, causalidade, que nos permitem colocar um pouco de ordem nas
ideias, passar de uma a outra segundo uma ordem do espaço e do tempo, impedindo nossa "fantasia" (o
delírio, a loucura) de percorrer o universo no instante, para engendrar nele cavalos alados e dragões de
fogo. Mas não haveria nem um pouco de ordem nas ideias, se não houvesse também nas coisas ou
estados de coisas, como um anti-caos objetivo: "Se o cinábrio fosse ora vermelho, ora preto, ora leve, ora
pesado..., minha imaginação não encontraria a ocasião para receber, no pensamento, o pesado cinábrio
com a representação da cor vermelha." E, enfim, para que haja acordo entre coisas e pensamento, é
preciso que a sensação se reproduza, como a garantia ou o testemunho de seu acordo, a sensação de
pesado cada vez que tomamos o cinábrio na mão, a de vermelho cada vez que o vemos, com nossos
órgãos do corpo, que não percebem o presente, sem lhe impor uma conformidade com o passado. É tudo
isso que pedimos para formar uma opinião, como uma espécie de "guarda-sol" que nos protege do caos.
Nossas opiniões são feitas de tudo isso. Mas a arte, a ciência, a filosofia exigem mais: traçam planos
sobre o caos. Essas três disciplinas não são como as religiões, que invocam dinastias de deuses, ou a
epifania de um deus único, para pintar sobre o guarda-sol um firmamento, como as figuras de uma Urdoxa
[crença originária] de onde derivariam nossas opiniões. A filosofia, a ciência e a arte querem que
rasguemos o firmamento e que mergulhemos no caos. Só o venceremos a este preço. Atravessei três
vezes o Aqueronte como vencedor. O filósofo, o cientista, o artista parecem retornar do país dos mortos. O
que o filósofo traz do caos são variações que permanecem infinitas, mas tornadas inseparáveis sobre
superfícies ou em volumes absolutos, que traçam um plano de imanência secante: não mais são
associações de ideias distintas, mas reencadeamentos, por zona de indistinção, num conceito. O cientista
traz do caos variáveis, tornadas independentes por desaceleração, isto é, por eliminação de outras
variabilidades quaisquer, suscetíveis de interferir, de modo que as variáveis retidas entram em relações
determináveis numa função: não mais são liames de propriedades nas coisas, mas coordenadas finitas
sobre um plano secante de referência, que vai das probabilidades locais a uma cosmologia global. O
artista traz do caos variedades, que não constituem mais uma reprodução do sensível no órgão, mas
erigem um ser do sensível, um ser da sensação, sobre um plano de composição, anorgânica, capaz de
restituir o infinito. A luta com o caos, que Cézanne e Klee mostraram em ato na pintura, no coração da
pintura, se encontra de uma outra maneira na ciência, na filosofia: trata-se sempre de vencer o caos por
um plano secante que o atravessa. O pintor passa por uma catástrofe, ou por um incêndio, e deixa sobre a
tela o traço dessa passagem, como do salto que o conduz do caos à composição. As próprias equações
matemáticas não desfrutam de uma tranquila certeza que seria como a sanção de uma opinião científica
dominante, mas saem de um abismo que faz que o matemático "salte de pés juntos sobre os cálculos",
que preveja que não pode efetuá-los e não chega à verdade sem "se chocar de um lado e do outro". E o
pensamento filosófico não reúne seus conceitos na amizade, sem ser ainda atravessado por uma fissura
que os reconduz ao ódio ou os dispersa no caos coexistente, onde é preciso retomá-los, pesquisá-los, dar
um salto. É como se se jogasse uma rede, mas o pescador arrisca-se sempre a ser arrastado e de se
encontrar em pleno mar, quando acreditava chegar ao porto. As três disciplinas procedem por crises ou
abalos, de maneira diferente, e é a sucessão que permite falar de "progresso" em cada caso. Diríamos que
a luta contra o caos implica em afinidade com o inimigo, porque uma outra luta se desenvolve e toma mais
importância, contra a opinião que, no entanto, pretendia nos proteger do próprio caos. (...) [págs. 237- 239]
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O que é a filosofia?. Rio de janeiro: Ed. 34, 2010.

De acordo com o texto, responda:


1) Explique com suas palavras a metáfora do guarda-sol.
2) De onde surgem as opiniões? Você concorda? Explique.
3) As religiões podem muitas vezes reforçar as opiniões? Por quê? Explique.
4) Por que a Arte, a Ciência e a Filosofia, cada uma a sua maneira, acabam se unindo ao caos, contra
a opinião? O que isso significa para você? Argumente.
5) Por que filosofamos? Cite exemplos.
6) Por que criamos teorias científicas? Cite exemplos.