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Ariadne.

À pele oculta da terra sussurra o sol seu gemido; desvela nos mares o vigor antes
opresso pela escuridão; jorra contra o veludo dos montes seu primeiro espasmo. Assim
segue solenemente a sina que lhe fora imposta desde o princípio de sua existência —
sempre deslizara o bafo quente de seu beijo sobre a terra e fizera nascer nas criaturinha
o anseio pela vida antes tão dura na escuridão; forçara seu falo contra o tegumento
salgado do mar e fizera penetrar nos templos do oceano os fustes opacos de sua luz;
derramara nas montanhas o fluído espesso de seu gozo luminoso e fizera saturar o
verdor úmido das folhas. Mas agora, quase atingindo o orgasmo de seu alvorecer,
encontra o sol algo novo nesse mundo intocado pelos homens: vacilando sua luz e
congelando seu coito vê uma pequena verruga na areia, mais de perto um corpúsculo
ínfimo, ainda pintado da alvura do luar, às vezes tocado por uma onda moribunda. É
Ariadne, que pelo amado abandonada à praia erma, sonha incauta de sua miséria.
Intocada pelo sol — sempre vivera escondida no palácio tenebroso do pai —, as
pálpebras como pesadas cortinas de veludo negro a trancando inconsciente no interior
de si mesma, e sua mente ainda achando estar nas entranhas duma embarcação, deitando
junto de Teseu. Em seu sono havia algo como a extensão do acolhimento que era tê-lo
ao seu lado; o corpo do amado não mais distante pela consciência encontrava a
possibilidade de amalgamar-se à ela, penetrando em sua respiração e jorrando nos
sentidos a imagem do enlace. Esta hipostasia de duas existências distintas na mente
duma só aflorava tão intensa durante o sono que de imediato encadeava uma reação
simetricamente oposta. Subitamente recobrava dimensão de si, e, mudando de posição,
parecia que tentava também confirmar a sua existência material, vendo
inconscientemente que não era feita da mesma matéria que os sonhos transfigurantes.
Aos poucos então reconstruía-se o liame e Teseu novamente enlaçava-se à ela. Tal
movimento repetia-se a madrugada toda, parecendo não ser só fruto do metabolismo
humano, como também do mundo em derredor. Pois o tempo do sono, diferindo do da
vigília, fazia crer não só que era sincopado com saturar e haurir dos seus pulmões, como
também continha algo do abeirar e arredar das vagas, do latejar e esmaecer do brilho
lunar.
Vendo o sol que o minúsculo corpo estirado na praia se anima, era vivo, fez
nascer um rossor nas telas onde se projetavam os sonhos, deslizando rasgos de
translúcido fluido sanguíneo nas pesadas cortinas negras que lhe fechavam a existência;
fez penetrar o dourado do dia no labirinto de breu inescapável, forçando espasmos de
luz amarela a romperem os pesados muros; fez saturar a sua pulsação luminosa nas
membranas que cerravam a visão adormecida, derramando seu candor pulsante na
mente exânime. Com isso alterou a substância de seus sonhos — tudo que era abismal
se tornou éter, o amor que antes se fazia tateando na escuridão, agora se expandia ao
infinito e a eternidade.
Por se sentir então, flutuante, isolada no espaço de luz incomensurável,
começaram seus membros a se debater na areia em busca de uma ancoragem, mais, de
uma transfiguração no mundo exterior, e não tendo encontrado no tatear e no friccionar
— pois no torpor do sonho, as sensações virtuais, apreendidas no nosso mundo interior,
por mais que sejam sugeridas, consequentes da apreensão feita pelos sentidos das coisas
no mundo concreto, operam em planos distintos, muita vez em oposição direta; a
sensação que sentem as pernas ao se debaterem na areia coexiste com a sensação
oposta, de que essas agonizam no ar livre e que estamos caindo — procurou o recurso
definitivo no soerguer das portas que lhe trancavam dentro de si — porque somente a
visão, sendo o mais essencial dos sentidos, não pode operar tanto na realidade concreta
quanto na virtual —, alcançando esse acorde brilhantíssimo de luz, confluência da
realidade desvanescente dos sonhos, e a da vigília, que principiava a renascer — acorde
que por tanto tempo perdurou, sincopado por momentos de densidade luminosa
fortíssima, e outros de inconsistência, de lume diáfano. Aos poucos se extinguiu, e em
seu lugar, tingiram-se, diluídos sobre as folhas brancas estendidas na retina, os rasgos
verticais da paisagem. No centro, faixa estreita de azul — como o lazúli que, submerso
numa baciazinha fizesse tanto cintilar sob a água suas minúsculas incrustações
esbranquiçadas quanto saturar sua mais pura cor — crispada intermitentemente na sua
borda esquerda por um brancor intenso e quebradiço, que logo desaparecia junto duma
segunda faixa vizinha, de amarelo tez, quase esverdeado. A terceira faixa, à direita —
no caso, acima, mas como ainda não estava ela levantada, não pode a gravidade, nem a
consciência ainda dormente dar a orientação certa — cerúlea, coagulada de um alaranjar
e arroxear quase transparentes, e coroada por um ponto fulvo dolorosamente reluzente.
E foi o penetrar desse dolorosamente no seio de Ariadne que a fez finalmente
despertar, desprendendo o fio único de sua consciência daquele emaranhado de
realidades dormentes; massa respirante que agora talvez findasse seu eterno
movimentar. Então, num estalido, trespassada por um espasmo que agonizava seus
nervos, cambaleou sob o peso da luz que a circundava e alçou seu corpo — parecia
não ser apenas uma pessoa que acordasse, mas sim um cadáver que, arrastado à praia
depois de muito murchar na profundidade salgada do oceano, fosse horrivelmente
ressuscitado pelo calor do sol.
Aquela nimbante corrosão luminosa, chumbada nas paredes do firmamento, era
para ela tanto um penetrar doloroso quanto um mistério que a seduzisse. Estava sedenta
de abraçar seu enigma; seus olhos fitavam-no até que ele a ferisse, obrigando-lhe a
cerrar as pálpebras. Rápido surgia impressa sobre o seu obscuro interior uma estampa,
ora turquesa, ora rosa, um negativo daquele círculo refulgente, tardando um pouco a
desvanecer. Mas tendo essa reminiscência logo se esvaído, não podia mais Ariadne
imaginar como que um ponto tão pequeno jorrasse tão fortemente, corrosivamente seu
lume, e se via obrigada a novamente descerrar aquelas cortinas negras, sendo atraída e
capturada por aquela divindade implacável, desconhecida — e repetiria assim, por
muito tempo, o mesmo movimento de abrir e fechar os olhos, até que pudesse envolver
um pouco aquele mistério. E no fundo ele era algo tão ínfimo que custava associá-lo
com a palavra tão magnânima, sucinta e forte: Sol! Se até aquele dia — o primeiro para
ela — imaginava uma calota imensa, dominando tudo que fosse ao seu redor, tudo que
fosse mundo, a imaginava fraca, de uma luz que não seria mais que brancura
extremíssima, mas opaca. Pois a tudo que vira até então — nem mesmo as velas que
com sua luz pouco mais que faziam sentir certo calor nos olhos, pintando tudo em
derredor de uma fina camada de bronze — faltava aquilo que do sol era a matéria
prima: o brilho.
Já saturada de sua branca agonia, e o corpo todo semeado pelo tesão de seu
calor, baixou a vista e tentou apreender a matéria estranha que se fazia chão. Parecia a
poeira do sol — tão distinta da fuligem que fluía nos muros do labirinto de Creta —
loira, áspera e espessa, que escorria sua seiva pelos dedos do pé e embrenhava-se nas
dobras úmidas da pele. Via com que ternura aquela matéria se deixava sofrer pelas
carícias do mar sobre sua pele, refrescando-lhe o ardor; via com que solenidade se
estendia plana por todo lugar que toque o olhar, fazendo-se o imenso espelho opaco do
sol; via com que timidez rastejava por baixo da penumbra das frondes, e elevando-se
oculta, com que soberba alçava-se por sobre os morros, desejosa de riscar no céu sua
matéria metamorfoseada em solidez. Então saciada desse mundo imóvel, voltava-se à
natureza viva que se proliferada em bacanal verde sobre os montes, ora caprichosa e
profusa como uma Malaquita que se serpentina sólida e estática; ora feita em folhações
translúcidas como um hexágono de Esmeralda; ora concentrada na cor parte névoa parte
matéria que pintava as montanhas distantes, como a cor sem matizes duma Turquesa
incrustada; e por fim fundida na fina linha dourada que desenhava as silhuetas, como o
fio de ouro dum colar que levasse consigo uma tríade de pingentes preciosos.