Vous êtes sur la page 1sur 21

CAPíTULO OITO mente, recordaremos que o sentimento e seu objeto são, muitas

vezes, inseparáveis. A separação de topofilia e meio ambiente tem


um propósito, se isto facilita a exposição.
,- --

--- �
topojilia r A palavra "topofilia" é um neologismo, útil quando pode ser
definida em sentido amplo, incluindo todos os laços afetivos dos
seres humanos com o meio ambiente material. Estes diferem pro­
fundamente em intensidade, sutileza e modo de expressão. A
e resposta ao meio ambiente pode ser basicamente estética: em
seguida, pode variar do efêmero ,erazer que se tem de uma vista,
até a sensação de beleza, igualmente fugaz, mas muito mais inten­

meio ambiente sa, que é subitamente revelada. A resposta pode ser tátil: o deleite
ao sentir o ar, água, terra. Mais permanentes e mais difíceis de
expressar, são os sentimentos que temos para com um lugar, por
ser o lar, o [oeus de reminiscências e o meio de se ganhar a vida.

, o é a emocão humana mais forte. Quando é


A topofilia nã
irresistível, podemos estar certos de que o lugar ou meio ambiente
\
\ é o veículo de acontecimentos emocional e e fortes ou é erce­
'biéIo como um s' Para o trágico grego Eurípe es, a ordem
e prioridades da afeição humana é provavelmente amplamente
compartilhada por todos os homens: "Esposa querida nesta luz
do sol e adorável para a vista, é a placidez da maré oceânica, e a
terra no despertar da primavera, e as águas se espalhando, e as
muitas coisas lindas que eu poderia elogiar. Mas, para os que não
Devido ao profundo interesse em atitudes e valores ambientais, têm filhos e aqueles consumidos pela saudade, nada é tão justo
pr ?�urei (nos capítulos seis e sete) esclarecer seus significados ou digno de contemplar como ver nas suas casas a luz que os

I
utilIzando o esquema simples de dicotomizar cultura-meio ambien­ recém-nascido trazem". 1
te. Este procedimento permitiu-me examinar a díade de duas
perspectivas, primeiro da cultura e depois do meio ambiente. Nos
Apreciação estética
capítulos oito e nove seguirei uma estratégia semelhante, mas
restringirei o enfoque a manifestações específicas do amor humano Sir Kenneth Clark, o historiador de arte, chamou a atenção
por lugar ou topofilia. Os principais tópicos deste capítulo são: para o efêmero do prazer visual, quando diz, "Eu imagino que
1. os meios pelos quais os seres humanos respondem ao meio ninguém pode desfrutar de uma sensação estética pura (assim
ambiente e que podem variar, desde a apreciação visual e estética chamada) por mais tempo do que se pode desfrutar do cheiro
até o contato corporal; 2. as relações de saúde, familiaridade e de uma laranja, que no meu caso é menos de dois minutos". 2
conhecimento do passado para com a topofilia; 3. o impacto da Para admirar uma grande obra de arte por mais tempo do que
urbanização na apreciação do campo e do selvagem. Este conglo­ este, é importante o conhecimento da história crítica, porque man-
merado de temas reflete a complexidade da idéia de topofilia. Os
tópicos do capítulo oito realmente compartilham de uma ênfase
1 Citado em H. Rushton Fairclough, The Altilude of lhe Greek Trage­
comum, que é a amplitude, variedade e intensidade do sentimento
dians loward Nalure (Toronto: RoswelJ and Rutchinson, 1897), p. 9.
topofílico. O tema do capítulo nove versa sobre os elementos do 2 Kenneth Clark, Looking ai Piclures (Nova York: Rolt, Rinehart and

meio ambiente: como permeiam o conteúdo da topofilia. Nova- Winston, 1960), pp. 16-17.-

106 107

r ;
têm presa nossa atenção na obra, enquanto os sentidos têm tempo No mesmo instante que levantei minha cabeça d o chão,
de se recuperarem. Clark acredita que, à medida que lembra os 9 uaodo esta noite havia perdido todas as esperanças, no mesmo
Instante que os órgãos da atenção, s u b itamente relaxaram a ten­
fatos da vida do pintor e procura situar o quadro à sua frente, são, uma estrela brilhava acima dos contornos negros e maciços
na carreira do artista, os seus poderes receptivos vão gradualmente do Hel:vellyn e r� peotinamente atingiram meus olhos e penetra­
se auto renovando; eles, repentinamente, fazem-no ver um lindo ram mmha capaCIdade de apreensão, com um phalOs e um sen­
.
detalhe �a pintura ou cor, que ele não teria reparado se um hdo d o Infinito que em outra circunstância não me haveriam
atraído 4.
pretexto mtelectual não man tivesse seus olhos inconscientemente
ocupados.
Os diários dos exploradores abundam des tas repen tinas re­
O que Kenneth Clark diz sobre apreciação da arte é igual-
velações de beleza n atural : por exemplo, a descrição de Clarence
�ente ce: to � ara a apreciação do cená rio . Esta, não importa qUãO A.Ç ( (l ", j),: �.)

J
King, do vale de Yosemite durante um momento de calma em
mt�sa, e efemera, a n ão ser '1,uenosros oi11õsIiqu em presos ao
\.l<o Cb� A;l!.t o uma tempestade de neve e a descrição de Sir Francis Younghus­
c�n�rJ o�or algum� outra raz.!�pela lembrànça d
: ,
atos d � �'1''; -u
.\
e:f band, de seu encontro com o monte Kinchinjunga - de intensi­
hlstoncos ue santificaram a cena uer ela lembran a de sua
.

su Jacente rea idade geológica e estrutura . 1 dade quase mís tica - quand o a névoa que geralmente encobre o
obre a importância ·) t'\. c,\...f1-i!-
ãa aSSOClaçao histórica fi. L. Cucas escreveu : pico Himalaio, inesperadamente se dissipou , revelou o seu longín­
quo esplendor etéreo . Este tipo de experiência ocorre mesmo com
A primeira vez que, do Adriático vi os cumes das montanhas
pe�s�as que não sentem nenhum amor pela na tureza . O erudito
de Acroceraunia, coroados de nuvens, ou o promontório leuca­ WIlliam McGovern pensou (e não é o único a pensar assim) que
diano branco de sol e tempestade, ou do mar Sarônico vi o Hv­ paisagem em demasi a , tanto na literatura como na vida, pode se
.
mettus purpúreo com o crepúsculo, foi algo ainda mais inten � o tornar fatigan te ou sonolenta . Na década de 1 92 0 , McGovern era
do que a poesia. Mas, as mesmas formas e cores não pareceriam professor da Faculdade de Estudos Orientais, em Londres. Queria
iguais na Nova Zelândia ou nas Rochosas. Metade de seu es­ .visitar o Tibet e estudar os manuscritos bud is tas , em Lasa. Ao
plendor transfigurado era dado pela poesia de dois mil anos atrás,
c ?egar na lndia lhe foi negada a permissão para prosseguir a
ou a lembrança daquele outro crepúsculo no Hymettus, quando
trouxeram a Sócrates a cicuta 3.
Vi3gem para Lasa . O explorador-erudito n ão desanimou e conti­
nuou a viagem disfarçado - e quase perdeu a vida nesta aven­
tura. Para ele, enfrentar o desafio físico sign i ficou muito mais
As mais intensas experiências estéticas da n atureza possi­
do �ue o desfrutar do cen ário . No entan to, um dia, na sua jornada
velmente nos apanham de surpresa. A beleza é sentida, como o
pel'lgosa, quando finalmente o sol saiu de trás d as nuvens e ilumi­
contato repentino com um aspecto da realidade até então desco­
nou os picos do Himalaia, McGovern declarou que "foi de longe
nhecido ; é a antítese do gosto desenvolvido por certas pais agens
ou o sentimento afetivo por lugares que se conhece bem. Alguns
� visã� mais li ?da que já tinha visto e mesmo para uma pessoa
Impasslvel e fna como ele, tinha motivo suficiente para se em­
exemplos esclarecerão a n a t u reza desta experiência.
briagar com a sua grandeza" . 5
Um exemplo, é a percepção dramática que Wordsworth teve
º- prazer visual da natureza varia em tipo e intensidade .
do monte Helvellym, no Lake District. Uma noite, Wordsworth e
Pode ser �Ill ..E..0UCO mais do ill!Lil. ace' ilç.ão de uma convenção
De Quincey saíram da vila de Grasmere para esperar o estafeta,
social . Muitos dos atuais circuitos turísticos l2ãrecem es tar moti­
que comumente lhes trazia notícias da guerra no continente. Eles
es tavam ansiosos pelas notícias e na beira do caminho esperavam �dos pelo desejo de coleci9.llilLO má,l(imo possível de e tL�tas
em vão, por mais de uma hora. Nada se ouvia no caminho tor­ �
sobre � rgue§ Nacionais. Para o turill � j s _ensável a máguina
tuoso. A todo instante Wordsworth se esticava na estrada e punha � ograflca , porque com ela pode rovjlr _a si mesmo e aos seus
a sua orelha no chão, esperando cap tar o som das rodas rangendo �Ij . ','i'8'J s r....Á
na distância . Depois disse à De Quincey, < Thomas De Q u inccy, "Will iam Wordsworth", Liferary Reminiscenses
(Boston, 1 874), pp. 3 1 2-1 7 . Citado em Newton P. Stallk nccht, Slrallge Seas
of ThoURfh (Bloomi ngton : Indiana Univcrsity Press, 1 9 5 8 ), p. 60.
:! F. L. Lucas, The Grealesl Problem anel Olher Essays (Londres : Cas­ fi Willian McGovcrn, To L h asa in Disguise (Londres: G rossel and
seU, 1 9 60 ) p. 176. •
, Dunlap, 1 924), p . 145.

108 109
vizinhos que realmente esteve no lago Crater. O fracasso do ins­ O divertimento infan til com a natureza atribui pouca im­
tantâneo é lamentado como se o próprio lago tivesse deixado de portância ao pitoresco. Sabe-se relativamente pouco, como uma
"Iexistir. Tais contatos superfi ciais com a natureza, certamente ! criança pequena percebe o playground, parque ou praia. O que
pouco têm de autênticos. rO -turismo tem uma utilida-de importa para a criança, mais do que a vista sossegada do lugar,
. 7-- - - - .9..-0
� ne f"ICla � e ��L-.E0r�J�!.l!!'lO un
h -ue
Iê- ___ �_ e
h _nLnLil---'-"'L_r.>
',.,,,tu < "'za..;.. r,
_ ___ _ são certos objetos e as sensações físicas. A. A. Milne, criador das
,

A ãpreêiaçãô da paisagem é mais pessoal e duradoura quando esta


I
populares estórias Pooh, tem o dom de sugerir o tipo de mundo
mesclada com lembranças de incidentes humanos. Também per­ imediato, aconchegante, que a criança pequena conhece. Aprecia­
dura além do efêmero, quando se combinam o prazer estético com ção visual, discernimento e reflexão criam distância estética. Para
a curiosidade científica. O despertar profundo para a beleza am- uma criança pequena a distância estética é mínima. Quando
biental, normalmente acontece como uma revelação repentina. Christopher Robin cai no "mar barulhento", ele sente a areia em
Este despertar não depende muito de opiniões alheias e também seu cabelo e em seus pés. A felicidade é vestir uma capa nova
em grande parte independe do caráter do meio ambiente. As cenas e ficar na chuva.
simples e mesmo as pouco atrativas podem revelar aspectos que A natureza produz sensações deleitáveis à criança, que tem
antes passavam desapercebidos e este novo insight na realidade é, mente aberta, indiferença por si mesma e falta de preocupação
às vezes, experienciado como beleza. 7 pelas regras de beleza definidas. O adulto deve aprender a ser
complacente e descuidado como uma criança, se quiser desfrutar
polimorficamente da natureza. Ele necessita vestir uma roupa
Contato físico
velha que lhe permita esticar-se no feno ao lado do riacho e embe­
Na vida moderna, o contato físico com o próprio meio am­ ber-se em uma mistura de sensações físicas: o cheiro de feno e
biente natural é cada vez mais indireto e limitado a ocasiões de estrume de cavalo; o calor do chão, seus contornos duros e
especiais. Fora da decrescente população rural, o envolvimento suaves; o calor do sol temperado pela brisa; a cócega produzida
do homem tecnológico com a natureza é mais recreacional do por uma formiga subindo pela barriga da perna; o movimento
que vocacional. O circuito turístico, atrás das janelas de vidro das sombras das folhas brincando em seu rosto; o ruído da água
sobre os seixos e matacões, o canto das cigarras e do tráfego
raiban, separa o homem da natureza. De outro lado, em certos
distante. Um meio ambiente como este pode romper todas as
esportes como o esqui aquático e alpinismo, o homem entra em
regras formais de eufonia e estética, substituindo a confusão pela
contato violento com a natureza. O que falta às pessoas nas
ordem e no entanto, ser completamente desfrutável.
sociedades avançadas (e os grupos hipies parecem procurar) é o
O apego à terra do pequeno agricultor ou camponês é pro­
envolvimento suave, inconsciente com o mundo físico, que preva­ fundo. Conhecem a natureza porque ganham a vida com ela.
leceu no pássado, quando o ritmo da vida era mais lento e do qual Os trabalhadores franceses, quando seus corpos doem de cansa­
as crianças ainda desfrutam. Em Chaucer, a simplicidade de uma ço, dizem que "seus ofícios formar parte deles". Para o trabalha­
resposta é expressa nas linhas seguintes: dor rural a natureza forma parte deles - e a beleza, como subs­
tância e processo da natureza pode-se dizer que a personifica. 8
E coloquei-me de joelhos, Este sentimento de fusão com a natureza não é simples metáfora.
E corrw pude, esta florzinha saudei, Os músculos e as cicatrizes. testemunham a intimidade física do
Fiquei ajoelhado até que ela fosse rodeada pela pequenina e
contato. A topofilia do agricultor está formada desta intimidade
suave perfumada granw.
física, da dependência material e do fato de que a terra é um
repositório de lembranças e mantém a esperança. A apreciação
(Pr6Iogo, da Lenda das Boas Mulheres)
estética está presente, mas raí:amente é expressada.
Um pequeno proprietário rural, da região do sul dos Estados
6 Paul Shepard, uThe Itinerant Eye", in 1I1an in the Landscape (Nova Unidos diz a Robert Coles: "Para mim, mInha terra está sempre
York: Knopf, 1967), pp. 119-56; Daniel J. Boorstin, "From Traveller to
Tourist", The lnwge (Nova York: Harper Colophon edition, 1964), 77-117.
7 Vaughn, Cornish, Scenery and the Sense of Sight (Cambridge: Caro­ 8 Simone Weil, Waiting for God, trans. Emma Crafurd (Nova York:
bridge University Press, 1935). Capricorn Books, 1959), pp. 131-32.

110 111
aí, esperando-me e é parte de mim, bem no fundo do meu ser; Para viver, o homem deve ver algum valor e m seu mundo.
é tão minha como meus braços e pernas " . E "A terra é amiga e C? agricultor não é exceção. Sua vida está atrelada aos grandes
• , \.o.
�' inimiga; é as duas coisas . A terra diri e meu te .<:-Jlle us Ciclos da natureza ; está enraizada no n ascimento, crescimento e
í
estados de-�r.J.lmo ; �e a cQll.2�i� Yai. be.m. e.� s ·p to.-b� se há morte das coisas vivas ; apesar de dura, ostenta uma seriedade que
t9'!', .JD
��
__ __


.

(J-.; t�
_

l Rrobl�mas "º!- !l �Ia, há _-lllQ.blemas c.oJlli��r.. abalhador rural


_ _

não emoldura. a n a tureza em lindos quadros, mas p.Qde estar pro­


poucas outras ocupações podem igualar. De fato, pouco se sabe
sobre as atitudes dos agricultores para com a natureza. O que
fundamente cons_ciente da sua beleza. Um meeiro jovem, entre- exi � te é uma vasta literatura, em grande parte setltimental, sobre
� �,-,Yi .
r ..p1't, vI � ta o por obert Coles, não demonstrou nenhum desejo de a Vida rural, escrita por pessoas com mãos sem calosidade.
,� il, migrar para o norte, apesar da vida dura no síti o . Ele diz que
sentiria saudades do sítio. Na cidade sentiria falta de ver o sol
Saúde e topo/ilia
� se pondo, "extinguir-se, como uma vela que acabou o pavio e se
acaba, desaparecendo" . o De tempos em tempos nos sentimos impregnados com tão
O sen!imento topofílico entre os agricultores difere�J)oIme­ forte sensação de bem estar físico, que transborda e nos envolve
�ntêêíêacordo com seu stat/.f§.. sQ"cio-e.cOD..Qmico. O trabalhàdor como se fora uma parte do mundo : nos dá vontade de cantar:
r�ral trabâTha junto à terr�j sua r",lação com a natuteza Gm "O ! Que manhã tão linda . Ó ! Que lindo d i a " , como os heróis
misto de amor _e_ódio. Ronald Blythe nos lembra que, -ainda na do musical popular de fins da década de 1940, Oklahoma. As
década de 1 900, o assalariado rural na I nglaterra tinha poucas pessoas jovens e saudáveis experimentam esta disposição , mais
freqüentemente do que as de mais i dade, ainda que, somente
recompensas, a não ser uma casinha e urna vida miserável. Sua
maior fonte de orgulho é sua própria força física e a habilidade aquelas podem descrever a sensacão com a exuberância de seus
'
de arar um sulco reto --: sua efêmera assi natura nesta terra . O corpos. Willíam James assim a descreveu : "Fora de qualquer
pequeno agricultor, dono de sua terra, estava um pouco melhor; cois a , niti damente religiosa, todos nós temos momentos em que
. .
a Vida ulllversal parece nos envolver com amizade. Na j uventude
ele podia nutrir uma atitude devota para com a terra que o
e com saúde, no verão, nos bosques ou nas montanhas, há dias
mantinha e que era sua única segurança. O agricultor de uma
quando o tempo parece sussurrar paz, horas quando a felicidade
fazenda próspera revelava um orgulho de ser o dono de sua
e beleza da existência nos rodeia , tal como em um clima ameno e
propriedade e pela transformação da natu reza, por sua própria
seco , ou em nós ecoa, corno se os nossos ouvidos itemos, repentina­
vontade, em um mundo produtivo. O apego a um lugar também
mente estivessem vibrando com a seguridade do mun do . 1 1 O
pode, paradoxalmente, aparecer da experiência com a intransi­
poeta do século dezessete Thomas Traherne, escreve u : "Nunca se
gência da natureza. Nos Estados Unidos, os fazendeiros das pro­
pode desfrutar bem do mundo, até que o próprio mar corra por
priedade s situadas nas fríngias das Grandes Planícies, constante­
, nossas veia s , até que nos cubramos com os céus e nos coroemos
mente tem que lutar contra a ameaça de seca e das tempestades
. com as estrelas " . Hipérbole poética - e no entanto, em certo
de poeira. Os que podem suportar as privações, deixam a região ;
sentido o mar corre por nossas veia s : a composição química de
os que ficam , parecem desenvolver um estranho orgulho em sua
nosso sangue é uma reminiscência de nosso ancestral remoto nos
habilidade de levar a vida. Quando Saarinen, em seu estudo sobre
oceanos primitivos .
a seca nas Grandes Planícies, mostrou a alguns plantadores de
trigo uma fotografia de urna fazenda assedi ada pelo vento e poei­ Pode parecer forçado detetar qualquer relação entre a sensa­
ra, suas respostas típicas foram que o fazendeiro do Dust Bowl, ção de bem estar e, digamos, um bom desjejum e o santo fervor
�a fotografia , sabe que pode ser melhor em outras partes , mas de um poeta cristão como Traherne. Mas, o fato de que as pala­
fica aí porque ama a terra e o desafio de fazê-la produzi r. 1 0 vras "s � úde", "totalid a de" e "integridade" estejam etimologica­
men te ligadas, sugere um s ignificado comum. Uma pessoa qual­
quer entra no mundo do golfe, em um momento de extraordinário
fi Robert Coles, Migranls, Sharecroppers, MOUtl laineers (Bosto n : Littlc, bem estar, a pessoa integral (total) o próprio mundo. Caracteris-
Brown, 1 97 1 ) , pp. 4 1 1-527.
1 0 Thomas F. Saarinc n, Perceplion of lhe Droughl Hazard on lhe Greal

Plai:1S. University of Chicago Dcpartmcnt of Geography Rcscarch Papcr 1 1 Will iam lames, Varielies 01 Relig'ious Experience (Nova York: Mo­
N." 1 06 (1966), pp. 1 1 0-1 1 . dem Library, 1 902), p . 269.

112 113
ticamente, este sentimento depende menos de circunstâncias exter­ dominantes, que reaparecem constantemente, mesmo nos mitos
nas do que da condição interna do sujeito, isto é, se tomou um dos ancestrais totêmicos. " A história é responsável pelo amor à
bom café da manhã, ou em um nível mais elevado, se ele desfru ta terra natal. Para o Arand a, as montanhas, riachos, fontes e poços
"
da "paz que permeia toda a compreensão". Evelyn Underhill, não são apenas aspectos cênicos interessantes ou bonitos; são a
uma autoridade em misticismo, relata: "eu ainda me lembro de obra de antepassados dos quais eles descendem. "Ele vê gravada
ter observado a paisagem (extremamente sórdida) com alegria e na paisagem circun dante a ..h�t6ria..JW.t�.Jias yida.s e as rea liza­
assombro, quando descia a rua principal de Notting Hill, mesmo ções dos seres Imorta is ���qlle por um curto
o movimento do tráfego tinha algo de universal e sublime". tempo odem, uma vez mais, assumir forma bu a . ele conhe­
ceu mUltos e es, como seus paIS, avos e Irmãos e como suas mães


___ � Familiaridade e afeição
e-Irmlls . e-cmn.p'êJrt5dêJe'·ün'ia milenar arvore geüêâI�g1c-ãVivã."12

A familiaridade engendra afeição ou desprezo. Todos sabe­ Patriotismo


mos que uma pessoa pode ter muita afeição por uns chinelos ve­
lhos, que para um estranho parecem bolorentos. Há várias razões Desde o nascimento do Estado moderno, na Europa, o patrio­
para esta afeição . Os pertences de uma pessoa são uma extensão tismo, como uma emoção, poucas vezes está ligado a uma locali­
de sua personalidade; ser privado deles é diminuir seu valor dade específica: por um lado é evocado por categorias abstratas
como ser humano, na sua própria estimaçã o . A roupa é o per­ de orgulho e poder e por outro, por certos símbolos, como a
tence mais pessoal. São poucos os adultos, cujos sentidos de bandeira. O Estado moderno é muito grande, suas fronteiras
"self" não sofram quando está nu, ou que n ã o sente ameaçada a muito arbitrárias, su a área muito heterogênea para infundir o
sua identidade quando tem que usar as roupas de outra pessoa. tipo de afeição que surge da experiência e do conhecimento íntim o .
r Além da ro�a, uma pessoa no transcurso do tem o in !lrte O homem moderno conquistou a distância, m a s n ã o o tempo.
de sua VIda emOCIona em seu lar e além do lar, em seu bai ro. Durante a sua vida, o homem agora - como no passado -
a--º,w-a
Qr..ça. i;l:iUii],.p.tiLC.as� o aUra é ser desPi- somente pode estabelecer raízes profundas em uma pequena parte
l
_
�r eS2e].
do de um iny61ucro, Slue deYiqo à sua (amiliarida,de...prote�
..
ser1iüii-lano das perplexidades do mundo exterior. Assim como
o do mundo.
O patriotismo significa amor pela terra pátria ou terra natal.
a gumas pessoassão fel ufãn es em ao'anaõriar u m velho casaco Nos tempos antigos era estritamente um sentimento loca l . Os gre­
por um novo, algumas pessoas - especialmente idosas - relutam gos não usavam patriotismo indiscriminadamente para todas as
em abandonar seu velho bairro por outro com casas nOvas. terras de língua grega, mas para pequenas áreas como Atenas,
assado é um elemento im ortante no .Esparta, Corinto e Esmirna. O patriotismo dos fenícios se reduzia
A consciência do
retOrIca patn tlca sempre tem dado en âse a Tiro, Sidon ou Cartago; não à Fenícia em geral. A cidade des­
amor pelo usar.
as raIzes d e u m povo. Para intensificar a lealdade se torna a
pertava emoções profundas, especialmente quando era atacada.
Quando os romanos procuraram punir os cartagineses pela deso­
história visível com monumentos na paisagem e as batalhas pas­
sadas são lembradas, na crença de que o sangue dos heróis santi­ bediência, arrasando a sua cidade, os cidadãos de Cartago supli­
ficou o sol o . Os povos analfabetos podem estar profundamente caram aos seus conquistadores que poupassem a cidade física, suas
afeiçoados ao seu lugar de origem. Eles podem não ter o senso pedras e templos, que não tinham nenhuma culpa e em lugar
ocidental moderno, mas quando procuram explicar a sua lealdade disso, se necessário , exterminassem toda a população. Na Idade
Média a lealdade era para com o senhor ou a cidade, ou amb os
para com O lugar, ou apontam os laços com a natureza (o tema
e por extensão ao território . Mas, o sentimento cobria extensões
mãe-terra), ou recorrem à história . Strehlow, um etnólogo que
variáveis de território, não a uma terra de limites precisos, além
conhece de perto os aborígenes australianos, disse o seguinte de
Aranda: ele "se apega ao seu chão nativo com cada fibra do da qual ele se transformava em indiferença ou ódio. Não é possí­
seu ser . . . Atualmente aparecerão lágrimas em seus olhos, quan­ vel experienciar de maneira direta a nação moderna, um grande
do se referir ao lugar do lar ancestral que algumas vezes foi
involuntariamente profanado por usurpa dores brancos do territó­ 12 T. G. H. Strehlow, Aranda Traditions (Carlton: Melbourne Univer­
rio de seu grupo. O amor pelo lar, a saudade do lar são motivos. sity Press, 1947), pp. 30-31.

114 115
espaço com fronteiras; para o indivíduo, a sua realidade depende p,.?rece ser uma unidade natural. A afeição não pode se estender
da aquisição de certos tipos de conhecimento. Após décadas ou a todo um Império, porque freqüentemente, este é um conglome­
mesmo séculos, que os literati t@nham aceitado a idéia de "nação", rado de partes heterogêneas, mantidas unidas pela força. Ao con­
pode permanecer uma porção substancial do povo que nunca ouviu trário, a região natal (pays) tem continuidade histórica e pode
falar disso. Por exemplo, a grande maioria dos camponeses da ser uma unidade fisiográfica (um vale, litoral, ou afloramento cal­
Rússia czarista, no século dezenove, estava completamente igno­ cáreo) pequena o suficiente para ser conhecida pessoalmente. No
rante do suposto fato, de que eles pertenciam à sociedade russa meio está o Estado moderno; tem certa continuidade histórica'
unida por uma cultura comum. o poder é mais difuso que no Império e não é o seu elo mai�
Há dois tipos de patriotismo: local e imperial. O patriotismo conspícuo. Por outro lado, o Estado moderno é muito grande
para ser conhecido pessoalmente; sua forma, evidentemente arti­
local reside na experiência íntima do lugar e no sentido da fragi­
lidade do que é bom: não há garantia de que dure, aquilo que ficial para ser percebida como uma unidade natural. Não somente
amamos. O patriotismo imperial se nutre no egotismo coletivo e por razões de defesa, mas também para reforçar a ilusão de uni­
orgulho. Este sentimento é fortemente exaltado quando aparecem dade orgânica, os líderes políticos têm procurado estender as fron­
ambições imperiais: por exemplo, Roma, no primeiro século depois teiras dos seus países até o rio, montanha ou mar. Se tanto o
de Cristo; Inglaterra, no século dezenove; Alemanha no século Império como o Estado são muito grandes para se praticar a ver­
vinte. O sentimento, em si mesmo, não se prende a nada concre­ dadeira topofilia, é paradoxal refletir que a própria terra possa
tamente geográfico. A frase de Kipling, "Eu não amo os inimigos eventualmente provocar tal afeição: esta possibilidade existe, por­
de meu Império", soa falsa, porque ninguém pode sentir afeto por que a terra é indubitavelmente uma unidade natural e tem uma
um vasto sistema de poder impessoal, como o Império: nenhuma história comum. As palavras de Shakespeare este lugar bendito,
mente esclarecida pode conceber o Império como vítima - uma "esta pedra preciosa engastada em um mar de prata", podem ser
imagem frágil do que é bom, que pode ser destruída e necessita apropriadamente aplicadas ao próprio planeta. Possivelmente,
nossa compaixão. 1 3 em algum futuro ideal, nossa lealdade será dada somente à região
A Inglaterra é um exemplo de uma nação moderna suficiente­ natal, plena de lembranças íntimas e, no outro extremo da escala'
à terra toda.
mente pequena para ser vulnerável e para despertar em seus cida­
dãos uma preocupação viscera!, quando ameaçada. Shakespeare
expressou esplendidamente este tipo de patriotismo local, nas se­ Urbanização e atitude para com o campo
guintes linhas de R icardo II (ato 2 , cena 1 ) . Observe as palavras
simples "estirpe de homens", "pequeno mundo" , "lugar bendito". A lealdade para com o lar, cidade e nação é um sentimento
poderoso. Sangue é derramado em sua defesa. Em contraste, o
Esta afortunada estirpe de homens, este pequeno mUlldo, esta campo evoca uma resposta sentimental mais difusa. Para com­
pedra preciosa engastada em um mar de prata, que lhe serve de preender esta forma particular de topofilia é preciso estar cons­
muro ou de fosso d e defesa, ao redor de um castelo, contra a
ciente de que um valor ambiental requer sua antítese para defi­
inveja de nações menos afortunadas, este lugar bendito, esta terra,
este reino, esta Inglaterra . . ní-Io. "Água é ensinada pela sede, Terra - pelos oceanos atra­
vessados" (Emily Dickinson). " Lar" é uma palavra sem signifi­
Tal como o pretenso "amor pela humanidade" levanta nos­ cado, separada de "viagem" e "país estrangeiro" ; claustrofobia
sas suspeitas, também a topofilia soa falsa quando é manifestada impEca a agorafilia; as virtudes do campo requerem sua anti­
por um extenso território. parece que Ia tOPofilia necessita um imagem, a cidade, para acentuar a diferença e vice-versa. A
tamanho com acto, reduzido às nece . · es biológjcas do ho- seguir, um exemplo de sentimento rural extraído de obras de três
, sentidos. A lém poetas :
mem e às capacI a es imItadas dos , disso uma
�essoaJode
,
se .1âei1tlTiêãITri"ãis faci mente com uma área, se ela
(1) Esta era uma das minhas o rações : um pequeno pedaço de
U C. J. Hayes, Essays Oll Nationalism (Nova York : MacMi l l a n ,
H. terra com jardim, per t o da casa, uma fonte de água corrente
1 928); Simone We i !, The Need for Roots, tra n s . Arthur Wills ( B oston : Bea­ e ao lado, um pequeno bo sq u e . O céu me concedeu isto e
con Press, 1 955), pp. 103-84; Lconard Do o b, Patriotism and Nationalism: mu i t o mais do que eu esperava. É bom. O único que peço
Their Psychvlogical Foundatiolls (New Haven : Yale University Press, 1 964). agora . . . é: que isto seja meu para sempre.

11 6 117
1

(2) No começo do verão os bosques e as relvas estão verdejantes. tos de atividades rurais, como limpar as relvas e árvores, arar a
Ao redor do meu chalé se inclinam espessos ramos e sombras.
terra e construir diques. Provavelmen te estes são bons esboços
Inúmeros piÍssaros se deleitam em seus santuários,
e eu também amo meu chalé. Após ter arado e semeado, do sistema agrícola na metade do período Chou (ao redor dos
volto a ler meus livros. anos 800-500 a. C.). Posteriormente, nos séculos quarto e terceiro
antes de Cristo foram construídas cidades de grande tamanho. As
(3) E no verão, provavelmente você me encontrará sentado sob
uma árvore, com um livro em minha mão, ou andando p�nsa­ muralhas de um povoado cervacam uma área de aproximadamente
tivamcnte em uma agradável solidão. vinte e seis quilômetros quadrados, enquanto em outros, Lin-tzu,
provavelmente viviam 70.000 famílias. Esta também foi uma
o primeiro trecho expressou o sentimento de Horácio (65-8 época de guerras recorrentes. Poderia parecer que as condições
a. C.); o segundo é de Tao Yuan-ming, um poeta chinês do quarto eram tais que funcionários da corte não se importavam em reti­
século depois de Cristo e o terceiro, do inglês Henry Needler, rar-se da luta e isolar-se no campo. O banimento da capital não
.
que escreveu no começo do século dezoito. A harmonia de senti­ devena ser um grande sofrimento. No entanto, era percebido como
mentos entre os três poetas, que pertenceram a mundos e épocas um sofrimento, talvez porque na China, mesmo na bacia do
diferentes, é instrutiva. Eles tinham uma experiência em comum: ?
Yangtze, ain a haviam grandes extensões de natureza selvagem,
os três conheciam as tentações e distrações da vida citadina e que proporcIOnavam pouca segurança e nenhuma alegria. Chu
-
procuraram a tranqüilidade no campo. Yuan, que foi banido no ano 303 antes de Cristo, por opor-se
às táticas de guerra do rei Huai, vagueou pela região do lago
Quando uma sociedade alcança um certo nível de desenvol­
Tung-t'ing ao norte de Ho-nan. Aí ele encontrou "intermináveis
vimento e complexidade, as pessoas começam a observar e apre­
ciar a relativa simplicidade da natureza. A separação mais remota, florestas escuras, moradia de símios e macacos. E montanhas
entre os valores da cidade e os da natureza apareceram pela úmidas, com garoa, tão altas que ocultavam o sol". H
primeira vez na epopéia de Gilgamesh, que foi escrita na Suméria, . Quase ao final da última dinastia Han (25-220 depois de
nos fins do terceiro milênio antes de Cristo. Gilgamesh era o senhor Cnsto), apareceu um tipo de apreciação pelo campo que even­
da rica e poderosa cidade de Uruk. Ele desfrutava das amenida­ tualmente se transformou, entre a pequena fidalguia, em um sen­
des refinadas, apesar delas não lhe trazerem uma felicidade com­ timento clichê pela natureza. T'ung Chung-chang (189-220 d. C.)
pleta. Em lugar de procurar consolo entre os nobres, ele procurou vive � em uma época de grandes TevoItas políticas e rebeliões, que
a amizade de Enkidu, um homem selvagem que comia capim com termmaram com a queda da dinastia. Ele escreveu com anelo:
as gazelas, se acotovelava com as feras selvagens na cacimbas e
Tu?o o gue quero são terras boas e uma casa espaçosa, com
nada sabia do cultivo da terra. Na epopéia de Gilgamesh não há
colinas atrás e um córrego na frente, rodeada de pequenos lagos
uma descrição real da paisagem. As virtudes da natureza selvagem ou piscinas; plantar primeiro bambus e árvores, uma horta no
estavam personificadas em Enkidu. O tipo de sentimento pelo lado sul, um pomar no lado norte... Depois, com dois ou três
campo, sugerido nos trechos anteriormente citados, pôde somente acompanhantes com tendências filosóficas, discutir o Caminho
ou estudar algum livro... E assim divagar em calma durante
aparecer quando foram construídas grandes cidades, quando as
a vida e de vez em quando olhar para o Céu e a Terra e tudo
pressões da política e da vida burocrática tornaram atrativa a o que fica no meio, livre da censura dos homens 15.
paz rural. O sentimento é romântico, no sentido de que nada
tem a ver com qualquer compreensão real da natureza. Está tam­ Os funcionários eruditos, que administraram o Império
bém envolto em melancolia: os literati vão ao campo por uma Chinês dqrante aproximadamente dois mil anos oscilavam entre
temporada e vivem em uma indolência tranqüila, pensando muito a fascinação da cidade e do rural. Na cidade, o erudito podia
no trabalho, mas sem pensar em como sobreviver. satisfazer sua ambição política, mas o preço era a submissão às
Esta apreciação romântica da natureza é privilégio e riqueza
da cidade. Nos tempos arcaicos o prazer do homem pela natu­
H Robert Payne (ed.), The White Pony: An Anth% gy of Chinese
reza era mais forte e direto. A evidência do Shih Ching sugere
P,oetry (Nova York: Mentor Books, 1960), p. 89.
que a China antiga estava consciente da beleza da terra, mas não
15 Arthur 'i)'aley, "Life Under the Han Dynasty: Notes on Chinese
do campo como uma cena separada e antitética da cidade. O que Civilization in the First and Second Centuries A. D.", History Today, 3
mais encontramos nesta antologia de canções e poemas são reIa- (1953), 94.

118 119
1. Ideal edênico A " Pa i s agem I nterméd i a " dos pequenos proprietários rura i s é v i s ta como a m eaçada,
de um l a do pela cidade e do outro pelo selvage m . Esta foi uma época em que,
NEOLfTICO EXEMPLOS H I STÓRICOS
d e fato, a cidade e a p a i s agem i n termédia es tavam se expandi ndo em detri mento
do selvage m ; assi m :
SELVAGEM PROFANO a. IOden e o selvagem

8
b. Mosteiro e O selvagem
Jard i m , c. A cidade da Nova I ng l a terra e o
Vila se l vagem
1- --1
:8 i �
d. O seminário ou a universidade
SELVAGEM PROFANO
americana e o selvagem --
e. As comunidades utópicas
a'mericanas ( primeira metade do
L _ _ J
século X I X )
PROFANO EDE N I CO PROFANO

2. Revolução urbana e ideal cósmico

O SELVAGEM ( p rofano ) S. Valores dos f i n s do século XIX


....... - - ,
/ /' Fazendas '\
UTOPI A SELVAGEM
/ Cidade \
r ( cosmo ) \ a. A Repúbl ica ele Platão
\ Sagrada J b. Nova Jerusalem
\ /
'\ Vi las /
'- ./
RECREAÇÃO

O SELVAGEM ( p rofa n o ) PROFANO EDEN l CO EDENICO


( a dqui r i ndo a "ordem " d a cidade ) ( movimento conservacionista )
3. Os dois ideais justapostos

6. Valores dos meados e fin s do século XX

{
I I 8 lo I
PASTORAL a. Greeia alexandrina
( bucó l i c o ) b. Roma de Augusto O SELVAGEM AM EAÇADO
Cidade JARD I M \ c. China de T'ang·Sung

) E u ropa renascen t i s t a �
lo I
d. NOVAS C I DADES


CAMPO Expansão Urbana
CÓSM I CO EDENICO
I e
.
I ng l a terra
XVI I I e
dos
XIX
seculos
RECR

EDEN ICO EDENICO


"O SELVAGEM"
4. O ide.1 d . "Paisagem I ntermédd l a " ( i deal jeffersoniano: fins d o sécu l o XV I I I alé meados .�
do século XI X I
I DEAL ECOLÓG I CO

Figura 9 continuação.

8-
Sel\logem

PROFANO ED�NICO

Fig ura 9 O selvagem, o jardim, a cidade.

120 121
eXlgencias confucianas e o risco de censura . No campo, o erudi­ A poesia de Virgílio e Horácio descrevem eloqüentemente os
to perdia as vestes do cargo, mas em compensação ganhava a s idílios rurais, que contrastam com os esplendores da Roma de
delícias de aprender, os trané]i.iiJos prazeres d e uma vida dedicadn Augusto . O campo de Virgílio era a fértil planície do Pó, perto
à compreensão do Caminho (Tao). A classe da pequena iidalguia de Mântua . Seus poemas evocam imagens de velhas faias e
chinesa tinha sólidas raízes no campo. Os membros mais inteli­ escuros carvalhos entremeados de relva e pequenos rebanhos de
gentes e prósperos se mudavam para a cidade, onde, como fun­ ovelhas c cabras movendo-se entre elas. Suas bucólicas retratam
cionários levavam uma vida compensadora, mas um pouco incerta . uma vida idealmente feliz e em uma terra linda, mas cada uma
Segundo Wolfram Ebehard, eles às vezes preferiam viver fora delas têm tristeza misturada com seu encanto. A Arcádia de Vir­
da' cidade, em uma casa luxuosa, que poeticamente era chamada gílio foi ameaçada de um lado, pela sombra da Roma Imperial
"choça". Aí se torn avam taoístas como reação psicológica contra e por outro lado pelos pântanos inóspitos e rochas nuas. Horácio
a vida confuciana dentro de uma camisa de força. Muitas vezes, encontrou consolo e inspiração em sua fazenda, que estava fora
eles se isolavam temporariamente "quando a situação política na de Roma, não longe de Tivoli. Ele aí se isolava, em parte devido
cidade se tornava desfavorável ou perigosa. Quando a situacão a problemas de saú de e em parte porque, à medida que envelhecia,
mudava , os nossos 'taoistas' comumente regressav am à cidad é e aumentava su a preferência pela reclusão e vida simples. Ele elo­
voltavam a ser 'confu cionistas' outra vez". Ir. giava o campo em detrimento da cidade; ele contrastava a vida
tranqüila em seu vale recluso, não somente com o ar poluído de
. ��_ Euro a , a pr�f�rência R�Q. campo, em oposição à
!Ol eloqüentemente ex ressa na literatura de ires períõêfbs: na
�de,
Roma, mas também com a sua riqueza ostentosa, negócios agres­
época da Gré�a Helenistíca ou A exan rina, na epoca a ROQla sivos e prazeres violentos. 18
de) u us o e no período do romantismo m03ern o , que se iniciou Durante o século dezoito o erudito europeu deificava a natu­
no século dezoito. ntes a epoca e exan re Já existia ti 1 reza. Para os filósofos e poetas, em particular, a natureza chegou
senhmen o sau OSIS a e o campo s atemenses, por exemplo, a representar sabedoria, conforto espiritual e santidade; supunha­
senttam nostalgia da sua vi a rural simples, depois que foram se que as pessoas podiam derivar dela entusiasmo religioso, retidão
arrancados de suas fazendas durante a prolongada guerra do Pelo­ moral e uma compreensão mística do homem e de Deus. No come­
poneso (431-404 a . C.). De qualquer modo, na literatura helênica ço do século, o elogio do campo foi mais uma pose néo -augustiana
os idílios rurais foram discretos. Foi preciso o aparecimento das do que um real florescimento do interesse pela natureza. Como
grandes cidades da época alexandrina para que se produzisse uma Samuel Johnson disse em 1751, "Em verdade, quase não há escri­
forte reação contra a sofisticação urbana e o anseio pela rustici­ tor que não tenha elogiado a felicidade da privacidade rural". Os
dade. Os poemas pastorais de Teócrito têm a fragrância da paz líteratí da época eram urbanizados, porque era na cidade (em
do campo. Um poema que registra uma experiência pessoal de especial Lond res) q u e estavam todas as oportunidades políticas
um festival da colheita, descreve uma cena na ilha de Cos, em e pecuniárias. Mas, pareceria que eles reagiram contra as suas
pleno verão. Observe como são enaltecidos os sons rurais: condições de citadinos. Os poemas neoclássicos escritos na pri­
meira metade do século dezoito estavam plenos de temas de reclu­
Muitos álamos e olmos murmuravam sobre as nossas cabeças e são. Eles falavam do desejo de abandonar a "alegre cidade onde
bem perto a água sagrada da caverna das Ninfas caía borrifando.
Nos ramos sombrios das árvores as cigarras pardas estavam
reinavam os prazeres" pelos "campos humildes". Os cavalheiros
ocupadas com seu canto e a perereca coaxava no denso estra­ se isolavam no campo, por sua solidão, que estimulava o estudo
mônio.· As cotovias e os tentilhões cantavam, o pombo arrulhava e· a contemplação. William Shenstone procurou "perseguir esta
e as abelhas voavam zumbindo em cima dos córregos. Todas as sombra pacífica" onde estaria livre do acicate da ambição. 19
abundantes colheitas e frutas da estação estavam perfumadas.
Havia abundância de peras e maçãs ao nosso redor e os ramos
Henry Needler, como dissemos anteriormente, foi para o campo
carregados pendiam até o chão 17. ler livros em lugar de ler a na tureza. Na medida em que os senti­
mentos rurais eram genuínos, eram mais melancólicos. Os poetas

16 Wolfram Ebehard, Conquerors and Rulers: Social Forces in Medie­

val China, 2.R ed. (Leiden: E. J. Brill, 1965), p. 45. 16 Gilbert Highet, Poels in a Landscape (Nova York: Knopf, 1957).
1 7 Teócrito, uThe Harvest Song", trans. A. S. F. Gow, The Greek 1n George G. Williams, "The Beginnings of Nature Poetry in the
Bucolic Poels (Cambridge: Cambridge University Press, 1953). Eighteenth Century", Studies in Philology, 27 (1930), 583-608.

122 123
descreveram como uma pessoa é arrastada "da solidão para a século dezenove, a imagem das pessoas rurais, contentes e virtuo­
melancolia; para encontrar um prazer mórbido nas cores suaves sas, tornou-se um emblema dominante das aspirações nacionais.
do entardecer, na escuridão e mistério da noite, na igreja às escu­ O ideal não parou nem obstaculizou a acumulação de riqueza e
ras, nas ruínas desoladas. . . na insignificância do homel1? e na a devoção ao progresso tecnológico, que se combinaram para
inevitabilidade da morte". 20 Em meados do século dezOIto, no transformar os Estados Unidos em uma grande nação manufatu­
entanto, apareceram sinais claros de uma apreciação mais profun­ reira. No entanto, estava longe de ser uma retórica vazia. O
da da natureza que se estendau além do campo, para as monta­ sentimento permeia a cultura americana. Encontra-se no aban­
nhas, o deserto e o oceano. dono das cidades e na corrida para os subúrbios, no êxodo para
Na América do Norte o tema da corrupção da cidade e a o campo nos fins de semana e nos movimentos preservacionistas.
virtude rural é suficientemente popular para ser classificado como Politicamente está evidente 'no localismo' invocado para se opor
folclore. Repetidamente se diz: primeiro a Europa decadente e a à um adequado sistema nacional de educação, no poder do bloco
América prelapsarian forneceram uma antítese satisfatória; depois de fazendeiros no Congresso, nos favores especiais demonstrados
'
à agricultura' através de subsídios governamentais e nos sistemas
à medida que os Estados Unidos se dedicaram à manufatura,
estaduais de eleição que permitem à população rural manter uma
rapidamente começaram a aparecer cidades grandes, o contraste
parte de poder político, completamente desproporcional a seu
foi percebido entre a costa leste industrializada e monetizada e o 22
tamanho".
virtuoso interior agrário. Thomas Jefferson exerceu grande in­
fluência na propagação do que Leo Marx chama de "ideal pasto­
ral". Ele, sem dúvida, conhecia bem a literatura pastoral. Podia o selvagem
citar Teócrito em grego; é bem conhecida a sua predileção pelos
t amplamente aceito que o campo é a antítese da cidade,
poetas latinos; e quando jovem ele leu diligentemente a poesia de independente das verdadeiras condições de vida destes dois meios
James Thomson, que foi um dos primeiros a mostrar, na poesia, o ambientes. Escritores, moralistas, políticos e mesmo os cientistas
'
dedo de Deus em todas as plácidas e sublimes ações da natureza. sociais tendem a ver o espectro urbano-rural como uma dicotomia
Para Jefferson, "Aquele que trabalha com a terra é o povo esco­ fundamental. No entanto, de outra perspectiva é claro que a natu­
lhido de Deus, se é que Ele alguma vez teve um povo eleito, em reza virgem ou o selvagem, e não o campo, é o polo oposto da
cujos seios depositou importantes e genuínas virtudes" . Em con­ cidade, inteiramente feita pelo homem. O campo é a "paisagem
traste, "As multidões das grandes cidades apoiam um bom gover­ itermédia" (termo de Leo Marx). O ideal mundo intermédio do
no da mesma maneira que as feridas ajudam o fortalecimento do homem está colocado, no mito agrário, entre as polaridades da
corpo" . 21 cidade e do selvagem. A estruturação do meio ambiente em opo­
Na Europa o sentimento pelo campo, em grande parte, per­ sição binária é análoga à estruturação do mundo que vimos em
maneceu como uma convenção literária, transformada, de tempos outras tradições: a paisagem intermédia americana é a madiapa
em tempos em substância através da divulgação e das plantas de indonésica. Mas no mundo indonésio a montanha e o mar são
propriedades rurais. Nos Estados Unidos o sonho das virtudes polaridades eternas, enquanto a cidade e o selvagem são antino­
humanas, florescentes na Arcádia, alcançou o nível de programa mias mutáveis na dinâmica história do O cidente: no tempo, o
político. O terceiro presidente da República estava disposto a significado destes dois termos podem se inverter e, no processo
subordinar a riqueza nacional e o poder a um ideal agrário; e o de inversão, tanto a cidade como as fazendas em expansão (a
povo americano respondeu favoravelmente à idéia. Durante o paisagem intermédia) são percebidas como inimigas de uma natu­
reza intacta. A seguir, revisaremos o significado do §v�
deste ponto de vista.
20Cornelis Engelbertus de Haas, Nalure and lhe Counlry i.n English
Poelry (Amsterdã: H. J. Paris, 1928), p. 150 . ( �
Na Bíbl o termo "selvagem" nos traz à mente duas imagens
.
21 Thomas Jefferson, NOles on VirgiTlia .. Questão 19. Como uma contraditórias. De um lado, é um lugar de desolação, uma terra
fonte de comportamento rural, abrangendo a história do pensamento ruraJ­
urbano, ver Pitirim A. Sorokin, Carle C. Zimmerman, e Char\es J. Gilpin,
Syslemalic Source Book in Rural Sociology, 3 vols. (Minneapolis: University 22 Leo Marx, The Machine in lhe Gf rderz (Nova York: Oxford Uni­
of Minnesota Press, 1 932). versity Press, 1964), p. 5.

124 125
inculta freqüentada pelos demônios ; é condenada por D eu s . "Suas mostraram a mesma ambivalência em relação às terras d e perdi­
terras tornaram-se selvagens . . . pela ira de [J eová] . (Jeremias ção que se encontram no Velho e Novo Testamento. Mather ima­
25 : 38)". A dão e Eva forarp expulsos do J ardim para a "terra ginava o selvagem como o império do Anti-Cristo, cheio de azares
maldi ta" cheia de espinhos e de cardos. Cristo foi tentado pelo assustadores, demônios, dragões e ferozes serpentes voadoras . Em
demôniO no deserto. Tudo isso enfatiza o significado negativo outro estado de ânimo, ele afirmou que o selvagem norte-ameri­
- e dominante - do selvagem na Bíblia . Por outro lado o sel­ cano foi mandado pela Providência para ser o refúgio protetor da
vage� pode s�rvir, tanto como (a) um lugar de refúgio e con � em- Igreja reformada.
plaçao, ou mais comumente (b) qualquer lugar onde os EscolhIdos Mather, que falou seriamente de demônios e dragões nas
são espalhados durante uma temporada de disciplina ou purgação. florestas, morreu em 1 72 8 . Neste ano, William Bird , um fidalgo
Oséias (2 : 1 4) lembra o período nupcial no deserto do SinaL "Por da Virgínia viu pela primeira vez as montanhas Apalaches . Ele
isso a atrairei, conduzi-Ia-ei ao deserto e falar-Ihe-ei ao coração . . , descreveu as montanhas com fervor romântico. Quando a nebli­
E aí ela se tornará como no tempo de sua juventude. como nos na impedia a visão, Bird l amentava "a perda deste Panorama
dias em que subiu da terra do Egito " . Nas Revelações ( 1 : 9; 1 7 : 3 ) ,
selvagem" , E quando tinha que partir manifestava relutância
o Profeta sugere q u e o deserto permite a o cri stão contemplativo
em separar-se de uma cena que "era tão selvagem e muito agra­
ver o Divino mais claramente, livre do peso do mundo.
dável" . Enquanto Mather viu o selvagem através de lentes teoló­
N o cristianismo, a tradição ascética manteve o significado gicas lúgubres, Bird o via através de lentes coloridas de roman­
duplo e oposto do selvagem . J oão Cassiano (falecido em 435) asse­ tismo, que nessa época começava a ser popular. Os pioneiros não
verou, por um lado, que os eremitas foram para as terras de apreciavam o selvagem; era u m obstáculo a ser vencido para se
perdição para travar um combate aberto com os demônios ; por ganhar a vida e era uma ameaça constante na sobrevivência. O s
outro lado, que na "liberdade do imenso selvagem" eles procura­ pregadores do início do período colonial viram o selvagem como
ram desfrutar "aquela vida que somente pode ser comparada com o lugar dos demônios e raramente como o meio ambiente protetor
a glória dos anjos." Para os ascéticos, o deserto, de fato , era ao da Igreja , Durante o século dezoito, no entanto, o hiato aumentou
mesmo tempo o lugar dos demônios e o domínio da bem-aventu­ entre os pioneiros, que continuavam a ver a n atureza selvagem
rança em harmonia com o mundo das criaturas . A atitude para como um obstáculo e os cavalheiros cultos, que o viam' através
com os animais era também ambivalente . Tanto eram vistos como dos olhos do turista, conhecedores das obras dos europeus fil6so­
fos deístas e poetas naturalistas.
apaniguados de Satã como cidadãos do paraíso, precariamene
reintegrados aos m eios ambientes do eremita ou monge. No co­ - À medida que a população aumentava e os campos eram
_ __

meço da história do cristianismo, a cela do monge no deserto e cultivados e o RovoamentQ �a�iaãmêDte-patij 9 oft§.te,
a igreja no mundo eram consideradas como pequenos modelos i'iO"SeIVàge m, oS"literatos e artistas da costa leste se alarmavam
do p araíso. A sua existência dava uma aura de santidade aos êãCla vez ma� com� rápido desap�}�i1D.e.nW-.d n,a���a­
gem o John J am es7\u aubon, em suas viagens, na década de 1 820
seus arredores, de maneira que algo da inocência paradisíaca
pelo vale do Ohio, em busca de espécies de pássaros, teve mui tas
podia ser vista ao redor deles , 23
oportunidades para observar a destruição da floresta. Thomas
Nos Estados Unidos foi mantida a ambigüidade do selv agem . Cole, o paisagista, lamentou o destino da natureza porque "cada
Os puritanos da Nova I nglaterra acreditavam que eles estavam colina e cada vale está se transformando em um altar ao dinheiro" .
inaugurando uma nova era da Igreja no Novo Mundo e que esta Ele pensava que o selvagem desapareceria em poucos anos; e
Igreja reformada ia florescer como um jardim, no selvagem pro­
William Cullen Bryant era igualmente pessimi sta. Após ter per­
tetor. Por outro lado, segundo John Eliot (falecido em 1 960) o
corrido a região dos Grandes Lagos, em 1 846, ele tristemente
selvagem era o lugar "onde nada aparecia , a não ser trabalho duro,
antecipou um futuro em que os bosques selvagens e solitários
desejos e tentações" . Os escritos de Cotton Mather ( 1 663-1 728)
estariam repletos de chalés e casas de pensão . Indivíduos sensí­
veis e eloqüentes, especialmente Henry David Thoreau, exigiram
23 George H, Williarns, Paradise and Wilderness in Chrisrian Thoughr a preservação. Esta exigência surtiu efeito. O Parque Nacional
(Nova York: Harper and Row, 1 962). Yellowstone ( 1 872) e a Reserva Florestal de Adirondack ( 1 885)

126 127
foram os primeiros exemplos no mundo, em que grandes áreas do CAPfWLO NOVE
selvagem foram preservadas no interesse público. 24
Ao final do século dezenove, nos Estados Unidos, uma série

l
de virtudes confusas foram atribuídas ao selvagem. Representa­
va o sublime e convidava o homem à contemplação; na sua soli­
dão, os pensamentos se elevavam e se afastavam das tentações
do dinheiro; passou a ser associado com a fronteira e o passado
pioneiro e portanto, com qualidades que se acreditavam ser tipica­
'I
meio ambiente
mente americanas; era um meio ambiente que desenvolvia a dure­
za e a virilidade. A crescente apreciação do selvagem, como a do
campo, foi uma resposta aos fracassos reais e imaginários da vida e
da cidade. Mas, o interesse pelo selvagem não foi uma extensão
do ideal agrário. Os dois ideais, em alguns aspectos, são antité­
ticos, porque é a expansão do campo, mais do que a das cidades,
que apresenta um perigo imediato ao selvagem. Os valores da
topojilia
região central podem ser apreendidos em três diferentes imagens:
pastores em uma paisagem bucólica; o fidalgo em sua propriedade
campestre lendo um livro sob um olmo; e o pequeno proprietário
em sua fazenda .. Nenhuma destas imagens se superpõem com os
valores associados com o selvagem. O pequeno proprietário esta­
belecido em suas terras pouco tem em comum com o pioneiro sem
compromisso e o ar de indolência, que é a pose característica do
erudito aposentando-se, é a antítese rooseveltiana do culto da viri­
lidade no selvagem.
As pessoas raramente percebem a ironia inerente n idéia �
de preservar o selvagem. O "selvagem" não pode se efinido
objetivamente: tanto é um estado de espírito como uma descrição
da natureza. No momento que podemos falar de preservação e O termo topofiHa associa sentimento com lugar. Como já exami­
proteção do selvagem, ele já perdeu muito de seu significado: por namos a natureza do sentimento, vamos agora examinar o papel
exemplo, o significado bíblico de assombro e medo e o sentido de
do lugar ou meio ambiente como produtor de imagens para a
uma sublimidade muito maior que o mundo do homem e inabran­
topofilia, pois esta é mais do que um sentimento difuso, sem
gível por ele. Atualmente, o "selvagem" é um símbolo dos proces­
sos ordenados da natureza. Como um estado de espírito, o verda­ nenhuma ligação emocional. O fato das imagens serem extraídas
deiro selvagem somente existe nas grandes cidades tentaculares do meio ambiente não significa que o mesmo as tenha determi­
(Ver Figura 10d, p. 163). nado, nem necessitamos acreditar (de acordo com a evidência
dada no capítulo 8) que certos meios ambientes possuem o irre­
sistível poder de despertar sentimentos topofílicos. O meio am­
biente pode não ser a causa direta da topofilia, mas fornece o
estímulo sensorial que, ao agir como imagem percebida, dá forma
24 Rodcrick Nash, Wélderness and the American Mind (Ncw Haven: às nossas alegrias e ideais. Os estímulos sensoriais são potencial­
Yalc University Press, 1957; David LowcnthaJ, "The Amcrican Sccne", mente infinitos: aquilo a que decidimos prestar atenção (valorizar
Geographical Review. 58 (1968), 61-88; Robcrt C. Lucas "Wildcrn�ss Pcr­
ccption and Use: The Example of the Boundary Waters Canoc Arca", Na­
ou amar) é um acidente do temperamento individual, do propósito
tural Resources Journa/, 3, n.' 3 (1964), 394-411. e das forças culturais que atuam em determiada época.

128 129
Meio Amb iente e Eliseu de que existem outros lugares melhores. 1 Na complexa sociedade
moderna, os gostos individuais por ambientes naturais podem
Qual é o meio ambiente ideal das pessoas ? Não podemos variar enormemente . Algumas pessoas preferem viver no deserto
responder integralmente �sta pergunta simpl esmente olhando o e nas planícies varridas pelo vento, do que simplesmente visitar
local onde elas vivem. Uma maneira de se aproximar deste ideal esses lugares. Os alasquianos chegam a gostar de suas paisagens
é examinar a idéia q ue as pessoas têm do mundo além da morte. gela das . A maioria das pessoas, entretanto, prefere um meio am­
Na verdade, nem todos os grupos humanos têm noções sobre a biente mais hospitaleiro para viver, embora ocasionalmente deseje
vida do além ou concebem um lugar - um Eliseu - para onde estimular seu gosto estético com uma visita ao deserto. A vasta
vão os espíritos favorecidos . O Nivarna do budismo é a clara estepe, o deserto e as terras geladas desencorajam o povoamento
rejeição de tal l ugar. Apesar de, na prática , os templos budistas não somente devido à sua escassa possibilidade de vida, mas pel a
serem freqüentemente constru ídos em locais de beleza excepcional, sua ridícula geometria e dureza, que parecem negar a idéia de
a topofilia não tem lugar nessa dou trina. Além do budismo e de refúgio. Em uma planície fértil, a idéia de refúgio pode ser criada
outras religiões ascéticas dominadas por misticismo, muitas pes­ artificialmente com arvoredos e casas agrupadas em um espaço
soas, em di ferentes partes do mundo, têm certas crenças de como aberto. O próprio meio ambiente natural pode produzir uma
será a vida após a morte em um lugar acima do céu, além do sensação de abrigo, desde que seja penetrável como a floresta
horizonte ou ab aixo da terra. Não chama a atenção que os móveis tropical, isolada e luxuriante como as ilhas tropicais, como um
desse lugar sejam bem parecidos aos daqui da terra . Eles variam vale de forma côncava e com diversos recursos, ou ao longo de
de acordo com a geografia local, porém, em todos os casos, os um li toral protegid o . No capítulo sete mostramos como, para os
aspectos desagradáveis e constrangedÇlres do meio ambiente ter­ pigmeus BaMbuti e os Lele de Kasai, a floresta tropical é um mundo
restre estão ausentes . Portantto, os paraísos tendem a ser mais envolvente que provê tanto as necessidades materiais como as
parecidos do ue seus 'similares terrenos.- Para os aborfgenes espi rituais. Os hominídeos também emergiram deste meio am­
australianos, a gum-tree country - a terra além da grande água biente florestal, que atuou como um ventre materno, morno e
ou no céu - parece-se com a Austrália, mas é mais fértil , melhor nutri tivo . Na atualidade uma cabana na clareira da floresta con­
irrigada e com caça abundante . Para os Comanches, a terra onde tinua atraindo o homem moderno, que sonha com um retiro. Três
o Sol se põe é um "vale dez mil vezes mais comprido e mais largo" outros ambientes urais têm, em difere t R� u areS,
do que seu próprio vale em Arkansas. Nesse mundo bem-aven­ atraído fortemente a imagiI1ãÇãõ - fiü mana : o vale e a lha . i
turado não há escuri dão, nem vento ou chuva e abundam os búfa­
los e os alces. Para os esquimós da Groenlândia a vida dos elei­ A PRAIA
tos, após a morte, é uma região subterrânea, um lugar aprazível,
com um eterno e ensolarado verão, onde não faltam água, peixes Não é difícil entender a atração que exercem as orlas mari­
e abundam as aves ; onde as focas e as renas são facilmente nhas sobre os seres humanos. Para começar, sua forma tem dupla
caçadas ou são encontradas vivas em grandes cald eirões com atração: por um lado, as reentrâncias das praias e dos vales suge­
água fervendo. rem segurança; por outro lado, o horizonte aberto para o mar
sugere aventura. Além disso, o corpo humano, que normalmente
Os meios amb ienteS de atração permanente desfruta apenas do ar e da terra, entra em contato com a água e a
areia. A floresta envolve ' o homem em seu recesso fresco e som­
As pessoas sonham com lugares ideais. A Terra, devido aos brio; o homem no deserto está totalmente exposto e sofre esco­
seus vários efeitos, não é vista em todas as partes como a morada riações pelo sol brilhante e é repelido pela dureza da terra. A
final da humani dade . Por outro lado, a nenhum meio ambiente praia também é banhada pelo brilho direto e refletido da luz do
falta poder para inspirar a devoção, pelo menos de algumas pes­ sol, porém a areia cede à pressão, penetrando entre os dedos do
soas. Em qualquer lugar onde haja seres humanos, haverá o lar pé e a água recebe e ampara o corpo.
de alguém - como todo o significado afetivo da palavra. O
Sudão é monótono e miserável para o estrangeiro, mas Evans­
Pritchard afirma que é difícil poder persuadir o Nuer que aí vive 1 E. Evans-Pritchard, The Nuer (Oxfom: Clareodoo Press, 1 940), p. 51 .

130 13 1
Nas eras do Paleolítico Inferior e Médio, as praias marinhas no interior; e se elas suportam este modo de viver, não é tanto pela
ou lacustres abrigadas talvez tenham sido das primeiras moradas recompensa econômica, senão pelas satisfações obtidas deste estilo
da humanidade na África. Se o meio ambiente florestal foi neces­ de vida ancestral e tradicional. Durante o último século, as praias
sário para a evolução dos órgãos perceptivos e locomotores dos tornaram-se muito populares, mas saúde e prazer, que não são
primatas ancestrais do homem, o habitat da praia pode ter con­ produtos do mar, foram as maiores atrações. Em cada verão,
tribuído para que o homem não tenha a pele toda recoberta por ? hor as de pessoas na Europa e Estados Unidos migram para as
pêlo, um traço que o distingue dos macacos e de outros primatas. pratas. Tomemos como exemplo a Grã-Bretanha. Em 1937, cerca
São incertas as teorias sobre as causas da evolução dos traços no de quinze milhões de pessoas desfrutaram de uma semana ou mais
passado remoto. A agilidade do homem na água é um fato. Este de férias longe de casa. Em 1962, trinta e um milhões, ou 60%
talento, não o possuem todos os primatas. Além dos seres huma­ da população britânica, fez o mesmo; e das férias passadas dentro
nos, somente certos macacos da Ásia procuram alimentos nas do país, a grande maioria preferiu o mar. Em 1962, 72% dos
praias e podem nadar. Nosso primeiro lar não foi talvez como um britânicos em férias foi para o litoral. A natação foi e é, de longe,
Bden, localizado perto de um lago ou do mar? De acordo com o esporte mais praticado, tanto pelos jovens como pelos velhos.
Carl Sauer, a praia apresenta as seguintes vantagens: "nenhum Em 1965, nenhum outro esporte alcançou nem a metade dos
outro ambiente é tão atrativo para o aparecimento do homem. O praticantes de natação. 3 Mas, tal como E. W. Gilbert assinalou,
mar, especialmente a parte da praia que sofre a maré, apresentou a popularidade da natação e das praias é um acontecimento rela­
a melhor oportunidade para comer, fixar, reproduzir e aprender. tivamente recente: a insularidade britânica por si só não encora­
Permitiu provisões· abundantes e diversas, contínuas e inesgotá­ jou nem antecipou o desenvolvimento dos prazeres do litoral. Foi
veis. Foi um convite para o desenvolvimento das habilidades a crescente reputação de que a água do mar e o banho de mar
manuais. Deu-lhe um nicho ecológico apropriado para que a eto­ contribuem para a saúde, que desviou a atenção dos cultivadores
logia animal pudesse se transformar em cultura humana". 2 da saúde das tradicionais estâncias hidrominerais para as praias.
Os povos primitivos, que vivem próximos aos litorais tropi­ O poder da água do mar deve muito de sua credibilidade ao Dr.
cais e temperados, são geralmente excelentes nadadores e mergu­ Richard Russel, de Lewes e Brighton. Em 1750, ele publicou um
lhadores. Pode-se salientar que na água ambos os sexos têm habi­ livro sobre o uso da água do mar no tratamento das doenças
t:f
lidade similar, o que significa que os dois realizam 't balhos iguais glandulares, que foi bem recebido, durante um século, pelos hipo­
e desfrutam dos esportes aquáticos. Carl Sauer suger !p'
que a fusão condríacos e hedonistas europeus. O crescimento rápido dos bal­
da atividade recreativa e econômica poderia ter atraíi:lo os homens ; neários, principalmente a partir de 1850, deu-se graças à constru­
primitivos a unirem-se na busca de provisões no mar, muito antes ção das ferrovias. Os fluxos para o mar, quer de um dia, de fim
de tornarem-se caçadores em terra; e tambp-m que esta participa­ de semana ou de temporada foram um fenômeno pós segunda
ção facilitou o estabelecimento da família bilateral. No passado guerra mundial e refletem a crescente afluência das classes média
pré-histórico, a evidência de sambaquis sugere que as praias mari­ e média-inferior e o rápido aumento do uso do automóvel.·1 Fato­
nhas e lacustres foram muitas vezes capazes de suportar densi­ res econômicos e tecnológicos explicam o aumento de volume do
dades populacionais maiores que as das terras interiores, onde as movimento para o mar, porém não explicam porque em primeiro
pessoas dependiam da caça e da coleta. Talvez, somente à medida lugar as pessoas acham o mar atrativo. A origem do movimento
que a agricultura se tornou mais sofisticada, no final do período -...,.para o mar deve-se a uma nova avaliação da natureza.
Neolítico, as pessoas começaram a se concentrar em grande núme­ Nos Estados Unidos, as estâncias hidrominerais precederam
ro terra adentro, mas mesmo assim a pesca nos rios ainda contri­ aos balneários como centros de diversão e saúde. r, Apesar do
buia para a alimentação.
No mundo moderno as comunidades pesqueiras, de modo
� J. AlIan Patmore, L an d and Leisure in England and Wale� (Newton
geral, são pobres quando comparadas com comunidades agrícolas
Abbot, Devorr: David & Charlcs, 1970), p. 60.
4 E. W. Gilbert, "Thc Holiday Irrdustry and Scasidc Towns in England

a ,
2 Carl O. S ucr "Scashore - Primitive Home of Man?" irr Johrr
arrd Walcs", Feslschrifl Leopold G. Scheidl zum 60 Geburgslag (Viena,
1965), pp. 235-47.
Leighly (ed.), Land and Life (Berkcley: Univcrsity of California Prcss, 1963). r. Fostcr R. DulJcs, A Hislnry of Rec,realion: America Leams la Play
p. 309. 2.' ed. (Nova York: Applcton-Century-Crofts, 1965), pp. 152-53, 335-56.

132 133
b anho de m a r ap arecer no final do século dezoito, foi muito mais huma nidade deu o s primeiros passos para a agricultura e para a
tarde que se tornou popular. De início, o banho de mar teve que vida sedentária em grandes vilas comunitárias.
vencer o recato d a s pessoas. Os fabricantes anunciavam máquinas O vale é identificado simbolicamente com útero e com refú­
com uma "construçiío'" peculiar", que permitiam aos banhi stas gi o . A Sua concavi dad e protege e nutre a vi d a . Quando os ante­
entrar e sair da água sem serem vistos. A nataç.ão também l evan­ passados primatas do homem saíram da floresta e foram para as
tou suspeitas, porq u e era um esporte para ambos os sexos. O s planícies, procuraram a sf,'. gurança física e (pode-se imaginar) psi­
banhistas d o s f i n s d o século dezenove entravam n o m a r completa­ cológica da cavern a . Os refúgios artificiais são concavidades nas
mente vesti dos. O s costumes soci ais n o entanto mudam: o senso quais os processos da vida podem operar, afasta dos dos perigos
comum eventualmente vence o recato. Desde os primeiros anos do ambiente natural e da exposição à luz. As primeiras mora dias
do século vinte, a nataç.ão tem sido contínu a , sendo a ma or ! construíd as, freqüentemente, foram semisub terrâneas : a escavação
recreação ao ar livre entre os americanos. Desde 1 920 as !, rmas do buraco minimizou a' necessi dade de uma superestrutura e ao
da costa Leste ficam repletas em cada temporada. A nataçao, ao mesmo tempo colo cou seus habitantes em contato quase direto
contrário do que aconteceu com muitos esportes competitivos, com a terra. O vale é ctônico e feminino, os mégaras d o homem
minimiza a s diferenças físicas e soci ais dos seres humanos. Este biológico. Os cumes das montanhas e outras saliências são esca­
esporte é apropriado para toda a famíli a . Não requer equipamento das para o céu, o lar dos deuses. Ali o homem poderia construir
..
dispendioso . As crianças, os velhos e mesmo os alel]ados podem templos e altares, exceto suas própri a s morad as, a não ser para
desfrutar do mundo benevolente da prai a . A populari dade da escapar de ataques.
na tação é um bom indicador da força do sentimento democrático
A ILHA
de um país .
A ilha parece ter um lugar especial na imaginação do homem.
o VALE Ao contrário da floresta tropical ou da praia, ela não pode reivin­
dicar abundância ecológica nem - como meio ambiente - teve
O vale ou b a cia fluvial de tamanho modesto atrai os seres uma grande significância n a evolução do homem . A sua impor­
humanos por razões óbvias. Ele promete uma subsistência fácil tância reside no reino da imaginação. No mundo, muitas d a s
por ser um nicho ecológico altamente diversifi ca d o : há uma grande cosmogon ias começam com o caos aquático: quando a terra emer­
variedade d é alimentos nos rios, nas planícies d e inundação e nas ge, necessariamente é uma ilha . A primeira colina também foi
encostas d o vale. O ser humano depende muito do acesso fácil uma ilha e nela a vida começou. Em inúmeras lendas a ilha: apa­
à água: n ão dispõe de mecanismos para retê-Ia por longos perío­ rece como a resi dência dos mortos ou dos imortais. Além de
dos, em seu organismo. O vale acumula água em seus cursos, tudo, ela simboliza um estado de inocência religiosa e de beati­
em poças e em fontes. Se o curso de água é s� fic entementte
.
� tude, isolado dos infortúnios do continente pelo mar . A cosmologia
grande, também serve como um mel o de comuDlcaçao natu ra l . budista reconhece qua tro ilhas de "terra excelente", situadas n o
.
O s agricultores valorizam o s solos rICOS dos fundos d o s vales. "mar exteri or" . A doutrina hindú fala d e uma "ilha essenci al " ,
f claro que houve desvantagens, especialmente para o homem formada d e pó d e pedras preciosa s , na q u al crescem árvores que
primi tivo, que dispunha de ferramentas rústicas. A vegetação expelem doces aromas; ela alberga a magna mater, Na China, h á
intrincada da planície de inudação, além de abrigar animais selva­ a lenda d a s Ilhas Bem-Aventuradas o u as Três Ilhas d o Genii, que
gens, pode ser difícil de limpar. A planície pode ser mal dren c da se acreditava estivessem localizadas no Mar Oriental, do outro lado
e ser foco de malária; está sujeita à inundação e às flutuaçoes :
da costa de Chiang-su . O s Semang e Sakai d a Malásia, habitantes
maiores d e temperatura, em relação às que ocorrem n a s partes da floresta, imaginavam o paraíso como uma "ilha de frutas" d a
altas das encostas. O s solos, ain d a que ricos, são pesa dos . Algu­ qual foram e]j minados todos o s males que afligem o homem n a
mas destas dificuldades poderiam ter sido evitadas ou mitiga d a s . terra; está localizada n o céu e deve-se entrar n d a pelo Oeste.
As amplas planícies pantanosas sujeitas a violentas inundações Alguns povos da Polinésia percebem o seu Eliseu como uma ilha,
foram evitadas como lugar de fixação e sempre que possível, os o que não é d e surpreender. Porém, é na imaginação do mundo
povoados ap areceram nos terraços secos e no sopé das vertentes, Ocidental que a ilha adquiriu maior força. A seguir, um breve
do vale_ Foi nos vales e nas ' bacias de tamanho médio que a esboço.

134 135
r

I A lenda da Ilha dos Bem-Aventurados apareceu primeiro na Ao contrário dos primeiros exploradores, Louis de Bouganville
I Grécia Arcaica: foi descrita como um lugar que propiciava aos não acreditava em nenhum f:den, mas sua descrição maravilhosa
I heróis uma colheita extraordinária, três vezes ao ano. O mundo ,!
de �iti converteu a ilha em um substituto similar. As viagens do
celta, longe da Grécia, tinha uma lenda similar: Plutarco conta a capItao Cook em grande parte confirmaram esta visão da ilha dos
história de uma ilha céltica na qual ninguém trabalhava, seu clima Mares do Sul . George Forster, um naturalista que acompanhou
era excelente, seu ar profundamente perfumado. Na Irlanda cató­ Cook em sua segunda viagem, acreditou que este encantamento
lica, certos romances pagãos foram convertidos em histórias exem­ com as ilhas se devia mais ao contraste que elas apresentavam
plares, com intenções santificantes. Na Europa Medieval a lenda com a experiência anterior de tédio diante da imensidão do ocea­
de São Brendan gozou de muita popularidade, nela o abade de no. No século dezenove os missionários rebateram a imagem.
Clonford (morto em 576) tornou-se herói marinheiro, que desco­ edênica das ilhas tropicais . Por outro lado, escritores eminentes
briu ilhas paradisíacas onde tudo era alegria e abundância. N� que as visitaram - incluindo Herman Melville Mark Twain
versão anglo-normanda do século doze, deste conto, Brendan fOi Robert Louis Stevenson e Henry Adams - preser araro a image ; �
obrigado a procurar por uma ilha descrita brilhantemente como idílica das ilhas. As ilhas triunfaram sobre a propaganda nega­
uma morada para os piedosos que jazem além do mar, "onde não tiva: a afluência dos turistas continuo u . Elas adquiriram outro
medram tempestades, onde o perfume das flores do paraíso cons­ significado, local de fuga temporária. Os Jardins do f:den e as
titui o alimento das pessoas". Ilhas Utópicas nem sempre foram levados a sério, menos ainda
A imaginação da Idade Média povoou o Atlântico com um no século vinte. Mas a vida moderna no continente lhes garantiu
grande número de ilhas, muitas das quais persistiam até depois um lugar para onde escapar das pressões do cotidiano. S
da época das grandes explorações e por certo uma, Brasil (ter �o
gaélico para abençoado), persistiu na mente do almirantado bntâ­
o meio ambiente grego e a topo/ilia
nioc até a segunda metade do século dezenove. G Ao redor de
1300, as clássicas Ilhas da Fortuna vieram a ser identificadas com As imagens da topofilia são derivadas da realidade circun­
as ilhas de São Bren dan. O cardeal Pierre d' AiI1y, que Colombo dante. As pessoas atentam para aqueles aspectos do meio ambien­
considerava como uma autoridade em Geografia, pensava seria­
te que lhes inspiram respeito ou lhes prometem sustento e satis­
mente que o Paraíso Terrestre estava localizado nas ou perto das
fação no contexto das finalidades de suas vid a s . As imagens m u­
Ilhas da Fortuna, devido à fertilidade de seus solos e à excelência
dam à medida que as pessoas adquirem novos interesses e poder,
de seu clima. Ponce de Leon é conhecido como aquele que pro­
i.,
curou a fonte da Juventude da F16rida e ao m aginá-la como uma mas continuam a surgir do meio ambiente: as facetas do meio
ilha, ele seguiu a tradição de identificar enc antamento com insu­ amb iente, previamente negligenciadas são vistas agora com toda
laridade. Em 1493 a imaginação européia sJ
meçou a ver o Novo claridade. Consideremos o papel do meio ambiente na topofilia
Mundo como um conjunto maravilhoso de ·pequenas ilhas-jardins. prímitiva da Grécia, Europa e China.
No século dezessete o Novo Mundo havia-se convertido em um O mar, a terra fértil e as ilhas figuraram proeminentemente
continente interminável; e a visão. original de ilhas inocentes e na imaginação dos gregos antigos. U Isto não surpreende, pois os
plenas de sol, passou a ser de incredulidade, à medida �ue os colo­
gregos dependiam do mar e dos pequenos espaços de solo fértil
nizadores enfrentaram o imensurável e o horripilante. '
para sua subsistência; e as ilhas eram âncoras de segurança ou
A fantasia de ilhas edênicas foi reavivada no século dezoito, oásis de vida nas águas do oceano.
como uma conseqüência irônica das expedições aos Mares do Sul.
A atitude em relação ao mar era ambivalente. O mar tinha
beleza e utilidade, mas era também uma força escura e assusta-
" Carl O. Saut:r, Norlhem Misls (Berk.eley c Los Angcles: University
of California Press, 1968), pp. 167-68; W. H. Babcock, Legendary Is/�ds
of lhe Atlantic: A S/udy in Medieval Geography (Nova York: Arncncan , Hcnri Jacquier, "Le rniragc ct I'exotisrnc Tahi ticn dans la littérature",
Geographical Society, 1922). Bul/e/in de la Sucielé des Oceaniennes, 12, N."s 146-147 (1964), 357-69.
7 Howard Murnford Jonc, O Strange New Wurld (Nova York: Viking,
D H. Rushton Fairclough, Love of, Nalure Among lhe Greeks and
1964), p. 61. RomaJ/s (Nova York: Logrnans, Grecn & Co., 1930).

136 137
dora. o mar figurou freqüentemente nas epopéias Homéri cas . 10 N<l Antologia Grega, uma expressão característica de apego
Foi também descri to, muitas vezes, como uma estra da . Quan do à terra e medo ao mar foi colocada nas palavras de um l avrador
calmo aparecia com a beleza de u m "vinho escuro", quando bravo moribundo :
engolia navios e m a rinhehos. No século sexto antes de Cristo, os
gregos dominavam a s técnicas de nagevação, de modo que o mar Eu recomendo, queridos filhos, que amem a enxada e a vida
Egeu lhes era in teiramente fami l iar. Os atenienses o olhavam com de um lavrad or. Nã o invejem o trabalho exaustivo daqueles que
confiança e alegr i a . Segundo fsquilo, os antigos persas lhe con­ navegam a s ondas traiçoeiras e labutam no mar perigoso. Assim
corno a mãe é mais doce que a madrasta, também a terra é mais
fessaram que foi dos gregos que "aprenderam a desprezar o ocea­
aprazível do que o mar cinzento 1 � .
no, quando esbranquiçado peb tempestade" . No Prometeu, ele se
' refere à "ga rga lhada estrondosa" do oceano. Nas obras de Eurí­
pedes, como nas d e seus pr'edecessores, o mar, quer calmo quer Tanto a atitude em relação ao mar quanto a relativa à ilha
bravio, serviu para comparar <l S variações do oceano com as con­ é ambivalente. Nas epopéias homéricas poucas ilhas tinham pas­
dições da vida h u m a n a . 11 A poesia alexandrina continua a cantar tagens abundantes e quando uma ilha produzia fruto abundante,
o fascínio do mar. Teócrito fez com que D<lfne cantasse embaixo também existia o perigo dos cíclbpes. Por o u tro l ado, na Grécia
dos rochedos, "cui d e·se das águas s i cili a n a " . Pelo lado negativo, Antiga surgiu a lenda da Ilha dos Bem-aventu rados, onde os heróis
o mar representou a indiferença cruel da natureza em relação ao desfrutavam de uma vida fácil. E ttaca, ilha sem n a da de especial,
homem ; serviu d e i magem para tudo que era di fícil e insensível. recebeu elogios n ã o só d e Ulisses, como também de Telêmaco e
N a Ilíada, Pátroclo acusou Aquiles de não ter nascido de pais Atena, na Odisséia. Itaca era descrita como uma ilha montanhosa
humanos, mas do mar ci nzento e das falési as escarpadas, por isso emergindo do mar, um lugar mais para cabras d o que para cava­
seu espírito era in domável . Outras obras recolhidas mas tarde na los e também como uma terra fértil, irrigada por fontes e aben­
Antologia Grega ilus tram amplamente os l amentos sobre as tum­ çoada com bons solos.
bas desconhecidas d os marinheiros desaparecidos nos naufrágios. 12
A i magem cinzenta do mar serviu para destacar as vanta­ Paisagem e pintura de paisagem na Europa
gens da terra - dos "campos fru tíferos d a Frígi a" e " as terras
Os sentimentos topofíl i cos do passado estão irremediavelmen­
verdes de Dirce com abundantes colh�itas" - como foi dito por
te perdidos. Podemos agora conhecer alguma coisa sobre eles
Eu rípedes . N a Odisséia (Livro 5 ) de Homero, o herói , cansado
somente através da l i teratura, através das obras de arte e dos arte­
de lutar com o mar e d o cimo de uma onda enorme, avistou a terra
fatos que perduraram. No capítulo doze tentaremos evocar as
firme muito próxima . O bardo explicou : atitudes e valores sobre o meio ambiente no passado, mediante
a evidência do ambiente - ruas e casas - e m que a s pessoas
Ulisses ficou arrebatado ao contemplar a terra e a floresta. Foi viveram. No momen to, preocupamo-nos com a evi dência da arte
corno a alegria que sentem os filhos, ao verem reviver o pai,
visu al . Em uma primeira impressão pareceria que as antigas p in­
de hft muito prostrado no leito e consumido por sofrimentos
turas, que incluem p a i sagens em sua composição, nos dariam uma
atrozes provocados por um gênio rnalígno. Nem cabem em si
clara compreensão do meio ambiente e dos gostos pa isagísticos dos
d e contentes, quando os deuses livraram seu pai do mal. Assim
Ulisses nadou contente até alcançar a praia. tempos antigos. No entanto, é difícil interpretar a evidência das
pinturas, porque o artista adquire suas habi l i d a des de uma escola :
o que ele pinta revela mais o q u e aprendeu do q u e a s u a própria
10 F. E. Wallace, "Color in Homer and in Ancient Art", Smith Col/ege
experiência do mundo dD homem e da natureza . As pinturas d e
C/assica/ Studies. n .· 9 (Dezembro 1 927), p. 4; Paolo Vivante, "On the Re­
paisagens dizem mu i to pouco sobre a realidade externa . Nós
presentation of Nature and Reality in Homer", A rion. 5, n,· 2 (Verão d e 1 966),
149-90. não podemos esperar que as artes visuais nos revelem como eram
11 H. Rushton FaircJough, The A ltitude of lhe Greek Tragedians lO­ no passado certos lugares; nem podemos esperar entender porque
ward Na/ure (Toronto: Roswell & Hutchinson, 1 897), pp. 1 8-1 9, 42.
1 2 Sarnuel H. Butcher, "Daw of Romanticism in Greek Poetry", in

Some A spects of the Greek Genius (Londres e Nova York: MacMillan, 13 The Greek Anth% gy, trans. W. R . Paton (Nova York : Putman's,
1 9 1 6), p. 267. 1 91 7), UI, 1 5.

138 139
os artistas as escolheram, mas podemos tomar as paisagens pinta­ clencia, isto é, um meio rigoroso de conhecer a realidade em vez
das como estruturações particulares da realidade que, durante um de um prazer estético. 15 O primeiro croqui a ele atribuído foi
tempo, desfrutaram da apreciação popular. uma representação do vale do Amo (1473). Depois, Leonardo
.
A paisagem é um arranjo de aspectos natu�als : human?s em fez muitos croquis dos Alpes, selecionando deliberadamente aque­
uma perspectiva grosseira; os elementos r:aturals sao . orgalllzados les aspectos exclusivos da realidade geológica que coincidiam com
de tal forma que proporcionam um ambiente apr�p:lado para a a sua natureza interior, Algumas montanhas dolomíticas de areni­
atividade humana. A pintura paisagística, assim defmlda, apareceu to na bacia mediterrânea de fato são tão desnudas e escarpadas
relativamente tarde na história da arte européia. Um exemplo preco­ como aparecem nas paisagens de Leonardo.
ce é o trabalho de Ambrogio Lorenzetti, realizado no século ca tor­ Além das montanhas e dos vales fluviais, as florestas também
.
ze e intitulado "Bom Governo no País". De acordo com Rlchard produziram impacto na sensibilidade dos artistas europeus. Ape­
Tumer, pela primeira vez um pintor italiano revestiu a ,rocha nua sar das extensas derrubadas das matas durante a Idade Média,
com solo e pintou árvores e colheita. O quadro tambem suge:.e, as
florestas ainda cobriam grandes extensões do continente. A caça,
pela primeira vez, grandes distâncias 1� No entanto, o quadro nao popularizada nas cortes da França e da Normandia, começan
: . do ao
tem uma finalidade pictórica mas dldatlca, para mostrar os ? ene­ redor de 1400, ofereceu um novo meio ambiente para o
fícios de um bom governo. Um dos benefícios foi a prospendad� prazer
dos nobres. Foi através deste instinto de matar que as classes altas
da região e se olharmos atentamente o quadro de Lorenzetn, aprenderam a apreciar a beleza silvestre. Foram os manuscr
podemos detetar nele elementos da paisag�m toscana. ,�uando, n.a itos
sobre este esporte que primeiro ilustraram com desenhos a exube­
verdade, apareceu pela primeira vez na pmtura europela uma pai­ rante natureza biológica. Os afrescos de Avinhão retratam a caça,
.
sagem propriamente dita? Pode-se dizer que fo� no ano de 144� , a pesca e a faleoaria. O manuscrito ilustrado, Tres Riches Heures
.
quando o artista suiço Konrad Witz pintou a , Pesca Milagrosa, (1409-1415), mostra episódios da caça. As florestas "primevas"
em que mostra o acontecimento dramático traçando como fundo persistiram por mais tempo na Europa Setentrional e Central
da cena a orla do lago de Genebra, de forma detalhada. que
. na Meridional. Enquanto os mestres italianos trabalhavam
Por que o artista decide pintar certo� aspectos da realidade em
grandes retratos, o artista alemão Albrecht Altdorfer (1480-15
e não outros? A resposta não pode ser Simples porque en}re as 38)
. pintava uma cena denominada "Paisagem com São Jorge e. o
influências que sofre o artista, �stá seu trein�mento academlco,
. Dragão", na qual São Jorge quase desaparece na luxuriante flores­
as habilidades técnicas disponíveiS, a Simbologia da natureza em
ta, Esta pintura demonstra o conhecimento do artista da comple­
seu tempo e os cenários que o rodeiam. Nas primeiras etapas da
xidade enorme da natureza biológica. O quadro sugere um senti­
arte das paisagens, o "rio-em-um-vale" é um tema popular talvez
: mento da "grandeza da floresta primitiva, com sua solidão e quie­
porque ele permite ao artista mostrar uma perspectiva rudlmenta. r
tude, interrompida somente pela luta entre São Jorge e o Dra­
sem grandes dificuldades. As montanhas servem para dar a di­
gão". li; A escolha de uma imensa floresta como ambiente para a
mensão vertical. Também simbolizam as ameaças do selvagem.
luta reflete a influência da concepção bíblica do selvagem como
Desde a era Helênica 'até quase o final do Medievo as m�n�anhas
o reino do perigo e do mal; por outro lado, a atenção do artista
aparecem desnudas, escarpadas e grotes-êé\S;. distantes, prOibIdas e
voltada para o interior da floresta - a apresentação delicada das
envoltas em mistério. Entretanto, não é f1kd separar os elementos
copas das árvores recebendo o sol e o vento - indica uma sensi­
simbólicos dos representativos, Vejamos as paisagens de Leonardo
bilidade para as qualidades estéticas da floresta, mesmo quando
da Vinci. Muitas delas mostram cumes e escarpas �e montanhas
ela domina o homem.
nuas, que são quase tão amedrontador�s como as plOtadas �elos
artistas medievais. Sem dúvida certo tipo de mor:t�nhas atra�u a Nas artes visuais como na literatura, o gosto pela natureza
imaginação de Leonardo da Vinci, Mas, a? contrano dos ar�lstas selvagem apareceu muito mais tarde que o gosto pelos jardins,
medievais e da maioria dos seus contemporaneos, Leonardo fOI um terras cultiváveis e cenas bucólicas, Antes que a caça fosse popu-
observador profundo da natureza. Para ele a pintura era uma
1:; Ver André Chastcl (ed.), The Genius of Leonardo
da Vinci: Leo­
nardo da Vínci af! Arl and lhe Arlisl (Nova York: Orion Pn:ss, 1961).
�, A. Richard Turncr, The Vision of Landscape in Renaissance llaly 11;
Benjamin Rowland, Ir., Ar( in E�I and Wes( (Boston: Bcacon Prcss,
(Princcton, N. J.: Princeton Univcrsity Prcss, 1966), p. 11. .
1964), p. 74.

140 141
lar e levasse os nobres e as damas aos bosques, o jardim foi o lugar n ? aoimar o cenário inglês cotidiano e desenvolveram uma téc­
seguro e desejado. O jardim , no entanto, foi um simples arti fício: DIca abc !ta c com poucos detalhes para interpretar uma natureza
em çon t l D u a mudan ça l O .
seus desenhos e imagens deviam mais ao s imbolismo religioso que
às verdadeiras configurações da natureza. Na representação de
A topofilia é enriquecida através da realidade do meio am­
terras de culti vo e cenas rurais transparece algo da realidade do .
ble� te qua � do ste se combina com o amor religioso ou com a
meio ambiente. A paisagem de Lorenzetti, de colinas arredonda­ . �
,
curlOslda clentIflca . Bellini viu a natureza através dos olhos de
das, cobertas com manchas de arvoredos e de campos cultivados,
ca/'lta� . Nenhum objeto foi despreza do; em suas paisagens todos
é uma cena toscana reconhecível . Na obra Tres R iches Heures,
os obj etos, desde as orelhas do burro até como se unem as pedras
mais da metade dos meses representam em detalhe e realistica- .
. para formar o leito rochoso, são representados nítida e fielmente
mente o trabalho no campo, contrastando com o fundo de monta­
Suas cenas têm a claridade e a frescura do campo após
nhas bizarras. O quadro de São Francisco, de Giovanni Bellini a chuva :
(ao redor de 1427- 1 5 1 6),
nos dá um exemplo radiante de topofilia. Se elas parecem arcaicas :>e deve a que, ao contrário das
. modernas
Não foi feito nenhum esforço para transcrever um cenário real : paisagens, elas comumen te estão banhadas pela luz de outro mun­
ao contrário, O artista transferiu São Francisco do terreno áspero do, que não tem nenhuma relação com as mudanças do tempo
.
da estigmatização em La Verna para uma paisagem mais condigna ou hor� do dl �.
.

�onardo, por outro lado, pintou a natureza com
com o santo, um cenário dos verdes campos de Veneza com árvo­ obJe �lvldade clentlflca: seus quadros de animais e montanhas se
res clássicas, tendo ao fundo os contrafortes do lomíti cos. 1 7 baseiam em seus sólidos conhecimentos de anatomia e geologia. 2 0
O academicismo inibe a percepção da realidade . Os clássicos I A � at � reza não despertou muito interesse entre os europeus
.
britânicos viram o campo através dos olhos de Virgílio e Horácio. ncos ate fms do seculo , .
deZOIto e começo do século dezenove
Os pintores ingleses de paisagens raramente pintaram o que agora
consideramos como paisagens inglesas típicas: Chilterns, Cotswolds,
quando grande número de gen te rica se interessou pelas paisagens :
Observar � natureza passou a ser um p assatempo de moda. Damas
Kent. Eles fizeram o Grand Tour e quando regressaram, pintaram e cavalheuos, enquanto passeavam na praia, recolhiam seixos e
cenas rigidamente simétricas, que lembravam Claude Lorrain fósseis, f� zi � anotações sobre a flora e as condições do céu. A
( 1 600- 1 682)
t: Salvador Rosa ( 1 6 1 7-1 673),
com ruínas clássicaé, .
atitude clentlflca de observação imparcial era admirada e imitada
pinheiros e ciprestes em substituição da natureza inglesa. Mesmo
por artistas e homens de letras. Consideremos a influência de
Gainsborough ( 1 727-1 788),
que provou ser um bom observador
Luke Howard no florescimento do gênero de paisagens com
das cenas nativas e o demonstrou com o fundo do seu quadro
"O Senhor e a Senhora Andrews", paulatinamente abandonou a
nuvens. Em 1803 ele formulou uma classificação de vapores con­

paisagem natural e preferiu a artificialidade, que transformou


? ensados. � te
: . trabalho teve u� impacto não somente sobre a
mClplente clencla da meteorologia, mas também na sensibilidade
Suffolk em Cítera. '8 Os holandeses i nfluenciaram muito os pin­
estética da sua época . Goethe, na Alemanha, também sofreu esta
tores ingleses levando-os a observar de mais perto a natureza e a
influência e escreveu poemas sobre esta família de nuvens recen­
distanciar-se do romanticismo sonhador das paisagens literárias.
temente identificada - estratos, cirros e cúmulos. Carl Gustavus
Tanto Crome como Constable, de acordo com Nikolaus Pevsnel ,
inspiraram-se nos "paisagistas holandeses do século dezessete, que
Carus ( 1 789-1 869) , naturalista e artista amador em seu tratado
combinavam probidade com sensibilidade, em ambientes estimula­
"Nine Letters on Landscape Painting ( 183 1)" �
i n tou seus contem­
porâneos a considerar as leis do tempo e da geologia, tratado este
dos pelo clima do seu país". Pevsner acrescenta:
9ue Go� the honrou com uma introdução. As idéias de Carus
o clima da Inglaterra é similar, a proximidade do mar também mfIuenclaram Clausen Dahl (1 788-1 857) e Karl Ferdinand Blechen
se percebe no ar. Assim Gi r t in e Turner, como também Crome ( 1798-184?), artis �a � alemães. Blechen, por exemplo, abandonou
.
e Cosntable, voltaram-se para o estudo da atmosfera, permitiram- o Romantismo artifiCial - onde as paisagens mostravam monges

17 Tu rn er
Vision of Landscape, p. 60. l D N ikolaus
,
Pevsner, The Englishness of the English A rt. (Nova York:
18 Kenneth Clark, " O n the Painting of the English Landscape", Pro­ P raeger, 1 956), pp. 149-50.
ceedings of the Brilish A c ademy, 21 (1935), 1 85-200. 2 0 K enneth Clark,
Landscape in A r' (Londres : Ion Murray, 1 949).

142 143
I� ." E

e cavalheiros errantes - para estudar a natureza. 21 Na Inglaterra, Tal como na Europa, os sentimentos para com os lugares e
a classificação de Luke Howard conseguiu a atenção de John a natureza apareceram primeiro na poesia do que nas artes visuais.
Constable para o céu e as nuvens. Este desenhou nuvens em todas Pelo menos, desde a dinastia de Han a poesia evocava as nuanças
as suas nuanças. Em um desenho ele escreveu: "5 de setembro de certos lugares. Alguns títulos de poemas eram "Desde a cida­
de 1822, 10 horas da manhã, olhando para sudeste, vento forte de-fortaleza de Liu-chou" ou "Uma mensagem do lago Tung-t'ing."
para oeste. Nuvens cinzentas e brilhantes corriam rápidas sobre Eram concisos e precisos, ao contrário do gênero de poesia topo­
um leito amarelo, a meio caminho do céu. Bem de acordo com gráfica inglesa, onde J onathan Swift intitulara muitas de suas obras
o litoral de Osmington". Constab1e, em 1835, escreveu em um'i "Descrições tediosas, chatas e secas/ E introdução do que só Deus
carta: "Devo declarar que após trinta anos as artes irmãs me sabe." Na China, a poesia teve amplitude muito maior de senti­
interessam menos... que as ciências, em especial o estudo da mento pela natureza do que a pintura paisagística. Os poetas se
geologia". 22 Estas observações sugerem um grau de impa:c ali­ � preocuparam, às vezes, com cenas evanescentes que os pintores
dade que é enganoso, porque um profundo sentimento rehglOso ignoraram: por exemplo, uma nesga de lugar sobre o assoalho do
levou Constable a conhecer intimamente a natureza. A natureza, quarto foi confundida com geada e as falésias tornaram-se escar­
tanto para Constable como para Wordsworth, revelava a vontade lates momentos antes do pôr do sol. Os poetas também se preocu­
de Deus: '0 desenho de uma paisagem, concebido com um espírito param com a descrição do campo e registraram acontecimentos
humilde, era um meio de transmitir a verdade e as idéias morais. comuns em uma fazenda, enquanto os pintores não os considera­
ram. Tao Yuan-ming (372-427 d.C.), em um poema clássico,
o meio ambiente chinês e a topo/ilia descreve a volta para sua casa no campo, com suas três trilhas
(quase encobertas com ervas daninhas), seus pinheiros e seus cri­
O aspecto fisiográfico da China pouco se assemelha ao da
sântemos. Ele vagueia em seu jardim e se detém para olhar as
Europa. Os campos de cultura da Europa Ocidental e Setentrio­
nuvens que vão subindo pelos vales e os passarinhos regressando
nal geralmente apresentam uma topografia ondulada. As ondula­
para seus ninhos. "Anoitece: mas ainda permaneço nos campos
ções suaves correspondem a diferentes tipos de depósitos glaciais
acariciando um pinheiro solitário". 23
e as cristas mais altas correspondem às escarpas rochosas. As ricas
fazendas dos grandes vales se fundem com as ondulações do terre­ Na verdade, o poema de Tao é pictorial. As imagens que
no recobertas de pastagens e nas áreas de solos espessos permant:­ ele evoca - as nuvens galgando o vale, o chalé e o sábio sozinho
cem manchas densas de florestas decíduas. Em contraste, a China acariciando o pinheiro solitário - pode ser a descrição verbal de
não tem uma topografia ondulada, e exceto nas bordas do país, uma fípica pintura de paisagem. Essa imagem somente apareceu
não há cenários de parklands com pastagens naturais manchados na pintura quinhentos anos mais tarde. A paisagem ganhou im­
com bosques. São raras as cenas bucólicas e relevo mamelonar. portância, como um tema pictorial, na época de Tao Yuan-ming,
A maioria da população chinesa vive em uma terra de grandes mas os cenários pintados estão longe de ser naturais. Mesmo no
contrastes: por um lado, planícies aluviais e por outro, montes e período de T'ang (6 18-907 d. C.), as nuvens parecem desajeitadas
montanhas escarpadas. As montanhas parecem mais altas e escar­ e formais e as montanhas, cumes simbólicos. Os palácios e as ativi­
padas do que na realidade são, pela falta de uma zona de piemon­ dades humanas tendem a ocupar o primeiro plano. No início da
te: o aluvião avança lentamel).1e, sobre os flancos das montanhas. dinastia Sung (século dez), começam a aparecer as paisagens puras.
A bacia do Ssu-ch'úan é a úniCa região da China densamente Estes esforços eram uma tentativa de captar a essência do lugar.
,
povoada e que não é uma planície aluvial. A sua topografia, onde O artista não ia para o ar livre com cavalete e tintas, tentar copiar
I' a movimentação atinge até 300 metros é mais enrugada do que uma determinada cena. Ao contrário, ele penetrava em um m\1ndo,
as escarpas da Europa Norte-Ocidental. lá vagueava durante horas ou dias para absorver uma atmosfera.
Ele então retornava ao seu estúdio para pintar.24 A natureza era

21 Kurt B adt , John Constable's Clouds, trans. Stanley Godman (Londres:

Ráutledge & Kegan Paul, 1950). 23 Tao Yuan-ming, uThe Return", ver Robert Paync (ed.), The While
. . .
22 L. C. W. Bonacina, "John Constable's Centcnary: H1S PosltLon as a Pony: AI! AnlholoRY of Chinese Poelry (Nova York: Mentor, 1960), p. 144.
Paintcr of Weather", Quarter/y Joumal of lhe Royal Metereological 50- 24 Michael Sullivan, The Birlh of LQZJdscape Painting in China (Bcrkcley
ciety, 63 (1937), 483-90. e Los Angeles: University of California Prcss. 1962).

144 145
experienciada na penumbra do misticismo taoísta, mas isto não China. Estas montanhas podem ser fotografadas de tal maneira
-evi tava que o artista observasse a natureza cuidadosa e analitica­ que se assemelham às pinturas dos famosos paisagistas. 2 6 Os
mente. Kuo Hsi, que viveu no século onze, dizia que os artistas artistas chineses, sem almejar a veracidade geológica ou pictórica,
não deveriam simplesmente copiar a natureza. Ele criticou os pin­ mostraram em seus trabalhos, suas sensibilidades aos fatos da
tores o riundos das províncias de Chê-chiang e Chiang-su por ten­ natureza. J oseph Needham acredita que é possível encontrar uma
derem a mostrar as paisagens estéreis altas do sudeste e os que ampla variedade de aspectos geológicos entre as pinturas chinesas,
habitavam a província de Shen-hsi, por serem propensos a dese­ incluindo mergulho de camadas, anti clinais, vales rejuvenescidos,
nhar os magníficos cumes salientes do Kuang Lung. Por outro plataformas marinhas, vales glaciais em forma de U (por exemplo,

la o, ele elogiou a observação acurada deles, dizendo (como um Chi-chü Shan, ao norte da província de Ssu-ch'uan) e topografia
geografo) : cárstica. 27
O paisagismo de jardim é urna arte intimamente ligada à
Algumas montanhas estão recobertas com terra, enquanto pintura e à poesia. Em todas as três fermas de arte, podem ser
outras com pedras. Se as montanhas terrosas têm pedras em seus descobertas as influências do Xamanismo, Taoismo e Budismo.
topos, _ então árvores e florestas serão escassas e raquíticas; mas
Os elementos do relevo do jardim , corno os da pintura, acentuam
se as montanhas pedregosas têm terra em seus topos, a vegetação
florescerá. Algumas á rvores crescem em mrm umhas, nutras ao a verticalidade das montanhas contra a horizontalidade da planí­
lado d e água. Nas montanhas onde o solo é rico pode crescer cie aluvial e da água. Para os observadores ocidentais, os blocos
um p! nheiro muito frondoso. Ao lado de água. �
nde o solo é intemperizados de calcário usados para representar montanhas e
redUZIdo, pode crescer um arbusto não muito alto . talvez toda a composição, podem parecer irreais e remotos, do
A posada e a cabana estão em uma ravina e não em um ponto de vista de suas experiências de paisagens reais na Europa
delta. Elas se situam em uma ravina para estar próximas de
e Estados Unidos. Todavia, é irônico e de interesse histórico notar
água; elas não se situam em um delta, devido ao perigo da
que o geógrafo dinamarquês Malte-Brun ( 1 775- 1 826) criticou os
inundação. Mesmo se algumas estão n o delta, sempre se l ocalizam
onde não há perigo de inundação. As vilas se situam na pla­
chineses precisamente pela falta de imaginação, pelo hábito de
nlcie e não na montanha, porque aquela oferece terras de cultivo. imitar a natureza.
Ainda que algumas vilas sejam construídas nas montanhas ' ficam
próximas de terras aráveis, entre as colina 25 . Se eles descobriram um tipo de beleza no arranjo de seus jardins
e na distribuição de suas terras, é porque copiaram com exatidão
a natureza de uma fonna estranha, embora pitoresca. Pedras
o termo chinês para o gênero artístico "paisagem" é shan shui salientes, c �mo s e ameaçassem cair a qualquer momento, pontes
(mo�tanha e á?Ua). Os dois grandes eixos da pintura paisagística, penduradas sobre abismos, abetos suspensos espalhados nas en­
costas íngremes de montanhas, lagos extensos, torrente rápidas,
�ertical e honzontal, são abstraídos da j ustaposição de montes cascatas espumando e pagodes elevando suas formas piramidais
mgr�mes . e de planícies aluviais que são características da topo­
em meio a esta confusão; assim são as paisagens chinesas em
grafIa chmesa. Os elementos montanha e água não têm o mesmo grande escala e seus jardins em pequena escala 26 .
v�or em religião e estética: a montanha tem precedência, a des­
pello da ênfase dada pelos taoístas à superioridade da água. As
montanhas têm uma individualidade que falta aos rios e às terras

plana� . O chin s fala das Cinco Montanhas Sagradas, mas (ao
contrano. da fndla) os grandes rios não adquiriram a mesma aura
de santidade . O realismo dos pintores paisagísticos chineses re­
pousa primariamente na fé devotada às montanhas, particular­
mente a de l-!
ua Shan, do sudeste de Shen-hsi, Huang Shan, do



Sul de An-hul, Lu S an ao norte de Hu-nan no médio Yangtze, 26 Arthur de Carle Sowerby, Nature in Chinese A rt (Nova
York:
as montanhas de Che-chlang, e muitos lugares em todo o Sul da John Day Coilipany, 1 940), pp. 1 53-68.
ge:
2 7 Ioseph Needham, Science and Civilization in China (Cambrid
Cambridge Úniversity Press, 1959), In, 592-98.
2 8 Conrad Malte-Brun , A System of Universal Geograph
y, trans. I. G.
25 KuQ' Hsi, An Essay on Landscape Painring, trans. Shio Sakanishi
(Londres: 10M Murray, 1935), pp. 54-55. Percival (Boston: Samuel Walker, 1 834), I, 4 1 3 .

146 147