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Ciência e Fé

Uma perspectiva histórica

A INQUISIÇÃO
E A CIÊNCIA


06.12.2016


programa das sessões

! Introdução
! Fé e Razão 1
! Fé e Razão 2
!   O Caso Galileu
! Os Jesuítas e a História da Ciência em Portugal
! Razão, Fé e Ciência na Idade Média
! Ciência e Ética: eticotécnica?
! Inquisição: Realidades e Mitos
!   Finale
Introdução
Ideias a reter
1.  A historiografia da Inquisição é recente (final do século XX) e não está terminada

2.  A Santa Sé (o Papa) apenas controlava directamente a Inquisição Romana

3.  Os tribunais civis aplicavam frequentemente a pena de morte

4.  Os tribunais civis condenavam e queimavam hereges (crime de lesa-majestade)

5.  A pena de morte era raramente aplicada pela Inquisição (cerca de 2% em Espanha)

6.  Os procedimentos inquisitoriais não eram arbitrários (as regras eram cumpridas)

7.  A Inquisição foi um avanço jurídico (a investigação era confidencial e o réu era ouvido)

8.  O recurso à tortura só era autorizado uma vez, e só havendo certeza da culpa

9.  Para serem válidas, as confissões tinham que ser feitas uma segunda vez sem tortura

10.  As condenações por bruxaria foram raras comparadas com as dos tribunais protestantes

11.  A Inquisição não perseguiu cientistas por causa do seu trabalho científico

3
Introdução
A "lenda negra" sobre Inquisição
!   Edward Peters, Universidade de Pennsylvania, Inquisition (1988)

«A Inquisição foi uma imagem montada a partir de um conjunto


de lendas e mitos que, entre os séculos XVI e XX, estabeleceram
o carácter dos tribunais inquisitoriais e influenciaram todos os
esforços para recuperar a sua realidade histórica.»

!   Henry Kamen, Oxford, The Spanish Inquisition (1997)


!   Os princípios de liberdade de pensamento, de expressão, de
religião, não tinham posição dominante na sociedade da época
!   A análise das várias inquisições deve ser feita no seu contexto
!   Motivações para a “lenda negra” criada em torno da Inquisição:
!  Propaganda protestante dos Países Baixos (uso da imprensa)
(Filipe II de Espanha era soberano dos Países Baixos)
!  Propaganda anti-espanhola ("la leyenda negra")
!  O nacionalismo anticatólico e crescentemente anti-espanhol do reinado de Isabel I de Inglaterra
!  O sentimento anticatólico de figuras importantes do Iluminismo (séc. XVIII)
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Introdução
A "lenda negra" sobre a Inquisição
!   Documentário: "The myth of the Spanish Inquisition"
!   BBC2 / Timewatch (1994)

Entrevistados:
!   Henry Kamen, Oxford, The Spanish Inquisition (1997)
!   Stephen Haliczer, Northern Illinois University
!   Jaime Contreras, Univ. Alcalá de Henares
!   José Álvarez Junco, Univ. Complutense Madrid, Tufts (Boston), Harvard

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Introdução
A "lenda negra" sobre a Inquisição
! Reginaldus Montanus, seria Antonio del Corro (1527-1591) ou Cassiodoro de Reina (c. 1520-1594)
! Sanctae Inquisitionis Hispanicae Artes aliquot detectae ac palam traductae, Heidelberg (1567)

«Seguramente, as perigosas práticas e horríveis execuções da


Inquisição Espanhola declaradas neste livro (...), as prisões repentinas
de homens honestos sem processo legal, os comoventes exílios e
pobreza de pessoas que foram ricas e prósperas (...) e as pobres crianças
banidas no peito das suas mães, o monstruoso quebrar, sem ordem
legal, de homens, o vil e vergonhoso tormentar de mulheres nuas para
lá de toda a humanidade, as suas mortes miseráveis sem piedade nem
misericórdia, o mais censurável triunfo da Sinagoga papista sobre os
Cristãos... a conquista de súbditos como se estes fossem inimigos, a
destruição insaciável dos bens dos homens para alimentar as magras
querelas levantadas contra Reinos e Nações (...) Pois quem é ignorante
acerca do santo Complô e Conspiração congeminado pelo Papa e seus
Campeões para a execução do concílio de Trento, e o estabelecimento
generalizado da Inquisição?» - do prefácio "The Translator to the
Reader", de Thomas Skinner (1568).
6
Introdução
A "lenda negra" sobre a Inquisição
!   Louis Ellies Dupin (1657-1719), “Memoires historiques, pour servir à l'histoire des Inquisitions : enrichis
de plusieurs figures (1716)”, gravura de Bernard Picart (1673-1733)

Vemos na gravura:
!   Inquisidor e assistentes
!   Porta fechada ao fundo
!   Homem pendurado
!   Pés queimados
!   Tormento da água (“cura
de agua”)

A gravura de Picart, embora


retrate formas reais de
tortura (usadas aliás nos tri-
bunais civis), tornou-se numa
referência em diversas obras
de propaganda anticatólica.
7
Introdução
A "lenda negra" sobre a Inquisição
!   Gravura de Alexander Hogg, Londres, 1780

Vemos na gravura:
!   Inquisidor e assistentes
!   Porta fechada ao fundo
!   Homens pendurados
!   Pés queimados
!   Tormento da água

Note-se a grande semelhança com


a gravura de Picart (de 1716).
(a disposição dos elementos está
horizontalmente invertida face à
gravura de Picart)

8
Introdução
A "lenda negra" sobre a Inquisição
!   Gravura de Modesto Rastrelli, “Fatti Attenenti all’Inquisizione”, Florença, 1783
!   “Modo di applicare i tormenti e la tortura ne` sotterranei dell’Inquisizione”

De novo, vemos na gravura:


!   Inquisidor e assistentes
!   Porta fechada ao fundo
!   Homem pendurado
!   Pés queimados
!   Tormento da água

É praticamente igual à gravura


de Picart (de 1716).
(a disposição dos elementos está
horizontalmente invertida face à
gravura de Picart)

9
A Inquisição Medieval

Medidas punitivas do Direito comum (civil)


!   A tortura era comum nos tribunais civis, uma herança do Direito Romano, reavivada na Idade Média
!   Contexto social:
!  Elevados índices de criminalidade e impossibilidade prática de um policiamento eficaz
!  Uso extenso dos castigos corporais com três finalidades: obter confissão, castigar e dissuadir
!  Aprovação generalizada, pela sociedade, de molduras penais pesadas e cruéis
!   Castigos corporais comuns nos sistemas judiciais civis:
!  Açoites, mutilações várias, pena de morte
!  Exposição pública dos criminosos (p. ex., nos pelourinhos)
!   Em França, no séc. XVIII, mais de uma centena de crimes recebiam a pena de morte
!   Em Portugal (Ordenações Filipinas, c. 1595), cerca de oitenta crimes recebiam a pena de morte
!   Pena de morte aplicada de diversas formas muito cruéis:
!  Evento público, tipicamente envolvendo muito sofrimento para os condenados (dissuasão)
!  França: esquartejamento, fogo, roda, forca, decapitação
!  Espanha: uso frequente do garrote
!  Imersão em chumbo fundido, água ou azeite a ferver
10
A Inquisição Medieval
Fase inicial (1184 – 1230)
!   Estrutura descentralizada: directrizes papais, mas os Bispos conduzem os processos locais
!   Papa Lúcio III (1181-1185), Sínodo de Verona (1184), Bula Ad abolendam
!   Objectivo da Bula: erradicar sobretudo as heresias cátara e valdense:
!  Cátaros: hereges gnósticos, sul de França (Languedoc)
!  Valdenses: seguidores de Pedro Valdo (Lião, 1177), rejeitavam a hierarquia eclesiástica
!   Heresia:
!  Adesão voluntária do intelecto a uma proposição contrária à doutrina católica
!  No foro interior, era considerada apenas como pecado
!  Quando professada publicamente, era um crime de lesa-majestade
!  Apenas aplicável a pessoas educadas na fé católica

Os Inquisidores (1231 – )
!   Gregório IX (1227-1241) cria o conceito de inquisidor em 1231
!   Inquisidor: juiz com mandato papal para julgar ofensas à doutrina; deve colaborar com o Bispo local
!   Inocêncio IV (1243-1254), na Bula Ad extirpanda (1252), autoriza o uso da tortura
11
A Inquisição Medieval
Tortura e morte na fogueira
!   Bula Ad extirpanda (Inocêncio IV, 1252), introduz e regulamenta o uso da tortura pelos inquisidores
!  Um método de extracção da confissão, e nunca um método de castigo
!  Sendo obtida uma confissão após a tortura, a confissão teria que ser feita de novo livremente no dia
seguinte, sob pena de a primeira confissão ser inválida
!  Não se podia colocar em risco a vida do réu, nem colocar em risco um membro do seu corpo
!  Só podia ser usada uma vez, mas em algumas (raras) vezes foi usada duas vezes
!  Não há um só registo de alguém ter sido torturado três vezes
!  O Inquisidor tinha que considerar como quase certas as acusações contra o arguido
!   A Bula concede ao Estado o direito a confiscar os bens do condenado (herança da Lei romana)
!   A Bula estabelece que compete ao Estado a execução das sentenças
!   O Imperador Frederico II (1194-1250) estabelece a pena de morte pelo fogo para os hereges
!   A Bula é associada por Inocêncio IV à legislação de Frederico II contra os hereges:
!   Lei Papal e moldura penal civil tornam-se inseparáveis
!   O conteúdo da Bula é reafirmado por vários Papas:
!  Alexandre IV (1254-61), Clemente IV (1265-68)
!  Nicolau IV (1288-1302), Bonifácio VIII (1294-1303)
12
A Reforma Protestante e a Contra-Reforma
As 95 teses de Martinho Lutero
!   Primeiras duas páginas das 95 teses, numa edição posterior (1522, Melchior Lotter, Wittenberg)

13
A Reforma Protestante e a Contra-Reforma
O evoluir do Protestantismo: a Europa em guerra
!   1517: Lutero afixa as 95 teses em Wittenberg
!   1523-31: Luteranismo na Suécia (Olaus, Petri, Andreae)
!   Protestantismo na Suiça (zwinglianismo e calvinismo):
!  1523: Zurique (Ulrich Zwingli)
!  1528: Berna
!  1536: Genebra
!  1541: Calvino em Genebra
!   Década de 1520: Anabaptismo na Holanda
!   1528-36: Luteranismo na Dinamarca-Noruega (Tausen)
!   1529-33: Início da Reforma Inglesa (Henrique VIII)
!   1555: Paz de Augsburgo (“cuius regio, eius religio”),
estabelece que a religião oficial (luterana ou católica) de cada
Estado do Sacro Império será a do príncipe desse Estado
!   1559: Início da Igreja Reformada de França (calvinista)
!   1560: Calvinismo na Escócia (John Knox)
!   Década de 1560: Calvinismo na Holanda
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A Reforma Protestante e a Contra-Reforma
O Concílio de Trento
!   13 de Dezembro de 1545 a 4 de Dezembro de 1563; 25 sessões
!   Sob 5 papas: Paulo III, Júlio III, Marcelo II, Paulo IV e Pio IV
!   Presentes: 5 cardeais, 3 patriarcas, 33 arcebispos, 235 bispos,
7 abades, 7 gerais de ordens monásticas e 160 teólogos
!   Foi convocado para examinar e condenar os erros de Lutero
e dos protestantes, e para reformar a disciplina da Igreja
!   Esteve na origem do movimento da Contra-Reforma:

!  Novas ordens religiosas: Jesuítas, Carmelitas Descalças, Ursulinas, Capuchinhos, etc.


!  Nova espiritualidade: Inácio de Loyola, Teresa de Ávila, João da Cruz, Francisco de Sales
!  Exuberância artística em contraste com a austeridade protestante
!   A Quarta Sessão, sobre as Sagradas Escrituras (8 de Abril de 1546, emitiu um decreto)
!  Igual prioridade à Tradição e às Sagradas Escrituras (Antigo e Novo Testamento)
!  As Sagradas Escrituras são ditadas pelo Espírito Santo quanto à fé salvífica e à disciplina moral

«Para restringir espíritos petulantes, decreta-se que ninguém, apoiando-se na sua própria perícia, poderá
em matéria de fé ou de moral (…) interpretar a dita Sagrada Escritura em sentido contrário ao da Santa
Madre Igreja (…) ou mesmo contrariamente ao consentimento unânime dos Padres (…)»
15
A Inquisição Espanhola (1478-1834)
Dimensão
!   Tribunais
!  Castela (11): Sevilha, Córdova, Toledo, Llerena, Valladolid, Murcia, Cuenca, Las Palmas, Logroño,
Granada e Santiago de Compostela
!  Aragão (4): Zaragoza, Valencia, Barcelona e Majorca
!  Outros (5): Palermo, Sassari (Sardenha), Lima (Peru), Ciudad de Mexico, Cartagena de Indias
(Colômbia)
!   Total de processos: 150.000 (estimativa de Garcia Carcél)
!   Sentenças de morte executadas: entre 3.000 e 5.000 (Carcél, Dedieu) em 350 anos
!   Sentenças de morte executadas por bruxaria: 59
!   1481-1530: focada na investigação dos Judeus
!   1530-1650: focada no Protestantismo, heresias e ofensas à fé cristã
!   1650-1720: de novo focada na investigação dos Judeus
!   A partir de 1720: queda na intensidade; orientação menos nítida

16
A Inquisição Portuguesa (1536-1821)
Dimensão
!   Entre 1540 e 1794, no total dos tribunais (Lisboa, Porto, Coimbra, Évora, Tomar, Goa):
!  1.183 pessoas condenadas à morte que foram mesmo queimadas
!  633 pessoas condenadas à morte que escaparam à morte e foram “queimadas” em efígie
!  29.611 pessoas condenadas a vários tipos de penitência, mas não à morte
!  Total de processos: 31.457
!  Acusação principal: judaísmo
!   1.183 pessoas em 255 anos corresponde a uma média de 5 condenados à morte por ano
!   Pessoas executadas por bruxaria: 4 pessoas

17
A Inquisição: estatísticas
Número total de mortos (milhares de pessoas): medida da dimensão

35 000 Inquisição
35 000 (1252-1794)

30 000
Peste Negra na Europa
25 000
(1348-1350)

20 000
20 000 Tribunais americanos
(1608-2010)
15 000

Portugal na Iª Guerra
10 000
Mundial (1916-1918)

5 000
Estaline (campos de
7 16 10
0 concentração e
colectivizações)

18
A Inquisição: estatísticas
Mortes por ano: medida do impacto social

Inquisição
11 666 667 (1252-1794)
12 000 000

10 000 000 Peste Negra na Europa


(1348-1350)
8 000 000
Tribunais americanos
6 000 000 (1608-2010)

4 000 000
Portugal na Iª Guerra
Mundial (1916-1918)
2 000 000 1 176 471
14 41 5 000 Estaline (campos de
0 concentração e
colectivizações)

19
A Inquisição: estatísticas
Mortes por ano: medida do impacto social

5 000
5 000
4 500
4 000 Inquisição
(1252-1794)
3 500
3 000
Tribunais americanos
2 500
(1608-2010)
2 000
1 500
Portugal na Iª Guerra
1 000 Mundial (1916-1918)
500
14 40,5
0

20
A Inquisição: estatísticas
Mortes por ano: medida do impacto social

18 000 16594
16 000
Inquisição
14 000
(1252-1794)
12 000
10 000 Enforcamento no Reino
8 000 Unido (1735-1964)

6 000
Penas de morte durante o
4 000 Terror (1793-1794)
2 000
14 55
0

21
A Inquisição: estatísticas
Sentenças de morte executadas pelo Estado após condenação pela Inquisição

5000
5 000
4 500
4 000
3 500
3 000 Espanhola

2 500 Portuguesa
2 000
Romana
1 500 1175 1250
1 000
500
0

22
A Inquisição: estatísticas
A Inquisição Espanhola (1478-1834): um Tribunal cruel?

Réu
executado,
1,80%

Réu não
executado,
98,20%

23
A Inquisição: estatísticas
Julgamentos por bruxaria (1450-1750)
50000
50 000

45 000
Ilhas Britânicas e América do Norte
40 000

35 000 Sacro Império


30000
30 000
França
25 000

20 000 Escandinávia
15 000
10000 Europa do Leste
10 000 7000
5000 5000
5 000 3000
2000
1000200020001000 Europa do Sul
0
Julgamentos Execuções
!   Total: 80.000 julgamentos, 35.000 execuções
!   Apenas os números da coluna "Europa do Sul" foram influenciados pela Inquisição
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A Inquisição Romana (1542 – c. 1860)
Dimensão
!   Entre 51.000 e 75.000 casos, cerca de 1.250 pessoas executadas (Cfr. Andrea del Col)
!   A esmagadora maioria dos casos investigados não visava filósofos ou professores
!   Acusações mais frequentes: protestantismo, judaísmo, imoralidade, blasfémia, bruxaria ou feitiçaria
!   Arquivo da Inquisição: 4.500 volumes, cerca de 610 metros lineares (Palácio do Santo Ofício, Roma)

Organização
!   Em 1542, o Papa Paulo III cria a Congregação do Santo Ofício da Inquisição (Bula Licet ab initio)
!   Em 1557, o Papa Paulo IV publica o Index Librorum Prohibitorum
!   Em 1571, o Papa Pio V cria a Congregação para a Reforma do Índice e Correcção de Livros
!   A Congregação do Índice não deve ser confundida com a Congregação do Santo Ofício
!   A primeira investigava, censurava e autorizava obras, e a segunda investigava e julgava pessoas
!   Arquivo do Índice: 328 volumes (originalmente em Santa Maria sopra Minerva, Roma)
!   Muitos livros eram proibidos transitoriamente: “donec corrigatur”, “donec expurgetur”
!   A atenção estava concentrada nas obras de autores protestantes (qualquer tema) ou divinatórias
!   Era frequente que todas as obras de um autor fossem colocadas no Índice por ele ser protestante

A inquisição Romana é uma reacção à Reforma Protestante


25
A Inquisição Romana (1542 – 1600)

A Inquisição Romana prejudicou a Ciência?


!   Depende do significado de Ciência, bem como das áreas do saber que preocupavam a Inquisição
!   Esse significado mudou muito desde Aristóteles:
!  "Scientia est cognitio per causas": a Ciência, para Aristóteles, consiste no conhecimento das causas
!  A Ciência moderna foi reduzida a conhecimento empiriométrico e empirioesquemático
!   Há que usar critérios modernos mas também aristotélicos para filtrar processos, autores e livros
!  Ciência em sentido moderno: Física experimental, Química, Biologia, Zoologia e Botânica,
Anatomia, Medicina e Farmácia, História Natural, etc.
!  Matemática "pura" e "aplicada" (Astronomia, Cosmografia, Geografia, Óptica, Estática, etc.)
!  Física (como disciplina da filosofia natural aristotélica)
!  Teologia Natural
!  Exegese Bíblica (sobretudo do livro do Génesis, devido ao seu conteúdo cosmogónico)
!  Cronologia Teórica (relacionada com a cronologia bíblica), mas não Cronologia Aplicada (História)
!  Astrologia (como "adivinhação matemática") e Adivinhação (genérica, hermética)
!  Magia Natural
!  Bibliografias e Enciclopédias
!  Filósofos, Intelectuais e Académicos de relevo 26
A Inquisição Romana (1542 – 1600)
A Inquisição Romana e as obras científicas
!   A censura às obras científicas focou-se nos conteúdos de astrologia judiciária (divinatória)
!   Os processos resultam de circunstâncias ocasionais (denúncias, por exemplo)
!   O secretismo do processo protegia a privacidade e o estatuto social do inquirido
O problema da Astrologia
!   Astrologia natural: amplamente aceite (Isidoro de Sevilha, Alberto Magno, Tomás de Aquino, etc.)
!  Relação causa-efeito entre os astros e eventos orgânicos ou físicos
!  Autorizada, se aplicada a três áreas: medicina, agricultura e navegação
!   Astrologia judiciária: amplamente condenada (Agostinho, Alberto Magno, Tomás de Aquino, etc.)
!  Relação causa-efeito entre os astros e as acções humanas ou o destino da vida humana
!  Incompatível com a imaterialidade da alma (como tal, imune aos efeitos dos astros)
!  Determinística: incompatível com o livre arbítrio e com a responsabilidade moral
!  Todavia, tolerada nas Universidades e praticada pelas elites (mesmo pelo clero)
!   O ensino universitário da astrologia motivou, no séc. XIV, a introdução da Matemática nos currículos

A complexidade da natureza dava espaço para a astrologia natural: era mais fácil
refutar as previsões da astrologia judiciária do que as da natural
27
A Inquisição Romana (1542 – 1600)
A Inquisição Romana e as obras científicas
!   Giovanni Pico della Mirandola (1463-94), Disputationes adversus astrologiam divinicatrium
!   Apesar da obra de Pico, o “combate” à astrologia só ganha vigor com o Concílio de Trento (1545-63)
!  O Index Librorum Prohibitorum (1557, Paulo IV, revisto em 1559):
!  Deveriam ser censurados “todos os livros [de astrologia] (…) excepto observações naturais escritas
para servirem à navegação, agricultura e medicina”
!  O Index Tridentinum (1564, Pio IV) seguiu a mesma tendência
!  Bula Coeli et terrae creator Deus (1586, Sisto V), primeiro documento magisterial inteiramente
dedicado à astrologia
!  A Bula gerou protestos (mesmo internos): pedia-se que o seu rigor fosse afrouxado, alegando-se
dificuldade na sua aplicação (distinguir astrologia judiciária da natural)
!  A astrologia continuou a ser ensinada nas Universidades (Bolonha, Pádua, Pavia, etc.)
!   Esta censura introduziu melhorias progressivas na forma de fazer astronomia, "purgando" as obras:
!  "Ciência": as medições, observações, cálculos e propriedades físicas dos astros
!  "Pseudo-Ciência": as especulações acerca da influência dos astros na vida humana

A censura à astrologia judiciária foi separando,


socialmente, o astrónomo do astrólogo 28
A Inquisição Romana (1542 – 1600)
A Inquisição Romana e as obras científicas
!   Autores não foram proibidos pelo conteúdo das suas obras ou pelas suas ideias científicas
!   Foram proibidos:
!  Pela sua filiação protestante ou proximidade ao protestantismo
!  Pela prática de disciplinas problemáticas (astrologia judiciária, magia, psicologia)
!   Não eram visadas obras técnicas mas sim divulgações; ex.: não se proibiram os Principia de Newton
mas divulgações como os Elementos de Voltaire (por causa do autor)
!   Os critérios mudavam: certos autores entraram e saíram do índice várias vezes (ex.: Ramón Lull)
!   Muitas obras não foram inteiramente proibidas mas sim "donec corrigatur" ou "donec expurgetur"

Principais Critérios de Censura


!   1. Geral: "Verum congruit cum vero": combater a tese da dupla verdade (Latrão V)
!   2. Index de 1557, 1559, 1564 (Trento): astrologia judiciária (divinatória)
!   3. Magia: quase sempre problemática por não ter suporte académico
!   4. Psicologia
!   5. Protestantismo do autor

29
A Inquisição Romana (1542 – 1600)
A Inquisição Romana e as obras científicas: impacto dos processos (séc. XVI)

«Deve ser enfatizado que a maior parte destes julgamentos não decorreu de acusações acerca de ideias
científicas ou filosóficas, ou então apenas de forma oblíqua. Na maioria dos casos, o réu foi acusado de
heresia (Protestantismo ou simpatia por Protestantes), ou pela posse de livros proibidos ou então por magia,
defesa ou prática de astrologia judiciária e adivinhação. Apenas nos julgamentos de Borri, Bruno e
Stigliola o Santo Ofício examinou ideias filosóficas ou científicas, incluindo psicologia heterodoxa (Borri) e
no caso de Bruno cosmologia (heliocentrismo, pluralidade dos mundos). No julgamento de Stigliola, a
defesa do heliocentrismo foi mencionada num depoimento, mas não se sabe se tal deu origem a uma
acusação explícita.» - Baldini, Spruit, "The Catholic Church and Modern Science", Vol. 1, Tomo 1, p. 70.

!   O impacto na vida pessoal e profissional dos julgados não foi, regra geral, nem sério nem grave
!  Apenas Giordano Bruno (1548-1600) foi executado na fogueira em Roma (Campo dei Fiori)
! Girolamo Borri (1512-1592) e Ulisse Aldrovandi (1522-1605) retomaram o ensino universitário
!  Nicola Stigliola (1546-1623) prossegui carreira como arquitecto e professor em Nápoles
!  Henri van Veen, "Henricus de Ven" (c.1570-1613), foi professor na Univ. de Franeker, Friesland
! Cardano (1501-1576) perdeu a cátedra de Bolonha, mas em Roma foi médico de vários Cardeais
! Matteo Tafuri (1492-1584) teorizou e praticou magia e astrologia, mesmo depois do seu julgamento
! Tommaso Campanella (1568-1639) foi julgado por conspiração anti-Espanhola na Calábria 30
A Inquisição Romana (1542 – 1600)
A Inquisição Romana e as obras científicas: estatísticas (séc. XVI)
!   Total de autores investigados no século XVI: 76 autores
!  Primeira classe (autores condenados por heresia): 30 autores (obras proibidas)
!  Segunda classe (autores não condenados por heresia): 27 autores (obras a corrigir/purgar)
!  Não proibidos: 19 autores (obras autorizadas)
!   Houve considerável incoerência na classificação
!   Entre edições do Índice havia obras que desapareciam
!   Os projectos de correcção das obras de segunda classe falharam em grande parte
!   O impacto do Índice deve ter em consideração:
!  O mercado clandestino de livros proibidos: se havia livrarias especializadas neles, é porque havia
mercado; havia frequentes acções de confisco, logo havia ampla circulação de livros proibidos
!  A concessão de autorizações de leitura
!  A desobediência ao Índice
!  A ignorância de que certa obra estava no Índice
!  As bibliotecas privadas continham frequentemente obras proibidas
!  Era possível obter licenças para possuir e ler livros herdados, apesar de proibidos

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A Inquisição Romana (1542 – 1600)
A Inquisição Romana e as obras científicas: estatísticas (séc. XVI)
!   Não houve o objectivo explícito de combater filosofia ou ciência não-aristotélica ou não-escolástica
!  Os censores eram teólogos da tradição escolástica (aristotélica), mas o seu alvo era a heresia
!  As obras determinantes para a história da ciência não foram significativamente afectadas
!  No entanto, foram censuradas certas obras de divulgação, devido à heterodoxia do seu autor
!   Autorizações de leitura:
!  Os Gerais das Ordens Religiosas podiam gerir internamente as suas licenças ilimitadas
!  Principais solicitadores: médicos (22 pedidos), eclesiásticos (33 pedidos), aristocratas (13 pedidos)
!  Mais solicitados: Cardano (astrologia aplicada à medicina), Gessner (biologia), Fuchs e Münster
!  Não há uma relação directa e óbvia entre a categoria profissiona/social e a obra/autor solicitados
!   Por temas:
!  Astrologia: 6 em 16
!  Medicina: 5 em 5
!  Filosofia: 3 em 6

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A Inquisição Romana (1542 – 1600)
A Inquisição Romana e as obras científicas: estatísticas (séc. XVI)
!   A maior parte dos autores proibidos por serem hereges eram estrangeiros (protestantes):
!  Ou já tinham morrido, ou estavam fora do alcance dos tribunais inquisitoriais.
!   O intervalo de tempo entre a publicação de um livro e a sua colocação no Índex era grande:
!  Frequentemente, era o tempo suficiente para permitir a sua leitura pelo público-alvo
!   Os debates em torno das censuras do Índex davam a conhecer as obras/autores censurados
!   Evitar dois extremos:
!  Que a censura foi determinante ou afectou significativamente o desenvolvimento da Ciência
!  Que a censura não teve impacto negativo nos meios letrados e intelectuais

«(...) a maioria dos estudos na relação entre a Igreja Católica e a ciência e filosofia modernas foram caracterizados
por uma tendência fortemente anticlerical. Foi assumido de forma generalizada que censores ignorantes e uma
atitude fundamentalmente negativa para com desenvolvimentos intelectuais modernos teriam causado o declínio
da ciência e filosofia natural nas penínsulas Italiana e Ibérica em comparação com a Europa Protestante. (...) É
certo que o impacto da censura Católica no clima intelectual da Europa do Sul não pode ser minimizado, em
especial nos eventos dramáticos em torno de figuras como Bruno ou Galileu. Todavia, pesquisa recente sobre a
cultura científica e filosófica das principais Ordens religiosas, com destaque para a Sociedade de Jesus, mostra que
o papel da Igreja Católica já não pode mais ser analisado apenas nos termos de um puro obstáculo ao progresso
científico.» - Baldini, Spruit, "The Catholic Church and Modern Science", Vol. 1, Tomo 1, p. 85. 33
A Inquisição Romana (1542 – 1600)

Nome Data Razão Sentença Desfecho


Ulisse Aldrovandi 1549-1550 SimpaMas protestantes Abjuração Libertado
sob fiança
1571-1573 Testemunho N/A N/A
Girolamo Borri 1551-1553 Luteranismo N/A Libertado
1562-1565 Sacramentarianismo, posse N/A Libertado
de livros proibidos
1570-1574 N/A N/A Libertado
1583 Mortalidade da alma Abjuração Libertado
1583 Posse de livros proibidos N/A Libertado
Giordano Bruno 1592-1600 Heresia (cristologia, Entregue ao Queimado na
trindade, psicologia, etc.) braço secular fogueira
Tommaso Campanella 1593-1595 Heresia, posse de livros Abjuração Prisão
proibidos
1597 Heresia Absolvição Libertado
Girolamo Cardano 1570-1571 Heresia Abjuração Libertado
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A Inquisição Romana (1542 – 1600)

Nome Data Razão Sentença Desfecho


Giovan Ba@sta Della 1574-1578 Astrologia, posse de livros Purga&o Libertado
Porta proibidos canonica

Gugliemo Grataroli 1544 Heresia Abjuração N/A


1550-1551 Heresia Condenado Fugiu
Simone Simoni 1583 Heresia Reconciliação N/A
1592/1600 Pedido para visitar Itália N/A Salvo-
conduto
Nicola Antonio SCgliola 1595-1596 SimpaMas protestantes N/A Libertado
sob fiança
MaEeo Tafuri 1569-1571 Magia, astrologia N/A Libertado
1581 Astrologia N/A N/A
Henricus de Veno 1597-1598 ProtestanMsmo Abjuração Prisão curta
Libertado
Giovanni Ba@sta 1585 Heresia Abjuração Prisão curta
VertemaC Libertado
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Bibliografia

Edward Peters, Henry Kamen, Thomas F. Mayer, Ugo Baldini, Leen Spruit
Inquisition The Spanish Inquisition The Roman Inquisition Catholic Church and
Modern Science

(University of Pennsylvania (Yale University Press, (University of Pennsylvania (Libreria Editrice Vaticana,
Press, 1988) 1999) Press, 2013) Roma, 2009)

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