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Direito das Pessoas e das Situações Jurídicas

(casos práticos resolvidos)

1. A associação recreativa A mantém em funcionamento um campo de tiro aos


pratos num ponto situado a cerca de 75 metros de uma zona habitacional.

Tal actividade está licenciada pela Câmara Municipal respectiva.

Apesar disso, B, morador vizinho, intentou acção judicial contra A, fundado no


artigo 70º do Código Civil, provando que a referida actividade:

- se desenvolve especialmente nas noites de sexta-feira para sábado, para além


das 24 horas;

- que o ruído causado lhe impede o sono e lhe causa um “estado de nervos”
permanente;

- que os estilhaços dos pratos voam chocam contra

. a sua habitação;

. o seu automóvel, estacionado no parqueamento situado entre a dita


habitação e o campo de tiro em causa;

. diversos transeuntes, incluindo o próprio B.

a) Individualize e caracterize os direitos que B está a invocar para fundar a acção


que intentou.

Tópicos de resolução:
B está a invocar, pelo menos, direitos subjectivos de duas naturezas distintas:

- direitos de personalidade e, designadamente, os direitos à saúde, ao descanso


e ao sono;

- direitos de propriedade sobre a sua habitação e o seu automóvel.

Todos são direitos subjectivos de carácter absoluto, isto é, existem e valem


independentemente de relação jurídica ou, o que é o mesmo, valem por si, sem
necessidade de qualquer situação jurídica simétrica que os sustentem.

Os primeiros, contudo, são direitos de natureza pessoal (talvez até


pessoalíssima), na medida em que não só são desprovidos de valor de troca, como são
também, regra geral, inalienáveis e irrenunciáveis.

Os segundos são o protótipo dos direitos subjectivos patrimoniais e, quase por


definição, são direitos disponíveis.

b) O fundamento legal da acção seria suficiente para todos os direitos que


identificou na alínea anterior?

Tópicos de resolução:

Supondo que B fundamentou a acção interposta apenas na disposição contida


no artigo 70º do Cód.Civil, isso seria base mínima suficiente para os pedidos relativos
à protecção dos direitos de personalidade assinalados. Não serviria, porém, para
fundar os pedidos relativos à protecção dos direitos de propriedade envolvidos dado
que o disposto no referido artigo 70º não os abrange. Para estes, a disposição que
basicamente B deveria invocar seria a que está contida no artigo 1346º do Cód.Civil.

Evidentemente, se B estiver também a pedir a reparação de danos


eventualmente já sofridos, deveria fundamentar o pedido correspondente no disposto no
artigo 483º/n.º 1 do Cód.Civil, tanto no que concerne aos direitos de personalidade,
como no que respeita aos direitos de propriedade.
c) Suponha que, muito antes de ter surgido o litígio entre B e A, ambos tinham
acordado que, a troco da doação de um automóvel, aquele aceitava que o campo de tiro
pudesse funcionar a qualquer hora do dia ou da noite. E, isto ficou reduzido a escrito.
Mas, agora, como intentou a acção acima identificada, B pretende desfazer o dito
acordo.

i. Poderá? Com que consequências?

Tópicos de resolução:

A primeira questão que se coloca consiste em saber se seria sequer admissível


que B pudesse contratar aquilo que contratou. Como se disse atrás, se os direitos de
personalidade são direitos indisponíveis, isso quer dizer, entre outras coisas, que são
irrenunciáveis e intransmissíveis.

Todavia, nos termos do artigo 81º do Cód.Civil, admite-se que o titular de


direitos de personalidade possa, licitamente, autorizar terceiros à prática de actos dos
quais resulte ou possa resultar ofensa a algum dos referidos direitos. Do ponto de vista
do titular atingido diz-se então que este sofre uma limitação voluntária, isto é,
consentida, a algum direito de personalidade. Consentimento que legitima a actuação
daqueles terceiros.

Ao contrário do consentimento a que se reporta o artigo 340º do Cód.Civil, na


hipótese do artigo 81º do Cód.Civil não está em causa apenas reputar tolerada a
ingerência de terceiro sobre certo direito do lesado, mas trata-se, diversamente, de
atribuir a terceiro o direito deste actuar ainda que daí possa resultar ofensa a direitos
de personalidade daquele que consentiu. Por isso se diz que na situação prevista pelo
artigo 81º do Cód.Civil o consentimento é autorizante.

A chave para decidir, porém, se tal consentimento autoriza efectivamente, ou


seja, se o próprio consentimento é lícito, está em saber se foi ou não emitido em
contrariedade aos princípios de ordem pública (interna).
A remissão para a ordem pública é sempre problemática por causa da sua
indeterminação. Mas crê-se que, neste âmbito, a ideia-chave há-de ser
aproximadamente a seguinte: o consentimento será lícito sempre que não se afigure
inadmissível do ponto de vista da moral social dominante (v.g. é admissível que se
celebre um contrato para a prestação do serviço de lavagem de janelas num arranha-
céus com cem andares mas já é inaceitável que alguém celebre um contrato pelo qual
se obrigue a sujeitar-se a actos de tortura, ainda que leve).

Aplicando à hipótese, isto permite concluir que nada obstaculizará a validade


do acordo celebrado entre A e B. Pelo que, por conseguinte, o consentimento conferido
por B para A manter em funcionamento o campo de tiro concede a este o direito de o
fazer.

Sucede que, no entanto, como estão em causa direitos de importância


transcendental, concede-se àquele que autorizou a ingerência de terceiro nos seus bens
de personalidade o poder de resolver unilateralmente o contrato que fundamenta o
referido direito de terceiro.

Assim, na hipótese, B poderia, a todo o tempo e arbitrariamente, resolver o


acordo celebrado com A, não podendo, por isso, o funcionamento do campo de tiro
permanecer com base no contrato anteriormente celebrado entre ambos.

Resta uma questão: como se diz no artigo 81º do Cód.Civil, o exercício do poder
de resolução unilateral conferido ao titular do direito de personalidade que se auto-
limitou acarreta a obrigação de compensar o terceiro que beneficiava do direito de
ingerência pela frustração das expectativas deste. Embora cientificamente esta
obrigação de compensação não tenha (ainda) obtido uma suficiente determinação,
afigura-se que não pode estar em causa uma pura obrigação de indemnização (nos
termos gerais do artigos 562º e segs., Cód.Civil), até porque isso poderia facilmente
inviabilizar, na prática, a vantagem que se pretendeu atribuir ao titular do direito de
personalidade. Justificar-se-á, no máximo, que o titular do direito de personalidade
responda pelos danos directamente emergentes da resolução do consentimento que
anteriormente havia proferido.
ii. Suponha que B era inabilitado? Poderia sequer ter celebrado o acordo
em questão?

Tópicos de resolução:

A inabilitação provoca uma incapacidade de exercício.

Por comparação tanto com a menoridade como com a interdição, a inabilitação


é, no entanto, uma incapacidade de exercício com um âmbito menor.

Por um lado, regra geral, porque o inabilitado pode actuar pessoalmente, ou


seja, é ele quem juridicamente actua por norma. Sucede é que, nessa actuação, deve ser
assistido por um curador, cuja função consiste em autorizar/não autorizar os actos do
inabilitado (artigo 153º/n.º 1, Cód.Civil). Por isso se diz que o inabilitado apenas não
pode actuar livremente. Só a título excepcional a inabilitação acarretará impedimento
para a actuação pessoal do inabilitado – mas é necessário, para tal, que a decisão
judicial que decrete a inabilitação atribua ao curador poderes de representação do
inabilitado (artigo 154º, Cód.Civil).

Por outro lado, porque a assistência do curador apenas se deverá reportar aos
actos de natureza patrimonial praticados pelo inabilitado. É o que se pode inferir a
partir do disposto nos artigos 152º/in fine e 153º/n.º 1 do Cód.Civil.

É verdade que atendendo ao disposto no artigo 153º/n.º 1/in fine do Cód.Civil,


poder-se-á pensar, ainda que a título excepcional, na extensão da inabilitação a
actuações de natureza pessoal. Mas, em geral, não poderá afectar actuações fundadas
no exercício de direitos de personalidade. Tratando-se de direitos pessoalíssimos não
faz sequer sentido que o seu exercício/não exercício possa ficar dependente do
consentimento de terceiro (assistente legal) quando justamente se parte do pressuposto
da aptidão do inabilitado para a actuação pessoal. Por outras palavras, em geral, o
inabilitado não é inabilitado para o exercício de direitos pessoais, maxime, direitos de
personalidade.

Como, no caso concreto, a celebração do contrato em causa implica para B


uma autolimitação (de certos) dos seus direitos de personalidade, B poderia celebrá-lo
pessoal e livremente porque, como se frisou, quanto a esses direitos não sofre de
incapacidade de exercício.

2. Em 5/Maio/2011, A comprou a B os pêssegos produzidos pelo seu pomar, por


€ 2.000.

Uma vez que os pêssegos da faixa Este do pomar não se encontravam ainda
maduros, convencionaram que A apenas colheria os pêssegos dessa faixa dois meses
após a celebração do contrato, altura em que estaria concluída a respectiva maturação,
procedendo à colheita dos restantes, já devidamente maduros na data da compra, logo
no dia seguinte à conclusão do contrato.

No dia 6/Maio/2011, A procedeu à colheita dos frutos maduros (cerca de


metade), altura em que pagou a totalidade do preço.

a) Qual o objecto do contrato em apreço? Justifique.

Tópicos de resolução:

Em qualquer caso, a compra e venda incide sobre coisa objectivamente futura,


uma vez que, tanto os frutos maduros, como os que estão prontos a ser colhidos, ainda
não foram separados das respectivas árvores. Até lá continuam a ser partes integrantes
do prédio ao qual as árvores que os produzem estão ligadas. E são, por isso, coisas
imóveis [artigo 204º, n.º 1, alínea c)]. Assim, somente com a separação das árvores a
que estavam presos, tais frutos passariam a ser coisas presentes.

b) Enquanto não procede à colheita, qual a situação jurídica de A? Justifique.

Tópicos de resolução:

Em qualquer negócio sobre coisa futura, o adquirente é titular de uma


expectativa jurídica. Por outras palavras:
i) está à espera da aquisição de um direito – no caso, a propriedade sobre os
frutos – que há-de eventualmente concretizar-se no futuro – na hipótese, quando os
frutos poderem ser separados das árvores a que pertencem e o forem, de facto: por isto,
é expectativa;

ii) tal esperança é jurídica na medida em que recebe tutela do Direito, por si
própria, independentemente da sua materialização (ou seja, quer os frutos sejam
colhidos, quer não); esta tutela extrai-se dos artigos 272º e 273º, na medida em que
qualquer negócio sobre coisa futura fica sujeito implicitamente sujeito a condição
suspensiva.

3. a. Descrito na Conservatória do Registo Predial da Ribeira Grande sob o


n.o 00425/220988 da freguesia do Pico da Pedra, concelho da Ribeira Grande, encontra-
se registada a aquisição, a favor de A, de um prédio rústico situado ao Pico de Água,
Cerrados da Eira, com 174,40 ares de terra.

b. No prédio referido em a., a EDP instalou duas linhas de transporte de energia


eléctrica com 60 kV cada, concretamente a linha "CT do Caldeirão - SE da Lagoa" e a
linha "SE de Milhafres - SE da Lagoa".

c. Tais linhas assentam numa torre, passando por cima daquele prédio numa
extensão superior a 100 metros e numa largura de 20 metros.

d. A DRE concedeu licença de exploração daquelas linhas.

e. É tecnicamente inviável para a EDP remover do prédio mencionado em a. a


torre referida em c. e as linhas aéreas que suporta, quer alterando o seu trajecto, quer
inserindo-as subterraneamente.

f. O território da Região Autónoma dos Açores caracteriza-se por elevada


sismicidade, sendo frequentes precipitações intensas e ventos fortes; em caso de sismo,
existe o risco de as linhas referidas em b. caírem sobre a casa construída por A.
g. As instalações referidas em b. e c. impedem que os filhos de A brinquem no
prédio referido em a. com papagaios ou quaisquer outros brinquedos que possam tocar
nas linhas.

h. Desde a instalação das estruturas referidas em b. e c., funcionários da EDP ou


outras pessoas ao seu serviço por mais de vinte vezes entraram no prédio referido em a.

i. Em caso de chuva ou ventos fortes, ou de muita carga nas linhas e por força de
efeitos de indução causados por esses factores, aquelas emitem um ruído semelhante ao
de um curto-circuito.

a) Suponha que A intenta acção contra EDP pedindo o desvio das linhas de alta
tensão em causa. Que fundamentos poderia invocar para o efeito?

Tópicos de resolução:

“A lei protege os indivíduos contra qualquer ofensa ilícita ou ameaça de


ofensa à sua personalidade física ou moral”.

“… A pessoa ameaçada ou ofendida pode requerer as providências


adequadas às circunstâncias do caso, com o fim de evitar a consumação da
ameaça ou atenuar os efeitos da ofensa já cometida” (artigo 70º).

Os direitos aqui em causa e cuja violação, ou perigo de violação, estaria em


consideração seriam fundamentalmente os de personalidade do proprietário
do prédio e os da sua família. Designadamente:

- à vida (artigo 24º, Constituição);

- à integridade física (artigo 25º, Constituição);

- à saúde (artigo 64º, Constituição);

- eventualmente, à privacidade (artigo 26º, Constituição).


Fora deste âmbito, o direito de propriedade sobre o referido imóvel estaria
igualmente condicionado mas, em princípio, licitamente (em virtude de ter
sido dada autorização pela DRE para instalação dos cabos de alta tensão).
Por isso, a menos que se verificassem algumas das hipóteses dos artigos
1346º ou 1347º, o respectivo titular não se poderia opor esta via .

b) Tendo em conta o que se diz no ponto 5., que solução lhe pareceria mais
ajustada?

Tópicos de resolução:

Trata-se de um caso de colisão de direitos (artigo 335º): entre direitos de


personalidade, de um lado, e o direito à livre iniciativa económica, do outro
(artigo 61º, Constituição).

São direitos de espécie ou qualidade diferente. Ora, tem-se entendido que os


direitos de personalidade, por serem os mais importantes de todos,
prevalecem sempre, em caso de conflito no exercício, perante os demais.
Portanto, quaisquer que fossem os argumentos invocados pela EDP, os
cabos de alta tensão não poderiam permanecer no local.

4. a. C é uma pessoa colectiva de utilidade pública composta por indivíduos,


nacionais ou estrangeiros, e pessoas colectivas sem fins lucrativos.

b. Na revista Propriedade Urbana (n.º 394), órgão oficioso da ré, foi publicada
convocatória da assembleia geral para se reunir no dia 4 de Julho, pelas 16 horas na sua
sede social sita em Lisboa.

c. Sendo a seguinte a ordem de trabalhos:

“I - Apreciar, aprovar ou modificar o Relatório, Balanço e Contas e Parecer do


Conselho Fiscal relativos ao exercício findo de 31 de Dezembro de 2001;
II - Eleição para os órgãos sociais para o período de Julho de 2002 a 30 de Junho
de 2005;

III – Outros assuntos”.

d. Da acta da assembleia geral em questão, consta que, dos 309 sócios


inscritos, votaram 231, havendo 78 abstenções ou ausências devido ao adiantado da
hora, e que a lista A obteve 7 votos a favor e a lista B 224 votos.

e. Nos votos a favor da lista A incluíam-se 50 por procuração.

f. Para efectuar a eleição, a mesa da assembleia ordenou aos presentes que quem
votasse a favor de cada uma das listas ficasse sentado e quem votasse contra se
levantasse.

a) Os associados referidos no ponto e. poderiam ter votado por procuração?

Tópicos de resolução:

A qualidade de associado é pessoal, mas nem todos os direitos com ela


conexionados são estritamente pessoais.

Nestes termos:

- a qualidade de associado é intransmissível; o que significa, sobretudo, que


cessa pela sua morte (ou extinção, se o associado for outra pessoa
colectiva);

- os direitos pessoais ligados a tal qualidade não podem ser exercidos


através de representante.

Num caso e noutro, porém, admite-se que os estatutos disponham


diversamente. Portanto, no caso concreto, tudo dependeria daquilo que os
estatutos estabelecessem.
b) A convocatória poderia ter sido feita nos termos descritos no ponto b.?

Tópicos de resolução:

A assembleia geral pode ser convocada por um de dois meios: ou por aviso
postal, nos termos do n.º 1; ou por publicação do respectivo aviso através do
sítio www.mj.gov.pt/publicacoes. Como isso não sucedeu no caso concreto, a
convocação foi irregularmente efectuada. O vício apenas ficaria sanado se
todos os associados comparecessem e nenhum deles se deduzisse oposição à
realização da assembleia (o que não parece ter sucedido).

c) De acordo com o que se diz no ponto d., os quóruns constitutivo e deliberativo


estariam verificados?

Tópicos de resolução:

O quorum constitutivo das assembleias gerais deve ser formado, no mínimo,


em primeira convocatória, por metade do conjunto de associados. Para uma
segunda convocatória (a realizar, por exemplo, horas, dias ou semanas
depois), a lei já não estabelece quorum mínimo obrigatório. Cabe entender,
por conseguinte, que, em tal circunstancialismo, qualquer número é
admissível desde que esteja presente uma pluralidade de associados. A
menos, como é natural, que os estatutos prevejam diferentemente.

O quorum exigido para a generalidade das deliberações é o correspondente


à maioria absoluta dos associados presentes. Contudo, quer a promoção de
alterações estatutárias, quer as deliberações relativas à dissolução ou
prorrogação da associação, dependem de aprovação por maiorias
qualificadas: três quartos dos associados presentes, na primeira hipótese;
três quartos de todos os associados, nas restantes duas. Como não é o caso
da hipótese, funcionaria a regra geral do n.º 2 do artigo 175º.
a) A votação mencionada no ponto f. poder-se-ia ter processado nos termos
relatados?

Tópicos de resolução:

Os estatutos são soberanos em matéria de organização e funcionamento das


associação.. O que significa, por exemplo, que é possível a designação por
processo não eleitoral (v.g., nomeação por terceiro ou por algum associado
em particular), por cooptação ou por escolha (eleitoral ou não) promovida
por outro órgão, etc. Tudo dependerá, até, do número de órgãos que exista e
das respectivas competências. Admite-se, por conseguinte, se assim estiver
previsto nos estatutos da associação C, que a votação se processasse nos
termos relatados.

5. A vendeu a B, por € 50.000, um camião no qual, antes da entrega ao


comprador, ainda deveria ser instalada a carroçaria e a báscula.

Se, antes de tal entrega ser efectuada, o camião ficasse destruído por um
incêndio, B deveria, não obstante isso, pagar o respectivo preço?

Tópicos de resolução:

Segundo o critério corrente, a coisa futura pode sê-lo objectivamente (por


ainda não existir de todo ou por ainda não existir enquanto coisa) ou
subjectivamente (quando, pertencendo a terceiro, as partes a consideram,
para certo efeito – negocial, portanto – susceptível de vir a pertencer a uma
delas – cf., por exemplo, o disposto no artigo 893º). O camião, no caso
concreto, cabe na primeira espécie de coisa futura, uma vez que somente se
tornaria coisa presente no instante em que nele fosse instalada a carroçaria
e a báscula: até isso suceder, não era coisa por ainda estar incompleto.
Os direitos sobre coisas futuras somente se transmitem quando (e se) ela se tornar
presente (artigo 408º, n.º 2). Portanto, o camião ainda pertencia a A no instante em que
foi destruído pelo incêndio. Logo, res perit domino: ou seja, a coisa perece contra o seu
dono (o A) e não contra quem (ainda) o não é. B não se encontrava, por isso, obrigado
a pagar o preço.

6. O médico pessoal de A diagnosticou-lhe uma doença rara, altamente


contagiosa. O tratamento revelou-se infrutífero, vindo aquele a falecer passados dois
meses. Sendo A pessoa com alguma notoriedade, o facto acabou por ser do
conhecimento do jornal “O Sensacional”. Um primo afastado de A, tendo conhecimento
de que o jornal se preparava para publicar a notícia correspondente, pretende actuar
judicialmente de modo a impedir a divulgação.

a) A referida notícia poderia ser publicada sem necessidade de consentimento?

Tópicos de resolução:

Os dados relativos à saúde pessoal integram o âmbito de protecção legal e


constitucional do direito à reserva da intimidade da vida privada (artigo
81º). Essa protecção estende-se para além da morte do titular. Embora a
personalidade jurídica das pessoas cesse com a morte, algumas das suas
vertentes, como é o caso da honra e consideração, destacam-se e são
protegidas para além do decesso. A máxima segundo a qual “mors omnia
iura solvit” não pode deixar de ser reconhecida. Isso não impede, todavia,
que a protecção da personalidade de pessoa falecida possa permanecer após
a sua morte.
A controvérsia reside na forma como se explica e constrói esta tutela “post
mortem”. Uma coisa é certa: contradiz o ponto de partida (resultante do n.º
1 do artigo 68º) sustentar a continuação da personalidade depois da morte,
ainda que tal afirmação opere apenas para efeitos ligados à titularidade de
direitos de personalidade. O mesmo se diga, mutatis mutandis, relativamente
àquela tese que sustenta a translação destes direitos, por via mortis causa,
para as pessoas identificadas pelo n.º 2 da presente disposição. Verificar-se-
ia, de novo, uma dissonância, agora entre o carácter pessoalíssimo destes
direitos e a sua alegada transmissibilidade, o que não só contrariaria as
regras gerais, como, especificamente nestas circunstâncias, defrontaria as
disposições contidas nos artigos 2024º e 2025º, n.º 1. Assim, como se vai
tornando doutrina dominante, outro remédio não resta a não ser aquele que
passa por asseverar que os direitos de personalidade do “de cuius” se
extinguem com a sua morte, nascendo embora, nesse instante, um direito das
pessoas enumeradas pelo n.º 2 deste artigo à “preservação da memória” da
pessoa falecida entre os vivos (também criminalmente tutelado através do
disposto no artigo 185º do Código Penal).

b) O primo de A teria legitimidade para se opor e/ou para dar o consentimento


eventualmente necessário?

Tópicos de resolução:

Aspecto difícil é o que se relaciona com a determinação dos titulares deste


direito “à memória” e, consequentemente, com a concretização dos
legitimados, quer para o possível pedido de indemnização civil, quer para
promoção do procedimento a que se referem os artigos 1474º e 1475º do
Código de Processo Civil, quer para, por fim e eventualmente, darem o
consentimento capaz de excluir a ilicitude da agressão perpetrada. Tais
legitimados serão certamente as pessoas descritas pelo n.º 2. Mas em
conjunção, em solidariedade ou sucessivamente, na falta ou impedimento
das anteriores?
A primeira hipótese deve ser liminarmente excluída pelas óbvias
dificuldades de ordem prática que a solução contrária determinaria. Trata-
se, de facto, de um conjunto demasiadamente numeroso de pessoas para que
a obtenção da unanimidade fosse geralmente exequível.
Na jurisprudência é relativamente vulgar considerar-se que a referida
legitimidade tem natureza solidária (cf., por exemplo, o acórdão da Relação
de Coimbra de 03/05/2005, Proc. n.º 4145/05: “1. O legislador ao usar no
n.º 2 do art. 71º do Código Civil a expressão “providências previstas no n.º
2 do artigo anterior” pretende significar todas as acções de tutela previstas
nesse n.º 2 do art. 70º, incluindo a acção indemnizatória, e não apenas as
acções exercitáveis mediante o processo especial previsto nos arts. 1474º e
1475º do Código de Processo Civil. 2. Tais meios de tutela da personalidade
de pessoa já falecida são exercitáveis, em solidariedade activa, por qualquer
das pessoas indicadas no n.º 2 do art. 71º do Código Civil”). Este
entendimento levanta, todavia, dificuldades de outra natureza. Parece
evidente que na enumeração legal se partiu do nível de maior proximidade
com o defunto – o cônjuge sobrevivo – para o mais distante – herdeiros que
se situem para além do 3º grau da linha colateral. Ora, suponha-se que o
dito cônjuge não pretende reagir; não obstante isso, poderá actuar, por
exemplo, o primo-direito ou o sobrinho-neto (no fundo, contra a vontade
daquele)? A afirmativa afigura-se carente de sentido.
Não resta assim outra hipótese a não ser que passa por sustentar que a
legitimidade em causa é concedida recorrendo a uma ordenação sucessiva:
na falta ou impedimento da pessoa anteriormente designada, devolve-se à
subsequente o direito de actuar para protecção da “memória” da pessoa
falecida. Aliás, a adopção do entendimento descrito em segundo lugar, pode
determinar o surgimento de uma desarmonia interna em função do que se
preceitua nos artigos 76º, n.º 2, e 79º, nº 2: de facto, se, no âmbito destas
disposições, a permissão para que se produza a intromissão de terceiro deve
ser dada pelas “pessoas designadas no n.º 2 do artigo 71.º, segundo a ordem
nele indicada”, é conjecturável a hipótese em que a pessoa com legitimidade
para dar o consentimento em causa entenda que a memória do de cuius não
foi ofendida, mas aquele a quem tal poder não caiba se reconheça
idoneidade, não obstante, para requerer as providências identificadas no
artigo 70º! E não se vislumbra razão que leve a atribuir carácter
excepcional ao disposto nos referidos artigos 76º, n.º 2, e 79º, nº 2; ao invés,
cabe aplicá-los, por analogia, sempre que se torne indispensável a obtenção
de consentimento para a intromissão (lícita) em bens da personalidade
integrados na memória de pessoa falecida.
Em conclusão, o primo poderia ser chamado, pelo menos a título de
herdeiro a dar o referido consentimento, caso não houvesse mais ninguém
com legitimidade para o efeito.

c) Suponha que A tinha deixado um documento escrito por si assinado


declarando que se viesse a padecer de tal doença pretendia não ser tratado. Os médicos
que o assistissem deveriam dar execução à sua vontade?

Tópicos de resolução:

Poderia existir um testamento vital feito por A.


Mas para isso seria necessário que:
1 – a respectiva forma tivesse sido observada (documento assinado perante
notário ou modelo próprio do RENTEV igualmente assinado – artigo 3º, n.ºs
1 e 2, Lei n.º 25/2012, de 16 de Julho)
2 – que se tratasse de uma das hipóteses em que a lei (excepcionalmente) o
admite (artigo 2º, n.º 2, Lei n.º 25/2012, de 16 de Julho).
Se assim tivesse sucedido, e tendo em vista o respeito pela vontade do
declarante, da celebração do testamento vital resultam sobretudo proibições
de agir impostas à “equipa responsável pela prestação de cuidados de
saúde” (artigo 6º, n.º 1, Lei n.º 25/2012, de 16 de Julho). Trata-se
precisamente de uma hipótese em que, através de acto jurídico particular, se
podem instituir adstrições contra quem nele não participou.
Inexistindo testamento vital, os médicos que assistissem A poderiam levar
em conta as suas instruções, mas não se encontravam obrigados a dar-lhe
execução.

7. A instalou uma casa pré-fabricada (conjunto de módulos fincados ao solo,


forrados, cobertos e concluídos com instalação eléctrica, de água e de saneamento) num
terreno que lhe pertencia.

a) A pretende agora locá-la a favor de B. Para o efeito deveria celebrar contrato


de arrendamento ou de aluguer (artigo 1023º CC)?
Tópicos de resolução:

O arrendamento incide sobre imóveis e o aluguer sobre móveis. Uma casa –


ainda que pré-fabricada – uma vez instalada no chão, imobiliza-se e,
portanto, torna-se imóvel. Dá origem a um prédio urbano, nos termos do
artigo 204º, n.º 3. Assim sendo, o contrato a celebrar seria o de
arrendamento urbano.

b) A locação da casa abrangeria o respectivo mobiliário?

Tópicos de resolução:

O mobiliário de uma casa, tomado como um todo, é uma universalidade de


facto (artigo 206º). Quando considerado em relação à habitação que serve
ou ornamenta, é uma coisa acessória (artigo 210º).
As coisas acessórias apenas acompanham juridicamente a coisa principal
quando assim seja convencionado (artigo 210º, n.º 2). Logo, no caso, tudo
dependeria do que fosse acordado. Mas, em princípio, o mobiliário da casa
não seria abrangido pelo respectivo arrendamento.

c) B instalou um painel solar para aquecimento de águas sanitárias. Entretanto, o


contrato de locação caducou. Deverá A indemnizá-lo pela despesa que B fez para o
colocar?

Tópicos de resolução:

A noção de benfeitoria (artigo 216º) apela imediatamente à ideia de


melhoramento. E, por arrastamento, à ideia de acessoriedade – o
melhoramento incorpora-se na coisa melhorada por ser um acessório desta.
Só haverá, então, união de coisas submetida ao regime das benfeitorias,
quando e enquanto se puder distinguir, de entre elas, a principal e a
acessória (sendo esta a benfeitoria).
A distinção entre benfeitorias necessárias, úteis e voluptuárias opera por
exclusão de partes. Quer isto dizer que somente se apreciará o eventual
aumento de valor que a realização da benfeitoria acarrete se ela não for
indispensável à conservação da coisa. E apenas quando a benfeitoria não
tenha em vista nem a conservação da coisa, nem determine o respectivo
aumento de valor, se poderá inferir a sua natureza voluptuária.
Por outro lado, o regime que se estabelece para as benfeitorias, o qual, no
essencial, resulta do disposto nos artigos 1273º e 1275º, pressupõe que o
benfeitorizante seja pessoa diferente do dono da coisa objecto da
benfeitoria. É que o referido regime regula, sobretudo, o exercício do ius
tollendi por parte do benfeitorizante e, simetricamente, o seu direito a
eventual indemnização ou compensação fundado nas benfeitorias
realizadas.
Em princípio, o referido painel solar é benfeitoria útil. Assim sendo, B goza,
antes do mais, do ius tollendi; não podendo exercê-lo, tem direito a ser
compensado nos termos do enriquecimento sem causa (cf., em especial, o
artigo 479º). Constitui entendimento comum, no entanto, aquele segundo o
qual o possuidor pode, em todo o caso, exercer o ius tollendi desde que
remedeie o prejuízo provocado pelo levantamento da benfeitoria.

Os direitos conferidos ao B independem da sua boa ou da má fé.

8. Por morte do avô, A, com 16 anos de idade, feitos em 01/01/2009, recebeu


algumas jóias de certo valor a que acresceram outros bens móveis por ele adquiridos
com trabalhos ocasionais de electricista.

Em certa altura, B, alegando que em virtude dos trabalhos feitos por A sofreu
graves prejuízos no sistema eléctrico de sua casa, exigiu deste a correspondente
indemnização, ameaçando-o com a penhora daqueles bens.

Com medo da situação, A emigrou clandestinamente para o Canadá, em


01/06/2009, sem nunca mais dar notícias.
Em Julho de 2011, o pai de A requereu a instalação da curadoria definitiva, o que
foi indeferido.

Este ano, A regressou e verificou, surpreendido, que o pai vendera as referidas


jóias.

a) Para pagamento da indemnização, poderia B penhorar tanto as jóias como os


restantes bens?

Tópicos de resolução:

Ao admitir-se que o menor não emancipado possa, em certos casos, actuar


validamente (artigo 127º, n.º 1, CC), torna-se de imediato indispensável
determinar quais os bens que respondem pelas obrigações assumidas no
exercício da profissão ou a ela relativos. Excepcionando o princípio geral
decorrente do disposto na primeira parte do artigo 601º CC, instituiu-se no
artigo 127º, n.º 2, CC, uma regra especial segundo a qual, por tais obrigações
“só respondem os bens de que o menor tiver a livre disposição” [ou seja,
fundamentalmente, aqueles que se integrarem na previsão da alínea a) do n.º 1
do artigo 127º].

b) A poderia recuperar as tais jóias vendidas?

Tópicos de resolução:

Se a venda das jóias foi feita depois de A ter completado os 18 anos, ela seria
nula por ilegitimidade do pai e por ser, por isso, venda de bens alheios (artigo
892º CC); caso contrário, o pai ainda seria representante do A e a respectiva
validade dependeria de ter sido obtida a competente autorização judicial
[1889º, n.º 1, alínea a), e 1893º, n.º 1, CC].

c) O tribunal procedeu devidamente ao não decretar a curadoria definitiva?


Tópicos de resolução:

Entre Janeiro/09 e Janeiro/11, embora A se encontrasse desaparecido


(ausente), tinha representante legal (o pai). Só a partir desta última data é que
deixou de o ter; consequentemente, em 2013 apenas decorreram dois anos e
alguns meses sem representante; portanto, inexiste fundamento para instalar a
curadoria definitiva (artigo 99º CC).

8. A e B são casados.

B está grávida de oito meses.

A, ao conduzir o automóvel da empresa de que é administrador, sofreu um


embate lateral de um veículo conduzido por C. Deste facto resultou a morte de A.

B demandou C e a respectiva companhia seguradora, nos termos do artigo 496º


do Código Civil, pedindo uma indemnização por danos morais no montante de €
500.000,00.

A acção foi instaurada, já depois do nascimento do filho, em nome próprio e em


nome deste (correspondendo, assim, a pretensão de € 250.000,00 a cada um).

a) O Tribunal deveria conceder a referida indemnização tanto a B como ao filho?

Tópicos de resolução:

De acordo com o disposto no n.º 1 do artigo 66º CC a “personalidade adquire-


se no momento do nascimento completo e com vida”. De acordo com a doutrina
dominante, o filho de B e de A ainda não seria pessoa no instante em que este
último faleceu. Como é no momento em que o facto danoso sucede que se
identificam os lesados, o referido filho não podia ter direito à indemnização
porque, nesse instante, não era pessoa.

Ao invés, tendo em conta o fenómeno que se convencionou designar como


revolução ecográfica, é hoje perfeitamente viável, do ponto de vista técnico,
demonstrar a existência de vida intra-uterina e, portanto, é possível provar a
existência de uma figura humana in utero, assim como se pode nela demonstrar
a produção de sensações, de dor, de sofrimento, etc. Assim sendo, a disposição
segundo a qual o “nascimento completo e com vida” marca o início da
personalidade contradiz os dados científicos, mas também a rectidão que deve
subjazer à realização do Direito. Nesta perspectiva, o nascituro é pessoa –
desde o momento da concepção – e poderia, por isso, ser titular daquele direito
à indemnização.

b) A e B haviam em tempos concedido à revista “Snob” o direito de publicação


exclusiva da última ecografia do seu filho. Com a morte do marido, B pretende evitar
que tal suceda. Haverá maneira de o conseguir?

Tópicos de resolução:

Entendendo-se que a personalidade começa com a concepção, estaria aqui em


causa o direito à imagem do nascituro. Os pais, como representantes (artigo
124º CC), poderiam consentir na sua utilização por terceiro ao abrigo do
disposto no artigo 81º CC. Como daqui resulta expressamente, a autorização
(que está implícita) conferida à revista “Snob” para publicar a dita ecografia
“é sempre revogável, ainda que com obrigação de indemnizar os prejuízos
causados às legítimas expectativas da outra parte”.

Mesmo adoptando-se o entendimento segundo qual a personalidade jurídica se


adquire com o nascimento “completo e com vida”, o exercício do poder
paternal pelos pais implica, em relação ao filho menor (ou, em geral, incapaz –
artigo 144º), o cumprimento do dever de representação uma vez que ele se
constitui no momento da concepção (artigo 1878ºº, n.º 1).

9. A e B são filhos de C. Este vendeu à sociedade “Frames, Ldª.”, cujos únicos


sócios são A e a sua mulher D (casados em comunhão geral), o prédio urbano sito na
Travessa dos Anjos, n.º 2, Lisboa, por € 300.000.
B intentou acção contra A, D e C, pedindo a anulação do contrato com
fundamento na falta do seu consentimento para o efeito nos termos do artigo 877º.

a) Teria B alicerces para a sua pretensão?

Tópicos de resolução:

A sociedade “Frames, Ldª.” é, para todos os efeitos, uma pessoa juridicamente


distinta dos seus sócios; logo, uma venda que lhe seja feita, considera-se
realizada a seu favor e não em benefício de A e de D. Por isso, nesta medida, B
não seria chamado a dar o seu consentimento pois não está em causa uma
venda de pai a filho.

Pode suceder, todavia, que a referida sociedade esteja a ser exclusivamente


utilizada para defraudar os interesses de B (designadamente, no que respeita à
sua legítima). Assim, provando-se que C pretendia verdadeiramente beneficiar o
filho A, em detrimento de B, com a atribuição daquele prédio, poder-se-ia
conjecturar uma hipótese de desconsideração da personalidade jurídica da
sociedade. Seria necessário que B demonstrasse, no entanto, através de alguns
indícios (v.g.: o valor de mercado do prédio foi muito inferior ao preço
efectivamente pago?; quem pagou esse preço – A ou a sociedade?; quem utiliza
o imóvel – A ou a sociedade?; etc.), ser essa a intenção das partes; o que não
resulta claramente da hipótese apresentada.

Fazendo-se prova dos aludidos indícios, a desconsideração da personalidade da


sociedade acarretaria entender que, para o efeito pretendido por B, tudo se
deveria passar como se ela inexistisse, e, portanto, a situação deveria ser
encarada como se a venda tivesse sido directamente feita por C a A e a D. Aí, a
falta de consentimento de B determinaria a respectiva anulabilidade nos termos
do artigo 877º CC.

b) Como caracteriza o direito de (B) pedir a referida anulação?

Tópicos de resolução:
O direito de anular é sempre de natureza potestativa, dado que o respectivo
titular pode produzir um efeito jurídico – a extinção dos efeitos do acto jurídico
anulável – apenas através da declaração da sua vontade nesse sentido, cabendo
a outra pessoa suportá-lo. Como se trata de efeito de carácter exclusivamente
jurídico, os intervenientes no acto jurídico em causa sujeitam-se assim à
anulação.

Claro que, no caso concreto, este direito de anulação somente existiria desde
que existissem fundamentos para se proceder à desconsideração da
personalidade colectiva da sociedade “Frames, Ldª.”.

10. A faleceu vítima de neoplasia da mama.

A respectiva seguradora questionou em juízo, após a morte, a validade do


contrato de seguro com ela celebrado dois meses antes do falecimento em virtude de
entender que a informação relativa ao seu estado de saúde lhe havia sido
intencionalmente sonegada.

Para o efeito requereu a notificação do Instituto Português de Oncologia para


juntar os registos clínicos de A.

B, cônjuge sobrevivo, opôs-se a que tal informação fosse fornecida invocando o


direito à intimidade privada de A.

a) Quid Juris?

Tópicos de resolução:

- a morte extingue a personalidade (artigo 68º, n.º 1)

- os direitos de personalidade (como direitos pessoais) cessam com a morte do


seu titular

- permanece, contudo, a “memória” da pessoa falecida (artigo 71º)


- esta abrange os dados pessoais mais íntimos e, portanto, necessariamente os
dados de saúde

- em princípio, a sua divulgação não pode fazer-se, por isso, sem consentimento
de alguma das pessoas enumeradas pelo artigo 71º

b) Suponha que B tinha 17 anos. Poderia, por si, dar o devido consentimento, se
ele fosse necessário, e poderia intervir em juízo?

Tópicos de resolução:

- a menoridade limita a capacidade de exercício (artigo 123º)

- o menor com 16 anos ou mais pode casar, embora dependa, até aos 18, de
consentimento para o efeito ou do seu suprimento (artigo 1604º)

- mesmo que este não tivesse sido concedido, o menor emancipa-se de qualquer
maneira embora com as restrições do artigo 1649º

- estas não atingem a concessão de consentimento para efeitos do artigo 71º

- logo, B poderia dá-lo pessoal e livremente

11. A, proprietário do terreno x, concedeu a B, sociedade agrícola, direito de


superfície (artigo 1524º, Cód.Civil) para esta aí instalar durante vinte anos um posto de
abastecimento de combustível, mediante o pagamento da quantia anual de € 55.000,00.

Diga se:

a) O negócio estaria sujeito a celebração por escritura pública ou por


documento autenticado?

Tópicos de resolução:

- o direito de superfície incide necessariamente sobre imóveis (artigo 1524º)


- os direito inerentes a imóveis [artigo 204º, n.º 1, d)], de que o direito de
superfície é exemplo, equiparam-se a coisas imóveis

- logo, à constituição do direito de superfície por negócio jurídico estende-se o


disposto no artigo 875º

b) A sociedade B poderia ter celebrado o negócio constitutivo do direito de


superfície para o fim pretendido?

Tópicos de resolução:

- a capacidade de gozo das pessoas colectivas é, para uns, específica porque


restrita (aos seus fins) e, para outros, é genérica

- para quem entenda que ela é genérica, a sociedade B poderia ter celebrado o
negócio constitutivo do direito de superfície para usar o terreno para instalar
um posto de abastecimento de combustível, não obstante a sua exploração se
encontrar fora dos seus fins

- para quem, ao contrário, entenda que ela é específica, a sociedade B estaria


fora do âmbito da sua capacidade de gozo, pelo que, nos termos do artigo 294º,
o referido negócio seria nulo

12. A deu de arrendamento a B uma quinta composta por casa, jardim e terreno
agrícola.

Ficou convencionado que quando A eventualmente vendesse a quinta o


arrendamento caducava de imediato.

No terreno agrícola, B plantou 450 novas videiras e instalou um armazém pré-


fabricado para guardar a maquinaria agrícola.
a) Se A chegasse a vender a referida quinta, B teria direito a ser compensado
pelo valor das videiras e do armazém?

Tópicos de resolução:

- a plantação das videiras e instalação do armazém configuram-se como


benfeitorias (artigo 216º)

- não sendo indispensáveis à conservação da quinta, aumentavam-lhe o valor;


seriam, por isso, benfeitorias úteis

- nos termos do n.º 2 do artigo 1273º, B teria direito a levantá-las se possível;


caso contrário, teria direito a ser compensado segundo as regras do
enriquecimento sem causa

b) Quem comprasse teria direito à entrega do referido armazém?

Tópicos de resolução:

- se o armazém não pudesse ser ou, de todo o modo, não fosse retirado, passaria
a integrar a quinta e, portanto, quem a comprasse adquiriria o conjunto
(armazém incluído)

- caso contrário, seria uma simples coisa acessória e como tal, nos termos do
artigo 210º, nº 2, somente integraria a compra se assim fosse acordado

13. Suponha que uma certa associação cultural adoptou a denominação


“Juventude Unida” (JU) com emblema próprio. Posteriormente, outra associação,
constituída na mesma freguesia com idênticos fins, adoptou a denominação “Jovens
Unidos” (JU).
a) Terá a primeira algum fundamento para se opor à utilização desta designação
pela segunda?

Tópicos de resolução:

- as pessoas colectivas não têm nome mas devem ter uma designação (cf v.g.
167º)

- os direitos de personalidade são característicos da personalidade singular

- todavia, de acordo como o n.º 2 do artigo 12º da Constituição, às pessoas


colectivas podem pertencer também os direitos fundamentais (vertente
constitucional dos direitos de personalidade) que forem compatíveis com a sua
natureza

- um desses direitos é o direito ao nome

- de acordo com o artigo 72º “toda a pessoa tem direito a usar o seu nome,
completo ou abreviado, e a opor-se a que outrem o use ilicitamente para sua
identificação ou outros fins”

- em princípio, o problema nem sequer se deveria colocar na medida em que o


Registo Nacional de Pessoas Colectivas deveria prevenir este conflito

- mas, não tendo actuado devidamente, restaria, averiguar se a “Jovens


Unidos” estaria a fazer um uso ilícito da sigla JU

b) Que qualificações poderão caber ao direito para o qual a primeira pretende


obter protecção?

Tópicos de resolução:

- o direito ao nome é um direito de personalidade


- portanto é:
absoluto, na medida em que não depende de outra posição jurídica que
simetricamente o sustente
pessoal, na medida em que não está dotado de um valor de troca
indisponível, na medida em que não pode ser transmitido nem
renunciado

14. A foi nomeado procurador por B, com poderes para vender lotes de terreno
para construção pertencentes ao segundo. A vendeu-os quase todos a uma sua filha, a
preços bastante inferiores aos correntes no mercado. A filha compradora tinha
conhecimento deste facto.

As diversas compras e vendas seriam vinculativas para B?

Tópicos de resolução:

- o caso é de abuso de representação (269º)

- ao contrário do que sucede na representação sem poderes, no abuso de o


procurador dispõe dos poderes representativos que põe em actuação. Sucede,
no entanto, que, ao exercê-los, ultrapassa aquela que é a vontade do
representado (manifestada v.g. por directrizes ou instruções) tal como ele a
conhece ou devia conhecer – apurado este circunstancialismo inexistem
também, no fundo, certos poderes representativos; só que isso não resulta
formalmente da procuração.

- a filha de A conhecia que os imóveis estavam a ser vendidos a preços


inferiores aos de mercado, mas não é garantido que também soubesse que o pai
estava a actuar contra as instruções recebidas – por isso, das duas, uma:

- ou a filha conhecia ou devia conhecer o abuso, caso em que se segue o regime


da representação sem poderes e, portanto, o negócio celebrado é, em princípio,
ineficaz, a menos que o representado o ratifique;

- ou acontece o inverso, hipótese em que o negócio celebrado pelo procurador


vincula o representado (incorrendo aquele, eventualmente, em responsabilidade
civil pelos possíveis danos causados).
15. A foi vítima de meningite quando tinha três anos de idade, ficando surdo-
mudo. Não teve acesso a uma escola da especialidade, sempre necessitou do auxílio de
uma terceira pessoa para sobreviver e satisfazer as mais elementares necessidades e só é
compreendido pelos familiares mais próximos.

a) Haveria fundamento suficiente para o interditar?

Tópicos de resolução:

- Sujeitam-se a interdição todos aqueles que sofram de anomalia psíquica,


surdez-mudez ou cegueira susceptíveis de afectar gravemente a respectiva
capacidade de discernimento. Por outras palavras, não basta que as
referidas deficiências físicas ou psíquicas atinjam certa pessoa; é sobretudo
necessário que das mesmas resulte uma elevada incapacidade para gerir a
sua própria pessoa e património
- de harmonia, aliás, com o que se extrai do disposto nos artigos 26º, n.º 1 e
n.º 4, e 18º da Constituição, a interdição deve decretar-se apenas em
hipóteses extraordinárias, nas quais a pessoa visada se encontre numa
situação de inaptidão natural de tal forma incapacitante que o seu agir
jurídico se revele prática e inteiramente impossível
- ora, se A era pelo menos compreendido pelos seus familiares, não era
seguro que o seu discernimento estivesse inteiramente afectado e, portanto,
não é seguro que pudesse ser interditado

b) Suponha que, antes de chegar aos 18 anos, os pais intentaram acção para
obter a interdição de A. Tendo ele atingido a maioridade sem que aquela
tivesse transitado em julgado, o irmão conseguiu convencê-lo a doar-lhe um
conjunto de jóias que havia recebido por sucessão do avô.
i) A doação será válida?
ii) Quem poderá eventualmente invalidá-la?
Tópicos de resolução:

- conforme resulta do disposto no n.º 2 do artigo 138º e do artigo 156º, a


interdição ou a inabilitação “podem ser requeridas e decretadas dentro do
ano anterior à maioridade, para produzirem os seus efeitos a partir do dia
em que o menor se torne maior”.
- pode suceder, porém, que instaurada uma das competentes acções antes de
o interditando ou inabilitando ter atingido a maioridade, ela não tenha
ainda sido decidida (e, portanto, a interdição ou a inabilitação não tenham
ainda sido decretadas) no instante em que aquela ocorre – para evitar então
eventuais intervalos entre capacidade e incapacidade, determina-se o
prolongamento da inabilidade por menoridade para além da maioridade até
que a referida acção transite em julgado.
- significa isto, neste circunstancialismo, que o maior, ao completar os
dezoito anos de idade, continua a ser considerado menor para todos os
efeitos. Permanece, portanto, incapaz de exercício – daí que os respectivos
representantes legais mantenham os correspondentes poderes até que a
acção de interdição ou de inabilitação seja definitivamente julgada
- ao contrário da hipótese prevista no artigo 149º (que, por conseguinte, tem
aplicação sempre que a acção de interdição ou de inabilitação seja
instaurada contra quem, nesse instante, seja capaz de exercício), os actos
praticados pelo maior submetido ao regime deste artigo 131º são
imediatamente anuláveis, a requerimento dos respectivos representantes
legais, ao abrigo do disposto na alínea a) do n.º 1 do artigo 125º
(independentemente, aliás, de a interdição ou a inabilitação acabarem por
ser definitivamente decretadas e também independentemente de o acto em
causa ter lesado o incapaz)

c) Suponha que o tribunal entendia inexistirem fundamentos para interditar


tendo, por isso, optado por decretar a inabilitação de A. As consequências
sobre a doação seriam as mesmas?
Tópicos de resolução:

- no mesmo circunstancialismo (o do 131º) importa apenas que a acção de


inabilitação ainda não haja transitado em julgado no instante em o
inabilitando praticou o acto sem a competente capacidade
- continua a aplicar-se, portanto, o 125º e os seus representantes legais
poderiam por isso anular a doação nos termos do seu n.º 1, alínea a)