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VIOLÊNCIA SEXUAL EM MULHERES DURANTE A DITADURA CIVIL-

MILITAR NO BRASIL: O TESTEMUNHO E A NEGAÇÃO

Silvia Regina Nunes1

Como historiadora, sei que a memória não diz respeito apenas ao


passado. Ela é presente e é futuro. Os testemunhos que estão sendo
dados à Comissão da Verdade, embora sobre o passado, dizem
respeito ao presente e apontam para o futuro, por isto mesmo
espero que ajudem a construir um Brasil mais justo e solidário. Sei
também que da memória – sempre seletiva - fazem parte o
silêncio e o esquecimento. Por isso, nessas minhas fortes
lembranças, permeadas por ruídos, odores, cores e dores, estarão
presentes ausências e esquecimentos.

(Dulce Pandolfi)

Introdução

Neste trabalho empreendemos um gesto de análise sobre os testemunhos de


mulheres torturadas durante a ditadura civil-militar no Brasil, que foram obtidos durante
as oitivas realizadas pelas Comissões Estaduais da Verdade e publicizadas no Relatório
Final da Comissão Nacional da Verdade. Nosso intuito é compreender, a partir da leitura
da transcrição desses testemunhos, os efeitos de sentidos produzidos pelo funcionamento
da negação sobre a violência sexual.

Nossas reflexões sobre as questões relativas aos discursos sobre a mulher se


iniciaram no interior do grupo de pesquisa Mulheres em Discurso (CNPq –
IEL/UNICAMP), sob liderança da professora Mònica Zoppi-Fontana, cujo objetivo tem
sido o de promover uma discussão sobre a produção e interdição histórico-discursiva de
lugares de enunciação (ZOPPI-FONTANA, 2002) para as mulheres, na sua relação
constitutiva com os processos de subjetivação/identificação do sujeito do discurso
(PÊCHEUX, 1975/1988).

1
Doutora em Linguística/Análise de Discurso pela UNICAMP. Professora do Programa de Pós-Graduação
em Linguística da UNEMAT, vinculada à linha de pesquisa: Estudos de Processos Discursivos. Membro do
grupo de pesquisa Cartografias da Linguagem (UNEMAT) e Mulheres em Discurso (UNICAMP). Email:
silvianunes@unemat.br.
A partir de tais reflexões, formamos em 2013 um grupo de pesquisa com a
participação de alunos do Mestrado em Linguística e da Graduação dos cursos de Letras
e História da UNEMAT, para discutir a problemática da mulher, em seus aspectos gerais,
inicialmente. No grupo, as questões de gênero e o modo como um discurso sobre a mulher
circulava na mídia, dentro das atuais configurações sociais, foram discutidas. Orientamos,
no mesmo ano, uma pesquisa de Iniciação Científica acerca do discurso sobre a mulher
no jornalismo do século XIX, a qual apontou algumas compreensões consistentes sobre
a condição da mulher naquela época, em relação ao modo como o jornal enunciava sobre
o comportamento da mesma, sob a injunção do discurso da família patriarcal,
especificamente em relação ao casamento.

Em 2015, propusemos à FAPEMAT (fundação que financia a pesquisa no


Estado de Mato Grosso), o projeto de pesquisa: Mulheres de/em Mato Grosso: processos
de identificação, mídia e sexualidade, e obtivemos sucesso na captação de recursos para
a execução do mesmo. As pesquisas propostas nesse projeto “guarda-chuva” (a equipe de
execução constitui-se de 12 pesquisadores, entre eles alguns de diferentes instituições
públicas de ensino do Estado de Mato Grosso), se sustentam a partir de dois eixos que
materializam a circulação social dos discursos sobre a mulher, a saber: MULHERES NAS
MÍDIAS (a mídia impressa – jornais de circulação nacional e regional; a mídia televisiva
– reportagens, matérias e debates veiculados na TV; Redes Sociais) e MULHERES E
SEXUALIDADE (discursos que circulam sobre a sexualidade da mulher, tanto na mídia,
quanto nos mais diversos campos, tais como na literatura, na música, na política, na
ciência, na psicanálise, na escola, na agropecuária, nos próprios movimentos que
discutem a questão da mulher, como o movimento das mulheres indígenas, o movimento
das mulheres negras, entre outros).

É importante que se diga que no Projeto Mulheres de/em Mato Grosso:


processos de identificação, mídia e sexualidade nosso recorte incide sobre a compreensão
da circulação social dos discursos sobre a mulher, especificamente no modo como as
mulheres de Mato Grosso foram noticiadas - discursivizadas pela mídia e pelas
instituições, como a Igreja e o Estado, no período da Ditadura Militar. Quando se trata de
testemunhos tomados em instâncias institucionais, o Estado de MT, apesar de ter criado
em lei específica a Comissão Estadual da Verdade, em 2012, ainda não a colocou em
efetivo funcionamento. Diante disso, realizamos pesquisas para compreender o
funcionamento das Comissões da Verdade Estaduais e nos deparamos com os arquivos
sobre os testemunhos das mulheres e então ensejamos a análise de alguns... e é o que
tentamos mostrar nesse texto.

Em relação à constituição da Comissão Nacional da Verdade (CNV) no Brasil,


é importante que se diga que só muito recentemente a apuração dos fatos ocorridos
durante a Ditadura Militar passou a ser cogitada. Um marco importante foi a 11.ª
Conferência Nacional de Direitos Humanos de 2008, que reuniu as reivindicações e
anseios da população nessa área e deu origem ao terceiro Plano Nacional de Direitos
Humanos, o chamado PNDH-3, que introduziu a questão da “Memória e Verdade” sobre
o período da Ditadura e estabeleceu a necessidade de criação de uma Comissão Nacional
da Verdade para apurar os crimes cometidos pela Ditadura Militar (BRASIL, 2009).

Em maio de 2010, o então Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva


apresentou ao Congresso Nacional o projeto de lei criação da CNV, que o aprovou
somente em 18 de novembro de 2011, já na gestão da Presidenta Dilma Roussef,
convertendo-se na lei n.º 12.528 (BRASIL, 2011). A CNV foi criada com a finalidade de
examinar e esclarecer as graves violações de direitos humanos praticadas no período
fixado no art. 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (da Constituição
Federal de 1988), a fim de efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover
a reconciliação nacional (BRASIL, 2011). Cabe destacar que na estrutura da CNV havia
treze Grupos de Trabalho (GTs) com dedicação a temáticas específicas. A partir de
dezembro de 2012, as atividades de pesquisa da CNV passaram a ser desenvolvidas
basicamente por meio de grupos de trabalho coordenados pelos membros do Colegiado,
contando, cada um deles, com assessores, consultores ou pesquisadores. Tal forma de
organização teve por intuito permitir a descentralização das investigações e a autonomia
das equipes de pesquisa.

Pautada nessas diretrizes iniciais, a CNV estabeleceu 13 grupos de trabalho,


segmentados pelos seguintes campos temáticos: 1) ditadura e gênero; 2) Araguaia; 3)
contextualização, fundamentos e razões do golpe civil-militar de 1964; 4) ditadura e
sistema de Justiça; 5) ditadura e repressão aos trabalhadores e ao movimento sindical; 6)
estrutura de repressão; 7) mortos e desaparecidos políticos; 8) graves violações de direitos
humanos no campo ou contra indígenas; 9) Operação Condor; 10) papel das igrejas
durante a ditadura; 11) perseguições a militares; 12) violações de direitos humanos de
brasileiros no exterior e de estrangeiros no Brasil; e 13) o Estado ditatorial-militar.
(BRASIL, 2014, p. 52).

A Comissão Nacional da Verdade esteve em atividade durante dois anos e sete


meses, sendo que seu relatório final foi apresentado em 10 de dezembro de 2014 à
Presidência da República. O relatório faz vinte e nove recomendações às autoridades
nacionais e a maioria delas está relacionada à punição de autores de crimes durante o
regime militar, à prevenção da ocorrência de abusos de natureza semelhante e à abolição
de práticas e estruturas remanescentes da época. De modo geral, o documento propõe
mudanças que gerariam grande impacto na área de segurança pública, como a
desmilitarização da polícia e reformas no sistema prisional.

Especificamente no que concerne à temática que abrange, ou seja, o período


ditatorial, a comissão sugere uma série de ações para preservar a memória dos abusos
cometidos durante a época do regime militar. Entre elas estão a criação de um Museu da
Memória, em Brasília e o tombamento de imóveis onde ocorreram abusos. Ela também
indica que nomes de acusados de abusos deixem de nomear vias e logradouros públicos.
A comissão propõe, também, que o processo de abertura de arquivos militares
relacionados ao regime seja expandido. E, fundamentalmente, o grupo frisou, a
necessidade de realização de mais pesquisas acadêmicas sobre o período no espaço
acadêmico. Observamos que a necessidade de divulgação e circulação das informações,
recomendações, estudos, relatórios, etc. decorrentes do período de atuação da Comissão
Nacional da Verdade se faz premente e que, diante disso, inúmeros órgãos
governamentais e não governamentais criaram mecanismos para essa divulgação, tais
como os sites: http://www.cnv.gov.br/ (Comissão Nacional da Verdade),
http://armazemmemoria.com.br/ (Armazém Memória e seu acervo temático composto
pelos sítios Brasil Nunca Mais, Memórias Reveladas e Memorial Anistia),
http://memoriasdaditadura.org.br/ (Memórias da Ditadura),
http://www.documentosrevelados.com.br/ (Documentos Revelados) e
http://resistirepreciso.org.br/ (Resistir é Preciso), entre outros.

Assim, compreendemos que nossa vinculação à Análise de Discurso de viés


materialista nos permite dar visibilidade aos processos discursivos, bem como à
problemática da mulher na relação com os estudos de gênero, uma vez que, considerando
que é nesse campo de questões afetos ao modo como os discursos se constituem, se
formulam e circulam que uma abordagem discursiva para a análise dos processos de
identificações de gênero traz a possibilidade de (re)pensarmos a produção de sentidos e
as condições de produção de um período traumático da história recente do Brasil, cujo
silenciamento de tais práticas, ainda hoje, se faz muito forte.

Sobre o testemunho e a negação

Nosso recorte incide sobre uma repetição que identificamos nos testemunhos de
mulheres que ao serem indagadas se sofreram violência sexual durante as sessões de
tortura respondem que não sabem ou não acreditavam que tal prática fosse uma violência
sexual.2

Sobre a noção de testemunho, nos apoiamos nas extensas pesquisas de


Seligmann-Silva (2010), pela crítica literária, e também em um texto recente que Bethânia
Mariani (2016) produziu sustentado pelos princípios teóricos da Análise de Discurso e da
Psicanálise.

Embora sua produção sobre a noção de testemunho se circunscreva aos


princípios da crítica literária, Seligmann-Silva (2010) retoma as considerações de
Benveniste e nos propõe uma cuidadosa reflexão, em termos linguísticos.

Ancorado nos estudos benvenistianos, o autor coloca que há um parentesco


semântico da noção de testemunha, que nos convida a pensar a situação do sobrevivente,
paradigmática para o século XX. “Superstes, como ele [Benveniste] comenta, “não é
somente ‘ter sobrevivido a uma desgraça, à morte’, mas também ‘ter passado por um
acontecimento qualquer e subsistir muito mais além desse acontecimento’; de ter sido,
portanto, ‘testemunha’ de tal fato” (1995, p. 277)”. O “manter-se no fato” do superstes
remete à situação singular do sobrevivente como alguém que habita na clausura de um
acontecimento extremo que o aproximou da morte. Segundo Seligmann-Silva (2010, p.
04), o destaque dado por Benveniste, recai sobre a cena do testemunho como superstes,
o presente do ato testemunhal ganhando precedência sobre os demais e aí os valores
seriam outros, pois poderíamos pressupor uma incomensurabilidade entre as palavras e
esta experiência da morte.

2
Mais adiante descreveremos as condições de produção da tomada dos testemunhos.
Se o “real” pode ser pensado como um “desencontro” (algo que nos
escapa como o sobrevivente o demonstra a partir de sua situação
radical), não deixa de ser verdade que a linguagem e, sobretudo, a
linguagem da poesia e da literatura, busca este encontro impossível.
Vendo o testemunho como o vértice entre a história e a memória, entre
os “fatos” e as narrativas, entre, em suma, o simbólico e o indivíduo,
esta necessidade de um pensamento aberto para a linguagem da poesia
no contexto testemunhal fica mais clara. (SELIGMANN-SILVA,
2010, p. 06)

Mariani (2016), ao teorizar sobre “a insistência do testemunho e a (im)potência


para os dizeres”, trata da questão do testemunho do ponto de vista da análise do discurso
e da psicanálise. A autora sustenta suas análises no modo como a noção de real é
mobilizada, circunscrevendo um impossível de ser simbolizado tanto na história como na
linguagem. Especificamente sobre o testemunho a autora coloca que:

É na ordem da dimensão de um indizível, de um furo presente na


linguagem, que testemunho será pensado aqui. Logo, uma pergunta já
se formula: como seria possível transmitir algo indizível? Deve-se
lembrar de que o testemunho é da ordem do memoriável, esse é um dos
seus aspectos. Dar um testemunho aponta para um falar urgente, para o
não esquecer e para um não deixar os outros esquecerem. (MARIANI,
2016, p. 50)

Na relação que se estabelece entre memória e esquecimento, Mariani (2016)


explica que o esquecer caminha lado a lado com o testemunho daqueles que querem
registrar determinadas memórias. A autora fala do esquecimento pelo ângulo da
impossibilidade de um tudo lembrar-se, do que está no cerne da constituição do sujeito.
E então lança questionamentos importantes, tais como: o que seria o esquecimento? O
que é, como funciona o esquecer? Por que esquecemos ou por que, ao contrário,
insistimos em lembrar, supondo na memória a verdade? Tais questões nos fazem
compreender a relação entre esquecer e lembrar, uma vez que “falar das lembranças, do
memoriável, é deparar-se também com o esquecimento, logo, com o real que sinaliza no
campo da fala e da linguagem, a impotência das palavras e um indizível na/da apreensão
dos objetos” (MARIANI, 2016, p. 55)

Tomando essas considerações entre lembrar, esquecer em sua relação com a


noção de “verdade”, vemos o modo como nos testemunhos dessas mulheres, que foram
vítimas da ditadura, se materializa, no fio do discurso, o funcionamento da negação,
quando indagadas sobre a violência sexual.
Sobre a noção de negação, Fedatto (2013) nos apresenta um texto em que aborda
o modo como formulações linguísticas sobre conflitos podem ser tomadas como um lugar
privilegiado para a observação da articulação material entre inconsciente e ideologia. A
autora retoma as elaborações freudianas nos textos A significação antitética das palavras
primitivas (1910) e A negação (1925), bem como as críticas de Benveniste (1956) e de
Hyppolite no seminário de Lacan (1954) sobre essas elaborações.

A estudiosa nos propõe que, na leitura das obras de Freud, Benveniste aponta a
existência de uma relação de motivação e não de causalidade como estruturante da
descoberta psicanalítica e mostra como a estrutura do mito, da poesia e da negação são
analogias importantes para a compreensão do funcionamento da linguagem no modo
como o conflito psíquico pode se materializar. Já Hyppolite põe em causa, conforme a
autora:

(...) a dissimetria entre afirmação e negação como espaço de suspensão,


de resistência, de dissenção entre o intelectual e o afetivo. Essa divisão
(na e pela língua) estaria na origem de todo juízo possível. Pela
negação, o conflito seria elaborado como resistência a admitir,
constituindo-se em um mito fundador da proposição. (FEDATTO,
2013, p. 01).

Tomando essas questões discursivamente, a autora mostra como as formulações


linguísticas do conflito (negação, oposição, disjunção, etc.) “re-velariam também o tecido
das evidências subjetivas, o efeito ideológico elementar nas palavras de Althusser
reapropriadas por Pêcheux (1997, p. 153), como sendo a ilusão do sujeito causa de si e
fonte do sentido” (FEDATTO, 2013).

A autora lembra que Benveniste nos convida a pensar formulações com a


negação, a oposição, a disjunção, etc., mostrando, por meio da análise de uma formulação
negativa produzida em condições sócio-históricas específicas, como a materialização
linguística da contradição e do não-um se constituem. Do que a autora propõe, nos
interessa observar o seguinte:

Admitimos, então, que não há simetria entre a ordem da língua e as


manifestações linguísticas do inconsciente e da ideologia. E Freud
também se encaminha nessa direção em seu artigo sobre a denegação.
Segundo ele, a negação é uma forma de tomar conhecimento do
reprimido, é uma espécie de suspensão da repressão, mas não uma
aceitação do reprimido (1925/2011, p. 277). Pela negação, a função
intelectual se separa do processo afetivo: anula-se o fato de a ideia
reprimida ser inconsciente, ela aparece na fala do sujeito, mas não deixa
de ser recusada. O funcionamento linguístico da negação, conforme
descrito por Benveniste, se mostra, pois, análogo à recusa de admissão
que acontece no recalque. Se a forma negativa permite, do ponto de
vista intelectual, “um primeiro grau de independência dos resultados da
repressão” (FREUD, 1925/2011, p. 281), ela expõe, no mesmo
movimento, sua força afetiva, a preponderância de sua determinação,
seu rastro. O que se nega é, pois, constitutivo do conteúdo negado, que
subsiste como uma aversão à identificação, mas sobre o qual o sujeito
não exerce mais nenhum domínio. (FEDATTO, 2013, p. 05).

Diante dessas elaborações, tomamos a afirmação de que “o que se nega é, pois,


constitutivo do conteúdo negado” para darmos consequência a uma análise de três
sequências discursivas recortadas dos testemunhos transcritos de mulheres ouvidas
durante sessões das Comissões Estaduais e Nacional da Verdade.

Um gesto de análise sobre a negação nos testemunhos

Conforme apontamos, os relatos disponíveis no site da CNV foram nomeados


como Tomada de Testemunho e tem em média a duração de duas horas. As mulheres são
instadas a falar livremente sobre sua atuação nos movimentos sociais de resistência à
época3, mas são inquiridas pelos membros da CNV quando se instaura alguma dúvida em
relação ao que relatam. Os membros que ouvem os testemunhos são, na maioria,
pesquisadores que se vincularam à CNV por meio de colaboração, mas também por meio
de edital de licitação para trabalharem na Comissão.

Lemos aproximadamente trinta testemunhos e, após a leitura, constituímos como


metodologia a busca de palavras-chave nos materiais selecionados. As palavras-chave
que buscamos foram: violência e sexual. Quando encontrávamos tais palavras, líamos
detidamente o recorte em que as mesmas apareciam. Nesse processo, fomos nos
deparando com as negativas.

Do que recortamos para análise, é importante salientar que quando da dúvida


sobre a menção de violência sexual, as pesquisadoras insistiam para que as depoentes se
lembrassem da ocorrência, uma vez que já havia alguma regularidade sobre a existência
da violência sexual no testemunho de diferentes mulheres e homens ouvidos na comissão.

3
Muitos discursos podem ser compreendidos nos testemunhos disponibilizados na página da CNV, desde
o funcionamento sobre as práticas de guerrilha, a militância de gênero (inclusive sobre a
homossexualidade), os estudos feministas, os estudos teóricos sobre o socialismo-comunismo, etc.
Recortamos a primeira sequência discursiva que se refere ao testemunho de uma
das depoentes, tomado em São Paulo, em 03/05/2013:

A pesquisadora explica:

A gente já está supondo que você sofreu violência sexual ou algum tipo de violência,
nessa sua primeira prisão, nos quinze dias em que você foi torturada.

Ao que a depoente questiona:

O que vocês estão falando como violência social4: estupro, esse tipo de coisa?

E então a explicação da entrevistadora:

Não necessariamente: qualquer tipo de violência oral, vaginal, anal, introdução de


objetos ou animais, manipulação e golpes nos seios, choques elétricos nas genitais,
mutilação de órgãos sexuais, sexo oral, constrangimentos, maus-tratos verbais ou
xingamentos com algum tipo de conotação sexual, desnudamento forçado, ameaça de
violência, que é um tipo de violência psicológica muito forte, golpes ou outras práticas
que afetam a capacidade reprodutiva, prostituição, escravidão, casamento e outras que
você talvez especificar.

A resposta da depoente foi:

Fiquei nua no pau de arara, levei choque na vagina. Recebi muita ameaça de que eles
iam me estuprar com arma. Mas não chegaram a cumprir, não. E quando me
penduraram, me ameaçaram também de estupro, mas não chegaram a cumprir, não.
Quando me penduraram, me ameaçaram também de estupramento, mas não se
concretizou. E desnudamento forçado. (...) Eles amordaçavam para você não gritar
quando levava choques. Me bateram no rosto com tapas. Violência física não é uma
violência sexual.

A segunda sequência discursiva refere-se a outro testemunho tomado pela CNV


em 31/07/2013, em São Paulo. A pesquisadora da CNV, diante da oscilação na
formulação verbal da depoente durante o testemunho insiste:

4
Compreendemos aqui um deslize, ou na transcrição do testemunho, ou mesmo na fala da depoente,
que aponta para um ato falho, contudo não nos detivemos na análise dele, embora seja nosso desejo
retomá-lo para compreensão.
Tem só uma coisa aqui, desculpa insistir nesse ponto, mas, é que eu preciso especificar
algumas coisas sobre a... (... ) mas é só, bem pontual sobre isso, você disse que na tortura,
na OBAN, você levou choque, você chegou a levar choques nas genitálias?

E, então, a resposta: Não sei.

Ao que a pesquisadora insiste: Não sabe?

A mulher responde: Não sei, se eu te falar que sim, que não, não vou estar te
falando a verdade, eu não sei.

A pesquisadora explica: Porque a gente confere isso como um tipo de violência


sexual.

A resposta então é: É uma loucura tão grande, tudo acontecendo ao mesmo


tempo, eu não sei.

A pesquisadora argumenta: Mas era usual, no ânus...

A mulher responde:

Era usual, sim, sim, eram, assim... É horrível, fez muito na cadeira do dragão, sei lá,
risco para todos os lados, você vira uma coisa só, é simplesmente isso, então eu não sei
te falar.

A terceira sequência discursiva é recortada de um testemunho tomado no Rio de


Janeiro, em 07/05/2014. A depoente relata que, depois de sair do DOPS5, certo dia
recebeu um telefonema em que pediam a ela que fosse ao Ministério do Exército
conversar com o General Reinaldo Melo de Almeida. Este queria lhe perguntar se ela
havia sofrido abuso sexual durante sua prisão. Questionada pela pesquisadora da CNV
sobre a resposta dada, ela diz:

Eu não me lembro o que eu respondi, mas primeiramente eu respondi que não. Que eu
fui torturada de várias formas, mas que violência sexual não. Ele me olhou assim. Então

5
Órgão histórico de repressão aos movimentos sociais e populares, o DOPS foi também centro de tortura
durante a ditadura do Estado Novo, retomando essa prática no regime militar. Nos dois períodos
ditatoriais, as vítimas preferenciais eram os militantes de partidos de esquerda. Com a centralização da
repressão política pelos DOI-CODIs, a partir de 1969, passou a ter um papel secundário, mas não deixou
de ser um porão da repressão, onde sevicias hediondas eram praticadas. O DOPS ficava na rua João
Negrão,773- Centro. Depois foi transferido para a rua Ermelino de Leão. (Disponível em
http://www.forumverdade.ufpr.br/caminhosdaresistencia/a-repressao/departamento-de-ordem-
politica-e-social-dops/)
pronto, era isso. É por isso que eu não lembro, sei lá... Eu sei lá. Eu acho que eu disse
que não, até porque há poucos anos atrás eu achava que não tinha sofrido. Porque eu
achava que violência sexual era assim estupro direto, violência direta, o cara enfiando o
pênis dentro de você. Se não for isso, então, eu não sofri. Tem tanta gente que sofreu,
né? Tem companheiras que foram tão violentadas. Então, eu não sofri.

Tomo especificamente as sequências:

SD1: Não sei, se eu te falar que sim, que não, não vou estar te falando a verdade, eu não
sei.

SD2: Eu sei lá. Eu acho que eu disse que não, até porque há poucos anos atrás eu achava
que não tinha sofrido. Porque eu achava que violência sexual era assim estupro direto,
violência direta, o cara enfiando o pênis dentro de você. Se não for isso, então, eu não
sofri.

SD3: (...) mas não se concretizou. Violência física não é uma violência sexual.

No caso específico das condições de produção do testemunho, permeadas pela


insistência sobre o dizer “a verdade”, sustentada na posição da CNV sobre a existência
ou não da violência sexual, compreende-se que as mulheres depoentes, ao ocuparem a
posição de sujeitos testemunhais sobre a violência sexual sofrida, respondem em forma
de enunciado dividido e opositivo, ancorado nas dicotomias: sim x não; verdadeiro x falso
(“Não sei, se eu te falar que sim, que não, não vou estar te falando a verdade, eu não
sei.”). Nessas condições, um pré-construído6 sustentado na lógica disjuntiva se impõe.

Em: “Eu sei lá. Eu acho que eu disse que não, até porque há poucos anos atrás
eu achava que não tinha sofrido.” “Se não for isso, então, eu não sofri.” “Então, eu não
sofri.”), vemos constituída uma posição de sujeito que oscila e nega a violência sexual
sofrida, mostrando o impossível - insuportável de se dizer em relação a prática da
rememoração que é solicitada pela CNV. O pré-construído de “dever relatar” o que a
CNV objetiva apurar como verdade sustenta as condições desse testemunho direcionando
o que deve ser dito, mas apontando para o que não se pode dizer.

6
A noção de pré-construído designa o que remete a uma construção anterior, exterior, mas sempre
independente, em oposição ao que é “construído” pelo enunciado. Trata-se, em suma, do efeito
discursivo ligado ao encaixe sintático (PÊCHEUX, 1997, p.99).
Em “(...) mas não se concretizou.” “Violência física não é uma violência
sexual.”, podemos encontrar uma paráfrase possível se propusermos o seguinte
encadeamento sintático: não se concretizou, porque violência física não é violência
sexual. A explicativa produzida por esse procedimento parafrástico aponta para uma
assertiva que se formula silenciando o que tem a ver com a violência sexual: sofri somente
violência física. O impossível e o insuportável de se dizer em relação a um evento
traumático mais uma vez marca a posição sujeito testemunhal.

Nessas sequências, a relação entre os verbos “saber” e “achar”, imaginariamente


instaurada pela CNV como pré-requisito para a enunciação “da verdade” (se for verdade
você “sabe”) e a sua correspondente negação no fio do discurso testemunhal (eu “acho
que não”), mostram a divisão constitutiva do sujeito diante de um acontecimento
traumático ao enunciar sobre si mesmo. Divisão que aponta para a impossibilidade de um
sujeito centro-sentido, dono do seu dizer.

Ao tomar os testemunhos dessas mulheres torturadas durante a ditadura civil-


militar e abrir uma escuta às passagens sobre a violência sexual relatadas por elas,
compreendemos que a noção de superstes nos possibilita “entender o testemunho na sua
complexidade, enquanto misto entre visão, oralidade narrativa e capacidade de julgar que
se relacionam na contradição” (SELIGMANN-SILVA, 2010). Contradição essa que
marca a relação língua-história na sua complexidade constitutiva. Um impossível de se
dizer, uma vez que o acontecimento da ditadura, que instaura um deslocamento na série
histórica dos acontecimentos, é intrinsecamente insuportável de se formular
afirmativamente. A não correspondência direta entre as palavras e as coisas se mostra
nesse processo, por isso, como não é possível “botar” em palavras, se nega.

Contudo, retomando Benveniste que diz que “algo” sempre corresponde àquilo
que se enuncia... “algo e não o nada”, vemos o modo como a língua em sua incompletude
constitutiva mostra a formulação linguística da negação condensada nas oscilações,
oposições, disjunções, o que nos leva a compreender que a posição-sujeito testemunhal
no efeito de retorno (lembrança) ao que está pretensamente esquecido pela sua
insuportabilidade de rememoração, torna visível um efeito de “aversão à identificação”
com tais práticas (conf. Freud), visto que ao tentar falar sobre esse acontecimento, há em
curso um reconhecimento, por um efeito contraditório, daquilo que ficou recalcado, mas
latente, e mesmo que, momentaneamente, nessa posição, haja a suspenção desse
recalcado instituído pela negação, não há um processo de identificação com o que
aconteceu. Por isso a impossibilidade de dizer sobre esse acontecimento como requer a
CNV, ou seja, como verdade. Por isso um modo de dizer que ao negar, instaura um
indizível.

Desse modo, a noção de real do testemunho, conforme nos traz Mariani (2016),
“sinaliza no campo da fala e da linguagem, a impotência das palavras e um indizível na/da
apreensão dos objetos”, pois há, segundo a autora, “(...) um fracasso da linguagem em
falar de um “todo vivido”, uma vez que a linguagem é insuficiente e apenas faz borda na
tentativa de dar conta do real da experiência, ou evento, ou acontecimento que mergulha
com violência o sujeito” (MARIANI, 2016, p. 55).

Consideramos, assim, que o gesto testemunhal ganha precedência e constitui


diferentes valores para esses relatos, uma vez que as condições de apagamento de uma
memória da ditadura que durou tanto tempo, como também a omissão do Estado em
relação a não assunção da responsabilidade sobre essas práticas de tortura, permeiam
fortemente o imaginário desse sujeito que ocupa a posição de testemunho de seu próprio
trauma. Por isso a negação e os efeitos produzidos em sua materialidade de testemunho
dão visibilidade a incomensurabilidade entre as palavras e esta experiência traumática.
Como diz Pandolfi: Por isso, nessas minhas fortes lembranças, permeadas por ruídos,
odores, cores e dores, estarão presentes ausências e esquecimentos.

Referências

BENVENISTE, Émile. (1939) Natureza do signo linguístico. In: Problemas de


linguística geral I. Campinas: Pontes/Ed. Unicamp, 1995.

_______. (1956) Observações sobre a função da linguagem na descoberta freudiana. In:


Problemas de linguística geral I. Campinas: Pontes/Ed. Unicamp, 1995.

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Sites consultados:
Comissão Nacional da Verdade: http://www.cnv.gov.br/
Armazém Memória (Brasil Nunca Mais, Memórias Reveladas e Memorial Anistia):
http://armazemmemoria.com.br/
Memórias da Ditadura: http://memoriasdaditadura.org.br/
Documentos Revelados: http://www.documentosrevelados.com.br
Resistir é Preciso: http://resistirepreciso.org.br/