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O Q U E F POESIA M E N O R ?

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qualquer associação depreciativa vinculada à expressão "poesia


m e n o r " , j u n t a m e n t e com a sugestão de q u e a poesia menor é
mais fácil de 1er, ou vale menos a pena ser lida, do q u e a " p o -
esia m a i o r " . A pergunta é simples: quais são os gêneros de poe-
sia menor, e por q u e deveríamos lê-los?
o QUE É POESIA MENOR? 1 A abordagem mais direta, s u p o n h o , é considerar os diver-
sos gêneros de antologias poéticas, pois u m a associação da
expressão poesia menor faz com que esta signifique "a espé-
cie de poemas que só lemos em antologias". E, casualmente,
sinto-me satisfeito com a oportunidade de dizer algo sobre os
usos das antologias, pois, se os compreendermos, poderemos
t a m b é m nos precaver contra seus perigos, u m a vez q u e existem
amantes de poesia que p o d e m ser definidos como viciados em
antologias e que não conseguem 1er poesia a não ser desse
modo. Naturalmente, o valor primordial das antologias, como
de toda poesia, repousa no fato de serem elas capazes de pro-
Não me disponho a oferecer, n e m no princípio n e m no porcionar prazer, mas, além disso, deveriam servir a diversos
fim uma definição de 44 poesia m e n o r " . O perigo de u m a deli- propósitos.
nição como essa e que ela poderia nos levar à expectativa de Uma espécie de antologia, que se justifica por si m e s m a ,
que chegássemos a um acordo definitivo sobre quais são os poe- é aquela que inclui poemas de autores jovens, aqueles q u e per-
tas " m a i o r e s " e os poetas " m e n o r e s " . Portanto, se tentássemos manecem inéditos ou cujos livros não são ainda suficientemente
estabelecer duas listas, uma de poetas maiores e outra de poe- conhecidos. Tais coletâneas têm um valor particular tanto para
tas menores da literatura inglesa, descobriríamos estar de acordo poetas q u a n t o para leitores, ou porque apresentam a obra de
com relação a alguns poucos poetas, q u e ali haveria mais n o m e s um grupo de poetas q u e possuem algo em c o m u m , ou porque
acerca dos quais discordaríamos e q u e duas pessoas jamais elabo- a única u n i d a d e de seu conteúdo corresponde àquela q u e é
rariam a mesma lista: e qual seria e n t ã o a utilidade de nossa dada pelo tato de todos os poetas pertencerem à mesma gera-
definição? O que julgo podermos fazer, todavia, e nos inteirar- ção literária. Para um poeta jovem é desejável ter vários está-
mos do fato de que, q u a n d o definimos um poeta c o m o m e n o r , gios de publicidade antes de ter um p e q u e n o volume todo
estamos dizendo coisas distintas em épocas distintas; p o d e m o s para si. Primeiro, os periódicos: não os que são bem conheci-
clarear um pouco nossa mente sobre o q u e significam tais distin- dos e circulam em âmbito nacional — a única vantagem, para
o poeta jovem, de neles figurar é o provável guinéu (ou gui-
ções, e evitar assim a confusão e o m a l - e n t e n d i d o . C o n t i n u a r e -
néus) q u e poderá receber pela publicação —, mas as pequenas
mos certamente a conceituar várias coisas com o m e s m o t e r m o ,
revistas, dedicadas ao verso contemporâneo e lançadas por jovens
de modo que devemos, como no caso de muitas outras pala-
editores. Essas pequenas revistas parecem a m i ú d e circular ape-
vras, tirar daí o melhor partido, e não tentar introduzir coisa
nas entre os colaboradores c os pretensos colaboradores; com
alguma à força numa definição. O q u e me c o m p e t e é descartar
uma circulação habitualmente precária, aparecem a intervalos
irregulares, e sua existência é efêmera, embora sua importância
1. Conferência pronunciada diante da Associação dos Letrados de Swansea e do coletiva seja totalmente desproporcional à obscuridade em que
Oeste do País de Gales em Swansea, em s e t e m b r o de 1944. Posteriormente publi- lutam para sobreviver. Além do benefício q u e p o d e m trazer,
cada em The Sewanee Review. ( N A . )
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ensejando experiência aos futuros editores literários e bons uma promessa como se fosse uma realização madura, e julga a
editores literários têm um i m p o r t a n t e papel a d e s e m p e n h a r antologia, não pelos poucos poemas mais dignos nela incluídos,
numa literatura saudável —, tais publicações d ã o ao poeta a mas, na melhor das hipóteses, pela média.
vantagem de ver sua obra impressa, de compará-la com a de As antologias q u e dispõem de mais ampla circulação são
seus também obscuros (ou ligeiramente mais conhecidos) con- naturalmente aquelas que, como o Oxford book of English ver-
temporâneos e de mobilizar a atenção e a crítica daqueles q u e se J abrangem a totalidade da literatura inglesa até a geração
mais provavelmente despertam simpatia graças a seu estilo de mais recente; ou aquelas que se especializam n u m d e t e r m i n a d o
escrever Pois um poeta deve conquistar um espaço para si período do passado; ou, ainda, as que abrangem a história de
mesmo entre seus pares e no seio de sua própria geração antes alguma parte da poesia inglesa, ou, afinal, as q u e se restringem
de atrair um público mais a m p l o e mais velho. Para as pessoas à poesia moderna' das duas ou três últimas gerações, incluindo
que estão interessadas em publicar poesia, essas p e q u e n a s revis- poetas vivos q u e já conquistaram certa reputação. Estas últimas,
tas proporcionam t a m b é m um meio de m a n t e r sob os olhos é claro, atendem t a m b é m a algumas das exigências da antolo-
aqueles que se iniciam e acompanhar de perto seus progressos. gia estritamente contemporânea. Mas, limitando-nos à conveni-
( omo passo seguinte, um g r u p i n h o de jovens escritores, com ência dessas antologias q u e incluem apenas a obra de poetas
certas afinidades ou recíprocas simpatias regionais, p o d e j u n t o mortos, cabe-nos perguntar quais os propósitos q u e p r e t e n d e m
produzir um volume, l ais grupos f r e q ü e n t e m e n t e se a g l u t i n a m elas alcançar para atender a seus leitores.
graças à formulação de um c o n j u n t o de regras ou princípios, Não há dúvida de que The golden treasury3 ou o Oxford
aos quais em geral ninguém adere; com o correr do t e m p o , os book proporcionaram a muita gente o acesso a Milton, a Words-
grupos se desfazem, os integrantes mais fracos desaparecem e worth ou a Shelley (não a Shakespeare, mas não esperemos
os mais fortes desenvolvem seu estilo pessoal. Mas o g r u p o , e o adquirir conhecimento sobre um poeta dramático através de
grupo da antologia atendem a um propósito proveitoso: os poe- antologias). Não me caberia afirmar, entretanto, q u e q u e m
tas jovens normalmente não despertam m u i t a atenção — e na quer q u e haja lido, e apreciado, tais poetas, ou meia dúzia de
verdade é melhor que não a t e n h a m do público em geral, outros, n u m a antologia, e não tenha ainda a curiosidade e o
mas necessitam de apoio e de avaliação crítica recíprocas, e de apetite de devorar suas obras completas, ou pelo menos por
algumas outras pessoas. E, par último, há antologias mais elas ter corrido os olhos para ver o q u e de outro m o d o poderia
abrangentes do verso novo, quase sempre compiladas pelos gostar não me caberia afirmar, repito, q u e essa pessoa seja
mais eminentes editores jovens; têm elas t a m b é m o mérito de verdadeiramente um a m a n t e de poesia. O mérito das antolo-
dar ao leitor de poesia uma noção do q u e se está f a z e n d o , u m a gias ao nos introduzir à obra dos maiores poetas é m u i t o efê-
oportunidade de estudar as mudanças na temática e no estilo, mero; e n e n h u m de nós irá consultar antologias em busca de
sem que haja a necessidade de recorrer a um grande n ú m e r o seleções desses poetas, embora elas continuem a ser úteis. A
de periódicos ou volumes isolados; e servem para dirigir, mais antologia t a m b é m nos ajuda a descobrir se não há alguns poe-
adiante, a atenção desses leitores para a evolução de alguns poe- tas menores cuja obra nos caberia conhecer melhor — poetas
tas que lhes podem parecer promissores. Mas m e s m o tais coletâ-
neas não atingem o leitor em geral, q u e , via de regra, não 2 Publicada cm 1900 c 1939. esta antologia, organizada por Sir Arthur Quiller-
ouvirá talar de n e n h u m desses poetas até q u e estes p r o d u z a m Couch, é notável q u a n t o à sua abrangência relativamente a períodos histórico-literá-
rios e à sua organic idade como obra de consulta. ( N . T . )
vários volumes e, conseqüentemente, passem a ser incluídos
3. O título completo desta coletânea é Golden treasure of English songs ami lyrics
em outras antologias que cubram um maior lapso de t e m p o .
(1861), de Francis Turner Palgrave Trata-se de u m a antologia-padrão da poesia
Quando o leitor dá uma olhada n u m desses livros, pode julgá- lirica do período vitoriano e, embora reúna várias gerações de autores, está divi-
lo pelos padrões que não deveriam ser aplicados: considera dida em volumes por assunto. ( N . T . )
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nue não figurem tão conspicuamente em n e n h u m a história da ve i toso conhecimento de outros poetas de grande importância,
literatura que possam não ter influenciado o curso da litera- mas de q u e m não gostamos. Há somente duas razões para ler-
tura poetas cuja obra não é f u n d a m e n t a l para n e n h u m esquema mos em sua totalidade The faery queen** ou Prelude, de Words-
abstrato de educação literária, mas q u e p o d e m ter um forte worth. 6 Uma delas é q u e gostamos de lê-los: c gostarmos de
apelo pessoal para certos leitores. Na verdade, eu tenderia a ambos os poemas é um ótimo sinal. Mas se não gostarmos, a
duvidar da autenticidade do amor à poesia por parte de qual- única solução é nos tornarmos um professor de literatura ou
quer leitor que não tivesse uma ou mais predileções pessoais um crítico literário, e sermos obrigados a conhecer esses poe-
pela obra de algum poeta sem grande importância histórica: mas. Todavia, Spenser e Wordsworth são ambos m u i t o impor-
caber-me-ia suspeitar de que a pessoa q u e só gostasse de poetas tantes na história da literatura inglesa porque toda a outra poe-
que os livros de história concordam em indicar c o m o os mais sia que compreendemos melhor resulta do fato de conhecê-los,
importantes não passasse de um e s t u d a n t e consciencioso, parti- de m o d o q u e todos devemos saber algo sobre eles. Não existem
cipando com muito pouco de si m e s m o em suas apreciações. muitas antologias que forneçam trechos substanciais de poemas
Esse poeta pode não ser muito importante, diriam vexes dcsatia- longos; é muito útil, entretanto, a que foi compilada por Char-
doramente, mas sua obra é boa para mim. Trata-se em boa les Williams, q u e teve a singular peculiaridade de realmente
parte de uma questão de q u a n d o e c o m o a l g u é m a d q u i r e o apreciar toda sorte de poemas longos q u e ninguém mais lê.
conhecimento de tal poesia. N u m a biblioteca familiar p o d e se Mas até mesmo uma boa antologia constituída de peças curtas
encontrar um livro q u e ninguém adquiriu à época em q u e foi pode proporcionar algum conhecimento, que vale a pena adqui-
publicado, porque dele muito se falou, e q u e n i n g u é m leu. rir, acerca daqueles poetas de que não gostamos. E da mesma
Foi assim que me deparei, q u a n d o criança, com um p o e m a forma que todos devem ter seu gosto pessoal por certa poesia
pelo qual nutri uma fervorosa afeição: The light of Asta, de Sir à qual outras pessoas não dão valor, assim t a m b é m , desconfio,
Edwin Arnold. 4 Trata-se de um longo p o e m a épico sobre a todos têm um ponto cego relativamente à obra de um ou mais
vida de Buda; devo ter alimentado u m a simpatia latente pelo poetas que devem ser reconhecidos como grandes.
tema, pois o li com prazer do principio ao f i m , e mais de u m a Uma outra utilidade da antologia é aquela que só pode ser
vez. Nunca tive a curiosidade de saber nada sobre o autor, mas proporcionada caso o organizador não seja apenas alguém de
ainda hoje me parece um bom p o e m a , e q u a n d o conheço q u e m muita leitura, mas um h o m e m de gosto muito sensível. Há
quer que o haja lido e apreciado, sinto-me atraído por essa pes- vários poetas que são em geral enfadonhos, mas que têm ilumi-
soa. Via de regra, não mais se encontram nas antologias extra- nações ocasionais. A maioria de nós não dispõe de t e m p o para
tos de epopéias esquecidas; não obstante, é sempre possível 1er do princípio ao fim as obras de competentes e ilustres poe-
que numa antologia seja alguém surpreendido por a l g u m a com- tas enfadonhos, especialmente os de outra época, para pinçar
posição de um autor obscuro, capaz de levar a um íntimo conhe- os bons trechinhos que nos interessam; c raramente isso valeria
cimento da obra de algum poeta de q u e n i n g u é m mais parece a pena, mesmo q u e dispuséssemos de tempo. Há um século
gostar, ou que ninguém mais lê. ou mais, todo amante de poesia devorava um novo livro de

Assim como a antologia pode nos dar a conhecer poetas


de pouca importância, mas de cuja obra alguém talvez possa 5 E a obra-prima de E d m u n d Spenser, poeta inglês (Londres, c. 1552 — id. 1599).
Escrita entre 1590 e 1596. essa epopeia, a m b i e n t a d a na Irlanda e prevista para doze
gostar, é certo que uma boa antologia pode nos trazer um pro- livros, ficou incompleta, dela restando apenas seis livros e dois cantos do sétimo. O
poema é todo alegórico, revelando visível influência de Virgílio. Ariosto e Tasso. (N.T.)
6 Longo p o e m a , escrito entre 1799 e 1805. do poeta inglês William Wordsworth
4. Este poema, cujo título completo é lhe light of Aua, or the great renunciation ( C o c k e r m o u t h , C u m b e r l a n d , 1770 — Grasmere. 1850J, em q u e este aborda a sua
(Mahabhishkramana), foi escrito em 1879 pelo poeta e jornalista inglês Sir Edwin infância, e q u e só foi publicado após a morte do autor. ( N . T . )
Arnold (1832-1904). tendo gozado de extraordinário prestígio em sua época. ( N . T . )
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Tom Moore - tão logo era este publicado: q u e m nos dias de priamente a q u a n t i d a d e de iguarias, mas a combinação de coi-
hoje terá lido inteiro sequer Lalla Rookbi Southey* foi poeta sas boas, há também prazeres poéticos a serem degustados; e
laureado e, conseqüentemente, escreveu epopéias: duvido que vários poemas muito diferentes, de autores de t e m p e r a m e n t o s
alguém haja lido Thalaba, ou mesmo The curse of Kehavia, distintos e de distintas épocas, q u a n d o lidos juntos, p o d e m pro-
q u a n d o criança, e g u a r d a d o por eles algo da estima que tenho porcionar o sabor peculiar que lhes é recíproco, ganhando-se
por The light of Asia. Q u e r o saber quantas pessoas chegaram em um deles o que se perde nos outros. Para fruir esse prazer
a 1er Gebir\ e no e n t a n t o Landor, 9 o autor desse nobre poema precisamos não apenas de uma boa antologia, mas t a m b é m de
longo, foi na verdade um habílimo poeta. Há muitos poe- alguma prática de como utilizá-la.
mas longos, entretanto, q u e parecem ter sido legíveis q u a n d o Voltarei agora à questão da qual p o d e m vocês imaginar
publicados pela primeira vez, mas q u e agora ninguém lê — que me extraviei. Embora não sejam apenas os poetas menores
embora eu desconfie de q u e , hoje em dia, q u a n d o a prosa de os q u e se encontram incluídos em antologias, cabe-nos julgar
ficção supre a necessidade que era preenchida, para muitos lei- como poetas menores os que somente lemos cm antologias,
tores, pelos romances em verso de Scott, Byron e Moore, algu- l ive de fazer uma advertência com relação a isso, assegurando
mas pessoas ainda leiam um poema m u i t o longo mesmo que que para cada leitor de poesia deveriam existir alguns poetas
seja recém-saído do prelo. Assim, as antologias e seletas são pro- menores q u e lhe justificassem o esforço de lê-los por completo.
veitosas, pois ninguém dispõe de t e m p o para 1er t u d o e porque Mas além desse caso, encontramos mais de um tipo de poeta
há poemas dos quais apenas algumas passagens continuam vivas. menor. Há, é claro, poetas q u e escreveram exatamente um ou
A antologia pode ter u m a outra utilidade q u e , de acordo apenas alguns bons poemas, de m o d o que parece não haver
com a linha de pensamento que estou seguindo, poderíamos razão para que ninguém vá além dos limites da antologia. Ε o
aqui examinar. Essa utilidade se relaciona ao interesse da com- caso, por exemplo, de Arthur O'Shaughnessy, 1 0 cujo poema
paração, da habilidade em estabelecer, n u m espaço exíguo, que começa com o verso Somos os criadores da m ú s i c a " não
u m a sinopse da evolução da poesia; e se é m u i t o o q u e pode- figura em n e n h u m a antologia que inclua as produções poéticas
mos aprender com a leitura de toda a obra de um poeta, é do fim do século XIX. T a m b é m será o caso, para alguns leito-
muito o que aprendemos ao passar de um poeta para outro. res, embora não todos, de Ernest Dowson 1 1 ou de J o h n David-
Transitar de um lado para o outro entre u m a balada fronteiri-
son. 1 2 Mas é de fato muito reduzido o n ú m e r o de poetas dos
ça, uma lírica elisabetana, um poema lírico de Blake ou de Shel-
quais podemos dizer ser verdade para todos os leitores que hajam
ley e um monólogo de Browning é ser capaz de ter experiên-
deixado apenas um ou dois poemas particulares dignos de ser
cias emocionais, bem como temas para reflexão, q u e a concen-
lidos: as probabilidades são de que se um poeta houvesse escrito
tração da atenção sobre um poeta não pode proporcionar. Assim
um bom poema, este constituiria, no conjunto de sua obra,
como num jantar bem organizado o que se aprecia não é pro-
algo digno de ser lido por, pelo menos, algumas pessoas. Dei-
xando de lado esses poucos leitores, descobrimos que quase sem-
7. Moore, Thomas. Poeta irlandês ( D u b l i n . 1779 — Sloperton. 1852). autor de
Irish melodies (1808-1834) e do longo p o e m a orientalista Lallj Rookh (1817) Foi iti O'Shaughnessy. Arthur. Poeta inglês (1844-1881) amigo de D a n t e Gabriel
grande amigo de Byron na Itália. ( N . T . ) Rossetti. Autor maneirista, mais atento à melodia do verso. ( N . T . )
8. Southey, Robert. Poeta e historiador inglês (Bristol, 1^-4 Kerwick, 184 5).
que formou com Wordsworth e Coleridge o g r u p o dos l^ike Poets Os p o e m a v n a r - 11. Dowson. Einest. Poeta inglês (Lee. K e n t , 1867 — Cat f o r d , Lcwisham. 1900).
rativas Thalaba e The curse of Kehama foram publicados, respectivamente, em Influenciado por Verlaine e Swinburne, deixou dois volumes de poemas: Verses
1801 e 1810. ( N . T . ) (1896) e Decora/ions (1899). ( N . T . )

9. Landor. Walter Savage. Escritor inglês (Warwick. F 7 5 Florença. 1864) q u e 12 Davidson, J o h n . Poeta escocês (Barrhead. 1857 Pezance, C o r n u a l h a , 1909).
permaneceu fiel ao classicismo em pleno período romântico, c o m o se pode ver em Celebrizou-se pelo poema anarquista Fleet street eclogues (1893), escrito em métrica
suas Imaginary conversations (1824-1846). Gehn data de 1798 (N I ) tradicional. ( N . T . )
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pre julgamos o poeta menor como aquele q u e só escreveu poe- menor. O q u e dizer sobre as Seasons de T h o m s o n 1 6 e a Task
mas curtos. Mas poderíamos às vezes falar igualmente de Sou- de Cowpcr? 1 7 São ambos poemas longos q u e , se o interesse do
they e Landor, e de um p u n h a d o de escritores dos séculos leitor se orienta em outras direções, esse mesmo leitor p o d e ficar
XVIII C XIX, t a m b é m como poetas menores, embora t e n h a m satisfeito ao conhecê-lo apenas por meio de extratos; mas eu
estes deixado poemas de dimensões mais grandiosas; c penso não admitiria que são poemas menores, ou q u e n e n h u m a parte,
que hoje em dia sejam poucos, pelo menos entre os leitores de um ou de outro, seja tão boa q u a n t o o c o n j u n t o . O q u e
mais jovens, os que considerariam D o n n e um poeta m e n o r , dizer de Aurora Leigh,18 da senhora Browning, ou d a q u e l e
mesmo q u e ele jamais houvesse escrito sátiras e epístolas, ou longo poema de George Eliot cujo título não me recordo? 1 9
Blake como de idêntica estirpe, ainda que nunca houvesse escrito Sc tivermos dificuldade em separar os autores de poemas
seus Livros Proféticos. Assim devemos julgar como poetas meno- longos em poetas maiores e menores, não nos caberá n e n h u m a
res, até certo ponto, alguns autores cuja reputação, tal como decisão mais fácil no que se refere a autores de poemas curtos.
se afigura, se deve a poemas muito longos; e como poetas maio- Um caso muito interessante é o de George Herbert. 2 0 Todos
res, aqueles q u e escreveram somente poemas curtos. nós conhecemos alguns de seus poemas, que aparecem cada vez
Pareceria mais simples à primeira vista considerar os auto- mais em antologias, mas q u a n d o percorremos seus poemas reu-
res menores de epopéias como secundários. ou ainda, mais rigo- nidos, surpreendemo-nos ao descobrir que esses poemas nos
rosamente, como grandes poetas malogrados. Eles fracassaram, comovem tanto q u a n t o aqueles que encontramos nas antologias.
sem dúvida, no sentido em q u e n i n g u é m mais lê seus poemas Mas The temple é algo mais do que um acervo de poemas reli-
longos; são eles secundários na m e d i d a em q u e julgamos os giosos escritos por um autor: ele é, como o título nos leva a
poemas longos de acordo com padrões m u i t o elevados. Não sen- supor, um livro construído segundo um plano; e q u a n d o come-
timos que um poema longo valha o esforço de ser lido a menos çamos a conhecer melhor os poemas de Herbert, chegamos à
q u e seja, em seu gênero, tão bom q u a n t o The faery queen, O conclusão de que há algo que extraímos do livro como um todo,
que é mais do que a soma de suas partes. Aquilo q u e , à pri-
Paraíso perdido,13 Prelude, Don JuanM ou Hyperion.1 além
meira vista, tem a aparência de uma sucessão de belos mas isola-
de outros poemas longos do mesmo nível. Todavia, considera-
dos poemas líricos acaba por manifestar-se como u m a contínua
mos que alguns desses poemas secundários sejam capazes de
ser lidos por certas pessoas. Ademais, advertimos q u e não
16. Este longo p o e m a descritivo, escrito entre 1726 e 1730. é da autoria do poera
podemos simplesmente dividir os poemas longos em um pequeno inglês J a m e s T h o m s o n ( E d n a m . Roxburgh. 1700 — Kew, perro de Londres, 1748).
número de obras-primas e um grande n ú m e r o daqueles com um dos discípulos de Alexander Pope. A obra pertence à literatura pré-romântica
os quais não precisamos nos aborrecer. Entre esses poemas aos e toi traduzida na época em quase toda a Europa. (Ν T.)
17 Trata-se da mais conhecida dentre todas as obras do poeta inglês William Cow-
quais acabo de me referir, e u m a estimável obra menor como
pcr (Great Bcrkhampstead, Hertfordshire. 1731 — Eats D e r e h a m , Norfolk. 1800).
The light of Asia, há toda sorte de poemas longos de gêneros É um poema descritivo em estilo classicista, com versos de acentuada eloqüência. (N.T.)
diferentes c de vários graus de importância, de m o d o q u e não 18. Longo poema da poetisa e ficcionista inglesa Elizabeth Barret Browning (Coxhoc
podemos traçar n e n h u m a linha definitiva entre o maior e o Hall, D u r h a m . 1806 Florença. 1861). casada com Robert Browning. A obra foi
publicada em 1857 (N.T.)
19. Muito provavelmente. Eliot alude aqui a The legend of Jubat (1874), da roman-
13. A obra-prima do poeta inglcs J o h n Milton (Londres, 1608 id. 1674), publi- cista inglesa George Eliot (Arbury Farm. 1819 — Londres, 1880), p s e u d ó n i m o de
cada em 1667 e à qual se segue, q u a t r o anos depois, Paraíso reconquistado Trata- Mary Evans. ( N . T . )
se do maior poema épico da literatura inglesa. (N 1 ) 20. Herbert, George. Poeta inglês (Castelo de Montgomery, 1593 — Bemerton,
14. Poema do poeta inglês George G o r d o n Byron (Londres, 1788 - Missolonghi, perto de Salisbury, 1633). Embora tenha pertencido ao g r u p o dos " p o e t a s metafí-
1824), publicado em 1819. ( N . T . ) sicos' , jamais sacrificou sua poesia aos abusos metafóricos do barroco. O p o e m a
The temple (1633) é considerado u m a das obras-primas da poesia inglesa. Deve-
15. Poema do poeta inglês J o h n Keats (Londres. 1795 Roma. 1821). publicado
se sua reabilitação, assim como a dos demais " m e t a f í s i c o s " , a T. S. Eliot. ( N . T . )
cm 1820. ( N . T . )
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meditação religiosa dentro de uma estrutura intelectual; e o livro temperamento muito diferente, extraímos t a m b é m o sentimento
como um todo nos revela o espírito devoto anglicano da pri- de uma personalidade uniforme, e acabamos por conhecer
meira metade do século XVII. E mais: começamos a compreen- melhor essa personalidade graças à leitura de todos os seus poe-
der melhor Herbert, e sentimo-nos recompensados pelo esforço, mas — e ao lermos todos os seus poemas deleitamo-nos sobre-
se conhecermos algo sobre os escritores teológicos ingleses dessa t u d o com aqueles de q u e mais gostamos. Mas, cm primeiro
época; e alguma coisa sobre os escritores místicos ingleses do lugar, não há semelhante propósito consciente contínuo nos
século XIV; e qualquer coisa de alguns outros poetas q u e lhe poemas de Herrick; trata-se de um h o m e m mais estritamente
foram contemporâneos — D o n n e , 2 1 Vaughan, 2 2 Trahcrne J —, espomâneo e inconsciente, q u e escreve seus poemas q u a n d o a
e se viermos a perceber algo em c o m u m entre eles e sua origem e imaginação dele se apodera; e, em segundo lugar, a personali-
formação galesa; e, finalmente, se conhecermos alguma coisa dade que neles se manifesta é menos i n c o m u m : na verdade,
sobre Herbert cm comparação com a típica devoção anglicana seu encanto reside cm sua mediania. Relativamente, gostamos
que ele expressa, com o mais continental, e romano, sentimento muito mais dele a partir de um poema do que de Herbert, se
religioso de seu contemporâneo Richard Crashaw. 2 4 Assim, ao nos restringirmos t a m b é m à leitura de um único poema deste;
final, não posso, de minha parte, admitir q u e Herbert seja cha- e mais: há algo mais no conjunto do q u e nas partes q u e o cons-
mado de " p o e t a m e n o r " , pois não é de alguns poemas predile- tituem. Consideremos em seguida Thomas C a m p i o n , o autor
tos que me recordo ao pensar nele, mas de toda a sua obra. elisabetano de canções. Caberia dizer que, dentro de seus limi-
Ora, compare-se Herbert a dois outros poetas, um algo tes, não existe artesão mais competente do q u e C a m p i o n em
mais velho do que ele e outro de u m a geração anterior, mas toda a poesia inglesa. Admito que, para compreender integral-
ambos ilustríssimos autores de poemas líricos. Dos poemas de mente seus poemas, há certas coisas q u e se deveriam saber:
Robert Herrick,^ ainda um clérigo anglicano, mas h o m e m de Campion foi um músico e escreveu suas canções para serem can-
tadas. Apreciamos melhor seus poemas se possuirmos algum
21. D o n n e . J o h n Poeta e orador sacro inglês (Londres. 15^2 id. 1631 ), conside-
rado o maior de todos os " p o e t a s metafísico* e reconhecido por Ben J o h n s o n conhecimento da música da época dos Tudor e dos instrumen-
c o m o "o primeiro poeta do m u n d o em certos aspectos Pregador favorito das cor- tos para os quais ela foi composta; gostamos mais deles se gos-
tes dos reis J a i m e I e Carlos I, D o n n e foi um notável inovador q u e se rebelou con-
tarmos dessa música; e não desejamos apenas lê-los, mas ouvir-
tra as convenções poéticas do renascimento petrarqui^ta D e n t r e suas m u i t a s obras,
lembrem-se Elegia, songs and soneti. Poems e Divine poems, todas reeditadas mos alguns deles cantados, e cantados com a própria música
no século X X . ( N . T . ) de Campion. Mas não precisamos igualmente conhecer algu-
22 Vaughan. Henry Poeta inglês ( N e w t o n Saint Briget. Bretknochshire. 1622 mas das coisas que, no caso de George Herbert, nos a j u d e m a
— Seethrog. 1695) Sob influência de Herbert, escreveu p o e m a s de f u n d a inspira-
compreende-lo c estimá-lo melhor; não precisamos nos preocu-
ção religiosa e acentuados traços "metafísicos , c o m o se pode ver em Sílex suntil
lans (1650 e 1655). ( N . T . ) par com o que ele pensa, ou com os livros q u e leu, ou com
23. Trahcrne. Thomas. Poeta inglês (Herefordshire. 1637? T e d d m g t o n , Middle- suas raízes étnicas ou sua personalidade. O q u e sentimos, ao
sex, 1674), pertencente ao g r u p o dos 'metafísicos' . Publicou Roman forgeries transitarmos daqueles seus poemas que lemos nas antologias
(1673) e Christian ethics (1675). ( N . T . )
para suas obras completas, é um prazer repetido, um júbilo
24. Crashaw. Richard Poeta inglês (Londres, c. 1613 Loretto. Itália, 1649).
Após converter-se ao catolicismo, passou a viver na Itália, o n d e publicou poemas diante de novas belezas e novas variações técnicas, mas não
religiosos que se incluem entre os melhores da poesia "metafísica . em estilo bar- uma impressão global. Não podemos dizer, em seu caso, que
roco extremamente o r n a m e n t a d o e e l o q ü e n t e , c o m o é o caso do p o e m a " l h e fla-
o conjunto é mais do que a soma das partes.
ming h e a r t " . Seus poemas a b r a n g e m duas edições: Steps to the temple e Carmen
Deo nostro. A edição definitiva, sob o título de Poems, é de 1957. ( Ν . Τ )
Não digo que até mesmo esse teste — que, de qualquer
25. Herrick, Robert. Poeta inglês (Londres, 1591 Dean Prior, Devonshire, 1674), modo, alguém deve aplicar a si próprio, com resultados diver-
pertencente ao g r u p o dos "metafísicos e considerado o maior anacreóntico da poe-
sia inglesa. Seus poemas estão reunidos em Hespendes (1648), c arac ter izando-se sos , caso o conjunto constitua mais do que a soma das par-
pela perfeição da forma e do estilo, bem como por sua extrema musicalidade. ( N . T . ) tes, seja em si um critério satisfatório para distinguir entre um
64 T. S. ELIOT O QUE É POESIA MENOR? 69

poeta maior e um poeta m e n o r . Nada é tão simples assim; e alguém pode fazer semelhante reivindicação são m u i t o poucos.
embora não percebamos, após a leitura de C a m p i o n , q u e com- Alguém pode subir na vida sem ter lido todos os últimos poe-
preendemos o h o m e m C a m p i o n , como o sentimos após 1er Her- mas de Browning ou Swinburne; não me caberia afirmar com
rick, ainda que em outros níveis, porque ele é acima de t u d o segurança que alguém devesse 1er t u d o de Dryden ou de Pope;
o mais notável artesão, eu, de m i n h a parte, julgaria C a m p i o n e certamente não compete a mim dizer q u e não haja partes
como um poeta mais importante do q u e Herrick, embora m u i t o de Prelude ou de The excursion que não possam admitir um
abaixo de Herbert. T u d o o q u e afirmei é q u e uma obra q u e salto. Muito pouca gente se dispõe a conceder seu t e m p o aos
consiste em um acervo de poemas curtos — mesmo em se tra- primeiros poemas longos de Shelley, The revolt o} Islam e
tando de poemas q u e , considerados isoladamente, seriam capa- Queen Mab, embora as notas a este último p o e m a mereçam
zes de parecer algo ligeiros — poderia, se tivesse u m a u n i d a d e ser lidas. De m o d o q u e seremos obrigados a dizer q u e um
de modelo f u n d a m e n t a l , constituir o equivalente de um p o e m a poeta maior é aquele de cuja obra temos de 1er u m a boa parte,
longo de primeira ordem ao estabelecer a pretensão de um mas não necessariamente toda a obra. E além de f o r m u l a r a
autor a ser um poeta " m a i o r " . Essa pretensão poderia ser, é pergunta De q u e poetas vale a pena 1er t u d o ? " , devemos
claro, estabelecida por um único p o e m a longo, e q u a n d o esse t a m b é m perguntar: " Q u e poeta vale para mim o esforço de
p o e m a longo é suficientemente b o m , q u a n d o inclui em si a 1er toda a sua o b r a ? " . A primeira p e r g u n t a significa q u e deve-
u n i d a d e e a variedade adequadas, não precisamos conhecer mos sempre tentar aprimorar nosso gosto; a s e g u n d a , q u e
— ou, se conhecemos, não precisamos valorizar intensamen- devemos ser sinceros com relação ao gosto q u e temos. Assim,
te — as demais obras do poeta. De m i n h a parte, eu definiria de um lado, não é praxe percorrer com atenção tanto Shakespe-
Samuel Johnson como um poeta maior graças ao simples teste- are q u a n t o Milton da primeira à última página, a menos q u e
munho de The vanity of human wishes, e Goldsmith pelo de alguém ali se depare com algo de q u e goste i m e d i a t a m e n t e :
The deserted village. é apenas esse prazer imediato que pode dar a alguém seja a
força motriz para 1er tudo, seja a expectativa de algum proveito
Até aqui, parece termos chegado à conclusão provisória de
assim pretendido. E ali poderiam existir, ou na verdade deve-
que, qualquer que fosse um poeta menor, um poeta maior é
riam existir — como eu já disse — alguns poetas q u e lhes falas-
aquele cuja obra devemos 1er em sua totalidade, a fim de q u e
sem tão de perto a ponto de levá-los a 1er toda a sua obra,
apreciemos plenamente cada u m a de suas partes; mas já modi-
embora não tivessem eles o mesmo valor para a maioria das
ficamos um pouco essa afirmação extrema ao admitir qualquer
outras pessoas. E essa espécie de vínculo não se refere apenas
poeta que haja escrito equilibradamente um poema longo q u e
a um estágio em seu desenvolvimento de gosto q u e vocês ultra-
combine suficiente variedade e unidade. Mas há decerto m u i t o
passarão, mas poderia indicar t a m b é m alguma afinidade entre
poucos poetas na Inglaterra de cuja obra alguém pode dizer
vocês mesmos e um determinado autor q u e persistirá pela vida
que deva ser lida em sua totalidade. Shakespeare, é claro, e
afora; poderia até ocorrer que vocês estivessem peculiarmente
Milton; e como no caso de Milton alguém pode advertir para
habilitados a apreciar um poeta de q u e m pouquíssimas outras
o fato de q u e seus diversos poemas longos — O Paraíso per-
pessoas fossem capazes de gostar.
dido, O Paraíso reconquistado e Sansão Agonista — deveriam
ser lidos inteiros devido a sua própria finalidade, necessitamos Eu diria então que há u m a espécie de ortodoxia q u a n t o à
lê-los todos, assim como precisamos 1er todas as peças de Sha- relativa grandeza e importância de nossos poetas, embora haja
kespeare, a fim de compreendermos plenamente cada uma delas; muito poucas reputações que permanecem inteiramente inalte-
e a menos que leiamos t a m b é m os sonetos de Shakespeare e radas de u m a geração para outra. N e n h u m a reputação poética
os poemas menores de Milton, há algo do q u e lemos q u e se jamais permanece exatamente no mesmo lugar: trata-se de u m a
perde em nossa apreciação. Mas os poetas em relação aos quais bolsa de valores em constante flutuação. Há os nomes consagra-
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T. S. ELIOT O Q U E É POESIA M E N O R ?

dos que só f l u t u a m , por assim dizer, d e n t r o de u m a estreita tudo, constituem admiráveis janelas. Acho q u e George Crab-
faixa de pontos: se Milton sobe hoje para 104 e cai a m a n h ã be 26 foi um excelente poeta, mas ninguém dele se aproxima
para 97 1/4, não importa. Há outras reputações, como as de pela mágica: se alguém gosta de relatos realistas sobre a vida
D o n n e ou Tennyson, q u e variam m u i t o mais intensamente, de aldeia em Suffolk há cento c vinte anos, em versos tão bem
de m o d o q u e alguém tem de julgar seu mérito por u m a média escritos que nos convencem de q u e o mesmo não poderia ser
tomada durante um longo t e m p o ; há ainda autores que perma- dito em prosa, é possível então que goste de Crabbe. Crabbe
necem muito estáveis em sua extensa trajetória abaixo daquele c um poeta que tem de ser lido em grandes porções, se é q u e
par e que persistem como bons investimentos graças àquele se deve lê-lo; dc m o d o que se alguém o considerar tedioso,
preço. E há certos poetas q u e constituem bons investimentos deve apenas dar-lhe uma olhadela e seguir em frente. Mas vale
para algumas pessoas, embora sem preço algum de cotação no a pena conhecer-lhe a existência, caso ela possa ser de seu agrado,
mercado, e a mercadoria poderia não ser convidativa ( t e n h o c t a m b é m porque lhe contará algo sobre as pessoas q u e o apre-
m e d o de que a comparação com a bolsa de valores provavel- ciaram.
mente se dilua nesse ponto). Mas eu diria q u e . c o n q u a n t o haja As principais questões que até aqui tenho tentado situar
um objetivo ideal de gosto ortodoxo em poesia, n e n h u m leitor são, creio eu, as seguintes: a diferença entre poetas maiores e
pode ser, ou deveria tentar ser, inteiramente ortodoxo. Há menores nada tem a ver com o fato dc terem eles escrito poe-
decerto alguns poetas, q u e muitas gerações de pessoas inteligen- mas longos ou poemas curtos, embora os verdadeiros grandes
tes, sensíveis e de considerável leitura apreciaram, q u e (se gos- poetas, que são numericamente poucos, hajam tido todos algo
tarmos de qualquer poesia) mereceram de nossa parte um esforço a dizer que só poderia ser dito n u m poema longo. A diferença
importante é se um conhecimento da totalidade, ou pelo menos
no sentido de tentar descobrir por q u e tais pessoas os aprecia-
de uma parte m u i t o extensa, da obra de um poeta faz com
ram, e se t a m b é m não é o caso de podermos apreciá-los. D e n -
que alguém desfrute mais intensamente, porque o leva a com-
tre os poetas de menor estatura, há certamente alguns sobre
preender melhor qualquer um de seus poemas. Isso implica
os quais, após u m a amostragem, p o d e m o s agradavelmente e
uma significativa unidade em toda a sua obra. N i n g u é m pode
sem risco considerar a opinião costumeira de q u e estão de todo
pór inteiramente em palavras essa compreensão ampliada: cu
a d e q u a d a m e n t e representados por dois ou três poemas, pois,
não poderia dizer com exatidão por que penso q u e compre-
como já disse, ninguém dispõe de t e m p o para descobrir t u d o
e n d o c me deleito mais intensamente com Com us 2 por haver
por si mesmo, e devemos aceitar algumas coisas sobre a convic-
lido O Paraíso perdido, ou mais intensamente com este por
ção dos outros.
haver lido Sar/são Agonista, mas estou convencido de q u e é
A maioria dos poetas menores, entretanto — daqueles q u e assim. Nem sempre posso dizer por q u e , graças ao conheci-
não preservam em absoluto n e n h u m a reputação —, está consti- mento de uma pessoa cm situações distintas, c observando seu
tuída de poetas dos quais todo leitor de poesia deveria conhe- comportamento n u m a diversidade dc situações, sinto q u e com-
cer algo, mas apenas alguns deles chegam a ser bem conheci- preendo melhor seu c o m p o r t a m e n t o ou sua conduta n u m a
dos por raros leitores. Alguns nos atraem graças a u m a conge- determinada ocasião; mas nos esquecemos dc q u e essa pessoa
nialidade peculiar de caráter; outros devido à sua temática; é uma unidade, apesar de sua conduta inconsistente, e de q u e
outros, ainda, em razão de u m a qualidade particular, de espí-
rito ou compaixão, por exemplo. Q u a n d o falamos sobre Poesia, 26 Crabbe, George Poeta inglês ( A l d e b u r g h , Suffolk, 1754 Trowbridge, 1832).
com maiúscula, podemos julgar apenas a mais intensa emoção Suas obras crii rigoroso estilo clássico, descrevem com simpatia e realismo a vida
ou a mais fantástica expressão; todavia, há muitos e grandes miserável dos pescadores e camponeses, como em The village, o n d e d e n u n c i a a
falsa concepção idílica da vida campesina. ( N . T . )
caixilhos em poesia q u e nada têm de mágicos e q u e não se
2 Peça pastoril de J o h n Milton, escrita em 1634. ( N . T . )
abrem sobre a espuma de mares perigosos, mas q u e , apesar de
72 T. S. ELIOT
O QUE É POESIA MENOR? 73

essa comunicação com ela d u r a n t e um lapso de t e m p o a torna


m o m e n t â n e o sentimento de alívio com o reconhecimento de
mais inteligível. Finalmente, condicionei essa discriminação obje-
que se trata de algum notável talento. Muitas pessoas ou se
tiva entre os poetas maiores e menores ao atribuí-la anterior-
satisfazem com o que encontram em antologias — e, m e s m o
mente a cada leitor em particular. N e n h u m grande poeta terá
q u a n d o são atraídas por um poema, p o d e m não se dar conta
talvez inteiramente a mesma significação para dois leitores, não
do fato ou, se isso ocorre, p o d e m não reparar no n o m e do
importa q u a n t o estejam eles de acordo no q u e respeita à sua autor —, ou aguardam até que se torne evidente q u e determi-
estatura: é mais provável, portanto, q u e o modelo de poesia nado poeta, após escrever diversos livros (c isso em si m e s m o
inglesa jamais seja exatamente o m e s m o para duas pessoas, de revela certa garantia), haja sido aceito pelos resenhadores (e o
m o d o que, no caso de dois leitores igualmente capazes, deter- q u e mais nos impressiona não é o que estes dizem ao escrever
minado poeta poderia ser, para um deles, de maior importân- sobre um poeta, mas suas alusões àquele poeta q u a n d o escre-
cia e, para o outro, de menor envergadura. vem sobre algum outro poeta).
Há u m a reflexão final a ser feita, q u a n d o passamos a consi- O primeiro m é t o d o não nos leva m u i t o longe; o s e g u n d o
derar a poesia contemporânea. Encontramos às vezes críticas não é muito seguro. Em primeiro lugar, somos todos propen-
presunçosamente sentenciosas em seu primeiro contato com a sos a ficar na defensiva de nossa própria época. Agrada-nos per-
obra de um novo poeta, da qual afirmam ser poesia " m a i o r " ceber que ela pode produzir uma grande arte, sobretudo por-
ou " m e n o r " . Ignorando a possibilidade de q u e aquilo q u e o que queríamos ter uma velada suspeita de q u e não o possa; e
crítico está louvando ou reconhecendo possa ou não ser efetiva- percebemos em parte que, se pudéssemos acreditar q u e dispo-
mente poesia (pois às vezes alguém p o d e dizer: liSe isso fosse mos de um grande poeta, isso de algum m o d o nos tranqüiliza-
poesia, seria poesia maior, mas não é .), não julgo aconselhá- ria e nos daria autoconfiança. Trata-se de um desejo patético,
vel tomar u m a decisão tão r a p i d a m e n t e . O máximo a q u e eu mas que t a m b é m perturba o julgamento crítico, pois podería-
me arriscaria, do p o n t o de vista do compromisso crítico, sobre mos chegar à conclusão de que alguém é um grande poeta sem
a obra de um poeta vivo, ao deparar-me com ela pela primeira sê-lo; ou poderíamos, com absoluta injustiça, menosprezar um
vez, seria averiguar se se trata de poesia autêntica ou não. Esse bom poeta por não ser este um grande poeta. E no caso de nos-
poeta tem algo a dizer, pouco diferente do q u e um outro disse sos contemporâneos, não devemos estar tão interessados no fato
antes, e descobriu, não apenas uma maneira diferente de dize- de que sejam grandes ou não; devemos insistir na pergunta:
lo, mas a maneira diferente de dizé-lo q u e expressa a diferença " S ã o eles autênticos"*". E deixar a questão de q u e sejam gran-
no que está dizendo? Mesmo q u a n d o me c o m p r o m e t o até esse des para o único tribunal capaz de decidir: o tempo.
ponto, sei que poderia estar correndo um risco especulativo. Em nossa própria época há, na verdade, um considerável
Eu poderia estar impressionado por aquilo q u e esse poeta está público para a poesia contemporânea; há, talvez, mais curiosi-
tentando dizer c negligenciar o fato de q u e ele não descobriu dade e mais expectativa com relação à poesia contemporânea
a nova maneira de dizê-lo, ou de q u e a forma peculiar da lin- do que havia uma geração antes. Por outro lado, há o perigo
guagem, que de início dá a impressão de q u e o autor tem algo de formar um público leitor que nada saiba sobre qualquer
de próprio a dizer, poderia constituir apenas um artifício ou poeta mais antigo do que, digamos, Gerard Manley Hopkins,
um maneirismo que dissimula u m a visão inteiramente conven- e que não disponha de uma cultura necessária à apreciação crí-
cional. Para q u e m lê, como cu, um bom n ú m e r o de manuscri- tica. Há t a m b é m o perigo de que as pessoas esperem para 1er
tos, c manuscritos de escritores dos quais se pode não ter visto um poeta até que sua reputação contemporânea esteja estabele-
antes obra alguma, as armadilhas são ainda mais perigosas: se cida; e a angústia, para aqueles dentre nós que estão no negó-
um conjunto de poemas for muito melhor do q u e quaisquer cio, de. após outra geração ter escolhido seus poetas, nós, que
outros que acabo de 1er, posso enganar-me e confundir meu lhes somos ainda contemporâneos, não mais sermos lidos. O
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perigo para o leitor e d u p l o : o de q u e ele jamais disporá de de fato interessados em saber se é um poeta " m a i o r " ou " m e -
nada totalmente fresco e o de q u e jamais voltará a 1er o q u e n o r " . Mas se lermos um poema, c se reagirmos a ele, devere-
sempre permanece fresco. mos querer 1er mais do mesmo autor, e q u a n d o houvermos
Há, por conseguinte, u m a proporção a ser observada entre lido o bastante, deveremos estar aptos a responder a pergunta:
nossa leitura da poesia antiga e da poesia moderna. Eu não con- "É somente algo mais da mesma coisa?" — é, em outras pala-
fiaria no gosto de n i n g u é m q u e jamais leu alguma poesia con- vras, apenas a mesma coisa, ou algo diferente, sem q u e nada
temporânea, e certamente não confiaria no gosto de alguém haja sido acrescentado, ou é uma relação entre os poemas q u e
que não leu nada além disso. Mas até m e s m o muita gente q u e nos leva a ver um pouco mais em cada um deles? Isso ocorre
lê poesia contemporânea não desfruta o prazer, e o benefício, porque, com a mesma reserva que observamos em relação à
de descobrir de algum m o d o algo para si. Q u a n d o vocês lêem obra de poetas mortos, devemos 1er não apenas poemas isola-
poesia nova, poesia de alguém cujo n o m e ainda não é ampla- dos, como o fazemos em antologias, mas a obra inteira de um
mente conhecido, alguém a q u e m os resenhadores ainda não poeta.
criticaram, vocês estão exercendo, ou deveriam tazê-lo, seu pró-
prio gosto. Não há outro no qual se fiar. O problema não é,
como parece para muitos leitores, o de tentar gostar de alguma
coisa de que vocês não gostam, mas de deixar sua sensibilidade
livre para reagir naturalmente. De m i n h a parte considero isso
bastante difícil, pois q u a n d o vocês estão lendo um poeta novo
com o deliberado propósito de vir a fazer u m a escolha, esse pro-
pósito pode interferir e obscurecer a consciência d a q u i l o q u e
vocês sentem. É difícil responder ao m e s m o t e m p o a duas per-
guntas: "É b o m , quer eu goste ou não? e " E u gosto d i s s o ? " .
E amiúde descubro q u e o melhor teste é q u a n d o alguma frase,
ou imagem, ou verso fora de um poema novo, acorre à m i n h a
m e n t e sem q u e o tenha desejado. Acho t a m b é m proveitoso
para mim dar uma espiada em poemas novos publicados em
revistas de poesia e em seletas de autores novos nas antologias
contemporâneas, pois, ao lê-los, não me preocupo em pergun-
tar: " D e v o me esforçar para que tais poemas sejam publica-
d o s ? " . Julgo que ocorra aí algo semelhante à m i n h a experiên-
cia: q u a n d o ouço pela primeira vez u m a nova composição musi-
cal, ou q u a n d o vejo u m a nova exposição de quadros, prefiro
fazê-lo sozinho. Pois, se estou sozinho, não há ninguém a q u e m
eu esteja obrigado a formular imediatamente u m a opinião.
Não é que eu precise de t e m p o para articular a m i n h a m e n t e :
preciso de t e m p o para saber o que realmente senti naquele
m o m e n t o . E esse sentimento não constitui u m a avaliação de
grandeza ou de importância — é u m a percepção de autentici-
dade. Assim, ao lermos um poeta contemporâneo, não estamos