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03/11/2017 Violação de direitos humanos e estigma na prostituição feminina | Diálogos pela Liberdade

Violação de direitos humanos e


estigma na prostituição feminina
8 DE OUTUBRO DE 2015 / COMUNICAAPMM

Isabel Brandão, psicóloga da Pastoral da Mulher, apresenta o tema Violação de direitos


humanos e estigma na prostituição feminina, compondo a mesa sobre “Impasse e desafios”
realizada no seminário A prostituição: uma abordagem desde os direitos humanos (23 de
setembro, Escola de Direito Dom Helder Câmara).

Isabel Brandão

O que é o estigma? É um sinal, é uma tatuagem, diz Isabel Brandão, que inicia sua apresentação
com esta pergunta e com um trecho da fala de Monique Prada, prostituta de Porto Alegre, ativista
conhecida nas redes sociais por criar debates relacionados ao feminismo e questões políticas em
torno de sua profissão.

“Eu sou aquela cuja palavra é constantemente invalidada – eu sou uma proscrita, e
para cada uma das palavras que escrevo há alguém que sabe mais do que eu,
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estudou mais do que eu e leu mais do que eu e portanto, pode falar melhor do que
eu sobre as coisas da minha vida. Há sempre por perto uma pessoa que já leu sobre
prostitutas, e então as prostitutas sobre quem ela leu valem mais que as prostitutas
com quem convivi e a quem conheço tão bem. Elas sabem mais de nós do que nós
mesmas, ou pensam saber – e seguir deixando que mulheres corram riscos por
conta do estigma sobre suas profissões não lhes dói; o saber teórico delas parece
ter mais valor do que nossas putas vidas.”

Monique Prada

O QUE É SER MULHER?

Para refletir o estigma, Isabel propõe algumas questões, dentre elas: o que é ser mulher? Ela traz
a construção histórica do tema apoiada em três discursos que determinam o padrão hegemônico
das condutas “normais e “desviantes” para as mulheres.

Discurso religioso: santa versus pecadora. Mulheres eram vistas desse modo,
especialmente na Idade Média (séc. XV a XVII) com a caça às bruxas. Neste discurso,
todos os saberes femininos são destituídos. As curas e até mesmo os partos que as
mulheres faziam eram considerados como feitiçaria. Por trás disso, aponta-se uma relação
ambígua que envolve a mulher. No período neolítico ela tinha a posição de geradora,
comparada à mãe terra, pois ela produzia um outro ser, como uma semente. Nessa época,
o homem ainda não sabia qual a participação dele na reprodução; isso gerava medo e
muitas fantasias ligadas à sexualidade que vai servir também para opressão da mulher.

Discurso jurídico: matrimônio baseado no direito romano contribuindo para a inferioridade


jurídica da mulher. Junto com a instituição do matrimônio, vem a reclusão da mulher no lar e
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fora do âmbito de acesso à produção de bens. O matrimônio vira uma forma legítima de se
viver a sexualidade e um modo de oprimir a mulher.

Discurso médico: diz que o destino biológico da mulher é ser mãe, deixando sua
sexualidade restrita à reprodução. E parece que até hoje isso está em voga, pois a
sociedade ainda enxerga a mulher como mama e útero, visto também nas políticas públicas
de saúde.

“Esses três discursos convergem para um único ponto: o controle da sexualidade feminina. A
consequência disso é a produção de uma identidade feminina a partir dessas construções,
desses discursos que dizem que a identidade legítima de uma mulher é ser mãe e esposa.

É importante pensar que esse modelo de rainha do lar é quase escravocrata, mas constitui-se
como legítimo, ressalta Isabel.

Nessa construção, o que funda a identidade feminina são as diferenças


biológicas. O corpo feminino, até mesmo pelo ato sexual em si, no qual a mulher é
penetrada, mostra uma destituição de poder e um abuso sobre o corpo do outro. As
diferenças biológicas se convertem em elementos centrais que manifestam a hierarquia
social (dita natural) entre homens e mulheres. E determinam-se aí comportamentos
ditos naturais, mas que no fundo são opressivos.

Essas diferenças são a base para o estabelecimento de direitos sexuais desiguais


para homens e mulheres; favorecem a criação dos conceitos de passividade (mulher)
e atividade (homem) que perpetuam o modelo de dominação masculina sobre a mulher e
naturaliza o desequilíbrio de poder entre os sexos; e são referências para a construção de
estratégias pedagógicas para ensinar às mulheres o que é “ser uma mulher decente”.

No contexto de uma sociedade patriarcal, machista e capitalista em emergência, o controle da


sexualidade estará a serviço de uma ordem econômica. Nessa época não havia DNA, então o
nome era uma forma de garantir a paternidade, com a função de assegurar a patrilinearidade na
transmissão de bens e recursos. Para conseguir essa segurança, a mulher era praticamente
enjaulada socialmente. Em cima disso, constituiu-se um modelo hegemônico do que seja
“normalidade”.

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PROPRIEDADE DO CORPO FEMININO => GARANTIA DA PATERNIDADE =>


GARANTIA DE TRANSMISSÃO DA HERANÇA.

RECURSOS PARA MANTER A ORDEM SEXISTA

“A prostituição é uma construção social com motivação pedagógica e está ali para nos
ensinar o que acontece se nos afastamos do que é conveniente.” (Dolores Juliano)

Isabel ressalta que o status sexual da mulher está sempre sob suspeita (roupa que vestimos, o
lugar que frequentamos e tudo o que fazemos colocará sob suspeita o nosso status sexual). Tudo
é usado para justificar a desonra da mulher, sempre com foco na castidade e no pudor. Desde a
infância aprendemos como nos comportar para não parecer uma “puta”.

Colocar sob suspeita o status sexual da mulher é uma estratégia disciplinar que desvia o foco do
problema central, que é o questionamento do modelo de sexualidade, que estigmatiza quem não o
segue. Com isso criam-se dois pólos: 1- mulheres decentes; 2- as indecentes (ou prostitutas). Isso
enfraquece as relações de solidariedade entre as mulheres, que passam a reproduzir a opressão
por temerem ser identificadas como “desviadas”, ou seja, a ameaça do estigma de “puta”mantém
as mulheres subordinadas.

“Morreu violentada por que quis. Saía, falava, dançava. Podia estar quieta e ser
feliz.” (Letra da música MÔNICA – Angela Rô Rô)

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PROSTITUIÇÃO

A prostituição é uma instituição social que supõe intercâmbio de serviços sexuais por dinheiro.
Mulheres que realizam esse serviço são estigmatizadas e discriminadas. Esse intercâmbio sexo-
dinheiro tem determinada valorização ideológica, que leva à construção simbólica de valor ou
desvalor, dependendo das instituições as quais pertence.

O ESTIGMA

O estigma é um sinal que se coloca sobre as pessoas que foram designadas para sofrer um trato
discriminatório e se apresenta como uma construção social baseada em estereótipos que levam a
preconceitos (pressupostos negativos), à discriminação e ao distanciamento social da pessoa
estigmatizada.

O QUE É SER PROSTITUTA?

“Talvez pouca coisa seja mais reveladora da hipocrisia e moralismo irresponsável de


nossos tempos do que não conseguirmos admitir que mulheres trabalhadoras estejam
sendo sistematicamente isoladas de decisões sobre o trabalho que exercem, silenciadas,
relegadas à categoria de seres não pensantes, empurradas para a clandestinidade ou
mesmo mortas em série pela máxima culpa de uma sociedade que prefere o pânico moral
à sensatez.”

Monique Prada

O estigma na prostituição vai ser consequência do modelo de sexualidade, dessa moral hipócrita,
que estabelece direitos sexuais desiguais para homens e mulheres: o que é motivo de desonra
para as mulheres é vanglória para os homens. Então, diante desse olhar, a mulher estará sempre
restrita à esfera do lar, não poderá fazer sexo fora do âmbito afetivo ou reprodutivo. Além disso,
estará limitada nas possibilidades de acesso aos próprios recursos econômicos, ressalta Isabel
Brandão na sua perspectiva histórica.

A GRAVIDADE DO ESTIGMA

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O estigma não se dirige à atividade, mas à pessoa, às mulheres que exercem a prostituição,
neste caso. Pelo fato de exercer essa atividade, todas as violações de direitos e discriminações
ficam justificadas pelo simples fato de terem feito uma opção que não confere com o padrão
hegemônico da sociedade.

Ser puta vira o máximo castigo por ousar transgredir as normas patriarcais.

POR QUE AS MULHERES QUE EXERCEM A PROSTITUIÇÃO ESTÃO EM SITUAÇÃO


DESFAVORÁVEL?

Prostituição é vista como um forma de vida relacionada à delinquência, ao


desajuste; puta significa sempre desonra e indignidade. Todo o entorno da
prostituição passa a ser criminalizado.
A atividade atribui uma identidade a quem a exerce: uma mulher não trabalha como
prostituta, ela é uma prostituta.
Esta é uma marca sem volta, que a acompanha por toda a vida. O descrédito em
relação à pessoa que exerce esta atividade é tão amplo que a inabilita para uma
aceitação social.

Então, apesar da história de luta das prostitutas, para reivindicar direitos a elas precisam mostrar
a cara. Mas, diante de todo esse panorama, como fazer isso?
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O ESTIGMA E SEUS DISCURSOS

Vítima: se a mulher está na prostituição por adversidade do destino, é melhor aceito pela
sociedade, que a enxerga como vítima. Ela passa a ser aquela que precisa ser “salva”,
“resgatada”.

Delinquente, subversiva: se a mulher escolhe a prostituição (opção legítima), ela será


vista como subversiva. A prostituição é encarada como possibilidade de exercer liberdade,
autonomia e resistência.

Subversão Manifesta: ao vender sexo a mulher rompe com o modelo hegemônico


(rainha do lar).

Subversão Latente: Liberdade sexual e autonomia econômica.

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