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01/02/2018 O novo interregno (por Boaventura de Sousa Santos) - Sul21

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O novo interregno (por Boaventura de Sousa


Santos)
Publicado em: Fevereiro 1, 2018

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01/02/2018 O novo interregno (por Boaventura de Sousa Santos) - Sul21

“Vivemos o agravamento sem precedentes da desigualdade social e a passagem da riqueza envergonhada para a
riqueza ostentada”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Boaventura de Sousa Santos

Estamos num interregno. O mundo que o neoliberalismo criou em 1989 com a queda do Muro de Berlim
terminou com a primeira fase da crise nanceira (2008-2011) e ainda não se de niu o novo mundo que se
lhe vai seguir. O mundo pós-1989 teve duas agendas com um impacto decisivo um pouco em todo o
mundo. A agenda explícita foi o m de nitivo do socialismo enquanto sistema social, econômico e político
liderado pelo Estado. A agenda implícita consistiu no m de qualquer sistema social, econômico e político
liderado pelo Estado. Esta agenda implícita foi muito mais importante que a explícita, porque o socialismo
de Estado estava já agonizante e, desde 1978, procurava reconstruir-se na China enquanto capitalismo de
Estado no seguimento das reformas promovidas por Deng Xiaoping.

O efeito mais direto do m do socialismo de tipo soviético na esquerda foi o ter desarmado
momentaneamente os partidos comunistas, alguns deles há muito já distanciados da experiência
soviética. A agenda implícita foi a que verdadeiramente contou; por isso, teve que ocorrer de maneira
silenciosa e insidiosa, sem queda de muros. Assistiu-se, depois de 1989, à difusão sem precedentes da
ideia da crise da social-democracia, que implicava uma forte intervenção do Estado na concessão de
direitos sociais e econômicos. A secundá-la, a ortodoxia neoliberal doutrinava sobre o caráter predador ou,
pelo menos, ine ciente do Estado e da regulação estatal.

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01/02/2018 O novo interregno (por Boaventura de Sousa Santos) - Sul21

O desarme da social democracia foi disfarçado durante algum tempo pela nova articulação das formas de
dominação que vigoram no mundo desde o século XVII: capitalismo, colonialismo e patriarcado. As
reivindicações sociais passaram a orientar-se para as agendas ditas pós-materiais, os direitos  culturais ou
de quarta geração. Estas reivindicações eram genuínas e denunciavam modos de opressão e de
discriminação repugnantes. Incidiam especi camente em dois eixos da dominação, o colonialismo
(racismo, monoculturalismo) e o patriarcado (sexismo e hetero-sexismo). O modo como as reivindicações
foram orientadas fez crer aos agentes políticos que as mobilizaram (movimentos sociais, ONGs, velhos e
novos partidos) que as podiam levar a cabo com êxito sem tocar no terceiro eixo da dominação – o
capitalismo. Houve mesmo uma negligência do que se foi chamando política de classe (igualdade,
distribuição) em favor das políticas de raça e sexo (reconhecimento da diferença). Essa convicção provou-
se fatal no momento em que o regime pós-1989 caiu.

A dominação capitalista, reforçada pela legitimidade que criou nestes anos, virou-se facilmente contras as
conquistas anti-racistas e anti-sexistas na busca incessante de maior acumulação e exploração. E estas,
desprovidas da vontade anti-capitalista ou separadas das lutas anti-capitalistas, estão a sentir muitas
di culdades para resistir.

Nestes anos de interregno resulta evidente que a agenda implícita visava dar total prioridade ao princípio
do mercado na regulação das sociedades modernas em detrimento do princípio do Estado e da
comunidade. No início do século XX o princípio da comunidade fora secundarizado em favor da rivalidade
que então se instalou entre os princípios do Estado e do mercado. A relação entre ambos foi sempre muito
tensa e contraditória. A social-democracia e os direitos econômicos e sociais signi caram momentos de
trégua nos con itos mais agudos entre os dois princípios. Esses con itos não eram resultado de meras
oposições teóricas. Resultavam das lutas sociais das classes trabalhadoras que procuravam encontrar no
Estado o refúgio mínimo contra as desigualdades e os
despotismos gerados pelo princípio de mercado.

A partir de 1989, o neoliberalismo encontrou o clima político adequado para impor o princípio  do mercado,
contrapondo a sua lógica à lógica do princípio do Estado, entretanto colocado à defesa. A globalização
neoliberal, a desregulação, a privatização, os tratados de livre comércio, o papel in acionado do Banco
Mundial e do FMI foram sendo executadas paulatinamente para erodir o princípio do Estado, quer
retirando-o da regulação social, quer convertendo esta numa outra forma de regulação mercantil. Para isso,
foi necessária uma desvirtuação radical mas silenciosa da democracia. Esta, que no melhor dos casos fora
encarregada de gerir as tensões entre o princípio do Estado e o princípio do mercado, passou a ser usada
para legitimar a superioridade do princípio do mercado e, no processo, transformar-se ela própria num
mercado (corrupção endêmica, lobbies, nanciamento de partidos, etc.). O objetivo era que o Estado
passasse de Estado capitalista-com-contradições a Estado capitalista-sem contradições. As contradições
passariam a ser exteriorizadas para a sociedade, e as crises sociais a serem resolvidas como questões de
polícia e não como questões políticas.

Vivemos, pois, um período de interregno. Não sei se este interregno gera fenômenos mórbidos como o
interregno famosamente analisado por Gramsci. Mas tem certamente assumido características
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profundamente dissonantes entre si. Nos últimos cinco ou dez anos, a atividade política em diferentes
países e regiões do mundo adquiriu facetas e traduziu-se em manifestações surpreendentes ou
desconcertantes. Eis uma seleção possível:

O agravamento sem precedentes da desigualdade social e a passagem da riqueza envergonhada para a


riqueza ostentada; a intensi cação da dominação capitalista (erosão dos direitos sociais), colonialista
(intensi cação do racismo, xenofobia, islamofobia, anti-semitismo) e patriarcal (sexismo, feminicídio)
traduzida no que chamo fascismo social em suas diferentes formas (fascismo do apartheid social,
fascismo contratual, fascismo territorial, fascismo nanceiro, fascismo da insegurança); a reemergência do
colonialismo interno na Europa com um país dominante, a Alemanha, a aproveitar-se da crise nanceira
para transformar os países do sul numa espécie de protetorado informal, particularmente gritante no caso
da Grécia;

O golpe judiciário-parlamentar contra a Presidente Dilma Rousseff, um golpe continuado com o processo
de impedimento da candidatura de Lula da Silva às eleições presidenciais de 2018; a saída unilateral do
Reino Unido da União Europeia; o m presumível do con ito armado na Colômbia; o colapso ou crise grave
do bipartidismo centrista em vários países, da França à Espanha, da Itália à Alemanha; a emergência de
partidos de tipo novo a partir de movimentos sociais ou mobilizações antipolítica, como o Podemos na
Espanha, Cinco Stelle na Itália, AAP na Índia, Alternative für Deutschland na Alemanha; a constituição de
um governo de esquerda muito moderada em Portugal com base num entendimento sem precedentes
entre diferentes partidos de esquerda; a eleição presidencial de homens de negócios bilionários com fraca
ou nula experiência política, apostados em destruir a proteção social que os Estados têm garantido às
classes sociais mais vulneráveis, sejam eles Macri na Argentina ou Trump nos EUA;

O ressurgimento da extrema-direita na Europa com o seu tradicional nacionalismo de direita, mas


surpreendentemente portadora da agenda das políticas sociais que tinham sido abandonadas pela
socialdemocracia, com a ressalva de agora valerem apenas para “nós” e não para “eles” (imigrantes,
refugiados); a in ltração de comportamentos fascizantes em governos democraticamente eleitos, como,
por exemplo, na Índia do BJP e do presidente Modi, nas Filipinas de Duterte, nos EUA de Trump, na Polónia
de Kaczynski, na Hungria de Orban, na Rússia de Putin, na Turquia de Erdogan, no México de Peña Nieto; a
intensi cação do terrorismo jihadista que se proclama como islâmico; a maior visibilidade de
manifestações de identidade nacional, de povos sem Estado, nacionalismos  de direita na Suíça, e na
Áustria, nacionalismos com fortes componentes de esquerda na Espanha (Catalunha mas também País
Basco, Galiza e Andaluzia) e na Nova Zelândia, e nacionalismos dos povos indígenas das Américas que se
recusam a ser encaixados na dicotomia esquerda/direita;

A agressividade sem paralelo na gravidade e na impunidade da ocupação da Palestina pelo Estado colonial
de Israel; as profundas transformações internas combinadas com estabilidade (pelo menos aparente) em
países que durante muito tempo simbolizaram as mais avançadas conquistas das políticas de esquerda,
da China ao Vietname e a Cuba; o colapso por uma combinação de erros próprios e interferência grave do
imperialismo norte-americano de governos progressistas que procuraram combinar desenvolvimento
capitalista com a melhoria do nível de vida das classes populares, no Brasil, Argentina e Venezuela; o novo
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rosto e a nova tática do imperialismo norte-americano que, em vez de impor ditaduras por via da CIA e
forças militares, promove e nancia iniciativas de “democracia amiga-do-mercado” através de organizações
não-governamentais libertárias e evangélicas e de desenvolvimento local, protestos com slogans ofensivos
para as personalidades, os princípios e as políticas de esquerda, protestos na medida do possível pací cos,
mas que, em situações mais tensas, pode envolver ações violentas que depois, com a cumplicidade dos
media nacionais e internacionais, são atribuídas aos governos hostis, isto é, governos hostis aos interesses
norte-americanos.

Este elenco deixa de fora os problemas sociais, econômicos e ecológicos que talvez mais preocupem os
democratas em todo o mundo, tal como não menciona a violência familiar, urbana, rural ou a proliferação
das guerras não-declaradas, embargos não declarados, o terrorismo e o terrorismo de Estado que estão a
destruir povos inteiros (Palestina, Líbia, Síria, Afeganistão, Iémen) e a convivência pací ca em geral. Neste
sentido, este elenco é um elenco de sintomas e não de causas. Mesmo assim, serve-me para mostrar as
características principais do interregno em que nos encontramos: a democracia liberal nunca teve
capacidade para se defender dos anti-democratas e fascistas com os mais diversos disfarces; mas hoje o
que mais surpreende não é essa incapacidade; são antes os processos de incapacitação movidos por uma
força transnacional altamente poderosa e intrinsecamente antidemocrática – o neoliberalismo (capitalismo
como civilização de mercado, de concentração e de ostentação da riqueza), cada vez mais geminado com
o predomínio do capital nanceiro global, a que tenho chamado o “fascismo nanceiro”, e acompanhado
por um cortejo impressionante de instituições transnacionais, lobistas e meios de comunicação social.

Estes novos (de fato, velhos) inimigos da democracia não a querem substituir pela ditadura. Em vez disso,
buscam descaracterizá-la ao ponto de ela se transformar na reprodutora mais dócil e na voz mais
legitimadora dos seus interesses. Mas, como ilustra o elenco de sintomas, é um processo com muitas
contradições.

O que virá depois deste interregno?

Editoria: Opinião Pública


Palavras-chave: Boaventura de Sousa Santos, capitalismo, fascismo, fascismo social, neoliberalismo, socialismo

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