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Anais do V Congresso da ANPTECRE

“Religião, Direitos Humanos e Laicidade”


ISSN:2175-9685

Licenciado sob uma Licença


Creative Commons

RELIGIÃO SEM RELIGIÃO EM JOHN D. CAPUTO

Paulo Ricardo Diniz Outeiro


Mestrando em Ciências da Religião
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
Paulo.268@gmail.com
CAPES
GT 03 – ESPIRITUALIDADES CONTEMPORÂNEAS, PLURALIDADE RELIGIOSA E DIÁLOGO

Resumo: A Filosofia da Religião de John D. Caputo (1940) pretende responder uma das
principais inquietações da contemporaneidade: Como conceituar a religião hoje? Assumindo
todos os riscos de tal empreendimento, sua modesta sugestão seria pensar o que chama de
“religião sem religião”. É principalmente nos livros The Prayers and Tears of Jacques Derrida
(1997) e On Religion (2001) que nosso autor desenvolve esta ideia. Em The Prayers and Tears
of Jacques Derrida Caputo expõe o caráter religioso da filosofia da desconstrução explorando
aspectos como o dom, a circuncisão e a confissão; caracteriza o pensamento de Derrida como
apofático, apocalíptico e messiânico. Ao enfatizar este último aspecto, Caputo encontra na obra
derrideana a possibilidade de uma “religião sem religião”. A estrutura messiânica se mostra
como a possibilidade do religioso, “sem o dogma, sem as fés messiânicas determinadas que
dividem a humanidade em partidos beligerantes”. Mais tarde em On Religion (livro integrante da
série Routledge “Thinking in Action) Caputo se dirige ao público leigo em filosofia ou teologia
propondo uma concepção pós-moderna de religião. Para o filósofo a religião se traduz como “o
amor por Deus”; e em um viés agostiniano se pergunta “O que amo quando amo meu Deus?”,
definindo uma religião sem conteúdo particular. A religião para Caputo é para os que amam,
independente se se declaram religiosos ou não, é algo que está em movimento também fora
das igrejas, algo que escorre para além ou fora das fronteiras das fés tradicionais, uma religião
que floresce sem as religiões tradicionais na qual a verdade reside em amar verdadeiramente e
não em proposições particulares de uma dada religião. A ideia de uma “religião sem religião”
busca expressar algo que acontece dentro das próprias religiões tradicionais mas também fora
delas, e no espaço entre elas, abrangendo também a ação religiosa sem crença. O que Derrida
chamaria de messianidade sem um messianismo particular. A Filosofia da Religião de John D.
Caputo parece a perspectiva ideal para pensar a Religião como se apresenta hoje, inclusive no
Brasil, com o aumento do trânsito religioso, da múltipla pertença e dos sem-religião.

Palavras-chave: Filosofia, Sem-Religião, Derrida, Desconstrução

Anais do Congresso ANPTECRE, v. 05, 2015, p. GT0320


Introdução
Ainda pouco estudado no Brasil1, o pensamento e a obra de John D. Caputo
(1940) lidam com temas que se inserem desde a filosofia em estrito sentido a aqueles
de uma teologia mais cotidiana. Professor emérito pelas cátedras Thomas J. Watson e
David R. Cook das universidades de Siracusa e Villanova respectivamente; Caputo é
conhecido por organizar inúmeros eventos e publicações acadêmicas sobre pós-
modernidade e religião; trazendo para o mundo anglófono o pensamento de
fenomenólogos franceses como Jean-Luc Marion, Jean-Louis Chrétien e Jean-Yves
Lacoste. Para Christina M. Gschwandtner sua obra passa por pelo menos quatro fases:
A primeira lidando com o pensamento de Heidegger em relação ao religioso, fase na
qual sua escrita é mais parecida com um estudo acadêmico da obra do filósofo alemão.
A segunda na qual Caputo desenvolve sua “Hermenêutica Radical”, com a qual elabora
uma abertura da hermenêutica ontológica de Heidegger a partir da desconstrução
pensada por Derrida. Nela Caputo diz começar a se expressar com a própria voz. Na
terceira fase o filósofo norte-americano lida com a postura de Derrida em relação aos
temas religiosos, tanto na própria ideia da desconstrução como nos escritos mais
autobiográficos como Circunfessions. Em seus escritos mais recentes Caputo elabora
uma teologia filosófica ou filosofia teológica que chama de “Teologia do Evento”. A
teologia da “religião sem religião”.
O presente trabalho busca esclarecer o que Caputo quer dizer quando se refere
a uma “religião sem religião”, tema desenvolvido principalmente nas obras das duas
últimas fases apontadas por Christina M. Gschwandtner. É principalmente nos livros
The Prayers and Tears of Jacques Derrida (1997) e On Religion (2001) que o autor
explora esta sua definição.

As orações e lágrimas de Jacques Derrida

1
Fato confirmado pelo Prof. Dr. Júlio Zabatiero em “A Filosofia da religião em John Caputo”. Em uma rápida busca
na internet encontrasse apensas três artigos referentes à sua obra, mas sempre em referência aos seus
comentários à Heidegger. O único livro de John D. Caputo traduzido à língua portuguesa é “Desmitificando
Heidegger” pelo instituto Piaget, de Portugal.

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Gschwandtner sugere que “o argumento central de Caputo em The prayers and
Tears of Jacques Derrida é de que temas religiosos integram a obra de Derrida do
começo ao fim, culminando com Circunfession onde eles se tornam mais explícitos. (...)
O subtítulo de The prayers and Tears serve também como um bom resumo da
interpretação de Caputo sobre Derrida: religião sem religião”. (GSHWANDTNER, 2013.
p. 247)
O livro é divido em seis capítulos os quais Caputo aponta como as seis maiores
cidades ou pontos turísticos da história da religião sem religião de Derrida: O apofático,
o apocalíptico, o messiânico, a dádiva, a circuncisão e a confissão. A desconstrução,
diz Caputo: “regularmente, ritmicamente repete essa religiosidade, sem (sans) as
religiões históricas e concretas. (...) Ela repete a paixão pela promessa e expectativa
messiânica sem (sans) os messianismos concretos das religiões positivadas que
promovem guerras sem fim e derramam o sangue do outro (...) ela repete sem cessar o
vem (viens), o chamado apocalíptico pelo impossível, mas sem chamar o apocalipse
que consumiria seus inimigos, ela repete a circuncisão como o corte que abre o mesmo
para o outro sem (sans) a fechadura sectária, ela repete a escalada de Abraão ao Moriá
e realiza uma dádiva sem retorno de Isaac, sem (sans) a economia do sacrifício de
sangue”. (CAPUTO. 1997. p. xxi)
A relação de Derrida com temas religiosos se inicia com seu breve encontro com
o discurso apofático, quando se afirmou que a desconstrução era uma teologia negativa
(aquela que nega os nomes e atributos de Deus). Derrida realmente utiliza este método
na desconstrução, é algo que ele não consegue evitar, diz Caputo. Principalmente
quando se refere ao tema do “nome” em Sauf le Nom (1993). Mas existe a
necessidade de se compreender também o caráter apocalíptico de sua escrita, quando
Derrida assume uma postura mais profética do que neoplatônico-cristã. Quando Derrida
afirma o “sim, venha” (viens, oui, oui.) que deixa os iluministas nervosos e apreensivos
ao defender um iluminismo mais iluminado.
Este caráter profético fica ainda mais claro no que Caputo denomina de
messiânico. “Aqui tocamos o coração da religião de Derrida”, afirma Caputo, “do
chamado à justiça, à democracia, uma que seja justa, um chamado de paz entre os
messianismos concretos”. O filósofo franco-argelino, inspirado por Walter Benjamin, já

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dá sinais dessa messianidade em “Força de Lei”, de 1989 mas é em Spectres de Marx
(1993) que descobre uma estrutura messiânica irredutível que “opera em Marx, sobre
Marx e atrás de Marx”.
Caputo observa que esta leitura de Marx deve ser entendida sob o que Derrida
chamou de hauntologia2, em oposição à ontologia (hauntologie e ontologie são
vocábulos homófonos em francês), ou seja, o compromisso com uma certa noção sobre
o “ser” que Marx assume em seu pensamento ao opor o real ao irreal, a atualidade
efetiva de forças econômico-materiais ao irreal e fantástico, entre a plena presença e a
ausência e sobretudo neste livro; entre a vida e a morte.
Para romper com esta última dicotomia Derrida traz à luz o indecidível espectro
(spectre). Este esquema fantasmagórico rompe com paradigma fenomenológico de
morte/vida, apresentando-se como pós-secular, pós-iluminista e pós-crítico. Como a
vida que é perseguida pela morte, seja dos espíritos que já se foram e os que virão,
seja da morte que continua a viver. A questão sobre a tradição e a herança é levantada,
precisamente por causa da justiça. Dito de outro modo, a justiça não é somente uma
questão dos vivos. Mas se há alguma esperança de justiça, esta é devida aos já mortos
e os que ainda irão nascer.
Esta noção de messianismo como responsabilidade com os mortos, seu morrer e
a herança que eles deixaram com sua morte para aqueles que ainda não nasceram,
denota um tempo fora do comum, um tempo que não se fecha em si mesmo, que é
estruturalmente “ex-posto” para um “ex-terior” que previne seu fecho, ou a injustiça.
Este ‘messiânico’ não é o messianismo cristão ou Judeu, Marxista ou Hegeliano, mas
uma estrutura formal universal para a qual todo movimento de justiça,
consequentemente de desconstrução se volta. Caputo afirma que, para Derrida: “Os
messianismos determináveis, as escatologias bíblicas e filosóficas específicas, são
completamente perigosas. Elas descrevem cenas de guerra e violência, dentre as quais
não devem ser somente incluídas as guerras travadas sobre a cidade de Jerusalém,
mas sobre o próprio Marxismo. Pois o Marxismo, também, tem um conteúdo messiânico
específico, uma onto-teologia que nos conta como as engrenagens do materialismo

2
Este termo poderia ser traduzido como “ontologia assombrada” ou “ontologia do assombro”, sempre em
oposição à uma noção definida de “ser”, em oposição à ontologia da presença heideggeriana.

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histórico estão inevitavelmente rodando, e como tudo que resiste a este progresso será
esmagado.”(CAPUTO, 1997. p. 128)
A proposta derrideana pode ser lida então como uma epoché do conteúdo de
qualquer messianismo em particular para que seja pensado “o messiânico” em geral,
como um pensamento do outro e do acontecimento por vir, onde a “estrutura formal da
promessa excede” ou “precede” as promessas particulares feitas nas alianças
particulares concretas.
Ao abordar o tema da dádiva, no quarto capítulo de The Prayers and Tears
Caputo revisita o tema do messianismo, mas em outra chave. O capítulo é um grande
comentário ao livro Donner la mort (1999), conhecido como o texto mais religioso de
Derrida, no qual o filósofo reflete sobre a pura dádiva, de vida e de morte, sobre a
noção de responsabilidade na tradição europeia desde Platão, tomando como matéria
textual a Bíblia Hebraica, o Novo Testamento e os textos de Patočka, Heidegger,
Levinas e Kierkegaard.
O que ocupa a reflexão de Jan Patočka, como cristão praticante, é a genealogia
da responsabilidade europeia, e não o dogma cristão. Ele não tenta defender as
doutrinas cristãs da encarnação, do pecado original, e da expiação. Seu interesse não é
a revelação cristã, mas a estrutura filosófica ou possibilidade que está na base deste
evento, afirma Caputo.
Além de Patočka, Derrida afirma que em direções e aspectos diferentes os
discursos de Lévinas, Jean-Luc Marion e talvez até de Paul Ricoeur estão na mesma
situação. Mas essa lista não pode facilmente se limitar, por que em certos aspectos,
respeitando as diferenças, os discursos de Kant, Hegel e Kierkegaard também
pertencem a esta tradição. “Eu mesmo ouso dizer, para um efeito provocativo, que até
Heiddeger”, afirma Derrida.“ Um pensamento que “repete” a possibilidade da religião
sem religião. (DERRIDA, 2008. p. 50)
É desse trecho de Donner la mort que Caputo extrai a expressão “religião sem
religião” como a melhor forma de expressar a ambígua relação de Derrida não só com
temas religiosos, mas também com sua própria identidade judaica. (Tema que trabalho
junto ao Núcleo de Estudos em Mística em Santidade coordenado pelo prof. Luiz Felipe
Pondé). Para o autor a expressão usada por Derrida ecoa seu uso, não incidental,

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messianidade sem messianismo, a identificação de uma estrutura mais primordial que
se opõe aos messianismos concretos particulares. “Eu ousarei mesmo dizer, por
intenção de provocação, que, Derrida também está tentando nos oferecer uma obra de
pensamento que reflete a possibilidade do religioso, de uma certa estrutura radical
messiânica sem as ligações das religiões particulares., sem o dogma, sem as fés
messiânicas determinadas que dividem a humanidade em partidos beligerantes. Pois a
distinção de Derrida entre os messianismo concretos e o messiânico em geral é, não
podemos esquecer, uma distinção entre guerra e paz.” (CAPUTO. 1997. p 195)

Sobre Religião (Sem Religião)


On Religion (2001), ou “Sobre Religião”, foi publicado sob a série Thinking in
Action, ou pensamento em ação, da editora Routledge, conhecida por publicações
acadêmicas na área de filosofia e religião. Editada por dois outros filósofos conhecidos
pela divulgação da filosofia continental contemporânea nos Estados Unidos, Simon
Critchley e Richard Kearney, a série tem o objetivo de aproximar temas e filósofos
contemporâneos do grande público. Debruçando-se sobre o tema que ocupou boa
parte de sua vida como professor e autor na área da filosofia continental, Caputo
procura expor o que entende por religião, mais especificamente pelo que chama de
“Religião sem Religião”.
Em sua primeira linha Caputo afirma: “Qualquer livro intitulado ‘Sobre Religião’
deveria começar com as más notícias ao leitor de que sua matéria de objeto não
existe”, procurando manter a indecidibilidade desta afirmação por todo livro. Caputo
divide seu texto em cinco capítulos (dos quais destacamos três). Abordando no primeiro
a religião como “o amor por Deus”, o autor retira da pergunta de Agostinho nas
Confissões “O que amo quando amo Deus?” uma definição para a religião na pós-
modernidade. A oposição entre religioso e secular é desestabilizada por esta operação,
recorrendo à passagem bíblia de I João 4:8, “Aquele que não ama não conhece a
Deus”, Caputo afirma que o oposto de uma pessoa religiosa é uma pessoa sem amor e
não uma pessoa sem religião no sentido moderno. “Algumas pessoas podem ser
profundamente “religiosas” com ou sem teologia, com ou sem as religiões. A religião
pode ser encontrada com ou sem religião”, diz o filósofo.

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No segundo capítulo Caputo mostra “como o mundo secular se tornou pós-
secular”. Seu traçado histórico começa com a exposição do argumento de Anselmo
sobre a existência de Deus, que foi chamado por Kant de argumento ontológico, mas
que deveria ser lido sob outra chave, a de uma oração. A modernidade é marcada pela
construção da ideia de consciência e sujeito consciente desde Descartes até Kant.
Kierkegaard e Nietzsche são vistos por Caputo como profetas de nossa era pós-
secular. Os dois filósofos já no século XIX criticam o sistema filosófico de Hegel que
deposita na razão toda sua confiança. Cada qual oferece uma proposta quase religiosa
em oposição ao Espírito Absoluto, abrindo espaço para as novas perspectivas da
filosofia da religião.
É no quinto capítulo que Caputo oferece seus “axiomas de uma religião sem
religião”. Para o filósofo a verdade religiosa é de outra ordem que não a do aceite de
dadas proposições acerca de credos e doutrinas, uma verdade sem conhecimento. Em
favor do “como amo meu Deus?” em detrimento do “que amo”, Caputo propõe a religião
verdadeira (em detrimento de uma Religião que apresente a Verdade com “V”
maiúsculo), dando voz ao profetismo de Amós e João, afirmando a busca da justiça ao
invés da fria religiosidade. A religião assim entendida não se compromete com os
credos, confissões e dogmas desta ou daquela confessionalidade. Tal religião pode ser
vista quando crentes ou não-crentes se comprometem com fazer justiça pertencendo ou
não, afirmando ou não as confessionalidades tradicionais.

REFERÊNCIAS
CAPUTO John D. On Religion. Londres e Nova Iorque: Routledge, 2001. 147 p.
______. Proclaiming the year of Jubilee. In: SCHENDIZELOS (Editado por). It Spooks.
Rapid City, SD, USA: Shelter 50 publishing collective, 2015. 257p.
______. The Prayers and tears of Jacques Derrida: Religion without Religion.
Bloomignton e Indianapolis: Indiana University Press, 1997. 379 p.
CUDNEY, Shane. “Religion without religion”. Em: OLTHIUS, James H. Religion
with/out religion: the prayers and tears of John D. Caputo. Londres e Nova Iorque:
Routledge, 2002. pgs. 34-49.
DERRIDA, Jacques. The Gift of Death. Chicago e Londres: The University of Chicago
Press, 2nd Edition, 2008. 158 p.
GSCHWANDTNER, Christina M. Postmodern Apologetics? Arguments for God in
Contemporary Philosophy. Nova Iorque: Fordham University Press, 2013. 352. p.
ZABATIERO, Júlio. A Filosofia da religião em John Caputo. Em: LUCHI, José Pedro.
(Org.). Religião em Debate. Vitória, ES: Aquarius, 2011. pgs. 103-129.

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