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SUMÁRIO

Relação dos mapas e créditos

13

Símbolos fonéticos usados no livro

15

Abreviaturas utilizadas no texto

17

Nota prévia

 

19

PRIMEIRA PARTE

 

História e métodos da Linguística Românica

 

As origens da Linguística Românica:

o método histórico-comparativo

23

Os primeiros comparatistas

23

Diez

 

25

Os neogramáticos e seus críticos

25

O

método comparativo aplicado às línguas derivadas do latim

27

Ciência da Linguagem e Linguística Românica nos séculos XIX e XX

29

Reações aos neogramáticos entre os séculos XIX e XX

29

Gilliéron

29

 

O

movimento das palavras e coisas

36

O

Idealismo Linguístico

36

O

legado de Gilliéron e do movimento das “palavras e coisas”:

a Geografia Linguística

37

O estruturalismo

42

A gramática gerativa

45

SEGUNDA PARTE

A romanização

România, romano e romance

49

 

A

expansão territorial do Estado romano

49

Decadência do Império e perdas territoriais

54

A

difusão do latim e a romanização

55

O

termo România e seus cognatos

57

A

România atual

58

TERCEIRA PARTE

 

O

latim vulgar

 

O latim vulgar e o latim literário no primeiro milênio

63

 

Sociolinguística do latim vulgar

63

Latim vulgar e latim literário na Alta Idade Média

67

Variedades de latim e línguas românicas

69

As precárias fontes escritas do protorromance

71

 

Textos que opõem intencionalmente duas formas de latim

72

Obras em que o latim vulgar penetra parcialmente

73

Inscrições

74

Termos latinos vulgares transmitidos por empréstimo às línguas não românicas vizinhas

75

Características fonológicas do latim vulgar

77

 

Acentuação e vocalismo

77

As vogais do latim vulgar depois da perda da duração

77

Os ditongos

81

Os hiatos

82

As consoantes do latim vulgar

82

O sistema consonantal do latim clássico

82

Consoantes simples

83

Consoantes geminadas

87

Grupos consonantais

88

Documento: os sistemas fonêmicos em algumas línguas românicas

90

Características morfológicas do latim vulgar

93

A

morfologia dos nomes

93

 

A

perda das declinações

93

Reinterpretação dos paradigmas de declinação como expressão do gênero

96

Desaparecimento do neutro

97

O

grau dos adjetivos

98

Os pronomes

98

A

morfologia do verbo

100

Mudanças de conjugação

103

 

O

desenvolvimento de uma nova conjugação

baseada nos verbos incoativos

103

Desaparecimento de tempos e formas

104

Reinterpretação dos tempos do perfectum

105

Casos de supletividade

105

A

conjugação verbal em latim clássico e latim vulgar: recapitulação

106

As palavras invariáveis

107

Características sintáticas do latim vulgar

109

Fatos a lembrar na construção sintática vulgar de algumas classes de palavras

109

Os adjetivos

109

Os pronomes pessoais

110

Formas nominais do verbo

111

No domínio das palavras invariáveis

112

A sintaxe da oração

112

Concordância

113

 

Regência

113

Tipos de orações independentes

115

A sintaxe do período

115

 

Orações

substantivas

115

 

Orações adjetivas

117

Orações subordinadas adverbiais

117

Documento: o Testamentum porcelli

118

O

léxico em latim vulgar

123

Processos de formação de palavras

124

A composição propriamente dita

125

A prefixação

125

A sufixação

126

A derivação imprópria

128

Tendências gerais na mudança de significado

129

Circunstâncias na mudança de significado

129

Dimensões na mudança de significado

134

Preferências e diferenças regionais

136

QUARTA PARTE

A fragmentação do romance e a formação das línguas românicas

 

A

dialetação do latim vulgar

141

Mudanças fônicas determinadas por pressões paradigmáticas

142

Mudanças fônicas devidas ao entorno

143

Os substratos

145

Os substratos da Itália peninsular

146

Os povos do Mediterrâneo ocidental

147

Os povos da França, da região do Pó e dos Alpes

147

Os substratos do Vêneto, da Dalmácia e da região danubiana

148

Os superstratos

148

Os reinos romano-barbáricos

149

Influências dos superstratos

151

Superstratos germânicos

151

O superstrato árabe

153

Os superstratos do romeno

153

Os adstratos

153

Os empréstimos

154

O grego como adstrato

155

A influência do latim literário

156

Fases da influência do latim culto

156

Aspectos da influência culta nas línguas românicas ocidentais

158

A

formação de domínios dialetais na România

161

A fragmentação linguística da România no final do primeiro milênio

163

 

O Stammbaum de Agard

163

A reconstrução de Robert Hall

167

România Oriental e România Ocidental

169

România Oriental e România Ocidental: a tese de Von Wartburg

169

România Oriental e România Ocidental: a divisão de Maurer

170

Recapitulação

171

Os domínios dialetais na România do século XX

173

Península ibérica

174

Os dialetos portugueses

180

Os dialetos da Espanha

182

Os dialetos catalães

183

Os dialetos da Gália

184

 

A

langue d’oil

185

A

langue d’oc

187

O

franco-provençal

190

Os dialetos da Itália e da Suíça meridional

191

Os dialetos sardos

193

Os dialetos réticos

195

 

Os dialetos galo-itálicos e vênetos

197

Os dialetos do centro e do sul da Itália e os dialetos toscanos

198

O

dalmático

200

Os dialetos do romeno

200

O

acesso dos romances à escrita:

os

primeiros documentos em romance

203

Condições de acesso dos romances à escrita

203

Os primeiros documentos em romance

204

Ipsa verba

205

As glosas

207

 

A

adivinha de Verona

210

Os textos literários

210

Os textos de edificação religiosa

213

A constituição das línguas nacionais

217

Critérios para o reconhecimento das línguas nacionais

217

Língua nacional e literatura

217

Língua nacional e política

218

O

papel cultural das línguas nacionais

219

O despontar das línguas nacionais românicas

220

As três línguas da Ibéria

220

 

O

português

220

O

castelhano

221

O

catalão

222

As línguas da Gália

223

 

O

provençal

223

O

francês

224

A

formação do italiano literário

226

O

romeno

228

Algumas linhas comuns na história das línguas românicas

229

O

período renascentista

229

O

período

barroco

230

Os empréstimos entre línguas

232

Os efeitos linguísticos da Revolução Industrial

234

A

democratização do poder

235

O

século XX e a absorção dos dialetos

236

QUINTA PARTE

As línguas românicas atuais: amostras e comparações

241

Um mesmo texto, seis línguas

241

Português

 

243

Espanhol

245

Catalão

249

Francês

252

Italiano

256

Romeno

259

As seis línguas das amostras: semelhanças e contrastes

262

Bibliografia

 

269

O autor

271

NOTA PRÉVIA

No passado, a Linguística Românica (ou “Filologia Românica”) ocupava um lugar privilegiado na formação do professor de Português, com outras disciplinas que tratavam de história da língua. Muito secundarista iniciou-se nos mistérios

da língua por essa perspectiva e aprendeu assim a valorizar a língua como uma instituição social sempre presente. A esse período, seguiu-se outro, em que o ensino ministrado nos cursos de Letras foi orientado por teorias que encaram a língua por um ângulo sincrônico, valorizando seu caráter sistemático ou procurando expres- sar com rigor matemático suas regularidades. Mas os últimos anos têm assistido

a um interesse renovado pelo passado das línguas, como prova a quantidade de

trabalhos universitários em que se procura esclarecer os mais diversos aspectos da história do português brasileiro levados a termo nos últimos anos, e a coleção monumental de livros que o professor Ataliba Castilho vem publicando sobre o assunto pela Editora Contexto. Dado esse quadro, pareceu oportuno lançar uma nova edição desta Linguís-

tica Românica, cuja falta nas livrarias nos vinha sendo cobrada por vários tipos de leitores. A nova edição não só corrige algumas pequenas falhas de redação e conceituação que nos foram apontadas na primeira, mas também procura tratar

o assunto de maneira mais didática e amigável pela introdução de exercícios (os

quais estarão disponíveis no site da editora) e pelo recurso a uma diagramação mais clara. Também traz amostras atuais das principais línguas românicas, explicadas de modo a realçar suas características e a mostrar como se ligam a sua história passada. A quinta parte do livro, escrita para esse fim, é inteiramente nova. Escrito em primeiro lugar para os estudantes dos cursos de Letras, mas também para todos aqueles leitores que se interessam pela história da língua portuguesa e de suas irmãs neolatinas, o livro encara o desafio de dar uma visão equilibrada, não técnica, do conjunto de problemas que se costuma reunir sob o rótulo “Linguística Românica”; deve servir ao estudante de Letras, como estímulo e orientação na

busca de leituras mais especializadas, e a qualquer pessoa interessada em cons- truir uma imagem densa das línguas e de suas peripécias, em alternativa à que se continua cultivando na sociedade, com a bênção da imprensa, e nos meios de comunicação de massa. O livro é dedicado à memória de um velho amigo que chegou ao Brasil quando

tinha 30 anos, e que soube amar a língua portuguesa como ninguém, mas também

a

todos os professores universitários da disciplina Linguística Românica. Com

o

primeiro, estou saldando uma dívida de formação; nestes últimos penso com

a

esperança de que o livro os ajude a organizar um conjunto de problemas que à

primeira vista parecem disparatados, e uma bibliografia que, no caso brasileiro,

é dispersa e de difícil acesso.

Rodolfo Ilari

As origens dA LinguísticA românicA: o método histórico-compArAtivo os primeiros compArAtistAs A Linguística Românica

As origens dA LinguísticA românicA:

o método histórico-compArAtivo

os primeiros compArAtistAs

A Linguística Românica é uma disciplina de orientação histórica, que se constituiu na segunda metade do século XIX, graças aos trabalhos de Friedrich Diez, cujos textos fundamentais (a Gramática das línguas românicas, publi- cada entre 1836 e 1844, e Dicionário etimológico das línguas românicas, de 1854) deram um exemplo marcante de rigor e método no estudo histórico das línguas derivadas do latim, mostrando a possibilidade de tratar “cien- tificamente” de uma série de temas que haviam preocupado os intelectuais durante séculos, mas que haviam sempre sido abordados com certa dose de impressionismo e assistematicidade. A Linguística Românica é também conhecida por outro nome, na verdade mais antigo, Filologia Românica, e esse nome mais antigo, que é mantido em muitos países, evoca uma linha de estudos mais tradicional, que é a Filologia Clássica. Mas o que é a Filologia Clássica? Ou, mais geralmente, o que é a Filologia? Desde o período do Humanismo (o movimento intelectual que precede e prepara a Renascença), muitos estudiosos vinham-se dedicando ao trabalho de estudar textos da Antiguidade, uma tarefa que exigia, além de conhecimentos técnicos (por exemplo, de edótica e diplomática), indispensáveis para restabelecer o texto em sua forma original, a capacidade de manipular informações extremamente varia-

24

Linguística românica

das sobre a época a que se referiam os documentos, e um domínio muito grande das línguas antigas. A esse interesse nos textos das literaturas antigas chamou-se Filologia Clássica respeitando de algum modo a etimologia da palavra filologia, que significa literalmente “amor pela expressão”; mas, dada a importância dos conhecimentos linguísticos que se exigiam para que o estudo literário se tornasse viável, a expressão Filologia Clássica designou também, desde sempre, o estudo erudito daquelas línguas. O culto criado pelo Humanismo e pela Renascença em torno das literaturas grega e a latina alargou-se no final do século XVIII, quando os investigadores eu- ropeus tomaram conhecimento dos livros dos Vedas, e da língua em que haviam sido escritos, na Índia, antes do ano 1.000 a.C., o sânscrito. O sânscrito não é o antepassado comum do grego e do latim, é uma espécie de “primo”, isto é, des- cende como eles de uma mesma língua mais antiga que teria sido falada na Índia no final do período Neolítico. Pouco depois da descoberta do sânscrito, as semelhanças existentes entre as línguas europeias começaram a ser estudadas sistematicamente numa série de trabalhos de grande envergadura, e assim foram descobertas características comuns entre línguas que sempre haviam sido consideradas independentes. Os autores que fizeram esta história são o dinamarquês Rasmus Rask (1787- 1832), que escreveu em 1814 uma Investigação da origem do antigo escandi- navo e do islandês, em que relacionava o antigo norueguês com germânico,

o gótico e as línguas eslavas; e os alemães Jakob Grimm (1785-1863) – o

mais velho dos irmãos Grimm, hoje conhecidos principalmente como autores de um célebre livro de fábulas –, e Franz Bopp (1791-1867), que publicou

entre 1833 e 1852 uma monumental Gramática comparativa do sânscrito,

zend (avestano), grego, latim, lituano, eslavo antigo, gótico e alemão; August Schleicher (1821-1868), autor em 1861-1862 de um Compêndio de gramá- tica comparativa das línguas indo-germânicas; Bopp e Schleicher sofreram

a influência do evolucionismo de Darwin e conceberam as línguas como or-

ganismos vivos, que nascem, crescem e depois degeneram; e isso os levou à

ideia de comparar as principais línguas europeias e depois de reconstituir seu antepassado comum, o “indo-germânico” (hoje, falamos em indo-europeu, e sabemos que dele descendem também o celta, o albanês, o armênio, o hitita e

o tocário (estas duas últimas são hoje línguas extintas). Nessa mesma linha, Jakob Grimm formulou a “lei” que ainda hoje traz o seu nome e organizou uma correlação observada entre os fonemas do grego e do latim, de um lado,

e das línguas germânicas, de outro.

As origens da Linguística românica

25

diez

Com suas obras (principalmente a Gramática de 1836), Friedriech Christian Diez (1974-1876) confirmou que havia entre o latim e as principais línguas românicas uma relação semelhante à do indo-europeu com o latim, o grego e o sânscrito; aplicando o método comparativo dos indo-europeístas, chegou a algu- mas teses que são hoje postulados da Linguística Românica. Uma dessas teses é que as línguas românicas se originaram não do latim clássico, mas de uma outra variedade de latim, conhecida como “latim vulgar”; outra tese de Diez é que não tem qualquer fundamento a hipótese (defendida pelo francês François-Just-Marie Raynouard, 1761-1836 e endossada antes dele por outros intelectuais, entre os quais o filósofo Voltaire), segundo a qual todas as línguas românicas teriam como ascendente mais próximo o provençal. Diez se interessou também pelo estudo de narrativas em espanhol antigo; assim, seu trabalho, que tinha orientação paralela ao da Filologia Clássica, criou espaço para uma Filologia Românica, com o duplo aspecto de estudo textual, justificado pelas dificuldades encontradas na leitura dos documentos românicos escritos antes da imprensa e da consolidação das línguas românicas, e de investigação genética das línguas derivadas do latim.

os neogrAmáticos e seus críticos

A geração de Diez, fundador da Linguística Românica, esteve sob influência direta da filosofia dos românticos, impregnada de espiritualismo e historicismo. A próxima escola linguística com influência marcante para a Romanística foi, ao contrário, uma escola fortemente marcada pelos progressos vividos no final do século XIX pelas ciências naturais. Nessa escola, que teve por centro a Universi- dade de Leipzig, há grandes indo-europeístas como Karl Brugmann (1887-1919), August Leskien (1840-1916) e Hermann Osthoff (1847-1909), autores de obras respeitadas e originais, mas é comum referir-se a esses autores como um grupo, utilizando para isso o nome de “neogramáticos” (Junggramatiker), que lhes foi dado de início por troça, mas que acabou tornando-se respeitado, à medida que eles passaram a representar a “posição oficial” em matéria de história das línguas. Os neogramáticos ganharam espaço no universo acadêmico da época defendendo um programa que afrontava ostensivamente as orientações dos primeiros comparatistas. Fizeram troça do propósito que havia animado seus predecessores no domínio da Linguística Indo-europeia – encontrar pela com- paração a protolíngua, que estaria na origem de todas as línguas modernas; recomendaram ao contrário que a atenção dos pesquisadores se voltasse para

26

Linguística românica

as línguas vivas, onde a evolução da língua pode ser objeto de observação e não de conjecturas. Na prática, o trabalho dos neogramáticos se caracterizou por uma exigência de extremo rigor, e pela crença de que as “leis” da evolução fonética agem de maneira absolutamente regular, aparecendo exceções apenas quando sua ação é contrariada pela força psicológica da analogia. Exemplos simples de como a analogia atua no funcionamento das línguas podem ser encontrados na fala das crianças, em “erros” como eu fazi ou eu trazi por eu fiz e eu trouxe: segundo Ferdinand de Saussure, que expõe em seu Curso de linguística geral o conceito de analogia dos neogramáticos, operaria aí uma

espécie de regra de três: se viver, correr etc. fazem o perfeito em -i, pode-se esperar que fazer e trazer também o façam. Um exemplo muito simples de como

a analogia afeta a evolução das línguas é dado pelo verbo português render e

seus correspondentes românicos fr. rendre, it. rendere etc.: essas formas não poderiam provir do verbo que significa “render” em latim clássico, ou seja, reddere, pois nenhuma lei fonética conhecida justifica que apareça do nada um -n- fechando a primeira sílaba; as formas românicas derivam verossimilmente de *rendere, construído por analogia com o verbo que significava “tomar”, isto é, prendere (clássico prehendere). Pela rigidez que atribuíram à evolução fonética, os neogramáticos atraíram

as críticas de autores que, ou por razões teóricas (como o linguista alemão Hugo Schuchardt [1842-1927]) ou por estarem em contato direto com a realidade mul- tiforme dos dialetos, como o dialetólogo italiano Graziadio Isaia Ascoli (1829- 1907), não estavam dispostos a aceitar a tese de que as leis fonéticas operam de maneira cega. Tiveram, contudo, uma influência determinante, para a Linguística

e

para a Romanística. Ferdinand de Saussure, em quem se costuma reconhecer

o

fundador da Linguística moderna, era neogramático de formação, tendo estu-

dado com Brugmann na Universidade de Leipzig; como se sabe, Saussure teve entre seus alunos alguns linguistas de grande porte, como Charles Bally, Albert Sechehaye (1870-1946) e Antoine Meillet (1886-1946), e seu ensinamento deu origem à Linguística estrutural; também teve formação neogramática o mais importante romanista depois de Diez, William Meyer-Lübke (1861-1936), cujas obras Gramática das línguas românicas e Dicionário etimológico românico (este geralmente conhecido pela sigla REW, formada pelas três primeiras letras do título

original) são ainda hoje fundamentais. Os trabalhos dos neogramáticos em geral,

e de Meyer-Lübke em particular, refinaram o método de Diez, isto é, o método

histórico-comparativo, que é fundamental nos estudos de Linguística Histórica

em geral, e nos estudos românicos em particular.

As origens da Linguística românica

27

o método compArAtivo ApLicAdo às LínguAs derivAdAs do LAtim

Comparar é uma tendência natural e uma importante fonte de intuições e de descobertas em todos os campos do conhecimento. Na análise das línguas, a comparação e o confronto levam às vezes ao estabelecimento de tipologias (como

a que distinguia, tradicionalmente, entre línguas monossilábicas, aglutinantes e

flexivas), outras vezes à busca de características supostamente inerentes a toda língua humana (como nos levantamentos acerca dos “universais da linguagem” realizados pela Linguística estrutural americana nas décadas de 1950 e 1960). Nesses casos, a comparação nada tem a ver com genealogia. Em Linguística Românica, porém, o método comparativo assume tipicamente propósitos genéticos, de reconstituição. Entende-se, em outras palavras, que as seme- lhanças constatadas entre expressões pertencentes às diferentes línguas têm que ser explicadas por sua origem comum; e que a forma que essas expressões apresentam hoje nas línguas românicas é o melhor indício de como pode ter sido a forma originária. Quando se comparam, por exemplo, port. e esp. saber, fr. savoir, it. sapere, fica legitimada a conjectura de que sua origem comum tenha sido uma palavra latina (i) cuja primeira sílaba começa por sibilante e (II) cuja segunda sílaba é tônica, e comporta uma consoante bilabial ou labiodental (p, b ou v). Constatando-se, além disso, que na evolução do latim para o espanhol e o português é regular a passagem

do p intervocálico a b; que o p intervocálico do latim passa regularmente a b e em seguida a v em francês; que, ainda em francês, o e longo das sílabas tônicas não travadas passou a ei, depois oi, oé, ué e (a grafia acompanhou esta evolução apenas até a forma oi), torna-se legítimo supor que a forma originária comum fosse *sapére, paroxítona. A identificação de *sapére como a forma de que se originaram saber e seus correspondentes românicos não deixa de ser surpreendente quando

referida ao vocabulário conhecido do latim clássico: o latim clássico tinha um ver- bo sápere, proparoxítono e conjugado como cápere, que significava entre outras coisas “saborear, provar uma comida para sentir-lhe o sabor”. Sápere deve ter sido conjugado em latim vulgar como um verbo da 2ª conjugação; e deve ter mudado de sentido, ou seja, a habilidade em não confundir o gosto dos alimentos deve ter sido tomada como representação metafórica da esperteza e da inteligência (quem

“não come gato por lebre”). Essas alterações na forma e no sentido do

é esperto

verbo sápere não são fatos isolados: a comparação de outras formas românicas aponta para conclusões semelhantes. Assim, port. fazer, caber, esp. hacer, caber mostram que o latim vulgar deve ter tido facére e capére, ao invés das formas clássicas fácere

28

Linguística românica

e cápere; e o uso de metáforas físicas para representar operações do pensamento é

comum (por exemplo, o nosso pensar e o mais erudito ponderar provêm de verbos que significam “pesar”, “colocar dois pesos na balança” etc.). Em suma, a comparação permitiu que os romanistas fizessem conjecturas bastante exatas sobre as formas latinas originárias. É até certo ponto casual que essas formas resultantes de conjecturas baseadas na comparação sejam efetiva- mente confirmadas mediante prova documental, isto é, que sejam encontradas nos textos latinos que sobreviveram até nossos dias. Às vezes, a prova documental

é possível. Por exemplo, as formas port. velho, esp. viejo, fr. vieil, it. vecchio,

rom. vechi apontam para uma forma veclus (que se explica a partir de veculus e vetulus, esta última diminutivo da forma clássica vetus, “velho”). Veclus é atestada no Appendix Probi, um glossário que data provavelmente ao século IV d.C., e que registra uma série de coisas que uma pessoa culta não deveria escrever, por serem consideradas erradas. Outras vezes ainda, formas que haviam sido propostas como resultado de reconstituição acabaram sendo encontradas em textos. É o caso da forma anxia, da qual derivam o port. ânsia e seus cognatos. Muitas vezes, por fim, as formas resultantes de reconstituição permanecem não atestadas; neste último caso, os romanistas, à imitação do que faziam os indo-europeístas, antepõem à palavra um asterisco. Seja como for, segundo uma estimativa reproduzida em Vidos (1968), as formas com asterisco não passam de 10% do total de materiais com que os romanistas têm trabalhado, e é importante lembrar que elas não são menos importantes ou menos seguras do que as formas atestadas: as línguas ro- mânicas tomadas em seu conjunto numa visão comparativa são a melhor fonte para o conhecimento de sua própria origem, um fato que ressalta quando se leva em conta a precariedade das fontes escritas do latim não literário. As conclusões que se tiram da comparação das línguas românicas são tanto mais seguras quanto maior for o número de línguas românicas que trazem evi- dências em seu favor, e quanto mais afastadas no espaço forem essas línguas. O sardo e o romeno, que se situam hoje nos limites do território em que o latim foi falado, e se desenvolveram por assim dizer à parte, sem comunicação com as outras regiões de fala latina, constituem uma espécie de teste da Antiguidade e do caráter panromânico das regularidades apontadas pela comparação. O campo em que o método comparativo deu os resultados mais sistemáticos

é o da Fonética; em Morfologia e em Sintaxe, sua aplicação exige a manipulação de dados mais complexos, e seus resultados sempre foram menos espetaculares.