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10/02/2018 Acesso ao Insight - Budismo Theravada - ensaio2

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As Duas Faces do Dhamma


Por

Bhikkhu Bodhi
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À primeira vista o Budismo nos confronta com um paradoxo. Intelectualmente ele aparenta ser o
paraíso para o liberal: sóbrio, realista, isento de dogmas, quase científico na sua aparência e
método. Mas se entramos em contato com o Dhamma por dentro, logo descobrimos que ele
possui um outro lado que parece ser a antítese de todas as nossas pressuposições racionais.
Ainda assim não encontraremos credos rígidos ou especulações aleatórias porém, iremos nos
deparar com ideais religiosos de renúncia, contemplação e devoção; um conjunto de doutrinas
que lidam com temas que transcendem a percepção sensorial e o pensamento e - talvez o mais
desconcertante - um programa de treinamento em que a fé figura como a virtude cardinal e a
dúvida como um obstáculo, barreira e grilhão.

Quando tentamos estabelecer o nosso próprio relacionamento com o Dhamma, nos encontramos
no final sob o desafio de estabelecer uma lógica para essas duas faces aparentemente
irreconciliáveis: a face empírica que se volta para o mundo e nos diz para investigar e verificar as
coisas por nós mesmos, e a face religiosa que se volta para o Além, aconselhando-nos a dissipar
as nossas dúvidas e colocar nossa confiança no Mestre e nos seus Ensinamentos.

Uma maneira de resolver esse dilema é aceitar somente uma das faces do Dhamma como
autêntica e rejeitar a outra como ilegítima ou supérflua. Assim, com a tradicional piedade Budista
podemos abraçar a face religiosa da fé e da devoção, mas distanciando-nos da visão crua do
mundo e da tarefa de inquirição crítica; ou com as escusas do Budismo moderno, podemos
enaltecer o aspecto empírico do Dhamma e a sua semelhança com a ciência porém tropeçando
envergonhados sobre o seu lado religioso. No entanto se refletimos acerca do que a genuína
espiritualidade Budista verdadeiramente requer, esclarecemos que ambas as faces do Dhamma
são igualmente autênticas e de que ambas devem ser tomadas em conta. Se falhamos em agir
dessa forma, não somente nos arriscamos a adotar uma visão distorcida do ensinamento, mas
também o nosso envolvimento com o Dhamma será provavelmente prejudicado por parcialidade
e conflito nas nossas atitudes.

O problema no entanto persiste, de como conciliar as duas faces do Dhamma sem se inclinar de
maneira hesitante para a auto contradição. A chave, nós sugerimos, para alcançar essa
reconciliação, e dessa forma assegurar a consistência interna para o nosso entendimento e
prática, se encontra em considerar dois pontos fundamentais: primeiro, o objetivo do Dhamma, e
segundo a estratégia empregada para atingir esse objetivo. O objetivo é de alcançar a libertação
do sofrimento. O Dhamma não tem como meta nos prover de informações factuais acerca do
mundo, e dessa forma, apesar da compatibilidade com a ciência, os seus objetivos e
preocupações são distintos desta última. Primordialmente e essencialmente, o Dhamma é um
caminho para a emancipação espiritual, para libertação do ciclo de repetição de nascimento,
morte e sofrimento. Ele nos é oferecido como o insubstituível meio de libertação, o Dhamma não
busca a mera aceitação intelectual, mas exige uma resposta que forçosamente será religiosa em
sua totalidade. Ele nos remete à verdadeira essência do nosso ser, e ali desperta a fé, devoção e

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comprometimento adequados no momento em que o objetivo final da nossa existência está em


jogo.

Mas para o Budismo a fé e a devoção são somente estímulos que nos impelem a iniciar e
perseverar ao longo do caminho, por si mesmas elas não asseguram a libertação. A causa
principal do apego e do sofrimento, ensina o Buda, é a ignorância em relação à verdadeira
natureza da existência, dessa forma na estratégia Budista de libertação o instrumento principal
tem que ser a sabedoria, o conhecimento e a visão das coisas como elas realmente são. A
investigação e a inquirição crítica, fria e descomprometida constituem o primeiro passo em
direção à sabedoria, permitindo que solucionemos as nossas dúvidas e obtenhamos uma noção
conceitual acerca das verdades das quais depende a nossa libertação. Porém a dúvida e a
inquirição não podem durar indefinidamente. Uma vez que tenhamos decidido que o Dhamma
será o nosso veículo para a libertação espiritual, devemos embarcar : devemos deixar de lado a
nossa hesitação e iniciar o programa de treinamento que nos irá conduzir da fé para a visão
libertadora.

Para aqueles que buscam no Dhamma gratificação intelectual ou emocional, inevitavelmente ele
irá mostrar duas faces, e o resultado será um enigma. Mas se estamos preparados para abordar
o Dhamma nas suas próprias condições, como o caminho para libertação do sofrimento, não
haverá duas faces. Ao invés disso veremos aquilo que estava ali desde o princípio: a face única
do Dhamma que, como qualquer outra face, apresenta dois lados que se complementam.

Revisado: 28 Outubro 2000


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