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e (jêneeo na ~Jeota
Catalogação da Publicação na Fonte. Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Biblioteca Setorial Especializada do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA).

119 Diversidade sexual e gênero na escola / Alípio de Sousa Filho (Org.). -


Natal, RN: Opção Gráfica e Editora, 2009.
42p.

1. Homossexualidade. 2. Sexo. 3. Homossexualidade - Aspectos


sociais. 4. Ética. 5. Preconceitos. 6. Comportamento sexual.
7. Homossexualidade e educação. L Sousa Filho, Alípio de.

RN/BSE-CCHLA CDU 392.6


Elaboração dos originais

Alípio de Sousa Filho (Organização e Coordenação editorial)


Professor do Departamento de Ciências Sociais da UFRN. Sociólogo. Doutor em
Sociologia pela Universidade de Paris V/Sorbonne (França).

Carlos Guilherme Octaviano do Valle


Professor do Departamento de Antropologia da UFRN. Antropólogo. Doutor em
Antropologia pela University College London (Inglaterra).

Cinara Nahra
Professora do Departamento de Filosofia da UFRN. Filósofa. Doutora em Filosofia
pela Universidade de Essex (Inglaterra).

Elisete Schwade
Professora do Departamento de Antropologia da UFRN. Antropóloga. Doutora em
Antropologia pela Universidade de São Paulo (USP).

Projeto Gráfico e Arte Final


João Carlos Ribeiro

Impressão e acabamento
Opção Gráfica e Editora

Financiamento
SECAD/MEC

Ação do Projeto Igualdade de Gênero e Diversidade Sexual na Escola

Equipe de Professores da UFRN


Alípio de Sousa Filho, Carlos Guilherme Octaviano do Valle,
Cinara Nahra, Elisete Schwade.

Estudantes bolsistas do projeto


Anne Christine Damásio, Fabíola Taíse da Silva Araújo,
Janaína Henrique dos Santos, Sonia Soares.

Universidade Federal do Rio Grande do Norte


Av. Senador Salgado Filho, 3000 - 59078-970 - Natal- RN
Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes
Tel. (84) 3215-3557 - e-rnail: bagoas@cchla.ufrn.br
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO 7

1. A concepção construcionista da realidade e o estudo da


Diversidade sexual e de gênero 09

2. Gênero em práticas educativas: uma introdução 23

B. Sexualidade ou sexualidades: como entender? 29

t Homossexualidade e moral
35
APRESENTAÇÃO

o Projeto Igualdade de Gênero e Diversidade Sexual na Escola foi uma realização de um grupo de
professores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com financiamento da Secretaria de Educa-
ção Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (SECAD/MEC). O projeto foi
selecionado e conveniado com a UFRN, em 2007, entre 30 outros nacionalmente selecionados e convenia-
dos pela SECAD e instituições de ensino superior, no âmbito da política de formação de profissionais da
educação para a promoção da igualdade de gênero e do reconhecimento da diversidade sexual, em cumpri-
mento ao Programa Brasil Sem Homofobia.
Como parte das ações e atividades do Projeto, os textos reunidos neste livro pretendem sintetizar
as reflexões e discussões realizadas nos módulos da capacitação oferecida a professores do ensino médio
da rede pública do RN. Ao todo, participaram 160 professores, em três cidades do estado, em atividades
que duraram seis meses. Nosso desejo é que os textos sirvam de contribuição à formação e reflexão de mais
professores e professoras e como material para suas atividades em sala de aula.
Sabemos o quanto ainda permanecem fortes e atuantes os preconceitos praticados contra gays, lés-
Dicas,travestis e transexuais e igualmente o quanto as mulheres ainda são desvalorizadas e discriminadas
na nossa sociedade. A escola não pode mais permanecer omissa quando os assuntos são preconceito e dis-
triminação e não tem o direito de permanecer dizendo que estes são assuntos difíceis, complexos, "que não
;e sabe com lidar", como desculpa para não tratar de fatos que não podemos mais esperar que continuem
l produzir mais sofrimento, violências, suicídios, assassinatos, bullying entre crianças, adolescentes, jovens
~adultos.
Esperamos que nossos textos ajudem a reflexões críticas e que se tornem subsídios válidos e utilizáveis
na escola para atividades que ajudem a produzir uma educação emancipatória. A escola deve se determi-
ilar a ser ferramenta para a construção de uma sociedade brasileira sem preconceitos, em que todas as
oessoas possam livremente viver suas escolhas, preferências, desejos. E não se trata de construir a ideolo-
~iada "tolerância", como muito se tem dito, pois, "tolerar" é muito pouco, trata-se de educar para acabar
nreconceitos.

Alípio de Sousa Filho


Organizador
A concepção construcionista da realidade
e o estudo da diversidade sexual e de gênero

Alípio de Sousa Filho


Professor do Departamento de Ciências Sociais da UFRN
ara começo de conversa
Na conversação cotidiana, é muito comum ouvir que a realidade existente é algo natural, que não se
pode nada contra ela, que é algo que existe em todas as partes, universalidade seguida por todos, e mesmo
até que se trata de algo "sagrado': "divino", resultado da vontade de seres celestiais, Deus ou deuses. Essa
maneira de pensar, embora seja preponderante, é contestada por muitos estudiosos nos diversos domínios
do conhecimento. Da física às ciências sociais, existem pesquisadores, cientistas, filósofos, antropólogos,
sociólogos, historiadores questionando tais ideias e propondo em seu lugar um outro modo de pensar que
chamamos concepção construcionista da realidade.
Até mesmo o olhar das ciências naturais sobre a realidade da natureza tem sido um olhar con-
strucionista, pois procura entendê-Ia como processos} resultados de movimentos próprios da. matéria no
transcurso do tempo, a natureza como um produto de si mesma, sem a interferência das ideias de Deus,
deuses,sagrado etc. Aqui, todavia, trataremos apenas da concepção construcionista no âmbito dos estudos
da realidade social, da realidade do mundo humano que chamamos "cultura", "sociedade" e "história".
Que é, pois, o modo construcionista de pensar? O que hoje chamamos de uma concepção constru-
cionista da realidade social? A concepção construcionista é uma maneira crítica de pensar a realidade do
mundo humano, é um pensamento crítico. Se há um postulado que pode resumi-Ia, é o que afirma que·
o mundo humano-social, em toda sua diversidade e em todos os seus aspectos, é produto de construção
humana, cultural e histórica. A realidade é uma produção, uma criação, uma construção dos próprios indi-
víduos humanos, por isso chamamos essa concepção de construcionista, e falamos de construcionismo crítico,
construcionismo social ou teoria construcionista crítica (variado com os autores) para designá-Ia como cor-
rente de pensamento, uma teoria da realidade'.
Uma teoria construcionista crítica (como prefiro chamar) propõe entender a realidade social exis-
tente (incluindo as dimensões imaginárias, simbólicas e subjetivas) como uma decorrência das práticas dos
indivíduos humanos, no transcurso do tempo (aquilo que chamamos a história) e no contínuo processo
ia atuação desses indivíduos nos vários espaços em que se distribuem. Esse caráter de coisa construída da
realidade humano-social- experimentada de diversas formas na vida cotidiana pelos indivíduos: línguas?
:eligiões,leis, normas sociais, valores, moral, sexualidade, ideias etc. - foi apontado por diversos estudos
em antropologia, sociologia e história, assim como por concepções filosóficas e teorias em lingüística, psi-
:ologia e psicanálise.
Assim, a concepção construcionista crítica da realidade tem como postulado fundamental a afirmação
.adical segundo a qual tudo é construído: isto é, uma compreensão de toda realidade social como resultado
ie construção (invenção, criação, produção, convenção) humana no tempo e nos espaços culturais.
A ideia construcionista deve seus começos às primeiras escolas de sociologia e antropologia, e deve
irn tributo especial a Peter Berger e Thomas Luckmann - a quem devemos o livro seminal "A construção
ocial da realidade" (1985), cujo título já diz tudo. Uma socioantropologia construcionista é o que vemos sair
ias páginas desse livro, sem dúvida um bom começo para todo aquele que pretenda se iniciar numa con-
:epção construcionista crítica da realidade. Um outro autor importante para se entender como procedem
)s estudiosos que adotam a concepção construcionista é o filósofo francês Michel Foucault. Há mesmo
luem atribua a Michel Foucault (1977; 1978; 1979; 1985, entre outros títulos) ser o criador da teoria da

Mais e mais, autores utilizam o termo construcionismo para falar de abordagens da realidade que consideram a existência de uma teoria da
onstrução social da realidade. A título de exemplo, sugerimos a leitura de ERIBON, Didier. Reflexões sobre a questão gay. Rio de Janeiro:
:ompanhia de Freud, 2008; HALPERIN, David. San Foucault: para uma hagiografia gay. Córdoba: Ediciones Literales, 2007.

[!]
construção social da realidade, mas o que não é exato. Antes dele, no início do século XX, os estudos das cialisme
escolas antropológicas e sociológicas sobre padrões culturais, cultura e personalidade, indivíduo e socie- substân,
dade já apresentam concepções construcionistas. Poderíamos dar os exemplos de Franz Boas (2004), Ruthdo pom
Benedict (s.d.), Margareth Mead (1988), embora se deva entendê-los em seus contextos e como pioneirosversal e
de uma concepção que estava apenas em seus começos. Muitos outros vieram após esses autores, produz-e indep
indo a perspectiva construcionista de análise da realidade social. human
Sobre Michel Foucault, poderíamos dizer brevemente que se trata de um autor que deixou uma imrodos o
portante obra construcionista, ao realizar pesquisas e reflexões que chamou de arqueologia e genealogia P
dos saberes, discursos, práticas, dispositivos de poder etc. A arqueogenealogia de Michel Foucault constiturnesrm n
a prática de um pensamento construcionista, tanto quanto contribuiu para sua consolidação, pois partgern, có
da hipótese segundo a qual a realidade toda e toda realidade é invenção sócio-histórica. Para M. Foucaulele tamb
diversas ideias, práticas e instituições existentes na realidade (e que damos por certo que existem por causae coletiv]
ou razões fundamentadas) não são mais do que construções singulares/particulares (isto é, históricas) quda vonta
se determinam a fazer crer que são naturais, universais, inevitáveis e necessárias. constiru
Foucault chamou de discurso a prática (de fala, mas não apenas) que cria objetos, sujeitos e ideias commdivídu I

se fossem verdadeiras substâncias ou essências naturais e universais, denunciando seus efeitos de poder sofiversos
bre os indivíduos, ao produzir verdades que aparecem como universais e inquestionáveis. Fez uma filosofiíius" (B
que, por ser construcionista, pode ser também considerada desconstrucionista. Dizemos isso porque a ana'esultada
lise construcionista da realidade social, por seu próprio caráter, torna-se igualmente um desconstrucionismocial, é r
filosófico e sociológico. Todo construcionismo é um desconstrucionismo, assim como toda perspectiv..ornr, es
desconstrucionista somente se constitui como tal por adotar uma compreensão construcionista da realielações s
dade. Isto é, a desconstruçâo dos discursos, representações e ideias sobre a realidade social (seus objetosções hu
sujeitos) requer que esta seja compreendida como um construto, como resultado de construção social, hu Se I

mana e histórica. A perspectiva da desconstrução contém necessariamente a compreensão construcionisnanos, nâ


da realidade. Michel Foucault fez isso em toda sua obra. alvez su
ue ternos
A realidade social como construção humana e histórica ura o arn
Conceber o que experimentamos e chamamos realidade social como construção humana não é ide~stituiçã
arbitrária ou desprovida de sentido. Se caracterizarmos brevemente uma sociedade pelo conjunto das instJmo rela
tuições, convenções e crenças que a mobilizam e a regem, assim como pelas significações produzidas quevas': não
atribuem sentido e justificam-na, tudo nela é construção humana e cultural, invenção social e histórica. mdada s
Mas, como se pode pensar a realidade social e a existência do próprio indivíduo humano como urr;mpre na
construção social, fora das ideias do "natural", de "natureza humana", instintos, herança genética e fora [eía de "a
ideia do "divino': do "sobrenatural"? Que é pensar os valores, as crenças, as ideias, os hábitos, as atitudefrement
os sentimentos humanos como coisas social e historicamente construídas e para as quais os indivíduos e iua1ment
sociedades atribuem sentidos e significações que possibilitam estabilizar como realidades, verdades, aquLOSsexuai
que criam, passando essas realidades e verdades a serem representadas como existindo por si e como cois~eo geni
imodiíicávcis, absolutas? .rn existê
A teoria construcionista crítica é claramente contrária à idéia de uma natureza humana fixa e ii vista de
variável (que existiria em cada indivíduo), de caráter biológico, herdado geneticamente, ou "natureza" mintes a "p
ra (espiritual etc.) "transmitida', assim como contrário à ideia deuniversal para coisas que são particulan Com
históricas, específicas apenas de uma sociedade ou cultura. A idéia de "natureza humana" é um substcVnista po
5das cialismo ou essencialismo contra os quais o construcionismo se volta. Simplesmente não existe o que seja a
ocie- substância única e universal de um "ser humano" igual em todas as partes, que seria inteiramente o mesmo
K-uth do ponto de vista de atitudes, costumes, hábitos, definindo-se, com essa ideia, que haveria um modo uni-
eiros vérsale natural de existir como humano: a ilusão de um ser humano que existiria em estado in natura, antes
«luz- e independente de sua fabricação nas culturas, nas sociedades. O que até aqui, em filosofias ou em ciências
humanas, foi chamado de "natureza humana" deve ser compreendido como uma natureza construída, e em
a im- todos os sentidos.
Iogia Para o construcionismo crítico, o indivíduo humano, como ser biológico e ser cultural, sempre e na
stitui mesmamedida, é um ser que, engendrando o seu mundo específico de viver (através do trabalho, da língua-
parte gem,códigos culturais, normas sociais, crenças, angústias, desafios, crises etc.), engendra a si próprio, sendo
cault, eletambém o único que pode modificar aquilo mesmo que criou, ainda que, não raro, enrede-se, individual
ausas e coletivamente, na ideia que a realidade vivida é uma força contra a qual nada pode ou é algo dependente
;) que da vontade de poderes invisíveis, seres celestiais. Biológico e culturalmente engendrado no processo de sua
constituição como uma espécie particular, a espécie humana, processo que chamamos de hominização, o
como indivíduo humano é integralmente produto de sua própria atividade no mundo. Essa compreensão está em
er so- diversosestudiosos e está sintetizada nesta frase: "o Homo sapiens é sempre, e na mesma medida, homo so-
osofia cius" (BERGER, 1985, p. 75). Tudo o que os indivíduos humanos praticam, pensam, sentem, acreditam é
a aná- resultado do que eles próprios criam e transmitem uns aos outros no processo que chamamos aprendizagem
nismo social,é resultado do processo de sua fabricação social nas culturas e nas épocas históricas nas quais vivem.
ectiva Como escreveram os pensadores alemães Marx e Engels, o indivíduo humano é "o resumo de suas ações e
. reali-relações sociais" (MARXe ENGELS, 1987). Do mesmo modo como as sociedades, que, resultando das
ietos eaçõeshumanas, são integralmente produtos sociais, culturais e históricos.
al, hu Se fosse verdadeira uma natureza comum (biológica) dos "sentimentos" e "comportamentos" hu-
onistarnanos, não seriam tão diversas as maneiras de "sentir" e "agir" culturais. Um único exemplo é, por agora,
talvezsuficiente: entre os Na, etnia habitante da China sudoeste, o "sentimento do amor" que "une casais':
que temos como "natural" na nossa cultura, não existe. Um Na não ama, não sente falta do amor, não pro-
cura o amor, nem "o amor" lhe procura. Simples: entre os Na, não sendo o casamento monogâmico uma
é ideijnstituição predominante, embora ocorra, as relações sexuais entre homens e mulheres não são concebidas
.sinsti,Comorelações de "amor". As relações sexuais Na não são recobertas com a representação das "relações ate-
s que ~ivas",não existem "amantes apaixonados" entre eles, nem "se mata por amor". Os Na são uma sociedade
:ica. fundada sobre a instituição cultural da "visita" sexual noturna furtiva ou ostensiva dos homens, que ocorre
10 um~empre nas casas das mulheres, para encontros sexuais com estas, sem fins de casamento, não havendo a

fora dideia de "amantes", relações afetivas duradouras ou temporárias. Homens e mulheres dessa etnia podem ter
rudes ivrernente relações sexuais com vários parceiros e alterná-los segundo suas vontades durante toda a vida.
10S e a[gualmente,não sendo o casamento uma prática cultural predominante, as crianças que nascem dos encon-
, aquil{-rossexuaissão invariavelmente da linhagem materna, que assegura a educação de meninos e meninas, sem
) coisailueo genitor biológico tenha qualquer papel ou presença. Entre os Na, não há a figura social do "marido",
rem existência de "pai" (socialmente uma figura inexistente e, portanto, desconsiderada também do ponto
xa e in1evista de quem seja o pai biológico das crianças que nascem.). Na língua, não existem palavras correspon-
zà' ouJentes a "pai" e "marido" (HUA, 1997).
culares Com exemplos como esse, que se multiplicam nos estudos etnográficos, a antropologia (constru-
ubstanionista por vocação) consegue demonstrar que a cultura constrói o indivíduo humano em todos os seus
aspectos, não ficando excluídos nem mesmo aqueles que chamamos sentimentos, emoções, subjetividadeconstu
personalidade etc., não raramente tomados por "naturais". É por essa compreensão que antropólogos comCretar a
Clifford Geertz afirmam que "nossas ideias, nossos valores, nossos atos, até mesmo nossas emoções sãoAssim
como nosso próprio sistema nervoso, produtos culturais" (GEERTZ, 1989, p. 62). ciedad
Com o que foi dito até aqui, podemos entender o modo como a concepção construcionista comunivel1
preende a diversidade das sociedades, seja considerando suas diferenças culturais, seja situando-as n:discun
história. Chamamos de diversidade cultural o conjunto de todas as diferenças culturais entre as sociedade1como I
A visão construcionista denuncia a negação dessa diversidade, mesmo quando se fala dela, fazendo a crític
do etnocentrismo, que é o olhar que hierarquiza e estigmatiza com preconceitos os povos, as culturas encial, do
suas diferenças, negando-Ihes o estatuto de igualdade na diversidade. É o etnocentrismo que é responsáveepisten
pelas ideais de "povos inferiores", "povos bárbaros", "sociedade primitiva: "sociedade evoluída', "cultura surealçar
perior" que têm servido à discriminação de povos, sociedades e culturas, e que historicamente legitimarallpara le
a invalidação e dominação de diferentes nações, povos e indivíduos. necessá
A visão construcionista é também atenta a fenômeno, similar ao etnocentrismo, que se manifestpermitG
como negação da diversidade dos próprios indivíduos numa mesma sociedade: o preconceito. Este podmodifi
vir a ter diversas formas e transformar-se em atitudes de discriminação contra indivíduos e comport1PermitG
mentos considerados inferiores, errados, anormais, incomuns, tal como ocorre com o preconceito comrTudo n
negros, indígenas, gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais na nossa sociedade e em diversas outratransfol
Igualmente, o preconceito e a discriminação praticados contra as mulheres: ainda hoje, programas de te] 1\
visão lançam perguntas sobre a inteligência das mulheres e se estas são menos ou mais inteligentes que cário, co
homens, como se se tratasse de uma questão de natureza biológica, fixa e invariável. sociais G
Uma concepção construcionista crítica é, então, tributária do relativismo cultural, é um relativism)trução,
É percepção da relatividade das formas culturais sob as quais os indivíduos humanos têm vivido, tornandbara ser
se relativização dos padrões culturais, das instituições sociais e das práticas históricas. O relativismo é unnquesti
medida crítica necessária se se quer evitar a queda nos substancialismos naturalizantes, nos universalismemais bel
isto é, como veremos logo adiante, queda no discurso ideológico. Não sem razão, os substancialistas e un'Aparti]
versalistas ideológicos de plantão são avessos ao relativismo. Veja-se o que pensa do relativismo o cardtriar a n~
Ratzinger, agora papa Bento XVI: "o relativismo é uma praga de nossa época'. Evidente, sua vontade. •
que sua Igreja impere sozinha, assentada nos substancialismos e universalismos do Deus único, da IgrV\ ide
Verdadeira, que não resistem ao confronto com a diversidade cultural e religiosa. Para o anti-relativista Dís
diversidade cultural, a diversidade de pensamentos e a própria diversidade dos indivíduos (em seus desej(ndivídu(
escolhas, preferências), quando não são ignoradas, são condenadas corno t'erros" "ilusões" ou "condiçõt>roduco (
ser superadas". O "medo" do relativismo (ou o anti-relativismo) recebeu ótima crítica de Clifford Geetdmitido
em texto em que diz: "Aquilo com o que os chamados relativistas querem que nos preocupemos é o Pbelas ciên
vincianismo - o perigo de que nossa percepção seja embotada, nosso intelecto seja encolhido e nos! De!
simpatias sejam restringidas pelas escolhas excessivamente internalizadas e valorizadas de nossa próPealidade
sociedade" (GEERTZ, 2001, p. 50). entaçôes
O relativismo é arma importante na crítica contra todos os colonialismos e etnocentrisrnos, igucterísticc:
mente como é arma contra os preconceitos, dominações e sujeições praticadas contra os indivíduos realidad
interior das próprias sociedades. Nesse ponto específico, é importante lembrar que o construcionismo ~ue são p.
advoga um relativismo absoluto, improdutivo como crítica, pois tratar-se-ia aí de converter a cultura \ercebida:
um congelado neutro (sem dominação, alienação),apreciada como objeto inalterável. O relativisino
Após Marx, muitos estudiosos continuaram a pensar sobre o fenômeno da ideologia'. Como sabe A cl
mos hoje, os sistemas de sociedade funcionam sem ser questionados graças a uma poderosa operação de dis
curso da ideologia: o ocultamento do caráter de coisa construída, arbitrária e convencional de toda orden con
social-cultural e suas instituições (a realidade social), e cujo efeito mais importante é conseguir manter o
indivíduos submetidos a padrões, normas, crenças e instituições, mas sem que seja necessário o recurs tiva CI
da força. Sob o efeito da ideologia são os próprios indivíduos aqueles que reproduzirão essas instituiçôe ídenti
padrões e normas, acreditando se tratarem de coisas universais, necessárias e imodificáveis. se trat
A ideologia oferece uma imagem e um discurso da realidade que não corresponde aquilo que ela e
realidade arbitrária, convencional, contingente. A ideologia realiza aquilo que o sociólogo francês Pierr reconl
Bourdieu denominou a "eternizaçâo do arbitrário cultural" (BOURDIEU, 1998, 1999): a realidade de unnos si:
sistema de sociedade é de caráter arbitrário (é sempre um arranjo de elementos, uma combinação de dadotropol
uma seleção de variáveis, um subconjunto de um conjunto de dados infinitos, uma estrutura, entre outraprodu
possíveis, por isso, "arbitrário cultural"), mas o caráter arbitrário do "arbitrário cultural" desaparece quandcomo
em seu lugar a ideologia produz sua imagem como algo de "natureza natural" (nas palavras de P. Bourdieu 1

de caráter universal, único, necessário. Nesses termos, a ideologia constitui o modo de operar das culturxra o se
(enquanto sistemas de sociedade), ao estas procurarem a naturalização, universalização e eternização dcomo
suas instituições, por meio de discursos sociais (variando do mito ao chamado discurso científico) quque re
oferecem os sentidos e as significações legitimadoras do que em cada sistema de sociedade está instituídmidad,
e aceito". ideolój
Podemos apontar que a eficácia da ideologia decorre, dentre outros mecanismos, de sua interiorizaçidgeren:
no processo de aprendizagem social que chamamos também de socialização, quando a ideologia se torrvez, se'
a própria subjetividade do indivíduo, através de sua ancorageJ (
PARA REFLETIR' . " nas esferas psíquica, emocional e cognitiva. Torna-se o medias cri;
de pensar e agir dos indivíduos, que, desconhecendo o que lhdirecio:
POR QUE A IDEOLOGIA É UM OBSTÁCULO PARA
O ENTENDIMENTO DA DIVERSIDADE CULTURAL funda como ~ujeitos culturais e históricos, creern-se como po'ser mu
. E DA DIVERSIDADE DOS INDiVíDUOS? COMO O tadores de substâncias emocionais definidas no nascimento ções SOl
DISCURSO IDEOLÓGICO ATUA PARA CONSEGUIR mesmo pré-deíinidas, portadores de inclinações naturais, dehistóric
FAZER CRER QUE A REALIDADE EXISTENTE É
jos biológicos, sopros divinos, e tudo isso como coisas imoculina (
ÚNICA E NECESSÁRIA?
ficáveis, ignorando que são cultural e historicamente constnDomin
dos, e que, por isso mesmo, podendo igualmente modificar sexualic
próprios, refundar suas subjetividades. N
É o discurso ideológico que transforma as diversas possibilidades de realidade, isto é, a própria não nas,
versidade existente na pluralidade dos indivíduos e das sociedades e culturas, em algo ameaçador à ordnão cau
existente, convertendo indivíduos e práticas dissonantes/ dissidentes (do que é maioria, geral, dorninantante te-
em "patologias", "anormalidades", "problemas", "perigos" etc. tos corF
rara a fi
nasculir
iada, tOI
iodemo
Igl
. lS prátic
2 Para saber mais sobre o assunto, recomendamos a leitura de obras de Louis Althusser (1974), Maurice Godelier (1981) e Marilena Chauí (1980; 19'-JOârnbi
3 Em outros de meus textos, tive oportunidade de desenvolver mais demoradamente o assunto. Ver SOUSA FILHO, Alípio (1995; 2003; 2006; 2Q(>r iti
a icas
A construção da sexualidade e do gênero:
condicionamentos sociais e liberdade individual
No tocante aos temas do gênero e da sexualidade, os estudos desenvolvidos dentro de uma perspec-
tiva construcionista oferecem uma maneira de interpretar a realidade do sexual, das práticas eróticas e das
identidades de gênero que reforçam e ampliam a tese da construção social da realidade - pois é disso que
se trata sempre.
As análises construcionistas em antropologia e sociologia das diversas culturas já tornaram possível
reconhecer que os comportamentos atribuíveis ao "sexo feminino" ou ao "sexo masculino" são variáveis
nos sistemas culturais e são por estes construí dos, fabricados, impostos. Desde os primeiros estudos an-
tropológicos, os universos das formações de homens e mulheres se descortinaram como contextos de
produção dos "temperamentos", "comportamentos", "personalidades", "identidades", a cultura revelando-se
como fabricadora do que se acredita "dado" pela natureza.
A visão construcionista do gênero e da sexualidade tem desenvolvido incansavelmente reflexões con-
tra o senso comum social, contra a opinião popular, contra a ideologia, que veem a sexualidade e o gênero
como coisas definidas pela natureza e que seriam também realidades sem possibilidade de alterações. O
8ue resulta em definições em termos pelos quais haveria o que seja "natural" e "normal" (ou em confor-
midade com a natureza) e o que seja "antinatural" e "anormal" (não de acordo com a natureza). No modo
ideológico de representar a realidade, o gênero e a sexualidade dos corpos humanos seriam aspectos da
'diferençasexual como dada a priori na "natureza" desses mesmos corpos, no plano biológico, que, por sua
ez, se transformaria no psicológico.
O 8ue uma visão construcionista aplicada ao tema aponta é que, variando com as culturas, os "sexos"
das crianças são cercados de expectativas familiares e sociais e, desde o nascimento, essas expectativas
direcionam os caminhos que constituirão crianças em "homens" e "mulheres". O que é "ser homem" ou
"ser mulher", as práticas atribuídas ao que seria "próprio de homem" ou "próprio de mulher" são conven-
çõcs sociais que, embora se imponham como universais e eternas, variam com as culturas e com as épocas
istóricas. A imposição dos padrões de gênero não significará apenas a assimilação de uma identidade mas-
culina ou feminina pelos indivíduos, mas igualmente direcionamento da própria sexualidade de cada um.
Dominantemente, nas atuais sociedades existentes, o direcionamento imposto é o caminho da heteros-
exualidade.
Não sem razão, a escritora Simone de Beauvoir, em seu O Segundo Sexo (2001), escreveu: "a gente
ão nasce mulher, torna-se mulher", claramente para dizer que se nasce com um sexo anatômico, mas o sexo
não causa o gênero: o gênero é uma "experiência vivida", o gênero é "adquirido" (como nos diz uma impor-
tante teórica do assunto, a filósofo Judith BUTLER (2003)), o gênero é socialmente construído e imposto
aos corpos. As palavras de Simone de Beauvoir poderiam igualmente ser aplicadas aos homens. Estes que,
para a filósofa e historiadora Elisabeth Badinter, no processo de construção do "sentimento de identidade
asculina",conhecem igualmente sua fabricação no social (BADINTER, 1993). Com efeito, não se nasce
nada, tornamo-nos, somos cultural, social e historicamente construídos (tanto quanto nos construímos ou
Iodemos nos construir, como veremos adiante).
Igualmente como na análise das identidades de gênero, os estudos construcionistas demonstram que
s práticas eróticas e sexuais são cultural e historicamente estabelccidas, legitimadas ou estigmatizadas.
I o âmbito da sexualidade, ocorre o mesmo processo que se produz nas demais esferas da realidade social:
práticas e definições de caráter convencional (é o arbitrário) ganham, no curso histórico, a aparência de
ITZJ
uma realidade natural, universal, necessária e irreversível. Para ficarmos apenas em dois exemplos, embon desejo, sue
hoje a heterossexualidade seja apresentada como a forma natural da atração sexual entre homens e mul quanto o i
heres, essa forma de sexualidade se estabeleceu e se tornou hegemônica a partir de disputas e imposiçõelpode ser ai
históricas nas quais se utilizou de diversas armas (a literatura, o pensamento religioso, a ciência médiopreferênci;
etc.), mas nem sempre teve a seu favor instituições, poderes e discursos que atualmente a legitimam comesexuais, ne
a via natural e normal da sexualidade 4. Durante algum tempo, a heterossexualidade foi combatida e atidade. É o c
mesmo dicionários do início do século XX descreviam-na como "doença", como uma "compulsâo mórbidltransexuaü
do desejo por pessoa do sexo oposto". Ou seja, também a heterossexualidade, quando praticada para cceito e à id
prazer sexual, também já foi vista como "doença".
O outro exemplo é a homossexualidade: no processo histórico das disputas pela hegemonia das con
vençõcs, a homossexualidade foi rebaixada ao estatuto de "doença", de "anormalidade", de um suposto "des
vio" da sexualidade natural e normal, que, como vimos, no jogo das disputas, ficou definida como sendr
a heterossexualidade. Assim, é que, a partir de um certo momento histórico, basicamente a partir do fin
da segunda metade do século XIX, passou-se a procurar as "causas específicas" que levaria alguém a sef..LTHUS~
homossexual, e este, evidente, visto como um "doente", portador de uma "anormalidade". As teses varia1l1MartinsFo
indo das bizarras idéias de "gene da homossexualidade" às explicações sobre uma suporta "psicogênese" d:
homossexualidade, sustentadas e difundidas por teorias em psicologia e psicanálise, as famosas historinhaBADINTI
do édipo, de traumas de infância, mães dominadoras, pais ausentes e outras historinhas do preconceiu
que se disfarçam de ciência e teorias fundamentadas em pesquisas. Nessas pseudo-explicações, não temoBEAUVOl
mais do que construções de discurso de uma época particular e de sociedades particulares na tentativa di
tornarem natural, universal e eterna uma forma da sexualidade - a heterossexualidade -, para o que necePENEDIC
sitam afastar a homossexualidade como uma alternativa, possibilidade, variante do desejo sexual humano
Nos anos 90, do século XX, a homossexualidade deixou de ser considerada uma "doença" e hoje não h3ERGER, 1
mais muita gente que a considere como sendo uma anormalidade, um problema. Aliás, nunca foi. Embor
.
os poucos que existam que creem nessa Iid ela
. ten h am a\ sua diIsposlçao
. - po derosos
erosos iinstrumentos d e dif irusa30AS ' Frar
de seu pensamento, tais são os casos das escolas, igrejas e meios de comunicação.
D o ponto dee VIsta
vi . .
construciorusta, o que ch amamos, em nossas socre . d ad es, d e h eterossexua lid
I ad30URDIE
e homossexualidade, assim como bissexualidade, são expressões (orientações, variações) do desejo sexur
humano, encerradas em denominações e classificações de caráter puramente histórico. Nomenclaturas qu'---' Ac
não são mais que nominalismo histórico. De fato, o que existe mesmo são apenas os corpos e seus pra~UTLE
eres, e todos esses termos não correspondem a nada de empiricamente existente nos corpos de nenhm '1' R, J
l
íduo (nâ
.m diIVI - b di íd . dores)
nao sao su stancras, essencias que os m IVI uos senam porta ores.
A' A' • E h . di íd
nen um m IVI uo est raSI eua, 2(
biologicamente preso nessas categorias, apenas socialmente (e psicologicamente) condicionado, mas nâ: M;
HAUÍ
estando impedido de experimentar outros prazeres com seu corpo, diferentes daqueles que aprendeu qu '
eram únicos, naturais, aprovados pelos pais, religiões, entre outros poderes. "C
. I
A concepção construcionista entende que as sexualidades e os gêneros são construções também n-,r-d--
110 erna,
1 c
.
sentido de que os indivíduos não são meros objetos passivos da ordem social, puros efeitos da cultura. Er
todas as sociedades e épocas, os indivíduos têm a possibilidade de romper com as normas de gênero, COI
as imposições e direcionamentos da sexualidade hegemônica. E, de fato, sempre existiram indivíduos di!
sidentes das normas de gênero e da sexualidade dominantes. Assim, é também construcionista o entend
mento segundo o qual o indivíduo, sob as influências sociais, é, em certa medida, aquele que constrói sePI,a:aadnoção de
) inca e constn
-----------------------------------------..:... -'condidos, no "an
4 A esse propósiro, torna-se proveitosa a leitura do livro de Louis-Georges Tin, L'invention de Ia culrure hérérosexuelle. Paris: Autrement, 2008. rrnário" e assume

y
desejo, sua orientação sexual, sua identidade de gênero. Tanto
PARA REFLETIR
quanto o indivíduo, tomando sua vida em suas próprias mãos,
pode ser aquele que construa suas escolhas, suas vontades, suas POR QUE É PRECONCEITUOSO PENSAR QUE

preferências, em relação a identificações de gênero e práticas EXISTEM "CAUSAS" QUE EXPLICARIAM A HO-

sexuais, no usufruto de sua liberdade, e para sua própria felici- MOSSEXUALIDADE? O QUE A IDEOLOGIA DO
"ARMÁRIO" IMPOSTA AOS HOMOSSEXUAIS TEM A
dade. É o que, hoje, fazem gays, lésbicas, bissexuais, travestis e
VER COM A IDEOLOGIA EM GERAL?
transexuais que não se deixam submeter à política do precon-
ceito e à ideologia do "armário" 5.

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·condidos, no "armário", como se seu desejo fosse algo "vergonhoso': "feio'; "pecaminoso", "anormal". Ao mesmo tempo, muitos outros rompem com o
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Gênero em práticas educativas: uma introdução

Elisete Schwade
Professora do Departamento de Antropologia da UFRN
No contexto em que somos desafiados a pensar a diversidade cultural na escola, emergem ques-
tionamentos sobre as relações entre os espaços de aprendizado e as diferentes esferas que são referência para
a construção das identidades, como desafios presentes no processo de ensino-aprendizagem. Identidades,
gênero, diversidade sexual dizem respeito a relações sociais que compõem esse processo, e estão presentes
na comunidade escolar, nas relações entre alunos, educadoras e educadores, bem como no currículo. É
importante pontuar alguns aspectos, pontos de partida para que o debate sobre essas questões possa se in-
screver em um campo que leve em consideração as possibilidades abertas pela reflexão acerca do contexto
cultural das práticas educativas. É nesse sentido que apresento algumas questões relacionadas à reflexão
sobre gênero.

o que é gênero?
Aquilo que percebemos cotidianamente como "ser homem" e "ser mulher" pode ser entendido de
forma diferente quando é conceituado na perspectiva da biologia e quando é conceituado na perspectiva
das ciências sociais. Para explicar essa diferença, nas ciências sociais, utilizamos o conceito de gênero.
Esse conceito nos ajuda a entender como as relações homem e mulher são construídas, de acordo
com o grupo social. Gênero nos remete ao plano da cultura, do simbólico. Nesse sentido, nos estudos de
gênero, estamos nos referindo às representações culturais utilizadas para definir o que é "masculino" e o que
é "feminino" em diferentes contextos. Assim, o conceito de gênero nos ajuda a compreender uma série de
aspectos relacionados a papéis sociais, contextos culturais e outras representações, tão arraigadas ao nosso
cotidiano que, muitas vezes, esquecemos que são produções da cultura e não apenas diferenças restritas à
nossa constituição biológica enquanto seres vivos.
Atitudes, comportamentos, investimentos no corpo, entre outros aspectos, são alguns dos elernen-
:osque usamos em nossas construções acerca do que é "masculino" ou "feminino". Essas construções são
esultantes de convenções presentes em diferentes sociedades, assimiladas através do processo de apren-
lizagem que chamamos socialização. A escola é um importante espaço desse processo. Na socialização,
omos ensinados a classificar espaços, expressões corporais, atividades, tarefas de homens e mulheres, de
cordo com aquilo que a sociedade na qual vivemos entende como masculino e feminino. É importante
erceber que tais convenções já estão estruturadas quando nascemos, fazem parte da cultura. Em outras
alavras, o jeito de ser homem e o de ser mulher não estão no sangue ou nas nossas características genéticas:
io definições que chamamos de simbólicas, estão situadas na cultura. Reconhecidas como legítima no
rupo social que partilha das mesmas representações acerca do que é ser homem ou ser mulher.
Estudos antropológicos realizados em diferentes regiões do mundo nos sinalizam que todas as so-
.edades consideram esferas de classificação do masculino e do feminino. Embora essa atribuição tenha
iferenças biológicas como referência, o que será atribuído a homens e mulheres, em cada contexto, espaço
tempo, vai depender da cultura. Entre esses estudos sobre o masculino e o feminino e suas relações com
plano da cultura, destaca-se, no início do século XX, a publicação de Sexo e Temperamento, famoso livro
1 antropóloga norte-americana Margareth Mead. Por meio da análise das práticas de homens e mulheres
: três diferentes grupos que viviam em uma mesma ilha na Melanésia, Margareth Mead argumentou
ie as diferenças de comportamento não eram atribuições naturais relacionadas ao sexo biológico mas
:finições sociais, as quais a autora chamou de papéis sexuais, remetendo a definições sociais e argumenta-
lo que esses são resultado da operação de uma determinada cultura. A reflexão sobre esses papéis, sua di-
rsidade, trouxe elementos importantes para aprofundar o argumento da construção social do masculino
e do feminino, tendo em vista as enormes possibilidades abertas pelo estudo de diferentes sociedades e o
que nelas se espera de homens e mulheres.
O conceito de gênero é utilizado para afirmar um consenso das origens sociais de atitudes, com-
portamentos, percepções de homens e de mulheres. Tal consideração vem sendo aprimorada por meio de
informações sobre as práticas culturais definidas como masculinas e femininas em diferentes sociedades,
relacionadas aos mais diversos fenômenos, para poder proporcionar a desnaturalização, mostrando como
práticas, concepções e valores são socialmente construídos e, portanto,simbólicas.
Dessa forma, a primeira característica a ser sublinhada no conceito de gênero é a problernatiza-
ção da determinação biológica, afirmando a necessidade de distinguir o biológico do social quando nos
referimos ao ser homem ou ser mulher. O debate se situa, então, no campo da reflexão sobre a natureza e a
cultura. .
Relacionada a essa primeira característica, isto é, a dis-
PARA REFLETIR
tinção entre o que é do biológico e o que é do social, há uma se-
QUAIS SÃO OS ESPAÇOS FREQUENTADOS POR
gunda, muito importante quando falamos de gênero: quando
HOMENS E MULHERES NA COMUNIDADE EM QUE
pensamos naquilo que associamos ao feminino, de modo geral,
VIVEMOS? QUAIS SÃO AS JUSTIFICATIVAS UTI-
falamos em oposição ou contraste ao que é masculino. Então, LIZADAS PARA DEFINIR QUEM PODE FREQUENTAR
uma atividade é considerada masculina porque não é permi- TAIS ESPAÇOS? NA NOSSA CASA, QUAIS SÃO AS

tida às mulheres; entendemos que certos adornos/adereços do ATIVIDADES DE MULHERES E DE HOMENS? QUAIS
SÃO OS ENSINAMENTOS PARA MENINOS E PARA
corpo são para mulheres, não para homens; alguns espaços são
MENINAS? EXISTEM DIFERENÇAS?
apenas para homens. Dessa forma, definições de masculino e de
feminino são elaboradas uma em relação à outra. Isso é impor-
tante porque permite questionar situações de desigualdades e afirmações de supremacia masculina. Em S
bora todas as sociedades conhecidas estabeleçam diferenciações entre masculino e feminino, classificando
o "ser homem" e o "ser mulher", a questão que precisamos discutir é que essas diferenças com frequência são f.
transformadas em desigualdades. Assim, precisamos pensar por que atividades, por exemplo, realizadas por n
homens são, em muitas situações, mais valorizadas do que aquelas realizadas por mulheres? o
O primeiro passo para essa reflexão sobre a desigualdade é o reconhecimento da definição soei e:
de tais atividades. A informação sobre práticas de homens e mulheres em diferentes culturas nos ajuda se
aprofundar a discussão sobre a diferença transformada em desigualdade. Especialmente porque o conheci
mento auxilia a desconstruir conceitos arraigados, abrindo a perspectiva da diversidade, da postura rela m
tivizadora. A assimetria entre homens e mulheres significa coisas diferentes em situações diferentes, o qu ni
faz também com que a posição das mulheres, suas atividades, limitações e possibilidades variem de cultur si~
para cultura. Assim, vamos percebendo que as atribuições de homens e mulheres, desde que definidas cu! irr
turalmente, estão relacionadas a outras dimensões da vida social, como o pertencimento étnico, de class de
de geração, enfim, um contexto que gera constantemente novas diferenciações. tes
Gênero deve ser visto, portanto, como um conceito que permite pensar a relação. Não se tra ter
apenas de discutir as atribuições relativas a homens ou mulheres, mas as relações sociais que conectam rep pa:
resentações do masculino e do feminino (MACHADO, 1994), sendo gênero uma categoria analítica qu dia
permite refletir sobre relações permeadas por tais representações, explicitando tessituras e configuraçõ
possíveis (GROSSI, 1998; SCOTT, 1990). aIS

cot
util
den
ciedades e o Gênero e geração
tudes, com- Podemos dizer que o aprendizado sobre o que é da ordem do masculino e o que é da ordem do
por meio de femininose constitui por meio de processos. Dessa forma, na medida em que crescemos no interior de
sociedades, determinadogrupo, aprendemos a ser homens e mulheres de acordo com as referências que este grupo tem
rando como parao que chama masculino e feminino. °
que somos, enquanto homens e mulheres, é o resultado desse
aprendizado.
.oblematiza- As atribuições de papéis associados ao masculino e ao feminino em diferentes grupos e/ ou segmentos
quando nos sociaistêm também como uma referência importante a juventude, ou a condição de jovens, tal qual tem
sidoapontada na literatura antropológica (ABRAMO & BRANCO, 2005). Nesse sentido, as represen-
taçõesdos jovens sobre sexualidade, paternidade, maternidade, papéis de gênero, relações familiares, entre
outras,são construídas nos diálogos efetivados com diferentes campos semânticos com os quais os jovens
têmcontato (nas artes, educação formal, lazer, diferentes organizações coletivas), bem como em meio a
ADOSPOR conflitosdecorrentes dos arranjos entre essas referências. Trata-se, como sugere Abramo, de "... examinar as
ADE EM QUE condiçõesde vivência juvenil e não apenas os modos de passagem para a vida adulta, (...) os processos que
JIVAS UTI-
marcama juventude como singularidade, abrindo para os jovens dificuldades e possibilidades específicas, e
FREQUENTAR
UAISSÃO AS
nãosomente o modo pelo qual os jovens deixam de ser jovens" (ABRAMO, 2005, p. 45).
ENS? QUAIS Assim, novos processos de diferenciação vão acontecendo. Por exemplo, diferentes grupos e orga-
NOS E PARA nizaçõesjuvenis investem de maneiras específicas nos adornos do corpo, nas roupas, gestos, cortes de ca-
ÇAS? belo,entre outras. Dessa forma, a construção do gênero está inscrita em situações que envolvem grupos
~----f musicais,estilos de expressão em danças, pertencimento a universos religiosos e diferentes organizações
culina. Em sociais.Assim, vão sendo gerados o que podemos classificar como novos processos de diferenciação.
:lassificand Pensar sobre isso é importante porque nos permite ver que os papéis associados ao masculino e ao
equência sã femininonão são divididos apenas de acordo com a geração, mas no interior mesmo dos grupos. Assim,
.alizadas po nãotemos adolescentes, meninos e meninas, mas diferentes grupos de meninas e meninos, de acordo com
osenvolvimentos. Reconhecer essa diversidade é importante para diminuir preconceitos que são frequent-
iniçâo soei esno cotidiano, que se transformam em acusações. Reconhecer que não existe uma definição de corpo,
i nos ajuda sexualidade,adolescência, mas múltiplas, que se cruzam de maneira diversa .

.e o conheci Estar atento para essas diferentes práticas e o sentido que elas possuem para os praticantes nos per-
oostura rela mitedesnaturalizar aquilo que consideramos masculino, femi-
rentes, o qu nino.Nesse sentido, o conhecimento e a informação sobre os PARA REFLETIR

m de cultu significadosque determinadas práticas têm para os grupos são QUAIS SÃO os DIFERENTES GRUPOS DE ADOLES-
efinidas cu importantes para entendermos a diferença. Daí a necessidade CENTES E JOVENS QUE PODEMOS RECONHECER
co, de class deestarmos atentos para ritos, comemorações, danças, diferen- . NAS NOSSAS ESCOLAS E EM NOSSAS COMUNI-
tesjeitos de ser que também trazem referências ao que se en- DADES? QUE CARACTERíSTICAS OS DIFERENCIAM?

Não se tra tende como mascu Iino e reminino.


L C on h ecer ab re um camin h o COMO ESSES DIFERENTES GRUPOS INVESTEM NO
CORPO?
mectam re paradestruir preconceitos e assumir uma atitude de tolerância ..J
analítica qu dianteda diversidade. .
onfiguraçõ Somado a tudo isso, precisamos pensar também que as diferenças são construídas nas relações soci-
aisque têm lugar no cotidiano da escola. Aprendemos com os outros, nas relações que estabelecemos no
cotidiano. Trata-se de fazer um exercício e ver como pensamos sobre o outro. Então vamos perceber que
utilizamos os nossos valores, os nossos conceitos, os nossos parâmetros. Os papéis do professor, da coor-
denaçãoe de toda a comunidade escolar são importantes no sentido de mediar essa abertura para o outro.
~
Isso faz parte do queestamos chamando de desconstrução: remete ao gênero, às representações culturais do
masculino e do feminino, mas diz respeito também a outras dimensões. Como exemplo, já mencionado, o
período de passagem para a vida adulta muitas vezes fica reduzido a uma definição rígida da adolescência,
impedindo que sejam percebidas as múltiplas maneiras de ser menina e ser menino nesse momento da vida.
É muito comum as diferenças gerarem intolerâncias. Dessa forma, as frequentes discriminações rela-
cionadas a posturas corporais, reveladoras de preconceitos, associam questões referentes à sexualidade e
gênero com outras características. Como exemplo, diferenças religiosas, o fato de ser gordo ou magro, entre
outros aspectos.

Na escola: gênero e novas diferenças


Pensar sobre o que chamamos gênero na escola é importante porque, se a escola é um espaço de
aprendizado, onde podemos ter acesso a informações, é também o lugar onde nos relacionamos com os
outros, onde estabelecemos diversas trocas, em laços de amizade, namoros, diferentes modos de convivên-
cia. Dessa forma, ao mesmo tempo que aprendemos sobre diferenças, nos relacionamos com elas. Como
vem sendo enfatizado, o processo de ensino-aprendizagem, inspirado em uma perspectiva intercultural
crítica, relativizadora, supõe refletir sobre a produção da diversidade.
Ouvimos falar com frequência na pluralidade de identidades culturais, tendo em vista múltiplas
referências identitárias que se cruzam, tais como classe, gênero, etnia, raça, nacionalidade, religiosidade,
entre outras. Tal plural idade é produzida no cotidiano, estendendo-se também às relações sociais que se
concretizam no espaço da escola. É nesse momento que os conceitos que cada um traz sobre o que é ser
homem ou ser mulher, acerca da sexualidade e outras diferenças, se cruzam, geram contrastes. Precisa-
mos tentar aprender através desses contrastes. Estudar como as representações atribuídas ao masculino e
ao feminino se relacionam com outras esferas da sociedade: quais são as consequências na vida econômica,
social e política? Como se inscrevem no corpo e como participam da produção de discursos acerca, so-
bretudo, da sexualidade?
Basta olharmos ao nosso redor e pensarmos juntos com os nossos mestres, professores: quantos
professores e quantas professoras temos na nossa escola? Como essa profissão é classificada para homens e
mulheres? Como meninos e meninas são vistos e se veem na escola? Existem manifestações de inrolerân
cia, considerando situações tais como expressões corporais em meninos, meninas grávidas, entre outras!
Como os pais classificam as expectativas em relação à educação, considerando filhos e filhas? E na relação
professores e alunos, existem diferenças tratando-se de meninas e meninos? Os critérios de avaliação são
os mesmos? ~al é o significado de ensinar e aprender em relação ao gênero? Como são trabalhadas as
questões sobre sexualidade, gravidez, virgindade, estupro e homossexualidade?
Esse processo de reflexão vai nos permitir situar as diferenças de gênero e geração no contexto dal
relações cotidianas. Dessa forma, vamos perceber a diversidade de uma outra maneira, inscrita em um con-
texto e distante da fixidez atribuída às atitudes de homens e mulheres a partir das diferenças biológicas.
Como sublinha Grossi (1992), a escola é o principal espaço de socialização de meninos e meninas
o que justifica a reflexão acerca da utilização desse espaço, seja como espaço de reiíicação de estereótipos d
gênero, seja como espaço para questioná-los e reinventar concepções, relações.
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/

Sexualidade ou Sexualidades: Como entender?

Carlos Guilherme Octaviano do Válle


Professor do Departamento de Antropologia da UFRN
Pode parecer estranho falarmos em sexualidade no plural, afinal, a sexualidade não seria uma única e
naturalexperiência que todos, homens e mulheres, têm? Nas últimas décadas, a idéia de que a sexualidade é
inica,definida através de padrões de comportamento regulares, vistos como resultantes de uma capacidade
natural,inata e/ou exclusivamente biológica da espécie humana, vem sendo reconsiderada e entendida de
odo mais complexo a partir do que as pessoas, inclusive os pesquisadores, observam nos mundos sociais
uevivem e agem. As il1fluências biológicas têm importância apenas relativa e bem limitada para entender
rsexualidade das pessoas, tanto homens como mulheres, se comparada às influências sociais e culturais.
\ssim como entendemos as modalidades culturais dos humanos, a sexualidade é essencialmente plástica,
inâmica e flexível, orientada de acordo com os valores, símbolos, idéias e práticas sócio-culturais que
formame organizam os modos de agir das pessoas. Desse modo, os seres humanos não se comportam sexu-
almente levados por instintos ou determinações estritamente
io!ógicas. Simplesmente toda pessoa dá sentido ou significa-
PARA REFLETIR
aoaos seus atos.iinclusive os sexuais. Para os seres humanos, é
muitomais importante considerar, de fato, o aprendizado das A SEXUALIDADE SERIA UMA DETERMINAÇÃO

maspráticas e dà modo que eles têm de pensá-Ias e vivenciá-las .. BIOlÓGICA? HAVERIA ALGUM VíNCULO DIRETO
ENTRE PRAZER SEXUAL E .PROCRIAÇÃO HUMANA?
Essasações' inteligíveis, através de significados específicos, não
acontecem no c~so da sexualidade animal, que é programada
mtermos decisivamente biológicos. Em razão do caráter culturalmente e socialmente construído da sexu-
alidade,não podemos entendê-Ia como vivida de uma única forma. Nesse caso, falar em sexualidades no
lura! tem muito mais coerência com as experiências variadas e múltiplas que verificamos nas vidas das
ressoas.
Em nossa sociedade, as concepções mais tradicionais de gênero vêm sendo reconsideradas em razão
as mudanças que têm atingido as relações sociais em nossas vidas. Ao invés de serem entidades e idéias
muito fixas,' ser 'homem' e ser 'mulher, enquanto categorias de gênero específico, dependem muito mais
ecritérios culturais e sociais de masculinidade e feminilidade, historicamente definidos, que têm se trans-
brmado com os .tempos e contextos sociais. Certamente, há uma base biológica para a sexualidade, pois os
corposmasculinos diferem dos femininos à primeira instância. Mas isso não impede que não possa haver
mudança dessa anatomia através de intervenções corporais e práticas cirúrgicas, tal como acontece nos
casosde travestis e de transexuais. Além do mais, a diferença anatômica em si entre homens e mulheres não
sclarece muito o alcance de questões próprias da sexualidade, afinal, aos atributos físicos não corresponde
aemodo automático e direto a orientação sexual, nem o desejo que as pessoas têm por seus parceiros sex-
ais. Devemos esclarecer que 'orientação sexual' é uma categoria ou expressão muito usada para designar
umareferência identitária e experiências particulares em termos da sexualidade de uma determinada pes-
oa. A orientação sexual de uma pessoa não é também natural ou inata, mas definida e construída através
euma trajetória de vida, o que implica que uma pessoa pode, de algum modo, reorientar seu desejo sexual
ais aparente ou explícito.
Do mesmo modo, as idéias de sexualidade têm também se transformado. Não se aceita ou concorda
maiscom a idéia de que a sexualidade depende exclusivamente da reprodução humana. Essa idéia tem sido
repensada ou relativizada, pois se sabe que o prazer e o desejo sexual não são resultados de nenhuma capa-
'idade reprodutiva de homens e mulheres. O desejo sexual independe da reprodução humana. Como uma
'nguagem, o desejo responde muito mais aos significados eróticos e estéticos que uma pessoa elabora nas
relaçõescom outra pessoa. Muitas vezes, esse desejo volta-se e elabora-se para uma pessoa de sexo diferente
do seu, mas, para outras pessoas e em várias situações diferentes, envolve desejo sexual entre pessoas do
mesmo sexo, o que não pode ser visto como uma anormalidade, doença, perversão, nem pode ser definido
como pecado. A sexualidade precisa ser entendida como uma das esferas abertas da vida pessoal, passíveis
de experimentação e mudança de acordo com as possibilidades que toda pessoa têm nos contextos sociais e
culturais onde ela vive e atua. Por isso, devemos entender outra vez a sexualidade em termos plurais.

A sexualidade se resume à heterossexualidade ?


Em toda sociedade, a sexualidade está associada à vida geral das pessoas, mas ela se configura tam-
bém em uma esfera particular do seu cotidiano, que envolve ações ou práticas, relações ou interações e os
significados particulares que são atribuídos a essas ações e relações. A sexualidade não se resume, assim,
a um assunto de caráter exclusivamente pessoal, pois ela é socialmente organizada e vivida, inclusive no
sentido de definição de casais, parcerias e relações entre pessoas. Para a manutenção das regras que estru-
turam o parentesco, são afirmadas proibições sexuais entre parentes, o que possibilita a organização de uma
esfera de práticas sexuais para fora da rede parental. De fato, toda sociedade possui um conjunto de normas
sexuais que justificam, aprovam ou desaprovam práticas sexuais. Será, sobretudo, pela socialização que
passa cada pessoa, homem ou mulher, como membro de uma família e vivendo em uma sociedade, que ele
ou ela incorpora, aprendendo, essas normas sexuais. Devemos sublinhar que as normas sexuais são diversas
de acordo com as culturas, os grupos sociais e as sociedades, o que mostra seu caráter e sentido totalmente
social e cultural. Como exemplo, podemos citar a homossexualidade, que pode ser tolerada, encorajada,
proibida ou rejeitada de acordo com os diferentes grupos e sociedades. Do mesmo modo, há muitas ex-
pressões e modalidades de comportamento sexual que variam conforme as diferentes sociedades e culturas
porque as normas sexuais também são particulares, Tanto as normas como os comportamentos sexuais são
apreendidos através de relações sociais e não são decorrentes de determinações biológicas, simplesmente
naturais.
Nas sociedades ocidentais, tal como a nossa, os modos historicamente reconhecidos de lidar com a
sexualidade dependeu muito das concepções religiosas cristãs. Em muitas condições e contextos sociais,
essas concepções têm sido marcadas por critérios muito rígidos de controle e percepção das sexualidades.
Assim, as pessoas podem viver sua sexualidade de modo bem ambíguo, existindo uma duplicidade de pa-
drões sexuais. Ao mesmo tempo que afirmam ou aderem publicamente a certas normas sexuais, elas podem
ter outros comportamentos sexuais de modo escondido ou mais velado. Nas últimas décadas, os especialis-
tas têm buscado estimular que as pessoas vivam plenamente sua própria sexualidade sem ficarem presas a
normas sexuais muito rígidas. Afinal, não há nada de errado ou ruim na preferência pela grande maioria das
práticas sexuais, por exemplo, a masturbação, sexo oral ou anal, etc.
Normalmente, a sexualidade é pensada ou definida em termos da heterossexual idade, ou seja, te
como referência o comportamento idealmente monogâmico de um casal de homem e mulher. Em todas a,
sociedades, há uma maioria de pessoas com orientação destacadamente heterossexual. Assim, elas pr
curam a realização de seus desejos e práticas sexuais com uma pessoa do sexo oposto. Contudo, essa con-
statação não implica que as pessoas não tenham tido, uma ou mais vezes em suas vidas, desejo ou algum
forma de interação sexual com uma pessoa do mesmo sexo. Na realidade, essa visão é bem restrita, pois h'
um crescente reconhecimento, nos dias atuais, de diversas formas de relação, comportamento e de orienta
ções sexuais, envolvendo pessoas de sexos diferentes, que não se resumem nem se identificam com o qu
I
é entendido pela heterossexualidade. As normas sexuais mais rígidas têm impedido que muitas pessoas s
I
coloquem mais abertas publicamente sobre suas experiências sexuais, se com pessoas do mesmo sexo o
o
não. Essas contradições acontecem. Contudo, é necessário saber que não há nada de errado ou anormal n
c
fato de se ter desejos ou práticas sexuais que não correspondem exatamente com as normas heterossexuai
s
mais predominantes. Como falamos antes, as práticas sexuais são muito variadas e não podem ser julgada
[E]
erradas em termos morais e sociais, se elas envolvem consentimento ou aceitação mútua entre as pessoas
ou parceiros envolvidos. Mas é sabido que as pessoas experimentam uma enorme variedade de práticas e
expressões sexuais, inclusive adotando-as em suas vidas, ainda que elas possam ser alvo de crítica e re-
jeição social. Essas práticas podem ser condenadas socialmente, quando vistas, por exemplo, como imorais.
Mesmo assim, nada impede que uma pessoa reveja e reoriente seus padrões de prática sexual, inclusive sua
orientação sexual. Não há nada totalmente fechado quanto a isso, mas as tendências ou inclinações sexuais
podem se acomodar na vida de uma pessoa, facilitadas por diversos fatores, sobretudo através das concep-
ções positivas e favorecidas social e culturalmente que têm certas formas de sexualidade diante de outras,
que podem ser encaradas mais negativamente.

Homossexualidades
Nas últimas décadas, muito tem se falado e discutido sobre a homossexualidade em nossa sociedade.
Um homem homossexual pode ser identificado como "gay" e uma mulher homossexual pode ser identifi-
l cada como "lésbica". Esses são termos ou categorias mais aceitáveis porque não têm conotações negativas,
tal como podem ter outros termos usados socialmente, embora tudo dependa do contexto onde se usa ou
emprega determinado termo e quem está usando ou não esses termos. De modo simples, a homossexuali-
dade pode ser definida como uma forma de orientação sexual, envolvendo práticas e afetividade voltadas às
pessoas do mesmo sexo. É uma expressão da sexualidade que tem sido observada em todas as sociedades,
cujas reações podem ser positivas ou não, tolerantes ou não. Desejo homoerótico, ou seja, desejo sexual
I por uma pessoa do mesmo sexo é uma experiência muito comum e proporcionalmente alta em toda popu-
lação, sem implicar necessariamente uma identidade e uma orientação sexual definitiva. Isso mostra como
, a sexualidade é uma esfera plástica e flexível do comportamento das pessoas, sejam homens ou mulheres.
Essa alta proporção social de comportamentos e desejos homoeróticos não equivale a dizer que toda pessoa
irá seguir um estilo de vida homossexual ou gay. Na verdade, os preconceitos ainda existentes que acom-
etem socialmente a apresentação de desejo, da afetividade e dos comportamentos sexuais entre pessoas do
mesmo sexo têm impedido que a homossexualidade, enquanto uma forma de orientação sexual, possa ser
vivenciada mais livremente e de modo público ou aberto. Esse histórico de discriminação e preconceitos
contras as homossexualidades é bem antigo, mas vem sendo questionado e combatido socialmente, tanto
pelos próprios homossexuais como por educadores, pesquisadores e autoridades públicas. Ultimamente, o
termo homofobia vem sendo usado para se referir a um conjunto variado de atitudes negativas, muitas vezes
violentas, contra homossexuais. Vale salientar que, algumas décadas atrás, foi definitivamente comprovado
que a homossexualidade não é nenhuma doença, anormalidade física ou perversão moral, nem pode ser
associada a qualquer transtorno psicológico. Além disso, os homossexuais podem trabalhar em qualquer
profissão e podem se comportar como qualquer pessoa do mesmo sexo biológico. Um homem ou uma mul-
her homossexual pode agir da mesma forma que, respectivamente, um homem e uma mulher heterossexual.
Tudo isso mostra o despropósito de qualquer postura preconceituosa, discriminatória ou homofóbica contra
homossexuais.
Mas todo homossexual seria geralmente igual entre si? Da mesma forma que podemos entender a
sexualidade em termos plurais, é válido e mais pertinente falarmos em homossexualidades no plural. De
fato, considerando a variedade de comportamentos e expressões humanas, a homossexualidade, embora
seja uma orientação sexual voltada a pessoas do mesmo sexo, pode implicar uma multiplicidade de ex-
periências, identidades, práticas, valores e concepções, que não se confundem de modo equivalente. Assim,
por exemplo, as experiências particulares e identidades de travestis não podem ser confundidas de modo
direto com a de homossexuais masculinos, embora certos aspectos possam convergir. Tanto homens gays
como travestis podem ser, por exemplo, alvo de preconceito, independente do grau em que isso se apre-
senta, pelo simples fato de serem pessoas que têm orientação sexual voltada para pessoas do mesmo sexo.
Mas as experiências de vida e de vivência sexual poderão ser
PARA REFLETIR
bem diferentes entre eles.
Apesar dos preconceitos e discriminações históricas, pa- VoCÊ SABERIA DEFINIR DE MODO MAIS CLARO
rece existir, em muitos países, mas não em todos, uma maior O QUE É HOMOSSEXUALIDADE? TODO HOMOS-
aceitação e tolerância diante das homossexualidades. Em alguns SEXUAL QUE VOCÊ CONHECE TEM UM COM-

países, leis têm sido aprovadas e implementadas, assegurando PORTAMENTO ESPEcíFICO? HÁ ALGUMA COISA

direitos integrais ou específicos aos homossexuais, tal como no QUE DIFERENCIE CORPORALMENTE UM HOMEM

caso da união civil entre pessoas do mesmo sexo, além das ga- OU MULHER HETEROSSEXUAL DE UM HOMEM
OU MULHER HOMOSSEXUAL? VOCÊ LEMBRA DE
rantias que contemplam os mesmos direitos que a uma parceria
ALGUM PERSONAGEM DE NOVELA OU FILME QUE
heterossexual estável. Na década de 1990, houve a retomada
ERA GAY E DESCRITO POSITIVAMENTE?
mais atual do movimento social-político LGBTT (lésbico-gay-
bissexual-travesti-transsexual), inclusive no Brasil, onde para-
das e marchas têm sido organizadas em grandes e médias cidades. Por exemplo, a parada de São Paulo já
chegou a ter mais de um milhão de pessoas nas ruas principais da capital paulistana. Assim, grupos e orga-
nizações civis LGBTT têm se empenhado a buscar mudanças de ordem legal, além de aspirarem à maior
aceitação social das homossexualidades.

Referências

BOZON, Michel. Sociologia da sexualidade. Rio de Janeiro: Editora FGY, 2004.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I - A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1977.

HEILBORN, Maria Luiza (Org.). Família e sexualidade. Rio de Janeiro: Editora FGY, 2004.

LAQ.!::!EUR, 1homas. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume Du-
mará,2001.

LOYOLA, Maria Andréa (org.). A sexualidade nas ciências humanas. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998.

PISCITELLI, Adriana et alli. Sexualidades e saberes: convenções e fronteiras. Rio de Janeiro: Garamond,
2004.
Homossexualidade e moral

Cinara Nahra
Professora do Departamento de Filosofia da UFRN
A origem do termo ética
A palavra ética se originou a partir de três termos gregos: ETO() (êtos) que significa a cada ano, ou
aquilo que se repete a cada ano; E8o() (êrhos) que significa costumes, hábitos e ~8o() (éthos) que significa
modo de ser, caráter. Do grego, os romanos traduziram o termo êthos para o latim mores, com significado
de usos e costumes, e daí originou-se a palavra moraL
Hoje, quando falamos ética ou moral, o que queremos dizer? O que é ética, afinal?

Ética como sinônimo de moral


Muitos filósofos, como Kant e Hegel, por exemplo, fazem uma distinção entre os termos ética e
moraL Entretanto, Ernst Tugendhat, um dos mais brilhantes filósofos contemporâneos, adverte-nos: "A
pergunta sobre em que consiste em si a diferença entre ética e moral seria absurda. Ela soa como se a gente
quisesse perguntar sobre a diferença entre veados e cervos" (TUGENDHAT, 2000, p.35).
Podemos, assim, pensar moral e ética como sinônimos. Ética e moral, então, seriam definidas como
sendo "aquilo que devemos fazer" ou "aquilo que é certo", em oposição ao imoral ou ao antiético que seriam
"aquilo que não devemos fazer" ou "aquilo que é errado". Assim, do mesmo modo que é correto dizer "a
corrupção é imoral", "enganar os outros é imoral" e "roubar é imoral", é também correto dizer "praticar atos
de corrupção é antiético", "enganar os outros não é ético" e "roubar os outros é errado". Trata-se na realidade
de formas diferentes de expressar a mesma coisa. Ética e moral têm a ver com aquilo que é certo e aquilo que
é errado, aquilo que deve ser feito e aquilo que não devemos fazer.

o que é certo? O que é errado?


Mas o que é o certo? O que é que devemos fazer e o que não devemos fazer? É certo, é ético, é
moral aceitar propinas, roubar, enganar o outro? Não. Quem tiver dúvidas faça o seguinte raciocínio: esses
comportamentos podem ser universalizados na sociedade? Não. Se todo mundo aceitar propinas, enganar
e roubar, a sociedade se destrói. Esses comportamentos prejudicam o outro? Claro que sim, prejudicam
o outro e prejudicam a sociedade como um todo. Logo, são
comportamentos errados, antiéticos, imorais. Não deveríamos, PARA REFLETIR
então, praticar o roubo, a corrupção e enganar os outros. Es-
POR QUE ROUBAR, ACEITAR PROPINAS E
sas práticas são imorais e estamos agindo de forma imoral ao ENGANAR O OUTRO SÃO PRÁTICAS IMORAIS?
praticá-Ias.

O que a ética não é


Segundo Peter Singer, na sua obra Ética Prática, a ética não pode ser confundida com uma série de
proibições ligadas ao sexo, nem com algo que só faz sentido no contexto religioso. A ética também não
pode ser vista como um sistema ideal de grande nobreza mas cujos preceitos só existem teoricamente, não
se aplicando na prática.
Porque a ética não é relativa

Muitos pensam que a ética é relativa. O que o relativismo moral nos diz, em última instância, é que
ninguém poderia julgar os hábitos e os costumes dos povos, pois não haveria um padrão neutro para fazer
esse julgamento. Assim, cada povo tendo os seus próprios hábitos e costumes, ninguém teria o direito de
julgá-Ias, pois, se a sociedade admite certos costumes, estes seriam considerados éticos. O problema é que,
se assim for, não seremos nada mais que reféns dos costumes, ou seja, consideraremos sempre certo tudo
aquilo que todos fazem (ou que a maioria faz). Mas se o que todos fazem for errado? E se o que todos fazem
(ou que a maioria faz) não deve ser feito?
A pergunta sobre se algo é ético ou não exige uma referência às noções de bom e de ruim, de certo e
de errado. Ainda que algo se constitua como costume de um povo, restam as perguntas: "Isto é bom?", "É
certo fazer isto ?",ou seja, "Isto é ético ?".Assim, a resposta a tais perguntas não pode ser dada tendo como
referência apenas a constatação empírica ou histórica que as
PARA REFLETIR pessoas "agem assim" ou que "possuem esse hábito". As respos-
REFLITA SOBRE A DIFERENÇA ENTRE "O QUE É O
tas "sim, é ético, é correto" ou "não é ético, não é correto" devem
COSTUME" E "O QUE É CERTO", ENTRE AQUILO estar referenciadas em algum padrão, algum princípio, o que
QUE TODOS FAZEM E AQUILO QUE É CERTO deve ser bem diferente da mera constatação que se trata de um
FAZER DO PONTO DE VISTA MORAL. costume ou que as pessoas simplesmente "agem assim". Embora
seja uma p·rática adotada por muitos, a corrupção é errada. A
escravidão foi errada, é e será sempre errada, mesmo que, no passado, tenha sido admitida em nosso país e
em diversos outros.

Ética e filosofia
Ao longo da história, distintos filósofos tentaram encontrar um critério que permitisse julgar o que é
moralmente correto. Falaremos aqui de dois deles: Immanuel Kant e John Stuart Mill.

a) Kant e a ética do dever

A ética do dever de lmmanuel Kant (1724-1804) procurou distinguir um princípio supremo para a
moralidade que pudesse ser universalizado, princípio que ficou conhecido como "imperativo categórico".
Segundo esse princípio, a ação moral pode ser expressa por uma lei moral universal que deve valer para
todo ser racional. O que diz o imperativo categórico? "Aja de tal modo que o princípio da tua ação possa
servir sempre como princípio de uma legislação universal" ou, então, em uma outra formulação, "aja de tal
forma que uses a humanidade, tanto na tua pessoa, como na de qualquer outro, apenas como fim e nunca
como meio" (KANT, s.d., p. 135). Desse modo, o agir moral, segundo Kant, implica um agir que tem como
fim apenas a realização da humanidade em cada um de nós. Devemos agir por respeito à lei moral e não por
mero interesse pessoal, por aquilo que nos é mais conveniente. Muitas vezes aquilo que nos é mais conve-
niente não é a coisa certa a fazer.

b) J. S. Mill: liberdade e utilitarismo

O utilitarismo é um tipo de ética que foi desenvolvida pelos filósofos ingleses Jeremy Bentham (1748-
1832) e John Stuart Mill (1806-1873). Para os utilitaristas, a ação moral é aquela que eleva ao máximo a
felicidade geral, ou seja, eu preciso avaliar as conseqüências da minha ação para poder julgá-Ia do ponto de
1
vista moral. Se o resultado da minha ação é produzir a maior felicidade possível para o maior número de
pessoas, então, posso dizer que se trata de uma ação moral.
É importante observar que o critério de utilidade está baseado na consequência da ação em relação ao
bem-estar geral de uma coletividade, e não apenas na satisfação do próprio agente. Quem age pensando uni-
camente na sua maior felicidade, como consequência de seus atos, é apenas um egoísta moral. Se, em uma
sociedade, todos começassem a agir apenas em defesa dos interesses próprios, sem qualquer consideração
pelos demais, essa sociedade, além de cruel, seria insustentável, levando todos à infelicidade.
J.S. Mill defende também o que chama de "Princípio da Liberdade". Para Mill, existe uma esfera da
ação humana que diz respeito apenas a ela própria ou, se afeta o outro, afeta apenas com o seu livre con-
sentimento. Para Mill, essa esfera da vida humana é inviolável, ou seja, a sociedade não tem o direito de
interferir. Cada um de nós, adultos, é o guardião da nossa própria saúde, quer corporal, mental ou espiritual,
e os seres humanos têm mais a ganhar suportando que os outros vivam como bem lhes parece do que os
obrigando a viver como parece ao resto.

Moral e moralismo
o ponto de vista universal, que é o ponto de vista efetivamente ético, e o ponto de vista efetivamente
moral são completamente diferentes do ponto de vista que poderíamos chamar de "moralista". Mas, o que
é uma concepção moral moralista? Poderíamos dizer que o moralismo é uma concepção deturpada e pre-
conceituosa em relação ao que é a moral, ao que é certo e ao que é errado. O moralista emite julgamentos
de valor negativo sobre aquilo que se refere ao comportamento
pessoal de indivíduos que não prejudicam a outrem com seus PARA REFLETIR
comportamentos ou valora distintamente pessoas ou grupos de
DISCUTA A DIFERENÇA ENTRE
pessoas em função de certos fatores (traços fisicos, origem so-
MORAL E MORALlSMO.
cial ou de lugar, orientação sexual, gênero) ou opções políticas,
religiosas etc.
São moralistas afirmações como "praticar sexo antes do casamento é errado" ou "a homossexuali-
dade é errada". São moralistas e preconceituosas também valorações do tipo: "as mulheres são inferiores",
"os negros são inferiores", "dissolver o casamento é errado", "usar roupas curtas é errado", "os negros são
inferiores", "os arianos são superiores", "os nordestinos são inferiores". O moralismo, como concepção
deturpada da moral, deve ser sempre denunciado e combatido.

Nietzsche e a crítica da moral judaico-cristã


Curiosamente, uma das maiores contribuições para que possamos entender o que é o moralismo vem
de um dos filósofos mais controversos e mal compreendidos da história da filosofia, que é Friedrich Ni-
etzsche (1844-1900). Nietzsche nunca usou a expressão moralismo, mas foi um dos primeiros a fazer uma
crítica feroz ao que ele chamou de moral judaico-cristã, e foi um dos primeiros a afirmar a necessidade de
se fazer uma crítica dos valores morais, uma crítica da moralidade. No prólogo do seu livro "Genealogia da
Moral", afirma Nietzsche:
Por fim, uma nova exigência se faz ouvir. Enunciemo-Ia esta nova exigência: neces-
sitamos de uma crítica dos valores morais, o próprio valor desses valores deverá ser colo-
cado em questão. Para isto é necessário um conhecimento das condições e circunstâncias
nas quais nasceram, sob as quais se desenvolveram e se modificaram, um conhecimento tal
como até hoje nunca existiu nem foi desejado. Tomava-se o valor destes "valores" como
dado, como efetivo, como além de qualquer questionamento (NIETZSCHE, 1987, p. 14).
Nietzsche aponta aqui, com muita clareza, um caminho para a reflexão moral, que parece se consti-
tuir no caminho certo para que se entenda o problema da moral. Há que se fazer uma crítica dos valores
morais, há que se questionar o valor de todos os valores, avaliar quais foram os valores que vigoraram ao
longo dos últimos 2500 anos, para, quando for o caso, romper com eles.

Moralismo: a moral invertida


Conforme já vimos, a moral exige necessariamente um aporte ao universal. O aporte moralista, porém,
é um aporte deturpado. Em primeiro lugar, porque os julgamentos moralistas, embora se pretendam uni-
versais, não se qualificam para uma pretensão à universalidade quando os analisamos mais profundamente.
Ao contrário, exatamente por não respeitarem a diferença e o diferente, os julgamentos moralistas são ex-
tremamente subjetivistas. Afinal, em que nos basearíamos para fazer, por exemplo, julgamentos do tipo "a
homossexualidade é errada", "ter filhos fora do casamento é errado" ou "as mulheres devem restringir-se às
atividades do lar"? Esses julgamentos não atendem ao critério da universalidade. Se, a partir de agora, todas
as mulheres resolvessem ter filhos mas sem serem casadas, nada de catastrófico aconteceria no mundo. Do
mesmo modo, se todas as mulheres resolvessem trabalhar fora de casa, o máximo que o fato geraria seria
uma grande dor de cabeça para alguns maridos machistas. A universalização desses comportamentos não
geraria nenhuma consequência nefasta para a humanidade ou mesmo para a sociedade na qual estamos in-
seridos. Isto mostra que aquilo que é errado não são esses comportamentos. O que é errado é julgá-los como
errados, é julgar que esses comportamentos são imorais.
Observe que algo bem diferente ocorre em relação a atos ou comportamentos relativos à corrupção,
à mentira, ao roubo, à exploração. Se todas as pessoas do mundo resolvessem mentir, praticar a corrupção,
roubar ou explorar o outro, as consequências para a sociedade e para a humanidade seriam extremamente
negativas, extremamente nefastas. O que mostra que são comportamentos errados, imorais.

POR QUE MUITAS PESSOASESTÃO DISPOSTASA ACEITAR OU A SER CONDESCENDENTES COM ATOS E COMPORTAMENTOS DO
SEGUNDO TIPO (CORRUPÇÃO, ROUBO, MENTIRA) E, AO MESMO TEMPO, A CONDENAR PRONTAMENTE OS COMPORTAMENTOS DO
PRIMEIRO TIPO (MULHER TRABALHAR FORA DE CASA, MULHERES TEREM FILHOS SEM CASAMENTO)?

É IMPORTANTE QUE ESTEJAMOSDISPOSTOS A FAZER UMA PROFUNDA REFLEXÃO SOBRE ESTAATITUDE: SERCONDESCENDENTE COM
COMPORTAMENTOS DO SEGUNDO TIPO E CONDENAR OS DO PRIMEIRO. ESSA REFLEXÃO PODE NOS LEVAR A COMPREENDER QUE
MUITOS JULGAMENTOS QUE FAZEMOS, DO PONTO DE VISTA MORAL, NADA TÊM DE MORAL, SÃO TOTALMENTE MORALISTAS.

ESSA CONSCIÊNCIA IMPLICA EM COMPREENDER QUE FAZEMOS PARTE DE UMA SOCIEDADE CUjOS VALORES ESTÃO PROFUNDAMENTE
INVERTIDOS, UMA SOCIEDADE MORALISTA QUE, INVERTENDO OS JULGAMENTOS, ADMITE PRÁTICAS IMORAIS, ANTIÉTICAS, E CON-
n,
DENA OUTRAS QUE NADA PORTAM CONSIGO DE IMORAL, ANTIÉTICO. COM ESSACONSCIÊNCIA, ESTAMOS MAIS APTOS A COM-
A
PREENDER PROBLEMAS GRAvíSSIMOS DO BRASIL E DO MUNDO CONTEMPORÂNEO, COMO A FALTA DE ÉTICA NA POLíTICA, A FALTA pc
DE SOLIDARIEDADE COM O OUTRO, A DESUMANIZAÇÃO DA SOCIEDADE, A VIOLÊNCIA CRESCENTE, A FALTA DE INVESTIMENTO NO
SOCIAL, O EGoíSMO. UMA MORAL MORALISTA É UMA MORAL INVERTIDA. É UMA MORAL QUE DIZ SER CERTO O QUE É ERRADO E (
DIZ SER ERRADO O QUE É CERTO. É UMA MORAL IMORAL. É, TALVEZ, A EXPRESSÃOMÃXIMA DA IMORALIDADE.

o~
pn
As
de]
nãr
de
Antes, talvez por volta da década de 70 do século XX, poder-se-ia pensar que, se todo mundo se tor-
nasse homossexual, a humanidade acabaria, porque não haveria mais a reprodução da espécie humana por
casais heterossexuais. A partir dos anos 70, entretanto, e mais evidente hoje, com as técnicas de reprodução
artificial, mesmo que todo mundo viesse a "tomar-se homos-
sexual", a humanidade poderia tranquilamente continuar a se
PARA REFLETIR
reproduzir. Hoje, a humanidade pode se reproduzir sem sexo. O
LEIA, REFLITA E DISCUTA, COM SEUS COLE- sexo não é mais condição necessária para a reprodução. A con-
GAS, AMIGOS, PROFESSORES,PAIS E IRMÃOS, tinuação da existência da humanidade não corre nenhum risco
A SEGUINTE AFIRMAÇÃO: A HOMOSSEXUALI- com a homossexualidade nem com a reprodução artificial. O
DADE NADA MAIS É DO QUE UMA FORMA DE que coloca em risco a sobrevivência da humanidade, hoje, são
EXPRESSÃO DA SEXUALIDADE HUMANA. UMA
as guerras sem sentido, os govemantes sem responsabilidade, o
FORMA DE EXPRESSÃODA SEXUALIDADE HUMANA
desrespeito ao meio ambiente, o egoísmo irracional pelo qual
PERFEITAMENTE LEGíTIMA, MORAL E LEGAL.
as pessoas só se preocupam com elas próprias. Fatos, práticas
e atitudes imorais que colocam em risco a vida dos indivíduos
em diversas sociedades. A homossexualidade nada mais é do que uma forma de expressão da sexualidade
humana. Uma forma de expressão da sexualidade humana perfeitamente legítima, moral e legal.

Referéncias

ECO, Umberto, Cinco Escritos Morais. Ed. Record: Rio de Janeiro, 1998.

KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, s.d.

MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética: de Platão a Foucault. Jorge Zahar Ed.: Rio de Janeiro,
2007.

MILL, John Stuart. A Liberdade e o Utilitarisrno. Ed. Martins Fontes: São Paulo, 2000.

NAHRA, Cinara. Malditas Defesas Morais. Ed. Cooperativa Cultural UFRN: Natal, 2000.

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. Editora Brasiliense: São Paulo, 1987.

SINGER, Peter. Ética Prática. Editora Martins Fontes: São Paulo, 1994.

TUGENDHAT, Ernst. Lições sobre ética. Editora Vozes: Petrópolis, 2003.

TUGENDHAT, Ernst. ° Livro de Manuel e Camila (diálogos sobre moral). EdUFG: Goiânia, 2002.
o que é preconceito?
Preconceito tem a ver com moralidade. O preconceito é fruto de uma concepção moral deturpada,
uma moral moralista. O preconceituoso é antes de tudo um negador de diferenças: ele não aceita a diferença
e considera "errado" e "ruim" tudo aquilo que não é feito de acordo com suas crenças e seus valores. O
preconceito pode se manifestar de diversas formas.

o que é discriminação?
Na sua forma mais rude e exacerbada,
PARA REFLETIR
o preconceito toma o nome de discriminação.
Toma-se a negação de direitos, reconhecidos VoCÊ SABIA QUE A DISCRIMINAÇÃO, ALÉM DE IMORAL, É TAMBÉM

como direitos de todos, a determinados gru- ILEGAL? A CONSTITUiÇÃO BRASILEIRA ESTABELECE, EM SEU ARTIGO

pos ou pessoas, em função de pertencerem a 3°, QUE SÃO OBJETIVOS FUNDAMENTAIS DA REPÚBLICA FEDERATIVA

determinado gênero ou classe social, terem de- DO BRASIL, DENTRE OUTROS, "PROMOVER O BEM DE TODOS, SEM
PRECONCEITOS DE ORIGEM, RAÇA, SEXO, COR, IDADE E QUAISQUER
terminada preferência sexual, adotarem certas
OUTRAS FORMAS DE DISCRIMINAÇÃO". ALÉM DISSO, O ARTIGO 5° DA
crenças, o que é plenamente compatível com a
NOSSA CONSTITUiÇÃO FEDERAL, QUE ASSEGURA A TODOS O DIREITO
liberdade alheia. A discriminação se apresenta
À VIDA, À LIBERDADE, À IGUALDADE, À SEGURANÇA E À PROPRIE-
sempre de forma manifesta, seja por meio de DADE, DIZ QUE TODOS SÃO IGUAIS PERANTE A LEI, SEM DISTINÇÃO
hostilidade pública, seja por meio de proibições DE QUALQUER NATUREZA, E QUE A LEI PUNIRÁ QUALQUER DISCRIMI-
diversas, e muitas vezes a discriminação está NAÇÃO ATENTATÓRIA DOS DIREITOS E LIBERDADES FUNDAMENTAIS.
estabelecida nas próprias leis. No BRASIL, MUITOS DIREITOS SÃO NEGADOS AOS HOMOSSEXUAIS.
É MORALMENTE CORRETO NEGAR AOS HOMOSSEXUAIS OS MESMOS
DIREITOS CONCEDIDOS AOS HETEROSSEXUAIS? NA CÂMARA FEDERAL,
TRAMITA O PROJETO DE LEI NO 4914/2009, QUE ADMITE A UNIÃO
ESTÁVEL ENTRE PESSOASDO MESMO SEXO. ENTRETANTO, NESSE
MESMO PROJETO DE LEI, O TERMO CASAMENTO É TOMADO COMO
VÁLIDO E PERMITIDO APENAS PARA OS HETEROSSEXUAIS. ESTÁ COR-
RETO OU ERRADO? VOCÊ CONSIDERA O FATO COMO DISCRIMINAÇÃO?
EXPLIQUE SUA RESPOSTA.

A homossexualidade é imoral?
Não, a homossexualidade não é errada, não é antiética, não é imoral. Rapazes que mantêm relações
sexuais com rapazes ou moças que mantêm relações sexuais com moças não estão fazendo nada de errado,
nada de imoral, nada de antiético. O que é errado é a condenação das práticas homoeróticas, homoafetivas.
A condenação moral da homossexualidade é preconceituosa e moralista, e não se justifica sob nenhum
ponto de vista.

Qual O fundamento da visão segundo a qual a homossexualidade é errada?


É exatamente uma visão deturpada da sexualidade, muito ligada à concepção judaico-cristã de que
o sexo é algo que somente deve ser praticado com vistas à procriação. Segundo essa visão, devendo ser a
procriação o único objetivo do sexo, as práticas sexuais que não conduzem à procriação seriam erradas.
Assim, a homossexualidade, o sexo anal e mesmo a masturbação, em uma visão mais ortodoxa, são con-
denáveis. É preciso questionar tal visão. O sexo pode ser usado para a procriação, é claro, mas seu objetivo
não é necessariamente a reprodução. O sexo pode ter por finalidade simplesmente o prazer, e não há nada
de errado nisso, desde que as pessoas envolvidas na relação estejam de acordo.
§]