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Paul E.

Billheimer
Seu
Destino é a Cruz
Digitalizado por : Karmitta
Traduzido por Luiz Aparecido Caruso

Editora Vida
Lançamento

http://semeador.forumeiros.com/portal.htm

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que não tem condições econômicas para comprar.
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Semeadores da Palavra e-books evangélicos


Reconhecimentos..............................................................................5

Antelóquio........................................................................................6

Prefácio.............................................................................................8

PRIMEIRA PARTE DESCE DA CRUZ.......................................11

O trono do Universo é uma Cruz....................................................11

Como se Desce da Cruz..................................................................19

Como Usar a Cruz..........................................................................23

Um Erro Mortal..............................................................................28

Morte Progressiva...........................................................................31

O Pecado, Tanto um Ato Como uma Disposição...........................35

Verdadeira Santidade — Equilíbrio Entre Experiência e Ética......40

Glorificação do Martírio.................................................................47

SEGUNDA PARTE.......................................................................56

"COMO SE... MORRENDO... EIS QUE VIVEMOS"..................56

Olhando Para a Necessidade...........................................................56

A Sabedoria de Esquecer................................................................64

A Lentidão do Processo..................................................................75

Concentração..................................................................................81

O Ocultamento do Futuro...............................................................88

Qual é sua Missão?.........................................................................99


A Vida não é só Atividade............................................................105
Reconhecimentos

Tenho uma grande dívida para com muitas fontes. Devo muito às
obras de João Wesley, Alexander Macla-ren, Stuart Holden, J. R Miller, A.
B. Simpson, Amy Carmichael, Watchman Nee, e muitos outros. O Espírito
Santo tem usado o discernimento dessas pessoas e uma parte da bela
linguagem colhida aqui e ali de seus escritos para estimular minha
imaginação espiritual.
Abro mão de toda reivindicação de propriedade de qualquer
verdade inspirada pelo Espírito. Todos os meus irmãos, incluindo os
membros do Corpo de Cristo, são bem-vindos ao uso de qualquer parte
desta mensagem, observadas apenas as condições do copyright.
Meus sinceros agradecimentos a Norma Aspin por sua dedicada
assistência na datilografia do manuscrito. Também à minha esposa por
suas valiosas sugestões e pelas muitas horas gastas na leitura de provas e
na correção.
Antelóquio

Quando adolescente, estudante numa faculdade evangélica, tive o


privilégio de ouvir, durante os cultos diários na capela, muitos renomados
oradores daqueles dias, que falavam sobre a "vida mais profunda". Muito
embora eu estivesse ansioso por entender as mensagens e atuar de acordo
com elas, eu falhava repetidas vezes ano após ano em captar o significado
de suas sinceras e freqüentes admoestações bíblicas: "Considerai-vos mor-
tos para o pecado... (Romanos 6:11). Assim como eu havia recebido a
Cristo pela fé, assim também, diziam-me, mediante a fé eu podia ser
libertado do poder do pecado que havia dentro de mim. Mas, no meu caso,
isso não funcionou. Considerei e considerei e nada aconteceu, exceto
muitos anos de fracasso e desânimo.
Como eu gostaria de ter tido este livro naqueles dias! Quanto
sofrimento espiritual ele me teria poupado! Pois aqui estão reunidos o
pleno ensino da Bíblia sobre este assunto vital, com instruções acerca do
que fazer para pôr a fé em ação e examinar o auto-engano que pode, com
tanta facilidade, impedir que alcancemos o alvo.
O autor ressalta que "o que temos feito teoricamente" (considerar-
nos mortos para o pecado) "tem de ser efetuado de modo prático em todas
as infindáveis variedades da vida diária. . ." E ele diz-nos como fazê-lo.
Salienta, também, algo mais que cedo descobri: não é fácil
continuar desejando ser crucificado com Cristo. Aqui, igualmente, ele nos
ajuda a "permitir que o Espírito de Deus permaneça no trono de seu
coração em vez de seguir seu desejo natural de levar a própria vida—para
uma fossa espiritual".
Espero que este livro lhe seja tão emocionante e útil quanto tem
sido para mim.
Ken Taylor
Prefácio

A mensagem deste livro, que põe em foco a obra progressiva do


Espírito Santo na vida do crente, é-me especialmente cara. Conquanto eu
tivesse crescido num lar profundamente espiritual e desde minhas mais
antigas recordações tivesse ouvido pregar e ensinar a obra do Espírito
Santo, ainda assim eu nunca havia compreendido que a obra do Espírito no
crente se reveste de dois aspectos, isto é, uma crise e, ao mesmo tempo,
um processo.
"Estou certa de que ninguém jamais o disse desta maneira, mas o
meu entendimento da obra de santificação ou o encher-se do Espírito
Santo era que, nessa maravilhosa experiência de crise, minha natureza,
características e disposição se purificariam e transformariam de maneira
tão poderosa que pouco faltaria para eu ser glorificada. Eu pensava que,
dali para a frente, minha vida seria um panorama angélico de perfeição.
Entretanto, nunca pude alcançar tal experiência. Olhando em retrospecto
aqueles anos, vejo que houve ocasiões em que fiz uma entrega e
consagração plena, e o Espírito me satisfez com a certeza de sua aceitação.
Ocasiões em que me enchi de jubilosa antecipação da pessoa maravi-
lhosamente transformada que eu era. Mas em breve tempo surgia algo
desagradável que eu despregava em mim mesma, e ficava desiludida.
Nessas ocasiões eu fazia uma de duas coisas: ou erguia as mãos em sinal
de derrota e muitas vezes de quase-desespero, ou continuava a professar a
experiência de santificação com uma consciência de culpa. Eu não tinha
idéia alguma de que era possível enfrentar tais derrotas com a vitória.
Não foi senão alguns anos depois da cura maravilhosa da
tuberculose de meu marido, que o levou às portas da morte, e de novo
servíamos no pastorado, que o Senhor começou a dar-lhe discernimentos e
ele passou a pregar a obra progressiva do Espírito Santo que se segue à
crise da santificação ou plenitude do Espírito Santo. Fui despertada de
sobressalto. Talvez, simplesmente talvez houvesse uma saída desta terrível
experiência espiritual tipo "carrossel" que eu conhecera por tanto tempo.
Nessa ocasião especial eu me encontrava "professando sem possuir" e me
sentia tão infeliz. Como eu ansiava ser liberta dessa terrível vida de derrota
e culpa!
Certo domingo de manhã ajoelhei-me ao pé do altar como alguém
que busca alguma coisa e comecei a orar por um verdadeiro livramento
deste horrível cativeiro e desta repetida alternância de esperança e
desespero. Eu decidira que o círculo vicioso de infelicidade em minha vida
tinha de chegar ao fim. Havia muito que realizar em matéria de aprender,
de confessar, de arrepender, e de restituir. Durante dois meses inteiros
continuei a buscar. Sem dúvida muitas pessoas se cansaram de ver-me ao
pé do altar, praticamente em todos os cultos; mas eu estava resolvida a pôr
fim a esta horrível existência.
Penso que parte do meu problema, a esta altura, era a idéia de que,
quando o Espírito Santo viesse, haveria uma demonstração poderosa,
emocional, que convenceria a todos de que realmente eu o havia recebido.
Acima de tudo, eu desejava que meu marido se convencesse do fato e
confiasse em mim. Minha fome espiritual tornou-se tão grande que,
enquanto descansava em certa tarde de domingo, eu disse ao Senhor:
"Senhor, tenho tanta fome de tua presença que aceitarei qualquer tipo de
evidência. Um versículo bíblico que seja." Que coisa melhor poderia eu ter
pedido? No meu íntimo ouvi-o dizer: "Se você levantar-se e pegar a Bíblia,
eu lhe darei um versículo." De um salto peguei a Bíblia. Eis o que ele me
deu: 1 João 1:7— "Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz,
mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho,
nos purifica de todo pecado." Aleluia!
Isso aconteceu há mais de cinqüenta anos e essa promessa me fala
ainda hoje. Ela tem-se desdobrado e expandido através desses anos todos.
O verbo está na voz ativa e no tempo presente, o que significa que
enquanto eu continuar andando na nova luz com a qual ele que é a luz
ilumina minhas falhas e deficiências seu sangue continua a purificar-me.
Foi uma mensagem de meu marido, que também é a mensagem deste livro,
que o Espírito usou para esclarecer o versículo de "evidência"; e o sangue
de Jesus continuou a purificar-me e ainda o faz depois de decorridos mais
de cinqüenta anos. Amado crente derrotado, por favor, examine esta
mensagem e permita que ela o esquadrinhe sob a orientação do Espírito
Santo, e o "sangue de Jesus Cristo continuara purificando você".
Sra. Paul E. Billheimer Fevereiro de
1982
PRIMEIRA PARTE

DESCE DA
CRUZ
Capítulo Um

O trono do Universo
é uma Cruz

A lei do universo é o auto-sacrifício

Auto-sacrifício é o fundamento sobre o qual o universo foi


construído e a lei pela qual ele opera. Se o sacrifício não fosse a suprema lei
do universo, operaria Deus, o Supremo Governante do universo, segundo
esse princípio? Mediante o Calvário Deus está a dizer-nos "Este é o trono do
universo, não somente para Cristo; é o único caminho do poder, da
autoridade e do governo para todos."
Satanás desafiou este princípio e perdeu. Em todas as
circunstâncias da vida e prática diárias, Deus esta dando a cada um de nós
a escolha de atuar com base neste princípio em preparação para o governo
eterno ou, descer da cruz com o fim de salvar o eu, perdendo dessa
maneira a coroa. As únicas pessoas que têm verdadeira autoridade sobre
Satanás são as que decidem permanecer na cruz, permitindo que ela as
liberte de toda a busca, serviço e promoção do ego.
Mateus 27:39-42: "Os que iam passando, blasfemavam dele,
meneando a cabeça, e dizendo: O tu que destróis o santuário e em três dias
o reedificas! Salva-te a ti mesmo, se és Filho de Deus! E desce da cruz! De
igual modo os principais sacerdotes, com os escribas e anciãos,
escarnecendo, diziam: Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar-se. É
rei de Israel! desça da cruz, e creremos nele."
Lucas 23:35: "O povo estava ali e a tudo observava. Também as
autoridades zombavam a diziam: Salvou os outros; a si mesmo se salve, se
é de fato o Cristo de Deus, o escolhido."

Satanás ofereceu a Cristo uma conquista sem cruz

Várias vezes na vida e ministério de nosso Senhor, Satanás


ofereceu-lhe um caminho fácil para a supremacia, ou para o poder, sem a
cruz. Mas tantas vezes quantas foram as ofertas, foram também as recusas.
Jesus, deliberadamente, escolheu a cruz. A tentação e a oportunidade de
escapar da cruz foram uma constante em sua carreira. Mas ele permaneceu
resoluto em sua missão e finalmente precipitou sua própria morte.
Logo no começo de seu ministério, Jesus defrontou-se com esta
alternativa. "Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos... se
prostrado me adorares. Estava aí a oferta de uma conquista sem morte, de
uma coroa sem cruz. Em verdade, toda a força da tentação jaz na
perspectiva de poder sem sofrimento, de elevação sem humilhação.
A mesma alternativa foi apresentada a Jesus na visita dos gregos
que disseram a um dos discípulos: "Queremos ver a Jesus." Pensam alguns
que os gregos tencionavam pedir a Jesus que fosse para o país deles, onde
poderia continuar a obra em segurança, livre da ameaça de morte. Mas
Jesus enfrentou esse convite com as palavras: "Se o grão de trigo, caindo
na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto." Cristo
sabia que devia morrer antes de alcançar o mundo pagão; assim, recusou-
se a tomar o atalho.
Pela terceira vez ele enfrentou esta tentação, quando estavam a
caminho de Jerusalém, perto do fim de seu ministério. Jesus disse aos
discípulos que em Jerusalém ele seria escarnecido, cuspido, rejeitado e
crucificado pelos principais sacerdotes e escribas. Para a mente carnal de
Pedro isto seria uma tragédia e resultaria na anulação de todo o seu
ministério; para não mencionar a frustração da ambição de Pedro de
tomar-se uma força no reino temporal. Portanto, ele levou Jesus para um
lado e começou a reprová-lo, dizendo: "Isso de modo algum te
acontecerá." De novo Jesus resistiu à tentação, dizendo a Pedro: "Arreda!
Satanás."
Na cena que agora temos diante de nós, Cristo pende da cruz. Suas
profecias acerca de sua morte estão prestes a cumprir-se. Neste horrível
momento suas previsões se justificam plenamente. Estava quase a soar a
hora para a qual ele veio ao mundo. Uma vez mais, na agonia da
crucifixão, nos estertores da morte, nos últimos momentos da dor
agonizante, a tentação reaparece: "Se és Filho de Deus, desce da cruz!"
Não é necessário dizer que Cristo tinha o poder para tanto, se
decidisse usá-lo. "Acaso pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me
mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se
cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?" (Mateus
26:53, 54). Isto ele disse a Pedro no Jardim. Jesus poderia ter descido da
cruz. A tentação de salvar-se a si mesmo e de evitar a cruz foi agudíssima
na hora em que ele tragava o amargo cálice do Calvário. Com os pulsos
acelerados e a febre assolando, com cada nervo e músculo uma agonia de
dor, com o senso de abandono a esmagá-lo, veio com terrível força o
escárnio: "Se és Filho de Deus, desce da cruz!"
Desceria ele? Aceitaria ele o desafio de salvar-se? Recusaria ele,
finalmente, a cruz? Está em jogo o trono do universo. Se ele descer da
cruz, perderá o trono. Por estranho que pareça, aqui é onde Satanás foi
afinal derrotado, completamente perdido, e destituído de sua autoridade.
Como diz o Dr. F. J. Huegel: "O trono do mundo é uma cruz. Cristo reina
do madeiro." Pelo fato de ter ido à cruz, hoje Cristo reina supremo no
universo e essa supremacia um dia será francamente manifesta conforme
ensina com clareza o livro do Apocalipse.
Lembrai-vos, amados, de que não há um caminho para ele e outro
para nós. Ensinar que há dois caminhos é uma fraude satânica.

Esta verdade mais do que histórica

Tudo isto faz parte da história. Cristo reina hoje porque ele foi à
cruz e ali ficou até que a morte liberou sua vida para o mundo. Entretanto
isto é mais do que uma verdade histórica. É uma verdade moral também,
pois Paulo diz, escrevendo aos crentes, em Romanos 6: "Sabendo isto, que
foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado
seja destruído, e não sirvamos ao pecado como escravos." "Fomos, pois,
sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi
ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos
nós em novidade de vida." "Unidos com ele na semelhança da sua morte."
E em Gálatas 2: "Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem
vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo
pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por
mim." Esses e outros textos bíblicos ensinam com muita clareza que todos
os crentes participam da morte de Cristo. Mas, nossa morte em Cristo é
uma comunhão potencial, ressalta o Dr. Huegel. Diz ele: "Embora da
perspectiva divina seja uma coisa há muito tempo consumada, histórica e
objetivamente completada, não obstante do ângulo humano é algo
guardado em confiança para nós, o qual somente pelo exercício da fé se
torna efetivo, em experiência."

Tem início a batalha

Quando nos consagramos de corpo e alma a ser santificados,


purificados da mente carnal e cheios do Espírito, concordamos em que
nosso "velho homem", que foi judicialmente crucificado com Cristo, será
real e praticamente pregado na cruz. Quando Deus vê que temos intenções
sérias, que o consentimento da vontade é autêntico e para valer, ele aceita
o sacrifício. Então tem início a batalha. Aquilo que fazemos teoricamente
tem de ser executado de modo prático em todas as intermináveis
variedades da vida diária, da conduta e da experiência cristã. Havendo nós
concordado em que nosso "velho homem" será real e praticamente cravado
na cruz, de imediato Satanás solta um grito de protesto, e começa a
condoer-se de toda a vida da natureza e do ego, assim como Pedro
compadeceu-se de Jesus, quando disse: "Senhor, isso de modo algum te
acontecerá." E a menos que tenhamos muito cuidado, aceitaremos as
sugestões, concordaremos com Satanás que nossa carne não deve morrer,
que somos bons demais para a cruz, que em nosso caso a cruz é um erro. A
condolência é um sentimento muito sutil, e embora seja, com freqüência,
um traço da semelhança de Cristo, pode também ser um traço da carne.
Jesus recusou a simpatia de Pedro, dizendo que ela era da carne e não de
Deus. Ele sabia que seu trono era uma cruz e não se deixaria desviar. É
preciso que tenhamos cuidado ao compadecermo-nos de alguém, quando
Deus o está disciplinando, quando ele está permitindo que a cruz opere
nessa vida. Podemos estar tomando o partido dela contra Deus. Por meio
da simpatia podemos, em verdade, atrair a pessoa para nós mesmos,
afastando-a de Deus.
Satanás sempre fará todo o possível para evitar que a pessoa vá à
cruz em plena consagração para a morte do ego. Uma vez que a pessoa faz
a rendição inicial permitindo que a cruz aniquile sua "velha natureza"
carnal, Satanás fará todo o possível para que ela desça da cruz, como ele
tentou Jesus a fazê-lo. Ele pode contar com algum Pedro ou seu irmão para
dizer: "Isso de modo algum te acontecerá." Oswald Chambers diz que
"nenhum santo deveria interferir no modo como Deus disciplina a outro
santo". Ele chama a esse gesto de "providência de amador".

Agrava-se a batalha

Tão-logo a pessoa submete seu "velho homem", a velha vida da


natureza e do ego, a ser praticamente cravado na cruz, Satanás ou seus
instrumentos, como Pedro, pode começar a condoer-se de toda a vida da
natureza que ainda não foi crucificada de maneira prática. Embora o que
chamamos de mente carnal, aquilo que se rebela contra Deus, possa
deveras ser morta, não obstante, em cada experiência individual de nova e
mais profunda participação na cruz e sua aplicação, a tentação está sempre
presente: "Salva-te a ti mesmo, e desce da cruz!" E ainda que nos
tenhamos submetido à crucificação, nos casos individuais de aplicação
prática da cruz, quem há que se atreva a dizer que nunca cederá à tentação
de "descer da cruz"?

Confirmando o sacrifício

Conquanto muitas pessoas saibam o que significa tomar a posição


da cruz e entregar-se a ela numa crise de consagração e fé, e experimentar
a consciência de purificação da mente carnal, são muito poucos os assim
chamados crentes santificados e que fazem profissão de santidade, que
sabem o que realmente significa viver a vida crucificada. Há, entre nós,
uma falha total com relação a este ponto. E por falta de ensino sobre a
aplicação diária e progressiva da cruz, por falta de ensino sobre como
viver momento por momento a vida crucificada, nós que professamos
santidade temos, em grande maioria, permanecido superficiais e imaturos.
Depois que a pessoa dá o passo inicial de ir à cruz em plena consagração
para o tempo e eternidade, pode precisar de uma real determinação de
resistir à tentação de comprometer sua consagração e descer da cruz. Por
falta de ênfase na vida crucificada, nosso Cristianismo, é triste dizê-lo, tem
falta de profundidade. Não percebendo que a vida santificada é nada
menos do que uma vida de participação cada vez maior na morte de Cristo,
temos, em momentos de descuido, descido da cruz. Em vez de aperfeiçoar-
nos numa vida de crucificação constantemente mantida pela recusa
deliberada a descer da cruz, temos dependido de uma crise passada. E ao
reconhecer as evidências da carne, em vez de levá-las de imediato ã cruz
mediante confissão e restituição, temos meramente apontado para trás,
para essa crise, e dito: "Desde que me santifiquei, nada mais pode haver
em minha vida que necessite da cruz. Nada mais tenho que ver com a cruz.
Acabei com ela. Morri uma vez e acabei com a morte." E essa atitude é a
mãe de toda uma prole de vícios espirituais tão feios quanto numerosos.
Capítulo Dois

Como se Desce da
Cruz

Talvez a esta altura alguém diga: "Mas, afinal de contas, que é que
o senhor quer dizer por descer da cruz?" Minha resposta é: "Qualquer
atitude para salvar o eu é uma descida da cruz. Qualquer tomada de um
caminho fácil no que diz respeito a princípios espirituais é um descer da
cruz. Quero ser explícito e exato: Todos os esforços para escusar,
defender, proteger, vindicar ou salvar o eu é, com efeito, uma descida da
cruz. Autocompaixão é descer da cruz. Autocompaixão é uma forma de
autodefesa. Significa que a pessoa acha ter sido injustiçada, e sente pena
de si mesma porque nada pode fazer a respeito. Quando a pessoa cede ã
autocompaixão, desceu da cruz. Submissão ao ressentimento é descer da
cruz. Ressentimento é autodefesa. Significa que a pessoa julga que foi
injustiçada e se irrita porque não pode fazer nada a respeito. Auto
vindicação é descer da cruz, pois a vindicação é uma forma de autodefesa.
Que transtornos têm resultado de esforços de auto vindicação! Igrejas
inteiras têm-se esfacelado e almas condenadas ao inferno porque alguém
não pôde refrear-se de buscar vingança. A pessoa tem de descer da cruz a
fim de vingar-se. Vindicação é autodefesa. A recusa em aceitar a culpa,
lançando-a sobre outros é descer da cruz. Sabemos como é difícil receber a
culpa por alguma coisa e como é fácil jogá-la sobre outros. Essa é uma
forma de autodefesa; é uma descida da cruz. Quando os outros nos
entendem mal, os esforços indevidos para explicar nossas ações são a
mesma coisa. Não temos a fé para fazer como Jesus: entregar nossa alma a
Deus como a um fiel Criador. Auto-justificação significa que descemos da
cruz. Ofender-nos por um real ou suposto menosprezo é descer da cruz. A
maior parte da crítica descortês, se não toda ela, é uma forma de
autodefesa e auto-justificação. E, portanto, uma descida da cruz. Espírito
partidário, que nada mais é do que torcer para meu grupo espiritual ou meu
ponto de vista, resultando numa reflexão definida sobre a inteligência ou
sinceridade de todos quantos não concordam comigo, é uma forma sutil de
auto justificação e de salvar o eu.
Penso que nenhuma pessoa honesta e informada contestará que
quase todas essas coisas, se não forem prevalecentes são, pelo menos,
comuns em praticamente todas as denominações e em muitas das assim
chamadas igrejas cheias do Espírito. Concordo que coisas até piores do que
essas prevalecem ou são comuns em muitas das grandes denominações; mas
isso não serve de justificativa alguma para a tolerância de tais coisas em nosso
meio. Prova apenas o que vimos dizendo, que embora muitos de nós demos
testemunho de termos sido salvos e santificados, ou cheios do Espírito,
poucos de nós nos atreveríamos a dizer que vivemos a vida crucificada.

A cruz, o segredo da vitória

Não obstante, exatamente aqui está o segredo da vitória: Não uma


crise passada, mas uma rendição presente, diária, à cruz. Há somente um
lugar de poder sobre Satanás e esse lugar é a cruz. Foi na cruz, e pela cruz,
que Cristo o venceu. A cruz foi a derrota de Satanás. E esse é o único lugar
em que Satanás é sempre derrotado. Satanás só não pode tocar-nos quando
estamos na cruz. A única parte de nossa natureza que Satanás não pode
tocar é aquela que foi crucificada e permanece sobre a cruz. Se você olhar
para o passado, verá que a única derrota por você sofrida foi quando
desceu da cruz. E você sempre sofreu derrota ao ser induzido a descer da
cruz. Se Satanás pudesse ter seduzido Cristo a descer da cruz, ele teria
saído vencedor. E Satanás sempre nos vence quando descemos da cruz. Se
Satanás conseguir que desçamos da cruz, ele nos terá em seu poder. Mas
não poderá tocar-nos enquanto permanecermos na cruz. Aqui ele foi
derrotado e a cruz continua sendo sua derrota. Ele não tem poder algum
sobre nós enquanto estivermos na cruz; mas ao descermos dela, somos
vencidos. E continuamos a ser derrotados até que voltemos à cruz. A cruz
é nosso único lugar de segurança. Ela é o único lugar onde temos poder
sobre toda a força do inimigo. Desconhecendo isto, muitos de nós que
temos tido uma experiência definida de santificação ou de enchimento com
o Espírito Santo, não temos sabido usar a cruz como arma contra Satanás.
Descemos da cruz, fazemos as coisas a nosso talante, seguimos nosso
próprio juízo, caímos na autocompaixão, na auto-justificação, no
ressentimento e noutras formas de autodefesa, e sofremos derrota até que
entreguemos os pontos e voltemos à cruz. Encontraremos constante vitória
quando aprendermos a permanecer na cruz.
Mesmo o que é legítimo deve morrer

Algumas pessoas rejeitam minha ênfase na santificação progressiva


porque crêem na santificação instantânea. Nada do que tenho dito tem o
mínimo intento de questionar essa posição. Tento apenas dar um conteúdo
ético à profissão de santificação o qual, creio eu, está em grande falta hoje.
A cruz não é somente para o pecado mas também para nosso
legítimo eu.
Capítulo Três

Como Usar a Cruz

Alguns dos melhores escritores sobre santidade concordam em que


há um eu legítimo que se distingue do eu carnal. A cruz não se destina
apenas a afastar aquilo que está em direta contradição com Deus, a que
chamamos mente carnal. Serve também para remover toda a vida da
natureza e do ego, que não poderia classificar-se como rebelião contra
Deus, mas que, não obstante, pelo fato de pertencer ao eu em vez de
pertencer a Deus, não pode ser usada pelo Criador e deve, portanto, ser
posta de lado. Quanto a este ponto, diz George D. Watson, escritor dos
primeiros tempos do movimento de santidade:

Morte mais profunda do ego

Há não somente morte para o pecado, mas em muitas coisas hã


uma morte mais profunda do ego—uma crucificação nos detalhe e nas
minúcias da vida—depois que a alma é santificada. Esta crucificação mais
profunda do ego é o desdobramento e a aplicação de todos os princípios da
auto--renúncia com que a alma concordou em sua plena consagração. Jó
foi um homem perfeito e morto para todo pecado; mas em seus grandes
sofrimentos ele morreu para sua própria vida religiosa; morreu para suas
afeições domésticas; morreu para sua teologia, para todas as suas opiniões
da providência de Deus; morreu para muitas coisas que, em si mesmas,
não eram pecado, mas impediam-no de maior união com Deus.
Pedro, depois de santificado e cheio do Espírito, precisou de uma
visão especial vinda do céu que o matasse para sua teologia tradicional e
para seu forte igrejismo judaico. O maior grau de auto--renúncia, de
crucificação e de rendição a Deus, ocorre após a pureza do coração. Hã um
número enorme de coisas que não são pecaminosas; não obstante, o apego
a elas impede uma maior plenitude do Espírito Santo e uma mais ampla
cooperação com Deus. A sabedoria infinita toma--nos pela mão, e dispõe
as coisas para levar--nos através de crucificação profunda, interior, às
nossas melhores partes, nossa sublime razão, nossas mais brilhantes
esperanças, nossas acariciadas afeições, nossas opiniões religiosas, nossa
mais sincera amizade, nosso zelo piedoso, nossa impetuosidade espiritual,
nossa arrogância espiritual, nossa estreita cultura, nosso credo e igrejismo,
nosso sucesso, nossas experiências religiosas, nossos confortos espirituais;
a crucificação continua até que estejamos mortos e desligados de todas as
criaturas, de todos os santos, de todos os pensamentos, de todas as
esperanças, de todos os planos, de todos os ternos anseios do coração, de
todas as preferências; mortos para todos os problemas, todas as tristezas,
todos os desapontamentos; igualmente mortos para todo louvor ou culpa,
sucesso ou fracasso, confortos ou aborrecimentos; mortos para todos os
climas e nacionalidades; mortos para todo desejo, exceto de Cristo. Há
inúmeros graus de crucificação interior nessas várias linhas. Talvez não
haja uma só pessoa santificada em dez mil que atinja esse grau de morte do
ego que Paulo e Madame Guyon e santos semelhantes atingiram.
Eu gostaria de acrescentar que eles atingiram esses graus mais
profundos de morte do ego por meio da cruz em seus fatigantes aspectos
diários. É muito fácil usar a cruz ao redor do pescoço ou numa peça de
vestuário sem pôr em prática a morte que ela simboliza em nossos
relacionamentos pessoais diários e em nossas atitudes. É aí que ela
realmente conta.

Não há um caminho para Cristo e outro para nós

Se desejamos o melhor de Deus para nossa vida; se desejamos


crescente poder e vitória sobre o pecado e sobre o eu, devemos chegar a
um acordo com o fato de que depois de havermos nascido de novo e
encher-nos do Espírito, ainda somos seres decaídos. Precisamos entender
que há grandes áreas de nossa vida e disposições que devem ser
continuamente submetidas à cruz e à morte se desejamos levar uma vida
triunfante e vitoriosa. E isto que Paulo quer dizer em Romanos 8 com as
palavras "andar segundo o Espírito". Para isto, devemos aceitar a cruz e
deixar que ela continue a matar a carne. Nas palavras da Bíblia Viva, em
Gálatas 5:24, 25, Paulo diz: "Aqueles que pertencem a Cristo pregaram
seus maus desejos naturais [a vida da natureza e do ego] na sua cruz e os
crucificaram ali. Se agora estamos vivendo pelo poder do Espírito Santo,
sigamos a liderança do Espírito Santo em todos os aspectos de nossa vida."
Isto indica que a conquista de nossa natureza carnal, por parte do Espírito,
não é necessariamente automática. Nessa questão, podemos escolher.
Podemos recusar o caminho da cruz, o caminho do quebrantamento e da
crucificação do eu. E isso significa derrota. Nosso único lugar de vitória é
sobre a cruz. Cristo reina do madeiro. Não há um caminho para ele e outro
para nós. Ele foi à cruz não somente como nosso Substituto, mas também
como nosso Representante para mostrar-nos que a cruz é, na realidade, o
único lugar de autoridade.
A cruz não se destina apenas à morte do pecado, mas também a
toda a vida da natureza e do ego, inclusive os assim chamados bons traços
dessa vida. É por isto que George D. Watson demanda uma morte mais
profunda do ego. Deus deseja remodelar-nos continuamente. Quando
permitimos que a cruz realize sua obra, Deus nos fará totalmente diferentes
do que somos agora. Alguns pensam que isso é impossível, mas é por isso
que Deus permite a cruz em nossa vida, isto é, as coisas que continuam
matando nossa vida do ego. Nossa recusa da cruz é o motivo de tanto
conflito no lar, na igreja, no comércio, na idústria e no trabalho.

A cruz é a morte dos deleites

A cruz relaciona-se com nosso estilo de vida. É o estilo de vida


elegante e luxuoso de Deus ou da carne? A prosperidade é, deveras, parte
do evangelho, mas é apenas uma parte. A ênfase geral do evangelho está,
sem dúvida, num modo sacrificial de viver. A cruz é a morte do prazer
carnal. A cruz torna o indivíduo sensível à sua responsabilidade para com
um mundo perdido. Há material bastante na Palavra para estimular a fé
que supre todas as necessidades (Filipenses 4:19), tudo quanto for
necessário para gerar eficiência. O uso das coisas materiais além disto é
luxo e promove o deleite. Diz-se que no seu primeiro ano de serviço de
tempo integral, João Wesley vivia de uma renda de vinte e oito libras.
Embora Deus o fizesse prosperar com um trabalho cada vez mais
abundante, diz-se que ele continuou a viver com aquela mesma renda até
ao fim da vida. Creio que este é um padrão bíblico de mordomia. "Então
disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se
negue, tome a sua cruz e siga-me" (Mateus 16:24).
Capítulo Quatro

Um Erro Mortal

Que devo fazer quando reconheço que desci da cruz, quando sofri
derrota por fazer as coisas a meu modo, por entregar-me à auto-compai-
xão, ao ressentimento, ou de um modo ou de outro agir de acordo com o
eu ou com a carne? Muitas pessoas não sabem usar a cruz. Quando
fracassam, passam por maus momentos. Imediatamente sua crise de
santificação é posta em juízo e travam uma luta interior feroz sobre a
autenticidade de sua experiência. Se, após exame e oração, decidem que
sua crise foi tão pronunciada que não podem duvidar dela, aos poucos se
recuperam da angústia e vão em frente. Mas não lidaram com a recaída
que acarretou o questionamento. Asseguraram a si mesmas de que estão
santificadas e devem, portanto, estar certas, quando, na realidade, o
Espírito discorda de algo na vida delas. Muitas são as pessoas que
continuam na suposição de que podem, conscientemente, dizer que são
santificadas ou cheias do Espírito, que nada mais pode haver em suas vidas
que o contrarie. Esse é um erro fatal. Ele resulta do hábito de amparar-se
em uma experiência passada em vez de enfrentar disposições com as quais
o Espírito está em desacordo. Há, porventura, alguém que em seus
momentos de honestidade não admita que muito embora tenha tido uma
autêntica experiência de crise, ainda pode perceber disposições que
desagradam a Deus? Que se deve fazer com tais disposições? Levá-las
diretamente à cruz. Tão-logo a pessoa perceba que desceu da cruz e sofreu
derrota, por pequena que seja, em vez de tentar provar a si mesma que está
santificada e, portanto, tudo está bem, reconheça que pode ter sido cheia
do Espírito e, no entanto, existe algo nela que não está direito. O Espírito
está em desacordo com ela. Essa pessoa recaiu na carne de sua vida do
ego. Deve reconhecer que desceu da cruz, e voltar a ela. Deve abrir mão de
seus direitos se é por eles que tem lutado; abandonar seu ressentimento ou
auto-compaixão ou salvação do eu. Se ela morrer para aquilo que a fez
descer da cruz se encontrará de novo em estado de vitória.

Cruz e autoridade

Como se volta à cruz? Volta-se a ela mediante confissão e


restituição. A prova de que sua experiência de crise foi genuína não é que
você nunca mais cairá abaixo de sua condição ótima, mas que, ao
descobrir seu fracasso, tão-logo o Espírito o censure por sua derrota, você
está disposto a humilhar-se, a confessar sua fraqueza, seu erro ou pecado,
aceitar a plena culpa pelo acontecido. Se há outras pessoas envolvidas,
peça-lhes perdão e restitua-lhes o que tiver de restituir. A medida que você
faz disto uma prática, encontrará crescente vitória sobre sua fraqueza, e
suas derrotas serão menos freqüentes. Na opinião de alguns guias
espirituais, um adiantado grau de graças do Espírito pode até ser mais
importante do que os dons espetaculares do Espírito. Isto não diminui a
importância dos dons. Mas a ausência das graças do Espírito pode atuar
em sentido contrário ou anular a bênção dos dons. Deixar de render-se à
aplicação diária da cruz, recusar-se a viver a vida crucificada pode ser fatal
à operação dos dons ou das graças. Recusar-se a descer da cruz é
fundamental ao exercício do poder espiritual. A cruz é o único lugar de
autoridade. Nenhuma alma caminha na direção de Deus
sem oposição satânica. Todas as forças do inferno são mobilizadas
para impedir qualquer movimento na dire-ção de Deus. Somente a alma
despertada e profundamente convicta pode vencer esta oposição e assim
mesmo só com a ajuda do Espírito. Se o seu problema tem sido a exagerada
proteção de seus direitos, lembrete de que o único direito que a alma
verdadeiramente crucificada tem é de abrir mão de seus direitos.
Capítulo Cinco

Morte Progressiva

Fizemos referência à observação de George D. Watson concernente


a uma morte mais profunda do ego. Isto parece uma impropriedade de
linguagem. Se uma pessoa está morta, pode ela tornar-se mais morta
ainda? Isto não se aplica ao reino animal ou vegetal. Mas na vida
espiritual, o morrer para a vida da natureza e do eu parece ser progressivo.
O crescimento na vida do Espírito é obtido a expensas da carne ou da vida
do ego.

Uma crise e um processo

Entra-se na vida do Espírito por uma crise, uma crise de morte e


ressurreição que continua como um processo no qual há uma experiência
cada vez mais profunda de união com a morte de Cristo. Ouvimos falar
muito pouco acerca de uma crise de morte para o eu e para o mundo como
um requisito indispensável para se entrar na vida do Espírito. Ouvimos
falar muito sobre como é simples ser salvo ou cheio do Espírito. Há nestas
afirmativas um elemento de verdade, mas não é tudo. É fácil quando temos
enfrentado a realidade de nossa cruz e houve o consentimento da vontade
para morrer. Cada morte mais profunda resulta numa ressurreição mais
gloriosa. Tanto quanto sei, Jesus nunca ocultou o custo do discipulado. Em
realidade, ele exortou as pessoas a contarem o custo. Lembre-se de que ele
insistiu neste ponto em Lucas 14:25-35.

A primeira palavra do Evangelho

Recentemente, no programa de televisão "Louvai ao Senhor", da


Rede Trinity de Televisão, o Dr. J. Edwin Orr destacou que a primeira
palavra do evangelho é arrependimento. Ele fez uma pesquisa entre
diversos grupos aos quais falou, perguntando-lhes o que eles consideravam
ser a primeira palavra do evangelho. Todos deviam saber a resposta, mas não
foram muitos os que sabiam. É fácil aceitar a Cristo e ser salvo após o
verdadeiro arrependimento. Mas ninguém pode ser salvo sem este. Quanto a
isto, Jesus é a autoridade. "Se, porém, não vos arrependerdes, todos
igualmente perecereis" (Lucas 13:3). Foi Jesus quem disse que há alegria
entre os anjos quando um pecador se arrepende. Arrependimento foi a
primeira palavra do evangelho proferida por João Batista. Aos escribas e
fariseus ele disse: "Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira
vindoura?" Arrependimento foi a primeira palavra dos apóstolos no dia de
Pentecoste. Durante o sermão de Pedro, quando a multidão perguntou: "Que
faremos, irmãos?" a primeira resposta dele foi: "Arrependei-vos" (Atos 2:38).

Arrependimento e restituição

Que é que a Bíblia quer dizer por "arrependimento"? Talvez a


definição mais bem conhecida seja "voltar". Parece muito fácil, mas não é
tanto assim, pois o arrependimento implica, antes de tudo, uma convicção
de pecado. Em Atos 2:37, enquanto Pedro pregava a Palavra, diz que
"compungiu-se-lhes o coração". A verdadeira convicção de pecado traz um
senso de condenação. O pecador convicto sente que está sob o juízo de
Deus e em perigo de condenação eterna. A verdadeira convicção de pecado
é seguida de tristeza pelo pecado, confissão de pecado, abandono do pecado,
e restituição pelo pecado. Restituição significa endireitar, até onde possível, o
mal que alguém causou a outros. Se a pessoa não estiver disposta a tanto,
sua atitude nega a sinceridade e autenticidade de seu arrependimento. É
duvidoso que a fé salvadora possa ser exercida sem o verdadeiro
arrependimento. Quando este é pleno e completo, a fé para o perdão e
salvação vem facilmente, quase de forma automática.
Nem todos crêem no que vou dizer, mas acredito que há também
uma preparação para receber-se a vida do Espírito. As vezes dá-se a ela o
nome de consagração ou dedicação. Outrora era chamada "morte", morte
para toda a vida da natureza e do ego.

Doente bastante para morrer

A fim de entrarmos na vida do Espírito, é preciso estarmos bastante


desgostosos com esta velha vida do ego ao ponto de morte. Há um antigo
hino de consagração sobre cujas asas muitos que buscam, outrora, foram
transportados à plenitude da bênção. A Igreja quase se esqueceu dele e o
perdeu:
O Deus, meu coração anseia por ti;
Deixa-me morrer, deixa-me morrer; Agora põe minha alma
em liberdade;
Deixa-me morrer. Para todas as coisas insignificantes da
vida, Que agora me são de pouco valor, Meu Salvador chama, eu
vou;
Deixa-me morrer.
Senhor devo morrer para os escárnios e zombarias;
Deixa-me morrer, deixa-me morrer; Devo ser libertado dos
temores servis;
Deixa-me morrer. Para o mundo e seus aplausos, Para todos
os seus hábitos, modas, leis, Daqueles que odeiam a cruz
humilhante, Deixa-me morrer. Quando eu estiver morto, então,
Senhor, para ti
Viverei, viverei. Minha vida, minha força, tudo o que é meu a
ti
Darei, darei. Tão morto que nenhum desejo surgirá De passar
por bom, ou grande, ou sábio, Aos olhos de ninguém senão aos de
meu Salvador;
Deixa-me morrer, deixa-me morrer.

A cruz, ao mesmo tempo substitutiva e representativa

É verdade que Cristo já fez tudo por nós. É verdade que ele "pagou
tudo", mas a cruz não é somente substitutiva—ela é também
representativa. Entra-se na vida em Cristo por um caminho de morte que
não é fácil. "Ignorais que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus,
fomos batizados na sua morte?" (Romanos 6:3). Também se entra na vida
do Espírito, às vezes chamada santificação, pelo caminho da morte.
"Sabendo isto, que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que
o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos ao pecado como
escravos; porquanto quem morreu, justificado está do pecado" (Romanos
6:6, 7). Isto é, justificado para viver uma vida de santidade conforme
sugerido no versículo 18: "Uma vez libertados do pecado, fostes feitos
servos da justiça."
Capítulo Seis

O Pecado, Tanto um
Ato Como uma
Disposição

Em sua maioria, os teólogos consideram o pecado tanto um ato


como uma disposição. Como ato, ele pode ser e é perdoado na justificação
e no novo nascimento. Uma vez que nascemos com a disposição para
pecar (Salmo 51:5) e não somos responsávgig, por ela, ela não pode ser
perdoada mas deve ser purificada. Muitos teólogos ensinam que esta
purificação começa no momento em que somos cheios do Espírito Santo,
ao que às vezes se dá o nome de santificação ou batismo com o Espírito
Santo. Mas a santificação, que começa com uma experiência de crise, é
também progressiva. É aqui que entra a morte mais profunda do ego. Em
Efésios 5:18 Paulo exorta-nos a não somente encher-nos do Espírito mas a
continuarmos cheios. Alexander Maclaren diz que ao longo de todo o
caminho da santidade crescente ou da semelhança com Cristo teremos de
erigir altares sobre os quais deve morrer a vida da natureza e do ego. Ele
insiste em que o caminho que conduz a belezas espirituais mais excelentes
estará manchado com pegadas tintas de sangue do amor--próprio ferido.
O caminho da vida

Nada disto parece demasiado fácil. A morte não é assunto


agradável, porém ela sempre precede a ressurreição. No terreno espiritual,
assim como no natural (João 12:24), a morte é o caminho da vida.
É importante encarecer a morte como requisito indispensável para
que nos enchamos do Espírito? A morte é assunto que causa aversão. Ao
concentrar-nos nela, podemos ser acusados de mórbidos. Não há, porém,
condições implícitas para o recebimento do Espírito? Não há preparação a
fazer? Embora o Espírito seja recebido pela fé, como o é a salvação, não há
condições para o exercício da fé?
No livro de Atos parece que o Espírito era frequentemente recebido
mediante a imposição de mãos após instrução e oração (Atos 8:15-17;
19:6), e às vezes após a instrução somente, como em 10:44. À luz destas
passagens, há porventura qualquer outra preparação importante, tal como
consagração total, constituindo-se uma morte para o mundo, uma renúncia
aos nossos próprios desejos, planos e ambições, e uma inteira dedicação de
todo o ser ao Senhor Jesus Cristo e ao seu serviço somente, para o tempo e
eternidade?

Uma batalha real

Embora haja pouca ou nenhuma referência bíblica pormenorizada


com respeito a um período de preparação para o recebimento do Espírito,
este nunca foi dado exceto onde se fez adequada preparação espiritual que
contentou plenamente o coração de Deus. O fato de o Espírito ter vindo é
evidência disto. Não sabemos quão longo ou curto foi o processo, nem suas
várias fases, pelo qual os primitivos discípulos atingiram a condição de total
renúncia e dedicação. A Bíblia silencia neste ponto. Será que alguém duvida
de que foram satisfeitas as condições indispensáveis e satisfatórias ao Espírito
antes de sua descida e recebimento? É possível que o Espírito venha sobre
alguém e o encha sem levar em conta sua situação moral ou espiritual?
Encherá o Espírito um vaso que não esteja vazio?
Se as respostas a estas perguntas forem negativas, então surge a
questão lógica do que constitui condições indispensáveis à fé que traz o
derramamento e recebimento do Espírito.
Entende-se que os únicos candidatos ao batismo ou recebimento do
Espírito são os que nasceram de novo e andam em toda a luz que
receberam (João 14:16-17). Jesus disse que o mundo, isto é, os não
regenerados, não podem receber o Espírito. Que preparação espiritual é
necessária ao crente que está buscando encher-se do Espírito? No
movimento pentecostal, muitos parecem receber o Espírito mediante
oração e imposição de mãos. Mas outros têm testificado de que receberam
tal experiência somente após um longo período de busca, na qual houve
grande anseio, coração faminto e consagração total, abrangente e
inequívoca. No assim chamado movimento de santidade, deu-se grande
ênfase a este tipo de consagração. Oswald Chambers diz que na
santificação, "a alma regenerada deliberadamente desiste de seus próprios
direitos em favor de Jesus Cristo". Diz mais: "Ninguém entra na
experiência de inteira santificação sem passar por um funeral o
sepultamento da velha vida. Se nunca houve essa crise de morte, a
santificação não passa de uma ilusão." Pergunta ele: "Realmente você já
chegou aos seus últimos dias? . . .A morte significa que você parou de
existir." Aqui, Chambers está pensando no ego decaído, na vida do eu ou
da alma, às vezes chamada carne. De quando em quando ouvimos ensinar
que é muito fácil encher-se do Espírito. Diz-se que tudo o que temos de
fazer é crer e receber. Chambers insiste: "Sempre há uma batalha real antes
da santificação, sempre algo que luta com ressentimento contra as
exigências de Jesus Cristo." Jesus disse: 'Se alguém quer vir após mim, a si
mesmo se negue", isto é, negue o direito de si mesmo. A pessoa não está
verdadeiramente consagrada enquanto não se dispuser a abrir mão de sua
independência e negar seu direito a ela.

Mesmo o melhor deve morrer

Na regeneração morremos para o pecado como ato, isto é,


arrependemo-nos e desistimos de todos os atos intencionais e
premeditados de pecado. Se não o fizemos, nossa regeneração é posta em
dúvida. Na santificação ou recebimento do Espírito morremos para nossa
própria vida natural decaída. Não é uma questão de abandonar o pecado
rebelde mas de desistir de nosso direito a nós próprios, mesmo o melhor do
nosso ser? "Para a maioria de nós, isto não é fácil. O velho homem da vida
natural geralmente é duro de morrer.
Há um ato inicial de morte no qual a pessoa dá seu consentimento
para que toda a vida da natureza e do eu seja pregada na cruz. É um ato
todo-inclusivo que abrange o futuro no tempo assim como na eternidade.
E, por estranho que pareça, este ato é progressivo. Conforme diz o Dr.
Watson, há uma morte mais profunda do ego. Há, pelo menos, áreas cada
vez maiores do ser que devem passar pela morte da cruz. E, à medida que
vem à tona cada nova área da vida do ego, nossa tentação é recusar o
desafio do Espírito para que ela morra; é a tentação para que desçamos da
cruz.
Capítulo Sete

Verdadeira
Santidade —
Equilíbrio Entre
Experiência e Ética

Portanto, por mais bendita e gloriosa, real e definida que seja a


crise de santificação, Deus não terminou conosco quando tivermos passado
esse ponto. A santificação é mais do que uma bênção: ela é uma Pessoa,
uma Pessoa que desloca nosso próprio ego. Não desejamos minimizar o
aspecto da experiência de santificação. Questionamos a autenticidade de
qual quer experiência de santificação que não resulte numa poderosa
mudança das emoções, chamada de testemunhe do Espírito. Mas o
conteúdo ético, e não o emocional, de toda experiência religiosa é básico.
A verdadeira evidência de um estado santificado de graça não é êxtase ou
demonstração emocional, mas á descentralização do ego. A obstinação é
traço fundamental de todo pecado. Viver para o eu é a essência de toda
"profanidade". Lúcifer tornou-se Satanás ao exercer sua obstinação. A
essência da santidade é a "descentralização do ego", ou deslocamento do
ego por Cristo. A pessoa pode crescer em sua capacidade de demonstrar
certo tipo de emocionalismo religioso sem crescer em graça. Ela só estará
crescendo em graça quando cresce em mansidão submissão, rendição,
quebrantamento e abnegação.
Santidade e autopromoção

A autopromoção é incoerente com a verdadeira santidade. Crescer


em santidade significa crescer em sensibilidade para com o pecado, crescer
em ternura de consciência, crescer em repúdio da autopromoção e autoglo-
rificação.
Quando um de nossos filhos era pequeno, às vezes ele saía para
uma visita de dois ou três dias; enquanto estava fora, segundo o padrão de
algumas pessoas, crescia maravilhosamente em graça. Ele estava muito
contente consigo mesmo, e se fosse convocado para dar testemunho, com
toda a probabilidade diria que estava crescendo em graça. Ele voltava para
casa nesse estado de felicidade, que não durava muito tempo. Quando a
disciplina do lar, ausente durante o período de visita, lhe era de novo
imposta, imediatamente ele se desviava e às vezes havia um tempo quente!
Ou será que ele se desviava? Acho que não. Devido à sua recusa em
aceitar docilmente a disciplina ao voltar para casa, sua franca rebeldia
contra a autoridade do lar provava que, absolutamente, ele não estivera
crescendo em graça. Em realidade, ele estivera crescendo no ego. Ele fora
mimado. E quando perguntávamos a nossos amigos: "Ele procedia assim
com vocês?" respondiam: "Nã-ã-ã-o, ele foi simplesmente ótimo conosco."
Penso que a maioria dos leitores pode captar a moral. Ele apenas
aparentava estar crescendo em graça porque sua vontade não havia sido
contrariada. Toda a sua cantoria e gritos e demonstração de profunda
espiritualidade nada significava, exceto que ele estava fazendo as coisas
como bem entendia. E repito: a pessoa não está crescendo em graça, não
importa quanto aparente estar, nem é profundamente espiritual, não
importa quanto alegue ser, a menos que esteja crescendo em mansidão,
submissão, rendição e obediência à disciplina das circunstâncias e do meio
ambiente em que Deus a colocou.
A verdadeira santidade é um equilíbrio entre a teoria e a
prática

Não se engane a este respeito: Não pode haver verdadeira


"descentralização do ego", e portanto não pode haver verdadeira
profundeza de santidade enquanto estivermos buscando criar nossas
próprias circunstâncias em vez de aceitá-las como vindas de Deus. A
recusa em aceitar as circunstâncias em que Deus nos colocou evidência da
atividade de nosso próprio ego. A verdadeira protundeza de santidade põe
fim a isto, pois ela coloca a Cristo no lugar de nosso eu. Se a nossa emoção
religiosa nos torna mais amáveis, mais bondosos, menos afirmativos de
nós mesmos, mais mansos e submissos, menos centrados em nós mesmos
e mais quebrantados, então ela é boa. Se ela não faz isso, provavelmente é,
em grande parte, um escape, algo pelo qual êvitamós enfrentar nosso
verdadeiro" eu e deixar qué~ã~cruz o corrija. Na verdadeira santidade há
um equilíbrio entre a expênencia e a ética

Santidade não é ortodoxia teológica

Outra coisa que está por trás do muito que a corrupção moral pode
ocultar é uma teologia exata, um tradicionalismo teológico, que algumas
pessoas colocam em lugar da verdadeira essência da santidade, a qual é
mansidão, submissão, quebrantamento, e abnegação. E possível sermos
corretos, segundo o ensino geralmente aceito de santidade, enquanto
toleramos na vida todos os sinais de uma obstinação intacta. Ninguém
pode experimentar uma verdadeira crise di santidade enquanto a obstina-
ção não for quebrada. E ninguém pode conservar a experiência da vida
cheia do Espírito se recusa submeter--se constantemente ã obra
quebrantadora da cruz. Não importa quão correta seja a doutrina, não
importa quão autêntica tenha sido a experiência inicial, a teimosia, a
rebeldia, a afirmação de si mesmo tudo isso obscurece e deslustra o fino
ouro da verdadeira santidade. Há somente um lugar de verdadeira
santidade e este é na cruz. Para que a pessoa passe pela crise da
santificação, é preciso que ela se sujeite a crucificar com Cristo seu velho
homem de pecado, e fazê-lo de modo real e prático. A fim de conservar a
bênção, é preciso que o indivíduo conserve sobre a cruz seu velho homem
de pecado. Toda vez que consentirmos que nossa velha vida da natureza e
do ego desça da cruz, a obra da santificação pára instantaneamente.
Alguém disse: "Ou estou eu, ou Cristo na cruz. Sempre que desço, ele
sobe.". Opiniões teológicas certas é coisa muito boa; mas em toda a
verdadeira santidade deve haver um equilíbrio entre a ortodoxia teológica
e a prática real.

A verdadeira santidade — um equilíbrio entre a crise e o


processo
Em toda a verdadeira santidade deve haver, também, um equilíbrio
entre a crise e o processo, ou a obra progressiva de santificação. Sem a
crise, não pode haver processo de santidade. A menos que se ensine a crise
definitivamente, as pessoas não saberão como entrar nela. Mas quando a
crise ' se torna um substituto do processo, ou da obra progressiva do
Espírito Santo, abre-se a porta para um dilúvio de males e vícios que
derrotam todo o propósito da santidade. Qualquer ensino que resulte numa
experiência estática é uma maldição. Em muitos casos o ensino da
santificação tem sido de bênção indizível. Em outros, tem sido de valor
duvidoso, porque às vezes tem deixado de inspirar iniciativa e progresso
espiritual e tem induzido aquiescência a um estado de graça estático.

A descentralização do ego

Por muito tempo temos tolerado a ideia de que quando alguém


ultrapassa a crise de santificação, ele já alcançou a meta, e para esse, todo
ou a maior parte de estrénuo esforço é coisa passada. Um dos motivos por
que algumas pessoas fazem objeção à ênfase na fase progressiva da
santificação é que ela não lhes dá, absolutamente, nenhuma escusa mais
para acomodar-se a uma experiência estática do que dá ao mais recente
convertido. Muitas pessoas que se vangloriam de haver entrado na Igreja
sob a "antiga constituição" ressentem--se de ter de pegar suas pás e
picaretas espirituais e sair cavando lado a lado com os novos convertidos.
Pensavam que quando estivessem santificados ou cheios do Espírito,
teriam acabado com isso. Havendo descoberto que afinal de contas não
chegaram a esse ponto; que na verdadeira santidade não há lugar para
detença; que Deus apresenta-lhes novas revelações da vida do ego, e que
devem submeter-se ã obra da cruz, às vezes se rebelam e se opõem
abertamente. Mas qualquer ensino que deixa a pessoa contente numa
condição estática não é, no meu entender, santidade bíblica.
O âmago da verdadeira santidade é a descentralização crescente do
ego. Esse ideal está definitiva e claramente exposto neste texto: "Para mim
o viver é Cristo" (Filipenses 1:21).

A alma verdadeiramente santa não tem interesses


pessoais a servir

A alma verdadeiramente liberta do ego não tem nenhum interesse


próprio ao qual servir. Não tem direitos nem prerrogativas a defender. Tal
alma está completamente livre da exagerada sensibilidade e prontamente
rende à cruz sua natureza sensível. Tudo está bem, inclusive prisão e
morte, se isso glorifica a Cristo. Pouco nos adianta falar sobre estarmos
prontos a morrer por Cristo enquanto recusamos submeter-nos à cruz
quando ela mata a vida do nosso eu nas intérminas variedades do viver
diário. A alma verdadeiramente descentralizada aceita tudo quanto lhe vem
de tristeza ou má interpretação, como oportunidade de morrer mais
profundamente para o ego central que contestaria a autoridade exclusiva de
Cristo sobre ela. A única pergunta que a alma verdadeiramente
descentralizada faz não é "Como isto vai afetar meus interesses?" mas
"Como vai afetar a glória de Cristo?" Meus sentimentos, minhas
prerrogativas, meu conforto, meu gosto, nada disso é levado em
consideração. O importante é que Cristo seja engrandecido, "seja pela vida,
seja pela morte". ""
Capítulo Oito

Glorificação do
Martírio

Esta descentralização do ego atinge seu clímax ao aceitarmos a


morte ou martírio físico como oportunidade de glorificar a Deus. Embora
Paulo sem dúvida se referisse à vantagem de estar com o Senhor, quando
falou do lucro da morte, não obstante o contexto antecedente revela que
não era apenas o ganho que ele tinha em mente, pois todo o tom das
Escrituras sustenta a verdade de que a morte pode, às vezes, servir aos
propósitos de Deus melhor até do que a vida. Não estarei plenamente
preparado para servir a Deus enquanto não estiver pronto não só a abrir
mão de minha vida do ego, como também de minha vida física. Muitos de
nós pensamos que devemos viver para servir aos propósitos divinos. A
morte no serviço da pátria ou da humanidade é sempre exaltada e
glorificada. A morte heróica dos "Seiscentos" foi imortalizada no poema
de Tennyson, conhecido como "A Carga da Brigada Ligeira". Qual o
coração jovem que não se emociona com a história de Horácio junto ao
Tibre e com a glorificação da morte do romano por seu país! Há o imortal
patriota suíço, Arnold Von Vinklried, que recebeu em seu próprio peito as
lanças das hostes inimigas, fazendo no que era uma compacta falange uma
brecha pela qual seus compatriotas avançaram abrindo caminho para a
liberdade de sua pátria. Em tempos mais modernos, temos a glorificação
da morte em poemas tais como "Nos Campos de Flandres", da Primeira
Guerra Mundial, e, na Segunda Guerra Mundial, o imortal hasteamento da
bandeira em Iwo Jima. Esses são apenas alguns dos casos em que os
homens glorificaram a morte na causa do patriotismo e da humanidade.

Somos sacrificáveis

As palavras acima são o título de um livro escrito por um


correspondente de guerra. Descreve o espantoso heroísmo e auto-sacrifício
de tropas treinadas como pontas-de-lança de operações militares na última
Guerra Mundial. Graficamente, conta a história de incursões de comandos,
de invasões de pára-quedistas, e de ataques avançados em que se aceitava
sem hesitação, com toda a calma, deliberação e resolução um risco
calculado de morte. Antes de nossos pracinhas tentarem um objetivo,
muitas vezes sabiam que nunca mais voltariam, mas iam assim mesmo,
porque eram sacrificáveis.
Pense na qualidade de coragem e devoção a uma causa que impeliu
um dotado e brilhante poeta, jovem soldado da Primeira Guerra Mundial, a
escrever estas linhas:
Tenho um encontro com a Morte Em alguma trincheira
disputada Quando a primavera voltar com sombra sussurrante
E as flores das macieiras encherem o ar. Tenho um encontro
com a Morte Quando a primavera trouxer de volta os dias azuis e
claros.
Pode ser que ela tenha de tomar-me pela mão,
E conduzir-me ã sua terra sombria,
E me fechar os olhos e extinguir-me o fôlego. . .
Pode ser até que eu a ultrapasse.
Tenho um encontro com a Morte
Nalgum declive escarpado ou colina trilhada,
Quando a primavera voltar este ano
E aparecerem as primeiras flores na campina.
Deus sabe que era melhor ter a cabeça enterrada
Em travesseiro de seda e perfumado
Onde o amor palpita em venturoso sono,
Pulso junto a pulso, e fôlego junto a fôlego,
Onde são gostosos os despertares em silêncio. . .
Mas tenho um encontro com a Morte
À meia-noite, em alguma cidade em chamas,
Quando a primavera voltar este ano.
E sou fiel à minha palavra empenhada,
E não faltarei a esse encontro.

Alan Seeger, o autor, foi um jovem poeta norte--americano que se


distinguiu em Harvard. Em Paris, ao irromper a Primeira Guerra Mundial,
bem antes de os Estados Unidos entrarem na guerra, ele juntou-se à legião
estrangeira francesa. Este poema, tão cheio de pungente compaixão, revela
as emoções conflitantes de um jovem que amava a vida, que tinha um
sabor pela emoção da primavera, que possuía uma aguda apreciação da
beleza de um pomar e de uma campina no desabrochar da primavera. Ele
era um jovem de sensibilidades refinadas e cultivadas que conhecera o
conforto e o luxo e havia sentido a emoção do romance e do amor.
O poema expressa a premonição que Alan Seeger tinha antes de
"subir ao topo", mas de qualquer maneira ele foi, porque era sacrificável.
Ele morreu em combate e seu corpo foi mais tarde recolhido no campo de
batalha.
Que foi que levou este brilhante jovem a oferecer-se dessa
maneira? Foi o que chamamos de patriotismo. Foi o mesmo espírito que
atuou nos bravos Seiscentos imortalizados na "Carga da Brigada Ligeira",
de Tenny-son. Embora soubessem que a ordem de atacar era um erro
grave, e que a morte era certa, não obstante,
Não lhes cabia replicar,
Não lhes cabia indagar por quê; Só lhes cabia ir e morrer, porque
eram sacrificáveis.

Os patriotas são sacrificáveis; muitos cristãos não o são

Durante a última guerra, o Rev. E. A. Burroughs referiu-se ao


"patriotismo" como uma religião que pratica o que o Cristianismo fala,
uma religião que é "mais cristã do que o próprio Cristianismo", segundo
entendimento do século vinte. Como pôde um homem fazer tal afirmativa?
Qual seria a base desta? Simplesmente isto: que o princípio central do
Cristianismo é o auto-sacrifício, a sacrificialidade. O mundo vê na auto--
imolação, no auto-esquecimento, na submissão até mesmo à morte por
parte de soldados e patriotas, um exemplo mais perfeito do princípio
central do Cristianismo do que percebe, com poucas exceções, nos que
professam seguir a Cristo. Em outras palavras, os patriotas têm mostrado
mais disposição de morrer pelo amor da pátria do que muitos de nós
mostraríamos para morrer por Cristo. Os patriotas são sacrificáveis;
poucos cristãos o são. Não obstante, a partir da cruz, morrer para o amor
das comodidades, para o amor da família, para o amor da própria vida é o
princípio central do Cristianismo. Uma vez que o mundo vê este princípio
operando mais poderosamente nos patriotas do que em muitos cristãos
professos, o mundo considera o patriotismo como "mais cristão do que o
Cristianismo". Os patriotas demonstram de modo mais heróico o princípio
cristão de "morrer para o eu" do que muitos de nós o demonstramos.
Temos cedido aos patriotas o princípio central do Cristianismo. E por isso
que a nação deifica seus heróis de guerra, porque instintivamente os
homens reconhecem a qualidade divina do auto-sacrifício, de "mesmo em
face da morte, não amaram a própria vida", por seus valores menores e fins
inferiores, alegremente abraçam o princípio da cruz, enquanto a Igreja em
geral procura evitá-lo.
Permita-me lembrar-lhe as palavras do Marechal Foch: "As
batalhas são ganhas ensinando-se aos soldados como morrer, e não como
evitar a morte." E não é de outro modo que se ganham as batalhas da cruz.
A não ser que, hoje, possamos produzir um tipo de disciplina comparável,
pelo menos, ao dos patriotas e dos comunistas, somos dignos de
sobreviver?
Preparando-se para cruzar os Alpes, Napoleão dirigiu--se aos seus
soldados: "Ganhastes batalhas sem canhão, passastes rios sem pontes,
realizastes marchas forçadas sem sapatos, acampastes sem bebidas fortes e
muitas vezes sem pão. Obrigado por vossa perseverança! Mas, soldados,
nada fizestes—pois ainda resta muito que fazer!" Assim falou Napoleão
aos seus homens, e eles se apegaram ao seu líder. Mas um maior do que
Napoleão apela hoje.
Garibaldi, libertador da Itália, disse: "Vou sair de Roma. Não
ofereço paga, nem quartéis, nem provisões; ofereço fome, sede, marchas
forçadas, batalhas, morte. Quem amar a seu país de coração e não de lábios
apenas, siga-me." Mas um maior do que Garibaldi fala hoje.

Perdida a nota de heroísmo do Cristianismo

Que aconteceu com a nota de heroísmo do Cristianismo moderno?


Enquanto o mundo glorifica a morte por propósitos patrióticos e
humanitários; enquanto o mundo imortaliza como heróis a muitos que
voluntariamente se ofereceram para morrer, a Igreja põe-se a criticar os
que demonstram semelhante devoção a Cristo, e cinicamente diz: "Para
que este desperdício?" O apóstolo Paulo disse de modo claríssimo que
"morrer é lucro". Foi lucro a morte de Estêvão? Como ressaltou alguém,
Estêvão morreu, e mediante sua morte, Cristo ganhou seu grande
Apóstolo. Estêvão nunca poderia ter feito o que o apóstolo Paulo fez. Uma
centena ou até mesmo um milhar de Estêvãos provavelmente não teriam
realizado o que Deus realizou por intermédio de Paulo. Mas Estevão pôde
morrer e dar a Deus a oportunidade de obter seu grande Apóstolo. Todo
estudante de história bíblica sabe que somente um dos apóstolos morreu de
morte natural—que "o sangue dos mártires é a semente da igreja".

Foi a morte de Cristo um desperdício?

O grande exemplo de lucro da morte é a morte de nosso Senhor


Jesus Cristo. Todos os argumentos para a auto-preservação poderiam ter
sido propostos em favor de Cristo evitar a morte. Para seus discípulos e
seus amigos, sem dúvida pareceu um desperdício inútil de vida preciosa
quando Jesus morreu tão jovem e em tal vergonha. Sem dúvida, enquanto
Jesus jazia no túmulo, seus amigos falaram entre si da grande perda que
sua morte representava para o mundo. Talvez tenham pensado que ele
havia sido imprudente e temerário— praticamente jogando fora sua vida.
Talvez Pedro tivesse falado sobre como tentara impedi-lo de ir a Jerusalém
para encontrar a morte. Talvez parecesse a todos eles que sua morte fora
uma lamentável perda para o mundo. De acordo com a analogia natural,
tivesse Jesus salvado sua vida da cruz, ele poderia ter vivido para chegar a
uma idade provecta, fazendo todos os seus anos tão belos como os três ou
quatro anos de seu ministério. Mas não teria havido nenhuma cruz erguida
para atrair os homens por seu maravilhoso poder de amor. Não teria
havido nenhuma fonte aberta à qual os milhões de penitentes da terra
poderiam vir com suas vidas poluídas para encontrar purificação. Não teria
havido expiação para a culpa humana; não teria havido sabor da morte
para cada homem; não teria havido sacrifício algum para o pecado do
mundo. Não teria havido túmulo aberto com sua vitória sobre a morte, e
vida eterna para todos os que crêem. Cristo perdeu a vida, porém ela veio a
ser a semente da esperança e alegria do mundo. Em verdade, no caso de
Cristo, a morte foi lucro.

A lei da vida

O Calvário é o sublime modelo-mestre de Deus para todos nós. Ele


traz consigo a lei da vida para todos nós. "Morrer é lucro." "Quem ama a
sua vida, perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo, preservá-
la-á para a vida eterna" (João 12:25).

Morte em vida ou vida através da morte

O mundo tem glorificado a morte sacrificial. Ousamos nós fazer


menos? Nos anais da história humana, na poesia e nas artes, o que morre
pelo lar e pelo país cobre--se de glória. Na Segunda Guerra Mundial, na
Alemanha, morrer por Hitler era cobrir-se de glória. No Japão, morrer pelo
Imperador era cobrir-se de glória. Hoje na Rússia, morrer pela pátria é
cobrir-se de glória. E Cristo menos digno no que Hitler? E Cristo menos digno
do que o imperador japonês? É Cristo menos digno do que a Rússia, ou do
que a bela América do Norte? E o reino de Deus menos digno do que os
tronos e reinos humanos?
Norman Grubb conta que nos primeiros séculos da Igreja, quando os
cristãos enfrentavam a constante ameaça de martírio, fazia-se aos anciãos da
Igreja esta pergunta antes de serem impostas sobre eles as mãos de
consagração: "Podeis vós beber o cálice que eu bebo, ou receber o batismo
com que eu sou batizado?" Ao que eles respondiam: "Tomo sobre mim os
açoites, as prisões, as torturas, as censuras, as cruzes, os golpes, a tribulação,
e todas as tentações do mundo que nosso Senhor, e Intercessor, e a Igreja
Universal, Apostólica e Santa tomaram sobre si."
Quem quer que escolha o mesmo destino que Cristo escolheu, deve
tomar a mesma estrada que ele tomou. É uma lei universal e eterna. Ou é
vida através da morte ou morte em vida. A busca de si mesmo é
autodestruição. Esta tem sido para sempre estabelecida como a lei do
universo, em Filipenses 2:6-11: "Pois ele, subsistindo em forma de Deus
não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se
esvaziou, assumindo a fornia de servo, tornando-se em semelhança de
homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou,
tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz. Pelo que também Deus
o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome,
para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e
debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para
glória de Deus Pai." Aleluia! Verdadeiramente, a cruz é o trono do
universo.
SEGUNDA PARTE

"COMO SE...
MORRENDO... EIS
QUE VIVEMOS"
UMA MENSAGEM DE ANO NOVO

Capítulo Nove

Olhando Para a
Necessidade

Não que eu o tenha já recebido. . (Filipenses 3:12). Um dos


maiores inimigos do progresso é a auto-complacência, o contentamento
com os alvos já alcançados, com realizações já obtidas. Um dos fatos que
eu creio entristecem o coração de Deus, quase mais do que qualquer outra
coisa, é a tranqüilidade com que nos contentamos nas coisas espirituais.
Um dos maiores obstáculos ao avanço do Reino de Deus é a tendência
para aceitar nossas realizações espirituais presentes como o máximo e
cessar a busca de novas explorações nesse terreno. Não é bom que
estejamos sempre a remendar--nos. Não é bom ser uma pessoa
introvertida, sempre olhando para dentro de si mesma. Mas é pior estar tão
contentes com nós mesmos ao ponto de nunca fazermos um inventário, ou
temermos olhar para dentro.

A necessidade de propósito firme

Progresso e crescimento cessam quando perdemos o espírito de


aventura. A vida cristã ideal é de sede insaciável, jamais parando em
qualquer porto de contentamento espiritual, mas sempre cortejada por
visões de novas alturas de realização espiritual. Uma das coisas que devem
entristecer o coração de Deus é a pequenez dos obstáculos que permitimos
impedir-nos ou desviar-nos do caminho de alta resolução. Entramos em
um novo ano, ou em novo curso de esforço espiritual, cheios de energia e
entusiasmo. Mas com pouca coisa nos esmorecemos e às vezes até
desistimos de nossa aventura. Tão-logo descobrimos que o atingir novas
alturas espirituais demanda energia, firme resolução, vitória sobre
obstáculos, negação da carne, perda de tranqüilidade e conforto, com
demasiada freqüência estamos prontos a abandonar a tarefa. No túmulo de
um guia alpino encontra-se esta inscrição: "Ele morreu subindo." Estou
bem cônscio de minha falta das graças mais dóceis do Espírito e oro para
que Deus me ajude a ser menos severo na defesa de minhas convicções,
em minha luta por realização espiritual, e em meus esforços por desafiar a
outros. Mas oro ainda mais para que, ao depor minha armadura, realmente
se possa dizer de mim: "Ele morreu subindo."
O preço do progresso espiritual

Quão poucos de nós estamos dispostos a pagar o preço do


progresso espiritual. "Não pode haver progresso espiritual exceto pela
morte do ego. Cada passo dado no caminho do progresso espiritual estará
manchado com pegadas tintas de sangue do amor-próprio ferido"
(Maclaren). Ao longo de todo o curso do progresso espiritual teremos de
erigir altares sobre os quais mesmo a vida legítima do ego terá de ser
sacrificada. E não somos muitos os que nos dispomos a seguir este
caminho. Sempre que alguma coisa ameaça trazer dor ou desconforto à
vida do ego, muitos de nós recuamos e buscamos um caminho mais fácil.
Evitaremos qualquer coisa que traga aborrecimento, que não agrade ã
carne. Uma manifestação desta tendência, que vemos ao nosso redor, é a
multidão de crentes que correm de uma igreja para outra, de uma
congregação para outra, não porque estejam buscando mais a Deus, mas
porque buscam evitar a morte da vida do ego. Tais pessoas podem,
deveras, passar grande parte da vida tentando encontrar um lugar para
prestar culto em que seu ego espiritual seja exaltado e inflado, onde se
achem culturamente mais contentes e encontrem mais prazer emocional;
mas assim o fazem a expensas de possível progresso espiritual. Muitas
vezes confundem o emocionalismo raso com a espiritualidade profunda e
enganam a si mesmas pensando que a alegria na adoração é o propósito
fundamental desta. O progresso espiritual é resultado, não de nutrir-se a
vida natural do ego, ou mesmo a vida do ego religioso, mas de submetê-lo
à cruz.
Desafio do apóstolo

Quão revigorante é ouvir o grande Apóstolo confessar sua falta,


reconhecer sua necessidade, e admitir sua deficiência. "Não que eu o tenha
já recebido, ou tenha já obtido a perfeição", isto é, perfeição referente à
ressurreição. Se ele tivesse parado aqui, não haveria desafio algum. Porém
ele não parou. "Mas uma coisa faço." E que coisa era essa ã qual todas as
energias de Paulo estavam sujeitas? Era o progresso espiritual.
"Esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que
diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o premio da soberana
vocação de Deus em Cristo Jesus." Aqui ele expõe o método de progresso.

Homens não quebrantados são de pouca utilidade

De acordo com o ensino de nosso Senhor, podemos obter o


máximo da vida perdendo-a. Ele diz que perder a vida por sua causa é
salvá-la. Há um eu inferior que deve ser calcado sob os pés. Mas há,
também, um eu superior que deve ser morto. O vaso de alabastro, bonito
como era, devia ser quebrado, para que o unguento pudesse fluir e sua
fragrância encher a casa. As uvas devem ser esmagadas antes que possam
ser transformadas em vinho. O trigo deve ser moído antes que possa
tornar-se em pão para alimentar os famintos.
Assim é na vida. "Homens sãos, não contundidos, não quebrados
são de pouco uso para Deus" (J. R. Miller). Enquanto não pararmos de
viver para o eu, não começaremos a viver de modo algum. Somente
quando a lei do auto-sacrifício passa a ser um princípio do coração é que
qualquer vida pode tomar-se para o mundo a bênção que ela devia ser. Em
um de seus livretes, J. R. Miller exemplifica este princípio assim:
Um grande carvalho ergue-se na floresta. É belo em sua majestade;
é ornamental; ele propicia uma sombra agradável. Sob seus ramos brincam
as crianças; entre seus galhos cantam os pássaros. Um dia o madeireiro
vem com o machado, e a árvore treme em todos os seus galhos sob os
vigorosos golpes. "Estou sendo destruído", clama ele. Assim parece, à
medida que a grande árvore se espatifa no chão. As crianças ficam tristes
porque já não podem brincar sob a ampla ramagem; os pássaros se
entristecem porque já não podem fazer ninhos e cantar no meio da
folhagem de verão.

Morremos para viver

Sigamos, porém, a história da árvore. Ela é cortada em tábuas, e


com estas se constrói um belo chalé, onde corações humanos encontram
feliz abrigo. Ou é usada na fabricação de um grande órgão que conduz a
música do culto de uma igreja. A perda da vida da árvore foi a sua
salvação. Ela morre para que possa tomar-se profunda e verdadeiramente
útil.
Os pratos, as xícaras, a louça e os vasos que usamos em nossos
lares e em nossas mesas outrora jaziam como barro comum na terra,
tranqüilo e descansado, mas de modo algum fazendo o bem, ao serviço do
homem. Então chegou o homem com picaretas, e o barro foi rudemente
arrancado e atirado a uma misturadora, amassado e moído num moinho,
depois de prensado e posto na fornalha, cozido, recozido, afinal
aparecendo em beleza e começando sua história de utilidade. Foi
aparentemente sendo destruído que ele pôde começar a ser útil.

Não há vida exceto pela morte

Está-se construindo um grande templo; as pedras que estão sendo


colocadas nas paredes são trazidas da pedreira escura para este propósito.
Podemos imaginá-las queixando-se, resmungando descontentes, à medida
que as brocas e marretas dos operários as golpeiam. Supunham estar sendo
destruídas quando foram arrancadas do leito da rocha onde jaziam
imperturbadas durante séculos; foram cortadas em blocos, levantadas e
depois de cinzeladas receberam forma. Porém estavam sendo destruídas
apenas para que pudessem tornar-se úteis. Tomaram-se parte de um novo
santuário em que Deus deve ser adorado, onde o evangelho será pregado,
onde os pecadores penitentes encontrarão o Cristo Salvador, onde os
entristecidos serão consolados. Certamente foi melhor que essas pedras
fossem arrancadas, mesmo em meio ã agonia, e colocadas na parede da
igreja, do que se continuassem séculos mais, imperturbadas na sombria
pedreira. Foram salvas da inutilidade ao serem destruídas.
Há muitos exemplos do princípio de que devemos morrer a fim de
sermos úteis, de sermos verdadeira bênção. A semente deve morrer para
produzir fruto. A mãe deve penetrar as mandíbulas da morte a fim de dar à
luz.
Não há lucro senão pela perda;
Não podemos salvar-nos senão pela cruz.
Para o grão de trigo poder multiplicar-se,
Deve cair ao solo e morrer.
Onde quer que contemplemos campos maduros,
Acenando para Deus seus feixes dourados,
Podemos estar certos de que algum grão de trigo morreu,
Alguma alma foi crucificada,
Alguém lutou, chorou e orou,
E sem desfalecer combateu as legiões do inferno.
Por toda a parte a vida substitui a morte,
Na terra, no mar e no céu;
E para que a rosa possa respirar,
Alguma coisa viva deve morrer.
Mas através da vida toda vejo uma cruz,
Onde os filhos de Deus rendem o espírito;
Não há lucro senão pela perda,
Não há vida senão pela morte.
E não há visão plena exceto pela Fé,
Nem glória senão pela desgastante vergonha,
Nem justiça senão aceitando a culpa;
E a Paixão Eterna disse:
"Esvaziai-vos de glória, de direito e de nome."

O grão de trigo

Alguém disse que a vida de nosso filho Paul Rollir, foi


desperdiçada quando ele a deu às missões, e depois morreu no campo
missionário apenas umas poucas semanas após sua chegada. Muito embora
não lhe tenha sido permitido servir, muitos jovens se apresentaram a fim
de serem treinados para segar o campo onde ele esperava ceifar, e apanhar
a foice que ele depôs. O "grão de trigo" que caiu no México tem-se
multiplicado muitas vezes e a obra ainda prossegue. Em 1948 foi
inaugurada em sua memória uma nova escola para alcançar uma nova
tribo. Se Paul Rollir tivesse vivido em casa muitos ano;, é duvidoso que
tivesse feito o trabalho que realizou numas breves semanas que
terminaram na sua morte. E ele é apenas um dos muitos exemplos que
ilustram a verdade que "se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fiai
ele só".

O vaso de alabastro quebrado

Foi "desperdiçado" o bálsamo que Maria derramou sobre o Senhor


depois de haver quebrado o vaso de alabastro? O homem natural diria
"sim", juntamente com os discípulos. Sim; mas suponhamos que ela o
deixasse no vaso intacto. Teria havido qualquer menção a respeito? Seu
ato de cuidadosa preservação teria sido contado em todo o mundo? Ela
quebrou o vaso e despejou o bálsamo; perdeu-o; sacrificou-o, e agora o
incenso do perfume é levado a todos os lares onde esta mensagem é
ouvida. Podemos preservar nossa vida se o quisermos, preservá-la
cuidadosamente de desperdício, mas não teremos galardão. Se, porém, a
esvaziarmos em serviço amorável, faremos dela uma bênção duradoura
para o mundo, e seremos lembrados para sempre. O altar de sacrifício está
no primeiro plano de cada vida e não pode ser ignorado, exceto ao custo de
tudo quanto é mais nobre e melhor. Não podemos salvar-nos a nós
mesmos e salvar aos outros. Devemos consumir-nos a fim de que nossa luz
brilhe.
Capítulo Dez

A Sabedoria de
Esquecer

Outro passo no processo de desenvolvimento de Paulo foi a morte


para o passado. "Esquecendo-me das coisas que para trás ficam." Tem-se
dito que é preciso coragem e resolução piara continuar distanciando-se do
passado. Gostamos de preservar as coisas que aprendemos a amar, e não
desejamos separar-nos delas. Para algumas pessoas é difícil deixar para
trás suas tristezas, sair das sombras de seus pesares. É difícil afastar-nos
dos túmulos em que sepultamos os tesouros de nosso coração.

O propósito do pesar

O pesar, porém, não é a vontade de Deus para nós. Naturalmente,


se o pesar for submisso, não é errado. Sentimos sempre a falta de
companhias amáveis. Sem dúvida, a vida jamais pode ser a mesma para
quem anda triste. Mas as perdas e os pesares da vida tiveram por fito
deixar para trás uma riqueza de caráter e bênção que tornará a eternidade
mais rica. Cedo ou tarde, a tristeza chega a todos os lares. Nenhuma
condição de riqueza, de cultura ou mesmo de religião pode excluí-la.
Quando dois jovens se retiram do altar do matrimônio e estabelecem o
novo lar, parece-lhes que a alegria não poderá jamais ser perturbada; o
pesar jamais atingirá seus corações naquele cantinho encantado. Por alguns
anos, talvez, o sonho acariciado permaneça intacto. As flores desabrocham
em matizes mais suaves e nas mais ricas fragrâncias; a música continua
leve e alegre sem acordes menores. O círculo permanece intacto; as
crianças crescem em um ambiente de ternura, alegrando o lar com seu
amor e afeição; a vida da família continua fluindo suavemente como um
rio, enquanto adquire largura e profundidade. Em outros lares, de modo
geral, há tristezas, privações, ou coisa pior; e em meio a essas desolações,
este permanece incólume como um oásis no deserto. Contudo, não é para
sempre. Chega o dia em que o mensageiro da tristeza, vestido de preto,
posta-se à porta e colhe uma delicada flor. Talvez agora eu esteja falando a
um lar nessas condições, onde a aflição entrou em meses recentes pela
primeira vez.

O perigo do pesar

A primeira experiência de pesar é muito amarga. A tristeza e a


separação só aumentam sua amargura. O que ontem parecia impossível,
tornou-se hoje uma medonha realidade. O ente querido que, pensávamos,
tínhamos tão seguro, agora se foi. Parece-nos não podermos jamais ser
consolados; jamais poderemos viver sem aquele que preenchia um espaço
tão grande em nossa vida. A hora da primeira tristeza é, para cada vida, um
ponto muitíssimo crítico. Muitas pessoas encontram no pesar apenas um
inimigo, com o qual elas recusam reconciliar-se. A tristeza pode ser
bênção ou maldição. Alguém disse: "Não desperdice suas tristezas." O que
determina se a tristeza vai ser bênção ou maldição, é o relacionamento do
sofredor com Cristo. O mesmo fogo que derrete a cera endurece o barro. A
tristeza é um fogo que, nas mãos de Deus, derrete e purifica a vida do seu
povo; mas se rejeitado e resistido, produz desolação. Na vida cristã, ou no
lar cristão, a tristeza deve sempre deixar uma bênção. Ela deveria ser
recebida como mensageira de Deus; e quando o é, ela deixa uma bênção de
paz e faz o lar mais doce, mais terno e mais celestial. Tem-se dito que
nenhum lar jamais atinge sua mais alta bem-aventurança e alegria, e sua
mais plena riqueza de vida, enquanto a tristeza, de um modo ou de outro,
não adentra suas portas. "Até mesmo o amor do lar, ã semelhança de certas
frutas do outono, não amadurece no ponto de sua mais doce ternura
enquanto não for tocada pela geada da provação."

A bênção da tristeza

Muitas das melhores coisas do mundo nascem da aflição. As


canções mais ternas que já foram entoadas vieram do fogo. As boas coisas
que herdamos do passado custaram sofrimento e sacrifício. Nossa reden-
ção vem do Getsêmani e do Calvário. Obtemos o céu mediante as lágrimas
e o sangue de Cristo. Seja lá o que for de mais rico e melhor em qualquer
vida, foi forjado no fogo. O amor que temos uns aos outros pode ser forte e
verdadeiro, mas nunca atinge sua mais santa e mais plena expressão
enquanto a dor não nos toca o coração. Até mesmo o amor materno não
atinge a mais plena medida de força enquanto o filho não é tocado pelo
sofrimento ou pelo perigo. O mesmo é verdade quanto ao amor em todos
os lares. A família que enfrentar a tristeza no verdadeiro espírito de
submissão e fé, emergirá dela com afeição mais pura, mais terna, com
menor egoísmo, carnalidade e terrenalidade. Quando marido e mulher
enfrentam juntos a morte de um filho, aproximam-se mais um do outro e
os filhos restantes adquirem coragem. Irmãos e irmãs se tornam mais
solícitos com o rompimento do círculo doméstico. Uma cadeira vaga num
lar cristão tem o tremendo poder de abrandar e refinar as afeições e
sentimentos. A nuvem de pesar que se debruça sobre o lar é cheia de
bênçãos e está pronta para romper-se sobre a cabeça dos que sofrem.
(Adaptado de J. R. Miller.)

Não desperdice suas tristezas


Como podemos estar seguros de receber as bênçãos do sofrimento?
Em primeiro lugar, devemos reconhecer a tristeza como mensageira de
Deus. Devemos aceitá-la como procedente dele, isto é, vinda com sua
permissão. Toda tristeza se origina do pecado ou de Satanás; todavia, tudo
está sob o controle de Deus. A despeito da perda e da dor, devemos ouvir a
mensagem que ele nos traz. Pode ser que nos tome um bom tempo para
ouvi-la. A primeira experiência de tristeza pode deixar-nos tão atordoados
e cegos que nos pareça estarmos em trevas totais. Pode passar um longo
tempo até que se nos aclare a visão. As promessas que outrora nos eram
tão importantes podem parecer agora totalmente sem sentido. Seremos
tentados a duvidar de tudo aquilo que outrora críamos firmemente. Deus,
porém, está perto, mesmo quando não podemos vê-lo. E à medida que
recusamos a tentação de acusar loucamente a Deus; à medida que dermos
ouvidos à voz divina; à medida que rendermos nossa rebelião e aceitarmos
nossas tristezas como vindas de Deus, descobriremos que ela tem alguma
missão a cumprir, algum dom do céu, algum fruto dourado. Veremos que
um bocadinho de ouro em nós foi libertado da escória por este fogo. Não
se desanime se demorar algum tempo para obter esta bênção. Espere;
espere! Ela virá!
Devemos lembrar-nos, porém, de que essas coisas só se verificam
na vida e nos lares em que Cristo habita. Um lar sem Cristo não recebe
nenhum desses tesouros da tristeza. Os que fecham a porta a Cristo não
permitem que entre nenhuma dessas bênçãos; e quando as luzes da alegria
terrena se apagarem, só restará escuridão.
Ai daquele que nunca vê
As estrelas brilharem através dos ciprestes;
Aquele que sem esperança sepulta os seus mortos,
Nem olha para ver a luz do dia,
Dançar na lágea fria.
John Greenleaf Whittier

Esquecendo nossos erros

Alguns de nós achamos difícil esquecer não só as tristezas, mas


também os erros. Sem dúvida, o ano passado teve bom número de erros. E
provável que eles pendam ameaçadores sobre nossas lembranças e exer-
çam influência desencorajadora sobre nós ã medida que enfrentamos o
futuro. Se não tomarmos cuidado, os erros do passado podem estar como
cadeias ao nosso redor, efetivamente impedindo nosso progresso. Somos
tentados a achar que nunca teremos êxito porque falhamos no passado.

Os erros podem tornar-se em bênção


Pode causar-nos surpresa o saber que os erros passados não só não
precisam constituir obstáculo, mas podem ser uma bênção. Realmente
crescemos mediante os erros que cometemos. Para que o artista possa
transpor uma obra-prima para a tela, ele experimenta muitos fracassos
devidos aos erros. Para que o musícista possa arrebatar um auditório com
seu talento, ele deve passar muitos anos cometendo erros e corrigindo-os.
Em cada departamento da vida há anos e anos de pequenos erros,
imaturidades, estultícias, enquanto homens e mulheres se preparam para o
belo viver e trabalho nobre.

Deus pode prevalecer

O consolo para aqueles cujo passado lhes pesa por causa de erros
cometidos deve ser encontrado na visita de Jeremias ao oleiro, e na
mensagem de Deus acerca do oleiro e de sua obra. Em Jeremias 18:4
lemos: "O vaso, que fazia de barro, se lhe estragou na mão." Esse não é um
quadro brilhante. Sem dúvida, muitos de nós podemos mirar-nos neste
espelho. Temos falhado para com Deus. Não temos vivido ã altura do
melhor que possuímos por causa de nossa própria insensibilidade e
obstinação; temos sido vasos estragados nas mãos do oleiro, e agora
vivemos sob a tirania de um passado cheio de lamentações que nos enerva
e nos tolhe o empreendimento.
Parte de nossa pregação apresenta a Deus numa atitude tão
inflexível que desestimula uma franca confissão de fracasso e novo esforço
no sentido de renovação. Mas uma das mais claras revelações da Palavra
de Deus, e particularmente deste incidente em tela, é a verdade que declara
a disposição de Deus de restaurar aos homens as misericórdias que eles
perderam; de renovar a graça que usaram mal; e a certeza de que cada ano
e cada dia pode representar um novo começo. "O vaso, que o oleiro fazia
de barro, se lhe estragou na mão." Ficou o oleiro frustrado com isso?
Desistiu ele de seu propósito? Atirou fora o barro depois deste fracasso?
"Tornou a fazer dele outro vaso."

Se a princípio você não tem êxito

Durante anos vivi sob a impressão de que o segundo vaso que o


oleiro fez era menos belo e menos útil do que aquele primeiro que se
estragara. Mas, alguém que trabalha em cerâmica me disse, recentemente,
que o segundo vaso resultante de um fracasso pode ser até melhor do que o
originalmente proposto. Disse-me que o trabalho extra do barro torna-o
mais maleável e mais trabalhável, e que o segundo vaso pode ser até mais
belo do que o primeiro. E Deus disse a Jeremias, enquanto ele observava o
oleiro remodelar outro vaso de barro: "Não poderei eu fazer de vós como
fez este oleiro, ó casa de Israel?" (Jeremias 18:6). Se, da tentativa
malograda, ele pode fazer outro vaso, talvez até melhor, que o primeiro
não pode Deus tomar uma vida estragada e transformá-la em beleza e
alegria? "Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha
mão, ó casa de Israel" (Jeremias 18:6). A todos quantos pensaram que por
seus fracassos perderam a segunda oportunidade são ditas estas palavras:
"Restituir-vos-ei os anos que foram consumidos pelo gafanhoto migrador,
pelo destruidor e pelo cortador" (Joel 2:25).
Pense nos personagens bíblicos que falharam e mais tarde foram
restaurados. Olhe para Jacó, que depois de haver enganado o irmão
(Génesis 27) recebe de Deus uma visão da escada e dos anjos e do trono
divino, e a certeza de que Deus não o abandonara (Génesis 28).
Veja Moisés, que depois de seu lamentável fracasso no começo da
vida, é cuidadosamente assistido por Deus durante quarenta anos no
deserto e então comissionado para sua tarefa original (Êxodo 3). Considere
Davi, que após seu mais horrendo crime merece confiança para começar
de novo (2 Samuel 12; Salmo 51). Lembre-se de Jonas, que recusou a
missão, mas recebeu a Palavra de Deus pela segunda vez e foi mandado de
novo para empreender a tarefa da qual ele havia fugido (Jonas 3). Veja o
caso de Pedro, que negou a Jesus três vezes, com maldição e juramento, e,
no entanto foi objeto de um convite especial para retornar ao seu antigo
grupo (Marcos 16:7). Pense em Tomé, que falhou tão vergonhosamente
em sua fé e no entanto foi restaurado ao seu antigo posto (João 20:27).
Finalmente, olhe para João Marcos, que se apavorou no começo, mas foi
renovado e restaurado e, no fim, fez bom trabalho (2 Timóteo 4:11). Todos
esses exemplos nos estimulam a crer que o passado, quaisquer que tenham
sido nossos delitos, não precisa tiranizar-nos a vida; que o fracasso,
conquanto inescusável, não precisa ser um empecilho permanente; e que a
graça de Deus não se exaure pelos seus primeiros dons. Esses exemplos
ensinam-nos que uma nova vida pode ser gerada a partir da antiga.

Segundo pareceu bem ao oleiro

"Tornou a fazer dele outro vaso" (Jeremias 18:4) Esta é uma


mensagem para os que de algum modo cessaram de tentar porque outrora
falharam. Algum fracasso levou-os ao pó em humilhação e vergonha. O
nervo de todo o seu esforço foi cortado ou paralisado, e parece que não
vale a pena tentar de novo. Mas o Oleiro Divino, à semelhança do oleiro
de Jeremias, não se desanima. "Não desanimará nem se quebrará."
"Tornou a fazer dele outro vaso." E o segundo esforço evidentemente teve
como resultado um vaso que agradou ao oleiro. "Segundo bem lhe
pareceu." E verdade que todo pecado, erro ou engano devem ser
considerados como um passivo, uma obrigação. Não obstante, tal é a graça
de Deus que quando deles nos arrependemos de verdade, Deus os anula
para sua glória. E o segundo vaso que o oleiro fez pareceu-lhe bem.

O caminho do arrependimento

Não devemos, contudo, deixar de considerar que ao passo que o


barro do oleiro é inerte e insensível, a argila humana não o é. No caso de
uma vida, a capacidade do Oleiro Divino de refazer o vaso e de tirar
vitória de uma derrota, depende, antes de tudo, de um conhecimento claro
do erro, seguido de um reconhecimento claro dele. Isto é, confissão e
arrependimento real e correção do erro. Pois Deus disse a Jeremias: "Não
poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel?. . . No
momento em que eu falar acerca, de uma nação, ou de um reino para o
arrancar, derribar e destruir, se a tal nação se converter da maldade. . . eu
me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe" (Jeremias 18:6-8). Este
princípio é igualmente válido em nossa vida. No momento em que
reconhecemos um erro e verdadeiramente nos arrependemos dele e o
corrigimos e acertamos as contas, nesse momento Deus inverte a tendência
do mal que.se seguiria. A reversão da tendência do mal é instantânea. "No
momento", diz Deus. Não importa qual seja o erro ou fracasso; no
momento em que a pessoa volta-se para Deus em arrependimento,
correção e ajuste, nesse momento as coisas começam a mudar. O erro
específico deve ser reconhecido. Não basta reconhecer os erros em geral.
Devemos individualizar o erro e defini-lo nos devidos termos. Temos de
enfrentar a realidade com proposições específicas. E preciso ter uma
definição clara de nosso erro a fim de corrigi-lo e obter o perdão de Deus.
No momento em que fazemos a correção, devemos proceder como Paulo;
precisamos colocar o problema todo nas mãos de Deus e aceitar o perdão
que ele oferece. A partir daí o assunto já não é de nossa alçada, e devemos
esquecê-lo. Quando Deus nos perdoa, devemos perdoar a nós mesmos.
Este é o caminho da vitória sobre os erros e fracassos passados.
"Esquecendo-me das coisas que para trás ficam" (Filipenses 3:13).

Esquecendo nossas magoas

Outra coisa que devemos esquecer são as mágoas que recebemos


no passado. Todos nós as temos. Nós as afagamos para nosso próprio mal.
Todos nós sabemos de indivíduos que quase perderam uma das mãos ou
um dos braços por causa de uma pequenina lasca que de algum modo
entrou no dedo e aí ficou até que o sangue se envenenou. É isso que
acontece com as pequenas feridas. Quando são guardadas na memória, elas
infecCTOnamj35 vp7P<; rãinsamj^iltfldQSjgíHffi.1Alguns de nós temos sofrido
grandes injustiças no passado. Talvez as esperanças, os esforços e os
sonhos de uma vida inteira se tenham esboroado pela perfídia de um amigo
de confiança. Talvez alguém a quem você tenha dedicado amizade o traiu
e de modo traiçoeiro passou a ser seu inimigo. Bem, se você acaricia tais
mágoas e abriga ressentimento no coração, sofrerá dano. Muitas vezes é
preciso que nos lembrem de que nada que alguém nos faça pode ferir-nos,
a não ser que isso nos leve a incidir em erro, a não ser que permitamos
uma atitude ou reação errada. Em última análise, ninguém no mundo
inteiro pode realmente ferir-nos exceto nós mesmos. Somente nossa reação
pode, em realidade, prejudicar--nos. As mágoas que sofremos no passado,
se perdoadas e esquecidas, podem tornar-se degraus para grandeza de
caráter, ensinando-nos uma nova dimensão de amor ágape. No fim podem
ser os meios de grande crescimento e bênção espiritual, acentuando nossa
posição eterna. Visto como não é o mal que os outros nos causam que nos
prejudica, mas nossa reação e atitude erradas é, portanto, melhor sofrer o
erro do que cometê-lo.

Esquecendo realizações passadas

Deveríamos, também, esquecer-nos de nossas realizações passadas,


nossos êxitos e empreendimentos. "Jamais deveríamos considerar qualquer
de nossos nobres atos como o melhor. Nunca deveríamos olhar para trás, para
o clímax de nossa realização" (J. R. Miller). Por mais nobre e útil que tenha sido
o ano passado, por muito que você tenha feito para Cristo e para o próximo,
nunca deveria ser considerado como o Nec plus ultra além do qual não
podemos ir. Todo o nosso passado deve ser apoucado por nossa visão do
futuro. "Devemos conquistar grandes altitudes na vida deixando e
esquecendo as coisas que para trás ficam."
Capítulo Onze

A Lentidão do
Processo

Chegamos agora ao ponto em que olhamos para o futuro.


"Avançando para as [coisas] que diante de mim estão." Percebo neste
fraseado o espírito da impaciência santa. Uma das mais difíceis
experiências de uma alma elevada, de uma alma com um sublime ímpeto
espiritual, é a aparente morosidade de seu crescimento espiritual, a
lentidão de Deus em fazê-la crescer. Não obstante, devemos lembrar-nos
de que em certo sentido o próprio Deus tem de tomar tempo a fim de
formar o santo, assim como ele toma tempo para criar um carvalho. E
verdade que o início da santidade é obra de um instante. No exato
momento em que o filho de Deus nasce de novo, nascem nele todas as
possibilidades de fazer-se santo. Mas o desenvolvimento e concretização
dessas potencialidades muitas vezes é obra que leva anos e é muito fácil a
pessoa impacientar-se com Deus por causa da lentidão do processo.
Mesmo quando nos esforçamos pelas coisas que estão diante de nós, que
nos acenam para galgarmos as sublimes alturas do caráter cristão, o
processo de realização é, muitas vezes, lento. Bem se disse que "Deus não
nos faz repentinamente. O processo é longo; atravessa os anos de nossa
vida. Deus começa a fazer-nos quando nascemos e sua obra prossegue
ininterrupta todos os nossos dias. Nenhum momento se passa sem que se
dê um novo toque em nossa vida, se reforce alguma nova linha em nosso
caráter" (J. R. Miller). Milhares de agências e influências participam dessa
obra: mãe, pai, lar, escola, pátio de recreio, igreja, livros, companheiros,
amigos e amizades, alegrias e tristezas, êxitos, fracassos, saúde, doença,
flores, espinheiros; todas as circunstâncias e eventos da vida. Todas essas
coisas atuam sobre nós; não, porém, de maneira cega, não sem orientação.
Deus está sempre em campo e ele opera em todas as experiências e por
meio delas, a menos que o expulsemos de nossa vida.

Deus é quem nos molda

Se isto for verdadeiro, embora só vejamos as circunstâncias, é


realmente Deus quem nos faz. É verdade que não podemos ver a mão
divina porque ela se oculta atrás das circunstâncias; todavia, é realmente a
mão de Deus que nos molda. Não há período, no decorrer dos anos, em
que possamos dizer que Deus terminou a sua obra em nós.
Uma jovem mãe que perdeu dois filhinhos, ambos no mesmo dia,
rebelou-se e, como resultado de seu pesar, ficou inválida. Um dia ela disse
à tia, que era mais velha e muito mais sábia nas questões espirituais:
"Gostaria de saber por que Deus me criou. Não sei o que adiantou criar-
me." Ao que a tia replicou: "Talvez não dê para notar muito ainda, mas ele
não terminou com você. Ele está criando você agora, e você não gosta
disto."
Talvez ajude a alguns de nós lembrar-nos que Deus ainda não
terminou sua obra em nós. Ele ainda está nos fazendo. Talvez não nos
impacientássemos tanto com nós mesmos e com Deus se tivéssemos
sempre em mente que ainda estamos no processo de formação. Talvez isto
nos ajude a entender melhor os motivos das experiências duras ou
dolorosas pelas quais passamos. Deus está trabalhando em nós com macete
e buril como um competente escultor trabalha numa pedra.

Nada é acidental
Não somos, no presente, aquilo que deveríamos ser; tampouco o
que seremos. Porém Deus não trabalha sem um padrão ou desenho. Ele
sabe o que está fazendo, apesar de nossa cegueira. Nada há de acidental
quanto às providências que recebemos na vida. Há uma mão guiando e
controlando as situações e há um propósito que corre através de todos os
acontecimentos e circunstâncias. Este propósito pode não ser-nos evidente,
mas há um olho que sempre observa o padrão. E Deus quem nos molda.
E o Mestre quem segura o malho,
E dia a dia Vai desbastando aquilo que cerca
A forma ainda distante, Forma que, sob o habilidoso corte,
O Artífice tenciona que se revele Silentemente, de uma
beleza,
Com tal grau de ausência de falhas E plena perfeição,
Que os olhos do anjo, surpresos, Olharão para a obra
terminada
Que só mesmo a ilimitada paciência divina Poderia gravar
suas próprias
Características numa pedra Tão fraturada e obstinada.

Deus ainda não terminou conosco


Tem-se dito com muito acerto que nunca deveríamos julgar
qualquer obra inacabada. Uma maçã verde não serve para se comer, mas
nem por isso devemos condená-la. Ainda não está em condições de ser
comida porque Deus ainda não a terminou. O fato de não estar madura é a
condição precisa que lhe é inerente na presente fase. E uma fase de sua
carreira e boa no devido lugar. Não temos o direito de julgar uma obra
enquanto não estiver concluída. Nenhum artista exporá seu quadro
enquanto estiver incompleto. Nem é justo e direito que formemos opinião
sobre as providências de Deus enquanto não se completar o propósito
delas.
Deveríamos aplicar esta norma a tudo quanto Deus está fazendo em
nós e conosco. Jamais deveríamos confundir o processo com o resultado
final. Deus ainda não acabou conosco. Muita coisa digna e bela pode não
ter ainda atingido a perfeição em nós. Continuamos a cometer estultícias e
erros. Parece que nunca aprendemos bem todas as lições. Justamente
quando pensamos que as aprendemos, descobrimos nosso erro numa
tentativa de pô-las em prática. Parece que nunca as realizamos por
completo na vida. Devemos lembrar-nos, porém, de que somos apenas
aprendizes, alunos na escola. Da perspectiva de Deus ainda somos crianças
não homens. O quadro ainda não está pintado. O fruto ainda não está
maduro. Mas algum dia a obra estará terminada e seremos apresentados
"com exultação, imaculados diante da sua glória" (Judas 24). Devemos
aguardar até que seja escrito o último capítulo da vida antes de dizermos
que Deus não é bom ou benigno.
Não duvidarei, embora meus barcos no mar Retornem à
deriva com mastros e velas partidos;
Crerei que a Mão que nunca falha, Do mal aparente produzirá
o bem para mim.
E embora eu pranteie por estarem as velas rasgadas, Ainda
chorarei, enquanto minhas melhores esperanças estiverem em
frangalhos. "Confio em ti."
Não duvidarei, embora minhas orações voltem Sem resposta,
lá de cima, do reino calmo e branco; Crerei que é um amor todo-
sábio
Que me recusou dar as coisas pelas quais suspiro; E ainda
que às vezes eu não possa impedir a aflição,
Não obstante o puro ardor de minha crença firme Arderá sem
diminuir.
Não duvidarei, embora as tristezas como chuva caiam,
E os problemas como abelhas ao redor do favo se aglomerem.
Crerei que as alturas pelas quais eu luto Somente por angústia
e dor são atingidas;
E embora eu me contorça e gema sob minhas cruzes, Verei
ainda através das mais severas perdas
O lucro maior. Não duvidarei. Bem ancorada minha fé está,
Como um navio seguro, minha alma enfrenta qualquer vendaval;
Tão forte é sua coragem que não desfalecerá Ao enfrentar o
poderoso e incógnito mar da morte.
Oh, que eu clame, embora o corpo do espírito se desligue,
"Não duvidarei"! Assim os mundos que ouvem possam ouvi-lo
Com meu último suspiro.

Este mundo não é do diabo

Crendo isto, enfrentaremos o pior que a vida possa trazer-nos, sem


duvidar do resultado de qualquer experiência ou combinação de
experiências, enquanto estivermos confiando em Deus e fazendo sua
vontade. Este não é um mundo de acaso. Não existe acaso em parte
alguma. Este mundo não é do diabo. "Reina o Senhor" (Salmo 96:10). A
mão divina está ativa em todos os negócios da terra. Se formos leais e fiéis
ao Senhor em todas as experiências, no final verificaremos que em nada
nosso Mestre falhou, pois ele faz bem todas as coisas.
"Ele [Jesus] põe em ordem o universo com a poderosa força da sua
autoridade" (Hebreus 1:3, Bíblia Viva).
Capítulo Doze

Concentração

Não deveríamos esquecer-nos de que embora não se faça um santo


num dia, também ele não é feito enquanto dorme. Portanto, se vamos
concretizar nossas visões e atingir nossos alvos, nós, à semelhança de
Paulo, devemos "esforçar-nos por aquilo que está diante". Isto é, toda a
força de nosso ser deve concentrar-se no crescimento espiritual. À medida
que enfrentamos o futuro, captamos um lampejo da beleza espiritual ideal
e ansiamos por atingi-la. Se não tivermos cuidado, correremos o risco de
perder o melhor meio de realizar nossos ideais, de concretizar nossas
visões. Corremos o risco de pensar que os alvos elevados serão atingidos
por cataclismo emocional, por experiências extáticas. Em momentos de
grande inspiração, acende-se em nós um fervor santo e julgamos estar
prontos para grandes heroísmos, para tarefas importantes, para esplêndidas
abnegações. Mas o teste da vida para o qual muitos de nós somos
chamados durante a semana não será em coisas conspícuas sobre as quais
as pessoas falam, mas em coisas comuns e monótonas da vida diária. Por
causa disto corremos o risco de perder a oportunidade de concretizar
nossas visões de um modo prático.

Inveja dos anjos


Uma das pinturas de Murilo mostra o interior de uma cozinha.
Porém, em vez de mortais em roupas de trabalho, vemos anjos em
vestimentas brancas realizando trabalho humilde. Um coloca a chaleira ao
fogo, outro ergue um balde de água, outro prepara a mesa. Também há um
pequeno querubim oferecendo assistência. A lição é que as tarefas mais
humildes para as quais somos chamados, se feitas por motivo certo são,
realmente, de caráter tão celestial que os anjos poderiam, apropriada e
alegremente, executar. Mas devido ao nosso ego não crucificado, estamos
em perigo de menosprezar a santidade das tarefas corriqueiras. E enquanto
aguardamos alguma tarefa notável na qual realizar nossos ideais, nossa
verdadeira oportunidade passa inaproveitada. Talvez nos surpreendesse
saber com que alegria os anjos tomariam nosso lugar e empreenderiam
nossas tarefas humildes. A mãe que se amofina por estar presa à
responsabilidade de educar os filhos, enquanto a vizinha está livre para
freqüentar a sociedade, pode algum dia fazer a surpreendente descoberta
de que ela era motivo de inveja dos anjos. "Quem a si mesmo se exaltar,
será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado" (Mateus
23:12).

Tarefas humildes — graça celestial

Tanto as tarefas humildes quanto as mais proeminentes, oferecem


grande oportunidade de desenvolver as graças celestiais. Às vezes se exige
mais graça celestial para as tarefas comuns do que para as coisas
ostensivamente importantes. Às vezes pensamos poder sofrer a morte de
mártir por Cristo, quando não estamos dispostos a viver a vida de um
mártir por ele. As possibilidades são de que nossas brilhantes visões
celestiais, nascidas em momentos de altas decisões, terão de ser testadas e
realizadas nas intérminas variedades das circunstâncias humildes. Esses
pensamentos foram expressos por um autor desconhecido, nas seguintes
linhas:
"A visão de ti eu tive, ó Cristo!
Agora, que queres que eu faça? Para o mais duro trabalho em
todo o mundo
Ofereço-te serviço verdadeiro."
"Volta, meu filho, aos teus pequenos misteres;
Não os conheceste por tempo suficiente. Teu sentimento de
erro
Um pouco mais por mim suporta."
"Cristo, Senhor, para o martírio aqui estou, Para o banimento,
morte ou dor."
"Pacientemente o sofrimento oculta; Canta de novo em face
de tua tarefa."
"Amável sou, Senhor, ansioso e forte, Coragem rara eu tenho
para enfrentar."
"São teus ouvidos, filho, à difamação avessos? Puro e devoto
é teu coração?
"Com a alegria do vizinho tu te alegras?
Sofres com ele sua necessidade? Ah, então certo estou que na
verdade
A visão de meu rosto tu tiveste!"

Um degrau na escada

Todas as nobres visões, todos os sublimes ideais são realizados


somente pela constante rendição da vida do ego à morte. Todos a
conhecemos superficialmente, porém tão poucos de nós praticamos a verdade
de que o caminho para cima é descer. George MacDonald é autor de um
poema no qual ele desafia um jovem falando-lhe de uma escada que leva às
estrelas:
Construída de todas as cores de pedras lindas,
Onde ninguém se cansa e ninguém murmura
Ou deseja ser poupado.
O jovem sente-se inspirado e responde:
"Eu irei." E o poeta replica:
"Mas a escada é muito íngreme;
Se você subir lã,
Você deve ficar ao pé, tão imóvel como quem
dorme,
Um verdadeiro degrau da escada.
Pés de outros pisarão sobre você
Para alcançar as pedras empilhadas no alto,
Porém alguém se inclinará e lhe tomará a mão,
E dirá: 'Venha para cima, meu filho.' "

A mensagem do poema é que o modo de subir nesta grande escada


celestial é tornar-se uma pedra, um degrau da escada, sobre o qual os pés
dos outros pisarão enquanto sobem. Este é o verdadeiro modo de atingir os
alvos brilhantes da elevação espiritual que nos acenam do alto.

Não há santidade sem esforço

A realização de altos ideais espirituais não se fará ã parte de real


esforço consciente. Paulo disse: "Esforço--me por aquilo que está diante de
mim." Algumas pessoas tentam dizer-nos que se fomos realmente salvos e
santificados ou cheios do Espírito, os altos estados de santidade são, daí
para a frente, espontâneos, praticamente sem esforço. Este ensino leva
muitas pessoas à escravidão. Após uma experiência definida de salvação e
santificação elas descobrem que é preciso muita oração, vigilância
constante e real disciplina para que vivam à altura de seu ideal de uma
experiência cheia do Espírito. E por causa do ensino de que se realmente
tiveram uma experiência de santificação, nunca mais cairão abaixo desse
ideal, muitas vezes elas atiram fora sua confiança quando deveriam
considerar-se mortas, conforme Paulo nos diz em Romanos 6. Não existe
santidade sem esforço. A pessoa sempre será tentada de algumas formas a
viver na carne e deixar de andar no Espírito. Após a conversão e
purificação a pessoa ainda terá de estar vigilante, e com toda a
probabilidade, algumas vezes, inadvertidamente, poderá falhar ou ser
apanhada em falta. Mesmo após a experiência definida de justificação e do
enchimento do Espírito, a pura santidade cresce e se fortalece somente pela
prática. Alguns me chamarão de legalista e dirão que defendo a salvação
pelas obras quando digo que toda a bondade no viver começa pela
obediência às regras e guarda dos mandamentos. Na verdade, não podemos
guardar os mandamentos de Cristo sem uma obra e amor sobrenaturais no
coração, sem um espírito purificado; todavia, mesmo um coração
purificado é conservado puro mediante obediência escrupulosa,
disciplinada. Mozart e Mendelssohn começaram o estudo do piano tocando
notas e escalas e fazendo exercícios para os dedos. Sem dúvida, nossa
salvação e purificação devem realizar-se no interior antes que possam
manifestar-se no exterior. Porém a ordem para o crente é no sentido de
operar sua salvação "com temor e tremor". Isso não me parece santidade
sem esforço. Embora Mozart e Mendelssohn tivessem a música no
coração, eles nunca se realizariam como musicistas se a não tivessem
executado em prática disciplinada de acordo com princípios fixos. O modo
de tornar-nos peritos é fazer as coisas repetidas vezes até que possamos
executá-las com perfeição, sem pensamento ou esforço consciente. O
caminho da realização de grandes coisas é a repetição de pequenas coisas
com perícia cada vez maior. Esta é uma questão de grande importância. O
modo de crescer em santidade madura é, depois que o coração é purificado
em pensamento, palavra e ato, corrigir nossas falhas com tanta freqüência
que finalmente nos tornamos disciplinados na beleza e na perfeição
morais. Talvez alguém diga: "Mas quando recebi a plenitude do Espírito,
não tive de fazer nada. O fato simplesmente se realizou com
espontaneidade e sem esforço de minha parte." Bem, não posso deixar de
perguntar-me qual teria sido o progresso de tal pessoa se, ã semelhança de
Paulo, tivesse realmente aplicado toda a energia de sua alma no esforço
por alcançar maiores alturas.

Devoções cronometradas

Para tornar-nos santos que oram, devemos aprender a orar pelo


relógio, em tempos fixados. Isto é muito importante. Você nunca se
tornará um santo que ora se depender do impulso para levá-lo à oração.
Você nunca se tornará um santo que ora a menos que entre na disciplina de
um programa fixo de oração. Depender de impulso como guia para a
oração provavelmente redundará em oração nenhuma. Você terá de
disciplinar-se na leitura da Bíblia e cumprir suas devoções com regularida-
de. A mesma coisa se dá com toda a vida religiosa. Só podemos crescer em
paciência usando toda a paciência que temos. Crescemos em paciência
sendo pacientes o quanto pudermos, a todo dia e a toda hora, e nas
mínimas coisas. Tornamo-nos altruístas praticando o altruísmo todas as
vezes que tivermos oportunidade. Tornamo-nos melhores, como disse
Paulo, esforçando--nos por ser melhores do que já somos, e subindo
degrau por degrau às alturas radiantes da excelência e beleza morais.
Tornamo-nos melhores do que somos fazendo melhor do que gostaríamos
de fazer, só porque sabemos que isso é certo. Tornamo-nos melhores
vivendo por princípio em vez de viver por emoção.

A prática aperfeiçoa

Paulo disse: "Prossigo para o alvo." Isto é, para sua visão e ideal. "A
prova de toda a vida moral está em suas tendências." A questão não é: A
que ponto você chegou, mas, "Para que lado você tende?" Crescemos sempre
na direção de nosso viver diário. Os poderes que usamos desenvolvem-se
continuamente em maior força; as graças que cultivamos revelam-se mais e
mais claramente em nosso caráter. "Um pássaro que não usa as asas, logo
não terá asas para usar." E embora, espiritualmente falando, nossas almas
não tenham asas até que Deus as dê, essas asas devem ser exercitadas a fim
de adquirirem força. Até mesmo Paulo o santo, Paulo o santificado, disse
que se esforçava e prosseguia para a visão clara que o desafiava com
relação ao futuro.
Capítulo Treze

O Ocultamento do
Futuro

Ao olharmos para o futuro, é natural perguntarmos o que ele nos


reserva. Nunca desejou você abrir a cortina que oculta o futuro e dar uma
olhadela no amanhã? Você nunca se perguntou por que Deus conserva
oculto o futuro? Nunca você, em vão, tentou abrir essa cortina do mesmo
modo que os discípulos fizeram quando perguntaram: "Senhor, será este o
tempo em que restaures o reino a Israel?" A resposta que Cristo lhes deu é
a sua Palavra a todos nós ao enfrentarmos o futuro: "Não vos compete
conhecer os tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva
autoridade." Esta é a direção clara de Deus a todos os que procuram
penetrar esse véu de segredo indo em busca de adivinhos, videntes,
feiticeiros e necromantes de toda laia, religiosos ou não. Deus tem mantido
oculto o futuro porque assim é melhor. Deus vê que para nós é melhor
prosseguir passo por passo e viver um dia por vez. É por isso que ele
prometeu guiar somente um passo por vez. "À medida que andas, teu
caminho se abrirá diante de ti passo por passo" (Provérbios 4:12, tradução
livre). Sendo assim guiados, um passo por vez vivendo assim, um dia por
vez as alegrias da vida não nos ofuscam, pois nossos corações foram
disciplinados de sorte que aprendemos a recebê-las. Se alguns de nós
conhecêssemos com antecedência as alegrias e prosperidades vindouras, a
exultação poderia fazer-nos desatentos ao dever e ao perigo. Poderíamos
soltar as mãos de Deus e crescer confiantes em nós mesmos, perdendo
dessa forma a bênção que vem somente à fé simples. Sendo guiados um
passo por vez, vivendo um dia por vez, não somos esmagados pelas
tristezas da vida. Se conhecêssemos as lutas e provações que temos pela
frente, poderíamos desanimar-nos, sem coragem para suportá-las. Cristo
reteve o conhecimento do futuro porque assim é melhor. Se você não crê
nisto agora, algum dia crerá quando as névoas tiverem desaparecido.

O ocultamento das glórias do céu

Você já se perguntou por que Deus não fez maiores revelações


acerca do céu e suas glórias? Talvez seja porque tais revelações, se feita a nós
agora, não serviriam ao cumprimento de nosso dever aqui. Um viajante
conta do retorno ao lar após uma longa viagem por terras estrangeiras.
Tão-logo os marujos viram a praia da terra natal, tornaram-se incapazes de
cumprir seus deveres no navio. Quando entraram no porto e viram os amigos
no cais, ficaram tão dominados pela emoção que outra tripulação teve de ser
enviada a bordo para substituí-los. Suponhamos que, neste vale de lágrimas,
à medida que nos afadigamos e lutamos num mundo inamistoso, pudéssemos
contemplar as inefáveis alegrias de nossa terra natal e ver os amigos e
queridos acenando-nos daquela praia segura; será que essa contemplação
não nos incapacitaria para executar nossos deveres? Será que a visão dos
esplendores não nos encantaria e extasiaria ao ponto de nos cansarmos da
vida dolorosa aqui da terra? Se pudéssemos ver nossos entes queridos
naquela formosa terra, contentar-nos-íamos em ficar aqui e concluir nossa
tarefa? Certamente é melhor que mais não nos tenha sido revelado. A glória
velada não nos ofusca, e a fé tem conhecimento bastante para sustê-la até ao
romper da manhã. Para nós é melhor que o futuro fique
oculto e só nos seja revelado um passo por vez. Podemos esperar
pacientemente e com fé quando nos confrontam mistérios, ou quando as
sombras caem em nosso caminho, confiantes de que embora não
conheçamos o caminho por onde vamos, conhecemos o Guia; ele retém
esse conhecimento só porque é melhor assim.

"A tua força será como os teus dias"

É realmente um ato de misericórdia que não obtemos a vida toda de


uma vez, mas apenas um dia por vez, pois então nunca temos mais do que
as batalhas de um dia a combater, ou o trabalho de um dia a executar, ou as
cargas de um dia a suportar, ou os pesares de um dia a enfrentar. Deus tem
um motivo para dividir a vida em pequenas unidades, e tratá-la um dia por
vez. No deserto, Deus nunca deu ao povo escolhido mais maná do que a
porção suficiente para cada dia, exceto na manhã anterior ao dia de
descanso. Positivamente ele os proibiu de ajuntar mais do que o
suprimento de cada dia. Este foi o modo de Deus ensinar seu povo a viver
um dia por vez e confiar nele quanto ao dia de amanhã. Ele deu--lhes a
grande promessa: "A tua força será como os teus dias" (Deuteronômio
33:25, Ed. Rev. Cor.). Deus não prometeu força antecipada—bastante para
a vida toda, ou mesmo para um ano, ou para um mês a promessa foi para
cada dia; quando este chegasse com suas próprias necessidades, deveres,
batalhas e pesares, então ele daria força suficiente. A medida que a carga
aumentasse, mais força seria concedida. Quando a noite ficasse mais
escura, as lâmpadas iluminariam com maior brilho. A idéia importante
aqui é que a força não é despejada em nossos corações a granel um
suprimento para os anos vindouros, porém mantida em reserva, e dada dia
por dia, segundo o exigem as necessidades diárias.

Um dia por vez


A vida é como uma escola na qual uma lição aprendida prepara-nos
para a seguinte, mas só para a seguinte. Andar pela vida, viver um dia por
vez, é como viajar à luz de uma lanterna. Ela ilumina o caminho somente
um passo na frente; dado, porém, esse passo, outro será iluminado, e assim
por diante, até ao fim da caminhada. E assim que Deus nos ilumina o
caminho. Ele não nos mostra o caminho todo quando partimos; ele clareia
um passo; depois, quando damos esse passo, ele clareia outro, depois
outro. "A tua força será como os teus dias" (Deuteronômio 33:25, ERC).
Estamos mais seguros assim.

Sapatos para estradas ruins

Essas palavras fazem parte de uma promessa dada à tribo de Aser.


Foi dada a essa tribo uma região montanhosa, uma região difícil, o que
significava que eles teriam de percorrer estradas ruins. As sandálias
comuns, feitas de madeira ou de couro, não suportariam o desgaste
causado pelas pedras. Havia necessidade de um tipo especial de calçado.
Portanto, Deus colocou ferro nessas colinas, uma provisão para calçados
de ferro para andar em caminhos pedregosos. Foi isto que Deus tinha em
mente na promessa: "O ferro e o metal será o teu calçado; e a tua força será
como os teus dias."
Esta promessa é também para todos quantos percorrem caminhos
ínvios. Todos os que, como Paulo, buscam as coisas que estão adiante. Se
realmente tencionamos subir, precisamos de calçados resistentes, pois a
subida nunca é suave e fácil. Mas a promessa de Deus a todos nós, é que ele
proveu calçados convenientes para a escalada espiritual.
A porção de Aser não foi acidental; o próprio Deus foi quem a
escolheu. Nem há acidente algum na ordenação do lugar, das condições,
das circunstâncias de qualquer filho de Deus. Tudo opera para o melhor
desenvolvimento de cada indivíduo.

O mais fino ouro da vida

Embora a tribo de Aser tenha sido colocada numa região difícil,


Deus pôs minério de ferro nas montanhas a fim de prover calçados fortes
para estradas ruins. A mesma lei rege em todas as providências de Deus
para com seus filhos. Quando chegarmos à região difícil, encontraremos o
ferro para calçados resistentes. Muitas vezes nos perguntamos como
vencer certas experiências difíceis. Somos tentados a preocupar-nos e
agitar-nos com aquilo que achamos seja nossa falta de graça para enfrentar
as provações que prevemos. Isto acontece porque deixamos de captar o
significado desta promessa. Deus não promete força para as necessidades
enquanto essas necessidades ainda são futuras. Deus não dá força a nossos
braços hoje para realizar batalhas amanhã. Deus não provê ferro para
sapatos pesados enquanto não chegarmos à região áspera. Mas quando o
conflito é iminente, então vem a força. Quando chegamos à região
montanhosa, então encontramos o minério para os sapatos. Contudo, não
há promessa de força para suportar grandes cargas quando não há grandes
cargas a suportar. O auxílio para enfrentar a tentação não é prometido
quando não há tentações a enfrentar.
Às vezes as pessoas se preocupam e se inquietam por acharem que
não possuem a graça para morrer. Ora, essa graça não é prometida, nem é
necessária, enquanto ainda temos o dever de viver.
Andei a vida toda a perguntar-me como poderia eu viver se minha
mãe fosse tirada. Quando, porém, esse dia chegou, tive uma das maiores
surpresas de minha vida. Nunca antes eu havia experimentado consolo tão
consciente. Jamais o esquecerei.
Podemos estar certos de que se Deus nos encaminha por estradas
ruins, ele o faz para nossa própria disciplina e desenvolvimento. Nas
montanhas íngremes da fadiga e provação encontra-se o mais fino ouro da
vida.

Deus guia os planetas

No ano vindouro, o caminho que temos diante de nós está coberto


de mistério. Todavia, não precisamos temer se estivermos seguros de que
nosso próprio caminho será divinamente orientado. Muitos acham difícil
crer na direção divina. Sabem que ele guia os sóis e as estrelas em suas
órbitas, com tanto cuidado que não se desviam do curso um milímetro
sequer. Sabem que Deus dirige os planetas com tanta exatidão que em todo
o vasto universo, com seus milhões de mundos, com seu sistema sobre
sistema e sistema acima de sistema, existe absoluta precisão em todos os
seus movimentos, era após era. Nenhuma estrela jamais se adianta ou
atrasa. Nenhum planeta jamais sai da órbita. O sol nunca se levanta tarde.
Deus fixou caminhos para os mundos e ele os faz andar nesses caminhos.
Guia-os com tanta exatidão que os cientistas podem calcular o momento
preciso de um eclipse, com antecedência de milhares de anos.

Ele também guia as vidas humanas

Será que Deus se interessa por algo tão ínfimo como a vida dos
homens? Se ele dá direção, limita-se ela às carreiras dos grandes homens
que levam nas mãos importantes destinos, homens esses enviados em
missões de responsabilidade de longo alcance, ou será que ele fornece
idéia ao caminhar diário de cada um dos milhões de seus filhos? Mostra
Deus a uma criança o caminho através dos labirintos desnorteantes? Guia
ele ao lar o indivíduo errante? Podemos conceber que ele dirija a carreira
de certos homens importantes cujas vidas significam muito para o mundo;
mas, mostrará ele o caminho a pessoas comuns? Será que ele guia o pobre
ou a criança? Ele chama as estrelas por seus nomes, porém sabe ele quem
sou eu?

Ele guia seus pequeninos

A Bíblia proporciona abundantes respostas a essas perguntas. Por


exemplo, ela diz que Deus é nosso Pai.
Quais são as características da paternidade? Existe algo tão
pequeno na vida dos filhos que não interesse ao pai? Tudo o que é bom na
paternidade humana é apenas reflexo da divina. A Bíblia diz que não
somente ele chama as estrelas por seus nomes, mas que o Bom Pastor
chama suas próprias ovelhas pelo nome. Se ele alimenta os pardais e veste
os lírios, podemos estar certos de que instruirá seus filhos no caminho em
que devem andar. Ninguém pense que é apenas um dentre uma multidão
no pensamento de Deus. Cada crente tem seu próprio lugar e recebe
cuidado como se fosse o único. Deus nos ama como indivíduos. A vontade
de Deus está presente nos mínimos acontecimentos da vida. A mão de
Deus está em todos os eventos. A natureza está sob o controle de Deus.
Nada na natureza acontece por acaso. Nenhuma tempestade, nenhum
terremoto, nenhum ciclone ou onda de arrebentação jamais ocorre sem a
permissão divina. Até mesmo os flocos de neve estão sob seu controle. Seu
é o mar e ele o fez. Ele diz às impetuosas ondas: "Até aqui virás, e não
mais adiante" (Jó 38:11). Este mundo não é controlado pelo acaso, nem
por qualquer destino cego, mas por aquele que nos amou e se deu a si
mesmo por nós. "As mãos que foram transpassadas movem as rodas da
história humana e moldam as circunstâncias das vidas individuais"
(Maciaren). Se tudo isto é verdadeiro, podemos estar certos de que não
seremos largados ao léu da sorte para encontrarmos nosso caminho
sozinhos.

Ele guia por pequenas coisas

Se não tivermos cuidado, não perceberemos a orientação de Deus,


pois sua maneira de conduzir leva-nos, muitas vezes, por vias simples e
comuns. Corremos o risco de associar a direção de Deus somente com as
coisas mais dramáticas, incomuns ou emocionantes da vida. Se, porém, a
direção de Deus se limitasse apenas aos grandes ou destacados momentos
ou eventos, a vida seria vazia de Deus. pois os grandes acontecimentos são
raros. A menos que possamos reconhecer a direção de Deus na rotina
diária, é provável que a percamos por completo. Devemos lembrar-nos de
que os grandes princípios são exercitados e fortalecidos tão verdadeira-
mente pela sua prática nas circunstâncias comuns como naquelas que
parecem mais sensacionais. Por favor, não se esqueça desta verdade. A
liderança de Deus é tão ininterrupta nos negócios rotineiros do serviço
humilde quanto o é nos assim chamados eventos sensacionais de caráter
público. Muito embora nossa vida esteja em grande parte escondida, isto
não significa que Deus se preocupa menos conosco do que com os que são
célebres. Nas profundas cavernas oceânicas insondáveis desabrocham
flores de raríssima perfeição e beleza. Muito embora nunca sejam vistas
por olhos humanos, Deus se interessa por elas tanto quanto se interessa
pelas que florescem nas estufas e nos jardins.

A terra esta abarrotada de céu

O mais humilde quinhão propicia espaço para o mais nobre viver.


Podemos achar que isto não seja realmente verdadeiro. Há tantos deveres
maçantes em nossa vida. Os jovens acham enfadonhas suas tarefas
escolares. Há mães fiéis que se cansam dos deveres intermináveis da
família. Há homens bons que se cansam da rotina do escritório, ou do
armazém, ou da fábrica, ou da lavoura. Muitos de nós temos, às vezes, a
sensação de que o que nos compete fazer dia após dia não é digno de nós.
Achamos que fomos feitos para coisas mais nobres. Contudo, é exatamente
nos deveres que poderíamos muito naturalmente desdenhar, que
encontraremos a oportunidade de desenvolver caráter nobre. Lembre-se de
que foi enquanto Moisés cuidava dos rebanhos no deserto que teve a visão
da sarça ardente. Se ele tivesse sido como alguns de nós na execução de
nossas tarefas diárias, com toda a probabilidade teria perdido aquela visão.
"A terra está abarrotada de céu e todo arbusto comum arde com fogo de
Deus."

Ele guia através de coisas comuns

Em geral encontramos a Deus nos lugares mais improváveis. Aos


humildes pastores nas colinas da Judéia é que foi dada a bendita
proclamação, e eles acharam Deus, não em palácios, mas num estábulo
comum. Podiam ter perdido a orientação de Deus se não estivessem
ocupados com tarefas humildes. Foi enquanto Gideão trilhava o grão e
Eliseu arava com bois, que receberam revelações de Deus. Com freqüência
é nos mais humildes caminhos que encontramos a Deus.
Filipe pediu a Jesus: "Mostra-nos o Pai", e a resposta de Jesus
mostra seu desapontamento. "Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não
me tens conhecido? Quem me vê a mim, vê o Pai" (João 14:9).
Evidentemente, Filipe pensava que a revelação seria de esplendor e deixou
de reconhecer o Pai no silêncio da vida cotidiana de Cristo. De modo
geral, Cristo nos é revelado em traje simples e modos humildes.
Declinamos das tarefas e deveres que nos são atribuídos, pensando que
estão abaixo de nós, não reconhecendo que nos foram dados por Deus e
que os anjos desejariam ardentemente executá-los. É evidente que nenhum
dos discípulos tomaria a bacia e a toalha naquela última noite e lavaria os
pés do Mestre e os dos demais. Lavar os pés era a mais humilde de todas
as tarefas. Era serviço para o mais humilde escravo da casa. Embora esses
homens pensassem que estava abaixo deles realizar tarefa tão servil, o
Senhor dos céus e da terra, tomando a toalha, executou--a. Ele não a
considerou abaixo dele.
Capítulo Quatorze

Qual é sua Missão?

Suponha que Paulo, enquanto na prisão, tivesse perdido a confiança


na liderança de Deus. Ele nunca teria recebido a revelação da verdade
divina que lhe foi confiada. Grande parte da verdade que tem emocionado
as almas de milhões foi desvendada a Paulo enquanto ele fabricava tendas.
Muitos de nós nunca aprendemos a ver Deus em nossa vida cotidiana. Se
Jesus "põe em ordem o universo com a poderosa força de sua autoridade"
(Hebreus 1:3, Bíblia Viva), ele deve também estar pondo em ordem meus
deveres diários. Parece-nos que nossa vida não é digna de nós, que seu
esplendor se perdeu em nossos quefazeres corriqueiros. Achamos que
poderíamos encontrar Deus na vida se ocupássemos algum lugar
proeminente, ou pudéssemos executar algum trabalho sensacional, ou
pudéssemos viajar para lugares distantes. Porém, nenhuma ocupação é, em
si mesma, humilde. Não deveríamos sentir-nos humilhados por nossa
condição terrena. Tudo depende de nossa missão, não de nosso trabalho.
Jesus foi carpinteiro, mas essa não era sua missão. Você pode ter a
ocupação de quitandeiro, açougueiro, ou de lavrador, mas se for
consagrado a Deus, seu trabalho no estabelecimento do Reino de Deus é o
mesmo do pregador ou do dirigente do canto, ou do evangelista, ou mesmo
do próprio Cristo. Sua missão e não sua ocupação é que o exalta ou
degrada. Quando as névoas desaparecerem, veremos que a mulher, cuja
missão é exaltar a Cristo, ainda que execute trabalho humilde, é muito
mais glorificada do que a princesa que vive para o eu. Deus está em toda a
vida da qual ele é o centro.

Trapaceado na vida?

Talvez você ache que sua participação nas oportunidades e


privilégios da vida tenha sido injusta; tem-se amofinado porque outros
parecem muito mais favorecidos do que você; tem andado descontente e
deprimido. Talvez seja esse o motivo de você haver perdido o senso da
orientação de Deus em sua vida. Há muitos anos uma jovem de nossa
igreja andava com o rosto muito triste, olhar sombrio. Vivia descontente e
infeliz. Pouca coisa havia para iluminar-lhe a vida. Para ela, a vida a
defraudara. Não tinha um lar nem antecedentes cristãos. Não era bonita
nem talentosa. Não sabia onde encaixar--se. Na sua idéia, nossos filhos
eram felizes porque tinham todas as oportunidades de desenvolvimento
que haviam sido negadas a ela. Era fácil entender o problema. Ela achava
difícil obter vitória sobre a amargura de seu coração. Um dia, porém, ela
foi liberta interiormente. Foi cheia do Espírito. Perdeu o ar melancólico e
tornou--se radiante.
Vi-a começar a crescer. Parecia que seu quinhão era o mesmo,
porém ela foi transformada interiormente. Um dia ela me disse, com o
rosto radiante, que havia encontrado seu lugar, sua vocação na vida. Isto
foi há trinta e cinco anos. Hoje ela completou quase trinta anos de serviço
nobre num campo missionário estrangeiro. Talvez você pense que já não
existem milagres, mas quando a vida se concentra em Cristo, quando tudo
o que fazemos é para ele, a vida se torna chamejante com Deus. Nossa
vida passa a ser um milagre tão real como a vida de qualquer santo da
Bíblia. Se a sua vida estiver centrada em Deus, ela é tão sagrada quanto a
de um pastor ou de um missionário, e tem em si a mesma medida de Deus.

Pense no ambiente humilde de Cristo

Pense em Jesus por um momento. Aos doze anos de idade ele subiu
ao templo, e aqui se tornou o centro de atração confundindo os doutores da
lei e outras autoridades religiosas. Mas o que fez ele diante da
admoestação amável de sua mãe ao encontrá-lo? Voltou para seu humilde
lar camponês em Nazaré e esteve sujeito aos pais. Naquele ambiente
humilde, enquanto trabalhava na carpintaria, ele encontrou campo
suficiente para o desenvolvimento da mais rica natureza que o mundo já
viu e para o mais pleno e mais completo dever que já foi exemplificado.
Portanto, ainda que nossa tarefa seja maçante, ainda que nosso dever seja
sombrio, ainda que nossas circunstâncias sejam limitadas, podemos ter
certeza de que elas permitem plena oportunidade para o mais elevado
desenvolvimento de um caráter nobre. E podemos ter certeza de que o
trabalho mais duro, as tarefas mais enfadonhas, os deveres mais servis e o
ambiente mais desfavorável de maneira alguma nos privarão da orientação
de Cristo, uma vez que ele próprio viveu sob disciplina de condições
exatamente iguais. Não percamos a orientação de Cristo pelo fato de não
podermos vê-lo nas coisas comuns.
Os caminhos de Deus são retos, mas nem sempre suaves

Também corremos o risco de não reconhecermos a orientação


porque os caminhos em que Deus nos conduz nem sempre são suaves. E
natural pensarmos que se Deus está guiando, o caminho será fácil e cheio
de alegrias. Não é assim, porém. Lemos em Mateus 4:1: "A seguir, foi
Jesus levado pelo Espírito, ao deserto, para ser tentado pelo diabo." Quer
dizer que Deus às vezes ordena nossas vidas de tal modo que somos
levados a lugares onde a fibra moral de nosso caráter é posta à prova. E
isso significa que Satanás está livre para atacar-nos. Significa caminhos
ásperos e rudes; significa mistério, escuridão e dor. Quando Deus nos
conduz por certos caminhos, esperamos que sejam tranqüilos; ficamos
surpresos, e às vezes petulantes e irritadiços ao descobrir que não é assim.
Corremos o risco de duvidar de sua orientação porque o caminho é rude.

O caminho desigual de Paulo

Tome, por exemplo, a viagem de Paulo a Roma. Se vivesse sob a


impressão de que a direção de Deus era sempre caminhos suaves, ele teria
pensado, antes de ir muito longe, que havia perdido por completo a
orientação divina. Durante meses ele esteve confinado em masmorras
solitárias, prisioneiro de Roma. Então, em vez de ser levado numa
carruagem celestial, foi deixado a jogar-se de um lado para outro num mar
tormentoso, vivendo quatorze dias e noites de desesperança e desespero,
antes do naufrágio. Como foi que ele chegou a terra? Não havia barco
celestial para recolhê-lo, nenhum anjo para aquietar a fúria do mar,
nenhum indício sobrenatural de que ele estava na vontade de Deus. Como
os demais, Paulo agarrou aos destroços do navio e nadou o melhor que
pôde. Não consigo imaginá-lo muito romântico nessa ocasião. Imagino até
que ele poderia facilmente ter ouvido Satanás a sussurrar-lhe que este era
um modo muito bom para um servo de Deus e apóstolo de Cristo viajar.
Ouçamos seu testemunho:

Tenho enfrentado a morte a cada instante. Em cinco


ocasiões diferentes os judeus aplicaram-me seu terrível castigo de
trinta e nove chibatadas. Apanhei de vara três vezes. Fui
apedrejado uma vez. Três vezes sofri naufrágio. Numa ocasião
fiquei em alto mar a noite inteira e durante todo o dia seguinte.
Tenho viajado quilómetros e mais quilómetros e estado
frequentemente em grandes perigos de transborda-mento de rios,
de salteadores, e do meu próprio povo, os judeus, assim como nas
mãos dos gentios. Enfrentei grandes perigos de multidões nas
cidades, e de morte nos desertos, e de mares tempestuosos, e de
homens que afirmam ser irmãos de Cristo, e não são. Tenho
suportado a canseira, a dor e noites sem dormir. Muitas vezes
tenho sofrido fome, sede e ficado sem o que comer; muitas vezes
tenho tremido de frio, sem roupa suficiente para me agasalhar.
Depois, ao lado de tudo isso, tenho a constante preocupação com
a marcha das igrejas (2 Coríntios 11:23-28, Bíblia Viva).

Se Paulo esperasse que a direção de Deus acontecesse somente de


modos tranquilos e fáceis, ele a teria perdido por completo. Porém não a
perdeu. Em circunstâncias tais, ele testificou: "Graças, porém, a Deus que
em Cristo sempre nos conduz em triunfo."
Eis aí o padrão de Deus para nossa vida. Eis aí a certeza de que
Deus guia as pessoas que têm de enfrentar circunstâncias difíceis e
percorrer caminhos escabrosos. A direção de Deus não nos eleva,
necessariamente, acima do plano comum da existência rotineira. Ela pode
guiar-nos em caminhos desiguais, como no caso de Paulo.

Beleza advinda da escuridão

Dizem que em uma das famosas lojas de rendas de Bruxelas há


salas destinadas à fiação dos mais finos e delicados padrões de rendas.
Essas salas são totalmente escuras com exceção de um raio de luz que vem
de uma janela muito pequena, e cai diretamente sobre o modelo. Há apenas
um tecelão na sala, assentado de maneira a receber o facho de luz somente
sobre os fios que ele tece. "Desse modo", diz o guia, "obtemos nossos mais
finos produtos. A renda é sempre mais delicada e belamente tecida quando
o próprio tecelão está no escuro e apenas seu padrão está na luz."
Não se dá o caso de ser assim conosco? Às vezes nós, também,
trabalhamos no escuro. Não podemos entender o que estamos fazendo. O
padrão nos é muitíssimo vago. Não obstante, algum dia podemos descobrir
que o mais estranho trabalho de nossa vida foi feito nesses períodos de
escuridão. O próprio caminho que nos parece tão escuro, tão duro para os
pés, é o caminho que Deus está escolhendo. "Ele nunca lhe enviaria trevas,
se achasse que você poderia suportar a luz."
Capítulo Quinze

A Vida não é só
Atividade

O escritor do Salmo 23 expressou esta verdade quando disse: "Ele


me faz repousar." A vida não é só atividade, trabalho, serviço. Embora seja
verdade que não há tempo a desperdiçar, não obstante não devemos viver
pressionando no sentido de estarmos sempre exteriormente ativos. As
vezes Deus pode pedir-nos que paremos e repousemos um pouco.
Naturalmente, não cuidamos de repousar. Preferiríamos muito mais
manter-nos em marcha. Somos avessos a parar. Pensamos que é uma perda
de tempo virar-nos para um lado e repousar um pouco. Parece-nos que um
minuto sem atividade é um minuto desperdiçado. Temos aprendido, não
obstante, que às vezes faríamos melhor progresso repousando do que
prosseguindo. Assim, quando compelidos a repousar por um pouco de
tempo, muitas vezes nos afligimos e inquietamos.

O tempo gasto em enfermidade não precisa ser desperdiçado

Alguns pensam que seria quase pecado se descansássemos umas


poucas horas em nossa semana atarefada. Temos cultivado de tal maneira
o senso de responsabilidade que achamos errado estar inativos. Mas há o
perigo de negligenciarmos a necessidade de alimentar a nós mesmos se
temos de alimentar os outros. E fácil esquecemos de que precisamos ser
abençoados antes que possamos ser uma bênção. O dia que passa sem uma
hora tranqüila com o Mestre é um dia perdido. Toda vez que o Bom Pastor
nos faz repousar, podemos estar certos de que é para dar-nos alguma nova
bênção. Isto se comprova muitas vezes quando ele nos recolhe a um quarto
de enfermo e fecha as cortinas sobre nós. Ele não tenciona sejam
desperdiçados os dias ou semanas que aí passamos. A atividade exterior na
qual estamos engajados, os negócios do mundo em que estamos
empregados não são, de modo algum, o único trabalho da vida, nem o mais
importante. Não estamos aqui meramente para arar, semear e ceifar;
construir casas ou pontes, escriturar livros ou compor tipos, manufaturar
ou comprar, vender e obter lucro. Essas ocupações podem ser muito certas,
mas nosso principal propósito aqui é crescer em caráter e semelhança de
Cristo. A qual é aprender o amor ágape. Todas as demais atividades são
incidentais. A formação de um caráter semelhante ao de Deus é o real
objetivo divino. Corremos o risco de esquecer-nos disto quando somos
retirados de nossa ocupação comum por algum tempo. Isso acontece sem
dúvida, por existir algo que precisa ser feito em nós, algo mais importante
do que o trabalho que faríamos se continuássemos nossas tarefas sem
interrupção.
Conhecer tal fato ao sermos postos a repousar, ajudar-nos-ia a ser
mais pacientes e obedientes. Há uma bênção esperando por nós no quarto
tranqüilo ao qual somos conduzidos. Nossa doutrina pode questionar este
ponto, mas há uma lição que devemos aprender agora. Como o pássaro
canoro é encerrado num lugar escuro para aprender um novo canto que não
poderia ser aprendido na luz, assim em nosso retiro para a sombra
devemos aprender algum novo e doce cântico para entoarmos aos ouvidos
dos tristes e fatigados. E nenhum preço é alto demais pelo privilégio de
aprender a cantar mesmo uma única nota que abençoe ao mundo. (Adap-
tado de J. R. Miller.)
Um homem viveu cinqüenta anos alegria misturada com
lágrimas;
Amou, labutou, teve esposa e filhos, e os perdeu; morreu;
E de toda a obra de sua longa vida restou uma pequena
canção nada mais.
Como o pássaro do Monge Félix, essa canção foi ouvida;
A dúvida orou, a fé subiu às alturas, a morte sorriu para si
mesma para dormir;
Essa canção salvou almas. Você diz que o homem pagou
muito?
Nada disso, Deus pagou—e achou barato.

Não há tristeza grande demais a enfrentar se ela nos revela alguma


nova beleza em Cristo ou desenvolve em nós alguma nova disposição
semelhante a Cristo. Visto como Jesus é o melhor de todos os amigos, será
que não vale a pena deixar de lado as tarefas por algum tempo a fim de
entrarmos em comunhão mais estreita, mais doce e mais íntima com ele?
Estou pregando para mim mesmo agora. A vida teria muito mais
sentido se aprendêssemos a tomá-la mais como lazer. Vivemos sob tal
pressão grande parte do tempo que fazemos todo o nosso trabalho de um
modo febricitante. Fazemos tanto barulho em nossa correria que não
podemos ouvir a voz calma, pequena. Vivemos tão apressados que não
temos tempo para pensar, para meditar, para familiarizar-nos com nosso
Mestre. O segredo do belo caráter de João estava em ele reclinar-se no seio
de Jesus; mas vivemos apressados demais para gastar tempo desse modo.
E assim, Deus deve, às vezes, chamar-nos a um lado para descansarmos
um pouco e fazer-nos repousar.

A importância das "pausas"

Ruskin escreveu o seguinte a uma jovem correspondente: "Que eu


saiba, Katie, não há música numa pausa, porém ela entra na composição da
música." Dá-se na vida o mesmo que se dá na música. As pausas na pauta
musical, em certo sentido não são parte da música. Não obstante, elas são
tão importantes como se fossem notas a ser tocadas ou cantadas. Seria
estragar a harmonia e o ritmo se um executante ou cantor descuidado não
levasse em conta as pausas. Não se dará o caso de que as pausas que Deus
nos impõe sejam tão importantes na melodia da vida como qualquer das
notas da pauta? Menosprezá-las ou enchê-las é estragar a música. Do
mesmo modo, a direção de Deus talvez nem sempre esteja nos caminhos
da atividade. Ele pode, de quando em quando, conduzir-nos a lugares de
calmo repouso. "Na tranquilidade e na confiança [está] a vossa força"
(Isaías 30:15). O apóstolo Paulo exorta os tessalonicen-ses a "diligenciar
por viver tranquilamente". E isso não é fácil. A paciência é uma das
maiores virtudes, e das mais raras. Se você duvida disto, procure a palavra
numa concordância bíblica. Há momentos e horas na vida quando o
supremo dever é não fazer nada, ficar em silêncio, esperando que Deus
opere ou que chegue a hora de podermos agir. Às vezes nos
impacientamos tanto que temos de ser compelidos a fazer umas pausas em
nossa vida atarefada. Estamos no meio de movimento rápido, apressando-
nos com grande ansiedade, quando de súbito encontramos uma pausa
escrita na pauta. Pelo fato de estarmos com muita pressa e não a
observarmos, e deixarmos de aceitá-la voluntariamente, Deus pode
obrigar-nos a tanto.
Talvez ele tenha de incapacitar-nos por algum tempo, a fim de
fazer que consideremos as pausas na melodia da vida. Realmente
precisamos dessas pausas para que a harmonia da vida seja plena e rica. Às
vezes Deus só consegue introduzi-las em nossa vida obrigando-nos a
observá-las.

Toda vida precisa de seus invernos

A natureza ensina-nos a necessidade de períodos de inatividade. O


inverno impede o crescimento da vegetação. Os longos meses em que não
há folhas nem frutos parecem tempo perdido. Sabemos, porém, que o
inverno não é um erro e que o tempo não é perdido nem desperdiçado
quando a árvore está em repouso. Ela apenas reúne forças para o
crescimento e frutificação do próximo ano. Toda vida necessita, também,
de seus invernos quando tudo parece deter-se; todavia, não há,
necessariamente, nenhuma perda na espera silenciosa.
Em cada vida
Há uma pausa que é melhor do que avançar,
Melhor do que ter ou fazer portentos;
E ficar imóvel diante da vontade soberana.
Há um silêncio que é melhor do que o discurso
ardoroso,
Melhor do que o suspiro ou o clamor no deserto;
É estar quieto diante da vontade soberana.
A pausa e o silêncio em uníssono profundo
Entoam todo o tempo uma canção dupla;
0 alma humana, o plano operacional de Deus
Prossegue, sem necessitar da ajuda do homem!
Aquiete-se e veja!
Sossegue e aprenda.

"A bênção do Senhor é a base da verdadeira riqueza, pois não traz


tristezas e preocupações" (Provérbios 10:22, Bíblia Viva). Nem todos nós
entendemos isto, pois contradiz nosso ensino. Mas se vivermos o
suficiente, podemos descobrir o erro. Este autor tem motivos para sabê-lo.

Deus está marcando o compasso

Se pelo menos entendêssemos melhor a Deus, veríamos que as


pausas que Deus escreve na pauta de nossa vida são necessárias para
aperfeiçoar a música. Pensamos que perdemos tempo quando somos
compelidos à inatividade em época de doença ou na velhice. Necessa-
riamente não é assim. A inatividade dos dias de doença, a quietude, a
paciência e a calma que nos sobrevêm quando nos encontramos isolados
da pressa do mundo, podem, às vezes, ser tão sagradas e importantes
quanto os deveres urgentes dos dias de saúde e mocidade.
Como é que o músico lê as pausas? Veja-o marcar o compasso
numa contagem sem erro e executar a próxima nota como se não tivesse
havido intervalo. Deus não escreve sem desígnio a música de nossa vida.
Importa--nos aprender o compasso e não desfalecer diante das pausas. Elas
não estão ali para serem desprezadas, não estão ali para serem omitidas,
não visam a estragar a melodia, nem mudar a tonalidade. Se olharmos para
cima, o próprio Deus marcará o compasso para nós. Não nos cabe escrever
a partitura; compete-nos apenas tocar ou cantar conforme Deus a escreveu.
Não temos o direito de mudar uma nota ou um ponto, de inserir uma pausa
ou omiti-la. Devemos executar a música como está escrita.
Quando, na vida, encontramos as pausas na partitura do Grande
Compositor, devemos considerá-las como parte da música • assim como as
notas o são. Não precisamos queixar-nos da perda de tempo na doença, no
lazer forçado, nos esforços frustrados, nem inquietar--nos porque nossa
voz teve de ficar silente, porque não podemos participar da música. Não há
perda real nessas interrupções ou pausas, se as tomarmos como parte do
plano do Mestre. Cumprimos melhor o nosso dever não tentando fazer
coisa alguma quando Deus nos pede que fiquemos quietos. Não há
necessidade de impacientar--nos por não podermos estar ativos para Deus
quando ele, claramente, não deseja que o estejamos. Uma mulher que
aprendeu o segredo da submissão, da paz e do significado das pausas,
demonstrou surpreendente submissão e fé ao dizer: "Ouço Deus dizer-me:
'Deite-se aqui e tussa'." Embora isso pareça contrário ao ensino da cura
divina, e talvez aquela mulher não tivesse sobre o assunto a luz que alguns
de nós temos, não obstante essa submissão e fé podem ter sido, no caso
dela, um requisito indispensável ã fé para a sua cura. E mesmo que ela
nunca exercitasse a fé para a cura, é provável que a submissão e a fé que a
capacitaram a fazer tal declaração tenham mais valor aos olhos de Deus do
que uma fé que pudesse remover montanhas mas que ainda não tivesse
aprendido o segredo da submissão. A vida que mais agrada a Deus é
aquela que aceita a música como Deus a escreve, sem questionar, crendo
no amor e na sabedoria do Mestre, ciente de que ele está certo. (Adaptado
de J. R. Miller.)
Nos imponentes oratórios da vida
Deus escreve pausas inesperadas.
Estas quebram a pressa, a tensão, a tempestade, a
luta,
E por certo nossas provações são necessárias!

Devoção antes da ação

Devido à ideia errónea de que servimos a Deus e fazemos


progresso espiritual só através do serviço e atividade exteriores, nossa vida
devocional presente é extremamente negligenciada; e com isso a causa de
Deus e nossa experiência pessoal sofrem prejuízo. Daí que os meios de
Deus conduzir-nos nem sempre são os de atividade; eles podem ser meios
de tranqüilidade forçada. "Toda vida verdadeiramente cristã precisa de
seus momentos silentes diários, quando tudo está calmo, quando a
atividade febril das outras horas cessam, e quando o coração, em santo
silêncio, comunica-se com Deus. Uma das maiores necessidades da vida
cristã destes dias é mais devoção."

Prioridade da devoção
Poucos de nós sabemos que nossa vida devocional é a parte mais
importante de nosso relacionamento com Deus. Falamos agora sobre
tempo a sós com Deus, quando não fazemos outra coisa senão esperar
nele. Não estamos pensando em oração à medida que andamos, à medida
que trabalhamos ou à medida que fazemos algo mais. Tudo isto é possível
e necessário. Todos deveriam fazê-lo. Mas o Rei dos reis merece mais do
que isto. Ele comunica sua vontade e partilha seus segredos somente com
os que estão dispostos a tomar "tempo para ser santos", a passar tempo a
sós com ele, a estar quietos bastante para ouvir-lhe a voz. Teria Deus
insistido tantas vezes em sua Palavra para que esperemos nele a não ser
que tivesse algo importante a dizer-nos ou a fazer em nós? Veja em sua
concordância bíblica quantas vezes aparece o verbo "esperar".
Familiaridade pessoal com a Palavra e tempo a sós com o Senhor
são mais importantes do que todas as demais ocupações espirituais
combinadas. Você não precisa aceitar isto, mas em minha opinião é mais
importante do que a adoração pública, do que a comunhão mútua com o
Corpo, do que ouvir a pregação de sermões, do que freqüentar classes de
estudo bíblico, do que ouvir mensagens gravadas, do que engajar-se em
evangelização pessoal, até mesmo do que contribuições financeiras. Tudo
isto é muito importante. Nenhuma dessas coisas deve ser omitida. Porém,
estou pessoalmente convicto de que nossa vida devocional é a coisa mais
fundamental à preservação e eficácia de toda e qualquer atividade
espiritual que valha a pena. Negligenciemos nossa vida devocional e todas
as demais relações espirituais sofrerão as conseqüências.
Nossa época é mais de trabalho do que de oração. A tendência é no
sentido de agir em vez de adorar; atarefamo-nos, em vez de sentarmo-nos
em silêncio aos pés do Salvador para comungar com ele. A nota
predominante de nossa presente vida cristã é devoção ao serviço ativo;
todavia, devoção à Pessoa de Deus, ao próprio Cristo, é a verdadeira raiz
da atividade eficaz.
Antes que possa haver uma árvore forte, vigorosa, saudável, capaz
de produzir muito fruto, de resistir à tempestade, de suportar o calor e o
frio, deve haver uma raiz bem plantada e nutrida; e antes que possa haver
uma vida cristã próspera, nobre, resistente perante o mundo, firme na
tentação, inabalável nas provações, cheia de bons frutos, deve haver uma
estreita união com Deus em secreto. Devemos receber de Deus antes de
podermos dar aos outros, pois nada temos de nós mesmos com que saciar a
fome dos homens ou matar-lhes a sede. Na melhor das hipóteses somos
apenas vasos vazios, e devemos esperar ser cheios antes que tenhamos
algo que levar aos necessitados. Devemos ouvir junto as portas do céu
antes que possamos sair para entoar os cânticos celestiais aos ouvidos dos
cansados e tristes. Nossos lábios devem ser tocados com a brasa viva do
altar de Deus antes que possamos tornar-nos mensageiros de Deus aos
homens. Devemos reclinar-nos muito no seio de Cristo antes que nossas
pobres vidas terrenais sejam afetadas pelo Espírito de Cristo, e brilhem na
beleza transfigurada desta vida bem-aventurada. A devoção adapta-nos
para a atividade.
A fim de obtermos esta preparação para utilidade e serviço, todos
nós precisamos introduzir no curso de nossas vidas muitas horas de
silêncio, quando a sós com Cristo em comunicação pessoal com ele,
ouvindo sua voz, renovando de sua plenitude nossa energia gasta, e
transformando-nos à sua semelhança mediante a contemplação de seu
rosto. Homens ocupados precisam de tais períodos tranqüilos de
comunicação espiritual, pois os seus dias de trabalho, de cuidado e de luta
tendem a desgastar-lhes a fibra da vida espiritual e exaurir-lhes a força
interior. Mulheres responsáveis precisam de tais momentos de silêncio,
pois há muitas coisas na vida diária da família e na vida social que
esgotam seus suprimentos de graça. O cuidado dos filhos, a própria rotina
da vida doméstica, os milhares de pequenas coisas que provam sua
paciência, que lhes apoquentam o espírito, e tendem a romper-lhes a
calma, tudo isso torna imperativo que toda mulher cristã inclua em sua
vida pelo menos uma hora de silêncio todos os dias, quando, à semelhança
de Maria, ela pode esperar aos pés de Jesus e ter sua própria alma
acalmada e nutrida. Muitíssimos de nós damos a Deus somente a sobra de
nosso dia. (Adaptado de J. R. Miller.)
Abrimos esta mensagem com uma ênfase sobre a ação. Encerramo-
la com uma ênfase sobre a devoção, pois não pode haver ação eficaz no
reino espiritual, sem devoção. Esta idéia foi mais do que suficientemente
expressa por S. D. Gordon: "Podemos fazer mais do que orar depois de
havermos orado. Mas não podemos fazer mais do que orar enquanto não
tivermos orado."

A montanha coreana de oração


O crente, de modo geral, não leva a sério a oração. Pouco sabemos
sobre fazer da "oração o principal negócio da vida". Na verdade, poucos de
nós pensamos em tal coisa. Achamos que não podemos dar-nos ao luxo de
tomar tempo para orar. Temos muito que fazer. Cremos que somente
inválidos, aposentados ou retardados é que devem fazer isso.
Tal acontece porque não cremos que "a oração se encontra onde
está a ação". A igreja em geral tem falhado em compreender a realidade
espiritual. Satanás tem-nos cegado para o fato de que o mundo real é o
mundo do espírito, e que o fato de os espíritos não terem corpos visíveis
não significa que não existam. Na carta aos Efésios Paulo explica que os
espíritos são personalidades reais e têm todas as características
identificadoras de uma pessoa, exceto corpo visível. Embora sejam
imperceptíveis ã visão como o ar e a corrente elétrica, não obstante são
igualmente reais. Embora não tenhamos consciência deste fato, os espíritos
são os verdadeiros manipuladores das personalidades humanas e da ordem
social em geral.
Por isso Paulo disse: "Porque nós não estamos lutando contra gente
feita de carne e sangue, mas contra pessoas sem corpo os reis malignos do
mundo invisível, esses poderosos seres satânicos e grandes príncipes
malignos das trevas que governam este mundo; e contra um número tremendo
de maus espíritos no mundo espiritual" (Efésios 6:12, Bíblia Viva).
Note que essas personalidades atuam na ordem social do mundo.
Elas governam a comunidade de pessoas. São chamadas "grandes
príncipes malignos das trevas que governam este mundo". Evidentemente
são inumeráveis, chegando talvez a milhões, bilhões mesmo, porque Paulo
diz que há um "número tremendo" deles.
Eles estão sob a liderança de Satanás e agem inteiramente para
promover seus desejos, objetivos e propósitos diabólicos. Estão em
constante oposição, inimizade e conflito com Deus e com tudo o que é
santo. Não há jamais um momento em que não estejam buscando "roubar,
matar, e destruir". João diz que sabemos "que o mundo inteiro jaz no
maligno" (1 João 5:19).
Satanás e suas hostes não são espíritos independentes. Deus está
usando a oração como treinamento no cargo para governar após a ceia das
bodas do Cordeiro. Portanto, por um decreto especial, exclusivo,
constitucional, Deus delegou autoridade aos membros de seu Corpo sobre
todo o poder do inimigo. A autoridade de ligar e desligar os espíritos maus
acompanha a promessa de que "nada absolutamente vos causará dano"
(Lucas 10:19).
Tanto quanto sei, somente os seres humanos redimidos receberam a
ordem coletiva de ligar e desligar Satanás nos assuntos terrenais (Mateus
16:18, 19 e 18:18). É por isso que Deus está usando Satanás para ensinar a
Igreja a vencer em preparação para o trono (Apocalipse 3:21). Uma vez
que isto é verdadeiro, Satanás será preso e solto nos negócios terrenos só à
medida que a humanidade redimida exercita sua autoridade de procedência
divina. É por isso que a oração se encontra onde está a ação, e porque a
oração é a coisa mais importante que se possa fazer para Deus ou para o
homem. Daí, como disse João Wesley, "Deus nada faz exceto pela
oração".
Temos ouvido falar da Montanha Coreana de Oração, onde, relata-
se, dez mil pessoas estão em oração continuamente, dia e noite. Estamos
informados de que desse ministério de oração surgiu a maior igreja do
mundo, que faz lembrar a igreja do primeiro século. É este um exemplo ou
ilustração antecipada do cumprimento da profecia e promessa de Deus em
Joel 2:28 e Atos 2:17, do derramamento do Espírito de Deus sobre toda a
carne nos últimos dias? Se for, confirma a convicção de que o
cumprimento desta profecia aguarda um reavivamento maciço de oração
intercessora, em todas as igrejas, e dele depende. Embora Deus tenha
falado, há evidência bíblica de que a profecia que sai dos lábios divinos
não será cumprida enquanto a Igreja não levar a sério a oração e fizer dela
seu principal negócio. É possível que Deus seja obrigado a usar uma igreja
missionária estrangeira para ensinar os crentes tolerantes, amantes da
comodidade, que "a coisa mais importante que se possa fazer para Deus ou
para o homem é orar"?

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