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Educação Unisinos

9(2):84-98, maio/ago 2005


© 2005 by Unisinos

Sem confiança a democracia se torna


inerte. É o capital social uma resposta?
Um estudo sobre a América Latina

Without trust democracy becomes inert. Is social


capital an answer? A study on Latin America

Marcello Baquero
baquero@orion.ufrgs.br

Resumo: Por que os países da América Latina parecem se desenvolver política e


economicamente de forma deficiente em comparação com países industrializados? Esta é a
questão central deste artigo. Postula-se que, a despeito de inegáveis avanços na engenharia
institucional poliárquica, persistem graves problemas não só de representação política, mas
sobretudo de caráter social e econômico. Tal situação se deve, em nossa opinião, à prevalência
de um conhecimento reativo que impossibilita o desenvolvimento de conceitos capazes de
dar conta da complexa realidade latino-americana. Nesse sentido, argumenta-se que a
democracia existente nesta Região é de natureza inercial, onde vários fatores se movimentam
em forma de blocos, mantendo a matriz de exclusão social intacta. Uma possibilidade na
construção de conhecimento alternativo e propositivo é Capital Social, pois oportuniza a
testagem de teoremas gerados por novas perspectivas teóricas. Por meio do uso de dados
secundários, constata-se a prevalência de uma cultura política híbrida e passiva, o que não
contribui para o desenvolvimento de uma base normativa de apoio à democracia. O trabalho
conclui mostrando, baseado em dados empíricos, que o conceito de capital social tem se
mostrado valioso na promoção da ação coletiva e, conseqüentemente, no fomento da
democracia.

Palavras-chave: América Latina, capital social, democracia.

Abstract: Why do the countries in Latin America seem to experience a more ineffective
economic and political development compared with the more industrialized nations? This is
the central question that underlies this article. The paper argues that despite the undeniable
advances in the institutional poliarquic engineering, serious problems of political representation
exist, as well as problems in the economic and social dimension. This situation, in our point
of view, is due to the existence of a reactive knowledge, which turns difficult the
development of new strategies of analysis capable of incorporating the complex nature of
Latin America. In this context, we argue that the type of democracy in this region is of an
inertial nature, because the matrix of social exclusion, although new, remains intact. One of
the mechanisms that could be useful to create alternative knowledge is social capital, mainly
because it allows testing the new theorems generated by new perspectives of analysis.
Through the use of secondary data, we observe the existence of a hybrid and passive
political culture, which does not contribute to the establishment of a normative basis of
support for democracy. We conclude by showing, based on empirical data, that the concept
of social capital is very useful in the promotion of collective action and consequently in the
advance of democracy.
84 Key words: Latin America, social capital, democracy.

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Sem confiança a democracia se torna inerte

Introdução onais, na medida em que as conse- da globalização é maior na medida em


qüências das propostas políticas dei- que essas nações não têm desenvol-
Por muito tempo, estudiosos da xaram de ser previsíveis. Em síntese, vido a capacidade de controlar os
América Latina sinalizaram para a os países da América Latina não têm fatores que determinam sua própria
pouca participação dos cidadãos na conseguido realizar as reformas es- evolução enquanto entidades
política como elemento compromete- truturais necessárias ou, quando re- territoriais, sociais e políticas sobe-
dor da construção democrática alizadas, não tem conseguido entrar ranas. A globalização, a despeito dos
(Casanova, 1995; Furtado, 2000). As no caminho do desenvolvimento sus- seus efeitos positivos, tende a redu-
razões apontadas para tal comporta- tentável. Tal imprevisibilidade gera zir ainda mais essa capacidade levan-
mento iam desde um legado históri- uma frustração dos eleitores com os do-se em conta a dependência dos
co que privilegiava a desmobilização governos, tornando também estados latino-americanos em relação
e o não envolvimento político, até imprevisíveis os processos democrá- ao vai-e-vem do mercado global, so-
razões de cunho racionalista que su- ticos de seleção de governantes bem bre o qual têm pouca ou nenhuma
geriam não ser de interesse do cida- como a própria manutenção da influência.
dão participar em assuntos políticos, governabilidade democrática. Dentro Igualmente a mobilidade do capi-
pois nada ganhavam com isso. Mais desta perspectiva se instaura a crise tal reduz a capacidade do Estado para
recentemente, argumentos institu- da democracia contemporânea domesticar o mercado e a economia,
cionalistas defendem a idéia de que a (Paramio, 2003). comprometendo sua autonomia no
não participação das pessoas na are- Se analisadas do ponto de vista contexto internacional, agravando a
na política não compromete a econômico, as décadas de rede- situação interna, pois não favorece a
solidificação democrática, na medida mocratização e reformas econômicas construção de identidades coletivas
em que existam instituições eficien- de mercado têm fracassado em pro- nacionais e o desenvolvimento de
tes e regras que sejam obedecidas. mover crescimento ou progresso so- um sentimento de cidadania e solida-
No entanto, assiste-se, nos últi- cial gerando uma espiral de frustra- riedade social.
mos anos, nesta Região, a um pro- ção e ansiedade, não somente com o Na dimensão cultural, alguns au-
cesso crescente de rejeição da políti- processo político, mas também com tores sugerem que a existência de
ca representativa tradicional. Não são as lideranças políticas e com a forma valores tradicionais impede que as
poucos nem raros os casos de como a democracia tem funcionado sociedades latino-americanas se atu-
mobilização popular que têm culmi- nos últimos anos. Igualmente sob a alizem e prosperem. Nesta dimensão,
nado com a derrubada de presiden- perspectiva econômica, nos últimos por exemplo, sugere-se que a natura-
tes popularmente eleitos. Por exem- cinco anos, a América Latina experi- lização da corrupção tem criado uma
plo, executivos têm sido derrubados mentou um crescimento que não pas- cultura política predisposta para re-
do poder em vários países (Equador, sou de 2% anuais, não acompanhan- solver problemas por meio das ações
Peru, Argentina, Bolívia e Brasil). Tais do o crescimento populacional que e organizações informais. Numa so-
eventos ocorrem, paradoxalmente, no se situa na média em 3% (CEPAL, ciedade com essas características, a
momento em que o método democrá- 2004). A proporção de pobres tem corrupção se constitui em obstáculo
tico está consolidado, mas, ao mes- praticamente dobrado na Argentina, para o desenvolvimento político e de
mo tempo, sinalizam para a possibili- Bolívia, Peru, Venezuela, Uruguai e uma cultura política que valorize os
dade do aparecimento de profundas Equador (Birdsall e Menezes, 2005). princípios da democracia. Vários es-
crises de governança, pois as pro- Esse fenômeno pode ser atribuído a tudos têm apontado os efeitos nega-
messas eleitorais dos governantes uma situação econômica crítica, onde tivos da corrupção no desenvolvi-
não têm sido cumpridas, mantendo o desemprego cresce, a precarização mento e no crescimento econômico
uma situação de desigualdade social do trabalho se fortalece, a concen- (Lederman et al., 2005). Para ilustrar
e falta de desenvolvimento susten- tração de renda aumenta e a exclusão este ponto é pertinente avaliar os
tável, seriamente agravado pela crise social cresce linearmente. dados produzidos pelo Relatório da
continuada da dívida interna e exter- Se invocarmos argumentos Transparência Internacional sobre a
na. A este respeito Paramio (2003, p. macrossistêmicos, constata-se que o Corrupção no Mundo em 2004. O que
6) argumenta que a raiz do problema processo de globalização com seus mais chama atenção no referido rela-
estaria na excepcionalidade da situa- corolários negativos aparece como tório é a percepção que as pessoas
ção criada pela crise da dívida exter- um dos principais fatores de instabi- têm dos partidos políticos. Em 32 dos 85
na, a qual não permite que os eleito- lidade política. Isto porque, para os 62 países pesquisados, os partidos
res decidam seu voto em termos raci- países da América Latina, o desafio políticos foram avaliados como as

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Marcello Baquero

portância do conceito de empo-


deramento e da educação como fato-
res essenciais para constituir capital
social.

Que tipo de democracia


temos na América
Latina?

Enumerar ou tentar analisar tudo


que tem sido escrito sobre democra-
cia é uma tarefa inútil e impossível.
Tentar delimitar um campo de análise
Figura 1. Setores e Instituições mais afetadas pela corrupção.
Fonte: Transparency International Global Corruption Barometer, 2004. também incorreria em injustiças, prin-
cipalmente em relação a autores na-
cionais ou locais cujas reflexões so-
instituições mais afetadas pela posicionamento também está alimen- bre a democracia não têm encontra-
corrupção. Igualmente os entrevista- tado por evidência empírica, resulta- do espaço de divulgação. Assim, pre-
dos de 33 países responderam que, do de pesquisas de opinião levadas ferimos apontar três grandes linhas
caso lhes fosse dada a oportunida- a cabo nos últimos anos que mos- de reflexão que se institucionalizaram
de, limpariam a corrupção priori- tram, consistentemente, uma tendên- na academia e que dominam o campo
tariamente nos partidos políticos. A cia crescente dos latino-americanos de reflexões sobre esta temática, ar-
Figura 1 ilustra comparativamente a em se distanciar das instituições po- gumentando que a tendência tem sido
avaliação das principais instituições líticas e, cada vez mais, procurar mo- o tratamento fragmentado dessas li-
do ponto de vista da corrupção. dalidades informais de resolução de nhas de pensamento, contribuindo,
A escala desenvolvida para avali- problemas (Latinobarómetro, 2002). dessa forma, para manter a democra-
ar o grau de corrupção nas institui- Esta situação torna imperativo aos cia num estado de inércia, reduzindo
ções vai de 1 = menos corrupto para cientistas políticos não só diagnos- seus confrontos ao meio acadêmico,
5 = mais corrupto. Os dados do gráfi- ticar os motivos desse estado de coi- com pouca incidência na realidade.
co I mostram que as instituições vin- sas, mas fundamentalmente começar Em primeiro lugar, encontra-se a
culadas à democracia representativa a refletir propositiva e interdisci- chamada “escola da democracia re-
são as que menos credibilidade pos- plinarmente sobre fatores que auxili- presentativa”, a qual remonta à idéia
suem aos olhos dos cidadãos. Por em na superação desses dilemas. É de criar um sistema de delegação de
outro lado, os dados sugerem que nesse contexto que o presente artigo poderes para um corpo de represen-
não existe uma valorização generali- se orienta. Busca-se, em primeiro lu- tantes que agiriam em nome do povo
zada das demais instituições que não gar, pensar a democracia na América e autorizado por ele, por meio de um
ultrapassam o escore de três na es- Latina à margem dos modelos tradi- processo de escolha (eleições), que
cala de corrupção. Tal situação não cionais, propondo o conceito de de- se constituiria em garantia dos eleitos
pode ser considerada propícia para o mocracia inercial como alternativa de não se desviarem do caminho da vir-
desenvolvimento de uma base compreensão das deficiências da de- tude, honestidade e transparência.
normativa de apoio aos princípios mocracia contemporânea. Num se- Recentemente, este campo de pensa-
democráticos. Pelo contrário, acredi- gundo momento, tenta-se identificar mento se institucionaliza na chamada
tamos que na América Latina tem se a configuração da cultura política exis- “abordagem institucionalista” ou
naturalizado o processo de tente para, no final, aceitando a im- “neo-institucionalista”. A premissa
corrupção, sendo considerado uma portância do conceito de capital so- central é de que a participação das
prática comum e, sobretudo, impune. cial, que tem encontrado críticas acir- massas é desnecessária ou secundá-
Levando em conta os fatores aci- radas para mostrar o que não é, pro- ria para não comprometer a
ma aludidos, o que não faltam são curar desenvolver o argumento de governabilidade da nação. Numa pers-
razões de caráter histórico, estrutu- que tal conceito pode possibilitar a pectiva minimalista, bastaria a promo-
86 ral, cultural e econômico que respal- materialização de ações tangíveis ção do desenvolvimento econômico
dem atitudes céticas a respeito do positivas na construção democráti- e a constituição de instituições efici-
futuro da América Latina. Tal ca. Nesta seção se dá destaque à im- entes para gerar “melhores democra-

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Sem confiança a democracia se torna inerte

cias” (Przeworsky et al., 2003). ausência não tem propiciado a esta- democracia. Não é de se surpreen-
Esta linha de raciocínio não é bilidade do trabalho, não tem melho- der, portanto, por exemplo, que a po-
consensual, inclusive nos países de- rado a eficiência do Estado; não tem pulação tivesse comemorado o fe-
senvolvidos, onde vários autores apon- criado um sistema previdenciário chamento do congresso no Peru,
tam para o surgimento de novas desi- satisfatório e que se torna cada vez durante o mandato de Fujimori. Cons-
gualdades sociais (Fittousi e mais incerto e, sobretudo, uma situa- tata-se, outrossim, na Bolívia, um
Rosanvallon, 1997) e a erosão do teci- ção na qual é o mercado que assume movimento da população a favor do
do social (Putnam, 2000). No caso da as funções de produção de bens pú- fechamento do Congresso. Da mes-
França, por exemplo, Fitoussi e blicos mais essenciais. ma forma, segundo dados de opinião
Rosanvallon (1997, p. 8) argumentam Assim, não existem estudos que pública, a grande maioria dos
que não faz qualquer sentido dizer que mostrem com razoável consistência venezuelanos é a favor do fechamen-
“tudo vai bem com excepção do de- que a participação política do povo to do Congresso, por considerá-lo
semprego”. Porque é justamente “a tenha destruído a essência da demo- desnecessário. Em maior ou menor
excepção” que constitui o problema. cracia. Pelo contrário, o que se tem escala é esta a situação da maior par-
Dessa forma, não é suficiente constatado em acontecimentos recen- te dos países da região
que exista crescimento econômico tes é que a crescente participação dos (Latinobarómetro, 1996-2002). A
ou que as estatísticas oficiais reve- cidadãos tem ajudado a resguardar os questão a ser enfrentada, neste con-
lem aumentos nos rendimentos mé- princípios e valores democráticos, texto, não é se essas instituições são
dios anuais das pessoas. O desen- possibilitando a alternância de poder ou não importantes (obviamente que
volvimento econômico-social vai dentro das regras do Estado de Direi- o são), mas como os cidadãos as per-
além de meras estatísticas e envol- to. Até quando isto continuará a ocor- cebem. O problema das democracias
ve a dimensão subjetiva, invisível rer é uma incógnita, pois o desgaste poliárquicas, portanto, não é a der-
no cotidiano das pessoas. É a ne- da democracia representativa e de rubada dos regimes, mas a sua ero-
gligência desta dimensão que com- suas instituições tem aumentado es- são e enfraquecimento gradual por
promete o entendimento de fatores truturalmente. parte daqueles que foram eleitos para
que agem indiretamente no compro- Estas observações indicam que dirigi-la.
metimento da estabilidade dos paí- há, de fato, uma crise da democracia Num segundo grupo, podem ser
ses em desenvolvimento. Em mui- representativa contemporânea, se identificadas as chamadas “teorias
tos casos, os dados oficiais não por crise se entende a incapacidade radicais da democracia”, que defen-
mostram a precariedade da situação das instituições vigentes em resol- dem uma maior valorização do ser
social da maioria da população, o ver as contradições geradas por um humano na política. O cidadão, se-
crescente desenvolvimento de um sistema político. Por exemplo, e em gundo esta linha de análise, não se
senso de insegurança e incerteza em apoio a esta tese, pode-se constatar reduz a ser meramente um especta-
relação ao futuro e as diversas for- que as agências tradicionais de me- dor da política, mas deve se envol-
mas de fratura social. Neste contex- diação política (partidos políticos) ver ativamente na determinação das
to, não se pode analisar a questão não são vistas como entidades políticas públicas e do processo
democrática na América Latina sem confiáveis de intermediação política decisório do seu país. Esta postura,
levar em conta a dimensão social. entre Estado e sociedade. Os parla- muitas vezes, é banalizada por
A evidência histórica e empírica mentos não são considerados cor- questionamentos de natureza técni-
dos países da América Latina mostra pos de representação da sociedade ca sobre a viabilidade de proporcio-
que reduzir o problema da democra- perante os executivos. Neste senti- nar mecanismos de participação para
cia a uma dimensão minimalista é alta- do, segundo Huntington (2000, p. 3), todos. Parece-me suficiente dizer que
mente deletério para esses países. De “é provável que as ameaças para as tais posicionamentos estão baseados
fato, é uma falácia. A frustração dos democracias da terceira onda não na interpretação distorcida que se faz
cidadãos ocorre tanto em épocas de emanem de generais ou de revoluci- do que os autores desta abordagem
crescimento econômico quanto em onários, mas dos próprios participan- defendem, ou seja, criar condições
épocas de estagnação da economia, tes do processo democrático”. Tal que possibilitem ao cidadão partici-
pois o que tem ocorrido é uma decep- situação ocorreria pelo fato de que par de forma crítica e consciente.
ção das pessoas com relação às suas os líderes e grupos políticos que ga- Entre as principais abordagens
expectativas, geradas por promessas nham as eleições, quando no poder, que valorizam a ingerência cidadã na 87
que nunca se cumprem. De maneira manipulam os mecanismos democrá- política estão a democracia deli-
geral, o crescimento econômico ou sua ticos para limitar ou comprometer a berativa de Habermas (2003), a de-

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mocracia radical de Mouffe (2000), a De maneira geral, as sociedades que ocorre na realidade. Este con-
democracia reflexiva de Giddens latino-americanas têm conseguido texto propiciou o surgimento de teo-
(2000) e a democracia participativa implementar métodos poliárquicos, rias cuja orientação caracterizava
de Pateman (1992). porém, ao mesmo tempo, têm conse- países como mais ou menos demo-
As linhas de pensamento das te- guido desenvolver a capacidade de cráticos, dependendo da qualidade
orias radicais em muito têm contri- paralisar o legislativo e manter o ju- da democracia analisada em termos
buído para identificar os entraves da diciário num papel secundário. Igual- de cumprimento de liberdades bási-
participação cidadã bem como têm mente se constata a habilidade des- cas e consideração da dimensão so-
proposto mecanismos alternativos ses regimes em manipular a opinião cial na implementação de políticas
de participação política (deliberação, pública. Nesse processo se verifica públicas.
reflexividade e participação social). uma velha tradição latino-americana: Nesta linha de pensamento, iden-
Entretanto, tais teorias têm se mos- no discurso e na retórica, há um tificam-se as “democracias iliberais”
trado limitadas na sua aplicação em comprometimento, por parte dos (Zakaria, 1997), a “democracia pre-
virtude da excessiva simplificação postulantes a cargos políticos, com datória” (Diamond, 2001) e a “de-
que produzem da realidade latino- a participação política, com o mocracia defeituosa” (Puhle, s/d).
americana e os pressupostos por empoderamento dos cidadãos e com No âmago destas teorias, está a idéia
elas aceitos, principalmente os que a redistribuição do poder, mas, na de que as democracias contempo-
dizem respeito à igualdade de condi- realidade, alertam que os riscos da râneas nos países em desenvolvi-
ções socioeconômicas e a raciona- instabilidade se localizam no proces- mento atravessam crises de
lidade das pessoas. so competitivo e, desta forma, con- credibilidade e legitimidade, geradas
Não por acaso, surgem, na virada seguem desviar a opinião pública por uma situação onde o regime de-
do século, teorias que, partindo do para outras esferas que não a demo- mocrático convive com práticas
pressuposto da hegemonia da demo- cratização do estado. oligárquicas enraizadas no Estado,
cracia representativa formal, passam Este tipo de sistema político que descaracterizando a essência demo-
a não questionar sua inevitabilidade, prevalece na virada do século não crática. Para sanar este problema, é
mas se voltam para análises sobre confirmou aquilo que dele se espe- necessário, segundo essas perspec-
sua qualidade. Este é o caso de teo- rava da institucionalização da cha- tivas, democratizar não só o Esta-
rias que estão num terceiro bloco e mada “terceira onda da democracia” do, mas também a sociedade. A esse
que evidenciam aspectos formais de (Huntington, 1994). Ou seja, as ex- respeito Crouch (2004) sugere que
democracias representativas (a exis- pectativas que se criaram em virtu- está em andamento a implantação
tência de uma constituição; separa- de do colapso da ideologia socialis- de uma sociedade pós-democrática,
ção de poderes; eleições competiti- ta e da institucionalização do pen- segundo o autor, nesse modelo,
vas e algum grau de liberdades polí- samento único do “fim da história” embora as eleições existam com o
ticas concedidas aos cidadãos) a respeito de que a solução social objetivo de assegurar a alternância
concomitantemente com mecanismos da democracia contemporânea, prin- no poder, o debate eleitoral público
de proteção das pressões populares. cipalmente nos países em desenvol- se limita a um espetáculo que está
Para alguns autores, tal situação se vimento, se resumia a simplesmente estreitamente controlado e
caracteriza por um novo semi- pensar em formas, instituições, me- gerenciado por grupos rivais de pro-
autoritarismo. A matriz básica dessa canismos, regras e procedimentos fissionais especializados na área de
abordagem é que, embora uma com- que sanassem os déficits do modelo persuasão e que se restringe a um
binação de fatores externos, bem como democrático poliárquico, não têm se pequeno número de assuntos sele-
pressões criadas internamente, te- mostrado válidas, pois as novas cionados pelas referidas equipes.
nham limitado, em algum grau, a ca- poliarquias não tocam em assuntos Para Crouch (2004, p. 11), “la mayor
pacidade dos regimes em impor suas cruciais, como por exemplo: em que parte de los ciudadanos desempeña
políticas unilateralmente e de forma medida os governos respondem as un papel pasivo, inactivo e incluso
autoritária, tais pressões não têm sido demandas dos cidadãos ou são res- apático, y responde únicamente a
suficientes para gerar uma nova dis- ponsáveis pelos seus atos? Nos pa- las señales que se le lanzan”. Tal
tribuição de poder. Como resultado, íses da América Latina, os procedi- situação explicaria a sensação ge-
de maneira geral, as reformas, tanto mentos formais que deveriam estar neralizada de decepção por parte
88 econômicas quanto políticas, são in- subjacentes ao funcionamento das dos cidadãos em relação à política e
completas, e a manipulação das no- instituições políticas, de maneira ge- a desmotivação para participar dela.
vas instituições é traço comum. ral, não têm conseguido explicar o Se bem que essas explicações se-

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Sem confiança a democracia se torna inerte

jam conceitualmente atraentes, pou- bilizados para a população se fra- inclusão da grande maioria de cida-
co ou nada esclarecem sobre os me- gilizam cada vez mais. dãos. Tal modalidade política de fun-
canismos que poderiam possibilitar cionamento seria também utilizada
alcançar uma situação de democra- Características da durante o processo de industrializa-
tização horizontal na relação Esta- democracia inercial ção do continente latino-americano.
do-sociedade. Durante o período dos governos
Dessa forma, não faltam quadros É inegável que, nos últimos anos, militares, o Estado passou por uma
de referência teórica para analisar os a América Latina passou a integrar o fase mais intervencionista dentro de
déficits democráticos da América grupo de países onde a democracia uma orientação de industrialização
Latina. De fato, na medida em que o procedimental se consolida. Este fato acelerada. No entanto, as modalida-
enfoque predominante na ciência faz parte do movimento de democra- des deletérias tradicionais continua-
política latino-americana adere aos tização global examinado por vam a estar presentes nas praticas
princípios poliárquicos, a literatura Huntington no seu livro A Terceira políticas cotidianas. O patrimo-
sobre esta temática prolifera na dire- Onda (1994). Tal situação ocorre no nialismo ressurge com força, pois as
ção de pensar exclusivamente regras momento em que se institucionaliza, fronteiras entre o público e o priva-
e procedimentos como a única também, o mercado como eixo regu- do se tornam muito tênues. Simulta-
tecnologia capaz de gerar prosperi- lador de todas as atividades políti- neamente ao aprofundamento da ca-
dade econômica, social e política. cas e econômicas. pacidade intervencionista do Esta-
Neste sentido, está saturada de es- Imaginava-se que um sistema do na área econômica, no campo
tudos que propõem mecanismos téc- onde o mercado regula as relações político as formas de participação
nicos de solução dos problemas so- sociais se orientasse na direção de política também experimentam uma
ciais. Num cenário com essas carac- sanar os déficits não só econômicos, transformação. No caso brasileiro,
terísticas, o poder político é conce- mas fundamentalmente sociais, ao mas generalizável para a América
dido crescentemente aos grupos propiciar mecanismos mais modernos Latina, neste período, segundo
política e economicamente podero- de fiscalização da ação do Estado. Schwartzman (1970), se estabelece a
sos; dessa forma, a possibilidade de O Estado na América Latina, de representação-cooptação. Este pro-
pensar e implementar políticas pú- forma geral, até a década de 1950, cesso apresenta duas modalidades
blicas igualitárias por meio da operava como entidade que, além de de participação política, a primeira,
redistribuição do poder e reduzindo manter a ordem capitalista, atuava no de baixo para cima, conduzindo os
a concentração de renda é mínima. interior do sistema produtivo nacio- esforços de representação política e
Ignorar ou negligenciar fatores de nal para organizar a acumulação de a segunda, de cima para baixo, le-
caráter cultural na compreensão dos capital, constituindo-se, dessa for- vando à cooptação.
déficits democráticos na América ma, não apenas num agente prote- Segundo O’Donnell (1990), neste
Latina conduz, em minha opinião, ao tor, regulador e promotor das ativi- período implantou-se o estado bu-
desenvolvimento de um conhecimen- dades econômicas, mas também em rocrático autoritário nos países da
to reativo (somos dependentes e re- agente econômico direto do proces- América Latina, produzindo um novo
agimos a tudo que é produzido ex- so de industrialização. O Estado, tipo de corporativismo denominado
ternamente) e pouco propositivo neste sentido, era o indutor das polí- “corporativismo segmentário
(não desenvolvemos modelos a par- ticas para o desenvolvimento da re- bifronte”, que significava o
tir de nossa realidade). Em tais cir- gião. Uma das principais caracterís- surgimento de uma nova estrutura
cunstâncias, a discussão em torno ticas deste tipo de Estado é a sua corporativa de articulação de inte-
da democracia na América Latina se capacidade de articular os interesses resses socioeconômicos junto ao
reduz à antiga dicotomia democra- das elites dentro do aparelho estatal Estado, com duas dinâmicas de fun-
cia-não democracia, sem levar em sem alterar a estrutura social, a qual cionamento de acordo com as clas-
conta que, em determinadas realida- mantinha a grande maioria da popu- ses e setores sociais: por um lado, a
des, é necessário produzir elemen- lação à margem das políticas públi- modalidade estatizante e, por outro
tos novos para dinamizar a constru- cas. Não eram incomuns as práticas lado, a privatista. O corporativismo
ção democrática. Se isto não for fei- de natureza clientelística e de estatizante consiste na conquista,
to, os debates sobre a democracia se cooptação. Por meio dessas práticas por parte do Estado, de organizações
dão num sentido inercial, pois, en- políticas, os interesses econômicos da sociedade civil com o objetivo de 89
quanto os procedimentos formais das minorias poderosas eram preser- dotá-las de poder fiscalizador das
proliferam, os instrumentos disponi- vados e ampliados às custas da não ações públicas. Por sua vez, o

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corporativismo privatista, que con- identidades coletivas orientadas para to dos não organizados num jogo de
sistia na abertura de áreas fortalecer o sistema democrático. soma zero.
institucionais do próprio Estado à re- Nesse contexto, o padrão tradici- Dessa forma, estão configuradas
presentação de interesses organiza- onal de funcionamento dos partidos as condições econômicas que pos-
dos da sociedade civil, tenderia a fun- políticos, que privilegiava o sibilitam compreender a condição de
cionar para as organizações de classe clientelismo, o personalismo e o inércia da democracia latino-ameri-
dos grupos dominantes da socieda- patrimonialismo, altera sua função, cana: cabe ressaltar que por inércia
de civil, implicando a privatização de mas não sua matriz, que praticamente se entende a reprodução de padrões
algumas áreas estatais. se manteve inalterada. Embora não se de comportamento do passado no
Com a implantação do modelo possa negar que o aumento do gasto presente (Resende, 1985). Ou seja, a
neoliberal, o Estado deixa de ser público tivesse beneficiado, de algu- memória do passado age como fator
indutor do desenvolvimento, trans- ma forma, os pobres, as reformas eco- estrutural na constituição de um tipo
ferindo essa tarefa para o mercado nômicas beneficiaram principalmente de cultura política pouco afeita a se
ou a iniciativa privada. Tal postura as classes altas sem gerar crescimen- envolver em assuntos de natureza
justificava-se na suposta ineficiên- to ou empregos. A classe trabalhado- política. Nesse cenário, as autorida-
cia do Estado e suas práticas ra e, pontualmente, a classe média têm des responsáveis tentam introduzir
corporativistas. Dessa forma, uma experimentado uma queda acentuada novas medidas para romper com a
das razões da crise de gover- nos seus salários, refletindo-se na inércia, porém, como são ineficazes,
nabilidade dos anos 1980 é a própria queda da qualidade de vida, produ- acabam contribuindo para o apro-
crise do Estado, que tem origem na zindo, ao mesmo tempo, um senso de fundamento da mesma. Compreen-
sua expansão desordenada durante insegurança e uma crescente oposi- de-se, assim, por que procedimen-
o regime político autoritário e foi agra- ção às reformas de mercado. tos poliárquicos (novo) não conse-
vada pela crise do déficit público. Esta situação não é novidade le- guem derrubar práticas políticas in-
Cabe ressaltar que, embora o re- vando-se em conta a forma como tan- formais (antigo), pois: (1) o cresci-
gime autoritário tivesse sido gradu- to os teóricos estatistas (defendem mento acelerado do desemprego e a
almente esvaziado do seu conteúdo a intervenção do Estado) quanto os incerteza no futuro se mantêm
autoritário, a ordem jurídico-política neoliberais (defendem a supremacia inalterados ao longo do tempo e não
se manteve essencialmente a mesma do mercado) se posicionam em rela- conseguem resolver o problema da
dos regimes de exceção. Os meca- ção ao papel do cidadão na política. ingerência política das massas, a qual
nismos institucionais não consegui- Tanto um quanto outro não consi- é vista como desnecessária; (2) os
ram alterar as políticas estatais que dera importante ou essencial o papel entraves gerados pelo estatismo
continuaram sendo monopolizadas do cidadão ou da sociedade civil no numa determinada época e o
pelos executivos latino-americanos. desenvolvimento econômico ou po- neoliberalismo noutra época
Tal situação irá estabelecer um pa- lítico de uma nação. Os estatistas desestimulam a organização da soci-
drão de quase subjugação dos argumentam que uma sociedade ci- edade e desmotivam a participação
legislativos àquilo que um autor bra- vil vigorosa gerará demandas que dos cidadãos na política, e (3) a au-
sileiro, mas aplicável à região latino- não poderão ser atendidas pelo Es- sência de uma proteção social efici-
americana, denomina de hipertrofia tado, e, nesse processo ameaçará as ente por parte do Estado (para ilus-
presidencialista (Nunes, 1997). Em- instituições já precárias, levando a trar esta situação podem se tomar
bora as reformas políticas im- um processo de ingovernabilidade. como exemplo o México e a Argenti-
plementadas ampliassem o sistema Os neoliberais também consideram na, onde mais de 60 e 80%, respec-
de pesos e contrapesos, na prática que uma participação política mais tivamente, dos desempregados não
prevaleceu o domínio do executivo. ativa e uma sociedade civil organiza- recebem nenhum beneficio da pre-
De fato, na sua maior parte, os parti- da e protagônica podem gerar uma vidência social). Imagina-se que não
dos políticos deixaram as questões situação onde um grupo que procu- sejam diferentes nos outros países
de âmbito nacional para o executivo ra se beneficiar de uma situação pos- da região (4) a incapacidade tanto
decidir; sua atenção se voltou pre- sa transferir recursos materiais para da iniciativa privada quanto do Es-
ponderantemente para lutas eleito- outros segmentos da sociedade por tado em gerar mais empregos – e
rais para alcançar o poder. Pode-se meio da manipulação dos mercados que, quando criados, são de baixa
90 afirmar que, nessas circunstâncias, ou das políticas do Estado. Nesse qualidade e temporários – e (5) em-
os partidos começam a perder sua sentido, as coalizões recompensam pobrecimento gradual e linear da
identidade como catalisadores de os grupos organizados em detrimen- classe média.

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Sem confiança a democracia se torna inerte

Ainda sob a perspectiva da eco- ráter concentrador e catalisador de no-americanos de investir maciça-
nomia, constata-se uma oscilação políticas públicas que mantiveram as mente na área social, comprometen-
padronizada, ao longo do tempo, na maiorias em condições de margi- do a qualidade de vida dos cidadãos.
qual períodos de estabilidade são nalidade social. Um dos elementos A queda da qualidade de vida pode
seguidos por períodos de crises, que contribui decisivamente para a ser verificada por dois indicadores:
agravadas, em maior ou menor grau, manutenção de um sistema desigual a saber, (a) a evolução do desempre-
pelas crises de caráter sistêmico. O diz respeito ao crescimento da dívi- go urbano e (b) a evolução da renda
essencial a ser destacado, neste sen- da externa, conforme pode ser visto média anual.
tido, é a dificuldade dos países lati- na Figura 2. Como pode ser observado na Fi-
nos em estabelecer bases sólidas de Os dados da Figura 2 sinalizam gura 3, a taxa de desemprego urba-
crescimento econômico que propor- para o constrangimento estrutural no, ao longo dos últimos dez anos,
cionem avanços sociais duradouros que uma dívida externa crescente praticamente se manteve estagnada
e que evitem a crescente exclusão pode ter na manutenção de desigual- no mesmo patamar (na média 11%).
social. Nessas circunstâncias, a di- dades sociais, por meio de mecanis- No que diz respeito à evolução de
mensão econômica manteve seu ca- mo que impossibilita os países lati- renda média anual, à exceção de Chi-
le e Colômbia, que experimentaram
modestos aumentos, os demais paí-
ses mostram uma tendência de que-
da salarial.
Temos, assim, mais dois elemen-
tos que tipificam a democracia inercial
latino-americana: (1) políticas econô-
micas que não favorecem as massas
excluídas e que mantêm o desempre-
go inalterado e estagnado, e (2) a
estagnação da renda média anual dos
latino-americanos, produzindo uma
queda na qualidade de vida.
No que diz respeito à perspecti-
va cultural, os cidadãos latino-ame-
ricanos, ao longo de sua história,
Figura 2. Evolução da Dívida Externa na América Latina (1995-2004). estiveram expostos a condicio-
Fonte: Balance preliminar de las economias da América Latina y el Caribe.
nantes externos que incidiam na cas-
CEPAL/Naciones Unidas, 2004.
tração cultural, por meio de processo
de homogeneização de valores polí-
ticos e culturais que, em muitos ca-
sos, nada têm a ver com a realidade
latino-americana. Constata-se uma
perda de identidade nacional, favo-
recendo valores de mercado e de
consumo que incidem na configu-
ração de uma cultura política híbri-
da, na qual se institucionaliza um
comportamento de resignação com
hostilidade em relação à política.
Nesse contexto, o modelo da demo-
cracia inercial se constitui com (1)
uma cultura política passiva e (2) a
ausência de uma base normativa de
Figura 3. Evolução da renda média anual e evolução do desemprego
urbano. apoio à democracia. Este modelo 91
Fonte: Balance preliminar de las economias da América Latina y el Caribe. pode ser diagramado da seguinte
CEPAL/Naciones Unidas, 2004. forma:

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Marcello Baquero

meio do processo de socialização polí-


tica. Do ponto de vista da abordagem
da cultura política, a confiança é uma
extensão da confiança interpessoal,
aprendida na infância e projetada para
as instituições políticas.
As teorias institucionalistas, por
sua vez, postulam que a confiança
política é endógena. A confiança
institucional tem a ver com as expec-
tativas positivas da utilidade que as
instituições geram se funcionam sa-
tisfatoriamente, portanto, a confian-
ça, nesta perspectiva, é uma conse-
qüência e não uma causa do desem-
penho institucional. A confiança,
Figura 4. Modelo de Democracia Inercial. segundo esta linha de raciocínio, está
baseada na racionalidade, fundamen-
O modelo apresentado na Figura a influência que a ausência de confi- tada nas avaliações que os cidadãos
4 busca ilustrar a retroalimentação ança nas instituições políticas po- fazem do desempenho das institui-
causal entre fatores econômicos, deria ter na constituição de uma cul- ções. Assim, instituições que funci-
políticos, institucionais e contextuais tura política pouco afeita nor- onam bem geram confiança e, quan-
na manutenção de um sistema demo- mativamente à democracia. Presen- do não funcionam efetivamente, ge-
crático que pode evoluir em termos temente a confiança e a cooperação ram desconfiança e ceticismo.
de leis e procedimentos, mas que, a têm se transformado em conceitos- Da perspectiva da teoria da esco-
médio e longo prazo, tende para uma chave nos debates sobre as possibi- lha racional (Levi, 1998; Hardin,
regressão a padrões de comporta- lidades da democracia prosperar na 2002), identificam-se também estu-
mento histórico que não enfrenta os América Latina. Vista dessa forma, a dos que examinam a questão da con-
problemas sociais com eficiência. É confiança é considerada crítica para fiança baseados no pressuposto da
esse padrão de interação que, em a democracia, pois estabelece cone- ênfase das pessoas no interesse in-
nossa opinião, propicia a existência xões entre os cidadãos e as institui- dividual. Para Hardin (2002), por
de uma democracia que se moderni- ções que os representam, aumentan- exemplo, a confiança é uma crença
za na dimensão poliárquica, mas que do a legitimidade do governo demo- ou uma expectativa, portanto, pode
pouco ou nada evolui na dimensão crático (Mishler e Rose, 2001, p. 30). ser diferenciada de cooperação, que
social, ou seja, é uma democracia Assim, em sistemas políticos onde a é uma forma de ação tomada na base
inercial. Numa democracia com es- credibilidade das instituições e dos da confiabilidade. Este
sas características é inevitável que a governantes é baixa, como é o caso posicionamento é de difícil compre-
desconfiança dos cidadãos na políti- dos países latino-americanos, a pos- ensão dentro da teoria da cultura
ca e nas instituições assuma uma na- sibilidade da democracia prosperar é política, principalmente no que diz
tureza estrutural, o que pode compro- baixa mantendo-se em estado inercial. respeito à dimensão que enfatiza a
meter sua solidificação no futuro. A dimensão da confiança em rela- confiança difusa e interpessoal. Por
ção à legitimidade e estabilidade da exemplo, para Pye (1965), “culturas
A dimensão da confiança democracia já era discutida por auto- políticas são constituídas na base da
res clássicos na ciência política, entre fé fundamentada no princípio que é
Em virtude da prevalência de uma os quais Almond e Verba (1965) e possível confiar e trabalhar com co-
situação de democracia inercial e que Inglehart (1999). Estes autores que legas ou na expectativa de que se
não foi resolvida pela perspectiva desenvolveram a teoria da cultura deve desconfiar da maioria das pes-
institucionalista, cientistas sociais política propõem que a confiança nas soas e que pessoas estranhas são
têm desenvolvido esforços no sen- instituições políticas é um fator perigosas”. A diferença com a pers-
92 tido de rever os supostos males da exógeno que se origina fora da esfera pectiva proposta por Hardin (2002) é
associatividade na construção demo- política e em crenças enraizadas nas de que a confiança é uma expectati-
crática contemporânea e, sobretudo normas culturais e transmitidas por va ou crença e não uma orientação

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Sem confiança a democracia se torna inerte

cultural difusa que resulta do pro- raciocínio, levará à consolidação de de apoio às instituições democráti-
cesso de socialização. Tal posicio- melhores democracias. cas está ausente, aliando-se a uma
namento é consistente com a teoria O tempo para a criação de meca- situação de congelamento (a matriz
da escolha racional e com a dimen- nismos de convivência e prática de- de exclusão social se reproduz em
são institucionalista, que propõe o mocrática é o parâmetro fundamen- contextos diferentes no tempo e no
tratamento das instituições como um tal na distinção entre as duas abor- espaço) das condições econômicas
conjunto de regras que pode levar dagens. Na perspectiva cultural, e sociais, em outras palavras, quan-
os atores a estabelecer um equilíbrio, modificações de valores culturais le- do essas duas condições se movi-
na medida em que a informação pro- vam décadas para acontecer, en- mentam e evoluem inercialmente (em
porciona pistas do provável compor- quanto que para os institucionalistas blocos), cria-se uma assimetria entre
tamento estratégico de outros ato- não é necessário esperar muito tem- as demandas crescentes da socieda-
res. Os autores que subscrevem esta po, basta controlar as práticas cor- de e uma distribuição ineficiente e ine-
perspectiva identificam tanto regras ruptas e promover o crescimento eco- ficaz para atender tais demandas, por
formais quanto informais, atribuin- nômico que a base normativa de parte do Estado.
do pesos diferentes às regras apoio à democracia ocorre. Os dados da Figura 5 são con-
institucionalizadas quanto às regras Independentemente dos postula- tundentes ao mostrar que uma das
informais. No entanto, não parecem dos apresentados tanto pela teoria características da política na virada
se questionar por que as regras in- culturalista quanto pela insti- do século na América Latina se ori-
formais prosperam e se mantêm tucionalista, os dados empíricos refe- enta no sentido de uma desvaloriza-
inalteradas em contextos onde a si- rentes às predisposições dos latino- ção da forma tradicional formal de
tuação econômica é precária e americanos em relação às instituições se fazer política, a qual incide na
excludente. Nesse sentido, a teoria políticas mostram uma tendência de constituição de uma cultura política
da escolha racional não possui um anomia, alienação, desconfiança e que está longe de ter as virtudes de
método capaz de investigar a ceticismo, agravada por um processo uma cidadania ativa e participante,
internalização de valores em geral ou crescente e recente de maior pelo contrário, em muitos casos se
a moralidade cívica em particular. desengajamento da política tradicio- verifica a institucionalização de pa-
Dessa forma, em nossa opinião, a nal que sugere uma estagnação polí- drões de comportamento que se as-
compreensão do como a confiança tica ou, como se argumenta neste ar- semelham ao estado de natureza
funciona e se origina é de relevância tigo, uma democracia inercial. Como hobesiano. Tal diagnóstico, que não
fundamental para avaliar as implica- pode ser observado na Figura 5, a é novo, exige uma reflexão sobre
ções para o estabelecimento de de- desconfiança mostra um aumento sig- mecanismos que proporcionem sub-
mocracias duradouras e socialmente nificativo, principalmente no que diz sídios alternativos aos ortodoxos,
eficientes. Por exemplo, por que os respeito aos partidos políticos, insti- para um maior e mais eficaz
latino-americanos parecem demons- tuição-chave de intermediação políti- envolvimento dos cidadãos na polí-
trar uma predisposição permanente ca entre Estado-sociedade. Num sis- tica. Tal mecanismo, acredita-se,
de não confiança nas instituições tema político onde a base normativa pode ser o capital social.
políticas? É o legado histórico que
estabeleceu formas autoritárias de
relações sociais importantes? As ati-
tudes de caráter autoritário perma-
necem, ao longo do tempo, a despei-
to da institucionalização de procedi-
mentos poliárquicos? Estas são ques-
tões dentro do âmbito da perspecti-
va da cultura política. Na abordagem
institucionalista, a desconfiança nas
instituições políticas é vista como
resultado da pouca experiência dos
países com governos democráticos.
A solução deste dilema está com o Figura 5. Grau de confiança nas instituições políticas na América Latina
93
tempo e com o aprendizado de testar (1997-2003).
e errar que, segundo esta linha de Fonte: Latinobarometro: 1997-2003.

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Marcello Baquero

Democracia inercial e convergem para o principio de que pertencer a associações e participa-


capital social esse termo implica um conjunto de ção política, têm mostrado associa-
expectativas institucionalizadas de ções pouco significativas (Navarro,
Tendo em vista o cenário global que as pessoas serão recíprocas em 2002; Uslaner, 2002). Dessa forma,
que sinaliza para a institucionalização atividades cooperativas. A teoria do não haveria evidência suficiente de
de atitudes e comportamentos de capital social envolve, fundamental- que capital social determina a confi-
desvalorização das instituições po- mente, dois componentes: (1) redes ança política.
líticas adicionais e um afastamento sociais estabelecidas por envol- Tal problema seria atribuído ao fato
crescente das pessoas da arena po- vimento em associações formais ou de que as raízes da confiança política
lítica, a teoria de capital social surge informais e (2) normas de reciproci- seriam as mesmas que as da confian-
como mecanismo que poderia pro- dade e confiança entre os cidadãos. ça social. Basicamente se argumenta
porcionar as bases de um resgate e Esta perspectiva é que coloca a idéia que a confiança política, da mesma
revigoramento da participação dos de confiança num outro patamar de forma que a confiança social, está
cidadãos na política. O capital soci- análise, pois, segundo Norris (2002), baseada e é produzida pela confiança
al, acreditam seus defensores gera conseqüências políticas de interpessoal gerada por um processo
(Putnam, 1996; Coleman; 1988: interações sociais não políticas. Todo de socialização política na infância,
Kliksberg, 2000; Baquero, 2003), e qualquer envolvimento em associ- bem como por normas culturais.
pode mobilizar as pessoas, por meio ações de todo tipo é considerado No caso da América Latina cons-
de um processo de empoderamento, como treinamento em habilidades cí- tata-se uma situação paradoxal, pois,
a se interessar e se envolver na polí- vicas que podem auxiliar no por um lado, se enfatiza a importância
tica protagonicamente, buscando, revigoramento da vida política, por de aderir a uma vida partidária disci-
dessa forma, a construção de identi- meio da constituição da confiança plinada, ao mesmo tempo que a práti-
dades coletivas de base que auxili- recíproca, elemento este que é visto ca política conduz ao individualismo
em e complementem os mecanismos como sendo fundamental para a es- e à atomização do sujeito. Existem cen-
tradicionais de fiscalização dos tabilidade democrática (Putnam, tenas de obras que celebram a tercei-
gestores públicos, através de uma 2000). ra onda da democracia e as virtudes
fiscalização societária (Smulovitz e As controvérsias em relação à da cidadania, mas pouco ou nada se
Peruzzotti, 2000). Fiscalização importância estratégica da variável faz para colocar em prática ações de
societária é confiança na construção de capital emancipação social e política.
social e, conseqüentemente, da legi- Igualmente, outro aspecto funda-
“un mecanismo de control de las au- timidade democrática de uma nação mental diz respeito à qualidade das
toridades a través de las actividades têm diminuído substancialmente. lideranças de uma nação. Uma das
de asociaciones de la sociedad civil, Sabe-se que a desconfiança pode características que tem se
movimientos ciudadanos y medios de
gerar crises políticas de longo alcan- institucionalizado, nos últimos anos,
comunicación. Básicamente, particu-
ce, impactando significativamente a é a ênfase num discurso social pré-
lariza a un conjunto heterogéneo de
iniciativas por parte de los actores estabilidade de um país. Um dos de- eleitoral e uma prática neoliberal pós-
mencionados que demandan legalidad safios a ser enfrentado pelas socie- eleição. Tais contradições, ao longo
a las instituiciones gubernamentales dades em desenvolvimento no futu- do tempo, minam a crença dos cida-
así como también están abocados a ro será o de conquistar ou recon- dãos nos líderes políticos. Passa-se,
denunciar los actos ilegales” quistar a confiança dos cidadãos na portanto, a questionar a competên-
(Rodrigues, 2003, p. 1). política e, por meio desses mecanis- cia, integridade e capacidade das li-
mos, aliados à existência de institui- deranças. Em tal contexto, a anomia
Dessa forma, as molduras consti- ções eficientes e um sistema global é inevitável (Renshon, 2000). Não é,
tucionais formais proporcionam a mais justo, entrar no caminho da de- portanto, em minha opinião, surpre-
base fundamental do funcionamen- mocracia socialmente orientada. sa a constatação de elevados índi-
to da democracia, mas é o No entanto, a idéia de que ces de instabilidade política nesses
engajamento cívico, segundo a teo- interações sociais não políticas an- países, que compromete a “qualida-
ria de capital social, que possibilita a tecedem a revitalização da política de da democracia”.
constituição de uma democracia so- tem enfrentado críticas de diferentes Isto significa que se, por um lado,
94 cialmente eficiente. tipos. Por exemplo, pesquisas as instituições formais de mediação
Existem diferentes concepções do empíricas, na sua tentativa de esta- política têm absorvido os conflitos
que seja capital social, mas todas belecer correlações entre as variáveis societários, por outro, isso não tem

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Sem confiança a democracia se torna inerte

significado que tenham conseguido Cabe ressaltar que, no caso da A integração dos três elementos
resolvê-los. Em muitos casos, o efei- América Latina, quando se fala em de capital social: confiança
to tem sido o contrário, as institui- solidez democrática, não se refere ex- interpessoal, participação cívica e
ções políticas têm agido no sentido clusivamente a uma estabilidade confiança no governo e confiança
de agravar problemas sociais histó- poliárquica ou a método democráti- no governo, pode ser diagramada
ricos. Por outro lado, a cultura políti- co, mas fundamentalmente ao atendi- como na Figura 6.
ca apontada por vários autores lati- mento mínimo das necessidades ma- O modelo apresentado na Figura
no-americanos (Casanova, 1995) é de teriais da população (moradia, educa- 6 sugere que a construção de capital
natureza passiva e pouco ção, transporte e saúde). Se essas social é um processo que envolve
participativa. Ademais, os cidadãos, necessidades não são atendidas, na várias dimensões funcionando si-
ao longo da história, não têm demons- minha opinião, não se pode falar em multânea e reciprocamente. Deve se
trado predisposições de apoio incon- democracia socialmente orientada. ressaltar que não se está propondo
dicional às regras e normas democrá- Nesse sentido, o capital social é um teorema universal de que todo e
ticas. Nas últimas décadas, o diagnós- elemento essencial num processo qualquer tipo de associação termi-
tico histórico encontrou amparo democrático. Se este conceito pode na, necessariamente, na produção de
empírico, pois a grande maioria das explicar a maior parte da variação dos capital social. Existem muitos exem-
pesquisas realizadas sobre a nature- êxitos do desempenho democrático plos onde organizações constituídas
za cética dos latino-americanos em é outra questão. Assim, embora exis- em torno de laços verticais fortes
relação à política e às instituições tem tam dúvidas quanto aos indicadores podem gerar a manutenção de rela-
sido maciça (Baquero, 2000). empíricos ou à natureza antecedente ções clientelísticas e corruptas, ou
Nesse contexto, a teoria de capi- ou conseqüente de capital social e que grupos constituídos (rent
tal social aparece como um elemento democracia, o que não parece gerar seekers) com o objetivo de ganhar
importante para explicar por que al- mais controvérsias é a importância vantagens em relação a grupos pou-
gumas sociedades persistem e têm de capital social para o sucesso de- co organizados acabem tendo suces-
sucesso democrático, sugerindo que mocrático, no caso latino-americano, so. Tal ocorrência, numa região onde
não são as crenças dos cidadãos nem a resolução da ação coletiva. Atual- a dimensão material está longe de ser
as instituições políticas, mas as rela- mente se fala na importância de de- resolvida e o modus operandi dos
ções entre eles que determinam as senvolver um enfoque sinérgico na cidadãos na política se pauta por
fundações da democracia. As cons- questão democrática, ou seja, além mecanismos informais e à margem das
tituições podem proporcionar a mol- das instituições e do Estado, os va- instituições políticas convencionais
dura legal do funcionamento de um lores culturais são ingredientes es- de mediação política, modalidades
sistema político, e as instituições senciais para a solidez democrática tradicionais de conexão política, é
determinam o contexto, mas, da pers- de um país. prática recorrente.
pectiva da teoria de capital social, é
o envolvimento dos cidadãos que
proporciona as bases da reciproci-
dade mútua que, por sua vez, se cons-
tituem nas bases da construção de-
mocrática socialmente eficiente. Nes-
te sentido, Putnam (2000) sugere que
uma comunidade cívica e capital so-
cial dão suporte para a sociedade ci-
vil e a democracia.
Uma comunidade cívica consiste
de quatro elementos: (1) engajamento
cívico, (2) igualdade política, (3) so-
lidariedade, confiança e tolerância e
(4) estruturas sociais de cooperação
(redes de participação cívica). Na di-
mensão culturalista postula-se a idéia 95
de que uma comunidade cívica forte
é produto de capital social. Figura 6. Modelo de retroalimentação de Capital Social.

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Marcello Baquero

No entanto, a despeito dessas redesenho das ações tomadas. ança das pessoas em relação às ins-
práticas reincidentes, começa a se tituições poliárquicas. Essa descon-
constatar, no âmbito da América La- Estes são alguns instrumentos fiança é alimentada ou se alimenta de
tina, nas últimas duas décadas, os que favorecem o desenvolvimento uma situação econômica que não tem
benefícios coletivos gerados por gru- da capacidade de engajamento, con- propiciado avanços econômicos e
pos que se organizam espontanea- fiança e ação coletiva, ou seja, capi- sociais de caráter distributivo. Pelo
mente e na base da confiança recí- tal social na solução de problemas contrário, os dados da CEPAL apon-
proca. Longe de querer estabelecer pontuais. No entanto, um dos ele- tam para uma situação de queda dos
generalizações, pois a constituição mentos que ainda não foi resolvido rendimentos médios anuais das pes-
de CS é um processo de vivência diz respeito à capacidade da comu- soas bem como a estagnação das ta-
cotidiana, os exemplos mais signifi- nidade em manter esse comporta- xas de desemprego, mantendo uma
cativos são: o estudo de 29 países mento permanente ou institucio- situação de inércia, ou seja, econo-
nos quais se verificou uma correla- nalizado e que resolva a desigualda- mia e política se movimentam por um
ção positiva entre capital social e de social ou introduza transforma- processo de inevitabilidade, sem que
crescimento econômico (Knack e ções sociais estruturais. Este parece existam induções eficientes por par-
Kiefer, 1997; Whiteley, 1997); uma ser o desafio a ser enfrentado no fu- te dos governantes para sanar os
associação positiva entre capital so- turo, pois remete para a questão do crescentes problemas sociais.
cial e aumento nas rendas familiares empoderamento das pessoas com Nessas condições, dificilmente se
na Tanzânia (Narayan e Pritchet, vistas ao estabelecimento de uma poderá institucionalizar uma base
1999); uma correlação entre capital base que possibilite a interação com normativa de apoio à democracia.
social e baixos níveis de evasão no outros atores e instituições. Acredi- Igualmente, os procedimentos utili-
ensino médio nos Estados Unidos to que o diálogo entre a educação e zados para sanar tais problemas, a
(Coleman, 1988); a criação do banco a ciência política poderá possibilitar médio e longo prazo, se revelam in-
de microcrédito Grammen em o encontro de caminhos para a cons- conseqüentes e de pouca efetividade
Bangladesh (Yunus, 2000). No caso tituição de uma base material que na tentativa de constituir uma cultu-
da América Latina, os casos mais torne as desigualdades sociais eti- ra política participativa.
emblemáticos são: a criação da Villa camente toleráveis. Assim a ciência política, nos últi-
El Salvador no Peru e as feiras de mos anos, principalmente a aborda-
consumo popular na Venezuela Conclusões gem que privilegia a dimensão
(Kliksberg, 2000) bem como os mi- institucional, prospera por razoes
lhares de experiências analisadas e Os principais estudos históricos negativas, ou seja, como os procedi-
documentadas no Brasil (RETS). To- de autores latino-americanos que mentos sugeridos dificilmente serão
das estas experiências confirmam alertavam para a necessidade de em- implementados pelos governos de
que a conexão cívica entre cidadãos preender esforços de caráter estru- plantão, a permanência de uma situ-
cresce organicamente por meio da tural que objetivassem promover a ação de instabilidade política propi-
ação das próprias comunidades e não democracia simultaneamente com cia que todo e qualquer estudo seja
pode ser imposto de fora, mas even- reformas estruturais e autonomia do (des)construído, para imediatamen-
tualmente pode crescer para fora; ali- Estado (Furtado, 2000) nesta região, te reconstruí-lo, propondo novos
ás, é este o objetivo de capital social sob pena de experimentar atrasos na procedimentos. Tal processo é clara-
sinérgico. A solução de problemas dimensão social e comprometer a mente conducente à inércia.
poderia ser utilizada como uma das construção de uma democracia ple- Creio que enfrentar o desafio de
estratégias para o desenvolvimento na, têm se mostrado consistentes na propor mecanismos alternativos de
da ação coletiva, envolvendo: virada do século. natureza propositiva é uma tarefa
(1) identificação de um objeti- Os dados que utilizamos neste inadiável para os cientistas políticos
vo coletivo comum; trabalho sinalizam que, do ponto de latino-americanos. Infelizmente, o
(2) assunção da responsabili- vista da teoria de capital social, a re- que se constata é a adesão a um co-
dade pela resolução de tal problema; gião latino-americana se caracteriza nhecimento estabelecido que pouco
(3) identificação e avaliação por baixos estoques desse tipo de ou nada tem a ver com a realidade.
dos possíveis caminhos de ação; capital, se pensado em termos de Por outro lado, a academia latino-
96 (4) planejamento do auxílio de confiança política. Os dados exami- americana parece ainda aderir a uma
especialistas de diferentes áreas; nados mostram um processo cres- reflexão que reproduz o conhecimen-
(5) implementação, avaliação e cente de distanciamento e desconfi- to estabelecido, não abrindo possi-

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Sem confiança a democracia se torna inerte

bilidades para pensar em instrumen- pode ser sanada pontualmente? Tal Civilização Brasileira.
CEPAL. 2004. Balance preliminar de las
tos alternativos de modificação da esforço e prática é ou não é impor-
economias de América Latina y el
situação social precária que estes tante? Creio que um cientista políti-
Caribe. CEPAL/Naciones Unidas.
países enfrentam. co que, no seu cotidiano, constata a COLEMAN, J. 1988. Social Capital in the
As ausências de tais esforços deterioração das relações sociais e a Creation of Human Capital. American
podem ser atribuídas aos custos que precarização material dos cidadãos Journal of Sociology, V.
envolvem posicionamentos de inci- não pode ser indiferente à necessi- 94(Suplement):s95-s120.
dência, pois, como se sabe, é muito dade de tentar incidir na resolução CROUCH, C. 2004. Pos-Democracia.
mais fácil des(construir) do que cons- desses problemas sem comprometer México, Taurus.
DIAMOND, L. 2001. Civic communities
truir, na medida em que a reprodução sua condição de intelectual de pen-
and predatory societies. Intercultural
do estabelecido isenta o autor de res- sar programaticamente. Management Institute, American
ponsabilidade. Igualmente penso ser imperativo University. Washington D.C. May, 10,
No nosso caso, assumimos a res- o desenvolvimento de esforços no p. 1-23.
ponsabilidade de propor mecanis- sentido de integrar perspectivas FITOUSSI, J.P. e ROSANVALLON, P.
mos alternativos que, pensamos, já interdisciplinares no exame dos dile- 1997. A nova era das desigualdades.
têm mostrado sua utilidade num pro- mas da ação coletiva. Grande parte Oeiras, Celta Editora.
FREIRE, P. e SHOR, I. 1986. Medo e ou-
cesso, embora incipiente, de eman- das pesquisas realizada sobre CS si-
sadia: o cotidiano do professor. Rio de
cipação política dos cidadãos, naliza para a necessidade de enten- Janeiro, Paz e Terra.
empoderando-os para uma participa- der com maior profundidade o con- FURTADO, C. 2000. Teoria e política do
ção mais protagônica e de resulta- ceito de empoderamento, particular- desenvolvimento econômico. 10ª ed.,
dos coletivos. mente o que é proposto por Paulo São Paulo, Paz e Terra.
Dessa forma, o conceito de capi- Freire e Shorr (1986). A GIDDENS, A. 2000. A terceira via: refle-
tal social nos parece ser valioso na desconstrução de fronteiras xões sobre o impasse político atual e o
futuro da social-democracia. Rio de
medida em que propõe a conceituais na tentativa de encon-
Janeiro, Record.
reconstituição de mecanismos, tan- trar caminhos mais eficientes na pro-
HABERMAS, J. 2003. Consciência moral
to de confiança interpessoal quanto moção da cidadania, da qualidade de e agir comunicativo. Rio de Janeiro,
de confiança política, para dar mais vida e a construção democrática é Tempo Brasileiro.
efetividade à sociedade civil e tornar um desafio que não pode ser mais HARDIN, R. 2002. Trust and
tangível sua importância no proces- retardado. É nessa direção que a edu- Trustworthiness. New York, Russell Sage
so de construção de uma sociedade cação e a ciência política podem con- Foundation.
democrática. A nossa observação e vergir no futuro, por meio do capital HUNTINGTON, S. 1994. A terceira onda:
a democratização no final do século
desenvolvimento de pesquisas em social.
XX. São Paulo, Editora Ática.
comunidades diferenciadas, aliados HUNTINGTON, S. 2000. Democracia a
a um conjunto de estudos realizados Referências la larga. Revista Etcetera, disponível
no âmbito da região latino-america- em: www.caligrafia.com/caligraf/
na, sinalizam para os efeitos positi- ALMOND, G. e VERBA, S. 1965. The Civic etcetera/181/ensayo/html, acesso em
vos que o trabalho comunitário ba- Culture: Political Attitudes and 20/01/2005.
seado na confiança recíproca tem Democracy in Five Nations. Boston. INGLEHART, R. 1999. Trust, Well-being
Little Brown. and Democracy. In: M. WARREN
tido na solução de problemas que
BAQUERO, M. 2000. A vulnerabilidade (ed.), Democracy and Trust.
afetam o cotidiano dos cidadãos. Cambridge, Cambridge Universtiy
dos partidos políticos e a crise da de-
Não se pretende sugerir que os pro- mocracia na América Latina. Porto Press, p. 88-120.
blemas sociais serão sanados auto- Alegre, Editora da UFRGS. KLIKSBERG, B. 2000. El rol de capital
maticamente pelo uso destas práti- BAQUERO, M. 2003. Capital social y cul- social e de la cultura en el proceso de
cas de envolvimento cidadão, tal afir- tura política en Brasil: posibilidades y desarrollo. In: B. KLIKSBERG e L.
mação seria ingênua, o que se pro- límites. Revista América Latina Hoy, TOMASSINI (comp.), Capital social
33. y cultura: claves estratégicas para el
põe é o enfrentamento dos proble-
BIRDSALL, N. e MENEZES, R. 2005. desarrollo. BID, Fondo de Cultura
mas em duas frentes, a saber: (1) a
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frente estrutural programática e (2) a America. Policy brief. Center for Glo- KNACK, S. e KIEFER, P. 1997. Does So-
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volume 9, número 2, maio • agosto 2005

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Marcello Baquero

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Marcello Baquero
Doutor em Ciência Política pela Florida
State University – EUA, professor do
Programa de Pós-Graduação em
Ciência Política da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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Educação Unisinos

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