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Corpo e sexualidade.

A contribuição de Michel Foucault


Margareth Rago
“O natural não é ser homem ou mulher”

Alexandre Filordi E mais:


A afirmação de sexualidades heréticas a partir de
>>Jesús Martín-Barbero:
Foucault
“Caminhamos rumo a uma
inteligência coletiva”
335
Ano X
Tânia Navarro
“Os comportamentos ligados à sexualidade são
>> Ricardo Bins di Napoli:
“A serenidade é a outra
28.06.2010 históricos”
ISSN 1981-8469 face da política”
Corpo e sexualidade.
A contribuição de Michel Foucault
O corpo e a sexualidade a partir da perspectiva de Michel Foucault é um dos temas discutidos na
edição desta semana da revista IHU On-Line.

A dissolução da identidade é analisada pela historiadora Margareth Rago, da Universidade de


Campinas (Unicamp). De acordo com ela, o pensamento de Michel Foucault ajuda a compreender
a pessoa humana sem catalogá-la através de “etiquetas sexuais”. A também historiadora Tânia
Navarro, da Universidade de Brasília (UnB), constata que as representações sociais do binarismo
sexuado estão longe de desaparecer. O sociólogo Marcos César Alvarez, professor da Universidade
de São Paulo, discute a sexualidade, o poder político e as técnicas disciplinares. Do gozo Ubu ao
gozo degenerado: a firmação de sexualidades heréticas a partir de Foucault é o título do artigo do
filósofo Alexandre Filordi, escrito especialmente para a IHU On-Line. O também filósofo Carlos
Eduardo Ribeiro complementa a edição com o artigo inédito Um ponto de partida das histórias
foucaultianas da sexualidade: corpo e individualidade em o Nascimento da Clínica.

Esta edição é mais um subsídio que prepara o XI Simpósio Internacional IHU: O (des)governo
biopolítico da vida humana, a ser realizado, na Unisinos, de 13 a 16 de setembro de 2010. A pro-
gramação completa do evento pode ser conferida em http://migre.me/SOMA.

O filósofo Ricardo Napoli, da Universidade Federal de Santa Maria, examina o legado de Norber-
to Bobbio, filósofo político italiano, cujo centenário de nascimento foi celebrado recentemente.

Na entrevista “Devoção negra”: os santos e a catequese da Igreja colonial voltada aos negros, o
historiador Anderson José Machado de Oliveira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, analisa
como a preocupação da Igreja Católica, no período colonial, de cristianizar os negros passou por
uma re-elaboração de elementos cristãos para aproximá-los das culturas de matriz africana.

Nesta edição também pode ser lida a entrevista especial com o internacionalmente renomado
teórico da comunicação, Jesus Martín-Barbero, e que vem construindo uma original Teoria da Co-
municação para os tempos de globalização.

Completa a edição o artigo Sociologia do Espírito, Economia Política da Comunicação e luta epis-
temológica de César Bolaño, professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), onde coordena o
Observatório da Comunicação (OBSCOM). Bolaño busca “recuperar o pensamento de Celso Furtado
para o campo da Economia Política da Comunicação, mais especificamente o seu conceito de Cultu-
ra fortemente influenciado pela obra de Karl Mannheim, o célebre autor de Ideologia e Utopia”.

A próxima edição da revista, a última deste semestre, circulará, excepcionalmente, no próximo


dia 7 de julho, quarta-feira.

A todas e todos uma ótima semana e uma excelente leitura!

IHU On-Line é a revista semanal do Instituto Humanitas Unisinos – IHU – Universidade do Vale do
Rio dos Sinos - Unisinos. ISSN 1981-8769. Diretor da Revista IHU On-Line: Inácio Neutzling (inacio@
Expediente

unisinos.br). Editora executiva: Graziela Wolfart MTB 13159 (grazielaw@unisinos.br). Redação: Márcia
Junges MTB 9447 (mjunges@unisinos.br) e Patricia Fachin MTB 13062 (prfachin@unisinos.br). Revisão:
Vanessa Alves (vanessaam@unisinos.br). Colaboração: César Sanson, André Langer e Darli Sampaio, do
Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT, de Curitiba-PR. Projeto gráfico: Bistrô de De-
sign Ltda e Patricia Fachin. Atualização diária do sítio: Inácio Neutzling, Greyce Vargas (greyceellen@
unisinos.br), Rafaela Kley e Cássio de Almeida. IHU On-Line pode ser acessada às segundas-feiras, no
sítio www.ihu.unisinos.br. Sua versão impressa circula às terças-feiras, a partir das 8h, na Unisinos.
Apoio: Comunidade dos Jesuítas - Residência Conceição. Instituto Humanitas Unisinos - Diretor: Prof.
Dr. Inácio Neutzling. Gerente Administrativo: Jacinto Schneider (jacintos@unisinos.br). Endereço: Av.
Unisinos, 950 – São Leopoldo, RS. CEP 93022-000 E-mail: ihuonline@unisinos.br. Fone: 51 3591.1122
– ramal 4128. E-mail do IHU: humanitas@unisinos.br - ramal 4121.
Leia nesta edição
PÁGINA 02 | Editorial

A. Tema de capa
» Entrevistas
PÁGINA 05 | Tânia Navarro: “Os comportamentos ligados à sexualidade são históricos”
PÁGINA 08 | Margareth Rago: “O natural não é ser homem ou mulher”. A dissolução da identidade
PÁGINA 12 | Alexandre Filordi: Do gozo Ubu ao gozo degenerado: a afirmação de sexualidades heréticas a
partir de Foucault
PÁGINA 14 | Marcos César Alvarez: Sexualidade, poder político e técnicas disciplinares
PÁGINA 15 | Carlos Eduardo Ribeiro: Um ponto de partida das histórias foucaultianas da sexualidade: corpo
e individualidade em o Nascimento da Clínica

B. Destaques da semana
» Teologia Pública
PÁGINA 19 | Anderson José Machado de Oliveira: “Devoção negra”: os santos e a catequese da Igreja colonial
voltada aos negros
» Entrevistas da Semana
PÁGINA 23 | Ricardo Bins di Napoli: “A serenidade é a outra face da política”
PÁGINA 27 | Jesús Martín-Barbero: “Caminhamos rumo a uma inteligência coletiva”
» Coluna do Cepos
PÁGINA 34 | César Bolaño: Sociologia do Espírito, Economia Política da Comunicação e luta epistemológica
» Destaques On-Line
PÁGINA 38 | Destaques On-Line

C. IHU em Revista
» Eventos
» IHU Repórter
PÁGINA 42| Gerson Brayer
SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335 
 SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335
“Os comportamentos ligados à sexualidade são históricos”
Na opinião da historiadora Tânia Navarro, Foucault promove uma desconstrução da ima-
gem do corpo “essencializado em torno de um sexo definido por um binarismo incontor-
nável”. Mesmo assim, tais representações permanecem

Por Márcia Junges

D
e acordo com a historiadora Tânia Navarro, “Foucault desconstrói a imagem de um corpo essen-
cializado em torno de um sexo e de uma sexualidade definidos por características próprias de um
binarismo incontornável, fundado no sexo”. Entretanto, avalia a pesquisadora, “as representa-
ções sociais do binarismo sexuado estão longe de desaparecer!” Analisando a questão dos bodes
expiatórios em relação aos “desviantes” da norma, Navarro destaca: “Todo ‘diferente’ da norma
heterossexual, masculina, branca, pode, em certos momentos, tornar-se um bode expiatório para aplacar
e canalizar a eclosão da violência social”. As afirmações podem ser conferidas na íntegra, na entrevista a
seguir, concedida, por e-mail, à IHU On-Line, com exclusividade.
Graduada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, Tânia Navarro é mestre em His-
tória da América Latina pela Universidade Paris X, Nanterre, na França. Cursou Doutorado na Universidade de
Paris III, Sorbonne Nouvelle, em Sociedades Latino-Americanas. É pós-doutora pela Universidade de Montreal
e pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Feministas da Universidade de Quebec, Canadá. Atualmente, leciona
na Universidade de Brasília (UnB), e é autora de O que é o lesbianismo (São Paulo: Brasiliense, 2000). É uma
das organizadoras de A construção dos corpos: perspectivas feministas (Florianópolis: Editora das Mulheres,
2008), Mulheres em ação: práticas discursivas, práticas políticas (Florianópolis: Editora das Mulheres, 2005)
e Feminismos, teorias e perspectivas (Brasília: UNB, 2000). Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é o sentido em se mem, contrário à definição de seu gê- Tânia Navarro - Os comportamentos
falar de sexo feminino e masculino nero definido pelo sexo biológico. Por ligados à sexualidade são históricos,
quando já se fala no transgênero? outro lado, ao realizar performances, isto é, mutáveis e diversos de acor-
Tânia Navarro - As representações os transgêneros quebram esta imagem do com o espaço/tempo em que são
sociais do binarismo sexuado estão do gênero ligado à genitália, pois fica contemplados. No sistema heterosse-
longe de desaparecer! Na distribuição claro que a aparência externa não está xual, existe uma dupla moral, aquela
de papéis sociais, apesar das modifi- necessariamente conjugada ao sexo jungida ao feminino, e a outra, libe-
cações engendradas pelos feminismos, biológico. ral e com limites imprecisos, atrelada
as mulheres continuam  a ter funções Desta forma, no imaginário social, ao masculino. Às mulheres, a punição
secundárias, salários menores, tarefas a representação da dualidade sexuada material ou o opróbrio social no desvio
dobradas, prestígio social ligado prin- gerada pelo sexo biológico fica de al- da norma; aos homens, a condescen-
cipalmente a um “destino biológico”, guma forma desfeita, pois uma mulher dência e uma aprovação implícita de
o da maternidade. A heterossexualida- deslumbrante ou um homem viril po- derrogação desta última.
de é a norma, e qualquer manifestação dem ter, biologicamente, uma defini- Na atualidade, existe uma hipers-
fora deste esquema é tratada como ção contrária à sua aparência. Mas es- sexualização que transforma a sexu-
desviante, quando não como doença a tas performances não são suficientes alidade em eixo em torno do qual se
ser curada. para transformar o sistema binário e desenvolvem as relações sociais. Em
Os transgêneros apresentam um as- hierárquico da heterossexualidade. meu entender, o GLBT, sigla artificial
pecto paradoxal: por um lado, não   que aglutina experiências diversas,
quebram o esquema binário, ao con- IHU On-Line - Podemos dizer que tem como definidor práticas sexuais
trário, vêm reforçar a representação ainda existe uma moral sexual rígida, e, neste sentido, sua eclosão e visi-
do humano sexuado em opostos, rei- mesmo que ganhem força movimen- bilidade deve-se a esta profusão de
vindicando um status de mulher ou ho- tos como o GLBT? sexualidades, deste clima de sexuali-

SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335 


zação da vida. Como bem mostra Fou- de que passou a ser o centro, o eixo e
cault, a homossexualidade se afirma
“Os transgêneros a essência do humano. Nicole Claude
e se torna visível na proliferação dos Mathieu, feminista francesa, nos anos
discursos sobre o sexo.
apresentam um aspecto 1980, propõe a análise da “produção
da diferença dos sexos” e, neste sen-
IHU On-Line - Antigamente, os loucos
paradoxal: por um lado, tido, funde-se à perspectiva foucaul-
eram os bodes expiatórios da socie- tiana, pensando a construção social
dade. Quem tomou seu lugar? Aque-
não quebram o esquema e histórica das definições corpóreas e
les de sexualidade “desviante”? das sexualidades. Mais recentemente,
Tânia Navarro - Os loucos, na perspec-
binário, ao contrário, Judith Butler afirma a construção do
tiva foucaultiana, como os homossexu- sexo biológico pelas práticas de gêne-
ais, são figuras históricas, datadas, que
vêm reforçar a ro, ou seja, a partilha e os limites das
não se definem em si, mas em relação “diferenças de sexo” estabelecidas no
à historicidade na qual aparecem. Na
representação do social.
descontinuidade, como afirma este
autor, os bodes expiatórios aparecem
humano sexuado em IHU On-Line - Nesse sentido, poderia
 Michel Foucault (1926-1984): filósofo fran- apontar algumas apropriações que
cês. Suas obras, desde a História da Loucu- opostos, reivindicando já aconteceram da obra foucaultia-
ra até a História da sexualidade (a qual não
na para se repensar a sexualidade e
pôde completar devido a sua morte) situam-
se dentro de uma filosofia do conhecimento.
um status de mulher ou suas ligações com o poder?
Suas teorias sobre o saber, o poder e o sujeito Tânia Navarro - Foram muitas, em di-
romperam com as concepções modernas des- homem, contrário à ferentes disciplinas, das ciências ditas
tes termos, motivo pelo qual é considerado
por certos autores, contrariando a sua própria exatas às sociais e humanas. Interes-
opinião de si mesmo, um pós-moderno. Seus definição de seu gênero sa-me apontar aqui não exatamente
primeiros trabalhos (História da Loucura, O
apropriações ou influências, contrá-
Nascimento da Clínica, As Palavras e as Coi-
sas, A Arqueologia do Saber) seguem uma li-
definido pelo sexo rias ao pensamento de Foucault, pois
nha estruturalista, o que não impede que seja este se atém às problemáticas de cada
considerado geralmente como um pós-estrutu- biológico” momento, com sua noção de descon-
ralista devido a obras posteriores como Vigiar
e Punir e A História da Sexualidade. Foucault tinuidade.
trata principalmente do tema do poder, rom- também historicamente, como uma Neste sentido e enquanto feminis-
pendo com as concepções clássicas deste ter-
mo. Para ele, o poder não pode ser localizado alteridade absoluta ligada ao mal, à ta, as reflexões de Monique Wittig,
em uma instituição ou no Estado, o que torna- perversão, à desordem no social. Assim Adrienne Rich, nos anos 1980, e de
ria impossível a “tomada de poder” proposta tivemos e ainda temos a perseguição Catherine Vidal, assim como Emily
pelos marxistas. O poder não é considerado
como algo que o indivíduo cede a um sobe- e a violência contra as mulheres (por Martin, na atualidade, parecem-me
rano (concepção contratual jurídico-política), serem mulheres, o outro da referência
mas sim como uma relação de forças. Ao ser masculina), os/as judeus/judias, o/a  Nicole-Claude Mathieu: antropóloga france-
relação, o poder está em todas as partes, uma sa, conhecida por seus trabalhos sobre gênero.
pessoa está atravessada por relações de poder, imigrante, o/a estrangeiro/a, os/as (Nota da IHU On-Line)
não pode ser considerada independente delas. deformados/as, os/as aidéticos/as, os  Judith Butler: filósofa americana pós-estru-
Para Foucault, o poder não somente reprime, homossexuais (mulheres e homens). turalista, que tem contribuído há muitos anos
mas também produz efeitos de verdade e sa- para os estudos do feminismo, da teoria queer,
ber, constituindo verdades, práticas e subjeti- Todo “diferente” da norma heteros- da filosofia política e da ética. É professora no
vidades. Em duas edições a IHU On-Line dedi- sexual, masculina, branca, pode, em Departamento de Retórica e Literatura Com-
cou matéria de capa a Foucault: edição 119, certos momentos, tornar-se um bode parativa da Universidade da Califórnia, em
de 18-10-2004, intitulada Michael Foucault e Berkeley. Butler concedeu entrevista exclusiva
as urgências da atualidade. 20 anos depois, expiatório para aplacar e canalizar a à edição 199 da IHU On-Line, de 09-10-2006,
disponível para download em http://migre. eclosão da violência social. disponível para download em http://migre.
me/vMiS e a edição 203, de 06-11-2006, dis- me/SMSL e intitulada O gênero é uma institui-
ponível em http://migre.me/vMj7 e intitulada ção social mutável e histórica. (Nota da IHU
Michel Foucault, 80 anos. Além disso, o IHU IHU On-Line - Em que aspectos a fi- On-Line)
organizou, durante o ano de 2004, o evento losofia de Foucault inspira um novo  Monique Wittig (1935-2003): escritora e te-
Ciclo de Estudos sobre Michel Foucault, que pensar sobre o corpo e a sexuali- órica do feminismo francesa particularmente
também foi tema da edição número 13 dos interessada em superar a noção de gênero e o
Cadernos IHU em Formação, disponível para dade? contrato heterossexual. Publicou seu primeiro
download em http://migre.me/vMjd sob o tí- Tânia Navarro - Foucault desconstrói romance, L’opoponax, em 1964. Seu segundo
tulo Michel Foucault. Sua contribuição para a a imagem de um corpo essencializado romance, Les Guérillères (1969), foi conside-
educação, a política e a ética. Confira, tam- rado um marco no feminismo lésbico. (Nota da
bém, a entrevista com o filósofo José Ternes, em torno de um sexo e de uma sexuali- IHU On-Line)
concedida à IHU On-Line 325, sob o título Fou- dade definidas por características pró-  Adrienne Rich (1929): feminista, poeta,
cault, a sociedade panóptica e o sujeito his- prias de um binarismo incontornável, professora e escritora estadunidense. (Nota da
tórico, disponível em http://migre.me/zASO. IHU On-Line)
De 13 a 16 de setembro de 2010 acontece o XI fundado no sexo. Sua História de sexu-  Catherine Vidal: neurobióloga, cientista do
Simpósio Internacional IHU: O (des)governo alidade (12ª ed. Rio de Janeiro: Graal, (Nota da IHU On-Line)
CNRS da França. ���������
biopolítico da vida humana. Para maiores 1997), publicada nos anos 1970, mostra  Emily Martin (1944): antropológa e feminis-
informações, acesse http://migre.me/JyaH. ta, professora da Universidade de Nova Iorque.
(Nota da IHU On-Line) a construção histórica desta sexualida- (Nota da IHU On-Line)

 SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335


contundentes. Sem esquecer que, no cepção também era crime. Não é de se
fim dos anos 1940, Simone de Beauvoir “Não é de se espantar espantar que religiosos e seus asseclas
perguntava “o que é uma mulher?”, lutem pela criminalização do aborto,
iniciando o questionamento sobre o que religiosos e seus pois a liberdade de escolher entre ter
sexo social, ou seja, sobre a injunção filhos, ou não, é uma desordem no sis-
das formas corporais na partilha do asseclas lutem pela tema da heterossexualidade compul-
poder nas relações humanas. Assim sória, que estabelece papéis bem defi-
como Foucault, associam o exercício criminalização do aborto, nidos: para as mulheres, a procriação
do poder aos discursos sobre o corpo e o cuidado dos filhos; para os homens,
e a sexualidade, que estabelecem hie- pois a liberdade de todo o resto.
rarquias no campo social, com a ênfa- De toda forma, a liberação da pílu-
se dada ao masculino. escolher entre ter filhos, la trouxe às mulheres uma sexualidade
Monique Wittig, feminista fran- calcada sobre a dos homens: o orgas-
cesa, e Adrienne Rich, americana, ou não, é uma desordem mo tópico, a performance, a quantida-
desenvolvem noções que instalam o de de parceiros e não a qualidade da
poder masculino nas definições corpó- no sistema da relação e a exploração do corpo e do
reas e nas práticas sexuais. Para Wit- prazer. E isto apenas para aquelas que
tig, a heterossexualidade, que chama heterossexualidade escaparem à sexualidade como injun-
de “pensée straigh” é um sistema que ção masculina, na violência doméstica,
funda o poder masculino no social, compulsória, que na prostituição, na submissão às nor-
estabelecendo, nos corpos femininos, mas religiosas de predominância e “ne-
os limites de sua importância social. estabelece papéis bem cessidade” masculinas. Sem falar, em
Papel secundário, e destino: a pro- termos mundiais, da sujeição, venda e
criação. Rich denomina este sistema definidos: para as tráfico de meninas e mulheres, dos ca-
de “heterossexualidade compulsória”, samentos arranjados de crianças com
na medida em que as representações mulheres, a procriação e velhos, das mutilações sexuais, todas
sociais e as normas comportamentais práticas de poder do masculino sobre
instituem um feminino já pré-definido o cuidado dos filhos; para o feminino, fundamento das relações
por sua função materna, dele retiran- sociais, sistema, como apontam as fe-
do as “características masculinas” da os homens, todo ministas, de exercício do patriarcado.
criação, invenção, raciocínio lógico,
transcendência, transformação. o resto”
Emily Martin analisa os discursos
xuais, criadas pelo social, construídas
médicos e representacionais sobre o
em hierarquias e em “verdades”, afir- Leia Mais...
feminino e suas funções corpóreas,
madas pelos discursos de poder mascu-
sempre ligados à produção do huma- A revista IHU On-Line já publicou outras
lino, desde a ciência até a religião.
no, à menstruação como falha de uma edições sobre Michel Foucault e a respeito de
temáticas ligadas à sexualidade:
possível gravidez, à menopausa como a
IHU On-Line - Como podemos com-
exclusão das mulheres que não se en- * Michel Foucault. 80 anos, número 203, de 06-
preender os impactos da pílula anti-
contrariam mais no mercado do sexo e 11-2006, disponível em http://migre.me/SOcF;
concepcional na liberação sexual das * Michel Foucault e as urgências da atualidade.
da procriação.
mulheres e, por outro lado, no jugo 20 anos depois, número 119, de 18-10-2004, dis-
Catherine Vidal, cientista do CNRS
a que são submetidas sua libido e sua ponível em http://migre.me/SOdD;
da França, desmistifica a biologização * Pornografia. Um debate, número 173, de 27-03-
autonomia sobre o corpo em função 2006, disponível em http://migre.me/SOg1;
das características sexuais, trabalhan-
dos efeitos colaterais desse medica- * Os desafios da diversidade sexual, número 199,
do a fisiologia cerebral e a “diferença
mento? de 09-10-2006, disponível em http://migre.me/
dos sexos”. De fato, estas análises con- SOhc;
Tânia Navarro - A pílula não foi ape- * Uma sociedade de mulheres?, número 210, de
vergem e remetem, com Foucault, o
nas uma liberação sexual, foi uma li- 05-03-2007, disponível em http://migre.me/
exercício do poder às delimitações se- SOhY;
beração simbólica e material do corpo
 Simone de Beauvoir (1908-1986): escritora, * Frida Kahlo – 1907-2007. Um olhar de teólogas e
das mulheres obrigado à procriação, teólogos, número 227, de 09-07-2007, disponível
filósofa existencialista e feminista francesa.
Ligou-se pessoal e intelectualmente ao filóso- pelas injunções dos homens e de Deus em http://migre.me/SOjn;
fo francês Jean-Paul Sartre. Entre seus ensaios (criado à sua imagem e semelhança). * Mulheres e a sociedade contemporânea. Con-
críticos cabe destacar O Segundo Sexo (1949), quistas e desafios, número 249, de 03-03-2008,
A contracepção é “um negócio de disponível em http://migre.me/SOkB;
uma profunda análise sobre o papel das mu-
lheres na sociedade; A velhice (1970), sobre o mulheres”, se não querem ter filhos, * Uniões homoafetivas. A luta pela cidadania ci-
processo de envelhecimento, onde teceu críti- devem sofrer as consequências da vil e religiosa, número 253, de 07-04-2008, dis-
cas apaixonadas sobre a atitude da sociedade ponível em http://migre.me/SOlA;
obrigação quotidiana, dos efeitos co- * A pílula. 50 anos depois, número 332, de 07-06-
para com os anciãos; e A cerimônia do adeus
(1981), onde evocou a figura de seu compa- laterais. Entretanto, é uma liberação, 2010, disponível em http://migre.me/SOnc.
nheiro de tantos anos, Sartre. (Nota da IHU
��������� pois, até pouco tempo atrás, a contra-
On-Line)

SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335 


“O natural não é ser homem ou mulher”.
A dissolução da identidade
Para a historiadora Margareth Rago, o pensamento do filósofo francês pode nos ajudar a
compreender as pessoas sem catalogá-las através de “etiquetas sexuais”. Afinal de con-
tas, não se nasce homem ou mulher, afirma

Por Márcia Junges

M
ais do que deixar de lado a identidade, e dividir a população pura e simplesmente entre homens
e mulheres, Michel Foucault e o movimento queer nos inspiram a dissolvê-la, a conviver com
o incerto, o inclassificável e o inominável. “É muita falta de criatividade de nossa parte ficar
catalogando, classificando as pessoas”, alfineta a historiadora Margareth Rago, na entrevista
que concedeu, por telefone, à IHU On-Line. Além disso, continua, essa necessidade de rótulos
revela “uma tremenda insegurança”, que só reitera a exclusão, o estigma, o sexismo, o racismo e o ódio. É
por isso que o transgênero assusta tanto, avalia Rago. “Ele foge às etiquetas com as quais estávamos acos-
tumados a distribuir e identificar as pessoas. O natural não é ser homem ou mulher”.
As conquistas e desafios do feminismo são outro tema debatido na entrevista. Para Rago, vivemos pro-
fundas transformações nas relações de gênero, mas ainda há muito em que progredir. A violência de gênero,
por exemplo, não diminuiu, mas ganhou visibilidade na mídia. Por outro lado, homossexuais e mulheres dei-
xaram de ser tão estigmatizados e já têm espaços conquistados e garantidos a cada dia. Aquele pensamento
de que a mulher era um ser inferior, impedido de certas profissões e marcado por comportamentos muito
mais emocionais do que racionais ruiu há tempo, garante Rago. Já os homossexuais, tidos como anormais e
patológicos no passado, hoje têm mais espaço e respeito na sociedade.
Graduada em História pela Universidade de São Paulo (USP), Margareth Rago é mestre e doutora em His-
tória pela Universidade de Campinas (Unicamp) com a tese Os Prazeres da Noite. Prostituição e códigos da
sexualidade feminina em São Paulo, 1890-1930 (2ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2008). É pós-doutora e livre-
docente pela Unicamp, onde é professora. Entre outros, é autora de Foucault: para uma vida não fascista
(Belo Horizonte: Autêntica, 2009), Feminismo e anarquismo no Brasil. A audácia de sonhar (Rio de Janeiro:
Achiamé, 2007) e Do Cabaré ao Lar. A utopia da cidade disciplinar (3ª. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997).
Em 16 de junho, apresentou a conferência Michel Foucault e a escrita de si nos feminismos contemporâne-
os, dentro da programação do Seminário Michel Foucault – Corpo, sexualidade e direito, promovido pela
UNESP/Marília. Confira a entrevista.

IHU On-Line - O universo masculino e ções. Assim, os homens se deram conta pensam que somos?
a sociedade patriarcal estão em cri- de que as mulheres não são o que eles Margareth Rago – Hoje acredito que a
se? Por quê? pensavam que elas eram. Eles começam maioria dos homens não tem mais aque-
Margareth Rago – Estamos vivendo pro- a se dar conta que a sexualidade femini- las ideias antigas, tradicionais. Eles pen-
fundas transformações nas relações na é diferente do que eles imaginavam, savam que as mulheres eram inferiores,
de gênero. A entrada das mulheres no porque eles têm noções construídas por que deveriam ficar em casa, que eram
mercado de trabalho e na esfera públi- médicos, intelectuais e cientistas ho- muito mais emocionais do que racionais,
ca, nos últimos 40 anos, foi massiva, e mens que definiram uma identidade da que não tinham condições de enfrentar
certamente elas chegam com seus va- mulher que não confere com a forma certos desafios. Os homens pensavam,
lores, modos, interpretações e maneira como elas se entendem. por exemplo, que engenharia não era
de pensar que são diferentes dos mas- um curso para mulheres. Havia todas es-
culinos. Isso produz grandes transforma- IHU On-Line – Mas o que os homens sas definições que demarcavam o mas-

 SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335


culino do feminino em termos de público
e privado. Essa construção muito forte,
“Estamos habituados a tas consigo mesma. Assim, eu não diria
que a escrita de si e a narrativa auto-
do século XIX até o final dos anos 1960,
rompeu-se, explodiu. Estamos vivendo
pensar pela categoria da biográfica têm a ver com poder. Não
necessariamente. Se você disser que a
muitas transformações na mentalidade,
na maneira de perceber uns aos outros.
identidade, e por isso nossa sociedade, o mundo mais aberto
e democrático facilita que as mulheres
Isso vale não apenas paras as mulheres,
mas também para os homossexuais.
ficamos perdidos quando e os homossexuais narrem suas vidas,
isso com certeza é verdade e pode ser

IHU On-Line – E quanto aos homosse-


aparece alguém que foge bastante positivo. O que observarmos
é que os homens têm muito mais regis-
xuais e mulheres, quais são as mu-
danças mais significativas que estão
aos parâmetros” tros autobiográficos do que as mulheres.
Na história, por exemplo, em relação
ocorrendo em seu cotidiano? ao período da ditadura militar brasilei-
Margareth Rago – A mudança em relação sarmos certos tipos de produção subjeti- ra, você encontra várias autobiografias
aos homossexuais também é muito for- va, como pode ocorrer com as correspon- masculinas, como a de Flávio Tavares
te. Uma das grandes maravilhas do mun- dências que uma pessoa troca com outra. e do Gabeira. Mas, quando procuramos
do democrático é a possibilidade de as Isso vale para diários e autobiografias, registros das mulheres, é mais difícil de
pessoas poderem falar, aparecer, darem mas não necessariamente. Ele diz que, encontrar.
sua opinião. Com isso, as imagens que se nas cartas, as pessoas se revelam muito
tinha sobre elas são abaladas. Os homos- mais do que elas pensam. Se pensarmos
IHU On-Line - Nesse sentido, qual é
sexuais eram absolutamente estigmati- na escrita de si nesses termos, ela não
a colaboração de Michel Foucault na
zados, excluídos da esfera pública. Há tem a ver com empoderamento. Se es-
escrita que as mulheres fazem de si
40 ou 50 anos, um homossexual era visto tamos falando de autobiografias, de que
próprias?
como uma figura anormal, patológica, as mulheres e os homossexuais estão se
Margareth Rago – Foucault pode ser
com problemas e dificuldades, que não mostrando, nos dois casos, isso não tem
apropriado pelo feminismo para dar-lhes
tinha conseguido se realizar como um a ver com poder, penso eu, mas com a
mais clareza sobre seus movimentos,
verdadeiro homem. Eram noções muito possibilidade de construção ativa de si,
e não reiteração de discursos normati-  Flávio Tavares: jornalista e advogado gaú-
autoritárias, excludentes e nocivas. À cho. Na década de 1950, foi dirigente estu-
medida que os homossexuais começaram vos. Uma mulher que foi presa política, dantil no Rio Grande do Sul. Integrou o grupo
a “sair do armário”, a ter voz pública, a por exemplo, pode escrever um livro fundador da Universidade de Brasília, da qual
autobiográfico, sobretudo, como uma é professor aposentado. De 1960 a 1968, foi
sociedade percebeu que eles são pesso- comentarista político da Última Hora do Rio
as como quaisquer outras. Começaram forma de denúncia, mais do que como e de São Paulo. Preso e banido do País, foi re-
a ser questionadas as noções de homo autoconstituição subjetiva. Seu objetivo dator do jornal Excelsior, do México, e logo
de denunciar violências e atrocidades seu correspondente latino-americano, com
e heterossexualidade, compreendendo sede em Buenos Aires, acumulando na América
que esta é compulsória, que ninguém é vividas é muito mais forte, então, do Latina e Europa as funções de correspondente
naturalmente heterossexual, e que isso que reler o seu passado e harmonizar- internacional de O Estado de S. Paulo, do qual
se consigo mesma. É outro o objetivo da foi, também, editorialista político nos anos
é uma construção social. Há intelectuais 1980. Confira as entrevistas Governo Yeda e os
brilhantes dizendo isso, tanto de orien- autobiografia que a Gabriela Leite, líder jovens procuradores, concedida por Tavares às
tação homo como heterossexual. Isso do movimento das prostitutas, escreveu, Notícias do Dia do site IHU On-Line, disponí-
chamada Eu, mulher da vida (Rio de Ja- vel em http://migre.me/SNV1, e “Jango era
abalou o regime de verdades instituído, um conservador reformista”, publicada em
abrindo espaço para se manifestarem neiro: Rosa dos Tempos, 1992). Logo no 20-12-2006, disponível em http://migre.me/
da mesma maneira que qualquer outra início do livro, ela diz que a obra é um SNWN. (Nota da IHU On-Line)
presente da Gabriela para a Otília, por-  Fernando Paulo Nagle Gabeira (1941): escri-
pessoa. Isso foi uma conquista do movi- tor, jornalista e político brasileiro. É conheci-
mento gay, assim como as mulheres ti- que antes de se tornar Gabriela, ela foi do pela sua atuação no Partido Verde (do qual
veram suas conquistas com o movimento batizada como Otília. Um dia, ela deci- é membro-fundador), defendendo posições em
diu ser prostituta e se chamar Gabriela. questões consideradas como tabus na cultura
feminista, o que não quer dizer que os política brasileira (como a profissionalização
problemas estão todos resolvidos. Nesse caso, a autobiografia tem a fun- da prostituição, casamento homossexual e
ção de reconciliar essas duas dimensões a descriminalização da maconha). Como es-
de si mesma, e de integrar-se. Ela está querdista histórico, esteve em diversas vezes
IHU On-Line - As mulheres e os homos- alternando-se como membro do PV e o PT. É
sexuais estão hoje mais empoderados revendo seu passado, acertando as con- também conhecido por ter participado da luta
 Gabriela Leite: ex-prostituta, fundadora da armada contra o Regime Militar de 1964. Jun-
na escrita de si mesmos? Por quê? grife Daspu (www.daspu.com.br) e da ONG Da- tamente com o MR-8 (Movimento Revolucio-
Margareth Rago – Precisamos definir vida, que luta pelos direitos das prostitutas. nário 8 de Outubro), que tentava instaurar o
o que entendemos por “escrita de si”. Escreveu Eu, mulher da vida (Rio de Janeiro: comunismo no Brasil, participou do sequestro
Rosa dos Tempos, 1992) e Filha, mãe, avó e do embaixador norte-americano Charles El-
Quando Foucault está falando em “es- puta (Rio de Janeiro: Objetiva, 2009). No início brick às vésperas do 7 de setembro de 1969,
crita de si”, trata-se de uma prática da dos anos 70, Gabriela Leite estudava Filosofia episódio registrado em seu livro O Que É Isso,
liberdade em que o sujeito se constitui na USP, curso para o qual havia passado em Companheiro?, de 1979. Esteve exilado entre
segundo lugar. Ex-aluna dos melhores colégios 1970 e 1979. Após 1985, apoia a causa dos di-
ativamente, mas também de uma chave paulistanos, tinha um emprego de secretária e reitos das minorias e do meio-ambiente. (Nota
analítica que ele nos oferece para pen- morava com a mãe. (Nota da IHU On-Line) da IHU On-Line)

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processos sociais e dimensões subjeti- “Não se quer mais lher é quem deveria decidir sobre o seu
vas. Por exemplo, quando o movimento corpo, e ter acesso a práticas que não a
feminista utiliza a noção de poder de afirmar a identidade, fizessem se sentir uma criminosa. E há
Foucault, - do poder como relacional, a velha desigualdade salarial, que, pa-
do poder como rede de relações que nos mas sair dela, radoxalmente, ainda existe. Muitos ho-
constituem – se torna muito mais fácil mens continuam machistas, mas muitas
entendermos a dominação de gênero. dissolvê-la” mulheres também o são. Essas mudanças
O poder visto como relacional, micros- de mentalidade são lentas. Nos últimos
cópico, molecular, cria condições para 40 anos, muita coisa mudou, mas ainda
fazendo?
entendermos melhor como vivemos. há um longo caminho pela frente. As
Margareth Rago – Pode ser. Há uma dis-
Quando Foucault mostra que a confis- mudanças não estão consolidadas, pelo
cussão grande sobre essa nova forma de
são é uma forma de dominação, essa é contrário, são constantemente amea-
“intimidade pública”, que é realmente
outra colaboração que ele traz. Existe çadas. Precisamos fazer um trabalho de
um paradoxo. Por que se tem essa ne-
um mito de que a verdade sobre nós educação e formação das novas gerações
cessidade tão forte de expor o próprio
mesmos reside em nosso âmago, e que com uma outra mentalidade.
“eu”? Por que é preciso aparecer em
precisamos do olhar de um outro supe- Vale, ainda, destacar a luta das
blogs, sites de relacionamento, muitas
rior para acessar a nossa própria verda- mulheres negras. É importante co-
vezes, em situações bastante íntimas,
de. Esse outro pode ser um padre ou o nhecer mais a história do feminismo
até sem roupa? Isso é, de certa forma,
psiquiatra, psicanalista. É como se nós, negro. Tenho estudado esse tema no
carência e solidão. Se você precisa se
sozinhos conosco, não conseguíssemos caso norte-americano e fico surpresa
expor de qualquer jeito a qualquer cus-
nos acessar. Precisamos da mediação do com a quantidade de grupos de femi-
to, é porque sente que não está sen-
olhar do outro. Foucault mostra que isso nistas negras que surgiram no século
do visto. Essa carência e solidão estão
é uma construção, uma imaginação no- XIX. No Brasil, isso não acontece, e
associadas ao estímulo da sociedade
civa, porque nesse processo está aconte- nem se fala nesse assunto. Deveríamos
ao narcisismo, a uma relação consigo
cendo uma forma de sujeição. Você está falar mais sobre as mulheres negras, e
mesmo que não é aquela que Foucault
se olhando pelo olhar do outro, e não pesquisar mais sobre elas. É um setor
fala quando menciona a escrita de si.
por seu próprio olhar, e submetendo-se altamente oprimido da sociedade, so-
Nesse caso, ele não quer dizer uma re-
ao que o outro compreende como certo bretudo se forem pobres.
lação consigo, que é como entrar numa
e errado. Para Foucault, isso é uma for-
bolha. Seria algo do tipo das artes da
ma de dominação. Esclarecendo esses IHU On-Line - A barreira da sexuali-
existência desenvolvidas no mundo gre-
pontos, esse pensador nos mostra como dade como sinônimo de reprodução
co-romano, que têm múltiplas práticas
podemos nos libertar. Antes de Foucault, foi abolida com o advento da pílula
de si, mas que são, ao mesmo tempo,
eu não tinha ouvido ninguém teorizar so- anticoncepcional. Por outro lado,
relações com o outro. A relação de si
bre as relações de poder que existem na algumas pessoas ainda esperam um
passa pela relação com o outro. A carta
relação confessional, nem atentar tão “comportamento adequado” das
é um instrumento no qual falamos so-
fortemente para a maneira pela qual mulheres em termos sexuais. Como
bre nós mesmos, mas para nos comuni-
esse tipo de relação se espraiou para as mulheres têm rompido essa equa-
carmos com outra pessoa.
fora da confissão religiosa. Costumamos ção e escrito uma outra história da
nos “confessar” o tempo todo: fazemos sexualidade?
IHU On-Line - Quais são os principais
provas, exames, temos que dar satisfa- Margareth Rago – Essa “expectativa”
desafios que permanecem para o fe-
ção sobre o que fizemos, e com quem, quanto à sexualidade das mulheres mu-
minismo em termos globais?
onde estávamos. Isso acontece no traba- dou bastante. Em São Paulo, por exem-
Margareth Rago – A violência contra as
lho, na escola, na família. Na sociedade plo, a maioria das jovens que conheço
mulheres continua um problema grande.
em que vivemos, que é de controle e não vê o casamento como a principal
É impressionante a quantidade de cri-
vigilância contínuos, estamos nos con- opção em suas vidas. O investimento
mes passionais e sexuais que existem e
fessando 24 horas por dia. O que é esse na educação e no trabalho é enorme.
persistem. Isso é uma questão que ainda
confessar? É se penalizar, se culpabilizar, As mulheres estão mais voltadas para
deve ser trabalhada, discutida e denun-
porque iremos nos olhar com o olhar do se formar, estudar e terem condições
ciada. A violência de gênero, em geral,
outro, que nos enxerga negativamente e econômicas melhores. Dificilmente as
não diminuiu. A diferença é que ela está
tem um padrão de moralidade que pode jovens desconhecem experiências se-
sendo veiculada pela mídia e ganha es-
ser o nosso, ou não. xuais antes do casamento. Uma moça
paço para discussão pública. Antigamen-
de 18, 20 anos tem uma compreensão
te, isso não existia – mulheres eram as-
IHU On-Line – Estaria aí a explicação diferente a respeito de virgindade do
sassinadas, e não se dizia uma palavra a
para essa necessidade que as pesso- que foi há 40 anos. Além disso, há mais
respeito. Outro impasse que permanece
as têm de se exporem na Internet, acesso à informação e métodos contra-
para o feminismo é a questão do aborto.
por exemplo, através de sites de ceptivos. Antes, as famílias não falavam
São os homens que decidem se a mulher
relacionamento e, agora, o Twitter, com os filhos sobre menstruação, rela-
deve, ou não, fazer um aborto. A mu-
relatando o tempo todo o que estão ções sexuais. Havia um obscurantismo

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enorme. Apesar de existir muitas pesso- mais afirmar a identidade, mas sair
as conservadoras, o nível de informação dela, dissolvê-la. Para que precisamos
que temos sobre o corpo e a sexualida- catalogar a população dividindo-a em
de de homens, mulheres, gays, lésbi- metade de homossexuais e a outra me-
cas, é muito grande. Isso altera muito tade de heterossexuais, por exemplo?
a relação com a sexualidade. Isso só serve para excluir, criar relações
raciais, sexistas, de poder. A teoria
IHU On-Line - Qual é o papel das mu- queer e os filósofos pós-estruturalis-

http://twitter.com/_ihu
lheres na escrita de uma sexualidade tas nos convidam a dissolver as iden-
mais plural, fora da estigmatização e tidades, que não são nada naturais. O
da normatização? transgênero assusta tanto porque foge
Margareth Rago – O papel das mulheres às etiquetas com as quais estávamos
seria ajudar a formar e conscientizar as acostumados a catalogar as pessoas. O
gerações futuras. É esclarecer sobre a natural não é ser mulher ou homem.
sexualidade, mudando elas mesmas a É muita falta de criatividade de nossa
noção de que ter prazer é pecado. Que parte classificar as pessoas. Além dis-
coisa mais absurda achar que estamos so, é uma tremenda insegurança, por-
no mundo para sofrer, para carregar que precisamos domesticar o outro,
peso. Isso é uma concepção de morte, senão ficamos inseguros, já que não
e não de vida. As mulheres, nesse sen- sabemos se aquela pessoa é homem
tido, têm um papel muito importante a ou mulher. Estamos habituados a pen-
cumprir, porque os homens não pensam sar pela categoria da identidade, e por
muito sobre a sexualidade e a subjetivi- isso ficamos perdidos quando aparece
dade. Isso é visível. São as mulheres que alguém que foge aos parâmetros. Essa
se incumbem muito mais de pensar essas categoria de identidade, na verdade,
questões. Por isso é que a educação se- nos trouxe muito mais problemas do
xual é tão necessária. que benefícios: criou exclusões, pre-
Precisamos desmistificar muitas coi- conceitos, estigma, ódios e rancores.
sas, a exemplo da concepção de Freud Acabar com as identidades diminuiria
sobre o orgasmo vaginal. Ele dizia que o ódio no mundo. É uma barreira a me-
o orgasmo clitoridiano significava que nos para “des-hierarquizar” o mundo.
aquela moça que o tinha era imatura, e As sexualidades plurais colocam por
não tinha conseguido se tornar uma mu- terra essas hierarquias estabelecidas
lher normal. Essas noções precisam ser e tradicionais. Outra questão que le-
compreendidas como parte de um pas- vanto é por que a identidade tem de
sado que já foi superado. Isso não vale ser estabelecida a partir da sexuali-
mais. Ter prazer não faz mal. É gosto- dade? Por que nos preocupamos tanto
so ter prazer sexual, comer bem, viver em relação à sexualidade? Os gregos,
bem, beber bem. Estamos na vida para por exemplo, preocupavam-se muito
usufruí-la, para construí-la de forma po- mais com a alimentação do que com
sitiva, para que todos tenham acesso aos o sexo.
bens, cultura, e não para sofrer. É por
isso que as mulheres têm muita impor-
tância na mudança do imaginário social.
Isso significa, também, a criação de no- usada para a referência a homossexuais. So-
bre a teoria queer, confira a edição nº 32 dos
vas políticas públicas. Cadernos IHU Ideias, intitulada À meia luz: a
emergência de uma teologia gay. Seus dilemas
IHU On-Line – Qual é o sentido em se e possibilidades, escrita por André Sidnei Mus-
skopf, disponível para download em http://mi-
falar em gênero masculino e femini- gre.me/SNuA. Musskofp também apresentou o
no quando se discute o transgênero? evento IHU Ideias, em 11-09-2008, debatido
Margareth Rago – É ótimo que se dis- na entrevista Via(da)gens teológicas. Itinerá-
rios de uma teologia queer no Brasil. Sobre
cuta o transgênero, o que tem sido o assunto, confira uma entrevista com ele em
feito pela teoria queer. Não se quer http://migre.me/SNvW. Na edição 227, de 09-
07-2007, intitulada Frida Kahlo – 1907-2007.
 Teoria Queer: desenvolvida nos anos 1980, Um olhar de teólogas e teólogos, o pesquisa-
nos Estados Unidos, com a publicação do li- dor concedeu a entrevista Transgressão, im-
vro Gender Trouble, de Judith Butler, possui plosão, mistura, descontrução e reconstru-
um alto grau de influência do filósofo francês ção, que também aborda aspectos da teoria
Michael Foucault e suas ideias sobre a sexuali- queer: http://migre.me/SNy0. (Nota da IHU
dade. A palavra queer, em inglês, é uma gíria On-Line)

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Do gozo Ubu ao gozo degenerado: a afirmação de sexualidades
heréticas a partir de Foucault
Por Alexandre Filordi

“P
ara Foucault, os corpos são sucessivamente investidos por essas relações de poder
ubuescas. Nelas, os corpos são trabalhados intensamente desde as mais banais ações
que passam a ser vistas como ‘normais’”. A afirmação é do filósofo Alexandre Filordi, no
artigo que escreveu especialmente para a IHU On-Line. De acordo com ele, “não é sem
sentido, então, que Foucault concebe a sexualidade como uma das funções mais bem
fabricadas a partir do corpo, portanto, intensamente controladas, cuja função deve ser irremediavelmente
normal”. Ele continua: “o gozo Ubu diz respeito à redução das sexualidades singulares ao prazer conectado
a um centro dominante de práticas e de sentidos”.
Graduado em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul - SPS, em Campinas, e em Pedagogia pela
Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, Filordi é especialista em Psicoterapia Familiar e de Casal
pelo Centro de Formação e Assistência à Saúde - CEFAS e um dos integrantes do Grupo de Estudos Nietzsche
(GEN), ligado ao Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo - USP. Cursou mestrado em Filosofia
pela USP e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp com a tese Da sujei-
ção às experiências de si na função educador: aproximações foucaultianas. Docente da Universidade Federal
de São Paulo - UNIFESP, é autor de Foucault e a função-educador: sujeição e experiências de subjetividades
ativas na formação humana (Ijuí: Unijuí, 2010), além de possuir publicações em revistas especializadas e
capítulos em livros organizados com temáticas foucaultianas. Confira o artigo.

O dramaturgo francês Alfred Jarry ca, produzida pela desqualificação de próprio funcionamento. É neste senti-
(1873-1907) redigiu uma peça de tea- seu regente, mas autorizada por seu do que nos deparamos, sempre segun-
tro denominada de Ubu Rei. Protago- estatuto, permitiu que Ubu se trans- do Foucault, com o Ubu burocrata, o
nizada pelo Pai Ubu, um rei golpista formasse em adjetivo dicionarizado. O Ubu médico, o Ubu psiquiátrico-penal,
que reverte o trono a seu favor à custa ubuesco, neste caso, passou a se refe- enfim, representantes das relações de
de desmesurada e banal ganância, a rir ao absurdo, ao grotesco, ao cínico poder banalizadas e diagnosticadas,
peça, dividida em cinco atos, acentua e ao caricatural. sobretudo, nos discursos que são, de
o caráter comicamente cruel, cínico e Foucault, em suas aulas de 8 e de modo concomitantes, estatutários e
covarde ao extremo daquele rei. Com 15 de janeiro de 1975 do curso Os desqualificados, e por isso mesmo ri-
o único intuito de forjar fortuna, o Pai anormais, ministrado no Collège de dículos.
Ubu tem em mente e em prática um France, convoca Ubu Rei. A sua inten- Para Foucault, os corpos são su-
sistema perverso de confisco dos per- ção é a de evidenciar como os aparatos cessivamente investidos por essas re-
tences de seus “súditos” cuja finalida- normativos que são produzidos coex- lações de poder ubuescas. Nelas, os
de é simples: “Com este sistema, eu tensivamente pelas relações de poder corpos são trabalhados intensamente
irei fazer rapidamente fortuna, então são mantidos no tecido social às custas desde as mais banais ações que passam
eu matarei todo mundo e partirei”. do grotesco. O odioso, o infame e o ri- a ser vistas como “normais”, já que
O caráter eminentemente desastroso dículo são expressões que comportam são cotidianas, a ponto de impregná-
exercido por uma soberania grotes- o aparato ubuesco do poder incontor- los com finalidades que são interpos-
 Alfred Jarry (1873-1907): poeta, romancista nável que nos toca no cotidiano. Poder tas a cada um, à revelia de suas vonta-
e dramaturgo francês. Entre 1885 e 1888 ele “abjeto, infame, ubuesco ou simples- des próprias. É por isto que este poder
compõe comédias em verso e em prosa. Ins- mente ridículo”, porém inevitável, disciplina, regula, normaliza tudo que
pirado no sr. Hébert, seu professor de física e
a encarnação de “todo o grotesco que existe que faz circular as regras de sua ra- diz respeito ao corpo, aliás, o corpo e
no mundo”, Jarry escreve uma comédia, Les cionalidade violenta, “mesmo quando tudo o que a ele diz respeito não pas-
Polonais, a versão mais antiga do Ubu rei. Em está nas mãos de alguém efetivamente saria de uma massa bruta se não fosse
10 de dezembro de 1896 ocorre a tumultuada
estreia de Ubu rei. (Nota da IHU On-Line) desqualificado”, para normalizar o seu por ele fabricado. Este poder “fabrica
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corpos sujeitados, vincula exatamente tiva, o experimentalismo deslocado e
a função-sujeito ao corpo”, argumen-
“É preciso sacudir inventivo de cada um, os amores que
ta Foucault em O poder psiquiátrico não ousam dizer o nome, são possibili-
(2006, p.69).
a ‘cartografia da dades de intervenção no complexo de
Não é sem sentido, então, que fixação em torno dos prazeres que são
Foucault concebe a sexualidade como
sexualidade’, afirmou extraídos ou infligidos ao corpo. Mais
uma das funções mais bem fabricadas do que isso, são maneiras ou caminhos
a partir do corpo, portanto, intensa-
Foucault em Não ao de não desdobrar de forma ubuesca o
mente controladas, cuja função deve estado de miséria sexual no qual vive-
ser irremediavelmente normal. Desde
sexo rei” mos. São possibilidades de dizer: Não
cedo, no Ocidente, a imaginação e o ao sexo rei.
prazer atinentes ao gozo sexual fo- capacidade de gozar, que prolifera o Nesse sentido, o gozo degenerado
ram objetos de regulações desastro- medo à diferença pelo fato de ser o opõe-se ao gozo Ubu. Aquele é herético
sas. Com efeito, na virada do século medo à indeterminação, e que se pau- enquanto insiste em contrariar as carti-
XIX para o XX, “o prazer não ordenado ta pelo verdadeiro sexo, faz o sentido lhas, os credos, as normas e as prescri-
à sexualidade normal” passou a ser do que chamo de gozo Ubu. ções em torno dos prazeres, bem como
suscetível a toda série de psiquiatri- ao redor da utilização correta do corpo,
zação, ou seja, o prazer passou a ser Desessencialização do gozo do posicionar-se na escolha certa – se-
um “objeto psiquiátrico ou psiquiatri- xualidade colonizada e atravessada por
zável”, pois não podia descarrilar da Entretanto, a partir do momento afirmações grotescas e cínicas. É preciso
sexualidade normal (Cf. FOUCAULT, em que Foucault (1999, p.100) conce- sacudir a “cartografia da sexualidade”,
2001). Desde então, o gozo deve ser beu a sexualidade como um dispositivo afirmou Foucault em Não ao sexo rei.
normal e ele torna-se ubuesco. Mas histórico, tramada à superfície em que Ali mesmo, ele invocou as sexualidades
como assim? “a estimulação dos corpos, a intensifi- heréticas neste sentido: “é preciso fa-
Colocado no âmbito da significação cação dos prazeres, a incitação ao dis- bricar verdadeiramente outras formas
dominante, o gozo ubuesco representa curso, a formação dos conhecimentos, de prazer, de relações, de coexistências,
a sexualidade instrumentalizada que o reforço dos controles e das resistên- de lugares, de amores, de intensidades”
iguala tudo, simplesmente pelo fato cias, encadeiam-se uns aos outros, se- (1994, p.261).
de nela se encontrar o prazer equali- gundo algumas grandes estratégias de Este imperativo não deve ser visto
zado pelas discursividades e práticas saber e de poder”, uma operação de como uma ordem universal por parte
cotidianas que insistem em desqualifi- desessencialização do gozo também de Foucault, mas como um convite que
car, em anatematizar e em anormali- ocorreu. Resistir ao gozo Ubu, nes- ora se deslinda, sem a pretensão de ser
zar os prazeres que fogem do controle te caso, também é componente nor- uma imposição ao gozo de alguém. De
do corpo. Dito de uma forma mais sim- mal da sexualidade; é acontecimento outro lado, contudo, é sim uma ordem
ples, o gozo Ubu diz respeito à redução histórico deslocado de uma natureza àqueles que insistem, doutrinariamen-
das sexualidades singulares ao prazer subterrânea qualquer que predisporia te, senão de modo ortodoxo, a impor,
conectado a um centro dominante de os prazeres sexuais como finalidades não importa a quem, qualquer forma
práticas e de sentidos. Ele está, ironi- prévias das funções corporais. de gozo e a condenar as suas heresias.
camente, na denúncia do protagonista O que prevaleceu nesse dispositi-
e narrador de a História do Olho, de vo histórico, contudo, foram os jogos
Georges Bataille (2003, p.58): “para normativos que, desde cedo, tomaram Referências
os outros, o universo parece hones- o gozo extraviado de uma expectati-
BATAILLE, G. História do Olho. São Paulo:
to. Parece honesto para as pessoas de va média social qualquer como aber- Cosac & Naify, 2003.
bem porque elas têm os olhos castra- ração. Desde então, “o degenerado FOUCAULT, M. Os anormais. São Paulo: Martins
Fontes, 2001.
dos. Em geral, apreciam os ‘prazeres é aquele que é portador de perigo”,
* História da sexualidade 1: a vontade de saber.
da carne’, na condição de que sejam como tratou de evidenciar Foucault Rio de Janeiro: Graal, 1999.
insossos”. E isto não é juízo de valor, em Os anormais. Ele é perigoso sim- * O poder psiquiátrico. São Paulo: Martins Fontes,
2006.
é indicação de limites para o gozo. plesmente pelo fato de sua experiên-
* “Non au sexe roi”. In. Dits et Écrits. Paris: Galli-
Numa palavra, a sexualidade que forja cia com a sexualidade ser periférica. mard, 1994, p.256-269.
limites prévios para si mesma, que se Ele é o extravio normativo em relação
conecta às normalizações ansiosas por ao gozo, ele é heterogozador.
verdades, que esgota o corpo em sua Enquanto o “verdadeiro” sexo as- Leia Mais...
 Georges Bataille (1897-1962): escritor, an- pira pela manobra do gozo dentro das >> Alexandre Filordi já publicou outro ar-
tropólogo e filósofo francês. O erotismo, a casas pretas ou brancas do tabuleiro tigo na IHU On-Line:
transgressão e o sagrado são temas abordados da sexualidade e de sua anatomia, * Foucault e a questão da crítica em torno da
em seus escritos. Sua correspondência foi pu- biopolítica. Artigo publicado na edição 203 da
blicada em 1997 pela Gallimard sob o título para Foucault, a anatomia incerta, o Revista IHU On-Line, de 06-11-2006, disponível
Choix de lettres 1917-1962. Grande parte de lado sem fronteira, a heterogeneida- para download em http://migre.me/S7Mj
sua obra não foi traduzida para o português. de de prazer sem morfologia prescri-
(Nota da IHU On-Line)

SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335 13


Sexualidade, poder político e técnicas disciplinares
Marcos César Alvarez, sociólogo, examina a conjunção entre soberania, disciplina e go-
vernamentabilidade e debate as ideias de Michel Foucault

Por Márcia Junges

“A
sexualidade hoje é alvo tanto de técnicas disciplinares, voltadas para a normalização da
sexualidade – definição do que é normal ou não – como também na questão da gestão
de populações, preocupação com a reprodução etc”. A afirmação é do sociólogo Marcos
César Alvarez, em entrevista exclusiva que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. Se-
gundo ele, o sexo é um poder político “porque as tecnologias de poder transformaram o
exercício da sexualidade numa questão política. Por isso, comportamentos que antes estavam restritos à vida
privada são hoje publicamente discutidos e politizados”.
Professor no departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, Alvarez é graduado em Ciências
Sociais por essa instituição, onde também cursou mestrado e doutorado em Sociologia. Sua tese intitulou-se
Bacharéis, criminologistas e juristas: saber jurídico e nova escola penal no Brasil - 1889-1930 (São Paulo:
IBCCRIM, 2003). É pós-doutor pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), na França. É um
dos organizadores da obra O legado de Foucault (São Paulo: Editora da UNESP, 2006). Em 16 de junho, apre-
sentou a conferência Soberania, disciplina e governamentabilidade como tecnologias de poder, dentro da
programação do Seminário Michel Foucault – Corpo, sexualidade e direito, promovido pela UNESP/Marília.
Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a relação en- “A discussão em torno do gênero só foi possível
tre soberania, disciplina e governa-
mentabilidade como tecnologias de devido ao seu investimento por essas tecnologias de
poder?
Marcos César Alvarez - Para Foucault, poder na modernidade. A partir das lutas de
soberania, disciplina e governamenta-
bilidade são diferentes tecnologias de mulheres e minorias, transformadas em objetos
poder. É preciso, no entanto, perceber
que o poder para Foucault é uma forma e sujeitos por essas tecnologias de poder, é que
de ação que é produtiva, e não apenas
negativa. Quando alguns homens agem emergem as questões de gênero”
sobre a ação de outros, existe poder, por
isso o poder está presente em qualquer
convivência social. Se o poder soberano rar que a sexualidade hoje é alvo tanto tir das lutas de mulheres e minorias,
é aquele que pode levar à morte ou dei- de técnicas disciplinares, voltadas para a transformadas em objetos e sujeitos
xar o súdito viver, o poder disciplinar está normalização da sexualidade – definição por essas tecnologias de poder, é que
voltado para o adestramento dos corpos, do que é normal ou não – como também emergem as questões de gênero.
buscando objetivos produtivos. A gover- na questão da gestão de populações,
namentabilidade, por outro lado, tem preocupação com a reprodução etc. IHU On-Line - A sociedade patriarcal
como alvo o governo de populações. está ameaçada a partir da revolução
IHU On-Line - Como essas tecnologias queer? Por quê?
IHU On-Line - Quais são as principais redefinem a questão de gênero? Marcos César Alvarez - Não sou espe-
tecnologias de poder aplicadas à se- Marcos César Alvarez - A discussão em cialista nas questões de gênero, mas
xualidade hoje? torno do gênero só foi possível devido creio que seria ingênuo afirmar que a
Marcos César Alvarez - Seguindo as dis- ao seu investimento por essas tecnolo- sociedade patriarcal ou outras formas
cussões de Foucault, podemos conside- gias de poder na modernidade. A par- de dominação estão superadas. Pelo

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“O importante é
perceber, considerando
as discussões de Um ponto de partida das histórias
Foucault, que a vida
foucaultianas da sexualidade: corpo
social implica na
existência de formas
e individualidade em o Nascimento da
de poder” Clínica
Por Carlos Eduardo Ribeiro
contrário, trata-se de lutas permanen-

U
tes, que, por vezes, permitem afirmar
novos direitos e ampliar a cidadania, ma análise da obra o Nascimento da clínica, de Michel Foucault,
mas, em outras, ocorrem retrocessos.  a partir da perspectiva do corpo e da individualidade é o tema do
artigo a seguir, escrito pelo filósofo Carlos Eduardo Ribeiro, com
IHU On-Line - Como a homofobia e o
exclusividade para a IHU On-Line.
sexismo influenciam na aplicação das
tecnologias de poder à sexualidade? Graduado, mestre e doutor em Filosofia pela Universidade de
Marcos César Alvarez - Aqui acho pre- São Paulo (USP), Carlos Eduardo defendeu a tese Foucault: uma arqueologia
ciso retomar a distinção feita por Fou- política dos saberes. Foi recém-aprovado como professor do Curso de Licencia-
cault entre violência e poder. A violência tura Plena em Ciências na Universidade Federal de São Paulo - Unifesp, campus
é aquilo que destrói os corpos, enquanto Diadema.Confira o artigo.
que o poder é sempre uma forma de agir
sobre os corpos. A homofobia e o sexismo
podem se revelar em pura violência – no Um dos trabalhos menos comenta- ter em mente a questão da singula-
assassinato, por exemplo, de mulheres e dos de Foucault talvez seja o Nasci- ridade de o Nascimento da clínica
homossexuais – ou em tecnologias de po- mento da clínica. É possível que isso quando, de modo pouco usual, res-
der que recolocam formas assimétricas, se explique em razão do árduo tema salta a relação quase despercebida
desiguais de convivência social. que lhe atravessa, a medicina moder- entre medicina e poder no escrito
na e sua noção de doença, ou mesmo de 1963. Antes mesmo do projeto da
IHU On-Line - Em que medida o sexo devido à clara opção, feita por Fou- crítica foucaultiana da subjetivida-
é um poder político? cault, por uma história conceitual da de, as práticas divisantes do sujeito
Marcos César Alvarez - O sexo é um anatomoclínica que, considerando o se fazem sentir no trabalho. Sinding
poder político porque as tecnologias surgimento da medicina do espaço trará o momento em que, na expe-
de poder transformaram o exercício social do século XVIII, favorece cla- riência médica moderna, impõe-
da sexualidade numa questão política. ramente, como modo de trabalho, a se que o fenômeno patológico seja
Por isso, comportamentos que antes função metodológica nas teorias mé- compreendido no domínio acoplado
estavam restritos à vida privada são dicas. Poder-se-ia mesmo levantar a do hospital-escola. Tal experiência
hoje publicamente discutidos e politi- questão em que medida a conside- passa a fracionar o sujeito em médi-
zados. ração metodológica tão acentuada co-paciente, não para restabelecer
deste escrito não configurou uma ar- o antigo papel de ocorrência classi-
IHU On-Line - Gostaria de acrescen- queologia da metodologia clínica no ficatória e circunstancial da doença
tar algum aspecto não questionado? desenvolvimento da arqueologia do no doente, mas para forjar “uma
Marcos César Alvarez - O importante olhar médico no século XIX. De todo estrutura coletiva do sujeito da ex-
é perceber, considerando as discussões modo, o Nascimento da clínica pare- periência médica”. A medicina não
de Foucault, que a vida social impli- ce pouco acessível ao leitor de filo- tut National de la Santé et de la Recherche
ca na existência de formas de poder. sofia. Neste caso, a fortuna crítica o Medicale (INSERM), autora de Le clinicien et
le chercheur. Des grandes maladies de ca-
A questão é como construir formas convocará apenas marginalmente no rence La rnidecine molimlaire (1991) Utopie
de convivência social democráticas, conjunto da produção do filósofo. Medica,Une La Sagesse DuCorps (1992) e de
a partir das quais as tecnologias de Por esta razão, vale pensar alguns vários artigos em história da medicina. (Nota
da IHU On-Line)
poder possam ser permanentemente aspectos desta arqueologia do olhar  FOUCAULT, M. O nascimento da clínica.
criticadas. médico. Christiane Sinding parece Trad. Roberto Machado. 6. ed. Rio de Janei-
 Christiane Sinding: pesquisadora do Insti- ro: Forense Universitária, 2004, p. 121. (Nota

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se faz entre o paciente ignorante e a “Podemos então dizer médico. É preciso ter um claro cui-
sapiência médica, mas “é feita soli- dado em não negligenciar o elo entre
dariamente por aquele que descobre que esta percepção vida e morte estabelecido pelo méto-
e aqueles diante dos quais se desco- do anatomoclínico em seu olhar sobre
bre”. Trata-se de uma “estrutura cole- epistêmica do corpo, o corpo doente, repartido no novo
tiva do sujeito” pelo qual “a clínica se espaço-tempo da clínica. Aliás, nisto
situa no encontro de dois conjuntos; inaugurada na está a singularidade da clínica mo-
a experiência que a define percorre a derna: tomar a morte como domínio
superfície de seu confronto e de seu anatomoclínica, não (moderno) de objetividade. Se o mé-
recíproco limite”. todo da clínica é, de fato, um olhar
permanece sobre a profundeza dos corpos assegu-
Atividade média e rado pelo exame da anatomia patoló-
consciência política circunscrita aos muros gica que deseja estudar os tecidos e
membranas, isto é, se a doença é o “o
Tal alerta diz respeito aos primei- de uma epistemologia trabalho surdo da morte na vida” que
ros capítulos de o Nascimento na clí- temos à mão pela inspeção corporal
nica nos quais da atividade médica é médica. A norma profunda, então, conclui Courtine, “a
tributária da criação de uma consci- obsessão contemporânea, cotidiana,
ência política. É o caso da medicina coletiva, invertida em minuciosa da saúde do corpo pode ser
da epidemia e da doença endêmica concebida somente como a radicaliza-
do século XVIII que fundarão os órgãos norma individual pelo ção desta concepção de doença, pro-
administrativos em nome do controle cesso mórbido interno ao ser vivo”.
das doenças. O mesmo ocorria com a domínio da morte, é Inevitavelmente, ainda hoje quando
chamada����������������������������
medicina em domicílio que, buscamos a saúde do corpo recorre-
tida por espaço natural doença, só po- um dos traços originais mos à sua dimensão mais objetiva de
dia ser viabilizada por uma medicina que ainda dispomos, um gradientes de
nacional, por estruturas controladas do século XIX, do modo mortes que se transforma a normalida-
pelo coletivo e que ocupassem inteira- de, como norma constituída, à norma-
mente o conjunto do social. É quando como a individualidade lidade como norma constituinte.
nasce a preocupação com a saúde da Com efeito, do interior de um tra-
população, pela demanda de atendi- moderna foi elaborada balho quase que exclusivo com as te-
mento individual. Há, pois, uma nova orias médicas, a noção de corpo para
espacialização da doença em curso. em seus imperativos Foucault se identifica, ao mesmo tem-
Em face das necessidades de uma po, à consideração da finitude mortal
coletvidade sob controle, de estrutu- políticos” do homem e sua colocação como ob-
ras que deveriam ser coletivamente jeto da medicina. O corpo, portanto,
controladas, a doença é norteadora na modernidade é norma constituída
que Foucault concebeu a noção de
de uma medicina do espaço social. A mudada em norma constituinte; é
corpo, neste seu escrito de juventu-
“�����������������������������������
aparição de uma consciência médica consciência médica normativa inver-
de, como modo discursivo, como diz
coletiva e normativa pode parecer um tida em norma de individualidade.
Jean-Jacques���������
Courtine, que se “ins-
tema secundário da obra” diz Sinding Fica aqui patente a filiação à prática
creve no campo dos saberes antes de
“mas sua reaparição ulterior sob a da epistemologia histórica do mestre
se inscrever no campo de um poder”.
forma de um conceito de “biopoder” Canguilhem. Mas Foucault parece vai
Mas esta precedência é falsa. O olhar
obriga o leitor a preocupar-se com a ampliar ainda mais este diagnóstico.
clínico, lembremos, é lançado no ins-
emergência desse tema em 1963”. O É, sem dúvida, decisivo para a nossa
“�������������������������������
tante mesmo em que o espetáculo do
estudioso que quiser bem compreen- cultura” concluirá o arqueológo do olhar
patológico é percebido pelo olhar do
der o poder sobre vida estudado por médico “que o primeiro discurso cientí-
 Jean-Jacques Courtine: doutor em Lin-
Foucault, desde 1971, há de ter em guistica pela Universidade Paris X - Nanterre,
fico enunciado por ela sobre o indivíduo
conta estas preocupações primevas de professor de Linguistica, Cultura e História das tenha tido que passar por este momento
colocadas pelo Nascimento da clínica. Mentalidades, na Universidade da Califórnia, da morte”, . ������������������������
Assim como, na experiên-
Santa Bárbara, EUA. Tem uma vasta produção
Apesar disso, à primeira vista, al- na interface de análise do Discurso e da Polí-
cia da desrazão moderna, de História da
guém poderia pensar simplesmente tica. Entre as obras, destacam-se Análise Do loucura (5ª ed. São Paulo: Perspectiva,
do autor) Discurso Político Discurso Comunista Endere- ��������������������������������
Ibidem, p. 115. ���������������
(Nota do autor)
 FOUCAULT, M. O nascimento da clínica. Trad. çado Aos Cristãos (Edufscar 2009) e História  Georges Canguilhem (1904-1995): filósofo
Roberto Machado. 6. ed. Rio de Janeiro: Fo- do Corpo – Mutações do olhar (Vozes, 2008). francês, membro do Collège de France, espe-
rense Universitária, 2004, p. 121. (Nota da IHU On-Line) cializado em filosofia da ciência e no estudo da
�������������������������������������������
SINDING, Christiane. La
���������������������
méthode de la cli- ��������������������������������������������
COURTINE, Jean-Jacques. Entre la vie et la normatividade. (Nota da IHU On-Line)
nique. In: GIARD, Luce(Dir.). Michel Foucault: mort. In: GIARD, Luce (Dir.). Michel Foucault:  FOUCAULT, M O nascimento da clínica. Trad.
Lire l’oeuvre. Grenoble: Jérôme Millon, 1992, Lire l’oeuvre. Grenoble: Jérôme Millon, 1992. Roberto Machado. 6a. edição. Rio de Janeiro:
p. 64. ���������������
(Nota do autor) p. 115. ���������������
(Nota do autor) Forense Universitária, 2004, p. 217.

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19979), encontramos a individualidade nece circunscrita aos muros de uma o poder soberano para realizar esta sua
na alienação médico-paciente, a medici- epistemologia médica. A norma coleti- história da sexualidade. É coisa diver-
na moderna abre seus cadáveres para co- va, invertida em norma individual pelo sa disso que a História da sexualidade
nhecer o homem na alienação da doença domínio da morte, é um dos traços ori- I elaborou como analítica do poder: o
no corpo. Ambas aquilatam a dimensão ginais do século XIX, do modo como a discurso da interdição sexual (hipótese
individual do homem, conforme um mo- individualidade moderna foi elaborada repressiva) tem uma estratégia sui gene-
vimento de perda e reencontro do que em seus imperativos políticos. Assim, ris que é, precisamente, a de apresen-
ele é. Psicologia e clínica compõem, na para Foucault trata-se, já nos anos tar o homem do desejo como liberado
Modernidade, a grande ontologia negati- 1960, de fazer uma crítica mais ampla da repressão sexual. Ora, é exatamente
va do homem. Na expressão de Foucault, da própria forma com que a racionali- esta operação, a que crê no fim da seve-
elas fazem a grande “������������������
experiência da in- dade médica vem configurar, na rea- ridade sexual, que oculta a efetiva ação
dividualidade”, querem ambas conhecer lidade, uma política da verdade. Esta política deste discurso: da repressão à
o indivíduo por “referência à destruição” referência à negatividade como cons- liberação são sempre estratégias de “as-
do homem: “[...] ����������������������
dos cadáveres abertos titutiva do ser do homem (como o filó- sujeitamentos” que está a se formular.
de Bichat ao homem freudiano, uma re- sofo dirá na analítica da finitude de As Não à toa mais tarde, especialmente a
lação obstinada com a morte prescreve palavras e as coisas. 8ª ed. Sâo Paulo: partir de O uso dos prazeres (7ª ed. Rio
ao universal sua face singular e dá à pa- Martins Fontes, 2000), é um imporante de Janeiro: Graal, 1994), Foucault quer
lavra de cada um o poder de ser indefi- germe do subsequente programa fou- estabelecer sua história da sexualidade
nidamente ouvida; o indivíduo lhe deve caultiano da história da sexualidade. para além da evidência histórica da teo-
um sentido que nele não se detém”.10 �� O Que indiquemos um caminho à guisa ria do desejo. Problematiza nos volumes
doente se aliena no observador neutro de ensaio e desenvolvimento ulterior. I e II da História da sexualidade o tema
e real da pessoa do médico. É o fim da Aos menos dois importantes procedi- teórico geralmente aceito do sujeito
velha proibição aristotélica que impedia mentos, no contexto da história da sexu- desejante. Portanto, recorrendo outra
um discurso científico sobre o indivíduo. alidade, explicitam o mesmo recurso à vez à negatividade constituinte do nosso
Doravante, a morte disporá de uma lin- destruição constitutiva do homem como humanismo – neste caso, tendo em vista
guagem na condição de conceito: o es- figura de seu ser: a rejeição da hipótese certa genealogia do inconsciente – Fou-
paço em que o olhar médico verbaliza repressiva sobre a sexualidade, no que cault faz a crítica do homem do dese-
a forma diferenciada do indivíduo. Di- toca ao dispositivo de sexualidade, e a jo a fim de entender por que o discurso
ferenciada por que excesso daquilo que crítica da noção de sujeito do desejo e científico da sexualidade (a psicanálise)
o homem não é; diferenciada porque a rejeicão de uma teoria do desejo. Em pertence à era que confessa o que se é
figura da finitude que se por si mesma a Vontade de saber (12ª ed. Rio de Ja- recorrendo a um negativo nós somos (o
confunde a empiricidade do olhar clínico neiro: Graal, 1997), a colocacão do sexo inconsciente). Contudo, se, nos últimos
com o próprio homem-norma. em discurso exigirá que Foucault elabo- escritos, Foucault viaja até a antiguida-
re um “���������������������������������
desengate” jurídico: desfazer-se de greco-romana para realizar esta tare-
Estética da existência de certa representação do poder como fa, é para tentar um caminho novo que
emanado de uma centralidade (cortar a o homem pretende: tentar uma análise
Podemos então dizer que esta per- cabeça do rei do posto de vista da histó- das práticas históricas segundo as quais
cepção epistêmica do corpo, inaugu- ria da representação política) a fim de os indivíduos se interessaram por eles
rada na anatomoclínica, não perma- expor, sob a rubrica da negatividade pa- próprios, ou seja, Foucault quer, ao ana-
cificadora do poder soberano, os assaltos lisar as práticas de si, encontrar as regras
10 FOUCAULT, M. O nascimento da clínica.
Trad. Roberto Machado. 6. ed. Rio de Janeiro:
de um poder estrategicamente disposto ou critérios não de fixação do indivíduo,
Forense Universitária, 2004, �����������������
p. 217. (Nota do em redes de forças. Muitas vezes pensa- mas de sua mudança pelo pensamento,
autor) mos que Foucault simplesmente rejeitou uma estética da existência.

XII Simpósio Internacional IHU – A


25 a 28 de outubro de 2010 Experiência Missioneira: território,
cultura e identidade

Local: Unisinos • Anfiteatro Pe. Werner


Data de início: 25 de outubro de2010
www.ihu.unisinos.br
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18 SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335
Teologia Pública
“Devoção negra”: os santos e a catequese
da Igreja colonial voltada aos negros
Para a Igreja Católica do período colonial, a preocupação de cristianizar os negros passou
por uma re-elaboração de elementos cristãos para aproximá-los das culturas de matriz
africana, segundo o historiador Anderson José Machado de Oliveira

Por Moisés Sbardelotto

D
os primórdios da Igreja na Etiópia até a devoção dos “fiéis escravos” do período colonial do Brasil.
Essa foi a viagem que Santo Elesbão e Santa Efigênia realizaram pelas mãos do frei carmelita José
Pereira de Santana, ainda no século XVII. Nesse trajeto, os dois santos passaram também por um
processo de aproximação forçada à Ordem do Carmo.
Para o historiador Anderson José Machado de Oliveira, essa “tradição inventada” fazia parte de
um processo de cristianização dos negros do Império Português, como também de promoção da própria Ordem
do Carmo. Autor de Devoção Negra: Santos Pretos e Catequese no Brasil Colonial (Ed. Quartet/FAPERJ, 2008),
Oliveira analisa, nesta entrevista, concedida, por telefone, à IHU On-Line a aproximação ocorrida desde o
Brasil colonial até hoje, entre alguns aspectos-chave do catolicismo e as religiões de matriz africana.
Segundo ele, “o catolicismo é a religião do colonizador, mas, ao mesmo tempo, é também a religião que
vai ser relida por esses negros, que vão se apropriar do catolicismo também como uma possibilidade de re-
construção” de suas próprias identidades. Mas não do catolicismo idealizado pela hierarquia da Igreja, e sim
de um “catolicismo possível, o que alguns chamam de ‘catolicismo popular’, que seria essa reinterpretação
do catolicismo segundo as diversas matrizes culturais existentes no período colonial”.
Anderson José Machado de Oliveira é historiador formado pela Universidade Federal Fluminense. Possui mes-
trado e doutorado em História pela mesma instituição. Atualmente, é professor da Universidade do Estado do Rio
de Janeiro e da Universidade Federal do Rio de Janeiro, além de colaborador da Universidade Federal Fluminense.
Além de Devoção Negra, é autor dos capítulos “Negra Devoção”, do livro Raízes Africanas (Ed. Sabin, 2009), e de
“O Herói e a Coroa”, parte de História e Imagem (Ed. Gráfica Pontual, 1998). Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em aspectos gerais, tante na estruturação do poder e da relação à missionação com os índios.
qual a importância dos negros para sociedade colonial, não poderia deixar Essa preocupação se traduziu na busca
a Igreja Católica do período colonial? de se preocupar com o crescimento por modelos de santidade que pudes-
Eles faziam parte da sua preocupa- da população de africanos no Brasil, sem ser difundidos entre a população
ção missionária ou catequética? principalmente, a partir do final do de africanos e seus descendentes de
Anderson José Machado de Oliveira século XVII e ao longo do século XVIII, forma a não só inseri-los na cristanda-
– A partir do momento em que a mão- quando, na verdade, os africanos e de, mas também a fazer essa inserção
de-obra africana se torna fundamental seus descendentes vão se tornando, cristianizando, na medida do possível,
para a própria gerência da economia praticamente, o maior contingente essa população.
colonial, essa importância aparece populacional da América portuguesa.
não só para o Estado, mas para a Igre- A partir disso, eu acredito que há, IHU On-Line – Em sua pesquisa, o se-
ja também, já que se vivia em um re- sim, uma preocupação da Igreja com nhor aborda a questão do culto dos
gime de união entre Igreja-Estado. E a missionação sobre os negros, com santos no Brasil colonial. O que isso
a Igreja, como uma instituição impor- algumas diferenças, no entanto, em significou para um maior alcance da
SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335 19
Igreja Católica entre os fiéis? “Fica bastante evidente, to para analisar essa questão do culto
Anderson José Machado de Oliveira aos santos entre os negros, que é jus-
– A questão do culto dos santos já é na minha interpretação, tamente a vida de São Elesbão e Santa
tradicional dentro da Igreja. Desde Efigênia. É um trabalho escrito por ele
a alta Idade Média, o culto dos san- que há uma apropriação em dois volumes, o primeiro sobre a
tos acabou se transformando em uma vida de São Elesbão, e o segundo so-
ação importante da Igreja, inclusive com vistas ao processo bre a vida de Santa Efigênia, nos quais
para a conversão de populações não Frei José procura criar uma tradição
cristãs. Na época moderna, essa pas- de cristianização dos de ligação entre as histórias desses
toral do culto aos santos é reforçada dois santos com a Ordem do Carmo. Os
até na medida em que ele é questio- negros no interior do dois são tidos por frei José Pereira de
nado pelos protestantes. Em relação Santana como religiosos carmelitas,
aos negros, a questão do culto aos Império Português, como incluindo sua própria iconografia: eles
santos era, de alguma forma, já di- são representados com vestes carme-
fundido por ações portuguesas na cos- também de promoção da litas. Com isso, a própria imagem do
ta da África, e essa pastoral acaba, no Carmo vai estar associada à imagem
meu entender, tendo uma importância própria Ordem do Carmo, desses dois santos, que são colocados
fundamental para aproximar esses fi- como exemplos para a população de
éis de origem africana à própria Igre- já que esses dois santos africanos e seus descendentes na Amé-
ja, já que há, com relação ao culto rica portuguesa.
dos santos, algumas características, vão ser associados
segundo o historiador africanista John IHU On-Line – O senhor se detém so-
Thornton, que podem aproximar o diretamente à ordem” bre o culto de dois santos específi-
catolicismo de alguns aspectos das cos, Santo Elesbão e Santa Efigênia.
próprias religiões de matriz africana, Quem foram esses santos? Realmen-
um cargo extremamente importan-
como a questão da possibilidade de te existiram?
te, já que os qualificadores funcio-
comunicação entre o mundo material Anderson José Machado de Oliveira
navam como uma espécie de “tribu-
e o mundo não material, a existência – Há toda uma tradição hagiográfica
nal superior” dentro do Santo Ofício,
de espíritos que fazem a comunicação dentro da Igreja Católica que coloca
que analisava, quando necessário, as
entre esses dois mundos. Isso, a meu Santo Elesbão como um imperador da
questões mais complicadas nas de-
ver, contribui para que o culto aos Etiópia, em torno do século VI d.C., e
cisões do Santo Ofício, além de se-
santos tenha se colocado como algo Santa Efigênia como filha do rei da Nú-
rem os responsáveis pela chancela
importante na própria inserção dos bia, por volta da época apostólica do
das publicações dentro do Império
negros na cristandade. cristianismo. Essa tradição existente
Português. Qualquer livro, qualquer
em torno da vida de Santa Efigênia diz
impresso, para virar público, passa-
IHU On-Line – Quem foi o frei José que ela teria inclusive se convertido
va pela avaliação dos qualificadores
Pereira de Santana? Como a sua his- ao cristianismo pelo apóstolo Mateus,
do Santo Ofício, isso pelo menos até
tória se relaciona com o projeto ca- e que Santo Elesbão teria sido um dos
1765, quando o Marquês de Pombal 
tequético da Igreja para os negros? defensores do cristianismo na Etiópia
cria a Real Mesa Censória, retirando
Anderson José Machado de Oliveira não só contra a expansão muçulmana
essa atribuição do Santo Ofício.
– José Pereira de Santana foi um fra- na África, mas também com relação
Então, isso fez de José Pereira de
de carmelita, nascido no Rio de Ja- aos próprios judeus. Essas histórias
Santana um agente do Carmo muito
neiro, na segunda metade do século aparecem, mais ou menos, nos textos
importante. Ele chega a se tornar pre-
XVII. Ele é ordenado no Carmo do Rio hagiográficos ligados a uma tradição
ceptor e confessor das filhas de Dom
de Janeiro, na ordem dos Carmeli- tanto do cristianismo romano quanto do
José I, tendo uma proximidade com
tas Calçados, e, posteriormente, vai cristianismo oriental, copta, de matriz
o Paço Real muito grande, e dentro da
para Portugal, onde ele completa ortodoxa. Na verdade, é muito difícil
própria ordem do Carmo. E é ele que
seus estudos, com um doutorado em saber efetivamente se Santo Elesbão e
vai escrever o trabalho do qual eu par-
Coimbra, tendo, com isso, uma as- Santa Efigênia foram santos “reais” do
 Sebastião José de Carvalho e Melo, primeiro
censão muito rápida, em termos da Conde de Oeiras e Marquês de Pombal (1699- ponto de vista da sua existência. Com
hierarquia da própria ordem carme- 1782): nobre e estadista português. Foi secre- relação a Elesbão, é mais provável que
lita, e na própria estrutura da Igre- tário de Estado do Reino durante o reinado de haja algum fundo de realidade na exis-
D. José I (1750-1777), sendo considerado, ain-
ja. Ele acaba galgando posições im- da hoje, uma das figuras mais controversas e tência dele, até porque existem relatos
portantes dentro da ordem do Carmo carismáticas da História Portuguesa. (Nota da nos próprios monastérios da Igreja cop-
de Lisboa e se torna, a partir de IHU On-Line) ta, na Etiópia, sobre a existência de um
 D. José I de Portugal (1714-1777): cogno-
1735, qualificador do Santo Ofício, minado O Reformador devido às reformas que imperador com esse nome.
 John Lawson Thornton (1954): professor empreendeu durante o seu reinado, foi Rei de No entanto, as histórias desses dois
e diretor na Tsinghua University, de Beijing. Portugal da Dinastia de Bragança desde 1750 santos são histórias reapropriadas pela
(Nota da IHU On-Line) até a sua morte. (Nota da IHU On-Line)

20 SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335


tradição do Carmelo em Portugal, já que, “Não só a Ordem do relação muito próxima com o poder
na época em que esses santos teriam vi- real, inclusive por ter sido confessor e
vido, seria impossível que eles fossem Carmo, mas as ordens preceptor das filhas de Dom José. En-
carmelitas. Se Elesbão foi um santo que tão, eu diria que, de uma forma geral,
viveu em torno do século VI da era cris- religiosas e a Igreja as ordens religiosas, e o Carmo entre
tã, e Efigênia teria vivido na época apos- elas, foram importantes na própria di-
tólica, cronologicamente a Ordem do Católica em geral tinham fusão do cristianismo, do catolicismo,
Carmo não existia nesse período, ela só na América portuguesa. Até porque,
é criada no século XIII, posterior a histó- uma posição que não pela determinação do Padroado Ré-
ria desses santos. Na realidade, há uma gio, as ordens tinham a obrigação de
tradição inventada, para usar o termo condenava a missionar, de expandir a fé cristã. Esse
de [Eric] Hobsbawm, em torno dessas era o compromisso que elas desempe-
histórias, que são trabalhadas a partir escravidão. A escravidão nhavam dentro da estrutura da Igreja.
do frei José Pereira de Santana, ligando Com relação à escravidão, não só a
esses dois expoentes da santidade afri- era vista como um Ordem do Carmo, mas as ordens reli-
cana à Ordem do Carmo. Então, aí fica giosas e a Igreja Católica em geral ti-
bastante evidente, na minha interpreta- elemento, de certa nham uma posição que não condenava
ção, que há uma apropriação com vistas a escravidão. A escravidão era vista
ao processo de cristianização dos negros forma, natural, dentro como um elemento, de certa forma,
no interior do Império Português, como natural, dentro da estrutura da épo-
também de promoção da própria Ordem da estrutura da época, ca, até mesmo em função de que os
do Carmo, já que esses dois santos vão africanos eram vistos como povos que
ser associados diretamente à ordem. até mesmo em função carregavam a marca do pecado, e a es-
cravidão era uma forma de purgar esse
IHU On-Line – Frei José chamou Santo de que os africanos eram pecado, de prepará-los para uma vida
Elesbão e Santa Efigênia de “Atlantes melhor após a morte. Então, essas or-
da Etiópia”, associando-os à imagem vistos como povos que dens trataram a escravidão como algo
do sol e da lua. O que esse simbolis- natural, a partir de uma perspectiva
mo significava para a cultura negra? carregavam a marca do que não contradizia a própria utiliza-
Anderson José Machado de Oliveira – ção da mão-de-obra africana no Bra-
Esse simbolismo é dotado de significa- pecado, e a escravidão sil, vista justamente por essa ótica.
dos não só para as culturas africanas, O próprio Antônio Vieira, no século
mas para a cultura cristã também, a era uma forma de purgar XVII, tem um sermão em que ele fala
questão de Cristo ser associado ao sol, justamente disso, da naturalidade da
e da lua como símbolo de fertilidade. esse pecado, de  Antônio Vieira (1608-1697): padre jesuíta,
Isso vai aparecer em algumas culturas
diplomata e escritor português. Veio para o
africanas, que também fazem esse prepará-los para uma Brasil em 1915 e logo começou seus estudos
tipo de associação dessa simbologia. no Colégio dos Jesuítas. Mais tarde ingressou
na Companhia de Jesus. Foi um grande orador
Há diversas manifestações dentro da vida melhor após sacro. Desenvolveu expressiva atividade mis-
relação com o homem com a nature- sionária entre os indígenas do Brasil procuran-
za. O que eu procurei mostrar no livro a morte” do combater a sua escravidão pelos senhores
de engenho. Em 1641 voltou a Portugal onde
é que, para algumas culturas de ma-
exerceu funções políticas como conselheiro da
triz africana que estavam dentro das Corte e embaixador de D. João IV principal-
irmandades onde esse culto vai ser religiosos se posicionavam diante do mente no que se referia às invasões holandesas
difundido, havia uma associação entre regime escravagista? do Brasil. Retornou ao Brasil em 1652, tendo
Anderson José Machado de Oliveira estado no Maranhão, onde fez acusações aos
o sol com algumas divindades das cul- senhores de engenho escravocratas na defesa
turas africanas e também com a lua, – A Ordem do Carmo tinha uma posi- da liberdade dos índios. Foi expulso do país,
ligadas à mulher, à fertilidade etc. En- ção importante dentro da estrutura da juntamente com outros jesuítas. Envolveu-se,
Igreja colonial. Em comparação com os posteriormente, com a Inquisição e chegou a
tão, há um fundo de simbolismos que estar detido por um ano. Voltou ao Brasil em
são comuns entre a cultura cristã e al- jesuítas, essa importância era menor, 1681, para a Bahia, onde veio a falecer anos
gumas culturas de matriz africana. já que os jesuítas vão se caracterizar mais tarde, no Colégio de Salvador. Entre suas
como a grande ordem religiosa duran- obras estão: Sermões, composto por 16 vo-
lumes que foram escritos entre 1699 e 1748;
IHU On-Line – Qual o papel da Ordem te o período colonial. Mas o Carmo História do Futuro (1718); Cartas (1735-1746),
dos Carmelitas dentro da Igreja Cató- era, como as demais ordens religiosas, em três volumes; Defesa perante o tribunal do
elemento importante na própria es- Santo Ofício (1957), composto por dois volu-
lica do período colonial? Como esses mes e Arte de furtar, escrito em 1744, porém,
trutura da Igreja, em termos de aqui- de autoria duvidosa. Confira a edição 244 da
 Eric John Earnest Hobsbawm (1917): his- sição de bens, de proximidade com o IHU On-Line, de 19-11-2007, Antônio Vieira.
toriador marxista reconhecido internacional- poder. O próprio Frei José tinha uma Imperador da língua portuguesa. (Nota da IHU
mente. (Nota da IHU On-Line) On-Line)

SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335 21


escravidão, de como a escravidão era
algo natural, e que era preferível que
“A religião em geral tem do um papel importante enquanto li-
deranças dentro das suas respectivas
os africanos estivessem no Brasil como
escravos do que como pagãos em suas
um papel importante comunidades.
No candomblé hoje e nas outras
terras de origem, já que como escra-
vos aqui eles estariam sendo inseri-
dentro da reconstrução religiões de matriz africana, o papel
da mulher é o papel fundamental,
dos dentro do cristianismo e estariam
tendo justamente a oportunidade de
das identidades de como as próprias lideranças. É quase
um matriarcado, o que, para mim,
purgar a marca do pecado em função
da cristianização e da própria escra-
origem africana no Brasil. é uma herança clara dessa posição
da mulher na estrutura das culturas
vidão. A religião é, a meu ver, africanas e de como isso vai ser re-
criado no Brasil, seja através do ca-
IHU On-Line – Em linhas gerais, como
podemos compreender a relação
por excelência, o tolicismo, do culto aos santos e das
próprias religiões africanas, que vão
entre os negros e o catolicismo no
período colonial? Que resquícios po-
elemento de se re-estruturar a partir do período
colonial e se intensificando depois
demos perceber dessa relação na fé
católica brasileira de hoje?
re-elaboração cultural, em outras etapas da própria cons-
trução da nossa história.
Anderson José Machado de Oliveira
– A relação dos africanos e de seus
até mesmo de resistência IHU On-Line – Que análise o senhor
descendentes com o catolicismo
acaba se dando, a meu ver, por uma
cultural, dentro da faz sobre a relação entre as comuni-
dades afro-brasileiras e a religião em
perspectiva de releitura desse cato-
licismo no nível das práticas, efetu-
própria redefinição das geral hoje? E com relação ao catoli-
cismo?
ada durante o período colonial. Uma
coisa que eu procuro mostrar no
culturas africanas na Anderson José Machado de Oliveira
– A religião em geral tem um papel
meu livro é que há um projeto de
conversão dos negros. Esse projeto
América portuguesa” importante dentro da reconstrução
das identidades de origem africana
tem os seus níveis de efetividade, de no Brasil. A religião é, a meu ver, por
concretização, já que alguns desses zação dos santos como símbolos de excelência, o elemento de re-elabo-
santos, difundidos pelas ordens, são reconstrução de identidades étnicas ração cultural, até mesmo de resis-
efetivamente incorporados à crença de matrizes africanas, seja através tência cultural, dentro da própria
dos negros, principalmente através da simbolização desses santos com redefinição das culturas africanas na
das irmandades, nas quais eles se- aspectos da cultura africana. Uma América portuguesa. Por outro lado,
rão cultuados. Há um processo aí em questão que eu chamo atenção no o catolicismo é a religião do coloni-
que eu vejo algum sucesso da Igreja livro é o papel de Santa Efigênia, zador, mas, ao mesmo tempo, é tam-
na conversão dos negros. No entan- por exemplo. Há uma aproximação bém a religião que vai ser relida por
to, outra coisa que eu procuro de- muito maior, pelo que eu pude ver, esses negros, que vão se apropriar
monstrar é que, se esse projeto de com a figura de Efigênia do que com do catolicismo também como uma
conversão tem sucesso, esse sucesso a de Elesbão. A popularidade de Efi- possibilidade de reconstrução des-
é sempre limitado, do ponto de vis- gênia é maior do que a popularidade sas identidades. Não do catolicismo
ta de que essas populações acabam de Elesbão entre negros. A meu ver, idealizado pela hierarquia da Igreja,
re-elaborando essa crença católica a isso está muito associado não só à mas o catolicismo possível, o que al-
partir também das suas matrizes cul- questão da imagem da santa mulher, guns chamam de “catolicismo popu-
turais de origem africana. No caso que, no cristianismo, tem sempre lar”, que seria essa reinterpretação
dos santos, por exemplo, eles aca- uma proximidade com a imagem de do catolicismo segundo as diversas
bam se tornando elementos de cons- Maria, mas também ao papel que as matrizes culturais existentes no pe-
trução de identidades étnicas no pe- mulheres tinham nas culturas de ori- ríodo colonial, dentre elas as pró-
ríodo colonial, identidades essas que gem africana, nas quais elas eram prias culturas de origem africana.
procuram recriar alguns aspectos as transmissoras, eram cadeias de
dessa memória existente na África, transmissão da cultura, eram ele-
que vão ser, de alguma forma, para- mentos importantes na própria cir-
lelas ao próprio culto católico. culação de informações e na própria
Então, essa conversão dos ne- manutenção da tradição africana,
gros passa sempre por um processo que está muito ligada às mulheres.
de releitura dos códigos cristãos e Existem pesquisas hoje do Brasil co-
católicos e de adaptação às cultu- lonial que mostram muito bem isso,
ras africanas, seja através da utili- como as libertas acabavam assumin-

22 SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335


Entrevistas da Semana
“A serenidade é a outra face da política”
Ricardo Bins di Napoli acredita que Norberto Bobbio, com toda a sua experiência política
e conhecimento teórico, conseguiu manter aberta a porta para o julgamento moral dos
fatos históricos e políticos

Por Márcia Junges e Graziela Wolfart

N
a visão do professor Ricardo Bins di Napoli, o modo de pensar de Norberto Bobbio “nos oportu-
niza um olhar diferente sobre os problemas morais. Penso que amplia a questão da Moral para
além dos limites da fundamentação e da análise conceitual e lógica das proposições morais,
enfatizando a necessidade de pensar normas eficazes para a vida moral e legal de um país”. Na
entrevista que segue, concedida à IHU On-Line por e-mail, Napoli defende que a visão de Bobbio
sobre as virtudes da serenidade e da tolerância “revelam uma transcendência do problema do poder e dos
conflitos para refletir sobre o melhor modo de convivência entre os homens”. Para Bobbio, continua ele, “se
considerarmos a política no sentido que muitos chamam de realista ou mesmo schmittiana, a serenidade é
a outra face da política”.
Ricardo Bins di Napoli é professor na Universidade Federal de Santa Maria - UFSM. Possui doutorado em
Filosofia, iniciado na Ludwig-Maximilliams Universität, de Munique (Alemanha), e concluído na Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS. É mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul - UFRGS. Atua na área de Filosofia Moral e Política. Publicou Ética e compreensão do outro: a
ética de Wilhelm Dilthey sob a perspectiva do encontro interétnico (Porto Alegre: EdiPUCRS, 2000) e junta-
mente com outros autores organizou Ética e Justiça (Santa Maria: Palotti, 2003), com textos sobre J. Rawls e
outros filósofos, abordando a justiça, e Norberto Bobbio: Direito, Ética e Política (Ijuí: Editora Unijuí, 2005).
Confira a entrevista.

IHU On-Line - Poderia dar mais deta- o Partido da Ação em torno das figuras forças da resistência ao fascismo, dan-
lhes de por que as ideias de Bobbio de Aldo Capitini e Guido Calogero, em do uma contribuição decisiva ao debate
fomentam o diálogo e o senso de res- 1942. Foi então que Bobbio aderiu a esse teórico para o nascimento da república
ponsabilidade pública? partido, que sustentava a necessidade italiana. Infelizmente, nas eleições após
Ricardo Bins di Napoli - Em primeiro lu- de se reunir, em uma nova construção a 2ª Guerra Mundial, não teve o suces-
gar, porque Bobbio foi um exemplo de política, os valores de liberdade e justi- so eleitoral esperado. Do ponto de vista
homem público. Politicamente, nunca ça. Em um Manifesto de 1941, que com- político, a democracia parlamentarista
foi um homem de partido, mas partici- plementava um primeiro (Manifesto do será dominada durante quatro décadas
pou ativamente da vida política italiana. liberal-socialismo), elaborado em 1940, pela direitista Democracia Cristã, até
Bobbio viveu sua juventude em uma Itá- pretendia-se aglutinar contra o fascis- sua morte política, na esteira das denún-
lia dominada pelo fascismo, sob a lide- mo todas as forças políticas. Em maio cias de corrupção e envolvimento com a
rança do Duce, Benito Mussolini. Entre de 1942, o programa do Partido da Ação Máfia. Economicamente, a Itália emer-
1935 e 1938, frequentava reuniões do foi definido em sete pontos. Entre esses, giu da destruição econômica provocada
grupo do movimento liberal-socialista. constava a formação de uma república pela guerra para um papel de liderança
Nos anos 40, colaborava com o grupo tu- baseada em uma economia mista me- econômica mundial.
rinense Justiça e Liberdade, que fundou diante a nacionalização dos grandes mo-
 Benito Amilcare Andrea Mussolini (1883- nopólios industriais e financeiros e por A unificação entre os socialistas
1945): político italiano que liderou o Partido meio de um apoio da pequena e média e os social-democratas
Nacional Fascista e é creditado como sendo empresa. O Partido liderado por Capi-
uma das figuras-chave na criação do Fascismo.
(Nota da IHU On-Line) tini e Calogero se impôs como uma das Nos anos 60, Bobbio defendeu a unifi-
SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335 23
cação entre os socialistas e os social-de- reconhece as dificuldades e limites do
mocratas. Esse período não foi isento de
“Ostentar a inteligência é homem. Assim, ela se vê como igual ao
sobressaltos, como a revolta estudantil demais. Com maior razão, a serenidade
de 1968 e a ação das Brigadas Vermelhas.
uma estupidez, ou então opõe-se à insolência, que é a ostenta-
Os anos 70 são marcados pela oposição ção da arrogância. O indivíduo sereno
de esquerda para o sequestro e morte do
quem ostenta a caridade não ostenta nem sua própria virtude.
ex-primeiro ministro Aldo Moro. A opo- Ostentar a inteligência é uma estupi-
sição foi constituída nesse período por
é porque se ressente da dez, ou então quem ostenta a caridade
uma vigorosa esquerda, representada é porque se ressente da falta dela, diz
por um dos mais fortes partidos comu-
falta dela, diz Bobbio” Bobbio. A prepotência também se opõe
nistas da Europa Ocidental, o PCI, além à serenidade, não só porque é a po-
de um Partido Socialista moderado. O lientando a importância de uma postura tência ostentada, mas concretamente
partido comunista, entretanto, implo- normativa sobre a ação política. Como exercida. O prepotente exerce sua for-
dirá juntamente com as mudanças na escreveu Bobbio: “Não se pode cultivar ça esmagando os outros e utilizando-se
conjuntura política, provocadas pelo fim a filosofia política sem que se procure de abusos e excessos.
do bloco soviético, originando o Partido compreender aquilo que há além da po- O sereno é aquele que deixa o outro
de la Sinistra e a Rifondazione Comunis- lítica, sem que se ingresse, em suma, na ser a seu modo. Não estabelece contato
ta. Em 1984, Bobbio abre uma polêmica esfera do não político, sem que se es- com o outro com o propósito de entrar
contra a “democracia de aplauso” en- tabeleçam os limites entre o político e em conflito, mas não se importa com o
volvendo Bettino Craxi e Sandro Perti- o não político. A política não é tudo. A mundo dividido entre vencidos e vence-
ni. Ainda nesse ano é nomeado senador ideia de que tudo seja política é simples- dores, pois é num mundo sem esse tipo
pelo próprio presidente Sandro Pertini. mente monstruosa”. Por isso, seu modo de história que gostaria de viver.
Em toda a sua vida, Bobbio foi um defen- de pensar, através do seu conhecimento Isso não significa que a serenidade
sor de uma “filosofia militante”, como profundo do Direito e da política, nos seja submissão. Esta, como a conces-
uma “filosofia da dúvida”, entendendo oportuniza um olhar diferente sobre os são, afabilidade, humildade, modéstia
com ela o trabalho intelectual de aná- problemas morais. Penso que amplia a e a tolerância, é virtude afim com a
lise e descrição, que visa a colocar em questão da Moral para além dos limites serenidade. Enquanto o submisso re-
dúvida as pretensões absolutizantes de da fundamentação e da análise concei- nuncia à luta por fraqueza, medo ou
interpretação do mundo. Essa tarefa in- tual e lógica das proposições morais, en- resignação, o sereno rejeita a destruti-
telectual bobbiana é extremamente re- fatizando a necessidade de pensar nor- vidade do confronto por aversão ou por
levante. No fundo, ela o coloca, de um mas eficazes para a vida moral e legal de perceber a inutilidade dos fins que re-
modo significativo, em uma linha direta um país. Sua visão sobre as virtudes da sultariam do confronto, por um senti-
com a filosofia socrática nascida na Gré- serenidade e da tolerância revelam uma mento profundo de desapego aos bens
cia Antiga, há muitos séculos. transcendência do problema do poder e que estimulam a cupidez dos demais.
dos conflitos para refletir sobre o melhor Igualmente a serenidade não é afabi-
IHU On-Line - Qual foi a preocupação modo de convivência entre os homens. A lidade, pois enquanto o afável é um cré-
de Bobbio com a ética ao longo de serenidade não é uma virtude política, dulo, incapaz, muitas vezes, de suspei-
sua obra? pelo contrário, é a mais apolítica das vir- tar da malícia dos outros, o sereno busca
Ricardo Bins di Napoli - Penso que Bo- tudes. Para Bobbio, se considerarmos a uma relação justa, igual com os demais.
bbio, com toda a sua experiência polí- política no sentido que muitos chamam Também não se deve, segundo Bobbio,
tica e conhecimento teórico, conseguiu de realista ou mesmo schmittiana, a se- confundir serenidade com humildade,
manter aberta a porta para o julgamen- renidade é a outra face da política. elevada virtude para o cristianismo. A
to moral dos fatos históricos e políticos. humildade, como definida por Spinoza,
Ao delimitar e relacionar os âmbitos da O que existe além da política e da é uma “tristeza nascida do fato de que
Ética e da política, permite-se reflexões questão da serenidade o homem contempla sua impotência ou
morais sobre os fins da ação humana na fraqueza”. O sereno não é triste, mas
vida social, de modo a não aceitar ta- Assim, Bobbio não quer reduzir todo está convencido de que o mundo por ele
citamente o realismo político, mas sa- tipo de ação humana à política. Consi- imaginado é melhor que o mundo em
 Aldo Moro (1916-1978): jurista, professor e dera necessário pensar-se o que existe que ele está obrigado a viver.
político italiano. (Nota da IHU On-Line) além dela. A serenidade é o contrário da
 Bettino Craxi (1934-2000): político italiano. A tolerância e a intolerância
Foi líder do Partido Socialista Italiano (PSI) de arrogância, uma opinião exagerada de
1976 a 1993 e ocupou o cargo de primeiro-mi- uma pessoa sobre os seus próprios mé-
nistro da Itália de 1983 a 1987. Foi o primeiro ritos. A pessoa serena não tem grande A serenidade também não pode ser
socialista, na história da república italiana a
ocupar o cargo de primeiro-ministro. (Nota da opinião sobre si, não porque não tenha  Bento de Espinoza (1632-1677): um dos
IHU On-Line) autoestima, mas simplesmente porque grandes racionalistas do século XVII dentro da
 Alessandro Pertini (1896-1990): importante chamada Filosofia Moderna, juntamente com
político italiano e sétimo presidente de seu  Carl Schmitt (1888-1985): jurista, filóso- René Descartes e Gottfried Leibniz. É conside-
país, eleito em 8 de julho de 1978 no 16º es- fo político e professor universitário alemão. rado o fundador do criticismo bíblico moder-
crutínio. (Nota da IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line) no. (Nota da IHU On-Line)

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confundida com a modéstia, uma suba- desse autor inspira a democracia? dade de um mundo menos desigual. A
valiação que se faz de si mesmo que nem Ricardo Bins di Napoli - Em primeiro redução da desigualdade é uma ques-
sempre é sincera. Entretanto, esta dife- lugar, pelas suas ideias sobre a demo- tão para Bobbio.
rença não exclui o fato de que o sereno cracia. Para Bobbio, “o único modo de
seja humilde e modesto. A intolerância, se chegar a um acordo quando se fala Um cético diante do socialismo
como dogmatismo, é negativa, pois ela de democracia, entendida como con-
se torna limitadora das consciências, não traposta a todas as formas de governo Diante do socialismo, entretanto, Bo-
admitindo diferenças do seu modo de autocrático, é considerá-la caracteri- bbio é um cético, mas não tem uma pos-
pensar ou objeções às suas consciências. zada por um conjunto de regras (primá- tura de antagonismo. Para ele, enquanto
Da mesma forma, a tolerância pode ser rias ou fundamentais) que estabelecem as instituições liberais têm uma relação
negativa na forma de indiferença moral. quem está autorizado a tomar decisões natural com a democracia, a relação do
Assim, a indiferença tem como antíte- coletivas e com quais procedimentos”. socialismo com democracia precisa ser
se a atitude do fanático, que só aceita Nos anos 70, Bobbio definiu um conjun- demonstrada. Essa posição, entretanto,
suas ideias e quer que todos o sigam. O to de seis regras da democracia: permite a ele dialogar com a esquerda
núcleo da ideia de tolerância, escreveu - todos os cidadãos que tenham atin- socialista (PCI e do Partido Socialista).
Bobbio, “é o reconhecimento do igual gido a maioridade, sem distinção de Sua visão moderada, tolerante, como
direito a conviver que se reconhece a raça, religião, condições econômicas, eu já disse, é aberta ao diálogo que não
doutrinas opostas, e, portanto, do direi- sexo etc., devem gozar dos direitos quer a exclusão dos grupos políticos que
to ao erro, pelo menos ao erro cometido políticos; não aceitam sua concepção da política e
em boa-fé”. Bobbio diz que a tolerância - o voto de todos os cidadãos deve ter da democracia. Ao contrário, quer con-
é recíproca e fruto de um contrato que peso idêntico; vencê-los a mudar suas opiniões. Bobbio
dura enquanto o contrato dura, pois a - todos os cidadãos que gozam dos di- reconheceu também alguns paradoxos
base dela é o reconhecimento do igual reitos políticos devem ser livres para na democracia: a) Devido à pluralida-
direito de conviver. Sua necessidade votar segundo a própria opinião; de e complexidade das organizações,
emerge quando surge a irredutibilida- - a existência de alternativas políticas a aplicação das regras do jogo demo-
de de opiniões, pois é necessário que reais; crático é cada vez mais difícil; b) Com
se encontre um modus vivendi entre os - para as deliberações coletivas, como o alargamento do aparelho burocrático
seus diferentes defensores. Além disso, para as eleições dos representantes, nas instituições representativas, criou-
permite que o erro cometido em boa-fé deve valer o princípio da maioria nu- se uma estrutura hierárquica ao invés de
possa ser tolerado. mérica; democrática; c) A igualdade jurídica de
Também quanto à questão de tole- - nenhuma decisão tomada pela maio- todos diante da lei restringiu o poder do
rar os intolerantes, Bobbio indaga se ria deve limitar os direitos da mino- Estado sobre as demandas dos cidadãos;
poderiam ser tolerados grupos políti- ria, em modo particular, o direito de d) A Democracia e a tecnocracia surgida
cos como os neonazistas se eles mes- tornar-se, em condições de igualdade, no interior do Estado estão em irremedi-
mos não tiveram o princípio de tole- maioria. ável contradição, porque a tecnocracia
rância quando estiveram no poder? Em segundo lugar, a posição ideoló- é o governo dos especialistas, que, mui-
E mais: tratando-se de uma doutrina gica-política de Bobbio envolve as tra- tas vezes, desconhecem a vida real dos
discriminatória política, e racista e dições do liberalismo e do socialismo. cidadãos, e a democracia é o governo de
antissemita? Bobbio responde que sim, Entendo que Bobbio é um liberal que todos os cidadãos; independentemente
pois não fazê-lo seria eticamente re- vem da tradição política, não da tradi- de serem ou não especialistas; por fim
provável e politicamente inoportuno. ção econômica. Isto é, para ele, Stuart e) A massificação de todas as grandes
Bobbio diz que é melhor uma liberda- Mill, do “Governo Representativo”, é sociedades resulta hoje num conformis-
de em perigo, mas expansiva, do que um modelo importante. Ele defende a mo generalizado que suprime o senso de
uma liberdade protegida, mas incapaz liberdade contra a opressão, entretan- responsabilidade individual característi-
de evoluir. Nesse sentido, a tolerância to, a distribuição das riquezas, na ver- co de uma sociedade democrática.
é um método que implica na persuasão são soviética, é rejeitada por ele. Em Ao fim de sua vida, Bobbio, como
daqueles que pensam diferentemente terceiro lugar, não se pode atribuir ao senador vitalício, se colocou acima
de nós. Não é um método de imposi- autor uma insensibilidade em relação à dos partidos. Essa posição política
ção. Por isso, excluir certas ideias con- questão social. Se tomarmos a análise que evita o enquadramento fácil com
sideradas por nós criticáveis pode ser que ele faz em “Direita e Esquerda”, grupos pré-definidos também se nota
perigoso, por abrir espaço à limitação ele próprio se identifica como um ho- em sua discussão sobre a democracia.
da liberdade de expressão, seja qual mem de esquerda. O amor pela liber- Pode-se concordar que Bobbio, partin-
for a postura moral ou política que al- dade não o torna insensível à necessi- do do mesmo ponto que uma série de
guém possa ter. Impor homogeneidade autores de corte mais conservador, na
 John Stuart Mill (1806-1873): filósofo e eco-
sempre leva ao autoritarismo. nomista inglês, e um dos pensadores liberais defesa dos procedimentos como base
mais influentes do século XIX. Foi um defensor da democracia, chegará, no entanto,
IHU On-Line - Pensando nesses aspec- do utilitarismo, a teoria ética proposta ini- a um ponto diferente.
cialmente por seu padrinho Jeremy Bentham.
tos acima discutidos, como o legado (Nota da IHU On-Line)

SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335 25


IHU On-Line - Como analisa a postura ler o Dicionário de Política organizado - uma defesa das regras do jogo. Rio
de intelectual público de Bobbio? por Bobbio e publicado há muito tempo, de Janeiro, Paz e Terra, 1986.
Ricardo Bins di Napoli - Bobbio foi um no Brasil, porque ele fornece um conjun- BOBBIO, N. Liberalismo e Democra-
intelectual inserido tanto na vida aca- to de conceitos importantes para se lidar cia. São Paulo: Brasiliense, 1989.
dêmica como na vida política. Ele pro- com a vida política. BOBBIO, N. Thomas Hobbes. Rio de
duziu muito, e suas ideias sobre a políti- Janeiro: Campus, 1991.
ca eram exaustivamente explicadas de IHU On-Line - Quais são os aspectos BOBBIO, N. A Era dos direitos. Trad.
modo compreensível até para os leigos. que permanecem mais atuais no pen- Carlos Nelson Coutinho Rio de Janeiro,
No interior da academia, fora da Itália, samento desse autor 100 anos após Campus, 1992.
houve aqueles que não o levaram muito seu nascimento? BOBBIO, N. Direita e Esquerda. Ra-
a sério. Em minha opinião, ele é tipo Ricardo Bins di Napoli - Suas análi- zões e significados de uma distinção
exemplar de intelectual participante, e ses sobre a filosofia política e o pen- política. São Paulo, Unesp, 1995.
foi respeitado na vida política italiana. samento político, suas ideias sobre o BOBBIO, N. Igualdade e Liberdade.
direito e sua teoria da democracia são Trad. C. N. Coutinho. Rio de Janeiro:
IHU On-Line - O que a política atual, relevantes ainda hoje. Ediouro, 1996.
em específico em nosso país, poderia BOBBIO, N. Elogio da serenidade e
aprender com a trajetória de Bobbio? IHU On-Line - Que obras dele consi- outros escritos morais. São Paulo:
Ricardo Bins di Napoli - Creio que, pri- dera fundamentais? Unesp, 2000.
meiramente, o exemplo dele poderia ser Ricardo Bins di Napoli - BOBBIO, N. Di- BOBBIO, N. Teoria geral da política.
seguido pelas novas gerações de jovens cionário de Política. Brasília: EdUnB, M. Bovero org. Trad. Daniela B. Versia-
políticos. Para isso, seria importante 1976. ni. �����������������������������
Rio de Janeiro: Campus, 2000.
conhecer sua biografia e sua trajetória BOBBIO, N. Direito e Estado no pen- BOBBIO, N. Teoria da Norma jurídica.
intelectual. Em segundo lugar, é im- samento de Emanuel Kant. Brasília: Trad. Fernando P Babtista e Ariani B.
portante conhecer suas ideias sobre a EdUnb, 1984. [3a.Ed. São Paulo: Man- Sudatti. ������������������������
São Paulo: EDIPRO. 2001.
democracia. Bobbio tem, de fato, uma darim, 2000]. BOBBIO, N. Entre duas repúblicas: as
teoria normativa da democracia, isto é, BOBBIO, N. O Futuro da Democracia origens da democracia italiana. Trad.
uma teoria que diz como a democracia Mabel M. Bellati. Brasília: Ed. UnB/
 BOBBIO, N. Dicionário de Política. Brasília:
deveria ser. Além disso, todos deveriam EdUnB, 1976. (Nota da IHU On-Line) São Paulo: Imprensa Oficial, 2001.

Quem foi Norberto Bobbio?


Norberto Bobbio ni liberali, na convivência com Leone a regência da cadeira de Filosofia do
(1909-2004) foi um filó- Ginzburg, judeu russo. Completa os Direito e depois, a partir de 1972, a
sofo político, historiador estudos na Universidade na compa- de Filosofia Política.
do pensamento político nhia de Vittorio Foà. Em 1979 jubila-se da atividade
e senador vitalício ita- Acaba o liceu em 1927 e inscreve- docente, com setenta anos, mas
liano. Nasceu na capital se na Faculdade de Jurisprudência mantém-se ativo na reflexão e na
do Piemonte, no seio de da Universidade de Turim. Convive escrita. É substituído pelo seu discí-
uma família burguesa com professores notáveis, que lhe pulo Michelangelo Bovero que orga-
tradicional. Inicia-se no ajudam a moldar a personalidade, os nizará no fim dos anos 90 uma com-
gosto da leitura com Ge- gostos e a traçar o seu próprio cami- pilação de apontamentos das suas
orge Bernard Shaw, Ho- nho. Em 1931, licencia-se em Juris- aulas sob o título Teoria Geral da Po-
noré de Balzac, Stendhal, Percy Bys- prudência com uma tese de Filosofia lítica – a filosofia política e as lições
she Shelley, Benedetto Croce, Thomas do Direito. Em 1935 obtém um lugar dos clássicos. É membro nacional da
Mann e vários outros. Foi amigo de de docente de Filosofia do Direito na Academia dei Lincei, desde 1966 e
infância de Cesare Pavese com quem Universidade de Camerino. Conquis- membro correspondente da British
conviveu e aprendeu o inglês através tada a cátedra em Camerino é cha- Academy, desde 1965.
da leitura de alguns clássicos. Lia, de- mado para a Universidade de Siena Em 18 de Julho de 1984 é nomea-
pois traduzia e comentava. É marca- em fins de 1938, onde permanece do senador vitalício pelo presidente
do por uma educação liberal. Mesmo dois anos. Em dezembro de 1940 ob- Sandro Pertini.
tardiamente, adquiriu consciência po- tém a cátedra de Filosofia de Direito Norberto Bobbio faleceu em 9 de
lítica. Adquire a educação política no na Faculdade de Jurisprudência da janeiro de 2004, em Turim, aos 94
liceu Massimo d’Azeglio, nas aulas de Universidade de Pádua. Em 1948, anos de idade. E no ano passado foi
Augusto Monti, amigo de Piero Gobetti Bobbio transfere-se para a Universi- lembrado seu centenário de nasci-
e colaborador na revista Le revoluzio- dade de Turim cabendo-lhe primeiro mento.

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“Caminhamos rumo a uma inteligência coletiva”
Para o renomado teórico da comunicação Jesús Martín-Barbero, os países latino-america-
nos entendem melhor do que o mundo individualista o que começa a se chamar de inteli-
gência coletiva

Por Carolina Rojas e Graziela Wolfart | Tradução de Moisés Sbardelotto

“H
oje, pensar a globalização não é só pensá-la em termos culturais, mas também na repercus-
são das transformações dos modos de produção e dos modos de circulação dos produtos”. A
opinião é do pesquisador colombiano Jesús Martín-Barbero, em entrevista concedida pesso-
almente para a jornalista Carolina Rojas, realizada em Bogotá, especialmente para a revista
IHU On-Line. Para Barbero, “não podemos pensar as grandes transformações dos meios sem
pensar que boa parte dessas transformações esteve ligada às transformações do casal, da família, das relações
pais-filhos, adultos-adolescentes. Aqui, houve mudanças muito mais de fundo”.
Jesús Martín-Barbero nasceu em 1937, em Ávila, na Espanha, mas vive na Colômbia desde 1963. É um
teórico colombiano, pesquisador da Comunicação e Cultura e um dos expoentes nos Estudos Culturais con-
temporâneos. É autor do livro Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia (Rio de Janeiro:
UFRJ, 1997) e professor do Departamento de Estúdios Socioculturales, em Guadalaraja, no México.
Carolina Rojas é assistente da Jescom Colômbia, com mestrado em Relações Internacionais, pela Pontifí-
cia Universidade Javeriana. Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor vê a re- va” não é uma cultura global, não é a televisão pública que é uma alternati-
lação entre os meios de comunicação existência de uma só cultura mundial, va em noticiários, em opinião, em de-
e a multiculturalidade do continente porque, na realidade, embora haja bate, em tudo o que a nossa televisão
latino-americano? Considera que o aspectos da vida que são homogenei- não tem. Então, aí o problema não é
local está dando lugar ao global ou zados, há outros aspectos da vida que dos meios. É da concepção que exis-
há simbiose entre os dois? continuam sendo fortemente diferen- te em nossos países de que o público,
Jesús Martín-Barbero – A questão que ciados, distintivos. E é disso mesmo em rádio ou em televisão, tem que ser
me parece estar no fundo dessa per- que a publicidade se encarrega, assim cultural ou educativo, quando o priva-
gunta tem a ver com uma velha ob- como a quantidade de tipos de emis- do criou os gêneros e os formatos mais
sessão dos estudiosos de comunicação soras de rádio que temos – acabou-se importantes em termos de fazer com
em torno da homogeneização cultural aquela emissora generalista –, a explo- que o país caiba na televisão.
que os meios produzem. E que levou são de canais de televisão dedicados
a que, de alguma maneira, se cons- a temáticas muito diferentes cultu- Pensar em termos de uniformização
trua uma ideia, a meu ver, falsa, e que ralmente. Então, eu diria que o nosso
foi, sobretudo, questionada por um continente não vive de uma maneira Então, de um lado, há uma solu-
brasileiro, Renato Ortiz. A “alternati- muito diferente de como os outros ção, que é pensar tudo em termos de
 Renato Jose Pinto Ortiz: graduado em So- estão vivendo. A diferença tem a ver uniformização. E, na realidade, o que
ciologia pela Université de Paris VIII, mestre
em Sociologia pela École des Hautes Études en
com o fato de que, para piorar no caso estamos vivendo, para o bem ou para
Sciences Sociales e doutor em Sociologia/An- dos nossos países, o que temos é, por o mal, é uma nova consciência da di-
tropologia pela mesma instituição. Atualmente exemplo, uma televisão privatizada, ferença cultural e um reconhecimento
é professor da Universidade Estadual de Cam-
pinas. Entre seus livros publicados citamos:
sem alternativa de televisão pública muito maior à diversidade cultural dos
Cultura Brasileira e Identidade Nacional; A a sério. Não essas televisões públicas nossos países. Digo “para o bem ou para
Moderna Tradição Brasileira; Mundialização e educativo-culturais, que não estão in- o mal” porque, em certos casos, por
Cultura; O Próximo e o Distante: Japão e mo-
dernidade-mundo; Mundialização: saberes e
terpelando a maioria das pessoas que exemplo, parte dos setores afro-co-
crenças; A Diversidade dos Sotaques: o inglês e vê a televisão privada. Na Europa, há lombianos está bastante radicalizado,
as ciências sociais (todos pela Ed.Brasiliense). mas isolando-se. Ou seja, os indígenas
(Nota da IHU On-Line)

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sempre tiveram, no caso colombiano, praticamente nenhuma. Ou seja, hoje, com uma carga de globalização, não
uma história mais nobre, que eram os produzimos não os 50%, 60% que eram só econômica, mas de design, muito
antepassados destas terras. Mas os ne- exigidos. Agora, produzimos 80%, 90%, forte. O conflito mais forte está no
gros não, porque vieram da África e, 100%. A única programação que impor- mundo do trabalho. Hoje, os chineses
ainda mais, como escravos. Então, ve- tamos são telenovelas de outros países nos roubam fábricas, porque a mão-
mos claramente como na Constituição latino-americanos. de-obra é muito mais barata lá, e não
de 1991 os índios estiveram presentes, existem sindicatos. Então, o conflito
mas os afros não, porque não tinham a Pensar em termos trabalhistas mais forte não é em nível cultural.
envergadura política que os índios já Nesse sentido, a dimensão que tem
haviam adquirido. Agora, isso os leva A relação local-global é muito con- mais problemas hoje é a do patrimônio
– e é algo que eu gostaria de propor flitiva porque deveríamos pensar o glo- local. É um problema muito sério.
– a certos movimentos de implosão, bal, não só em termos culturais, mas
de fechamento em si mesmos, que é também o que ele significa em termos IHU On-Line – Os meios de comuni-
o que se está vivendo nos Estados Uni- empresariais, em termos trabalhistas: cação se transformam diante de nos-
dos: os guetos. ou seja, toda essa nova organização da sos olhos. Quais foram os principais
O que eu dizia é que essa pergun- produção que faz com que a patente avanços e retrocessos na América
ta tem que assumir que a relação en- seja alemã, que a madeira seja chine- Latina nas últimas décadas?
tre meios e multiculturalidade é uma sa e que os barcos sejam produzidos Jesús Martín-Barbero – É difícil gene-
relação complexa. Não é uma rela- no Japão. Falo deste rompimento da ralizar, porque inclusive as transfor-
ção entre a multiculturalidade real e unidade de produção: as matérias-pri- mações que os meios estão vivendo
a uniformização que vem dos meios. mas são daqui, e lá estão as fábricas não são as mesmas no Brasil, na Co-
Porque, na realidade, há uma unifor- que as transformam e as convertem lômbia, na Bolívia ou em El Salvador.
mização muito maior por parte de em produtos, e a publicidade, se for o Há algumas transformações muito for-
certas políticas de Estado do que das tes que, de alguma maneira, começam
imagens dos próprios meios, que con- antes do que poderíamos chamar de
tinuam sendo muito uniformizadoras “O nosso continente não mundo digital, ou seja, o fato de que
ou muito desvalorizadoras da diferen- as emissoras começaram a ser emisso-
ça de certos tipos de níveis culturais. vive de uma maneira ras por setores, por faixas de idades,
Então, é uma relação complexa. Mas de interesses, o mesmo que aconte-
o que é preciso descartar de entrada muito diferente de como ceu com as revistas. Mas agora há uma
é que os meios estão produzindo essa multiplicidade que tem a ver com gê-
espécie de cultura do mundo, porque os outros estão vivendo” nero, com idades, com humor. Há uma
isso não existe. O que existe, como diversificação enorme. Isso, de alguma
propôs Renato Ortiz, é uma mudan- maneira, já mudou, muito fortemente,
ça profunda nas condições de vida de caso, pode vir de outros lugares. Hoje, o que era a relação das pessoas com
nossas culturas locais, de nossas cul- pensar a globalização não é só pensá- os meios: aquilo de que o rádio e de-
turas indígenas, de nossas culturas ne- la em termos culturais, mas também pois a televisão foram os ordenadores
gras, de nossas culturas regionais, das na repercussão das transformações da temporalidade na família – aquilo
culturas de gênero, porque é o próprio dos modos de produção e dos modos que se via ou se escutava de manhã,
piso cotidiano dessas culturas que a de circulação dos produtos. Penso, de tarde, o que era para as crianças, o
globalização está movendo. Então já sobretudo, nos modos de circulação que era para os velhos. Quando a tele-
não é aquela visão que identificava das imagens dos produtos, não tanto visão ficou mais barata, meu filho, aos
uniformização com invasão de produ- dos próprios produtos. Porque o que 14 anos, economizou e comprou seu
tos. Não, não. Hoje, a coisa é muito encontramos hoje é que o design de televisor, com todo o direito. Ou seja,
mais complexa. moda, que não existe só para a clas- a televisão havia chegado a ser real-
A relação local-global, sim, é uma se alta, mas em lojas de redes para a mente o lugar de encontro da família,
relação conflitiva. Antes, não estáva- classe média, também se beneficia de mesmo que esse encontro fosse como
mos preparados para essas mudanças toda uma publicidade para anunciar fosse. Uma coisa era a mesa, onde to-
que estão ocorrendo quando o global, essa loja, que é de classe média, que dos estavam se olhando, e outra coisa
a globalização, já não é o imperialis- está no mundo inteiro, mas que, sem era todos sentados enfileirados olhan-
mo invasivo que nos era apresentado dúvida, tem uma série de ingredientes do para a tela. E, no entanto, a te-
nos horários de maior audiência pelas transnacionais. Ou seja, eles sabem, levisão servia para debater. Por isso,
séries norte-americanas, de Columbus pouco a pouco, encontrar formas de na família, havia debate. Se na famí-
a The Streets of San Francisco, por encaixe, digamos, dos gostos do país. lia não houvesse debate, a televisão
exemplo. Não. Realmente, a presen- Esse jogo, de novo, é muito complexo, ficaria sozinha, ou seja, ela impõe sua
ça de programas norte-americanos na porque propõe conflitos. As pessoas se própria forma.
nossa televisão nacional é mínima, sentem descolocadas. Há dimensões

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A comida como ritual simbólico a unidade tem tanta unidade como ti- pos da semana, a idades, tudo isso vai
de uma unidade familiar nha antes, e não por mal. desaparecer. Mas, repito: isso não é só
um fato técnico. Antes, é um fato cul-
Não podemos pensar as grandes A mudança pela igualdade tural profundo: como estão se trans-
transformações dos meios sem pensar formando as relações das pessoas com
que boa parte dessas transformações Uma das coisas que tenho visto as tecnologias? Aí está uma das coisas
estiveram ligadas às transformações nos últimos anos é que, antes, os que mais importantes: a imensa maioria
do casal, da família, das relações pais- ganhavam bolsas de estudos eram os da classe pobre, em Bogotá, tem ce-
filhos, adultos-adolescentes. Aqui, homens. E a namorada, se queria con- lular. Porque os membros da família
houve mudanças muito mais de fundo. tinuar com o rapaz, tinha que ir para estão deslocados: o pai trabalha em
Quando eu era criança, o ato de comer onde o seu namorado ia estudar e ver uma ponta de Bogotá; a mãe, em ou-
e o horário da comida eram os mais se encontrava algum tema interessan- tra; um filho está no colégio; o outro,
sagrados da casa. Se alguma coisa ou te de estudos. Hoje em dia, elas têm em outro bairro. A única maneira de
alguém faltava, era a maior ofensa projeto próprio, pessoal. Então, se o sobreviver com um mínimo de união
à autoridade patriarcal. Era um ato casal não encontra uma forma de es- familiar é saber onde estão os outros.
religioso, um ato sagrado, um ritual, tudar cada um no seu tema, mas no Então, os pais utilizam o telefone só
porque era muito mais do que comer. mesmo lugar, o relacionamento aca- para saber onde os filhos estão. Mas
Era uma experiência de pôr em cena ba. Então, alguns podem dizer: “É que os filhos, nos finais de semana, come-
a autoridade familiar: o pai na cabe- çam a colocar no celular o álbum de
ceira, a mãe, e as crianças, que não fotos da família, começam a colocar
falavam na mesa. Eu posso atribuir ao “O que estamos vivendo relatos do avô, músicas que gostam.
McDonald’s algo que está ligado hoje Por exemplo, a música do rádio. A
ao fato de que a maioria das mulheres (...) é uma nova música hoje pode estar no telefone
trabalham, não ficam em casa fazendo celular, e com os seus fones você não
comida. As pessoas chegam em casa às consciência da diferença incomoda ninguém. É preciso prestar
19h, 20h, depois de oito horas de tra- atenção neste descolocamento, nes-
balho e depois, possivelmente, de uma cultural e um ta deslocalização: o rádio estava em
hora de ônibus ou de meia hora de car- um lugar chave, nobre da sala. Hoje
ro. O que elas menos têm vontade é de reconhecimento muito em dia, já existem aparelhos com um
celebrar alguma coisa. O que era a co- monte de horas de gravação. Você
mida familiar como celebração da fa- maior à diversidade deixa programado, porque há coisas
mília patriarcal se foi. Veja: “Comamos que você quer ver, e você está na uni-
alguma coisa preparada, algo que pos- cultural dos nossos versidade trabalhando ou estudando
samos colocar no micro-ondas e, além ou está fazendo outras coisas, mas
disso, assistir televisão, não para ver países” você pode gravar. Isto é, rompe o ho-
nada, mas para deixarmo-nos massa- rário do meio. Antes, pelo contrário,
gear pelas imagens, relaxar e dormir”. o meio lhe impunha horários. Desde
Ou seja, o que mudou foi a família, agora até o amor é efêmero”. Não. pequenos, nós almoçávamos ouvindo
foi o casal, com o trabalho da mulher, Quando o amor era com uma mulher o noticiário oficial da Rádio Nacional
com as novas relações entre homem e “escrava”, era mais fácil, era menos da Espanha, às 14h. E não podíamos
mulher, com as novas relações entre complexo, menos precário. Mas quan- conversar, porque era preciso escutar.
filhos e pais, que onde menos estão é do são duas liberdades de verdade, que É preciso pensar não só o que as novas
na hora da comida. Pode ser que este- tentam se respeitar, a relação é muito relações entre tecnologias analógicas
jam na casa, mas assistindo televisão, mais precária, muito mais vulnerável, e novas tecnologias digitais apresen-
fazendo as tarefas. A hora da comida não por maldade, pelo contrário: por tam, mas também, principalmente,
já não tem sentido, senão no fim de igualdade, de verdade. Isso é muito as transformações nos modos de uso,
semana – se for o caso. Então, não é o importante. As transformações dos nos modos de relação com os meios,
McDonald’s que pode me explicar, ab- meios não são só as grandes transfor- porque aquilo que neles configurava a
solutamente. Pelo contrário, cada vez mações tecnológicas, mas sim o lugar nossa vida está ao revés: agora, são as
há mais cozinha colombiana. Ou seja, que ocupavam na temporalidade da demandas da nossa própria vida que
são informações falsas. O fato de que família, na espacialidade da casa. No põem os meios ao serviço desses ho-
exista McDonald’s ou qualquer outro computador, eu posso ver televisão. A rários.
tipo de comida-lixo não significa que maior mudança será quando tivermos
está desaparecendo a cozinha. O que Internet na televisão. Estamos às por- IHU On-Line – Com a chegada da In-
está mudando é o que significa comer tas disso. Isto é, toda uma forma de ternet podemos falar de uma inteli-
juntos, a comida como ritual simbólico organização da grade, da programação gência coletiva?
de uma unidade familiar. Porque nem correspondente a tempos do dia, tem- Jesús Martín-Barbero – Esse é um

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tema que me parece estratégico e “A noção do natural que contra o solfejo, muito deles sabem
fundamental. Porque, de fato, nós de solfejo: brancas, fusas, pretas,
viemos de uma concepção de ciên- a Igreja utiliza hoje, semifusas, colcheias etc. Mas, para
cia que trata o conhecimento como o poder trabalhar juntos na Internet, é
elemento mais valioso, muito ligado perdoe-me, é absurda, mais fácil para eles ter uma notação
ao pesquisador indivíduo, aos gênios. não tão complexa como a do solfejo.
Ensina-se a física a partir de Galileu, porque o que somos é É um fato que aparece em sua versão
Newton... E não há processos, não há mais light, mais imoral, no copy-paste
equipes. No ano passado, inclusive, todo o contrário do dos estudantes: cortam e colam. Isso,
o Prêmio Nobel de Física foi para um mesmo assim, é, de alguma maneira,
francês. E uma colombiana, que havia natural. A história do um exercício de intertextualidade que
trabalhado muito com esse francês e apela a inteligências que colaboram,
que havia sido parte chave de uma de ser humano foi a de ir mesmo que seja nesses termos light.
suas descobertas, não apareceu, por- Hoje em dia, os cientistas já estão
que o Prêmio Nobel não é dado a equi- rompendo os falando não de laboratórios, mas sim
pes. Quando muito, é dado a um casal, de co-laboratórios.
como o de Economia deste ano, por- determinismos do natural Certamente, caminhamos rumo a
que uma delas, a que ganhou o Prêmio uma inteligência coletiva, já não só a
Nobel, não era economista, era politó- para ser livre, em todos partir do saber coletivo de nossas comu-
loga. Então foi preciso dar a uma eco- nidades, mas também de novos modos
nomista. Ou seja, tanto nas formas pú- os sentidos” de produzir conhecimento coletivamen-
blicas, quanto dentro das instituições, te, em todos os níveis. Há um sociólogo
temos a visão de que o saber, com a alemão, Ulrich Beck, que propõe que a
porque o saber das comunidades teve
modernidade, se individualizou. No grande crise da sociedade moderna é a
muito menos a ver com o saber da es-
fundo, são pessoas sábias. De alguma especialização, a ultra, a hiperespecia-
cola do que com o saber do seu grupo
maneira, os países europeus conserva- lização. Porque hoje em dia, por causa
social, campesino, urbano. E que ti-
ram, sim, mas muito de longe, aquilo da ecologia e de outras coisas, estamos
nha a ver com experiências, a partir
que, por aqui, continuava existindo: diante de problemas muito complexos,
das quais se aprendem coisas. Isto é,
saberes coletivos, saberes de experi- que, pelo contrário, o que se precisa é
a forte visão coletiva e popular de que
ência social, por exemplo, os saberes de muita interdisciplinaridade. Ele diz
todo saber, mesmo que esteja deposi-
medicinais dos índios, dos campesi- mais: não só interdisciplinaridade entre
tado em uma pessoa, que de alguma
nos. Para que seja um conhecimento saberes científicos, mas também entre
maneira o implementa, o distribui, é
verdadeiro, não precisa ter mil anos. saberes que vêm do procedimento cien-
um saber que pertence a todos.
Então, os países latino-americanos po- tífico e saberes que vêm da experiência
dem entender melhor do que o mundo social. E não vamos conseguir solucionar
Tecnologias colaborativas
individualista, norte-americano, aqui- os problemas se não juntarmos esses dois
lo que começa a se chamar de inteli- tipos de saberes, essas duas inteligências
Se as novas tecnologias digitais têm
gência coletiva, e sobre o qual, prin- coletivas: a da experiência social e a da
algo de realmente inovador é o fato de
cipalmente em termos teóricos, Pierre produção do conhecimento “científico”.
serem, como as chama Peter Sloterdi-
Lévy trabalhou.
jk, um filósofo alemão, tecnologias
Aí coincidem e se encontram dois IHU On-Line – A tendência à esquerda
colaborativas. A questão da Internet
horizontes. Um é que, de um lado, dos governos da América Latina foi
é se você sabe conversar com outros,
existem comunidades que foram fon- orientada pelo acesso à informação
tanto com seus amigos, seus colegas,
tes de saber médico, de desenho, de através dos meios de comunicação?
como com todos os outros que estão
cores, de cozinha, de saúde. Mas, Jesús Martín-Barbero – Em primeiro
aí. Ou seja, são tecnologias relacio-
claro, isso normalmente, em tese, na lugar, dizer esquerda na América Latina
nais. Meus alunos me contaram que
antropologia, na própria universida- quer dizer 70 coisas... Porque para mim,
os rockeiros do mundo não descobri-
de, não foi legitimado como saber. Ou
ram, mas criaram uma notação musi-
seja, isso continua aparecendo como  Ulrich Beck: sociólogo alemão da Universi-
cal diferente do solfejo. Eles não são
algo que pertence à outra época, não dade de Munique. Autor de A sociedade do ris-
à nossa. Foi preciso que os “gringos”  Peter Sloterdijk (1947): filósofo alemão. co. Argumenta que a sociedade industrial criou
Desde a publicação de Crítica da razão cínica muitos novos perigos de risco desconhecidos
e os europeus viessem para ver que, (Kritik der zynischen Vernunft, 1983) é consi- em épocas anteriores. Os riscos associados ao
sim, havia saberes que eram comer- derado um dos maiores renovadores da filoso- aquecimento global são um exemplo. Confi-
cializáveis, exploráveis do ponto de fia atual. Em 2004 encerrou sua trilogia Esfe- ra na edição 181 da revista IHU On-Line, de
ras (Sphären), cujos primeiros volumes haviam 22-05-2006, intitulada Sociedade do risco. O
vista vendável. Isso deveria nos chocar sido publicados em 1998 e 1999. Interessado medo na contemporaneidade, a entrevista In-
 Pierre Lévy (1956): filósofo da informação na mídia, dirige Quarteto filosófico, programa certezas fabricadas, concedida por Beck com
que se ocupa em estudar as interações entre cultural da cadeia de televisão estatal alemã exclusividade a nós. O material está disponível
a Internet e a sociedade. (Nota da IHU On- ZDF. (Nota da IHU On-Line) para download em http://migre.me/SOV5.
Line) (Nota da IHU On-Line)

30 SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335


de esquerda, é Lula, Bachelet, mas de “Certamente, namento da economia, a qual, se você
esquerda também é Chávez e Evo, e não a administra, ela lhe administra,
são diferentes. Então, eu não atribui- caminhamos rumo a como está acontecendo com Chávez.
ria, em primeiro plano, os desvios ide- Vendo pelo lado de uma certa cul-
ológicos e políticos à informação, como uma inteligência tura política nova, emancipatória – que
causa. Não gosto de falar na esquerda está ligada a uma nova circulação de
dos governos, mas de certa consciência coletiva, já não só a informação, a um acesso a muitas infor-
cidadã que recolhe certos postulados mações, não nos jornais, mas na rede
da melhor esquerda, ou seja, o reco- partir do saber coletivo principalmente: nos blogs, nos grupos
nhecimento de direitos, não só cultu- –, começa a circular muita informação.
rais, mas sociais, políticos, por exem- de nossas comunidades, Por exemplo, se alguém quiser saber e
plo, às mulheres, aos homossexuais. não está por dentro do que acontece na
Isso é esquerda, isso é libertário, isso é mas também de novos Colômbia, que entre no El Tiempo, ou no
emancipador. O melhor dessa esquerda La Silla Vacía, que entre em um monte
teve a ver com uma maior informação e modos de produzir de páginas web que existem hoje, feitas
também com uma inteligência coletiva por jornalistas colombianos e por gen-
que colocou a informação em circula- conhecimento te comum, cidadãos, que têm tanta ou
ção. Ou seja, o movimento feminista mais capacidade de pensar o país do que
começa com umas poucas “loucas”, na coletivamente, em os jornalistas profissionais.
Inglaterra, do século XIX, que come-
çam a questionar o mundo patriarcal, todos os níveis” IHU On-Line – Nesse sentido, tendo-
porque era um mundo que escravizava, se em conta os debates do Mutirão
que pisoteava, que destruía a metade da Comunicação, em que aspectos se
ciso conhecer seus direitos. Mas, hoje
da humanidade. Então, essas mulheres poderiam relacionar a cidadania e a
em dia, a armadilha de certa esquerda
pioneiras inglesas colocaram, sim, em comunicação na América Latina?
é uma massificação dos direitos, que
circulação certa informação, inclusive Jesús Martín-Barbero – Existem dois
chegou até essa aberração que esta-
biológica, que invalidava muitos pos- grandes aspectos, dois grandes planos,
mos a ponto de viver na Colômbia,
tulados religiosos, naturalistas. Porque nos quais podemos relacionar hoje os
porque realmente – citemos a terceira
a religião acaba fazendo da natureza avanços das relações entre cidadania
eleição de Uribe – o que vão nos apre-
como se fosse algo que realmente Deus e comunicação. Um é o crescimento e
sentar é que o Estado de opinião – ab-
manda, quando, na verdade, o ser hu- a potenciação dos meios comunitários,
solutamente fabricada, mas em uma
mano foi transformando a natureza. O ou seja, o crescimento da quantidade
alta porcentagem pelos meios, que fa-
ser humano deixou a caverna e pintou de emissoras de rádio comunitárias, dos
zem com que as pessoas digam o que
e matou animais e transformou radical- canais de televisão locais, ligados a um
já está implícito na pergunta – vai ser
mente a natureza. A noção do natural certo projeto – embora a televisão seja
mais legítimo do que o Estado de direi-
que a Igreja utiliza hoje, perdoe-me, é muito mais protegida pelo Estado, por-
to, o que é uma aberração.
absurda, porque o que somos é todo o que é muito mais perigosa do que o rádio.
contrário do natural. A história do ser Por um lado, há um crescimento que co-
Uma desinformação produzida
humano foi a de ir rompendo os deter- meça a criar uma rede cidadã de espaço
minismos do natural para ser livre, em público de debate sobre tudo aquilo que
O que há é uma desinformação,
todos os sentidos. não cabe nos meios privados. Mas, além
produzida e buscada – o caso da Ni-
Então, é muito importante, por disso, esse crescimento dos meios tem
carágua é o que há de mais triste no
exemplo, para certa dignificação dos a ver também com uma transformação.
mundo. Esse homem que hoje manda
homossexuais, o fato de saber o que Há 30 anos, havia uma visão ainda muito
na Nicarágua foi um dos que fizeram a
já foi alcançado na Espanha, no Méxi- utópica dos meios populares, alternati-
revolução, depois saiu com a extrema
co. Isso não tem a ver com a esquerda vos, como o slogan que ficou dos anos
direita para chegar ao poder, um pre-
política, mas sim com essas outras es- 60 dos “pequenos formosos”, ou seja,
sidente que roubou muito, que estava
querdas sociais, culturais, que acabam quanto menor o meio, mais livre, mais
na prisão e foi tirado de lá. Em ter-
tendo evidentemente peso político, belo e mais puro era. Quando começa-
mos de governo, a palavra esquerda é
mas que não se vêem representadas va a crescer, se tornava mais massivo,
o que há de mais ambíguo e perverso.
em suas lutas, neste momento, nas se pervertia. Havia uma visão muito ro-
Porque, para mim, por onde a esquer-
esquerdas mais visíveis, mais cenográ- mântica, muito purista, pois, para que
da vai, com todas as suas contradi-
ficas. Para exercer a cidadania, é pre- os meios se conservassem sendo fiéis às
ções, é pela linha de Lula e depois a
pessoas, às suas demandas, tinham que
 Verónica Michelle Bachelet Jeria (1951): linha de Bachelet, ou inclusive no Uru-
médica e política chilena. Foi presidente da ser pequeninhos. Isso mudou, foi supe-
guai, com Tabaré e agora Pepe. E são
República do Chile de março de 2006 a março rado. Hoje em dia, na Colômbia, mais
de 2010, e, desde 23 de maio de 2008, é tam- pessoas que estão sabendo negociar,
do que meios comunitários, falamos de
bém presidente da União de Nações Sul-Ame- em termos políticos, com um funcio-
ricanas. (Nota da IHU On-Line) meios cidadãos. E qual a diferença en-
SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335 31
tre aqueles meios populares, alternati- econômico-técnica dos anos 50, como a
vos, e os meios comunitários cidadãos? “Há uma interação modernidade política, assim como o mo-
Eu diria que a grande diferença é esta, dernismo cultural. Nos anos 50! Nenhum
de fundo, não só de conteúdo, mas de cidadã através da outro país chegou de modo tão comple-
forma: já não são, principalmente no to em termos de modernidade ao século
caso do rádio, só emissoras locais. Isto Internet, que lhes XX. Esses termos deram lugar a oposições
é, os temas já não são apenas aquilo maniqueístas, que também não funcio-
que acontece na vida cotidiana do po- permite conversar à sua nam. Claramente, o que a América Lati-
voado, do bairro ou da cidade. Já não na viveu são histórias de processos tanto
são só locais. Têm a ver muito com o maneira com de modernização técnico-econômica,
local, mas querem ter voz para falar da quanto de modernidade cultural e polí-
cidade inteira, do país inteiro. Essa é a experiências, com visões tica, muitos diferentes. Não há nenhum
mudança. Para mim, o que designa as país que não tenha vivido algum tipo de
emissoras cidadãs é que não são cida- de mundo, com relação entre o mais material da moder-
dãos só de um lugar, de um município. nização com as dimensões mais espiritu-
São cidadãos de um país, de uma nação, propostas para seu país ais da modernidade e do modernismo.
que têm coisas a dizer para um país. E é Eu sou muito crítico do livro de três
isso que o Estado não deixa. que são de outros países. mil páginas que Habermas escreveu em
O outro aspecto tem a ver com a In- dois volumes sobre a filosofia da comu-
ternet, que começa a desempenhar um Isso enriquece nicação. Basicamente por duas coisas:
papel chave também. É outro modo de uma, porque ele reduz a comunicação
comunicação. A maioria das emissoras, enormemente o sentido ao que é pensável em termos de lin-
incluindo as indígenas, baixa programas guagem humana. Há uma visão muito
de outros canais, de outras emissoras da de não fechamento, de otimista de como a linguagem humana
América Latina, inclusive da Espanha. condensa o melhor do que temos em co-
Foi feita uma pesquisa para ver que não pró-indigenismo dos mum. Na verdade, condensa o melhor
programas dos quais os índios haviam e o pior, condensa o que possibilita que
baixado de outras emissoras, do país ou meios cidadãos” nos entendamos, como também aquilo
de outros países, que eles haviam gosta- que possibilita que nos enganemos. E,
do mais. Evidentemente, a pesquisa foi Jesús Martín-Barbero – Habermas tem outra, é que a visão de Habermas é uma
feita com jovens, que são aqueles que outro tipo de conceitos que ajudaria visão muito do consenso, de uma ética
levam adiante as emissoras. O programa mais a entender o ethos latino-ameri- da linguagem, da comunicação, median-
que ganhou, entre os índios, foi um sobre cano da comunicação, ou seja, tanto a te as regras do jogo da linguagem hu-
rock, feito por uma ONG de Buenos Aires, ética quanto um pouco a maneira de ser mana, que vai nos permitir chegar sem-
que se chama La Tribu, que tem uma das dos latino-americanos. Em todo o caso, pre a negociações. Isso não é verdade.
emissoras comunitárias mais famosas da para mim, essa trilogia está superada. Acredito que há dimensões de conflito
cidade. Ou seja, toda a visão folclorista, Ou seja, vivemos opondo modernização social, político, cultural que não se solu-
de que os índios vivem do passado é algo econômico-tecnológica ao modernismo cionam nesse nível. Então, por um lado,
que não se aplica mais. Eles vivem do cultural e à modernidade política. Na eu questiono essa visão idealizada das
presente mais presente. Então, essa é realidade, claro que houve três faces potencialidades negociadoras e do con-
outra dimensão de comunicação e cida- entre o ponto em que os diversos países senso da linguagem humana. E há uma
dania. Hoje, a cidadania já nem sequer estavam e uma certa diversidade de mo- segunda crítica que eu lhe faço: nessas
é o país. Ou seja, há uma interação cida- dernidades. Ou seja, a Argentina teve as quase três mil páginas, como se pode
dã através da Internet, que lhes permite três modernidades, tanto a modernidade pensar a comunicação hoje, na socieda-
conversar à sua maneira com experiên-  Jürgen Habermas (1929): filósofo alemão, de contemporânea, sem nenhuma pala-
cias, com visões de mundo, com pro- principal estudioso da segunda geração da vra sobre a tecnologia? Não há nenhuma
postas para seu país que são de outros Escola de Frankfurt. Habermas aponta a ação palavra sobre a tecnologia. Então, eu
comunicativa como superação da razão ilumi-
países. Isso enriquece enormemente o nista transformada num novo mito que enco- questiono radicalmente a incapacidade
sentido de não fechamento, de não pró- bre a dominação burguesa (razão instrumen- de Habermas de se encarregar de como
indigenismo dos meios cidadãos. tal). Para ele, o logos deve contruir-se pela o pensamento filosófico havia avançado
troca de ideias, opiniões e informações entre
os sujeitos históricos estabelecendo o diálogo. através de Heidegger sobre a técnica. E
IHU On-Line – De que maneira a trí- Seus estudos voltam-se para o conhecimento e depois quem percorreu esse caminho é
ade de Habermas – modernização, a ética. Confira no site do IHU, www.ihu.uni- seu grande polemista hoje, que é Peter
sinos.br nas Notícias do Dia, o debate entre
modernismo e modernidade – é uma Habermas e Joseph Ratzinger, o Papa Bento Sloterdijk, um filósofo alemão, que faz
categoria que nos ajuda a entender XVI. Habermas, filósofo ateu, invoca uma nova um debate muito forte sobre teoria da
a ética dos meios de comunicação na aliança entre fé e razão, mas de maneira di- comunicação e teoria da técnica com
versa como Bento XVI propôs na conferência
América Latina? que realizou em 12-09-2006 na Universidade Habermas.
de Regensburg. (Nota da IHU On-Line)

32 SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335


Confira as publicações do
Instituto Humanitas Unisinos - IHU

Elas estão disponíveis na página eletrônica


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SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335 33


Sociologia do Espírito, Economia Política
da Comunicação e luta epistemológica
Por César Bolaño*

Nos últimos tempos, estou empe- do espírito não é outro senão “a di-
nhado em recuperar o pensamento de mensão social da comunicação de
Celso Furtado para o campo da Eco- significados”. Ainda segundo Man-
nomia Política da Comunicação, mais nheim, o primado da infraestrutura
especificamente o seu conceito de sobre a superestrutura nada tem a
Cultura fortemente influenciado pela ver com aquele da matéria sobre as
obra de Karl Mannheim, o célebre ideias. Na verdade, “ambos os tipos
autor de Ideologia e Utopia. No pri- de ação implicam ideação e comu-
meiro dos três ensaios que constituem nicação”.
a Sociologia da Cultura, obra poste- Mais uma vez, a comunicação
rior, produzida também na década de está no centro da definição de so-
1930, preocupado com uma definição ciedade e, neste caso, da relação
unificada da sociologia – entendida entre economia e cultura. É impor-
como ciência das formas associativas tante lembrar isto porque, embora
– e da sociologia das ideias, o autor Furtado tenha uma sofisticada teo-
define o que chama de “sociologia do ria da cultura, determinante da sua
espírito” – situando-a na longa tradi- economia política, o conceito de
ção da filosofia e da sociologia alemãs comunicação não está, salvo melhor
– “como contrapartida da ciência da juízo, explicitado. Os reconhecidos
sociedade”, incluindo a sociologia do elos entre sua teoria e a contribui-
conhecimento e a sociologia da cul- ção de Mannheim alertam para esta
tura: “a sociedade é o denominador profícua interação entre Economia
comum entre interação, ideação e co- Política, Comunicação e a Sociologia
municação, a sociologia do espírito é cia da cultura como patrimônio cumulativo
e, ao mesmo tempo, estado de revelação
o estudo de funções mentais no con- espiritual. No ponto de chegada, “a moder-
texto da ação”. na reinterpretação do conceito de espírito
A comunicação encontra-se, por- [...] passa a significar algo próximo da ideia
de razão” (MANNHEIM, Karl, op. cit. p. 44) do
tanto no centro da análise da cul- Iluminismo. Na síntese hegeliana, o conceito
tura. Mais: o objeto da sociologia de cultura abrange implicitamente “sua inter-
 MANNHEIM, Karl. Sociologia da Cultura,
���������������� pretação racional sob a forma de uma herança
São Paulo: Perspectiva, 2008. p. 6. (Nota do exteriorizada e disponível, mas que também
autor) retém a primitiva imagem de atos coletivos e
O�������������������������������������������
autor faz uma interessante análise da gê- dinâmicos” (Ibid.), como nas concepções es-
nese mística e religiosa do conceito de espí- piritualistas de êxtase comunal ou de comu-
rito e as consequênciaS sobre o pensamento nhão espiritual. (Nota do autor)
alemão da opção pela expressão Geist em vez  Ibid., p. 37. ���������������
(Nota do autor)
do sinônimo Kultur, ao manter a ambivalên-  Ibid., p. 19. ���������������
(Nota do autor)

* Professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), onde coordena o Observatório da Co-


municação (OBSCOM), doutor em Economia pela UNICAMP, presidente da ALAIC e membro do
Grupo de Pesquisa CEPOS (apoiado pela Ford Foundation). E-mail: <bolano@ufs.br>.

34 SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335


da Cultura e do Conhecimento. Dada Espírito de Hegel, a qual fornece “um vivo em Hegel (e isso valeria também
a importância da obra de Mannheim denominador comum a certos proble- para Marx) é “sua aguda consciência
para a Epistemologia, a Economia Po- mas epistemológicos: as ideias têm um de situações, e não a tradição sectária
lítica da Comunicação (EPC) poderá que seguiu seu rastro”.
encontrar aí uma interessante fonte É esse realismo epistemológico não
de inspiração e de legitimidade no “A comunicação está sectário, justamente, o que distingue
interior do campo da Comunicação a análise que a EPC faz do fenômeno,
no seu conjunto, como um rico pro- no centro da definição por exemplo, das TIC, das elucubra-
grama internacional de pesquisa (no ções que constituem a maior parte da
sentido de Lakatos) que é. de sociedade e, neste produção pós-modernista que inunda
A contribuição de Furtado em o campo da Comunicação na matéria.
particular – um ícone do pensamen- caso, da relação entre Permito-me referir-me a minha pró-
to social latino-americano – é chave pria interpretação do problema, cen-
nesse sentido. Há duas estratégias economia e cultura. É trada no conceito de “subsunção do
político-epistemológicas em disputa trabalho intelectual”, definido sobre a
hoje nas chamadas Ciências da Co- importante lembrar isto base de uma leitura d’O Capital e ou-
municação: a crítica, no interior da tros trabalhos do próprio Marx, como
qual se inclui a EPC, e outra que se porque, embora Furtado os Grundrisse, ou o Capítulo VI Inédito
aferrará cada vez mais a uma espé- (uma definição marxiana, diriam).
cie de positivismo de segunda mão, tenha uma sofisticada A leitura posterior do trabalho soi
transformado em pièce de resisten- disant marxista dos pós-modernistas
ce da reação, digamos, escolástica teoria da cultura, espinozianos Negri e Hardt sobre o
ao avanço do pensamento crítico. mesmo tema não provocou em mim
Do ponto de vista da EPC brasilei- determinante da sua a identificação e estímulo intelectual
ra e latino-americana, a recupera- que me causou a leitura do segundo
ção do grande pensamento social economia política, o ensaio do citado livro de Mannheim
do subcontinente – em diálogo com – essencialmente weberiano – sobre a
outras escolas, mas especialmente conceito de comunicação intelligentsia. Não se trata de inter-
com outros enfoques críticos produ- pretar o “intelecto geral” de Marx à
zidos no hemisfério sul – é crucial. não está, salvo melhor maneira exotérica da “inteligência
A corrente dominante, ao contrário, coletiva”, (como na perspectiva libe-
procurará, em geral, o conforto da juízo, explicitado” ral de Lévy, da antropologia do cybe-
adesão servil às modas intelectuais respaço), mas sim de entender como
vindas do norte. se estabelece a hegemonia e, portan-
Há, por certo, importantes diferen- to, a função da intelligentsia, numa
ças entre a EPC brasileira e a sociolo- significado social que não é revelado situação de subsunção do trabalho in-
gia do espírito de Mannheim, mas am- por sua análise frontal e imanente”. telectual.
bas dividem uma herança comum que Segundo o autor, o que permanece
está no cerne da Fenomenologia do  Idem, p. 2. ���������������
(Nota do autor)  ���������������������������
Idem, p. 3. (Nota do autor)

SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335 35


XI SIMPÓSIO INTERNACIONAL
O (DES)GOVERN
DA VIDA HUMAN
13 a 16 de setembro de 2010
Informações e inscrições: www.ihu.unisinos.br
ou Central de Relacionamento Unisinos - (51) 3591 1122
Local: Unisinos • Anfiteatro Pe. Werner • Av. Unisinos, 950 • São Leopoldo • RS
36 SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335
L IHU:
NO BIOPOLÍTICO
NA
Apoio: Promoção:

SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335 37


Destaques On-Line
Essa editoria veicula entrevistas que foram destaques nas Notícias do Dia do sítio do IHU.
Apresentamos um resumo delas, que podem ser conferidas, na íntegra, na data correspondente.

Entrevistas especiais feitas pela IHU On-Line e disponíveis do Senado, derrotou a Ideli Salvatti do PT para colocar o Collor
nas Notícias do Dia do sítio do IHU (www.ihu.unisinos.br) de na comissão de Infraestrutura”, constata o deputado petista.
22-6-2010 a 25-6-2010.
Plano de Ação para a Produção e o Consumo
Os impactos da mudança do clima na produção Sustentáveis
agrícola Entrevista com Lisa Gunn, socióloga
Entrevista com Hilton Silveira Pinto, pesquisador e antropóloga
da Embrapa Confira nas Notícias do Dia de 24-06-2010
Confira nas Notícias do Dia de 22-06-2010 Disponível no link http://migre.me/S7D6
Disponível no link http://migre.me/S7zl Para a socióloga, o consumidor precisa de informação e al-
“O calor gerado pelo aquecimento fará com que a produção ternativas concretas para poder minimizar as consequências
agrícola de grãos diminua radicalmente em apenas dez anos”, das mudanças climáticas, porém, hoje, “ele não tem, de fato,
avalia o pesquisador. nem um nem outro”.

José Sarney e o PT A situação do preso no Brasil


Entrevista com Domingos Dutra, deputado Entrevista com Valdir da Silveira, coordenador
petista da Pastoral Nacional Carcerária
Confira nas Notícias do Dia de 23-06-2010 Confira nas Notícias do Dia de 25-06-2010
Disponível no link http://migre.me/S7Bf Disponível no link http://migre.me/S7FR
“José Sarney tem todos os cargos federais do Maranhão, do “O monitoramento eletrônico é uma punição porque dificulta
Amapá, tem o Ministério de Minas e Energias, botou a filha ainda mais a reintegração social”, diz o coordenador da Pasto-
para ser líder do governo, derrotou Tião Viana na presidência ral Nacional Carcerária.

Seminário Jogue Roayvu: História


e Histórias dos Guarani
Data de início: 12/08/2010 Data de término: 14/10/2010
informações em www.ihu.unisinos.br

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SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335 39
Eventos
As grandes religiões do mundo e a Ética Mundial:
uma proposta didática
Vídeos e banners didáticos sobre as 2009 e, agora, fornece esse conteúdo Iorque, e também em diversos Estados
grandes religiões do mundo podem ser a escolas, associações e grupos. Os in- do Brasil.
adquiridos com o Escritório da Funda- teressados podem solicitar o emprés- A partir de um estudo conjunto
ção Ética Mundial no Brasil timo ou a cópia dos materiais para se- feito com o grupo Gestando o Diálogo
Um vasto material didático, que rem utilizados como opção didática no Inter-Religioso e o Ecumenismo (Gdi-
retrata os diferentes costumes e par- estudo das grandes tradições religio- rec), da Unisinos, foi feito aos painéis
ticularidades de religiões espalhadas sas. Além dos filmes, foi também pro- já existentes o acréscimo de conteúdos
pelo mundo, está disponível na Unisi- duzida uma exposição com banners. de outras duas tradições religiosas: in-
nos. O documento é fruto da viagem Os documentários contemplam as dígenas e as de matrizes africanas.
de um ano realizada pelo teólogo su- religiões étnicas ou tribais, encontradas O IHU oferece esses materiais no
íço-alemão Hans Küng e ajuda a com- ainda hoje na Austrália e na África. São formato de sete DVDs dublados e os ar-
preender, por meio de vídeos e painéis abordadas também as três maiores cor- quivos digitais para a impressão dos 15
didáticos, a fé dos diversos povos do rentes religiosas presentes no planeta: as banners. Mais informações podem ser
mundo, para a construção de uma éti- religiões da sabedoria de origem chinesa obtidas pelos telefones 3590-8223 ou
ca comum em busca da paz. (Confucionismo e Taoísmo), as religiões pelo e-mail eticamundial@unisinos.br.
Hans Küng passou pelos cinco con- da mística de origem indiana (Hinduís-
tinentes, acompanhando e gravando mo e Budismo) e as religiões da profecia
as grandes manifestações religiosas e de origem no Oriente Médio (Judaísmo,
apresentou o resultado dessa imersão Cristianismo e Islamismo).
no projeto intitulado “Religiões do A exposição de banners é com-
Mundo”. Com sede no Instituto Hu- posta por 15 painéis que exploram os
manitas Unisinos - IHU, o Escritório da principais pontos abordados nos víde-
Fundação Ética Mundial no Brasil apre- os. Os painéis já foram expostos em
sentou esse material durante o ano de lugares como a sede da ONU, em Nova

Seminário de Políticas Sociais


Nesta quinta-feira, 01-07-2010, das Políticas Públicas. tidos com a garantia dos direitos e
acontece o Seminário de Políticas O evento inicia às 13h30min, e políticas sociais para uma ação mais
Sociais, com o lançamento conco- vai até as 18h, no auditório da An- articulada e fortalecida”. Segundo
mitante do 3º Caderno Ideação e tiga Sede da Unisinos, no centro de ela, é preciso “garantir que as polí-
do DVD. O Seminário dá sequência São Leopoldo. A programação com- ticas sociais se construam como me-
ao 4º Seminário de Políticas Sociais, pleta pode ser conferida em http:// diações estratégicas na afirmação
que foi realizado em janeiro de 2010 migre.me/SQAo. de uma sociedade radicalmente in-
na Unisinos, como uma atividade do De acordo com a coordenadora cludente e sustentável”. Nesse sen-
Fórum Social Mundial 10 anos. do Projeto Observa Sinos, do Institu- tido, continua, a agenda do Seminá-
Este novo seminário é um espaço to Humanitas Unisinios - IHU, Profa. rio contempla quatro grandes eixos
de publicização dos produtos do 4º Dra. Marilene Maia, o grande objeti- que, de alguma maneira, garantem
Seminário, em vista da disseminação vo do Seminário é, além de lançar o a afirmação dessas políticas, fazen-
dos seus conteúdos e sensibilização Caderno Ideação, “discutir a agen- do o enfrentamento à lógica ainda
dos agentes das políticas sociais para da mundial das políticas para poder clientelista, focalista e excludente
a materialização da Agenda Mundial sensibilizar os agentes comprome- das próprias políticas tradicionais.

40 SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335


Confira outras edições
da IHU On-Line

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SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335 41


IHU Repórter

Gerson Brayer
Por Cássio de Almeida e Patricia Fachin | Fotos Arquivo Pessoal

F
ormado em Análise de Sistema, Gerson Brayer trabalha na Unisinos, há
20 anos, e participou do avanço tecnológico e da introdução da Internet
na universidade. Analista de Sistemas na GSI, ele já participou de vários
projetos e diz que, com a experiência, aprendeu “a pensar antes de
agir, avaliar todas as possibilidades, trabalhar com afinco no que está
engajado e valorizar o que tem”. Na entrevista que segue, Gerson também fala
da vida pessoal e do amor e carinho que sente pelas filhas. “São o presente que
a vida me deu. Quando todas estão em casa, não consigo caminhar antes de dar
um beijo e um abraço nas três”. Confira.

Origens - Nasci em Taquara, em da graduação, também havia um tec- laboratoristas auxiliavam nas matrícu-
1969, em um sábado de Aleluia. Tenho nólogo na área de informática. Fiquei las, com fichas de papel. Entrei tam-
dois irmãos, sendo que um deles já praticamente 10 anos no laboratório, bém nos bastidores das formaturas,
é falecido, e o outro segue morando até chegar a administrador de redes. nas quais faço os cerimoniais hoje. As
em Taquara. Com 17 anos, mudei com Quando a Internet passou a ser descen- pessoas não entendem como alguém
meus pais para Novo Hamburgo. Quan- tralizada na Unisinos, foram criadas que trabalha em Tecnologia consegue
do concluí o 2º Grau (atual Ensino Mé- equipes de administradores de rede atuar lá na frente.
dio), saí em busca de trabalho. Novo e de desenvolvedores para Internet,
Hamburgo, naquela época, passava chamados de “webmasters”, em todos Aprendizado - Na Unisinos, apren-
por uma crise muito grande, e acabei os centros de ensino. A Internet estava di muitas coisas. Uma delas é ter paci-
procurando emprego na Unisinos, em ganhando força, era algo muito inte- ência. As coisas na universidade acon-
1989. ressante, e optei pela equipe de we- tecem em um ritmo diferente do que
bmaster, na qual trabalhei por 4 anos. vemos no mercado. Convivi com óti-
Início da vida profissional - Eu co- Depois, todos voltaram para a GSI, mos profissionais, diferentes reitores,
nhecia algumas pessoas na universida- onde entrei para a equipe de adminis- pessoas importantes dentro dos pro-
de. Antes disso, minha única experiên- tração de banco de dados. Ingressei, cessos. Aprendi essa coisa bem jesuíta
cia profissional era em uma empresa depois, no projeto Sinergia, na equipe de pensar antes de agir, avaliar todas
de calçados, na qual trabalhei apenas de testes de Software, encarregada de as possibilidades, trabalhar com afinco
duas semanas. Logo pensei: “Isso não fazer a migração das informações da no que está engajado e valorizar o que
é para mim. É muito pouco.” Decidi universidade para o novo ERP People se tem. Não é em qualquer lugar que
buscar algo melhor. Na Unisinos, co- Soft. A gente virava a noite, passava se convive com essa estrutura e beleza
mecei a trabalhar nos escritórios de sábados e domingos nesse processo. do câmpus.
informática. Diariamente, me deslo- Em um determinado momento, tinha
cava de Novo Hamburgo para São Le- trabalhado das 8 horas às 8h da manhã Evolução da Universidade - Há 20
opoldo. Depois, fui morar com alguns do outro dia. A colega que me substi- anos, o computador na universidade
colegas de trabalho em uma pensão tuiria não pode comparecer, e eu con- era algo muito rudimentar. A Unisinos
em São Leopoldo, até o dia que decidi tinuei até as 4 horas da tarde. Falei acompanhou a evolução tecnológica
“alugar meu cantinho”. para o meu chefe: “vou parar antes que houve de lá para cá. Hoje temos
que eu faça besteira.” uma estrutura interessante, com mais
Unisinos - Com o emprego na Unisi- Sempre procurei fazer coisas dife- de 4.000 computadores. Estamos um
nos, comecei a fazer o curso de Análi- rentes. Na época que não havia com- pouco defasados em função do mo-
se de Sistemas. Naquele tempo, além putadores em toda a universidade, os mento. A TI da Unisinos já foi refe-

42 SÃO LEOPOLDO, 28 DE JUNHO DE 2010 | EDIÇÃO 335


Gerson, com a esposa
e, ao lado, com a família.

rência para outras universidades, São o presente que a vida me deu. rias e ensinamentos importantes
é diferenciada. Os investimentos Quando todas estão em casa, não que, no dia-a-dia, não daríamos
foram freados para que a Unisi- consigo caminhar antes de dar um conta de ensinar. Ir à missa, fazer
nos continuasse se mantendo. beijo e um abraço nas três. Le- parte de grupos de jovens é im-
Atualmente, na TI, a gente pro- tícia, a do meio, é muito doce e portante para a socialização, para
cura atuar mais na ponta, dando sempre diz que queria ser colada viver outras coisas que não sejam
realmente apoio ao ensino. Não em mim. Laura, a mais velha, vol- a família e a escola.
queremos ser uma caixa fecha- ta e meia, vem com uma dessas
da, escondida. Estamos buscando cartinhas que amolece o coração. Sonho - Já realizei boa parte
abandonar essa visão que tinham E Luíza, a mais novinha é uma es- dos meus sonhos, como a compra
no passado, quando a TI ficava poleta. Nos finais de semana é a da minha casa em um bom bairro
escondida naquele prédio e nin- reunião da família. A gente ado- de São Leopoldo. Sonho em poder
guém sabia o que acontecia lá ra ficar em casa, mas sempre que dar uma vida sempre mais e mais
dentro. Buscamos quebrar esse podemos, vamos visitar os avós, a tranquila para a minha família. Es-
paradigma. bisa ou vamos à praia. tamos passando por uma situação
um pouco complicada, inclusive
Aperfeiçoamento - Depois da Passatempo - Todas as quin- financeiramente, em função de
graduação, atuei como professor tas-feiras, um grupo de colegas e um problema de saúde que minha
no Instituto de Informática, nos eu jogamos paddle. Também jogo esposa tem. Ela precisou fazer
cursos de extensão, por cerca de futebol de salão e adoro dar umas algumas cirurgias, e nos endivida-
dois anos. Fiz um curso especiali- pedaladas no final de semana. mos um pouco, mas estamos bus-
zação dentro da Universidade na cando melhorar sempre. Espero
área de rede de computadores e Religião - Sou católico de ba- também subir mais um degrau na
aplicação de Internet e, agora, tismo, acredito em Deus, sei que vida profissional.
estou concluindo o MBA em Admi- Ele está sempre conosco, mas não
nistração de TI. Os cursos da área sou frequentador da Igreja. Meus IHU - O IHU é interessantís-
de TI na universidade são muito pais não tinham essa rotina. Pro- simo, principalmente, por tra-
bons. Esse MBA que estou fazendo curo conduzir minhas filhas atra- zer uma grande variedade de
é um dos melhores da região. vés da religião, inclusive, a mais temas. Procuro ler as notícias
velha está fazendo catequese do site sempre que sobra um
Vida pessoal - Sou casado e para a Primeira Comunhão. A re- tempinho e indicá-lo às outras
tenho três filhas (10, 7 e 4 anos). ligião traz questões éticas, histó- pessoas.

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Destaques
XI Simpósio Internacional IHU – O (des)governo biopolítico da vida humana
A obra de Michel Foucault é o fio condutor dos debates sobre biopoder e biopolítica e seus impactos em
dimensões sociais, culturais, éticas, legais, econômicas e no mundo do trabalho. As discussões vão de 13 a
16 de setembro, buscando encontrar possibilidades de subverter este poder muitas vezes invisível. Alguns
dos grandes conferencistas confirmados para o evento são o Prof. Dr. Frédéric Gros (Université Paris), Prof.
Dr. Oswaldo Giacóia (Unicamp), Cecília MacDowell Santos (University of San Francisco), Prof. Dr. Andrea
Fumagalli (Università degli Studi di Pavia) e Profa. Dra. Deisy de Lima Freitas Ventura (USP). Para conferir
a programação completa do XI Simpósio Internacional IHU, acesse http://migre.me/SRkj. As inscrições
continuam abertas em http://migre.me/SRtG.

As religiões do mundo em DVD


Um vasto material didático, que retrata os diferentes costumes e particularidades de religiões espalhadas pelo
mundo, está disponível na Unisinos. O documento é fruto da viagem de um ano realizada pelo teólogo suíço-ale-
mão Hans Küng e ajuda a compreender, por meio de vídeos e painéis didáticos, a fé dos diversos povos, para a
construção de uma ética comum em busca da paz. Hans Küng passou pelos cinco continentes, acompanhando e
gravando as grandes manifestações religiosas e apresentou o resultado dessa imersão no projeto intitulado “Re-
ligiões do Mundo”. Os interessados podem solicitar o empréstimo ou a cópia dos materiais para serem utilizados
como opção didática no estudo das grandes tradições religiosas. Além dos filmes, foi também produzida uma
exposição com banners. O IHU oferece esses materiais no formato de sete DVDs dublados e os arquivos digitais
para a impressão dos 15 banners. Mais informações podem ser obtidas pelos telefones 3590-8223 ou pelo e-mail
eticamundial@unisinos.br.

Ciclo de Estudos em EAD: sociedade sustentável


Inicia em 16 de agosto, via Plataforma Moodle, o Ciclo de Estudos em EAD Sociedade Sustentável. A ideia
é refletir sobre as perspectivas de emergência de uma sociedade sustentável. Através de fundamentos teóri-
cos, o curso vai demonstrar a necessidade de um novo paradigma civilizacional, oferecendo alternativas
sustentáveis de organização social e econômica, capazes de contribuir à sustentabilidade do Planeta e da
sociedade. Para fazer a sua inscrição, acesse http://migre.me/SRz6.

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