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A cena constituinte da psicose maníaco-depressiva no Brasil

BIRMAN, Joel. A cena constituinte da

A cena constituinte psicose maníaco-depressiva no Brasil.


História, Ciências, Saúde – Manguinhos,

da psicose maníaco- Rio de Janeiro, v.17, supl.2, dez. 2010,


p.345-371.

depressiva no Brasil Resumo


A intenção deste ensaio é esboçar a
The emergence of manic leitura da psicose maníaco-depressiva
no Brasil, no começo do século XX.
depressive psychosis as a Destaca a transformação teórica
ocorrida na psiquiatria brasileira, que se
diagnosis in Brazil deslocou da tradição francesa para a
alemã. Sublinha o modo como a
problemática da histeria foi substituída
pela da psicose maníaco-depressiva
nesse contexto histórico.
Palavras-chave: mania; melancolia;
histeria; psicose maníaco-depressiva;
Brasil.

Abstract
This essay examines the early twentieth-
century interpretation of manic depressive
psychosis in Brazil, during a moment when
Brazilian psychiatry witnessed a theoretical
shift from the French to German traditions.
It calls special attention to how the problem
of hysteria was replaced by manic depressive
psychosis within this historical context.
Keywords: mania; melancholy; hysteria;
manic depressive psychosis; Brazil.

Joel Birman
Professor titular do Instituto de Psicologia/Universidade Federal do Rio
de Janeiro; professor adjunto do Instituto de Medicina Social/
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; diretor de estudos em Letras
e Ciências Humanas e pesquisador associado do Laboratório de
Psicanálise e Medicina/Université Paris VII.
Rua Marquês de São Vicente, 250
22451-040 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil
joel.birman@pq.cnpq.br

Recebido para publicação em abril de 2010.


Aprovado para publicação em setembro de 2010.

v.17, supl.2, dez. 2010, p.345-371 345


Joel Birman

De olho no lance
A intenção fundamental deste ensaio é a de estabelecer as coordenadas teóricas por
intermédio das quais se delineou a descrição clínica da psicose maníaco-depressiva na
tradição da psiquiatria brasileira, nas duas primeiras décadas do século XX. Tal descrição
foi realizada num contexto social e histórico de amplas transformações dos discursos e
práticas de cuidados sobre a loucura no Brasil, em meio às quais outras descrições clínicas
foram também forjadas, na medida em que um outro paradigma teórico (Kuhn, 1975)
estava sendo incorporado por esse campo do saber. Por essa razão, enunciei que a descrição
clínica da psicose maníaco-depressiva se fundava em certas coordenadas teóricas, condição
de possibilidade desta e de outras descrições, formuladas nesse contexto histórico específico.
Vale dizer que tais coordenadas seriam o correlato do novo paradigma, a partir de então
inscrito no horizonte da psiquiatria brasileira.
Em decorrência disso, será necessário evocar como condição preliminar da descrição
clínica da psicose maníaco-depressiva, a transformação ocorrida no campo da psiquiatria
brasileira da época. A assunção de Juliano Moreira à direção do Hospício Nacional de
Alienados, em 1905, foi um signo eloquente de tal transformação, que, no entanto, já
havia sido iniciada algum tempo antes. Indicado para os novos poderes políticos da
República por Afrânio Peixoto, para ocupar o cargo institucional mais importante na
gestão da psiquiatria no Brasil, Juliano Moreira compartilhava com o primeiro os mesmos
pressupostos teóricos para a leitura das perturbações mentais. Foi Afrânio Peixoto que
empreendeu a leitura originária da loucura maníaco-depressiva no Brasil, no início do
século XX, baseando-se para tanto na obra de Kraepelin (Peixoto, 1905). No entanto, foi
sem dúvida Juliano Moreira que inscreveu de maneira sistemática o paradigma psiquiátrico
de Kraepelin na totalidade do campo da psiquiatria no Brasil, marcando efetivamente a
ruptura nesse campo, de forma indelével, com o que historicamente o antecedeu. Sendo
assim, um arquivo (Derrida, 1994; Foucault, 1969) da psiquiatria no Brasil foi constituído
nos seus menores detalhes, reorientando as linhas de força até então presentes na leitura
da loucura. Um divisor de águas foi assim efetivamente estabelecido na memória histórica,
na medida em que outros registros de leitura foram colocados em cena na interpretação
dessa enfermidade.
Por isso mesmo, a assunção da direção do Hospício Nacional de Alienados por Juliano
Moreira – e sua gestão efetiva até o início dos anos 1930 – foi cantada em prosa e verso por
diversos historiadores da psiquiatria no Brasil como a fundação efetiva da psiquiatria em
nossa tradição (Portocarrero, 2002; Venâncio, Carvalhal, 2005). Com efeito, devido à nova
orientação por ele empreendida no registro teórico e na prática clínica de assistência aos
enfermos mentais no Brasil, a psiquiatria teria saído decisivamente de suas indefinições
iniciais (Teixeira Brandão, 1886), num processo disparado desde os anos 50 do século XIX,
com a construção do Hospício de Pedro II (Machado et al., 1978). Enfim, os intérpretes
que se debruçam sobre o tema indicam claramente a dimensão efetiva de ruptura, nos

N.E – O presente artigo é uma reflexão crítica baseada em texto de Afrânio Peixoto, “A loucura maníaco-
depressiva”, reproduzido neste número de História, Ciências, Saúde – Manguinhos.

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registros do discurso teórico e do campo de cuidados, que se teria materializado com a


nova perspectiva trazida por Juliano Moreira.
No entanto, é preciso que fiquemos bem atentos ao lance, ao que estava efetivamente em
pauta no dito redirecionamento das linhas de força na leitura da loucura no Brasil, sobretudo
no que diz respeito ao lance decisivo, para não recebermos o cartão amarelo nem tampouco
o vermelho na leitura do “jogo de verdade” (Foucault, 1994), colocado na cena psiquiátrica
pelo novo paradigma teórico então instituído. Sendo assim, tal redirecionamento implicou
o deslocamento decisivo do referencial teórico na leitura do campo da medicina mental no
Brasil. Com efeito, se a tradição psiquiátrica francesa foi crucial no tempo inicial do alienismo
no Brasil, foi a tradição alemã que passou a dar as cartas do jogo da verdade com a virada em
questão. Além disso, a partir de então, ela tornou-se hegemônica, durante décadas, na direção
das linhas de força da psiquiatria brasileira.
Neste artigo, a tradição alemã foi representada por um discurso teórico que tem nome
e sobrenome, isto é, um nome próprio. Trata-se de Emile Kraepelin. Assim sendo, é preciso
evocar que o dito divisor de águas paradigmático foi marcado pela leitura do campo das
perturbações mentais realizada por este autor. Vale dizer que foi a incorporação efetiva do
discurso teórico de Kraepelin que passou a dar, a partir de então, as cartas do jogo da
verdade no campo da psiquiatria no Brasil.
Contudo, o efeito crucial do discurso teórico de Kraepelin no campo da psiquiatria,
tanto internacional quanto brasileira, foi o de possibilitar a ‘medicalização’ da loucura de
maneira ao mesmo tempo sistemática e infinita. Isso não quer dizer, evidentemente, que a
loucura já não estivesse inscrita no campo da medicina, mas sim que a dita medicalização
ainda era problemática.
Se a constituição do conceito de instinto criminoso permitiu a medicalização do
alienismo e a leitura médica da loucura, possibilitando a institucionalização do primeiro
no campo dos embates com o poder judiciário (Foucault, 1999), no registro estrito da
clínica a medicalização da psiquiatria era francamente problemática. Isso porque lhe faltava
uma leitura da loucura como enfermidade propriamente dita e que fosse condizente com
o modelo presente na medicina somática, do ponto de vista epistemológico.
Assim, diante dos repetidos fracassos ocorridos nas primeiras décadas do século XIX
com a medicalização da experiência da loucura, em decorrência da impossibilidade de
explicar as perturbações mentais pelo paradigma da anatomoclínica (Birman, 1978) – como
ocorria no campo da medicina somática (Foucault, 1976) – a teoria da degeneração procurou
sustentar uma leitura biológica das ditas perturbações mentais. Inicialmente com Morel
(1859) e posteriormente com Magnan e Legrain (1895), o paradigma degenerativo sobre a
loucura foi forjado na tradição francesa, sendo retomado por Kraepelin desde os anos
1880, com vistas à construção de uma leitura etiológica e sistemática das perturbações
mentais.
A ideia de causalidade na leitura das perturbações do espírito obcecava Kraepelin, que
pretendeu modelar o discurso psiquiátrico conforme os cânones da medicina científica da
segunda metade do século XIX. As inovações teóricas advindas com o discurso da bac-
teriologia – inicialmente com Pasteur e em seguida com Koch – o incitaram a realizar algo
análogo no campo da psiquiatria, visando dotá-la dessa mesma aura de cientificidade.

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Esse paradigma teórico foi então incorporado de maneira sistemática por Juliano Moreira
no campo da psiquiatria brasileira, paradigma este que, desde então, dominou inso-
fismavelmente o regime de verdade de seus enunciados. Em decorrência disso, o cientificismo
e o positivismo médicos marcaram a leitura das perturbações mentais de forma inequívoca.
Nessa perspectiva, o discurso psiquiátrico passou a caracterizar-se pela presença obrigatória
de um conjunto de enunciados que, além da descrição sintomática das diferentes pertur-
bações mentais, deveria igualmente incluir aqueles oriundos da anatomia, da bioquímica,
da fisiologia e da então recente teoria da hereditariedade. Foi a constituição desses novos
registros enunciativos no campo do discurso psiquiátrico que marcou a diferença efetiva
entre este e o discurso teórico que o antecedera historicamente. Enfim, a medicalização da
experiência da loucura assumiu outras direções diante das novas coordenadas teóricas
inscritas no discurso psiquiátrico.
O campo específico da psicose maníaco-depressiva foi um dos registros clínicos no qual
essa transformação foi efetivamente realizada. Sua descrição clínica passou a ser inteiramente
empreendida segundo os imperativos das novas coordenadas teóricas, não somente porque
tais modalidades de experiência da loucura (mania e melancolia) foram então conjugadas,
por Kraepelin, como uma enfermidade única e como um tipo de psicose endógena – ao
lado da demência precoce –, mas também porque podemos reconhecer, em sua leitura,
uma disseminação eloquente daqueles enunciados discursivos na psiquiatria brasileira, no
contexto histórico em questão.
No entanto, é preciso não ser teoricamente ingênuo e atentar para outro lance que se
processa igualmente na cena constitutiva desse novo jogo de verdade e delineia suas linhas
de força. Como vimos, no novo paradigma psiquiátrico, a preocupação teórica e clínica
com a psicose maníaco-depressiva passou a ocupar o lugar estratégico que era o da histeria
no paradigma anterior. Com efeito, delineada pela concepção de Charcot, essa enfermidade
era fartamente diagnosticada anteriormente, dominando a cena asilar com altas taxas de
incidência e prevalência. Porém, com Babinski, que transformou sua concepção teórica
passando a denominá-la pitiatismo – isto é, uma construção deslavadamente mentirosa,
produzida pela sugestão e desconstruída pela persuasão –, seu campo de incidência e seus
índices de internação encolheram de maneira significativa (Roxo, 1925, p.390). Tal
encolhimento produziu, contudo, como contrapartida, a expansão efetiva da psicose
maníaco-depressiva, que teve significativamente incrementadas suas taxas de incidência e
internação.
O que estaria em jogo? Um avanço efetivo do discurso psiquiátrico como ciência que,
ultrapassando obstáculos e adquirindo novos limiares de cientificidade, pôde enfim aceder
a novos territórios de positividade? Foi esta a resposta dominante na psiquiatria brasileira
de então (Cunha Lopes, 1927), que afirmou repetida e monotonamente o diagnóstico
incorreto dos antigos histéricos, a partir de então devidamente enquadrados no campo
nosográfico da psicose maníaco-depressiva. No entanto, seria preciso analisar de maneira
crítica tal afirmação, enunciando que na suposta retificação então estabelecida, que se
propunha a corrigir a ilusão de ótica do diagnóstico anteriormente formulado, estaria em
pauta a constituição de um outro jogo de verdade sobre as perturbações mentais. Isso
porque nada é menos ingênuo do que a formulação de qualquer sistema classificatório, no

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interior do qual será devidamente interpretada a constituição dos sistemas nosográficos


tanto na psiquiatria quanto na medicina.
Tampouco podemos perder de vista outra dimensão crucial desse jogo de verdade que se
desenrola na cena atual, o que seria não apenas trágico, mas principalmente cômico. Na
contemporaneidade, ocorre um processo similar, equivalente e comparável ao que se passou
no contexto social e histórico examinado neste artigo, porém as linhas de força e as
coordenadas do processo agora em curso não são as mesmas. Com efeito, no
neokraepelianismo, dominante no campo da psiquiatria atual, a denominada psicose
bipolar teve o mesmo efeito mágico de varrer não somente a histeria do mapa da nosografia
psiquiátrica, mas também a psicanálise do campo discursivo da psiquiatria, uma vez que
ela se inscreveu no espaço teórico desta última durante décadas no século passado, ocupando
uma posição primordial. A intitulada psiquiatria dinâmica foi o signo eloquente dessa
conjunção entre psiquiatria e psicanálise. Contudo, o neokraepelianismo contemporâneo
já não é mais ancorado na estrita teoria da causalidade delineada por Kraepelin, mas no
discurso das neurociências, que passou a dar as cartas no jogo da verdade da psiquiatria.
Enfim, foi pelo percurso desenhado por essas inflexões teóricas que se realizou a leitura
da psicose maníaco-depressiva nas duas décadas do século passado, na tradição da psiquiatria
brasileira.

Enfermidade única
Desde a Antiguidade, a mania e a melancolia já eram consideradas perturbações da
alma e independentes. Não obstante, formulava-se igualmente uma possível relação entre
elas, seja porque pudessem se alternar, ou porque talvez pudessem estar implicadas. Essa era
a concepção dominante até o início do século XIX, tal como se evidencia na leitura de
Pinel (2005), ou na de Esquirol (1989a; 1989b).
Contudo, na segunda metade do século XIX outra concepção teórica, proveniente da
psiquiatria francesa, começou a se delinear. Em 1851 e 1854, respectivamente, Falret e Baillarger
descreveram a existência de uma mesma enfermidade, denominada loucura circular (Falret,
1851) pelo primeiro e loucura de dupla forma (Baillarger, 1854) pelo segundo. Para Falret, a
loucura circular seria caracterizada pela reprodução sucessiva e regular do estado maníaco,
do estado melancólico e de um intervalo lúcido, que poderia ter uma duração maior ou
menor, conforme o caso. Em contrapartida, para Baillarger a loucura de dupla forma seria
caracterizada pela sucessão de dois períodos, um de excitação e outro de depressão.
Em 1883 Ritti procurou articular o que delineou então como uma evidente novidade
teórica e clínica, com as leituras de Falret e de Baillarger. Passou a sustentar, na França, a
hipótese da existência de uma enfermidade única, caracterizada pela sucessão regular de
crises de mania e melancolia no mesmo indivíduo. Na Alemanha, por sua vez, diversos
autores também estudavam a nova enfermidade assim caracterizada, mas a denominaram
psicose periódica (Ey, Bernard, Brisset, 1965, p.226).
Foi Kraepelin, contudo, que em 1899, na terceira edição de seu célebre Tratado de
psiquiatria, passou a descrever minuciosamente tanto os estados de transição quanto as

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imbricações existentes entre as crises maníacas e melancólicas. Dessa maneira, enunciou o


conceito de estado misto para demonstrar a existência de uma identidade profunda entre a
mania e a melancolia (Kraepelin, 1927), sustentando a existência de um processo. Em
decorrência disso, Kraepelin englobou todas as psicoses anteriormente descritas – chamadas
de intermitente, circular, periódica, de dupla forma e alterna – em uma enfermidade
fundamental denominada loucura maníaco-depressiva, passando a considerá-la uma “psicose
endógena”, isto é, de ordem essencialmente constitucional. Contudo, excluiu inicialmente
a melancolia involutiva do registro clínico da loucura maníaco-depressiva, mantendo-a como
uma enfermidade independente. Nos anos 1920, ele iria rever essa posição, no acabamento
final de sua nosografia psiquiátrica (Roxo, 1925, p.367).
Foi, no entanto, a nova leitura sistemática desse autor sobre o campo psiquiátrico que
modelou sua caracterização da loucura maníaco-depressiva. Foi ainda essa nova leitura
que marcou a então recente psiquiatria brasileira, que, com Juliano Moreira como estrategista
teórico, passou a se inscrever sistemática e decididamente no campo da tradição psiquiátrica
alemã. Vale dizer que, se até então esse campo do saber, no Brasil, era profundamente
marcado pela tradição francesa de psiquiatria (Machado, 1978), a partir de então foi a
tradição alemã que passou a dar decisivamente as cartas do jogo, perdurando durante
décadas na tradição psiquiátrica brasileira. No entanto, foi Kraepelin indubitavelmente o
grande teórico de referência que, por intermédio de Juliano Moreira, marcou o redire-
cionamento das linhas de força desse campo disciplinar no Brasil.
Nessa perspectiva, não foi um acaso que a comissão instituída em 1908 pela Sociedade
Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal – composta por Juliano Moreira,
Afrânio Peixoto, Carlos Eiras, Antônio Austregésilo e Henrique Roxo –, para apresentar um
projeto de classificação das doenças mentais que valesse em todo o território nacional,
tenha construído um sistema nosográfico que era quase uma transcrição literal daquele de
Kraepelin. Juliano Moreira foi evidentemente o relator do novo projeto, apresentado em
1910 (Cunha Lopes, 1960, p.108-110).
Assim, antes de delinear a leitura da loucura maníaco-depressiva realizada no Brasil, no
início do século XX, é fundamental destacar alguns aspectos cruciais da visão de Kraepelin
sobre a psiquiatria, que marcaram de maneira indelével esse campo disciplinar no Brasil.
Como observaremos adiante, a concepção de endógeno que se destacou na leitura da
loucura maníaco-depressiva realizada por Kraepelin evidencia não somente a dimensão
organicista de tal leitura, mas também a dimensão de periculosidade social representada
pelos enfermos mentais, o que justificaria e legitimaria seu isolamento asilar.

Cientificismo, positivismo e periculosidade


Não obstante o fato de ter sido inicialmente marcada pela tradição teórica de Wundt
no campo da psicologia, a perspectiva de Kraepelin no campo psiquiátrico era essencialmente
organicista, procurando estabelecer uma leitura médica das perturbações mentais. Pode-se
afirmar assim, sem titubear, que assim como Wundt pretendeu fundar a cientificidade da
psicologia nos seus diversos domínios, Kraepelin quis empreender o mesmo projeto teórico

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no campo da psiquiatria. Para tanto, ela deveria ser naturalista e organicista, inscrevendo-
se no campo da medicina, de fato e de direito.
Nesse sentido, Kraepelin procurou realizar o esforço teórico de superar o registro da
descrição sintomática das perturbações mentais, considerado superficial e epifenomênico,
para apreender a dimensão etiológica e patogênica das ditas perturbações mentais. Seria
por esse viés que se poderia efetivamente caracterizar o campo das diferentes enfermidades
mentais. No entanto, como a psiquiatria não conseguiu realizar a mesma operação teórica
empreendida pela medicina somática – que, com o discurso da anatomoclínica, estabeleceu
a relação entre os registros do sintoma e da lesão (Foucault, 1976)1 –, coube a ela um
contorno tático para sustentar sua leitura naturalista das perturbações mentais.
Por conta disso, realizou duas operações teóricas complementares. Primeiro, procurou
remeter o registro clínico do sintoma e da síndrome àquele definido pela oposição
endógeno/exógeno, de maneira a situar o campo da etiologia de uma dita perturbação
mental no interior ou no exterior do organismo. Em seguida, no entanto, colocou
igualmente em evidência a dimensão evolutiva das perturbações mentais, visando avaliar
no registro estrito da diacronia de que modo evoluíam no tempo os campos do sintoma e
da síndrome. A esse respeito, não existe qualquer dúvida de que a grande novidade
introduzida por Kraepelin no discurso psiquiátrico foi o ponto de vista evolutivo no campo
das perturbações mentais. Tal novidade teórica foi devidamente reconhecida por diversos
autores, entre os quais podemos evocar Lacan (1975; 1966), Lanteri-Laura (1984) e Postel
(2007, p.307-327).
O que implicaria o ponto de vista evolutivo? Nada mais, nada menos do que descolar
o discurso psiquiátrico dos registros estritos do sintoma e da síndrome para lançá-lo em
direção à apreensão do processo em pauta, no caso de uma dita perturbação mental. Seria
essa a condição de possibilidade para transformar esta última numa enfermidade mental
propriamente dita, pela circunscrição de sua causalidade. Além disso, do ponto de vista
evolutivo, a operação do diagnóstico estaria intimamente articulada à dimensão do
prognóstico, de modo que diagnosticar uma doença implicaria necessariamente a
antecipação de sua evolução, bem como do possível destino do doente no futuro.
Em decorrência disso, a oposição endógeno/exógeno tinha uma funcionalidade
operacional na leitura de Kraepelin (1927). Com efeito, enquanto as enfermidades exógenas
seriam relativamente reguláveis e curáveis, as endógenas, em contrapartida, estariam fadadas
à cronicidade, uma vez que enraizadas num fundo constitucional e degenerativo. Nessa
perspectiva, a concepção de endogeneidade de Kraepelin estaria em continuidade com a
concepção de degeneração, forjada no campo da psiquiatria francesa por Morel (1859) e
Magnan e Legrain (1895).
Por isso mesmo, numa crítica aguçada ao organicismo de Kraepelin, tendo em mente
um futuro teórico possível para a psiquiatria no cenário do pós-guerra, Ey (1956) colocou
em destaque o que existia de inquietante e mesmo de perigoso no conceito de endógeno
na disciplina, no contexto de um seminário teórico voltado para o centenário de Kraepelin:

Dizer que uma psicose é endógena é afirmar que ela resulta no seu aspecto clínico de
uma organização interna da pessoa. É colocar o acento sobre a constituição biopsicológica
do indivíduo, isto é, afirmar que a estrutura genotípica sobre a qual se edificou a pessoa

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e seu mundo é de uma importância maior. É afirmar ainda que a psicose não é apenas um
acidente de percurso, mas esposa a trajetória da existência e do destino do homem doente.
Enfim, é afirmar ainda e principalmente que a psicose reside essencialmente numa alteração,
senão numa alienação definitiva da pessoa (p.956).2

É evidente que o discurso psiquiátrico de Ey precisava delinear uma perspectiva teórica


para o futuro da psiquiatria, num contexto histórico marcado pela disseminação da
psicanálise e da dita psiquiatria dinâmica. Para tanto, seria necessário colocar um limite ao
fatalismo constitucionalista presente na leitura psiquiátrica de Kraepelin. Com isso, Ey
pretendia relativizar o peso conferido à herança genética e atribuir um lugar de destaque
ao registro do acontecimento na existência do sujeito, no processo causal de produção da
enfermidade mental.
Contudo, no paradigma cientificista e positivista enunciado por Kraepelin, o que se
impunha decisivamente era o imperativo de realizar na psiquiatria o mesmo paradigma
presente no campo da medicina clínica. Seu ideal teórico seria o de realizar, na medicina
mental, o que Koch forjou no campo da tuberculose, conjugando a descrição clínica com
os registros da etiologia e da patogenia, nos rastros da bacteriologia de Pasteur.
Por isso mesmo, o ponto de partida de Kraepelin para a construção de seu sistema
teórico foi a retomada da descrição clínica da catatonia, tal como delineada, na Alemanha,
por Kahlbaum. O grande mérito deste autor, aos olhos de Kraepelin, foi o de ter delimitado
com precisão o aspecto processual e evolutivo da catatonia. Ao lado disso, esta última,
como perturbação mental, teria a virtude prototípica de exibir simultaneamente, no
primeiro plano da enfermidade, as dimensões neurológica e psicomotora, o que lhe
conferiria um substrato material consistente, quase anatômico, na ‘mostração’ da
enfermidade em pauta.
Além disso, Kraepelin retomou a leitura de Hecker sobre a hebefrenia, na qual a demência
na juventude seguramente indicaria o início pós-pubertário na evolução da enfermidade.
Essa base hebefrênico-catatônica foi o núcleo constitutivo da demência precoce – termo
inicialmente forjado por Morel – como psicose endógena. Foi somente algum tempo depois
que as demais formas clínicas da demência precoce foram arroladas, seja inicialmente a
forma paranoide ou delirante, seja posteriormente a parafrenia (sistemática, expansiva,
confabulante e fantástica). Paralelamente a essas questões, Kraepelin (1927) referiu-se
igualmente à forma simples, à forma depressiva, à forma pseudoperiódica e, finalmente, à
forma demencial da demência precoce. Seja como for, a demência precoce, em sua diversidade
clínica, evoluiria inexoravelmente em direção à demência terminal.
Em função ainda da leitura processual que privilegiou, Kraepelin (1927) forjou a loucura
maníaco-depressiva como outra modalidade de psicose endógena. Nesse caso, existiria
igualmente uma base constitucional que determinaria o processo em questão. Entretanto,
na psicose maníaco-depressiva não se verificaria a demência como estudo terminal, como
ocorreria na demência precoce. Além disso, o processo em pauta seria entrecortado por
intervalos lúcidos, que, como seu nome já indica, estaria presente entre as duas fases da
enfermidade.
Nesse contexto, Kraepelin (1927) elaborou um quadro com as formas clínicas da loucura
maníaco-depressiva: (1) estados maníacos; (2) estados depressivos, nos quais destacou a

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A cena constituinte da psicose maníaco-depressiva no Brasil

existência da melancolia simples, da melancolia grave e da melancolia constitucional; (3)


estados fundamentais – a excitação constitucional, a depressão constitucional e a
irritabilidade constitucional –, que permaneceriam entre as fases e poderiam até mesmo
constituir a doença em si; (4) estados mistos, que seria a elaboração mais original de
Kraepelin, fundamentando a constituição da concepção da psicose maníaco-depressiva,
uma vez que a fase maníaca se conjugaria com a depressiva.
Finalmente, é preciso destacar que a problemática da periculosidade social colocada
pelas perturbações mentais se articularia intimamente com esse fundo constitucional e
endógeno, isto é, degenerativo, presente no discurso psiquiátrico de Kraepelin. Foi por esse
viés que ele retomou a perspectiva entreaberta por Morel e Magnan no século XIX, com a
‘problemática da degeneração’, para delinear a constituição do campo da ‘anormalidade’
como alvo e objeto por excelência da psiquiatria, ultrapassando com isso o tempo inicial
do alienismo, como nos disse Foucault (1999). Daí porque a problemática da periculosidade
estaria no centro da leitura de Kraepelin, desdobrando-se numa perspectiva marcadamente
repressiva em relação aos doentes mentais. As ameaças representadas por estses últimos
para o espaço social receberam de Kraepelin um verniz supostamente positivo e científico,
evidenciando, contudo, um pessimismo fundamental no que tange às possibilidades
terapêuticas.
Sendo assim, logo no início da segunda edição de sua Introduction à la psychiatrie clinique
(Introdução a Psiquiatria Clínica), publicada em 1905, Kraepelin pôde afirmar não apenas
a periculosidade presente no campo das perturbações mentais, como também seu correlato,
qual seja, os limites terapêuticos da psiquiatria. Em decorrência disso, ela resultaria numa
prática eminentemente repressiva, voltada para a proteção social:

Todo alienado constitui um perigo permanente para o seu meio e sobretudo para ele
mesmo: um terço ao menos dos suicidas advém das perturbações mentais; os crimes
passionais, os incêndios, as agressões, os roubos e as escroquerias são cometidos por
alienados. Não se contam mais as famílias cujo membro doente causou a ruína,
desperdiçando a sua fortuna sem reflexão ou se encontrando na impossibilidade de gerir
seus negócios e de trabalhar após uma longa doença. Apenas uma parcela pequena dos
incuráveis é destinada a uma morte rápida, a imensa maioria continua a viver durante
anos e cria assim, para a família e o Estado, uma carga cada vez mais pesada, cujas
consequências repercutem profundamente na nossa vida social. É por isso que se impõe
cada vez mais ao médico, que quer estar à altura de sua tarefa, o dever de se familiarizar,
na medida do possível, com as manifestações da loucura, se bem que os limites de seu
poder sejam muito restritos, em face de um tão temível adversário (Kraepelin, 1984, p.7).

A leitura positivista e cientificista sobre o campo da loucura, no paradigma fundamen-


talmente organicista delineado por Kraepelin, estaria portanto intimamente articulada à
regulação e ao controle ostensivo do campo da periculosidade social nela implicado. No
que diz respeito a essa questão, aliás, não existiria a exterioridade de um desses aspectos em
relação ao outro, uma vez que a ‘governabilidade’ sobre o campo da loucura passaria
necessariamente, a partir de então, pela leitura cientificista do campo dos anormais. Por
isso mesmo, não existiriam mais fronteiras cortantes e bem estabelecidas para o registro da
constituição no discurso psiquiátrico com um território bem delimitado, mas sim bordas

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sempre fluidas que possibilitariam a expansão infinita do campo da leitura psiquiátrica,


no intuito de afrontar a periculosidade do social.

Incorporação do paradigma
Foi por intermédio da incorporação do discurso teórico de Kraepelin que a psiquiatria
brasileira se deslocou de sua referência francesa e se inscreveu decisivamente na tradição da
psiquiatria alemã, como disse acima. Juliano Moreira foi o maior responsável por tal
deslocamento teórico. Investido de poder ao assumir a direção do Hospício Nacional de
Alienados, teve a possibilidade de realizar a reconstrução do campo da assistência psiquiátrica
ao conjugar a prática clínica ali realizada com a construção de colônias para os doentes
mentais, na periferia do Rio de Janeiro. Com isso, a cartografia assistencial foi reformulada
para oferecer diferentes destinos aos pacientes ‘agudos’ e ‘crônicos’, bem como estratégias
terapêuticas de curta e longa duração.
Nesse contexto, a loucura maníaco-depressiva inscreveu-se no discurso psiquiátrico
brasileiro e nos espaços asilares, passando a caracterizar uma modalidade relativamente
frequente de doença mental. O primeiro autor a teorizar sobre a nova doença foi Afrânio
Peixoto, que posteriormente indicou, para os poderes da República, o nome de Juliano
Moreira para a gestão do Hospício Nacional de Alienados. Psiquiatra, médico legista,
romancista e, posteriormente, membro da Academia Brasileira de Letras, Afrânio Peixoto
era originário da Bahia, assim como Juliano Moreira.
Seu ensaio inicial sobre a psicose maníaco-depressiva, publicado em 1905 sob o título
“A loucura maníaco-depressiva” (Peixoto, 1905), transformou-se numa referência
fundamental sobre a dita psicose no Brasil. Teve assim ressonâncias importantes nas
produções teóricas posteriormente publicadas, não obstante as resistências que também
encontrou para se impor como referência crucial.
Como nos disse Henrique Roxo (1925, p.368) em seu Manual de psiquiatria, Peixoto
mostrou-se um “adepto da concepção germânica”. Com efeito, esse autor reconheceu sua
dívida com Kraepelin logo no parágrafo inicial de seu ensaio, de maneira ao mesmo tempo
solene e eloquente: “A concepção da loucura maníaco-depressiva é uma das sínteses gloriosas
que marcam época nos fatos da psiquiatria”. Deve-se ao Professor Emil Kraepelin” (Peixoto,
1905, p.33; grifos meus).
Logo em seguida, a concepção teórica de Kraepelin sobre a dita loucura foi condensada
em seus aspectos fundamentais, sem que Peixoto apresentasse qualquer diferença na descrição
clínica e na etiologia da loucura maníaco-depressiva. Assim, “entende-se por esta designação
uma doença mental ordinariamente hereditária, sobretudo frequente no meio-dia da vida,
manifestando-se por acessos isolados, sub-intrantes, intermitentes, de excitação ou
depressão, puros ou combinados, deixando intervalos de saúde, sem aparente lesão da
inteligência” (Peixoto, 1905, p.33).
Ao mesmo tempo, Peixoto (1905) colocou devidamente em destaque a ruptura teórica
e clínica representada pela concepção de Kraepelin em relação à tradição anterior, incluindo
o remanejamento operado em relação a Falret e Baillarger: “Tanto vale dizer que aí ficaram
compreendidas todas aquelas consideradas espécies clínicas chamadas de mania, de

354 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro


A cena constituinte da psicose maníaco-depressiva no Brasil

melancolia, loucura de dupla forma, periódica, alterna, atípica e suas variantes de intensidade
e de manifestação clínica” (p.34). Sendo assim, o deslocamento da tradição psiquiátrica
francesa para a alemã foi sacramentado.
O deslocamento do estrito registro sintomático do acesso para o do processo foi também
sublinhado por Peixoto (1905), que nesse caso assumiu uma perspectiva essencialmente
kraepeliniana: “O que se supunha, tomando isoladamente a observação de um acesso, ou
mesmo, mais ainda, a preponderância da fase, de um acesso, como doença especial, é trazido
ao rol da síndrome clínica, aparecendo só ou acompanhado, repetindo-se ou alternando-se,
de modo a justificar o conceito, bem fundado, da loucura maníaco-depressiva” (p.33).
Essa formulação de Peixoto foi enunciada posteriormente de maneira ainda mais clara
e imperativa, colocando-se em evidência a dimensão do processo em causa e sublinhando-
se a dimensão constitucional:

A observação de todos os fatos, mesmo variadíssimos, sobremaneira os mistos e


aglutinados, a penetração no estudo de cada um deles na sua evolução, condenando o
vezo de esquecer o doente e fazer dos sintomas concepções de doença, trouxe a Kraepelin
a conclusão que existe uma espécie de enfermidade mental, assente sobre um terreno de
herança neuropática, que se manifesta por síndromes de excitação e de depressão, isoladas,
combinadas, misturadas ou alternadas, em intensidade, duração e disposição variáveis,
passando sem lesão considerável da inteligência e se repetindo e recidivando através da
vida: é a loucura maníaco-depressiva (Peixoto, 1905, p.34-35).

A etiologia fundamental da enfermidade seria indubitavelmente de ordem hereditária.


A marca infalível da hereditariedade nessa modalidade de loucura seria bastante intensa,
talvez apenas um pouco menor do que a encontrada na idiotia, na imbecilidade e na
debilidade mental. Com efeito, se a degeneração mental e as psiconeuroses (histeria, epilepsia
e neurastenia) seriam produções patológicas que se produziriam de imediato, num terreno
regado pelo álcool, pela sífilis, pelas ‘provações’ e pelos ‘excessos’, a loucura maníaco-
depressiva se forjaria, em contrapartida, num campo largamente preparado. Sendo assim,
essa modalidade de loucura não seria decorrente de uma outra patologia, mas sim de uma
constituição longamente cultivada (Peixoto, 1905, p.35).
Além disso, tal ‘tara familiar’ seria frequentemente homeomorfa (Peixoto, 1905, p.35).
Vale dizer que a herança transmitiria não somente a doença, mas também a forma clínica
por ela assumida (p.36). Contudo, tal herança não se manifestaria pelos signos e estigmas
patentes da degeneração no registro somático, o que implicaria dizer que o desequilíbrio
constitucional em pauta seria relativo, caracterizando tão somente “uma miopragia cons-
titucional do sistema nervoso” (p.36).
No entanto, o “desencadeamento” efetivo da doença dependeria da conjunção obriga-
tória de “causas ocasionais”, entre as quais se deveriam destacar as “violências psíquicas de
toda ordem”, principalmente as de ordem “afetiva”. Dever-se-iam considerar ainda os
desdobramentos advindos de tais consequências, tais como “abusos alcoólicos”, “excessos”,
“fadigas”, “insônias” e “privações alimentares” (Peixoto, 1905, p.36). Além disso, seria
preciso colocar em destaque certas experiências especificamente femininas – como o puerpério
e a menopausa –, assim como sexuais, como o “coito imoderado”, sem esquecer, é claro,
das fadigas decorrentes do estudo e do trabalho físico (p.37).

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Joel Birman

No entanto, do ponto de vista epidemiológico, existiria uma variação importante em


relação ao anteriormente formulado por Kraepelin. Assim, se para este autor a loucura
maníaco-depressiva estaria presente entre 10% e 15% das internações manicomiais, no
Hospício Nacional de Alienados a loucura maníaco-depressiva somente estaria presente em
6,5% da população internada, no período entre 1894 e 1903. Além disso, contrariamente
ao que ocorria na Europa, onde a doença em pauta incidiria principalmente sobre as
mulheres, nas estatísticas do Rio de Janeiro a dominância seria masculina. Com efeito,
as mulheres representariam 6,2% das internações com diagnóstico da loucura maníaco-
depressiva, enquanto os homens corresponderiam a 6,6% dos casos (Peixoto, 1905, p.37).
Vamos retomar essa disparidade epidemiológica no final deste artigo, pois será por seu
intermédio que enfatizaremos os efeitos do deslocamento do paradigma psiquiátrico francês
para o alemão, assim como a substituição do diagnóstico da histeria pelo da psicose maníaco-
depressiva, que estaria no cerne desse deslocamento.
Retomemos, assim, Peixoto (1905). Nas estatísticas do Hospício Nacional de Alienados,
entre 1894 e 1903 a psicose maníaco-depressiva ocupava a quarta posição no total da
população internada. Assim, se a doença prevalente era indiscutivelmente o alcoolismo
(28%), a qual se seguiam a demência precoce (13,5%) e a epilepsia (13%), a loucura maníaco-
depressiva englobava 9,5% dos internados. Se a melancolia involutiva (0,75%) fosse
incorporada a esta última, segundo a concepção posterior de Kraepelin, a população
internada contaria com 10,25% de psicose maníaco-depressiva (p.38).
No entanto, o campo da patogenia da loucura maníaco-depressiva seria o mais obscuro
na caracterização médica da enfermidade. Por isso mesmo, Peixoto (1905, p.40) pôde afirmar
de maneira eloquente que “de Areteo a Meynert não se tem adiantado muito na explica-
tiva de como se processam as manifestações mórbidas da loucura maníaco-depressiva”.
Vê-se, portanto, que o campo da patogenia estaria completamente truncado no discurso
psiquiátrico, apesar de todas as supostas certezas referentes à causalidade hereditária, o que
não deixa de ser paradoxal, uma vez que o registro da causalidade deveria delinear o campo
possível para a sustentação da leitura patogênica, o que não era efetivamente o caso.
No campo da semiologia clínica, por sua vez, a leitura da loucura maníaco-depressiva
estaria mais bem estabelecida. Retornamos assim ao ponto de partida que Kraepelin
pretendia superar no discurso psiquiátrico, visto que o que existiria de seguro na leitura da
enfermidade seria a sintomatologia e não o processo da causalidade devidamente conjugado
à patogenia. Sendo assim, a loucura maníaco-depressiva seria uma “perturbação do tônus
vital”, isto é, uma “discenestesia”, que se manifestaria por uma “alteração do humor”, seja
este alegre ou triste (Peixoto, 1905, p.40). Teríamos aqui um aspecto fundamental na
caracterização da enfermidade em questão, de forma que as “alterações da inteligência”,
os “erros sensoriais” e as “interpretações delirantes” seriam decididamente secundárias,
isto é, efeitos da alteração do tônus vital e do humor (p.41). Paralelamente a isso, as
alterações do registro do pensamento e do movimento seriam os correlatos destas alterações
primordiais.
Por isso mesmo, ao conferir ainda mais ênfase à concepção teórica de Kraepelin, Peixoto
(1905, p.41) pôde afirmar sem titubear e de maneira triunfante que

356 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro


A cena constituinte da psicose maníaco-depressiva no Brasil

a aparência diversa dos casos extremos, de máxima excitação à máxima depressão, não
importam, porque um é o mecanismo de sua produção e apenas inversas as suas
manifestações, é porque os fenômenos essenciais são constantes. É um erro supor que nos
maníacos as funções físicas se exaltam e consoantemente se deprimem nos melancólicos:
em aparência favoreça nesta suposição aos primeiros (grifos meus).

De qualquer modo, a variação do humor entre a alegria (mania) e a tristeza (depressão)


estaria associada à ideação rápida e à movimentação exagerada na mania, bem como à
ideação lenta e à diminuição da movimentação na melancolia. Em ambas seriam igualmente
verificadas alterações da atenção e da memória, bem como da associação de ideias em
decorrência da aceleração e da diminuição do pensamento, que seria o correlato da alteração
do humor (Peixoto, 1905, p.41).
A questão central de Peixoto (1905), para arguir em favor da tese de Kraepelin, é a de sus-
tentar que os tipos puros (mania e melancolia) seriam raros, sendo mais frequente encontrar
as formas clínicas marcadas pela predominância seja da mania seja da melancolia. Observa-
se então que o mais comum seriam os tipos caracterizados pela predominância (p.42). Sendo
assim, formulou-se um esquema classificatório, com o comentário sobre a raridade e a
frequência (Quadro 1):
Quadro 1

1. Tipos simples (mania simples e


melancolia simples) (raríssimos)

2. Tipos repetidos (mania intermitente e


melancolia intermitente) – (raríssimos)

Tipos de
predominância
3. Simples – (raríssimos)
Tipos clínicos

Tipos de mistura 4. Repetidos: a quase generalidade dos casos

5. Alternados: raros

6. Estupor maníaco, depressão agitada,


mania inibida, formas atípicas (raros)

Fonte: Peixoto, 1905, p.43.

Para provar estatisticamente sua formulação teórica, Peixoto (1905, p.43-44) afirmava
que, de 413 pacientes diagnosticados com loucura maníaco-depressiva no Hospício Nacional
de Alienados, 409 se inscreviam no registro da predominância, o que provaria fartamente

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a dominância de tal tipo clínico sobre os demais. Contudo, a predominância melancólica


ultrapassaria à maníaca de maneira significativa. Nesse caso, o primeiro tipo clínico contaria
com 291 casos e o segundo, com 118. Os homens sobrepujariam as mulheres em ambos os
registros. Se no período examinado (1894-1903) existiam mais homens diagnosticados
com loucura maníaco-depressiva do que mulheres, não seria de se espantar que a
desproporção se mantivesse igualmente na predominância dos tipos clínicos.
No que concerne à questão do intervalo lúcido entre as fases, com implicações médico-
legais, Peixoto (1905) indicava as diferentes leituras sustentadas pela psiquiatria francesa e
pela alemã. Assim, enquanto para a primeira existiria uma volta ao estado de saúde inicial
nos ditos intervalos – ao menos nas situações em que as fases fossem bem distanciadas no
tempo – para a segunda, em contrapartida, existiria uma inferioridade psíquica evidente
no intervalo lúcido em relação ao estado inicial (p.44).
Evidentemente, Peixoto (1905) posicionava-se a favor da leitura alemã, associando-se
então a Kraft-Ebing, Shule, Weigandt e Kraepelin. Com efeito, no intervalo lúcido existiria
“energia psíquica diminuída, irritabilidade exagerada, emotividade muito fácil, impulsividade
muito pronta, aí estão fatos toda hora certificados com que rebater a pretendida restituição
ao normal. A observação destes mestres parece-me irrefutável, na clínica” (p.44).
Porém, não obstante a suposta clareza na descrição clínica da loucura em pauta, na
primeira crise “o diagnóstico não é sempre fácil” (Peixoto, 1905, p.44). As dificuldades
maiores estariam no diagnóstico diferencial entre a demência precoce e a melancolia
involutiva. Contudo, com a repetição da crise, o diagnóstico seria bastante facilitado e a
periodicidade da fase diminuiria então qualquer dificuldade quanto a isso (p.44-45).
O prognóstico seria incerto, contudo, dependendo amplamente da maior ou menor
frequência na repetição das fases, bem como da duração dos intervalos lúcidos. Com
efeito, quanto maior a frequência das fases, menor a duração do intervalo lúcido, daí
resultando a “transformação do humor” e as “lesões da inteligência”. Além disso, a previsão
de novos acessos seria bastante difícil, sendo enorme a incerteza. Isto porque o paciente
“quando não está no desequilíbrio de seu acesso, está no equilíbrio instável da tendência
para um outro acesso” (Peixoto, 1905, p.45).
O tratamento implicaria a internação e o isolamento durante as crises agudas, o que
invariavelmente provocaria “magníficos efeitos”. No tipo clínico com predominância
maníaca, seria necessário o uso de banhos permanentes e de sedativos para dominar a
excitação. Em contrapartida, naquele com predominância depressiva, os banhos frios
deveriam ser associados a ópio, quinina, estricnina, purgativos e eupépticos, que seriam as
melhores prescrições terapêuticas (Peixoto, 1905, p.46).
De qualquer modo, o exame do cadáver dos doentes indicava um absoluto silêncio
lesional, sendo então “uma página em branco a escrever na história da loucura maníaco-
depressiva. Isso porque, num refrão monótono e repetido desde o início do século XIX,
que atravessou a história da psiquiatria, os meios de apreciação são muito grosseiros e a
vista científica do momento ainda muito pouco penetrante” (Peixoto, 1905, p.46).
Sendo assim, pode-se depreender com facilidade que a leitura da psicose maníaco-
depressiva realizada por Kraepelin foi incorporada quase que ipse littere na leitura realizada
por Peixoto. Seu esforço teórico é o de tornar consistente a leitura do primeiro,

358 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro


A cena constituinte da psicose maníaco-depressiva no Brasil

principalmente ao colocar a ênfase na descrição clínica dos tipos de predominância. No


entanto, se a leitura evolutiva da dita psicose foi bastante enfatizada – como pretendia
Kraepelin para a totalidade do campo da psicopatologia –, os vazios do modelo
kraepelineano saltam igualmente aos olhos. Com efeito, a causalidade constitucional não
passaria de uma petição de princípio. Além disso, a patogenia da suposta enfermidade
seria marcada pelo silêncio, o que retirava a consistência teórica dos enunciados biológicos,
como pretendia Kraepelin. Ainda era de fato a descrição clínica que conferia consistência
à incorporação do modelo realizada por Afrânio Peixoto, mas ela também encontrou
resistência e oposição, como veremos em seguida.

Crítica do paradigma
Num ensaio intitulado “Sobre a psicose maníaco-depressiva”, publicado no mesmo
ano e no mesmo periódico, Franco da Rocha (1905) resolveu responder ao artigo de Afrânio
Peixoto. Ocupando então a direção médica do Asilo-Colônia de Juqueri (no estado de
São Paulo), a resposta de Franco da Rocha constituiu efetivamente uma crítica à leitura
de Peixoto e de Kraepelin sobre a dita psicose.
Antes de mais nada, Franco da Rocha (1905) reconhecia o efeito teórico do discurso de
Kraepelin sobre a psiquiatria brasileira de então, uma vez que era um consenso, com ampla
aceitação nesse meio. Destacava ainda como a fácil incorporação da leitura desse autor
sobre a loucura maníaco-depressiva seria o signo eloquente dessa realidade.
Contudo, a decisão de escrever um artigo contra a leitura de Kraepelin visava “expor os
motivos que nos impedem de segui-lo em toda linha nessa inovação, motivos esses que,
oriundos da clínica, nos parecem por isso mesmo perfeitamente justificados.” Portanto,
sem querer “fazer frente a Kraepelin”, Franco da Rocha o contesta na leitura da psicose
maníaco-depressiva, no registro estrito da clínica (Rocha 1905, p.279).
Qual seria então o cerne do argumento crítico de Franco da Rocha? A proposição de
que a loucura periódica nem sempre se inscreveria no campo da loucura maníaco-depressiva.
Nessa perspectiva, o autor propõe uma “inversão” das “posições hierárquicas” ocupadas
por tais enunciados clínicos no discurso de Kraepelin, formulando que a loucura periódica
seria o “gênero” e a psicose maníaco-depressiva, a “espécie”, e não o oposto. Com efeito,
ao “invés de fazer como Kraepelin da expressão loucura maníaco-depressiva o gênero e da
loucura periódica a espécie, fazemos o inverso: para nós a loucura periódica, sendo
designação mais vaga, é o gênero; e a maníaco-depressiva é uma espécie com suas variedades
– circular, dupla forma, etc...”. Isso porque, para ele, existiria a mania periódica e a melancolia
periódica, mas não necessariamente a conjunção maníaco-depressiva, como pretendia
Kraepelin em sua concepção clínica. Nas situações acima enunciadas haveria efetivamente
uma psicose periódica intermitente (Rocha, 1905, p.280).
Paralelamente a isso, haveria igualmente situações clínicas nas quais a mania se
circunscreveria a um único acesso, que se desdobraria na cura completa ou na cronicidade,
materializando-se inequivocamente na demência (Rocha, 1905, p.280) Na melancolia
ocorreria algo análogo, como era o caso, aliás, para a melancolia involutiva, naquele
momento ainda não inscrita por Kraepelin no campo da loucura maníaco-depressiva.

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Joel Birman

Ademais, diferentemente da leitura de Kraepelin, Franco da Rocha supunha ainda a existên-


cia de crises melancólicas em pessoas jovens e não somente naqueles na faixa etária entre 40 e
45 anos, como sustentava o primeiro. Tais casos ocorriam em mulheres e sua eclosão estaria
associada à gravidez e à lactação. Se, para Kraepelin, tais casos podiam suscitar dúvidas
quanto ao diagnóstico, na leitura de Franco da Rocha, em contrapartida, “não vemos
motivo para tal dúvida, a não ser a necessidade doutrinária” (Rocha, 1905, p.281-282).
Portanto, na perspectiva delineada por esse autor, podia-se afirmar: “vimos que na
clinica se encontram: a mania isolada e a mania intermitente; a melancolia isolada e a
intermitente, como tipos extremos, embora pouco frequentes” (Rocha, 1905, p.283).
No entanto, a reunião das síndromes opostas seria mais frequente na clínica, sendo uma
delas predominante e mascarando a síndrome contrária. O tipo misto seria aquele que
combinaria então os elementos das síndromes opostas (Rocha, 1905, p.283). Segundo
Kraepelin, seria apenas em decorrência de tais casos que a designação da psicose maníaco-
depressiva se aplicaria.
Por esta mesma razão, Franco da Rocha excluía do quadro clínico da psicose maníaco-
depressiva os tipos puros, tais como descritos na classificação de Afrânio Peixoto. Com
efeito, o tipo simples (mania e melancolia) e o intermitente (mania e melancolia) não
fariam parte decididamente do campo da psicose maníaco-depressiva.
Assim, na argumentação crítica de Franco da Rocha, a extensão clínica conferida à
psicose maníaco-depressiva, tal como estabelecida por Kraepelin e sancionada por Peixoto,
não se sustentaria no registro clínico. Mesmo o critério evolutivo, tão valorizado como
operador teórico pelo primeiro, se mostraria insustentável e francamente inconsistente.
Rigorosamente falando, uma “base sólida para a classificação psiquiátrica” implicaria não
somente a descrição clínica precisa, mas também a circunscrição etiológica e
anatomopatológica da loucura circular, o que ainda não existia naquele momento. Trata-
se de uma forma de Franco da Rocha afirmar, em alto e bom som, que a unificação clínica
baseada numa causalidade biológica, proposta por Kraepelin, seria justamente o que de
mais falho haveria em sua sistematização teórica e nosográfica (Rocha, 1905, p.285).
Entretanto, outras consequências impuseram-se ainda nesse confronto teórico. Franco
da Rocha (1905, p.285) admitia a degeneração como fundamental na causalidade da loucura
periódica, mas considerava a existência de uma gradação no processo degenerativo em causa.
Assim, nos tipos clínicos isolados (mania e melancolia), o potencial degenerativo seria menor.
Porém, tal potencial seria incrementado nos tipos intermitentes, atingindo seu apogeu na
psicose maníaco-depressiva propriamente dita.
Esse comentário sobre a causalidade teria igualmente efeitos sobre a leitura dos interva-
los lúcidos: quanto menor o potencial degenerativo da perturbação em pauta, maior o
intervalo lúcido e a presença de marcas da saúde mental neste último. Portanto, os tipos
puros da loucura periódica teriam intervalos lúcidos efetivamente mais longos do que os
tipos intermitentes; na loucura maníaco-depressiva, contudo, já não existiria qualquer
intervalo lúcido (Rocha, 1905, p.288). Revelava-se assim uma outra maneira de Franco da
Rocha criticar a leitura de Kraepelin e a sua retomada literal por Peixoto. Enfim, a impor-
tância desse aspecto diz respeito aos problemas colocados pela medicina legal na avaliação
da responsabilidade desses indivíduos.

360 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro


A cena constituinte da psicose maníaco-depressiva no Brasil

Por último, Franco da Rocha (1905, p.286) destacava ainda outra crítica à leitura teórica
de Kraepelin. Assim, se a loucura maníaco-depressiva seria uma discenestesia, com alteração
do tônus vital e do humor, o processo em pauta não poderia ser o mesmo na fase maníaca
e na melancólica, diante da diferença clínica existente entre elas. Desse modo, o autor
“rompia com a ideia de uma patogenia única”, proposta por Kraepelin para a loucura
maníaco-depressiva e caucionada por Peixoto, defendendo a existência de diferentes
processos patogênicos. Verifica-se, desse modo, que a totalidade do edifício teórico cons-
truído por Kraepelin, em seus diferentes registros, foi colocada em questão na leitura crítica
de Franco da Rocha.

Triunfo do paradigma
Roxo (1925, p.365) criticou a nomeação da psicose maníaco-depressiva realizada por
Kraepelin – “é evidentemente uma péssima designação, pois associa em mau português
duas coisas antagônicas” – “preferindo que se mantivesse a ideia de psicose periódica,
apesar de que o uso dessa expressão podia dar uma extensão maior ao que constitui a
entidade clínica, pois há muita doença mental em que o período é consuetudinário”.
“Porém, se o uso consagrou o mau termo, para que não se produza a confusão”, “força é
repeti-lo”. Reconhece assim literalmente que a leitura de Kraepelin sobre a loucura maníaco-
depressiva foi triunfante na tradição psiquiátrica brasileira, apesar de preferir a antiga
denominação francesa de psicose periódica. Preferiu, ainda assim, inserir-se no consenso
teórico que instituiu a hegemonia do paradigma kraepelianiano no Brasil, apesar do termo
espúrio escolhido para enunciá-lo em língua portuguesa.
Contudo, não obstante essa pequena firula retórica quanto à denominação do mal em
questão, a leitura empreendida por Roxo (1925) significou a realização da perspectiva
teórica entreaberta por Kraepelin e defendida por Peixoto, o que implicou a medicalização
sistemática da loucura maníaco-depressiva. Destacava-se no trabalho de Roxo a este respeito,
em seu Manual de psiquiatria, a ‘multiplicação’ e a ‘disseminação’ de enunciados biológi-
cos em seu texto, o que fornecia subsídios cruciais à perspectiva de Kraepelin. Tal aspecto
pode ser facilmente depreendido de sua escrita, tendo em vista o destaque às múltiplas
considerações sobre a patogenia da psicose maníaco-depressiva. Enfim, o discurso teórico
de Roxo sobre tal psicose representa o triunfo incontestável do paradigma kraepeliniano
no Brasil, ultrapassando em muito o discurso teórico inicial de Afrânio Peixoto sobre a
mesma problemática.
Antes de mais nada, Roxo assumiu a veracidade científica da leitura de Kraepelin, visto
que a conjunção entre a mania e a depressão seria efetivamente predominante na experiência
clínica e que “só excepcionalmente se apresentam puras e únicas durante a vida do
indivíduo”. Além disso, ele pôde ainda afirmar que as estatísticas confirmavam fartamente
suas afirmações em nível internacional, pela autoridade de diversos pesquisadores:
Henrichen, Tralman, Thomsen, Weygandt, Meyser, Finzi, Vedrant, Laudranzi, Perazzolo e
Claus. Tanto na tradição psiquiátrica alemã quanto na italiana, diferentes pesquisadores
puderam realizar a ‘verificação’ da hipótese de Kraepelin no registro estatístico, o que
conferiria à sua leitura uma caução científica incontestável (Roxo, 1925, p.367).

v.17, supl.2, dez. 2010, p.345-371 361


Joel Birman

Assim, os casos de psicoses periódicas e intermitentes destacados pela tradição psiquiátrica


francesa foram definitivamente englobados na psicose maníaco-depressiva. Porém, se a
psiquiatria francesa não teria se conformado “com as ideias alemãs”, Serieux, um crítico
severo desta tradição, não teria contado com adeptos no campo da psiquiatria internacional
(Roxo, 1925, p.367). No entanto, na própria cidadela francesa, a resistência à perspectiva
alemã teria finalmente se esgotado quando Ballet, em 1913, com sua autoridade
incontestável de professor de psiquiatria da Universidade de Paris, “mostrou-se entusiasta
das formas mixtas da psicose periódica” (p.368).
Portanto, a hegemonia teórica da leitura de Kraepelin sobre a psicose maníaco-depressiva
impôs-se no cenário internacional e, sendo assim, a psiquiatria brasileira igualmente aderiu
a essa hegemonia incontestável. Em decorrência disso, Roxo (1925) passava a descrever as
fases da psicose maníaco-depressiva de acordo com os parâmetros destacados por Kraepelin.
Com efeito, se a mania se caracterizaria pelo humor alegre, a associação rápida de ideias e
a movimentação exagerada, a melancolia seria caracterizada pelo oposto, a saber, o humor
triste, a associação lenta de ideias e a movimentação vagarosa (p.368, 376).
Paralelamente a isso, a percepção, a atenção e a memória estariam alteradas de formas
opostas na mania e na melancolia. Seria pelo desvio da atenção que tanto a percepção
quanto a memória estariam perturbadas na mania, do que resultaria ainda a fuga de
ideias, típica dessa fase. Contudo, as “alucinações” seriam raras, tampouco sendo verificados
“delírios”, já que tais perturbações não seriam sistematizadas. Na melancolia, em
contrapartida, o humor triste teria a potência de fixar a atenção em percepções catastróficas
e de selecionar a experiência da ruína no campo da memória. Dependendo da intensidade
da melancolia, poderia até mesmo haver a produção de alucinações e delírios de cunho
paranoide e até mesmo fantástico, assim como inúmeras “ilusões” no registro sensoperceptivo
(Roxo, 1925, p.376).
Roxo passou a aplicar de maneira sistemática um “dispositivo científico” voltado para
a avaliação da “duração dos atos psíquicos”, então bastante em voga na psiquiatria
internacional, de modo tal que pôde verificar o incremento dessa duração na mania e sua
diminuição na melancolia. Com tal dispositivo supostamente científico, procurava
estabelecer enunciados positivos e objetivos que não permanecessem atrelados ao
subjetivismo da descrição clínica. Foi nesse contexto que realizou uma pesquisa sistemática
sobre o tema, o que redundou em sua tese de professor em psiquiatria, intitulada Duração
dos atos psíquicos elementares nos alienados (Roxo, 1925, p.372, 378).
O autor procurou, contudo, aprofundar-se na descrição das formas mistas da psicose
maníaco-depressiva. Assim, se a mania e a melancolia seriam caracterizadas por traços
opostos nos registros do humor, do pensamento e do movimento, seria possível depreender
daí que a mistura entre tais características opostas poderia dar conta da descrição das
formas mistas (Roxo, 1925, p.381-382).
Assim, se o humor alegre fosse substituído pelo humor triste, mas conjugado com as
demais características da mania, teríamos a “mania com furor”. Porém, se o humor alegre
e a movimentação exagerada se conjugassem com a associação lenta de ideias, teríamos a
“mania improdutiva” ou a “mania pobre de ideias”. Em seguida, se a movimentação
vagarosa se conjugasse com o humor alegre e a associação rápida de ideias, teríamos então

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A cena constituinte da psicose maníaco-depressiva no Brasil

a “mania com inibição motora”. Contudo, se a associação lenta de ideias e a movimentação


vagarosa se articulassem com o humor alegre, teríamos o “estupor maníaco”. Se, por sua
vez, o humor triste e a associação lenta de ideias se conjugassem agora com a movimentação
exagerada, teríamos então a “mania depressiva” ou a “excitação com depressão”. Final-
mente, se o humor triste se articulasse com a movimentação vagarosa e com a associação
rápida de ideias, teríamos a “depressão com fuga de ideias” (Roxo, 1925, p.382).
Visando constituir uma leitura mais detalhada dos ditos estados mistos, Adauto Botelho
propôs ainda a existência de mais dois estados mistos, além daqueles acima mencionados.
Nestes, com efeito, não existiriam a alegria ou a tristeza, mas a “cólera”. Assim, se para
muitos autores haveria uma equivalência entre a cólera e a tristeza, esta leitura seria
questionável para Botelho, que defendia a existência da “mania com cólera e a melancolia
com cólera”. Para este autor, a psicose maníaco-depressiva seria de base hereditária. Contudo,
discordando frontalmente de Peixoto, ele afirmava que a herança homeomorfa seria rara
(Roxo, 1925, p.383). Porém, além da degeneração presente na psicose maníaco-depressiva,
seria preciso igualmente destacar a “instabilidade do humor” como signo do processo
degenerativo. Roxo evocou para tanto o conceito de ciclofrenia, formulado por Rybakow
(1914), segundo o qual existiria a oscilação de humor entre a alegria e a tristeza, que se
conjugaria com a oscilação entre a agitação e a paralisia, assim como com aquela verificada
entre a logorréia e o mutismo. Esta descrição corresponderia ao que outros autores
denominavam, então, ciclotimia. Esta, com efeito, constituiria uma psicose maníaco-
depressiva em “miniatura”; para Barret, por sua vez, haveria aqui um processo degenerativo
que se traduziria pela “constituição ciclóide” (Roxo, 1925, p.384).
Porém, para o desencadeamento efetivo da psicose maníaco-depressiva seria necessária
a intervenção de uma dimensão “afetiva”, que funcionaria como “causa ocasional”. Por
essa mesma razão, Griesinger denominou psicoses afetivas a mania e a melancolia (Roxo,
1925, p.384). Devido ao peso inquestionável que Roxo conferia ao fator afetivo, ele pôde
afirmar: “sem o abalo moral só excepcionalmente surgirá a psicose maníaco-depressiva”.
Contudo, não se poderia esquecer, conforme o comentário pertinente de Parchappe, que
seria sempre a tristeza o afeto resultante de um abalo moral, aspecto que que explicaria o
fato de a psicose sempre começar pela fase depressiva. Tal interpretação seria condizente
com o comentário de Gresinger, segundo o qual apenas excepcionalmente a alegria seria a
causa desencadeante de uma psicose afetiva (p.385).
Deslocando-se agora do registro da etiologia para o da patogenia, o capítulo de Roxo
sobre a psicose maníaco-depressiva estava fundamentalmente marcado pela leitura
neurobiológica da psicose em pauta. Com isso, a marca medicalizante em sua leitura teria
signos indiscutíveis de cientificidade, residindo justamente aí a grande ‘novidade teórica’
enunciada em sua escrita. Além disso, ao caucionar o fundamento do modelo teórico de
Kraepelin e formular a hegemonia desse autor no campo da psiquiatria brasileira de então,
Roxo pôde superar em muito a leitura inicial de Peixoto, ainda bastante colada à descrição
clínica do mal em questão.
Assim, o dito abalo moral provocaria uma perturbação ‘vasomotora’. Segundo Meynert,
se houvesse a ‘congestão’ cerebral, desencadear-se-ia a mania. Em contrapartida, se houvesse
a ‘anemia’ cerebral, produzir-se-ia a melancolia. Não obstante a existência de críticas a essa

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Joel Birman

hipótese, Roxo (1925) a ela aderia, pois “se atentarmos para a fisiologia, veremos que é per-
feitamente racional o que ele diz, e as nossas comparações com a excitação alcoólica e com
a hemorragia abundante demonstraram bem a razão de ser desta interpretação” (p.384).
Com efeito, a autópsia de pacientes, mortos por causas outras, mas que se encontravam
em estados maníacos ou depressivos antes do falecimento, verificariam a veracidade da
hipótese de Meynert (p.384).
Como explicar, no entanto, a passagem da fase da melancolia para a da mania, isto é,
da ‘anemia’ para a ‘congestão’ cerebral neste contexto fisiopatológico? Pela ação de um
‘reflexo vasomotor’. Com efeito, verificar-se-ia a produção de ‘uma irritação do centro
vasomotor, determinando vasoconstrição e isquemia cerebral’. Pouco tempo depois, ‘cansa-
se a vasoconstrição, cessa e se segue a vasodilatação com a congestão consequente’ (Roxo,
1925, p.385).
Considerando então a presença efetiva deste “distúrbio vasomotor cerebral”, poder-se-
ia depreender facilmente de que modo uma perturbação endócrina poderia suscitá-lo. No
que tange a esse aspecto, no entanto, seria preciso bastante atenção, pois se tal pertur-
bação endócrina for muito intensa uma “grave autointoxicação” poderia se produzir,
desencadeando-se a demência precoce. Se ela for ligeira, por sua vez, será suficiente para
provocar o dito reflexo vasomotor, podendo então ser desencadeada a psicose maníaco-
depressiva (Roxo, 1925, p.385). Vê-se, portanto, que Roxo se deslocou aqui, com muita
desenvoltura neurobiológica, de uma psicose endógena para outra, a fim de sustentar uma
leitura fisiopatológica das psicoses.
No entanto, para fundamentar ainda mais sua leitura fisiopatológica da psicose maníaco-
depressiva, Roxo deslocou-se para o discurso teórico da histologia, apossando-se agora das
pesquisas de Ramón e Cajal. Para ele, com efeito, a vasodilatação presente na mania e a
vasoconstrição presente na melancolia seriam explicadas pela ação e pela disposição das
células da ‘neuroglia’, que, colocadas ao lado dos vasos sanguíneos, emitiriam prolon-
gamentos que os apertariam e reduziriam seu calibre, ou se retrairiam significativamente,
permitindo que o vaso se dilate. Para tanto, em contrapartida, a psicose maníaco-depressiva
ainda deveria ser explicada como efeito de uma sensibilidade especial do cérebro às toxinas
internas. Haveria, assim, uma “auto-intoxicação do organismo e reação exagerada”. Numa
leitura similar, Lewis Bruce pressupunha que na fase maníaca existiria uma intoxicação
cerebral, manifesta nas taxas de ‘aglutininas’ no sangue, na modificação da flora intestinal,
no aumento do azoto na urina e na hiperleucocitose (Roxo, 1925, p.385).
Parlieu e Marbe, em contrapartida, apostavam na existência de um distúrbio da tireóide,
colocando em destaque uma gênese semelhante à doença de Basedow. Lange, por sua vez,
procurou articular a psicose maníaco-depressiva à gota, uma vez que existiria uma diminuição
da eliminação de ácido úrico na urina durante a fase depressiva. Em contrapartida, Pelcz
destacou a grande frequência com que a psicose maníaco-depressiva se associava a lesões
cerebrais. De maneira similar, Saiz e Taubert destacaram a existência de inúmeros casos de
cicatrizes no crânio dos pacientes (Roxo, 1925, p.386).
Ao examinar as fezes desses doentes, Pardo, por sua vez, considerou a possibilidade de
uma autointoxicação em decorrência do incremento da flora intestinal. Ele supôs até mesmo
que se pudesse tratar de um cocobacilo. Von Bechterew concebeu a hipótese da existência

364 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro


A cena constituinte da psicose maníaco-depressiva no Brasil

de uma autointoxicação pela presença do indoxil na urina dos pacientes com psicose
maníaco-depressiva. Supôs, então, que a tal toxina atuaria pelo sistema vasomotor,
concordando, assim, com a hipótese de Meynert. Anglade e Joquim analisaram a relação
existente entre a psicose maníaco-depressiva e a epilepsia, indicando como em ambas a
neuroglia teria um aspecto infantil e pressupondo, assim, a semelhança dos processos
degenerativos presentes nas duas enfermidades (Roxo, 1925, p.386).
Santenoise propôs, em seguida, como patogenia a existência de um distúrbio do sistema
neurovegetativo que seria decididamente desequilibrado. Assim, na excitação maníaca
ocorreria a hiperexcitabilidade do vago. Além disso, o aumento do tônus parassimpático
precederia regularmente o aparecimento dos acessos maníacos. Em sua pesquisa, valeu-se
do exame do reflexo oculocardíaco para a investigação do tônus parassimpático e do
reflexo solar, para em seguida delinear a excitabilidade do sistema simpático. Desse modo,
teria comprovado que o reflexo solar se mostrava nulo ou invertido na mania, ao passo
que o oculocardíaco estaria acentuado nas crises maníacas e ansiosas. A experiência clínica
lhe fazia reconhecer que os indivíduos com reflexo oculocardíaco muito nítido seriam
exageradamente sensíveis aos tóxicos, de forma que a mania e a melancolia estariam na
estrita dependência de fenômenos autotóxicos, devido ao aparecimento de fases em relação
à susceptibilidade a tais substâncias, que seria paralela ao aumento de vagotonia. Nos
períodos intercalados, por sua vez, haveria a hipervagotonia. Por fim, haveria ainda uma
leucopenia acentuada e rápida após as refeições, indicando então a hipervagotonia (Roxo,
1925, p.386, 387).
Finalmente, um último registro analítico destacado por Roxo, a partir das pesquisas de
Thalbitzer, seria o de que no exame anatomopatológico existiriam múltiplas modificações
nos vasos motores que efetivamente perturbariam a nutrição cerebral e ‘afinariam’ as
fibras nervosas (Roxo, 1925, p.387).
Contudo, os discursos da anatomia, histologia, bioquímica, fisiologia, anatomia
patológica e fisiologia patológica, fartamente utilizados para a caracterização da patogenia
da psicose maníaco-depressiva, foram igualmente empregados para o estabelecimento de
seu diagnóstico diferencial em relação a outras perturbações mentais. Seria, portanto,
necessário ultrapassar o registro estrito da fenomenologia clínica e dar um passo teórico
decisivo para tornar consistente a medicalização da psicose maníaco-depressiva, como
pretendia Kraepelin.
O primeiro obstáculo a ser vencido seria o diagnóstico diferencial em relação à demência
precoce, principalmente porque a agitação e o estupor presentes na catatonia poderiam ser
confundidos com a mania e a melancolia. Para ultrapassar a leitura do registro sintomático
– indiferença afetiva, intensa afetividade, riqueza alucinatória e ausência de alucinações,
decadência da inteligência (demência) e sua preservação –, seria preciso caminhar
decisivamente em direção à leitura biológica do organismo. Dessa perspectiva, Adauto
Botelho constatou que a reação de Abderhalden seria sempre positiva na demência precoce
em relação às glândulas sexuais, ao cérebro, à tireóide e ao timo. Em contrapartida,
Juschtzchenko, Plotnikoff e Fauser verificaram que tal reação seria negativa na psicose
maníaco-depressiva, invariavelmente em relação ao cérebro e muitas vezes em relação às
glândulas sexuais. Fauser verificou ainda que ela seria igualmente negativa no que concerne

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Joel Birman

à hipófise, ao timo, ao músculo, ao rim, ao fígado e às glândulas suprarrenais (Roxo, 1925,


p.388, 389).
Pahron indicou, entretanto, que, na psicose maníaco-depressiva, a reação de
Abderholden na tireóide indicava grande variação, sendo em muitos casos negativa e em
alguns poucos fortemente positiva. Contudo, no que concerne ao cérebro, tal reação seria
sempre positiva na demência precoce e negativa na psicose maníaco-depressiva. Finalmente,
Santenolse destacou que o reflexo oculocardíaco seria pouco acentuado na melancolia,
muito acentuado na demência precoce e na psicose maníaco-depressiva, de modo que “se
houver ausência do reflexo poder-se-ia logo eliminar a hipótese da mania” (Roxo, 1925,
p.389).
Com a confusão mental, o diagnóstico diferencial poderia ser algumas vezes difícil,
mas não impossível no registro sintomático. No registro do somático, no entanto, a diferença
poderia ser facilmente estabelecida, uma vez que sempre ocorreria um processo tóxico-
infeccioso (Roxo, 1925, p.390).
A paralisia geral poderia ser igualmente confundida com a psicose maníaco-depressiva,
mas os exames de laboratório para a sífilis e o exame neurológico (sinal de Argyl-Robertson),
além da consideração dos distúrbios da memória e da disartria indicariam facilmente a
presença da paralisia geral (Roxo, 1925, p.390).
Se anteriormente muitos pacientes haviam sido diagnosticados como portadores de
psicose maníaco-depressiva como a histeria, por exemplo, esse impasse seria superado com
a leitura dessa perturbação mental feita por Babinski, que faria cair por terra a concepção
anterior de Charcot. Com efeito, somente seriam da ordem da histeria os sintomas
engendrados pela sugestão e que desapareceriam com a persuasão (Roxo, 1925, p.390).
Finalmente, a neurastenia poderia ser clinicamente confundida com a melancolia,
pela similaridade existente entre a astenia e a tristeza. Para a realização do diagnóstico
diferencial, seria necessário recorrer às provas orgânicas. Foi a partir dessa perspectiva que
Altens (Munique) verificou, para a melancolia, um aumento do peso específico na urina,
com a diminuição correlata da eliminação de fosfatos e de creatinina, assim como a presença
de glicose. Enfim, ocorreria igualmente nesse caso um aumento da ‘viscosidade’ sanguínea
(Roxo, 1925, p.391).
O tratamento das fases maníaca e depressiva implicaria a internação obrigatória. A
primeira em decorrência da grande excitação causada pela perda do “poder frenador
cerebral”, a segunda devido ao risco de suicídio. Em ambas, os doentes deveriam ter uma
“fiscalização muito rigorosa” (Roxo, 1925, p.391-393). Além disso, Roxo propunha a com-
binação de banhos e o uso de medicamentos. No que concerne a esse aspecto, aliás, a
prescrição farmacológica do autor era significativamente mais pormenorizada do que a de
seus antecessores, destacando o uso de múltiplas drogas para cada uma das fases, mas
igualmente propondo doses bastante específicas nas combinações que prescrevia (Roxo,
1925, p.391-393).
É evidente que a farmacopeia específica de Roxo para a psicose maníaco-depressiva era
coerente com a leitura fartamente biológica do mal em questão. Paralelamente ao tratamento
das fases patológicas, ele também pretendia medicar os intervalos lúcidos, tanto na mania
e na melancolia quanto nos estados mistos. Vale dizer que propunha uma prevenção para

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A cena constituinte da psicose maníaco-depressiva no Brasil

as possíveis crises futuras, destacando a farmacologia mas levando também em consideração


a regulação das emoções dos indivíduos, devido ao papel que elas desempenhavam no
desencadeamento dos acessos. Com isso, Roxo pôde afirmar, sem hesitação: “os recursos
sociais modernos que visam a profilaxia da loucura terão no caso, talvez, a sua mais vantajosa
aplicação” (Roxo, 1925, p.394).
Assim, a psicose maníaco-depressiva seria, a partir de então, uma doença crônica, e tal
cronicidade seria o contraponto necessário de sua endogeneidade, devendo ser cuidada na
crise e nos intervalos lúcidos, numa conjunção ao mesmo tempo terapêutica e preventiva.
Para tanto, seria preciso regular continuamente as ‘emoções’ e os ‘abalos morais’ que
pudessem afetar os indivíduos ao longo de suas vidas – indivíduos estes que passariam a ter
sobre si e suas existências o permanente e perscrutante olhar médico.

Discurso barroco
Pode-se depreender facilmente desse percurso, no então recente campo da psicose
maníaco-depressiva, que a tradição alemã da psiquiatria assumiu a hegemonia teórica na
tradição brasileira, sendo representada pelo discurso de Kraepelin. O mesmo ocorreu com
as demais entidades clínicas, num processo estratégico orientado por Juliano Moreira,
como vimos. Paralelamente, a tradição francesa da psiquiatria, perdia terreno a olhos
vistos no Brasil, deslocando-se do lugar destacado que ocupara na segunda metade do
século XIX. A partir de então, a Alemanha transformou-se na Terra Prometida da psiquiatria
brasileira, de tal modo que os profissionais brasileiros em atividade até os anos 1960 não
somente dominavam a língua alemã, como também viajavam para a Alemanha no intuito
de aprender com os mestres – como Roxo, por exemplo que, em 1913, frequentou os cursos
de Kraepelin em Munique (Roxo, 1925, p.394).
Com Roxo, o paradigma teórico de Kraepelin foi desdobrado naquilo que ele pretendia
fundamentalmente, a saber, o desenvolvimento de hipóteses patogênicas e etiológicas que
conferissem uma marca científica ao discurso psiquiátrico. Estaria aí o triunfo do paradigma
em questão na psiquiatria brasileira, que inseriu em sua escrita enunciados advindos dos
diferentes discursos biológicos, conferindo uma suposta marca de cientificidade ao discurso
psiquiátrico.
Paralelamente a isso, o discurso clínico sobre a psicose maníaco-depressiva assumiu
uma dimensão efetivamente ‘barroca’, multiplicando suas particularidades descritivas de
modo a constituir novos registros nosográficos e classificatórios. O ensaio de Adauto Botelho,
publicado em 1929 sob o título “Estados mistos da psicose maníaco-depressiva”, é o
documento mais eloquente sobre a questão (Botelho, 1929)..Como vimos anteriormente,
na citação feita por Roxo acerca do lugar da cólera na leitura de Adauto Botelho, houve o
efetivo imperativo de constituição de novas espécies e superfícies diagnósticas para a psicose
maníaco-depressiva, o que talvez tenha evidenciado a fragilidade teórica das hipóteses
etiológicas e patogênicas.
Com efeito, não obstante o frenesi de incorporar os enunciados biológicos que
fundamentariam cientificamente a leitura da psicose maníaco-depressiva, a medicalização

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Joel Birman

em questão era um santo de pés de barro, que se voltava para o barroquismo nosográfico
diante da evidente fragilidade científica dos seus enunciados biológicos. Sendo assim, o
barroquismo classificatório e nosográfico na leitura da psicose maníaco-depressiva
significou, no discurso psiquiátrico, a contrapartida da fragilidade teórica de suas formu-
lações biológicas e médicas.

Da histeria à psicose maníaco-depressiva


É preciso ainda evocar de que modo a leitura da psicose maníaco-depressiva passou a
ocupar o campo empírico das perturbações do espírito então designadas como histeria.
Isso implica dizer que houve uma ‘expansão’ do campo clínico da psicose maníaco-depressiva
que se deu às expensas da ‘redução’ correlata do campo clínico da histeria. Essas expansão,
por um lado, e redução, por outro, encontram-se no ponto de corte produzido com o
deslocamento do lugar da tradição psiquiátrica francesa para a tradição da psiquiatria
alemã, tal como verificado no Brasil.
Nas referências aqui feitas ao ensaio de Cunha Lopes (1927) e ao Manual de psiquiatria
de Roxo (1925), no capítulo sobre a psicose maníaco-depressiva, a redução da histeria foi
devidamente destacada. Vale dizer que, quando a leitura de Babinski sobre a histeria
substituiu a anterior, realizada por Charcot – para quem somente seriam histéricos os
sujeitos cujos sintomas fossem engendrados pela sugestão e suprimidos pela persuasão –,
muitos dos antigos histéricos passaram a ser diagnosticados como psicóticos maníaco-
depressivos, o que indicava o cruzamento e o deslocamento entre os dois registros clínicos.
Em seu livro Psicopatologia forense, Afrânio Peixoto (1923) nos diz exatamente o mesmo,
indicando como tal aspecto constituia, ao mesmo tempo, um critério e um consenso
muito bem estabelecidos na psiquiatria brasileira da época.
Seria necessário, porém, que nos indagássemos um pouco mais sobre essa questão, à
guisa de conclusão deste ensaio. Para tanto, valeria destacar alguns elementos históricos
no diagnóstico de ambas as enfermidades, realizado no Hospício Nacional de Alienados,
por um lado, e considerar o deslocamento de um discurso teórico por outro.
Como vimos, na estatística estabelecida por Peixoto em seu ensaio “A loucura maníaco-
depressiva”, havia mais homens do que mulheres diagnosticados com a enfermidade. Isso
porque naquele período histórico, entre 1894-1903, havia mais homens internados do que
mulheres. Além disso, havia mais homens brancos do que negros internados, não obstante
a população do Rio de Janeiro ser predominante negra e mestiça, o que evidencia um
paradoxo demográfico (Facchinetti, Ribeiro, Muñoz, 2008).
Contudo, nas décadas subsequentes, tais distribuições nosográficas foram claramente
modificadas. Assim, nas décadas de 1900 a 1920, as doenças prevalentes entre os homens
eram a sífilis, o alcoolismo e a demência precoce respectivamente, ao passo que entre as
mulheres, a prevalência seria a da histeria, da psicose maníaco-depressiva, da confusão
mental e da psicose periódica respectivamente (Facchinetti et al., 2008). Nos anos 1930, no
entanto, a psicose maníaco-depressiva assumiu claramente a dianteira em face da histeria,
passando a ser a doença mais frequente entre as mulheres.

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A cena constituinte da psicose maníaco-depressiva no Brasil

Pode-se afirmar, desse modo, que foi a consolidação do paradigma teórico de Kraepelin
que conduziu o discurso psiquiátrico a diagnosticar com maior frequência a psicose maníaco-
depressiva no lugar da histeria, na população feminina internada no Hospício Nacional
de Alienados. Paralelamente, de modo complementar e em conjunção com esse processo,
a nova leitura de Babinski sobre a histeria, que substituiu a antiga concepção de Charcot,
esvaziava o amplo campo de prevalência da histeria na antiga leitura psiquiátrica.
Entretanto, cabe ainda destacar que essa inflexão teórica implicou também uma outra
direção doutrinária na psiquiatria. O peso etiológico conferido à degeneração e à consti-
tuição na leitura de Kraepelin esvaziou, em contrapartida, os fatores circunstanciais e
históricos da experiência do sujeito para o desencadeamento efetivo das enfermidades em
questão. Com efeito, a ênfase de Kraepelin na marca degenerativa da psicose maníaco-
depressiva retirava dela a incidência dos acontecimentos vividos pelo sujeito. O endógeno
era francamente dominante na leitura da psicose maníaco-depressiva feita por Kraepelin,
com todos os impasses que isso representava para a psiquiatria, conforme enunciado
criticamente por Ey nos anos 1950.
Mas o que se expulsava pela sala de jantar da psiquiatria brasileira voltava freneticamente
pela porta da cozinha, devido à ênfase que Peixoto e sobretudo Roxo conferiam aos ‘abalos
morais’, designados como causas ocasionais para o desencadeamento da psicose maníaco-
depressiva. Eram essas causas ocasionais, denominadas traumáticas, que se articulariam à
histeria, na leitura anterior de Charcot. Além disso, no campo de tais traumas, o corpo
feminino estaria significativamente mais em foco do que o masculino, uma vez que
experiências femininas como parto, puerpério e amamentação seriam as destacadas pelos
autores brasileiros. Pode-se depreender daí, sem muita dificuldade, que a substituição da
figura da histeria por aquela da psicose maníaco-depressiva, com base na nova perspectiva
kraepelianiana, visava estabelecer um paradigma psiquiátrico centrado na degeneração,
que esvaziava a dimensão histórica da experiência psíquica do sujeito. A radicalização da
dimensão biológica, no modelo psiquiátrico radicado no Brasil, conduziu, assim, nesse
contexto histórico específico, a substituição da histeria pela presença maníaco-depressiva.
Enfim, os ditos traumas e ‘abalos morais’ da experiência do sujeito foram para o ralo em
nome da causalidade degenerativa e hereditária, na leitura das perturbações mentais.
Desde os anos 1950 as tradições fenomenológica, existencial e psicanalítica retomaram
a dita causalidade centrada na história do sujeito, a ela conferindo toda a ênfase em
oposição à estrita causalidade biológica, e essas mesmas concepções foram varridas do
discurso psiquiátrico desde os anos 1980. Com isso, a enfermidade bipolar passou novamente
a ocupar o lugar da histeria, fundando-se agora em uma leitura pelo viés das neurociências.
Enfim, como dizia Marx (1967), a história se repete, não mais como tragédia, mas agora
como farsa.
Esta foi, enfim, a cena constituinte da psicose maníaco-depressiva no Brasil.

NOTAS
1
No campo psiquiátrico, essa realização ficou restrita ao empreendimento de Bayle, que no início da
década de 1920 estabeleceu a articulação causal entre a paralisia geral progressiva e a lesão anatômica
cerebral (Birman, 1978).
2
Nesta e nas demais citações de textos em outros idiomas, a tradução é livre.

v.17, supl.2, dez. 2010, p.345-371 369


Joel Birman

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