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Entivações provisórias

Technical Report · October 2002


DOI: 10.13140/RG.2.1.4386.3526

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1 author:

Jorge de Brito
University of Lisbon
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INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO

MESTRADO AVANÇADO EM CONSTRUÇÃO E


REABILITAÇÃO

CADEIRA DE CONSTRUÇÃO DE EDIFÍCIOS

ENTIVAÇÕES PROVISÓRIAS

Jorge de Brito

Outubro de 2002
ÍNDICE

1. Introdução 1
2. Soluções de entivação 3
2.1. Considerações gerais 3
2.2. Condicionantes à execução de escavações e taludes 3
2.3. Legislação aplicável 5
2.4. Exigências funcionais 6
2.5. Comportamento estrutural 7
2.6. Equipamento utilizado na escavação 8
2.6.1. Equipamento manual 8
2.6.2. Equipamento industrial 9
2.7. Tipos de entivação 9
3. Entivações tradicionais 11
3.1. Execução de valas 13
3.1.1. Processo construtivo 14
3.1.2. Drenagem 16
3.1.3. Conhecimento do terreno e condicionantes 17
3.1.4. Valas em terreno coerente 20
3.1.5. Valas em terreno pouco coerente 23
3.1.6. Escavação por degraus ou telescópica 26
3.1.7. Escavação entivada com betão 27
3.2. Escavação a céu aberto para construção de caves 29
4. Entivações tradicionais melhoradas 31
4.1. Entivação com módulos de escoramento 31
4.2. Estacas de calha 34
5. Entivações não-tradicionais 35
5.1. Sistemas por projecção de argamassas / betões 35
5.2. Sistemas para obras em rios e lagos 36
5.2.1. Mangas de borracha 37
5.2.2. Tela impermeável 37
6. Conclusões finais 39
7. Bibliografia 41
Instituto Superior Técnico Cadeira de Construção de Edifícios
Entivações provisórias por Jorge de Brito

ENTIVAÇÕES PROVISÓRIAS

1. INTRODUÇÃO

Associadas às construções enterradas e às escavações respectivas, existem técnicas de


entivação / contenção de taludes de terras (verticais ou inclinados) de carácter eminentemente
provisório, cuja função se esgota após a execução dos elementos estruturais enterrados, pelo
que são removidas e o terreno é aterrado.

Trata-se de soluções necessariamente baratas, já que o período de rentabilização é muito curto


(da ordem dos poucos meses), pelo que a sua sustentação é conseguida por encastramento de
elementos verticais no solo, por escoramento ao solo com elementos oblíquos ou por
escoramentos de uma das faces entivadas directamente para a outra., mas sem recurso por
exemplo a ancoragens.

Outra característica comum às soluções tratadas neste documento é o nível relativamente


baixo dos esforços introduzidos pelas terras, de onde resulta que a profundidade e/ou a
largura das escavações não será em geral muito grande.

Embora se pudesse designar, à primeira vista, estas soluções como tradicionais, não se tomou
essa opção já que às soluções tradicionais (das quais as mais clássicas são exclusivamente em
madeira) se adicionaram algumas outras em que as técnicas construtivas e/ou os materiais são
distintamente não tradicionais.

Este documento pretende servir de apoio aos alunos do Mestrado Avançado em Construção e
Reabilitação do Instituto Superior Técnico na Cadeira de Construção de Edifícios. Foca parte
do capítulo dessa mesma cadeira dedicado às contenções periféricas, neste caso não
integradas em qualquer estrutura definitiva.

O documento aborda fundamentalmente a descrição das soluções existentes e dos processos


construtivos associados às entivações de carácter provisório, excluindo no entanto soluções

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Entivações provisórias por Jorge de Brito

como as cortinas de estacas-prancha e as paredes de Berlim, por se encontrarem tratadas


noutros documentos [1] [2].

A elaboração deste documento não resultou de investigação específica sobre o tema efectuada
pelo seu Autor mas sim de alguma pesquisa bibliográfica e de monografias escritas realizadas
por alunos do Instituto Superior Técnico, tanto no Mestrado em Construção como na
Licenciatura em Engenharia Civil. Assim, muita da informação nele contida poderá também
ser encontrada nos seguintes documentos, que não serão citados ao longo do texto:

 Jorge Sequeira, “Entivações Provisórias”, Monografia apresentada no Mestrado em


Construção, Instituto Superior Técnico, 2001, Lisboa;
 Rui Arco, Sílvia Mendes, Bruno Semedo e Ana Mendonça, “Soluções de Entivação /
Contenção Provisória”, Monografia apresentada na Licenciatura em Engenharia Civil,
Instituto Superior Técnico, 2000, Lisboa.

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Entivações provisórias por Jorge de Brito

2. SOLUÇÕES DE ENTIVAÇÃO

2.1. CONSIDERAÇÕES GERAIS

Uma entivação é uma contenção provisória que suporta os impulsos do terreno durante a
escavação, impedindo o desmoronamento do mesmo. Pode ser realizada em madeira, aço ou
betão.

A execução de trabalhos no subsolo que abrangem um âmbito tão vasto como a instalação de
infra-estruturas, algumas fundações, contenção de taludes e execução de trincheiras e túneis
exige o recurso a soluções de contenção que, não sendo integradas com carácter definitivo na
obra a executar, são imprescindíveis quer por motivos de exequibilidade e facilidade de
execução da obra em si, quer por motivos de segurança dos seus executantes. De facto, são
frequentes os acidentes de relativa gravidade que ocorrem nas obras de contenção. Isso
acontece, ou por má resolução dos problemas que aparecem aquando da execução da
contenção, ou por inadequação da estrutura de entivação ao terreno contido e/ou à
profundidade da escavação, ou ainda por falta da própria estrutura de contenção.

A prática de utilização destes meios estende-se bastante para além do meio da construção
civil, abrangendo as áreas da arqueologia, indústria mineira, aterros sanitários, etc.. Sendo a
sua utilidade normalmente apenas temporária, poucos desenvolvimentos houve na sua prática
à excepção das tentativas de acelerar o seu tempo de execução e de tornar reutilizável o
material nelas empregue.

2.2. CONDICIONANTES À EXECUÇÃO DE ESCAVAÇÕES E TALUDES

A execução da maioria das entivações provisórias, particularmente as tradicionais, não é


objecto de um projecto ou cálculo. No entanto, apenas a dimensão deste tipo de obra difere,
na maioria dos casos, de outro tipo de obras de contenção para as quais o cálculo da estrutura
é inquestionável. Assiste-se sistematicamente a atrasos em obras, acréscimo de custos na sua
execução por aluimento de terras ou mesmo acidentes que poderiam ser contornados e
evitados caso não tivesse existido negligência na execução de entivações, algumas vezes por

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simples descuido e ignorância, outras pela tentativa de poupar nos custos de execução da
obra.

Qualquer vala ou escavação superior a 1.50 m de profundidade deverá ser entivada


independentemente do tipo de terreno. A partir de 3.00 m de profundidade de escavação, a
entivação deveria ser objecto de um projecto de entivação com base em ensaios feitos in-situ
que caracterizem convenientemente o solo em que esta vai ser executado [3]. Os ensaios
poderão ser do tipo SPT ou DPL.

Será fulcral para determinar o processo a adoptar na entivação a informação sobre a coesão do
terreno e o nível freático. De igual forma, é determinante prever o tempo de serviço da
entivação, pois ainda que provisória, os trabalhos a realizar podem ter prazos de realização
previstos que oscilarão desde meros dias, para a reparação ou colocação de uma conduta (Fig.
1, à esquerda), até vários meses, para a execução de alguma estrutura no subsolo (Fig. 1, à
direita), sendo que os prazos alargados passarão com toda a probabilidade para além da
estação seca colocando as águas provenientes das chuvas novas solicitações à entivação
adoptada, que em tempo útil deverão ter sido tidas em conta.

Fig. 1 - Entivação de curta duração (vala para instalação de conduta, à esquerda) e de média
duração (galeria para nascença das abóbadas do túnel do metropolitano, à direita [4])

Outro factor de condicionamento das entivações poderão ser os obstáculos que, ou à margem
das valas ou mesmo dentro da escavação, terão de ser mantidos na sua posição e em serviço

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durante o período da obra (Fig. 2), sendo as cargas e impulsos nesta zona da entivação
condicionadas pelo peso e fundação destes mesmos objectos. Estes obstáculos deverão ser
objecto em si de um processo de entivação que garanta a sua integridade até ao final dos
trabalhos e assegure a segurança dos trabalhadores durante esse mesmo período. De igual
modo se deverá proceder em escavações perto de edifícios com fundações pouco profundas,
onde seja previsível a redução do bolbo de pressão das suas fundações por remoção do terreno
adjacente às mesmas. Note-se que nestes últimos casos existem processos de entivação, tanto
provisórios como definitivos, que provavelmente serão uma alternativa mais segura tanto do
ponto de vista construtivo como para protecção dos próprios objectos construídos e de mais
fácil execução recorrendo por vezes a menor mão-de-obra como são o caso dos muros de
Berlim ou o recurso a microestacas para fundar edificações contíguas a níveis inferiores ao da
escavação.

Fig. 2 - À esquerda, caixa de electricidade na via pública e, à direita [4], monumento aos
combatentes da guerra de 1914-18

Deve ser também tida em conta, antes de se iniciarem os trabalhos, a possibilidade de


interferência da envolvente na estabilidade das paredes da escavação. Caso exista na
proximidade uma fonte de vibrações como sejam estradas ou caminhos-de-ferro, ou se
preveja a necessidade de utilizar equipamento que, pelo seu peso ou modo de funcionamento,
possa perturbar o equilíbrio do solo, devem ser tomadas medidas cautelares para assegurar a
resistência dos elementos do escoramento.

2.3. LEGISLAÇÃO APLICÁVEL

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O elevado número de acidentes originados por falta ou deficiente entivação levou à criação de
um conjunto de normas denominadas por “Normas de Projectos de Escavação e Contenção
Periférica”. Estas normas visam apoiar a elaboração do Projecto de Escavação e Contenção
Periférica. O novo regime referente ao licenciamento de obras particulares (Decreto-Lei
250/94 de 15 Outubro) estabelece a obrigatoriedade de entrega nas Câmaras Municipais deste
projecto. As normas encontram-se divididas em quatro capítulos:

1. Introdução;
2. Documentação de ordem legal / administrativa;
3. Memória descritiva e justificativa - dimensionamento;
4. Peças desenhadas.

Estas normas ainda não se encontram na sua fase definitiva, apesar de a Câmara Municipal de
Lisboa recomendar o seu cumprimento. Usualmente, respeitam-se os seguintes pressupostos:

 em escavações até 1.20 m, pode dispensar-se entivação consoante a consistência do


terreno;
 em solos de rocha ou argila dura, pode prescindir-se de entivação;
 em caso algum, devem ser deixadas as terras retiradas do interior da escavação na
periferia desta, pois vão sobrecarregar o solo e, consequentemente, aumentar os impulsos
sobre a contenção;
 para impedir que os materiais ou objectos caiam dentro da escavação, pondo em risco os
trabalhadores, deve-se colocar um resguardo a limitar o bordo superior do talude.

Para garantir a segurança das estruturas de entivação, estas devem ser inspeccionadas
exaustivamente com frequência.

2.4. EXIGÊNCIAS FUNCIONAIS

Na execução duma estrutura para contenção duma escavação, é preciso assegurar a


estabilidade da estrutura de suporte e do maciço envolvente e acautelar que os deslocamentos

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associados à escavação não ocasionam danos nas estruturas e infraestruturas próximas. No


Quadro 1, são apresentadas as principais exigências funcionais relativas às contenções
periféricas.

Quadro 1 - Exigências funcionais das contenções periféricas


EXIGÊNCIAS DE Exigências estruturais Segurança à rotura perante Rotura do solo
SEGURANÇA solicitações regulamentares
Rotura do fundo da
escavação

Fluidificação do fundo
da escavação

Segurança à deformação perante


solicitações regulamentares

Segurança à fendilhação perante


solicitações regulamentares

EXIGÊNCIAS Exigências de geometria Adequação à duração da escavação


DIMENSIONAIS e material constituinte
Adequação à profundidade da escavação

Adequação à geologia do terreno

Existência de construções vizinhas

Presença de nível freático

Outros

EXIGÊNCIAS DE Exigências de
DURABILIDADE resistência durante o
período da escavação

Exigências de
resistência aos produtos
químicos do terreno

EXIGÊNCIAS DE
ECONOMIA

2.5. COMPORTAMENTO ESTRUTURAL

As solicitações a ter em conta no dimensionamento de uma estrutura de suporte são:

 impulsos activo e passivo;

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 interacção solo-estrutura;
 pressão hidrostática;
 acção climática;
 cargas e sobrecargas;
 reacção de tirantes ou escoramentos, caso existam;
 acção sísmica.

As estruturas de contenção dividem-se em dois grandes grupos. As estruturas rígidas têm


movimentos de corpo rígido. As estruturas flexíveis apresentam deformabilidade suficiente
para que as pressões do terreno que suporta se alterem em distribuição e grandeza devido a
essa deformabilidade. Nas estruturas flexíveis, ao se considerar a hipótese de corpo rígido,
obtêm-se uns esforços na estrutura superiores aos reais. Assim, a solução tornar-se-ia inviável
a níveis estrutural e económico. As estruturas de contenção provisória usuais têm um
comportamento de estrutura flexível.

Em geral, as escavações que recorrem a estruturas de contenção são calculadas com


diagramas de pressão. Estes correspondem às envolventes dos esforços que se exercem nos
diferentes apoios durante as sucessivas fases de execução e não definem os impulsos reais,
mas sim os equivalentes para cálculo.

2.6. EQUIPAMENTO UTILIZADO NA ESCAVAÇÃO

O equipamento utilizado na escavação pode, para além do equipamento manual, compreender


equipamento industrializado como retro-escavadoras e giratórias que dispõem de uma série de
acessórios que permitem, além de abrir valas de diversas larguras, também o desmonte de
zonas de rocha através de martelos hidráulicos. Existem ainda equipamentos de escavação
contínua e drag-lines que permitem a escavação de maiores extensões em menor tempo.

2.6.1. Equipamento manual

Este tipo de equipamento (Fig. 3, à esquerda), apesar de menos utilizado hoje em dia,
continua a ser necessário para a limpeza do funda da vala ou escavar no sopé de painéis, etc..

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Às desvantagens de geralmente representarem processos morosos para alguns tipos de


trabalho têm como contrapartida o seu fácil manuseamento e a capacidade de serem utilizados
em espaços muito restritos. Na execução de entivações tradicionais, são também necessárias
ferramentas de carpintaria: serrotes, martelo, goivas, etc..

2.6.2. Equipamento industrial

Procurando tirar partido das capacidades das máquinas, existem diversos modelos de
máquinas de escavação (Fig. 3, ao centro), aos quais podem ser adaptados martelos
hidráulicos, garfos para elevação de materiais, etc., tornando este tipo de máquina muito
versátil e possibilitando a sua utilização na maioria das operações de entivações por painéis
modulares. A possibilidade de se utilizar apenas um tipo de máquina representa uma maior
economia de recursos.

Para além deste tipo de máquinas, foram desenvolvidos para as entivações acessórios de
cravação hidráulicos ou pneumáticos que possibilitam, sobretudo na cravação de pranchas
(Fig. 3, à direita), um muito maior rendimento na execução de cortinas. Existem para
trabalhos específicos máquinas especializadas, como os assentadores de tubos ou os abre-
valas de tapete contínuo que, em casos onde se preveja a possibilidade da sua aplicação
extensiva, podem diminuir substancialmente os tempos de execução.

Fig. 3 - Da esquerda para a direita, picareta, escavadora de rastos, drag-line, scrapper,


assentador de tubos e martelo de estacas hidráulico

2.7. TIPOS DE ENTIVAÇÃO

As entivações podem distinguir-se pelo seu método construtivo ou pela função que

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desempenham (Quadro 2).

Quadro 2 - Tipos de entivação provisória


Tipo Método construtivo Função desempenhada
Entivações Elementos em contacto com o terreno em Escavações de valas ou galerias a
tradicionais madeira escorados com elementos do céu aberto (em desuso) de
mesmo material carácter sempre temporário
Entivações Elementos em contacto com o terreno em Escavações de valas ou galerias a
tradicionais madeira, metálicos ou outros, pré- céu aberto de carácter
melhoradas fabricados por elementos ou todo o maioritariamente temporário
sistema com escoras metálicas de fixação ainda com possibilidade de
mecânica ou hidráulica utilização perene
Entivações Elementos pré-fabricados ou pré-doseados Escavações em vala, talude ou
não- constituídos por polímeros, argamassas parede vertical, de serviço
tradicionais hidráulicas ou sintéticas e sistemas para temporário ou de utilização
construção de obras públicas de aplicação definitiva por incorporação na
específica. (estacas-prancha, muros de estrutura ou adjuvados por outras
Berlim, cambotas, caixões, etc.) técnicas de entivação
Substituição Métodos de furação ou escavação dirigida
da entivação e manobrada do exterior que prescindem
por outro de entivação temporária ou executam em
método simultâneo a entivação definitiva

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3. ENTIVAÇÕES TRADICIONAIS

Utilizadas nas intervenções mais simples, onde é necessária uma solução expedita, não se
pretendendo atingir profundidades muito elevadas, as entivações tradicionais eram
originalmente constituídas exclusivamente por elementos de madeira, recorrendo-se
posteriormente a elementos metálicos (sobretudo no escoramento) e ao betão.

Em contacto directo com o terreno, colocam-se tábuas de solho, com 20 a 65 mm de


espessura, colocadas na horizontal (Fig. 4) ou na vertical (Fig. 5) consoante o método de
entivação adoptado em função das características do terreno. As tábuas (de madeira sem nós
por estes se constituírem em pontos de maior fragilidade) são por sua vez sustidas por
esquadros, também de madeira, cujo afastamento é determinado pela coesão do solo tendo
estes a função de distribuir as cargas e impulsos pelas escoras. Os esquadros são normalmente
constituídos por barrotes de secção não inferior a 22 x 8 cm e compõem-se de elementos
verticais de reforço das pranchas e de travamentos horizontais, sendo estes preferencialmente
elementos de secção circular o que torna a sua rigidez independente da geometria da secção e
do seu posicionamento na vala (note-se que estão sujeitos a cargas aleatórias para além
daquelas directamente dependentes do terreno como sejam o apoio de trabalhadores e de
algum material de trabalho).

Em função do tipo de rotura previsível para o terreno, assim deverão as pranchas ser cravadas
abaixo do nível da soleira da escavação para evitar um potencial deslizamento circular.
Alguma da tecnologia utilizada nas entivações tradicionais é semelhante, em termos de
princípio de funcionamento, à empregue actualmente nas entivações por estacas-prancha
metálicas, tendo este método tradicional sido praticamente substituído por esta última solução
visto existirem actualmente métodos de cravação (hidráulicos ou por percussão) que
aumentam significativamente o rendimento do trabalho com estacas-prancha, além de existir
uma maior garantia de estanqueidade e de reutilização dos elementos de entivação na
utilização de pranchas metálicas do que aquela que poderá ser atribuída aos painéis de
madeira. As estacas-prancha tendem no entanto a ser cravadas até um estrato impermeável
para se formar uma ensecadeira caso que nem sempre é pretendido com as entivações de
madeira, estando estas bastante mais limitadas no seu comprimento.

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Plinto

Berma
Tábua
Escora

Montante
Cunha

Fig. 4 - Esquema geral de vala entivada com tábuas na horizontal

Escora

Longarina

Prancha Calço

Suporte

Cunha
Pendural

Fig. 5 - Esquema geral de vala entivada com tábuas na vertical ( entivação fechada)

Quando a entivação é feita de forma em que os elementos em contacto com o terreno sejam
dispostos na horizontal (Fig. 4), estes são normalmente designados por tábuas e apresentam
uma espessura de 20 a 50 mm. Neste caso, os elementos de reforço dispostos na vertical
imediatamente em contacto com as tábuas designam-se por montantes, sendo denominados
escoras os elementos horizontais que ligam painéis de paredes opostas.

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Já no método de entivação em que os elementos em contacto com o terreno sejam dispostos


na posição vertical (Fig. 5), o que regra geral costuma ser adoptado em terrenos menos
coesivos ou com presença de água, estes elementos podem atingir espessuras maiores, até 65
mm, e designam-se por pranchas, sendo que apresentam regularmente um maior comprimento
que o das tábuas anteriormente referidas podendo atingir os 6 m. Neste caso, adopta-se a
nomenclatura de quadros para o conjunto de elementos de travamento os quais consistem em
prumos longitudinais dispostos na horizontal e espaçados em altura designados por
longarinas, sendo os elementos horizontais que ligam uma longarina à longarina oposta
igualmente designados por escoras (estas são dimensionadas em função do seu comprimento -
Fig. 6 - sendo fundamental a garantia de que as cargas são transmitidas das longarinas às
escoras com uma excentricidade limitada). Os quadros são unidos de um nível para o outro
através de suportes de grande secção que terão a função de resistir à compressão e por
pendurais, que terão a função de resistir à compressão, estes formados por tirantes metálicos.

Fig. 6 [3] - Ábaco para dimensionamento das escoras

3.1. EXECUÇÃO DE VALAS

As escavações entivadas deverão ser adaptadas ao terreno em que se irão executar, sendo por
isso necessário mobilizar tantos mais meios e reforçar tanto mais a entivação quanto menos

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coesivo for o terreno e quanto mais alto for o nível freático. Em função do terreno, optar-se-á
por uma entivação “aberta” (Fig. 7, à esquerda e ao centro) ou “fechada” (Fig. 7, à direita)
[5]: a primeira, em que as pranchas ou tábuas de solho estão espaçadas umas das outras
tirando partido do efeito de arco para absorção dos impulsos e deixando partes da parede da
escavação por recobrir; a segunda, com tábuas ou pranchas contíguas umas às outras
formando um painel de calafetagem se existir um nível freático elevado relativamente à
soleira da escavação (entivação fechada).

Fig. 7 - Entivação aberta com tábuas na vertical (à esquerda), entivação aberta com tábuas na
horizontal (ao centro) [3] e entivação fechada com tábuas na vertical (à direita) [3]

No caso de certeza de percolação de água, utilizar-se-ão painéis de pranchas de madeira


macheadas cravadas na vertical, à semelhança das estacas-prancha, cuja assemblagem se
torna num auxiliar à impermeabilização da parede de contenção, evitando o arraste de finos
do terreno exterior à escavação. Existe ainda uma hipótese intermédia, se bem que bastante
artesanal, que consiste em empregar uma técnica de calafetagem semelhante à praticada na
construção naval de madeira, cravando estopa entre os topos das tábuas contíguas. Esta
técnica é porém morosa, logo dispendiosa, e caiu em desuso.

3.1.1. Processo construtivo

A execução das valas entivadas inicia-se com a limpeza do terreno superficial. Deve ser

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deixada em torno da boca da vala uma zona de berma de, pelo menos, 0.40 m para circulação
do pessoal. Prossegue-se com a escavação da vala até ao limite que o terreno permitir, 0.80 a
1.20 m no máximo e colocam-se as tábuas, cada uma delas com um quadro nos extremos, não
excedendo as consolas a dimensão de 0.25 m.

As escoras são colocadas entre os montantes dos quadros e apertadas com cunhas. Havendo
necessidade, prossegue-se a escavação abaixo da zona entivada, repetindo-se o processo. As
tábuas devem ser encastradas no terreno abaixo do nível da soleira entre 12 e 30 cm e a
soleira devidamente compactada para execução dos trabalhos.

Para além do processo construtivo, há que garantir no interior da vala espaço suficiente para a
laboração (como se verá mais adiante, em função do tipo de terreno e do espaço existente para
efectuar os trabalhos, pode optar-se por um tipo de solução construtiva). Para tal, é usual
adoptarem-se as seguintes medidas empíricas:

 até 1 m de profundidade -----;


 até 1.50 m de profundidade 0.65 m de largura;
 até 2.00 m de profundidade 0.75 m de largura;
 até 3.00 m de profundidade 0.80 m de largura;
 até 4.00 m de profundidade 0.90 m de largura;
 mais de 4.00 m de profundidade 1.00 m de largura.

De seguida, enumeram-se algumas tipologias que poderão ser adoptadas para a execução de
valas (Fig. 8) [5]:

 talude natural - pode ser adoptado quando exista espaço suficiente à superfície para
formar a pendente adequada; existe sempre o perigo de deslizamentos pontuais e
arrastamento de terras devido à água da chuva;
 talude entivado - é normalmente adoptado para escavações rápidas com alguma
profundidade; o terreno deve apresentar boa coesão, uma vez que é normalmente
executado em vala aberta; utiliza-se também em escavações de rocha onde exista perigo
de desmoronamentos pontuais;

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 vala entivada e talude - utiliza-se para evitar escoramentos cuidados e em grande altura
quando existe espaço à superfície; o aumento de coesão do terreno em profundidade pode
também justificar a adopção desta técnica;
 vala entivada - processo utilizado com diversas variantes a determinar em função do
terreno; é a forma mais comum de execução de valas, sobretudo em zonas urbanas onde o
tráfego automóvel e o limite de superfície a ocupar determinam a necessidade de
entivação mesmo em solos coerentes.

Banqueta

Terreno em Entivação
talude natural

Fig. 8 [5] - Da esquerda para a direita: talude natural, talude entivado, vala entivada e talude e
vala entivada

3.1.2. Drenagem

Caso exista água no interior da escavação, esta deverá ser drenada por bombagem para uma
zona onde não interfira com os trabalhos ou para o colector de águas pluviais. Será escavado
um poço colector na soleira da vala que acumulará a água do interior da vala para a sua
bombagem posterior.

Se houver percolação de água do terreno envolvente para o interior da zona confinada, a


drenagem e rebaixamento do nível freático devem ser feitos pelo exterior, de forma a evitar o
arrasto dos finos do terreno e consequente descompressão do mesmo. Para tal, poderá
preencher-se os poços de drenagem com material filtrante, enrocamento e brita de
granulometria e compacidade adequadas à retenção dos finos.

A drenagem poderá recorrer também à tecnologia de agulhas filtrantes (Fig. 9) visto esta
evitar o arrasto de material de menor dimensão. Nestes casos, a opção de fazer a drenagem
pelo exterior da escavação conseguindo rebaixar o nível freático para uma cota inferior à

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soleira da escavação é sempre mais segura do que a drenagem pelo interior da escavação,
além de não interferir com a execução da obra.

Fig. 9 [4] - Drenagem por agulhas filtrantes

Uma eventual descompressão do terreno terá efeitos negativos tanto a nível das construções
envolventes como da própria entivação que depende dos impulsos do terreno para o seu
funcionamento.

3.1.3. Conhecimento do terreno e condicionantes

A condicionante primordial para a escolha do tipo de entivação a utilizar é, sem dúvida, o


terreno e o estado em que se encontra. A opção de organizar uma campanha geotécnica para a
adopção de uma técnica de entivação é, na maioria dos casos de entivações provisórias, uma
medida demasiado onerosa para o tipo de intervenção a realizar, salvo em obras de grande
dimensão.

No entanto, bastariam medidas como a consulta de uma carta geológica da zona, a


comparação de plantas topográficas de diversas idades, que permitiriam identificar zonas de
aterro recente, e a observação e recolha de informação em obras vizinhas ou mesmo a

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abertura de um poço de observação no local, para, por si só, contribuir para uma concepção
genérica das características do terreno.

Como medidas auxiliares e consoante a dimensão da obra, adoptar-se-iam, métodos de ensaio


em quantidade e tipo necessários à determinação das características do terreno. Estes ensaios
poderiam ser maioritariamente feitos in-situ recorrendo a métodos usuais com o ensaio de
penetrómetro dinâmico normalizado (SPT), o ensaio de penetrómetro leve (DPL) ou o
pressiómetro que poderão fornecer dados indicativos da coesão e capacidade de carga do
terreno, existindo dados estatísticos sobre estes ensaios para poder extrapolar outras
propriedades do solo a partir dos resultados obtidos. Qualquer dos ensaios realizados deverá
ser objecto de um relatório escrupuloso pois a forma como o teste foi efectuado poderá
revelar mudanças de estratos ou a maior ou menor alteração do terreno das amostras
recolhidas.

O conhecimento da disposição dos estratos do terreno pode indicar a existência de planos de


escorregamento que potenciarão a rotura do solo na envolvente da escavação. Para a
determinação da carga hidrostática no terreno, pode recorrer-se ao ensaio com piezómetro,
ainda que este seja de grande sensibilidade e difícil de efectuar. Convém no entanto, para os
trabalhos de maior duração, conhecer a variação sazonal do nível freático de forma a proceder
preventivamente no dimensionamento da entivação (a existência de água pode aumentar em 2
a 2.5 vezes o impulso activo do terreno). Para as restantes propriedades do solo, existe a
possibilidade de recorrer a ensaios laboratoriais de amostras do terreno recolhidas a diversas
profundidades ou, em casos mais simples, recorrer a alguns procedimentos elementares em
obra que fornecerão dados genéricos sobre as propriedades dos constituintes do terreno bem
como de algumas características mecânicas dos diversos estratos (classificação genérica do
tipo de grão, existência de material orgânico, etc.).

A escavação de valas ou entivações de pouca profundidade raramente passa por este tipo de
caracterização do terreno, sendo no entanto aconselhável adoptar, dos ensaios referidos, os
mais elementares para obstar a perturbações maiores no decurso dos trabalhos. De forma
genérica, poder-se-á ter uma ideia da coesão dos terrenos a partir de dados empíricos que se
encontram difundidos em tabelas. Como se ilustra no Quadro 3, é possível ter uma ideia

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global de um tipo de entivação provável para um determinado tipo de solo a partir do ângulo
que forma com a horizontal quando disposto em talude natural. No entanto, não serão de
negligenciar, para o caso das entivações, os factores do peso específico do terreno, índice de
compressão e ângulo de atrito interno para os quais se poderão adoptar valores conservativos
na ausência de dados mais precisos sobre o local. Desta forma, pela deposição da terra
durante a escavação é possível ir aferindo o tipo de terreno que se apresenta verificando a
inclinação do talude que é possível formar.

Quadro 3 [5] - Tabela de inclinações de taludes naturais em desaterro

A possibilidade de escavação em talude estável representa também a capacidade de


sustentação do solo durante escavações de curta duração. A humidade do solo é capaz de
conferir alguma sustentabilidade até às areias nestas condições. No entanto, partindo do
princípio de que a maioria das obras tem a duração suficiente para que se dê alguma secagem
do terreno, é usual utilizarem-se inclinações da ordem de 1 (vertical) para 0.5 (horizontal) até
1 para 1.5. Nalgumas argilas rijas e em terreno seco (ainda que momentaneamente), é possível
o corte de taludes estáveis quase na vertical. No entanto, esta circunstância é radicalmente
alterada na presença de água da chuva, pelo que é sempre necessário prever medidas de
drenagem da água através do desvio desta da crista do talude por realização de caleiras de
drenagem ou impermeabilização desta zona.

Assim se depreende que a contenção será tanto mais necessária e mais fechada consoante os
terrenos regridam em coesão das rochas para as areias secas, salvaguardando no entanto que
as argilas e siltes perdem a sua coesão em presença de água pelo que, sempre que seja

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provável água acima do limite de saturação do terreno, será aconselhável a sua entivação
sobretudo quando os trabalhos durem mais do que alguns dias e sempre que o risco abranja,
para além de danos materiais, a integridade física dos trabalhadores.

3.1.4. Valas em terreno coerente

O método descrito de seguida pressupõe um terreno bastante coerente cujo conjunto se


considere em regime elástico e sem presença de água significativa. Nesta categoria, poder-se-
ão incluir as argilas rijas e os solos rochosos desde que não muito alterados tanto por via
geológica como por via da escavação. Nestes casos, optar-se-á pelo processo de vala aberta.
Este tipo de vala é constituído por pranchas espaçadas descarregando em montantes e escoras
conforme a Fig. 10.

Impulsos
do terreno

Entiva-
ção

Vala

Fig. 10 - Vala aberta escorada com montantes e escoras (metálicos, à esquerda, e de madeira,
ao centro); à direita, esquema de descarga do terreno nas zonas entivadas

Em terreno igualmente firme e coesivo mas onde exista possibilidade de desmoronamentos


por fissuração da rocha ou, em casos de argilas ou siltes, a presença eventual de água da
chuva ou vibrações previsíveis que possam provocar desmoronamentos ou aluimentos de terra
para o interior da vala, adopta-se normalmente o sistema de vala aberta com tábuas na
horizontal, onde se tira igualmente partido do efeito de arco no terreno (Fig. 10, à direita) mas
em menor escala.

Inicia-se a limpeza do terreno procedendo à escavação sem entivar até cerca de 0.80 a 1.20 m
de profundidade (Fig. 11). Colocam-se as tábuas ou pranchas na horizontal (em alternativa,

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podem ser montados no estaleiro painéis de pranchas adjacentes, ligadas por duas vigas
colocadas no sentido perpendicular - Fig. 12) não devendo as pranchas exceder os 2.00 m de
comprimento. O limite superior das tábuas ou do painel deve formar um rodapé de 0.15 m
para evitar que caiam objectos ou material solto do lado exterior para o interior da vala. Nas
extremidades destas, colocam-se os montantes (barrotes de secção de 22 x 8 cm) apertados
com escoras (  20 cm) por intermédio de cunhas. Estas escoras podem ser de madeira (Fig.
13) ou metálicas (Fig. 14, à esquerda), inclinadas se a vala for larga (Fig. 14, à direita), pré-
esforçadas com macacos hidráulicos (Fig. 15, à esquerda) ou não, ou substituídas por sistemas
rudimentares de ancoragens provisórias (Fig. 15, à direita). A escavação, se tiver maior
profundidade, será continuada pelo mesmo processo depois de entivado o primeiro nível
(Figs. 11 e 16).

Fig. 11 - Escavação do primeiro nível da vala

Fig. 12 - Colocação da entivação (propriamente dita) do primeiro nível da vala

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Fig. 13 [3] - Sequência em corte da execução de uma entivação em bom terreno (o alçado
corresponde à Fig. 7, ao centro)

Fig. 14 - Escoramento metálico da entivação: horizontal (à esquerda) e inclinado (à direita)

Fig. 15 - Fixação da entivação com escoramento activo (à esquerda) ou ancoragem ao solo (à


direita)

Os topos poderão ser entivados de forma semelhante, se necessário, utilizando esquadros de


descarga até ao montante mais próximo, ou poder-se-á inclusive prescindir destes, se o
terreno o permitir.

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Fig. 16 - Escavação em dois níveis

3.1.5. Valas em terreno pouco coerente

Adoptam-se os processos de entivação descritos de seguida em todo o terreno pouco coerente


(areia, argilas moles e siltes) e/ou com elevado nível freático. Ambos os processos consistem
na formação de uma cortina fechada em contacto com o terreno formada por pranchas na
vertical.

O primeiro dos processos descritos só é aplicável a escavações pouco profundas e consiste no


seguinte:

 são cravadas pranchas de madeira na vertical antes de se proceder à escavação (Fig. 17, à
esquerda); a dimensão das pranchas deve ser superior à altura de escavação pretendida,
visto que existe a necessidade de se garantir um apoio na face inferior das pranchas
(ficha);
 antes de se iniciar a escavação, deve ser colocada uma viga de coroamento a ligar as
pranchas (Fig. 17, à direita); estas devem ser escoradas ou ancoradas (Fig. 17, à direita)
sobre a superfície do terreno;
 inicia-se a escavação; realça-se que esta nunca deve ultrapassar o nível definido como
necessário para o encastramento das pranchas no solo (Fig. 18, à esquerda); à medida que
se vai escavando, pode proceder-se a novos níveis de escoramento, devendo ser colocados
elementos horizontais para distribuir as cargas pelas várias pranchas da entivação.

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Fig. 17 - À esquerda, cravação das pranchas e, à direita, ancoragem das mesmas

O segundo processo, aplicável em escavações profundas, inicia-se de igual forma com a


remoção da camada superficial do terreno. Escava-se sem entivar até a uma profundidade de
cerca de 0.40 a 0.45 m, profundidade máxima admissível para que não haja
desmoronamentos, colocando-se então o primeiro quadro horizontal. Os quadros são
elementos compostos de vigas de madeira horizontais encostadas às paredes da escavação,
sejam eles de secção rectangular 8 x 22 cm ou de secção circular (  20 cm). Estas
longarinas são por sua vez contraventadas com escoras transversais de dimensões idênticas.
As prumadas de escoramento estarão separadas de 1.50 a 2.0 m para permitir a laboração
entre estas no interior da vala, admitindo-se consolas até ao final de cada longarina de no
máximo 0.50 m. Nos quadros, há que resolver de forma adequada o encontro entre as escoras
e as longarinas particularmente se ambas tiverem secção circular (Fig. 18, à direita).

Superfície de contacto

Longarina

Escora

Longarina

Escora

Longarina

Escora
Fig. 18 - À esquerda, escavação até ao sopé e, à direita, contacto entre as escoras e as longarinas [5]

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Em seguida, são colocadas as pranchas na vertical. Estas são constituídas por tábuas de solho
de 25 mm até, excepcionalmente, 65 mm. As pranchas são escavadas no seu sopé, uma a uma
até atingirem a sua posição definitiva no interior da escavação. Esta escavação é feita por
troços de 0.15 a 0.20 m. A cravação das pranchas inicia-se do eixo das longarinas para os
extremos. A escavação é feita de forma a alargar ligeiramente a vala à medida que se progride
em profundidade para permitir a cravação do segundo quadro e do segundo nível de tábuas
sem diminuir a secção da vala (Fig. 20, à esquerda e ao centro).

Fig. 19 - À esquerda, entivação do 1º nível e início do 2º nível e, à direita, escavação dos


restantes níveis

Acima do sopé das tábuas, é colocado o segundo quadro que se aperta contra estas por meio
de calços e cunhas. O segundo quadro é fixo ao primeiro através de suportes, barrotes, que
trabalhem à compressão e por meio de pendurais, podendo estes ser elementos metálicos, para
que apresentem um bom comportamento à tracção. Os calços e cunhas formarão uma camada
dupla com espessura e largura correspondentes às pranchas de entivação. Introduzem-se de
seguida as pranchas sob pressão uma a uma entre as cunhas e as pranchas do primeiro nível e
procede-se à sua cravação e escavação de forma semelhante às tábuas do primeiro nível (Fig.
19, à esquerda). De forma idêntica se procederá nos níveis subsequentes (Fig. 19, à direita),

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podendo a escavação do último nível de pranchas ser feita com menor inclinação e a cravação
do quadro junto à soleira da vala contra as pranchas ser feita apenas com cunhas (Fig. 20, à
direita).

Fig. 20 [3] - Vala aberta com pranchas na vertical: à esquerda e centro, cravação das pranchas
de entivação; à direita, colocação do último quadro

Neste sistema, existe ainda a possibilidade de executar os painéis de pranchas de entivação


com um sistema macheado funcionando como uma cortina impermeável (Fig. 21). Este
método funciona como estacas-prancha de madeira, actualmente substituídas pelas estacas-
prancha metálicas.

3.1.6. Escavação por degraus ou telescópica

Existindo área suficiente à superfície e para escavações de grandes profundidades ou com


alterações sensíveis no tipo de terreno em profundidade, pressupondo um melhor terreno à
medida que se desce na escavação, pode executar-se a entivação por degraus ou telescópica
(Fig. 22). Este processo é em tudo semelhante ao da escavação com pranchas verticais,
diminuindo a secção transversal da vala de nível para nível e sendo a diferença entre pranchas
colmatada com tábuas ou barrotes. Para vãos de grandes dimensões, recorre-se algumas vezes

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a elementos de contraventamento na diagonal formando asnas que, para além do escoramento


lateral, servirão também para a elevação e suspensão do material necessário.

Fig. 21 - À esquerda, vala com pranchas macheadas / estacas-prancha de madeira [4] e, à


direita, pormenor do anel de cravação para protecção da cabeça da prancha [6]

Fig. 22 [3] - Esquema de vala com escavação e entivação telescópica

3.1.7. Escavação entivada com betão

Neste processo, a entivação das paredes de escavação é conseguida através de módulos de


betão armado betonados no local, à medida que a escavação avança. Estes são escorados entre
si por elementos (escoras) metálicos, de madeira ou de betão. A betonagem dos módulos

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contra as paredes de escavação possibilita que não haja vazios e juntas por onde o terreno
possa expandir-se.

Este tipo de entivação (Fig. 23), também designado por “tipo chinês”, é possível apenas em
terrenos não fluentes em que a escavação se mantenha aberta sem aluimentos durante cada
nível de betonagem o tempo suficiente para que se complete o processo (colocação da
armadura, cofragem e betonagem dos módulos). Este método apresenta algumas semelhanças
aos muros de Munique, não existindo no entanto a necessidade de ancoragens, uma vez que as
valas equilibram os impulsos do terreno de uma parede para a outra mantendo-se, as escoras
sempre comprimidas.

Fig. 23 [3] - Vala com escoramento faseado com elementos laterais em betão

Procede-se à escavação até ao primeiro nível de betonagem que poderá variar, consoante o
terreno, mau e bom respectivamente, de 0.30 a 3.00 m de altura. De seguida, é colocada a
armadura e a cofragem com o escoramento necessário. Os primeiros módulos são betonados
contra o terreno, um em cada parede de escavação. Logo após o betão ter ganho presa e
adquirido resistência suficiente, deve-se efectuar o escoramento entre módulos, comprimindo-

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os com o auxílio de cunhas, calços, macacos ou parafusos. As escoras são ligadas por
suportes verticais de madeira ou metálicos. O fundo pode encher-se de areia até à altura
necessária ao empalme da armadura no nível de betonagem seguinte.

Se a secção horizontal da escavação for circular, pode prescindir-se de escoramento e partir


do princípio que a parede da escavação redistribui os impulsos e funciona na totalidade à
compressão por efeito de arco. Nestes casos, pode também optar-se pela utilização de
manilhas de betão pré-fabricadas colocadas na horizontal cravadas progressivamente de cima
para baixo escavando no sopé da manilha. A segunda manilha é sobreposta sobre a primeira e
vai colmatando a escavação. É necessário escorar temporariamente as manilhas pelo lado
inferior para que se proceda à remoção do terreno sob o seu sopé. Este escoramento poderá
ser feito com a cravação de estacas curtas de madeira ou varões de ferro nas paredes da
escavação.

As valas podem ainda ser utilizadas para a execução de elementos definitivos da estrutura
(Fig. 24) mantendo o terreno envolvente caso haja a possibilidade do levantamento do fundo
da escavação ou caso haja grande pressão hidrostática. Nestes casos, manter-se-á a área de
escavação por desaterrar até o peso da estrutura atingir o equilíbrio necessário ao fundo da
escavação.

Fig. 24 [3] - Escoramento provisório para execução de fundações

3.2. ESCAVAÇÃO A CÉU ABERTO PARA A CONSTRUÇÃO DE CAVES

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Nos casos em que haja que proceder à escavação e desaterro para a execução de caves em
edifícios, existe a possibilidade, desde que ponderados os riscos face a técnicas que oferecem
maiores garantias de evitar a descompressão do terreno como as paredes de Berlim, de
Munique ou moldadas, de recorrer a sistemas de entivação tradicional. Estas situações limitar-
se-ão a caves de pouca profundidade (Fig. 25, à esquerda) e em zonas onde, quer por presença
de edifícios contíguos, quer por proximidade de zonas de trânsito automóvel que induzem
vibrações significativas no terreno, a segurança dos trabalhos e da envolvente não seja
comprometida.

A escavação executa-se por socalcos (Fig. 25, à direita) deixando-se no fundo da escavação
banquetas para o escoramento das paredes da escavação ou iniciando os trabalhos de
fundação para que estas sirvam de apoio às escoras desde que as fundações ofereçam, por
peso próprio, na área de distribuição de cargas e encastramento no terreno, a resistência
necessária ao apoio das escoras das paredes da escavação (Fig. 25, à direita). A escavação
executa-se seguidamente por níveis cofrados tanto no tardoz como no interior da parede a
betonar sendo deixadas bitolas no interior das cofragens constituídas por tarugos de madeira
ou barrotes devendo, à semelhança das valas entivadas por betonagem, ser garantido o
comprimento de empalme nos varões da armadura das paredes.

Fig. 25 [3] - Esquemas possíveis de contenção de taludes para execução de caves ou


fundações

O escoramento será desactivado à medida que a estrutura de contenção for ligada à


superstrutura do edifício e possa tirar partido do funcionamento de diafragma dos elementos
rígidos horizontais para equilibrar os impulsos do terreno.

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4. ENTIVAÇÕES TRADICIONAIS MELHORADAS

Para a execução de valas e trabalhos rápidos de execução de infra-estruturas, foram


desenvolvidos painéis de instalação rápida para a execução de entivações. Estes painéis são
constituídos por materiais que vão desde a madeira, menos frequente, a painéis de lamelado
de madeira, aço ou mesmo duralumínio.

A relativa leveza destes painéis, face aos meios que são necessários para operar este tipo de
equipamento (ex.: retro-escavadora), torna a sua utilização em obra bastante simples, sendo
reduzido o número de trabalhadores necessários à sua instalação (algumas vezes, o próprio
manobrador da escavadora é suficiente para a instalação de um painel ou caixa, não sendo
geralmente necessário utilizar mais do que dois trabalhadores em cada operação). Este tipo de
painéis vem equipado com escoras metálicas, a maioria delas de funcionamento hidráulico.
Outras vantagens deste tipo de equipamento incluem a possibilidade de regular a altura do
trabalho dentro da vala e a possibilidade de ser reutilizado muitas vezes, aumentando a sua
vida útil e tornando-o económico a longo prazo.

Para a execução de entivações com este tipo de equipamento, é necessário que o terreno tenha
alguma capacidade de autosustentação temporária que permita manter a vala aberta até à
introdução dos painéis no interior da escavação, sendo ainda possível, se bem que menos
rentável, ir retirando terreno sob o painel e escorar acompanhando o avanço da escavação.
Neste tipo de processo construtivo semi-industrializado, recorrer-se-á a outro tipo de
entivação e de equipamento se as características do terreno se afastarem demasiado das
indicadas para rentabilizar o processo construtivo.

4.1. ENTIVAÇÃO COM MÓDULOS DE ESCORAMENTO

O processo inicia-se com a abertura da vala com equipamento industrial, seguindo-se a


limpeza do material do fundo da vala e compactação da soleira. O processo de limpeza do
fundo é geralmente feito manualmente, recorrendo-se para a compactação a equipamento
hidráulico ou pneumático ou, em casos de menor exigência, esta poderá ser feita com o tardoz
do balde de escavação de uma retro-escavadora ou giratória.

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Os painéis são colocados no interior da vala, utilizando-se normalmente o braço de uma retro-
escavadora como equipamento de elevação, e acciona-se o mecanismo de escoramento
hidráulico comprimindo os dois painéis laterais simultaneamente contra o terreno. Após
remoção dos painéis, deve proceder-se ao aterro imediato, com material adequado ao tipo de
obra em execução, e compactação posterior que evite a descompressão do terreno adjacente
após a obra e um abaixamento do nível da zona aterrada.

Existem os seguintes tipos de entivações por módulos:

 painéis de madeira ou lamelado de madeira com escoramento metálico podendo este


ser de aperto por roscagem, fixação mecânica ou hidráulica - as escoras apoiam em
montantes de calhas metálicas (Fig. 26, à esquerda) onde podem ser posicionadas a
qualquer altura da entivação sendo deslocadas, durante o progresso da escavação, para as
posições onde melhor podem resistir aos impulsos do terreno; sendo estes módulos um
sistema rígido, não dependem exclusivamente da compressão do terreno para os manter
em funcionamento, pelo que haverá menor preocupação em manter o terreno
permanentemente compactado e sem vazios no tardoz dos painéis; este sistema existe em
várias dimensões de largura de painel, dos quais os menores poderão ser manuseados por
equipamento de menor porte sendo que os maiores, necessitando de equipamento de
maior dimensão, resistem também a maiores impulsos; alguns tipos de painel têm
encaixes nos topos superior e inferior para sobreposição de módulos permitindo executar
escavações de maior profundidade;
 painéis de duralumínio com escoramento metálico (Fig. 26, ao centro);
 caixas acopláveis metálicas escoradas (Fig. 26, à direita) - o sistema é colocado já
montado no interior do troço de escavação onde se pretende trabalhar, sendo apenas
necessário ajustar o comprimento das escoras à largura da vala; está desde logo garantida
a segurança no interior da vala; se for necessária uma altura de escavação superior às
dimensões da caixa existente, é possível ligar vários módulos até se obter as dimensões
desejadas (Fig. 27, à direita); para tal, os painéis (Fig. 27, à esquerda) possuem calhas
para facilitar a montagem; à medida que os trabalhos avançam, vai-se deslizando a
“caixa” com o auxílio da retro-escavadora (Fig. 28); isto permite que os operários

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trabalhem no troço seguinte da conduta, enquanto se continua a abertura da vala a jusante


e se aterra a vala a montante;
 montantes de alumínio e escoras metálicas (Fig. 10, à esquerda) - para trabalhos
ligeiros de valas abertas em que o terreno se auto-sustenta no espaçamento livre entre
montantes; o sistema alia a facilidade de instalação dos montantes ao facto de serem
elementos extremamente ligeiros, manuseáveis sem auxílio de máquinas e apresenta
versatilidade de instalação semelhante às entivações com elementos de madeira.

Fig. 26 - À esquerda, sistema de painéis de madeira com escoramento hidráulico, ao centro,


entivação modular em duralumínio e, à direita, caixas acopláveis metálicas pré-fabricadas

Fig. 27 - Painéis e sistema em “caixa” com vários níveis

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Fig. 28 - Esquema da movimentação dos painéis metálicos

4.2. ESTACAS DE CALHA

Este tipo de entivação é constituído por um sistema de estacas de secção transversal especial
que permite o encaixe e deslizamento de painéis de lamelado de madeira ou metálicos entre
os seus banzos, à semelhança dos muros de Berlim, possuindo ainda um sistema de calha
onde são acopláveis escoras de travamento posicionáveis a diversas alturas (Fig. 29).

Fig. 29 - Esquema e exemplo de aplicação de sistema de estacas de calha

Os trabalhos iniciam-se com a cravação das estacas que são prontamente travadas com um
primeiro nível de escoras, sendo introduzidos os painéis e outros níveis de escoras à medida
que se rebaixam as escoras do primeiro nível e a escavação progride em profundidade.

Este sistema serve também como gabarito a estacas-prancha metálicas mediante a colocação
de elementos horizontais junto ao banzo exterior e interior das estacas unindo cada estaca à
vizinha. Podem assim criar-se sistemas mistos de estacas-prancha e painéis existindo também
estacas de canto que permitem formar entivações fechadas para a formação de ensecadeiras
ou até serem utilizadas como cofragem se bem que esta última utilização possa comprometer

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em larga medida o número de reutilizações de cada elemento. Existem elementos de encaixe


entre os topos dos painéis para melhorar a estanqueidade que poderão ser utilizados quando o
nível freático seja elevado.

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5. ENTIVAÇÕES NÃO-TRADICIONAIS

Existem, para além dos sistemas de entivação tradicional ou tradicional melhorada, outros que
têm vindo a ser desenvolvidos para a solução de entivações de carácter provisório. Muitas das
soluções tiveram como objectivo solucionar problemas de carácter específico de determinadas
actividades podendo, no entanto, em determinados casos ser adaptadas aos trabalhos de
construção civil como é o caso de produtos de entivação desenvolvidos para a indústria
mineira ou para obras hidráulicas.

Em seguida, enumeram-se alguns exemplos existentes de tecnologias não tradicionais de


contenção provisória.

5.1. SISTEMAS POR PROJECÇÃO DE ARGAMASSAS / BETÕES

O sistema mais difundido de contenção por projecção de argamassas é certamente o da


gunitagem por projecção de argamassas hidráulicas (e brita), geralmente à base de cimento,
que podem ser aplicadas por via húmida ou seca, consoante a mistura da argamassa com a
água seja feita antes do equipamento ou junto da mangueira de projecção. São geralmente
aplicadas em conjunto com malhas de aço electrossoldadas que lhes conferem alguma
capacidade de resistência à tracção e reduzem a fendilhação durante a cura da argamassa.
Podem ser utilizadas em conjunto com pregagens (tratadas em documento autónomo [7]) ou
sistemas de escoramento exterior.

Para além desta solução, foram desenvolvidas para a indústria mineira argamassas sintéticas à
base de poliuretano (Fig. 30, à esquerda) que, a uma cura mais rápida, aliam uma maior
capacidade resistente tanto à tracção como à compressão, conseguindo-se assim o mesmo
grau de segurança com menor espessura de material.

Estas argamassas são, comparativamente ao betão projectado, mais fluidas no momento da


aplicação e a sua menor viscosidade permite-lhes colmatar fissuras de menores dimensões
(até 2 mícrones). São concebidas para serem impermeáveis à água e a gases (característica
importante na indústria mineira devido às fugas de radão) e a sua reacção não produz gases

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tóxicos. São geralmente aplicadas simples podendo ser complementadas por um escoramento,
como as cambotas nos túneis das minas. Ainda que não difundidas na construção civil, a sua
aplicação poderia ser adoptada para estabilizações de emergência ou temporárias de taludes,
dependendo no entanto a sua maior difusão da sua competitividade económica face às
argamassas de projecção tradicionais.

Outro tipo de aplicação que se tem vindo a adoptar na instalação de infra-estruturas em meios
urbanos é a furação dirigida por meios mecânicos ou por jacto de água (Fig. 30, à direita).
Este processo, para além de diminuir os riscos para os operários, não necessita de grande
espaço à superfície (apenas o poço de ataque e zonas de emendas e inflexões), pelo que tem
vindo a ser adoptado para instalações em meios urbanos.

Fig. 30 - À esquerda, projecção de argamassa sintética e, à direita, furação dirigida

5.2. SISTEMAS PARA OBRAS EM RIOS E LAGOS

A necessidade de formar ensecadeiras em zonas com constante presença de água para a


execução de obras a seco é, na maioria das obras de pequena e média envergadura,
solucionada com recurso a entivações de estacas prancha, cravadas até atingirem um estrato
impermeável sendo a água bombeada para o exterior da zona confinada após a conclusão da
entivação.

Existem no entanto alguns processos que, tirando partido do próprio peso da água, recorrem a
telas ou mangas de borracha para excluir a água da zona de trabalho.

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5.2.1. Mangas de borracha

Este processo recorre a mangas de borracha (Fig. 31) que se preenchem com água por
bombagem após a sua colocação na posição de serviço. O diafragma interior garante que a
manga não rola sobre si própria por acção dos impulsos das correntes uma vez que seria
necessário elevar toda a massa de água existente num dos compartimentos da manga por cima
da água contida no outro compartimento (Fig. 32). Este processo é adequado a lagos com
pouca profundidade e rio e ribeiras de corrente fraca. A sua capacidade de serviço é calculada
para cargas estáticas sendo os equivalentes para profundidade e velocidade de corrente
fornecidos pelo fabricante.

Fig. 31 - Manga de borracha para contenção de lençóis de água

Tubo exterior de alta


resistência Tubos interiores

PRESSÃO
ATRITO

Tubo para instalação Água MASSA DE ÁGUA


e transporte ATRITO ATRITO

Fig. 32 - Constituição e princípio de funcionamento das mangas de borracha

5.2.2. Tela impermeável

Este sistema consiste na montagem de cavaletes sobre o leito do rio ou lago (Fig. 34)
formando uma cortina de exclusão sobre a qual é aplicada uma tela impermeável em PVC
(Fig. 33). O próprio peso da água mantém a tela na sua posição. A água é bombeada para o
exterior da zona de obra depois de terminada a cortina.

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ÁGUA RETIDA ATÉ 2,90 M DE PROFUNDIDADE


CAVALETE
METÁLICO TELA IMPERMEÁVEL

ÁREA DE TRABALHO
DESOBSTRUÍDA
LEITO
IMPERMEÁVEL
FOLHA
CARGA SELANTE

TERRENO NATURAL

INSTALAÇÃO DOS CAVALETES POSICIONAMENTO DA TELA RETIRADA DA ÁGUA POR BOMBAGEM

Fig. 33 - Escoramento provisório para execução de fundações

Fig. 34 - Ensecadeira em tela execução de fundações em leito de rio

Ambos estes métodos têm a vantagem de serem de execução rápida e flexível, não recorrendo
a equipamento pesado (em particular o método das mangas de borracha). No entanto, o facto
de não atingirem nenhum estrato impermeável obriga a controlar o nível de água no interior
da obra através de bombagem uma vez que esta tenderá a atravessar a soleira da escavação
por pressão hidrostática. Será por isso necessário prever alguma redundância no sistema de
bombagem e garantir o fornecimento ininterrupto de energia a estes sistemas para protecção
da obra, trabalhadores e equipamento aí instalados.

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6. CONCLUSÕES FINAIS

Apesar de os sistemas de entivação tradicionais tenderem a ser substituídos pelos seus


equivalentes mais recentes de elementos pré-fabricados, existe ainda uma variedade de
situações onde a flexibilidade do trabalho da madeira proporciona a estes sistemas uma
capacidade de adaptação a situações singulares dificilmente igualável pelos sistemas
modulares (Fig. 35). Deve por isso deixar-se a salvaguarda de que a diminuição destes
sistemas irá tão-somente até ao ponto em que seja possível a aplicação rápida e sistemática
dos elementos modulares restando às entivações tradicionais o nicho dos pontos singulares
nas obras.

Fig. 35 [8] - Túnel entivado com um sistema de tábuas de madeira e perfis metálicos tubulares

Em jeito de conclusão apresenta-se, no Quadro 4, uma comparação de diversos tipos de


entivação, desde as entivações tradicionais (e tradicionais melhoradas) ao jet grouting,
passando pelas paredes de Berlim, as estacas-prancha metálicas e as cortinas pregadas
(pregagens).

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Quadro 4 - Comparação entre vários métodos de contenção provisória


Capaci- Veloci- Período Custo
Tipo de Estanquei- Reutili- Versatili-
Tipos de entivação dade dade de de Curto Longo
terreno dade zação dade
resistente execução utilização prazo prazo
Horizontal Com coesão  Média Médio Médio  Média €€
Entivação Madeira
Vertical Sem coesão  Média Lento Médio  Média €€
tradicional
Metálica Todos  Elevada Rápido Curto  Baixa €€€ €
Com alguma
Paredes de Berlim  Elevada Lento Elevado  Média €€ €€
coesão
Estacas prancha Excepto rochas  Elevada Médio Médio  Elevada €€€ €
Com alguma
Cortinas pregadas  Baixa Rápido Elevado  Elevada € -
coesão
Jet Grouting Excepto rochas  Elevada Rápido Elevado  Elevada €€€ -

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7. BIBLIOGRAFIA

Nota: as referências bibliográficas indicadas de seguida não incluem as referidas no capítulo


U U

de introdução a este documento, assim como um número não especificado de sites da Internet
e catálogos comerciais.

[1] Paulo, Pedro; Brito, Jorge de, “Cortinas de Estacas-Prancha”, IST, Lisboa, 2001.
[2] Brito, Jorge de, “Paredes Tipo Berlim”, IST, Lisboa, 2001.
[3] Coelho, Silvério, “Tecnologia de Fundações”, Edições E.P.G.E., Lisboa, 1996.
[4] Brazão Farinha, J. S., “Obras de Construção do Metropolitano de Lisboa. Caderno n.º 5
- 1955-1993”, Lisboa.
[5] Baud, Gérard, “La Construcción de Edificios”.
[6] Della Nina, Eduardo, “Construção de Redes Urbanas de Esgotos”.
[7] Brito, Jorge de, “Pregagens”, IST, Lisboa, 2001.
[8] Coppel, T.; Coulon, J., “Échafaudages Tubulaires”.

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