Vous êtes sur la page 1sur 8

22/02/2018 #Ocupapolítica , entre esquerdistas e pragmáticos

Search this site

Sobre Equipe Tradutores Rede de Autores Ajude a sustentar Contato Anuncie

Blogs Canal Outras Palavras

#Ocupapolítica , entre esquerdistas e As novas ameaças dos planos de saúde |


Outra Saúde
pragmáticos
POR MOYSÉS PINTO NETO
– ON 15/02/2018
CATEGORIAS: BRASIL, CAPA, MUNDO

Corrupção: quem o Judiciário protege

Reforma Tributária, chave para outro projeto


Ação das Confluências Municipalistas, da Espanha. Conhecidas por eleger Ada Colau prefeita de de país | ABERTURA
Barcelona, elas veem-se — à diferença do Podemos — como descentralizadas e transversais à política Outras Mídias
institucional. Sob risco de
conformismo
radical
Teriam sentido, no Brasil, um Podemos ou um Jeremy Corbyn? Duas O filósofo sul
coreano Byung-
sensibilidades políticas que refletem sobre o tema encontraram-se no Chul Han,
estudioso do
final de 2017, em BH. Haverá tensão produtiva entre elas?
hiperconsumismo no contexto
neoliberal, alerta para o estatuto da
sociedade do controle, em que […]
Por Moysés Pinto Neto Quando o MST
aposta na
Agroecologia Nossa livraria online
Em dezembro do ano passado, ocorreu o primeiro encontro do Junto à
fronteira com o
#Ocupapolítica, uma frente de movimentos que pretendem lançar Uruguai, quase
candidaturas para o parlamento nesse ano. O movimento é composto 2 mil famílias
de antigos
dos mais variados e heterogêneos segmentos de vários Estados, tais sem-terra cultivam sementes e
mudas crioulas. Cruzando uma […]
como lideranças indígenas, feministas, movimento negro, partidos de Oito livros
contra a crença
esquerda, coletivos autônomos, intelectuais, evangélicos progressistas, no capitalismo
eterno
empreendedores da economia criativa, hackers, movimentos por Por que a
moradia e outros direitos, ocupações urbanas, ecologistas, entre outros. Economia do
Conhecimento
O paradigma são os movimentos #Muitas, de Belo Horizonte, e a dispensa o
capital. Como surgem redes,
Bancada Ativista, de São Paulo, que conseguiram bons resultados nas moedas e bancos alternativos. A
resposta brutal (e […]
eleições municipais de 2016 — numa conjuntura ainda mais
Blog da Redação
desfavorável. Corrupção: quem o Judiciário
protege
Temer, Serra, Aécio, Rodrigo
Não vou repetir aqui longamente os mesmos argumentos que o texto Maia… Um ano depois da Lista da
Odebrecht, nenhuma investigação
de Rodrigo Nunes, que também estava no encontro, trouxe muito bem. contra políticos conservadores
Em síntese, pode-se dizer que as demandas que se aglutinaram em avançou. Casos começam […]
Quatro hipóteses sobre o novo
2013 — embora reflexo de uma fermentação mais longa  – permanecem Datafolha
Lula cresce: intocado em meio ao
em aberto e sem qualquer comunicação institucional e acabam bombardeio, encarnou o anti-golpe.

https://outraspalavras.net/brasil/ocupapolitica%E2%80%8A-duas-logicas-em-tensao-produtiva/ 1/8
22/02/2018 #Ocupapolítica , entre esquerdistas e pragmáticos
Vem aí uma nova disputa pelo
soterradas por outras perspectivas, em especial aquelas patrocinadas “centro”; Huck pode voltar. […]
pelo dinheiro e pelo poder político. O caráter destituinte de 2013 é rio com cidade ao fundo
Alckmin ataca santuário ecológico
transformado para uma modalidade constituinte. Esse texto é uma de São Paulo
longa nota de rodapé, portanto, que apresenta quase os mesmos Transposição das águas do rio O Minotauro Global
Itapanhaú, em Bertioga, representa A verdadeira origem da crise
dilemas do anterior. a luta entre dois modelos de nanceira e o futuro da
desenvolvimento e relação com o economia global
[…]
*** Autor: Yanis Varoufakis
Por R$ 50,00 (PRÉ-VENDA)

Um dos diagnósticos mais comuns na esquerda mundial é que, diante Compre


da crise atual — com uma economia mundial estagnada, ausência de
um panorama de futuro e ascensão do fascismo em diversos países — é O Bem Viver
Uma oportunidade para imaginar
hora de olharmos para nós mesmos e fazer um autocrítica. É bom
outros mundos
lembrar que a década de 2000 foi um ciclo de vitórias dos
Autor: Alberto Acosta
progressismos pelo mundo inteiro: de Lula, Evo, Corrêa e os Kirchner Por R$ 30,00
no Sul até Hollande, Zapatero, Obama até o final do ciclo com o
Compre
Podemos, na Espanha (que não conseguiu se eleger, mas representa
uma força política concreta) e o Syriza, na Grécia. Tudo isso foi
sucedido por um momento de contestação mundial com as lutas que Aos nossos amigos
Crise e insurreição
começam na Primavera Árabe, passam pela Europa e chegam às
Américas e ganham diferentes pautas e formas: contra a “austeridade”, Autor: Comite Invisivel
De R$ 32,00 por R$ 27,00
pela intensificação da democracia, por direitos sociais (transporte e
educação, por exemplo), contra a corrupção, pelos direitos indígenas,
Compre
entre outras.

Caberia observar o período 2000–15, portanto, como um ciclo de


expectativas frustradas. Não foi apenas no Brasil ou na Bolívia que os
governos Lula, Dilma e Evo frustraram suas bases eleitorais,
promovendo arranjos com o establishment e reprimindo movimentos
sociais. Pense-se na gigantesca energia que Espanha e França, por
exemplo, tiveram que mover para eleger governantes progressistas
logo após o acontecimento de atentados terroristas, quando tudo
indicava o crescimento do medo e do acirramento. Ou ainda o que
significou a vitória de um negro com “Hussein” e “Obama” no nome
em um país com fortes traços racistas e francamente obcecado com a
segurança desde 2001, e também contra um establishment que preferia,
à época, Hillary Clinton como candidata. Trata-se, portanto, de um
fenômeno de esgotamento geral de um certo discurso e uma certa
chantagem que consistia em se afirmar como resposta ao pior e único
possível. O “realismo capitalista” de que fala Mark Fischer se
introduziu no progressismo de modo cada vez mais conformista,
colocando a pecha de sonhador em qualquer um que ouse discordar
dos rumos tecnocráticos que vinham sendo seguidos. No Brasil, a
então chefe da Casa Civil Gleise Hoffman certa vez catalogou essas
pessoas como “minorias com projetos ideológicos irreais”.

Mas essa autocrítica não atinge só os anódinos progressismos


governistas. Os movimentos também partiram para a autocrítica.
Assim, o discurso do horizontalismo absoluto, a recusa de qualquer
conexão institucional e a política pré-figurativa passaram a ser vistas
com ressalvas. É verdade que, em termos teóricos (no próximo texto,
pensando no caso brasileiro, explico o porquê dessa ressalva), ninguém
hoje propõe simplesmente retornar às velhas estéticas e formas de
organização, defendendo explicitamente os discursos esquerdistas
contra o imperialismo e os capitalistas proferidos por um líder
carismático em carros de som e sob aplausos da massa revolucionária.
Há uma lição a ser aprendida quanto ao conexionismo, as
possibilidades mais plásticas de organização, as potencialidades
abertas a partir de uma rede mais distribuída.

https://outraspalavras.net/brasil/ocupapolitica%E2%80%8A-duas-logicas-em-tensao-produtiva/ 2/8
22/02/2018 #Ocupapolítica , entre esquerdistas e pragmáticos

No entanto, as derrotas sucessivas em eleições importantes para


posições consideradas há pouco tempo como esdrúxulas, como a saída
da Inglaterra da União Europeia (Brexit), a eleição de Donald Trump
nos EUA, a ida de Marine Le Pen ao segundo turno na França contra
um candidato liberal, o crescimento da extrema direita na Alemanha e
no Leste Europeu em geral colocaram todos em alerta. Onde estamos
errando?

***

O primeiro ponto parece próximo de um consenso. Apesar de terem


transformado a paisagem política, os movimentos do ciclo de 2011–14,
ao preferirem manter-se longe da política institucional, provocaram um
descrédito na democracia representativa que abalroou o establishment
tecnocrático de centro-direita e centro-esquerda, provocando uma
extremação do cenário político. Hoje, as esperanças do sistema de se
reerguer são Angela Merkel, Emmanuel Macron e Justin Trudeau — os
dois últimos podendo ser enquadrados no que Nancy Fraser chama de
“neoliberalismo progressista”, por posições que afinam o capitalismo
contemporâneo com as demandas de direitos humanos e
reconhecimento social (no caso de Merkel, pela posição adotada em
relação aos refugiados). Porém, em geral, as eleições têm tendido aos
extremos, e quem mais tem se beneficiado desse movimento são
segmentos de extrema direita que combinam elementos do fascismo,
conservadorismo e adotam uma estratégia de guerrilha virtual na web.
Nos EUA e na Europa, esses movimentos tentam se conectar à classe
trabalhadora fazendo confundir elites econômicas e culturais; no
Brasil, dada nossa conjuntura, eles se inclinam na direção do
liberalismo econômico como único pilar liberal do seu discurso.

Assim, seria necessário de certo modo ocupar as instituições, fazendo


com que transformações estruturais possam acontecer e dando vazão
às demandas de baixo que ficam sufocadas pelo ruído da esfera pública
ainda controlada pelas forças políticas conservadoras e quiçá, hoje em
dia, fascistas. Para isso, contrariamente à forma mais expressivista dos
movimentos, seria necessário pensar em propostas, hipóteses e
soluções para problemas práticos que foram deixados de lado nesse
caminho. E é aqui que começa um novo problema. Em outros termos,
a autocrítica tem que ser mesmo severa: o que, afinal, queremos? Será
que nossa falta de humildade em explicar nossas propostas — não raro
remetendo a livros ou tachando o adversário de tolo por perguntar — 
não é apenas um mecanismo de defesa pelo qual nos esquivamos da
difícil assunção de que simplesmente não sabemos o que fazer? Não
foi também esse mecanismo que acabou fazendo com que os governos
progressistas, ao fim e ao cabo, se tornassem mais e mais
conservadores?

***

Compartilhando do mesmo ponto de partida, esses movimentos


rapidamente parecem caminhar em direções paralelas. Há, entre eles,
um duplo diagnóstico: o diagnóstico esquerdista e o diagnóstico
pragmático.

Para o diagnóstico esquerdista, faltou politização aos governos


progressistas. O problema teria sido a conciliação de classes, que levou
os progressismos a contradições insuportáveis e tornou o capitalismo
uma realidade inevitável. A solução seria um recomeço no qual as
ideias não seriam mais traídas. Retomar o trabalho de base, a educação
libertadora, fazendo com que o povo se torne sujeito da sua própria
emancipação e possa, com isso, confrontar o capital. Incorporar as

https://outraspalavras.net/brasil/ocupapolitica%E2%80%8A-duas-logicas-em-tensao-produtiva/ 3/8
22/02/2018 #Ocupapolítica , entre esquerdistas e pragmáticos

inovações dos movimentos sociais sem perder de vista o programa


socialista: a tomada dos meios de produção, a retomada da indústria
nacional, o pleno emprego e a emancipação do trabalhador, um
verdadeiro projeto de país para um futuro em que o trabalho retome
seu caráter livre, como Marx defendia n’O Capital. Esse processo
envolve a reconquista da hegemonia, articulação e organização dos
movimentos, valorização dos partidos como instrumentos políticos e
confrontação com o capitalismo neoliberal. Um Estado forte e capaz
de assumir o leme de um projeto nacional.

De outro lado, temos o diagnóstico pragmático. Para este, é preciso


abandonar o imaginário tradicional da esquerda e perceber onde estão
as potências na sociedade atual para a transformação social.
Fenômenos como o empreendedorismo popular e as culturas indígenas
poderiam servir de referência para irrigar uma aliança política
heterogênea, capaz de hibridizar esses fenômenos numa pragmática
barroca, usando a imagem de Veronica Gago. Os movimentos do
“micro” podem produzir transformações em grande escala sem a
necessidade de um senso de totalidade histórica. Em contraponto ao
que o esquerdismo vê como uma captura da iniciativa popular pelo
empreendedorismo, o pragmatismo tenta visualizar que
transbordamentos esse fenômeno pode produzir sobre o capitalismo tal
como configurado hoje em dia. De que modo é possível organizar
segmentos heterogêneos numa composição em pontilhado, isto é, com
espaços vazios, sem a necessidade de fusão em uma nova totalidade.
Para essa perspectiva, os partidos são organizações contingentes que
hoje são passagem obrigatória para ingressar na política institucional.
Por isso, são simpáticos a estratégias heterodoxas como mandatos
coletivos e candidaturas independentes. (Rodrigo apontou esses
aspectos como “transbordamento” e “promiscuidade virtuosa” no seu
texto, embora sem separar tão rigidamente quanto eu do esquerdismo).

Essas duas leituras não vivem em paz. Os esquerdistas podem olhar


para os pragmáticos como neoliberais, considerando-os como uma
reedição da malfadada terceira via na sua superação da polarização. Os
pragmáticos, por outro lado, visualizam os esquerdistas como
incrustados na própria bolha, apaixonados pelas próprias ideias e
incapazes de dialogar com a maioria dos anseios da população
“despolitizada”. Os esquerdistas veem os pragmáticos como
excessivamente conciliadores, desmobilizadores, aptos a aceitar a
despolitização e privados de uma crítica radical da sociedade. Os
pragmáticos, por outro lado, percebem os esquerdistas como idealistas,
sectários, defensores de noções que não conseguem atingir o seu
próprio público-alvo. Os esquerdistas veem os pragmáticos como lisos,
dispersos, sem foco, negociadores. Os pragmáticos veem os
esquerdistas como duros, dogmáticos, irrealistas e sem
responsabilidade. Os pragmáticos percebem esquerdistas como
obcecados com a “resistência” e por isso donos de um discurso
repetido ad nauseam a cada derrota; os esquerdistas, por outro lado,
percebem os pragmáticos como excessivamente viscosos, cooptados,
mais preocupados com a vitória do que com a defesa de princípios e o
projeto revolucionário a longo prazo.

Evidentemente essa classificação é composta de “tipos ideais”, o que


significa dizer que não há um abismo entre eles. O Podemos, por
exemplo, tenta recolher um pouco de cada uma. Por um lado, mantém-
se como uma “crítica da crítica” que faz girar o movimento dialético
do horizontalismo para defender novamente lideranças fortes, uma
estratégia partidária, entre outros. Por outro, tenta fugir da “esquerda”
e pretende-se “populista”, no sentido de adequar vocabulário e
estratégia voltados para a “gente comum”, e não a militância. Na
https://outraspalavras.net/brasil/ocupapolitica%E2%80%8A-duas-logicas-em-tensao-produtiva/ 4/8
22/02/2018 #Ocupapolítica , entre esquerdistas e pragmáticos

Inglaterra e nos EUA, os apoiadores jovens de Jeremy Corbyn e


Bernie Sanders, respectivamente, reivindicam novamente o socialismo
e reformas radicais, inclusive com reestatização, para efetivar direitos
sociais. As “confluências municipalistas” na Espanha, por outro lado,
utilizam as lutas cidadãs como vocabulário primordial e pretendem-se
descentralizadas, ligadas aos movimentos e transversais à política
institucional. Cada arranjo real tem uma configuração: o Podemos é
um híbrido, Corbyn/Sanders e Municipalistas estão mais próximos de
cada um dos polos.

Essas duas lógicas estiveram presentes o tempo todo — e não raro em


amigável confronto — durante o encontro do #Ocupapolítica. É fácil
reconhecer quem eram os atores de cada uma e como isso foi se
estabelecendo de modo mais e mais nítido ao longo do debate sobre as
pautas específicas.

***

Estas lógicas podem caminhar numa direção produtiva ou improdutiva.


Produtiva, se reconhecem o embate como pacífico e procuram o
diálogo camarada. Durante os últimos anos, a filosofia do diálogo — 
sob inspiração habermasiana — tem sido atacada (com justiça) como
excessivamente idealista ou conciliadora. Tudo isso é verdade, porém
é preciso perceber que o problema não é o diálogo, mas o consenso.
Quando uma teoria postula que as partes de diálogo que se coloquem
em condição de sinceridade são capazes de alcançar a verdade
mediante a troca racional de argumentos — e que portanto a tarefa de
uma política democrática é “purificar” a esfera pública para que os
interesses não invadam esse livre-arrazoado — ela está sendo tão
idealista que se torna inútil. Porém se o diálogo é o contrário da
violência, pode ser que — especialmente quando se está em um campo
onde as pessoas situam lutas em comum — ele seja a única alternativa,
e em certas circunstâncias apenas a afirmação do dissenso (do que o
filósofo Jean-François Lyotard chamava de “diferendo”)  seja viável
sem por isso despedaçar uma composição.

O risco improdutivo é sempre o da colonização: quando uma lógica


pretende absorver a outra e trabalhar numa espécie de síntese que é, a
rigor, neutralização. Exemplos abundam e o próprio PT é um deles. O
PT, embora siga uma lógica mais pragmática, absorve o discurso
radical como parte sua, colonizando-a. Com isso, a própria esquerda
radical não consegue crescer no Brasil enquanto força política
autônoma e não por acaso vive sob o dilema entre fortalecer o
antipetismo social (geralmente identificado com a direita) ou tornar-se
uma linha auxiliar ou um superego, sempre como coadjuvante que
lembra o PT de que não estaria respeitando os princípios. Da mesma
forma, também é comum em manifestações dominadas por partidos
políticos que a lógica pragmática seja colonizada pela esquerdista: é
quando se diz, “ok, essa ideia do bem viver é muito boa, mas
precisamos conversar sobre Pré-Sal e o desenvolvimento nacional, a
retomada da indústria e o projeto socialista”. Pautas dos autonomismos
são incluídas como apêndices de um projeto maior, marcado por uma

https://outraspalavras.net/brasil/ocupapolitica%E2%80%8A-duas-logicas-em-tensao-produtiva/ 5/8
22/02/2018 #Ocupapolítica , entre esquerdistas e pragmáticos

certa visão de mundo e prioritário em relação a qualquer outra


demanda.

O movimento inverso, a tensão produtiva, é descrita assim por


Rodrigo:

É evidente que transbordamento e promiscuidade


virtuosa são lados da mesma moeda: a prática da
promiscuidade tem por fim abrir os partidos e a
esquerda em geral à lógica do transbordamento; para
poder realizar-se, porém, ela depende que algo desta
abertura já exista. A tensão entre duas lógicas
diferentes aparece aqui como, mais que uma
circunstância temporária a ser resolvida futuramente,
uma questão de fundo. Embora ambas partam da ideia
de uma composição heterogênea de forças políticas e
sociais, a própria noção de partido contém a ideia de
que, pelo menos virtualmente, todas as diferenças
poderiam se resolver ao serem incluídas numa mesma
organização; por definição, cada partido é, para si
mesmo, o único, de onde sua exigência instintiva de
exclusividade. Substituir a política monogâmica por
uma outra, em que as relações são pensadas menos
como compromissos eternos e mais como
condicionadas pelo benefício mútuo (uma “política
Tinder”?), implica abandonar de vez a ideia de uma
homogeneidade a ser realizada no futuro e assumir a
heterogeneidade como um dado inescapável. Isto
significa deixar de pensar o problema da organização
como se referindo à construção de uma organização
capaz de tudo abarcar para pensá-la como sempre
necessariamente envolvendo uma ecologia
organizacional diversa na qual é preciso atuar.

Esse ponto me leva à última observação sobre a tensão produtiva, ou


promiscuidade virtuosa, que é o como isso pode se realizar e os riscos
que envolvem essa adesão institucional dos movimentos autonomistas.
Embora a estratégia do ocupar pareça ser urgente, é preciso reconhecer
seus limites e possibilidades.

O ponto fundamental para que o debate frutifique está ligado a uma


decisão epistêmica que basicamente consiste em reconhecer que não
sabemos exatamente o que fazer e experimentar também é errar. A
adoção de uma visão que deixe em aberto o futuro e saiba do seu
caráter hipotético é condição de possibilidade para a retomada do
diálogo com segmentos sociais que perderam sua confiança nas ideias
de esquerda, sobretudo no Brasil. A atitude self-righteous que
costumou caracterizar o campo ex-governista, sobretudo no período
entre 2011 a 2014, era um mecanismo de ocultação de dificuldades, de
fingir que sabíamos uma resposta (óbvia!) para uma imensa margem
de problemas complexos. Com isso, foi aos poucos tornando-se nítida
a substituição de soluções concretas por ideias abstratas, fazendo com
que o senso comum fosse migrando, aos poucos, para o liberalismo. É
verdade que o brasileiro, na sua maioria, é avesso ao neoliberalismo.
Mesmo entre os verde-e-amarelos, a defesa de serviços públicos de
qualidade é majoritária. O nicho de influência austríaca é tão pequeno,
ou menor, que o nicho de influência do marxismo ortodoxo na
sociedade brasileira. Mas a falta de respostas para problemas
econômicos palpáveis e — mais que isso — a falta de um espaço
político para segmentos da população que não se identificam com as
trajetórias típicas da esquerda (estudantes, professores, sindicalistas,
https://outraspalavras.net/brasil/ocupapolitica%E2%80%8A-duas-logicas-em-tensao-produtiva/ 6/8
22/02/2018 #Ocupapolítica , entre esquerdistas e pragmáticos

ativistas sociais, etc.) acaba jogando a comunicação no colo dos


adversários.

Na medida em que nos confrontamos com a experimentação, estamos


sujeitos a sofrer críticas por nossos erros. Para quem já tem respostas,
a aproximação do #Ocupa com evangélicos progressistas pode ser “a
porta aberta para o fundamentalismo”; com empreendedores, o “ovo
da serpente do neoliberalismo”; com alianças, “o princípio da traição”,
e assim por diante. Conhecemos bem os recursos retóricos costumeiros
que costumam orientar esse tipo de crítica, onde quase tudo que não a
própria crítica está contaminado com a sujeira do mundo. O risco,
portanto, é que o espaço de experimentação acabe controlado por uma
cartilha dogmática.

Infelizmente, nem todos os segmentos de esquerda estão abertos a uma


lógica falibilista. Para muitos, o fundacionismo é a única resposta.
Como certa revista francesa certa vez ostentou, “A teoria marxista-
leninista é todo-poderosa porque é verdadeira”. Há uma estrutura
judicativa de longo alcance que ameaça inviabilizar a errância
experimental porque se encontra convencida de que possui a verdade.
Essa é outra incompatibilidade arriscada, que ameaça colocar em
dúvida a possibilidade de os novos movimentos, uma vez ocupando as
instituições, verem-se reféns de uma lógica dogmática de pensamento
em detrimento da experimentação ativista que costuma caracterizar
essa confluência de pontos heterogêneos. Cada erro pode ser
considerado a contraprova da necessidade de experimentar. Cada
situação-limite pode ser tomada como um indicativo de que é preciso
retornar aos velhos princípios. É um fenômeno comum de ser
observado, como a cada crise desabrocham novamente os sectarismos
sempre indicando terem razão.

Resistência ou experimentalismo? Sem dúvida é possível mesclar, de


alguma forma, ambos. Não há nada que impeça o movimento
produtivo, desde que ele saiba reconhecer a heterogeneidade de
estratégias e a abertura para as diferenças. Do contrário, as forças
tendem a se colonizar ou, na pior das hipóteses, autoaniquilar. O certo
é que o movimento é positivo por enfrentar o desafio de se colocar ao
alcance das instituições e, com isso, necessariamente errar. Resta saber
se seu público inicial — a esquerda — será capaz de conviver com isso.

Sobre o mesmo tema:

15/12/2017 10/06/2017 07/02/2017 06/09/2017


Que esperar do Jeremy Corbyn Toni Negri: Oito hipóteses
#OcupaPolítica revela: outra impressões de uma sobre a nova crise
(1) esquerda é visita ao Brasil (3)
possível (4)
(0)

Bio Latest Posts

Moysés Pinto Neto


Doutor em Filosofia pela PUCRS e professor na
Universidade Luterana do Brasil. Blogueiro, escreve

https://outraspalavras.net/brasil/ocupapolitica%E2%80%8A-duas-logicas-em-tensao-produtiva/ 7/8
22/02/2018 #Ocupapolítica , entre esquerdistas e pragmáticos

normalmente sobre política, música, futebol,


filosofia e outros temas próximos.

Compartilhe:

      222

Curtir isso:

 Curtir
Seja o primeiro a curtir este post.

TAGS:#OcupaPolítica, esquerda, pós-capitalismo,


resgate da democracia, sequestro da democracia

No Comments

Start the ball rolling by posting a comment on this article!

Deixe uma resposta

Digite seu comentário aqui...

_________________________________________________________________________________________________________________________________________

Outras Palavras | Blog da Redação | Outras Mídias | Biblioteca Diplô | Ipiranga 895 | Outros Livros | Outros Quinhentos

Redação Outras Palavras


Rua Conselheiro Ramalho, 945 - Bixiga
São Paulo (SP)
Brasil
Tel: +55 11 4117 9264

About Arras WordPress Theme

https://outraspalavras.net/brasil/ocupapolitica%E2%80%8A-duas-logicas-em-tensao-produtiva/ 8/8

Vous aimerez peut-être aussi