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GUIÃO DE EDUCAÇÃO conhecimento, Género e cidadania no Ensino Secundário

3.6.

Promover o pensamento crítico


sobre as desigualdades entre
mulheres e homens

O
desenvolvimento do pensamento Também já se referiu que falar de género não
crítico em alunos e alunas durante é a mesma coisa que falar de sexo, no sentido
o período da adolescência (e não da pertença biológica de cada indivíduo a uma
só) exige, como se disse atrás neste categoria determinada pelos cromossomas
capítulo e também no anterior, que os materiais e sexuais. Também não é o mesmo que falar
as informações a trabalhar em sala de aula sejam de números/estatísticas que envolvam a
significativos para eles e para elas, que se usem representatividade de homens e de mulheres
modelos que facilitem algum tipo de identificação em diferentes esferas de ação. Os indicadores
deles e delas com situações da vida real e que os numéricos disponíveis podem ser um bom
conteúdos trabalhados partam daquilo que as e mote para iniciar os debates, mas é preciso ir
os jovens já sabem ou que surjam na sequência mais além. É preciso enquadrar devidamente
de debates anteriores que façam sentido para as temáticas e desconstruir as razões – que
para umas e para outros. Logo, os assuntos se situam a montante – pelas quais a situação
ditos ‘normais’ são certamente um bom recurso se apresenta dessa forma. Logo, uma análise
para discussões em sala de aula que possam meramente descritiva da realidade, apenas
ajudar, por um lado, a desconstruir falsas exige dos alunos e alunas uma abordagem
conceções sobre o mundo e as pessoas, e, superficial, eventualmente comparativa e, muitas
por outro, a construir conhecimento e a adquirir vezes, reforçadora daquilo que já conhecem.
saberes emancipatórios e mobilizadores de uma Como também se disse atrás, ficar pela leitura
leitura crítica da realidade. transversal das estatísticas pode inclusive
apelar a uma certa atitude
conformista: “é a vida!’.
“ Educar para a mudança social, de forma a ajudar as gerações futuras a
serem melhores do que as que lhe antecederam, não poderá repousar ape- Tendo em vista uma
nas na criação de momentos de sensibilização pontuais ou na abordagem,
intervenção eficaz com alunas
desgarrada da vida real de quem se educa, de temas da actualidade, de
um modo passivo e transmissivo, como se aqueles assuntos fossem sobre
e alunos, levando uma e outros
os/as outros/as, os/as vizinhos, os/as estranhos/as, os/as de outra classe so- a ler a realidade através das
cial, de outra família, ou de outra origem étnica. Efectivamente, a mudança lentes de género – os tais
almejada impõe o uso de estratégias educativas activas que envolvam – da óculos que ajudam a identificar
parte de quem educa e de quem assume o papel de educando/a – a cogni- situações de desigualdade
ção e os afectos, exemplos da vida comum, modelos positivos para análise
social entre mulheres e homens
e a comprovação de boas práticas. ” – e a refletir sobre ela, deixam-
Cristina C. Vieira, 2014: 9. se aqui algumas inquietações
e sugestões, que resultam de

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ENQUADRAMENTO TEÓRICO l Género e Conhecimento

“ Aprender a pensar de forma crítica requer que se esgrimam argumentos, que se ouçam pontos
de vista divergentes, que se avaliem respostas, que se reflicta sobre as causas e consequências
de uma determinada decisão, que se ponderem valores e atitudes, que se formem consensos e
que se tentem encontrar soluções para problemas partilhados. Ora, todas estas estratégias são
primordiais para fomentar desde muito cedo o questionamento das estereotipas em rapazes e
raparigas, através de actividades educativas que eles e elas consigam acompanhar em função da
sua crescente maturidade física e intelectual. Além disso, como se disse atrás, assume particular
relevância a abordagem de temas com os quais os/as educandos/as se identifiquem, para que
se envolvam mais genuinamente na discussão dos mesmos e façam uso dessa reflexão conjunta
para a tomada de consciência individual.

É esta atitude transformadora que traduz o tal poder emancipatório da educação, pois desta for-
ma é possível cooperar para a formação cívica e ética de cidadãos e de cidadãs mais reflexivos,
mais tolerantes, mais autónomos ao lidar criticamente com a informação, mais capazes de tomar
boas decisões, mais abertos à diversidade e mais sensatos na sua relação com os outros. A educa-
ção constitui, por isso, o tesouro mais valioso de que dispomos para a construção de um mundo
melhor. ”
Cristina C. Vieira, 2014: 9.

reflexões conjuntas com grupos de docentes como estruturais, aparecendo


de diferentes níveis de ensino, que estiveram em primeiro lugar em relação
envolvidos em Oficinas de Formação para
a todas as outras que a
aplicação dos Guiões de Educação Género
elas possam associar-se, e
e Cidadania (desde 2009), disponíveis para o
pré-escolar e para os três primeiros ciclos da
qualquer intervenção com vista
escolaridade formal13: a combater as estereotipias
sexistas (e todas as outras) deve
• Não é possível apagar os incidir na promoção da reflexão
estereótipos de género da crítica sobre as desigualdades
memória coletiva das sociedades conducentes a discriminações
e grupos, pois eles fazem parte sociais entre homens e mulheres.
da herança cultural aprendida, • Não basta sensibilizar as
mas pode-se levar as pessoas a pessoas pontualmente, qualquer
identificarem-nos, a reconhecer que seja a sua idade, pois as
o seu caráter historicamente mudanças almejadas exigem
construído, a questioná-los e a um trabalho continuado e
abolirem-nos das suas crenças, concertado entre várias instâncias,
comportamentos e práticas. numa perspetiva sistémica.
• As discriminações associadas • O cruzamento de possíveis formas
ao género devem ser vistas de discriminação – a chamada

13 Disponíveis para download em texto integral em: https://www.cig.gov.pt/documentacao-de-referencia/doc/cidadania-e-igual-


dade-de-genero/guioes-de-educacao-genero-e-cidadania/ (consultado a 15 de abril de 2015).

por: Cristina C. Vieira 0111


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interseccionalidade (ver texto em caixa)


– torna a intervenção ainda mais Muitos dos grupos e indivíduos mais
vulneráveis veem a sua capacidade
complexa, pois as implicações para
de resposta aos contratempos
a vida individual são imprevisíveis,
reduzida por restrições várias e
exigindo, na maior parte das concomitantes. Por exemplo, os
situações, uma abordagem que indivíduos que são pobres e pertencem
traga para o centro da discussão simultaneamente a uma minoria,
casos concretos que ajudem os ou que são do sexo feminino e
alunos e alunas a perceberem as portadores de deficiência, enfrentam
possíveis idiossincrasias de cada numerosas barreiras que podem
pessoa – de pessoas reais – que é reforçar-se mútua e negativamente.
objeto de desigualdades/prejuízos. PNUD, 2014: iv.

• As eventuais diferenças e as
possíveis dissemelhanças de cada sociedade, podem constituir
modos de ser e de estar não devem fatores de discriminação silenciosa
pressupor uma hierarquização para homens e mulheres.
entre homens e mulheres, não
• As formas de discriminação social
devem obedecer a um pensamento
são, talvez, muito mais subtis hoje
dicotómico e não devem ser
em dia que o eram antigamente,
o mote para a desigualdade
mas não serão muito menos
de oportunidades entre os
poderosas. veja-se, por exemplo,
sexos. Além disso, não devem
o caso da publicidade a diversos
sobrepor-se à enorme semelhança
produtos ou mesmo os videoclipes
ao nível de características (físicas
e as letras de algumas das canções
e psicológicas) e de interesses que
mais populares entre a camada
é possível observar entre os dois
mais jovem.
sexos.
• A crença generalizada de que está
• As premissas e práticas associadas
tudo conseguido, em termos da
ao género, e à ordem social que a
promoção da igualdade entre os
ideologia subjacente legitima em
sexos, é talvez a maior barreira
à criação de uma
atitude crítica face
“contrariar e eliminar os preconceitos de género implica passar a con-
siderar mulheres e homens na sua diversidade física, psicológica e social às disparidades que
assumindo que umas e outros integram o que nos habituámos a desig- continuam a penalizar
nar por feminino e masculino. Implica também reconhecer que estas
dimensões não são imutáveis nem de origem biológica, antes decorrem mulheres e homens em
de complexos processos de socialização, (re)construindo-se e (re)fazen- diferentes esferas de
do-se ao longo do tempo e do percurso de vida de cada indivíduo.” ação.
Teresa Alvarez Nunes, 2009: 14.

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