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CARACTERIZAÇÃO DA INTERFACE ENTRE UM GEOCOMPÓSITO DE

REFORÇO E UM SOLO ARENOSO COM RECURSO A ENSAIOS DE CORTE


DIRECTO

SAND-GEOCOMPOSITE INTERFACE CHARACTERIZATION BY DIRECT


SHEAR TESTS

Vieira, Castorina Silva, Faculdade de Engenharia, Porto, Portugal, cvieira@fe.up.pt


Afonso, Manuel Ricardo, Faculdade de Engenharia, Porto, Portugal, ec01204@fe.up.pt
Lopes, Maria de Lurdes, Faculdade de Engenharia, Porto, Portugal, lcosta@fe.up.pt

RESUMO

A interacção solo-geossintético é de extrema importância em diversas aplicações, nomeadamente,


quando estes materiais são utilizados como elemento de reforço. Quando se prevê a ocorrência de
movimento de uma massa de solo relativamente ao geossintético, o ensaio de corte directo é o mais
adequado para caracterizar a interface entre os dois materiais. Neste trabalho descreve-se, de forma
sucinta, um protótipo laboratorial de um equipamento de corte directo, projectado e construído na
FEUP, com capacidade para a realização de ensaios de corte directo monotónico e cíclico. Com
recurso ao equipamento desenvolvido, é caracterizada a interface entre um geocompósito de reforço
bidireccional (com filamentos de reforço nas duas direcções) e uma areia mal graduada. Na
caracterização desta interface avalia-se a influência da altura de solo no interior da caixa de corte, o
efeito da colocação de um elemento compressível entre a areia e a placa de carregamento e o efeito da
variação cíclica da tensão de confinamento.

ABSTRACT

The soil-geosynthetic interaction has an utmost importance in several civil engineering applications,
namely, when these materials are used as reinforcement. When the expected movement on
soil-geosynthetic interface is direct shear, the most suitable test to characterize the interaction between
the two materials is the direct shear test. This work briefly describes a laboratorial prototype of a direct
shear test apparatus, designed and built at FEUP, able to perform monotonic and cyclic direct shear
tests. An interface between a biaxial geocomposite (continuous filament non woven, reinforced with
polyester yarns in booth directions) and a poorly graded sand is characterized using the developed
apparatus. In the interface characterization the influence of soil thickness in the upper shear box, the
effect of placing a compressible material between the sand and the rigid loading plate and the effect of
cyclic variation of the normal pressure are appraised.

1. INTRODUÇÃO

O mecanismo de interacção solo-reforço é um dos aspectos com maior importância no


dimensionamento de estruturas de solo reforçado. Este mecanismo depende do tipo de solo, das
características do reforço e da forma como eles interagem entre si. Considera-se, assim, que a correcta
identificação do mecanismo de interacção e a escolha do ensaio mais adequado para a sua
caracterização são aspectos primordiais.

Atente-se no exemplo apresentado na Figura 1, onde se ilustra um mecanismo potencial de rotura num
aterro de solo reforçado. Verifica-se que na zona exterior à superfície de escorregamento a interacção
solo-reforço poderá ser caracterizada laboratorialmente através de um ensaio de arranque, enquanto
que, junto ao pé do talude, a interacção entre os dois materiais será melhor caracterizada através de um
ensaio de corte directo.
σ

Ensaio de
arranque σ
τ

Ensaio de
corte directo

Figura 1 - Mecanismo potencial de rotura num aterro de solo reforçado e ensaios laboratoriais que
melhor caracterizam a interface solo-reforço (Vieira 2008).

Sendo o ensaio de corte directo um dos ensaios laboratoriais mais adequados para a caracterização da
resistência ao corte mobilizada nas interfaces solo-geossintético, considera-se de grande importância a
apresentação de resultados laboratoriais obtidos com equipamentos desenvolvidos para a
caracterização deste tipo de interfaces.

Os resultados dos ensaios de corte directo de interfaces podem ser influenciados por diversos factores.
Entre esses factores podem incluir-se a configuração do equipamento, o sistema de aplicação de carga,
as dimensões da caixa de corte, o tipo de placa de carregamento, a espessura de solo colocado no
interior das meias-caixas e o próprio procedimento de ensaio. Detalhes sobre a forma como esses
factores podem influenciar os resultados dos ensaios podem ser encontrados em Silvano (2005) e
Vieira (2008).

O presente trabalho pretende avaliar a influência de alguns desses factores sobre a resistência ao corte
da interface entre uma areia e um geocompósito de reforço. Entre esses factores encontra-se a altura de
solo colocado no interior da meia-caixa superior (fixa) e o efeito da colocação de um elemento
compressível entre o solo e a placa de carregamento. Tendo em consideração que em determinadas
situações, nomeadamente nas infraestruturas de transporte, a tensão de confinamento poderá não ser
constante ao longo do tempo, foi ainda avaliado o efeito da variação cíclica da tensão vertical de
confinamento sobre a resistência ao corte da interface.

2. BREVE DESCRIÇÃO DO EQUIPAMENTO DO LGS

Como se referiu anteriormente, quando se prevê a ocorrência de movimento de uma massa de solo
relativamente ao geossintético, o ensaio de corte directo é o mais adequado para caracterizar a
interface entre os dois materiais (Figura 1). Em termos normativos, a descrição e as exigências a serem
respeitadas num ensaio de corte directo entre um solo e um geossintético ou entre dois geossintéticos
constavam, até ao aparecimento das normas europeias, da norma britânica BS 6906-8 (1991) e da
norma norte americana ASTM D 5321-92 (reaprovada em 1998). Em 1997 surge a primeira versão
preliminar da norma europeia [pr EN WI 00189015], recebendo, em 2001, a designação prEN ISO
12957-1. Esta pré-norma foi aprovada como norma internacional no final de 2004 [EN ISO 12957-1] e
publicada como Norma Portuguesa em 2007 (NP EN ISO 12957-1).

No Laboratório de Geossintéticos da FEUP (LGS) foi desenvolvido, em colaboração com o Instituto


de Engenharia Mecânica da FEUP, um protótipo laboratorial de um equipamento de corte directo, de
grandes dimensões, com capacidade para a realização de ensaios de corte directo monotónico e cíclico.
No desenvolvimento deste protótipo foram seguidas as recomendações da pré-norma europeia
prEN ISO 12957-1 (2001) e da norma americana ASTM D 5321-92, em particular no que se refere às
dimensões mínimas exigidas e aos procedimentos de ensaio.
O equipamento de corte directo desenvolvido tem por base um accionamento hidráulico, com
comando em malha fechada realizado através de um computador. O equipamento foi concebido de
forma modular e é composto por uma estrutura de suporte, um conjunto de cinco actuadores
hidráulicos e respectiva central energética, um quadro eléctrico de potência e de comando, um
conjunto de transdutores, que asseguram a medição das grandezas que interessa controlar, e um
computador onde está instalado o software de controlo. Na Figura 2 apresenta-se uma vista geral do
equipamento.

Figura 2 – Vista geral do equipamento de corte directo do LGS.

A Norma Portuguesa NP EN ISO 12957-1 (2007) prevê a existência de duas modalidades de ensaio
distintas: ensaio de área constante e ensaio de área reduzida. Para a realização de ensaios de área
constante é necessário que a meia caixa superior fixa, onde se coloca o solo, apresente uma dimensão
inferior à da meia-caixa inferior móvel, onde se fixa o geossintético. Para o ensaio de corte directo de
área reduzida, que corresponde à filosofia das caixas de corte directo utilizadas tradicionalmente na
caracterização dos solos, a norma europeia é muito vaga, referindo apenas que poderá ser utilizada
uma caixa de corte tradicional, em que as meias caixas devem apresentar dimensões não inferiores a
300 mm × 300 mm. O equipamento de corte directo desenvolvido contempla as duas modalidades de
ensaio. No trabalho que se apresenta, os ensaios foram realizados na modalidade de área constante,
isto é, com o geocompósito assente numa base rígida.

A caixa de corte apresenta dimensões em planta 300 mm × 600 mm, adoptadas com base na
recomendação da norma europeia referente às dimensões mínimas exigidas para o ensaio de
geogrelhas. As dimensões mínimas da caixa devem ser tais que pelo menos duas barras longitudinais e
três barras transversais permaneçam em contacto com o solo durante o ensaio.

A norma europeia é omissa em termos da profundidade das meias-caixas. É apenas referido, no


procedimento do ensaio, que a meia-caixa superior deve ser preenchida com a areia de granulometria
normalizada, compactada até uma espessura de 50 mm. A norma ASTM D 5321-92 recomenda um
valor para a profundidade mínima das meias-caixas função da granulometria do solo que se pretende
ensaiar, com um mínimo de 50 mm. Tendo em consideração que a opção por uma profundidade de
50 mm poderia limitar, no futuro, a realização de ensaios com solos mais grosseiros, e tendo presente a
opção pelas elevadas dimensões em planta, em particular o comprimento da caixa, considerou-se
razoável adoptar uma profundidade de 100 mm.

A fixação do provete de geossintético é efectuada sobre a meia-caixa inferior móvel, existindo uma
barra de fixação, dotada de parafusos, em cada um dos extremos desta meia-caixa. Para o registo do
deslocamento horizontal da meia-caixa móvel encontra-se montado directamente no interior do
servoactuador hidráulico um transdutor de deslocamento, do tipo magnetrostritivo, de 200 mm de
curso. O equipamento está também dotado de 4 transdutores de deslocamento externos, do tipo LVDT,
de 10 e 20 mm, que podem utilizar-se no registo de movimentos horizontais e verticais.

A tensão vertical aplica-se sobre a amostra de solo através de uma placa metálica rígida (Figura 3),
com uma área de carregamento igual à área da meia-caixa superior. A força vertical é aplicada através
de um servoactuador, composto por dois actuadores lineares, de duplo efeito, de 20 kN cada, que
permite exercer uma tensão vertical máxima de 222 kPa. A medição da força aplicada pela placa de
carregamento é efectuada, indirectamente, através de um transdutor de pressão de 250 bar, que regista
a pressão interna do óleo ao nível dos dois actuadores verticais, permitindo a leitura da carga normal,
com uma precisão de ±1%. O posicionamento da meia-caixa superior é efectuado por 2 actuadores
lineares de duplo efeito, também visíveis na Figura 3.

Mais detalhes sobre este equipamento podem encontrar-se em Silvano (2005) e Vieira (2008).

Figura 3 - Placa rígida de carregamento em movimento.

3. CARACTERIZAÇÃO DA INTERFACE AREIA-GEOCOMPÓSITO

3.1. Caracterização dos materiais e procedimento de ensaio

No estudo experimental que se apresenta foi utilizado um geocompósito de reforço bidireccional. Este
geocompósito consiste num geotêxtil não tecido de polipropileno (PP) reforçado nas duas direcções
por filamentos de poliéster (PET) de elevada resistência, com resistência nominal igual a 50 kN/m,
que se passa a designar como GC50/50 (Figura 4). Nos ensaios que se apresentam, o corte foi imposto
apenas segundo a direcção longitudinal do reforço.

Figura 4 – Aspecto visual do geocompósito GC50/50.


O solo utilizado foi uma areia limpa, mal graduada, com a classificação SP, comercializada pela
empresa Sibelco, sob a designação SP45. Na Figura 5 apresenta-se a curva granulométrica desta areia.

#140
#200

3/8"

3/4"
#80

#20

#10
#60

#40

#4

2"
1"

3"
4"
Sedimentação Peneiração
100

90

80

70
% Material passado

60

50

40

30

20

10

0
0.001 0.01 0.1 1 10 100 1000
Diâmetro das partículas (mm)
Fino Médio Grosso Fina Média Grossa Fino Médio Grosso Fino Médio
Argila
Silte Areia Seixo Bloco

Figura 5 – Curva granulométrica da areia SP45.

Os valores máximo e mínimo do peso volúmico seco da areia foram determinados, de acordo com as
normas ASTM D4253-93 e ASTM D4254-93, tendo-se obtido os valores 16,58 kN/m3 e 13,95 kN/m3,
respectivamente (Vieira 2008).

Após a fixação do geocompósito à base rígida (móvel na direcção horizontal), a meia-caixa superior é
posicionada, mantendo uma folga da ordem de 1 mm entre o geossintético e os bordos da meia-caixa.
A areia foi depositada, em camadas de 2,5 cm, com índice de compacidade da ordem dos 60%,
utilizando um pilão com 1kgf de peso para a sua compactação.

Concluído o processo de deposição e compactação da areia nas diferentes camadas, a placa rígida de
carregamento é accionada, aplicando sobre o solo a tensão de confinamento estabelecida. Esta tensão
de confinamento é aplicada sobre o solo durante 60 minutos antes do início do movimento horizontal
(fase de corte). O mesmo tempo de consolidação foi também utilizado por Blumel e Stoewahse (1998)
para a caracterização da resistência ao corte de interfaces entre outros materiais. Vieira (2008)
constatou, utilizando o mesmo equipamento de ensaio, que os deslocamentos verticais da placa de
carregamento tendem a estabilizar após 45 a 50 minutos do início do carregamento.

3.2. Influência da altura de solo colocado na caixa de corte

Como se referiu no ponto 1, a altura de solo colocado no interior das meias-caixas pode influenciar os
resultados dos ensaios de corte directo. Para avaliar esse efeito, realizaram-se ensaios com altura de
solo no interior da meia-caixa superior de 2,5 cm, 5 cm, 7,5 cm e 10 cm. Independentemente da altura
total de areia, esta foi depositada e compactada no interior da meia-caixa em camadas com 2,5 cm.

Apresentam-se na Figura 6 os resultados de ensaios de corte directo realizados sobre a interface em


análise, com tensão de confinamento de 100 kPa, fazendo variar a altura de solo colocado na
meia-caixa superior, h. A análise desta figura permite concluir que, quando a altura de solo é muito
baixa (h = 2,5cm), a curva tensão de corte-deslocamento não apresenta um claro valor de pico de
resistência. A resistência de pico da interface tende a aumentar com a espessura da camada de areia
colocada no interior da caixa de corte, ainda que, as diferenças entre h = 7,5 cm e h = 10 cm não sejam
significativas. Em termos de resistência para grandes deslocamentos, ou resistência residual, o efeito
da altura de solo é praticamente desprezável.

100
h = 2.5cm
h = 5cm
80
h = 7.5cm
Tensão de corte (kPa) h = 10cm
60

40

20

0
0.0 10.0 20.0 30.0 40.0 50.0 60.0
Deslocamento horizontal (mm)

Figura 6 – Efeito da espessura de solo no interior da meia-caixa superior sobre a evolução das tensões
de corte.

Um ligeiro aumento da resistência ao corte de interfaces solo-geossintético com a espessura de solo


colocado no interior da caixa de corte tem vindo a ser relatada, de igual forma, por outros autores
(Gourc et al. 1996, Bemben e Schulze 1998, Vieira 2008).

Na Figura 7 ilustra-se a evolução dos deslocamentos verticais da zona central da placa de


carregamento com o deslocamento horizontal imposto à interface, para os quatro valores da espessura
de solo. Como seria de esperar, surgem deslocamentos iniciais descendentes, para os quais o efeito da
altura de solo tem pouco significado. O efeito da altura de solo faz-se sentir essencialmente na fase
dilatante. À excepção do menor valor da espessura de solo, em que a dilatância da areia é claramente
inferior, o ângulo de dilatância máximo é muito próximo para os três valores de h.

0.5

h = 2.5cm
0.4
h = 5cm
Deslocamento vertical (mm)

0.3 h = 7.5cm
h =10cm
0.2

0.1

-0.1

-0.2
0.0 10.0 20.0 30.0 40.0 50.0 60.0
Deslocamento horizontal (mm)

Figura 7 – Efeito da espessura de solo sobre a evolução dos deslocamentos verticais da zona central
da placa de carregamento.
Com a colocação de um elemento compressível entre a placa rígida de carregamento e o solo colocado
no interior da meia-caixa superior, o efeito da espessura da camada de solo sobre a resistência ao corte
da interface tem menor significado. A utilização de uma camada de areia com 2,5 cm de espessura
revelou-se insuficiente para a caracterização da interface, permitindo a movimentação do elemento
compressível para a área de corte (Afonso 2009).

3.3. Efeito da colocação de um elemento compressível entre o solo e a placa de carregamento

A norma NP EN ISO 12957-1 refere que a força normal pode ser aplicada através de um colchão de
membrana macio cheio de líquido, de modo a garantir que a força normal é distribuída uniformemente
sobre toda a área do provete. Todavia, a sua utilização não é consensual.

Como se referiu no ponto 2, no equipamento de corte directo do LGS a força normal à interface é
aplicada, sobre uma placa rígida, através de um servoactuador composto por dois actuadores lineares.
Dado que existem dois pontos de aplicação de carga e a placa de carregamento é rígida, admite-se que
a distribuição da tensão normal seja uniforme.

Para avaliar o efeito de um carregamento com maior flexibilidade indo ao encontro do sugerido pela
norma NP EN ISO 12957-1, foram efectuados ensaios em que se colocou, entre a areia e a placa rígida
de carregamento, um elemento compressível de reduzida espessura (Colchão de EVA - Espuma
Vinílica Acetinada). A Figura 8 ilustra o efeito da colocação desse elemento compressível sobre a
resistência ao corte da interface, colocando no interior da caixa de corte uma espessura de areia de
5 cm (Figura 8a) e de 10 cm (Figura 8b).

Da análise da Figura 8 constata-se que a presença do elemento compressível tende a reduzir a


resistência ao corte da interface. Para o valor da tensão normal de ensaio (σ = 100kPa), o ângulo de
atrito de pico da interface decresce de 32,5º para 30,3º caso se opte pela colocação de 5 cm de areia no
interior da caixa de corte. Caso se utilize o dobro da espessura de solo, o decréscimo será de 33,7º
para 31,5º.

100 100

80 80
Sem elemento compressível
Tensão de corte (kPa)

Tensão de corte (kPa)

Sem elemento compressível

60 60

40 40
Com elemento compressível Com elemento compressível

20 20

0 0
0.0 10.0 20.0 30.0 40.0 50.0 60.0 0.0 10.0 20.0 30.0 40.0 50.0 60.0
(a) Deslocamento horizontal (mm) (b) Deslocamento horizontal (mm)

Figura 8 – Efeito da colocação de um elemento compressível entre o solo e a placa de carregamento


(σ = 100kPa): a) h = 5cm; b) 10 cm.

Os deslocamentos verticais registados na zona central da placa de carregamento encontram-se


representados na Figura 9. Como seria de esperar, nos ensaios em que existe um elemento
compressível entre a placa de carregamento e o solo, a dilatância (positiva) da areia comprime a placa
de espuma, não sendo registados no LVDT, colocado na placa de carregamento, deslocamentos
verticais ascendentes. A colocação de um elemento compressível entre o solo e a placa de
carregamento impede o registo da dilatância da areia.
0.4 0.4
Sem elemento compressível
0.2 0.2
Deslocamento vertical (mm)

Deslocamento vertical (mm)


Sem elemento compressível

0 0

-0.2 -0.2

-0.4 -0.4
Com elemento compressível Com elemento compressível
-0.6 -0.6

-0.8 -0.8
0.0 10.0 20.0 30.0 40.0 50.0 60.0 0.0 10.0 20.0 30.0 40.0 50.0 60.0
(a) Deslocamento horizontal (mm) (b) Deslocamento horizontal (mm)

Figura 9 – Efeito da colocação de um elemento compressível sobre os deslocamentos verticais


registados na placa de carregamento: a) h = 5cm; b) 10 cm.

3.4. Avaliação do ângulo de atrito da interface solo-geocompósito

Na Figura 10 apresentam-se os resultados dos ensaios de corte directo realizados para a caracterização
da resistência ao corte da interface entre a areia e o geocompósito de reforço. A Figura 10a ilustra as
curvas da tensão de corte em função do deslocamento horizontal, para os três valores da tensão de
confinamento. Na Figura 10b apresenta-se o deslocamento vertical registado no centro da placa de
carregamento.

100 0.4

100 kPa
0.3
80
Deslocamento vertical (mm)

150 kPa 50 kPa


Tensão de corte (kPa)

0.2
60 150 kPa
100 kPa
0.1

40
50 kPa 0

20
-0.1

0 -0.2
0.0 10.0 20.0 30.0 40.0 50.0 60.0 0.0 10.0 20.0 30.0 40.0 50.0 60.0
(a) Deslocamento horizontal (mm) (b) Deslocamento horizontal (mm)

Figura 10 - Ensaio de corte directo da interface SP45-GC50/50: a) tensão de corte - deslocamento


horizontal; b) deslocamento vertical - deslocamento horizontal.

Da análise da Figura 10a verifica-se que a resistência ao corte máxima é atingida para um
deslocamento horizontal praticamente coincidente nos ensaios com tensão normal de 100 kPa e
150 kPa. Como seria de esperar, a resistência ao corte máxima no ensaio com menor tensão de
confinamento é atingida para um deslocamento horizontal inferior.

Analisando os deslocamentos verticais registados no centro da placa de carregamento (Figura 10b),


verifica-se que o ângulo de dilatância na rotura é muito próximo para os três valores da tensão normal.

Os valores máximos da tensão de corte, para os três valores da tensão normal aplicada ao provete,
encontram-se representados na Figura 11. Nesta figura apresentam-se ainda as rectas que melhor
definem a envolvente de rotura e os correspondentes coeficientes de determinação.
200

150

Tensão de corte (kPa)


100 τ = 0.4707σ + 14.13
R2 = 0.9919

50
τ = 0.5918σ
R2 = 0.9152
0
0 50 100 150 200
Tensão normal (kPa)

Figura 11 – Envolventes de rotura para a interface SP45-GC50/50.

A recta que melhor se ajusta aos resultados, que se apresenta na Figura 11 a preto, apresenta uma
ordenada não nula para tensão normal igual a zero. Esta adesão aparente pode ser justificada pelo facto
da envolvente de rotura ser curva para valores reduzidos da tensão normal. Impondo que a tensão de
corte seja nula quando não existem tensões normais, obtém-se a envolvente traçada a vermelho, a que
corresponde um coeficiente de determinação ligeiramente inferior à unidade.

Considerando a possibilidade de existência de uma parcela de adesão aparente (a ≅ 14kPa), a interface


em análise poderá ser caracterizada através de um ângulo de atrito de 25,2º. Caso se considere que não
deve ser admitido qualquer valor de adesão, o ângulo de atrito que caracteriza a interface aumentará
para os 30,6º.

3.5. Influência da variação cíclica da tensão de confinamento

Para avaliar o efeito da variação cíclica da tensão vertical de confinamento foram realizados ensaios
nos quais se fez variar, de forma sinusoidal, o valor dessa tensão. Estes ensaios foram realizados para
uma tensão inicial de consolidação de 100 kPa, tendo-se analisado o efeito da frequência e da
amplitude da solicitação cíclica. A Figura 12 compara a evolução da tensão de corte com o
deslocamento horizontal imposto à interface obtido num ensaio em que a tensão normal se manteve
constante, com as curvas referentes a ensaios em que a tensão normal sofreu variações de amplitude de
± 20 kPa com frequência de 0,1Hz e 0,01Hz.

100

f = 0.1Hz

80 f = 0.01Hz
Tensão de corte (kPa)

Constante
60

40

20

0
0.0 10.0 20.0 30.0 40.0 50.0 60.0
Deslocamento horizontal (mm)

Figura 12 – Efeito da frequência da variação cíclica da tensão de confinamanento sobre a evolução das
tensões de corte.
Numa primeira análise da Figura 12 constata-se que, o ensaio com carregamento constante evidencia
maior resistência ao corte, quer em termos de resistência de pico, quer no que se refere à resistência
para grandes deslocamentos (valor residual). O valor máximo da tensão de corte registado no ensaio
com menor frequência (f = 0,01Hz) é muito próximo do valor registado no ensaio monotónico.
Note-se, porém, que é necessário confrontar a resistência ao corte da interface com a tensão de
confinamento que efectivamente solicita a interface. Para uma tensão normal de 100 kPa, constante
durante o ensaio, o ângulo de atrito que caracteriza a interface é de 32,5º. Confrontando a tensão de
corte máxima registada no ensaio com f = 0,01Hz com o valor da tensão normal instalada no mesmo
instante, obtém-se para o mesmo parâmetro o valor 33,0º.

Para o valor mais elevado da frequência de variação da tensão de confinamento (f = 0,1Hz), o valor
máximo da tensão de corte registado na interface foi ligeiramente inferior (cerca de 14%) ao valor
registado com o carregamento constante. Todavia, o ângulo de atrito correspondente é de 31,4º.
Relembre-se que neste ensaio os ciclos de variação da tensão normal são muito rápidos.

Em termos médios, as tensões de corte para grandes deslocamentos registadas nos dois ensaios com
variação cíclica da tensão de confinamento são semelhantes.

Conclusões idênticas às apresentadas nos parágrafos anteriores foram obtidas em ensaio realizados
sobre a areia com maior índice de compacidade (Afonso 2009).

A Figura 13 ilustra a evolução das tensões de corte com os deslocamentos horizontais impostos à
interface no ensaio com carregamento normal constante e em ensaios com carregamento vertical
cíclico de amplitude ± 20kPa e ± 50kPa e frequência de 0,01Hz.

100
∆σ = ± 20kPa
Ds=+/-20kPa

∆σ = ± 50kPa
DS=+/-50kPa
80
Constante
Tensão de corte (kPa)

60

40

20

f = 0.01Hz
0
0.0 10.0 20.0 30.0 40.0 50.0 60.0
Deslocamento horizontal (mm)

Figura 13 – Efeito da amplitude da variação cíclica da tensão de confinamento sobre a evolução das
tensões de corte.

A análise da Figura 13 evidencia que impondo uma variação cíclica da tensão de confinamento com
amplitude ± 50kPa se registam valores superiores das tensões de corte instaladas na interface. No
entanto, tal como se referiu anteriormente, o mesmo não se verifica quando a amplitude de variação da
tensão normal é de ± 20kPa.

Analisando as curvas apresentadas na Figura 13 poder-se-á dizer que, em termos médios, a resistência
ao corte da interface é superior no ensaio com carregamento normal constante. No entanto, como se
referiu anteriormente, é necessário confrontar as tensões de corte instaladas na interface com a tensão
de confinamento que efectivamente a solicita. A Figura 14 ilustra a variação da tensão normal e da
tensão de corte nos primeiros 20 mm de deslocamento imposto à interface. Constata-se que existe um
ligeiro desfasamento entre os valores máximos da tensão normal e da tensão de corte. Confrontando o
valor máximo da resistência ao corte registado no ensaio ∆σ = ± 50 kPa, com o valor da tensão normal
instalada no mesmo instante, o valor do ângulo de atrito obtido é 32,0º, isto é, muito próximo do valor
registado no ensaio com tensão normal constante (δ = 32,5º).

160 80

120 60

Tensão de corte (kPa)


Tensão normal (kPa) 80 40

40 20

σ
τ
0 0
0.0 5.0 10.0 15.0 20.0
Deslocamento horizontal (mm)

Figura 14 - Variação da tensão normal e da tensão de corte com o deslocamento horizontal imposto à
interface (∆σ = ± 50 kPa; f = 0,01Hz).

4. CONCLUSÕES

O estudo experimental realizado, envolvendo a caracterização da resistência ao corte da interface entre


uma areia mal graduada e um geocompósito de reforço, permitiu estabelecer as conclusões que de
seguida se apresentam.

Quando a altura de solo no interior da caixa de corte é muito baixa (h = 2,5cm), a curva tensão de
corte-deslocamento não apresenta um claro valor de pico de resistência. A resistência de pico da
interface tende a aumentar com a espessura da camada de areia colocada no interior da caixa de corte.
Em termos de resistência ao corte para grandes deslocamentos, ou resistência residual, o efeito da
altura de solo é praticamente desprezável.

A colocação de um elemento compressível (placa de EVA) entre a placa de carregamento e o solo


tende a reduzir a resistência ao corte da interface.

A resistência ao corte da interface tende a diminuir com o aumento da frequência da variação cíclica
da tensão de confinamento. Para valores de frequência de 0,01Hz, conseguiu-se atingir um valor do
ângulo de atrito da interface ligeiramente superior ao registado no ensaio com tensão de confinamento
constante.

Aumentando a amplitude da variação cíclica da tensão de confinamento registam-se, como seria de


esperar, valores superiores das tensões de corte na interface, mas o ângulo de atrito efectivamente
mobilizado não é particularmente sensível à amplitude de variação.

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