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Frederico Barbosa

2009
Elaine Cuencas Santos
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Modernismo na literatura brasileira.indb 1 16/2/2009 11:38:02


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por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais.

B238 Barbosa, Frederico; Santos, Elaine Cuencas / Modernismo na


Literatura Brasileira. / Frederico Barbosa; Elaine Cuencas
Santos — Curitiba : IESDE Brasil S.A., 2009.
280 p.

ISBN: 978-85-387-0741-7

1. Modernismo – Brasil. 2. Literatura Brasileira. 3. História e


crítica. 4. Poesia brasileira. I. Título. II. Santos, Elaine Cuencas.

CDD 709.04

Capa: IESDE Brasil S.A.


Crédito da imagem: IESDE Brasil S.A.

Todos os direitos reservados.

IESDE Brasil S.A.


Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200
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Frederico Barbosa

É graduado em Letras Português pela Universidade de São Paulo (USP). Diretor


do Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura (Casa das Rosas), em São
Paulo. Poeta, é autor de Nada Feito Nada (1993), Cantar de Amor entre os Escom-
bros (2002) e A Consciência do Zero (2004).

Elaine Cuencas Santos

Mestra em Estudos Comparados de Literatura em Língua Portuguesa pela USP,


graduada em Letras Português e Italiano pela USP.

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Sumário
Vanguardas modernistas e a Semana de 22.................... 11
O que buscavam as vanguardas modernistas?............................................................... 11
Poesia de vanguarda................................................................................................................. 14
Narrativa de vanguarda........................................................................................................... 18
A fase heroica do Modernismo brasileiro.......................................................................... 22

Oswald de Andrade.................................................................. 37
Biografia......................................................................................................................................... 37
Oswald romancista.................................................................................................................... 38
Oswald poeta............................................................................................................................... 39

Mário de Andrade..................................................................... 51
Macunaíma e a renovação da linguagem literária......................................................... 53

Manuel Bandeira........................................................................ 71
Vida que podia ter sido............................................................................................................ 71
Libertinagem................................................................................................................................. 74

A poesia da Geração de 1930 no Brasil............................. 87


Por que a Geração de 1930 foi tão fértil?........................................................................... 87
A poesia da Geração de 1930................................................................................................. 87
Murilo Mendes............................................................................................................................ 88

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Cecília Meireles............................................................................................................................ 90
Vinicius de Moraes..................................................................................................................... 92
Outros poetas de importância do período....................................................................... 93

Carlos Drummond de Andrade..........................................107


Quase um século de poesia..................................................................................................107
A estreia em livro......................................................................................................................113

O romance da Geração de 1930.........................................127


O precursor: José Américo de Almeida............................................................................127
Graciliano Ramos......................................................................................................................128
José Lins do Rego.....................................................................................................................128
Erico Verissimo..........................................................................................................................134
Rachel de Queiroz....................................................................................................................138
Jorge Amado . ...........................................................................................................................139
O romance urbano...................................................................................................................142

Graciliano Ramos.....................................................................155
Prefeito, educador e escritor................................................................................................155
Com as mesmas vinte palavras...........................................................................................157
Caetés............................................................................................................................................158
São Bernardo..............................................................................................................................158
Vidas Secas..................................................................................................................................160
Memórias do Cárcere................................................................................................................162

João Guimarães Rosa.............................................................175


A Geração de 1945...................................................................................................................175
Mineiro e universal..................................................................................................................175

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O estilo insólito.........................................................................................................................176
A obra...........................................................................................................................................176

Clarice Lispector......................................................................193
A ação interior...........................................................................................................................194
A Hora da Estrela........................................................................................................................198

João Cabral de Melo Neto....................................................211


O poeta do rigor.......................................................................................................................211
O rigor das coisas.....................................................................................................................216
As duas águas............................................................................................................................218
Morte e Vida Severina...............................................................................................................220

Poesia concreta........................................................................237
O grupo Noigandres................................................................................................................237
A poesia concreta: rock’n’roll da poesia?.........................................................................238
O contexto..................................................................................................................................240
As propostas...............................................................................................................................241
Re-visões e traduções.............................................................................................................251

Gabarito......................................................................................259

Referências.................................................................................271

Anotações..................................................................................279

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Apresentação

Pelas próximas 12 aulas, estudaremos o Modernismo brasileiro, come-


çando pelas vanguardas europeias que influenciaram os jovens artistas brasilei-
ros, culminando na Semana de Arte Moderna de 1922. Durante a segunda, ter-
ceira e quarta aulas, iremos nos aprofundar nos três grandes nomes da primeira
geração modernista: Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira.
Na quinta aula, conheceremos a poesia da Geração de 1930 e mais espe-
cificamente, durante a sexta aula, Carlos Drummond de Andrade. Em seguida, ve-
remos o romance da chamada Geração de 30 e Graciliano Ramos, respectivamen-
te na sétima e oitava aulas. Na reta final do livro, abordaremos em cada aula um
escritor específico: João Guimarães Rosa (nona aula), Clarice Lispector (décima
aula) e João Cabral de Melo Neto (décima primeira aula).
Finalizamos, na décima segunda aula, com a poesia concreta, talvez o
único movimento literário a surgir, se não antes, pelo menos ao mesmo tempo no
Brasil e no resto do mundo.

Frederico Barbosa

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Vanguardas modernistas
e a Semana de 22

O que buscavam as vanguardas modernistas?


A literatura de vanguarda, como todos os movimentos culturais consi-
derados vanguardistas, é antes de qualquer coisa uma ruptura, uma nega-
ção de tudo que a precede. Há uma procura de novos métodos de criação,
novas formas e novos temas. Os prosadores e poetas de vanguarda esta-
vam de acordo, basicamente, quanto à recusa das normas de composição
vigentes, defendendo a total liberdade de criação e a busca de uma nova
linguagem. Esse anseio de novidade é justificado pelo próprio termo van-
guarda, que significa “avanço”, “movimento de liderança” do grupo ou da
sociedade que se tenta transformar. Essa ruptura com o passado refletiu-
se na utilização de uma linguagem nova, cheia de mensagens por decifrar,
de difícil digestão.

Foram cinco os principais movimentos de vanguarda que tomaram a


Europa:

 Futurismo;

 Expressionismo;

 Cubismo;

 Dadaísmo;

 Surrealismo.

Cada um deles com manifestos e características próprias.

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Modernismo na Literatura Brasileira

Futurismo
O Futurismo tem como marco inicial a publicação do Manifesto do Futurismo, de
Filippo Tommaso Marinetti. Com raízes fortemente italianas, o Futurismo era ufanis-
ta, antipassadista e exaltava a tecnologia, a modernidade e a guerra. “Nós declara-
mos que o esplendor do mundo se enriqueceu com uma beleza nova: a beleza da
velocidade” (MARINETTI, 1909). Aos poucos, o Futurismo aproximou-se muito do fas-
cismo italiano de Mussolini, sendo até considerado sua expressão artística. Além de
Marinetti, alguns expoentes do Futurismo foram os poetas Paolo Buzzi e Cavacchioli,
os pintores Russolo e Carrá, o arquiteto Antônio Sant’Elia e o músico Bailla Pratella.

Expressionismo
Ao contrário do Futurismo, o Expressionismo nunca foi um movimento organi-
zado e nem se autodenominava dessa maneira. Seus principais nomes surgiram
na Alemanha e entre seus temas estavam a decadência do mundo burguês e ca-
pitalista, a denúncia de um universo em crise e a sensação de impotência frente
a “um mundo sem alma”. Os expressionistas utilizavam visões negativistas, a inte-
rioridade do “eu”, a deformação do mundo e a busca pelo absoluto. Um trecho do
único manifesto da poesia expressionista, de Kasimir Edschmid (1918) diz:
Assim o universo total do artista expressionista torna-se visão. Ele não vê, mas percebe. Ele
não descreve, acumula vivências. Ele não reproduz, ele estrutura (gestaltet). Ele não colhe, ele
procura. Agora não existe mais a cadeia dos fatos: fábricas, casas, doença, prostitutas, gritaria e
fome. Agora existe a visão disso. Os fatos têm significado somente até o ponto em que a mão
do artista os atravessa para agarrar o que se encontra além deles.

Cubismo
O Cubismo surgiu primeiro na pintura. Em 1905, Apollinaire conheceu Picas-
so. Em 1909, o movimento cubista já se destacava nas artes plásticas. Na literatu-
ra, o primeiro manifesto dessa tendência apareceu em 1913, escrito por Apolli-
naire. Em contraste com os futuristas, os cubistas combinavam a destruição da
estética clássica com a construção de um novo modo de representar o mundo.
Suas principais características na literatura eram o ilogismo, a simultaneidade, o
instantaneísmo e o humor. Em um artigo de 1913, Apollinaire afirmava:
Os grandes poetas e os grandes artistas têm por função social remover continuamente a
aparência que reveste a natureza, aos olhos dos homens. Sem os poetas, sem os artistas, os

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Vanguardas modernistas e a Semana de 22

homens aborrecer-se-iam depressa com a monotonia natural. A ideia sublime que eles têm do
universo cairia com vertiginosa rapidez. A ordem, que aparece na natureza e que não é senão
um efeito da arte, logo se evaporaria. Tudo se desmancharia no caos.

Dadaísmo
Dentre todos os movimentos de vanguarda, o Dadaísmo foi o mais radical.
Nascido em 1916, em um café em Zurique, na Suíça, um dos únicos lugares segu-
ros na Europa durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), seus fundadores
eram cinco refugiados pacifistas revoltados com a situação social da Europa. O
Dadaísmo lançava-se contra todos os valores culturais, atacando todas as con-
venções e formas e combinando a ironia ácida com o nonsense e a visão infan-
til. Hugo Ball, um dos fundadores do movimento, escrevendo um verbete para
um dicionário alemão, definiu o dadaísta como um “homem infantil, quixotesco,
ocupado com os jogos de palavras e com as figuras gramaticais”. As obras da-
daístas caracterizavam-se pela improvisação, pela desordem, pela percepção e
pela negação de qualquer tipo de equilíbrio de formas, ideias ou sentimentos.
Em seu Manifesto Dadá, de 1918, Tristan Tzara, líder do movimento, afirmou:
Eu redijo um manifesto e não quero nada, eu digo portanto certas coisas e sou por princípio
contra os manifestos, como sou também contra os princípios [...] dadá não significa nada [...]
Eu sou contra os sistemas, o mais aceitável dos sistemas é aquele que tem por princípio não
ter princípio nenhum...

Surrealismo
Cronologicamente, o Surrealismo foi o último movimento das vanguardas
europeias. Com raízes no Expressionismo alemão e a redescoberta de autores
como Sade, Baudelaire, Rimbaud e Mallarmé, utilizava as teorias de Freud e do
marxismo para tentar enxergar o homem livre de suas ligações psicológicas e
culturais. Apoiados no desenvolvimento da psicologia, nas experiências com o
sono hipnótico, no método da escrita automática e no pensamento falado, os
surrealistas procuravam explorar o inconsciente humano e o sonho. Em seu pri-
meiro manifesto, de 1924, Breton escreveu:
Eu o defino, portanto, de uma vez por todas: surrealismo, s. m. Automatismo psíquico pelo
qual alguém se propõe a exprimir seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra
maneira, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de todo
controle exercido pela razão, fora de qualquer preocupação estética ou moral.

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Modernismo na Literatura Brasileira

Poesia de vanguarda

Apollinaire
Guillaume Apollinaire nasceu em Roma, em 1880, e morreu em Paris, em
1918. Filho de pai italiano e mãe polonesa, mudou-se para Paris em 1899. Ali
se integrou à vida cultural francesa e conheceu Picasso e Max Jacob. Sua poesia
tentou romper com as estruturas tradicionais da linguagem, criando formas po-
éticas revolucionárias capazes de criar realidades surpreendentes. Seus caligra-
mas, poemas visuais cubistas, publicados em 1918, foram parte desse projeto.

O caligrama La Colombe Poignardée et le Jet d’Eau (A pomba apunhalada e a fonte), de Apollinaire.


Disponível em: <www.ubu.com/historical/app/app5.html>.

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Vanguardas modernistas e a Semana de 22

Tristan Tzara
O Dadaísmo foi o mais extremo movimento de vanguarda. Os poetas dada-
ístas negaram e destruíram a tudo: a rima, o ritmo e sobretudo o significado
lógico. Por exemplo, os dadaístas compunham seus poemas recolhendo re-
cortes de jornais a esmo e colando-os um após o outro. Com isso, desejavam
atacar o discurso racional que, segundo eles, havia levado à Primeira Guerra
Mundial, que o mundo sofria na época. O fundador do Dadaísmo foi Tristan
Tzara (1896-1963), de origem romena, que publicou seu Manifesto Dadá em
1918.

André Breton
Nasceu na região francesa da Normandia, em 1896, e morreu em Paris, em
1966. Fundador do Surrealismo, ele defendia a ideia de que na mente humana
há uma vida interior que age por si mesma, sem que possamos intervir, e que
na composição poética ela deve manifestar-se sem obstáculos. Muito influen-
ciado por Sigmund Freud, Breton praticou a escrita automática, escrevendo as
palavras e imagens que lhe ocorriam livremente à consciência, tal como ocorre
quando sonhamos. Publicou Os Passos Perdidos (1924), O Surrealismo e a Pintura
(1928), Fata Morgana (1942) e a Arte Mágica (1957).

Aragon e Éluard
Louis Aragon nasceu em Paris, em 1897, e morreu na mesma cidade, em 1982.
Junto com Breton e Éluard, foi um dos fundadores do Surrealismo e suas ideias
sobre esse movimento apareceram em seus livros de poemas Fogo de Gozo
(1920), O Movimento Perpétuo (1926) e A Grande Alegria (1929).

O também francês Paul Éluard nasceu em Saint-Denis, em 1895, e morreu em


Charenton, em 1952. Seu verdadeiro nome era Eugène Grindel. No início defen-
sor do movimento surrealista, acabou por renunciar a essa filosofia, demasiado
centrada nos processos mentais do indivíduo. Entre seus livros de poemas se
destacam Morrer por não Morrer (1924), Os Olhos Férteis (1976), Poesia Ininterrup-
ta (1946) e Últimos Poemas de Amor (1963).

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Modernismo na Literatura Brasileira

Filippo Tomaso Marinetti


Nascido em Alexandria, em 1876, e morto em Bellagio, em 1944, Marinetti foi o
principal teórico das ideias do Futurismo italiano, que defendia a todo custo o pro-
gresso baseado na tecnologia, o ímpeto da máquina e a velocidade. Seu desprezo
absoluto pela dignidade humana e sua defesa do maquinalismo o levou a aderir,
nos anos de 1920, ao fascismo italiano liderado por Mussolini. Os títulos de suas
obras são uma clara mostra de suas ideias, como por exemplo Canto Heroico e Má-
quinas da Guerra Mussoliniana (1942) ou O Exército Italiano, Poesia Armada (1942).

Giuseppe Ungaretti
Nascido em Alexandria, em 1888, e falecido em Milão, em 1970, Ungaretti foi
uma das principais figuras da chamada poesia hermética. Caracterizou-se pela
brevidade e pela simplicidade expressiva, como reação à grandiloquente e pom-
posa retórica fascista da época. Escreveu Alegria do Naufrágio (1919) e Sentimen-
to do Tempo (1933). Depois da morte de seu filho, publicou A Dor (1947).

Outros poetas herméticos foram Eugenio Montale (1896-1981) e Salvatore


Quasimodo (1901-1968), que receberam Prêmio Nobel, respectivamente em
1975 e 1959.

Lírica de vanguarda soviética


O vanguardismo esteve bem vivo na Rússia antes e depois da Revolução
Soviética (1917). Antes de se converter no poeta oficial da revolução, Vladimir
Maiakovski (1893-1930) foi o grande poeta do Futurismo. Entretanto, as auto-
ridades soviéticas não toleravam o caráter individualista dos vanguardistas, a
maioria dos quais foram assassinados pelo novo regime, morreram em campos
de concentração ou se suicidaram, como Serguei Essenin (1895-1925), Ossip
Mandelstam (1891-1958) e Marina Tsvetáieva (1892-1941).

Poesia de vanguarda em língua inglesa


Os três principais poetas em língua inglesa são Ezra Pound, T. S. Eliot e e. e.
cummings.

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Vanguardas modernistas e a Semana de 22

Nascido em Hailey (Estados Unidos), em 1885, e falecido em Veneza, em 1972,


Ezra Pound chegou à Itália em 1924 e ali se entusiasmou pela cultura do país, seu
passado clássico e sua literatura, chegando a defender o fascismo de Mussolini.
Naquela época, Pound começou a composição de sua grande obra poética, que
ocupou várias décadas de sua vida – Os Cantos, destacando-se os Cantos pisa-
nos, escritos entre 1945 e 1946.

Thomas Stearns Eliot (1888-1965) publicou em 1922 o poema The Wasteland,


que é um testemunho da desilusão dos poetas depois da Primeira Guerra Mun-
dial. Sua poesia é meditativa, muito rigorosa na forma e repleta de citações clás-
sicas, com certo tom místico. Seu livro culminante é Quatro Quartetos, de 1943.
Em 1948, recebeu o Prêmio Nobel.

Eliot influenciou toda uma geração de poetas de grande valor, como Robert
Graves (1895-1985) e W. H. Auden (1907-1973). e. e. cummings.

cummings, que fazia questão de grafar seu nome em letras minúsculas,


nasceu em Cambridge, Massachussets, em 1894, e morreu em New Hampshire,
em 1962. Em 1922, publicou seu primeiro livro de poemas, Tulipas e Chaminés,
influenciado pelas ideias dadaístas, que combinavam imagens e conceitos de
um modo absurdo, como amostra da condição absurda da vida humana. Suas
preocupações com a sonoridade e a disposição gráfica das palavras o levaram a
fazer experiências muito originais com a poesia.

Poesia de vanguarda alemã


A poesia de vanguarda em língua alemã é marcada por duas influências fun-
damentais: a de Nietzsche e a do movimento expressionista.

O expressionismo critica ferozmente a sociedade alemã capitalista, indus-


trial, acumuladora de riquezas e exploradora das classes trabalhadoras. Gottfried
Benn, nascido em Mansfeld, em 1886, e falecido em Berlim, em 1956, é um de
seus melhores expoentes. De sua fase expressionista, destacam-se os poemas
Morgue (1913), Filhos (1913), Carne (1917) e Ruína (1924).

Outros poetas da vanguarda alemã foram Georg Trakl (1887-1914), que em seus
versos expressou como poucos a angústia perante a morte, e morreu em combate
na Primeira Guerra Mundial; Stefan George (1868-1923) e Hugo von Hofmannsthal
(1874-1929).

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Modernismo na Literatura Brasileira

Narrativa de vanguarda
A narrativa do princípio do século XX pautou-se por dois princípios básicos:
a inovação estética e a representação de uma realidade sociopolítica cruel. Este
último aspecto marcou o mundo da cultura na Europa no período entre as duas
guerras mundiais e dificilmente poderia ausentar-se da arte, muito menos da
literatura. Frente a essa destruição, levantou-se uma nova estética, oposta a tudo
o que a precedeu. No terreno narrativo, duas correntes de pensamento se so-
bressaem: o Existencialismo e o Marxismo. Ambas iriam prevalecer depois da
Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

As vanguardas na Itália
É na Itália que aparece o primeiro grupo vanguardista europeu: o Futurismo.
Seu representante máximo foi Marinetti (1876-1944), cujo primeiro manifesto
data de 1909. Segundo Marinetti, entre as inovações formais da literatura futu-
rista devem estar:

 a destruição da sintaxe, dispondo os substantivos a esmo;

 o uso dos verbos no infinitivo;

 a abolição dos adjetivos, advérbios e sinais de pontuação.

Futuristas como Palazzeschi ou Paolo Duzzi exploraram o terreno do mecâ-


nico e do irreal.

Porém, frente à retórica artificial, mecanicista e fantasiosa do Futurismo apa-


receram, na Itália, correntes opostas encabeçadas pela chamada prosa d’arte,
cujos escritores mais representativos foram Cesare Pavese (1908-1950) e Alberto
Moravia (1907-1990). Esse tipo de literatura em prosa se caracteriza pelo pre-
domínio de um realismo moralista e ético, que vê a experiência futurista como
inconsequência.

Já Italo Svevo (1861-1928) é considerado o precursor de Joyce e Proust por


seu romance A Consciência de Zeno (1923), em que analisa a consciência humana
segundo o método psicanalítico de Sigmund Freud.

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Vanguardas modernistas e a Semana de 22

Vanguarda narrativa na França


A literatura francesa do início do século XX oscilou entre as experiências de
vanguarda (Surrealismo e Existencialismo) e uma literatura mais tradicional. Na
primeira tendência, destacam-se romances como Nadja (1928), de André Breton,
e Moravagine (1926), do franco-suíço Blaise Cendras; na segunda vertente, auto-
res como François Mauriac (1885-1970) e Georges Bernanos (1888-1948), os cha-
mados moralistas católicos. Outros romancistas importantes foram André Mal-
raux (1901-1976), autor de A Condição Humana (1933), e Louis-Ferdinand Céline
(1894-1961), autor de Viagem ao Fim da Noite (1932), no qual retrata um mundo
dominado pela irracionalidade e pela crueldade do destino, com uma lingua-
gem raivosa e violenta que muito influenciou os escritores que vieram depois.
Mas, acima de todos, se sobressai a figura de Marcel Proust (1871-1922).

Marcel Proust
O romance de vanguarda teve na França um precursor indiscutível: Marcel
Proust, cuja obra se enquadra na linha do Simbolismo realista. Proust tentou
fazer da literatura uma confidência pessoal e um meio de expressão global da
experiência do homem no mundo. Seu primeiro romance foi Os Prazeres e os
Dias (1896). De 1895 a 1905, escreveu sua extensa obra Jean Santeuil, publicada
em 1952. Em 1910, começou a trabalhar em uma das obras mais importantes
do século XX, Em Busca do Tempo Perdido (1913-1927), que, com seu poder de
penetração nas profundezas da memória e da psicologia humana, e suas frases
longas e musicais, marcou definitivamente toda a literatura posterior.

Franz Kafka
O escritor de língua alemã mais importante deste período foi Franz Kafka
(1883-1924), de ascendência judaica, nascido em Praga (na então Tchecoslo-
váquia), mas de formação germânica. Em 1906, concluiu seus estudos e pouco
depois foi trabalhar em uma companhia de seguros, ocupação que manteve
até 1922, e que fez dele um deprimido funcionário de escritório, buscando
ansiosamente uma maneira de se dedicar à sua vocação literária. Em sua obra

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Modernismo na Literatura Brasileira

se observa um bloqueio causado pela culpa e um desejo silencioso de mar-


ginalidade, aumentado por sua condição de judeu. Sua produção literária se
aproxima de um realismo fantástico e expressionista, sem abandonar o caráter
existencialista que parece ter marcado toda a sua vida. O tema do julgamen-
to e do castigo é uma constante em sua obra. Kafka deixou inacabados três
romances: América (1927), O Processo (1925) e O Castelo (1926). Seus contos
também são muito importantes: Descrição de uma Luta (1909), Considerações
(1912) e, o mais famoso, A Metamorfose (1915).

Hesse, Broch e Musil


Hermann Hesse (1877-1962) desenvolveu em seus romances Demian (1919)
e O Jogo das Contas de Vidro (1943) certo misticismo por meio de elementos
simbólicos.

Hermann Broch (1886-1951) descreve, em Os Sonâmbulos (1931-1932), a de-


gradação da sociedade alemã desde a proclamação do Segundo Império até a
derrota na Primeira Guerra Mundial. Escreveu também A Morte de Virgílio (1945)
e O Tentador (1953).

Robert Musil (1880-1942) é considerado, ao lado de Proust, Joyce e Kafka,


o grande renovador do romance do século XX, especialmente por sua obra O
Homem sem Qualidades (1930-1943), em que, ao longo de duas mil páginas, ana-
lisa a decomposição do Império austro-húngaro por meio de numerosos perso-
nagens com diferentes psicologias.

James Joyce
James Joyce (1882-1941) foi o escritor mais importante da língua inglesa nos
primeiros anos do século XX, trazendo para a literatura a autoconsciência da lin-
guagem e a captação do subconsciente. Retratou, de forma complexa, a realidade
cotidiana da Dublin da sua infância e juventude. Em 1914, publicou seu livro de
contos Dublinenses. Em 1916, o romance Retrato do Artista quando Jovem, verda-
deiro prólogo à sua obra mais representativa: Ulisses (1922), epopeia que transcor-
re ao longo de um único dia da vida de Leopold Bloom. Esse romance se estrutura
a partir de complexas técnicas narrativas como o monólogo interior e as tramas si-
multâneas. Sua última obra é Finnegans Wake, que foi publicada aos poucos, como
um work in progress “obra em andamento”, e teve edição integral em 1939. Nesse

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Vanguardas modernistas e a Semana de 22

livro, Joyce radicaliza o processo de experimentação: as imagens se sobrepõem e


palavras são criadas a partir de numerosas línguas.

Virginia Woolf
Virginia Woolf (1882-1941) se dedicou a investigar o transcorrer do tempo e a
situação da mulher. Em O Quarto de Jacob (1922), narra a vida de um rapaz desde
a infância até sua morte no campo de batalha. Mrs. Dalloway (1925) e Ao Farol
(1927) são dois importantes romances em que Virginia Woolf investe menos na
ação ou na intriga e mais em uma reflexão sobre a profundidade da consciência.
Também se destaca As Ondas (1931), e em Orlando (1929), a ambiguidade sexual
da personagem central perdura durante séculos.

D. H. Lawrence
David Herbert Lawrence (1885-1930) retratou duramente o convencionalis-
mo da moral burguesa e puritana inglesa. Suas obras de alto conteúdo sexual
sofreram processos e condenações judiciais. Destacam-se Filhos e Amantes
(1913) e O Amante de Lady Chatterley (1928). Lawrence foi pouco a pouco se
distanciando de um mundo que não suportava, dominado pelo puritanismo, a
moral burguesa e a industrialização. Fez da literatura uma experiência solitária
e pessoal, que transformou em um grito dirigido aos seres humanos de quem
se havia distanciado.

Gertrude Stein
Nascida na Pensilvânia, Gertrude Stein (1874-1946) se mudou para Paris em 1902,
tornando-se grande colecionadora de arte e amiga de artistas como Cézanne e Picas-
so, que pintariam retratos seus. A casa em que morava com Alice B. Toklas na rue de
Fleurus tornou-se um dos pontos de encontro favoritos de pintores e escritores de
vanguarda de todas as nacionalidades. Sua prosa revolucionária, próxima da poesia,
constrói-se por meio de repetições constantes e o abandono de todas as convenções,
inclusive as gramaticais. Destacam-se seu livro de contos Três Vidas (1909), Tender But-
tons (1914), e The Making of the Americans (1925). O retrato mais vibrante da Paris do
início do século foi pintado por Stein no livro Autobiografia de Alice B. Toklas (1933), em
que escreve a “autobiografia” de sua companheira e retrata a vida de ambas e de seus
amigos pintores e escritores, como Picasso, Matisse, Apollinaire e Hemingway.

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Modernismo na Literatura Brasileira

A fase heroica do Modernismo brasileiro

Por que chamamos de fase heroica


o início do Modernismo brasileiro?
No Brasil, os modernistas tiveram que lutar muito para impor a sua revolução.
O reacionarismo da sociedade brasileira e o atraso cultural generalizado colo-
caram inúmeras barreiras à renovação artística e cultural do país. A Academia
Brasileira de Letras transformou-se, então, na guardiã das tradições, defendendo
com afinco a estética parnasiana contra os ataques dos “heróis” vanguardistas.
Suas propostas de modernização das técnicas de composição poética, abolindo
a rima e a métrica, assim como de aproximação entre a literatura e a linguagem
popular, valorizando a língua e a cultura do povo, jamais poderiam ser aceitas
pelos defensores da norma culta e da arte pela arte. Essa foi, portanto, uma fase
de árdua destruição dos valores antigos, em busca da construção de uma nova
e vigorosa literatura.

Antecedentes do Modernismo
Durante as duas primeiras décadas do século XX, período que se convencio-
nou chamar de pré-modernista, as ideias das vanguardas modernistas europeias
começaram a penetrar na arte brasileira. Além dos aspectos antecipatórios das
obras dos pré-modernistas, como o Expressionismo e o Prosaísmo de Augusto
dos Anjos, a linguagem coloquial de Lima Barreto e a análise crítica da realidade
brasileira levada a cabo por Euclides da Cunha, Monteiro Lobato e Graça Aranha,
manifestações já propriamente modernistas começaram a ocorrer.

Ainda em 1909, o Manifesto Futurista de Marinetti foi reproduzido em jornais


brasileiros e, assim, no Brasil, as manifestações de vanguarda passaram a ser de-
nominadas, genericamente, de “futuristas”.

Contagiado pelas novidades durante uma viagem à Europa, em 1912, Oswald


de Andrade traz ao Brasil as ideias que redundariam na revolução de 1922.

Em 1917, a exposição de pinturas expressionistas de Anita Malfatti, em São


Paulo, gerou uma polêmica entre Oswald e Monteiro Lobato sobre as inovações
estéticas.

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Vanguardas modernistas e a Semana de 22

Em 1921, Oswald saudou, pelos jornais, o jovem Mário de Andrade chamando-o


de “meu poeta futurista”, o que, embora desagradando a Mário, uniu os dois poetas.

Por essa época, o escultor Victor Brecheret e o músico Heitor Vila-Lobos já


apresentavam uma obra modernista.

E, em 1922, a Semana de Arte Moderna aglutinou todas essas manifestações.

Disponível em: <http://semdestino.files.wordpress.com/2007/09/a-estudante-anita-malfatti.jpg>.

A Estudante, tela de Anita Malfatti incluída na exposição de 1917.

A Semana de Arte Moderna


A Semana, na realidade, durou apenas três dias, mas nunca três dias abalaram
tanto o mundo da arte brasileira. Nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, sob o
apadrinhamento do romancista pré-modernista Graça Aranha, os jovens paulis-
tanos empenhados em revolucionar a arte apresentaram, pela primeira vez em

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Modernismo na Literatura Brasileira

conjunto, suas ideias de vanguarda. Realizada no Teatro Municipal de São Paulo,


a Semana foi aberta com a conferência “A emoção estética na arte”, em que Graça
Aranha atacava o conservadorismo

Disponível em: <www.colegiosaofrancisco.com.br/alfa/arte-moderna/imagens/arte-


-moderna-9.jpg>.
e o academicismo da arte brasileira.
Seguiram-se leituras de poemas de,
entre outros, Oswald de Andrade e
Manuel Bandeira, que não pôde
comparecer e cujo poema “Os sapos”
foi lido por Ronald de Carvalho sob
um coro de coaxos e vaias. Mário de
Andrade leu seu ensaio “A escrava
que não é Isaura” nas escadarias do
teatro, obras de Anita Malfatti, Di Ca-
valcanti, Victor Brecheret e outros
artistas plásticos e arquitetos foram
expostas. Por fim, apresentaram-se a
pianista Guiomar Novaes e o maes-
tro e compositor Heitor Vila-Lobos,
que não foi poupado das vaias.
Como se vê, a recepção da Semana
não foi tranquila. As ousadias mo-
dernistas inquietavam e irritavam o
público.

A literatura paulistana confirmava sua tendência à ruptura consequente, sempre


fundamentada na erudição de um estudioso como Mário de Andrade ou de um
permanente revolucionário que foi Oswald de Andrade. Procurava, também, esta-
belecer certa independência da nossa literatura em relação à europeia. Cerca de
20 anos depois, Mário de Andrade comentou a experiência de enfrentar a plateia:
[...] como tive coragem para dizer versos diante duma vaia tão bulhenta que eu não escutava
no palco o que Paulo Prado me gritava da primeira fila das poltronas?... Como pude fazer
uma conferência sobre artes plásticas, na escadaria do Teatro, cercado de anônimos que me
caçoavam e ofendiam a valer?... O meu mérito de participante é mérito alheio: fui encorajado,
fui enceguecido pelo entusiasmo dos outros.

Grupos e movimentos
Após a Semana de Arte Moderna, surgiram no Brasil diversos grupos que pro-
curavam, cada um a seu modo, difundir a arte moderna. Alguns logo se desta-
caram pelo feroz antagonismo. Os movimentos Pau-Brasil (1925) e Antropofagia
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Vanguardas modernistas e a Semana de 22

(1928) foram criados por Oswald de Andrade e reuniam jovens como Raul Bopp
e Antônio de Alcântara Machado.

O Pau-Brasil defendia a produção de uma literatura de exportação, primitiva


mas sofisticada, que pudesse competir com as estrangeiras.

O Movimento Antropófago pregava uma relação de igualdade da cultura bra-


sileira com as demais: não a rejeição pura e simples do que vem de fora, mas
consumir aquilo que há de bom na arte estrangeira; não evitá-la, mas, como um
antropófago, comer o que mereça ser comido.

Já os movimentos Verde-amarelo (capitaneado por Menotti del Picchia e Cas-


siano Ricardo) e Anta (que, sucedendo o Verde-amarelo, era liderado por Plínio
Salgado, um admirador do fascismo), pautavam-se por um nacionalismo xenó-
fobo, avesso a tudo que viesse do estrangeiro.

Os dois grupos (um que dialogava com a cultura estrangeira e outro que a
repudiava) só poderiam se confrontar. “Verde e amarelo dá azul? Não, dá azar” –
publicou a Revista de Antropofagia.

As revistas modernistas
Os modernistas se agrupavam em torno de publicações. A primeira revista
modernista no Brasil apareceu em São Paulo: a Klaxon (1922), de projeto gráfico
inovador e contando com as colaborações, entre outros, de Mário de Andrade,
Guilherme de Almeida e Manuel Bandeira.

No Rio de Janeiro, surgiu a Estética (1924), dirigida por Prudente de Moraes


Neto e Sérgio Buarque de Holanda, bem menos ousada do que a corresponden-
te paulistana.

Além de outras revistas lançadas em São Paulo e no Rio, aparecem publica-


ções por todo o país. Podemos citar, entre outras:

 em Cataguases (MG), a revista Verde (1927);

 em Porto Alegre (RS), a Madrugada (1929);

 em Fortaleza (CE), Maracajá (1929).

Mas a de maior impacto foi a Revista de Antropofagia (1928-29), publicada


por Oswald de Andrade. Nela foram lançados poemas de Carlos Drummond de

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Modernismo na Literatura Brasileira

Andrade e Murilo Mendes; o primeiro capítulo de Macunaíma, de Mário de An-


drade, e numerosos outros textos de importância.

Texto complementar

Manifesto Antropófago

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos,


de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em


drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicolo-
gia impressa.

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo


interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema
americano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com


toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos tou-
ristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais.


E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental.
Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência pal-


pável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.

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Vanguardas modernistas e a Semana de 22

Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unifi-


cação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa
não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.

A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.

Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Où Villegaignon print terre. Mon-


taigne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo,
à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de
Keyserling. Caminhamos.

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo.


Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.

Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar


comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita
lábia. Fez-se o empréstimo.

Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos


trouxe a lábia.

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfis-


mo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religi-
ões de meridiano. E as inquisições exteriores.

Só podemos atender ao mundo orecular.

Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da


Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.

Contra o mundo reversível e as ideias objetivadas. Cadaverizadas. O stop


do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vítima do sistema. Fonte das
injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquis-
tas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

O instinto Caraíba.

Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma


Cosmos parte do eu.

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Modernismo na Literatura Brasileira

Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de sena-


dor do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio
de bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.

Catiti Catiti

Imara Notiá

Notiá Imara

Ipeju

A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos


bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte
com o auxílio de algumas formas gramaticais.

Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a


garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Ma-
thias. Comi-o.

Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo


não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só


a maquinaria. E os transfusores de sangue.

Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.

Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de


um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.

Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização
que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus é a consciência do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viven-


tes. Jaci é a mãe dos vegetais.

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Vanguardas modernistas e a Semana de 22

Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política


que é a ciência da distribuição. E um sistema social planetário.

As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas.


Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.

De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem.


Antropofagia.

O pater familias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas


+ falta de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.

É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à ideia de Deus.


Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.

O objetivo criado reage como os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga.


Que temos nós com isso?

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a


felicidade.

Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de


Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

A alegria é a prova dos nove.

No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

Somos concretistas. As ideias tomam conta, reagem, queimam gente nas


praças públicas. Suprimamos as ideias e as outras paralisias. Pelos roteiros.
Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.

A alegria é a prova dos nove.

A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contra-


dição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modus vi-
vendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo
em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites
conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido
da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O

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Modernismo na literatura brasileira.indb 29 16/2/2009 11:38:06


Modernismo na Literatura Brasileira

que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do


instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo,
o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao avilta-
mento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja,
a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristiani-
zados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Irace-


ma, – o patriarca João.

Ramalho fundador de São Paulo.

A nossa independência ainda não foi proclamada. Frase típica de D. João


VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro
o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as
ordenações e o rapé de Maria da Fonte.

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a re-


alidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias
do matriarcado de Pindorama.

Oswald De Andrade

Em Piratininga

Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha.

(ANDRADE, Oswald. Manifesto Antropólogo. – Revista de Antropofagia, São Paulo,


maio 1928. Ano1, n.1.)

Estudos literários
1. Leia o texto abaixo e responda à questão.

Manifesto do Futurismo (trecho)


1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito à energia e à temeridade.

2. Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem, a audácia


e a revolta.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 30 16/2/2009 11:38:06


Vanguardas modernistas e a Semana de 22

3. Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa, o êx-


tase e o sono, nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia
febril, o passo ginástico, o salto mortal, a bofetada e o soco.

4. Nós declaramos que o esplendor do mundo se enriqueceu com uma


beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com
seu cofre adornado de grossos tubos como serpentes de fôlego ex-
plosivo... um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é
mais belo que a Vitória de Samotrácia.

5. Nós queremos cantar o homem que está na direção, cuja haste ideal
atravessa a Terra, arremessada sobre o circuito de sua órbita.

6. É preciso que o poeta se desgaste com calor, brilho e prodigalidade,


para aumentar o fervor entusiástico dos elementos primordiais.

7. Não há mais beleza senão na luta. Nada de obra-prima sem um caráter


agressivo. A poesia deve ser um assalto violento contra as forças des-
conhecidas, para intimá-las a deitar-se diante do homem.

8. Nós estamos sobre o promontório extremo dos séculos!... Para que


olhar para trás, no momento em que é preciso arrombar as portas
misteriosas do impossível? O tempo e o espaço morreram ontem. Nós
vivemos já no absoluto, já que nós criamos a eterna velocidade oni-
presente.

9. Nós queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo – o mi-


litarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas
ideias que matam, e o menosprezo à mulher.

10. Nós queremos demolir os museus, as bibliotecas, combater o moralis-


mo, o feminismo e todas as covardias oportunistas e utilitárias.

11. Nós cantaremos as grandes multidões movimentadas pelo trabalho,


pelo prazer ou pela revolta; as marés multicoloridas e polifônicas das
revoluções nas capitais modernas; a vibração noturna dos arsenais
e dos estaleiros e suas violentas luas elétricas; as estações glutonas
comedoras de serpentes que fumam; as usinas suspensas nas nuvens
pelos barbantes de suas fumaças; as pontes para pulos de ginastas
lançadas sobre a cutelaria diabólica dos rios ensolarados; os navios
aventureiros farejando o horizonte; as locomotivas de grande peito,

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Modernismo na literatura brasileira.indb 31 16/2/2009 11:38:06


Modernismo na Literatura Brasileira

que encoucinham os trilhos, como enormes cavalos de aço freados


por longos trilhos, e o voo deslizante dos aeroplanos, cuja hélice tem
os estalos da bandeira e os aplausos da multidão entusiasta.

(MARINETTI apud TELLES, 1976, p. 85-86.)

Identifique no trecho do Manifesto do Futurismo quais itens demonstram o


apreço desse movimento pela modernidade, qual os aproxima dos ideais fascis-
tas e quais indicam o rompimento com a arte e literatura até então. Justifique.

2. Leia com atenção o poema a seguir e responda à questão.

Os sapos
Manuel Bandeira

Enfunando os papos, O sapo-tanoeiro,


Saem da penumbra, Parnasiano aguado,
Aos pulos, os sapos. Diz: - “Meu cancioneiro
A luz os deslumbra. É bem martelado.

Em ronco que aterra, Vede como primo


Berra o sapo-boi: Em comer os hiatos!
- “Meu pai foi à guerra!” Que arte! E nunca rimo
- “Não foi!” - “Foi!” - “Não foi!”. Os termos cognatos.

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Vanguardas modernistas e a Semana de 22

O meu verso é bom Ou bem de estatuário.


Frumento sem joio. Tudo quanto é belo,
Faço rimas com Tudo quanto é vário,
Consoantes de apoio. Canta no martelo”.

Vai por cinquenta anos Outros, sapos-pipas


Que lhes dei a norma: (Um mal em si cabe),
Reduzi sem danos Falam pelas tripas,
A fôrmas a forma. - “Sei!” - “Não sabe!” - “Sabe!”.

Clame a saparia Longe dessa grita,


Em críticas céticas: Lá onde mais densa
Não há mais poesia, A noite infinita
Mas há artes poéticas...” Veste a sombra imensa;

Urra o sapo-boi: Lá, fugido ao mundo,


- “Meu pai foi rei!”- “Foi!” Sem glória, sem fé,
- “Não foi!” - “Foi!” - “Não foi!”. No perau profundo
Brada em um assomo solitário, é

O sapo-tanoeiro: Que soluças tu,


- A grande arte é como Transido de frio,
Lavor de joalheiro. Sapo-cururu
Da beira do rio...”

“Os sapos” faz uma analogia com a poesia da época em que foi escrito. Qual o
conflito retratado no poema?

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Modernismo na Literatura Brasileira

3. Leia com atenção o poema abaixo e responda à questão.

Poema tirado de uma notícia de jornal


Manuel Bandeira

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilô-


nia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

Que características presentes nesse poema são marcadamente modernistas?

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Modernismo na literatura brasileira.indb 36 16/2/2009 11:38:06


Oswald de Andrade

Biografia
Nasceu e morreu em São Paulo. Poucos, entre estes dois momentos,
agitaram tanto, mudaram tanto e, no entanto, foram tão desprezados.
Rico e comunista, perdeu a fortuna, em parte graças à quebra da Bolsa de
Valores de Nova York (1929), em parte por seu desregramento. Casou-se
seis vezes. Criou movimentos vários, e viu, no final da vida, o seu sonhado
Modernismo triunfar, enquanto ele, seu maior defensor, era esquecido e
relegado ao papel de mero incendiário irresponsável. Arrogante e gene-
roso, Oswald de Andrade é uma das figuras mais contraditórias, ricas e
fascinantes da literatura brasileira. Além de seu papel primordial na divul-
gação do Modernismo no Brasil, Oswald de Andrade deixou uma obra ex-
tensa, composta por ensaios de estética e política, manifestos, memórias
e, acima de tudo, seus poemas e romances inovadores.

O próprio Oswald escreve, em nota autobiográfica publicada pelo


Diário de Notícias em 8 de janeiro de 1950:
Viajei, fiquei pobre, fiquei rico, casei, enviuvei, casei, divorciei, viajei, casei... já disse que
sou conjugal, gremial e ordeiro. O que não me impediu de ter brigado diversas vezes
à portuguesa e tomado parte em algumas batalhas campais. Nem ter sido preso 13
vezes. Tive também grandes fugas por motivos políticos.

E podemos completar com um trecho do prefácio de Serafim Ponte


Grande: “Seja como for. Voltar para trás é que é impossível. O meu relógio
anda sempre para a frente. A História também.”

Oswald de Andrade se bacharelou em Direito em São Paulo, em 1919.


Dois anos depois, começou a articular a campanha modernista, com a pu-
blicação do artigo “O meu poeta futurista” (que lançou o poeta Mário de
Andrade, no Jornal do Comércio) e o contato com artistas e intelectuais
como Anita Malfatti e Manuel Bandeira, que participariam da Semana de
Arte Moderna, em 1922.

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Modernismo na Literatura Brasileira

Na década de 1920, Oswald colaborou em vários periódicos, principalmente nos


modernistas, como a revista Klaxon, publicou os romances da Trilogia do Exílio e tra-
balhou na divulgação da estética modernista com os manifestos Pau-Brasil (1924) e
Antropofágo (1928). Nos anos seguintes, publicou romances – entre eles Serafim Ponte
Grande e Marco Zero – além de peças teatrais, dentre as quais se destaca O Rei da Vela.

Foi integrante do Partido Comunista, entre 1931 e 1945, e sofreu persegui-


ções políticas por causa dessa militância.

Em 1945, tornou-se livre-docente em Literatura Brasileira na Universidade de


São Paulo com a tese A Arcádia e a Inconfidência.

Em 1954, publicou o livro de memórias Um Homem Sem Profissão.

Em sua obra poética, destacam-se os livros Pau-Brasil (1925) e Primeiro Cader-


no do Aluno de Poesia Oswald de Andrade (1927).

Oswald de Andrade é um dos nomes fundamentais do Modernismo. A respei-


to de sua poesia, Haroldo de Campos afirmou:
Oswald recorreu a uma sensibilidade primitiva (como fizeram os cubistas, inspirando-se nas
geometrias elementares da arte negra) e a uma poética da concretude (“Somos concretistas”,
lê-se no Manifesto Antropófago) para comensurar a literatura brasileira às novas necessidades
de comunicação engendradas pela civilização técnica.

Oswald foi também cronista inovador: em 1912, criou a crônica da imigração


na revista O Pirralho, escrevendo em estilo macarrônico.

Ao longo da vida, “registrou e comentou, de modo crítico, praticamente todos


os grandes e momentosos temas e problemas do seu e do nosso tempo”, segun-
do Mário da Silva Brito.

Oswald romancista
Entre os romances, destacam-se Memórias Sentimentais de João Miramar
(1924) e Serafim Ponte Grande (1933), ambos obras que efetuam a ruptura das
fronteiras entre poesia e prosa. Escritos em linguagem telegráfica, elíptica e me-
tafórica, utilizam-se de uma técnica narrativa cinematográfica, composta por
sucessivos flashes da vida das personagens dos títulos, sem que haja uma linea-
ridade ou lógica, comuns à narrativa tradicional. A criação de neologismos (pala-
vras novas) é outro traço inovador dos romances, que são escritos com humor e
ironia, revelando os aspectos mais mesquinhos da sociedade paulista da época.

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Oswald de Andrade

Primeiro contato de Serafim e a malícia

A-e-i-o-u

Ba - be - bi - bo - bu

Ca- ce - ci - co - cu

 O primeiro capítulo do romance Serafim Ponte Grande, de Oswald de


Andrade, revela sua técnica de composição inovadora e seu humor.

Oswald poeta
Ao contrário de Manuel Bandeira e mesmo de Mário de Andrade, Oswald
poeta já nasce modernista.

Seu primeiro volume de poemas, Pau-Brasil (1924), já se caracteriza por uma


radical recusa da poética tradicional. Apresenta ready mades, poemas que Oswald
“encontra” em textos dos cronistas quinhentistas, como Caminha e Gândavo, pa-
ródias de poemas românticos, textos bem humorados sobre a colonização, sobre
a cidade de São Paulo, sobre Minas Gerais etc. Ilustrado com desenhos de Tarsila
do Amaral, uma das mulheres do poeta, trata-se de uma obra extremamente coe-
rente com os princípios modernistas.

Outro livro fundamental é O Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de


Andrade (1927), ilustrado pelo próprio autor com desenhos que se misturam aos
textos poéticos na criação de uma poesia visual muito à frente do seu tempo e
que serão precursoras diretas da poesia concreta.

Erro de Português
Oswald de Andrade

Quando o português chegou Fosse uma manhã de sol


Debaixo duma bruta chuva O índio tinha despido
Vestiu o índio O português.
Que pena!

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Modernismo na Literatura Brasileira

E a luta continua...

Escrevendo sua Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira, Otto Maria


Carpeaux afirmou que, “Sendo Oswald de Andrade a figura mais combativa e com-
batida do Modernismo brasileiro, a bibliografia a seu respeito é principalmente
de natureza polêmica”. Em outras palavras, ao se escrever sobre um homem que
jamais deixou de tomar posição, certo ou não, é impossível deixar de se tomar po-
sição. Oswald obriga o leitor a se posicionar. Nesse sentido, continua sendo o mais
modernista dos modernistas: aquele que incomoda e não se deixa acomodar.

Principais características
Entre as principais características das obras de Oswald de Andrade estão o
verso livre, o poema-pílula, o prosaísmo e coloquialismo, o poema-piada, que
usa do humor e ironia para parodiar amplos domínios da própria literatura, de
forma simpática ou demolidora.

A paródia simpática, como é, no caso, a de Oswald, focaliza costumes e tradi-


ções do povo.

Já a paródia demolidora, que Oswald também praticou, volta-se contra as


elites pretensiosas.

Ambas propõem uma revisão da cultura brasileira: impõe-se uma tradição de


ruptura baseada na crítica exacerbada, na negação contínua, na revolta permanen-
te. Na visão dialética de Oswald de Andrade, “Precisamos descabralizar o Brasil”, pro-
movendo o canibalismo cultural, um ato “marxilar”, segundo ele. Oswald também
faz uso de neologismos e a mistura de gêneros. Sua obra muitas vezes apresenta a
fragmentação cubista e a técnica cinematográfica de corte e montagem, além da
linguagem metonímica, prosa telegráfica e o uso de capítulos-relâmpago na prosa.
Toda sua obra é permeada por uma visão crítica da realidade brasileira.

Texto complementar

Manifesto da Poesia Pau-Brasil


A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da
Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.

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Oswald de Andrade

O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner


submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica
rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança.

Toda a história bandeirante e a história comercial do Brasil. O lado doutor,


o lado citações, o lado autores conhecidos. Comovente. Rui Barbosa: uma
cartola na Senegâmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza dos bailes e
das frases feitas. Negras de Jockey. Odaliscas no Catumbi. Falar difícil.

O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando


politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser
doutos. Doutores. País de dores anônimas, de doutores anônimos. O Império
foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião de penacho.

A nunca exportação de poesia. A poesia anda oculta nos cipós maliciosos


da sabedoria. Nas lianas da saudade universitária.

Mas houve um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo


se deformaram como borrachas sopradas. Rebentaram.

A volta à especialização. Filósofos fazendo filosofia, críticos, critica, donas


de casa tratando de cozinha.

A Poesia para os poetas. Alegria dos que não sabem e descobrem.

Tinha havido a inversão de tudo, a invasão de tudo: o teatro de tese e a


luta no palco entre morais e imorais. A tese deve ser decidida em guerra de
sociólogos, de homens de lei, gordos e dourados como Corpus Juris.

Ágil o teatro, filho do saltimbanco. Ágil e ilógico. Ágil o romance, nascido


da invenção. Ágil a poesia.

A poesia Pau-Brasil. Ágil e cândida. Como uma criança.

Uma sugestão de Blaise Cendrars: – Tendes as locomotivas cheias, ides


partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor
descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino.

Contra o gabinetismo, a prática culta da vida. Engenheiros em vez de ju-


risconsultos, perdidos como chineses na genealogia das ideias.

A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribui-


ção milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.

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Modernismo na Literatura Brasileira

Não há luta na terra de vocações acadêmicas. Há só fardas. Os futuristas


e os outros.

Uma única luta – a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação.


E a Poesia Pau-Brasil, de exportação.

Houve um fenômeno de democratização estética nas cinco partes sábias


do mundo. Instituíra-se o Naturalismo. Copiar. Quadros de carneiros que não
fosse lã mesmo, não prestava. A interpretação no dicionário oral das Esco-
las de Belas Artes queria dizer reproduzir igualzinho... Veio a pirogravura. As
meninas de todos os lares ficaram artistas. Apareceu a máquina fotográfica.
E com todas as prerrogativas do cabelo grande, da caspa e da misteriosa
genialidade de olho virado – o artista fotógrafo.

Na música, o piano invadiu as saletas nuas, de folhinha na parede. Todas


as meninas ficaram pianistas. Surgiu o piano de manivela, o piano de patas.
A pleyela. E a ironia eslava compôs para a pleyela. Stravinski.

A estatuária andou atrás. As procissões saíram novinhas das fábricas.

Só não se inventou uma máquina de fazer versos – já havia o poeta


parnasiano.

Ora, a revolução indicou apenas que a arte voltava para as elites. E as elites
começaram desmanchando. Duas fases: 1) a deformação através do impres-
sionismo, a fragmentação, o caos voluntário. De Cézanne e Malarmé, Rodin
e Debussy até agora. 2) o lirismo, a apresentação no templo, os materiais, a
inocência construtiva.

O Brasil profiteur. O Brasil doutor. E a coincidência da primeira construção


brasileira no movimento de reconstrução geral. Poesia Pau-Brasil.

Como a época é miraculosa, as leis nasceram do próprio rotamento dinâmico


dos fatores destrutivos.

A síntese

O equilíbrio

O acabamento de carrosserie

A invenção

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Oswald de Andrade

A surpresa

Uma nova perspectiva

Uma nova escala.

Qualquer esforço natural nesse sentido será bom. Poesia Pau-Brasil.

O trabalho contra o detalhe naturalista – pela síntese; contra a morbidez


romântica – pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico; contra a
cópia, pela invenção e pela surpresa.

Uma nova perspectiva.

A outra, a de Paolo Ucello criou o naturalismo de apogeu. Era uma ilusão


ética. Os objetos distantes não diminuíam. Era uma lei de aparência. Ora, o
momento é de reação à aparência. Reação à cópia. Substituir a perspectiva
visual e naturalista por uma perspectiva de outra ordem: sentimental, inte-
lectual, irônica, ingênua.

Uma nova escala:

A outra, a de um mundo proporcionado e catalogado com letras nos


livros, crianças nos colos. O redame produzindo letras maiores que torres. E
as novas formas da indústria, da viação, da aviação. Postes. Gasômetros Rails.
Laboratórios e oficinas técnicas. Vozes e tics de fios e ondas e fulgurações.
Estrelas familiarizadas com negativos fotográficos. O correspondente da sur-
presa física em arte.

A reação contra o assunto invasor, diverso da finalidade. A peça de tese


era um arranjo monstruoso. O romance de ideias, uma mistura. O quadro
histórico, uma aberração. A escultura eloquente, um pavor sem sentido.

Nossa época anuncia a volta ao sentido puro.

Um quadro são linhas e cores. A estatuária são volumes sob a luz.

A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar domingueira, com passarinhos can-


tando na mata resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa
para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente.

Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com


olhos livres.

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Modernismo na Literatura Brasileira

Temos a base dupla e presente – a floresta e a escola. A raça crédula e


dualista e a geometria, a álgebra e a química logo depois da mamadeira e
do chá de erva-doce. Um misto de “dorme nenê que o bicho vem pegá” e de
equações.

Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas elétricas; nas
usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de vista o Museu Na-
cional. Pau-Brasil.

Obuses de elevadores, cubos de arranha-céus e a sábia preguiça solar. A


reza. O Carnaval. A energia íntima. O sabiá. A hospitalidade um pouco sensu-
al, amorosa. A saudade dos pajés e os campos de aviação militar. Pau-Brasil.

O trabalho da geração futurista foi ciclópico. Acertar o relógio império da


literatura nacional.

Realizada essa etapa, o problema é outro. Ser regional e puro em sua época.

O estado de inocência substituindo o estado de graça que pode ser uma


atitude do espírito.

O contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adesão acadêmica.

A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa


tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna.

Apenas brasileiros de nossa época. O necessário de química, de mecâni-


ca, de economia e de balística. Tudo digerido. Sem meeting cultural. Práticos.
Experimentais. Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de
apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia.

Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A


floresta e a escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minério e a dança. A ve-
getação. Pau-Brasil.

(ANDRADE, Oswald de. Manifesto da poesia pau-brasil. Correio da Manhã, São Paulo,
18 mar. 1924)

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Oswald de Andrade

Estudos literários
1. Qual vertente do Modernismo brasileiro é representada no poema?

Os selvagens
Oswald de Andrade
Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam pôr a mão
E depois a tomaram como espantados.

2. Que intenções ideológico-literárias se configuram nos textos a seguir?

Atelier
Oswald de Andrade
Arranha-céus
Fordes
Viadutos
Um cheiro de café
No silêncio emoldurado

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Modernismo na Literatura Brasileira

Poema elétrico
Luís Aranha

O atropelo dos automóveis depois de um grande match de foot-ball

Buzinas rouquidões motores algazarras

O Vento correndo sobre pneumáticos.

3. Nos trechos abaixo, flashes de Memórias Sentimentais de João Miramar, são


bem explicitadas as concepções modernistas de Oswald de Andrade. A par-
tir desses flashes, comente ao menos duas dessas concepções.

47. Soho Square


Picadilly fazia fluxo e refluxo de chapéus altos e corredores levando ingle-
ses duros para música e talheres de portas móveis e portas imóveis.

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Oswald de Andrade

Elevadores klaxons tubes caíam de avião na plataforma preta de


Trafalgar.

Mas nosso quarteirão agora grupava nas calçadas casquettes heterogê-


neas penetrando sem nariz no whisky dos bars. Bicicletas levantavam coxas
velhas de girls para napolitanos vindos da Austrália. E Isadora Duncan hele-
nizava operetas no Hipódromo.

[...]

60. Namoro
Vinham motivos como gafanhotos para eu e Célia comermos amoras em
moitas de bocas.

Requeijões fartavam mesas de sequilhos.

Destinos calmos como vacas quietavam nos campos de sol parado. A vida
ia lenta como poentes e queimadas.

Um matinal arranjo desenvolto de ligas morenava coxas e cachos.

[...]

161. História do Brasil


E Celiazinha maleta pelas portas lampiões, ia-me explicando que D. Pedro
I era um perdulário que se arrependeu na hora da morte e mandou chamar o
neto do seu neto para lhe dizer que não fizesse que nem ele.

— E D. Pedro II?

— Esse era um grande preguiçoso. Quando a professora chegava, dizia


que ia jogar cartas e nem queria ver os livros.

A noite vinha e desembarcava meu anjo noturno.

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Modernismo na Literatura Brasileira

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Oswald de Andrade

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Modernismo na literatura brasileira.indb 50 16/2/2009 11:38:07


Mário de Andrade

“Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta”, escreveu Mário de An-


drade. Em carta ao escritor Pedro Nava, em 1928, ele conta o que está fa-
zendo naquele momento:
Estou datilografando Macunaíma pra entrar no prelo. Estou dando última demão pra
um estudo [...] sobre Poesia Argentina. Estou tomando notas pra um romance [...] O
Avacalhado. Estou escrevendo um estudo sério sobre música folclórica pra Exposição
Internacional de Arte Popular de Praga este ano. Estou dando última demão à Bucólica
sobre a Música Brasileira livro inda pra este ano. Eta mundo! Vou ao cinema diariamente,
sou festeiro como poucos, escrevo artiguete diário no Diário Nacional, dou lições pra
burro, leio pra burro...

Disponível em: <www.algosobre.com.br/images/stories/assuntos/biografias/Mario%20de%20


Andrade.jpg>.

Mário de Andrade .

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Modernismo na literatura brasileira.indb 51 16/2/2009 11:38:07


Modernismo na Literatura Brasileira

De origem humilde, por toda a vida Mário de Andrade (1893-1945) foi um


grande estudioso. Estudou e lecionou música, realizando profundas pesquisas
sobre a música popular brasileira.

Escreveu poesia, com destaque para os livros Pauliceia Desvairada (1922), em


que radicaliza as experimentações de vanguarda modernistas, e Clã do Jabuti
(1927), em que trabalha poeticamente as tradições populares que pesquisava.

Além disso, Mário planejou e empreendeu duas viagens para conhecer melhor
o Brasil e, assim, colher material para seus escritos. A primeira foi à região amazô-
nica, em 1927, e a segunda, ao Nordeste, no final de 1928 e começo de 1929. En-
quanto procurava conhecer a vida, os costumes, as músicas e tradições populares
dessas regiões, ele registrava tudo na forma de um diário, inclusive os modos de
falar das pessoas. Esses textos foram publicados como crônicas no Diário Nacional
e só se transformaram em livro em 1976, sob o título de O Turista Aprendiz.

Contista, ele deixou inacabado o livro Contos Novos (1946) em que se des-
tacam narrativas de inspiração freudiana, como “Vestida de preto” e “Frederico
paciência”, e contos de preocupação social, como “O poço” e “Primeiro de maio”.

Primeiro de maio (fragmento)


Mário de Andrade

Decidiu ir a-pé pra casa, foi a-pé, longe, fazendo um esforço penoso para
achar interesse no dia. Estava era com fome, comendo aquilo passava. Tudo
deserto, era por ser feriado, primeiro de maio. Os companheiros estavam
trabalhando, de vez em quando um carrego, os mais eram conversas diver-
tidas, mulheres de passagem, comentadas, piadas grossas com as mulatas
do jardim, mas só as bem limpas mais caras, que ele ganhava bem, todos
simpatizavam logo com ele, ora por que que hoje me deu de lembrar aquela
moça do apartamento!... Também: moça morando sozinha é no que dá. Em
todo caso, pra acabar o dia era uma ideia ir lá, com que pretexto?... Devia ter
ido em Santos, no piquenique da Mobiliadora, 12 paus o convite, mas o pri-
meiro de maio... Recusara, recusara repetindo o “não” de repente com raiva,
muito interrogativo, se achando esquisito daquela raiva que lhe dera. Então
conseguiu imaginar que esse piquenique monstro, aquele jogo de futebol
que apaixonava eles todos, assim não ficava ninguém pra celebrar o primeiro
de maio, sentiu-se muito triste, desamparado.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 52 16/2/2009 11:38:07


Mário de Andrade

Em carta a Carlos Drummond de Andrade, em 1924, Mário descreve a sua


literatura desta maneira: “Estraçalho a minha obra. Escrevo língua imbecil, penso
ingênuo, só pra chamar a atenção dos mais fortes do que eu pra este monstro
mole e indeciso ainda que é o Brasil.”

Como crítico literário, seu legado é imenso. Em A Escrava que não é Isaura
(1925), por exemplo, reúne ensaios provocativos contra o passadismo. Já em As-
pectos da Literatura Brasileira (1943) aborda, de maneira bem menos passional,
os mais importantes escritores da literatura brasileira.

Como romancista, Mário de Andrade criticou a hipocrisia sexual da alta so-


ciedade paulistana em Amar, Verbo Intransitivo (1927) e escreveu uma das obras-
-primas da literatura brasileira, a rapsódia Macunaíma, em que reúne numerosas
lendas e mitos indígenas para compor a história do “herói sem nenhum cará-
ter”, que, invertendo os relatos dos cronistas quinhentistas, vem da mata para
a cidade de São Paulo. O tom bem-humorado e a inventividade narrativa e lin-
guística fazem de Macunaíma uma das obras modernistas brasileiras mais afi-
nadas com a literatura de vanguarda no mundo na sua época. Nesse romance,
encontram-se Dadaísmo, Futurismo, Expressionismo e Surrealismo aplicados a
um vasto conhecimento das raízes da cultura brasileira.

Obras como Macunaíma ou Clã do Jabuti colocam em evidência o trabalho de


pesquisa de Mário de Andrade, que nelas frequentemente mistura elementos de
diversas regiões do país para desregionalizar sua obra.

Macunaíma
e a renovação da linguagem literária
Publicado em 1928, em uma tiragem de apenas 800 exemplares (Mário de
Andrade não conseguira editor), Macunaíma, o herói sem nenhum caráter é um
dos pilares da cultura brasileira.

Em uma narrativa fantástica e picaresca ou, melhor dizendo, “malandra”, her-


deira direta das Memórias de um Sargento de Milícias (1852) de Manuel Antônio
de Almeida, Mário de Andrade reelabora literariamente temas da mitologia in-
dígena e visões folclóricas da Amazônia e do resto do país, fundando uma nova
linguagem literária, saborosamente brasileira.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 53 16/2/2009 11:38:07


Modernismo na Literatura Brasileira

Disponível em: <www.vidaslusofonas.pt/capamacu.gif>.


Assim como o foram Memórias Sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim
Ponte Grande (1933), ambas de Oswald de Andrade, Macunaíma foi uma obra re-
volucionária na medida em que desafiou o sistema cultural vigente e, valendo-se
de uma nova organização da linguagem literária, propôs o lançamento de outras
informações culturais, diferente em tudo das posições mantidas por uma socie-
dade até então dominada pelo reacionarismo e o atraso cultural generalizado.

Nacionalista crítico, sem xenofobia, Macunaíma é a obra que melhor con-


cretiza as propostas do movimento da Antropofagia (1928), que foi criado por
Oswald de Andrade e buscava uma real igualdade entre a cultura brasileira e as
demais: não a rejeição pura e simples do que vem de fora, mas consumir aquilo
que há de bom na arte estrangeira; não evitá-la, mas, como um antropófago,
comer o que merece ser comido.

A rapsódia
Mário de Andrade conta que escreveu Macunaíma em seis dias, deitado, bem
à maneira de seu herói, em uma rede na Chácara de Sapucaia, em Araraquara (SP),

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Modernismo na literatura brasileira.indb 54 16/2/2009 11:38:07


Mário de Andrade

no ano de 1926. Diz ainda: “Gastei muito pouca invenção neste poema fácil de
escrever […]. Este livro afinal não passa duma antologia do folclore brasileiro.”

Disponível em: <www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/img/marionarede.jpg>.


Mário de Andrade na Rede – desenho de Lasar Segall.

Todavia, a obra é fruto de anos de pesquisa das lendas e mitos indígenas e


folclóricos que o autor reuniu utilizando a linguagem popular e oral de várias re-
giões do Brasil. Trata-se, por isso mesmo, de uma rapsódia – assim os gregos de-
signavam obras como a Ilíada ou a Odisseia de Homero, que reúnem séculos de
narrativas poéticas orais, resumindo as tradições folclóricas de todo um povo.

Para o musicólogo Mário de Andrade, o termo rapsódia certamente remete às


fantasias instrumentais que utilizam temas e processos de composição improvi-
sada, tirados de cantos tradicionais ou populares, como as rapsódias húngaras
de Liszt. Segundo Oswald de Andrade, “Mário escreveu nossa Odisseia e criou
duma tacapada o herói cíclico e por cinquenta anos o idioma poético nacional”.

É importante notar que, além de relatar numerosos mitos recolhidos e diver-


sas fontes populares, Mário de Andrade também inventa, de maneira irônica,
vários mitos da modernidade. Apresenta, entre outros, os mitos da criação do

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Modernismo na Literatura Brasileira

futebol, do truco, do gesto da “banana” ou da expressão “Vá tomar banho!”. Por-


tanto, há em Macunaíma, além da imensa pesquisa, muita invenção.

As fontes
Mário de Andrade nunca escondeu que tomou como fonte principal para a
redação de Macunaíma a obra Vom Roroima zum Orinoco (Do Roraima ao Ore-
noco), de Theodor Koch-Grunberg, publicada em cinco volumes, entre 1916 e
1924. Graças ao monumental trabalho de Manuel Cavalcanti Proença, Roteiro de
Macunaíma, podemos acompanhar como o escritor paulista foi reelaborando as
narrativas colhidas na obra do alemão, mesclando-a com outras fontes, como
livros de Capistrano de Abreu, Couto Magalhães, Pereira da Costa ou mesmo
relatos orais – como o que o grande compositor Pixinguinha lhe fez de uma ce-
rimônia de macumba – para ir tecendo sua rapsódia.

Os indígenas taurepangues ou arecunas habitam Roraima e Venezuela. Nas


lendas de heróis dessa tribo, apresentadas por Koch-Grunberg, Mário de Andra-
de encontrou o herói Macunaíma, que, segundo o estudioso alemão, “ainda era
menino, porém mais safado que todos os outros irmãos”. Nas palavras do poeta
e crítico Haroldo de Campos,
O próprio Koch-Grunberg, em sua “Introdução” ao volume, ressalta a ambiguidade do herói,
dotado de poderes de criação e transformação, nutridor por excelência, ao mesmo tempo,
todavia, malicioso e pérfido. Segundo o etnógrafo alemão, o nome do supremo herói tribal
parece conter como parte essencial a palavra maku, que significa “mau”, e o sufixo ima,
“grande”. Assim, Macunaíma significaria “O Grande Mau”, nome – observa Grunberg – “que
calha perfeitamente com o caráter intrigante e funesto do herói”. Por outro lado, os poderes
criativos de Macunaíma levaram os missionários ingleses em suas traduções da Bíblia para a
língua indígena a denominar o Deus cristão pelo nome do contraditório herói tribal, decisão
que Koch-Grunberg comenta criticamente.

O herói sem nenhum caráter


Foi, portanto, na obra do etnólogo alemão que Mário de Andrade, paradoxal
e muito antropofagicamente, encontrou a essência do brasileiro. O próprio autor
de Macunaíma, em prefácio que nunca chegou a publicar com o livro, conta
como ocorreu a descoberta:
O que me interessou por Macunaíma foi incontestavelmente a preocupação em que vivo de
trabalhar e descobrir o mais que possa a entidade nacional dos brasileiros. Ora depois de pelejar
muito verifiquei uma coisa que me parece certa: o brasileiro não tem caráter. Pode ser que
alguém já tenha falado isso antes de mim porém a minha conclusão é uma novidade para mim
porque tirada da minha experiência pessoal. E com a palavra caráter não determino apenas

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Modernismo na literatura brasileira.indb 56 16/2/2009 11:38:08


Mário de Andrade

uma realidade moral não, em vez entendo a entidade psíquica permanente, se manifestando
por tudo, nos costumes na ação exterior no sentimento na língua na História na andadura,
tanto no bem como no mal. O brasileiro não tem caráter porque não possui nem civilização
própria nem consciência tradicional.

Os franceses têm caráter e assim os jorubas e os mexicanos. Seja porque civilização própria,
perigo iminente, ou consciência de séculos tenham auxiliado, o certo é que esses uns têm
caráter. Brasileiro não. Está que nem o rapaz de 20 anos: a gente mais ou menos pode perceber
tendências gerais, mas ainda não é tempo de afirmar coisa nenhuma. […] Pois quando
matutava nessas coisas topei com Macunaíma no alemão de Koch-Grunberg. E Macunaíma é
um herói surpreendentemente sem caráter. (Gozei).

As metamorfoses pelas quais passa a personagem, de sabor surrealista, podem


muito bem ser associadas à sua “falta de caráter”, assim como o fascínio que revela
pela “língua de Camões”, na “Carta pras Icamiabas”, capítulo no centro do livro.

Foco narrativo
Embora predomine o foco da terceira pessoa, Mário de Andrade inova utili-
zando a técnica cinematográfica de cortes bruscos no discurso do narrador, in-
terrompendo-o para dar vez à fala dos personagens, principalmente Macunaíma.
Essa técnica imprime velocidade, simultaneidade e continuidade à narrativa.

Lá chegado ajuntou os vizinhos, criados a patroa cunhãs datilógrafos es-


tudantes empregados-públicos, muitos empregados-públicos! Todos esses
vizinhos e contou pra eles que tinha ido caçar na feira do Arouche e matara
dois…

– …mateiros, não eram viados mateiros, não, dois viados catingueiros


que comi com os manos. Até vinha trazendo um naco pra vocês mas porém
escorreguei na esquina, caí derrubei o embrulho e o cachorro comeu tudo.

(Capítulo XI – A Velha Ceiuci)

Espaço e tempo
As sucessivas estripulias de Macunaíma são vividas em um espaço mágico,
próprio da atmosfera fantástica e maravilhosa em que se desenvolve a narrati-
va. Em seu Roteiro de Macunaíma, Cavalcanti Proença afirma que Macunaíma se
aproxima da epopeia medieval, pois

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Modernismo na Literatura Brasileira

[...] tem de comum com aqueles heróis a sobre-humanidade e o maravilhoso. Está fora do
espaço e do tempo. Por esse motivo pode realizar aquelas fugas espetaculares e assombrosas
em que, da capital de São Paulo foge para a Ponta do Calabouço, no Rio, e logo já está em
Guarajá-Mirim, nas fronteiras de Mato Grosso e Amazonas para, em seguida, chupar manga-
-jasmim em Itamaracá de Pernambuco, tomar leite de vaca zebu em Barbacena, Minas Gerais,
decifrar litóglifos na Serra do Espírito Santo e finalmente se esconder no oco de um formigueiro,
na Ilha do Bananal, em Goiás.

Macunaíma é um personagem outsider, um marginal, um anti-herói, um fora-


-da-lei na medida em que se contrapõe a uma sociedade moderna, organizada
em um sistema racional, frio e tecnológico. Assim, o tempo é totalmente subver-
tido na narrativa. O herói do presente entra em contato com figuras do passado,
estabelecendo-se um curioso “diálogo com os mortos”: Macunaíma fala com João
Ramalho (séc. XVI), com os holandeses (séc. XVII), com Hércules Florence (séc. XIX)
e com Delmiro Gouveia (pioneiro da usina hidrelétrica de Paulo Afonso e industrial
nordestino que criou a primeira fábrica nacional de linhas de costura).

Enumerações e desregionalização
Em Macunaíma, chama a atenção do leitor atento a abundância de enumera-
ções. Já na primeira página do romance encontramos a enumeração das danças
tribais: “frequentava com aplicação a murua a poracê o torê o bacorocô a cucui-
cogue, todas essas danças religiosas da tribo”.

Tais listas colocam em evidência o trabalho de pesquisa de Mário de Andrade,


que nessas listas frequentemente mistura elementos de diversas regiões do país
ao buscar desregionalizar sua obra, procurando “conceber literariamente o Brasil
como entidade homogênea – um conceito étnico, nacional e geográfico”. Telê Porto
Ancona Lopez, grande estudiosa da obra de Mário, resume bem o problema:
Mário de Andrade realizava em suas leituras, pesquisa de palavras, termos e expressões
características dos diversos recantos do Brasil. Grifava e recolhia. Depois os empregava, nos
conjuntos os mais heterogêneos, procurando anular as especificações do regional, e dar uma
visão geral de Brasil […]. É pois, graças à coleta de palavras que Mário de Andrade desenvolve,
que Macunaíma pode apresentar tão frequentes enumerações de aves, peixes, insetos ou
frutas. Essas enumerações, além de válidas para a quebra do regionalismo, contribuem para
a criação de ritmo de embolada, alternando sílabas longas e breves, no trecho em que se
inserem. Ritmo procurado, aliás, porque o autor não usa vírgulas.

É importante ressaltar que tais listagens não devem afastar o leitor, que muitas
vezes se assusta com tantos nomes “estranhos”. Eles precedem sempre uma de-
finição generalizadora como “todas essas danças religiosas da tribo”. Assim, o

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Modernismo na literatura brasileira.indb 58 16/2/2009 11:38:08


Mário de Andrade

leitor não deve se apavorar com a nomenclatura desconhecida e pode deixar a


leitura fluir, sem necessariamente recorrer ao dicionário para verificar todos os
termos – mesmo porque não vai encontrar a maioria deles.

A “Carta pras Icamiabas”


Precisamente no meio da narrativa, no nono capítulo da obra, encontramos
um intermezzo, como o chamava o autor. Trata-se da “Carta pras Icamiabas”, sátira
feroz ao beletrismo parnasiano da época. Macunaíma escreve a suas súditas para
descrever-lhes a cidade de “São Paulo construída sobre sete colinas, à feição tra-
dicional de Roma, a cidade cesárea, capita da Latinidade de que provimos”. Mário
de Andrade inverte, aqui, portanto, os relatos dos cronistas quinhentistas, como
Pero Vaz de Caminha, Gabriel Soares de Sousa ou Pero de Magalhães Gândavo.
Agora é o índio que descreve a terra desconhecida para seus pares distantes.
Sem caráter, Macunaíma o faz tomando emprestada a linguagem rebuscada de
um Rui Barbosa ou de um Coelho Neto. A paródia torna-se hilariante devido aos
erros grosseiros cometidos pelo falso erudito, que escreve asneiras como “testí-
culos da Bíblia” por “versículos” ou “ciência fescenina” por “feminina”.

Com seu estilo pomposo, Macunaíma enuncia, na “Carta pras Icamiabas”, o


slogan que irá adotar para definir os problemas do Brasil:
Tudo vai num descalabro sem comedimento, estamos corroídos pelo morbo e pelos miriápodes!
Em breve seremos novamente uma colônia da Inglaterra ou da América do Norte!... Por isso e
para eterna lembrança destes paulistas, que são a única gente útil do país, e por isso chamados
de Locomotivas, nos demos ao trabalho de metrificarmos um dístico, em que se encerram os
segredos de tanta desgraça:

POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA,

OS MALES DO BRASIL SÃO.


Este dístico é que houvemos por bem escrevermos no livro de Visitantes Ilustres do Instituto
Butantã, quando foi da nossa visita a este estabelecimento famoso na Europa.

Esse slogan recupera conhecido poema de Gregório de Matos (1636-1695),


em que o poeta satírico baiano enumera as vilezas do país, terminando cada
estrofe com o irônico refrão “Milagres do Brasil são.” Remete, também, à frase do
cronista Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853): “Ou o Brasil acaba com a saúva ou
a saúva acaba com o Brasil”.

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Modernismo na Literatura Brasileira

Texto complementar

Trechos escolhidos da “Carta pras Icamiabas”


(ANDRADE, 1988, p. 72-85)

Às mui queridas súbditas nossas Senhoras Amazonas.

Trinta de Maio de Mil Novecentos e Vinte e Seis, São Paulo.

Senhoras:

Não pouco vos surpreenderá, por certo, o endereço e a literatura desta


missiva. Cumpre-nos, entretanto, iniciar estas linhas de saudades e muito
amor, com desagradável nova. É bem verdade que na boa cidade de São
Paulo – a maior no universo, no dizer de seus prolixos habitantes – não sois
conhecidas por “icamiabas”, voz espúria, sinão que pelo apelativo de Ama-
zonas; e de vós, se afirma, cavalgardes ginetes belígeros e virdes da Hélade
clássica; e assim sois chamadas. Muito nos pesou a nós, Imperador vosso,
tais dislates da erudição porém heis de convir conosco que, assim, ficais mais
heroicas e mais conspícuas, tocadas por essa plátina respeitável da tradição
e da pureza antiga. Mas não devemos esperdiçarmos vosso tempo fero, e
muito menos conturbarmos vosso entendimento, com notícias de mau cali-
bre; passemos, pois, imediato, ao relato dos nossos feitos por cá.

Nem cinco sóis eram passados que de vós nos partíramos, quando a mais
bela desdita pesou sobre nós. Por uma bela noite dos idos de maio do ano
translato, perdíamos a muiraquitã [...]

II

Sabereis mais que as donas de cá não se derribam a pauladas, nem brin-


cam por brincar, gratuitamente, senão que a chuvas do vil metal, repuxos
brasonados de champagne, e uns monstros comestíveis, a que, vulgarmente,
dão o nome de lagosta. E que monstros encantados, senhoras Amazonas!!!

[...]

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Modernismo na literatura brasileira.indb 60 16/2/2009 11:38:08


Mário de Andrade

Pois é com esse delicado monstro, vencedor dos mais delicados véus pa-
ladinos, que as donas de cá tombam nos leitos nupciais. Assim haveis de
compreender de que alvíçaras falamos; porque as lagostas são caríssimas,
caríssimas subditas, e algumas hemos nós adquiridas por 60 contos e mais;
o que convertido em nossa moeda tradicional, alcança a vultosa soma de 80
milhões de bagos de cacau... Bem podereis conceber, pois, quanto hemos já
gasto; e que já estamos carecido do vil metal, para brincar com tais difíceis
donas. Bem quiséramos impormos à nossa ardida chama uma abstinência,
penosa embora, para vos pouparmos despesas; porém que ánimo forte não
cedera ante os encantos e galanteios de tão agradáveis pastoras!

Andam elas vestidas de rutilantes joias e panos finíssimos, que lhes acentuam
o donaire do porte, e mal encobrem as graças, que, a de nenhuma outra cedem
pelo formoso do torneado e pelo tom. São sempre alvíssimas as donas de cá; e
tais e tantas habilidades demonstram, no brincar, que enumerá-las, aqui, seria
fastiendo porventura; e, certamente, quebraria os mandamentos de discrição,
que em relação de Imperator para súbditas se requer. Que beldades! Que ele-
gância! que cachet! Que degagé flamífero, ignívomo, devorador!! Só pensamos
nelas, muito embora não nos descuidemos, relapso, da nossa muiraquitã.

Nós, nos parece, ilustres Amazonas, que assaz ganharíeis em aprender-


des com elas, as condescendências, os brincos e passes do Amor. Deixaríeis
então a vossa orgulhosa e solitária Lei, por mais amáveis mesteres, em que
o Beijo sublima, as Volúpias encandecem, e se demonstra gloriosa, urbit et
orbe, a subtil força do Odor di Fêmia, como escrevem os italianos.

E já que nos detivemos neste delicado assunto, não no abandonaremos


sem mais alguns reparos, que vos poderão ser úteis. As donas de São Paulo,
sobre serem mui formosas e sábias, não se contentam com os dons e exce-
léncia que a Natura lhes concedeu; assaz se preocupam elas de si mesmas; e
não puderem acabarem consigo, que não mandassem vir de todas as partes
do globo, tudo o que de mais sublimado e gentil acrisolou a sciéncia fesce-
nina, digo, feminina das civilizações avitas. Assim é que chamaram mestras
da velha Europa, e sobretudo de França, e com elas aprendera a passarem
o tempo de maneira bem diversa da vossa. Ora se alimpam, e gastam horas
nesse delicado mester, ora encantam os convívios teatrais da sociedade, ora
não fazem coisa alguma; e nesses trabalhos passam elas o dia tão entreteci-
das e afanosas que, em chegando a noute, mal lhes sobra vagar para brin-
carem e presto se entregam nos braços de Orfeu, como se diz. Mas heis de

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Modernismo na Literatura Brasileira

saber, senhoras minhas, que por cá dia e noute divergem singularmente do


vosso horário belígero; o dia começa quando para vós é o pino dele, e a noute,
quando estais no quarto sono vosso, que, por derradeiro, é o mais reparador.

[...]

Já agora vos falaremos ainda, bem que por alto, dum nitente armento de
senhoras, originárias da Polónia, que aqui demoram e imperam generosa-
mente. São elas mui alentadas no porte e mais numerosas que as areias do
mar oceano. Como vós, senhoras Amazonas, tais damas formam um gineceu;
estando os homens que em suas casas delas habitam, reduzidos escravos e
condenados ao vil ofício de servirem. E por isso não lhes chamam homens,
sinão que à voz espúria de garçons respondem; e são assaz polidos e silentes,
e sempre do mesmo indumento gravebundo trajam.

Vivem essas damas encasteladas num mesmo local, a que chamam por
cá de quarteirão, e mesmo de pensões ou “zona estragada”; sobrelevando
notar que a derradeira destas expressões não caberia, por indina nesta notí-
cia sobre as coisas de São Paulo, não fora o nosso anseio de sermos exacto e
conhecedor. Porém si como vós, formam essas queridas senhoras um clã de
mulheres, muito de vós se apartam no físico, no género de vida e nos ideais.
Assim vos diremos que vivem à noute, e se não dão aos afazeres de Marte
nem queimam o destro seio, mas a Mercúrio cortejam tão somente; e quanto
aos seios, deixam-nos evolverem, à feição de gigantescos e flácidos pomos,
que, si lhes não acrescentam ao donaire, servem para numerosos e árduos
trabalhos de excelente virtude e prodigiosa excitação.

Ainda lhes difere o físico, tanto ou quanto monstruoso, bem que de


amável monstruosidade, por terem elas o cérebro nas partes pudendas, e,
como tão bem se diz em linguagem madrigalesca, o coração nas mãos.

Falam numerosas e mui rápidas línguas; são viajadas e educadíssimas;


sempre todas obedientes por igual, embora ricamente díspares entre si,
quais morenas, quais fossem maigres, quais rotundas; e de tal sorte abun-
dantes no número e diversidade, que muito nos preocupa a razão, o serem
todas e tantas, originais dum país somente. Acresce ainda que a todas se lhe
dão o excitante, embora injusto, epíteto de “francesas”. A nossa desconfiança
é que essas damas não se originaram todas da Polónia, porém que faltam à
verdade, e são iberas, itálicas, germánicas, turcas, argentinas, peruanas, e de
todas as outras partes férteis de um e outro hemisfério.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 62 16/2/2009 11:38:08


Mário de Andrade

[...]

II

É São Paulo construída sobre sete colinas, à feição tradicional de Roma,


a cidade cesárea, capita da Latinidade de que provimos; e beija-lhe os pés a
grácil e inquieta linfa do Tietê. As águas são magníficas, os ares tão amenos
quanto os de Aquisgrana ou de Anverres, e a área tão a eles igual em salubri-
dade e abundância, que bem se podera afirmar, ao modo fino dos cronistas,
que de três AAA se gera espontaneamente a fauna urbana.

Cidade é belíssima, e grato o seu convívio. Toda cortada de ruas habilmente


estreitas, tomadas por estátuas e lampiões graciosíssimos e de rara escultura;
tudo diminuindo com astúcia o espaço de forma tal, que nessas artérias não
cabe a população. Assim se obtém o efeito dum grande acúmulo de gentes,
cuja estimativa pode ser aumentada à vontade, o que é propício às eleições
que são invenção dos inimitáveis mineiros; ao mesmo tempo que os edis dis-
põem de largo assunto com que ganhem dias honrados e a admiração de
todos, com surtos de eloquência do mais puro estilo e sublimado lavor.

As ditas artérias são todas recamadas de ricocheteantes papeizinhos e velí-


volas cascas de fruitos; e em principal duma finíssima poeira, e mui dançarina,
em que se despargem diariamente mil e uma espécimens de vorazes macró-
bios, que dizimam a população. Por essa forma resolveram, os nossos maiores,
o problema da circulação; pois que tais insetos devoram as mesquinhas vidas
da ralé e impedem o acúmulo de desocupados e operários: e assim se conser-
vam sempre as gentes em número igual. E não contentes com essa poeira ser
erguida pelo andar dos pedestrianistas e por urrantes máquinas a que chamam
automóveis e eléctricos, (empregam alguns a palavra Bond, voz espúra, vinda
certamente do inglês) contrataram os diligentes edis, uns antropóides, mons-
tros hipocentáureos azulegos e monótonos, a que congloba o título de Lim-
peza Pública; que per amica silentia lunae, quando cessa o movimento e o pó
descansa inócuo, saem das suas mansões, e, com os rabos girantes a modo
de vassouras cilíndricas, puxadas por muares, soerguem do asfalto a poeira
e tiram os insectos do sono, e os concitam à actividade com largos gestos e
grita formidanda. Estes afazeres nocturnos são discretamente conduzidos por
pequeninas luzes, dispostas de longe e longe, de maneira a permanecer quasi
total a escuridade, não perturbem elas os trabalhos de malfeitores e ladrões.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 63 16/2/2009 11:38:08


Modernismo na Literatura Brasileira

[...]

III

Porém, senhoras minhas! Inda tanto nos sobra, por este grandioso país, de
doenças e insectos por cuidar!... Tudo vai num descalabro sem comedimen-
to, estamos corroídos pelo morbo e pelos miriápodes! Em breve seremos no-
vamente uma colônia da Inglaterra ou da América do Norte!... Por isso e para
eterna lembrança destes paulistas, que são a única gente útil do país, e por
isso chamados de Locomotivas, nos demos ao trabalho de metrificarmos um
dístico, em que se encerram os segredos de tanta desgraça:

POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA,

OS MALES DO BRASIL SÃO.

Este dístico é que houvemos por bem escrevermos no livro de Visitantes


Ilustres do Instituto Butantã, quando foi da nossa visita a este estabeleci-
mento famoso na Europa.

[...]

IV

Ora sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa,


que falam numa língua e escrevem noutra. Assim chegado a estas plagas
hospitalares, nos demos ao trabalho de bem nos inteirarmos da etnologia da
terra, e dentre muita surpresa e assombro que se nos deparou por certo não
foi das menores tal originalidade linguística. Nas conversas, utilizam-se os
paulistanos dum linguajar bárbaro e multifário, crasso de feição e impuro na
vernaculidade, mas que não deixa de ter o seu sabor e força nas apóstrofes,
e também nas vozes do brincar. Destas e daquelas nos inteiramos, solícito;
e nos será grata empresa vô-las ensinarmos aí chegado. Mas si de tal des-
prezível língua se utilizam na conversação os naturais desta terra, logo que
tomam da pena, se despojam de tanta asperidade, e surge o Homem Latino,
de Lineu, exprimindo-se numa outra linguagem, mui próxima da vergiliana,
no dizer dum panegirista, meigo idioma, que, com imperecível galhardia, se
intitula: língua de Camões! De tal originalidade e riqueza vos há-de ser grato
ter sciéncia, e mais ainda vos espantareis com saberdes, que a grande e
quasi total maioria, nem essas duas línguas bastam, senão que se enrique-
cem do mais lídimo italiano, por mais musical e gracioso, e que por todos

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Modernismo na literatura brasileira.indb 64 16/2/2009 11:38:08


Mário de Andrade

os recantos da urbs é versado. De tudo nos inteiramos satisfactoriamente,


graças aos deuses; e muitas horas hemos ganho, discreteando sobre o z do
termo Brazil e a questão do pronome se. Outrossim, hemos adquirido muitos
livros bilíngues, chamados burros, e o dicionário Pequeno Larousse; e já esta-
mos em condições de citarmos no original latino muitas frases célebres dos
filósofos e os testículos da Bíblia.

Estudos literários
1. Que características da prosa modernista podem ser identificadas no trecho
de Macunaíma reproduzido a seguir?

A chegada de Macunaíma e seus irmãos a São Paulo


E foi numa boca-da-noite fria que os manos toparam com a cidade macota
de São Paulo esparramada a beira-rio do igarapé Tietê. Primeiro foi a gritaria
da papagaiada imperial se despedindo do herói. E lá se foi o bando sarapin-
tado volvendo pros matos do norte.

Os manos entraram num cerrado cheio de inajás ouricuris ubusssus baca-


bas mucajás miritis tucumãs trazendo no curuatá uma penachada de fumo em
vez de palmas e cocos. Todas as estrelas tinham descido do céu branco de tão
molhado de garoa e banzavam pela cidade. Macunaíma lembrou de procurar
Ci. Êh! dessa ele nunca poderia esquecer não, porque a rede feiticeira que ela
armara pros brinquedos fora tecida com os próprios cabelos dela e isso torna a
tecedeira inesquecível. Macunaíma campeou campeou mas as estradas e terrei-
ros estavam apinhados de cunhãs tão brancas tão alvinhas, tão!… Macunaíma
gemia. Roçava nas cunhãs murmurejando com doçura: “Mani! Mani! filhinhas da
mandioca…” perdido de gosto e tanta formosura. Afinal escolheu três. Brincou
com elas na rede estranha plantada no chão, numa maloca mais alta que a Para-
naguara. Depois, por causa daquela rede ser dura, dormiu de atravessado sobre
os corpos das cunhãs. E a noite custou pra ele quatrocentos bagarotes.

A inteligência do herói estava muito perturbada. Acordou com os berros da


bicharia lá embaixo nas ruas, disparando entre as malocas temíveis. E aquele

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Modernismo na literatura brasileira.indb 65 16/2/2009 11:38:08


Modernismo na Literatura Brasileira

diacho de sagui-açu que o carregara pro alto do tapiri tamanho em que dor-
mira… Que mundo de bichos! que despropósito de papões roncando, mauaris
juruparis sacis e boitatás nos atalhos nas socavas nas cordas dos morros furados
por grotões donde gentama saía muito branquinha branquíssima, de certo a
filharada da mandioca!… A inteligência do herói estava muito perturbada. As
cunhãs rindo tinham ensinado pra ele que o sagui-açu não era saguim não,
chamava elevador e era uma máquina. De-manhãzinha ensinaram que todos
aqueles piados berros cuquiadas sopros roncos esturros não eram nada disso
não, eram mas cláxons campainhas apitos buzinas e tudo era máquina. As onças
pardas não eram onças pardas, se chamavam fordes hupmobiles chevrolés
dodges mármons e eram máquinas. Os tamanduás os boitatás as inajás de curu-
atás de fumo, em vez eram caminhões bondes autobondes anúncios-luminosos
relógios faróis rádios motocicletas telefones gorjetas postes chaminés… Eram
máquinas e tudo na cidade era só máquina! O herói aprendendo calado. De vez
em quando estremecia. Voltava a ficar imóvel escutando assuntando maqui-
nando numa cisma assombrada. Tomou-o um respeito cheio de inveja por essa
deusa de deveras forçuda, Tupã famanado que os filhos da mandioca chama-
vam de Máquina, mais cantadeira que a Mãe-d’água, em bulhas de sarapantar.

Então resolveu ir brincar com a Máquina pra ser também imperador dos
filhos da mandioca. Mas as três cunhãs deram muitas risadas e falaram que
isso de deuses era gorda mentira antiga, que não tinha deus não e que com a
máquina ninguém não brinca porque ela mata. A máquina não era deus não,
nem possuía os distintivos femininos de que o herói gostava tanto. Era feita
pelos homens. Se mexia com eletricidade com fogo com água com vento
com fumo, os homens aproveitando as forças da natureza. Porém jacaré
acreditou? nem o herói! Se levantou na cama e com um gesto, esse sim! bem
guaçu de desdém, tó! batendo o antebraço esquerdo dentro do outro dobra-
do, mexeu com energia a munheca direita pras três cunhãs e partiu. Nesse
instante, falam, ele inventou o gesto famanado de ofensa: a pacova.

E foi morar numa pensão com os manos. Estava com a boca cheia de sa-
pinhos por causa daquela primeira noite de amor paulistano. Gemia com as
dores e não havia meios de sarar até que Maanape roubou uma chave de
sacrário e deu pra Macunaíma chupar. O herói chupou chupou e sarou bem.
Maanape era feiticeiro.

Macunaíma passou então uma semana sem comer nem brincar só maqui-
nando nas brigas sem vitória dos filhos da mandioca com a Máquina. A Máquina

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Modernismo na literatura brasileira.indb 66 16/2/2009 11:38:09


Mário de Andrade

era que matava os homens porém os homens é que mandavam na Máquina…


Constatou pasmo que os filhos da mandioca eram donos sem mistério e sem
força da máquina sem mistério sem querer sem fastio, incapaz de explicar as
infelicidades por si. Estava nostálgico assim. Até que uma noite, suspenso no
terraço dum arranhacéu com os manos, Macunaíma concluiu:

- Os filhos da mandioca não ganham da máquina nem ela ganha deles


nesta luta. Há empate.

Não concluiu mais nada porque inda não estava acostumado com discur-
sos porém palpitava pra ele muito embrulhadamente muito! que a máquina
devia de ser um deus de que os homens não eram verdadeiramente donos
só porque não tinham feito dela uma Iara explicável mas apenas uma reali-
dade do mundo. De toda essa embrulhada o pensamento dele sacou bem
clarinha uma luz: Os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram
homens. Macunaíma deu uma grande gargalhada. Percebeu que estava livre
outra vez e teve uma satisfa mãe. Virou Jiguê na máquina telefone, ligou pros
cabarés encomendando lagostas e francesas.

(Capítulo V – Piaimã)

Leia os textos a seguir e depois responda as questões 2 e 3.

Iracema
José de Alencar

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu
Iracema.

Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros
que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 67 16/2/2009 11:38:09


Modernismo na Literatura Brasileira

O favo da jati não era doce como o seu sorriso; nem a baunilha recendia
no bosque como o seu hálito perfumado.

Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as


matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo da grande nação tabajara.
O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a
terra com as primeiras águas.

Macunaíma
Mário de Andrade

No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era


preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio
foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhu-
mas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.

Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis


anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava:

— Ai! que preguiça!...

2. Romantismo e Modernismo são dois movimentos literários de fundo nacio-


nalista. Com base nessa afirmação, indique pontos de contato entre as obras
Iracema e Macunaíma que podem ser comprovados pelos excertos.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 68 16/2/2009 11:38:09


Mário de Andrade

3. Encontre, nos trechos, ao menos uma diferença entre o estilo de Mário de


Andrade e o de José de Alencar.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 69 16/2/2009 11:38:09


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Modernismo na literatura brasileira.indb 70 16/2/2009 11:38:09


Manuel Bandeira

Vida que podia ter sido


Manuel Bandeira (1886-1968) nasceu no Recife, mas se mudou cedo
para o Rio de Janeiro. Segundo conta em Itinerário de Pasárgada (1954),
ele redescobriu Recife por meio de Gilberto Freyre (1900-1987), que co-
nhecera em 1925 e “cuja sensibilidade tão pernambucana muito concor-
reu para me reconduzir ao amor da província, e a quem devo ter podido
escrever naquele mesmo ano a minha “Evocação do Recife”.

Aos 17 anos, Bandeira ingressou na Escola Politécnica de São Paulo,


em que, naquela época, formavam-se os arquitetos. Descobriu, então, ter
contraído tuberculose (doença que descreve com melancólica ironia no
poema “Pneumotórax”, publicado em 1930 no livro Libertinagem) e foi
obrigado a desistir do curso:

Pneumotórax
Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:


— Diga trinta e três.
— Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
— Respire.

....................................................................................................................................
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão
direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 71 16/2/2009 11:38:09


Modernismo na Literatura Brasileira

Em 1913, viajou para a Suíça, a fim de se tratar. No sanatório de Clavadel,


entrou em contato com o poeta surrealista Paul Éluard (1895-1952) e, como
conta no Itinerário de Pasárgada, “pela primeira vez pensou seriamente em publi-
car um livro de versos”. Ficou na Suíça até 1914. Em 1917, publicou seu primeiro
livro, A Cinza das Horas, de forte influência simbolista, mas já apresentando, ainda
que de forma tímida, o uso do verso livre modernista. Seus dois livros seguintes,
Carnaval (1919) e O Ritmo Dissoluto (1924) continuam essa linha – Simbolismo,
como no poema “Alumbramento” de Carnaval (“Eu vi o mar! Lírios de espuma/
Vinham desabrochar à flor/ Da água que o vento desapruma...”, salpicado de al-
gumas inovações modernistas, como o famoso poema “Os sapos”, publicado em
Carnaval e lido na Semana de Arte Moderna, em 1922.

O contato com os jovens poetas paulistanos, principalmente Mário de Andra-


de (1893-1945) e Oswald de Andrade (1890-1954), fez com que Bandeira inten-
sificasse o experimentalismo de vanguarda e em 1930 ele publicou o seu livro
mais ousado, Libertinagem, em que sua adesão ao Modernismo se cristaliza in-
teiramente, como nos poemas “Poética” e “Poema tirado uma notícia de jornal”:
Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem
número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

Essa tendência é continuada no livro seguinte, Estrela da Manhã (1936). Vivendo


modestamente e lutando contra a doença (como Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987), descreve no poema “Rotinas”: “o poeta/ cumprindo sem revolta/ sem
amargura/ o estatuto civil da pobreza”), Manuel Bandeira atingiu a década de 1940,
quando os avanços da medicina garantiram, se não a cura, ao menos uma vida
melhor para os tuberculosos (no poema “Autorretrato”, Manuel Bandeira assim se
resume: “E em matéria de profissão/ Um tísico profissional”). Nessa época, passou a
lecionar literatura no Colégio Dom Pedro II e, em seguida, na Universidade do Brasil.
Admirado por todo o país, ele continuou a construir uma obra pautada pela inova-
ção e a curiosidade, mas sempre retornando ao tema da morte com um humor para-
doxalmente melancólico. O espírito aberto não o abandonou até a morte, em 1968.

No final dos anos de 1950, foi com entusiasmo que Bandeira recebeu a revo-
lução feita na poesia brasileira pelos poetas concretistas e chegou a fazer alguns
poemas concretos.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 72 16/2/2009 11:38:09


Manuel Bandeira

Sua obra poética completa, incluindo os poemas traduzidos (isto é, poemas


de outros autores traduzidos por Bandeira), foi reunida no volume Estrela da Vida
Inteira.

Quando “a indesejada das gentes” chegou, em 1968, por certo encontrou


muito mais do que “a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar”: a
morte levou um poeta que, apesar de prever que viveria uma “vida inteira que
podia ter sido e que não foi”, deixou, com sua arte, sua humilde e rigorosa poesia,
uma marca profunda na memória do povo brasileiro. Como o próprio Bandeira
colocou no Itinerário de Pasárgada, “Não sou arquiteto, como meu pai deseja-
va, não fiz nenhuma casa, mas reconstruí e ‘não como forma imperfeita neste
mundo de aparências’, uma cidade ilustre, que hoje não é mais a Pasárgada de
Ciro, e sim a ‘minha’ Pasárgada.”

Preparação para a morte


Manuel Bandeira

A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu voo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 73 16/2/2009 11:38:09


Modernismo na Literatura Brasileira

Libertinagem
Publicado em 1930, Libertinagem é composto de 38 poemas – três poemas
em formas tradicionais, dois em prosa e 33 em verso livre. A obra tem como
temas principais a infância, a família, os amigos, Recife, a tuberculose, o amor, a
morte, Pasárgada e a própria poesia (metalinguagem).

É possível notar em Libertinagem a influência das vanguardas europeias.


Além da forte presença do verso livre, pode-se perceber o coloquialismo, o uso
da oralidade e da subversão gramatical. Esse recurso enfatiza o prosaísmo, a re-
presentação do comum, do trivial e do cotidiano:

Porquinho-da-índia
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
– O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.

Há ainda na obra o poema-piada, carregado de humor e ironia, que muitas


vezes utiliza a paródia e a intertextualidade. Ou o poema-pílula, em sua brevidade
e concisão:

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Modernismo na literatura brasileira.indb 74 16/2/2009 11:38:09


Manuel Bandeira

Irene no céu

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
— Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

A poesia de Bandeira é permeada por um lirismo confessional, um “romantismo


modernista”. Com estilo humilde e simplicidade sublime, sua poesia é um alum-
bramento, uma epifania ou apreensão intuitiva da realidade, uma iluminação:
O impossível carinho

Escuta, eu não quero contar-te meu desejo;


Quero apenas contar-te minha ternura;
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás;
Eu te pudesse repor;
- Eu te soubesse repor -;
No coração despedaçado;
As mais puras alegrias de tua infância!

Com base nessas características e no livro Manuel Bandeira: humildade, paixão


e morte (1990), do crítico Davi Arrigucci Jr., a poética de Manuel Bandeira poderia
ser representada no esquema abaixo.

Morte Humildade Paixão

Ironia “à margem“ Alumbramento

É compreensível que a morte seja uma grande preocupação do poeta. Ela


sempre é vista com ironia e o seu perigo (por causa da tuberculose) o coloca “à
margem” das atividades e da normalidade da vida social:
Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria...

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Modernismo na literatura brasileira.indb 75 16/2/2009 11:38:09


Modernismo na Literatura Brasileira

Abaixo Amiel1!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff2.

Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.


Perdi a saúde também.
É por isso que eu sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.

Uns tomam éter, outros cocaína.


Eu tomo alegria!
Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.

Essa sensação de deslocamento é reforçada pela humildade da voz lírica, que


sempre se esconde, procurando se anular na paisagem poética. No entanto, tra-
ta-se de uma voz cheia de paixão, da passionalidade do alumbramento, do ser
que observa e, deslumbrado, mal consegue agir. Vejamos um dos mais conheci-
dos poemas de Manuel Bandeira:

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada Mando chamar a mãe-d’água


Lá sou amigo do rei Pra me contar histórias
Lá tenho a mulher que eu quero Que no tempo de eu menino
Na cama que escolherei Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada Em Pasárgada tem tudo


Aqui não sou feliz É outra civilização
Lá a existência é uma aventura Tem um processo seguro
De tal modo inconsequente De impedir a concepção
Que Joana a Louca de Espanha Tem telefone automático
Rainha e falsa demente Tem alcaloide à vontade
Vem a ser contraparente Tem prostitutas bonitas
Da nora que nunca tive Para gente namorar

E como farei ginástica E quando eu estiver mais triste


Andarei de bicicleta Mas triste de não ter jeito
Montarei em burro bravo Quando de noite me der
Subirei no pau-de-sebo Vontade de me matar
Tomarei banhos de mar! – Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
E quando estiver cansado Na cama que escolherei
Deito na beira do rio Vou-me embora pra Pasárgada.

1
Henri-Frédéric Amiel (1821-1881), filósofo e poeta suíço, autor de um diário íntimo. (NE)
2
Maria Bashkirtseff (1858-1884), artista plástica ucraniana, autora de um diário íntimo que foi publicado postumamente e causou algum escândalo. (NE)

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Modernismo na literatura brasileira.indb 76 16/2/2009 11:38:09


Manuel Bandeira

Trata-se de um dos poemas mais escapistas da nossa literatura. Influencia-


do pela “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, em que o eu lírico afirma que
“em cismar sozinho à noite/ mais prazer encontro eu lá”, o poema de Bandeira
apresenta uma cidade imaginária, apesar de remeter a uma cidade real, sobre a
qual o menino Manuel Bandeira ouvira falar no colégio. Nessa cidade, o eu lírico
vive uma situação absolutamente oposta à de Bandeira e à da tendência da sua
poesia: em Pasárgada, o eu lírico é “amigo do rei”, ou seja, nada humilde. Lá ele
tem a mulher que quer na cama que escolhe... Não se trata exatamente de um
alumbramento.

Ao contrário do normal na poesia de Bandeira, aqui o eu lírico logo descarta a


morte e vai fazer uma série de atividades que eram proibidas a um tuberculoso.
Em outras palavras, um dos mais conhecidos poemas de Manuel Bandeira apre-
senta exatamente a antítese do seu procedimento (poético e existencial).

Vejamos agora outro dos mais conhecidos poemas do poeta pernambucano:

Evocação do Recife

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
– Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado


e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!

À distância as vozes macias das meninas politonavam:


Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão

(Dessas rosas muita rosa


Terá morrido em botão...)

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Modernismo na literatura brasileira.indb 77 16/2/2009 11:38:09


Modernismo na Literatura Brasileira

De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
– Capibaribe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
– Capibaribe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos

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Modernismo na literatura brasileira.indb 78 16/2/2009 11:38:09


Manuel Bandeira

É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.

Nesse poema, passado e presente estabelecem entre si uma relação de opo-


sição. O polo do passado é positivo, pois nele a vida se condensa na infância feliz,
protegida pela família, rodeada de amigos, identificada com seu espaço. A pas-
sada infância, reinventada entre a experiência e a imaginação, é evocada – como
ocorre também em uma passagem de “Vou-me embora pra Pasárgada” – como
imagem da felicidade. O polo negativo (o presente) define-se pelas noções de
ausência e de carência, associadas à imagem da morte. De modo muito signifi-
cativo, porém, o passado está morto e é o presente que lhe dá vida.

Texto complementar

Autorretrato
Manuel Bandeira

Provinciano que nunca soube


Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;

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Modernismo na literatura brasileira.indb 79 16/2/2009 11:38:09


Modernismo na Literatura Brasileira

Arquiteto falhado, músico


Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

Estudos literários
As questões 1 e 2 baseiam-se nos textos a seguir.

Texto 1
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil.
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada.

(Evocação do Recife, Manuel Bandeira.)

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Modernismo na literatura brasileira.indb 80 16/2/2009 11:38:09


Manuel Bandeira

Texto 2
Defesa da inventividade popular (“o povo é o inventa-línguas”, Maiakó-
vski) contra os burocratas da sensibilidade, que querem impingir ao povo,
caritativamente, uma arte oficial, de “boa consciência”, ideologicamente re-
tificada, dirigida.

Mas o povo cria, mas o povo engenha, mas o povo cavila. O povo é o inven-
ta-línguas, na malícia da mestria, no matreiro da maravilha. O visgo do impro-
viso, tateando a travessia, azeitava o eixo do sol... O povo é o melhor artífice.

(Circuladô de Fulô, Haroldo de Campos.)

Texto 3
Vai chegando o mês de agosto E muito bem expricada,
A tarde fica embaçada Dizeno que eu não insurto
Passarinho canta triste Mas topo quarqué parada.
A curianguinha e urutaga. Tenho feito pé cascudo
Gavião encorujado Saí pisano na geada,
Dorme nas arta copada, Saí derrubano orvaio
Nambuzinho pia triste, Com a carcinha arregaçada.
Dano vorta nas paiada,
Meu coração amagoa Nesse tempo tudo forga
Dá dolorosas paficada. Só minha vida é apertada.
O povo diz que não acha
Quando eu entro no salão Serviço de camarada.
Com minha viola afinada, Eu trabaio até de noite
Eu canto uma moda arta Pra dá conta da empreitada.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 81 16/2/2009 11:38:09


Modernismo na Literatura Brasileira

Pego moda por empreita O zunzum das muié casada,


Pra inventá e pôr toada, Tão gavano as minha moda
Invento moda na linha Por tê palavra apertada.
Nos campeão dano lambada. Os campeão fica num canto,
Tudo o povo dão risada
Nas festa que eu chego e canto, Eles sai devagarinho
Moça fica arvoroçada. Corre quando pega a estrada.
Na cozinha eu escuito (Pé Cascudo, Oscar Martins e Vieira.)

1. Nos textos 1 e 2, Manuel Bandeira e Haroldo de Campos enfocam a esponta-


neidade da “língua do povo” e aspectos da inventividade presentes na arte
popular.

a) Cite pelo menos um trecho de cada autor em que eles criticam e denun-
ciam nosso preconceito e desapreço às formas populares de expressão.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 82 16/2/2009 11:38:09


Manuel Bandeira

b) Cite um trecho de Manuel Bandeira que focaliza o aspecto de oralidade


na comunicação, tão característico da literatura popular.

2. A letra de “Pé cascudo” constitui-se de procedimentos versificatórios bastan-


te uniformes e regulares que, em muitos casos, aproximam essa moda de
viola da chamada “literatura oficial”: são estrofes em décimas (10 versos em
cada estrofe), com rimas alternando versos brancos e versos pares rimados,
e metrificação heptassílaba (sete sílabas métricas em cada verso), de acordo
com os padrões da redondilha maior.

a) Cite dois versos ou dois trechos em que o poeta fala de sua “inventivida-
de” ou da condição de “artífice” do bom violeiro.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 83 16/2/2009 11:38:09


Modernismo na Literatura Brasileira

b) Cite um trecho de Haroldo de Campos que serviria como comentário


concordante com as citações que você apresentou no item “a”.

3. No Manifesto da Poesia Pau-Brasil, Oswald de Andrade condena o purismo


gramatical dos parnasianos e defende a “contribuição milionária de todos
os erros”. Destaque um verso do poema de Bandeira que exemplifica esse
princípio estético da fase heroica do Modernismo brasileiro.

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Manuel Bandeira

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Modernismo na literatura brasileira.indb 86 16/2/2009 11:38:09


A poesia da Geração de 1930 no Brasil

Por que a Geração de 1930 foi tão fértil?


Depois da denominada fase heroica do Modernismo brasileiro, cujo
marco é a Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São
Paulo, em 1922, quando os pioneiros modernistas brasileiros lutaram para
implantar no país as inovações das vanguardas europeias, surgiu uma ge-
ração de poetas e romancistas das mais férteis e ricas em toda a história da
literatura brasileira. Os modernistas de 1922 abriram o caminho para que
os novos prosadores e poetas pudessem criar em liberdade, sem as amar-
ras formais do academicismo, e preocupados com a realidade nacional.

Surgiram, assim, durante a década de 1930, romancistas regionalistas


como Graciliano Ramos (1892-1953), José Lins do Rego (1901-1957), Jorge
Amado (1912-2001) e Rachel de Queiroz (1910-2003), que chamaram a aten-
ção para os problemas sociais das regiões mais carentes do Brasil, utilizando-
-se da linguagem coloquial e crítica, herdada dos primeiros modernistas.

Os poetas, por sua vez, já não se pautaram por uma atitude programática
e sim pela possibilidade de criação em todas as direções, utilizando tanto o
verso livre, o poema-piada e as ousadias da Geração de 1922, tanto as formas
fixas como o soneto, a metrificação e as rimas da poesia mais tradicional.

A poesia da Geração de 1930


Alguns dos poetas que apareceram na década de 1930 viveram de perto
a movimentação revolucionária de 1922. Carlos Drummond de Andrade
(1902-1897) e Murilo Mendes (1901-1975) publicaram poemas no maior
órgão de divulgação das ideias vanguardistas, a Revista de Antropofagia
(1928-1929), de Oswald de Andrade (1890-1954) e Antônio de Alcântara
Machado (1901-1935). Participam, portanto, ainda que como coadjuvantes,

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Modernismo na literatura brasileira.indb 87 16/2/2009 11:38:09


Modernismo na Literatura Brasileira

da fase heroica do modernismo. Apesar da participação lateral de Drummond, seu


poema “No meio do caminho” se converteu no maior símbolo desse momento de
ruptura com a literatura passadista:

No meio do caminho
Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra


tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento


na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Outros, carregam uma herança indisfarçável do Simbolismo, como Cecília


Meireles (1901-1964); do Romantismo, como Vinicius de Moraes (1913-1980) e
Augusto Frederico Schmidt (1906-1965); ou mesmo da poesia parnasiana, como
Jorge de Lima (1893-1953).

Murilo Mendes
Murilo Mendes nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais. Em seus primeiros livros
– Poemas (1930) e História do Brasil (1932) –, ele apresentou uma poesia irônica
e provocativa, bem próxima das polêmicas criações do modernismo inicial. A
partir de O visionário (1933), incorporou técnicas de composição surrealista.

Em 1934, converteu-se ao catolicismo. Durante as décadas de 1940 e 1950,


sua poesia enveredou pelas formas poéticas tradicionais e pela religiosidade. No
seu grande livro da década de 1960, Convergência (1966), retomou a poesia mais
experimental, inventando “grafitos” poéticos e enviando “Murilogramas” – tele-
gramas poéticos a numerosos artistas:
Murilograma a Graciliano Ramos
Murilo Mendes

1 Desacontece, desquer.
Brabo. Olhofaca. Difícil.
Cacto já se humanizando, 2
Deriva de um solo sáfaro Funda o estilo à sua imagem:
Que não junta, antes retira, Na tábua seca do livro

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A poesia da Geração de 1930 no Brasil

Nenhuma voluta inútil. Ao limite irrespirável.


Rejeita qualquer lirismo.
Tachando a flor de feroz. 4
Em dimensão de grandeza
3 Onde o conforto é vacante,
Tem desejos amarelos. Seu passo trágico escreve
Quer amar, o sol ulula, A épica real do BR
Leva o homem do deserto Que desintegrado explode.
(Graciliano-Fabiano)

Destacam-se, ainda, seus poemas em prosa, reunidos em livros como Poliedro


(1966), e sua obra de crítico de artes plásticas.

Em 1947, Murilo Mendes casou-se com a poeta portuguesa Maria da Sau-


dade Cortesão e em 1957 transferiu-se para a capital italiana. Lecionou Cultura
Brasileira na Universidade de Roma e foi um dos mais importantes e respeitados
críticos de arte da Itália.

Canção do exílio
Murilo Mendes

Minha terra tem macieiras da Califórnia


onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!

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Modernismo na Literatura Brasileira

Ao morrer, em Lisboa, deixou numerosos textos inéditos que foram reunidos


por sua amiga Luciana Stegagno Picchio no primoroso volume Poesia Completa
e Prosa (1994).

Pré-história1
Murilo Mendes

Mamãe vestida de rendas


Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém:
Cai no álbum de retratos.

1
O poema se refere à mãe do poeta, que era pianista e faleceu em 1902.

Cecília Meireles
Cecília Meireles nasceu na cidade do Rio de Janeiro e ficou órfã aos três anos de
idade. Criada pela avó, foi brilhante aluna e leitora insaciável. Formada professora
em 1917, dedicou sua vida ao ensino e à divulgação da literatura brasileira pelo
mundo. Aos 18 anos de idade, publicou Espectros (1919), seu primeiro livro.

Canção do caminho
Cecília Meireles

Por aqui vou sem programa, como o trajeto do fumo.


sem rumo, Minha canção vai comigo.
sem nenhum itinerário. Vai doce.
O destino de quem ama Tão sereno é seu compasso
é vário, que penso em ti, meu amigo.

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A poesia da Geração de 1930 no Brasil

– Se fosse, é melhor ir só com ela.


em vez da canção, teu braço! (Isto são coisas que digo,
Ah, mas logo ali adiante que invento,
– tão perto! – para achar a vida boa...
acaba-se a terra bela. A canção que vai comigo
Para este pequeno instante, é a forma de esquecimento
decerto, do sonho sonhado à toa...)

No início, foi muito influenciada pelo grupo de poetas espiritualistas, católi-


cos e pós-simbolistas reunidos por Tasso da Silveira e Andrade Muricy em torno
da revista carioca Festa. Essa herança jamais seria esquecida. Nos seus livros
fundamentais – Viagem (1939), que reúne poemas escritos entre 1929 e 1937;
Vaga Música (1942); Mar Absoluto (1945); Retrato Natural (1949); e mesmo em Ro-
manceiro da Inconfidência (1953), sua obra mais conhecida – a poesia de Cecília
Meireles nunca deixou de ser, acima de tudo, musical e espiritual, retomando as
imagens vagas e intencionalmente imprecisas do Simbolismo.

Improviso
Cecília Meireles

Minha canção não foi bela: E por um tempo infinito


minha canção foi só triste. repetiria o meu canto
Mas eu sei que não existe – saudosa de sofrer tanto.
mais canção igual àquela.

Não há gemido nem grito


pungentes como a serena
expressão da doce pena.

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Modernismo na Literatura Brasileira

Vinicius de Moraes
Um dos mais conhecidos poetas brasileiros, Vinicius de Moraes nasceu e
morreu no Rio de Janeiro. Tornou-se célebre por seus poemas de amor (dentre
os quais destacam-se os sonetos) e pelas parcerias musicais com Tom Jobim
(1927-1994, junto com o qual foi um dos criadores da corrente musical da Bossa
Nova) e, posteriormente, com Chico Buarque de Holanda e Toquinho.

Soneto de separação
Vinicius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto


silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento


Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente


Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante


Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Os seus primeiros livros – O Caminho para a Distância (1933), Forma e Exegese


(1935) e Ariana, a Mulher (1936) – são marcados pela religiosidade e pelo caráter

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A poesia da Geração de 1930 no Brasil

pós-simbolista. Já em seus livros seguintes, como Cinco Elegias (1943), Poemas,


Sonetos e Baladas (1946) e Para Viver um Grande Amor: prosa e poesia (1965), o
mundo material e a sensualidade triunfam sobre o misticismo. São dessa fase
suas experiências com o soneto e outras formas poéticas tradicionais, bem como
“O operário em construção”, seu mais importante poema social.

O anjo de pernas tortas


Vinicius de Moraes

A um passe de Didi, Garrincha avança


Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança


Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé de vento!

Num só transporte a multidão contrita


Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: – GOOOOOL!


É a pura imagem: um G que chuta um O
Dentro da meta, um L. É pura dança!

Outros poetas de importância do período


 Jorge de Lima (1893-1953), autor de Invenção de Orfeu (1952) e do célebre
poema “Essa negra Fulô”, publicado no volume Novos Poemas (1929):

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Modernismo na Literatura Brasileira

Essa negra Fulô (fragmento)


Jorge de Lima

Ora, se deu que chegou O Sinhô foi ver a negra


(isso já faz muito tempo) levar couro do feitor.
no banguê dum meu avô A negra tirou a roupa,
uma negra bonitinha, O Sinhô disse: Fulô!
chamada negra Fulô. (A vista se escureceu
que nem a negra Fulô).
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô! Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
[...]
Ó Fulô! Ó Fulô!
Essa negrinha Fulô Cadê meu lenço de rendas,
ficou logo pra mucama Cadê meu cinto, meu broche,
pra vigiar a Sinhá, Cadê o meu terço de ouro
pra engomar pro Sinhô! que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou!
Essa negra Fulô! Ah! foi você que roubou!
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
[...] Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô! [...]


(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô!) Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu frasco de cheiro Cadê, cadê teu Sinhô
Que teu Sinhô me mandou? que Nosso Senhor me mandou?
– Ah! Foi você que roubou! Ah! Foi você que roubou,
Ah! Foi você que roubou! foi você, negra Fulô?

Essa negra Fulô! Essa negra Fulô!


Essa negra Fulô!

 Augusto Frederico Schmidt, poeta religioso de estilo derramado e tendên-


cia romântica.

 Mário Quintana (1906-1994), cuja poesia bem-humorada e de comunica-


ção fácil tem grande penetração popular.

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A poesia da Geração de 1930 no Brasil

Texto complementar

O operário em construção
Vinicius de Moraes
E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os
reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem
quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
(Lc 4, 5-8)

Era ele que erguia casas De fato, como podia


Onde antes só havia chão. Um operário em construção
Como um pássaro sem asas Compreender por que um tijolo
Ele subia com as casas Valia mais do que um pão?
Que lhe brotavam da mão. Tijolos ele empilhava
Mas tudo desconhecia Com pá, cimento e esquadria
De sua grande missão: Quanto ao pão, ele o comia...
Não sabia, por exemplo Mas fosse comer tijolo!
Que a casa de um homem é um E assim o operário ia
templo
Com suor e com cimento
Um templo sem religião
Erguendo uma casa aqui
Como tampouco sabia
Adiante um apartamento
Que a casa que ele fazia
Além uma igreja, à frente
Sendo a sua liberdade
Um quartel e uma prisão:
Era a sua escravidão.
Prisão de que sofreria

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Modernismo na Literatura Brasileira

Não fosse, eventualmente Ah, homens de pensamento


Um operário em construção. Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Mas ele desconhecia Soube naquele momento!
Esse fato extraordinário: Naquela casa vazia
Que o operário faz a coisa Que ele mesmo levantara
E a coisa faz o operário. Um mundo novo nascia
De forma que, certo dia De que sequer suspeitava.
À mesa, ao cortar o pão O operário emocionado
O operário foi tomado Olhou sua própria mão
De uma súbita emoção Sua rude mão de operário
Ao constatar assombrado De operário em construção
Que tudo naquela mesa E olhando bem para ela
– Garrafa, prato, facão – Teve um segundo a impressão
Era ele quem os fazia De que não havia no mundo
Ele, um humilde operário, Coisa que fosse mais bela.
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela Foi dentro da compreensão
Banco, enxerga, caldeirão Desse instante solitário
Vidro, parede, janela Que, tal sua construção
Casa, cidade, nação! Cresceu também o operário.
Tudo, tudo o que existia Cresceu em alto e profundo
Era ele quem o fazia Em largo e no coração
Ele, um humilde operário E como tudo que cresce
Um operário que sabia Ele não cresceu em vão
Exercer a profissão. Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –

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A poesia da Geração de 1930 no Brasil

O operário adquiriu Que sua imensa fadiga


Uma nova dimensão: Era amiga do patrão.
A dimensão da poesia.
E o operário disse: Não!
E um fato novo se viu E o operário fez-se forte
Que a todos admirava: Na sua resolução.
O que o operário dizia
Outro operário escutava. Como era de se esperar
As bocas da delação
E foi assim que o operário Começaram a dizer coisas
Do edifício em construção Aos ouvidos do patrão.
Que sempre dizia sim Mas o patrão não queria
Começou a dizer não. Nenhuma preocupação
E aprendeu a notar coisas – “Convençam-no” do contrário –
A que não dava atenção: Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão Dia seguinte, o operário
Que sua cerveja preta Ao sair da construção
Era o uísque do patrão Viu-se súbito cercado
Que seu macacão de zuarte Dos homens da delação
Era o terno do patrão E sofreu, por destinado
Que o casebre onde morava Sua primeira agressão.
Era a mansão do patrão Teve seu rosto cuspido
Que seus dois pés andarilhos Teve seu braço quebrado
Eram as rodas do patrão Mas quando foi perguntado
Que a dureza do seu dia O operário disse: Não!
Era a noite do patrão

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Modernismo na Literatura Brasileira

Em vão sofrera o operário Será teu se me adorares


Sua primeira agressão E, ainda mais, se abandonares
Muitas outras se seguiram O que te faz dizer não.
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível Disse, e fitou o operário
Ao edifício em construção Que olhava e que refletia
Seu trabalho prosseguia Mas o que via o operário
E todo o seu sofrimento O patrão nunca veria.
Misturava-se ao cimento O operário via as casas
Da construção que crescia. E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Sentindo que a violência Produtos, manufaturas.
Não dobraria o operário Via tudo o que fazia
Um dia tentou o patrão O lucro do seu patrão
Dobrá-lo de modo vário. E em cada coisa que via
De sorte que o foi levando Misteriosamente havia
Ao alto da construção A marca de sua mão.
E num momento de tempo E o operário disse: Não!
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário – Loucura! – gritou o patrão
Fez-lhe esta declaração: Não vês o que te dou eu?
– Dar-te-ei todo esse poder – Mentira! – disse o operário
E a sua satisfação Não podes dar-me o que é meu.
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser. E um grande silêncio fez-se
Dou-te tempo de lazer Dentro do seu coração
Dou-te tempo de mulher. Um silêncio de martírios
Portanto, tudo o que vês Um silêncio de prisão.

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A poesia da Geração de 1930 no Brasil

Um silêncio povoado Os seus irmãos que morreram


De pedidos de perdão Por outros que viverão.
Um silêncio apavorado Uma esperança sincera
Com o medo em solidão. Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Um silêncio de torturas Agigantou-se a razão
E gritos de maldição De um homem pobre e esquecido
Um silêncio de fraturas Razão porém que fizera
A se arrastarem no chão. Em operário construído
E o operário ouviu a voz O operário em construção.
De todos os seus irmãos

Estudos literários
1. Leia atentamente o texto e depois responda à questão.

Atrás de portas fechadas,

à luz de velas acesas,

brilham fardas e casacas,

junto com batinas pretas.

E há finas mãos pensativas,

entre galões, sedas, rendas,

e há grossas mãos vigorosas,

de unhas fortes, duras veias,

e há mãos de púlpito e altares,

de Evangelhos, cruzes, bênçãos.

(MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.)

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Modernismo na literatura brasileira.indb 99 16/2/2009 11:38:10


Modernismo na Literatura Brasileira

Aponte que grupos sociais representam as mãos do poema de Cecília Meireles.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 100 16/2/2009 11:38:10


A poesia da Geração de 1930 no Brasil

2. Leia atentamente os textos.

Texto 1
O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sór-
dido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão
verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimentos e pressentimen-
tos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no
mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira mais
bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um
bom poeta, mas um mero lucubrador de versos.

(MORAES, Vinicius de. Para Viver um Grande Amor. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984.)

Texto 2
Não faças versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia.

Diante dela, a vida é um sol estático,

não aquece nem ilumina.

As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.

Nem me reveles teus sentimentos,

que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.

O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não recomponhas

tua sepultada e merencória infância.

Não osciles entre o espelho e a

memória em dissipação.

Que se dissipou, não era poesia.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 101 16/2/2009 11:38:10


Modernismo na Literatura Brasileira

Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?

(Carlos Drummond de Andrade)

Agora, comparando o texto em prosa de Vinicius ao trecho do poema de


Drummond, responda: esses dois textos apresentam o mesmo conceito de
poesia? Por quê? Justifique sua resposta transcrevendo um trecho de cada
texto.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 102 16/2/2009 11:38:10


A poesia da Geração de 1930 no Brasil

3. Um poema de amor muito conhecido é o “Soneto de fidelidade”, de Vinicius


de Moraes. Leia-o para responder ao que pede.

Soneto de fidelidade
Vinicius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento


Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento


E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 103 16/2/2009 11:38:10


Modernismo na Literatura Brasileira

E assim, quando mais tarde me procure


Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):


Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

a) Nas três primeiras estrofes, o poema apresenta uma série de antíteses.


Aponte-as.

b) Interprete o aparente paradoxo contido na última estrofe do soneto.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 104 16/2/2009 11:38:10


A poesia da Geração de 1930 no Brasil

105
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Modernismo na literatura brasileira.indb 105 16/2/2009 11:38:10


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Modernismo na literatura brasileira.indb 106 16/2/2009 11:38:10


Carlos Drummond de Andrade

Quase um século de poesia


Em 31 de outubro de 1902, na pequena Itabira do Mato Dentro, Minas
Gerais, nasceu Carlos Drummond de Andrade, filho do fazendeiro Carlos
de Paula Andrade e de dona Julieta Augusta Drummond de Andrade.

Ele passou a infância em Itabira e com 14 anos de idade foi estudar como
interno no Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte – onde conheceu Gusta-
vo Capanema (1900-1985) e Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1990) e
depois no Colégio Anchieta, da Companhia de Jesus, em Nova Friburgo
(RJ), do qual foi expulso por “insubordinação mental”. Enquanto estudava
em Nova Friburgo, seu irmão Altivo publicou seu poema em prosa “Onda”,
no único número do jornalzinho Maio, em Itabira.

Como a família estava se transferindo para Belo Horizonte, Carlos Drum-


mond voltou a Minas Gerais para acompanhar os familiares nessa mudan-
ça para a capital do estado. Frequentou o Café Estrela e a Livraria Alves,
onde conheceu Milton Campos (1900-1972), Abgar Renault (1901-1995),
Emílio Moura (1902-1971), Mário Casassanta (1898-1963), João Alphonsus
(1901-1944), Aníbal Machado (1884-1964), Pedro Nava (1903-1984) e Ga-
briel Passos (1901-1962), entre outros. Nessa época, publicou seus primei-
ros trabalhos no Diário de Minas e venceu o concurso Novela Mineira com
o conto “Joaquim do Telhado”. As revistas Para Todos e Ilustração Brasileira,
do Rio de Janeiro, publicaram alguns de seus poemas. Em 1923, matricu-
lou-se na Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 107 16/2/2009 11:38:10


Modernismo na Literatura Brasileira

Escreveu a Manuel Bandeira (1886-1968) e entrou em contato com o grupo


modernista de São Paulo – que, em viagem, passou por Belo Horizonte em 1924.
Assim conheceu o suíço Blaise Cendrars (1887-1961), que estava em visita ao Brasil,
e os paulistas Oswald de Andrade (1890-1954), Tarsila do Amaral (1886-1973) e
Mário de Andrade (1893-1945), de quem se tornou amigo e com quem manteve
correspondência até poucos dias antes da morte de Mário.

Mais atraído pelas discussões sobre a arte e o país do que pelas aulas de quími-
ca, formou-se farmacêutico em 1925, mas nunca exerceu a profissão. Ainda nesse
ano, casou-se com Dolores Dutra de Morais e fundou, junto com Emílio Moura e
Gregoriano Canedo, A Revista, órgão modernista do qual foram publicados três
números. Depois de lecionar Geografia e Português no Ginásio Sul-Americano
em Itabira, volta a Belo Horizonte para ser redator do Diário de Minas.

Em 1928, nasceu Maria Julieta, a filha única, que foi a grande companheira do
poeta. Seu poema “No meio do caminho” foi publicado pela Revista de Antropo-
fagia, de São Paulo. O poema causou forte impacto e tornou-se um dos maiores
escândalos literários do Brasil. O poeta publicou, 39 anos depois, Uma Pedra no
Meio do Caminho: biografia de um poema, coletânea de críticas e matérias resul-
tantes do poema ao longo dos anos. Naquele mesmo ano de 1928, foi trabalhar
na Secretaria de Educação, na redação da Revista do Ensino.

Em 1929, deixou o Diário de Minas para trabalhar no Minas Gerais, órgão ofi-
cial do estado, sob a direção de Abílio Machado (1894-1964) e José Maria de
Alkmim (1901-1974).

Em contraste com a pacata vida de funcionário público, a publicação do seu


primeiro livro, em 1930 – Alguma Poesia – gerou, com a mesma intensidade, ata-
ques e elogios da crítica e do público. A edição de 500 exemplares, sob o selo
imaginário de Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro (1889-1982), foi
facilitada pela Imprensa Oficial do Estado, o que em nada alterou o caráter de
ruptura e inovação da obra.

Em 1934, voltou a ser redator dos jornais Minas Gerais, Estado de Minas e
Diário da Tarde, simultaneamente, e publicou Brejo das Almas em edição de 200
exemplares. Gustavo Capanema foi nomeado ministro da Educação e Saúde Pú-
blica por Getúlio Vargas nesse mesmo ano, e Drummond foi convidado para ser
o seu chefe de gabinete.

Assim, mudou-se com esposa e filha para o Rio de Janeiro, então capital da
República, onde suas atividades intelectuais se ampliaram e ganharam impulso.

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Carlos Drummond de Andrade

Colaborou inicialmente na Revista Acadêmica e, em seguida, no Correio da


Manhã, Folha Carioca, A Manhã, Leitura, A Tribuna Popular, Política e Letras e na
revista Euclydes. Em 1940, distribuiu, entre amigos e escritores, os 150 exempla-
res da edição de Sentimento do mundo. Em 1942, José Olympio (1902-1990) foi o
primeiro editor a se interessar por sua obra, publicando Poesias: José. Em 1944,
por iniciativa de Álvaro Lins (1912-1970), Drummond publicou seu primeiro livro
de prosa, Confissões de Minas.

Em 1945, publicou A Rosa do Povo, pela Livraria José Olympio Editora, e a


novela O Gerente. Desligou-se do gabinete de Gustavo Capanema e aceita o
convite de Luís Carlos Prestes (1898-1990) para integrar a diretoria do diário A
Tribuna Popular, do Partido Comunista. Meses depois, insatisfeito com a orien-
tação do jornal, afastou-se para trabalhar na Diretoria do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (Dphan), a convite do amigo Rodrigo Mello Franco de Andra-
de (1898-1969). Mais tarde, tornou-se chefe da Seção de História, na Divisão de
Estudos e Tombamento.

As atividades do poeta continuavam bastante diversificadas. Ainda em 1945,


voltou a escrever no Minas Gerais e participou da frustrada tentativa de refor-
mulação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Ainda nessa época,
Drummond, cuja vida pessoal sempre foi marcada pela discrição, conheceu a
jovem Ligia Fernandes, funcionária do Dphan, a quem dedicaria, ao longo da sua
trajetória poética, alguns de seus mais belos poemas.

Em 1946, ganhou o Prêmio pelo Conjunto de Obra, da Sociedade Felipe


d’Oliveira. Muitos outros prêmios foram acrescentados no decorrer de sua vida.

Às atividades de escritor e jornalista Drummond somou a de tradutor de textos


literários. Traduziu, entre outros, As Relações Perigosas, de Choderlos de Laclos; Os
Camponeses, de Honore de Balzac; A Fugitiva, de Marcel Proust.

Em 1948, Drummond publicou Poesia Até Agora. O Poema de Itabira, com-


posição de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) sobre o texto “Viagem na família”, de
Drummond, foi executado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro à mesma hora
em que o poeta acompanhava o enterro de sua mãe, em Itabira.

Em 1949, Maria Julieta casou-se com o escritor e advogado argentino Manuel


Graña Etcheverry e muda-se para Buenos Aires. Em 1950, quando nasceu Carlos
Manuel, o seu primeiro neto, Drummond viaja pela primeira vez para fora do país.
Durante a vida, suas poucas viagens internacionais sempre tiveram o mesmo
destino (a Argentina) e a mesma razão (a saudade).

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Modernismo na Literatura Brasileira

Mas se Drummond não viajou muito, o mesmo não aconteceu com as suas
obras. Em 1951, em Madri, foi publicado o volume Poesias. Em 1953, em Buenos
Aires, apareceu Dos Poemas. A partir da década de 1960, suas obras foram para
diversos países, como Alemanha, Estados Unidos, França, Portugal e Suécia.

Ainda em 1951, Drummond estreou como contista com a publicação de Contos


de Aprendiz. No mesmo ano, publicou Claro Enigma e A Mesa. Em 1952, Viola de
Bolso. Em 1954, Fazendeiro do Ar & Poesia até Agora. Em 1955, Viola de Bolso nova-
mente encordoada. Em 1956, 50 Poemas Escolhidos pelo Autor. Em 1959, Poemas.

A intensa atividade do poeta e a revelação do contista não impediram o


autor de escrever as crônicas que, durante quatro décadas, encantaram os lei-
tores de alguns jornais. Em 1952, ele publicou o volume de crônicas Passeios na
Ilha. O livro seguinte, Fala, Amendoeira, de 1957, reuniu as crônicas publicadas
na coluna “Imagens”, do diário carioca Correio da Manhã, no qual permaneceu
até 1969, quando transferiu-se para o Jornal do Brasil.

Com a aposentadoria, em 1962, Drummond ganhou mais tempo para suas


atividades intelectuais. Nesse ano, publicou Antologia Poética, A Bolsa & a Vida
e Lição de Coisas, premiado em 1963. Colaborou no programa Vozes da Cidade,
criado por Murilo Miranda, na Rádio Roquete Pinto, e iniciou o programa Cadeira
de Balanço, na Rádio Ministério da Educação, título de seu livro de crônicas que
seria editado em 1966.

Com o reconhecimento do público e da crítica, em 1964 a Editora Aguilar


publicou toda a sua produção em Obra Completa. Cinco anos depois, seria a vez
de Reunião, abrangendo vários livros do poeta. Em 1965, em colaboração com
Manuel Bandeira, Drummond publicou Rio de Janeiro em Prosa & Verso.

Nos anos de 1970 e 1980, Drummond recebeu muitos prêmios e continuou a


publicar poesia, crônicas e contos, além de colaborar em jornais.

Em 1972, jornais do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre
publicaram suplementos comemorativos do 70.º aniversário do poeta.

Em 1977, ele gravou 42 poemas em dois discos de vinil, lançados pela Polygram.

Quando completou 80 anos, foi homenageado por meio de exposições, en-


trevistas e reportagens.

Em 1983, organizou a edição de Nova Reunião: 19 livros de poesia, sua última


publicação pela Livraria José Olympio. No entanto, recusou-se a receber o Prêmio
Juca Pato, alegando estar física e emocionalmente frágil.
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Carlos Drummond de Andrade

Em 1984, despede-se da José Olympio e assina contrato com a Editora


Record, que publica suas obras até hoje. Também se despediu da carreira de
cronista, com a crônica “Ciao”, no Jornal do Brasil, depois de 64 anos de trabalho
jornalístico.

Em 1986, sofreu um infarto e ficou internado durante 12 dias.

Em 31 de janeiro de 1987, escreveu “Elegia a um tucano morto”, seu último


poema que passou a integrar Farewell, último livro organizado pelo poeta.

Foi homenageado pela escola de samba Estação Primeira de Mangueira


com o samba-enredo No reino das palavras, que venceu o Carnaval de 1987.
Em julho, debilitado, concedeu uma última entrevista, em tom amargurado.
Maria Julieta estava com câncer e falece no dia 5 de agosto, depois de dois
meses de internação. “E assim vai-se indo a família Drummond de Andrade”,
comentou o poeta.

Seu estado de saúde piorou e apenas 12 dias depois da morte da filha, em 17


de agosto, morreu vítima de insuficiência cardiorrespiratória. Foi enterrado no
mesmo túmulo que a filha, no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

Deixou várias obras inéditas: Farewell; O Avesso das Coisas (aforismos), Moça
Deitada na Grama, O Amor Natural (poemas eróticos), Viola de Bolso III (Poesia
errante), hoje publicados pela Record; Arte em Exposição (versos sobre obras de
arte); além de crônicas, dedicatórias em verso coletadas pelo autor, correspon-
dências e um texto para um espetáculo musical, ainda sem título.

O último verso do seu último poema comenta “a inutilidade de nascer”, que a


imensa obra que nos deixou, começando por Alguma Poesia, felizmente desmente.

A obra de Carlos Drummond de Andrade


Vivendo durante praticamente todo o século XX, esse mineiro de Itabira deixou
uma das obras mais significativas da literatura brasileira. Influenciado de início
pelos paulistas Oswald e Mário de Andrade, que conheceu em 1924, e por Manuel
Bandeira, a quem, no mesmo ano, enviou poemas seus, publicou seu primei-
ro livro, Alguma Poesia, em 1930. Essa primeira fase de sua obra é marcada por
poemas irônicos, breves e coloquiais, como “Quadrilha”, “Cota zero”, “No meio do
caminho” ou “Cidadezinha qualquer”, em que a vinculação ao primeiro momento
do Modernismo brasileiro é patente:

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Modernismo na Literatura Brasileira

Cidadezinha qualquer

Casas entre bananeiras


mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.


Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

Já em um segundo momento, em que se sobressai o livro A Rosa do Povo


(1945), sua obra volta-se para uma poesia mais reflexiva e participante, de acen-
tuado teor social, com o poeta revelando-se profundamente marcado, tanto pela
Segunda Guerra Mundial (1939-1945) quanto pela experiência da ditadura do
Estado Novo (1937-1945) no Brasil. Durante a década de 1950, assim como acon-
tecia com a produção de boa parte dos seus companheiros de geração, a poesia
de Drummond (em livros como Claro Enigma, 1951) apresentou uma busca das
fórmulas tradicionais de composição, como o soneto, recorrendo à metrificação
regular, em parte abandonando o caráter experimental de sua fase inicial:

Legado

Que lembrança darei ao país que me deu


tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.

E mereço esperar mais do que os outros, eu?


Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.

Não deixarei de mim nenhum canto radioso,


uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso


na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.

Esse caráter foi retomado – já sob influência da radicalidade experimental


da poesia concreta, que surgiu em 1956 – no livro Lição de Coisas (1962), em
que muito da ironia e das preocupações formais da sua primeira fase foram
resgatadas:

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Carlos Drummond de Andrade

Amar-amaro

porque amou por que amou


se sabia
proibidopassearsentimentos
ternos ou desesperados
nesse museu do pardo indiferente
me diga: mas por que
amar sofrer talvez como se morre
de varíola voluntária vágula evidente?
ah PORQUE AMOU
e se queimou
todo por dentro por fora nos cantos ecos
lúgubres de você mesm(o, a)
irm(ã,o) retrato espetáculo por que amou?
se era para
ou era por
como se entretanto todavia
toda via mas toda vida
é indignação do achado e aguda espotejação
da carne do conhecimento, ora veja
permita cavalheir(o, a)
amig(o, a) me releve
este malestar
cantarino escarninho piedoso
este querer consolar sem muita convicção
o que é inconsolável de ofício
a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima
a vida também
tudo também
mas o amor car(o, a) colega este não consola nunca de nuncarás.

A partir de então, já com 60 anos de idade, Drummond deixou de inovar


tanto, e sua poesia, influenciada por seu trabalho como cronista, foi adquirindo
um caráter mais prosaico e, por vezes, até jornalístico, sem, no entanto, deixar de
apresentar momentos em que o nível de inventividade alcança suas melhores
composições iniciais. Sobressai-se, neste período, o livro Corpo (1984), em que
Drummond, já com mais de 80 anos, pratica uma poesia sentimental sem preo-
cupação com as inovações formais que caracterizam o início de sua obra.

A estreia em livro
Pelo que se sabe, Alguma Poesia é composto por poemas escritos entre 1924 e
1930. Apresenta a produção inicial de Drummond, gerada em meio às acirradas dis-
putas que seguiram a explosão nacional do Modernismo, após a Semana de Arte
Moderna de 1922. Portanto, antes de ser uma obra inaugural do que se iria produzir

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Modernismo na Literatura Brasileira

a partir da década de 1930, trata-se de um produto da fase dita heroica, combativa e


programática do Modernismo brasileiro.

Utilizando a linguagem coloquial do primeiro Modernismo, os poemas do livro


são escritos em versos livres, sem métrica regular. A rima só comparece quando
usada ironicamente: “Mariquita, dá cá o pito/ no teu pito está o infinito”. No
“Poema de sete faces”, o poeta explicita a crítica irônica aos processos poéticos
tradicionais:

Mundo mundo vasto mundo


se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Em seu célebre poema “Os sapos”, Manuel Bandeira faz uma crítica à poesia
parnasiana: “O sapo-tanoeiro,/ Parnasiano aguado,/ Diz: – Meu cancioneiro/ É
bem martelado.” Essa crítica é retomada por Drummond no poema “Festa no
brejo”, em que o mineiro transfere para o seu estado a batalha contra os “sapos”
parnasianos:

O brejo vibra que nem caixa


de guerra. Os sapos estão danados.
(...)
A saparia toda de Minas
coaxa no brejo humilde.
Hoje tem festa no brejo!

Alguns poemas revelam clara influência das vanguardas europeias, como o


Dadaísmo (caso de “Sinal de apito” e “Cota zero”), ou do espírito irônico e comba-
tivo de Oswald de Andrade (caso de “Anedota búlgara”, que tematiza o choque
cultural por meio de uma irônica historieta que em muito lembra o poema “Erro
de português”, de Oswald: “Quando o português chegou/ Debaixo duma bruta
chuva/ Vestiu o índio/ Que pena!/ Fosse uma manhã de sol/ O índio tinha despi-
do/ O português”):
Anedota búlgara

Era uma vez um czar naturalista


que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.

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Carlos Drummond de Andrade

A ironia e o dom de surpreender


A ironia perpassa todo o livro. O poeta gauche, deslocado, torto, evita o sen-
timentalismo barato (“Eu não devia te dizer/ mas essa lua/ mas esse conhaque/
botam a gente comovido como o diabo”), mas continua emocionando-se e co-
movendo o leitor em versos surpreendentes como “E eu não sabia que minha
história/ era mais bonita que a de Robinson Crusoé.” E segue demolindo estereó-
tipos. Em “Papai Noel às avessas”, apresenta um Noel que vai roubar o quarto das
criancinhas. Em “Casamento do céu e do inferno”, afirma sobre as mulheres que
“Tirante Laura e talvez Beatriz, (as musas, respectivamente, de Petrarca e Dante,
os maiores expoentes do renascimento italiano)/ o resto vai para o inferno”. Em
“Fuga”, critica o poeta de pendor clássico que sonha com a Europa e rejeita tudo
o que é brasileiro. Em “Sociedade”, a hipocrisia dos casais que se visitam.

Na primeira estrofe do poema “Sentimental”, o dom de Drummond para sur-


preender torna-se ainda mais evidente:
Sentimental

Ponho-me a escrever teu nome


com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.

A palavra macarrão destrói a expectativa inicial, criada pelo título e pelo pri-
meiro verso do poema. Esperar-se-ia que o eu lírico escrevesse com letras mais
“poéticas”, mas ele faz isso com as prosaicas letrinhas de macarrão, ao tomar uma
sopa. Poderíamos dizer que, nesse poema, Drummond inscreve o sentimento
amoroso no convívio cotidiano. Durante uma prosaica refeição, o eu lírico sonha
com a mulher amada, enquanto tudo ao seu redor contribui para a proibição
desse espírito “sentimental”.

As linhas temáticas
Em 1962, Drummond publicou a sua Antologia Poética. Ao organizar o volume,
procurou, segundo ele, “localizar, na obra publicada, certas características, pre-
ocupações e tendências que a condicionam ou definem, em conjunto” (ANDRA-
DE, 1979, p. 8). Agrupou, portanto, os seus poemas em diversas linhas temáticas,
ou segundo as diferentes “matérias de poesia”. Assim, dividiu a sua obra em nove
grupos temáticos básicos, que têm guiado as considerações críticas sobre a sua

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Modernismo na Literatura Brasileira

poesia até hoje. Nove dos poemas de Alguma Poesia foram escolhidos para figu-
rar na Antologia. Abaixo, temos o título de cada seção, seguido pela explicação
dada a cada uma pelo próprio Drummond e pelos poemas de Alguma Poesia
nelas presentes.

 Um eu todo retorcido – o indivíduo (“Poema de sete faces”).

 Uma província: esta – a terra natal (“Cidadezinha qualquer” e “Romaria”).

 A família que me dei – a família (“Infância”).

 Cantar de amigos – amigos.

 Na praça de convites – o choque social (“Coração numeroso”).

 Amar-amaro – o conhecimento amoroso (“Quadrilha”).

 Poesia contemplada – a própria poesia.

 Uma, duas argolinhas – exercícios lúdicos (“Sinal de apito” e “Política li-


terária”).

 Tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mundo – uma vi-


são ou tentativa de visão da existência (“No meio do caminho”).

Correndo os riscos inerentes a qualquer classificação que envolva aspectos


subjetivos, poderíamos agrupar os demais 40 poemas do livro de acordo com
essa tipologia. Alertando para o fato de que alguns dos poemas poderiam apa-
recer em mais de uma seção, teríamos oito dos nove grupos criados por Drum-
mond presentes em Alguma Poesia.

 O indivíduo: “Poema de sete faces”, “Também já fui brasileiro”, “Moça e soldado”.

 A terra natal: “Cidadezinha qualquer”, “Romaria”, “Lanterna mágica”, “La-


goa”, “O que fizerem do Natal”, “Igreja”, “Jardim da praça da Liberdade”.

 A família: “Infância”, “Família”, “Sesta”.

 O choque social: “Coração numeroso”, “Europa, França e Bahia”, “A rua di-


ferente”, “Poema do jornal”, “Nota social”, “Fuga”, “Papai Noel às avessas”, “O
sobrevivente”, “Sociedade”, “Elegia do rei de Sião”, “Outubro 1930”.

 O conhecimento amoroso: “Quadrilha”, “Casamento do céu e do inferno”, “Toa-


da do amor”, “Cantiga de viúvo”, “Sentimental”, “Esperteza”, “Iniciação amorosa”,
“Balada do amor através das idades”, “Cabaré mineiro”, “Quero me casar”.

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Carlos Drummond de Andrade

 A própria poesia: “Poema que aconteceu”, “Poesia”, “Festa no brejo”, “Expli-


cação”.

 Exercícios lúdicos: “Sinal de apito”, “Política literária”, “Construção”, “Anedo-


ta búlgara”, “Cota zero”.

 Uma visão da existência: “No meio do caminho”, “Política”, “Sweet home”,


“Música”, “Epigrama para Emílio Moura”, “Poema da purificação”.

A única seção da Antologia Poética que não se apresenta em Alguma Poesia é


o cantar de amigos, composto por poemas dedicados a amigos reais do poeta
como Mário de Andrade e Jorge de Lima (1893-1953) ou a “amizades” que se
criam por meio da admiração artística, como as que o ligam a Federico Garcia
Lorca (1898-1936) e a Charles Chaplin (1889-1977). No entanto, o livro como
um todo é dedicado a “Mário de Andrade, meu amigo”, e vários poemas espe-
cíficos são dedicados a amigos particulares, como Abgar Renault, Aníbal Ma-
chado, Manuel Bandeira, Mário Casassanta, Ribeiro Couto (1898-1963), Gustavo
Capanema, Afonso Arinos, Cyro dos Anjos (1906-1994), Pedro Nava, e Milton
Campos. Um dos poemas traz essa dedicatória no próprio título: “Epigrama para
Emílio Moura”.

A série “Lanterna mágica” foi incluída na seção “A terra natal” por apresentar
basicamente poemas sobre cidades de Minas Gerais. Mas contém, também, um
texto sobre o Rio de Janeiro, para onde o poeta haveria de transferir-se, e o irôni-
co “Bahia”: “É preciso fazer um poema sobre a Bahia.../ Mas eu nunca fui lá”.

Poderíamos acrescentar, ainda, diversas vertentes temáticas que perpassam


todo o livro. Uma delas seria a da perplexidade do homem frente às mudanças
da sociedade moderna. Em poemas como “A rua diferente”, “O que fizeram do
Natal” e “O sobrevivente”, essa temática aparece claramente, mas também está
disseminada, de maneira mais sutil, em vários textos.

Outra preocupação que reaparece em diversos textos é com as relações entre


o país e o exterior. Em vários momentos, o Brasil é comparado a outros países,
como fica evidente nos poemas “Europa, França e Bahia” e “Fuga”.

Um poema no meio da polêmica


Sem dúvida alguma, o mais polêmico e – por isso mesmo – o mais célebre
dos poemas de Alguma Poesia é “No meio do caminho”:

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Modernismo na Literatura Brasileira

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra


tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento


na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Já em 1924, esse poema foi elogiado em carta por Mário de Andrade, que o
considerou “formidável. É o mais forte exemplo que conheço, mais bem frisado,
mais psicológico, de cansaço intelectual”. Desde a sua primeira publicação – em
julho de 1928, no número 3 da Revista de Antropofagia, dirigida por Oswald de
Andrade –, o poema serviu como um divisor de águas. Virou o grande pomo da
discórdia entre os tradicionalistas e os defensores da estética modernista.

O poema se estrutura por meio da repetição ad nauseaum do verso “no meio


do caminho tinha um pedra”, que procura reproduzir o cansaço detectado por
Mário de Andrade, a monotonia e o eterno enfrentamento de obstáculos (pedra)
na vida (caminho) de qualquer um de nós. Além de colocar a palavra pedra no
meio do caminho da leitura, as constantes inversões sintáticas (“no meio do ca-
minho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho”) introduzem a
ideia de enclausuramento, impossibilidade de fuga dos problemas: não importa
a direção ou o sentido que se tome, a pedra sempre está no meio do caminho.

O título do poema de Drummond remete ao primeiro verso de uma obra-prima


da literatura universal, a Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265-1321), em tradu-
ção de Augusto de Campos:
Inferno, Canto I (trecho inicial)

No meio do caminho desta vida


me vi perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída. […]
Não me recordo ao certo como entrei,
tomado de uma sonolência estranha,
quando a vera vereda abandonei.
Sei que cheguei ao pé de uma montanha,
lá onde aquele vale se extinguia,

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Carlos Drummond de Andrade

que me deixara em solidão tamanha,


e vi que o ombro do monte aparecia
vestido já dos raios do planeta
que a toda gente pela estrada guia. (ALIGHIERI, 2008)

Poderíamos dizer que a “pedra” de Drummond já está presente na obra-prima


de Dante, pois o caminhante da Divina Comédia encontra “no meio do caminho”
uma montanha, uma “pedra” que o impede de prosseguir.

Anterior a Drummond, Olavo Bilac, poeta brasileiro que é o símbolo da poesia


tradicionalista, já havia feito um poema inspirado no mesmo verso de Dante:
Nel Mezzo del Camin... (fragmento)

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada


E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha... (BILAC, 2008)

Apesar de todas as diferenças, o poema de Olavo Bilac já apresenta procedi-


mentos semelhantes àqueles que Drummond radicalizou. As inversões sintáti-
cas (“Vinhas fatigada/ E triste, e triste e fatigado eu vinha”) as repetições (“Tinhas
a alma de sonhos povoada,/ E a alma de sonhos povoada eu tinha”).

Mas essas semelhanças passaram despercebidas. Os defensores do Parnasia-


nismo de Olavo Bilac preferiram ver, na simplicidade modernista do poema de
Drummond, um bom exemplo de loucura e falta de imaginação ou habilidade
poética. O crítico Gondin da Fonseca (1899-1977) publicou, entre outros, um
artigo no jornal Correio da Manhã (Rio de Janeiro, 26 ago.1938) sugestivamente
intitulado “Contra-a-mão. Os nossos atuais gênios poéticos”, em que destila todo
o seu ódio contra a pedra drummoniana:
Hoje não se rima. Um cabra vai pela rua, tropeça, por exemplo, numa casca de banana,
papagueia a coisa umas quatro ou cinco vezes e pronto! Está feito um poema:

Eu tropecei agora numa casca de banana.


Numa casca de banana!
Numa casca de banana eu tropecei agora,
Caí para trás desamparadamente,
E rasguei os fundilhos das calças!
Numa casca de banana eu tropecei agora.
Numa casca de banana!
Eu tropecei agora numa casca de banana!

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Modernismo na Literatura Brasileira

Em meio a tantos ataques, defesas e comentários em geral, o poema foi se


tornando a mais conhecida e citada obra poética do Modernismo brasileiro.
O próprio Drummond viria a reunir as referências ao poema no singularíssimo
volume Uma Pedra no Meio do Caminho: biografia de um poema (1967), infeliz-
mente muito difícil de encontrar hoje em dia.

Estudos literários
Leia com atenção os três textos a seguir para, em seguida, responder às
questões.

Texto I - Poema de sete faces


Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto


desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens


que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:


pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 120 16/2/2009 11:38:11


Carlos Drummond de Andrade

O homem atrás do bigode


é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste


se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,


se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer


mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Texto II - Let’s play that


(NETO, 2008)

quando eu nasci

um anjo louco muito louco

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Modernismo na Literatura Brasileira

veio ler a minha mão


não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let’s play that

Texto III - Até o fim


(HOLANDA, 2008)

Quando nasci veio um anjo safado


O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Inda garoto deixei de ir à escola


Cassaram meu boletim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim

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Modernismo na literatura brasileira.indb 122 16/2/2009 11:38:11


Carlos Drummond de Andrade

Um bom futuro é o que jamais me esperou


Mas vou até o fim

Eu bem que tenho ensaiado um progresso


Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim

Por conta de umas questões paralelas


Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, minha mula empacou
Mas vou até o fim

Não tem cigarro, acabou minha renda


Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim?
Eu já nem lembro pronde mesmo que vou
Mas vou até o fim
Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu tava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

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Modernismo na Literatura Brasileira

1. Podemos dizer que há relação intertextual entre os três textos? Justifique.

2. Como se igualam os três eus líricos dos poemas apresentados?

3. Aponte uma figura de linguagem na segunda estrofe do poema de Drum-


mond e outra na terceira.

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Carlos Drummond de Andrade

4. Interprete o significado da metáfora “desafinar o coro dos contentes”, do


poema de Torquato Neto.

5. Lembrando que o “clarim” é, segundo o Dicionário Eletrônico Aurélio, um


“instrumento de sopro, de origem etrusca, feito de metal, com bocal e tubo
cônico, hoje apenas usado para sinais militares, graças ao seu timbre claro
e estridente”, explique o significado do verso “Nem posso ouvir clarim” do
poema de Chico Buarque de Holanda.

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O romance da Geração de 1930

A ficção dos anos 1930 deu continuidade ao projeto modernista de apro-


fundamento nos problemas brasileiros por meio de uma literatura regiona-
lista, de caráter neorrealista, preocupada em apresentar os problemas e as
desigualdades sociais do Brasil. Houve também uma boa produção voltada
para os problemas urbanos. Prevaleceu uma linguagem direta, sem as ousa-
dias formais dos romances de Oswald de Andrade (1890-1954), mas enfati-
zando o uso da linguagem coloquial, popular, na obra de arte literária.

O precursor: José Américo de Almeida


Acima de tudo um político, José Américo de Almeida (1887-1980) deve
sua importância para a literatura brasileira à publicação, em 1928, do pri-
meiro romance neorrealista do movimento que viria, depois, a ser chama-
do de Regionalismo de 1930: A Bagaceira. Segundo João Guimarães Rosa
(1908-1967), José Américo de Almeida abriu o caminho do moderno ro-
mance brasileiro. Sem dúvida, muito do que Graciliano Ramos (1892-1953)
ou José Lins do Rego (1901-1957) mais tarde tematizaram de maneira
mais contundente, já estava presente em A Bagaceira: a miséria do sertão;
a brutalização do ser humano nordestino; as relações entre os fazendeiros,
os senhores de engenho e os seus empregados; o conflito de gerações; o
ser humano e os animais apresentados como “sócios da fome”.

A Bagaceira é narrado em terceira pessoa, por um narrador-observador


onisciente, e apresenta um trabalho de linguagem muito rico. O narra-
dor utiliza-se de uma linguagem erudita, de acordo com a norma culta
da língua portuguesa. Já as falas das personagens procuram reproduzir
o falar sertanejo, alcançando, por vezes, efeitos de poeticidade próximos
daqueles alcançados, décadas depois, por João Guimarães Rosa. Um dos
aspectos mais salientes e importantes do romance é a tensão linguística
criada pela dicotomia entre a linguagem refinada do narrador e a brutali-
dade da linguagem das personagens.

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Modernismo na Literatura Brasileira

O romance se abre com um prefácio/manifesto intitulado “Antes que me


falem”, em que José Américo expõe alguns dos princípios básicos que haveriam
de nortear não apenas a composição da sua obra como também de todo o Re-
gionalismo de 1930. Observe dois trechos:
O Regionalismo é o pé-de-fogo da literatura... Mas a dor é universal, porque é uma expressão
da humanidade. E nossa ficção incipiente não pode competir com os temas cultivados por
uma inteligência mais requintada: só interessará por suas revelações, pela originalidade de
seus aspectos despercebidos.
[...]
Um romance brasileiro sem paisagem seria como Eva expulsa do Paraíso. O ponto é suprimir
os lugares-comuns da natureza. (ALMEIDA, 1995, prefácio)

Graciliano Ramos
Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, Alagoas. Foi prefeito de Palmeira dos
Índios (AL) e então se dedicou à literatura. Publicou alguns romances considerados
obras-primas, como São Bernardo (1934), Angústia (1936) e Vidas Secas (1938). Sua
produção literária se caracteriza pelo rigoroso cuidado com a linguagem (sobrieda-
de, exatidão na escolha das palavras etc.), densa construção psicológica das perso-
nagens e a capacidade de descrever o ambiente, as relações sociais, políticas e a
natureza do Nordeste em um estilo enxuto, preciso e extremamente contundente.
É, sem dúvida, um dos maiores e melhores escritores da língua portuguesa.

José Lins do Rego


José Lins do Rego nasceu no Engenho Corredor, município de Pilar (Paraíba),
em 3 de junho de 1901 e morreu no Rio de Janeiro em 1957. Era órfão de mãe e,
com o pai ausente, foi criado no engenho do avô materno. Estudou inicialmente
no interior da Paraíba, em Itabaiana, e depois na capital. Fez o curso superior na
Faculdade de Direito de Recife, Pernambuco.

Começou a escrever contos e artigos de temática política ainda estudante.


Nessa época, iniciou sua amizade com José Américo de Almeida e Olívio Montene-
gro (1896-1962). Em 1923, conheceu Gilberto Freyre (1900-1987), recém-chegado
da Europa. Junto com eles, integrou o chamado grupo modernista do Recife.

José Lins dizia que, após conhecer Gilberto Freyre – sociólogo e escritor, autor
de Casa-grande & Senzala (1933) – sua vida nunca mais foi a mesma: “de lá pra
cá foram outras as minhas preocupações, [...] os meus planos, as minhas leituras,

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O romance da Geração de 1930

os meus entusiasmos”. E foi sob a influência de Gilberto Freyre que começou a


escrever seus romances regionalistas.

Em 1924, casou-se com Philomena Massa (D. Naná). Do casamento, teve três
filhas: Maria Elisabeth, Maria da Glória e Maria Cristina. Em 1925, foi promotor
público em Minas Gerais. Em 1926, transferiu-se para Maceió (Alagoas), onde tra-
balhou como fiscal de bancos por nove anos e conviveu com Graciliano Ramos,
Rachel de Queiroz (1910-2003), Aurélio Buarque de Holanda (1910-1989), Jorge
de Lima (1893-1953) e outros. O contato com esses e outros artistas formou uma
consciência regionalista em torno da vida nordestina que marcou a obra de
todos eles, especialmente a de José Lins do Rego. Em Maceió, escreveu os três
primeiros romances: Menino de Engenho, Doidinho e Banguê.

Seu livro de estreia, Menino de Engenho, foi publicado em 1932 e recebeu o


prêmio da Fundação Graça Aranha. Muito bem recebido pela crítica, a edição de
dois mil exemplares foi quase totalmente vendida no Rio de Janeiro.

Em 1935, nomeado fiscal do imposto de consumo, José Lins do Rego foi para
o Rio de Janeiro, onde passaria o resto de sua vida. Esteve em países sul-ameri-
canos, na Europa e no Oriente. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, em
15 de setembro de 1955. Morreu dois anos depois, em 12 de setembro de 1957,
sendo enterrado no mausoléu da Academia, no cemitério São João Batista.

O ciclo da cana-de-açúcar
A partir de 1932, José Lins do Rego publicou doze romances, um volume de
memórias, Meus Verdes Anos, um de literatura infantil, Histórias da Velha Totônia,
além de livros de viagem, conferências e crônicas.

Na obra desse grande contador de histórias, destacam-se os romances co-


nhecidos como o ciclo da cana-de-açúcar, tendo como matéria básica o enge-
nho Santa Rosa, do velho José Paulino. Em Menino de Engenho (1932), primeiro
romance do ciclo, o autor mostra, de maneira lírica e saudosista, o ambiente de
engenho em que o garoto Carlinhos foi criado, após seu pai, desequilibrado
mental, ter assassinado a mãe. Criado entre os “moleques de bagaceira”, o garoto
cresceu sob o avassalador poder patriarcal do avô José Paulino. Aos 12 anos de
idade, conheceu a sexualidade com a “rapariga” Zefa Cajá, de quem contrai uma
“doença do mundo”. Por fim, foi mandado ao colégio interno, para “endireitar”,
perder os hábitos da “bagaceira” e se tornar um legítimo “senhor de engenho”.

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Modernismo na Literatura Brasileira

Em Doidinho (1933), José Lins do Rego descreve a vida de Carlos de Melo


no colégio interno e depois, em Banguê (1934), mostra o seu retorno ao Santa
Rosa, aos 24 anos, já formado em Direito. Então, Carlinhos tenta readaptar-se ao
engenho, sempre permeado por uma sensação de impotência frente ao espírito
autoritário do seu avô. Após a morte do velho José Paulino, Carlos acaba por
levar o Santa Rosa à ruína, vende o engenho ao tio Juca e abandona para sempre
as suas terras.

José Lins do Rego considerava Usina (1936) como o último livro do ciclo:
Nota à 1.ª edição

Com Usina termina a série de romances que chamei um tanto enfaticamente de Ciclo da Cana-
-de-açúcar.

A história desses livros é bem simples – comecei querendo apenas escrever umas memórias
que fossem as de todos os meninos criados nas casas-grandes dos engenhos nordestinos.
Seria apenas um pedaço de vida o que eu queria contar.

Sucede, porém, que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se
acham escondidas no seu interior.

Veio, após o Menino de engenho, Doidinho, em seguida Banguê. Carlos de Melo havia crescido,
sofrido e fracassado. Mas o mundo do Santa Rosa não era só Carlos de Melo. Ao lado dos meninos
de engenho havia os que nem o nome de menino podiam usar, os chamados “moleques de
bagaceira”, os Ricardos. Ricardo foi viver por fora do Santa Rosa a sua história que é tão triste
quanto a do seu companheiro Carlinhos. Foi ele do Recife a Fernando de Noronha. Muita gente
achou-o parecido com Carlos de Melo. Pode ser que se pareçam. Viveram tão juntos um do
outro, foram tão íntimos na infância, tão pegados (muitos Carlos beberam do mesmo leite
materno dos Ricardos) que não seria de espantar que Ricardo e Carlinhos se assemelhassem.
Pelo contrário.

Depois do Moleque Ricardo veio Usina, a história do Santa Rosa arrancado de suas bases,
espatifado, com máquinas de fábrica, com ferramentas enormes, com moendas gigantes
devorando a cana madura que as suas terras fizeram acamar pelas várzeas. Carlos de Melo,
Ricardo e o Santa Rosa se acabam, têm o mesmo destino, estão tão intimamente ligados que
a vida de um tem muito da vida do outro. Uma grande melancolia os envolve de sombras.
Carlinhos foge, Ricardo morre pelos seus e o Santa Rosa perde até o nome, se escraviza.

Rio de Janeiro, 1936.


J. L. R.

Usina apresenta o engenho transformado na usina Bom Jesus – que, dirigida


pelo Dr. Juca, vai perdendo a sua força ao ser pressionada por interesses estran-
geiros e pela usina Santa Fé, que domina toda a região. Além disso, ela acaba
invadida por miseráveis em busca de alimentos e por fim é vendida pelo Dr. Juca,
que a abandona melancolicamente.

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O romance da Geração de 1930

Fogo Morto
Mas o engenho Santa Rosa e alguns de seus moradores voltariam a aparecer
na obra-prima de José Lins do Rego, o romance Fogo Morto (1943), que se cons-
trói em torno de três personagens: o coronel Lula de Holanda, senhor de en-
genho decadente e brutal; o mestre José Amaro, seleiro pobre e sábio, homem
de destino trágico; e Vitorino Carneiro da Cunha, herói quixotesco, estabanado
defensor dos oprimidos. Com este romance, José Lins finaliza o estudo da de-
cadência da sociedade rural patriarcal dos senhores de engenho do Nordeste
e, portanto, Fogo Morto pode ser considerado um integrante tardio do ciclo
que José Lins julgou concluído anteriormente. Mais que integrar, Fogo Morto
se tornou a maior obra do Ciclo da cana-de-açúcar pois, ao minimizar o cará-
ter autobiográfico e nostálgico das obras precedentes, o romancista paraibano
acrescentou à sua extraordinária facilidade de narrar – que mais lembra um con-
tador de histórias marcado pela oralidade e pela naturalidade – a objetividade
e a consciência compositiva que o caráter sentimental e espontâneo das obras
anteriores encobria. Portanto, em Fogo Morto o romancista maduro e consciente
se sobrepõe ao memorialista nostálgico para construir sua obra-prima: síntese,
aprofundamento e condensação de todas as outras.

Espaço e tempo
Fogo Morto se passa no município de Pilar, na Zona da Mata paraibana, às
margens do rio Paraíba, distante cerca de 50 quilômetros de João Pessoa e nas
proximidades de Itabaiana. A maior parcela da ação se desenvolve nas terras
do engenho Santa Fé, nos arredores do Pilar. Na cidade, passa-se boa parte da
última seção da obra.

O desenrolar dos acontecimentos se dá durante os primeiros anos do século


XX, com uma regressão a 1850, época da fundação do engenho Santa Fé. Embora
seja traçada rapidamente a história do engenho até o momento narrado, as
ações em si não duram mais do que alguns meses.

O título
Os “engenhos” do Nordeste eram, originalmente, estabelecimentos agríco-
las destinados à cultura da cana e à fabricação do açúcar. Com a ascensão das

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Modernismo na Literatura Brasileira

usinas, que passaram a comprar dos engenhos sua produção bruta (a cana-de-
-açúcar ainda não processada) para fabricar o açúcar, a maior parte desses enge-
nhos foi, aos poucos, deixando de “botar”, de moer a cana para a fabricação do
açúcar. Eles passaram apenas a vender a matéria-prima às usinas, tornando-se
engenhos “de fogo morto” e assim perderam boa parte de seu poder, tornando-
-se reféns dos preços pagos pelas usinas. É como se encontra, ao final de Fogo
Morto, o decadente engenho Santa Fé.

Estrutura triangular
Fogo Morto é dividido em três partes. Cada uma delas traz, no título, o nome de
um dos três personagens principais do romance, mas as três partes se entrecruzam,
os personagens aparecem ao longo de todo o livro. O coronel Lula de Holanda, o
mestre José Amaro e Vitorino Carneiro da Cunha – misto de Dom Quixote e Sancho
Pança que, em suas andanças e na sua ingênua busca de justiça, estabelece as rela-
ções entre todas as personagens, servindo como ponto central da narrativa.

 Primeira parte: o mestre José Amaro – A primeira parte do romance centra-


-se na casa do mestre José Amaro, à beira da estrada, no engenho Santa Fé.
Mestre José Amaro é um seleiro orgulhoso e machista, que se recusa a ser
dominado por qualquer um, só trabalha para quem escolhe e admira o can-
gaceiro Antônio Silvino. Em grande medida, esta parte da obra se constrói
por meio dos diálogos entre José Amaro e os passantes, incluindo o com-
padre Vitorino Carneiro da Cunha, apelidado pelas crianças de Papa-rabo.
Mestre José Amaro se irrita com o coronel Lula de Holanda, que é dono
das terras em que o mestre mora e sempre cruza a estrada em seu cabriolé
sem jamais parar para cumprimentá-lo. Vai adiando, portanto, atender ao
chamado do coronel para que vá conversar com ele na casa-grande. Vemos
o lento processo de enlouquecimento de Marta, sua filha, em quem José
Amaro bate para tentar curar. O mestre recebe uma encomenda de com-
pras de Antônio Silvino e sente-se muito orgulhoso em poder ajudá-lo. Seu
caráter fechado e ranzinza lhe vale a fama de se transformar em lobisomem
e as pessoas temem encontrar com ele à noite. Por fim, tem que mandar a
filha para o hospício em Recife e acaba por atender ao chamado do coronel
Lula, que lhe ordena que se retire de suas terras.

 Segunda parte: o engenho de seu Lula – No início da segunda parte do


livro, temos uma regressão temporal, com o narrador retornando a 1850
para contar a fundação do engenho Santa Fé pelo capitão Tomás Cabral
de Melo. Mudando-se para a região antes de 1848, ele compra as terras,
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O romance da Geração de 1930

funda o engenho e o faz prosperar. Casa sua filha Amélia com Lula Chacon
de Holanda, seu primo, que pouco interesse ou aptidão tem para dirigir o
engenho. Adoentado, deixa D. Mariquinha, sua mulher, dirigindo os negó-
cios. Quando o capitão morre, Lula entra em disputa com a sogra e acaba
por tomar-lhe as terras e o poder. Castigando os escravos com requintes
de crueldade, andando com seu cabriolé para cima e para baixo, seu Lula
vai se afastando cada vez mais do povo de Pilar e seu engenho entra em
total decadência quando vem a Abolição e seus escravos debandam. Au-
toritário, impede os homens de se aproximarem da filha. Epilético, tem um
ataque na igreja e passa a se dedicar à religião com fervor. Empobrecido,
gasta até as últimas moedas de ouro que lhe deixou o sogro. Sente uma
inveja enorme de seu vizinho José Paulino e de seu engenho Santa Rosa,
e despreza o espírito quixotesco de Vitorino Carneiro da Cunha. Esta parte
se encerra com uma frase melancólica: “Acabara-se o Santa Fé”.

 Terceira parte: o capitão Vitorino – Na terceira e última parte do romance,


predomina a ação. O capitão Antônio Silvino invade a cidade do Pilar, sa-
queia as casas e lojas. Invade o engenho Santa Fé, ameaça os moradores
em busca do ouro escondido. Tentando defender o engenho, Vitorino é
agredido e só a intervenção de José Paulino faz com que os cangaceiros
desistam. Vitorino também apanha da polícia, José Amaro e seus compa-
nheiros são presos e agredidos. No final, após serem libertados, Vitorino
e o mestre José Amaro seguem rumos diferentes: o primeiro pensa em
influir politicamente na região, ao passo que o segundo, abandonado pela
mulher, com a filha louca e expulso de sua casa, acaba por cometer suicí-
dio enquanto o cabriolé de Lula passa pela estrada e o Santa Fé torna-se
engenho de fogo morto.

As filhas e as mulheres
Há uma sinistra simetria entre Marta, a sofredora filha de José Amaro, uma
solteirona que enlouquece aos poucos, e as filhas dos senhores do engenho
Santa Fé, seus antagonistas. Olívia, a filha mais nova do capitão Tomás Cabral de
Melo, enlouquece e perturba o silêncio áspero da casa-grande com seus gritos.
Neném, filha do coronel Lula de Holanda, é impedida pelo pai de se casar, sendo
melancólica e soturna. Sem filhos homens, os ensimesmados, machistas e tei-
mosos opositores acabam destruindo suas filhas.

As mulheres dos protagonistas também se assemelham muito. Sinhá Velha


e Sinhá Adriana são mais práticas e racionais do que os maridos – José Amaro e
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Modernismo na Literatura Brasileira

Vitorino –, mas pouco podem contra o machismo e a teimosia dos homens. No


engenho Santa Fé, as mulheres sempre se mostram mais decididas e práticas do
que o impotente Lula Chacon. D. Mariquinha, sua sogra, comanda o engenho
até a morte do marido, quando é passada para trás pelo genro, que se mostra
muito sem competência para gerir o engenho, que acaba por ser dirigido – sutil-
mente – por D. Amélia, sua mulher.

Polícia ou bandido
Polícia e bandido em muito se assemelham. Tanto o cangaceiro Antônio Sil-
vino quanto o tenente Maurício, comandante das tropas policiais, abusam da
violência, ameaçam a todos, espancam o sonhador Vitorino e espalham o terror
por onde passam. Mesmo que o povo (representado por José Amaro) respeite
mais ao cangaceiro, as suas ações não deixam de comprovar (como constatado
por Vitorino) que ele utiliza métodos abusivos e muito próximos do terror im-
plantado por seu opositor.

Erico Verissimo
Proveniente de uma rica família gaúcha que, repentinamente, entrou em de-
cadência, Erico Verissimo (1905-1975) trabalhou em empregos medíocres até se
tornar jornalista e, logo depois, escritor de sucesso. O gaúcho Erico Verissimo foi
um dos primeiros escritores brasileiros a viver da literatura.

A primeira fase de sua obra retrata a vida urbana, o cotidiano da cidade de


Porto Alegre. Seu primeiro romance é Clarissa (1933) e nele o autor descreve,
com muita sensibilidade, um ano na vida de uma adolescente que vai crescendo
em Porto Alegre e, ingenuamente, observando o mundo. Depois vieram Música
ao Longe (1935), em que Clarissa ressurge já adulta e angustiada, e Um Lugar ao
Sol (1936), em que Erico Verissimo enfoca, em primeiro plano, Vasco Bruno, o
marido de Clarissa, e atinge o ápice da investigação psicológica.

Na segunda fase de sua carreira, Erico Verissimo envereda pelo romance de


linha histórica, em que conta a história do Rio Grande do Sul por meio das aven-
turas da família Terra-Cambará. Três romances formam a série O Tempo e o Vento:
O Continente (1949), em que aparecem os conhecidos episódios Ana Terra e Um
certo capitão Rodrigo; O Retrato (1951) e O Arquipélago (1961).

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O romance da Geração de 1930

O Continente
Primeiro volume da trilogia O Tempo e o Vento, narra, em tom ao mesmo
tempo épico e lírico, a história da cidade de Santa Fé, desde os primórdios
de sua fundação, em 1745, até o final da Revolução Federalista, em 1895.
São, portanto, 150 anos da história gaúcha, narrados em terceira pessoa, de
maneira neutra e onisciente, como convém a uma obra de caráter épico e
histórico. No entanto, a narrativa não é linear, apresentando descontinui-
dades temporais e uma constante oscilação entre 1895 e diversas datas na
história de Santa Fé. Por sinal, muitos leitores entraram em contato apenas
com fragmentos deste romance, posteriormente publicados como histórias
separadas. Muitos já leram Ana Terra ou Um certo Capitão Rodrigo como no-
velas isoladas, sem ao menos saber que ambas fazem parte de O Continente.
Vejamos a estrutura geral da obra, com a indicação da época em que cada
fragmento se passa.

Fragmento Período descrito


O sobrado I 24 de junho de 1895: noite
A fonte 1745 a 1756
O sobrado II 25 de junho de 1895: madrugada
Ana Terra 1777 a 1811
O sobrado III 25 de junho de 1895: tarde
Um certo capitão Rodrigo 1828 a 1836
O sobrado IV 25 de junho de 1895: noite
A Teiniaguá 1850 a 1855
O sobrado V 26 de junho de 1895: manhã
A guerra 1869
O sobrado VI 26 de junho de 1895: noite
Ismália Caré 1884
O sobrado VII 27 de junho de 1895: manhã

Há, portanto, duas linhas claras na estrutura do romance: aquela com-


posta pelos fragmentos “O sobrado” (I a VII), que narram o cerco sofrido
pelo sobrado de Licurgo Cambará entre 24 e 27 de junho de 1895, os úl-
timos dias da Revolução Federalista, iniciada em 1893; e a linha histórica,
que conta a história de Santa Fé por meio das aventuras da família Terra-
-Cambará, apresentada nos outros framgmentos.

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Modernismo na Literatura Brasileira

“O sobrado”
Teimoso como seu avô Rodrigo, Licurgo Cambará está cercado em seu so-
brado pelas forças federalistas, comandadas pelos Amaral, eternos inimigos dos
Cambará. Acompanhado pela avó Bibiana, a cunhada Maria Valéria, os filhos
Toríbio e Rodrigo e pela mulher Alice (prestes a dar à luz novamente), Licurgo
luta contra os inimigos, contra a fome e a sede e contra o destino trágico dos
Cambará. Alice dá à luz uma menina que “nasce morta” e está, ela mesma, às
portas da morte. Quando Licurgo está prestes a levantar uma bandeira branca,
rendendo-se, vê encaminharem-se para o sobrado os seus aliados com a notícia
de que os federalistas – os maragatos – haviam se rendido. Salvo o sobrado, Li-
curgo reassume seu posto de intendente (prefeito) de Santa Fé e a família Cam-
bará vence, como sempre à custa de muito sacrifício, uma importante batalha na
eterna guerra contra os Amaral.

A história
 O primeiro fragmento dedicado à história do Rio Grande do Sul é “A fonte”,
em que se narra, a partir de 1745, a história do padre Alonzo, que nos Sete
Povos catequiza os jovens índios, dentre os quais está Pedro, que no seu fu-
ror místico imagina ver Nossa Senhora e conversar com os mortos. Quando
os Sete Povos são esmagados pelos portugueses, em 1756, “Pedro montou
num cavalo baio e, levando consigo somente a roupa do corpo, a chirimia e
o punhal de prata, fugiu a todo galope na direção do grande rio...”

 “Ana Terra” é o fragmento seguinte. Maneco Terra e sua família moram em


uma estância próxima a Rio Pardo. Ana acaba se apaixonando pelo índio Pe-
dro Missioneiro, de quem engravida. Antônio e Horácio, irmãos de Ana, as-
sassinam Pedro para limpar a honra da irmã. Forte e corajosa, Ana cria o filho,
mesmo enfrentando o desdém do pai. Quando a estância é atacada por es-
panhóis, só Ana, seu filho Pedro e sua cunhada Eulália sobrevivem. Juntam-se
à caravana de Marciano Bezerra e vão para a estância Santa Fé, comandada
pelo coronel Ricardo Amaral. Com Pedro, Ana Terra constrói em Santa Fé uma
vida que só não é inteiramente tranquila porque as guerras frequentemente
a afastam do filho, que segue as ordens do estancieiro Amaral.

 “Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o capitão Rodrigo


Cambará entrara na vida de Santa Fé.” Assim se inicia o fragmento “Um cer-
to capitão Rodrigo”, que narra como o guerreiro e andarilho Rodrigo Cam-
bará, síntese do espírito gaúcho (corajoso, leal, tradicionalista e, acima de

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O romance da Geração de 1930

tudo, másculo), chega ao povoado, em 1828. Travando amizade com Ju-


venal Terra, filho de Pedro e neto de Ana Terra (que nesse momento já era
falecida), Rodrigo logo se apaixona por Bibiana, irmã de Juvenal. Lutando
contra o poderio da família Amaral, Rodrigo termina casando-se com Bi-
biana, com quem tem os filhos Bolívar e Leonor, e acaba por enfrentar o
coronel Ricardo Amaral em confronto mortal. Os dois inimigos morrem na
luta e no mesmo dia são sepultados. Está decretada a eterna guerra entre
os Amaral e os Terra-Cambará.

 O fragmento seguinte, “A Teiniaguá”, passa-se durante a primeira metade


da década de 1850. Bolívar Cambará casa-se com Luzia, neta de Aguinal-
do Silva, dono do sobrado mais imponente de Santa Fé. Morando no so-
brado, Bolívar e Luzia têm o filho Licurgo e a amizade do doutor Winter,
médico alemão muito culto que se torna, com suas observações da vida
gaúcha, uma das personagens mais importantes do romance. Mais culta e
requintada que o marido, Luzia se opõe ao machismo gaúcho e aos pou-
cos se revela um tanto desequilibrada, tendo verdadeira fascinação pela
morte. Bolívar é assassinado a mando dos Amaral e Bibiana se encarrega
de cuidar de seu neto Licurgo.

 O próximo fragmento da história dos Terra-Cambará já se passa em


1869, quando os homens de Santa Fé são enviados à Guerra do Paraguai
(1864-1870). Intitulado “A guerra”, esse fragmento gira em torno dos cui-
dados de Bibiana Cambará com Licurgo, seu neto adolescente que tanto
lembra seu marido Rodrigo. Decidida a criar o neto como herdeiro da
coragem e do orgulho dos Cambará, ela entra em conflito com Luzia, a
cada dia mais depressiva e sofrendo de um tumor maligno.

 “Ismália Caré”, último fragmento de O Continente, passa-se em 1884, quando,


instigado pela avó, Licurgo se casará com sua prima Alice. Vivendo entre o
sobrado e a estância de Angico, Licurgo mantém um caso com Ismália Caré,
filha de um trabalhador rural da sua propriedade. A ação se passa durante
os festejos pela elevação de Santa Fé a cidade. Duas festas se opõem: uma
que é organizada pelos Amaral e a outra, evidentemente, organizada pelos
Cambará. Licurgo descobre que Ismália espera um filho seu, mas decide que
não o terá, pois deve casar-se com Alice para continuar a luta dos Cambará.
O livro chega, assim, aos acontecimentos da Revolução Federalista, em que,
cercado no sobrado, Licurgo defende a honra e a família.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 137 16/2/2009 11:38:12


Modernismo na Literatura Brasileira

Realismo fantástico
A terceira e última fase do romancista é marcada por um realismo fantástico
próximo ao dos escritores latino-americanos das décadas de 1960 e 1970. Em obras
como Incidente em Antares (1971), Verissimo, por meio de episódios fantásticos,
aparentemente distantes da realidade, critica a vida política e social do momento.

Rachel de Queiroz
Rachel de Queiroz (1910-2003) cresceu no sertão do Ceará, em Fortaleza, no
Rio de Janeiro, em Belém e em Quixadá (CE). Em 1925, formou-se professora e
passou a colaborar em jornais locais. Em 1930, com a publicação de O Quinze,
alcançou sucesso nacional. Militou nos quadros políticos da esquerda, chegou a
ser presa em 1937 e, a partir de então, fixou residência no Rio de Janeiro.

Autora de vasta obra, como romancista, cronista e tradutora, Rachel de Queiroz


foi a primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras, conquistou
todos os prêmios literários importantes do Brasil e, pouco antes de morrer (morreu
dormindo em sua rede, em 4 de novembro de 2003, na cidade do Rio de Janeiro),
ainda afirmava que era jornalista, pois escrevia para os jornais desde os 19 anos de
idade. Porém – dizia – não gostava de escrever, só o fazia para se sustentar e con-
siderava que havia escrito poucos livros (O Quinze, As três Marias, Dôra, Doralina,
Gallo de Ouro e Memorial de Maria Moura). Para ela, os outros eram apenas compi-
lações de crônicas que fez por encomenda, para a imprensa.

Profundamente ligada à sua terra natal, Rachel de Queiroz escrevia em uma


linguagem dominada pelo humanismo e, nos seus romances, predominam a me-
mória e a observação dos problemas sociais da região. Além de O Quinze, publicou
os romances João Miguel (1932), Caminho das Pedras (1937), As Três Marias (1939),
Dôra, Doralina (1975), Gallo de Ouro (1986) e Memorial de Maria Moura (1992).

O Quinze
O sucesso, que rapidamente alcançou em todo o país, desta obra de uma
jovem cearense de 20 anos de idade fez com que O Quinze, publicado pouco
depois de A Bagaceira, fosse uma das obras fundamentais na divulgação do Re-

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O romance da Geração de 1930

gionalismo de 1930. Escrito em linguagem bem mais direta e simples do que o


romance de José Américo de Almeida, a obra de estreia de Rachel de Queiroz
usa a seca de 1915 no Ceará como pano de fundo para revelar o sofrimento e as
angústias tanto dos miseráveis quanto dos proprietários rurais.

Narrado em terceira pessoa e utilizando a onisciência, o romance apresenta


dois núcleos dramáticos que se cruzam:

 a odisseia de Chico Bento, vaqueiro pobre e desempregado, e sua família,


fugindo da seca rumo a Fortaleza;

 os desencontros amorosos entre a professora Conceição e o seu primo e


quase namorado, o pecuarista Vicente.

Conceição leva sua avó Inácia da fazenda onde mora, em Quixadá, para ficar em
Fortaleza enquanto perdurar a seca. Na capital, a professora, que é solteirona (aos
22 anos!), ajuda os miseráveis reunidos no Campo de Concentração e pensa no seu
primo Vicente, que permanece em Quixadá, cuidando bravamente da fazenda da
família. Divididos tanto no espaço quanto por interesses diversos e intrigas várias,
além de estarem incapazes de se comunicar, os primos vão – mesmo se amando –
separando-se mais a cada dia. Enquanto isso, a distância entre Quixadá e Fortaleza
vai sendo coberta, a pé, sob o sol escaldante, sem água e sem comida, por Chico
Bento, Cordulina (sua mulher), Mocinha (a cunhada) e os cinco filhos. Mocinha fica
pelo meio do caminho e acaba “caindo na vida” (torna-se prostituta); o filho mais
velho morre envenenado; outro filho foge e se perde para sempre. A família, já bem
reduzida, acaba por chegar ao Campo de Concentração, em Fortaleza, onde é aco-
lhida por Conceição, que fica com o filho mais novo e consegue passagens para os
restantes irem tentar uma sorte melhor em São Paulo. Com o fim da seca, Conceição
vai visitar Quixadá, sentindo-se “estéril, inútil, só”. Encontra-se com Vicente, também
solitário, mas a comunicação entre os dois já se tornara impossível, “E Conceição o
viu sumir-se no nevoiro dourado da noite, passando a galope, como um fantasma,
por entre o vulto sombrio dos serrotes” (QUEIROZ, 2004, p. 160).

Jorge Amado
A estreia literária de Jorge Amado (1912-2001), baiano de Itabuna, ocorreu
em 1931, com o romance O País do Carnaval. Em 1933, ele publicou Cacau, ro-

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Modernismo na Literatura Brasileira

mance muito bem-recebido tanto pela crítica quanto pelo público leitor. Suor
(1934), Jubiabá (1935) e Mar Morto (1936) seguiriam a trilha do romance regiona-
lista preocupado em denunciar as desigualdades sociais nordestinas.

Quando Capitães da Areia (1937) foi publicado, o Brasil iniciava a ditadura do


Estado Novo (1937-1945). O teor do romance, claramente apologético de uma
revolução socialista, levou a ditadura a confiscar a primeira edição e a queimar
1694 exemplares de livros de Jorge Amado em praça pública, em Salvador. Ca-
pitães da Areia haveria de se tornar, décadas depois, um dos livros de maior su-
cesso entre o público adolescente por todo o país. Nesse romance, Jorge Amado
denuncia a situação de marginalidade miserável das crianças abandonadas de
Salvador, recorrendo muitas vezes a fictícias notícias de jornal para realçar o ca-
ráter realista de reportagem investigativa. Mas, como lhe é peculiar, não se limita
ao realismo: cria uma atmosfera nitidamente romântica ao descrever o heroísmo
de Pedro Bala e seus companheiros. Em 1943, depois de seis anos de censura, o
autor publicou Terras do Sem Fim, romance com que chegou ao ápice da literatu-
ra engajada na proposta de uma revolução social.

Mas, logo sua obra tomaria outro rumo. O volume Os Velhos Marinheiros,
de 1961, por exemplo, reúne duas novelas de caráter fantástico, com sabor de
lenda alegórica, narradas em tom de rumor popular, sobre “velhos marinhei-
ros” baianos.

A primeira novela do livro é “A morte e a morte de Quincas Berro D’água”, em


que são narradas as duas mortes de Quincas Berro D’água – ou as três mortes do
respeitável funcionário público Joaquim Soares da Cunha.

Joaquim Soares da Cunha e Quincas Berro D’água

 A primeira morte se deu quando o respeitável funcionário público Jo-


aquim, viúvo exemplar, abandonou o lar e a família (a filha Vanda, o
genro Leonardo, a tia Marocas e seu irmão mais moço, o comerciante
Eduardo). Morto para a família, Joaquim foi viver como bêbado vaga-
bundo entre a arraia-miúda de Salvador. Famoso beberrão, certo dia
ele entrou na venda do espanhol Lopes e virou uma garrafa do que jul-
gava ser cachaça. O seu berro de terror – “Águuuuuua!” – criou o ape-

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O romance da Geração de 1930

lido pelo qual se tornou conhecido por toda a malandragem: Quincas


Berro Dágua.

 Certa manhã, Quincas foi encontrado morto no seu quarto na Ladei-


ra do Tabuão. A família preparou o enterro e resolveu velá-lo às es-
condidas no seu quarto. Durante o velório, Quincas misteriosamente
xingou toda a família. E quando quatro amigos vagabundos ficaram
a sós com o cadáver, serviram-lhe um gole de cachaça, fazendo com
que ressuscitasse.

 Alegre e bêbado, Quincas foi levado pelos amigos a um último passeio


pela vida noturna da cidade. Beberam, brigaram e acabaram navegan-
do no veleiro de Mestre Manuel. Durante o passeio, Quincas caiu ao
mar, onde morreu definitivamente.

A segunda novela é “A completa verdade sobre as discutidas aventuras

do comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão-de-longo-curso”. Vasco


Moscoso de Aragão é uma personagem um tanto cômica que se apresenta na
cidade de Periperi, onde vai morar, como um velho marinheiro, ostentando o
título, totalmente falso, de capitão-de-longo-curso. Por um fantástico golpe
de sorte, o impostor acaba se convertendo em herói da navegação.

Os Velhos Marinheiros se distancia muito de Capitães da Areia, em que,


apesar de certo tom emotivo, ainda prevalecia a intenção de descrever cri-
ticamente a sociedade. No livro de 1961, predomina o insólito, o pitoresco.
Os pobres são descritos como seres alegres e romanticamente livres. O Jorge
Amado anedótico, sonhador e lírico nitidamente se sobrepõe ao crítico das
desigualdades sociais.

Na verdade, essa é uma tendência marcante na sua obra a partir de Gabrie-


la, Cravo e Canela (1958). Não por acaso, é este Jorge Amado – o criador das
folclóricas personagens de Dona Flor e seus Dois Maridos (1966), Teresa Batista
Cansada de Guerra (1972) e Tieta do Agreste (1977) – e não o comunista das
denúncias sociais das décadas de 1930 e 1940 que, adaptado para as telas,
transformou-se em estrondoso sucesso de audiência da televisão e do cinema
brasileiros.

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Modernismo na Literatura Brasileira

O romance urbano
Cyro dos Anjos (1906-1994) era mineiro de Montes Claros e produziu uma obra
fortemente influenciada pela obra de Machado de Assis, pois apresenta, como a
do mestre realista, uma constante oscilação entre a melancolia e o humor. O Ama-
nuense Belmiro (1937) e Abdias (1945), seus principais romances, são em forma de
diários escritos por narradores insignificantes, homens “menores”, como o Brás
Cubas de Machado de Assis. Introspecção e memória fundem-se no observador
discreto da vida urbana de personagens simples e humildes. Essa qualidade, aliada
a uma linguagem clara e composta com muito rigor, faz de Cyro dos Anjos um dos
narradores mais ágeis do nosso Modernismo.

Poucos romances, como O Amanuense Belmiro, correspondem tão perfeita-


mente ao conceito – elaborado pelo crítico Lucien Goldmann (1913-1970) – de
romance de tensão interiorizada: aquele em que o herói procura ultrapassar o
conflito que o constitui existencialmente pela transmutação mítica ou metafí-
sica da realidade. A narrativa de O Amanuense Belmiro é em primeira pessoa, na
forma de um diário. Belmiro Borba, o narrador, conta sobre seus sonhos frustra-
dos, seu cotidiano de burocrata, seu círculo de amigos “literatos” e seus amores
platônicos. O diário é escrito durante pouco mais de um ano, do Natal de 1934 a
alguns dias após o Carnaval de 1936. De início, Belmiro aspirava a escrever suas
memórias de Vila Caraíbas, onde fora criado. No entanto, termina, isto sim, por
descrever o seu dia-a-dia de homem solteiro e solitário, que olha com melancolia
para o presente e lamenta, como Manuel Bandeira (1886-1968), “toda a vida que
podia ter sido e que não foi”. Ele tem quase 40 anos, mora na Rua Erê, em Belo
Horizonte, com as irmãs Emília e Francisquinha (que são mais velhas que ele) e
é amanuense – um escrevente, funcionário burocrático subalterno – na Seção
do Fomento Animal. Belmiro projeta imaginação e memória sobre seu cotidia-
no insosso, vivendo mais nos projetos irrealizáveis e nos sonhos intangíveis que
na própria realidade. O romance termina como o poema “Cota zero”, de Carlos
Drummond de Andrade (1902-1987), citado por Belmiro no início da narrativa:
“Stop!/ A vida parou/ ou foi o automóvel?” Inesperada e abruptamente, Belmiro
nos informa que a vida parou e nada há mais por escrever – mas foi escrevendo
que Belmiro salvou-se da insignificância. Nas suas próprias palavras:
Quem quiser fale mal da Literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela a minha salvação.
Venho da rua deprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico... Em verdade vos digo: quem
escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório. É um homem
poderoso, que espia para dentro, sorri e diz: “Ora bolas”.

Como sintetiza Antonio Candido, em um prefácio para esse livro,

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O romance da Geração de 1930

O Amanuense Belmiro é o livro de um burocrata lírico. Um homem sentimental e tolhido,


fortemente tolhido pelo excesso de vida interior, escreve seu diário e conta suas histórias.
Para ele, escrever é, de fato, evadir-se da vida; é a única maneira de suportar a volta às suas
decepções, pois escrevendo-as, pensando-as, analisando-as, o amanuense estabelece um
movimento de báscule entre a realidade e o sonho.

Textos complementares
Leia, a seguir, as descrições de dois dos mais conhecidos personagens de
Erico Verissimo: Ana Terra e o capitão Rodrigo Cambará.

Ana Terra
(VERISSIMO, 1967, p. 113-114)

Os anos chegavam e se iam. Mas o trabalho fazia Ana esquecer o tempo.


No inverno tudo ficava pior: a água gelava nas gamelas que passavam a noite
ao relento; pela manhã o chão frequentemente estava branco de geada e
houve um agosto em que quando foi lavar roupa na sanga Ana teve primeiro
de quebrar com uma pedra a superfície gelada da água.

Em certas ocasiões surpreendia-se a esperar que alguma coisa aconteces-


se e ficava meio aérea, quase feliz, para depois, num desalento, compreender
subitamente que para ela a vida estava terminada, pois um dia era repetição
do dia anterior – o dia de amanhã seria igual ao de hoje, assim por muitas
semanas, meses e anos até a hora da morte. Seu único consolo era Pedrinho,
que ela via crescer, dar os primeiro passos, balbuciar as primeiras palavras.
Mas o próprio filho também lhe dava cuidados, incômodos. Quando ele ado-
ecia e não sabia dizer ainda que parte do corpo lhe doía, ela ficava agoniada
e, ajudada pela mãe, dava-lhe chás e ervas, e quando a criança gemia à noite
ela a ninava, cantando baixinho para não acordar os que dormiam.

De quando em quando chegavam notícias do Rio Pardo pela boca dum


passante. Contaram um dia a Maneco Terra que Rafael Pinto Bandeira tinha
sido preso, acusado de ter desviado os quintos e direitos da Coroa de Portu-
gal e de ter ficado com as presas apanhadas nos combates de São Martinho
e Santa Tecla. Ia ser enviado para o Rio de Janeiro e submetido a conselho de
guerra. E o informante acrescentou:

– Tudo são invejas do governador José Marcelino, que é um tirano.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 143 16/2/2009 11:38:12


Modernismo na Literatura Brasileira

Maneco não disse palavra. Não era homem de conversas. Não se metia com
os graúdos. O que ele queria era cuidar de sua casa, de sua terra, de sua vida.

De toda a história Ana só compreendeu uma coisa: Rafael Pinto Bandeira


fora preso como ladrão. E imediatamente lembrou daquele remoto dia de
vento em que o comandante, todo faceiro no seu fardamento e seu chapéu
de penacho, lhe dissera de cima do cavalo: “Precisaremos de muitas moças
bonitas e trabalhadeiras como vosmecê.”

Muitos anos mais tarde, Ana Terra costumava sentar-se na frente de sua
casa para pensar no passado. E no seu pensamento como que ouvia o vento de
outros tempos e sentia o tempo passar, escutava vozes, via caras e lembrava-se
de coisas... o ano de 81 trouxera um acontecimento triste para o velho Maneco:
Horácio deixara a fazenda, a contragosto do pai, e fora para o Rio Pardo, onde se
casara com a filha de um tanoeiro e se estabelecera com uma pequena venda.
Em compensação, nesse mesmo ano, Antônio casou-se com Eulália Moura,
filha dum colono açoriano dos arredores do Rio Pardo, e trouxe a mulher para a
estância, indo ambos viver no puxado que tinham feito no rancho.

Em 85 uma nuvem de gafanhotos desceu sobre a lavoura deitando a


perder toda a colheita. Em 86, quando Pedrinho se aproximava dos oito anos,
uma peste atacou o gado e um raio matou um dos escravos.

Foi em 86 mesmo ou no ano seguinte que nasceu Rosa, a primeira filha


de Antônio e Eulália? Bom. A verdade era que a criança tinha nascido pouco
mais de um ano após o casamento. Dona Henriqueta cortara-lhe o cordão
umbilical com a mesma tesoura de podar que separara Pedrinho da mãe.

E era assim que o tempo se arrastava, o sol nascia e se sumia, a lua passava
por todas as fases, as estações iam e vinham, deixando sua marca nas árvo-
res, na terra, nas coisas e nas pessoas.

Capitão Rodrigo
(VERISSIMO, 1967, p. 171-173)

Toda gente tinha achado estranha a maneira como o capitão Rodrigo


Cambará entrara na Vila de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém
sabia de onde, com o chapéu barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça

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O romance da Geração de 1930

de macho ativamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao


mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos
30, montava um alazão, vestia calças de riscado, botas com chilenas de prata
e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha
e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos
arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encar-
nado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na
frente da venda do Nicolau, amarrou o alazão no tronco de um cinamomo,
entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque, e foi
logo gritando, assim com ar de velho conhecido:

— Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes


dou de talho!

Havia por ali uns dois ou três homens, que o miraram de soslaio sem dizer
palavra. Mas dum canto da sala ergueu-se um moço moreno, que puxou a
faca, olhou para Rodrigo e exclamou:

— Pois dê!

Os outros homens afastaram-se como para deixar a arena livre, e Nicolau,


atrás do balcão, começou a gritar:

— Aqui dentro não! Lá fora! Lá fora!

Rodrigo, porém, sorria, imóvel, de pernas abertas, rebenque pendente do


pulso, mãos na cintura, olhando para o outro com um ar que era ao mesmo
tempo de desafio e simpatia.

— Incomodou-se, amigo? – perguntou jovial, examinando o rapaz de alto


a baixo.

— Não sou de briga, mas não costumo aguentar desaforo.

— Oôi bicho bom!

Os olhos de Rodrigo tinham uma expressão cômica.

— Essa sai ou não sai? Perguntou alguém do lado de fora, vendo que
Rodrigo não desembainhava a adaga. O recém-chegado voltou a cabeça e
respondeu calmo:

— Não sai. Estou cansado de pelear. Não quero puxar arma pelo menos

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por um mês. – Voltou-se para o homem moreno e, num tom sério e concilia-
dor, disse:

— Guarde a arma, amigo.

O outro, entretanto, continuou de cenho fechado e faca em punho. Era


um tipo indiático, de grossas sobrancelhas negras e zigomas salientes.

— Vamos, companheiro – insistiu Rodrigo. – Um homem não briga debal-


de. Eu não quis ofender ninguém. Foi uma maneira de falar.

Depois de alguma relutância o outro guardou a arma, meio desajeitado, e


Rodrigo, estendeu-lhe a mão dizendo:

— Aperte os ossos.

O caboclo teve uma breve hesitação, mas por fim, sempre sério, apertou
a mão que Rodrigo lhe oferecia.

— Agora vamos tomar um trago. – convidou este último.

— Mas eu pago – disse o outro.

Tinha lábios grossos, dum pardo avermelhado e ressequido.

— O convite é meu.

— Mas eu pago – repetiu o caboclo.

— Está bem. Não vamos brigar por isso.

Aproximaram-se do balcão.

— Duas caninhas! – pediu Rodrigo.

Nicolau olhava para os dois homens com um sorriso desdentado na cara


de lua cheia, onde apontava uma barba grossa e falha.

— É da boa. – disse ele, abrindo uma garrafa de cachaça e enchendo dois


copinhos.

Houve um silêncio durante o qual ambos beberam: o moço em pequenos


goles, e Rodrigo dum sorvo só, fazendo muito barulho e por fim estralando
os lábios.

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O romance da Geração de 1930

Tornou a pôr o copo sobre o balcão, voltou-se para o homem moreno e disse:

— Meu nome é Rodrigo Cambará. Como é sua graça?

— Juvenal Terra.

— Mora aqui no povo?

— Moro.

— Criador?

O outro sacudiu a cabeça negativamente.

— Faço carreatas daqui pro Rio Pardo e de lá pra cá.

— Mais um trago?

— Não. Sou de pouca bebida.

Rodrigo tornou a encher o copo, dizendo:

— Pois comigo companheiro, a coisa é diferente. Não tenho meias medi-


das. Ou é oito ou oitenta.

— Hai gente de todo o jeito. – limitou-se a dizer Juvenal.

Rodrigo olhou para o vendeiro.

— Como é a sua graça mesmo, amigo?

— Nicolau.

— Será que se arranja por aí alguma coisa de comer?

Nicolau coçou a cabeça.

— Posso mandar fritar uma linguiça!

O capitão tomou seu terceiro copo de cachaça. Juvenal, que o observava


com olhos parados e inexpressivos, puxou dum pedaço de fumo em rama e
duma pequena faca e ficou a fazer um cigarro.

— Pois te garanto que estou gostando deste lugar. – disse Rodrigo – Quando
entrei em Santa Fé, pensei cá comigo: Capitão, pode ser que vosmecê só passe
aqui uma noite, mas também pode ser que passe o resto da vida...

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Modernismo na Literatura Brasileira

— E o resto da vida pode ser trinta anos, três meses ou três dias... — filo-
sofou Juvenal, olhando os pedacinhos de fumo que se acumulavam no côn-
cavo da mão.

E quando ergueu a cabeça para encarar o capitão, deu com aqueles olhos
de ave de rapina.

— Ou três horas... – completou Rodrigo – Mas por que é que o amigo diz
isso?

— Porque vosmecê tem um jeito atrevido.

Sem se zangar, mas com firmeza, Rodrigo retrucou:

— Tenho e sustento o jeito.

— Por aqui hai também muito homem macho.

Estudos literários
1. Leia o capítulo abaixo, de O Amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos, para res-
ponder às perguntas.

Os acontecimentos conduzem os homens


E assim vai a vida... Os acontecimentos que até aqui se desenrolaram e em
que desempenhei ora o papel de ator principal, ora o de espectador, muda-
ram, por completo, as intenções deste livro. Naquela noite de Natal, ao início
destas notas, expus o plano de ir alinhando apontamentos que me permitis-
sem publicar, mais tarde, um livro de memórias. Estava, então, concebendo
qualquer coisa, e essa coisa se me agitava, no ventre, reclamando lugar ao
sol. Jamais pensei, naquela ocasião, ou antes dela, que o presente pudesse vir
dominar-me o espírito por forma tal, dele expelindo as imagens do passado
que então o povoavam, abundantes e vivas.

Estive refletindo, esta tarde, em que, no romance, como na vida, os perso-


nagens é que se nos impõem. A razão está com monsieur Gide: eles nascem
e crescem por si, procuram o autor, insinuam-se-lhe no espírito.

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O romance da Geração de 1930

Não se trata, aqui, de romance. É um registro nostálgico, um memorial


desconchavado. Tal circunstância nada altera, porém, a situação. Na verda-
de, dentro do nosso espírito as recordações se transformam em romance, e
os fatos, logo consumados, ganham outro contorno, são acrescidos de mil
acessórios que lhes atribuímos, passam a desenrolar-se num plano especial,
sempre que os evocamos, tornando-se, enfim, romance, cada vez mais ro-
mance. Romance trágico, bufo ou sem nenhum sentido, conforme cada um
de nós, monstros imaginativos, é trágico, é cômico ou absurdo.

Vejo que a história do presente já expulsou, definitivamente, destes ca-


dernos, a do passado. Carmélia (travestida de Arabela) e Jandira afastaram a
sombra de Camila, que, bem o percebo agora, era outra encarnação do mito
infantil. Silviano, Redelvim, Glicério, Florêncio e Giovanni e seus pequenos
mundos baniram os fantasmas caraibanos, as evocações dos velhos Borbas,
a vida sentimental da Vila e da fazenda.

Em vão, tento uma sondagem em Vila Caraíbas, naquele ano extraordiná-


rio de 1910. Baldo esforço: como resistir a personagens e fatos que, a cada
instante, incidem no plano de nossa consciência? Às vezes ainda me vem
a necessidade angustiosa de rever antigas paisagens, evadir-me para uma
região que realmente já não se acha no espaço, e sim no tempo. Mas, no
comum dos dias, agora é o presente que me atrai.

a) Aponte o recurso utilizado por Cyro dos Anjos nesse fragmento, ao escre-
ver sobre o próprio ato de escrever. Cite um autor realista brasileiro que
muito se utilizou deste recurso.

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Modernismo na Literatura Brasileira

b) Por que, conforme ele mesmo, Belmiro não conseguiu seguir o plano a
que se propunha ao começar o romance?

c) Esse capítulo comprova a tese de que O Amanuense Belmiro é um roman-


ce de tensão interiorizada? Por quê?

d) Explique a frase “Carmélia (travestida de Arabela) e Jandira afastaram a


sombra de Camila, que, bem o percebo agora, era outra encarnação do
mito infantil”.

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O romance da Geração de 1930

e) A frase “Vejo que a história do presente já expulsou, definitivamente,


destes cadernos, a do passado” é verdadeira? Por quê?

2. Leia abaixo um fragmento do romance Fogo Morto, de José Lins do Rego


(Texto 1) e, em seguida, um trecho de São Bernardo, de Graciliano Ramos
(Texto 2). Ao final, compare os dois trechos.

Texto 1
E não falou mais. Foi para a sua rede, enjeitou a janta, e na escuridão do quarto
as coisas começaram a rodar na cabeça. Não haveria um direito para ele? A terra
era do senhor de engenho, e ele que se danasse, que fosse com seus cacos para
o inferno. Um ódio de morte tomou-o de repente. Não sentira aquilo no mo-
mento em que o coronel lhe falara. Era um maluco, não tinha raiva dele.

Mas na escuridão, na rede que rangia nos armadores de corda, tinha raiva,
tinha uma vontade de destruição, de matar, de acabar com o outro. As gar-
galhadas de Marta enchiam a casa. Teria uma filha na Tamarineira. O infeliz
daquele negro Floripes pagaria. E, sem querer, levantou-se da rede. Abriu a
janela do quarto e o céu estrelado pinicava na escuridão da noite.

Andou para a porta e pensou em sair um pouco. Lobisomem. Os meni-


nos correram de sua figura, ouviu gente batendo porta por sua causa. Foi
até a pitombeira e sentou-se em cima da raiz. O que havia nele para espan-
tar os meninos, para meter medo aos velhos? Todo o ódio ao negro Floripes
sumiu-se. Uma onda de frio passou-lhe pelo corpo. O que tinha nele para
fazer medo, para fazer correr gente? Lembrou-se da noite da morte da velha
Lucinda. Ligou tudo. Correram dele. Lobisomem.

Em menino falavam dos que saíam de noite para beber sangue, matar
inocentes, correr como bicho danado. E sem saber explicar, o mestre José
Amaro examinou-se com pavor. O que havia no seu corpo, nos seus gestos,
na sua vida? A filha endoidecera. Mas isto nada tinha que ver com a invenção

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Modernismo na Literatura Brasileira

do povo. Ele não saía de casa, nunca fizera mal a ninguém. E por que seria
o monstro que alarmava o povo? A noite escura chiava nos insetos; ladrava
um cachorro do seu Lucindo. Sinhá e a comadre conversavam. E a filha no
falatório, na gargalhada, no sofrimento pior deste mundo. O mestre não en-
contrava apoio para fugir da preocupação. Entrou outra vez para o quarto,
e não tinha paz, não estava seguro de nada, não estava seguro de nada.
As ameaças do coronel Lula, a raiva a Floripes, tudo se diluíra com aquele
pavor quer lhe enchia o coração. Tinha medo e não sabia de que era. Ele
fazia correr menino na estrada. Era o lobisomem do povo, o filho do diabo,
encantando-se nas moitas escuras. Nunca um pensamento lhe doera tanto.
Latia aquele cachorro como se estivesse acuando um bicho. Aquela hora as
mulheres rezariam, estariam com a ideia no lobisomem que imaginavam
com as unhas grandes, a cabeça comprida de lobo, a forma de monstro em
desadoro. Corria um vento que lhe esfriava os pés. Por que seria ele para a
crença do povo aquele pavor, aquele bicho? O que fizera para merecer isso?
O coração batia-lhe muito forte. Não. No outro dia teria que fazer qualquer
coisa para acabar com aquela história. Laurentino e Floripes pagariam. Eram
eles os criadores daquela miséria. A filha no outro dia sairia para o Recife. A
sua casa ficaria mais só, mais cheia de tristeza.

Mesmo assim amava a sua casa. E se fosse embora e procurasse outra


terra para acabar com seus dias? O coronel lhe pedira a casa. Era um bom
pretexto para fugir do povo que lhe queria mal, que o via como uma des-
graça, uma criatura do diabo. Estaria tudo resolvido. O mestre José Amaro
encontraria um engenho no Itambé, uma terra que o acolhesse, um povo
que o amasse.

(REGO, 1997, p. 112-114)

Texto 2
Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um
coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros
homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.

(RAMOS, 1953, p. 194)

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O romance da Geração de 1930

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Graciliano Ramos

Prefeito, educador e escritor


Nascido em Quebrangulo, Alagoas, em 27 de outubro de 1892, Gra-
ciliano Ramos viveu, na sua infância, sucessivas mudanças com a família
pelo interior de Pernambuco e Alagoas. Suas experiências e impressões
dessa fase serviram de material para suas obras de ficção e de memórias,
como o livro Infância (1945).

Em 1927, ele foi eleito prefeito da pequena cidade de Palmeira dos


Índios (AL), onde sua gestão foi reconhecida como dinâmica e séria.
Preocupava-se com a educação e abriu escolas em três aldeias (Serra da
Mandioca, Anum e Canafístula). Escritos em uma linguagem objetiva e
clara, sem o convencionalismo característico dos documentos oficiais, os
dois relatórios anuais enviados pelo prefeito Graciliano ao governador do
estado chamaram a atenção, entre os que os leram, do editor Augusto Fre-
derico Schmidt (1906-1965). Vejamos um trecho de um desses relatórios.
Exmo. Sr. Governador:

Trago a V. Exa. um resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos
Índios em 1928.
Não foram muitos, que os nossos recursos são exíguos. Assim minguados, entretanto,
quase insensíveis ao observador afastado, que desconhece as condições em que o
município se achava, muito me custaram.

Começos

O principal, o que sem demora iniciei, o de que dependiam todos os outros, segundo
creio, foi estabelecer alguma ordem na administração.
Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o comandante
do destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do
município tinha a administração particular, com prefeitos coronéis e prefeitos inspetores
de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam.
Para que semelhante anomalia desaparecesse, lutei com tenacidade e encontrei
obstáculos dentro da prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência, mole, suave, de
algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis. Pensavam
uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos
nós; outros me davam três meses para levar um tiro.

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Modernismo na Literatura Brasileira

Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos: saíram os que faziam
política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários,
cumprem suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a eles.
Não sei se a administração do município é boa ou ruim. Talvez pudesse ser pior. (apud
CARDOSO, 2008)

Schmidt viria a publicar o primeiro romance do autor – Caetés, em 1933 –,


quando Graciliano já estava com 40 anos de idade. Nessa época, enquanto se
recuperava de uma cirurgia, ele terminou de escrever São Bernardo (publicado
em 1934), o primeiro de uma série de três romances que o tornariam um dos
maiores escritores da língua portuguesa. A trilogia se completa com Angústia
(1936) e Vidas Secas (1938).

Em 1933, foi nomeado diretor da Instrução Pública de Alagoas e mudou-se


para Maceió. Era casado com Heloísa de Medeiros, com quem teve quatro filhos.
Ocupou o cargo durante três anos, trabalhando muito e revolucionando os mé-
todos de ensino no estado.

Em 1936, foi preso, sob a acusação de comunismo. Essa acusação era falsa,
já que só se filiaria ao Partido Comunista do Brasil (PCB) em 18 de agosto de
1945, nove anos depois. Ficou nove meses preso. As condições precárias e o
tratamento desumano e opressor das prisões onde esteve afetaram sua saúde
e lhe deram material para escrever Memórias do Cárcere (1953) – mais do que
um mero depoimento, “um dos estudos mais sérios da realidade brasileira, um
libelo contra o nosso atraso cultural e uma denúncia das iniquidades do Estado
Novo” (PAES; MOISÉS, 1968, p. 206). Graciliano começou a escrevê-lo em 1946,
dez anos depois da prisão, e o livro seria publicado em 1953, que é também o
ano de sua morte.

Depois de libertado, Graciliano permaneceu no Rio de Janeiro, não voltou


mais ao Nordeste. No entanto, o Nordeste sempre esteve com ele, nos seus livros
e na sua vida.

Morou com a mulher e as filhas menores em um quarto de pensão em que


escreveu, entre outros textos, A Terra dos Meninos Pelados, obra que ganhou um
prêmio de literatura infantil do Ministério da Educação e Cultura, em 1937, e
Vidas Secas, seu último romance, publicado em 1938.

Em 1939, foi nomeado inspetor federal do ensino. Nesse período, escreveu


Histórias de Alexandre, narrativas baseadas no folclore nordestino e dirigidas aos
leitores mais jovens. A coletânea foi publicada em 1962, com o título de Alexan-
dre e Outros Heróis, pela Livraria Martins Editora.

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Graciliano Ramos

Em 1952, foi para Paris como presidente da Associação Brasileira de Escritores,


convidado para participar das comemorações dos 150 anos de nascimento do
escritor Victor Hugo (1802-1885). Viajou durante dois meses e visitou também
a Tchecoslováquia e a União Soviética. De volta ao Brasil, adoeceu logo depois.
Estava com câncer. Na comemoração de seus 60 anos, na Câmara Municipal do
Rio, foi homenageado com discursos de vários amigos: Jorge Amado (1912-2001),
José Lins do Rego (1901-1957), Jorge de Lima (1893-1953) e outros. Sua filha Clara
o representou, pois não pôde comparecer – estava internado na Casa de Saúde
e Maternidade São Vítor, onde viria a falecer, dois meses depois, em 23 de janeiro
de 1953.

Com as mesmas vinte palavras


O estilo seco e obsessivo de Graciliano fez com que o grande poeta João
Cabral de Melo Neto (1920-1999) lhe dedicasse este belíssimo poema:

Graciliano Ramos: que reduz tudo ao espinhaço,


Falo somente com o que falo: cresta o simplesmente folhagem,
com as mesmas vinte palavras folha prolixa, folharada,
girando ao redor do sol onde possa esconder-se a fraude.
que as limpa do que não é faca:
***
de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada, Falo somente por quem falo:
que fica na lâmina e cega por quem existe nesses climas
seu gosto da cicatriz clara. condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:
***
e onde estão os solos inertes
Falo somente do que falo: de tantas condições caatinga
do seco e de suas paisagens, em que só cabe cultivar
Nordestes, debaixo de um sol o que é sinônimo da míngua.
ali do mais quente vinagre:
(MELO NETO, 1994, p. 311)

Como podemos observar no trecho de Antonio Candido e J. Aderaldo Cas-


tello reproduzido abaixo, na obra de Graciliano, forma e conteúdo se comple-
mentam, assim como o social e o psicológico, para formar uma das obras mais
objetivas e contundentes obras de toda a história da língua portuguesa:
A composição de sua obra resulta de um processo rigorosamente seletivo e subordinado
essencialmente aos limites da experiência pessoal, notadamente sertaneja. [...] Compõe-
-se de aspectos da paisagem do Nordeste agreste, das zonas agropecuárias, em ligação com

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Modernismo na Literatura Brasileira

pequenos centros urbanos. O romancista intuiu admiravelmente a condição subumana do


caboclo sertanejo, com a sua consciência embotada, a sua inteligência retardada, as suas
reações devidas a reflexos condicionados por um sofrimento secular, por sua vez determinado
pelas relações do homem com a própria paisagem e pela passividade ante os mais poderosos.
Desta maneira, ao investigar o sentido de um destino coletivo, ele nos dá realmente a medida
do homem telúrico no seu estado primário, autômato e passivamente indiferente, nivelando-
-se com animais, árvores e objetos. Esse protótipo e essa condição infra-humana aparecem no
primeiro ou no segundo plano de quase todos os seus livros. A eles se sobrepõe um outro tipo
de sertanejo, de sentimento trágico e fatalista, que pensa friamente e age com determinação
inabalável, enquanto aceita como inevitáveis os fatos consumados. Nos limites da paisagem
rural, de estrutura bem característica, o fazendeiro é poderoso e único, até que se enfraquece
em consequência da desarticulação de todo um sistema de mandonismo tradicional, ou em
consequência de um drama pessoal, que nos parece ainda condicionado de qualquer forma
pelo sentimento fatalista do homem da região. Abrindo-se ainda para outros horizontes, a
sua visão se completa pelo registro dos conflitos interiores do homem urbano, afogado no
quotidiano, arrastado à tragédia dos atos passionais.
É importante considerar, na obra de Graciliano Ramos, que o social não prevalece sobre o
psicológico, embora não saia diminuído. O que ela investiga é o homem nas suas ligações com
uma determinada matriz regional, mas focalizado principalmente no drama irreproduzível
de cada destino. Com isso, o romancista confere uma dimensão de universalidade à pesquisa
regionalista em sub-regiões nordestinas, superando a atitude do simples depoimento ou
relato, tão frequente quanto característico de muitos que escreveram sobre elas. O expositivo
cede lugar à síntese. E nesse caso a linguagem é importante, desde a frase concisa, clara,
correta e reduzida aos elementos essenciais, até ao vocabulário meticulosamente escolhido.
O romancista coloca-se numa posição de relevo no romance modernista brasileiro, mas se
entronca, sob este aspecto, na linhagem machadiana. (CANDIDO; CASTELLO, 1983, p. 290)

Caetés
De nítida influência naturalista, inspirado na obra de Eça de Queirós (1845-1900),
Caetés apresenta as desventuras do narrador João Valério, que pretende escrever
um romance histórico sobre os ferozes índios caetés e se envolve com Luísa, esposa
de Adrião Teixeira, seu patrão. O desfecho trágico leva João Valério a se considerar
um monstro, “um caeté”, que, incapaz de agir, provoca a ruína dos seres amados:
Não ser selvagem! Que sou eu senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue
camada de verniz por fora? Quatrocentos anos de civilização, outras raças, outros costumes. E
eu disse que não sabia o que se passava na alma de um caeté! Provavelmente o que se passa
na minha com algumas diferenças. (RAMOS, 1953b, p. 232)

São Bernardo
A desumanização do homem nordestino abordada em Caetés é reforçada em
São Bernardo, o romance seguinte, em que o narrador Paulo Honório, trabalha-
dor braçal semialfabetizado, enriquece e compra, além da fazenda São Bernar-
do, sua esposa, a professora Madalena.

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Graciliano Ramos

Acometido de crises de ciúmes que remetem ao Dom Casmurro, de Machado de


Assis (1839-1908), Paulo Honório é abandonado por todos após o suicídio da esposa.
Descreve-se, então, como “um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cé-
rebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma
boca enorme, dedos enormes”. É um homem que se destrói na incapacidade de
refletir ou de sentir além da ganância e dos instintos básicos, animalizado e mons-
truoso – personagem semelhante ao que vai reaparecer em Angústia, o romance
seguinte. Vejamos como Paulo Honório se define no final de São Bernardo:
Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos... Para que enganar-
-me? Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo
modificar-me, é o que mais me aflige.
A molecoreba de mestre Caetano arrasta-se por aí, lambuzada, faminta. A Rosa, com a barriga
quebrada de tanto parir, trabalha em casa, trabalha no campo e trabalha na cama. O marido é
cada vez mais molambo. E os moradores que me restam são uns cambembes como ele.
Para ser franco, declaro que esses infelizes não me inspiram simpatia. Lastimo a situação em
que se acham, reconheço ter contribuído para isso, mas não vou além. Estamos tão separados!
A princípio estávamos juntos, mas esta desgraçada profissão nos distanciou.
Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os
propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo.
Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins.
E a desconfiança terrível que me aponta inimigos em toda a parte!
A desconfiança é também consequência da profissão.
Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas
no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca
enorme, dedos enormes. (RAMOS, 1953c, p. 193-194)

Angústia
Publicado em 1936, esse romance foi finalizado enquanto Graciliano se en-
contrava preso pelo governo de Getúlio Vargas (1882-1954), que já se preparava
para, no ano seguinte, instalar a ditadura do Estado Novo, que se estendeu até
1945. Enlouquecido, o narrador Luís da Silva acaba por assassinar o rico e ines-
crupuloso Julião Tavares, que seduzira e lhe roubara sua amada Marina. Ele assim
se analisa: “Eu sou um monstro, estúpido, deformado. Um assassino”.

Vejamos o trecho em que o narrador apresenta suas sensações confusas ao


ouvir sua amada Marina tomar banho:
Abro a torneira, molho os pés. Às vezes passo uma semana compondo esse livro que vai ter
grande êxito e acaba traduzido em línguas distantes. Mas isto me enerva. Ando no mundo
da lua. Quando saio de casa, não vejo os conhecidos. Chego atrasado à repartição. Escrevo
omitindo palavras, e se alguém me fala, acontece-me responder verdadeiros contrassensos.
Para limitar-me às práticas ordinárias, necessito esforço enorme, e isto é doloroso. Não consigo
voltar a ser o Luís da Silva de todos os dias. Olham-me surpreendidos: naturalmente digo

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Modernismo na Literatura Brasileira

tolices, sinto que tenho um ar apalermado. Tento reprimir essas crises de megalomania, luto
desesperadamente para afastá-las. Não me dão prazer: excitam-me e abatem-me. Felizmente
passam-se meses sem que isto me apareça.
De ordinário fico no banheiro, sentado, sem pensar, ou pensando em muitas coisas diversas
umas das outras, com os pés na água, fumando, perfeitamente Luís da Silva. Uma formiga
que surge traz-me quantidade enorme de recordações, tudo quanto li em almanaques sobre
os insetos. Agora não há nenhum livro traduzido, nenhuma vaidade. Olho a formiga. Quando
ela vai entrar no formigueiro, trago-a para perto de mim, faço no chão um círculo com o dedo
molhado, deixo-a numa ilha, sem poder escapulir-se. Observo-a e penso nos costumes delas
que vi nos almanaques.
O banheiro da casa de seu Ramalho é junto, separado do meu por uma parede estreita.
Sentado no cimento, brincando com a formiga ou pensando no livro, distingo as pessoas que
se banham lá. Seu Ramalho chega tossindo, escarra e bate a porta com força. Molha-se com
três baldes de água e nunca se esfrega. Bate a porta de novo, pronto. Aquilo dura um minuto.
D. Adélia vem docemente, lava-se docemente e canta baixinho: – “Bendito, louvado seja...”
Marina entra com um estouvamento ruidoso. Entrava. Agora está reservada e silenciosa, mas
o ano passado surgia como um pé de vento e despia-se às arrancadas, falando alto. Se os
botões não saíam logo das casas, dava um repelão na roupa e largava uma praga: – “Com os
diabos!” Lá se iam os botões, lá se rasgava o pano. Notavam-se todas as minudências do banho
comprido. Gastava dez minutos escovando os dentes. Pancadas de água no cimento e o chiar
da escova, interrompido por palavras soltas, que não tinham sentido. Em seguida mijava. Eu
continha a respiração e aguçava o ouvido para aquela mijada longa que me tornava Marina
preciosa. Mesmo depois que ela brigou comigo, nunca deixei de esperar aquele momento
e dedicar a ele uma atenção concentrada. Quando Marina se desnudou junto de mim, não
experimentei prazer muito grande. Aquilo veio de supetão, atordoou-me. E a minha amiga
opôs uma resistência desarrazoada: cerrava as coxas, curvava-se, cobria os peitos com as mãos,
e não havia meio de estar quieta. Agora arrancava os botões, praguejava, escovava os dentes,
mijava. Abria-se a torneira: rumor de água, uns gritinhos, resfolegar de animal novo. A torneira
se fechava – e era uma esfregação interminável. [...]
A espuma entrando nos sovacos e nas virilhas fazia um gluglu que me excitava extraordinaria-
mente. Parecia que Marina queria esfolar-se. Imaginava-a em carne viva, toda vermelha. Imagi-
nava-a branquinha, coberta de uma pasta de sabão que se rachava, os cabelos alvos, como uma
velha. Essas duas imagens me davam muito prazer. Queria que aparecesse a Julião Tavares assim
encarnada e pingando sangue, ou encarquilhada e decrépita, os pêlos do ventre como um capu-
cho de algodão. A torneira se abria. Lá estava Marina outra vez nova e fresca, enchendo a boca e
atirando bochechos nas paredes, resfolegando, sapecando frases desconexas.
Nunca tive o desejo de vê-la nesse estado. No alto da parede há um tijolo deslocado que se
pode retirar facilmente. Pondo um caixão na beira do tanque, ser-me-ia possível afastar o tijolo
e distinguir o corpo de Marina. A experiência não me tentou. O esforço necessário pra manter-
me em equilíbrio reduzir-me-ia a atenção. E eu não queria vê-la despida sem o consentimento
dela. Contentava-me com aqueles rumores, e percebia-a como se a visse. Poderia daqui palestrar
com ela no tempo em que éramos amigos. Teríamos a impressão de que nos banhávamos
juntos. Mas a minha amiga ficaria limitada pelas conveniências, armando frases, procurando
ser amável. O que me encantava eram aqueles modos de garota estabanada, as palavras soltas
à toa, pedaços de cantigas, o gluglu da espuma e a mijada sonora. (RAMOS, p. 144-147)

Vidas Secas
Em Vidas Secas, Graciliano Ramos adota um narrador em terceira pessoa, mul-
tisseletivo, que a cada momento se centra nos pensamentos rudimentares de
uma das personagens: o sertanejo Fabiano, sua mulher Sinhá Vitória, seus filhos
sem nome – que mal falam e se comportam como animais, mais brutalizados até

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Modernismo na literatura brasileira.indb 160 16/2/2009 11:38:13


Graciliano Ramos

do que a cadela Baleia. Ao retratar a dura vida do sertão, Graciliano Ramos atinge
o ápice de sua denúncia da desumanização a que as duras circunstâncias sociais
levam o homem nordestino. O romance é construído por meio da somatória de
capítulos independentes, muitos dos quais foram publicados como contos em
revistas da época.

Vejamos exemplos de três capítulos do livro.


Mudança

A caatinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram


ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.
– Anda, excomungado.
O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsa-
bilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário – e a obstina-
ção da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a
marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.
Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam à margem
do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés.
Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado.
Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores.
Sinhá Vitória esticou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons
guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-
-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados ao estômago, frio como
um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos
bichos do mato. Entregou a espingarda a Sinhá Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se,
agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos. Sinhá Vitória
aprovou esse arranjo, lançou de novo a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.
E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande.
Ausente do companheiro, a cachorra Baleia tomou a frente do grupo. Arqueada, as costelas à
mostra, corria ofegando, a língua fora da boca. E de quando em quando se detinha, esperando
as pessoas, que se retardavam. (RAMOS, 1969, p. 46-47)

Fabiano

E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos
outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos: mas como vivia
em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se na presença dos brancos e julgava-se
cabra. (RAMOS, 1969, p. 58)

Contas

Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a
transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória mandou os meninos para o
barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies,
realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o
negócio notou que as operações de Sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão.
Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros.
Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que
era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se
descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando
o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar
carta de alforria!

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Modernismo na literatura brasileira.indb 161 16/2/2009 11:38:13


Modernismo na Literatura Brasileira

O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço
noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia
dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha,
conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas
sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância
da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor),
acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra.
O amo abrandou, e Fabiano saiu de costas, o chapéu varrendo o tijolo. Na porta, virando-se,
enganchou as rosetas das esporas, afastou-se tropeçando, os sapatões de couro cru batendo
no chão como cascos. (RAMOS, 1969, p. 158-159)

Memórias do Cárcere
O duro processo de desumanização do homem apresentado por Graciliano na
sua obra ficcional também se observa nos seu relato autobiográfico Memórias do
Cárcere, em que conta seu período de aprisionamento pela ditadura. Preso, o homem
endurece e, mesmo encontrando mostras de solidariedade, acaba por se brutalizar:
O indivíduo livre não entende a nossa vida além das grades, as oscilações do caráter e da
inteligência, desespero sem causa aparente, a covardia substituída por atos de coragem
doida. Somos animais desequilibrados, fizeram-nos assim, deram-nos almas incompatíveis.
Sentimos em demasia, o pensamento já não existe: funciona e para. Querem reduzir-nos a
máquinas. Máquinas perras e sem azeite. […] A cadeia não é brinquedo literário. (RAMOS,
1985, p. 215, v. 2)

Algumas reflexões de Graciliano sobre o estado geral do mundo em que vivia


soam assombrosamente premonitórios dos horrores pelos quais o mundo pas-
saria durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945):
O mundo se tornava fascista. Num mundo assim, que futuro nos reservariam? Provavelmente
não havia lugar para nós, éramos fantasmas, rolaríamos de cárcere em cárcere, findaríamos
num campo de concentração. Nenhuma utilidade representávamos na ordem nova. Se
nos largassem, vagaríamos tristes, inofensivos e desocupados, farrapos vivos, fantasmas
prematuros; desejaríamos enlouquecer, recolhermo-nos ao hospício ou ter coragem de
amarrar uma corda ao pescoço e dar o mergulho decisivo. Essas ideias, repetidas, vexavam-me;
tanto me embrenhara nelas que me sentia inteiramente perdido. (RAMOS, 1985, p. 179, v. 1)

Texto complementar

Baleia
A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pelo caíra-lhe
em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas

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Modernismo na literatura brasileira.indb 162 16/2/2009 11:38:13


Graciliano Ramos

escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a


inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.

Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidro-
fobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queima-
dos. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou
metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas
murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de moscas,
semelhante a uma cauda de cascavel.

Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira,


lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a
cachorra não sofrer muito.

Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados,


que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:

— Vão bulir com a Baleia?

Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-


-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.

Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem
dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que
ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.

Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinhá Vitória levou-os


para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos:
prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas ore-
lhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de
subjugá-los, resmungando com energia.

Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a


decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.

Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma,


as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.

Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como Sinhá Vitória tinha


relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:

— Capeta excomungado.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 163 16/2/2009 11:38:13


Modernismo na Literatura Brasileira

Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de


verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta ver-
melha e na saia de ramagens.

Pouco a pouco a cólera diminuiu, e Sinhá Vitória, embalando as crianças,


enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho no-
jento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas com-
preendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer
e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se
realmente a execução era indispensável.

[...]

Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa


da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras
no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono des-
confiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da
árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido
com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca
do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto.
Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se
mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou
o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de
Baleia, que se pôs a latir desesperadamente.

Ouvindo o tiro e os latidos, Sinhá Vitória pegou-se à Virgem Maria e os


meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se.

E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da es-


querda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por buraco
da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas
temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-
-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.

Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito


sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte
posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve
medo da roda.

Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca


macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas

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Modernismo na literatura brasileira.indb 164 16/2/2009 11:38:13


Graciliano Ramos

e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados às


feridas, era um bicho diferente dos outros.

Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou


a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado
de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravan-
do as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e
aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.

Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e


não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou
morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam dimi-
nuindo, tornavam-se quase imperceptíveis.

Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e es-


condeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.

Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro en-


grossava e aproximava-se.

Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha
fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha
distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade
de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade.

Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos


beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais
se embotava: certamente os preás tinham fugido.

Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apa-
receu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não
conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava
surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher
o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido.
Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha,
sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para
juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.

O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração,


cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim
algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 165 16/2/2009 11:38:13


Modernismo na Literatura Brasileira

Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o
sol desaparecera.

Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chi-


queiro espalhou-se pela vizinhança.

Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obriga-


ção dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procu-
rando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.

Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atri-
buía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava
livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Pre-
cisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas
ribanceiras, rondar, as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na
esteira, por baixo do caritó onde Sinhá Vitória guardava o cachimbo.

Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio com-


pleto, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro,
nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas
quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revela-
vam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.

Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a


língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo,
a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil do barreiro ao fim do
pátio desvaneciam-se no seu espírito.

Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe.


Antes de se deitar, Sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com
um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar
para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava.
E, findos os cochiles, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro
de preás invadia a cozinha.

A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para


trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava,
espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.

Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certa-


mente Sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.

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Graciliano Ramos

Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lambe-
ria as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com
ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo
ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

(RAMOS, 1969, p. 147-154)

Estudos literários
1. Você vai encontrar, a seguir, três fragmentos de diferentes capítulos do ro-
mance São Bernardo, de Graciliano Ramos. Leia-os, para responder às ques-
tões que os seguem.

Aqui sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo


café, suspendo às vezes o trabalho moroso, olho a folhagem das laranjeiras
que a noite enegrece, digo a mim mesmo que esta pena é um objeto pesado.
Não estou acostumado a pensar. Levanto-me, chego à janela que deita para
a horta. Casimiro Lopes pergunta se me falta alguma coisa.

– Não.

Casimiro Lopes acocora-se num canto. Volto a sentar-me, releio estes pe-
ríodos chinfrins.

(RAMOS, 1953c, p. 10-11)

II

Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo


café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito nume-
rosas – e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio al-
gumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto
o papel.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 167 16/2/2009 11:38:13


Modernismo na Literatura Brasileira

[...]

Lá fora os sapos arengavam, o vento gemia, as árvores do pomar torna-


vam-se massas negras.

– Casimiro?

Casimiro Lopes estava no jardim, acocorado ao pé da janela, vigiando.

– Casimiro?

A figura de Casimiro Lopes aparece à janela, os sapos gritam, o vento


sacode as árvores, apenas visíveis na treva. Maria das Dores entra e vai abrir
o comutador. Detenho-a: não quero luz.

(RAMOS, 1953c, p. 101-102)

III

Desde então procuro descascar fatos, aqui sentado à mesa da sala de


jantar, fumando cachimbo e bebendo café, à hora em que os grilos cantam e
a folhagem das laranjeiras se tinge de preto.

Às vezes entro pela noite, passo tempo sem fim acordando lembranças.
Outras vezes não me ajeito com esta ocupação nova.

Anteontem e ontem, por exemplo, foram dias perdidos. Tentei debalde


canalizar para termo razoável esta prosa que se derrama como a chuva da
serra, e o que me apareceu foi um grande desgosto. Desgosto e a vaga com-
preensão de muitas coisas que sinto.

[...]

Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. Entretanto o luar entra
por uma janela fechada e o nordeste furioso espalha folhas secas no chão.

É horrível! Se aparecesse alguém... Estão todos dormindo.

Se ao menos a criança chorasse... Nem sequer tenho amizade a meu filho.


Que miséria!

Casimiro Lopes está dormindo. Marciano está dormindo. Patifes!

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Graciliano Ramos

E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de
fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos.

(RAMOS, 1953c, p. 188-195)

a) Aponte as semelhanças entre os três fragmentos.

b) Explique como a presença de Casimiro Lopes se transforma no transcor-


rer dos fragmentos.

c) Uma das características mais marcantes da personalidade de Paulo Ho-


nório é o seu exagero, representado literariamente pela figura da hipér-
bole. Aponte dois exemplos de hipérbole no terceiro fragmento.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 169 16/2/2009 11:38:13


Modernismo na Literatura Brasileira

2. Leia os dois fragmentos abaixo, do romance Vidas Secas, de Graciliano Ra-


mos, para responder às questões que os seguem:

O menino mais velho


(RAMOS, 1969, p. 111-112)

Como não sabia falar direito, o menino balbuciava expressões complica-


das, repetia as sílabas, imitava os berros dos animais, o barulho do vento,
o som dos galhos que rangiam na caatinga, roçando-se. Agora tinha tido
a ideia de aprender uma palavra, com certeza importante porque figurava
na conversa de Sinhá Terta. Ia decorá-la e transmiti-la ao irmão e à cachorra.
Baleia permaneceria indiferente, mas o irmão se admiraria, invejoso.

– Inferno, inferno.

Não acreditava que um nome tão bonito servisse para designar coisa ruim.
E resolvera discutir com Sinhá Vitória. Se ela houvesse dito que tinha ido ao
inferno, bem. Sinhá Vitória impunha-se, autoridade visível e poderosa. Se hou-
vesse feito menção de qualquer autoridade invisível e mais poderosa, muito
bem. Mas tentara convencê-lo dando-lhe um cocorote, e isto lhe parecia ab-
surdo. Achava as pancadas naturais quando as pessoas grandes se zangavam,
pensava até que a zanga delas era a causa única dos cascudos e puxavantes de
orelhas. Esta convicção tornava-o desconfiado, fazia-o observar os pais antes
de se dirigir a eles. Animara-se a interrogar Sinhá Vitória porque ela estava bem
disposta. Explicou isto à cachorrinha com abundância do gritos e gestos.

Festa
(RAMOS, 1969, p. 141-142)

Agora olhavam as lojas, as toldas, a mesa do leilão. E conferenciavam pas-


mados. Tinham percebido que havia muitas pessoas no mundo. Ocupavam-
se em descobrir uma enorme quantidade de objetos. Comunicaram baixinho
um ao outro as surpresas que os enchiam. Impossível imaginar tantas mara-
vilhas juntas. O menino mais novo teve uma dúvida e apresentou-a timida-
mente ao irmão. Seria que aquilo tinha sido feito por gente? O menino mais

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Graciliano Ramos

velho hesitou, espiou as lojas, as toldas iluminadas, as moças bem vestidas.


Encolheu os ombros. Talvez aquilo tivesse sido feito por gente. Nova dificul-
dade chegou-lhe ao espírito, soprou-a no ouvido do irmão. Provavelmen-
te aquelas coisas tinham nomes. O menino mais novo interrogou-o com os
olhos. Sim, com certeza as preciosidades que se exibiam nos altares da igreja
e nas prateleiras das lojas tinham nomes. Puseram-se a discutir a questão
intricada. Como podiam os homens guardar tantas palavras? Era impossível,
ninguém conservaria tão grande soma de conhecimentos. Livre dos nomes,
as coisas ficavam distantes, misteriosas. Não tinham sido feitas por gente.
E os indivíduos que mexiam nelas cometiam imprudência. Vistas de longe,
eram bonitas. Admirados e medrosos, falavam baixo para não desencadear
as forças estranhas que elas porventura encerrassem.

a) O primeiro período do fragmento “O menino mais velho” apresenta a


descrição de uma figura de linguagem. Qual seria? O que é indicado pelo
fato de o menino mais velho falar dessa maneira?

b) O menino se sente injustiçado. Transcreva o período em que isso fica ex-


plícito.

c) Qual é a ironia no fato de o menino mais velho se interessar justamente


por essa palavra?

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Modernismo na literatura brasileira.indb 171 16/2/2009 11:38:13


Modernismo na Literatura Brasileira

d) Explique o significado do período “Livre dos nomes, as coisas ficavam


distantes, misteriosas”, no segundo fragmento (“Festa”).

e) Segundo o filósofo Ludwig Wittgenstein (1889-1951), “Os limites de mi-


nha linguagem denotam os limites do meu mundo”. Como essa afirma-
ção se relaciona com os textos citados?

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Graciliano Ramos

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Modernismo na literatura brasileira.indb 174 16/2/2009 11:38:13


João Guimarães Rosa

A Geração de 1945
O término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) na Europa coincidiu
com a derrocada da ditadura Vargas, o Estado Novo (1937-1945), no Brasil.
Então, os escritores brasileiros, que tanto lutaram contra a ditadura e sofre-
ram com a falta de liberdade, puderam se dedicar à busca de novos rumos
para a literatura. A reconstrução democrática foi paralela à procura de um
maior rigor e aprofundamento nos processos de elaboração poéticos e fic-
cionais. Buscaram-se critérios. Seja retomando o que havia sido combatido
pelos primeiros modernistas, como o fizeram os poetas neomodernistas ou
Geração de 1945, seja no adensamento das conquistas das gerações ante-
riores, efetuado por João Guimarães Rosa (1908-1967) e Clarice Lispector
(1920-1977), na prosa, e João Cabral de Melo Neto (1920-1999), na poesia.

Mineiro e universal
Nascido em Cordisburgo, Minas Gerais, em 1908, João Guimarães Rosa
lá viveu até os dez anos de idade, quando se transferiu para Belo Horizon-
te. Em 1926, ingressou na Faculdade de Medicina. Formado, foi clinicar no
interior do estado, onde estudou línguas estrangeiras e investigou minu-
ciosamente a língua falada pelo povo.

Em 1936, participou de um concurso literário com o livro de poemas


Magma, que nunca quis publicar.

Em 1937, novamente inscreveu uma obra em concurso, o livro Contos, que,


muito modificado, serviria de base para Sagarana (1946), sua obra de estreia.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 175 16/2/2009 11:38:14


Modernismo na Literatura Brasileira

Já dominando vários idiomas, ingressou no corpo diplomático e, em 1938,


foi servir na Alemanha. Preso após a declaração de guerra do Brasil aos alemães,
em 1942, foi liberado no ano seguinte. Serviu ainda em Bogotá e em Paris, en-
cerrando sua carreira como diplomata servindo na sede do Itamaraty, no Rio
de Janeiro. Em 1967, emocionou-se ao tomar posse na Academia Brasileira de
Letras e veio a falecer, vitimado por um ataque cardíaco.

O estilo insólito
Embora centrada em uma região particular (o sertão mineiro), a obra de João
Guimarães Rosa em muito extrapola os limites do regionalismo convencional.
A partir do aprofundamento no regional, Rosa investiga questões psicológicas,
sociais ou filosóficas universais. “O sertão está em toda parte”, disse ele, ou ainda
“O sertão é dentro da gente”. No sertão, vemos reencenadas as aflições do Fausto
alemão, as relações de amizade entre Aquiles e Pátroclo, da Ilíada de Homero
(séc. VIII a. C.), a linguagem experimental de James Joyce (1882-1941).

Utilizando anos de intensa pesquisa na linguagem popular do sertão e o


vasto conhecimento linguístico de dezenas de idiomas, Guimarães Rosa mistura
como nenhum outro o popular e o erudito para criar uma linguagem insólita e
inconfundível. Neologismos, adjetivos formados por sufixação inusitada e uma
sintaxe barroca se acumulam, enquanto Rosa vai rompendo os limites entre a
poesia e a prosa, entre o lírico e o épico, entre a lenda e a realidade.

A obra
Após Sagarana, João Guimarães Rosa só viria a publicar de novo em 1956,
mas esse retorno foi com toda a força, lançando seu único romance, a obra-pri-
ma Grande Sertão: veredas e, ainda no mesmo ano, a monumental coletânea de
novelas Corpo de Baile. Esse volume seria desmembrado, a partir de 1964, em
três livros: Manuelzão e Miguilim, em que se encontra a novela “Campo Geral”;
Urubuquaquá, no Pinhém, no qual está “O Recado do Morro”; e Noites do Sertão.

O livro Primeiras Estórias (1962) viria a seguir, reunindo contos memoráveis


como “A terceira margem do rio”.

O volume de contos Tutameia: terceiras estórias (1967) seria seu último livro
publicado em vida, seguido pelo lançamento póstumo de Estas Estórias (1969) e
Ave, Palavra (1970), reunindo contos e relatos autobiográficos.
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Modernismo na literatura brasileira.indb 176 16/2/2009 11:38:14


João Guimarães Rosa

Sagarana
O livro de estreia de Guimarães Rosa apresenta nove contos grandes situados
no sertão mineiro, cuja temática está centrada em questões universais, como a
honra, a memória, a religiosidade e a busca de purificação.

Entre os contos desse livro destaca-se “A hora e a vez de Augusto Matraga”. O


protagonista, Augusto Matraga, é um fazendeiro agressivo, boêmio, que bebe
demais, cria muitos problemas e não respeita ninguém, nem a própria família.
Dinorá, sua mulher, tem medo de se separar, por conta da natureza violenta de
Matraga. Sua filha não compreende a razão de o pai agir assim.

Até que Matraga sofre uma emboscada e é dado como morto. Dinorá e a filha
partem com Ovídio Moura, que deseja que Dinorá seja sua companheira.

No entanto, socorrido por um casal de negros, Augusto Matraga sobrevive


aos ferimentos. Quando se recupera, também vai embora, acompanhando o
casal que o salvara. Consciente de sua vida anterior, desregrada, violenta, des-
perdiçada na bebida e na boemia, tenta modificá-la. Procura o sofrimento e se
dedica arduamente ao trabalho, fugindo do conforto e da diversão para se punir
por seus pecados.

Depois de muito tempo nessa vida áspera, ele descobre que, embora estives-
se feliz com Ovídio, sua filha Dinorá estava se prostituindo. Decide procurá-la e,
no trajeto, reencontra Joãozinho Bem-Bem, chefe jagunço com quem travara
amizade e a quem hospedara em sua casa antes de sua quase-morte.

Joãozinho Bem-Bem quer vingar o assassinato de um capanga e, como não


encontrou o assassino, pretende matar um membro de sua família. Augusto Ma-
traga acha injusto o que o jagunço quer fazer, discute com ele e o confronta. Eles
lutam e, no final, ambos morrem. Entretanto, Matraga morre em paz, ciente de
que assim expiara seus crimes e cumprira seu dever.

Vejamos um momento crucial da narrativa, quando Matraga se recupera


física e espiritualmente de suas feridas:
Então eles trouxeram, uma noite, muito à escondida, o padre, que o confessou e conversou
com ele, muito tempo, dando-lhe conselhos que o faziam chorar.
– Mas, será que Deus vai ter pena de mim, com tanta ruindade que fiz, e tendo nas costas tanto
pecado mortal?
– Tem, meu filho. Deus mede a espora pela rédea, e não tira o estribo do pé de arrependido
nenhum...
E por aí a fora foi, com um sermão comprido, que acabou depondo o doente num desvencido
torpor.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 177 16/2/2009 11:38:14


Modernismo na Literatura Brasileira

– Eu acho boa essa ideia de se mudar para longe, meu filho. Você não deve pensar mais na
mulher, nem em vinganças. Entregue para Deus, e faça penitência. Sua vida foi entortada no
verde, mas não fique triste, de modo nenhum, porque a tristeza é aboio de chamar o demônio,
e o Reino do Céu, que é o que vale, ninguém tira de sua algibeira, desde que você esteja com
a graça de Deus, que ele não regateia a nenhum coração contrito!
– Fé eu tenho, fé eu peço, Padre...
– Você nunca trabalhou, não é? [...] Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia
de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda
pode ter muito pedaço bom de alegria... Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a
sua. (ROSA, 1994, p. 441. v. 1)

Grande Sertão: veredas


Considerado por muitos o maior romance brasileiro de todos os tempos,
apresenta o monólogo ininterrupto e emocionado do velho fazendeiro Riobal-
do, que narra, a um interlocutor silencioso (o leitor), as suas aventuras pelo sertão
do norte de Minas Gerais, Goiás e sul da Bahia. Ocioso, vivendo às margens do rio
São Francisco, Riobaldo relata sua vida ao mesmo tempo em que reflete sobre a
existência humana:
— Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira
em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde
mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco,
erroso, os olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis
avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito
pessoa. Cara de gente, cara de cão; determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram.
Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O
senhor ri certas risadas… Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir,
instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão.
Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles
dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo,
então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos
carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador;
e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos
montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de
vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura,
até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim,
cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está
em toda a parte. (ROSA, 1994, p. 11, v. 2)

Mantendo as características do discurso oral, a narrativa é repleta de digres-


sões, mudanças de rumo e associações inusitadas que refletem o fluxo descon-
tínuo da memória. Inicialmente um mero jagunço; Riobaldo conta como ascen-
deu à chefia de um bando e fez, como na lenda alemã do Fausto, um pacto com
o diabo para ajudá-lo a matar Hermógenes, que era seu inimigo e também o
assassino do líder Joca Ramiro.

Sem saber se fez realmente esse pacto, ele passa o resto da vida com medo
de perder sua alma, tentando descobrir se o demônio realmente existe:
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Modernismo na literatura brasileira.indb 178 16/2/2009 11:38:14


João Guimarães Rosa

De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil
de dificel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro, não fantasêia. Mas, agora, feita a folga
que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto,
de especular ideia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O
senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por
ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma?
Viver é negócio muito perigoso... (ROSA, 1994, p. 11-12, v. 2)

O melhor e mais valoroso amigo de Riobaldo é Diadorim (“presente do


diabo?”), por quem nutre uma paixão homossexual reprimida e angustiante:
Meu corpo gostava de Diadorim. Estendi a mão, para suas formas; mas, quando ia, bobamente,
ele me olhou – os olhos dele não me deixaram. Diadorim, sério, testalto. Tive um gelo. Só os
olhos negavam. Vi – ele mesmo não percebeu nada. Mas, nem eu; eu tinha percebido? Eu
estava sabendo: meu corpo gostava do corpo dele, na sala do teatro. (ROSA, 1994, p. 173, v. 2)

Quando Diadorim morre, ao mesmo tempo em que mata o inimigo Hermó-


genes, Riobaldo descobre que se tratava de uma mulher: Deodorina (“presente
de Deus?”), filha de Joca Ramiro:
[…] Diadorim, Diadorim, oh, ah, meus buritizais levados de verdes… Buriti, do ouro da flor… E
subiram as escadas com ele, em cima de mesa foi posto. Diadorim, Diadorim – será que amereci
só por metade? Com meus molhados olhos não olhei bem – como que garças voavam… E que
fossem campear velas ou tocha de cera, e acender altas fogueiras de boa lenha, em volta do
escuro do arraial...
Sufoquei, numa estrangulação de dó. Constante o que a mulher disse: carecia de se lavar
e vestir o corpo. Piedade, como que ela mesma, embebendo toalha, limpou as faces de
Diadorim, casca de tão grosso sangue, repisado. E a beleza dele permanecia, só permanecia,
mais impossivelmente. Mesmo como jazendo assim, nesse pó de palidez, feito a coisa e
máscara, sem gota nenhuma. Os olhos dele ficados para a gente ver. A cara economizada, a
boca secada. Os cabelos com marca de duráveis… Não escrevo, não falo! – para assim não ser:
não foi, não é, não fica sendo! Diadorim…
Eu dizendo que a mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo o mundo
sair. Eu fiquei. E a mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples.
Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo. E disse…
Diadorim – nu de tudo. E ela disse:
– A Deus dada. Pobrezinha…
E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor – e mercê peço: –
mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo somente
no átimo em que eu também só soube… Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça
perfeita… Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d’arma, de coronha…
Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me
benzer – mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim!
Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucuia,
como eu solucei meu desespero.
O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.
Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás,
incendiável: abaixei meus olhos. E a mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas
aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com
tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia
por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
– Meu amor!... (ROSA, 1994, p. 379-380, v. 2)

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Modernismo na literatura brasileira.indb 179 16/2/2009 11:38:14


Modernismo na Literatura Brasileira

Campo Geral
Esta novela, uma das mais lidas de Guimarães Rosa, é também um de seus
textos mais comoventes. O garoto Miguilim mora no Mutum, um local remoto
dos Campos Gerais, com sua família. Nhô Bero, pai de Miguilim, é um homem
rude e grosseiro que frequentemente é traído por Nhanina, sua insatisfeita e
infeliz esposa – até mesmo com Terez, que é irmão de Nhô Bero. Miguilim se
relaciona melhor com o tio Tereza que com o pai. Dito (o irmão mais próximo de
Miguilim) é curioso, perspicaz e objetivo, enquanto Miguilin é sonhador e mís-
tico, sendo capaz de inventar histórias mirabolantes. Acima de tudo, Miguilim
parece ser distraído, incapaz de ver a realidade objetivamente. Após uma série
de acontecimentos dramáticos, como a morte do irmão e o suicídio do pai, Mi-
guilim (que jamais havia visto um médico) é visitado pelo doutor José Lourenço.
O médico percebe que o garoto é completamente míope e, dando-lhe os óculos
que lhe permitem ver claramente o Mutum e as pessoas amadas pela primeira
vez, leva-o para ser educado na cidade.

A palavra Mutum, nome do local onde se passa a novela Campo Geral, é um


bom exemplo do cuidado de Guimarães Rosa com as palavras, pois o palíndro-
mo reforça a imagem de um local de sofrimento entre montanhas e vales.

Vejamos o momento em que Miguilim começa a enxergar graças aos óculos


do médico:
De repente lá vinha um homem a cavalo. Eram dois. Um senhor de fora, o claro da roupa.
Miguilim saudou, pedindo a benção. O homem trouxe o cavalo cá bem junto. Ele era de óculos,
corado, alto, com um chapéu diferente, mesmo.
– Deus te abençoe, pequeninho. Como é teu nome?
– Miguilim. Eu sou irmão do Dito.
– E seu irmão Dito é o dono daqui?
– Não, meu senhor. O Ditinho está em glória.
O homem esbarrava o avanço do cavalo, que era zelado, manteúdo, formoso como nenhum
outro. Redizia:
– Ah, não sabia, não. Deus o tenha em sua guarda... Mas que é que há, Miguilim?
Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para ele, por isso é que o encarava.
– Por que você aperta os olhos assim? Você não é limpo de vista? Vamos até lá. Quem é que
está em tua casa?

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Modernismo na literatura brasileira.indb 180 16/2/2009 11:38:14


João Guimarães Rosa

– É Mãe, e os meninos...
Estava Mãe, estava Tio Terez, estavam todos. O senhor alto e claro se apeou. O outro, que vinha
com ele, era um camarada. O senhor perguntava à Mãe muitas coisas do Miguilim. Depois
perguntava a ele mesmo: – “Miguilim, espia daí: quantos dedos da minha mão você está
enxergando? E agora?”
Miguilim espremia os olhos. Drelina e a Chica riam. Tomezinho tinha ido se esconder.
– Este nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim...
E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.
– Olha, agora!
Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e
diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra,
as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui,
ali, meu Deus, tanta coisa, tudo... O senhor tinha retirado dele os óculos, e Miguilim ainda
apontava, falava, contava tudo como era, como tinha visto. Mãe esteve assim assustada; mas o
senhor dizia que aquilo era do modo mesmo, só que Miguilim também carecia de usar óculos,
dali por diante. O senhor bebia café com eles. Era o doutor José Lourenço, do Curvelo. Tudo
podia. Coração de Miguilim batia descompasso, ele careceu de ir lá dentro, contar à Rosa, à
Maria Pretinha, a Mãitina. A Chica veio correndo atrás, mexeu: – “Miguilim, você é piticego...” E
ele respondeu: – “Donazinha...”
Quando voltou, o doutor José Lourenço já tinha ido embora.
– Você está triste, Miguilim? – Mãe perguntou.
Miguilim não sabia. Todos eram maiores do que ele, as coisas reviravam sempre de um modo
tão diferente, eram grandes demais. (ROSA, 1994, p. 540-541. v. 1)

Primeiras Estórias
O livro Primeiras Estórias reúne 21 dos mais importantes contos já escritos na
língua portuguesa. São narrativas curtas, densas e de uma elaboração linguística
extraordinária. Podemos dizer que, neste livro, Rosa atingiu o ápice do seu poder
de concisão e de experimentação ficcional. Vejamos algumas importantes consi-
derações da professora tcheca Zuzana Burianová:
Com ainda maior intensidade e seleção do que o conto, a estória instala um recorte agudo
no contínuo temporal e, depurando tudo o que é secundário, reduz o fragmento captado às
linhas enxutas e essenciais. Como afirma Paulo Rónai no prefácio à 9.ª edição de Primeiras
estórias, as estórias roseanas giram em torno de um acontecimento, porém não no sentido
geral de uma ocorrência. A maioria das narrativas é marcada pelo já mencionado “tom menor”
à maneira de Tchekov, ou seja, pela falta de um conflito exterior tradicionalmente colocado
no final; em vez disso deparamos frequentemente com uma tensão que se resolve no plano
psíquico das personagens.
As narrativas de Rosa captam em geral momentos únicos, instantes de percepção da existência
na sua totalidade, de apreensão da essência do objeto. Ultrapassam os seus limites de puras
anedotas inseridas na “história” e, devido ao tratamento universal dos assuntos particulares, à
sua própria estrutura em aberto assim como à atmosfera do mistério criada pela irrupção do
irreal e insólito, entram na ordem intemporal. Este “prolongamento” além dos limites da ação
é também sugerido no próprio índice geral da 9.ª edição onde aparece, nos desenhos feitos
a pedido do autor por Luís Jardim, o signo do infinito, símbolo da eternidade. A recorrência
deste signo no início e no final de cada desenho poderia igualmente indicar que todas as

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Modernismo na literatura brasileira.indb 181 16/2/2009 11:38:14


Modernismo na Literatura Brasileira

narrativas, apesar da sua variedade temática e estrutural, formam pela atmosfera e impressão
que deixam no leitor um conjunto homogêneo no qual cada narrativa como se se referisse a
outras, como se só por elas fosse completada. Com esta interdependência das estórias cria-
se uma impressão do ciclo, apoiada também pela estreita relação que entre si guardam a
primeira e a última estória, interligadas, em termos de enredo, pelo aparecimento das mesmas
personagens e motivos. Não se trata, porém, no caso destas duas narrativas centradas em
momentos-limite na formação de uma criança, de uma simples recorrência. Trata-se mais
de uma renovação, de uma recriação qualitativa, pois existe entre elas um deslocamento da
percepção do protagonista que leva em si a ideia de amadurecimento, sabedoria e perfeição
sempre presentes no fluir do tempo por mais pequenos que sejam, como o autor confirma
em outro lugar: “O mundo se repete mal é porque há um imperceptível avanço” (“Lá nas
campinas”). (BURIANOVÁ, 2008)

Para exemplificar como Guimarães Rosa elabora criativa e singularmente a


linguagem nesse livro, vamos examinar o trecho inicial de uma das estórias:
Pirlimpsiquice

Aquilo na noite do nosso teatrinho foi de Oh. O estilo espavorido. Ao que sei, que se saiba,
ninguém soube sozinho direito o que houve. Ainda, hoje adiante, anos, a gente se lembra:
mas, mais do repente que da desordem, e menos da desordem do que do rumor. Depois, os
padres falaram em pôr fim a festas dessas, no colégio. Quem nada podia mesmo explicar, o
ensaiador, Dr. Perdigão, lente de corografia e história-pátria, voltou para seu lugar, sua terra;
se vive, estará lá já após de velho. E o em-diabo pretinho Alfeu, corcunda? Astramiro, agora
aeroviário, e o Joaquincas – bookmaker e adjazidas atividades – com ambos raro em raro
me encontro, os fatos recordam-se. A peça ia ser o drama Os Filhos do Doutor Famoso, só
em cinco atos. Tivemos culpa de seu indesfecho, os escolhidos para o representar? Às vezes
penso. Às vezes, não. Desde a hora em que, logo num recreio de depois do almoço, o regente
Seu Siqueira, o Surubim sisudo de mistérios, veio chamar-nos para a grande novidade, o
pacto de puro entusiasmo nosso avançara, sem sustar-se. Éramos onze, digo, doze. (ROSA,
1994, p. 415, v. 2)

O título do conto é um neologismo formado a partir das palavras psique


(“mente”) e pirlimpimpim (“o pó que faz voar”). Seria, portanto a imaginação, a
mente voadora, o grande tema da estória.

O primeiro período do conto apresenta um recurso muito expressivo utiliza-


do com frequência por Guimarães Rosa nas Primeiras Estórias: o uso da interjei-
ção (Oh) substituindo substantivos ou verbos. Poderíamos reescrever o período
como “Aquilo na noite do nosso teatrinho foi de espantar”.

Em várias passagens do fragmento, a linguagem é utilizada de maneira in-


ventiva, singular e inovadora. Notem-se as frases abaixo.

 “Ao que sei, que se saiba, ninguém soube sozinho direito o que houve.” A rei-
teração do verbo saber reforça a ideia de que ninguém conseguiu entender
direito o fato. “Saber sozinho direito” refere-se a compreender, digerir.

 “Ainda, hoje adiante, anos, a gente se lembra: mas, mais do repente que
da desordem, e menos da desordem do que do rumor.” A memória do

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Modernismo na literatura brasileira.indb 182 16/2/2009 11:38:14


João Guimarães Rosa

evento é vaga. Os participantes lembram-se mais do susto, do “repente”,


do que da desordem que provocou, e mais ainda do “rumor” que gerou,
dos comentários posteriores.

 “[…] os fatos recordam-se.” A utilização do verbo reflexivo justifica-se


como uma intensificação dos fatos em si. São eles (os fatos) que, a si mes-
mos, recordam-se, e não os participantes que deles se recordam.

 “Às vezes penso. Às vezes, não.” A passagem se refere à questão: “Tivemos


culpa de seu indesfecho, os escolhidos para o representar?” O narrador
revela-se em dúvida, indeciso.

Texto complementar

Sorôco, sua mãe, sua filha


(ROSA, 1994, p. 397-399, v. 2)

Aquele carro parara na linha de resguardo, desde a véspera, tinha vindo


com o expresso do Rio, e estava lá, no desvio de dentro, na esplanada da esta-
ção. Não era um vagão comum de passageiros, de primeira, só que mais vis-
toso, todo novo. A gente reparando, notava as diferenças. Assim repartido em
dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para
os presos. A gente sabia que, com pouco, ele ia rodar de volta, atrelado ao
expresso daí de baixo, fazendo parte da composição. Ia servir para levar duas
mulheres, para longe, para sempre. O trem do sertão passava às 12h45min.

As muitas pessoas já estavam de ajuntamento, em beira do carro, para


esperar. As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam,
cada um porfiando no falar com sensatez, como sabendo mais do que os
outros a prática do acontecer das coisas. Sempre chegava mais povo – o mo-
vimento. Aquilo quase no fim da esplanada, do lado do curral de embarque
de bois, antes da guarita do guarda-chaves, perto dos empilhados de lenha.
Sorôco ia trazer as duas, conforme. A mãe de Sorôco era de idade, com para
mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo. Afora essas,
não se conhecia dele o parente nenhum.

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Modernismo na Literatura Brasileira

A hora era de muito sol – o povo caçava jeito de ficarem debaixo da


sombra das árvores de cedro. O carro lembrava um canoão no seco, navio.
A gente olhava: nas reluzências do ar, parecia que ele estava torto, que nas
pontas se empinava. O borco bojudo do telhadilho dele alumiava em preto.
Parecia coisa de invento de muita distância, sem piedade nenhuma, e que a
gente não pudesse imaginar direito nem se acostumar de ver, e não sendo
de ninguém. Para onde ia, no levar as mulheres, era para um lugar chamado
Barbacena, longe. Para o pobre, os lugares são mais longe.

O agente da estação apareceu, fardado de amarelo, com o livro de capa preta


e as bandeirinhas verde e vermelha debaixo do braço.– “Vai ver se botaram água
fresca no carro...” – ele mandou. Depois, o guarda-freios andou mexendo nas
mangueiras de engate. Alguém deu aviso: – “Eles vêm!...” Apontavam, da Rua de
Baixo, onde morava Sorôco. Ele era um homenzão, brutalhudo de corpo, com a
cara grande, uma barba, fiosa, encardida em amarelo, e uns pés, com alperca-
tas: as crianças tomavam medo dele; mais, da voz, que era quase pouca, grossa,
que em seguida se afinava. Vinham vindo, com o trazer de comitiva.

Aí, paravam. A filha – a moça – tinha pegado a cantar, levantando os


braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das pa-
lavras – o nenhum. A moça punha os olhos no alto, que nem os santos e
os espantados, vinha enfeitada de disparates, num aspecto de admiração.
Assim com panos e papéis, de diversas cores, uma carapuça em cima dos es-
palhados cabelos, e enfunada em tantas roupas ainda de mais misturas, tiras
e faixas, dependuradas-virundangas: matéria de maluco. A velha só estava
de preto, com um fichu preto, ela batia com a cabeça, nos docementes. Sem
tanto que diferentes, elas se assemelhavam.

Sorôco estava dando o braço a elas, uma de cada lado. Em mentira, pare-
cia entrada em igreja, num casório. Era uma tristeza. Parecia enterro. Todos
ficavam de parte, a chusma de gente não querendo afirmar as vistas, por
causa daqueles trasmodos e despropósitos, de fazer risos, e por conta de
Sorôco – para não parecer pouco caso. Ele hoje estava calçado de botinas,
e de paletó, com chapéu grande, botara sua roupa melhor, os maltrapos. E
estava reportado e atalhado, humildoso. Todos diziam a ele seus respeitos,
de dó. Ele respondia: – “Deus vos pague essa despesa...”

O que os outros se diziam: que Sorôco tinha tido muita paciência. Sendo
que não ia sentir falta dessas transtornadas pobrezinhas, era até um alívio.

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João Guimarães Rosa

Isso não tinha cura, elas não iam voltar, nunca mais. De antes, Sorôco aguen-
tara de repassar tantas desgraças, de morar com as duas, pelejava. Daí, com
os anos, elas pioraram, ele não dava mais conta, teve de chamar ajuda, que
foi preciso. Tiveram que olhar em socorro dele, determinar de dar as provi-
dências, de mercê. Quem pagava tudo era o Governo, que tinha mandado
o carro. Por forma que, por força disso, agora iam remir com as duas, em
hospícios. O se seguir.

De repente, a velha se desapareceu do braço de Sorôco, foi se sentar no


degrau da escadinha do carro. – “Ela não faz nada, seo Agente...” – a voz de
Sorôco estava muito branda: – “Ela não acode, quando a gente chama...” A
moça, aí, tornou a cantar, virada para o povo, o ao ar, a cara dela era um re-
pouso estatelado, não queria dar-se em espetáculo, mas representava de ou-
troras grandezas, impossíveis. Mas a gente viu a velha olhar para ela, com um
encanto de pressentimento muito antigo – um amor extremoso. E, princi-
piando baixinho, mas depois puxando pela voz, ela pegou a cantar, também,
tomando o exemplo, a cantiga mesma da outra, que ninguém não entendia.
Agora elas cantavam junto, não paravam de cantar.

Aí que já estava chegando a horinha do trem, tinham de dar fim aos apres-
tes, fazer as duas entrar para o carro de janelas enxequetadas de grades.
Assim, num consumiço, sem despedida nenhuma, que elas nem haviam de
poder entender. Nessa diligência, os que iam com elas, por bem-fazer, na
viagem comprida, eram o Nenego, despachado e animoso, e o José Aben-
çoado, pessoa de muita cautela, estes serviam para ter mão nelas, em toda
juntura. E subiam também no carro uns rapazinhos, carregando as trouxas e
malas, e as coisas de comer, muitas, que não iam fazer míngua, os embrulhos
de pão. Por derradeiro, o Nenego ainda se apareceu na plataforma, para os
gestos de que tudo ia em ordem. Elas não haviam de dar trabalhos.

Agora, mesmo, a gente só escutava era o acorçoo do canto, das duas,


aquela chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades
desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem
lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois.

Sorôco.

Tomara aquilo se acabasse. O trem chegando, a máquina manobrando


sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou, e passou, se foi, o de sempre.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 185 16/2/2009 11:38:14


Modernismo na Literatura Brasileira

Sorôco não esperou tudo se sumir. Nem olhou. Só ficou de chapéu na


mão, mais de barba quadrada, surdo – o que nele mais espantava. O triste do
homem, lá, decretado, embargando-se de poder falar algumas suas palavras.
Ao sofrer o assim das coisas, ele, no oco sem beiras, debaixo do peso, sem
queixa, exemploso. E lhe falaram: – “O mundo está dessa forma...” Todos, no
arregalado respeito, tinham as vistas neblinadas. De repente, todos gosta-
vam demais de Sorôco.

Ele se sacudiu, de um jeito arrebentado, desacontecido, e virou, pra ir-


s’embora. Estava voltando para casa, como se estivesse indo para longe, fora
de conta. Mas, parou. Em tanto que se esquisitou, parecia que ia perder o de
si, parar de ser. Assim num excesso de espírito, fora de sentido. E foi o que
não se podia prevenir: quem ia fazer siso naquilo? Num rompido – ele come-
çou a cantar, alteado, forte, mas sozinho para si – e era a cantiga, mesma, de
desatino, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando.

A gente se esfriou, se afundou – um instantâneo. A gente... E foi sem com-


binação, nem ninguém entendia o que se fizesse: todos, de uma vez, de dó
do Sorôco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão. E
com as vozes tão altas! Todos caminhando, com ele, Sorôco, e canta que can-
tando, atrás dele, os mais de detrás quase que corriam, ninguém deixasse de
cantar. Foi o de não sair mais da memória. Foi um caso sem comparação.

A gente estava levando agora o Sorôco para a casa dele, de verdade. A


gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.

Estudos literários
Leia o fragmento a seguir, do conto “Famigerado”, do livro Primeiras Estórias,
de João Guimarães Rosa, para responder às questões.

O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São


Ão, travados assuntos, insequentes, como dificultação. A conversa era para
teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus
propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele
enigmava. E, pá:

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Modernismo na literatura brasileira.indb 186 16/2/2009 11:38:14


João Guimarães Rosa

– Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo


que é: fasmisgerado... faz-me-gerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?

Disse, de golpe, trazia entre dentes aquela frase. Soara com riso seco. Mas,
o gesto, que se seguiu, imperava-se de toda a rudez primitiva, de sua presen-
ça dilatada. Detinha minha resposta, não queria que eu a desse de imediato.
E já aí outro susto vertiginoso suspendia-me: alguém podia ter feito intriga,
invencionice de atribuir-me a palavra de ofensa àquele homem; que muito,
pois, que aqui ele se famanasse, vindo para exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a
vexatória satisfação?

– Saiba vosmecê que saí ind’hoje da Serra, que vim, sem parar, essas seis
léguas, expresso direto pra mor de lhe preguntar a pregunta, pelo claro...

Se sério, se era. Transiu-se-me.

– Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem
tem o legítimo – o livro que aprende as palavras... É gente pra informação
torta, por se fingirem de menos ignorâncias... Só se o padre, no São Ão, capaz,
mas com padres não me dou: eles logo engambelam... A bem. Agora, se me
faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que
é, o que já lhe preguntei?

Se simples. Se digo. Transfoi-se-me. Esses trizes:

– Famigerado?

– Sim senhor... – e, alto, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da


raiva, sua voz fora de foco. E já me olhava, interpelador, intimativo – apertava-
me. Tinha eu que descobrir a cara. – Famigerado? Habitei preâmbulos. Bem que
eu me carecia noutro ínterim, em indúcias. Como por socorro, espiei os três
outros, em seus cavalos, intugidos até então, mumumudos. Mas, Damázio:

– Vosmecê declare. Estes aí são de nada não. São da Serra. Só vieram


comigo, pra testemunho...

Só tinha de desentalar-me. O homem queria estrito o caroço: o


verivérbio.

– Famigerado é inóxio, é “célebre”, “notório”, “notável”...

– Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me


diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?

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Modernismo na literatura brasileira.indb 187 16/2/2009 11:38:14


Modernismo na Literatura Brasileira

– Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros


usos...

– Pois.., e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?

– Famigerado? Bem. É: “importante”, que merece louvor, respeito...

– Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?

Se certo! Era para se empenhar a barba. Do que o diabo, então eu sincero


disse:

– Olhe: eu, como o Sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma
hora destas era ser famigerado – bem famigerado, o mais que pudesse!...

– Ah, bem!... – soltou, exultante.

Saltando na sela, ele se levantou de molas. Subiu em si, desagravava-se,


num desafogaréu. Sorriu-se, outro. Satisfez aqueles três: – Vocês podem ir, com-
padres. Vocês escutaram bem a boa descrição... – e eles prestes se partiram.

(ROSA, 1994, p. 394-395, v. 2)

1. Para esta primeira questão, leia também o verbete abaixo, do Dicionário Ele-
trônico Aurélio.

Famigerado. [Do lat. famigeratu.] Adj. 1. Que tem fama; muito notável;
célebre, famoso, famígero: “Não têm os biógrafos do famigerado romancis-
ta achado documentos nem tradições com que esclarecer sobejamente os
primeiros anos de Cervantes.” (Latino Coelho, Cervantes, p. 51-52); “Naquela
casa de Vila Cova ... floresceram ... padres de muito saber, uns famigerados na
oratória, outros grandes casuístas” (Camilo Castelo Branco, O Bem e o Mal, p.
39); “Tinha visto aquele encaminhar-se à engenhoca, o que o fizera acreditar
que entre os malfeitores ... se achava o famigerado bandido” (Franklin Távora,
O Cabeleira, p. 202). [Como se vê nos dois primeiros exemplos, a palavra não
se aplica só a malfeitores, embora no uso comum se observe tendência para
isso.] 2. Pop. Faminto, esfomeado.

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João Guimarães Rosa

Agora, a partir desse verbete, explique a situação delicada em que se encon-


tra o narrador do conto de Guimarães Rosa.

2. A linguagem popular de Damázio é muito rica. Explique o significado de al-


guns trechos de suas falas.

a) “Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem
têm o legítimo – o livro que aprende as palavras... É gente pra informação
torta, por se fingirem de menos ignorâncias...”

b) “Pois.., e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?”

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Modernismo na literatura brasileira.indb 189 16/2/2009 11:38:14


Modernismo na Literatura Brasileira

3. Certas palavras desse fragmento de Guimarães Rosa não são dicionarizadas


– algumas, por fazerem parte de um repertório popular sertanejo; outras,
por serem neologismos criados pelo autor. Aponte o significado dos neolo-
gismos abaixo, explicando como Guimarães Rosa os formou.

a) verivérbio:

b) mumumudos:

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João Guimarães Rosa

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Modernismo na literatura brasileira.indb 192 16/2/2009 11:38:14


Clarice Lispector

Nascida em Tchetchelnik, na Ucrânia, aos dois meses de idade Clarice


Lispector (1925-1977) se mudou com a família, para o nordeste brasileiro,
fixando-se na capital pernambucana.

Iniciada em Recife, sua paixão pela literatura se tornou refúgio para a vida
isolada da menina que se transferiu para o Rio de Janeiro aos 12 anos. Pas-
sando horas na biblioteca do colégio e perambulando por livrarias, encon-
trou as obras do russo Fiodor Dostoievski (1821-1881) e de alguns escritores
de língua inglesa – James Joyce (1882-1941), Virginia Woolf (1882-1941) e
Katherine Mansfield (1888-1923).

Além de ter vivido uma infância envolta em sérias dificuldades financei-


ras, Clarice contava apenas nove anos de idade quando sua mãe morreu.

Depois, Clarice começou a trabalhar como professora particular de


português e a relação entre professor e aluno seria um dos temas preferi-
dos e recorrentes em toda a sua obra – desde Perto do Coração Selvagem,
seu primeiro romance.

Em 1941, ela ingressou na Faculdade Nacional de Direito e começou a


trabalhar como redatora na Agência Nacional. Os passos seguintes foram
o jornal A Noite e o início do trabalho em Perto do Coração Selvagem. Se-
gundo a autora, escrever esse livro foi um processo cercado pela angústia:
o romance a perseguia, as ideias surgiam a qualquer hora, em qualquer
lugar. Nasceu aí uma das características do seu método de escrita – anotar
as ideias a qualquer hora, em qualquer pedaço de papel.

Em 1943, publicou Perto do Coração Selvagem, recebido com entusias-


mo pelo crítico Antonio Candido, em 1944. O livro recebeu o prêmio da
Fundação Graça Aranha. Nas palavras de Lauro Escorel, as características
do romance revelam uma “personalidade de romancista verdadeiramente
excepcional, pelos seus recursos técnicos e pela força da sua natureza in-
teligente e sensível”.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 193 16/2/2009 11:38:14


Modernismo na Literatura Brasileira

Já nesse primeiro livro, identifica-se o estilo muito pessoal da escritora. Nas suas
páginas, Clarice explora pela primeira vez a solidão e a incomunicabilidade humana,
por meio de uma prosa inquieta, em determinados momentos próxima da poesia.

No mesmo ano de 1943, ela concluiu o curso de direito e se casou. Acom-


panhando o marido diplomata, passou anos fora do Brasil, só retornando em
definitivo em 1960, quando se separou do marido.

Em 1967, já consagrada, escreveu livros infantis, a pedido do filho.

Ao adormecer com um cigarro aceso, teve sua cama incendiada e sofreu


queimaduras extensas.

Parcialmente recuperada, escreveu crônicas para o Jornal do Brasil, fez tradu-


ções e acelerou o ritmo de suas publicações.

Morreu de câncer generalizado em 1977, no Rio de Janeiro.

A ação interior
Desde os primeiros contos de adolescente (depois reunidos no volume
póstumo A Bela e a Fera, 1979), a obra de Clarice Lispector é marcada por uma
busca incessante de interiorização. Mais que as ações, importam as reações das
personagens:
Começou a ficar escuro e ela teve medo. A chuva caía sem tréguas e as calçadas brilhavam
úmidas à luz das lâmpadas. Passavam pessoas de guarda-chuva, impermeável, muito
apressadas, os rostos cansados. Os automóveis deslizavam pelo asfalto molhado e uma ou
outra buzina tocava maciamente.
Quis sentar-se num banco do jardim, porque na verdade não sentia a chuva e não se importava
com o frio. Só mesmo um pouco de medo, porque ainda não resolvera o caminho a tomar.
O banco seria um ponto de repouso. Mas os transeuntes olhavam-na com estranheza e ela
prosseguia na marcha.
Estava cansada. Pensava sempre: “Mas que é que vai acontecer agora?” Se ficasse andando.
Não era solução. Voltar para casa? Não. Receava que alguma força a empurrasse para o ponto
de partida. Tonta como estava, fechou os olhos e imaginou um grande turbilhão saindo do Lar
Elvira, aspirando-a violentamente e recolocando-a junto da janela, o livro na mão, recompondo
a cena diária. Assustou-se. Esperou um momento em que ninguém passava para dizer com
toda a força: “Você não voltará”. Apaziguou-se.
Agora que decidira ir embora tudo renascia. Se não estivesse tão confusa, gostaria infinitamente
do que pensara ao cabo de duas horas: “Bem, as coisas ainda existem”. Sim, simplesmente
extraordinária a descoberta. Há doze anos era casada e três horas de liberdade restituíram-
na quase inteira a si mesma: – primeira coisa a fazer era ver se as coisas ainda existiam. Se
representasse num palco essa mesma tragédia, se apalparia, beliscaria para saber se desperta.
O que tinha menos vontade de fazer, porém, era de representar.
Não havia, porém, somente alegria e alívio dentro dela. Também um pouco de medo e doze
anos [...].

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Modernismo na literatura brasileira.indb 194 16/2/2009 11:38:15


Clarice Lispector

Agora a chuva parou. Só está frio e muito bom. Não voltarei para casa. Ah, sim, isso é
infinitamente consolador. Ele ficará surpreso? Sim, doze anos pesam como quilos de chumbo.
Os dias se derretem, fundem-se e formam um só bloco, uma grande âncora. E a pessoa está
perdida. Seu olhar adquire um jeito de poço fundo. Água escura e silenciosa. Seus gestos
tornam-se brancos e ela só tem um medo na vida; que alguma coisa venha transformá-la. Vive
atrás de uma janela, olhando pelos vidros a estação das chuvas cobrir a do sol, depois tornar
o verão e ainda as chuvas de novo. Os desejos são fantasmas que se diluem mal se acende a
lâmpada do bom senso. Por que é que os maridos são o bom senso? O seu é particularmente
sólido, bom e nunca erra. Das pessoas que só usam uma marca de lápis e dizem de cor o que
está escrito na sola dos sapatos. Você pode perguntar-lhe sem receio qual o horário dos trens,
o jornal de maior circulação e mesmo em que região do globo os macacos se reproduzem com
maior rapidez.
Ela ri. Agora pode rir... Eu comia caindo, dormia caindo, vivia caindo. Vou procurar um lugar
onde pôr os pés...
Achou tão engraçado esse pensamento que se inclinou sobre o muro e pôs-se a rir. Um homem
gordo parou a certa distância, olhando-a. Que é que eu faço? Talvez chegar perto e dizer: “Meu
filho, está chovendo”’. Não. “Meu filho, eu era uma mulher casada e sou agora uma mulher”.
Pôs-se a caminhar e esqueceu o homem gordo.
Abre a boca e sente o ar fresco inundá-la. Por que esperou tanto tempo por essa renovação? Só
hoje, depois de doze séculos. Saíra do chuveiro frio, vestira uma roupa leve, apanhara um livro.
Mas hoje era diferente de todas as tardes dos dias de todos os anos. Fazia calor e ela sufocava.
Abriu todas as janelas e as portas. Mas não: o ar ali estava, imóvel, sério, pesado. Nenhuma
viração e o céu baixo, as nuvens escuras, densas. (LISPECTOR, 1979, p. 99-102)

Fatos banais do cotidiano, como tomar um bonde e ver um cego mascando


chiclete, como no conto “Amor”, do livro Laços de Família (1960), podem defla-
grar nas personagens mudanças profundas, jogando nova luz sobre suas rela-
ções com os outros ou com a vida:
O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então
que olhou para o homem parado no ponto.
A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se
mantinham avançadas. Era um cego.
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila
estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar – o coração
batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não
nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento
da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir –
como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher
com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada – o bonde deu uma arrancada
súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no
chão – Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava – o
bonde estacou, os passageiros olharam assustados. (LISPECTOR, 1998, p. 19)

Esses momentos de revelação são epifanias, para usar o termo bíblico em-
pregado por James Joyce. Muitas vezes essas epifanias vêm acompanhadas por
uma intensa náusea existencial, como ocorre no conto “Perdoando Deus”, de Fe-
licidade Clandestina:
Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas,
sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de
uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco

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Modernismo na literatura brasileira.indb 195 16/2/2009 11:38:15


Modernismo na Literatura Brasileira

a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se
intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade.
Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de
Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória,
sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. [...]
E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era
o meu amor apenas livre.
E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada
pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava
como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas,
terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que
não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda
enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.
Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca
infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira
minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contiguidade ligava-os. Os dois fatos
tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a
revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que
estava Deus querendo me lembrar? [...] Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um
rato. Não naquele instante. [...] Então era assim? Eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem
precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria
de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. (LISPECTOR, 1975, p. 37-39)

O mesmo se dá com a personagem-título de A Paixão Segundo G. H. (1964),


que encontra uma barata no quarto da empregada que a deixara e estabelece
com o inseto uma relação bastante conflituosa:
Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que
vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi,
tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-
me alguma coisa que eu, pelo fato de não saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria
chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde
voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me
confirmar no que vivi – na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei
que não tenho capacidade para outro. (LISPECTOR, 1979, p. 7)

Mesmo nas suas crônicas, reunidas em A Descoberta do Mundo (1984), Clari-


ce não abandona a investigação das complexidades psicológicas. Observem-se
estas reflexões sobre a língua portuguesa, note-se como a subjetividade invade
o pensamento sobre suas relações com o idioma:
Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E,
como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter
sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam
transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é
um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e
das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o
imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num
cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos
os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre
uma herança da língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do
pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 196 16/2/2009 11:38:15


Clarice Lispector

Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que
não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria
pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever,
tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português.
Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português
fosse virgem e límpida. (LISPECTOR, 2008)

Vejamos também estas reflexões agudas sobre o ato de escrever: “Não posso
escrever enquanto estou ansiosa ou espero soluções porque em tais períodos
faço tudo para que as horas passem; escrever é prolongar o tempo, é dividi-lo
em partículas de segundos, dando a cada uma delas uma vida insubstituível”
(LISPECTOR, 1980, p. 177).

No romance Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969), a autora mescla


as mitologias grega e alemã para descrever as aflições amorosas da mulher mo-
derna. Além disso, começa o texto com uma vírgula e termina com dois pontos:
, estando tão ocupada, viera das compras de casa que a empregada fizera às pressas porque
cada vez mais matava serviço, embora só viesse para deixar almoço e jantar prontos, dera
vários telefonemas tomando providências, inclusive um dificílimo para chamar o bombeiro
de encanamentos de água, fora à cozinha para arrumar as compras e dispor na fruteira as
maçãs que eram a sua melhor comida, embora não soubesse enfeitar uma fruteira, mas Ulisses
acenara-lhe com a possibilidade futura de por exemplo embelezar uma fruteira [...]
[...]
A madrugada se abria em luz vacilante. Para Lóri a atmosfera era de milagre. Ela havia atingido
o impossível de si mesma. Então ela disse, porque sentia que Ulisses estava de novo preso à
dor de existir:
— Meu amor, você não acredita no Deus porque nós erramos ao humanizá-lo. Nós O
humanizamos porque não O entendemos, então não deu certo. Tenho certeza de que Ele não
é humano. Mas embora não sendo humano, no entanto, Ele às vezes nos diviniza. Você pensa
que —
— Eu penso, interrompeu o homem e sua voz estava lenta e abafada porque ele estava
sofrendo de vida e de amor, eu penso o seguinte: (LISPECTOR, 1982, p. 11, 173-174)

Suas obras Água Viva (1973) e Um Sopro de Vida (1978) abandonam comple-
tamente a narrativa tradicional e sequer são designadas como romances. Clarice
elimina a intriga, desenvolvendo monólogos fragmentários e introspectivos. Ve-
jamos um trecho de Água Viva:
Meu tema é o instante? Meu tema de vida. Procuro estar a par dele, divido-me milhares de
vezes em tantas vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentária que sou e precários os
momentos – só me comprometo como a vida que nasça com o tempo e com ele cresça: só no
tempo há espaço para mim. [...]
Para te dizer o meu substrato faço uma frase de palavras feitas apenas dos instantes-já. Lê
então o meu invento de pura vibração sem significado senão o de cada esfuziante sílaba, lê o
que agora se segue: “com o correr dos séculos perdi o segredo do Egito, quando eu me movia
em longitude, latitude e altitude com ação energética dos elétrons, prótons, nêutrons, no
fascínio que é a palavra e sua sombra.” Isso que te escrevi é um desenho eletrônico e não tem
passado ou futuro: é simplesmente já.
[…]

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Modernismo na literatura brasileira.indb 197 16/2/2009 11:38:15


Modernismo na Literatura Brasileira

Agora vou escrever ao correr da mão: não mexo no que ela escrever. Esse é um modo de não haver
defasagem entre o instante e eu: ajo no âmago do próprio instante. (LISPECTOR, 1980, p. 10-11, 54)

A Hora da Estrela
Em A Hora da Estrela (1977), seu último romance publicado em vida, Clarice
Lispector acrescenta a preocupação social ao descrever a vida da miserável nor-
destina Macabéa no Rio de Janeiro. Dedicar-se a questões sociais era um desejo
antigo da autora:
Em Recife, onde morei até 12 anos de idade, havia muitas vezes nas ruas um aglomerado
de pessoas diante das quais alguém discursava ardorosamente sobre a tragédia social. E
lembro-me de como eu vibrava e de como eu me prometia que um dia esta seria a minha
tarefa: a de defender os direitos dos outros.
No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que
profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, muito pouco. (apud GOTLIB, 1995, p. 123)

Mas o enredo surge também do olhar atento da autora para os nordestinos à


sua volta no Rio de Janeiro:
É a história de uma moça tão pobre que só comia cachorro-quente. Mas a história não é isso.
A história é de uma inocência pisada, de uma miséria anônima. Eu morei no Nordeste... eu me
criei no Nordeste e depois no Rio de Janeiro... tem uma feira dos nordestinos no campo de
São Cristóvão, e uma vez eu fui lá. E peguei o ar meio perdido do nordestino no Rio de Janeiro.
Daí começou a nascer a ideia. Depois eu fui a uma cartomante e imaginei as coisas boas que
iam me acontecer. E imaginei, quando tomei o táxi de volta, que seria muito engraçado se um
táxi me atropelasse e eu morresse, depois de ter ouvido todas essas coisas boas. Então daí foi
nascendo também a trama da história. (apud ALÔ ESCOLA, 2008)

No entanto, se tivéssemos apenas a história da moça pobre nordestina não


teríamos um romance de Clarice Lispector. Ela cria, como mediação entre nós e
a miserável, um escritor chamado Rodrigo S. M., que, como Clarice, deseja escre-
ver de forma mais simples e direta para revelar os fatos da vida da sua heroína.
Mas não consegue. A primeira metade do livro é praticamente toda gasta com as
digressões, reflexões metalinguísticas e extrapolações de Rodrigo:
Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a
vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o
sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou.
Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar
pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-história já havia os
monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir
é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo.
A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida a mais verdadeira
é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu
coração se esvaziou ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa

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Clarice Lispector

esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo uma
melodia sincopada e estridente – é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta
de felicidade. Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que
andam por aí aos montes.
[...]
Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que
numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma
moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas
por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. Assim é que os senhores
sabem mais do que imaginam e estão fingindo de sonsos.
Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei, embora obrigado a usar as
palavras que vos sustentam. A história – determino com falso livre-arbítrio – vai ter uns sete
personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M. Relato antigo,
este, pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que
experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e gran finale seguido
de silêncio e de chuva caindo. (LISPECTOR, 1978, p. 15-16)

Esse narrador complexo tem uma curiosa relação com a dor: é o sofrimento
(físico e psicológico) que parece movê-lo. Sua relação com a nordestina (cujas pe-
ripécias narra) é ao mesmo tempo de repulsa e de atração, asco e carinho, dor e
prazer... O que pode ser uma boa pista para interpretarmos o seu nome – Rodrigo
S. M. A sigla S. M. é internacionalmente conhecida por remeter ao sadomasoquis-
mo. Como toda a sociedade que está acima da linha da miséria, Rodrigo tem uma
relação complexa, uma relação de amor e ódio com os miseráveis – como Maca-
béa. Vejamos como a heroína é descrita:
Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em troca de um bom jantar em vez
de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender,
ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém.
(...)
Nascera inteiramente raquítica: herança do sertão – os maus antecedentes de que falei. Com
dois anos de idade lhe haviam morrido os pais de febres ruins no sertão de Alagoas, lá onde
o Judas perdera as botas. Muito depois fora para Maceió com a tia beata, única parenta sua
no mundo. Uma ou outra vez se lembrava de coisa esquecida. Por exemplo a tia lhe dando
cascudos no alto da cabeça porque o cocoruto de uma cabeça devia ser, imaginava a tia, um
ponto vital. Dava-lhe sempre com os nós dos dedos na cabeça de ossos fracos por falta de
cálcio. Batia mas não era somente porque ao bater gozava de grande prazer sensual – a tia que
não se casara por nojo – é que também considerava de dever seu evitar que a menina viesse
um dia a ser uma dessas moças que em Maceió ficavam nas ruas de cigarro aceso esperando
homem. Embora a menina não tivesse dado mostras de no futuro não vir a ser vagabunda de
rua. Pois até mesmo o fato de vir a ser uma mulher não parecia pertencer à sua vocação. A
mulherice só lhe nasceria tarde porque até no capim vagabundo há desejo de sol. As pancadas
ela esquecia pois esperando-se um pouco a dor termina por passar. Mas o que doía mais era ser
privada da sobremesa de todos os dias: goiabada com queijo, a única paixão de sua vida. Pois
não era que esse castigo se tornara o predileto da tia sabida? A menina não perguntava por
que era sempre castigada mas nem tudo precisava saber e não saber fazia parte importante
de sua vida.
Esse não-saber pode parecer ruim mas não é tanto porque ela sabia muita coisa assim como
ninguém ensina cachorro a abanar o rabo e nem a pessoa a sentir fome; nasce-se e fica-se logo
sabendo. Assim como ninguém lhe ensinaria a morrer: na certa morreria um dia como se antes
tivesse estudado de cor a representação do papel de estrela. Pois na hora da morte a pessoa se
torna brilhante estrela de cinema, é o instante de glória de cada um e é quando como no canto
coral se ouvem agudos sibilantes.

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Modernismo na Literatura Brasileira

Quando era pequena tivera vontade intensa de criar um bicho. Mas a tia achava que ter um
bicho era mais uma boca para comer. Então a menina inventou que só lhe cabia criar pulgas
pois não merecia o amor de um cão. Do contacto com a tia ficara-lhe a cabeça baixa. Mas a sua
beatice não lhe pegara: morta a tia, ela nunca mais fora a uma igreja porque não sentia nada e
as divindades lhe eram estranhas. (LISPECTOR, 1978, p. 18, 35-36)

Note-se que, embora sensível e preocupada, a descrição é ao mesmo tempo incle-


mente, sem pieguismos ou sentimentos de exagerada compaixão pela miserável.

Embora Macabéa chegue a irritar Rodrigo (e a nós também) com sua passivi-
dade, ignorância e imobilismo, o narrador insiste em reforçar a ideia de que ela
tem sim vida interior:
Tinha o que se chama de vida interior e não sabia que tinha. Vivia de si mesma como se comesse
as próprias entranhas. Quando ia ao trabalho parecia uma doida mansa porque ao correr do
ônibus devaneava em altos e deslumbrantes sonhos. Estes sonhos, de tanta interioridade,
eram vazios porque lhes faltava o núcleo essencial de uma prévia experiência de – de êxtase,
digamos. A maior parte do tempo tinha sem o saber o vazio que enche a alma dos santos. Ela
era santa? Ao que parece. Não sabia que meditava pois não sabia o que queria dizer a palavra. Mas
parece-me que sua vida era uma longa meditação sobre o nada. Só que precisava dos outros
para crer em si mesma, senão se perderia nos sucessivos e redondos vácuos que havia nela.
Meditava enquanto batia à máquina e por isso errava ainda mais. (LISPECTOR, 1978, p. 47)

Tanto tinha vida interior que vivenciava vários momentos de epifania, inten-
sos momentos de revelação interior:
Devo registrar aqui uma alegria. É que a moça num aflitivo domingo sem farofa teve uma
inesperada felicidade que era inexplicável: no cais do porto viu um arco-íris. Experimentando
o leve êxtase, ambicionou logo outro: queria ver, como uma vez em Maceió, espocarem mudos
fogos de artifício. Ela quis mais porque é mesmo uma verdade que quando se dá a mão, essa
gentinha quer todo o resto, o zé-povinho sonha com fome de tudo. E quer mas sem direito
algum, pois não é? Não havia meio – pelo menos eu não posso – de obter os multiplicantes
brilhos em chuva chuvisco dos fogos de artifício. (LISPECTOR, 1978, p. 44)

Desprovida de qualquer meio de adquirir educação formal ou cultura, a ala-


goana, ávida por algum conhecimento, procura se ilustrar por meio da cultura
inútil da Rádio Relógio carioca:
Todas as madrugadas ligava o rádio emprestado por uma colega de moradia, Maria da Penha,
ligava bem baixinho para não acordar as outras, ligava invariavelmente para a Rádio Relógio,
que dava “hora certa e cultura”, e nenhuma música, só pingava em som de gotas que caem –
cada gota de minuto que passava. E sobretudo esse canal de rádio aproveitava intervalos entre
as tais gotas de minuto para dar anúncios comerciais – ela adorava anúncios. Era rádio perfeita
pois também entre os pingos do tempo dava curtos ensinamentos dos quais talvez algum dia
viesse precisar saber. Foi assim que aprendeu que o Imperador Carlos Magno era na terra dele
chamado Carolus. Verdade que nunca achara modo de aplicar essa informação. Mas nunca se
sabe, quem espera sempre alcança. Ouvira também a informação de que o único animal que
não cruza com filho era o cavalo.
– Isso, moço, é indecência, disse ela para o rádio.
Outra vez ouvira: “Arrepende-te em Cristo e Ele te dará felicidade”. Então ela se arrependera.
Como não sabia bem de que, arrependia-se toda e de tudo. O pastor também falava que a
vingança é coisa infernal. Então ela não se vingava.
Sim, quem espera sempre alcança. É? (LISPECTOR, 1978, p. 46)

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Clarice Lispector

Esta “miséria anônima”, que é Macabéa, é a própria inocência que vai sendo
pisada cada vez mais e mais intensamente durante o transcorrer da narrativa.
Pisada pelos homens e pelo destino, por sua condição social e cultural, pela vida,
enfim. E com isso o leitor vai ficando mais arrasado, sentindo-se culpado, como
Rodrigo S. M., pela situação de miséria social e mental de Macabéa.

Texto complementar
Leia o trecho final do romance A Hora da Estrela. No início do fragmento, te-
mos as previsões de madame Carlota para Macabéa e, depois, o desfecho do
romance.

Quanto ao futuro
(LISPECTOR, 1978, p. 96-104)

Mas Macabeazinha, que vida horrível a sua! [...] Tenho grandes notícias para
lhe dar: Sua vida vai mudar completamente! [...] Até seu namorado vai voltar e
propor casamento [...] e seu chefe não vai mais lhe despedir! E tem mais! Um
dinheiro grande vai lhe entrar pela porta adentro em horas da noite trazido por
um homem estrangeiro [...] Ele é alourado e tem olhos azuis ou verdes ou casta-
nhos ou pretos. [...] Parece se chamar Hans, e é ele quem vai se casar com você!

Num súbito ímpeto (explosão) de vivo impulso, Macabéa, entre feroz e


desajeitada, deu um estalado beijo no rosto da madama. [...] Quando ela era
pequena, como não tinha a quem beijar, beijava a parede. [...] Madame Car-
lota tinha acertado tudo, Macabéa estava espantada. Só então vira que sua
vida era uma miséria. Teve vontade de chorar ao ver o seu lado oposto, ela
que, como eu disse, até então se julgava feliz. [...] Então ao dar o passo de
descida da calçada para atravessar a rua, o Destino (explosão) sussurou veloz
e guloso: é agora, é já, chegou a minha vez.

[...]

Macabéa ao cair ainda teve tempo de ver, antes que o carro fugisse, que
já começavam a ser cumpridas as predições de madama Carlota, pois o carro
era de alto luxo. Sua queda não era nada, pensou ela, apenas um empurrão.
Batera com a cabeça na quina da calçada e ficara caída, a cara mansamente

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Modernismo na Literatura Brasileira

voltada para a sarjeta. E da cabeça um fio de sangue inesperadamente ver-


melho e rico. O que queria dizer que apesar de tudo ela pertencia a uma re-
sistente raça anã teimosa que um dia vai talvez reivindicar o direito ao grito.

[...]

Ficou inerme no canto da rua, talvez descansando das emoções, e viu


entre as pedras do esgoto o ralo capim de um verde da mais tenra esperança
humana. Hoje, pensou ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci.

(A verdade é sempre um contato interior inexplicável. A verdade é irreco-


nhecível. Portanto não existe? Não, para os homens não existe.)

Voltando ao capim. Para tal exígua criatura chamada Macabéa a grande


natureza se dava apenas em forma de capim de sarjeta.

[...]

Acho com alegria que ainda não chegou a hora de estrela de cinema de
Macabéa morrer. Pelo menos ainda não consigo adivinhar se lhe acontece o
homem louro e estrangeiro. Rezem por ela e que todos interrompam o que
estão fazendo para soprar-lhe vida, pois Macabéa está por enquanto solta
no acaso como a porta balançando ao vento no infinito. Eu poderia resolver
pelo caminho mais fácil, matar a menina-infante, mas quero o pior: a vida. Os
que me lerem, assim, levem um soco no estômago para ver se é bom. A vida
é um soco no estômago.

(...)

Aí Macabéa disse uma frase que nenhum dos transeuntes entendeu. Disse
bem pronunciado e claro:

– Quanto ao futuro.

Terá tido ela saudade do futuro? Ouço a música antiga de palavras e pa-
lavras, sim, é assim. Nesta hora exata Macabéa sente um fundo enjoo de es-
tômago e quase vomitou, queria vomitar o que não é corpo, vomitar algo
luminoso. Estrela de mil pontas.

O que é que estou vendo agora e que me assusta? Vejo que ela vomitou
um pouco de sangue, vasto espasmo, enfim o âmago tocando no âmago:
vitória!

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Clarice Lispector

E então – então o súbito grito estertorado de uma gaivota, de repente a


águia voraz erguendo para os altos ares a ovelha tenra, o macio gato estraça-
lhando um rato sujo e qualquer, a vida come a vida.

Até tu, Brutus?!

Sim, foi este o modo como eu quis anunciar que – que Macabéa morreu.
Vencera o Príncipe das Trevas. Enfim a coroação.

Qual foi a verdade de minha Maca? Basta descobrir a verdade que ela
logo já não é mais: passou o momento. Pergunto: o que é? Resposta: não é.

Mas que não se lamentem os mortos: eles sabem o que fazem. Eu estive
na terra dos mortos e depois do terror tão negro ressurgi em perdão. Sou
inocente! Não me consumam! Não sou vendável! Ai de mim, todo na perdi-
ção e é como se a grande culpa fosse minha. Quero que me lavem as mãos e
os pés e depois – depois que os untem com óleos santos de tanto perfume.
Ah que vontade de alegria. Estou agora me esforçando para rir em grande
gargalhada. Mas não sei por que não rio. A morte é um encontro consigo.
Deitada, morta, era tão grande como um cavalo morto. O melhor negócio é
ainda o seguinte: não morrer, pois morrer é insuficiente, não me completa,
eu que tanto preciso.

Macabéa me matou.

Ela estava enfim livre de si e de nós. Não vos assusteis, morrer é um ins-
tante, passa logo, eu sei porque acabo de morrer com a moça. Desculpai-me
esta morte. É que não pude evitá-la, a gente aceita tudo porque já beijou a
parede. Mas eis que de repente sinto o meu último esgar de revolta e uivo: o
morticínio dos pombos!!! Viver é luxo.

Pronto, passou.

Morta, os sinos badalavam mas sem que seus bronzes lhes dessem som.
Agora entendo esta história. Ela é a iminência que há nos sinos que quase-quase
badalam.

A grandeza de cada um.

Silêncio.

Se um dia Deus vier à terra haverá silêncio grande.

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Modernismo na Literatura Brasileira

O silêncio é tal que nem o pensamento pensa.

O final foi bastante grandiloquente para a vossa necessidade? Morrendo


ela virou ar. Ar enérgico? Não sei. Morreu em um instante. O instante é aquele
átimo de tempo em que o pneu do carro correndo em alta velocidade toca no
chão e depois não toca mais e depois toca de novo. Etc. etc. etc. No fundo ela
não passara de uma caixinha de música meio desafinada.

Eu vos pergunto:

– Qual é o peso da luz?

E agora – agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus,


só agora me lembrei que a gente morre. Mas – mas eu também?!

Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.

Sim.

Estudos literários
1. Leia o trecho abaixo, de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector (1978, p. 54),
para responder ao que se pede.

Eles não sabiam como se passeia. Andaram sob a chuva grossa e pararam
diante da vitrine de uma loja de ferragem onde estavam expostos atrás do
vidro canos, latas, parafusos grandes e pregos. E Macabéa, com medo de que
o silêncio já significasse uma ruptura, disse ao recém-namorado:

– Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?

Da segunda vez em que se encontraram caía uma chuva fininha que


ensopava os ossos. Sem nem ao menos se darem as mãos caminhavam na
chuva que na cara de Macabéa parecia lágrimas escorrendo.

Da terceira vez em que se encontraram pois não é que estava chovendo?


– o rapaz, irritado e perdendo o leve verniz de finura que o padrasto a custo
lhe ensinara, disse-lhe:

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Clarice Lispector

– Você também só sabe é mesmo chover!

– Desculpe.
(LISPECTOR, 1978, p. 54)

a) Na frase “Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?” manifesta-se,


de forma contundente, a função fática da linguagem, por meio da qual
o emissor procura assegurar que o contato com o receptor está sendo
estabelecido. Transcreva o trecho do fragmento que melhor justifica o
uso dessa função da linguagem por Macabéa.

b) Na frase “perdendo o leve verniz de finura que o padrasto a custo lhe


ensinara” há uma metáfora. Explique-a.

2. Leia os dois fragmentos abaixo e depois responda ao que se pede.

Ele: – Pois é.

Ela: – Pois é o quê?

Ele: – Eu só disse pois é!

Ela: – Mas “pois é” o quê?

Ele: – Melhor mudar de conversa porque você não me entende.

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Modernismo na Literatura Brasileira

Ela: – Entender o quê?

Ele: – Santa Virgem, Macabéa, vamos mudar de assunto e já!

Ela: – Falar então de quê?

Ele: – Por exemplo, de você.

Ela: – Eu?!

Ele: – Por que esse espanto? Você não é gente? Gente fala de gente.

Ela: – Desculpe mas não acho que sou muito gente.


(LISPECTOR, 1978, p. 58-59)

II

No dia seguinte, segunda-feira, não sei se por causa do fígado atingido


pelo chocolate ou por causa de nervosismo de beber coisa de rico, passou
mal. Mas teimosa não vomitou para não desperdiçar o luxo do chocolate.
Dias depois, recebendo o salário, teve a audácia de pela primeira vez na vida
(explosão) procurar o médico barato indicado por Glória. Ele a examinou, a
examinou e de novo a examinou.

– Você faz regime para emagrecer, menina?

Macabéa não soube o que responder.

– O que é que você come?

– Cachorro-quente.

– Só?

– Às vezes como sanduíche de mortadela.

– Que é que você bebe? Leite?

– Só café e refrigerante.

– Que refrigerante? – perguntou ele sem saber o que falar. À toa indagou:

– Você às vezes tem crise de vômito?

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Clarice Lispector

– Ah, nunca! – exclamou muito espantada, pois não era doida de des-
perdiçar comida, como eu disse. O médico olhou-a e bem sabia que ela não
fazia regime para emagrecer. Mas era-lhe mais cômodo insistir em dizer
que não fizesse dieta de emagrecimento. Sabia que era assim mesmo e que
ele era médico de pobres. Foi o que disse enquanto lhe receitava um tônico
que ela depois nem comprou, achava que ir ao médico por si só já curava.
Ele acrescentou irritado sem atinar com o porquê de sua súbita irritação e
revolta.

– Essa história de regime de cachorro-quente é pura neurose e o que está


precisando é de procurar um psicanalista!

Ela nada entendeu mas pensou que o médico esperava que ela sorrisse.
Então sorriu.

O médico muito gordo e suado tinha um tique nervoso que o fazia de


quando em quando ritmadamente repuxar os lábios. O resultado era parecer
que estava fazendo beicinho de bebê quando está prestes a chorar.

Esse médico não tinha objetivo nenhum. A medicina era apenas para
ganhar dinheiro e nunca por amor à profissão nem a doentes. Era desatento
e achava a pobreza uma coisa feia. Trabalhava para os pobres detestando
lidar com eles. Eles eram para ele o rebotalho de uma sociedade muito alta à
qual também ele não pertencia. Sabia que estava desatualizado na medicina
e nas novidades clínicas mas para pobre servia. O seu sonho era ter dinheiro
para fazer exatamente o que queria: nada.

Quando ele avisara que ia examiná-la ela disse:

– Ouvi dizer que no médico se tira a roupa mas eu não tiro coisa nenhuma.

Passara-a pelo raio X e dissera:

– Você está com começo de tuberculose pulmonar.

Ela não sabia se isso era coisa boa ou coisa ruim. Bem, como era uma
pessoa muito educada, disse:

– Muito obrigada, sim?

O médico simplesmente se negou a ter piedade. E acrescentou: quando


você não souber o que comer faça um espaguete bem italiano.

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Modernismo na Literatura Brasileira

E acrescentou com um mínimo de bondade a que ele se permitia já que


se considerava também injustiçado pela sorte:

– Não é tão caro assim...

– Esse nome de comida que o senhor falou eu nunca comi na vida. É bom?

– Claro que é! Olhe só a minha barriga! Isso é resultado de boas macar-


ronadas e muita cerveja. Dispense a cerveja, é melhor não beber álcool. Ela
repetiu cansada:

– Álcool ?

– Sabe de uma coisa? Vá para os raios que te partam!

(LISPECTOR, 1978, p. 80-82)

a) Aponte o que há de semelhante entre o diálogo do primeiro texto (Ma-


cabéa e Olímpico) e o segundo (Macabéa e o médico). O que esses frag-
mentos indicam sobre a relação de Macabéa com os homens?

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Clarice Lispector

b) A estrutura de humor dos dois textos é semelhante. Como Clarice Lispec-


tor manipula a relação do leitor com Macabéa nesses fragmentos?

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Modernismo na literatura brasileira.indb 210 16/2/2009 11:38:15


João Cabral de Melo Neto

O poeta do rigor
“Os poetas não têm biografia. Sua biografia é sua obra.” Essas palavras
do diplomata, poeta e crítico mexicano Octavio Paz (1996, p. 82) ecoam
no depoimento pessoal do poeta e diplomata brasileiro João Cabral de
Melo Neto: “Eu não tenho biografia. Minha biografia é: em tanto de tanto
foi para tal lugar. Em tanto de tanto foi para tal lugar, essa é a biografia que
tenho” (MELO NETO, 1989, p. 34).

Nascido em 9 de janeiro de 1920, no Recife, Pernambuco, de tradicio-


nal família de senhores de engenho, João Cabral de Melo Neto passou a
primeira infância em engenhos de cana-de-açúcar, entre curumbas (indi-
víduos que descem do sertão à procura de trabalho nos engenhos, usinas
e estradas) e romances de barbante (os folhetos de cordel, que tanto o in-
fluenciariam, décadas depois, na composição de sua obra mais conheci-
da, Morte e Vida Severina). No poema “Descoberta da literatura”, integrante
do livro A Escola das Facas (1980), João Cabral retoma o ambiente da sua
infância:

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Modernismo na Literatura Brasileira

No dia-a-dia do engenho, como puro alto-falante,


toda a semana, durante, e, sem querer, imantara
cochichavam-me em segredo: todos ali, circunstantes,
saiu um novo romance. receava que confundissem
E da feira do domingo o de perto com o distante,
me traziam conspirantes o ali com o espaço mágico,
para que os lesse e explicasse seu franzino com o gigante,
um romance de barbante. e que o acabassem tomando
Sentados na roda morta pelo autor imaginante
de um carro de boi, sem jante, ou tivesse que afrontar
ouviam o folheto guenzo, as brabezas do brigante.
a seu leitor semelhante, (E acabaria, não fossem
com as peripécias de espanto contar tudo à Casa-grande:
preditas pelos feirantes. na moita morta do engenho,
Embora as coisas contadas um filho-engenho, perante
e todo o mirabolante, cassacos do eito e de tudo,
em nada ou pouco variassem se estava dando ao desplante
nos crimes, no amor, nos lances, de ler letra analfabeta
e soassem como sabidas de curumba, no caçanje
de outros folhetos migrantes, próprio dos cegos de feira,
a tensão era tão densa, muitas vezes meliantes.)
subia tão alarmante,
que o leitor que lia aquilo (MELO NETO, 1994, p. 447-448)

Embora superior (por ser alfabetizado), o menino era “semelhante” aos traba-
lhadores analfabetos do eito (roça em que trabalhavam os escravos), e era repre-
endido pela família aristocrática por ler com (e para) os cassacos (trabalhadores
dos engenhos) os folhetos de cordel. Aos 10 anos de idade, esse menino voltou
para o Recife, onde jogou futebol no Santa Cruz Futebol Clube, tornou-se um
dos poucos fanáticos torcedores do América de Recife e cursou o primário no
Colégio Marista.

No livro Agrestes (1985), o poeta ateu (que em “Antiode” afirmara “Poesia, te


escrevo/ agora: fezes, as/ fezes vivas que és.” – MELO NETO, 1994, p. 101) recor-
dou com acidez o atraso moralista da educação religiosa marista, associando-o
à falta de higiene nos banheiros do colégio, no poema “As Latrinas do Colégio
Marista do Recife”:

Nos Colégios Marista (Recife), que nunca usavam nas latrinas.


se a ciência parou na Escolástica,
a malvada estrutura da carne Lavar, na teologia marista,
era ensinada em todas as aulas, é coisa da alma, o corpo é do diabo;
a castidade dispensa a higiene
com os vários creosotos morais do corpo, e de onde ir defecá-lo.
com que lavar gestos, olhos, língua;
à alma davam a água sanitária (MELO NETO, 1994, p. 524)

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João Cabral de Melo Neto

A partir dos 17 anos, João Cabral de Melo Neto empregou-se no serviço pú-
blico: entre 1937 e 1945, ocupou diversos cargos burocráticos em órgãos gover-
namentais, inicialmente no Recife e, a partir de 1943, no Rio de Janeiro, então
Capital Federal. Data desse período a sua iniciação literária.

No Recife, conheceu Willy Lewin (1908-1971), intelectual que, segundo Cabral,


teria tanta importância na sua formação intelectual quanto um curso universitário.

A partir de 1940, conheceu, no Rio de Janeiro, alguns dos mais importantes


poetas brasileiros da geração de 1930, como Murilo Mendes (1901-1975), Jorge
de Lima (1893-1953), Vinicius de Moraes (1913-1980) e Carlos Drummond de An-
drade (1902-1987).

Em 1942, publicou Pedra do Sono, seu primeiro livro de poemas, de nítida


influência surrealista, mas já apresentando – como percebeu o crítico Antonio
Candido, em resenha da época – um rigor construtivo herdado do Cubismo.

Assim como esse primeiro, o seu segundo livro – O Engenheiro (1945) –


também foi dedicado a Drummond. Em carta datada de 29 de setembro de
1943, João Cabral expõe a Carlos Drummond seus sentimentos em relação ao
serviço burocrático. Este poema, que não trazia título, ficou inédito por 53 anos,
até ser publicado recentemente:

Difícil ser funcionário Que nunca bebeu álcool.


Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos, E os arquivos, Carlos,
Pedindo conselho. As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Não é lá fora o dia Os tamanhos de meu corpo.
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas Não me sinto correto
E outros não-fazeres. De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
É a dor das coisas, Em forma de lembrança.
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo Não encontro a palavra
Assovios, versos, flores. Que diga a esses móveis,
Se os pudesse encarar...
Eu nunca suspeitara Fazer seu nojo meu...
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras Carlos, dessa náusea
Funcionárias, sem amor. Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Carlos, há uma máquina Pedindo conselho.
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta (MELO NETO, 1996, p. 60-61)

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Modernismo na Literatura Brasileira

Manuscrito em papel timbrado do Departamento Administrativo do Serviço


Público (Dasp), órgão da Presidência da República em que trabalhava o poeta
pernambucano, o poema deixa clara a influência de Drummond, autor de “A flor
e a náusea” e também funcionário público, sobre o jovem João Cabral. Além de
lhe ter dedicado seus dois primeiros livros, João Cabral de Melo Neto também
publicou, na Revista do Brasil, em 1943, a peça em prosa poética Os Três Mal-
-Amados, até hoje não encenada, que toma como mote o conhecido poema
“Quadrilha”, de Drummond:
“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria/ que amava Joaquim que amava
Lili/ que não amava ninguém./ João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,/
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,/ Joaquim suicidou-se e Lili casou com J.
Pinto Fernandes/ que não tinha entrado na história.”

Os anos de 1945 e 1946 serão decisivos para o poeta e para o homem. Em


1945, sob grande influência do poeta e engenheiro pernambucano Joaquim
Cardozo (1897-1978), João Cabral publicou O Engenheiro, livro em que apresen-
ta os princípios da poesia do rigor, da clareza e da objetividade que marcariam
toda a sua obra. Passaria, então, a ser conhecido como o “poeta-engenheiro”,
embora estivesse longe de abraçar tal profissão, e foi influenciado pelas ideias
do arquiteto Le Corbusier (1887-1965), cujas palavras relacionadas à arquitetura
(machine à émouvoir – “máquina de comover”) estampou como epígrafe de O
Engenheiro. Como bem lembrou João Alexandre Barbosa (1975, p. 42), a expres-
são machine à émouvoir é correlata da definição de poesia dada por Paul Valéry
(1871-1945): machine du language (máquina da linguagem).

A partir dessa época, João Cabral de Melo Neto buscou uma poesia que não
deixa de emocionar ou revelar o sonho, mas o faz com o equilíbrio e o rigor ma-
temático e construtivo da engenharia:

A luz, o sol, o ar livre O lápis, o esquadro, o papel;


envolvem o sonho do engenheiro. o desenho, o projeto, o número:
O engenheiro sonha coisas claras: o engenheiro pensa o mundo justo,
superfícies, tênis, um copo de água. mundo que nenhum véu encobre.

A produção de João Cabral é uma poesia que nenhum véu encobre, uma poesia
das coisas concretas, do substantivo, que o poeta vai perseguir a partir de então,
tornando-se o mais rigoroso e exigente dos poetas da nossa literatura.

No final de 1945, João Cabral foi aprovado em concurso para a carreira diplo-
mática. No ano de 1946, trabalhou no Ministério das Relações Exteriores, casou-se

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João Cabral de Melo Neto

com Stella Maria Barbosa de Oliveira e teve Rodrigo, o primeiro dos seus cinco
filhos. E em 1947 começou a perambular pelo mundo, ocupando diversos postos
na carreira diplomática.

De início, serviu em Barcelona, onde conheceu o pintor Joan Miró (1893-1983,


sobre o qual escreveu um dos seus raros ensaios críticos) e montou uma tipogra-
fia artesanal, chamada O Livro Inconsútil, por meio da qual publicou vários livros
de poetas brasileiros (como Manuel Bandeira), espanhóis, e também seus livros
Psicologia da Composição (1947) e O Cão sem Plumas (1950).

Psicologia da Composição – que, segundo João Cabral, é um “livro teórico” –


dirige-se inteiramente para a metalinguagem, enquanto O Cão sem Plumas já
prenuncia o olhar sobre sua Recife natal, em especial o rio Capibaribe, que corta
a cidade.

Em 1950, foi removido para Londres, onde ficou até 1952, quando foi afasta-
do da diplomacia, acusado de subversão e comunismo. Retornou ao Brasil para
responder ao processo. Absolvido, permaneceu no país até 1956.

Durante esses anos de “exílio interno”, Cabral acrescentou à sua poética um


componente novo: a preocupação social. Em poemas mais “comunicativos”, mais
“fáceis”, como “O rio”, escrito em 1953 e vencedor do Prêmio do IV Centenário de
São Paulo (1954) e “Morte e vida severina”, escrito em 1954-1955 e publicado na
coletânea Duas Águas (1956), João Cabral de Melo Neto apresenta uma poesia
mais narrativa, popular e voltada para os problemas sociais do Nordeste, mais
especificamente de seu estado natal, Pernambuco.

Retornando à ativa no exterior em 1956, teve uma brilhante carreira diplo-


mática, servindo como cônsul-geral ou embaixador do Brasil em diversos locais,
como Marselha, Genebra, Berna, Dacar, Quito, Honduras, Porto etc. Aposentou-
-se como embaixador em 1990, mesmo ano em que recebeu o Prêmio Luís de
Camões – a maior premiação literária da língua portuguesa.

De todos os países em que João Cabral trabalhou, certamente aquele que


deixou influências mais profundas na sua poesia foi a Espanha. Servindo diver-
sas vezes em Barcelona, apaixonou-se pela poesia espanhola e catalã. Mas foi
a cidade de Sevilha, na Andaluzia, onde também morou mais de uma vez, que
deixou marcas profundas no poeta recifense. No poema “Autocrítica”, de A Escola
das Facas (1980), o poeta revela seu débito à cidade espanhola, apontando-a
como corresponsável, junto com Pernambuco, por sua “inspiração” poética:

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Modernismo na Literatura Brasileira

Só duas coisas conseguiram e deu-lhe a outra, fêmea e viva,


(des)feri-lo até a poesia: desafio demente: em verso
o Pernambuco de onde veio dar a ver Sertão e Sevilha.
e o aonde foi, a Andaluzia.
Um, o vacinou do falar rico (MELO NETO, 1994, p. 456)

Em livros como Dois Parlamentos (1960), Quaderna (1960), Serial (1961), A Edu-
cação pela Pedra (1966), Museu de Tudo (1975), A Escola das Facas (1980), Auto do
Frade (1984), Agrestes (1985), Crime na Calle Relator (1987), Sevilha Andando (1990)
e Andando Sevilha (1994), o poeta foi abordando os temas mais diversos, como a
própria poesia, a pintura, o futebol, suas memórias, a morte, a memória do Recife
na morte de Frei Caneca, suas viagens, a sensualidade das sevilhanas, o sertão etc.
Sempre tendo a feminina e gentil Espanha – Sevilha à frente – e o masculino e
árido Pernambuco para dar o tom na poesia rigorosa, consistente e ímpar que o
“poeta-engenheiro” veio construindo da década de 1940 até sua morte, em 1999.

O rigor das coisas


A metalinguagem é um dos elementos mais importantes na poética de João
Cabral de Melo Neto. Poucos poetas na literatura brasileira preocuparam-se
tanto em expor uma teoria da poesia por meio de sua obra. João Cabral insistia
em dizer, em numerosas entrevistas, que originalmente queria ser crítico literá-
rio, mas, julgando-se despreparado para tanto, começou a escrever poesia.

Para evitar uma poesia vaga, cuja ambiguidade se possa confundir com falta
de clareza, o poeta optou por uma poesia feita primordialmente pela articulação
de termos concretos, substantivos ou mesmo adjetivos e verbos “concretos”. Em
entrevista a Antonio Carlos Secchin, o poeta afirmou que
Sim, porque adjetivos e verbos admitem essa categoria. Por exemplo: o adjetivo sublime é
abstrato, como tristeza. Maçã é tão concreto quanto o adjetivo torto. A literatura espanhola
usa preponderantemente o concreto, e por isso me interessou. As literaturas primitivas me
interessam. Parece que a linguagem começou pelas palavras concretas. (SECCHIN, 1985, p. 306)

O poeta apresenta essa sua teoria da poesia no poema “Falar com coisas”, de
Agrestes (1985):

As coisas, por detrás de nós, comprar o que seja sem moeda:


exigem: falemos com elas, é sem fundos, falar com cheques,
mesmo quando nosso discurso em líquida, informe diarreia.
não consiga ser falar delas.
Dizem: falar sem coisas é (MELO NETO, 1994, p. 555)

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João Cabral de Melo Neto

Essa preocupação em evitar a “diarreia” poética aparece também no poema


“O ferrageiro de Carmona”, do livro Crime na Calle Relator (1987). Por meio do
relato de uma conversa com um ferrageiro (um comerciante de ferragens) da
cidade espanhola de Carmona, João Cabral expõe algumas das principais preo-
cupações de seu fazer poético – a contenção e, acima de tudo, o esforço que a
poesia requer:
Um ferrageiro de Carmona Conhece a Giralda em Sevilha?
que me informava de um balcão: De certo subiu lá em cima.
“Aquilo? É de ferro fundido, Reparou nas flores de ferro
foi a forma que fez, não a mão. dos quatro jarros das esquinas?

Só trabalho em ferro forjado Pois aquilo é ferro forjado.


que é quando se trabalha ferro; Flores criadas em outra língua.
então, corpo a corpo com ele, Nada têm das flores de forma
domo-o, dobro-o, até o onde quero. moldadas pelas das campinas.

O ferro fundido é sem luta, Dou-lhe aqui humilde receita,


é só derramá-lo na forma. ao senhor que dizem ser poeta:
Não há nele a queda-de-braço o ferro não deve fundir-se
e o cara a cara de uma forja. nem deve a voz ter diarreia.

Existe grande diferença Forjar: domar o ferro à força,


do ferro forjado ao fundido; não até uma flor já sabida,
é uma distância tão enorme mas ao que pode até ser flor
que não pode medir-se a gritos. se flor parece a quem o diga.”

(MELO NETO, 1994, p. 595-596)

Podemos ler o conselho dado pelo ferrageiro ao poeta como uma profissão
de fé do próprio João Cabral de Melo Neto. Trabalhar com o ferro forjado é criar
e enfrentar dificuldades no fazer artístico. Para João Cabral, o poema deve ser
sempre trabalhado com esforço e suor, deve surgir como fruto do trabalho in-
tenso e não de uma inspiração fugaz e enganadora, uma facilidade.

Nesse sentido, o autor de Morte e Vida Severina procura sempre se utilizar


tanto da métrica (com maior frequência o verso octossílabo) quanto da rima
(principalmente a rima toante, apenas entre vogais) para impor a si próprio uma
disciplina rigorosa por meio da dificuldade. Deixemos que o poeta explique esse
processo:
Eu acho que o verso livre já foi longe demais, há uma necessidade de se voltar a uma
certa disciplina. [...] Em primeiro lugar, eu procuro escrever com o máximo de consciência,
de cerebralismo, o nome que vocês quiserem dar. Muito bem, então eu procuro me criar
dificuldades. Você metrificar, sobretudo para um sujeito que não tem ouvido como eu, é uma
tarefa bastante difícil. Você, no Brasil, preponderantemente, ou escreve no verso de sete sílabas,
que é o verso popular tradicional ibérico, ou então escreve em decassílabos, que é o negócio

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Modernismo na Literatura Brasileira

de Camões. Repare Manuel Bandeira ou Carlos Drummond, todos eles caíam no decassílabo.
Vinícius foi um dos poucos que fez a ficção dele de intimidade que não é em decassílabo. De
forma que você vê que a partir de Cão sem Plumas, que é um livro que eu escrevi aos 30 anos,
praticamente eu não escrevi mais verso livre. O Rio, que aparentemente é verso livre, eu mostro
a vocês aqui qual é a metrificação dele. Toda a minha poesia é metrificada. É o negócio que
Frost diz: escrever em verso livre é como jogar tênis sem rede. De forma que eu procuro me
criar dificuldades. Eu tenho alguns poemas em sete sílabas. Esse é o verso que é fácil para nós.
De forma que eu vou usar o verso de oito sílabas, tenho a impressão de que a maioria dos meus
versos é escrito em oito sílabas. No Brasil, em geral, quando se usa o verso de oito sílabas, se
usa sempre com a cesura na mesma sílaba, de forma que a coisa fica cantante. Se você usar o
verso de oito sílabas sem uma obrigação de uma cesura interna, você então dá uma aparência
de que está escrevendo em verso livre e ao mesmo tempo você se cria uma dificuldade a
vencer, que é uma coisa de que eu preciso. Agora a rima. Eu sou um sujeito estragado pelo que
me davam no colégio para ler. Eu acho a rima o troço mais chato do mundo, e o decassílabo um
negócio sinistro. De forma que eu procuro escrever um tipo de verso que pareça verso livre,
mas que me dá uma grande dificuldade para escrever. Claro, um verso metrificado pelo meu
ouvido. Talvez pelo fato de eu não ter ouvido, eu pense que estou escrevendo rigorosamente
metrificado e na verdade estou escrevendo em verso livre sem saber. Muitas vezes eu uso a
rima toante, e o espanhol, por exemplo, sente imediatamente a rima toante. Eu uso essas duas
coisas porque o verso de oito sílabas que eu uso com uma acentuação irregular interna dá a
impressão de prosa. E a rima toante, como eu sei que ela não soa no ouvido do brasileiro, dá a
impressão de que o poema não é rimado. (MELO NETO, 1989, p. 17-18)

No trecho acima, João Cabral se refere ao fato de “não ter ouvido”, ou seja, de
apresentar uma inaptidão para a música. Chegou mesmo a afirmar diversas vezes
que não gostava de música ou mesmo de ouvir palestras ou leituras de poemas.
O fragmento mostra, no entanto, como, por meio do esforço consciente, procura
conferir uma musicalidade sutil e refinada à sua poesia. Essa musicalidade ímpar,
tão presente em Morte e Vida Severina, rendeu-lhe de um dos maiores compo-
sitores de nossa música popular (Caetano Veloso, na canção “Outro Retrato”, do
disco Estrangeiro, 1989), a seguinte homenagem: “Minha música vem da música
da poesia de um poeta João/ que não gosta de música.”

As duas águas
Outra faceta importante da poética de João Cabral de Melo Neto é a divisão
que fez para sua obra quando da publicação da coletânea Duas Águas: poemas
reunidos (1956), com todos os seus poemas até aquele momento.

 Aos livros Pedra do Sono, O Engenheiro, Psicologia da Composição e O Cão


sem Plumas, foram adicionados os inéditos Paisagens com Figuras e Uma
Faca Só Lâmina para formar a “primeira água” do livro.

 À peça Os Três Mal-Amados e ao monólogo O Rio, foi acrescentado o inédi-


to Morte e Vida Severina, formando, assim, a “segunda água” do livro.

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João Cabral de Melo Neto

O termo água se refere às “superfícies planas que constituem um telhado;


água de telhado: telhado de uma água” e aponta para uma divisão na obra de
João Cabral entre uma forma de poesia mais rigorosa, mais cerebral e de público
mais intelectualizado e restrito (“primeira água”) e uma forma poética voltada
para um auditório mais amplo, uma poesia mais relaxada, mais popular, mais
oral e dramática (“segunda água”).

Dois anos antes, em 1954, João Cabral de Melo Neto havia exposto uma tese
no Congresso Internacional de Escritores, em São Paulo, intitulada “Da função
moderna da poesia”, em que aborda exatamente a questão da incomunicabilida-
de reinante na poesia contemporânea, a dificuldade dos poetas modernos em
atingir um público mais amplo para seus textos. Vejamos:
A poesia moderna – captação da realidade objetiva moderna e dos estados de espírito do
homem moderno – continuou a ser servida em invólucros perfeitamente anacrônicos e, em
geral imprestáveis, nas novas condições que se impuseram.
Mas todo esse progresso realizado limitou-se aos materiais do poema: essas pesquisas
limitaram-se a multiplicar os recursos de que se pode valer um poeta para registrar sua
expressão pessoal; limitaram-se àquela primeira metade do ato de escrever, no decorrer
da qual o poeta luta por dizer com precisão o que deseja; isto é, tiveram apenas em conta
consumar a expressão, sem cuidar da sua contraparte orgânica – a comunicação. [...]
O caso do rádio é típico. O poeta moderno ficou inteiramente indiferente a esse poderoso meio
de difusão. À exceção de um ou outro exemplo de poema escrito para ser irradiado, levando
em conta as limitações e explorando as potencialidades do novo meio de comunicação,
as relações da poesia moderna com o rádio se limitam à leitura episódica de obras escritas
originariamente para serem lidas em livro, com absoluto insucesso, sempre, pelo muito que
diverge a palavra transmitida pela audição da palavra transmitida pela visão. (O que acontece
com o rádio, ocorre também com o cinema e a televisão e as audiências em geral).
Mas os poetas não desprezaram apenas os novos meios de comunicação postos a seu dispor
pela técnica moderna. Também não souberam adaptar às condições da vida moderna os
gêneros capazes de serem aproveitados. Deixaram-nos cair em desuso (a poesia narrativa, por
exemplo, ou as aucas catalãs, antepassadas das histórias de quadrinhos), ou deixaram que se
degradassem em gêneros não poéticos, a exemplo da anedota moderna, herdeira da fábula.
Ou expulsaram-nos da categoria de boa literatura, como aconteceu com as letras das canções
populares ou com a poesia satírica.
No plano dos tipos problemáticos, tudo o que os poetas contemporâneos obtiveram foi o
chamado “poema” moderno, esse híbrido de monólogo interior e de discurso de praça,
de diário íntimo e de declaração de princípios, de balbucio e de hermenêutica filosófica,
monotonamente linear e sem estrutura discursiva ou desenvolvimento melódico, escrito quase
sempre na primeira pessoa e usado indiferentemente para qualquer espécie de mensagem
que o seu autor pretenda enviar. Mas esse tipo de poema não foi obtido através de nenhuma
consideração acerca de sua possível função social de comunicação. O poeta contemporâneo
chegou a ele passivamente, por inércia, simplesmente por não ter cogitado do assunto. Esse
tipo de poema é a própria ausência de construção e organização, é o simples acúmulo de
material poético, rico, é verdade, em seu tratamento do verso, da imagem e da palavra, mas
atirado desordenadamente numa caixa de depósito. (MELO NETO, 1994, p. 765-766)

Duas são, portanto, as saídas para o poeta: fazer um poema moderno que não
seja apenas a própria ausência de construção e organização, o simples acúmulo de
material poético, e buscar novas formas de comunicação com o público leitor.

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Modernismo na Literatura Brasileira

Buscar, portanto, a comunicação da segunda água sem, no entanto, abandonar o


rigor construtivo da primeira. Foi o crítico Benedito Nunes quem melhor sintetizou
as relações das duas águas cabralinas com sua preocupação com a comunicação:
É precisamente sob o aspecto de comunicação, problema que tanto preocupa João Cabral, [...]
que a diferença entre as “duas águas” pode ser estabelecida. Não é a quantidade de informação
nem as qualidades formativas da poesia que estão em jogo na “segunda água”, mas o aumento
do volume e da área de sua comunicabilidade. Temos assim, em vez de duas espécies de
poesias, dois tipos de dicção que se distinguem em função do destinatário e da modalidade
de consumo do texto.
Quanto mais construída for a poesia, mais dependente se torna, como na “primeira água”, do
mecanismo da linguagem escrita, e a sua comunicação, tendo por base a realidade factual do
texto, solicita a leitura silenciosa e múltipla de um receptor individual.
Quanto menor for o grau de construção, maior será a altura da dicção poética, que se sobrepõe
à linguagem escrita, recebendo o texto, nesse caso, que é o da “segunda água”, um suprimento
de oralidade, que avoluma o seu poder de comunicação e facilita a sua difusão, de modo a
alcançar um receptor coletivo e a ser consumido coletivamente. (NUNES, 1971, p. 74)

Em 1966, João Cabral de Melo Neto reuniu os poemas da sua “segunda água”,
acrescidos de outros, na coletânea Morte e Vida Severina e Outros Poemas em Voz
Alta. Posteriormente, a esta coletânea seria acrescentado o “Auto do frade”, poema
dramático publicado em 1984. A “água” da comunicabilidade com o público desá-
gua no “poema em voz alta” que tende irreversivelmente para a poesia dramática.

João Cabral de Melo Neto encontrou no teatro uma ponte para sua poesia
estabelecer contato com um público que, sem o suporte da ação dramática, per-
maneceria distante, intocado. Foi exatamente por meio de Morte e Vida Severina
que o poeta pernambucano encontrou um veículo capaz de superar o “abismo
que”, segundo ele, “separa hoje em dia o poeta de seu leitor”.

Morte e Vida Severina


Deixemos que João Cabral de Melo Neto nos explique por que escreveu sua
obra mais conhecida:
Em 1952 alguns idiotas denunciaram a mim e a outros diplomatas como militantes comunistas.
Fomos afastados do serviço diplomático e eu voltei ao Recife por quase dois anos. Fui trabalhar
no escritório do meu pai e tentar sustentar a família enquanto processava o governo. Aí
cruzei com Maria Clara Machado, filha do meu bom amigo mineiro Aníbal Machado. Ela me
encomendou um auto de Natal para encenar. Escrevi Morte e Vida Severina. Ela leu e devolveu.
Disse que não servia. Como o poema era grande e José Olympio queria lançar minha primeira
antologia, cortei as marcações para o teatro e incluí Morte e Vida Severina no livro, para dar
volume. Foi uma surpresa quando encontrei com Vinicius de Moraes no Rio e ele me disse:
“Joãozinho, estou maravilhado com Morte e Vida Severina”. Aí eu não entendi nada. “Vinicius,
eu não escrevi Morte e Vida Severina para intelectuais como você”, respondi. “Escrevi para os

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João Cabral de Melo Neto

sujeitos analfabetos que ouvem cordel na feira de Santo Amaro, no Recife.” O poema é simples,
retrata a típica realidade do pernambucano que foge da seca em busca do Recife e termina
morando numa favela ribeirinha. Foi um sucesso mundial. Isso me orgulha, mas também me
surpreende porque Morte e Vida Severina passou a ser coisa de eruditos. (MELO NETO, 1991, p.
17-18)

Morte e Vida Severina: auto de natal pernambucano foi escrito em 1954-1955,


por encomenda de Maria Clara Machado, então diretora do grupo O Tablado,
que não pôde levar a peça ao palco. Publicado inicialmente no livro Duas Águas
(1956), o texto foi finalmente montado pelo grupo do Teatro da Universidade
Católica de São Paulo (Tuca), com música de Chico Buarque de Holanda, dirigido
por Roberto Freire e Silnei Siqueira, e obteve sucesso mundial durante turnê em
1966. A partir dessa data, passou a integrar o volume Poemas em Voz Alta, que
reúne a parcela mais comunicativa da obra do “poeta-engenheiro”.

Um auto de Natal pernambucano: influências


O subtítulo do livro revela seu débito para com os autos sacramentais da tra-
dição ibérica medieval, dos quais herda o teor poético e alegórico, com uma
tendência à justaposição das cenas e à sátira dos costumes. Além de se inspirar
na antiga poesia narrativa ibérica (os romances), João Cabral reelabora parodica-
mente, nas cenas do presépio final, a poesia do folclore pernambucano. Outra
clara influência na concepção do livro é o Regionalismo de 1930, com sua preo-
cupação realista de observação, crítica e denúncia social que podemos encon-
trar em autores como José Américo de Almeida (1887-1980), Rachel de Queiroz
e, principalmente, Graciliano Ramos (1892-1953).

O enredo: da morte à vida severina


A inversão do sintagma “vida e morte” no título da peça demonstra o percurso
do retirante Severino: ele parte da morte no sertão para encontrar a vida no Recife.
Severino acompanha o rio Capibaribe e só vai encontrando pobreza e morte pelo
caminho. Chegando ao Recife, foz do rio, isso se repete. Desesperançado, ele
pensa em cometer suicídio atirando-se ao rio, quando testemunha o nascimento
de uma criança que devolve a esperança à vida severina. Tanto morte quanto vida
são severinas, adjetivo neológico formado a partir do nome próprio, pois ambas se
aplicam a todos os severinos quase anônimos do sertão nordestino.

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Modernismo na Literatura Brasileira

Estrutura geral
Morte e Vida Severina se divide em 18 cenas ou fragmentos poéticos, todos
precedidos por um título explicativo de seu conteúdo, praticamente resumos
do que encontramos no poema em si. Podemos separá-los em dois grandes
grupos.

 As primeiras 12 cenas descrevem a peregrinação de Severino. Trata-se do


“Caminho” ou “Fuga da morte”. Nessa parte, o poeta habilmente alterna
monólogos de Severino e diálogos que ele trava ou escuta pelo caminho.

 As últimas seis cenas apresentam “O presépio” ou o “Encontro com a vida”,


em que é descrito o nascimento do filho de José, mestre carpina (carpin-
teiro), em clara alusão ao nascimento de Jesus.

Texto complementar

O presépio ou o encontro com a vida


(BARBOSA, 1989, p. 56-61)

As cenas finais de Morte e Vida Severina apresentam um presépio dentro


da peça. Todas elas foram extraídas, quase literalmente, do folclore pernam-
bucano, mais especificamente do livro de Pereira da Costa, Folk-lore Pernam-
bucano: subsídios para a história da poesia popular em Pernambuco, publica-
do originalmente em 1908.

Uma mulher anuncia ao mestre carpina que seu filho nascera:

Compadre José, compadre, não sabeis que vosso filho


que na relva estais deitado. saltou para dentro da vida?
conversais e não sabeis Saltou para dentro da vida
que vosso filho é chegado? ao dar seu primeiro grito;
Estais aí conversando e estais aí conversando;
em vossa prosa entretida: pois sabeis que ele é nascido.

Trata-se de uma resposta a Severino, que indagara sobre saltar da vida


para a morte. Aqui se dá o contrário, a criança salta para a vida.

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João Cabral de Melo Neto

Em Pereira da Costa, encontramos a seguinte estrofe na “Loa do anjo


anunciando às pastoras o nascimento do messias”:

Pastoras, belas pastoras,


Que na relva estais deitadas
Descansais, e não sabeis,
Que a luz do céu é chegada?

O fragmento seguinte, como todo o presépio, é inspirado no material re-


colhido por Pereira da Costa, que registrou nas “Jornadas”:

Todo o céu e terra


Vos cantem louvor,
É Menino Deus,
Nosso redentor.

João Cabral, ironicamente, adapta a fala dos vizinhos que se aproximam


da casa do mestre carpina para:

– Todo o céu e a terra – Cada casebre se torna


lhe cantam louvor no mocambo modelar
e cada casa se torna que tanto celebram os
num mocambo sedutor. sociólogos do lugar.

Certamente o poeta se refere aqui ao famoso ensaio do sociólogo recifen-


se Gilberto Freyre, intitulado Sobrados e Mocambos (1936). A ironia está em
tornar sedutores os mocambos (habitações miseráveis) ao celebrá-los como
de certa forma o fez Gilberto Freyre.

As pessoas trazem presentes para o recém-nascido. Em Pereira da Costa,


temos as “Ofertas das pastoras”, em que se lê:

Minha pobreza tal é


Que uma oferta não achei!
Na aldeia não encontrei
Cousa que fizesse fé;

Em Morte e Vida Severina, temos a reelaboração:

– Minha pobreza tal é pescados por esses mangues;


que não trago presente grande: mamando leite de lama
trago para a mãe caranguejos conservará nosso sangue.

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Modernismo na Literatura Brasileira

João Cabral adapta o original à situação de vida das populações ribei-


rinhas ao Capibaribe, tornando concretos e locais os presentes oferecidos.
Nesta cena enumera uma série de localidades – cidades pernambucanas e
bairros de Recife – de onde se originariam os presentes:

– Eis ostras chegadas agora


apanhadas no cais da Aurora.
– Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.
– Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.
– Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.
– Siris apanhados no lamaçal
que há no avesso da rua Imperial.
– Mangas compradas nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.
– Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte.

João Cabral de Melo Neto, jogando com os nomes tão sugestivos – como
já o notara Manuel Bandeira em “Evocação do Recife” – das ruas e bairros de
Recife, cria um jogo quase surrealista. Na verdade, para quem não sabe que
estes são nomes de bairros, a passagem é completamente surrealista.

Duas ciganas preveem o futuro da criança. Enquanto, em Pereira da Costa,


uma delas era pessimista e a outra otimista, em Morte e Vida Severina a varia-
ção das previsões se dá pelo fato de a primeira cigana prognosticar um futuro
enlameado, terminando como pescador de siri e camarão, e a segunda preco-
niza-o como operário, mudando-se das margens do Capibaribe para um mo-
cambo melhor nos mangues do Beberibe, o outro rio que corta Recife:

Não o vejo dentro dos mangues, E mais: para que não pensem
vejo-o dentro de uma fábrica: que em sua vida tudo é triste,
se está negro não é lama, vejo coisa que o trabalho
é graxa de sua máquina, talvez até lhe conquiste:
coisa mais limpa que a lama que é mudar-se destes mangues
do pescador de maré daqui do Capibaribe
que vemos aqui, vestido para um mocambo melhor
de lama da cara ao pé. nos mangues do Beberibe.

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João Cabral de Melo Neto

A última cena do presépio apresenta todos os visitantes do recém-nasci-


do elogiando, ainda seguindo Pereira da Costa, a beleza da criança. Trata-se
de uma beleza diferente: pálida, franzina, fraca e magra, mas é beleza que é
a afirmação da vida, o brotar da novidade:

– De sua formosura – Belo como a coisa nova


deixai-me que diga: na prateleira até então vazia.
é tão belo como um sim – Como qualquer coisa nova
numa sala negativa. inaugurando o seu dia.
[...] – Ou como o caderno novo
– Belo porque é uma porta quando a gente o principia.
abrindo-se em mais saídas.
[...] – E belo porque com o novo
– Belo porque tem do novo todo o velho contagia.
a surpresa e a alegria.

Terminado o presépio, o mestre carpina está pronto para responder à per-


gunta de Severino:

– Severino retirante, com sua presença viva.


deixe agora que lhe diga: E não há melhor resposta
eu não sei bem a resposta que o espetáculo da vida:
da pergunta que fazia, vê-la desfiar seu fio,
se não vale mais saltar que também se chama vida,
fora da ponte e da vida; ver a fábrica que ela mesma,
nem conheço essa resposta, teimosamente, se fabrica,
se quer mesmo que lhe diga; vê-la brotar como há pouco
é difícil defender, em nova vida explodida;
só com palavras, a vida, mesmo quando é assim pequena
ainda mais quando ela é a explosão, como a ocorrida;
esta que vê, severina; mesmo quando é uma explosão
mas se responder não pude como a de há pouco, franzina;
à pergunta que fazia, mesmo quando é a explosão
ela, a vida, respondeu de uma vida severina.

Curiosamente, a peça se encerra sem qualquer resposta de Severino. Em al-


gumas montagens, os encenadores colocaram a última estrofe na boca de Seve-
rino e não, como está claro no texto, na do mestre carpina. Esse procedimento
vem apenas reforçar a mensagem final da peça: a de que mesmo a vida quase
morte severina, aparentemente sem saída ou esperança, pode e deve ser vivida.

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Modernismo na Literatura Brasileira

Estudos literários
1. Leia atentamente o fragmento abaixo e depois responda o que se pede.

O retirante explica
ao leitor quem é a que vai (fragmento)
(MELO NETO, 1994, p. 171)

O meu nome é Severino, senhor desta sesmaria.


não tenho outro de pia. Como então dizer quem fala
Como há muitos Severinos, ora a Vossas Senhorias?
que é santo de romaria, Vejamos: é o Severino
deram então de me chamar da Maria do Zacarias,
Severino de Maria; lá da serra da Costela,
como há muitos Severinos limites da Paraíba.
com mães chamadas Maria, Mas isso ainda diz pouco:
fiquei sendo o da Maria se ao menos mais cinco havia
do finado Zacarias. com nome de Severino
Mas isso ainda diz pouco: filhos de tantas Marias
há muitos na freguesia, mulheres de outros tantos,
por causa de um coronel já finados, Zacarias,
que se chamou Zacarias vivendo na mesma serra
e que foi o mais antigo magra e ossuda em que eu vivia.

Aponte o tema central dos 30 primeiros versos da peça. Como estes versos
justificam o neologismo severina do título da obra?

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João Cabral de Melo Neto

2. Leia atentamente o fragmento abaixo e depois responda o que se pede.

Assiste ao enterro de um trabalhador


de eito e ouve o que dizem do morto os amigos
que o levaram ao cemitério (fragmentos)
(MELO NETO, 1994, p. 183-185)

– Essa cova em que estás, mas a terra dada


com palmos medida, não se abre a boca.
é a conta menor (...)
que tiraste em vida. – Será de terra
– É de bom tamanho, tua derradeira camisa:
nem largo nem fundo, te veste, como nunca em vida.
é a parte que te cabe – Será de terra
deste latifúndio. e tua melhor camisa:
– Não é cova grande, te veste e ninguém cobiça.
é cova medida, – Terás de terra
é a terra que querias completo agora o teu fato:
ver dividida. e pela primeira vez, sapato.
– É uma cova grande – Como és homem,
para teu pouco defunto, a terra te dará chapéu:
mas estarás mais ancho fosses mulher, xale ou véu.
que estavas no mundo. – Tua roupa melhor
– É uma cova grande será de terra e não de fazenda:
para teu defunto parco, não se rasga nem se remenda.
porém mais que no mundo – Tua roupa melhor
te sentirás largo. e te ficará bem cingida:
– É uma cova grande como roupa feita à medida.
para tua carne pouca,

a) A ironia (acentuada por uma grande dose de humor negro) domina essa
cena da peça. Por que poderíamos dizer que a ironia predomina na pri-
meira estrofe?

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Modernismo na Literatura Brasileira

b) Comente a metáfora central da segunda estrofe.

3. Leia atentamente o fragmento abaixo e depois responda o que se pede.

Falam os vizinhos, amigos, pessoas


que vieram com presentes etc. (fragmento)
(MELO NETO, 1994, p. 199-201)

– De sua formosura numa sala negativa.


deixai-me que diga: – É tão belo como a soca
é belo como o coqueiro que o canavial multiplica.
que vence a areia marinha. – Belo porque é uma porta
– De sua formosura abrindo-se em mais saídas.
deixai-me que diga: – Belo como a última onda
belo como o avelós que o fim do mar sempre adia.
contra o Agreste de cinza. – É tão belo como as ondas
– De sua formosura em sua adição infinita.
deixai-me que diga:
belo como a palmatória – Belo porque tem do novo
na caatinga sem saliva. a surpresa e a alegria.
– De sua formosura – Belo como a coisa nova
deixai-me que diga: na prateleira até então vazia.
é tão belo como um sim – Como qualquer coisa nova

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João Cabral de Melo Neto

inaugurando o seu dia. – Belo porque corrompe


– Ou como o caderno novo com sangue novo a anemia.
quando a gente o principia. – Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
– E belo porque com o novo – Com oásis, o deserto,
todo o velho contagia. com ventos, a calmaria.

A beleza do recém-nascido é traduzida, neste fragmento, por meio da reitera-


ção de uma figura de linguagem.

a) Que figura é esta?

b) O que revela sobre a beleza da criança?

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Modernismo na Literatura Brasileira

4. Leia atentamente o fragmento abaixo e depois responda o que se pede.

O carpina fala com o retirante


que esteve de fora, sem tomar parte em nada
(MELO NETO, 1994, p. 201-202)

– Severino retirante,
deixe agora que lhe diga: E não há melhor resposta
eu não sei bem a resposta que o espetáculo da vida:
da pergunta que fazia, vê-la desfiar seu fio,
se não vale mais saltar que também se chama vida,
fora da ponte e da vida; ver a fábrica que ela mesma,
nem conheço essa resposta, teimosamente, se fabrica,
se quer mesmo que lhe diga; vê-la brotar como há pouco
é difícil defender, em nova vida explodida;
só com palavras, a vida, mesmo quando é assim pequena
ainda mais quando ela é a explosão, como a ocorrida;
esta que vê, severina; mesmo quando é uma explosão
mas se responder não pude como a de há pouco, franzina;
à pergunta que fazia, mesmo quando é a explosão
ela, a vida, respondeu de uma vida severina.
com sua presença viva.

Os textos “Falam os vizinhos...” e “O carpina fala com o retirante...” são as últi-


mas falas da peça e claramente se opõem aos textos “O retirante explica ao
leitor” e “Assiste ao enterro de um trabalhador de eito...”, do seu início. Pensan-
do nessa diferença, explique como o texto “O carpina fala com o retirante...”
justifica o título da peça.

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João Cabral de Melo Neto

5. Leia atentamente os fragmentos abaixo e depois responda o que se pede.

Buenadicha das ciganas


(CANTIGA POPULAR PERNAMBUCANA apud COSTA, 1974, p. 484-486)

Atenção, peço, Senhores


Para esta breve leitura, Primeiramente a meus olhos
E uma atenção piedosa Vejo com suma alegria,
A toda e qualquer criatura. Que sois com um grande
extremo
Deste menino formoso Querido de uma Maria.
Vindo de origem divina,
Em suas mãos pequeninas E prevenida ela um dia
Eu vou ler a sua sina. Pelo supremo Juiz,
Fugirá cedo convosco
Dai-me licença, Senhora, P’ra o mais remoto país.
Guiai o meu pensamento,
Para dizer o que sinto, E decorridos doze anos
Para falar com acento. De tão doce companhia,
Terá milhares de penas
Eterno rei desses céus, Sem lhe escapar um só dia.
Que dando ao mundo alegria,
Por prodígios só nasceu Enquanto andardes no mundo
Da Santa Virgem Maria. Sereis sempre perseguido,
Mas, pelos prodígios divinos,
Redentor da humanidade Jamais vós sereis vencido.
Nascido p’ra nosso guia,
Mudou o céu em presepe Um amigo que no rosto
Transformou a noite em dia. Certo dia vos beijar,
Às mãos cruéis da justiça,
Se a boa dita é a nossa, Ele vos há de entregar.
Quereis meu bem, que vos diga,
É a mesma que bem sabeis, Outro vos há de negar,
Mas permiti que prossiga. Em perguntas à porfia,
Respondendo que não sabe
Dai-me soberano infante Quem sois vós, minha alegria.
Dai-me esta linda mãozinha,
E vereis que uma cigana Não tereis vida mui larga,
A vossa sina adivinha. Pois com as mãos estendidas

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Modernismo na Literatura Brasileira

Atirarão numa cruz Lograreis a eterna vida.


Uns ingratos homicidas. Se porque digo a verdade
Mereço eu uma esmolinha,
E depois de redimirdes Dai-me só a vossa graça
A humanidade querida, E a todos desta lapinha.
Vencereis a própria morte,

Falam as duas ciganas


que haviam aparecido com os vizinhos
(MELO NETO, 1994, p. 198)

– Atenção peço, senhores, com os cachorros no lixo.


para esta breve leitura: Vejo-o, uns anos mais tarde,
somos ciganas do Egito, na ilha do Maruim,
lemos da sorte futura. vestido negro de lama,
Vou dizer todas as coisas voltar de pescar siris;
que desde já posso ver e vejo-o, ainda maior,
na vida desse menino pelo imenso lamarão
acabado de nascer: fazendo dos dedos iscas
aprenderá a engatinhar para pescar camarão.
por aí, com aratus,
aprenderá a caminhar – Atenção peço, senhores,
na lama, com goiamuns, também para minha leitura:
e a correr o ensinarão também venho dos Egitos,
os anfíbios caranguejos, vou completar a figura.
pelo que será anfíbio Outras coisas que estou vendo
como a gente daqui mesmo. é necessário que eu diga:
Cedo aprenderá a caçar: não ficará a pescar
primeiro, com as galinhas, de jereré toda a vida.
que é catando pelo chão Minha amiga se esqueceu
tudo o que cheira a comida; de dizer todas as linhas;
depois, aprenderá com não pensem que a vida dele
outras espécies de bichos: há de ser sempre daninha.
com os porcos nos monturos, Enxergo daqui a planura

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João Cabral de Melo Neto

que é a vida do homem de ofício, de lama da cara ao pé.


bem mais sadia que os mangues, E mais: para que não pensem
tenha embora precipícios. que em sua vida tudo é triste,
Não o vejo dentro dos mangues, vejo coisas que o trabalho
vejo-o dentro de uma fábrica: talvez até lhe conquiste:
se está negro não é lama, que é mudar-se destes mangues
é graxa de sua máquina, daqui do Capibaribe
coisa mais limpa que a lama para um mocambo melhor
do pescador de maré nos mangues do Beberibe.
que vemos aqui, vestido

É inegável e transparente a influência da “Buenadicha das ciganas”, da tra-


dição popular pernambucana, certamente anterior ao século XX, sobre “Falam
as duas ciganas”, a fala das ciganas no presépio de Morte e Vida Severina. João
Cabral mesmo já confessou que se inspirou no livro de Pereira da Costa, que
reúne esse material folclórico, para compor seu poema dramático.

a) Aponte as semelhanças entre os dois textos.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 233 16/2/2009 11:38:17


Modernismo na Literatura Brasileira

b) Indique as diferenças entre os dois textos em termos formais.

c) Indique as diferenças entre os conteúdos de um texto e outro.

d) Aponte as diferenças entre as profecias das duas ciganas de Morte e Vida


Severina.

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João Cabral de Melo Neto

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Modernismo na literatura brasileira.indb 236 16/2/2009 11:38:17


Poesia concreta

O grupo Noigandres
Tirando o nome de uma palavra misteriosa, utilizada pelo trovador pro-
vençal Arnaut Daniel (séc. XIII) e comentada por Ezra Pound (1885-1972)
no Canto XX dos seus Cantares, que posteriormente descobriram signifi-
car “antídoto do tédio”, três jovens paulistas, com pouco mais de 20 anos
de idade, formaram, em 1952, o grupo Noigandres, que acabaria por re-
volucionar a poesia mundial. Reagindo contra o formalismo academicista
da retrógrada Geração de 1945 e procurando recuperar o espírito perma-
nentemente revolucionário de 1922, Décio Pignatari e os irmãos Haroldo
e Augusto de Campos investigavam as possibilidades de uma poesia que
fosse além do verso e procurasse novas formas de expressão. E fizeram
isso ao mesmo tempo em que outros poucos jovens como o suíço Eugen
Gomringer também o faziam na Europa.

Demonstrando uma riqueza cultural descomunal que em nada ficava


devendo aos seus contemporâneos europeus ou americanos e, por isso
mesmo, livres da xenofobia covarde ou do complexo de inferioridade sub-
serviente – os dois opostos complementares que sempre marcaram (e
marcam) a maioria dos intelectuais e escritores brasileiros –, desde o início
Pignatari e os irmãos Campos se propuseram a realizar a proeza sonhada
pelo “antropófago” Oswald de Andrade de produzir, no Brasil, uma litera-
tura de teor, qualidade e importância universais.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 237 16/2/2009 11:38:17


Modernismo na Literatura Brasileira

No célebre ensaio Tradition and The Individual Talent (1917), T. S. Eliot (1888-1965)
já apontava que todo artista que se tornou definitivamente significativo teve de
encontrar meios de se inserir na tradição. Para tanto – logo descobriram os jovens
componentes do Noigandres –, é necessário conhecê-la a fundo, principalmente
para vislumbrar, dentro da própria tradição, formas de reestruturá-la, acrescentan-
do algo de novo, muitas vezes sintetizando e tornando conscientes (e mesmo pro-
gramáticos) processos frequentemente apenas esboçados e apontados por artistas
do passado. Assim, Pignatari e os irmãos Campos passaram a estudar com afinco
os momentos mais inventivos e radicais da produção poética nas diversas línguas
que dominavam ou que, na sua curiosidade inquieta, passaram a estudar. Acabaram
por sintetizar a essência de experiências que combinavam a palavra e a visualidade,
como as do poeta grego Símias de Rodes (séc. III a.C.), as dos chamados metaphysical
poets ingleses Robert Herrick (1596-1674) e George Herbert (1593-1633), assim como
seu contemporâneo Gregório de Matos (1623-1696), os calligrammes de Guillaume
Apollinaire (1880-1918), as experimentações tipográficas do Un Coup de Dés de
Stéphane Mallarmé (1842-1898) e dos poemas mais radicais de e. e. cummings
(1894-1962), ou mesmo, no Brasil, os poemas de Oswald de Andrade (1890-1954)
que já uniam palavra e grafismo.

Mesclaram ainda o estudo desses e de inúmeros outros poetas do passado à


observação atenta da arte mais inovadora produzida então no mundo: tanto por
artistas plásticos – como Theo van Doesburg (1883-1931) e Max Bill (1908-1994)
ou, no Brasil, pelo grupo Ruptura (que lançara o seu Manifesto exatamente em
1952) – quanto por músicos revolucionários como Anton Webern (1883-1945),
Arnold Schönberg (1874-1951) e Pierre Boulez (nascido em 1925). Os estudos de
Ernest Fenollosa (1853-1908) sobre os ideogramas1 chineses forneceram uma
formidável sustentação teórica para a defesa intransigente da concisão e a capa-
cidade de síntese na poesia, já então representada, no Brasil, por João Cabral de
Melo Neto (1920-1999).

A poesia concreta: rock’n’roll da poesia?


Assim, em 1953, Augusto de Campos, aos 22 anos de idade, compôs uma
série de poemas coloridos e dispostos de maneira original na página. Inspirados
na música de vanguarda de Anton Webern, os textos de Poetamenos podem ser
considerados os primeiros exemplos da poesia concreta.

1
Ideograma: símbolo não fonético que representa um objeto ou uma ideia; caráter composto da escrita chinesa obtido pela combinação de dois
ou mais outros caracteres representativos de palavras com sentido relacionado.

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Poesia concreta

(CAMPOS, 2001, p. 77)

No final de 1956, o grupo Noigandres organizou, com artistas plásticos e


outros poetas que aderem ao movimento, uma exposição em São Paulo, trans-
posta no início de 1957 para o Rio de Janeiro, em que a poesia concreta foi lan-
çada para o Brasil e para o mundo.

Começava então a polêmica recepção do movimento revolucionário, que já


dura cinco décadas. A revista O Cruzeiro, de março de 1957, trazia a manchete “O
rock’n’roll da poesia” sobre o surgimento do movimento. A ideia é que fosse uma
moda passageira e insignificante, “maluca” como a música que surgira poucos
anos antes nos Estados Unidos. Duplo engano. Nem o rock nem a poesia concre-
ta morreram. Nascendo na mesma época da bossa nova e do rock’n’roll, a poesia
concreta é o primeiro estilo literário a surgir, senão antes, ao menos ao mesmo
tempo no Brasil e no resto do mundo. Em uma literatura que sempre se viu atre-
lada às modas que vieram de fora, esse é um fenômeno único.

Mas nem por isso a admiração pela poesia concreta é unanimidade. Ainda hoje
o radicalismo da experimentação, como a destruição do verso, as experiências de
disposição original das palavras na página, a desintegração da própria palavra
ou a recusa à poesia discursiva assustam e afastam a mentalidade conservadora
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Modernismo na Literatura Brasileira

brasileira, gerando polêmicas acaloradas ou, pior ainda, uma estratégia de rasura
bastante evidente: no Brasil, muitos fingem que nada aconteceu, enquanto os
seus criadores são homenageados e celebrados nas mais prestigiosas universi-
dades dos Estados Unidos e da Europa. Até mesmo a infatigável busca das fontes
inspiradoras das suas propostas, realizada pelos três fundadores do movimento,
tem sido criticada. Alguns chegam a afirmar que isso comprova que nada fizeram
de original. Seria o mesmo que acusar um grande cientista, como Einstein – capaz
de sintetizar as ideias que estavam no ar, porém dispersas, no seu tempo –, de
mero repetidor.

O contexto
Quando aqueles três rapazes – Décio, Haroldo e Augusto – começaram a pu-
blicar a revista Noigandres e iniciaram um movimento de rearticulação de uma
série de ideias captadas em São Paulo e que estavam surgindo no mundo do
pós-guerra, São Paulo e o Brasil se colocaram, pela primeira e única vez, na van-
guarda da literatura em todo o mundo.

E quais eram as circunstâncias que tornaram possível, neste país do Terceiro


Mundo, que jovens de 21 a 25 anos conseguissem ler o que havia de mais novo,
interessante e avançado em toda a literatura do mundo na época?

Eles eram jovens extremamente cultos, capazes, que dominavam muitas lín-
guas e tinham uma grande vantagem – é importante ressaltar – em relação aos
europeus do pós-guerra, que naquele momento estavam em países que se re-
cuperavam dos efeitos do conflito. Vantagem, porque recebiam a informação da
Europa, mas não as suas atribulações: podiam ler coisas dos mais diversos locais;
tinham o acesso e a possibilidade de se desenvolver com a tranquilidade de que
os europeus não desfrutavam.

Nesse mesmo período, surgiram várias manifestações culturais muito impor-


tantes, por exemplo, nos Estados Unidos.

Em julho de 1951, um senhor chamado Albert James Freed ou Alan Freed


(1921-1965) iniciou um programa noturno de música negra intitulado The Moon-
dog Show em uma rádio “branca” de Cleveland, Ohio, e resolveu nomear as mú-
sicas tocadas de rock’n’roll. Havia então, tanto nos Estados Unidos quanto no
Brasil, uma riqueza econômica muito grande (pós-guerra), o acesso à informa-
ção de diversos pontos do mundo e, no Brasil, uma esperança de que o país se
transformaria e melhoraria em breve.
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Modernismo na literatura brasileira.indb 240 16/2/2009 11:38:17


Poesia concreta

Sobre o movimento da poesia concreta, Mário Faustino afirmou que


[…] a poesia brasileira estava precisando, desesperadamente, de um acontecimento, de um
shake up. Aí um grupo de três rapazes, dois dos quais irmãos, e aos quais outros ir-se-iam, com
o tempo, acrescentando, reúne-se em São Paulo para tratar de poesia. Têm os instrumentos:
cultura geral em dia, conhecimento sério das outras artes, sentimento de época, sentimento do
mundo, titanismo, espírito revolucionário, uma ou duas línguas mortas, meia dúzia de línguas
vivas, vontade de ler, de trabalhar, de escrever, de “fazer o novo” [make it new]. Leem (direito)
os alemães e outros centro-europeus, os americanos, os ingleses, os franceses, os italianos.
João Cabral já estava se encarregando do que há em espanhol. Incorporam devidamente (e
não como fizeram os nossos “parnasianos” e os nossos “simbolistas”) essas tradições culturais à
nossa cultura. Sabem que Mallarmé e Pound são mais importantes para o progresso da poesia
do que Baudelaire e Eliot. Formulam e discutem problemas culturais, sociais, filosóficos e, em
especial, estéticos. Nos domínios do verso chegam, todos os três, rapidamente, ao nível do que
melhor já se fizera antes deles no Brasil, frequentemente, no detalhe, ultrapassando esse nível.
Saem dos domínios do verso e tentam novos caminhos poéticos. Mas estão em São Paulo e as
distâncias, neste país, representam mais do que em geral se pensa. Muitas das poucas pessoas
que aqui no Rio tomam a sério a poesia levam muito tempo ainda sem ouvir falar nos três […].
(FAUSTINO, 1977, p. 136)

Fica muito claro que esse acesso à cultura e à informação fez com que esses
jovens poetas procurassem sintetizar algo de novo a partir de todas essas lei-
turas. Em um livro que apresenta várias traduções – Invenção, de Augusto de
Campos – lembra-se de que
A literatura italiana antiga e moderna foi sendo visitada por Pignatari, por Haroldo de Campos
e por mim, especialmente através da velha Loja do Livro Italiano na Rua Barão de Itapetininga,
onde, no pós-guerra, adquiríamos preciosidades encalhadas, como os livros de poesia moderna
da coleção Lo Specchio, da Mondadori. (CAMPOS, 2003a, p. 260)

É impressionante (e este é apenas um exemplo) a possibilidade do grupo


para encontrar informação. Hoje, desde bem jovens muitos já se acostumaram
a procurar na internet o que desejam, em qualquer lugar do mundo. Naquele
momento, era a intensa movimentação cultural da cidade de São Paulo que per-
mitia o acesso a essa literatura.

As propostas
Vamos ler algumas das proposições dos jovens concretistas. No “Plano-piloto
para a poesia concreta”, os três apresentaram a seguinte proposta: “poesia con-
creta: produto de uma evolução crítica de formas, dando por encerrado o ciclo
histórico do verso” (CAMPOS; PIGNATARI; CAMPOS, 1965, p. 154). Muitos disse-
ram que eles estavam afirmando que não se poderia mais escrever poesia em
versos, mas não é isso o que está escrito. Em um texto mais ou menos da mesma
época (“Arte concreta: objeto e objetivo”), Décio Pignatari afirma que,

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Modernismo na Literatura Brasileira

Finalmente, cumpre assinalar que o concretismo não pretende alijar da circulação aquelas
tendências que, por sua simples existência, provam sua necessidade na dialética da formação
da cultura. Ao contrário, a atitude crítica do concretismo o leva a absorver as preocupações
das demais correntes artísticas, buscando superá-las pela empostação coerente, objetiva, dos
problemas. (PIGNATARI, 1965, p. 38)

Então, eles procuram romper com o verso propondo algo no lugar. Vamos
ver o quê:
[…] dando por encerrado o ciclo histórico do verso (unidade rítmico-formal), a poesia concreta
começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente estrutural, espaço qualificado:
estrutura espácio-temporal, em vez de desenvolvimento meramente temporístico-linear.
(CAMPOS; PIGNATARI; CAMPOS, 1965)

Ou seja, em vez de se ler de maneira linear, contínua, faz-se uma leitura do


espaço todo, como um quadro. E, nesse todo, muitas vezes entra-se para ler o
particular. Até hoje, na poesia de Augusto de Campos, por exemplo, há várias
leituras possíveis dentro do mesmo poema, e
[...] daí a importância da ideia de ideograma, desde o seu sentido geral de sintaxe espacial
ou visual, até o seu sentido específico (fenellosa/pound) de método de compor baseado
na justaposição direta – analógica, não lógico-discursiva – de elementos. “il faut que notre
intelligence s’habitue à comprendre synthético-ideógraphiquement au lieu de analytico-
discursivement” [“é preciso que a nossa inteligência se habitue a compreender sintético-
-ideograficamente, no lugar de analítico-discursivamente”] (apollinaire). Eisenstein: ideograma
e montagem. (CAMPOS; PIGNATARI; CAMPOS, 1965)

Em outras palavras, abandonando esse discurso linear, lógico-discursivo, o


leitor buscará um discurso que seja a própria tradução do nosso tempo: de im-
pacto, de leitura imediata e, simultaneamente, de decifração e de relação por
meio da justaposição das imagens e das ideias, como no ideograma.

Continuando, “precursores: mallarmé (un coup de dés, 1897): o primeiro salto


qualitativo”. Essa é uma referência a “Um lance de dados”, o poema em que, procu-
rando e assumindo a importância da música na sua obra, Mallarmé utiliza várias ti-
pografias (fontes) diferentes, diversos tamanhos de letra, para compor distintas me-
lodias que vão se contrapondo (ele falava, inclusive, em fuga) durante o poema:
subdivisions prismatiques de l’idée [“subdivisões prismáticas da ideia”]; espaço (blancs) e recursos
tipográficos como elementos substantivos da composição. pound (the cantos): método
ideogrâmico. joyce (ulysses e finnegans wake): palavra-ideograma; interpenetração orgânica
de tempo e espaço. cummings: atomização de palavras, tipografia fisionômica; valorização
expressionista do espaço. apollinaire (calligrammes): como visão, mais do que como realização.
(CAMPOS; PIGNATARI; CAMPOS, 1965)

Aqui há uma consideração muito importante, pois durante muito tempo as


pessoas associaram os calligrammes de Apollinaire, esse tipo de realização, com
a poesia concreta. Augusto de Campos faz uma observação sobre isso:

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Poesia concreta

Condena, assim, Apollinaire, o ideograma poético à mera representação figurativa do tema. Se


o poema é sobre chuva (Il Plut), as palavras se dispõem em cinco linhas oblíquas. Composições
em forma de coração, relógio, gravata, coroa se sucedem em Calligrammes. É certo que se pode
indagar aqui o valor sugestivo de uma relação fisionômica entre as palavras e o objeto por elas
representado, à qual o próprio Mallarmé não teria sido indiferente. Mas ainda assim cumpre
fazer uma distinção qualitativa. No poema de Mallarmé, as miragens gráficas do naufrágio da
constelação se insinuam tênue, naturalmente, com a mesma naturalidade e discrição com que
apenas dois traços podem configurar o ideograma chinês para a palavra homem. Da mesma
forma, os melhores efeitos gráficos de cummings, almejando a uma espécie de sinestesia do
movimento, emergem das palavras mesmas, partem de dentro para fora do poema. Já em
Apollinaire, a estrutura é evidentemente imposta ao poema, exterior às palavras, que tomam
a forma do recipiente, mas não são alteradas por ele. Isso retira grande parte do rigor e da
riqueza fisionômica que possam ter os caligramas, em que pese a graça e o “humor” visual com
que quase sempre são “desenhados” por Apollinaire. (CAMPOS, 1965, p. 19)

Nesse texto de 1956, Augusto de Campos já antecipa claramente algo que,


depois, será de certa forma uma praga para a poesia concreta: os diluidores, que
se poderiam chamar de “diluidores de Apollinaire”, e que nada têm a ver com a
poesia concreta propriamente dita.

Para exemplificar a diferença, podemos tomar um poema de Augusto de


Campos bem típico da fase mais radical, ou, digamos, mais combativa da poesia
concreta: “Pluvial”. É a representação da chuva, mas não simplesmente seu
desenho.

(CAMPOS, 2001, p. 106)

A palavra pluvial figura seis vezes, no sentido descendente, enquanto vai se for-
mando a palavra fluvial na horizontal. Assim, a chuva caindo se transforma no rio:
pluvial/fluvial. Como Augusto afirmou no texto acima, a poesia deve se realizar de
dentro para fora – por exemplo, a partir da descoberta da relação entre pluvial e
fluvial, ele constrói o poema. Algumas pessoas podem dizer que isso é fácil. É como
falar que “No meio do caminho tinha uma pedra”, poema de Carlos Drummond de
Andrade (1902-1987), seja fácil. O mesmo se aplica para o poema “Viva Vaia”:

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Modernismo na Literatura Brasileira

(CAMPOS, 2001, p. 204-205)

O viva escrito com as letras que Augusto escolheu, quando virado, torna-se
vaia, mas note-se que o viva vira vaia. A antítese é muito forte: viva é elogio,
vaia é reprovação. Tudo isso em uma mesma palavra. E também em um momen-
to importante: Augusto de Campos fez este poema em homenagem a Caetano
Veloso, quando o cantor-compositor foi vaiado durante sua apresentação no
Festival da Record, cantando “É proibido proibir”. Assim, o texto não é somente
a descoberta, a “brincadeirinha” de viva e de vaia: é também a afirmação de que,
na verdade, deve-se ser vaiado e gostar de ser vaiado. O grande artista deve cul-
tivar aquilo que o público vaia, e não o que o público aplaude.

Do plano-piloto para poesia concreta


(CAMPOS; PIGNATARI; CAMPOS, 1965, p. 157)

 poesia concreta: tensão de palavras-coisas no espaço-tempo, estrutu-


ra dinâmica: multiplicidade de movimentos concomitantes. também
na música – por definição, uma arte do tempo – intervém o espaço
(webern e seus seguidores: boulez e stockhausen; música concreta
e eletrônica); nas artes visuais – espaciais, por definição – intervém o
tempo (mondrian e a série boogiewogie, max bill; albers e a ambiva-
lência perceptiva; arte concreta, em geral). ideograma: apelo à co-
municação não-verbal. o poema concreto comunica a sua própria
estrutura: estrutura-conteúdo. o poema concreto é um objeto em e
por si mesmo, não um intérprete de objetos exteriores e/ou sensa-
ções mais ou menos subjetivas. Seu material: a palavra (som, forma
visual, carga semântica). seu problema: um problema de funções-

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Poesia concreta

relações desse material. fatores de proximidade e semelhança,


psicologia de gestalt. ritmo: força relacional. o poema concreto,
usando o sistema fonético (dígitos) e uma sintaxe analógica, cria uma
área linguística específica – “verbivocovisual” – que participa das van-
tagens da comunicação não-verbal, sem abdicar das virtualidades da
palavra, com o poema concreto ocorre o fenômeno da metacomu-
nicação: coincidência e simultaneidade da comunicação verbal e
não-verbal, com a nota de que se trata de uma comunicação de
formas, de uma estrutura-conteúdo, não da usual comunicação
de mensagens.

Os autores
Nesses mais de 50 anos que se passaram desde a criação do Noigandres, os
trabalhos individuais de seus membros – como poetas, tradutores, pesquisado-
res e críticos – em muito ampliaram as fronteiras das suas propostas iniciais.

Décio Pignatari
Nascido em Jundiaí (SP) em 1927, publicou seu primeiro livro, O Carrossel, em 1950,
ainda sob influência dos neomodernistas de 1945. Sua poesia, reunida em Poesia, Pois
é, Poesia (1977), apresenta, além dos textos concretos, experiências com a “poesia se-
miótica”, em que usa símbolos e não palavras. Introduziu a linguagem concreta na
propaganda e se tornou um dos maiores especialistas brasileiros em semiótica, tendo
sido professor na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e na Faculdade de Ar-
quitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Levando seu espírito inquieto
para além da poesia, publicou o livro Panteros (1992), de prosa poética.

beba coca cola 


babe cola 
beba coca
babe cola caco
caco
cola
cloaca
(PIGNATARI, 1986, p. 113)

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Modernismo na Literatura Brasileira

Haroldo de Campos
O paulistano Haroldo de Campos (1929-2003) foi o mais barroco dos con-
cretos e lançou seu primeiro livro, Auto do Possesso, em 1950. Sua poesia está
reunida nos volumes Xadrez de Estrelas (1976), Signantia: Quasi Coelum (1979), A
Educação dos Cinco Sentidos (1985), Os Melhores Poemas de Haroldo de Campos
(1992) e Crisantempo (1998). Além de numerosos ensaios críticos, publicou, em
1984, seu “livro de ensaios”, na realidade um longo poema em prosa, Galáxias,
escrito entre 1963 e 1973 e, em 2000, três anos antes de falecer, o longo poema
escrito em terza rima, A Máquina do Mundo Repensada.

Eis um fragmento do poema em prosa Galáxias (1963-1973), de Haroldo de


Campos, que foi musicado por Caetano Veloso no disco Circuladô:
circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá e viva
quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá soando como um shamisen e feito
apenas com um arame tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a
pino mas para outros não existia aquela música não podia porque não podia popular aquela
música se não canta não é popular se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada
na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria física e doendo doendo como um
prego na palma da mão um ferrugem prego cego na palma espalma da mão coração exposto
como um nervo tenso retenso um renegro prego cego durando na palma polpa da mão ao
sol enquanto vendem por magros cruzeiros aquelas cuias onde a boa forma é magreza fina
da matéria mofina forma de fome o barro malcozido no choco do desgosto até que os outros
vomitem os seus pratos plásticos de bordados rebordos estilo império para a megera miséria
pois isto é popular para os patronos do povo mas o povo cria mas o povo engenha mas o povo
cavila o povo é o inventalínguas na malícia da mestria no matreiro da maravilha (CAMPOS,
1984, p. 29)

Augusto de Campos
Nascido em 1931, Augusto de Campos é o mais radical dos inventores da
poesia concreta e até hoje se mantém absolutamente fiel às propostas iniciais de
uma poesia antidiscursiva, sintética, visual e contundente. Publicou seu primeiro
livro, O Rei Menos o Reino, em 1951. Durante a década de 1970, em colaboração
com o artista plástico Julio Plaza, lançou Poemóbiles (1974) e Caixa Preta (1975),
dois volumes de “poemas-objeto” contendo textos tridimensionais.

Dois livros apresentam o básico de sua obra: Viva Vaia - Poesia 1949-1979
(1979) e Despoesia (1994). Tem publicado vários livros de ensaios críticos.

Atuante crítico de música na década de 1960, foi um dos primeiros a reconhe-


cer o talento poético de Caetano Veloso e Gilberto Gil, em ensaios reunidos no
livro No Balanço da Bossa (1968).

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Poesia concreta

Atualmente, dedica-se a investigar novos meios para a poesia, como a holografia


e a computação gráfica, e lançou, em parceria com seu filho, o músico Cid Campos,
um CD com leituras criativas de seus poemas e traduções, Poesia é Risco (1994).

Augusto de Campos e a cidade


Vejamos o poema “Cidade”, que Augusto de Campos escreveu em 1963. É um
poema muito simples, embora as pessoas tenham uma certa dificuldade imediata na
sua leitura. Foi feito para ser apresentado assim, passando rápido, como um letreiro:

atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubrimendimulti-
pliorganiperiodiplastipublirapareciprorustisagasimplitenaveloveravivaunivo-
racidade

(CAMPOS, 2001, p. 114-115)

O impacto inicial do poema é o de provocar no leitor a impressão de que se


trata de uma confusão sem sentido, uma balbúrdia, um balbuciar ininteligível.

Analisemos, no entanto, o modo como é composto: é uma palavra só, e esta


palavra é subdividida em vários pedaços (não prefixos porque, na verdade, não
são prefixos gramaticalmente): “atro, cadu, capa, causti, dupli, elasti, feli, fero, fuga,
histori, loqua, lubri, mendi, multipli, organi, periodi, plasti, publi, rapa, recipro, rusti,
saga, simpli, tena, velo, vera, viva, uni, vora, cidade, city, cité”. Augusto de Campos
escolheu segmentos que formam palavras em português com o segmento ou
termo cidade, e também formam palavras com city, em inglês, e com cité, em fran-
cês (por exemplo, velocidade, velocity, velocité). Então, simultaneamente o poema
se constrói em português, inglês e francês. Existe uma organização muito clara.

Percebe-se também que os fragmentos estão organizados em ordem alfa-


bética: “atro, cadu, capa, causti, dupli, elasti, feli, fero, fuga…” Mas essa ordem
rigorosamente alfabética é quebrada no final: “viva uni vora cidade”.

Por quê?

Pode-se até interpretar isso como sendo um momento de ruptura.

Quando se tem essa organização, essa ordem toda rompida no final, o que se
depreende?

A cidade talvez não seja tão organizada quanto se imagina. Ou então aqui
se dá a criação de uma outra palavra, que, na verdade, não é “uni”, é “oni”, o que
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Modernismo na Literatura Brasileira

seria “onívora cidade”: uma cidade que tudo devora. Uma cidade onívora é uma
cidade devoradora de tudo.

Portanto, isso que parece, a princípio, algo gratuito, não é assim. É absoluta e
rigorosamente organizado.

O que se pode interpretar além disso? Será que, por trás da cidade, que parece
tão caótica, por trás desse caos, não existe uma profunda organização?

Uma profunda organização que explica, inclusive, por que o caos predomina
na cidade moderna.

A cidade de São Paulo aparece claramente aqui?

Sim: ainda que não seja um poema apenas sobre São Paulo, alguns traços
dessa cidade são muito perceptíveis – o fato de o texto estar em francês, inglês e
português revela o pendor cosmopolita de São Paulo, que já havia no Álvares de
Azevedo, quando ele, por exemplo, em Noite na Taverna, em vez de localizar os
seus contos em São Paulo, situa-os na Europa. Esse pendor está no “Cidade”. Está
também, é claro, a mescla cultural dessa cidade, o fato de a cidade representar o
mundo inteiro, ao mesmo tempo, agora.

Vinte anos depois de “Cidade”, em 1983, Augusto de Campos escreve um


poema intitulado “SOS”. Disponível em: <http://bp3.blogger.com/_
oJA-DcB9kwA/R-ZIIQBeV1I/AAAAAAAAAE4/XKnjUdAB-
mIw/s1600-h/sos.JPG>.

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Poesia concreta

Trata-se de um texto muito diferente de “Cidade”. Primeiro porque se afirma


uma egotrip, uma viagem do ego, do eu. É um poema que não tem mais a li-
nearidade de “Cidade”. Ao contrário, produzido no começo da década de 1980,
ele se dirige para dentro de si: o eu lírico se volta para dentro e externa um
grande pedido de socorro dentro da cidade grande. Aqui não é a poesia retra-
tando necessariamente a cidade, mas é o sentimento de estar em São Paulo se
retratando cruamente: “vagaremos sem voz silencioso sos”. Esse desespero e
essa ausência de solidariedade entre as pessoas perspassam o poema. O texto,
ao contrário do poema da década de 1960, não reflete mais uma cidade com
saídas e sim um eu lírico se fechando em desespero, em meio à indiferença
agressiva da cidade caótica.

Pouco depois, Augusto faria um poema muito interessante sobre a vida na


cidade, remetendo a Mallarmé – “tvgrama I”:

Disponível em: <www.ufes.br/~mlb/multiteorias/


pdf/guilherme%20gflorespoesiaepropagandanaobra-
deaugustodecampos.pdf >.

Nesse poema os tês são evidentemente a reprodução das antenas de TV, mas
também são túmulos. O subtítulo do poema é “tombeau de mallarmé” (tumba de
Mallarmé) – o túmulo não só de Mallarmé mas também da cultura livresca, que
morre quando as coisas não existem mais para terminar em livro, como pensava
Mallarmé, e sim para acabar em TV. Na São Paulo contemporânea encontram-se
televisores em todos os lares, em muitos dos quais não se encontra um livro. Evi-
dentemente a visão da cidade vai se tornando sempre mais crítica e sombria.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 249 16/2/2009 11:38:18


Modernismo na Literatura Brasileira

Um outro poema da mesma época e do mesmo teor é o “tvgrama II”.

(CAMPOS, 1994, p. 111)

Nesse poema o universo da cidade – em processo de radicalização do “tvgra-


ma I” – já se encontra entrelaçado às TVs. A palavra TV faz a ligação com a frase
“sobre as telhas velhas/ bernart de ventadorn/ em vez de cotovias/ entreouvidas
apenas/ entrevês entre vídeos/ bentevis nas antenas”.

De certa maneira, é um grande lamento nostálgico que ecoa a saudade de


Mallarmé apresentada no poema anterior. Agora, em vez das cotovias de Bernart
de Ventadorn, vê-se essa imagem absolutamente complexa da cidade, repleta
de antenas de TV servindo de pouso aos bem-te-vis. Metonimicamente, as ante-
nas refletem a cultura televisiva e consumista se impondo ao universo da leitura
e do pensamento complexo. A cidade emburrece.

A relação de Augusto de Campos com a cidade de São Paulo vai, de certa manei-
ra, infiltrando-se na composição dos seus poemas. Neles, visualizamos toda a história
da relação da população paulistana com a sua cidade. Percebe-se uma clara transfor-
mação: tinha-se um grande orgulho e viam-se perspectivas de saída, de progresso
para a cidade, e aos poucos essa perspectiva esperançosa vai, cada vez mais, sendo
emparedada, destruída, e os paulistanos vão se sentindo em uma cidade sem saída.
Acompanhando com atenção a evolução dos poemas de Augusto de Campos, nota-
-se nitidamente esse processo de gradual desencantamento com a capital paulista.

Outros poetas
Ao grupo Noigandres original, logo se somaram José Lino Grünewald (1931-
-2000) e Ronaldo Azeredo (1937-2006). Wlademir Dias Pino (1927) participou da
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Modernismo na literatura brasileira.indb 250 16/2/2009 11:38:19


Poesia concreta

exposição de 1956. A nova poesia fascinaria também poetas de gerações anterio-


res, como Edgard Braga (1897-1985) e Pedro Xisto (1901-1987) e mesmo Manuel
Bandeira (1886-1968), que arriscou algumas composições concretas. José Paulo
Paes (1926-1998), que era oriundo do neomodernismo de 1945, durante anos
aplicaria os métodos de composição concreta em poemas muito bem humora-
dos. Posteriormente, viria a abandoná-los.

Além disso, a influência da poesia concreta pode ser detectada em inúmeros


jovens poetas brasileiros.

Re-visões e traduções
Além do trabalho poético próprio, destacam-se as traduções, de diversas
línguas, feitas por Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari. A lista é
muito extensa: Mallarmé, Ezra Pound, Dante Alighieri (1265-1321), Johann Wol-
fgang von Goethe (1749-1832), John Donne (1572-1631), William Shakespeare
(1564-1616), Homero (séc. VIII a.C.), textos do Velho Testamento, e. e. cummings,
Gertrude Stein (1874-1946), Arthur Rimbaud (1854-1891), Vladimir Maiakovski
(1893-1930), a lírica provençal, Gerard Manley Hopkins (1844-1889), Rainer Maria
Rilke (1875-1926), James Joyce (1882-1941)...

Traduzindo, os concretos tornaram acessível ao leitor de língua portuguesa


muito do que há de mais rico e instigante na literatura universal.

Como se não bastasse isso, eles ainda pesquisaram a literatura brasileira e revi-
talizaram o interesse por autores como Sousândrade (1833-1902), Pedro Kilkerry
(1885-1917), Gregório de Matos e mesmo Oswald de Andrade.

Texto complementar

Plano-piloto para poesia concreta


(CAMPOS; PIGNATARI; CAMPOS, 1965, p. 157)

poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas. dando por en-
cerrado o ciclo histórico do verso (unidade rítmico-formal), a poesia concreta
começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente estrutural.

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Modernismo na literatura brasileira.indb 251 16/2/2009 11:38:19


Modernismo na Literatura Brasileira

espaço qualificado: estrutura espácio-temporal, em vez de desenvolvimento


meramente temporístico-temporal, em vez de desenvolvimento meramente
temporístico-linear. daí a importância da ideia de ideograma, desde o seu sen-
tido geral de sintaxe espacial ou visual, até o seu sentido específico (fenollo-
sa/pound) de método de compor baseado na justaposição direta-analógica,
não lógico-discursiva – de elementos: il faut que notre intelligence s’habitue à
comprende synthético idéographiquement au lieu de analytico-discursivemente
appollinaire. einsenstein: ideograma e montagem. precursores: Mallarmé (un
coup de dés, 1897): o primeiro salto qualitativo: subddivisions prismatiques de
l’idée; espaço (blancs) e recursos tipográficos como elementos substantivos da
composição. pound (the cantos): método ideogrâmico. joyce (ulisses e finne-
gans wake): palavra-ideograma; interpenetração orgânica de tempo e espaço.
cummings: atomização de palavras, tipografia fisiognômica: valorização ex-
pressionista do espaço, apollinaire (calligrammes): como visão, mais do que
como realização. futurismo, dadaísmo: contribuições para a vida do proble-
ma. no brasil: oswald de andrade (1890-1954): “em comprimidos, minutos de
poesia”. joão cabral de melo neto (n.1920) – engenheiro e a psicologia da com-
posição mais antiode): linguagem direta, economia e arquitetura funcional do
verso. poesia concreta: tensão de palavras-coisas no espaço-tempo, estrutura
dinâmica: multiplicidade de movimentos concomitantes. também na música
– por definição, uma arte do tempo – intervém o espaço (webern e seus segui-
dores: boulez e stockhausen; música concreta e eletrônica); nas artes visuais
– espaciais, por definição – intervém o tempo (mondrian e a série boogiewo-
gie, max bill; albers e a ambivalência perceptiva; arte concreta, em geral). ide-
ograma: apelo à comunicação não-verbal. o poema concreto comunica a sua
própria estrutura: estrutura-conteúdo. o poema concreto é um objeto em e
por si mesmo, não um intérprete de objetos exteriores e/ou sensações mais
ou menos subjetivas. seu material: a palavra (som, forma visual, carga semân-
tica). seu problema: um problema de funções-relações desse material. fatores
de proximidade e semelhança, psicologia de gestalt. ritmo: força relacional. o
poema concreto, usando o sistema fonético (dígitos) e uma sintaxe analógica,
cria uma área linguística específica – “verbivocovisual” – que participa das van-
tagens da comunicação não-verbal, sem abdicar das virtualidades da palavra,
com o poema concreto ocorre o fenômeno da metacomunicação: coincidên-
cia e simultaneidade da comunicação verbal e não-verbal, com a nota de que
se trata de uma comunicação de formas, de uma estrutura-conteúdo, não da
usual comunicação de mensagens. a poesia concreta visa ao mínimo múltiplo
comum da linguagem, daí a sua tendência à substantivação e à verbificação: “a

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Modernismo na literatura brasileira.indb 252 16/2/2009 11:38:19


Poesia concreta

moeda concreta da fala” (sapir). daí suas afinidades com as chamadas “línguas
isolantes” (chinês): “quanto menos gramática exterior possui a língua chinesa,
tanto mais gramática interior lhe é inerente (humboldt via cassirer). o chinês
oferece um exemplo de sintaxe puramente relacional baseada exclusivamente
na ordem das palavras (ver fenollosa, sapir e cassirer).

ao conflito de fundo-e-forma em busca de identificação chamamos de


isomorfismo, paralelamente ao isomorfismo fundo-formas, se desenvolve
o isomorfismo espaço-tempo, que gera o movimento. o isomorfismo num
primeiro momento da pragmática poética concreta, tende à fisognomia, a
um movimento imitativo do real (motion); predomina a forma orgânica e a
fenomenologia da composição, num estágio mais avançado, o isomorfismo
tende a resolver-se em puro movimento estrutural (movement); nesta fase,
predomina a forma geométrica e a matemática da composição (racionalis-
mo sensível). renunciando à disputa do “absoluto”, a poesia concreta per-
manece no campo magnético do relativo perene, cronomicrometragem do
acaso, controle. cibernética. o poema como um mecanismo, regulando-se a
si próprio: feedback. a comunicação mais rápida (implícito um problema de
funcionalidade e de estrutura) confere ao poema um valor positivo e guia a
sua própria confecção. poesia concreta: uma responsabilidade integral pe-
rante a linguagem. realismo total. contra uma poesia de expressão, subjetiva
e hedonística. criar problemas exatos e resolvê-los em termos de linguagem
sensível. uma arte geral da palavra. o poema-produto:

post-scriptum 1961: “sem forma revolucionária não há arte revolucioná-


ria” (maiacovski).

(Publicado originalmente em Noigandres, n. 4, São Paulo, 1958.)

Estudos literários
Os poetas concretos apresentam vários poetas como seus precursores. Ob-
serve, abaixo, exemplos da poesia de cinco artistas muito mencionados pelos
fundadores da poesia concreta e aponte como esses textos se relacionam ao
movimento (mesmo que o poema se apresente em outra língua, não será difícil
perceber como ele se articula com a poesia concreta).

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Modernismo na literatura brasileira.indb 253 16/2/2009 11:38:19


Modernismo na Literatura Brasileira

1. Poema de Apollinaire (1880-1918)

(APOLLINAIRE, 2008)

2. Poema de e. e. cummings (1894-1962)

so
(l
f
o
l)l
(ha
c
ai)
Itude
(CUMMINGS, 1999, p. 54)

3. James Joyce (1892-1941)

Escurece, tingetinto, nosso funamburlesco mundanimal. Lama-laguna,


aquela, à beira-rota, é montada pela onda. Avemaréa! Somos circunvelopardos
pela urubscuridade. Homens e bestas friam. Desejo de não fazer nada, nemnada.
Só lã. Zoono bom! Sec, surd, sôbr´ulha jazer, pss, sus pira rr. Ah! Onde se escon-
de nossa altanobre salve espôsestirpe? A doida da família está lá dentro. Haha!
ZoÓsim, onde está ele? Em casa, que pena. Com Nancy Nana. Travetsetseiro. Cão
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Modernismo na literatura brasileira.indb 254 16/2/2009 11:38:19


Poesia concreta

correu no milharal. Cão? Não. Isegrim orelhas-murchas. Até lobo! E ovelhas sinei-
ras param sem fôlego. Todas. A trilha do Demo ainda não se vê, rolenrola, cerro
acima, vale abaixo, vereda ruim para vagamundos. Nem atraviés da estrelândia
aquela banda de prata. Que era sobressoa? Longonga é-tarde. Só longe, scielo!
Silúmida, sus vê-se. Silene surge. Oh! Lun! Arca? No é? Nada mexe a moita. Ve-
redas volúvias da libéluaranha pousam paz nos juncos. Refolham quedos seus
folhos. Garças tácitas. Vale! Orvalha!

(JOYCE, 2001, p. 93)

4. Oswald de Andrade

amor
Humor
(ANDRADE, 2000, p. 45)

5. Gregório de Matos (1636-1696)

(MATOS, 1976, p. 191)

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Modernismo na Literatura Brasileira

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Poesia concreta

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Gabarito

Vanguardas modernistas e a Semana de 22


1. Os itens 4 e 11 demonstram apreço à modernidade, com a exaltação
da tecnologia (automóvel, velocidade, eletricidade, locomotiva) e das
cidades modernas. O item 9 mostra a proximidade com os ideais fas-
cistas de ufanismo, militarismos, superioridade e paixão bélica e euge-
nia. Os itens 3, 8 e 10 condenam o passadismo, a literatura “com sono”,
perguntam-se “Para que olhar para trás” e pedem a destruição de mu-
seus e bibliotecas.

2. O sapo-tanoeiro, chamado de “Parnasiano aguado”, defende a poe-


sia métrica e rimada, sendo exaltado por todos os sapos, enquanto
o sapo-cururu soluça solitário e sem glória, isolado. O sapo-tanoeiro
representa a poesia parnasiana dominante na época e o sapo-cururu
representa o poeta modernista incompreendido e rejeitado.

Vale ainda indicar o teor irônico com que o sapo-tanoeiro é represen-


tado e o fato de que as características exaltadas por ele são aquelas
que os modernistas criticavam.

O poema usa de recursos de rima e métrica para construir tal ironia.

3. O verso livre (sem métrica) e sem rimas, a linguagem popular, a cultura


e as referências típicas do Brasil, além do título que evoca ao Dadá e os
poemas recortados de jornais.

Oswald de Andrade
1. Configura-se nesse exemplo o poema-piada, interessado em parodiar
amplos domínios da própria literatura, de forma simpática ou demoli-
dora. A paródia simpática, como é, no caso, a de Oswald, focaliza costu-
mes e tradições do povo. Já a paródia demolidora, que Oswald também
praticou, volta-se contra as elites pretensiosas. Ambas propõem uma re-
visão da cultura brasileira: impõe-se uma tradição de ruptura, baseada
na crítica exacerbada, na negação contínua, na revolta permanente. Na

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Modernismo na Literatura Brasileira

visão dialética de Oswald de Andrade, “Precisamos descabralizar o Brasil”, pro-


movendo o canibalismo cultural, um ato “marxilar”, segundo ele.

2.

Texto 1: O empenho em instaurar uma sensibilidade mais próxima da reali-


dade nacional, com o propósito de renovar a cultura, muitas vezes tropicali-
zando o cenário urbano dos anos de 1920.

Texto 2: A absorção poética de temas da modernidade – progresso, máqui-


nas, novo urbanismo e nova cotidianidade.

3. A prosa de ficção modernista, inaugurada com este revolucionário romance,


buscou renovar, notadamente, a estrutura de composição e os modos de
expressão. Com base na leitura dos fragmentos de Memórias Sentimentais de
João Miramar, podem ser apontados os seguintes índices dessa renovação:

 divisão do romance em flashes e não mais em capítulos – técnica cinema-


tográfica aplicada à literatura;

 estilo telegráfico – síntese e economia verbal;

 técnica cubista – a paisagem é captada de modo geométrico, como na


pintura de Picasso;

 uso de neologismos – “morenava”.

Mário de Andrade
1. Coloquialismo, enumeração, pontuação alterada ou ausente nas enumera-
ções, cortes bruscos no discurso do narrador, neologismos.

2. Nos excertos, encontram-se dois evidentes pontos de contato entre as obras


Iracema, de José de Alencar, e Macunaíma, de Mário de Andrade:

 a criação de personagens indígenas – Iracema, da tribo tabajara, e Macunaí-


ma, da tribo tapanhuma – como heróis que representam a brasilidade;

 a valorização da paisagem brasileira, com ênfase em seus aspectos pitores-


cos. Também poderia ser apontado outro elemento comum: a estilização
literária de uma língua brasileira, diferenciada do registro lusitano, como
se comprova, por exemplo, no plano léxico, pela utilização de vocabulário
de origem tupi.

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Gabarito

3. Os dois autores exploraram a prosa poética, mas com diferenças estilísticas


notáveis, dentre as quais se destaca o registro linguístico, que é elevado em
Alencar e coloquial em Mário de Andrade. Há, também, diferenças decor-
rentes da distância temporal e estética que os separa: enquanto Alencar é
típico representante do Romantismo (séc. XIX), propenso à idealização na-
cionalista, evidente na heroína Iracema, Mário de Andrade se identifica com
o nacionalismo crítico do Modernismo (séc. XX), que se constata na criação
da personagem Macunaíma como anti-herói.

Manuel Bandeira
1.

a) Os trechos que poderiam ser citados são:

 “Vinha da boca do povo na língua errada do povo.”

 “Ao passo que nós

O que fazemos

É macaquear

A sintaxe lusíada.”

 “Defesa da inventividade popular (“o povo é o inventa-línguas”, Maiakó-


vski) contra os burocratas da sensibilidade, que querem impingir ao
povo, caritativamente, uma arte oficial, de ‘boa consciência’, ideologi-
camente retificada, dirigida.”

b) O trecho é o seguinte:

“A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros

Vinha da boca do povo na língua errada do povo

Língua certa do povo

Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil. “

2.

a) “Eu trabaio até de noite

Pra dá conta da empreitada.

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Modernismo na Literatura Brasileira

Pego moda por empreita

Pra inventá e pôr toada,

Invento moda na linha

Quando eu entro no salão

Com minha viola afinada,

Eu canto uma moda arta

E muito bem expricada,

Dizeno que eu não insurto

Mas topo quarqué parada.”

b) “O povo é o inventa-línguas, na malícia da mestria, no matreiro da maravilha.


[...] O povo é o melhor artífice.”

3. O verso “Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.” justifica a afirmação de
Oswald de Andrade: a conjugação do imperativo (“Entra”) é feita na segunda
pessoa do singular e na sequência há uma mudança para o pronome de tra-
tamento “Você”, característico da linguagem oral brasileira, que leva o verbo
seguinte (“precisa”) a ser conjugado na terceira pessoa do singular.

A poesia da Geração de 1930 no Brasil


1.

 “Finas mãos pensativas” são as mãos dos intelectuais e juristas que partici-
param da Inconfidência Mineira, como Cláudio Manuel da Costa e Tomás
Antônio Gonzaga.

 “Mãos de pú