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As perguntas da vida

Fernando Savater

As perguntas da vida

Tradução
MONICA STAHEL

Martins Fontes
São Paulo 200 I
,
Indice

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·1·raclu \·üo
.IVll!N /C,\ .\"/ ,.\l/IJ. Advertência prévia ... ... .................... .... .................................... . 1
Introdução. O porquê da filosofia ....... .............. ... .. .. ............... . 3
Rc' isüo ,!!.rclfü:a
S11!1111gt•Mflrti11.1
lfr l1·11t1 <:11i11wrat'., /l i111·1w1111r1 Capítulo um. A morte, para começar ........ ......... ..... .... ............ . 13
Produ t;<-to ,!!.rúfica
<ierald11 1\l n ·.1
Capítulo dois. As verdades da razão ...... ...... ........ .......... ......... . 27
Pag imHJw/f otolil os Capítulo três. Eu dentro, eu fora ......................................... .. ... 47
S111di11 .í /Jc.1 nn·o/l'i111('11/11 l :'di1nri11/
Capítulo quatro. O animal simbólico ...................................... . 65
Capítulo cinco. O universo e seus arredores ......... ........ ......... . 85
Capítulo seis. A liberdade em ação ......... .. ............................ ... 103
Capítulo sete. Artificiais por natureza .................................... . 123
Dad11s lntt•n1acic111ai.'i de Cat<1h1gat;:"ic1rn11'11blkm.;fü1 !ClPl Capítulo oito. Viver juntos .............. ...... ... ................. ......... .... .. 147
(Ci11m1rn l ~ rasilcin1 {li> Li vrei, SI>, Brasil) Capítulo nove. O calafrio da beleza .................. ..................... . 169
Sav atc r. h :rn;mdo.
Capítulo dez. Perdidos no tempo .... ........... ............................. . 187
J\ s 1x Tgu11\;1s d;1 vida/ Fernando Sa va ti.:1 : tradu ç~ o Moni ca St;1hi.: J.
S:lo Paulo : Martin :- Fon ll.:.-.. ::!OO 1.

T ítu lo ori gi na l: L<1s p rl' g t111ta ~ de b vid;t. Epílogo. A vida sem por quê ....................... ..... .. ...... ... ..... .. .. ... . 205
Bihl i11grafo. Despedida .... .. .. ................ ......... ...... ...... ......... ..... .. .. ... .. ...... ... ... . 219
ISBN :-15 -33 6- 1504-J
Principais estrelas convidadas ...... ........... .. .... ........... ...... ...... ... . 221
1. Fi !o~ort : 1 c s p; 111h o l ~1 1. Títul o .

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Fodos os diffi!Os des/a edi(·(/o 11ara o /Jrusil /'l'Sl'/Tculos ú


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1<110 Co11sl'l/Jl'iro Na111a/ho. 33013..f.O 01325- 000 Súo Paulo SP Uras il
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Aos que não têm tudo claro
O ponto culminante da vida é a compreensão da vida.
G. SANTAYANA

Minha força é não ter encontrado resposta para nada.


E. M . CrORAN
Advertência prévia

O propósito deste livro é, por um lado, muito modesto e, por


outro, desmedidamente ambicioso.
Modesto porque se contentaria em servir como leitura inicial
para alunos de bachillerato* que devem abordar pela primeira - e
talvez última - vez os temas básicos da filosofia ocidental, tratados
não de maneira histórica mas como perguntas ou problemas vitais.
Nesse sentido, pretende atender fielmente, embora com certo rebel-
de viés pessoal, às indicações sobre esta matéria ditadas pelas ad-
ministrações educacionais.
E também desmedidamente ambicioso, uma vez que não re-
nuncia a servir como convite ou preâmbulo à filosofia para qual-
quer profano interessado em conhecer algo dessa venerável tradi-
ção intelectual nascida na Grécia. Dirijo-me sobretudo aos que não
se preocupam tanto com ela apenas como venerável tradição mas
como um modo de reflexão ainda vigente, que lhes pode ser útil em
suas perplexidades cotidianas. Trata-se primordialmente de saber,
não como Sócrates se arranjava para viver melhor em Atenas há
vinte e cinco séculos, mas como nós podemos compreender e des-
frutar melhor a existência como contemporâneos da Internet, da
Aids e dos cartões de crédito.
Para isso, sem dúvida, teremos que remontar, às vezes, às li-
ções de Sócrates ou de outros mestres insignes, porém sem nos li-

*Bacharelado, correspondente ao ensino médio. (N. da T.)


mitar a lavrar ata mais ou menos crítica de suas sucessivas desco- Introdução
bertas. A filosofia não pode ser apenas um catálogo de opiniões
prestigiosas. Muito pelo contrário, levando-se em conta, desta vez, O porquê da filosofia
a opinião prestigiosa de Ortega y Gasset: "A filosofia é idealmente
o contrário da informação, da erudição." 1 Sem dúvida a filosofia é Árbol de sangre, el hombre siente, piensa, florece
um estudo, não um punhado de idéias de tertúlia, e portanto requer y da frutos insólitos : palabras.
aprendizado e preparo. Mas pensar filosoficamente não é repetir Se enlazan lo sentido y lo pensado,
pensamentos alheios, por mais que nossas próprias reflexões se tocamos las ideas: sou. cuerpos y sou números.*
apóiem neles e estejam conscientes dessa dívida necessária. Certas
ÜCTAVIO PAZ
introduções à filosofia são como tratados de ciclismo que se limi-
tassem a rememorar os nomes e os feitos dos vencedores do Tour
de France. Proponho-me aqui tentar ensinar a andar de bicicleta e
até dar exemplo pedalando eu mesmo, por mais que minhas capa-
cidades estejam longe das de Eddy Mercla ou Miguel Induráin.
Mas o leitor também tem que tentar pedalar comigo ou até Tem sentido empenhar-se hoje, no final do século XX ou iní-
contra mim. Nestas páginas não se oferece um guia concludente de cio do XXI, em manter a filosofia como uma matéria a mais do ba-
pensamentos necessariamente válidos, mas um itinerário válido de charelado? Trata-se de mera sobrevivência do passado, que os con-
busca e sondagem. Ao final de cada capítulo, propõe-se um memo- servadores enaltecem por seu prestígio tradicional mas que os pro-
rando de questões para que o leitor refaça por si mesmo a indaga- gressistas e as pessoas práticas devem encarar com justificada im-
ção que acaba de ler, o que talvez o leve a conclusões opostas. Nada paciência? Podem os jovens, ou adolescentes, inclusive crianças,
mais necessário do que esse exercício, porque a filosofia não é a re- entender claramente algo que em sua idade deve parecer obscuro?
velação feita ao ignorante por quem sabe tudo, mas o diálogo entre Não se limitarão, na melhor das hipóteses, a memorizar algumas
iguais que se fazem cúmplices em sua mútua submissão à força da fórmulas pedantes que depois repetirão como papagaios? Talvez a
razão e não à razão da força. filosofia interesse a alguns poucos, aos que têm vocação filosófi-
Em suma, que se leia o que se segue como um convite a filo- ca, se é que isso ainda existe, mas esses, de qualquer modo, terão
sofar e não como um repertório de lições de filosofia. tempo de descobri-la mais adiante. Então por que impô-la a todos
Mas não são exatamente essas lições o que cabe dar no bacha- no secundário? Não é uma perda de tempo infundada e reacionária,
relado? E por acaso não é uma grande ousadia achar que é possível em vista da sobrecarga dos atuais programas de ensino médio? -
manter o tom acessível de quem pretende ser compreendido por O curioso é que os primeiros adversários da filosofia censura-
adolescentes sem por isso deixar de tratá-los como iguais e sem re- vam-na justamente por ser "coisa de criança", adequada como pas-
nunciar, tampouco, a ser útil a outros leitores não menos neófitos satempo da formação nos primeiros anos mas imprópria para adul-
mas adultos? Pois essa é minha ousada pretensão, de fato. Conso- tos feitos e direitos. Por exemplo, Calicles, que pretende rebater a
lo-me lembrando que, segundo o poeta surrealista René Crevel, opinião de Sócrates de que "é melhor sofrer uma injustiça do que a
"nenhuma ousadia é fatal" . causar". Segundo Calicles, o verdadeiramente justo, digam as leis

* Tradução livre: "Árvore de sangue, o homem sente, pensa, floresce / e dá


1. Meditaciones dei Quijote, de J. Ortega y Gasset, Alianza Editorial, Madri. frutos insólitos: palavras. / Enlaçam-se o sentido e o pensado, I tocamos as idéias:
[Traduzido a partir do texto citado pelo autor.] são corpos e são números." (N. da T.)

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ceber da filosofia? A única resposta que nos resignaremos a daré
o que disserem, é que os mais fortes se imponham aos fracos, os que a que provavelmente o próprio Sócrates teria oferecido: nenhuma.
valem mais aos que valem menos e os capazes aos incapazes. A lei Somos informados pelas ciências da natureza, pelos técnicos, pelos
dirá que é pior cometer uma injustiça do que sofrê-la, mas o natural jornais, por alguns programas de televisão ... mas não há informa-
é considerar pior sofrê-la do que cometê-la. Tudo o mais são firulas ção "filosófica". Conforme apontou Ortega, anteriormente citado,
filosóficas , às quais o já adulto Calicles reserva todo o seu despre- a filosofia é incompatível com as notícias, e a informação é feita de
zo: "A filosofia, amigo Sócrates, é certamente uma ocupação grata, notícias. Muito bem, mas é só informação que buscamos para en-
se alguém se dedica a ela com moderação nos anos juvenis; mas, tendermos melhor a nós mesmos e o que nos rodeia? Suponhamos
quando se dá atenção a ela por mais tempo do que é devido, é a ruí- que recebemos uma notícia qualquer, como por exemplo esta: um
na dos homens." 1 Calicles aparentemente não vê nada de mau em número x de pessoas morre diariamente de fome em todo o mundo.
ensinar filosofia aos jovens, embora considere o vício de filosofar E, recebida a informação, perguntamos (ou nos perguntamos) o que
um pecado ruinoso depois que já se cresceu. Digo "aparentemente" devemos pensar desse fato. Pediremos opiniões, algumas das quais
porque não podemos esquecer que Sócrates foi condenado a beber nos dirão que essas mortes se devem a desajustes no ciclo macroe-
cicuta acusado de corromper os jovens seduzindo-os com seu pen- conômico global, outras falarão da superpopulação do planeta, al-
samento e sua palavra. Afinal de contas, se a filosofia desapareces- guns clamarão contra a distribuição injusta de bens entre possuido-
se completamente, para pequenos e grandes, o enérgico Calicles - res e despossuídos, ou invocarão a vontade de Deus, ou a fatalida-
partidário da razão do mais forte - não ficaria muito desgostoso ... de do destino ... E não faltará gente simples e cândida, nosso portei-
Se quisermos resumir todas as repreensões contra a filosofia ro ou o jornaleiro, para comentar: "Em que mundo nós vivemos!"
em quatro palavras, bastarão estas: não serve para nada. Os filóso- Então nós, como um eco mas trocando a exclamação pela interro-
fos empenham-se em saber mais do que ninguém de tudo o que se gação, nos perguntaremos: "Isso mesmo·: em que mundo vivemos?"
possa imaginar, embora na realidade não sejam mais do que char- Não há resposta científica para esta última pergunta, pois evi-
latães amigos do palavrório vazio. E então quem sabe de verdade o dentemente não nos conformaremos com respostas do tipo "vive-
mos no planeta Terra", "vivemos exatamente num mundo em que x
que é preciso saber sobre o mundo e a sociedade? Pois os cientis-
pessoas morrem diariamente de fome", nem sequer com que nos di-
tas, os técnicos, os especialistas, os que são capazes de dar ieforma-
gam "vivemos num mundo muito injusto" ou "um mundo amaldi-
ções válidas sobre a realidade. No fundo, os filósofos se empenham
çoado por Deus por causa dos pecados dos seres humanos" (por que
em falar do que não sabem: o próprio Sócrates o reconhecia, ao di-
é injusto o que acontece?, em que consiste a maldição divina e quem
zer "só sei que não sei nada". Se não sabe nada, por que vamoses-
a atesta?, etc.). Em resumo, não queremos mais informações sob"'re
cutá-lo, quer sejamos jovens ou maduros? O que temos que fazer é
o que acontece, mas saber o que significa a informação que temos,
aprender com os que sabem, não com os que não sabem. Sobretu- como devemos interpretá-la e relacioná-la com outras informações
do hoje em dia, quando as ciências avançaram tanto e já sabemos anteriores ou simultâneas, o que implica tudo isso na consideração
como funciona a maioria das coisas ... e como fazer funcionar ou- geral da realidade em que vivemos, como podemos ou devemos nos
tras, inventadas por cientistas aplicados. comportar na situação assim estabelecida. Essas são precisamente as
Assim, pois, na época atual, a das grandes descobertas técni- perguntas das quais se ocupa o que vamos chamar de filosofia . Di-
cas, no mundo do microchip e do acelerador de partículas, no rei- gamos que ocorrem três níveis diferentes de compreensão:
no da Internet e da televisão digital... que informação podemos re-
a) a ieformação, que nos apresenta os fatos e os mecanismos
primários do que acontece;
1. Górgias, de Platão, 481 e a 484d. [Traduzido a partir do texto citado pelo autor.]

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b) o conhecimento, que reflete sobre a informação recebida, do religioso e simbólico da Idade Média, embora interpretado com
hierarquiza sua importância significativa e busca princípios gerais grande liberdade subjetiva. Um trabalho paciente pode decifrar -
para ordená-la; ou tentar decifrar - o conteúdo alegórico de muitas de suas imagens
c) a sabedoria, que vincula o conhecimento às opções vitais ou segundo a iconografia da época; o resto bem poderia ser elucidado
valores que podemos escolher, tentando estabelecer como viver me- de acordo com a hermenêutica onírica da psicanálise de Freud. Por
lhor de acordo com o que sabemos. outro lado, O jardim das delícias é uma obra do período médio na
produção do artista, como As tentações de santo Antônio, conserva-
Creio que a ciência se move entre o nível a) e o b) de conheci- da no Museu de Lisboa, antes de ele mudar a escala de representa-
mento, ao passo que a filosofia opera entre o b) e o c). De modo que ção e a disposição das figuras em seus quadros posteriores, etc.
não há informação propriamente filosófica, mas pode haver conhe- Poderíamos imaginar ainda outra via para entender o quadro,
cimento filosófico, e gostaríamos de chegar a que houvesse também uma perspectiva que não ignorasse nem descartasse nenhuma das
sabedoria filosófica. É possível conseguir tal coisa? Sobretudo: é anteriores mas que pretendesse abrangê-las juntamente na medida
possível ensinar tal coisa? do possível, aspirando a compreendê-lo em sua totalidade. Desse
Vamos buscar outra perspectiva a partir de um novo exemplo ponto de vista mais ambicioso, O jardim das delícias é um objeto
ou, para dizer mais exatamente, utilizando uma metáfora. Vamos material, mas também um testemunho histórico, uma lição de mi-
imaginar que estamos no museu do Prado, diante de um de seus qua- tologia, uma sátira das ambições humanas e uma expressão plásti-
dros mais famosos, O jardim das delícias, de Hieronymus Bosch. ca da personalidade mais recôndita de seu autor. Sobretudo, é algo
Que formas de entendimento podemos ter dessa obra-prima? Cabe profundamente significativo que interpela pessoalmente cada um
em primeiro lugar realizarmos uma análise físico-química da textu- de nós que o vemos tantos séculos depois de ter sido pintado, que
ra da tela empregada pelo pintor, da composição dos diversos pig- se refere ao que sabemos, fantasiamos ou desejamos da realidade e
mentos que se espalham por cima dela ou até utilizarmos raios X que nos remete às outras formas simbólicas ou artísticas de habitar
para localizar vestígios de outras imagens ou esboços ocultos sob a o mundo, ao que nos faz pensar, rir ou cantar, à condição vital com-
pintura principal. Afinal de contas, o quadro é um objeto material, partilhada por todos os seres humanos vivos, mortos ou ainda não
uma coisa entre as outras coisas, que pode ser pesada, medida, ana- nascidos ... Esta última perspectiva, que nos leva do que é o quadro
lisada, esmiuçada, etc. Mas também é, sem dúvida, uma superfície ao que somos nós, e depois ao que é a realidade toda para voltar de
em que, por meio de cores e formas, se representa um certo núme- novo ao próprio quadro, é o ângulo de consideração que podemos
ro de figuras. De modo que para entender o quadro também cabe chamar filosófico. E, é claro, há uma perspectiva de entendimento
realizar o inventário completo de todos os personagens e cenas que filosófico sobre cada coisa, não exclusivamente sobre as obras-pri-
aparecem nele, quer sejam pessoas, animais, monstros demoníacos, mas da pintura. '\
vegetais, coisas, etc., assim como constatar sua distribuição em ca- Vamos mais uma vez tentar precisar a diferença essencial en-
da um dos três corpos do tríptico. Porém tantos bonecos e maravi- tre ciência e filosofia. A primeira coisa que salta aos olhos não é o
lhas não são meramente gratuitos nem apareceram um dia por aca- que as distingue mas o que as aproxima: tanto a ciência como a fi-
so na superfície da tela. Outra maneira de entender a obra será losofia tentam responder a perguntas suscitadas pela realidade. De
constatar que seu autor (a quem os contemporâneos também se re- fato, em suas origens, ciência e filosofia estiveram unidas, e só ao
feriam com o nome de Jeroen Van Aeken) nasceu em 1450 e mor- longo dos séculos a fisica, a química, a astronomia ou a psicologia fo-
reu em 1516. Foi um pintor de destaque da escola flamenga, cujo ram se tomando independentes de sua matriz filosófica comum. Atual-
estilo direto, rápido e de tons delicados marca o final da pintura mente, as ciências pretendem explicar como as coisas são constituí-
medieval. Os temas que representa, no entanto, pertencem ao mun- das e como elas funcionam, ao passo que a filosofia se concentra

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antes no que elas significam para nós. A ciência deve adotar o pon-
perguntar se é mau furar a fila do cinema sem pagar, mas um fiÍó-
to de vista impessoal para falar sobre todos os temas (inclusive quan-
sofo perguntará: por que uma ação é boa ou má?" 2
do estuda as próprias pessoas!), ao passo que a filosofia permane-
Em todo caso, tanto as ciências como as filosofias respondem
ce sempre consciente de que o conhecimento tem necessariamente
a perguntas suscitadas pelo real. Mas a essas perguntas as ciências
um sujeito, um protagonista humano. A ciência aspira a conhecer o
que existe e o que acontece; a filosofia põe-se a refletir sobre a im- dão soluções, ou seja, respostas que satisfazem de tal modo à ques-
portância que tem para nós o que sabemos que acontece e o que tão colocada que a anulam e dissolvem. Quando uma resposta cien-
existe. A ciência multiplica as perspectivas e as áreas de conheci- tífica funciona como tal já não tem sentido insistir na pergunta, que
mento, ou seja, ela fragmenta e especializa o saber; a filosofia se deixa de ser interessante (uma vez estabelecido que a composição
empenha em relacioná-lo com tudo o mais, tentando enquadrar os da água é H 20, deixa de nos interessar continuar perguntando qual
saberes em um panorama teórico que sobrevoe a diversidade a par- a composição da água e esse conhecimento revoga automaticamen-
tir dessa aventura unitária que é pensar, ou seja, ser humano. A te as outras soluções propostas por cientistas anteriores, embora
ciência desmonta as aparências do real em elementos teóricos invi- abra a possibilidade de novas interrogações). Em contrapartida, a
síveis, ondulatórios ou corpusculares, matematizáveis, em elemen- filosofia não dá soluções, mas respostas, que não anulam as per-
tos abstratos não percebidos; sem ignorar nem desprezar essa aná- guntas mas nos permitem conviver racionalmente com elas, embo-
lise, a filosofia resgata a realidade humanamente vital do aparen- ra continuemos a formulá-las sempre de novo: por mais respostas
te, na qual transcorre a peripécia de nossa existência concreta (por filosóficas que conheçamos à pergunta sobre o que é a justiça ou o
exemplo, a ciência nos revela que as árvores e as mesas são com- que é o tempo, nunca deixaremos de nos perguntar o que é o tem-
postas por elétrons, nêutrons, etc., mas a filosofia, sem minimizar po ou a justiça nem descartaremos como ociosas ou "superadas" as
essa revelação, nos faz voltar a uma realidade humana entre árvo- respostas dadas por filósofos anteriores a essas questões. As res-
res e mesas). A ciência busca saberes e não meras suposições; a fi- postas filosóficas não solucionam as perguntas do real (embora às
losofia quer saber o que nos faz supor o conjunto de nossos sabe- vezes alguns filósofos achassem isso ... ) mas antes cultivam a per-
res ... e até se são verdadeiros saberes ou ignorâncias disfarçadas!
gunta, ressaltam o essencial desse perguntar e nos ajudam a conti-
Pois a filosofia costuma perguntar-se principalmente sobre ques-
nuar nos perguntando, a perguntar cada vez melhor, a nos humani-
tões que os cientistas (e evidentemente as pessoas comuns) já dão
zar na convivência perpétua com a interrogação. Pois o que é o ho-
como claras ou evidentes. Bem o diz Thomas Nagel, atualmente
professor de filosofia em uma universidade de Nova York: "A prin- mem senão o animal que pergunta e que continuará perguntando
cipal ocupação da filosofia é questionar e esclarecer algumas idéias para além de qualquer resposta imaginável?
muito comuns que todos nós usamos todos os dias sem pensar so- Há perguntas que admitem solução satisfatória, e essas são as
bre elas. Um historiador pode se perguntar o que aconteceu em um que mais a ciência se faz; outras achamos impossível que algum dia
determinado momento do passado, mas o filósofo perguntará: o cheguem a ser totalmente solucionadas, e responder-lhes - sempre
que é o tempo? Um matemático pode investigar as relações entre os insatisfatoriamente - é o empenho da filosofia. Historicamente
números, mas um filósofo perguntará: o que é um número? Um fí- aconteceu que algumas. perguntas começaram sendo de competên-
sico irá perguntar do que são feitos os átomos ou o que explica a cia da filosofia - a natureza e o movimento dos astros, por exem-
gravidade, mas um filósofo perguntará: como podemos saber que
existe algo fora de nossas mentes? Um psicólogo pode investigar
como as crianças aprendem uma linguagem, mas um filósofo per- 2. What does it ali mean?, de T. Nagel, Oxford University Press, Oxford. [Para
este livro, tradução feita a partir do texto citado pelo autor.] (Trad. bras. Uma breve
guntará: por que uma palavra significa algo? Qualquer um pode se
introdução à filosofia , São Paulo, Martins Fontes, 2001.)

8
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plo - e depois passaram a receber solução científica. Em outros ca- tarefa. Uma pessoa pode investigar cientificamente por outra, mas
sos, questões que pareciam cientificamente resolvidas voltaram de- não pode pensar filosoficamente por outra... , embora os grandes fi-
pois a ser tratadas a partir de novas perspectivas científicas, estimu- lósofos tanto tenham ajudado todos nós a pensar. Talvez pudésse-
ladas por dúvidas filosóficas (a passagem da geometria euclidiana mos acrescentar que as descobertas da ciência facilitam a tarefa dos
para as geometrias não-euclidianas, por exemplo). Deslindar que cientistas posteriores, ao passo que as contribuições dos filósofos
perguntas parecem hoje pertencer ao primeiro grupo e quais ao se- tornam cada vez mais complexo (embora também mais rico) o em-
gundo é uma das tarefas críticas mais importantes dos filósofos ... e penho daqueles que se põem a pensar depois deles. Por isso, prova-
dos cientistas. É provável que certos aspectos das perguntas das velmente, Kant observou que não se pode ensinar filosofia, mas
quais hoje a filosofia se ocupa recebam solução científica amanhã, apenas a filosofar: pois não se trata de transmitir um saber já con-
e com certeza as futuras soluções científicas ajudarão decisivamen- cluído por outros que qualquer um pode aprender como quem
te a reformulação das respostas filosóficas vindouras, e não seria a aprende as capitais da Europa, mas de um método, ou seja, um ca-
primeira vez que a tarefa dos filósofos teria orientado ou inspirado minho para o pensamento, uma maneira de ver e de argumentar.
alguns cientistas. Não há por que haver oposição irredutível, muito "Só sei que não sei nada'', comenta Sócrates, e trata-se de uma
menos menosprezo mútuo, entre ciência e filosofia, tal como acre- afirmação que deve ser tomada - a partir do que Platão e Xenofon-
ditam os maus cientistas e os maus filósofos. A única coisa de que te contaram sobre quem a proferiu - de modo irônico. "Só sei que
podemos ter certeza é que nunca nem a ciência nem a filosofia ca- não sei nada" deve ser entendido como: "Não me satisfaz nenhum
recerão de perguntas às quais tentar responder... dos saberes com que vocês tanto se contentam. Se saber consiste
Hoje, no entanto, há uma outra diferença importante entre nisso, não devo saber nada, pois vejo objeções e falta de fundamen-
ciência e filosofia, que já não se refere aos resultados de ambas mas to nas certezas de vocês. Mas pelo menos sei que não sei, isto é, en-
ao modo de chegar a eles. Um cientista pode utilizar as soluções en- contro argumentos para não me fiar no que comumente se chama
contradas por cientistas anteriores sem necessidade de percorrer saber. Talvez vocês saibam realmente tantas coisas como parece, e,
por si mesmo todos os raciocínios, cálculos e experimentos que le- se é assim, deveriam ser capazes de responder a minhas perguntas
varam a descobri-las; mas quando alguém quer filosofar não pode e esclarecer minhas dúvidas. Vamos examinar juntos o que se cos-
contentar-se em aceitar as respostas de outros filósofos ou citar sua tuma chamar de saber e descartar tudo o que os supostos especia-
autoridade como argumento indiscutível: nenhuma resposta filosó- listas não possam resguardar do vendaval de minhas interrogações.
\ \
fica será válida para ele se não voltar a percorrer por si mesmo o Não é a mesma coisa saber de fato e limitar-se a repetir o que co-
caminho traçado por seus antecessores ou tentar outro novo apoia- mumente se admite como sabido. Saber que não se sabe é preferí-
do nessas perspectivas alheias que deverá ter considerado pessoal- vel a considerar sabido o que nós mesmos não pensamos a fundo.
mente. Em suma, o itinerário filosófico tem que ser pensado indi- Uma vida sem exame, isto é, a vida de quem não pondera as res-
vidualmente por cada um, mesmo que parta de uma tradição inte- postas que lhe são oferecidas para as perguntas essenciais nem ten-
lectual muito rica. As conquistas da ciência estão à disposição de ta responder-lhes pessoalmente, não vale a pena ser vivida." Ou
quem queira consultá-las, mas as da filosofia só servem a quem de- seja, a filosofia, antes de propor teorias que resolvam nossas per-
cida meditá-las por si mesmo. plexidades, deve ficar perplexa. Antes de oferecer as respostas ver-
Dito de modo mais radical, não sei se excessivamente radical: dadeiras, deve deixar claro por que as respostas falsas não a con-
os avanços científicos têm como objetivo melhorar nosso conheci- vencem. Uma coisa é saber depois de ter pensado e discutido, ou-
mento coletivo da realidade, ao passo que filosofar ajuda a transfor- tra muito diferente é adotar os saberes que ninguém discute para
mar e ampliar a visão pessoal do mundo de quem se dedica a essa não ter que pensar. Antes de chegar a saber, filosofar é defender-se

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dos que acreditam saber e só fazem repetir os erros alheios. Mais Capítulo um
importante do que estabelecer conhecimentos é ser capaz de criti-
car o que conhecemos mal ou não conhecemos, embora acredite-
A morte, para começar
n_ios conhecê-lo: antes de saber por que afirma o que afirma, o fi-
losofo deve saber pelo menos por que duvida do que os outros afir-
mam ou por que não se decide a afirmar por sua vez. E essa função
negativa, defensiva, crítica, já tem um valor em si mesma mesmo
que não se vá além disso e mesmo que no mundo dos qu~ acredi-
tam que sabem o filósofo seja o único que aceita não saber mas
pelo menos conhece sua ignorância.
Ensinar a filosofar ainda, no final do século XX, quando todo
o mundo parece querer apenas soluções imediatas e pré-fabricadas,
quando as perguntas que se arriscam ao insolúvel são tão incômo-
das? Coloquemos a questão de outra maneira: acaso a principal ta-
Lembro-me muito bem da primeira vez em que compreendi de
refa da educação não é humanizar de maneira plena?, há outra di-
verdade que mais cedo ou mais tarde eu tinha que morrer. Eu devia
mensão mais propriamente humana, mais necessariamente humana
ter por volta de dez anos, talvez nove, eram quase onze horas de
do que a inquietação que há séculos leva a filosofar?, a educação
uma noite qualquer e já estava deitado. Meus dois irmãos, que dor-
pode prescindir dela e continuar sendo humanizadora no sentido li-
miam comigo no mesmo quarto, roncavam tranqüilamente. No quar-
vre e antidogmático necessário à sociedade democrática na qual
to ao lado meus pais falavam sem estridência enquanto se despiam,
queremos viver?
e minha mãe tinha ligado o rádio, que deixaria tocando até tarde,
De acordo, vamos aceitar que é preciso tentar ensinar filosofia
para prevenir meus pavores noturnos. De repente, sentei-me na
aos jovens, ou melhor, ensiná-los a filosofar. Mas como levar a
cama, no escuro: eu também ia morrer!, era o que me estava reser-
cabo esse ensino, que só pode ser um convite para que cada um fi-
vado, o que me cabia irremediavelmente!, não havia escapatória!
losofe por si mesmo? E, antes de tudo, por onde começar?
Não só teria que suportar a morte das minhas duas avós e do meu
querido avô, e a dos meus pais, como eu, eu mesmo, não teria ou-
tro remédio senão morrer. Que coisa tão estranha e terrível, tão pe-
rigosa, tão incompreensível, mas, sobretudo, que coisa tão irreme-
diavelmente pessoal!
Aos dez anos, acreditamos que todas as coisas importantes só
podem acontecer com os adultos: de repente revelou-se para mim a
primeira grande coisa importante - de fato, a mais importante de
todas - que sem dúvida nenhuma ia acontecer comigo. Eu ia mor-
rer, naturalmente dentro de muitos, muitíssimos anos, depois que ti-
vessem morrido meus seres queridos (todos menos os meus irmãos,
mais novos do que eu e que portanto sobreviveriam a mim), mas de
qualquer modo eu ia morrer. Ia morrer, eu, apesar de ser eu. A mor-
te já não era um assunto alheio, um problema dos outros, nem uma

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lei geral que me atingiria quando fosse adulto, ou seja: quando fos- com um corpo que fala e anda, cercado de gente como a gente, nao
se outro. Porque também me dei conta, então, de que quando che- entre os espíritos ... por mais fantástico que seja ser espírito. Os es-
gasse a minha morte eu continuaria sendo eu, tão eu mesmo quan- píritos também estão mortos, também tiveram que padecer a morte
to agora que me dava conta disso. Eu haveria de ser o protagonista estranha e horrível, ainda a padecem." E assim, a partir da revela-
da verdadeira morte, a mais autêntica e importante, a morte da qual ção de minha morte impensável, comecei a pensar.
todas as outras mortes seriam apenas ensaios dolorosos. Minha Talvez pareça estranho que um livro que pretenda iniciar às
morte, a do meu eu! Não a morte dos "você", por mais queridos que questões filosóficas se abra com um capítulo dedicado à morte.
fossem, mas a morte do único "eu" que eu conhecia pessoalmente! Será que um tema tão lúgubre não irá desanimar os neófitos? Não
Claro que aconteceria dali a muito tempo mas .. . será que já não me seria melhor começar falando da liberdade ou do amor? Mas já dis-
estava acontecendo, num certo sentido? O fato de me dar conta de se que proponho convidar à filosofia a partir de minha própria ex-
que ia morrer - eu, eu mesmo - também não era parte da própria periência intelectual, e em meu caso foi a revelação da morte - de
morte, aquela coisa tão importante que, apesar de ser ainda uma minha morte - como certeza que me fez começar a pensar. E acon-
criança, estava acontecendo agora comigo e com ninguém mais? tece que a evidência da morte não só nos deixa pensativos como
Tenho certeza de que foi nesse momento que afinal comecei a nos toma pensadores. Por um lado, a consciência da morte nos faz
pensar. Isto é, que compreendi a diferença entre aprender ou repe- amadurecer pessoalmente: todas as crianças se acham imortais (as
tir pensamentos alheios e ter um pensamento verdadeiramente meu, muito pequenas até pensam que são onipotentes e que o mundo gira
um pensamento que me comprometesse pessoalmente, não um pen- em tomo delas; salvo nos países ou nas famílias atrozes, em que as
samento alugado ou emprestado como uma bicicleta que nos cedem crianças vivem desde muito cedo ameaçadas pelo extermínio e os
para dar uma volta. Um pensamento que se apoderava de mim mui- olhos infantis surpreendem por seu cansaço mortal, por sua vetera-
to mais do que eu podia me apoderar dele. Um pensamento que eu nice anormal...), mas depois crescemos quando a idéia da morte
não podia pegar ou largar à vontade, um pensamento com o qual eu cresce dentro de nós. Por outro lado, a certeza pessoal da morte nos
não sabia o que fazer, mas com o qual era evidente que urgia fazer humaniza, ou seja, nos transforma em verdadeiros humanos, em
alguma coisa, pois não era possível ignorá-lo. Embora ainda con- "mortais". Entre os gregos, "humano" e "mortal" se dizia com a
servasse sem crítica as crenças religiosas de minha educação piedo- mesma palavra, como deve ser.
sa, nem por um momento elas me pareceram alívios da certeza da As plantas e os animais não são mortais porque não sabem que
morte. Um ou dois anos antes eu já tinha visto meu primeiro cadá- vão morrer, não sabem que têm que morrer: eles morrem, no entan-
ver, por surpresa (e que surpresa!) um irmão leigo recém-falecido to sem nunca conhecer sua vinculação individual, a de cada um de-
exposto no átrio da igreja dos jesuítas da rua Garibay, em San Se- les, com a morte. As feras pressentem o perigo, se entristecem com
bastián, onde minha família e eu assistíamos à missa dominical. Pa- a doença ou a velhice, mas ignoram (ou parecem ignorar?) seu
recia uma estátua cérea, como os Cristos jacentes que eu vira em al- abraço essencial com a necessidade da morte. Não é mortal quem
guns altares, mas com a diferença de que eu sabia que antes ele es- morre, mas quem tem certeza de que vai morrer. Embora também
tava vivo e agora não mais. "Foi para o céu", disse minha mãe, um possamos dizer que, por isso mesmo, nem as plantas nem os ani-
pouco incomodada com um espetáculo do qual sem dúvida teriam mais estão vivos no mesmo sentido em que nós estamos. Os autên-
me poupado de bom grado. E eu pensei: "Bem, pode estar no céu, ticos seres viventes somos só nós, os mortais, porque sabemos que
mas também está aqui, morto. O que certamente ele não está é vivo, deixaremos de viver e que exatamente nisso consiste a vida. Alguns
em lugar nenhum. Pode ser que estar no céu seja melhor do que es- dizem que os deuses imortais existem, e outros, que eles não exis-
tar vivo, mas não é a mesma coisa. Viver a gente vive neste mundo, tem, mas ninguém diz que estão vivos; só Cristo foi chamado de

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"Deus vivo", e isso porque dizem que ele encarnou, se fez homem, Todo A é B
viveu como nós e como nós teve que morrer. CéA
Portanto não é um capricho nem um anseio de originalidade logo
começar a filosofia falando da consciência da morte. Também não CéB,
pretendo dizer que o tema único, nem sequer principal, da filosofia
seja a morte. Pelo contrário, creio antes que a filosofia trata é da vi- continuamos raciocinando formalmente bem, no entanto as impli-
da, do que significa viver e de como viver melhor. No entanto é a cações materiais do assunto mudaram consideravelmente. Não me
morte prevista que, ao nos tornar mortais (isto é, humanos), tam- inquieta ser B se sou A, mas não deixa de me alarmar que por ser
bém nos transforma em viventes. O indivíduo começa a pensar a homem eu deva ser mortal. No silogismo citado em primeiro lugar,
vida quando se dá por morto. Falando pela boca de Sócrates no diá- além do mais, fica estrita e claramente estabelecida a passagem en-
logo Fédon, Platão diz que filosofar é "preparar-se para morrer". tre uma constatação genérica e impessoal - a de que a todos os hu-
No entanto, o que pode significar "preparar-se para a vida" a não manos cabe morrer - e o destino individual de alguém (Sócrates,
ser pensar sobre a vida humana (mortal) que vivemos? É justamen- você, eu ... ) que é humano, o que em princípio parece coisa presti-
te a certeza da morte que faz da vida - minha vida, única e irrepe- giosa e sem más conseqüências para depois transformar-se em sen-
tível - algo tão mortalmente importante para mim. Todas as tare- tença fatal. Uma sentença já cumprida no caso de Sócrates, ainda
fas e empenhos da nossa vida são formas de resistência à morte, pendente no nosso. Bela diferença existe entre saber que com todos
que sabemos inevitável. É a consciência da morte que transforma a
deve acontecer uma coisa terrível e saber que deve acontecer comi-
vida em um assunto muito sério para cada um, algo que deve ser
go! O agravamento da inquietude entre a afirmação geral e a que
pensado. Algo misterioso e tremendo, uma espécie de milagre pre-
leva meu nome como sujeito me revela o caráter único e irredutível
cioso pelo qual devemos lutar, em favor do qual temos que nos es-
de minha individualidade, o assombro que me constitui:
forçar e refletir. Se a morte não existisse, haveria muito o que ver e
muito tempo para vê-lo, mas muito pouco o que fazer (fazemos
quase tudo para evitar-morrer) e nada em que pensar. Murieron otros, pero ello aconteció en el pasado,
Há gerações, os aprendizes de filósofos costumam iniciar-se que es la estación (nadie lo ignora) más propicia
no raciocínio lógico com este silogismo: a la muerte.
?Es posible que yo, súbdito de Yaqub Almansur,
Todos os homens são mortais; muera como tuvieron que morir las rosas y
Sócrates é homem Aristóteles? 1
logo
Sócrates é mortal. Morreram outros, morreram todos, morrerão todos, mas... e
eu? Eu também? Note-se que a ameaça implícita, tanto no silogismo
Não deixa de ser interessante que a tarefa do filósofo comece citado anteriormente como nos prodigiosos versos de Borges, apóia-
lembrando o nome ilustre de um colega condenado à morte, em se no fato de os protagonistas individuais (Sócrates, o mouro medie-
uma argumentação que por certo também condena todos nós à mor-
te. Pois é claro que o silogismo é igualmente válido se em lugar de
1. Cuarteta, de J. L. Borges, em "Obra poética completa", Alianza Editorial,
"Sócrates" colocamos o seu nome, leitor, ou o meu ou o de qual- Madri. [Tradução livre: "Morreram outros, mas isso aconteceu no passado,/ que é a
quer outra pessoa. Porém seu significado vai além da mera corre- estação (ninguém o ignora) mais propícia à morte./ É possível que eu, súdito de Ya-
ção lógica. Se dizemos qub Almansur, / morra como tiveram que morrer as rosas e Aristóteles?"]

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val súdito de Yaqub Almansur ou Alamnzor, Aristóteles ... ) já esta- po de mais igualitário: nesse transe, ninguém é mais nem menos do
rem necessariamente mortos. Eles também tiveram que considerar que ninguém, sobretudo ninguém pode ser outro que não o que é.
para si, em sua época, o mesmo destino irremediável que hoje con- Ao morrer, cada um é definitivamente ele mesmo e ninguém mais.
sidero para mim: e nem por o terem considerado escaparam a ele ... Do mesmo modo que ao nascer trazemos ao mundo o que nunca
De modo que a morte não só é necessária como é o protótipo antes havia sido, ao morrer levamos o que nunca voltará a ser.
mesmo do necessário em nossa vida (se o silogismo começasse es- Sabemos mais uma coisa da morte: que além de ser certa ela é
tabelecendo que "todos os homens comem, Sócrates é homem, perpetuamente iminente. Morrer não é coisa de velhos nem de
etc.", seria igualmente justo de um ponto de vista fisiológico, mas doentes: desde o primeiro momento em que começamos a viver já
não teria a mesmaforça de persuasão). Pois bem, além de sabê-la estamos prontos para morrer. Como diz a sabedoria popular, nin-
necessária a ponto de exemplificar a própria necessidade ("neces- guém é tão jovem que não possa morrer nem tão velho que não pos-
sário" é etimologicamente aquilo que não cessa, que não cede, com sa viver mais um dia. Por mais sadios que estejamos, a espreita da
que não cabe nenhuma transação nem pacto), que outras coisas co- morte não nos abandona e não é raro alguém morrer - por aciden-
nhecemos sobre a morte? Certamente bem poucas. Uma delas é que te ou crime - em perfeito estado de saúde. E já disse muito bem
a morte é absolutamente pessoal e intransferível: ninguém pode mor- Montaigne: não morremos porque estamos doentes, mas porque es-
rer por outro. Isto é, é impossível que alguém, com sua própria tamos vivos. Pensando bem, sempre estamos à mesma distância da
morte, possa evitar a outro definitivamente o transe de também mor- morte. A diferença importante não é entre estar sadio ou doente, em
rer, mais cedo ou mais tarde. O padre Maximilian Kolbe, que se segurança ou em perigo, mas entre estar vivo ou morto, ou seja, en-
ofereceu como voluntário num campo de concentração nazista para tre estar e não estar. E não há meio-termo: ninguém pode sentir-se
substituir um judeu que estavam levando para a câmara de gás, só de fato "meio morto", isso é apenas uma simples forma figurada de
o substituiu diante dos carrascos, mas não diante da própria mor- falar, pois enquanto há vida tudo pode se arranjar, mas a morte é
te. Com seu heróico sacrifício concedeu-lhe um prazo mais longo necessariamente irrevogável. Enfim, o que caracteriza a morte é nun-
de vida e não a imortalidade. Numa tragédia de Eurípides, a sub- ca podermos dizer que estamos resguardados dela ou que nos afas-
missa Alceste se oferece para descer a Hades - ou seja, para mor- tamos, ainda que momentaneamente, de seu império: mesmo que às
rer - em lugar de seu marido Admeto, um egoísta perigoso. No fi- vezes não seja provável, a morte sempre é possível.
nal, Hércules tem que descer para resgatá-la do reino dos mortos e Fatalmente necessária, perpetuamente iminente, intimamente
atenuar o desaforo. Mas nem sequer a abnegação de Alceste teria intransferível, solitária ... o que sabemos sobre a morte é muito se-
conseguido que Admeto escapasse para sempre de seu destino mor- guro (referem-se a ela alguns dos conhecimentos mais indubitáveis
tal, só teria podido retardá-lo: a dívida que todos nós temos com a que temos) mas não a torna mais familiar nem menos inescrutável
morte deve ser paga por cada um com a própria vida, não com ou- para nós. No fundo, a morte continua sendo o que há de mais des-
tra. Nem sequer outras funções biológicas essenciais, como comer conhecido. Sabemos quando alguém está morto mas ignoramos o
ou fazer amor, parecem tão intransferíveis: afinal, alguém pode que é morrer visto de dentro. Creio saber mais ou menos o que é
consumir minha ração no banquete ao qual eu deveria ter compare- morrer, mas não o que é eu morrer. Algumas grandes obras literá-
cido ou fazer amor com a pessoa que eu teria podido ou desejado rias - como o incomparável relato de Leon Tolstói A morte de Ivan
amar também, inclusive poderiam me alimentar à força ou me fa- Ilitch, ou a tragicomédia de Eugene Ionesco O rei está morrendo -
zer renunciar ao sexo para sempre. Contudo a morte, minha morte podem nos aproximar de uma melhor compreensão do assunto, em-
ou a de outro, sempre tem nome e sobrenomes insubstituíveis. Por bora deixando sempre abertas as interrogações fundamentais.
isso a morte é o que há de mais individualizador e ao mesmo tem- Quanto ao mais, através dos séculos houve muitas lendas sobre a

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morte, muitas promessas e ameaças, muitas fofocas, relatos muito
"existência" porque à tal promessa não cabe o nome de "vida" ver-
antigos - tão antigos, ao que tudo indica, quanto a espécie humana,
dadeira. A vida, no único sentido da palavra que conhecemos, é
ou seja, quanto esses animais que se tornaram humanos ao come-
constituída de mudanças, oscilações entre o melhor e o pior, de im-
çar a se perguntar sobre a morte - e que constituem a base univer-
previstos. Uma eterna bem-aventurança ou uma eterna condenação
sal das religiões. Pensando bem, todos os deuses do santoral antro-
são formas intermináveis de congelamento no mesmo gesto, mas
pológico são deuses da morte, deuses que se ocupam do significado
não modalidades de vida. De modo que nem mesmo as religiões
da morte, deuses que distribuem prêmios, castigos ou reencarnação,
com maior garantia post mortem asseguram a "vida" eterna: só pro-
deuses que guardam a chave da vida eterna em face dos mortais.
metem a eterna existência ou duração, o que não é a mesma coisa
Antes de tudo, os deuses são imortais: nunca morrem e, quando in-
que a vida humana, que nossa vida.
ventam de morrer, depois ressuscitam ou se transformam em outra
Além do mais, como poderíamos "viver" de fato onde faltasse
coisa, passam por uma metamorfose. Em todos os lugares e em to-
a possibilidade de morrer? Miguel de Unamuno sustentou com fér-
dos os tempos a religião serviu para dar sentido à morte. Se a mor-
reo afinco que saber-nos mortais como espécie mas não querer mor-
te não existisse, não haveria deuses, ou melhor, os deuses seríamos
rer como pessoas é justamente o que individualiza cada um de nós.
nós, os humanos mortais, e viveríamos no ateísmo divinamente ...
Repeliu vigorosamente a morte - sobretudo em seu livro a_dmirável
As lendas mais antigas não pretendem nos consolar da morte
Do sentimento trágico da vida - porém, não com menos vigor, sus-
mas apenas explicar sua inevitabilidade. A primeira grande epopéia
tentou que neste mundo e no outro, caso o houvesse,. queria ~o~ser­
que se conserva, a história do herói Gilgamesh, foi composta na Su-
var sua personalidade, ou seja, não se limitar a contmuar ex1stm~o
méria, aproximadamente 2.700 anos antes de Jesus Cristo. Gilga-
de qualquer modo, mas como don Miguel de Unamuno y Jugo. P?1s
mesh e seu amigo Enkidu, dois valentes guerreiros e caçadores, en-
bem, aqui se coloca um sério problema teórico, pois, se nossa m-
frentam a deusa Ushtar, que mata Enkidu. Então Gilgamesh sai em
dividualidade pessoal provém do próprio conhecimento da morte e
busca do remédio para a morte, uma erva mágica que renova a ju-
de sua rejeição, como poderia Unamuno continuar sendo Unamuno
ventude para sempre, mas perde-a quando está prestes a consegui-
quando fosse imortal, ou seja, quando já não houvesse morte a te-
la. Depois aparece o espírito de Enkidu, que explica ao amigo os se-
mer e repelir? A única vida eterna compatível com nossa persona-
gredos sombrios do reino dos mortos, ao qual Gilgamesh se resigna
lidade individual seria uma vida em que a morte estivesse presente
a acorrer quando chega sua hora. Esse reino dos mortos não é mais
mas como possibilidade perpetuamente adiada, algo sempre te~í­
do que um sinistro reflexo da vida que conhecemos, um lugar pro-
vel mas que de fato nunca chegasse. Não é fácil imaginar tal cotsa,_
fundamente triste. É a mesma coisa que o Hades dos antigos gregos.
nem mesmo como esperança transcendente, daí o que Unamuno
Na Odisséia de Homero, Ulisses convoca os espíritos dos mortos e,
chamou de "o sentimento trágico da vida". Enfim, quem sabe ...
entre eles, apresenta-se seu antigo companheiro Aquiles. Embora
Sem dúvida, a idéia de continuar vivendo de algum modo bom
sua sombra continue sendo tão majestosa entre os defuntos quanto
ou mau depois de morrer é algo ao mesmo tempo inquietante e con-
foi entre os vivos, ele confessa a Ulisses que preferiria ser o último
traditório. Uma tentativa de não levar a morte a sério, de conside-
porqueiro no mundo dos vivos a ser rei nas paragens da morte. Os
rá-la mera aparência. Inclusive uma pretensão de rejeitar ou disfar-
vivos não devem invejar os mortos em nada. Por outro lado, outras
çar de certa maneira, nossa mortalidade, ou seja, nossa própria hu-
religiões posteriores, como a cristã, prometem uma existência ~ais
feliz e luminosa do que a vida terrena para quem tenha cumpndo
ma~idade. É paradoxal chamarmos correntemente de "crentes". as
pessoas que têm convicções religiosas, pois o qu~ as c~act~nza
os preceitos da divindade (em contrapartida, garantem urna eterni-
principalmente não é aquilo em que elas crêem ( cotsas mistenosa-
dade de torturas refinadas aos que foram desobedientes). Digo
mente vagas e muito diversas) mas aquilo em que não crêem: o

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mais óbvio, necessário e onipresente, ou seja, a morte. Os assim mos, mas nunca estamos mortos. O temível seria ficar consciente da
chamados "crentes" são na realidade os "incrédulos", que negam a morte, alguém ficar de algum modo presente porém sabendo que já
realidade última da morte. Talvez a forma mais sóbria de enfrentar se foi totalmente, coisa evidentemente absurda e contraditória. Essa
essa inquietude - sabemos que vamos morrer mas não podemos argumentação de Epicuro é irrefutável e no entanto não chega a nos
imaginar-nos mortos - seja a de Hamlet, na tragédia de William tranqüilizar totalmente, talvez porque a maioria de nós não seja tão
Shakespeare, quando diz: "Morrer, dormir... talvez sonhar!" De razoável quanto Epicuro desejaria.
fato, a suposição de uma espécie de sobrevivência depois da morte Acaso é tão terrível não ser? Afinal de contas, durante muito
deve ter ocorrido a nossos antepassados a partir da semelhança en- tempo não fomos, e isso não nos fez sofrer de modo nenhum. De-
tre alguém profundamente adormecido e um morto. Creio que, se pois da morte iremos (supondo que o verbo "ir" seja adequado, nes-
n.ã~ ~onhássemos ao dormir, ninguém jamais teria pensado na pos-
te acaso) ao mesmo lugar ou ausência de todo lugar onde estivemos
s1b1hdade assombrosa de uma vida depois da morte. Mas se, quan- (ou não estivemos?) antes de nascer. Lucrécio, o grande discípulo ro-
do estamos quietos, com os olhos fechados, aparentemente ausen- mano do grego Epicuro, constatou esse paralelismo em alguns ver-
sos merecidamente inesquecíveis:
tes, profundamente adormecidos, sabemos que em sonhos viajamos
por diferentes paisagens, falamos, rimos e amamos ... por que não
Vê também os séculos infinitos
haveria de acontecer o mesmo aos mortos? Desse modo, os sonhos
que precederam nosso nascimento
agradáveis devem ter dado origem à idéia do paraíso, e os pesade-
e nada são para a vida nossa.
los serviram como premonição do inferno. Se podemos dizer que
Natureza neles nos oferece
"a vida é sonho", como Calderón de la Barca em uma famosa obra
como um espelho do futuro tempo,
teatral, com maior razão ainda cabe afirmar que a assim chamada
por último, depois de nossa morte.
outra vida - a que haveria para além da morte - também é inspira-
Há algo aqui de horrível e enfadonho?
da por nossa faculdade de sonhar...
Não é mais seguro do que um profundo sonho? 2
No entanto, o dado mais evidente sobre a morte é que costuma
provocar dor quando se trata da morte alheia mas, sobretudo, cau-
Preocupar-nos com os anos e os séculos em que já não estare-
sa medo quando pensamos em nossa própria morte. Alguns temem mos entre os vivos é tão infundado quanto preocupar-nos com os
que depois da morte haja algo terrível, castigos, alguma ameaça anos e os séculos em que ainda não tínhamos vindo ao mundo.
desconhecida; outros, que não haja nada, e esse nada é para eles o Nem antes nos doeu não estar nem é razoável supor que depois vá
mais aterrador de tudo. Ainda que ser algo - ou melhor, alguém - nos doer nossa ausência definitiva. No fundo, quando a morte nos
não careça de incômodos e sofrimentos, não ser nada parece muito fere através da imaginação - coitado de mim, todos tão felizes des-
pior. Mas por quê? Em sua Carta a Meneceu, o sábio Epicuro ten- frutando do sol e do amor, todos menos eu, que nunca mais, nunca
ta nos co~vencer de qu,e a morte não pode ser nada temível para mais ... ! - é precisamente agora que ainda estamos vivos. Talvez de-
quem reflita sobre ela. E claro que os verdugos e horrores infernais vêssemos refletir um pouco mais sobre o assombro de ter nascido
são apenas fábulas para assustar os rebeldes, as quais não devem in- que é tão grande quanto o espantoso assombro da morte. Se a mor~
quietar ninguém que seja prudente, de acordo com Epicuro. Tam- te é não ser, já a vencemos uma vez: no dia em que nascemos. É o
pouco há o que temer na própria morte, por sua própria natureza,
pois nunca coexistimos com ela: enquanto nós estamos, a morte
não está; quando a morte chega, nós deixamos de estar. Ou seja, 2. De rerum natura, de Lucrécio, livro III, 1336-1344, trad. esp. de José Mar-
segundo Epicuro, o importante é que indubitavelmente nós morre- chena, col. Austral. [Traduzido a partir do texto citado pelo autor.]

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próprio Lucrécio que fala, em seu poema filosófico, da mors aeter- o duque de La Rochefoucauld afirma que "nem o sol nem a morte
na, a morte eterna do que nunca foi nem será. Pois bem, nós sere- podem ser olhados de frente". Nossa vocação recém-inaugurada de
mos mortais, mas da morte eterna já escapamos. A essa morte enor- pensar esbarra na morte, não sabe por onde pegá-la. Vladimir Jan-
me roubamos um certo tempo - os dias, meses ou anos que vivemos, kélevitch, um pensador contemporâneo, nos repreende por não sa-
cada instante que continuamos vivendo -, e esse tempo, aconteça o bermos o que fazer diante da morte e, por isso, oscilarmos "entre a
que acontecer, sempre será nosso, dos triunfalmente nascidos, e nun- sesta e a angústia". Ou seja, por diante dela procurarmos nos atur-
ca seu, apesar de que depois também devamos, irremediavelmente, dir para não tremer ou tremermos abjetamente. Existe em castelha-
morrer. No século XVIII, um dos espíritos mais perspicazes que já no uma quadra popular que também se inclina à sesta, dizendo mais
houve - Lichtenberg - dava razão a Lucrécio em um de seus céle- ou menos isto:
bres aforismos: "Por acaso já não ressuscitamos? De fato, provimos
de um estado em que sabíamos do presente menos do que sabemos Cuando algunas veces pienso
do futuro. Nosso estado anterior é para o presente o que o presente que me tengo que morir,
é para o futuro." tiendo la manta en el suelo
Mas também não faltam objeções contra a formulação citada y me harto de dormir.*
de Lucrécio, e algumas justamente a partir do que foi observado
por Lichtenberg. Quando eu ainda não era, não havia nenhum "eu" É um parco subterfúgio, quando a única alternativa é a angústia.
que sentisse falta de vir a ser; ninguém me privava de nada, uma Nem sequer há essa alternativa, pois poderíamos muito bem ir cons-
vez que eu ainda não existia, ou seja, não tinha consciência de es- tantemente de uma coisa a outra, oscilando entre o aturdimento que
tar perdendo nada não sendo nada. Porém agora já vivi, conheço o não quer olhar e a angústia que olha mas não vê nada. Belo dilema!
que é viver e posso prever o que perderei com a morte. Por isso hoje Por outro lado, um dos maiores filósofos, Spinoza, considera
a morte me preocupa, isto é, me ocupa de antemão com o temor de que esse bloqueio não nos deve desanimar: "Um homem livre em
perder o que tenho. Além do mais, os males futuros são piores do nada pensa menos do que na morte e sua sabedoria não é uma me-
que os passados porque já nos torturam com seu temor desde ago- ditação da morte, mas da vida." 3 O que Spinoza pretende ressaltar,
ra. Há três anos me submeti a uma operação de rim; suponhamos se não me engano, é que na morte não há nada positivo a ser pen-
que eu soubesse com certeza que daqui a outros três preciso me sado. Quando a morte nos angustia, é por algo negativo, pelos praze-
submeter a outra semelhante. Embora a operação passada já não me res da vida que perderemos com ela em caso de nossa própria mor-
doa e a futura ainda não me doa, o certo é que as duas não me im- te ou porque ela nos deixa sem as pessoas amadas, no caso da mort~
pressionam da mesma maneira: a futura me preocupa e me assusta alheia; quando a vemos com alívio (não é impossível considerar a
muito mais, pois está se aproximando, ao passo que a outra está se morte um bem, em certos casos), também é pelo negativo, pelas do-
distanciando ... Mesmo que fossem objetivamente idênticas, subje- res e preocupações da vida de que sua chegada nos poupará. Seja
tivamente não o são, pois uma lembrança desagradável não é tão in- ela temida ou desejada, em si mesma a morte é pura negação, aves-
quietante quanto uma ameaça. Nesse caso, o espelho do passado so da vida que portanto de um modo ou de outro sempre nos reme-
não reflete simetricamente o dano futuro, e talvez na questão da
morte também não.
De modo que a morte nos faz pensar, nos transforma à força * Tradução livre: "Quando às vezes penso / que tenho que morrer, / estendo a
manta no chão / e me farto de dormir."
em pensadores, em seres pensantes, mas apesar de tudo continua- 3. Ética, de B. Spinoza, parte IV, prop. LXVII. [Traduzido a partir do texto
mos sem saber o que pensar da morte. Em uma de suas Máximas, citado pelo autor.]

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te à própria vida, tal como o negativo de uma fotografia está sem-
pre pedindo para ser positivado para que o vejamos melhor. De Capítulo dois
modo que a morte serve para nos fazer pensar, mas não sobre a As verdades da razão
morte e sim sobre a vida. Como num paredão impenetrável, o pen-
samento despertado pela morte ricocheteia contra a própria morte,
e volta para quicar repetidamente na vida. Além de fechar os olhos
para não a ver ou nos deixar cegar estremecedoramente pela mor-
te, oferece-se a nós a alternativa mortal de tentar compreender a
vida. Mas como podemos compreendê-la? Que instrumento utiliza-
remos para começar a pensar sobre ela?

Dá o que pensar...

Em que sentido a morte nos torna realmente humanos? Há A morte, com sua urgência, despertou meu apetite de saber
algo mais pessoal do que a morte? Pensar não é, justamente, tor- coisas sobre a vida. Quero dar resposta a mil perguntas sobre mim
nar-se consciente de nossa humanidade pessoal? A morte serve mesmo, sobre os outros, sobre o mundo que nos cerca, sobre os ou-
como paradigma da necessidade, inclusive da necessidade lógica? tros seres vivos ou inanimados, sobre como viver melhor: pergun-
Os animais são mortais no mesmo sentido em que nós o somos?
to-me o que significa toda essa confusão em que estou metid? -
Por que se pode dizer que a morte é intransferível? Em que senti-
uma confusão necessariamente mortal - e como posso me virar
do a morte é sempre iminente e não depende da idade ou das doen-
nela. Todas essas interrogações me assaltam sempre de novo; pro-
ças? Pode haver ligação entre os sonhos e a esperança de imorta-
lidade? Por que Epicuro diz que não devemos temer a morte? E curo sacudi-las de mim, rir-me delas, aturdir-me para não pensar,
como Lucrécio apóia essa argumentação? Eles conseguem efetiva- mas elas voltam com insistência depois de breves momentos de tré-
mente nos consolar ou buscam apenas nos dar serenidade? Há gua. E ainda bem que voltam! Pois se não voltassem seria sinal de
algo positivo a pensar na morte? Por que a morte pode nos desper- que a notícia de minha morte só teria servido para me assustar, de
tar para um pensamento que depois irá centrar-se na vida? que em certo sentido já estou morto, de que só sou capaz de escon-
der a cabeça debaixo dos lençóis em vez de utilizá-la. Querer saber,-
querer pensar: isso equivale a querer estar verd~deiramente, vivo.
Vivo em face da morte, não estonteado e a~estesiado,a espera-la:
Bem, tenho muitas perguntas sobre a vida. Mas ha uma antenor
a todas elas, fundamental: como responder-lhes, mesmo que de modo
parcial? A pergunta anterior a todas é: como responderei às perg~­
tas que a vida me sugere? E, se não puder respond~r-lhes convm-
centemente, como conseguirei entendê-las melhor? As vezes enten-
der melhor o que se pergunta já é quase uma resposta. Pergunto o que
não sei, o que ainda não sei, o que talvez nunca chegue a saber, e
às vezes até nem sei exatamente o que estou perguntando. Em re-
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sumo, a primeira de todas as perguntas a que devo tentar responder
é esta: como chegarei a saber o que não sei? Ou talvez: como pos- Há coisas que sei porque os outros me disseram. Meus pais me
so saber o que é que eu quero saber?, o que estou buscando ao per- ensinaram, por exemplo, que é bom lavar as mãos antes de comer e
que minha cama tem quatro cantinhos e quatro anjinhos que aguar-
guntar?, de onde me pode vir uma resposta mais ou menos válida?
dam. Aprendi que as bolas de gude de vidro valem mais do que as
Para começar, a pergunta nunca pode nascer da pura ignorân-
de barro porque os meninos da minha classe me disseram no re-
cia. Se eu não soubesse nada, ou pelo menos não acreditasse saber
creio. Um amigo muito sedutor me revelou na adolescência que,
alguma coisa, nem sequer poderia fazer perguntas. Pergunto a par-
quando você se aproxima de duas garotas, deve falar primeiro com
tir do que sei ou acredito saber, porque me parece insuficiente e du-
a mais feia, para que a bonita vá reparando em você. Mais tarde ou-
vidoso. Imaginemos que debaixo da minha cama exista, sem que eu
tro amigo, que viajava muito, informou-me que o melhor restauran-
saiba, um poço cheio de raras maravilhas: como não tenho nem
te de Nova York se chama Four Seasons. E hoje li no jornal que o
idéia de que haja um tal esconderijo, é impossível eu me perguntar
presidente russo Iéltsin é muito afeiçoado à vodca. A maioria de
quantas maravilhas há, em que consistem e por que são tão maravi-
meus conhecimentos provém de fontes como essas.
lhosas. Por outro lado, posso perguntar-me de que são feitos os len- Há outras coisas que sei porque as estudei. Das vagas lembran-
çóis da minha cama, quantos travesseiros tenho nela, como se cha- ças da geografia da minha infância tenho a informação de que a ca-
ma o marceneiro que a fabricou, qual é a posição mais cômoda para pital de Honduras se chama, espantosamente, Tegucigalpa. Meus
descansar nesse leito e talvez se devo compartilhá-lo com alguém sumários estudos de geometria me convenceram de que a linha reta
ou é melhor dormir sozinho. Sou capaz de me colocar essas ques- é a distância mais curta entre dois pontos, enquanto as linhas para-
tões porque ao menos parto da base de que estou numa cama, com lelas só se encontram no infinito. Também creio me lembrar de que
lençóis, travesseiros, etc. Até poderia também me assaltar a dúvida a composição química da água é H 20 . Como aprendi francês quan-
de que esteja realmente numa cama e não dentro de um crocodilo do pequeno, posso dizer ''j 'ai perdu ma plume dans le jardin de ma
gigante que me devorou enquanto eu fazia a sesta. Todas essas dú- tante" para informar a um parisiense que perdi minha caneta no jar-
vidas sobre se estou numa cama ou como é minha cama só são pos- dim da minha tia (coisa que, na verdade, nunca me aconteceu).
síveis porque pelo menos creio saber aproximadamente o que é Pena que nunca fui muito estudioso, pois poderia ter obtido muito
uma cama. A respeito do que não sei absolutamente nada (como o mais conhecimentos pelo mesmo método.
suposto buraco cheio de maravilhas debaixo da minha cama) nem Mas também sei muitas coisas por experiência própria. Assim,
sequer posso duvidar ou fazer perguntas. comprovei que o fogo queima e que a água molha, por exemplo. Tam-_
De modo que devo começar por submeter a exame os conhe- bém posso distinguir as diferentes cores do arco-íris, de modo que,
cimentos que creio ter. E sobre eles posso me fazer pelo menos ou- quando alguém diz "azul", imagino determinado tom que vi com
tras três perguntas: freqüência no céu ou no mar. Visitei a praça de San Marco, em Ve-
neza, e portanto creio firmemente que ela é maior do que a queri-
a) como os obtive? (como cheguei a saber o que sei ou creio da praça De la Constitución de minha San Sebastián natal. Sei o
saber?); que é dor porque tive várias cólicas de rim, o que é sofrimento por-
b) até que ponto tenho certeza deles?; que vi meu pai morrer, e o que é prazer porque certa vez recebi um
e) como posso ampliá-los, melhorá-los ou, se for o caso, subs- beijo estupendo de uma moça numa certa estação. Conheço o calor,
tituí-los por outros mais fiáveis? o frio, a fome, a sede e muitas emoções, para algumas das quais
nem sequer tenho nome. Também conservo experiência das mudan-
ças que produziu em mim a passagem da infância à idade adulta e
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de outras mais alarmantes que vou padecendo ao envelhecer. Por acredito saber, compará-las com outros conhecimentos meus, sub-
experiência sei também que quando estou dormindo tenho sonhos, metê-las a exame crítico, debatê-las com outras pessoas que pos-
sonhos que se parecem assombrosamente com as visões e sensa- sam me ajudar a entender melhor. Em suma, buscar argumentos pa-
ções que me assaltam diariamente durante a vigília .. . de modo que ra assumi-las ou refutá-las. Esse exercício de buscar e ponderar ar-
a experiência me ensinou que posso sentir, padecer, gozar, sofrer, gumentos antes de aceitar como correto o que creio saber é o que em
dormir e às vezes sonhar. termos gerais costuma-se chamar de utilizar a razão. Claro que ara-
Pois bem, até que ponto tenho certeza de cada uma dessas coi- zão não é algo simples, não é uma espécie de farol luminoso que te-
sas que sei? Evidentemente, não acredito em todas com o mesmo mos dentro de nós para iluminar a realidade, nem nada parecido. As-
grau de certeza e nem todas me parecem conhecimentos totalmen- semelha-se antes a um conjunto de hábitos de dedução, sondagens e
te fiáveis. Pensando bem, qualquer uma delas pode suscitar dúvidas cautelas, em parte ditados pela experiência e em parte baseados no
em mim. Acreditar em alguma coisa só porque me foi dita pelos ou- modelo da lógica. A combinação de tudo isso constitui "uma facul-
tros não é muito prudente. Eles mesmos poderiam estar equivocados dade capaz - pelo menos em parte - de estabelecer ou captar as re-
ou querer me enganar: talvez meus pais me amassem demais para lações que fazem com que as coisas dependam umas das outras e se-
sempre me dizer a verdade, talvez meu amigo viajante soubesse jam constituídas de uma determinada forma e não de outra" (plagio
pouco de gastronomia ou o sedutor nunca tenha sido um verdadeiro esta definição - modificando-a a meu gosto - de um filósofo do sé-
perito em psicologia feminina ... Das notícias que leio nos jornais, culo XVII, Leibniz). Ocasionalmente, posso lançar mão de algumas
nem é preciso falar: é só comparar o que se escreve em uns com o certezas racionais que me servirão como critério para fundamentar
que contam os outros para colocar tudo um pouco em dúvida. Em- meus conhecimentos: por exemplo, a de que duas coisas iguais a
bora ofereçam maiores garantias, as matérias de estudo também não uma terceira são iguais entre si ou a de que algo não pode ser ou não
são completamente confiáveis. Muitas coisas que estudei quando jo- ser ao mesmo tempo quanto a um mesmo aspecto (uma coisa pode
vem são, hoje, explicadas de outra maneira, as capitais dos países ser branca ou preta, branca e preta, cinza, mas não ao mesmo tem-
mudam de um dia para outro (será que a capital de Honduras con- po totalmente branca e totalmente preta). Em muitos outros casos
tinua sendo Tegucigalpa?) e as ciências atuais descartam inúmeras devo me conformar com estabelecer racionalmente o mais provável
teorias dos séculos passados: quem pode me afirmar que o que hoje ou verossímil: dados os inúmeros testemunhos que coincidem em
é dado como certo também não será descartado amanhã? Nem se- afirmá-lo, posso aceitar que na Austrália há cangurus. Não parece
quer o que eu mesmo posso experimentar é fonte segura de conhe- insensato assumir que o aparelho com que eu esquento as pizzas na
cimento: quando introduzo um bastão na água, parece que o vejo minha cozinha é um forno microondas e não uma nave extraterres--
quebrar-se sob a superficie, embora o tato desminta essa impressão; tre; posso, de algum modo, acreditar que o porteiro da minha casa
e eu quase poderia jurar que o sol se desloca ao longo do dia ou que (que se chama João como ontem, que tem a mesma aparência e a
ele não é muito maior do que uma bola de futebol (deitado no chão, mesma voz que ontem, me cumprimenta como ontem, etc.) é efeti-
consigo tapá-lo apenas levantando um pé!), ao passo que a astrono- vamente a mesma pessoa que vi ontem na portaria. Mesmo não es-
mia me dá informações muito diferentes a esse respeito. Além dis- perando que nenhum acontecimento altere minha crença racional
so, às vezes também sofri alucinações e vi miragens, sobretudo de- nos princípios da lógica ou da matemática, devo admitir, por outro
pois de ter bebido demais ou quando estava muito cansado ... lado - também por cautela racional -, que em outros campos o que
Tudo isso quer dizer que nunca devo confiar no que me dizem, hoje é verossímil ou provável sempre pode estar sujeito a revisão ...
no que estudo ou no que experimento? De modo nenhum. Mas pa- De modo que a razão não é algo que os outros me contam, nem
rece imprescindível revisar, de vez em quando, algumas coisas que fruto de meus estudos ou de minha experiência, mas um procedi-

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mento intelectual crítico que utilizo para organizar as informações Tu verdad, no: la Verdad.
que_recebo, os estudos que realizo ou as experiências que tenho, Y ven conmigo a buscaria.
aceitando algumas coisas (pelo menos provisoriamente, à espera de La tuya, guárdatela. *
n~vos argumentos) e descartando outras, tentando sempre vincular
minhas crenças entre si com uma certa harmonia. E a primeira coi- Buscar a verdade por meio do exame racional de nossos co-
sa que a razão tenta harmonizar é meu ponto de vista meramente nhecimentos consiste em tentar nos aproximar mais do real: serra-
cionalmente verazes deveria equivaler a chegar a ser o mais realis-
pes~o~l ou subjetivo com um ponto de vista mais objetivo ou inter-
tas possível. Mas nem todas as verdades são do mesmo gênero, por-
subjetivo, o ponto de vista a partir do qual qualquer outro ser racio-
que a realidade abrange dimensões muito diferentes. Se, por exem-
nal pode consi~erar_ a realidade. Se uma crença minha se apóia em
plo, digo a minha namorada "sou o pombinho do seu coração" e ao
argumentos ~ac10nais , eles não podem ser racionais só para mim. O
amigo no bar " sou engenheiro de estradas" , posso estar afirmando
q~e caractenza a razão é nunca ser exclusivamente a minha razão.
a verdade nos dois casos, embora poucos pombos tenham chegado
Disso ~rovém a universalidade essencial da razão, na qual os gran-
a ser engenheiros. As cidades medievais costumavam ter em seus
de~ füosofos, como Platão ou Descartes, sempre insistiram. Essa
arredores uma esplanada chamada "campo da verdade'', onde se
umversalidade significa, primeiro, que a razão é universal no senti-
travavam os combates que dirimiam agravos e litígios: supunha-se
ª? de que todos os homens a possuem, mesmo os que fazem dela 0 que o vencedor -Oa luta fosse o detentor da verdade de acordo com
p10r ~so (os ~ai~ bobos, falando claramente), de modo que com o ordálio ou juízo de Deus. Pois bem, uma das primeiras missões da
atençao e paciencia todos poderíamos convir nos mesmos argumen- razão é delimitar os diversos campos da verdade em que se divide
tos sobre ~lgun:as questões; e, segundo, que a força de convicção a realidade da qual fazemos parte. Consideremos, por exemplo, o
d?s rac10~mios ~ compreensível para qualquer um, contanto que de- sol: podemos dizer que ele é uma estrela de magnitude média, um
~ida segmr o metodo racional, de modo que a razão pode servir de deus ou o rei do firmamento. Cada unla dessas afirmações corres-
arbitro para resolver muitas disputas entre os homens. Essa facul- ponde a um campo diferente de verdade: a astronomia no primeiro
dade (esse ~onjunto de faculdades?) chamado razão é justamente 0 caso, a mitologia no segundo e a expressão poética no terceiro. Ca-
que todos nos , os humanos, temos em comum, e nisso se baseia nos- da uma em seu campo, as três afirmações sobre o sol são racional-
s~ humanidade cor~1partilhad_a. Por isso Sócrates previne o jovem mente verdadeiras, mas o equívoco ou engano provém de se mistu-
Fedon contra se deixar mvadir pelo ódio aos raciocínios "como al- rarem os campos (dando a resposta própria a um campo em outro
guns chegam a odiar os homens. Porque não existe um mal maior do campo diferente) ou, pior ainda, de não se distinguirem os campos,
que se tornar ?re~a desse ódio aos raciocínios" (Fédon , 89c-9 l b ). de se achar que há um só campo para todos os tipos de verdades.
Detestar a razao e detestar a humanidade, tanto a própria quanto a Faz tempo ouvi um catedrático de fisica, com a melhor das inten-
dos outro~, ~enfrentá-la sem remédio como inimigo suicida ... ções de divulgação, explicar a alguns jornalistas a complexa teoria
O objetivo do método racional é estabelecer a verdade isto é do big bang como origem fisica do universo. Impaciente, um deles
a maior concordância possível entre o que acreditamos e o' que d~ o interrompeu: "De acordo, muito bem, mas ... existe ou não existe
fato ocorre na realidade da qual fazemos parte. "Verdade" e "ra- um Deus criador?" É um caso flagrante de confusão entre campos
z~o'.' compart~lham a mesma vocação universalista, o mesmo pro- de verdade diferentes, porque Deus não é um princípio fisico.
pos1to de vahdez tanto para mim mesmo quanto para o resto de
meus semelhantes, os humanos. Antonio Machado muito bem 0 ex-
pressou concisamente nestes versos: *Tradução livre: "Tua verdade, não: a Verdade./ E vem comigo buscá-la. / A
tua, guarda-a para ti."

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De acordo: a razão nos serve para examinarmos nossos supos-
Também os tipos de veracidade a que se pode aspirar variam tos conhecimentos, resgatar deles a parcela que tenham de verdade
conforme os campos de realidade que se pretendem conhecer Em e, a partir dessa base, buscar novas verdades. Passamos assim de
matemática, por exemplo, devemos exigir exatidão nos cálcul~s ao crenças tradicionais, meio inadvertidas, para outras racionalmente
passo~que, ~rigor nos ~a.ciocínios é tudo o que podemos esperar,em comprovadas. Mas e a crença na própria razão, que alguns conside-
q~e~toes etica,s ou pohticas (conforme bem observa Aristóteles no
raram "uma velha fêmea enganadora", como Nietzsche dizia da
m1c10 de sua Etica a Nicômaco ). Em se tratando de poesia, teremos gramática? E a crença na verdade? Por acaso também não poderiam
que tentar alcançar a expressividade emocional (mesmo que tão ser ilusões nada fiáveis e fontes de outras ilusões perniciosas? Mui-
modesta quanto a de nos proclamarmos pombinhos para nossa tos filósofos se fizeram essas perguntas: longe de serem todos eles
amada!) ou uma verossimilhança bem fundamentada se tivermos a racionalistas resolutos, ou seja, crentes na eficácia da razão, são
intenç,ão de compreender o que aconteceu em um período históri- muitos os que levantaram sérias dúvidas sobre ela e sobre a própria
co. Ha verdades meramente convencionais (como a de que 0 fogo noção de verdade que ela pretende atingir. Alguns são cépticos, ou
pode ser c?amado de "fogo'', ''fire" ou "feu") e outras que provêm seja, colocam em dúvida ou negam redondamente a capacidade da
de nossas impressões sensoriais (como a de que o fogo queima, seja razão para estabelecer verdades conclusivas; outros são relativistas,
como for que se chame): muitas verdades convencionais mudarão ou seja, acreditam que não há verdades absolutas mas apenas rela-
se mudarmos de país, mas outras não. Às vezes a fiabilidade neces- tivas, conforme a etnia, o sexo, a posição social ou os interesses de
sá~ia ~ ~uficiente em um campo de verdade é impossível em outro, cada um, e que portanto nenhuma forma universal de razão pode
e e ate mtelectualmente prejudicial exigi-la nele. Enfim, nossa vida ser válida para todos; há também os que invalidam a razão por seu
abra~ge formas de realidade muito diferentes, e a razão deve nos avanço trabalhoso, cheio de erros e hesitações, para declarar-se par-
servir para passar convenientemente de umas para outras. tidários de uma forma de conhecimento superior, muito mais intui-
Ortega Y Gasset distinguiu idéias de crenças: são idéias nossas tiva ou direta, que não deduz ou conclui a verdade mas a descobre
construções intelectuais - por exemplo, a função fanerógama de cer- por revelação ou visão imediata. Antes de irmos adiante, devemos
t:s plantas ou a teoria da relatividade -, ao passo que nossas crenças considerar sucintamente as objeções desses dissidentes.
sao aquelas certezas que damos por favas contadas, a ponto de nem Vamos começar pelo cepticismo, que põe em dúvida todos e
s~quer pensar nelas (por exemplo, a de que ao transpor o nosso por- cada um dos conhecimentos humanos; mais ainda, que duvida até
tao daremos numa rua conhecida e não numa paisagem lunar ou a mesmo da capacidade humana de chegar a ter algum conhecimen-
de que o ônib~s que esta~os vendo de frente tem outro par de 'rodas to digno desse nome. Por que a razão-não pode dar conta nem dar-
na pai:e de tr~s). Temos tais óu tais idéias, em contrapartida estamos se conta de como é a realidade? Suponhamos que estejamos ouvin-
em t~rs ou tais crenças. Talvez a estranha tarefa da filosofia seja do uma sinfonia de Beethoven e que, com papel e lápis, tentemos
questionar de vez e~. ~ua~do nossas crenças (daí o incômodo que desenhar a harmonia que ouvimos. Faremos diversos traços, talvez
~os, causam ~o~ frequencra as perguntas filosóficas!) e tentar subs- à maneira de picos quando a música for mais intensa e linhas para
trtm-~as por ideias argumentalmente sustentadas. Por isso Aristóte-
baixo quando ela se tornar mais suave, círculos quando nos envol-
l~s disse que o com~ço da filosofia é o assombro, ou seja, a capa- ver de modo agradável e dentes de serra quando nos desassossegar,
cidade de nos maravilharmos diante do que todos à nossa volta con- florzinhas para indicar sons líricos e botas militares ao troar das
sideram óbvio e seguro. No entanto, até o mais obstinado dos filó- trombetas, etc. Depois, muito satisfeitos, consideraremos que nes-
sofos precisa, para viver cotidianamente, apoiar-se em crenças úteis se papel está a "verdade" da sinfonia. No entanto, haverá alguém ca-
de senso comum (o que não quer dizer que sejam irrefutavelmente paz de saber realmente o que é a sinfonia sem outra ajuda além des-
verdadeiras!) sem as colocar constantemente em dúvida ...
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ses rabiscos? Pois, d~ mesmo modo, talvez a razão humana fracas- De todo modo, o cepticismo aponta uma questão muito inquie-
:: ª~-tentar reproduzIT e captar a realidade, de cujo registro ela está tante: como pode ser que conheçamos algo da realidade, seja pou-
ao istante q~anto o desenho da música ... Para o céptico, todo o su- co ou muito? Nós, os humanos, com nossos toscos meios sensoriais
posto conhecimento humano é pelo menos duvidoso e no final das e intelectuais ... como podemos alcançar o que a realidade é verda-
c~ntas, re:ela-nos pouco ou nada do que pretendem;s saber Não deiramente? É chocante que um simples mamífero possa ter algu-
hda conh~c1mento verdadeiramente seguro nem sequer fiável q.uan- ma chave para interpretar o universo! O físico Albert Einstein, tal-
o exammado a fundo.
vez o maior cientista do século XX, certa vez comentou: "O mais
ra se A prim~i,ra resposta ao cepticismo é óbvia: o céptico conside- incompreensível da natureza é que nós possamos compreendê-la,
" , g~ra e fi:vel ~elo menos sua crença no cepticismo? Quem diz pelo menos em parte." E Einstein não tinha dúvida de que a com-
so se1 que nao sei nada" não aceita pelo menos que conhece uma preendemos pelo menos em parte. A que se deve esse milagre? Será
~e~dade, a de se,u não saber? Se nada é verdade, pelo menos não é ver- porque há em nós uma centelha divina, porque temos algo de deu-
a e qu.e ?~da e verdade? Em suma, censura-se o cepticismo or ser ses, mesmo que seja de série Z? Mas talvez não seja nosso paren-
contraditono consigo mesmo: se é verdade que - nh p tesco com os deuses o que nos permite conhecer, e sim o fato de
d d nao co ecemos a
ver a e, pelo menos já conhecemos uma verdade logo n- , pertencermos àquilo mesmo a que aspiramos conhecer: somos ca-
d d - ··· ao e ver-
a _e que nao conhecemos a verdade. (A essa objeção o cé tico o- pazes - pelo menos parcialmente - de compreender a realidade por-
dena resp_o~der ~ue não duvida da verdade, e sim de que :Ossad:os que fazemos parte dela e somos constituídos de acordo com princí-
s~m~re d1stmgm-la fiavelmente do falso .. .) Outra contradição· o pios semelhantes. Nossos sentidos e nossa mente são reais e por
c~ptico pod~ dar bons argumentos contra a possibilidade de conhe- isso conseguem, bem ou mal, refletir o resto da realidade.
cu~1ento rac10nal, mas para isso necessita utilizar a razão argumen- Talvez a resposta mais perspicaz até hoje ao problema do co-
tati~a: tem que r~ci?cinar para nos convencer (e convencer a si mes- nhecimento tenha sido dada por Immanuel Kant em sua Crítica da
mo.) de que rac10cmar não serve para nada Pelo v1.sto razão pura. Segundo Kant, o que chamamos de "conhecimento" é
d d - · , nem sequer
~~ P_~ ~ escartar a razao sem a utilizar. Terceira dúvida diante da uma combinação do que traz a realidade com as formas de nossa
uv~ a. podemos sustentar que cada uma de nossas crenças concre- sensibilidade e as categorias de nosso entendimento. Não podemos
:as edfald1vel (ontem acreditávamos que a Terra fosse plana hoie que captar as coisas em si mesmas mas apenas tal como as descobrimos
e re on a e amanhã b ') ' J por meio de nossos sentidos e da inteligência que ordena os dados
se ... ~uem sa e. 'mas se nos equivocamos deve-
entender que podenamos acertar, pois, se não há possibilidad fornecidos por eles. Ou seja, não conhecemos a realidade pura mas
de acerto - ou seia d nh · e apenas como é o real para nós. Nosso conhecimento é verdadeire
~ ' e co ec1mento verdadeiro, embora ainda
mas não vai além de onde permitem nossas faculdades. Daquilo de
n~ca tenha_~cornd~ -: também não há possibilidade de erro. O
que não recebemos informação suficiente através dos sentidos -
p10r do cepti_c1smo _nao e ele nos impedir de afirmar algo verdadei-
que são os encarregados de trazer a matéria-prima de nosso conhe-
~~ m_as ~os im~edIT de dizer o que quer que seja falso. Quarta re-
cimento - não podemos saber realmente nada, e, quando a razão
açao, o ma10r mau gosto: quem não crê na verdade de nenhu-
especula no vazio sobre absolutos como Deus, a alma, o Universo,
ma de nos.sas crenças não deveria ter muito inconveniente em sen-
tar-se na linha d tr , etc., ela se atrapalha em contradições insuperáveis. O pensamento é
d , . o em a espera do próximo expresso ou em saltar abstrato, ou seja, ele procede à base de sínteses sucessivas a partir
e um setimo an?ar, pois pode ser que o temor inspirado por essas
de nossos dados sensoriais: sintetizamos todas as cidades que co-
conbd~tas se ba~ere em simples mal-entendidos. Trata-se de um gol- nhecemos para obter o conceito "cidade'', ou das mil formas imagi-
pe a1xo, eu sei.
náveis de sofrimento chegamos a obter a noção de "dor", agrupan-
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do as características intelectualmente relevantes do diverso. Pensar
das só para as madames e não para os monsieurs? Os japonese~ do
consiste, portanto, em voltar a descer da síntese mais longínqua aos
século XX deverão desconfiar do valor que tenha para eles a lei da
dados concretos particulares até os casos individuais e vice-versa
gravidade descoberta no século XVII por um inglês de peruca cha-
sem nunca perder o contato com o experimentado nem nos limita;
mado Newton? Nossos antepassados renascentistas europeus terão
ap~nas à restritiva dispersão de suas anedotas. Essa explicação já
cometido um equívoco ao mudar a numeração romana, tão própria
esta, de algum modo, presente em Aristóteles e, sobretudo, em Locke.
de sua identidade cultural, pelos algarismos arábicos, muito ma~s
Sem dúvida, a resposta de Kant é muitíssimo mais complexa do que
operacionais? Terão utilizado uma lógica e uma .ºb~ervação expen-
o esboçado aqui, mas o notável de seu genial esforço é ele tentar sal-
mental da natureza muito diferente da nossa os mdigenas peruanos
var ao mesmo tempo os receios do cepticismo e a realidade efetiva
que descobriram as propriedades febrífugas da quinina .sécul~s ~n­
de nossos conhecimentos tal como se manifestam na ciência moder-
na, que para ele representava o grande Newton. tes dos europeus? As análises de Marx sobre o proletanad.o sa,o m-
validadas pelo fato indubitável de ele próprio ter pertenci?o a pe-
Também o relativismo coloca em questão que sejamos capazes
de alcançar a verdade por meio de raciocínios. Como já foi dito na quena burguesia? Martin Luther King, por ser ~e~ro, ?evena ter re-
nunciado a reivindicar os direitos de cidadama iguais para todos,
argumentação racional deve-se conciliar o ponto de vista subje;ivo
estabelecidos pelos fundadores da Constituição dos Estados Uni-
e.Pessoal com o objetivo ou universal (sendo este último o ponto de
v~sta de qualquer outro ser humano que, por assim dizer, "olha por dos, que foram todos brancos, sem exceção? Fin~lme~te, será ur~a
verdade racional universal e objetiva a de que nao existem ou nao
cima d~ ~eu ombro" enquanto estou raciocinando). Pois bem, para
os relativistas tal coisa é impossível e meus condicionamentos sub- podem ser alcançadas pelos humanos as verdades universais racio-
jetivos sempre se impõem a qualquer pretensão de objetividade uni- nalmente objetivas? . .
Parece evidente que o peso dos condicionamentos subjetivos
versal. Na hora de raciocinar, cada um o faz segundo sua etnia, seu
varia grandemente conforme o "campo da verdade'.' que .estejamos
sex~, sua classe social, seus interesses econômicos ou políticos, in-
clusive seu caráter. Cada cultura tem sua lógica diferente e cada um considerando em cada caso: quando falamos de mitologia, de gas-
tronomia ou de expressão poética, o peso de nossa cultura ou nos-
sua forma de pensar idiossincrática e intransferível. Portanto, há
sa idiossincrasia pessoal é muito mais concludente do que quando
t~n~as verdades quantas culturas, quantos sexos, quantas classes so-
c~ais, quantos interesses ... quantos caracteres individuais! Os que nos referimos a ciências da natureza ou a princípios da convivência
humana. Seja como for, também para determinar até que p.onto nos-
nao falam de verdades mas de verdade e sustentam a pertinência
sos conhecimentos estão tingidos de subjetivismo necessitamos de
dos versos de Antonio Machado citados anteriormente costumam
um ponto de vista objetivo do qual possamos comparar uns com õs
ser considerados pelos relativistas diversas coisas feias: etnocêntri-
cos, logocêntricos, falocêntricos e em geral concêntricos em torno outros ... e todos com uma certa realidade além deles à qual se refe-
de si mesmos; isto é, gente distraída ou autoritária que toma seu rem! Enfim, até para desconfiar dos critérios universais de razão e
próprjo ponto de vista como perspectiva da razão universal. de verdade necessitamos de algo como uma razão e uma verdade
E impossível (e sem dúvida indesejável) negar a importância que sirvam de critério universal. No entanto, ª. contri~u~~ão mais
valiosa do relativismo consiste em sublinhar a impossibilidade de
de nossos condicionamentos socioculturais ou psicológicos quando
estabelecer uma fonte última e absoluta da qual provenha todo co-
no~ pomos a raciocinar, mas ... será que podemos dizer que eles in-
validam totalmente o alcance universal de certas verdades obtidas a nhecimento verdadeiro. E isso não se deve às insuficiências aciden-
partir deles e apesar deles? As descobertas científicas da única mu- tais de nossa sabedoria que o progresso científico poderia remediar,
mas à própria natureza de nossa capacidade de conhecer. Talvez por
lher ganhadora de dois prêmios Nobel, Madame Curie, serão váli-
isso um teórico importante de nosso século, Karl R Popper, tenha
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insistido em que não existe nenhum critério para estabelecer se al-
cançamos a verdade, sem encarregar o tempo de conservar para a crêem na verdade, inclusive na Verdade com maiúscula, eterna, res-
epistemologia um critério último e definitivo de verdade (a noção plandecente, sem nada a ver com as construções trabalhosas que
1
tarskiana de verdade). A única coisa que está a nosso alcance na mediatizam o conhecimento humano: em suma, esta Verdade abso-
maioria dos casos, segundo Popper, é descobrir os sucessivos erros luta e indiscutível não nos deve nada. Eles também não pensam que
que existem em nossas colocações e purgar-nos deles. Desse modo, se pode chegar a ela pelo laborioso e vacilante método racio~al, mas
a tarefa da razão seria antes negativa (apontar os múltiplos equívo- que é uma Verdade que se revela a nós, quer porque nos .se~a m.os-
cos e inconsistências em nosso saber) do que afirmativa (estabele- trada por alguns mestres sobre-humanos (deuses, ancestra~s .ms~1ra­
cer a autoridade definitiva da qual provém toda verdade). dos, etc.), porque se manifeste a nós em alguma .form~ pn~1~egia~a
Sejamos modestos: dizer que algo "é verdade" significa que é de visão ou porque apenas seja acessível por me10 de mtmço.es, ~ao
"mais verdade" do que outras afirmações concorrentes sobre o mes- racionais, sentimentos, paixões, etc. O curioso é que os parti~anos
mo tema, mesmo que não represente a verdade absoluta. Por exem- desses atalhos sublimes para o conhecimento costumam fustigar o
plo, é "verdade" que Colombo descobriu o continente americano pa- "orgulho" dos racionalistas (quando justarr.iente a racio~alidade se
ra os europeus (embora sem dúvida navegantes vikings tenham che- caracteriza pela humilde desconfiança de s1 mesma, e dai suas son-
gado antes, mas sem dar a mesma publicidade a sua realização nem dagens, suas laboriosas deliberações, suas provas ~ contra~rov~s)
tentar a colonização) e é "verdade" que o vinho de Rioja é um ali- ou ridicularizam sua fé na "onipotência da razão", disparate irrac10-
mento mais saudável do que o arsênico (embora também possa ser nal no qual jamais acreditou nenhum racionalista em s~u. pl~n? juí~
l~tal se tomado em doses excessivas, ao passo que pequenas quan- zo. É claro que a verdade assim revelada - a Verdade v1s10nana - e
tidades de arsênico são utilizadas na farmacopéia para fabricar re- irrefutável, porque qualquer tentativa de questioná-la derr.ionstra
médios), etc. Como resumiu muito bem outro grande filósofo con- justamente que o incrédulo carece da iluminação necessána para
temporâneo, George Santayana: "A posse da verdade absoluta não seu desfrute, seja por sua impiedade diante dos Mestre~ ad~quados,
se encontra apenas por acaso além das mentes particulares; é in- seja pelo embotamento das emoções necessária.s p~ra m~1-l~.
E nisso mesmo se baseia, no entanto, a pnnc1pal obJeçao que
compatível com o estar vivo, porque exclui toda situação, órgão, in-
se pode fazer a ela. Porque essa forma de acesso à Verdade maiús-
teresse ou data de investigação particulares: a verdade absoluta não
se pode descobrir justamente porque é uma perspectiva." 2 Mas o cula é como que um privilégio de alguns, que os menos ~Afor~a­
dos só conseguiriam compartilhar indiretamente por obediencia m-
fato de toda verdade que alcançamos racionalmente responder a
telectual aos iniciados ou ficando à espera de uma revelação seme-
uma certa perspectiva não a invalida como verdade, só a identifica
como "humana". lhante. Mas de modo nenhum podem repetir por si mesmos o cami-
nho do conhecimento, que se apresenta como inefável e repentino.
Os adversários da razão (ou antes do raciocinar argumental-
A Verdade assim alcançada deve ser aceita em bloco, inquestiona-
mente) pertencentes ao último grupo não o são também da verda-
da não submetida ao processo de dúvidas e objeções que são fruto
de, como acontecia nos dois casos anteriores. Pelo contrário, estes
do' exercício racional. O método da razão, por outro lado, é comple-
tamente diferente. Para começar, está aberto a qualquer um e não
!. A proposta pelo lógico AJfred Tarski , segundo a qual - por exemplo - "o faz distinção entre as pessoas: no diálogo Ménon, Sócrates demons-
enunciado 'a neve é branca' é verdadeiro se e apenas se a neve é branca". tra que também um jovem escravo sem nenhuma instrução pode
2. Los reinos dei ser, de G. Santayana, Prefácio, trad. Francisco González chegar por suas próprias deduções a avançar no. campo da g,eome-
Aramburo, Pondo de Cultura Económica, México. [Traduzido a partir do texto ci-
tado pelo autor.] tria. A razão não exige nada especial para func10nar, nem fe, nem
preparação espiritual, nem pureza de alma ou de sentimentos, nem
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pertencer a determinada linhagem ou a determinada etnia: só pede
"Conversar" não é o mesmo que ouvir sermões ou atender a vo-
r:~a ser usada. A revelação escol~e alguns; a razão pode ser esco-
1 a por qu~lquer um, por todos. E o comum da condição humana. zes de comando. Só se conversa - sobretudo só se discute - entre
Pode-:e fingzr uma. re~elação sublime ou uma intuição emocional iguais. Por isso o hábito filosófico de raciocinar nasce na Grécia,
m~ nao s~ pode fmgtr o exercício racional, porque qualquer ~ junto com as instituições políticas da democracia. Ninguém pode
po e repeti-lo conosco ou em nosso lugar: não há conclusão racio- discutir com Assurbanipal ou com Nero, e ninguém pode conversar
na: se outro (qual~uer outro com vontade de raciocinar) não está fa- abertamente em uma sociedade em que existem castas sociais ina-
cu tado para seguir pelo menos nosso raciocínio e compartilhá-lo movíveis. Sem dúvida a Grécia clássica não foi uma sociedade ple-
ou apontar s~us erros. Diante de tantos veículos particulares supos- namente igualitária (alguma já o foi, alguma o será algum dia?) e as
tan:_en~e muito ~elozes mas que talvez não saiam de onde ~stão a mulheres ou os escravos não tinham os mesmos direitos de cidada-
razao e um serviço público intelectual: um ônibus ' nia que os varões livres: mas no Banquete platônico Diotima inter-
Nesse sentido, a razão não só é um instrumen~o para conhecer vém como interlocutora, e no Mênon Sócrates ajuda o escravo a ra-
c?~º tem relevantes conseqüências políticas. O processo de racio- ciocinar. E raciocinar conseqüentemente exige a universalidade hu-
c1mo - ~rgumentos, dados, dúvidas, provas, contraprovas er - mana da razão, o não excluir ninguém do diálogo em que se argu-
tas ca~c10s~s, refutações, etc. - é tomado do método que ~e~ui~s menta. De modo que a razão esteve acima, na Grécia, de seu próprio
para d.1scuttr com. no~s.os ~emelhantes os temas que nos interessam. sistema social, e está sempre acima dos sistemas sociais desiguais
~u Seja, todo rac10cm10 e social, porque reproduz o procedimento que conhecemos, no sentido da verdadeira comunidade de todos os
e pergunt~s e re.spostas que empregamos para o debate com os ou- seres pensantes. Afinal de contas, a disposição a filosofar consiste
tros. ~ssa ~ pr~c1sam~n;~ a ?rigem da razão, levando-se em consi- em decidir-se a tratar os outros como se também fossem filósofos:
deraça,o .G1org10. Colh: Muitas gerações de dialéticos elaboraram oferecendo-lhes razões, ouvindo as deles e construindo a verdade,
na Grec1a um sistema da razão, do logos, como fenômeno vivo sempre em dúvida, a partir do encontro entre umas e outras.
c~n~reto, p~amente oral. ~videntemente, o caráter oral da discus~ Atualmente difundiu-se uma versão, que me parece errônea,
s~~ e essencial nela: uma discussão escrita, traduzida em obra lite- da relação entre a capacidade de argumentação e a igualdade demo-
ran~, como ~ q~e encontramos em Platão, é um pálido substituto do crática. Dá-se por certo que cada um tem direito a suas próprias
fenomeno on?mal, seja porque carece da mais ínfima imediatez da opiniões e que tentar buscar a verdade (não a sua nem a minha) é
presença dos mt.erlocutores, da inflexão de suas vozes, da alusã~ de uma pretensão dogmática, quase totalitária. No fundo, não há colo-
s:us olhares, Seja porque descreve uma emulação pensada por um cação mais diretamente antidemocrática do que essa. A democracia
s~ homem ~ exclusivamente pensada, por isso carecendo do arbí- se baseia na suposição de que não há homens que nascem para
tno, da novidade, do i~p.rev.isto, que podem surgir unicamente do mandar nem outros que nascem para obedecer, mas todos nós nas-
encontro verbal de dois md1víduos de carne e osso " 3 R . . cemos com a capacidade de pensar e, portanto, com o direito polí-
- ' l · ac10cmar
nao e a go qu~ aprendemos em solidão, mas algo que inventamos tico de intervir na gestão da comunidade de que fazemos parte. No
~o nos comunicar e nos confrontar ~om os semelhantes: toda razão entanto, para que os cidadãos possam ser politicamente iguais, é
e fundamentalmente conversação. As vezes os filósofos modernos imprescindível que, por outro lado, nem todas as suas opiniões o
parecem esquecer esse aspecto fundamental da questão. sejam: deve haver algum meio de hierarquizar as idéias na socieda-
de não hierárquica, potencializando as mais adequadas e descartan-
do as errôneas ou daninhas. Em resumo, buscando a verdade. Essa
é justamente a missão da razão cujo uso todos nós compartilhamos
(antigamente, quem estabelecia as verdades sociais eram os deuses,
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a tradição, os soberanos absolutos, etc.). Na sociedade democráti- quer dizer conhecê-la melhor, quanto ao que contém e ao que sig-
ca, as opiniões de cada um não são fortalezas ou castelos para que nifica. Temos múltiplas fontes de conhecimento, mas todas devem
neles nos encerremos como forma de auto-afirmação pessoal: "ter" passar pelo crivo crítico da razão, que verifica, organiza e busca a
uma opinião não é "ter" uma propriedade que ninguém tem o direi- coerência no que sabemos ... mesmo que seja provisoriamente. Po-
to de nos arrebatar. Oferecemos nossa opinião aos outros para que rém a vida está cheia de perguntas. Por qual começar, depois de nos
a debatam e por sua vez a aceitem ou a refutem, não simplesmente perguntarmos como responder a elas? A primeira de todas bem
para que saibam "onde estamos e quem somos". E é claro que nem pode ser esta: quem sou eu? Ou talvez: o que sou eu?
todas as opiniões são igualmente válidas: valem mais as que têm
melhores argumentos a seu favor e as que melhor resistem à prova
de fogo do debate com as objeções que lhes sejam colocadas. Dá o que pensar...
Se não quisermos que sejam os deuses ou certos homens privi-
Qual é a pergunta anterior às demais perguntas da vida? De
legiados que usurpem a autoridade social (ou seja, que decidam qual
onde nos vem o que acreditamos saber? Podemos estar mediana-
é a verdade que convém à comunidade), não restará alternativa a não
mente certos desses conhecimentos? O que chamamos de razão?
ser submetermo-nos à autoridade da razão como caminho para a
Qual é a relação entre a razão e a verdade? Quanto há de subjeti-
verdade. Mas a razão não está situada como um árbitro semidivino
vo e quanto há de objetivo na razão? Pode-se compartilhar a razão
acima de nós para resolver nossas disputas; ela funciona dentro de
e a verdade com os outros, talvez com todos? Quais são os argu-
nós e entre nós. Não só temos que ser capazes de exercer a razão
mentos dos cépticos e como se pode responder a eles? Em que con-
em nossas argumentações como também - e isso é muito importan-
siste o relativismo? Se tudo é relativo, será que o relativismo tam-
te e, talvez, mais difícil ainda - devemos desenvolver a capacidade
bém é relativo? Será possível chegar à Verdade sem utilizar a ra-
de ser convencidos pelas melhores razões, venham de quem vie- zão, por fé ou por intuição, talvez por um pressentimento? Por que
rem. Não acata a autoridade democrática da razão quem apenas não pode haver uma razão muda e o que tem a ver "conversar "
sabe manejá-la a favor de suas teses mas considera humilhante ser com "raciocinar"? O método racional de chegar à verdade tem im-
persuadido por razões opostas. Não basta ser racional, ou seja, apli- plicações políticas? Para utilizar corretamente a razão basta ser
car argumentos racionais a coisas ou fatos; não é menos imprescin- racional, ou é preciso também ser razoável? Posso ser racional
dível ser razoável, ou seja, acolher em nossos raciocínios o peso ar- contra meu próximo mas ser razoável contra os outros? A democra-
gumental de outras subjetividades que também se expressam racio- cia consiste no direito de defender publicamente as próprias op i-
nalmente. A partir da perspectiva racionalista, a verdade buscada é niões ou na obrigação de considerar todas elas igualmente váli-
sempre resultado, não ponto de partida: e essa busca inclui a con- das? É irracional ou humilhante deixar-se convencer pelos argu-
versação entre iguais, a polêmica, o debate, a controvérsia. Não mentos racionais?
como afirmação da própria subjetividade, mas como caminho para
alcançar uma verdade objetiva através das múltiplas subjetividades.
Se sabemos argumentar mas não nos sabemos deixar persuadir, é
preciso um chefe, um Deus ou um Grande Especialista que final-
mente decida o que é o verdadeiro para todos. Provavelmente mais
adiante teremos que voltar a essa questão do racional e do razoável.
Por enquanto, creio que é suficiente o que foi dito. Vamos re-
capitular. Acossados pela morte, devemos pensar a vida. Pensá-la

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Capítulo três
Eu dentro, eu fora

Muito bem, vamos raciocinar o quanto quisermos mas ... pode-


mos realmente ter certeza de alguma coisa? Os cépticos de pura es-
tirpe voltam à carga sem se dar por vencidos (afinal, o que caracte-
riza o bom céptico é nunca se dar por vencido ... muito menos por
convencido!). No capítulo anterior tentamos explicar como chega-
mos a sustentar racionalmente certas crenças, mas o céptico radical
- talvez escondido dentro de nós mesmos'- continua grunhindo suas
objeções. Bem, ele nos diz, de acordo, vocês se conformam em sa-
ber por que crêem o que crêem, no entanto, podem me explicar por
que não crêem o que não crêem? E se fôssemos apenas cérebros flu-
tuando num frasco de algum líquido nutritivo, submetidos por im-
piedosos sábios marcianos a um experimento virtual? E se os extra-
terrestres nos estivessem fazendo perceber um mundo que não exis-
te, um mundo inventado por eles para nos enganar com falsas con-
catenações causais, com falsas paisagens e falsas leis aparentemente
científicas? E se nos tivessem criado em seus laboratórios, há cinco
minutos, com as lembranças aparentes de uma vida anterior inexis-
tente (como os replicantes do filme Biade Runner)? Por mais fantás-
tica que seja essa hipótese, pelo menos é possível imaginá-la e, se
fosse certa, também explicaria tudo o que acreditamos ver, ouvir,
apalpar ou lembrar. Podemos então ter certeza de alguma coisa, se
nem sequer somos capazes de descartar a falsificação universal?
René Descartes, o grande pensador do século XVII, é conside-
rado, plausivelmente, o fundador da filosofia moderna justamente

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por ter sido o primeiro a se colocar uma dúvida de tal dimensão e uma realidade coerente para nós, por que não o chamamos de "rea-
também por sua forma de superá-la. É claro que Descartes não lidade" e pronto? Como ele vai nos enganar se nada nunca é verda-
mencionou os extraterrestres (muito menos populares em seu sécu- de? Se sempre nos engana, em que seu engano se diferencia da ver-
lo do que no nosso) nem falou em cérebros artificialmente conser- dade? E que diferença faz conhecer um mundo real em que há mui-
vados em frascos. Por outro lado, levantou a hipótese de que tudo o tas coisas ou conhecer muitas coisas fabricadas por um demônio
que consideramos real pudesse ser simplesmente um sonho - o fi- brincalhão mas real?
lósofo francês foi mais ou menos coetâneo do dramaturgo espanhol Sem dúvida Descartes não estava louco nem desvairava arras-
Calderón de la Barca, autor de A vida é sonho - e que as coisas que tado por uma imaginação transbordante. Como todo bom filósofo ,
acreditamos perceber e os fatos que parecem acontecer fossem ape- ele se dedicava nada mais (e nada menos!) do que a formular para
nas incidentes desse sonho. Um sonho total, interminável, no qual si mesmo perguntas aparentemente muito chocantes, mas destina-
sonhamos que dormimos e, às vezes, também que despertamos (por das a explorar o que consideramos mais evidente, para ver se é tão
acaso não acontece às vezes em sonhos acreditarmos que acorda- evidente quanto acreditamos ... à maneira de quem dá muitos pu-
mos e rimos de nosso sonho anterior?), cheio de pessoas sonhadas xões na corda que deve sustentá-lo para saber se está bem segura
e paisagens sonhadas, um sonho em que somos reis ou mendigos, antes de se pôr a subir confiantemente por ela. Pode ser que a cor-
um sonho extraordinariamente vívido ... mas no final das contas ape- da pareça estar devidamente amarrada a algo sólido, pode ser que
nas um sonho. Não contente com essa suposição alarmante, Descar- todo o mundo nos diga que podemos confiar nela, mas ... é nossa
tes propôs outra, muito mais sinistra: talvez sejamos vítimas de um vida que está em jogo, e o filósofo quer garantir-se o mais possível
gênio maligno, uma entidade poderosa como um deus e má como antes de iniciar sua escalada. Não, esse filósofo não é um louco
um demônio, dedicada a nos enganar constantemente, fazendo-nos nem um extravagante (pelo menos não costuma ser, na maioria dos
ver, tocar e cheirar o que não existe, com o único propósito de se di- casos!) : só é um pouco mais desconfiado do que os outros. Preten-
vertir com nossos permanentes equívocos. De acordo com a primei- de saber por si mesmo e comprovar por si mesmo o que sabe. Por
ra hipótese, a do sonho permanente, nós nos enganamos sozinhos; isso Descartes chamou de "metódica" sua forma de duvidar: trata-
de acordo com a segunda, a do gênio malvado, alguém poderoso va-se de encontrar um método (palavra que, em grego, significa
(alguém parecido com um extraterrestre, embora não o possamos "caminho") para avançar no conhecimento fiável da realidade. Seu
chamar assim uma vez que a própria terra seria um engano) nos en- cepticismo queria ser o começo de uma investigação, não a recusa
gana de propósito: em ambos os casos teríamos que nos equivocar de toda forma de investigar ou conhecer.
irremediavelmente e tomar constantemente o falso por verdadeiro. Bem, suponhamos que tudo o que eu creio saber não seja mais
Para uma pessoa comum, essas dúvidas gigantescas são muito do que um sonho ou a ficção produzida por um gênio maligno para
estranhas: será que Descartes não estava um pouco louco? Como me enganar. Nesse caso, não me restaria alguma certeza em que fir-
vamos estar sonhando sempre, se a noção de sonho só tem sentido mar o pé, apesar de meus intermináveis equívocos? Não haverá
por contraste com os momentos em que estamos acordados? E, algo tão certo que nem o sonho nem o gênio possam transformar
além do mais, só sonhamos com coisas, pessoas ou situações co- em falso? Pode ser que não haja árvores, nem mares, nem estrelas,
nhecidas durante os períodos de vigília: sonhamos com a realidade pode ser que não haja no mundo outros seres humanos semelhantes
porque de vez em quando temos contato com realidades não sonha- a mim, pode ser que eu não tenha o corpo nem a aparência fisica
das. Se sempre estivéssemos sonhando, seria igual a não sonhar que creio ter... mas sei pelo menos uma coisa com toda a certeza:
nunca. Além disso, de onde Descartes foi tirar seu gênio maligno? eu existo. Tanto se engano como se acerto, pelo menos tenho certe-
Se existe um tal deus ou demônio constantemente dedicado a urdir za de que existo. Se duvido, se sonho, indubitavelmente devo exis-

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tir para poder sonhar e duvidar. Posso ser alguém muito enganado, mais intimamente no que chamo 'eu mesmo', sempre tropeço em
mas também para que me enganem preciso ser. "De modo que, de- uma ou outra percepção particular, de frio ou de calor, de luz ou de
pois de ter pensado bem - diz Descartes na segunda de suas Medi- sombra, de dor ou de prazer. Nunca posso captar um 'eu mesmo'
tações - e depois de ter examinado cuidadosamente todas as coisas sem encontrar sempre uma percepção, e nunca posso observar nada
finalmente devo concluir e ter por constante que esta proposição: e~ mais do que a percepção." Segundo Hume, também aqui existe uma
sou, eu existo é necessariamente verdadeira, todas as vezes que a miragem, apesar dos esforços de Descartes para evitar o engano.
pronuncie ou a conceba em meu espírito." Cogito, ergo sum: penso, Assim como creio "ver" um bastão quebrado ao introduzi-lo na
logo existo. E, quando diz "penso", Descartes refere-se não só à fa- água - por causa da refração da luz -, também creio "sentir" uma
culdade de raciocinar mas também a de duvidar, equivocar-se, so- substância interrompida e estável à qual chamo "eu" depois de uma
nhar, perceber... a tudo o que ocorre mentalmente ou me ocorre. Tu- série sucessiva de impressões diversas que percebo: como sempre
do podem ser ilusões minhas, salvo que existo com ilusões ou sem noto algo, creio que há sempre um algo que está notando e sentin-
elas. Se digo "estou vendo uma árvore diante de mim", posso estar do. Mas esse mesmo sujeito pessoal que Descartes parece dar por
sonhando ou sendo enganado por um extraterrestre brincalhão; descartado - perdão por esse trocadilho horrível -, eu não o perce-
mas, se afirmo "creio que estou vendo uma árvore diante de mim e
bo nunca e portanto não é mais do que outra ilusão.
portanto existo", tenho que estar certo, não há deus que possa me
Ou pode ser que não seja uma ilusão, mas uma exigência da
enganar nem sonho ou coisa que o valha. Então a corda está bem
linguagem que manejamos. Talvez a palavra "eu" não seja o nome
amarrada e posso começar a escalar.
de uma coisa, pensante ou não pensante, mas uma espécie de loca-
Quem ou o que é esse "eu" de cuja existência já não cabe duvi-
lizador verbal, como os termos "aqui" ou "agora". Por acaso acha-
dar? Para Descartes, trata-se de uma res cogitans, uma coisa que pen-
mos que haja um lugar, fixo e estável, chamado "aqui"? Ou um mo-
sa (entendendo "pensar" no sentido amplo anteriormente menciona-
do). Talvez traduzir a palavra latina res por "coisa" não seja muito mento especial, identificável entre todos os outros, chamado "ago-
adequado e fosse melhor traduzi-Ia por "algo" ou até por "assunto", ra"? Dizer "eu penso, eu percebo, eu existo" é como afirmar "pen-
no sentido genérico que também tem em res publica (o assunto ou as- sa-se, percebe-se, existe-se aqui e agora". Segundo Kant, a fórmula
suntos públicos, e Estado): o eu é algo que pensa, um assunto men- "eu penso" pode acompanhar todas as minhas representações men-
tal. Seja como for, por aqui, depois, vieram a Descartes as mais sé- tais, mas o mesmo se poderia dizer de "aqui" e "agora". Não posso
rias objeções à sua colocação. Por que essa "coisa que pensa" e que expressar-me de outro modo e sem dúvida estou expressando algo
portanto existe sou eu, um sujeito pessoal? Não poderíamos sim- ao falar assim, no entanto é um engano supor que essas palavras r;e-
plesmente dizer "pensa-se" ou "existe-se'', de modo impessoal, velem uma coisa ou pessoa fixa, estável e duradoura. Nesse caso,
como quando afirmamos "chove" ou "é de dia"? Por que o que pen- como em tantos outros, talvez filosofar consista em tentar esclare-
sa e existe deve ser uma coisa, um algo subsistente e estável, em vez cer as confusões produzidas pela linguagem que manejamos. Um
de ser uma série de impressões momentâneas que se sucedem? Exis- deles é supor que a cada palavra deva corresponder no mundo "algo"
tem pensamentos, existe o existir, mas ... por que Descartes chama de substantivo e tangível, quando muitas palavras designam apenas po-
"eu" o suposto sujeito que sustenta esses pensamentos e essa existên- sições, relações ou princípios abstratos. Outro desvario lingüístico
cia? Vejo árvores, noto sensações, raciocino e calculo, desejo, sinto consiste em considerar que todos os verbos são nomes de ações e
medo ... mas nunca percebo uma coisa à qual possa chamar "eu". buscar por isso, em todos os casos, o sujeito que as realiza. Se digo,
Cem anos depois de Descartes, o escocês David Hume diz em por exemplo, "eu existo", o verbo existir funciona em minha ima-
seu Tratado da natureza humana: "Quanto a mim, quando penetro ginação como se indicasse algum tipo de ação, tal como quando

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digo "eu passeio" ou "eu como". No entanto, e se existir não fosse Creio ser o mesmo que fui ontem, inclusive o mesmo que era há
absolutamente nada que se parecesse com uma ação nem, portanto, quarenta anos; mais ainda, creio que continuarei sendo eu .enq~an­
necessitasse de um sujeito concreto para realizá-la? E se "existir" to viver, e; se a morte me preocupa, é justamente porque s1gmf1ca-
funcionasse antes como "é de dia" ou "está chovendo", ou seja, rá o final do meu eu. Mas como posso ter tanta certeza de que con-
como algo que acontece mas que ninguémfaz? tinuo sendo o mesmo que aquele menino de cinco ou dez anos,
Provavelmente, ao colocar como irrefutável a existência de seu imensamente diferente do meu eu atual, fisica e espiritualmente?
eu (que também é o nosso, não vamos achar que ele fosse egoísta), Será que a memória é que explica essa continuidade? Mas a verda-
Descartes estava pensando em sua alma. Sem dúvida, a alma é uma de é que esqueci a maioria das sensações e incidentes de minha
noção carregada de referências religiosas - cristãs, é claro, mas tam- vida passada. Suponhamos que alguém me mostre uma foto minha
bém anteriores ao cristianismo - muito respeitáveis e interessantes, de décadas atrás, tirada numa festa infantil da qual não me lembro
embora não tão indubitáveis quanto exigia o filósofo francês ao de absolutamente nada. Vejo-a e digo, contente, "sim, sou eu", ape-
buscar a certeza definitiva por meio de seu procedimento dubitati- sar de meu esquecimento radical: embora não me lembre de nada,
vo. Embora Descartes tente colocar tudo em dúvida, parece admi- tenho certeza de que então me sentia tão eu quanto agora e de que
tir de supetão e sem maior crítica a noção de "alma" ou "eu" pes- essa sensação não se interrompeu. Também creio ter continuado
soal, sobre cuja certeza tanto cabe duvidar, seguindo seu próprio sendo sempre eu todas as noites, enquanto durmo, apesar de raras
método. Os cépticos mais ferrenhos dirão que Descartes não foi de vezes me lembrar do que sonho - e nunca por muito tempo - ou até
fato um deles, mas apenas um falso céptico, por demais interessa- durante a completa inconsciência produzida pela anestesia. Mesmo
do em sair de dúvidas o quanto antes ... Segundo Descartes, a alma supondo que um acidente me deixasse completamente amnésico,
é uma realidade separada e totalmente distinta do corpo, o qual ela incapaz de me lembrar de coisa alguma de minha vida passada,
controla de uma cabine de comando situada na glândula pineal (um nem sequer do que me aconteceu ontem, provavelmente continua~
adminículo de nosso sistema cerebral do qual, em seu tempo, ain- rei pensando - com algumas dúvidas, quem sabe? - que sempre fm
da não se havia descoberto nenhuma função fisiológica concreta). o mesmo "eu" que sou agora .. . embora não lembre. .
Os neurologistas e psiquiatras atuais sorriem diante desse ponto de O psiquiatra Oliver Sacks, em seu livro O homem que confun-
vista, mas também suas explicações sobre a relação entre nossas diu sua mulher com um chapéu, conta o caso de um paciente seu -
funções mentais e nossQs órgãos fisicos nem sempre são claras nem um tal Mr Thomson - cuja memória fora destruída pela síndrome
totalmente convincentes. As pessoas comuns, vocês ou eu (vocês, de Korsakov e que se dedicava a inventar constante e freneticamen:
cada um dos quais também diz "eu"), por acaso renunciaram de te novos passados para si. Era sua maneira de poder continuar con-
fato a acreditar que somos "alma" num sentido bem parecido com siderando-se "o mesmo" através do tempo, tal como acontece com
o de Descartes? você e comigo. "O mesmo" quer dizer que, embora evidentemente
Voltemos à questão do "eu". Será que podemos despachá-lo mudemos de um ano para outro, de um dia para outro, algo conti-
como um mero erro de linguagem? Cada um de nós está convenci- nua permanecendo estável sob as mudanças (para que uma coisa
do de que de algum modo possuímos uma certa identidade, algo mude é necessário que, em certo aspecto, continue sendo a mesma:
que permanece e dura através do turbilhão de nossas sensações, de- se não, em vez de mudar, se destrói e é substituída por outra). Mas
sejos e pensamentos. Estou convencido de que sou eu, em primei- quantas mudanças uma coisa pode S?frer para continuarmos dizen-
ro lugar para mim, mas também para os outros. Sou eu porque me do que é a mesma que era, embora transformada? Se a lâmina de
mantenho através do tempo e porque me diferencio dos outros. uma faca se quebra e eu a troco por outra, continua sendo a mesma

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faca; se troco seu cabo por outro, também é a mesma; mas, se tro- seja minha!" De um modo ou de outro, não só a notarei como de-
quei a lâmina e o cabo, ela continuará sendo a mesma, embora eu a verei levá-la em conta. E esse levá-la em conta não é, na maioria
continue chamando de "minha" faca? E quanto ao futuro? Como dos casos, uma simples reação reflexa, mas uma reflexão pela qual
posso estar tão convencido de que continuarei sendo "eu" também me aproprio do que me ocorre e o conecto ao resto de minhas expe-
amanhã e no ano que vem, se ainda estiver vivo, sejam quantas fo- riências. Em suma, não só tenho consciência - como qualquer ou-
rem as transformações que me ocorram, mesmo que o mal de Alz- tro animal - como também autoconsciência, consciência da minha
heimer destrua minhas lembranças e me faça esquecer até meu consciência, a capacidade de objetivar aquilo de que sou consciente
nome ou o de meus filhos? E por que estou tão preocupado com e situá-lo em uma série com cuja continuidade me vejo especial-
esse eu futuro que se parecerá tão pouco comigo? mente comprometido. Não só sinto e percebo como também posso
Em defesa do "eu" cartesiano, no entanto, também se podem ob- me perguntar o que estou sentindo e percebendo, assim como inda-
jetar certas coisas aos que pensam como Hume. Diz o filósofo es- gar o que significa para mim o que estou sentindo e percebendo.
cocês que, quando entra em seu foro interno para buscar seu eu Talvez a primeira vez que em nossa tradição ocidental aparece
(para se buscar?) só encontra percepções e sensações de tipo dife- um testemunho literário dessa reflexão seja quando, no final da
rente: dá com conteúdos de consciência, nunca com a própria cons- Odisséia, depois de errar longamente, Ulisses chega enfim a seu
ciência. Mas quem ou o que realiza essa importante comprovação? palácio de Ítaca. Ao ver sua mulher acossada pelos pretendentes
Sem dúvida nem a percepção nem a sensação são o mesmo que despudorados, que estão comendo e bebendo do que é seu, Ulisses
comprovar que alguém tem uma sensação ou uma percepção. Uma se inflama de cólera vingativa. Não avança imprudentemente sobre
coisa é notar o frio, por exemplo, e outra é dar-se conta de que se eles, mas se contém, dizendo: "Paciência, coração meu!" Essa bre-
está com frio 1, ou seja, classificar essa sensação desagradável, ima- ve recomendação que o herói faz a si mesmo, ao mesmo tempo
ginar seus possíveis efeitos negativos, buscar remediá-la rapida- constatando e acalmando o ardor de sua ira, talvez seja o início de
mente. Há em mim uma sensação de frio e também algo que se dá toda nossa psicologia, a primeira amostra culturalmente testemu-
conta de que estou sentindo isso (não outra coisa) e o relaciona com nhada de autoconsciência, segundo indicou muito bem Jacqueline
tudo o que lembro, desejo ou temo, ou seja, com minha vida em seu de Romilly em um livro precioso, que tem por título justamente as
conjunto. O que sinto ou percebo nesse exato momento não está va- palavras citadas de Ulisses.
gueando desligado de toda referência ao complexo formado por mi- Não será a algo semelhante que Descartes se refere quando
nhas outras lembranças e expectativas, mas aloja-se imediatamente fala de um eu como res cogitans, ou seja, como uma coisa pensan-
de maneira mais ou menos estruturada entre elas. Nisso me parece te ou conjunto de assuntos pensados, que posso englobar na fórmu- ·
consistir que eu possa chamar de minhas as minhas sensações e la "eu sou, eu penso"? E a que se refere, talvez equivocado, cha-
percepções: na adesão especial que tenho a elas e também na ne- mando-lhe "alma", embora essa alma possa ter muito mais buracos
cessidade de levá-las em conta vinculando-as com outras não me- e sobressaltos do que sua visão substancialista supõe?
nos minhas. Se eu notar uma dor de dente, por exemplo, não pode- Em todo caso, meu "eu" não só é formado por esse foro inter-
rei me desinteressar dela ou ignorar suas implicações dizendo: no ou mental do qual vimos falando. Essa dimensão interior ou ín-
"Puxa, parece que há uma dor de dente por aqui. Espero que não tima também é acompanhada por uma exteriorização do eu no
mundo do percebido, fora do âmbito do que percebe: meu corpo.
Do mesmo modo que considero minha a minha consciência, embo-
1. Certamente há um sentido de "dar-se conta" que é equivalente a "notar" - e
talvez o mais comum, também em filosofia-, mas aqui quero dizer tornar explícitas ra nela haja lacunas de esquecimento ou interrupções inconscien-
as conexões de uma experiência com outras anteriores. tes, também considero meu o meu corpo, mesmo que sofra trans-

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formações, pe;ca_ o cabelo, as unhas ou os dentes, até mesmo que ria mos afirmar para o curioso interplanetário que o corpo é tudo
lhe amputem orgaos e membros. Meu corpinho infantil e meu cor- 11q uilo de que não podemos prescindir para continuar vivos, uma
po ~dulto,, crescido ou envelhecido, têm para mim uma continuida- vez que às vezes é preciso trocar meu coração por outro para eu não
de mefutavel, nem sempre fácil de explicar mas da qual não duvi- morrer, e certos doentes dependem dos aparelhos de diálise que
do, a não ser co~o experimento teórico .. . desses que a filosofia substituem seus rins, para não falar no ar ou no alimento, que me
costuma fazer. Pois bem, o que é meu corpo? são corporalmente tão imprescindíveis quanto os pulmões ou o es-
Suponhamos que um daqueles extraterrestres dos quais já fa- tômago e no entanto não fazem parte do meu eu.
lamos antes (só que deste não teremos suspeitas de más intenções Se o extraterrestre estivesse estudando uma mulher grávida, o
apenas curiosidade) venha a nosso mundo e comece a nos estudar' problema se complicaria mais ainda, pois não é fácil resolver se o
a v.ocê e a mim. Tem à sua frente um ser vivo, talvez até o conside~ feto é simplesmente uma parte de seu corpo ou algo distinto dele.
re mtehgente ,(~ejamos otimistas!), mas uma das primeiras pergun- Quanta complicação! O perspicaz Lichtenberg, no final do século
tas ~ue ,se fara e: o~de c~meça e onde acaba esse bicho? A pergun- XVIII, disse em um de seus aforismos que "meu corpo é a parte do
ta nao e absurda: ha mmta gente que, ao ver um bernardo-eremita mundo que meus pensamentos podem mudar". Uma idéia engenho-
den~ro de sua concha, não sabe se esta faz parte ou não do caran- sa, porque para realizar a maioria das modificações da realidade -
gueJ o, n~m é fácil determinar se o casulo da crisálida também deve mudar uma poltrona de lugar, fazer um carro arrancar, trocar de
ser considerado crisálida como o resto do animal que 0 segregou. roupa - preciso agir através de meu corpo, ao passo que me basta
D? mesmo modo, o extraterrestre pode achar que eu também sou desejar ou pensar para levantar o braço ou abrir a boca. E, no en-
minha casa e que acabo na porta da rua, ou que pelo menos minha tanto, não parece ser meu pensamento que me faz respirar ou dige-
poltrona favorita e meu avental fazem parte de mim, ou que 0 ci- rir, tampouco minha vontade pode me devolver o cabelo e os den-
~ar:o ~ue estou !llm~ndo é um de meus apêndices e a fumaça cons- tes perdidos ... para não falar em mudar a cor de minha pele ou meu
ti~i mmha resprraçao malemolente. Você, que tem carro e passa 0 sexo! As metamorfoses de Michael Jackson ou dos transexuais ne-
dia de~tro dele, certamente seria classificado pelo marciano entre cessitam de intervenções externas para serem realizadas. Franca-
os terncolas de qu.atro rodas. Mas, se o forasteiro interplanetário mente, satisfazer à curiosidade do extraterrestre pode nos colocar
chegar a se comumcar conosco, explicaremos a ele que está enga- numa situação comprometedora ...
nado, que nossas fronteiras são estabelecidas por nosso tecido ce- No entanto, minha convicção profunda é a de que eu começo
lular e que -por mais que amemos nossas posses e nosso alojamen- e acabo em meu corpo, sejam quais forem os embrulhos teóricos
to urbano -:- nosso eu vivente só chega até onde abrange a nossa que essa certeza me traga. Talvez, vendo meu nervosismo, o amá-.
pele ...Ou seja, noss? corpo. Ao que o marciano poderia nos respon- vel marciano aceite esse ponto para não me irritar mais; então, ele
der: Tudo bem, e isso, como vocês chegaram a saber?" poderia me fazer a pergunta do milhão: "De acordo, você começa e
_ Respo?der-lhe adequadamente não é tão óbvio como parece. acaba em seu corpo, mas ... devo assumir que você tem um corpo ou
Nao pode~ran:os explicar-lhe que quando falo em corpo estou me que você é um corpo?" Uma tal interrogação poderia ser causa jus-
refermdo aqmlo que sempre vai comigo, diferentemente de outras tificada de uma guerra interplanetária! Provavelmente Descartes,
~osses~ões, pois meu cabelo, minhas unhas, meus dentes, minha sa- que supunha que a alma fosse um espírito e o corpo uma espécie de
liva, ?'1inha urina, meu apêndice, etc., são partes do meu corpo, mui- máquina (segundo ele, os animais - que não têm alma - são meras má-
to minhas, mas apenas transitoriamente. Cedo ou tarde deixam de quinas ... que nem sequer podem experimentar dor ou prazer!), res-
se: eu sem que eu deixe de ser eu, tal como a serpente se desfaz na ponderia ao extraterrestre que eu - o espírito - tenho um corpo e
pnmavera da roupa velha que é sua pele usada. Nem sequer pode- me arranjo com ele o melhor que posso. Segundo uma certa visão

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popular, estamos dentro do nosso corpo à maneira de fantasmas en- nhuma, cuja sede privilegiada só o cérebro poderia aspirar a ser.
cerrados em uma espécie de robôs que devemos dirigir e mover. Até Além disso, se eu não sou meu corpo, de onde vim para finalmen-
há místicos que acham que o corpo é quase tão ruim quanto um cár- te ir parar dentro dele?
cere e que sem ele nós nos moveríamos com muito maior ligeireza. Por outro lado, há quem acredite que não temos, mas somos
Na Grécia antiga, os órficos - seguidores de uma religião mitoló- nosso corpo. Aristóteles achava que a alma é a forma do corpo, en-
gica muito antiga - faziam um jogo de palavras tenebroso: soma (o tendendo por "forma" não a figura externa mas o princípio vital
corpo)= sema (o sepulcro). A alma está encerrada num zumbi, num que nos faz existir. E a neurobiologia atual pensa quase unanime-
cadáver vivo! De modo que a morte definitiva do corpo, que deixa mente que os fenômenos mentais de nossa consciência são produ-
a alma voar livremente (a palavra grega para alma,psiche, também zidos por nosso sistema nervoso, cujo centro operacional é o cére-
significa "borboleta"), é uma autêntica libertação. Sócrates talvez bro. De modo que, quando falamos da "alma" ou do "espírito", es-
tenha se referido a isso em suas últimas palavras, conforme nos são tamos nos referindo a um dos efeitos do funcionamento corporal,
citadas por Platão, em Fédon, quando, ao notar que o efeito da ci- assim como quando falamos da luz emitida por uma lâmpada nos
cuta estava chegando a seu coração, disse a seus discípulos: "Deve- referimos a um efeito produzido pela lâmpada e que cessa quando
mos um galo a Esculápio." Havia o costume de oferecer um animal ela se apaga .. . ou queima. Seria ingênuo achar que a luz está den-
como sacrifício de gratidão a Esculápio, deus da medicina, quando tro da lâmpada como algo distinto e separado dela, e mais ainda nos
alguém se curava de uma doença: talvez Sócrates achasse que o ve- perguntar para onde a luz vai quando a lâmpada se apaga. Mas tam-
neno assassino estava prestes a livrá-lo da doença da alma que con- bém parece evidente que a luz da lâmpada traz algo à própria lâm-
siste em suportar um corpo. A verdade é que, com um sujeito tão pada e tem propriedades diferentes das dela: não há luz sem lâmpa-
irônico, nunca se sabe ... da, mas a luz não é a mesma coisa que o vidro da lâmpada, que seu
Mas será que acreditamos realmente estar montados em nosso filamento elétrico, que o fio que a une à tomada da corrente geral,
corpo, e ao volante, como quem pilota um veículo? Se é assim, etc. Seria injusto, pelo menos, dizer que a luz não é mais do que a
onde nos localizamos, em que parte do corpo? Descartes falou da lâmpada ou a central elétrica que a alimenta. Do mesmo modo, em-
glândula pineal, mas a maioria das pessoas não sabe onde fica esse bora o pensamento seja produzido pelo cérebro, ele não é idêntico
traste. Quando dizemos "eu", costumamos apontar para nosso pei- ao cérebro. A essa atitude de afirmar que algo - a luz, a mente ... -
to, mais ou menos na altura do coração. Se refletirmos um pouco "não é mais do que" a lâmpada ou o cérebro geralmente é chama-
mais, talvez cheguemos à conclusão de que estamos em nossa ca- da de reducionismo. Alguns reducionistas estariam de acordo em
beça, em um ponto situado no cruzamento da linha que pode ser aceitar que a mente (luz) é um estado do cérebro (lâmpada), ou
traçada entre os dois olhos com a que vai de uma orelha a outra. Por seja, o primeiro é um "modo" em que está o segundo. Contudo, eles
isso meu amigo Rafael Sánchez Ferlosio - que às vezes pode ser parecem simplificar demais uma realidade que é mais complexa.
tão irônico quanto Sócrates - um dia comentou comigo sobre o Em um romance do escritor inglês Aldous Huxley podemos ler
quanto são insuportáveis as dores de dente, otites, enxaquecas, etc.: este parágrafo: "O ar em vibração havia sacudido a membrana
"São muito ruins. São tão perto de nós!" Mas não conheço nin- tympani de lord Edward; a cadeia de ossinhos - martelo, bigorna e
guém que esteja convencido de habitar no dedão de seu pé esquer- estribo - se pôs em movimento, agitando então a membrana da ja-
do, por exemplo. Em geral, as pessoas que acreditam ter um corpo nela oval e levantando uma tempestade infinitesimal no líquido do
e estar dentro dele referem-se a um "dentro" que não é o interior da labirinto. As extremidades filamentosas do nervo auditivo treme-
bolsa corporal, cheia de órgãos, veias e músculos, mas a uma inte- ram como algas em um mar revolto; um grande número de milagres
rioridade diferente, que está em todas as partes do corpo e em ne- obscuros se efetuaram no cérebro e lord Edward murmurou em êx-

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tase: Bach!" 2 Sem dúvida, lord Edward percebeu a música graças 111 inha vida e o que sou: por um lado - o lado de fora - pos,so :er
aos mecanismos de seu ouvido e às terminações nervosas de seu cé- julgado por meu funcionamento, avaliando se todos ~s meus o~gaos
rebro; se fosse surdo ou se lhe tivessem extirpado determinadas zo- funcionam devidamente (tal como observamos o piloto lummoso
nas da córtex cerebral, teria sido inútil a orquestra se esforçar para de um eletrodoméstico para saber se está ligado ou desligado), de-
tentar lhe agradar. Mas o próprio desfrute da música que estava ou- terminando quais são minhas capacidades físicas ou mi_nha compe-
vindo, sua capacidade de apreciá-la e de identificar seu autor, o sig- tência profissional, se me comporto como manda a lei ou co_meto
nificado vital que tudo isso encerrava para o ouvinte não pode ser malfeitorias, etc. ; por outro lado - o de dentro - sou um experzn:en-
reduzido ao simples mecanismo auditivo e cerebral. Não teria ocor- to sobre 0 qual só eu mesmo, em minha interioridade, posso opmar,
rido sem ele, não existiria sem ele, mas não se reduz meramente a ponderando 0 que obtenho e o que perco, compar~ndo o que ~ese~
ele. Assim como a luz produzida pela lâmpada não é a mesma coi- jo com 0 que rejeito, etc. E sem dúvida _meu func10namento mflm
sa que a lâmpada, o desfrute musical de Bach não é a mesma coisa decisivamente em meu experimento, e vice-versa.
que o sistema corporal que capta os sons, embora não ocorresse Quanto ao velho debate entre as relações de minha alma - mas
sem essa base material. Às vezes o produzido tem qualidades dis- de onde pode brotar a alma a não ser do corpo? - com meu corpo
tintas, que emergem a partir daquilo que o produz. Por isso Lucré- _ acaso posso chamar meu um corpo sem alma? -, talvez eu deva
cio, o grande materialista da antiguidade romana, embora estando desviar-me por um momento dos filósofos e recorrer aos poetas:
convencido de que somos um conjunto de átomos configurados
desta ou daquela maneira, observa que os átomos não podem rir, ao El alma vuelve al cuerpo
passo que nós sim. Somos um conjunto constituído por átomos ma- se dirige a los ojos
teriais, mas esse conjunto tem propriedades que os próprios átomos y choca. - i Luzi Me invade
não têm. Somos nosso corpo, não podemos rir nem pensar sem ele, todo mi ser. iAsombro!*
mas o riso e o pensamento têm dimensões acrescidas - espirituais?
- que não conseguiremos entender completamente sem ir além das JORGE GUILLÉN,
explicações meramente fisiológicas que dão conta de seu funda- "Más allá", em Cántico
mento material imprescindível.
Eu dentro, eu fora . Sou um corpo em um mundo de corpos, um Assim eu me encontro, invadido e possuído por todo o m_eu
objeto entre objetos, e me desloco, me choco ou esbarro neles; mas ser, que é tanto o olhar interior da alma como a luz do mundo, m-
também sofro, gozo, sonho, imagino, calculo e conheço uma aven- separáveis, indubitáveis. Será essa a certeza que buscou o mestre
tura íntima que sempre tem a ver com o mundo exterior, mas que
Descartes?
não figura no catálogo da exterioridade. Porque, se alguém pudesse Depois de tentar explorar meu eu, o que sou, assalta-me outra
anotar em um livro (ou melhor, em um CD-Rom) todas as coisas dúvida: há alguém aí fora? Estou sozinho? Existe algum outr? "eu"
que têm volume e ocupam lugar na realidade, até o último de meus além do meu? Evidentemente, constato que ao meu redor ha seres
átomos figuraria na lista, junto com o Amazonas, os grandes tuba- aparentemente semelhantes a mim, mas dos qu~is conheço apenas
rões brancos e a estrela Polar... mas não o que sonhei esta noite ou suas manifestações exteriores, gestos, exclamaçoes, etc. Como pos-
o que estou pensando agora. De modo que há duas formas de ler so saber se eles também gozam e padecem realmente de uma mte-

2. Ponto e contraponto, de A. Huxley. [Traduzido a partir do texto citado pelo *Tradução livre: "A alma volta ao corpo I dirige-se aos olhos I e choca. - Luz!
autor: Contrapunto, Planeta, Barcelona.]
Invade-me I todo o meu ser. Assombro!"

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rioridade como a minha, se também para eles existem dores, praze- tabelecer o âmbito das significações lingüísticas compartilhadas é
res, sonhos, pensamentos e significados? A pergunta parece arbitrá- marcar as fronteiras do humano: não será precisamente aí, no hu-
ria, até demente - já vimos que muitas perguntas filosóficas soam mano, no que compartilho com outros semelhantes capazes de fa:
estranhas em primeira instância! -, mas não é nada fácil de respon- lar e portanto pensar, que poderei encontrar uma resposta melhor a
der. Aquele que chega à conclusão de que no mundo não há outro pergunta sobre o que ou quem sou eu?
"eu" além do seu - pois de todos os outros só conhece comporta-
mentos e aparências que não atestam o respaldo de uma visão inte-
rior como a sua própria - é chamado, na história da filosofia, de Dá o que pensar...
"solipsista". E houve muitos, acreditem, pois não é fácil refutar
Posso ter certeza realmente de algum de meus conhecimentos?
essa convicção extravagante. Afinal, como saber que os outros tam-
É imaginável que esteja perpetuamente sonhando ou que seja en-
bém têm uma mente como a minha, se por definição minha mente
ganado por alguma entidade poderosa e maligna? Por que De~c~r­
é aquilo a quem só eu tenho acesso direto? O assunto é tão sério que
tes formulou essas hipóteses e as, c~nsiderou pm:te ~e uma ~uvzd~
um dos maiores filósofos do século XX, o inglês Bertrand Russel,
metódica? Ele foi o maior dos ceptzcos ou o przmezr~ ~os zn~e,stz­
conta que em certa ocasião ele recebeu uma carta de um solipsista
gadores modernos, em busca ~a certez_a ~ac'.onal~, E z~~ubztavel
explicando-lhe sua posição teórica e estranhando que, sendo tão ir-
que "eu" existo ou só é indubita~e_l a exzstencza de "al~? , que po-
refutável, não houvesse mais solipsistas no mundo ... deria ser impessoal e fragmentarzo? O que era o eu para Des-
Na minha opinião, o argumento anti-solipsista mais sólido foi cartes? O que ele entendia porres cogitans? O "eu"~ uma s~bs­
fornecido por outro grande pensador contemporâneo - além do mais, tância estável e pessoal ou poderia ser apenas um efeito localzza-
amigo e discípulo de Bertrand Russel -, o austríaco Ludwig Witt- dor da linguagem? Quando pratico a introspecção, encontro um
genstein. Segundo Wittgenstein, não pode haver uma linguagem "eu" como Descartes ou apenas percepções, como afirma Hume?
privada: todo idioma humano, para sê-lo, precisa poder ser com- Ser consciente é o mesmo que ser autoconsciente? Meu corpo é
preendido por outros e tem como objetivo compartilhar com eles o pura mente que percebe ou também tem um prolo~ga~ento_ n?
mundo dos significados. Em meu interior, desde que começo a re- mundo dos objetos percebidos? Vendo-se de fora, quazs sao os lzmz-
fletir sobre mim mesmo, encontro uma linguagem sem a qual não tes do meu "eu"? Por que chamo o corpo de "meu"? Sou meu cor-
saberia pensar, nem mesmo sonhar: uma linguagem que não inven- po ou tenho um corpo ? Se a alma tem um corpo mas não é o cor-
tei, uma linguagem que, como todas as linguagens, tem que ser for- po, que lugar ocupa nele? De onde che_go~ a ~le? Se a alm_a ou ~ .
çosamente pública, ou seja, eu a compartilho com outros seres ca- mente é o cérebro, podemos dizer que nao e mazs do que o cerebro.
pazes como eu de entender significados e manejar palavras. Termos Embora não haja consciência sem cérebro, o cérebro tem as mes-
como "eu", "existir", "pensar", "gênio maligno", etc., não são pro- mas propriedades que a consciência? C~mo_ posso estabe_lecer _se
dutos espontâneos de um ser isolado, mas criações simbólicas que há outras mentes no mundo semelhantes a mznha? O que e o solzp-
têm seu lugar na história e na geografia humanas: dez séculos an- sismo? Poderíamos ser todos solipsistas? Eu inventei a linguagem
tes ou numa latitude diferente ninguém teria feito as perguntas de que encontro em mim? Poderia haver uma linguagem para meu us~
Descartes. Por meio da linguagem que dá forma a minha interiori- pessoal exclusivo, sem referência a outras mentes semelhantes a
dade posso postular - devo postular - a existência de outras interio- minha?
ridades entre as quais se estabelece o vínculo revelador da palavra.
Sou um "eu" porque posso me chamar assim diante de um "tu" em
uma língua que, depois, permite ao "tu" falar do lugar do "eu". Es-

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Capítulo quatro
O animal simbólico

As sondagens exploratórias em busca de algum conhecimento


sólido a respeito do meu eu, da minha mente e/ou do meu corpo me
trouxeram muito mais perplexidades do que certezas. Porém, pelo
menos minhas poucas certezas deixaram de ser ingênuas rotinas ir-
refletidas, ao passo que minhas perplexidades são agora dúvidas fi-
losóficas, ou seja, suficientemente estimulantes para que não tenha
pressa em me desfazer delas. O mais certo que sei a meu respeito é
que sou um ser falante, um ser que fala (consigo mesmo, para co-
meçar!), alguém que possui uma linguagem e que portanto deve ter
semelhantes. Por quê? Porque não inventei a linguagem que falo -
ela me foi ensinada, inculcada - e porque toda linguagem é pública,
serve para objetivar e compartilhar o subjetivo, é necessariamente
aberta à compreensão de seres inteligentes ... feitos à minha imagem
e semelhança. A linguagem é o certificado de pertencimento à mi-·
nha espécie, o verdadeiro código genético da humanidade.
Calma, não vamos nos embalar, não queiramos saber rápido
demais. Vamos voltar mais uma vez à questão inicial (a filosofia
avança em círculos, em espiral, está sempre disposta a reincidir nas
mesmas perguntas, mas tomadas uma volta à frente): o que ou quem
sou eu? Vamos experimentar outra resposta: sou um ser humano, um
membro da espécie humana. Ou, como afirmou o dramaturgo roma-
no Terêncio, "sou humano e nada do humano me é alheio". De acor-
do - provisoriamente, é claro -, mas então o que significa ser hu-
mano? Em que consiste esse "humano" com que me identifico?

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ças (embora não da morte, para a qual não temos escapatória possí-
Uns quinhentos anos antes de Jesus Cristo, o grande trágico
ve l); e sobretudo a faculdade de utilizar bem.o~ ma~ tantas destrezas
grego Sófocles inclui em sua obra Antígona uma reflexão do coro
(o que supõe previamente disposição para dis~mgmr o bem_e o mal
sobre o humano a qual merece ser citada por extenso: "Muitas coi-
nas ações ou propósitos, assim como capacidade de opçao entre
sas existem e, contudo, nada mais assombroso do que o homem.
·lcs, ou seja: a liberdade). Mas o verdadeiramente mais humano tal-
Ele se dirige ao outro lado do mar espumante com a ajuda do tem-
pestuoso vento sul, sob as ondas que rugem avançando, e à mais vez seja o próprio assombro do coro sofocli~~ diante d~ humano,
poderosa das deusas, à imorredoura e infatigável Terra, ele trabalha essa mescla de admiração, orgulho, responsabihdade e ate de temor
sem descanso, fazendo girar o arado ano após ano, a ará-la com que as façanhas e malfeitos humanos (a estes últimos Sófocles não
mulos. O homem que é hábil na caça, envolvendo-os com os laços se refere muito aqui, limita-se a dizê-lo, mas não nos esqueçamos
de suas redes, à espécie dos pássaros aturdidos, e aos rebanhos de de que o fragmento corresponde à narração de uma tragédia estre-
agrestes feras, e à família dos seres marinhos. Em suas manhãs apo- mecedora) despertam nos homens. O principal destino dos huma-
dera-se do animal do campo que vai através dos montes, e unge nos parece ser nos assombrarmos - bem ou mal! - uns aos outros.
com o jugo que rodeia a cerviz o cavalo de espessas crinas assim Também essa condição de pasmo do homem é destacada, e em
como o incansável touro selvagem. Ensinou a si mesmo a lingua- tom mais jubiloso ainda, em Oratio pro hominis dignitate ("Discur-
gem e o alado pensamento, e também, fecundo em recursos, apren- so sobre a dignidade humana"), composto no século XV pelo flo-
deu a esquivar sob o céu os dardos dos rudes gelos e os das chuvas rentino Pico della Mirandola, e que alguns consideram algo como
inclementes. Nada do porvir o encontra carente de recursos. Só da o manifesto humanista do Renascimento. Mas Pico não só confir-
Morte não terá escapatória. De enfermidades que não tinham remé- ma 0 ponto de vista de Sófocles como acredita ter encontrado a au-
~io já cogitou possíveis evasões. Possuindo uma habilidade supe-
têntica raiz da razão por que o homem é tão portentoso: "Pare~e-1?e
nor ao que se pode imaginar, a destreza para engenhar recursos al- ter entendido por que o homem é o ser vivo mais ditoso, o mais dig-
gumas vezes ele encaminha para o mal e outras para o bem." 1 no, por isso, de admiração, e qual é a sua condição que .lhe ~ou~e
Nessa célebre descrição acumulam-se todas as características por sorte no conjunto do universo, capa~ d~ de~per~ai:_ a i.nveJa nao
distintivas da espécie humana: a capacidade técnica de controlar as só dos brutos como dos astros, das propnas mtehgencias supra-
forças naturais, colocando-as a nosso serviço (a navegação, a agri- mundanas. Incrível e admirável!" 2 A que capacidade portentosa re-
cultura, e hoje acrescentaríamos as viagens interplanetárias, a ener- fere-se o entusiasmado humanista?
gia elétrica e nuclear, a televisão, os computadores, etc.); a habili- O ponto de vista de Pico é certamente original. Até então, os
dade para caçar ou domesticar a maioria dos outros seres vivos filósofos afirmavam que o mérito dos humanos provinha de nossa
(mesmo que alguns micróbios e bactérias resistam); a posse da lin- condição racional, de sermos feitos à imagem e sem~lhança d.e
guagem e do pensamento racional (Sófocles insiste em que a lingua- Deus de sermos capazes de submeter os demais seres vivos, e coi-
gem foi inventada pelos próprios seres humanos para se comunica- sas p~recidas. Ou seja, enalteciam o homem por ser algo mais que
rem entre si, não lhes vem de fora como presente de nenhuma di- 0
resto do mundo. No entanto, segundo Giovanni Pico, a dignidade
vindade); o engenho para se guardar das inclemências climáticas de nossa condição nos vem do fato de sermos algo menos do que
(com habitações e roupas); a previsão do futuro e suas ameaças, os demais seres criados. Com efeito, tudo o que existe, desde o ar-
preparando de antemão remédio contra elas; a cura de muitas doen-
2. Oratio de hominis dignitate [Oração sobre a dignidade do homem], de Pico
della Mirandola. [Traduzido a partir do texto citado pelo autor: De la dignidad hu-
1. Trad. esp. de Asseia Alamillo, levemente modificada pelo autor. Em Trage-
dias, de Sófocles, Gredos, Madri. [Traduzido a partir do texto citado pelo autor.] mana, Editora Nacional, Madri .]

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canjo até a pedra - passando pelas bestas mais ou menos despertas, tir sobre alguns dos problemas desta visão renascentista do huma-
as plantas, a água, o fogo, etc.-, tem seu lugar pré-fixado por Deus no, tão decidida e até arrogantemente moderna. Mas por enquanto
~a ordem do universo, que deve ocupar sempre, seja alto ou baixo.
basta-nos aqui destacar a contribuição de Pico à colocação feita, em
As coisas deste mundo só resta serem o que são, ou seja, o que sua época, pelo coro de Antígona. Segundo o trágico grego, o ad-
Deus, que as fez, quis que fossem. Todas as coisas, todos os seres, mirável do homem - para "admirável" ele utiliza um termo que
estão assim fixados de antemão ... menos o homem. também se pode ler como "estremecedor", "terrível" - é o que o ho-
Quando dispôs ordenadamente todo o universo, o Supremo mem pode chegar afazer com o mundo, seja por meio da técnica,
Autor dirigiu-se ao primeiro homem e - segundo Pico della Miran- da astúcia ou da linguagem racional; mas o humanista florentino
dola! - assim lhe falou: "Não te demos nenhum lugar fixo, nenhu- destaca sobretudo o que o homem pode fazer consigo mesmo, se-
ma fisionomia própria, nenhum oficio peculiar, ó Adão, para que gundo a escolha divinamente livre de seu arbítrio ou sua vontade. E
possas ter e possuir por tua própria decisão e escolha o lugar, a ima- notemos de passagem que, para Pico, a dignidade do homem vem
gem e os empregos que desejes para ti. Para os demais, uma natu- do fato de que ele é o ser mais "ditoso" ou "afortunado" da cria-
reza limitada dentro de certas leis que lhes prescrevemos. Tu, não ção .. . algo, sem dúvida, que Sófocles jamais se atreveria a afirmar!
submetido a nenhuma norma estrita, irás defini-la para ti conforme Em todo caso, parece que sempre se tentou definir o humano
teu arbítrio, ao qual te entreguei. Coloquei-te no centro do mundo, por contraposição (e também por comparação) com o animal e com
para que mais comodamente olhasses a teu redor e visses tudo o o divino. É humano quem não é nem animal nem deus. Em nossos
que existe. Não te fizemos nem celeste nem terrestre, nem mortal dias, é bastante evidente que deuses nós não somos, em parte por
nem imortal, para que tu, como modelador e escultor de ti mesmo, nossas patentes deficiências e em parte também porque agora se crê
mas a teu gosto e honra, forjes a forma que preferires para ti. Pode- nos deuses ou em Deus bem menos do que em outras épocas. Mas,
rás degenerar para baixo, com os brutos; poderás alçar-te para jun- por outro lado, há sérias dúvidas quanto a não sermos animais, e
to das coisas divinas, por tua própria decisão.'' 3 mesmo animais tão especiais ou diferentes dos outros como gosta-
De modo que, segundo Pico, o assombroso do homem é que se ríamos de supor. Que entre os animais e os seres humanos existem
mantenha aberto e indeterminado em um universo no qual tudo tem semelhanças e até uma certa forma de parentesco, isso é evidente,
seu lugar e deve responder sem excentricidades ao que marca sua ainda que apenas pelo esbanjamento de eloqüência que se fez atra-
natureza. Deus criou tudo o que existe mas deixou o homem, por vés dos séculos para deixar claro que não somos animais. Em com-
assim dizer, criado pela metade: concedeu-lhe a possibilidade de pensação, nunca ninguém se preocupou em provar que não somos
concluir em si mesmo a obra divina, autocriando-se. De modo que pedras ou plantas ... Por outro lado, nas fábulas tradicionais de qua- ·
o homem é também um pouco Deus, pois lhe foi outorgada a facul- se todos os países aparecem os animais exemplificando certas vir-
dade de criar, pelo menos aplicada a si mesmo. Ele pode fazer mau tudes que nós, humanos, gostaríamos de ter: coragem, fidelidade,
uso dessa discricionariedade e rebaixar-se até o vegetal ou o pétreo; prudência, astúcia, etc., por exemplo, o touro, o cão, o lince, a águia,
mas também pode se elevar até o angélico, até a própria imortali- etc. E também se manifesta reprovação aos viciosos insultando-os
dade. Não há dúvida de que Pico della Mirandola é bem mais oti- com nomes de animais: o ignorante é chamado de "asno", o sujo ou
mista do que Sófocles quanto às capacidades humanas! Mais adian- lascivo de "porco", o covarde de "galinha" e os inimigos de "cachor-
te (nos capítulos seis e sete deste livro) teremos que voltar a refle- ros" ou "ratazanas". Essas comparações positivas ou negativas são
uma forma de reconhecer similaridades reveladoras (embora em
boa parte imaginárias!), ao mesmo tempo que expressam o temor
3. Ibidem , trad. esp. ligeiramente modificada pelo autor. [Traduzido a partir
do texto citado pelo autor.] sempre latente de sermos confundidos com os outros animais.

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No entanto, desde que Darwin tornou pública sua teoria da também animais e de que, como espécie, devemos buscar nossos
evolução do homem a partir de outras formas de vida animal, nos- parentes entre as bestas e não entre deuses ou anjos (não caímos do
sa filiação zoológica se transformou em doutrina científica acatada céu, mas brotamos do solo, como já indicaram algumas mitologias)
quase universalmente. Digo "quase" porque ainda há obstinados não impede que constatemos traços característicos no humano que
que, por razões religiosas, se negam a assumir essa origem pouco determinam um autêntico salto qualitativo com relação a nossos an-
ilustre. É curioso constatar que na maioria das crenças religiosas tepassados zoológicos. Apontá-los com precisão é importante (em-
ocorre sempre uma mescla de humildade e orgulho: devemos nos bora não seja nada fácil), não por anseio de continuar perpetuando
submeter a Deus, mas essa submissão nos vincula à divindade e nos assim pedaços de nossa danificada superioridade excepcional do
eleva acima dos demais seres naturais. Na época moderna, nós, hu- passado, mas para - bem ou mal - compreender melhor o que efe-
manos, tivemos de assumir três grandes humilhações teóricas, as tivamente somos. De modo que agora as perguntas serão: se não
três vinculadas à ciência e as três frontalmente opostas a dogmas re- basta nos classificar simplesmente como animais, o que mais nós
ligiosos. A primeira teve lugar nos séculos XVI e XVII, por obra de somos? Há algo que diferencie radicalmente, em profundidade, o
Copérnico, Kepler e Galileu: a Terra, o planeta humano, foi deslo- animal humano do resto dos animais?
cada do centro do universo e perdeu sua majestosa imobilidade pri- Tradicionalmente tem-se falado do ser humano como "animal
vilegiada para se pôr a girar em torno do Sol. A segunda ocorreu no racional", ou seja, o bicho mais inteligente de todos. Não é fácil de-
século XIX: Darwin demonstrou de maneira bastante convincente finir de forma elementar o que entendemos por razão (embora te-
que nossa espécie é mais uma no conjunto dos seres vivos e que não nhamos tentado um pouco no capítulo dois), de maneira suficiente-
fomos criados diretamente por nenhum Deus à sua imagem e seme- mente ampla para que os animais não fiquem excluídos dela de an-
lhança, mas proviemos por mutações casuais de uma longa série temão. Conforme muito bem mostrou o filósofo inglês Roger Scru-
genética de mamíferos antropóides. A terceira humilhação nos foi ton, "as definições da razão e da racionalidade variam grandemente;
infligida por Sigmund Freud, no final do século XIX e início do variam a ponto de sugerir que, enquanto pretendem definir as dife-
XX, ao transformar nossa própria consciência ou alma em algo com- renças entre homens e animais em termos de razão, os filósofos es-
plexo e nada transparente, traspassado por impulsos inconscientes tão na verdade definindo a razão em termos da diferença entre ho-
dos quais não somos donos. Nos três casos perdemos alguma carac- mens e animais" 4 • Digamos como primeira abordagem que a razão
terística de excepcionalidade que nos orgulhava e para a qual se ha- é a capacidade de encontrar os meios mais eficazes para alcançar
viam buscado fundamentos teológicos: cada vez nos parecemos mais os fins que nos propomos. Neste sentido, é evidente que também os
com o que não queremos ser... animais têm suas próprias razões e desenvolvem estratégias inteli~
No entanto, por mais que aceitemos hoje a indubitável conti- gentes para conservar suas vidas e reproduzir sua espécie. É claro
nuidade entre o animal e o humano, nem por isso parecem ter-se que nenhum animal fabrica bombas atômicas nem maneja compu-
apagado - muito pelo contrário - as diferenças fundamentais que tadores, mas será por falta de inteligência ou porque não precisam?
justificam ainda esse "assombro" diante do homem, expressado Podemos dizer que é mostra de pouca inteligência fazer apenas o
pelo coro de Sófocles ou por Pico della Mirandola. Conforme mos- imprescindível para viver, sem buscar maiores complicações? Eis
tramos no capítulo anterior, uma coisa é dizer que algo - uma ca- uma primeira diferença entre a inteligência dos animais e a dos se-
pacidade, um ser - provém ou emerge de outro algo - um processo res humanos: nos animais, a inteligência serve para obterem o que
fisiológico, um antropóide -, outra coisa muito diferente é afirmar
que ambos são idênticos, que o primeiro não é mais do que o se- 4. An Intelligent Person s Guide to Philosophy, de R. Scruton, Duckworth,
gundo ou se reduz a ele. O fato de que nós, seres humanos, somos Londres. [Traduzido a partir do texto citado pelo autor.]

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necessitam; em contrapartida, nos humanos serve para descobrir- passo que os humanos hesitam e se enganam muito mais, no entan-
mos necessidades novas. O homem é um animal insatisfeito, inca- to sabem responder melhor a mudanças radicais das circunstâncias.
paz de satisfazer algumas necessidades sem que veja outras surgi- Se um determinado animal obtém maus resultados com o instinto
rem no horizonte de sua vida. Em outras palavras: a razão animal de sua espécie, dificilmente consegue substituí-lo por algo que ele
busca os melhores meios para alcançar certos fins estáveis e deter- mesmo tenha aprendido ou inventado. Isso é exemplificado com
minados, ao passo que a razão humana busca meios para alcançar muita graça pelo humorista galego Julio Camba, que fala da pesca
determinados fins e também novos fins , ainda incertos e indetermi- do "linguarudo", um marisco parecido com a navalha. O linguaru-
nados. Talvez seja esta a característica para a qual apontava Pico do vive enterrado na areia das praias, deixando um buraquinho
della Mirando la em sua descrição da dignidade humana ... como saída de seu esconderijo. Quando a maré sobe, ele sai da
Nos animais a inteligência parece estar exclusivamente a ser- areia para se alimentar. Para pescá-lo, põe-se um grão de sal no bu-
viço de seus instintos, que os dirigem para suas necessidades ou raco no qual ele está à espera, fazendo-o acreditar que já está co-
fins vitais básicos. Ou seja, sua conduta só responde a um quadro berto pela água do mar e provocando sua saída. Conta Julio Cam-
de situações que voltam sempre de novo - necessidade de alimen- ba: "Eu cheguei a desconcertar de tal modo um pobre linguarudo
to, de acasalamento, de defesa, etc. - , cuja importância provém da que, quando a maré subia, o infeliz achava que eu lhe tinha coloca-
vida da espécie e não da escolha de cada um dos indivíduos. A in- do um grão de sal, e, quando eu colocava um grão de sal, achava
teligência a serviço dos instintos funciona com muita eficácia, mas que a maré tinha subido. Perdida a confiança em seu instinto, aque-
nunca inventa nada de novo. Sem dúvida, alguns primatas desco- le pobre linguarudo tinha se transformado quase num ser pensante
brem truques engenhosos para conseguir comida ou se proteger do e não acertava nem por acaso." 5 Brincadeiras à parte, a verdade é
inimigo e até chegam a difundi-los por seu grupo. Mas a base de que - diante do dificil aperto daquele linguarudo, para quem Cam-
seus desejos se atém invariavelmente à pauta instintiva elementar. ba foi uma espécie de "gênio maligno" cartesiano - um ser huma-
Os humanos, em contrapartida, utilizamos a inteligência tanto para no teria inventado alguma coisa para verificar a subida da maré ...
satisfazer nossos instintos como para interpretar as necessidades ou teria dado um jeito de mudar de hábitos e de dieta alimentar.
instintivas de novas formas : da necessidade de alimento derivamos Até aqui estamos comparando animais e humanos do ponto de
a diversidade gastronômica, do acasalamento chegamos ao erotis- vista antropocêntrico. Mas o que dizem os que consideram uns e
mo, do instinto de defesa desembocamos na guerra, etc. Nos ani- outros de uma perspectiva zoológica? Embora sempre tenhamos
mais conta muito a espécie, o beneficio da espécie, a experiência gostado de nos auto-elogiar, chamando nossa espécie primeiro de
geneticamente acumulada da espécie, e muito pouco ou nada os ob- Homo habilis e depois de Homo sapiens, o certo é que nem nossas.
jetivos particulares do indivíduo ou sua experiência privada. Os habilidades técnicas nem nossa sabedoria são adotadas como crité-
animais parecem nascer sabendo já muito mais do que aprenderão rio diferencial por aqueles que nos têm estudado como mais uma
em sua vida; quanto a nós, humanos, dir-se-ia que aprendemos qua- variedade de mamíferos superiores. Afinal de contas, compartilha-
se tudo e não sabemos quase nada no momento em que nascemos. mos com os chimpanzés noventa e tantos por cento de nossa dota-
Para marcar essa diferença, alguns falam em "conduta" animal (pre- ção cromossômica! Em 1991, uma equipe de primatólogos (ou seja,
determinada) em contraposição a "comportamento" humano (inde- estudiosos dos primatas) estabeleceu uma série de características
terminado, livre), embora provavelmente essas distinções termino- que distinguem os grupos humanos dos nossos mais próximos pa-
lógicas não sejam muito esclarecedoras.
A verdade é que os animais acertam com grande freqüência no 5. La casa de Lúculo, de J. Camba, col. Austral, Madri. [Traduzido a partir do
que fazem sempre que não lhes apresente grandes novidades, ao texto citado pelo autor.]

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rentes zoológicos 6 • A primeira delas é que, quer abandonem ou não próprios de sua espécie. O biólogo Johannes von Uexküll dizia que
seu grupo familiar e quer sejam machos ou fêmeas, os humanos no mundo de uma mosca encontramos só "coisas de mosca" e no
adultos conservam ao longo de toda a vida laços afetivos com seus mundo de um ouriço do mar só "coisas de ouriço do mar". Em con-
parentes mais próximos. Os demais primatas, em contrapartida, só trapartida, nós, humanos, parecemos ter a capacidade de nos distan-
permanecem ligados a seus consangüíneos quando continuam fa- ciar das coisas, de nos descolar biologicamente delas e vê-las como
zendo parte do mesmo grupo, e essa ligação só existe entre os indi- objetos com suas próprias qualidades, que muitas vezes em nada se
víduos de mesmo sexo. Entre os primatas, a organização social ou referem a nossas necessidades ou temores. Por isso alguns filóso-
se baseia no casal monogâmico - é o caso dos gibões e dos orango- fos contemporâneos (Max Scheler, entre outros, em seu importan-
tangos - ou no bando, em que todas as fêmeas são monopolizadas te livro O lugar do homem no cosmo) distinguem o meio em que
pelo macho que ocupa a chefia, como entre os gorilas (talvez a úni- habitam os animais do mundo em que vivem os humanos (do qual
ca exceção sejam os inteligentes chimpanzés bonobos, que segundo tentaremos nos ocupar mais no próximo capítulo). No meio animal
dizem conseguem desenvolver uma vida tribal de invejável promis- não há nada neutro, tudo é a favor ou contra o que a espécie requer
cuidade sexual). Mas só os humanos fazem a monogamia ser com- para se perpetuar; no mundo humano, em contrapartida, cabe qual-
patível com a vida em grupo, provavelmente porque mantêm rela- quer coisa, até o que nada tem a ver conosco, ou o que já não tem
ções com seus filhos de ambos os sexos mesmo depois de atingida a ver, o que perdemos, o que ainda não conseguimos. Mais ainda, a
a maturidade. Também estabelecem relações de cooperação inter- possibilidade de ver as coisas objetivamente, como reais em si mes-
grupal e de especialização para busca de alimentos, defesa, etc., des- mas (um pensador espanhol contemporâneo, Xabier Zubiri, define
conhecidas entre os outros primatas. Porém o mais característico é o homem como "um animal de realidades"), estende-se até o pon-
serem os únicos capazes de conservar relações significativas mesmo to de objetivar nossas próprias necessidades e reinterpretar as exi-
na ausência daqueles com quem se relacionam, ou seja, além dos li- gências biológicas de nossa espécie ... ou seja, até o ponto de nos
mites efetivos do grupo ou tribo. Em suma, são capazes de lembrar- distanciar de nós mesmos! Nós, humanos, podemos estudar as coi-
se socialmente dos outros, mesmo que não vivam com eles. sas do mundo em si mesmas e nossa própria condição objetiva
Que conclusões podemos tirar de tudo isso? Tudo indica que como ingredientes do mundo real, ao passo que não parece que seja
os demais primatas - e mais ainda outros animais - vivem como possível haver animais zoólogos ...
que incrustados ou fundidos no meio que lhes é próprio (George Em alguns zôos há uma parte especial dedicada aos animais
Bataille, em sua Teoria da religião, diz que eles são "como a água que desenvolvem sua atividade durante a noite. Em terrários espe-
na água"). Permanecem como que irremediavelmente aderidos aos cialmente condicionados foram recriadas suas condições de vida e, ·
semelhantes com quem convivem e ao objetivo de seus instintos, ao por meio de jogos de luz, inverteu-se o tempo real, de modo que os
que necessitam buscar para sobreviver e se reproduzir. Não são ca- bichos acham que é dia quando é noite e vice-versa. Desse modo,
pazes de se distanciar dos que os rodeiam nem do que faz parte das os visitantes podem observar os morcegos, corujas e outros seres
necessidades de sua espécie. Constituem um contínuo com o que
semelhantes em ação. Pois bem, em um ensaio que adquiriu certa
necessitam e querem, inclusive com aquilo de que fogem porque os
notoriedade, Thomas Nagel se pergunta "como será sentir-se mor-
ameaça: não podem ver nada objetivamente, desligado dos anseios
cego"7. Claro, o que intriga Nagel não é o que sentiria ele, ou você
ou eu, que somos humanos, voando velozmente, às cegas, com a
6. De CurrentAnthropology, de Rodseth, Wrangham, Harrigan e Smuts, cita-
dos por Adam Kuper em The Chosen Primate, Harvard University Press, Harvard,
Mass. [Traduzido a partir do texto citado pelo autor.] 7. Incluído em Cuestiones mortales, Fondo de Cultura Económica, México.

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boca aberta, dirigindo-nos por um radar de ultra-som, pendurados mação do leão ou de um incêndio, os volteios da abelha informam
num teto pelos pés, de cabeça para baixo, ou nos alimentando de in- a suas companheiras de colmeia onde e a que distância se encon-
setos. A essa pergunta trivial, a resposta não menos óbvia é que nos tram as flores que devem libar, etc. Mas a linguagem humana não
sentiríamos muito estranhos. Mas essa estranheza viria do fato de tem um conteúdo previamente definido, serve para falar de qual-
não sermos morcegos e, no entanto, agirmos como tais. O que Na- quer tema - presente ou futuro - , assim como para inventar coisas
gel se pergunta não é o que pode sentir um humano transformado que ainda não aconteceram ou referir-se à possibilidade ou impos-
em morcego, mas como é ser morcego ... para os morcegos (também sibilidade de que aconteçam. Os significados da linguagem huma-
poderíamos perguntar, por exemplo, o que se sente sendo linguaru- na são abstrações, não objetos materiais. Em uma de suas viagens
do, sobretudo antes de um Julio Camba chegar e nos enganar). É imaginárias, Gulliver, de Jonathan Swift, encontra um povo cujos
impossível responder à pergunta, pois para isso deveríamos não habitantes querem ser tão precisos que, em vez de falar, levam em
apenas ter a dotação sensorial peculiar de morcegos ou linguarudos um saco todas as coisas a que querem referir-se e vão tirando-as
como tam~ém compartilhar seu meio. E, embora estejamos juntos, diante dos outros para comunicar seu pensamento. Esse procedi-
nossos me10s são radicalmente diferentes. Em outras palavras: nós mento não deixa de apresentar um problema, pois, como disse o
estamos presentes em seu meio como interf erências, sem outro sig- grande lingüista contemporâneo Roman Jakobson, suponhamos que
nificado além da repulsa ou do obstáculo que implicamos para suas quem vai se referir a todas as baleias do mundo consiga carregar
vidas, ao passo que eles habitam nosso mundo como seres indepen- num saco tantos cetáceos; ainda assim, como poderá dizer que são
dentes e, portanto, distintos das reações (medo, agrado, etc.) que "todas"? No terreno emocional, as dificuldades não são menores: o
despertam em nós. O certo, em todo caso, é que nos seria impossí- antílope que faz vigília num rebanho pode alertar os outros da pre-
vel reproduzir em um zoológico imaginário as condições de vida do sença temível de um leão, mas como poderia lhes dizer, na ausên-
Homo sapiens, seu meio natural. Nosso meio natural é o conjunto cia do predador, que ele tem medo de leões ou que acha que o leão
de todos os meios, um mundo feito com tudo o que há e também não é tão feroz como o pintam? Como poderia pregar-lhes a peça
co?1 o que j.á não há e com o que ainda não há. Um mundo que, de anunciar um leão que não existe ou lembrar o quanto parecia fe-
alem do mais, muda a cada momento. O modo de vida não só dos roz o leão da semana passada? No entanto, reflexões desse tipo são
morcegos e dos linguarudos, mas também dos chimpanzés e de ou- parte essencial do que chamamos de o "mundo" dos humanos.
tros animais que se parecem muito mais conosco, é essencialmente As chamadas linguagens animais (tão radicalmente diferentes
o mesmo, ainda que vivam separados por milhares de quilômetros; da nossa, que, francamente, parece errado chamá-las também de
em contrapartida, algumas centenas de metros bastam para mudar "linguagens") mandam avisos ou sinais úteis à sobrevivência do
notoriamente os comportamentos dos grupos humanos, ainda que grupo. Servem para dizer o que precisa ser dito, ao passo que o que
pertençamos todos à mesma espécie biológica. Por quê? caracteriza a linguagem humana é servir para dizer o que queremos
Sobretudo pela existência da linguagem. A linguagem humana dizer, seja o que for. Esse "querer dizer" é justamente o essencial
(qualquer linguagem humana) é mais profundamente diferente das de nossa linguagem. Quando ouvimos uma frase em um idioma
chamadas linguagens animais do que a própria fisiologia humana desconhecido, nós nos perguntamos o que quererá dizer. Pode ser
da fisiologia dos outros primatas ou mamíferos. Graças à lingua- que não saibamos essa língua, mas sabemos muito bem que esses
gem, para os seres humanos entram em conta as coisas que já não sons ou essas letras escritas revelam uma vontade de comunicação
existem ou que ainda não existem ... até as que não podem existir! que os irmana com a língua que nós mesmos manejamos . O fato de
As chamadas linguagens animais sempre se referem às finalidades compartilhar a posse de uma linguagem (de um querer dizer sem
biológicas da espécie: a gazela adverte seus semelhantes da aproxi- referência vital fechada, que pode falar do possível e do impossí-

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vel, do atual, do passado ou do futuro, que pode tratar inclusive da tram falta de memória ou atenção mas, pelo contrário, uma vee-
própria fala - como estamos fazendo aqui, como nenhum outro ani- mência espontânea que se adianta ao que lhes é ensinado demasia-
mal pode fazer - e serve para debater argumentos, ao passo que os do lentamente. Sánchez Ferlosio conta que sua filha, quando pe-
animais avisam ou ameaçam, mas não "discutem") é a característi- quena, ao abrir uma maçã perfurada por bichos, disse que ela tinha
ca mais própria de nossa condição (ao lado de nos sabermos mor- "tubulações". Essa ingenuidade não revela um equívoco torpe, mas
tais): tem muito mais importância isso que nos assemelha a qual- a associação brilhante entre significados que tenta abrir caminho
quer outro ser humano, a capacidade de falar, do que o que nos se- expressivo a uma velocidade maior do que a que se emprega para
para, a utilização de idiomas diferentes. aprender o vocabulário ...
Esse "querer dizer" é decisivo até na aprendizagem da própria Como já dissemos, o que caracteriza a linguagem humana não
linguagem. Os estudiosos que tentaram ensinar a chimpanzés rudi- é permitir expressar emoções subjetivas - medo, ira, prazer e outros
mentos de comunicação lingüística por meio de cartões com dese- movimentos anímicos que também costumam revelar-se por gestos
nhos (às vezes com resultados notáveis, como os obtidos pelos Pre- e atitudes, como pode fazer qualquer outro animal-, mas objetivar
mack com sua famosa macaca Sarah) mostram sempre a falta de um mundo comunicável de realidades determinadas em que outros
iniciativa simbólica dos primatas e seu desinteresse pelo que são participam junto conosco. Às vezes se diz que um muxoxo ou um en-
trabalhosamente forçados a aprender. Chegam a dizer coisas apesar colhimento dos ombros podem ser mais expressivos do que qualquer
de si mesmos, estimulados por recompensas, mas sem mostrar ne- mensagem verbal. Talvez sejam mais expressivos daquilo que nos
nhum gosto pessoal pela habilidade adquirida. O que lhes interessa acontece interiormente mas nunca comunicam melhor o que ocor-
não é se comunicar, mas o que lhes é dado para se comunicarem. As re no exterior. A principal tarefa da linguagem não é revelar meu eu
crianças, em contrapartida, se lançam sobre a possibilidade de co- para o mundo mas ajudar-me a compreender e participar do mundo.
municação que as palavras lhes abrem, não aprendem de maneira Graças à linguagem, nós, humanos, não habitamos simples-
meramente receptiva, mas participam ativa e atropeladamente de mente um meio biológico mas um mundo de realidades indepen-
seu próprio adestramento verbal, como se estivessem já fervilhando dentes e significativas mesmo quando não se encontram efetiva-
de coisas para dizer e lhes faltasse tempo para saber como. Diferen- mente presentes. Como esse mundo que habitamos depende da lin-
temente de ler ou escrever, nenhuma criança resiste a aprender a fa- guagem que falamos, alguns lingüistas (Edward Sapir e Benjamin
lar nem é preciso lhe oferecer nenhum prêmio por realizar o que, L. Whorf são os que mais se destacam) supuseram que cada um dos
pensando bem, não é uma proeza pequena. Na primeira oportuni- idiomas abre um mundo diferente, donde alguns relativistas atuais
dade vê-se despertar nas crianças a intenção de falar, que é exata- deduzem que cada grupo de falantes tem seu próprio universo, mais
mente o que falta aos outros primatas, por mais espertos que sejam. ou menos fechado para quem não conhece sua língua. Mas parece
Dir-se-ia que o ser humano tem o propósito de comunicar-se que eles exageram bastante. O antropólogo Rosch nos traz a esse
mesmo antes de dispor dos meios. Talvez o único exemplo relativa- respeito um experimento interessante em seus trabalhos sobre os
mente contrário seja o menino criado entre animais no Aveyron, dani da Nova Guiné. Esse povo fala um idioma em que há apenas
que Jean Itard, pedagogo do século XVIII, tentou ensinar a falar, o dois termos para cor: um nomeia os tons intensos e quentes, outro
que pode indicar que a primeira vontade de comunicação humana é os pálidos e frios. Rosch submeteu-os a uma prova, que consistia
recebida pelo fato de crescer entre humanos. Nada mostra melhor em identificar quarenta amostras de cor e claridade diferentes, pri-
esse entusiasmo pela linguagem por parte das crianças quando co- meiro nomeando cada uma delas e depois voltando a identificá-las
nhecem o mundo comunicável que lhes abre a palavra do que os entre as outras, após um breve intervalo. Os dani tiveram dificulda-
próprios erros cometidos na aprendizagem, os quais não demons- de em nomear cada um dos matizes que lhes eram apresentados,

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mas não tiveram problema na hora de voltar a reconhecê-los entre Em todo caso, fica evidente que tinha razão Ernst Cassirer -
os ou_tros. A linguagem - toda linguagem, qualquer idioma - nos outro pensador contemporâneo dos mais notáveis - ao afirmar que
penmte ter um mundo, mas uma vez adquirido esse mundo ela não "o homem é um animal simbólico" 8 • O que é um símbolo? É um
o fecha às contribuições de nossos sentidos e muito menos à vonta- signo que representa uma idéia, uma emoção, um desejo, uma for-
de de compreender e nos comunicar com nossos semelhantes. Por ma social. E é um signo convencional, combinado por membros da
isso o que há de mais humano em um idioma é que o essencial de sociedade humana, não um sinal natural que indica a existência de
seus ~onteúdos pode ser traduzido para qualquer outro: não há que- outra coisa, como a fumaça indica onde há fogo ou as pegadas de
rer dizer sem querer entender e fazer-se entender. .. uma fera indicam a fera que passou por ali. Nos símbolos os ho-
Sem dúvida a linguagem humana também é cercada de enig- mens entram em acordo para referir-se a alguma coisa ou comuni-
mas ... como tudo o que nos interessa de verdade! O primeiro deles car algo, por isso devem ser aprendidos e por isso, também, mudam
é a própria origem da linguagem. Se o que distingue os seres huma- de um lugar para outro (o que não acontece com sinais, como a fu-
nos é a palavra, como chegamos a obtê-la? A linguagem foi inven- maça ou as pegadas). As palavras ou os números são os exemplos
tada pelos primeiros humanos? Ou então já eram humanos desde mais claros de símbolos, mas de modo nenhum são os únicos. Tam-
antes de tê-la, mas humanos sem linguagem, o que contradiz tudo bém certos seres ou objetos podem ser carregados de valor simbó-
o que sabemos hoje sobre nossa espécie. Foram primatas pré-huma- lico pelo homem : a árvore de Guernica, por exemplo, é uma plan-
nos os mventores da fala? Mas como poderiam esses animais de- ta como as outras e, além disso, o símbolo dos direitos do povo bas-
senvolver um mundo simbólico tão distante da animalidade como co; a luz verde e a luz vermelha de um semáforo representam a au-
tal, façanha que parece requerer a inteligência plenamente evoluída torização para atravessar a rua ou a ordem de esperar; a falecida
que supomos brotar justamente do intercâmbio lingüístico? Enfim Lady Di transformou-se, para muitos, num símbolo de diversas vir-
~e é a lingua~em que nos faz humanos, os humanos não podem te;. tudes, etc. Qualquer coisa natural ou artificial poderá ser um sím-
mve~tado a linguagem ... mas é mais incrível ainda que ela tenha bolo se quisermos que o seja, mesmo que não haja nenhuma rela-
sido mventada por outros animais, ou que nos tenha sido ensinada ção aparente nem semelhança direta entre o que simboliza material-
por extraterrestres chegados há milênios (como esses extraterres- mente e o que é simbolizado: o fato de uma flecha indicar o cami-
tres teria~ começado a falar?) ou deuses com gosto pela gramáti- nho a seguir talvez pudesse ser deduzido por quem soubesse como
ca! O mais sensato - embora também não seja muito esclarecedor as flechas voam, mas ninguém será capaz de adivinhar por si só que
- é supor que tenha ocorrido uma interação entre começo da lingua- o preto é a cor do luto (com efeito, em alguns países orientais é o
gem e começo da humanidade: alguns gritos semi-animais foram se branco) ou que "cão", "chien" e "dog" são nomes para a mesma es-
tra~sformando em palavras e ao mesmo tempo certos primatas su- pécie animal. Os símbolos referem-se apenas indiretamente à reali-
penores foram se humanizando cada vez mais. Uma coisa influiu dade física e, no entanto, apontam diretamente para uma realidade
s~bre a outra e vice-versa. No final do século XIX, o grande lin- mental, pensada, imaginada, feita de significados e de sentidos, na
gmsta Otto Jespersen supôs que, no princípio, o que houve foram qual os humanos habitam exclusivamente como humanos e não
exclamações e~otivas ou talvez frases rítmicas, musicais, que ex- <eomo primatas mais dotados ou menos dotados. Os mitos, as reli-
pressavam sentimentos ou anseios coletivos (Jean-Jacques Rous- giões, a ciência, a arte, a política, a história, por certo também a fi-
sea~, . no século XVIII, já havia insinuado algo parecido): 0 passo losofia ... tudo são sistemas simbólicos, baseados no sistema simbó-
dec1s1vo, segundo Jespersen, foi quando "a comunicação prevale-
ceu sobre a exclamação". Caberia perguntar: "E como isso aconte- 8. Antropologia filosófi ca, de E. Cassirer. [Traduzido a partir do texto citado
ceu? Pois é justamente isso que gostaríamos de saber.. ." pelo autor: Antopologíafilosófica, Pondo de Cultura Económica, México.]

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lico por excelência, que é a linguagem. A própria vida, que tanto contramestre Starbuck, essas palavras de Ahab soam como loucu-
apreciamos, ou a morte, que tanto tememos, não são apenas aconte- ra. E esse é o grande problema: será que podemos chegar a saber
cimentos fisiológicos, mas também processos simbólicos: por isso totalmente o que é simbólico e o que não é, até onde chega a con-
alguns se dispõem a sacrificar sua vida fisica em defesa de seus sím- venção, onde acaba o que tem significado interpretável e onde co-
bolos vitais, e há mortes simbólicas que tememos ainda mais do que meça o que não pode ter mais do que simples descrição ou explica-
o mero falecimento de nosso corpo. Como disse um poeta, Charles ção? Pois em delimitar bem esses campos pode estar a diferença en-
Baudelaire, habitamosforêts de symboles* : as selvas humanas nas tre o sensato e o demente ou alucinado.
quais vagamos são feitas de símbolos. Voltaremos adiante mais extensamente às questões colocadas
Nossa condição essencialmente simbólica é também a base da por esse animal simbólico a cuja estranha espécie pertencemos (ca-
importância da educação em nossas vidas. Há coisas que podemos so você, leitor, seja também humano como eu, o que deduzo do fato
aprender por nós mesmos - por exemplo, que o fogo queima, que a de me estar lendo agora). Mas talvez antes seja preciso perguntar-
água molha -, mas os símbolos nos têm que ser ensinados por ou- se por esse próprio mundo em que vivemos simbolicamente. De-
tros humanos, nossos semelhantes. Talvez por isso sejamos os pri- pois de ter tentado responder dubitativamente às perguntas "quem
matas com infância mais prolongada, porque precisamos de muito sou?, quem somos?", às quais teremos que voltar, vamos passar por
tempo para conhecer todos os símbolos que depois irão configurar um momento a outras interrogações: onde estamos?, como chega-
nosso modo de existência. De certo modo, sempre continuamos mos aqui?, o que é o mundo?
sendo crianças, porque nunca deixamos de aprender símbolos no-
vos .. . E o desenvolvimento da imaginação simbólica determina
nossa forma de ver tudo, a ponto de às vezes acreditarmos desco- Dá o que pensar...
brir símbolos até onde nenhum acordo humano pôde estabelecê-
los. Como nossa principal realidade é simbólica, às vezes somos Por que a linguagem é a prova de que não sou o único ser pen-
tentados a acreditar que todo o real é simbólico, que todas as coi- sante que existe? O que quero dizer ao afirmar que pertenço à es-
sas se referem a um significado oculto que só podemos vislumbrar. pécie humana? Em que sentido Sófocles diz que o homem é o mais
Em Moby Dick, a obra-prima de Herman Melville, quando um admirável que existe sobre a terra? Jiócê acha o homem só algo es-
membro de sua tripulação repreende o capitão Ahab por perseguir tupendo, ou também algo terrível e trágico? Qual é a originalidade
o cachalote branco como se este fosse a encarnação do Mal, apesar do humanismo de Pico della Mirando/a? O homem é grande pelo
de se tratar apenas de um animal sem desígnio racional, Ahab res- que tem de mais ou pelo que tem de menos em comparação com es
ponde: "Todos os objetos visíveis, homem, não são mais do que outros seres vivos? Nós, humanos, tememos que nos confundam
máscaras de papelão, mas em todo acontecimento, no fato vivo, há com os animais? Quais são os argumentos que demonstram nosso
sempre algo desconhecido, embora raciocinante, que projeta sua parentesco com eles? A zoologia basta para compreender o huma-
sombra de trás das máscaras que não raciocinam. Se o homem quer no? Em que nossa inteligência difere da inteligência dos outros bi-
golpear, que golpeie através da máscara! Como pode o prisioneiro êhos? Somos mais inteligentes do que eles? Estamos mais satisfei-
abrir caminho se não através da parede? Para mim, o cachalote
tos do que eles com o que obtemos? Há diferença entre "conduta"
branco é essa parede, que se encontra diante de mim. Às vezes pen-
animal e "comportamento" humano ?, entre habitar em um "meio"
so que ela é a única coisa que existe ..." Para os ouvidos sensatos do
e ter um "mundo"? Podemos ter idéia do que seja ser um morcego
ou um linguarudo ? Se no meio animal só há seres ou coisas presen-
* Em francês no original: "florestas de símbolos". (N. da T.) tes, cabem no mundo humano os seres e as coisas ausentes, as pro-

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váve~s, as impossíveis? Em que a linguagem humana se diferencia
das lzngu,agens animais? Uma e as outras são "linguagens " no mes- Capítulo cinco
mo .se.ntido da palavra? Por que o que os humanos "querem dizer " é O universo e seus arredores
m.azs zmporta.nte do que o que eles dizem? O que caracteriza a apren-
dizagem da lzngu,agem p elas crianças? Por que somos "animais sim-
bólicos "? Os símbolos são naturais ou convencionais? "Símbolo" e
"palavra" são a mesma coisa? A linguagem serve para nos expres-
sarmos ou para nos comunicarmos? Cada linguagem tem seu mun-
do próprio, incomp.reensível para os outros? Podemos achar que
talvez todas as realzdades que existem no mundo sejam símbolos?

Ao homem não basta fazer parte da realidade: ele precisa tam-


bém saber que está em um mundo e se pergunta imediatamente
como será esse mundo em que não só habita mas do qual também
faz parte. Pois em certo sentido esse mundo me pertence (é meu
mundo) mas também eu lhe pertenço, a espécie humana inteira lhe
pertence e brotou dele como qualquer outro de seus componentes.
O que é um "mundo"? Um entorno de sentido, um contexto dentro
do qual tudo mantém uma certa relação e é relevante de modo ex-
plicável. Para começar, a idéia de "mundo" tem vários níveis, des-
de o mais próximo e aparentemente trivial até o mais opressivo e
cósmico. No degrau mais baixo está o que cada um de nós costuma
chamar coloquialmente de "meu mundo" ou até "meu mundinho",
ou seja, o âmbito da família, o grupo de amigos, os lugares de tra-
balho e os de diversão, os rincões que nos são mais usuais ou mais
queridos, o lar. Um degrau acima está meu ambiente social e cultu-
ral, os que são "como eu", embora eu mal os conheça ou não os co-
nheça absolutamente. Continuo subindo e passo a meu país, a co-
piunidade nacional à qual pertenço, a área internacional na qual mi-
nha comunidade se integra, inclusive a humanidade cuja condição
simbólica eu compartilho, o mundo do humano. Depois já saio do
mundo afetivo, sociológico, especificamente humanista e passo à
escala planetária: meu "mundo" é esta Terra na qual nascemos e
morremos, o planeta azul de mares e florestas no qual convivemos
com tantos outros seres vivos ou inanimados, o que o bom E. T. te-
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ria chamado (caso fosse "T." e não "E. T.") comovedoramente de
"minha casa!". E, mais além, nosso mundo também é o sistema so- da antes pelo mundo do que pela questão sobre que diabo estou fa-
lar, já parcialmente visitado por exploradores ou instrumentos hu- zendo nele. Nos velhos tempos, as explicações sobre o universo vi-
manos, e a _\'ia Láctea, na qual nosso sol está incluído. Depois o nham sempre em forma de mitos: os astros eram deuses, a Terra
mundo contmua transbordando para o gigantesco, o remoto e o des- também, e os vulcões, os mares ou os animais provinham sempre
conhecido, carrega-se de novas estrelas, galáxias, nebulosas, bura- de seres fabulosos. O trovão dos céus era um gongo tangido por um
cos negros, matéria e antimatéria ... até deixar de ser "mundo" e se gigante invisível... Não devemos crer que essas respostas legendá-
~ran~formar em universo. O lugar em que estão todos os lugares, o rias a perguntas concretas indiquem apenas uma lamentável supers-
amb1to que abrange tudo o que existe, sobre cuja imensa maioria tição, incapaz de raciocínio. As divindades e os ancestrais míticos
por certo nada sabemos. representavam também idéias, no sentido em que são definidas por
Não é vertiginosa essa sucessão de "mundos", cada um dos Spinoza em seus Pensamentos metafisicas: "As idéias não são ou-
quais está dentro de outro mais amplo, como as bonecas russas ou tra coisa senão narrações mentais da natureza." E tais idéias míti-
as caixas chinesas? Da minha sala de estar ou da cafeteria onde cas são às vezes profundas, muito sugestivas e sem dúvida capazes
tomo café da manhã até os confins do espaço sideral, cujo suposto de nos ajudar a melhor dar conta do que o mundo significa mental-
silêncio espantava Pascal, conforme confessou esse atormentado mente para nós. O que os primeiros filósofos fizeram foi substituir
pensador do século XVII! Do meu "mundinho" ao universo de to- essas idéias míticas por outra forma de narração mental da nature-
dos e de tudo! E o mais notável dessa sucessão de mundos, diga-se za. Suas idéias foram menos antropomórficas e recorreram a ele-
de passagem, é que os mais estreitos e reduzidos são, no entanto, os mentos impessoais para explicar a realidade. Quando Tales de Mi-
que mais me importam. Preocupa-me muito mais o vazamento de leto quis mostrar que a realidade universal é basicamente úmida e
gás em minha casa ou o terremoto em meu país do que as colossais fluida, não falou de Oceano ou Tétis - as divindades aquáticas -,
co?flagrações d,o~ astros cujo resplendor levará séculos para chegar mas disse "tudo é feito de água". Uma afirmação literalmente "des-
a~e os observatonos da Terra ... se é que algum dia irá chegar! Po- mistificadora" e de conseqüências revolucionárias. Por quê?
re1?, apesar dessa perspectiva irremediavelmente provinciana, não Sem dúvida, não porque seja muito mais verdadeira que as his-
deixo de ter consciência também de que faço parte do Universo tórias contadas pelos mitos. Se queremos ser melindrosos, é tão fal-
com maiúscula. E não menos irremediavelmente me pergunto coi- so que o mundo seja feito de água como que tenha sido fabricado
sas sobre ele: do que é feito?, é finito ou infinito?, como começou?, por Caos, filho rebelde de Crono, etc. Além do mais, já no capítu-
algum dia irá acabar?, estava previsto que nós, os humanos, e por- lo dois dissemos que existem diversos campos de verdade, cada um .
tanto eu mesmo, fôssemos aparecer um dia em tão fabuloso cená- deles aceitável dentro de seus próprios limites. No entanto, apesar
rio? Etc., etc. de tudo, as idéias filosóficas têm uma série de vantagens sobre as
As interrogações sobre o universo são, sem dúvida, as primei- idéias míticas. Para começar, não são meras repetições de uma tra-
ras que se fizeram os filósofos mais antigos (que ainda nem sabiam dição, mas propõem um ponto de vista pessoal sobre o existente:
em que consistia ser "filósofo"!). Certamente eles não começaram digamos que as idéias filosóficas têm assinatura, seja a de Tales, a
perguntando-se por seu "eu" como se fez neste livrinho culpavel- de Heráclito ou a de Anaximandro. Em segundo lugar, recorrem ge-
mente moderno, pela mesma razão por que as crianças começam ralmente a elementos materiais não antropomórficos ou a formas
perguntando quanta água há no mar ou por que as estrelas não intelectuais despersonalizadas (a Inteligência cósmica proposta por
caem, e não "quem sou eu?". A curiosidade assombrada, que se- Anaxágoras carece de namoros e outras peripécias biográficas
gundo Aristóteles é o primeiro incentivo para filosofar, é desperta- como as que se contam de Afrodite ou Zeus). Note-se o paradoxo:
os mitos são anônimos mas contam o mundo através de nomes pró-
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prios e figuras pessoais, ao passo que as idéias filosóficas são im- E tanto faz que os implicados pertençam a comunidades cultu-
pessoais (a água, o fogo, o apeiron , os átomos ... ), embora estejam rais distintas, porque "raciocinar filosoficamente" consiste em ten-
ligadas à personalidade de quem as sustentou (Diógenes Laércio tar estender pontes dialéticas entre os que pensam outra coisa ou de
escreveu sua Vida dos filósofos mais ilustres, ao passo que ninguém outro modo ... mas pensam. Bertrand Russell conta o caso de um
sabe nada de quem inventou os mitos). Daí provém, em terceiro lu- guru indiano que fez uma palestra em Oxford sobre o universo. Ele
gar, a maior objetividade ou realismo da filosofia, entendendo-se afirmava que o mundo é sustentado por um grande elefante que
por isso aceitar que o mundo não é feito por seres que pelo menos apóia as patas nas costas de uma tartaruga enorme. Uma senhora da
se parecem conosco espiritualmente em suas paixões, lutas e ocu- audiência perguntou-lhe como a tartaruga se sustentava e o sábio
pações (embora sejam imortais e de escala sobre-humana), mas por esclareceu que ela se apóia numa aranha gigantesca. A senhora in-
princípios alheios ao subjetivo e que têm pouco a ver com nossos sistiu, indagando o que sustentava a aranha, e o guru - meio irrita-
anseios característicos. Em quarto lugar, as propostas filosóficas do - disse que ela se firma numa rocha colossal. Naturalmente, a
sempre fazem uma distinção fundamental entre as aparências ofe- senhora voltou a perguntar sobre o apoio da pedra, e o sábio, exas-
recidas pelos sentidos e a realidade que sustenta essas aparências, perado, respondeu aos gritos: "Minha senhora, eu lhe garanto que
que só pode ser descoberta utilizando-se a razão ou "ouvindo-se o há rochas até embaixo!" O problema não era o guru ser indiano e a
logos", como disse o pré-socrático Heráclito. senhora perguntadeira ser inglesa, porém o fato de um falar a lin-
Mas, sobretudo e finalmente, os mitos têm que ser aceitos ou guagem do mito (em que as coisas são "narradas" mas não "pensa-
rejeitados coletivamente, todavia não admitem ser argumentados das" argumentadamente) e a outra ter uma curiosidade filosófica
ou debatidos por quem os assume. A um mito não se podem colo- autêntica e impertinente, de modo que ambos devem ter saído mui-
car objeções, é preciso dar-lhe crédito ilimitado. Por isso, fora da
to irritados da reunião ...
comunidade cultural em que eles nascem, são considerados arbitrá-
Os filósofos e os cientistas levantaram, ao longo dos séculos,
rios ou absurdos. O grego que fala da deusa Gaia e o babilônio que
tantas perguntas sobre o universo (ou seja, sobre o conjunto da rea-
conta a história de Tiamat têm pouco a discutir entre si. O máximo
lidade, desde a que nos é mais próxima e conhecida até a mais dis-
que se pode pedir a eles é que concedam que o mundo grego vem
tante e ignorada) quantas merece a enormidade do tema. Algumas
de Gaia e o mundo babilônio de Tiamat, e ponto final. Em contra-
questões concretas, por exemplo a composição química da água ou
partida, as idéias filosóficas nascem por e para a controvérsia. A
a órbita da Terra em torno do Sol, receberam respostas suficiente-
maioria dos gregos aceitava a idéia de um universo finito, mas Ar-
quitas de Tarento, contemporâneo de Platão, colocou a seguinte dú- mente válidas, mas outras mais gerais continuam abertas apesar do
vida: "Se eu me encontrasse no limite extremo do céu, poderia es- que costumam crer alguns cientistas, tão distraídos quanto otimis-
tender a mão ou um bastão para fora? Certamente, seria absurdo tas. Refiro-me às perguntas cosmológicas, aquelas que tentam de-
não poder fazê-lo; mas, se consigo, isso deve implicar que haja algo cifrar o o que, o como e o para que do universo em seu conjunto.
fora, seja um corpo ou um lugar." De modo que o finito deve ser Sob o r~co de simplificar, creio que são principalmente três, em-
menos finito do que parece ... ou não? Seria ridículo colocar uma tal bora cada uma delas possa subdividir-se em muitas outras:
objeção a um mito (assim como parece inoportuno censurar em
Cervantes os disparates cometidos por Dom Quixote), no entanto é a) O que é o universo?
perfeitamente razoável a contestação quando se trata de uma idéia b) O universo tem alguma ordem ou desígnio?
filosófica ou científica, que estão aí para ser discutidas, não para c) Qual é a origem do universo?
serem reverenciadas ou desfrutadas sem mais aquela.

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Nem é preciso dizer que não tenho resposta definitiva (ou mes- e, portanto, podemos ser tentados a nos perguntar "que lugar ocu-
mo provisória!) para nenhuma delas, mas em contrapartida ousarei pará então o conjunto de todas as coisas?". Sabemos que um filme
tentar uma análise das próprias perguntas. começa a uma determinada hora e acaba tantos minutos depois, o
O que é o universo? A tarefa de responder a essa pergunta de- que nos leva a supor que o universo - que sem dúvida é uma super-
veria começar por esclarecer o que entendemos por "universo". Di- produção bem maior do que E o vento levou - também tenha come-
gamos que há dois sentidos do termo, um heavy e o outro mais light. çado num certo momento e que deverá acabar em outro. Mas, como
De acordo com o primeiro deles, o universo é uma totalidade nitida- observou Bertrand Russell, embora todo ser humano tenha mãe,
mente delineada e distinta da soma de suas diferentes partes, sobre isso não autoriza a supor que a humanidade inteira seja obrigada a
a qual cabe fazer indagações específicas. De acordo com o segundo, ter mãe também.
não é mais do que o nome que damos ao conjunto ou coleção inde- Vemos que todos os objetos que conhecemos são formados de
terminada de tudo o que existe, uma espécie de abreviatura semân- partes e que eles mesmos são partes de objetos maiores (pedras, ter-
tica para o acúmulo inumerável e interminável de coisas grandes e ra e vegetação formam uma montanha, que por sua vez está inte-
pequenas, sem nenhuma entidade especial, sobre o qual podemos grada numa cordilheira, que é parte de um continente, que por sua
teorizar isoladamente. O primeiro conceito de universo é o que pa- vez faz parte de nosso planeta, etc.), donde nos parece plausível su-
rece contar com nosso maior apoio intuitivo: se existem partes ou in- por um objeto colossal formado por todos os objetos que houve e
gredientes, como pode não haver um todo definido no qual encon- que haverá. E sobre ele começamos a nos fazer as mesmas pergun-
trem, de um modo ou de outro, sua acomodação? A maior parte dos tas que estamos acostumados a formular sobre as coisas que nos ro-
filósofos gregos acreditou em um universo desse tipo, um grande deiam, mas com resultados profundamente desconcertantes. Come-
Objeto do qual todos os outros objetos não são mais que componen- çando pelas complicações que traz concebê-lo seja como finito ou
tes que dele recebem sua coordenação. É claro que para eles esse ob- como infinito e que já foram estudadas pelo sábio Kant no final de
jeto devia ser finito (por acaso podemos imaginar algum objeto in- sua Crítica da razão pura.
finito?; e se é infinito como podemos saber que é uno? Ou como E se não houvesse uma coisa como a supercoisa-universo? E
essa infinitude poderia servir para relacionar as partes finitas entre se só houvesse coisas, inumeráveis coisas que se sucedem umas às
si, inteligivelmente?), no entanto de uma finitude tão especial que outras, se juntam e se separam, acabam e começam, mas não hou-
não deixasse nada fora dela mesma. Esse paradoxo da finitude sem vesse nenhuma grande Coisa formada por todas as coisas? Por que
exterior é o que Arquitas de Tarento quis destacar pondo - imagina- então sentimos quase a necessidade de acreditar em tal coisa uni-.
riamente - a mão para fora do universo, como quem deseja averi- versal? O poeta português Fernando Pessoa, que também foi filó-
guar se está chovendo ou não ... fora do cosmo! Porque, se aceitamos sofo, aventura uma explicação digna de ser levada em conta: "A
intuitivamente que todos os objetos devem ser finitos, também de- matéria é constituída por objetos, coisas ... A consciência não o é.
vemos aceitar então que todos os objetos têm um exterior. Se há um Só o conjunto (por assim dizer) da consciência é 'real'; na matéria,
objeto que não tem exterior, por que dizemos que é finito? Se não é o c~njunto não é real, não há conjunto; há partes, objetos somente.
finito, por que dizemos que é um objeto? A idéia de que há um Universo, um conjunto da matéria, é uma
A dificuldade que aqui se coloca - a mesma que se colocou aplicação à matéria do que é característico da consciência." Cada
para os gregos e, depois, para todos os seus herdeiros atuais - está um de nós considera-se uno, um sujeito: talvez por isso tenhamos
vinculada à tendência a formular sobre o imenso as mesmas per- necessidade de unificar nossa experiência da realidade em objetos
guntas que têm sentido em uma escala mais reduzida ... e talvez só e todos os objetos em um único grande Objeto que os reúna com-
nessa escala! Por exemplo, sabemos que cada coisa ocupa um lugar pletamente diante da consciência.

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Desde a Antiguidade, a negação do universo como objeto úni- acaso é a ordem mais bonita, também assim é o cosmo" (fr. 124
co está ligada à filosofia materialista, exposta insuperavelmente Diels-Kranz). Cabe, pois, indagar se no princípio era a ordem - o
por Lucrécio em seu longo poema cosmológico De Rerum Natura. cosmo - ou a desordem caótica. Ou será - como parece sugerir iro-
Sem dúvida, o materialismo filosófico nada tem a ver com certos nicamente Heráclito - que a ordem cósmica se parece mais com a
usos vulgares da palavra, segundo os quais ser "materialista" signi- de um amontoado de coisas acumuladas ao acaso e, assim, coinci-
fica ânsia de riqueza e de excessos sensuais junto com carência de de exatamente com o que os outros chamam de "caos"?
ideais ou de generosidade. Em filosofia, o materialismo é uma Antes de prosseguir, teríamos que tentar esclarecer o que en-
perspectiva caracterizada basicamente por dois princípios comple- tendemos por "ordem", uma noção filosoficamente crucial, mas
mentares: primeiro, não existe um Universo, mas uma infinita plu- nada óbvia. Neste exato momento, sobre a mesa em que estou es-
ralidade de mundos, objetos ou coisas que nunca se podem conce- crevendo, amontoam-se papéis, apontamentos, fichas , clipes, cha-
ber sob o conceito de unidade; segundo, todos os objetos ou coisas ves e mais uma infinidade de outras coisinhas que formam um
que percebemos são compostos de partes e, mais cedo ou mais tar- amontoado aparentemente tão casual como o mencionado por He-
de, irão decompor-se em partes. As últimas partes imperceptíveis ráclito. Mas, se alguma mão bem intencionada, com intenção de me
de todo o real são chamadas pelos materialistas clássicos de "áto- ajudar, guardar as chaves na gaveta e mudar os clipes de lugar, sem
mos", ou seja, o que já não pode ser dividido em partes menores. dúvida sairei gritando aos quatro ventos: "Quem mexeu na minha
Mas trata-se de uma suposição metafisica, não de uma observação mesa? Agora não consigo encontrar nada!" Na aparente desordem
fisica (não se devem confundir os átomos de Leucipo, Demócrito anterior, eu me movia com familiaridade, localizando quase sem
ou Lucrécio com os da fisica contemporânea!). olhar aquilo de que precisava em cada ocasião; agora, a ordem alheia
O universo tem alguma ordem ou desígnio? Quer aceitemos que me impuseram me priva de meus pontos de referência habituais
que existe o universo em seu sentido "forte'', como um objeto úni- e se transforma para mim num verdadeiro caos. Meu impertinente
co de que tudo faz parte, quer o tomemos apenas na acepção mais benfeitor (ou benfeitora!) exporá com paciência seus motivos para
"leve" do termo, como abreviatura para nos referir a todas as coi- a nova disposição das coisas: as fichas devem ficar com as fichas,
sas reais, é inevitável perguntar se nele há alguma forma de ordem os apontamentos não devem ficar misturados com os clipes, é me-
que nossa razão possa compreender. De fato, tanto em grego como lhor as chaves não ficarem rolando de um lado para outro, agora há
muito mais espaço livre na mesa, etc. E eu continuarei protestando
em latim, as palavras que o nomeiam indicam ordenamento e har-
que para mim tudo isso não importa, que quem tem que lidar com
monia: o cosmo é o bem organizado e disposto (daí a palavra "cos-
essas coisas sou eu, que não estou nem aí para o aspecto do meu es-
mética", que indica a arrumação adequada da própria aparência),
critório desde que eu ache o que estou procurando. As fichas esta-
do mesmo modo que mundus em latim, cujo oposto é "imundo'',
vam esparramadas mas eu tinha perto de mim as que estava utili-
para sujo e desarrumado. Mas, segundo a mitologia grega, tal como
zando no momento e um pouco mais longe as que ia usar depois,
narrada por Hesíodo em sua Teogonia, a origem de todos os deuses,
sabia muito bem que embaixo das fichas estavam estes ou aqueles
assim como dos mortais, está em uma divindade primogênita cha-
apontamentos e as chaves me serviam de peso de papéis para que
mada Caos, o Abismo, o grande Bocejo, o sem forma e para sem- não voasse nenhuma anotação importante, etc. Moral da história:
pre ininteligível a partir de modelos ordenados. E aquele que foi, minha desordem estava bem ordenada para meus fins, mas eu me
talvez, o mais enigmático e profundo dos primeiros filósofos, He- perco na ordem atual. Então quando posso dizer que, de fato, mi-
ráclito, afirma em um de seus fragmentos aforísticos que dele ain- nha mesa estava em ordem, antes ou agora? Pergunto a você, leitor,
da se conservam: "Tal como um turbilhão de refugos jogados ao que é neutro.

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O conceito de "ordem" é sempre uma tentativa de pôr unidade
Voltemos ao espaço sideral. Na noite clara de verão, descubro e articular relações em uma multiplicidade de elementos, quer essa
as estrelas da Ursa Maior e também identifico algumas outras cons- unidade seja inerente às próprias coisas ou provenha de nossa forma
telações, Cassiopéia, etc. Como tantos milhões de homens ao lon- de pensar. Porém não é fácil mostrar urna unidade inerente às coisas
go dos séculos, observo e reverencio a ordem majestosa dos céus. que nada tenha a ver com nossa forma de pensar. Conforme expôs
Mas, se falar com um amigo meu, astrônomo profissional, ele zom- Kant em sua Crítica da razão pura, "somos nó~ mesmos que intro-
bará de minha ignorância. Esses agrupamentos estelares são mera- duzimos a ordem e a regularidade nos fenômenos que chamamos de
mente casuais, para não falar das supostas formas que eles configu- Natureza ... o próprio entendimento (humano) é a legislação para a
ram, e não há Ursa Maior nem Menor ou coisa que o valha. O cos- Natureza... sem entendimento em lugar nenhum haveria Natureza,
tume aliado à fantasia são as únicas bases dessa ordenação do céu isto é, unidade sintética dos diversos fenômenos seguindo regras".
em constelações, que só serve para dar motivo para os sussurros Ou seja, chamamos de "ordem do mundo" nossa forma de conhecer
dos namorados e as fraudes dos astrólogos. Se você vier comigo ao o mundo e de dispor dele, assim como chamo de "ordem" o caos que
observatório, diz meu amigo, vou lhe mostrar o perfil de nossa ga- reina no meu escritório e considero "bem ordenadas" as estrelas nas
láxia e de outras que nos rodeiam, vou lhe mostrar os principais sis- velhas constelações que deleitam meu fantástico capricho. Pois
temas estelares e você vai ver - um tanto nebulosamente, claro - as bem, que alcance objetivo podemos dar às características dessa "or-
nebulosas, explicarei o que é um buraco negro e por que estimamos dem" cujo princípio subjetivo é inocultável? Sem dúvida existem
que 95% da massa de nosso universo é invisível, em suma, você regularidades observáveis nos processos do universo, e os cientis-
terá uma idéia mais correta da verdadeira ordem cósmica. tas podem fazer previsões sobre eles que se cumprem de modo sa-
E eu o acompanho ao observatório, agradeço sua aula genero- tisfatório , sejam quais forem os interesses ou caprichos subjetivos
sa e não ouso formular para ele a minha suspeita: será que a ordem dos observadores. Somos quase tentados a sugerir que a objetivida-
que agora me é revelada também não é uma certa maneira de ver o de da ordem cósmica é demonstrada pela validade de um mesmo
complexo sideral, tal como a ingênua e tradicional distribuição em determinismo causal em tudo o que conseguimos conhecer dela.
constelações, outra maneira de ver que serve a certos interesses teó- Mas será que essas leis causais de alcance universal são nor-
ricos mas que não pode aspirar a descobrir a verdade astral "em si mas estabelecidas por Deus "como um rei estabelece as leis de seu
mesma'', se é que tal coisa existe? Sem dúvida, a perspectiva cien- reino" - conforme disse Descartes - ou simples pactos ou alianças
tífica costuma ser mais rica e, no fim das contas, mais sugestiva em episódicos (foedera) surgidos ao acaso, como supôs Lucré,ci.o? Esse
muitos aspectos do que o ponto de vista comum, mas talvez não determinismo menos rígido e com um componente aleatono pare
seja o espelho necessário da ordem do mundo e, sim, uma ordena- ce coincidir mais com os que diz a física quântica em nosso sécu-
ção.a mais, entre as muitas possíveis, de uma realidade em si mes- lo, segundo um Werner Heisenberg ou um Niels Bohr:.. Embora
ma bastante caótica. O namorado que quer desfrutar com sua ama- fosse possível que a incerteza causal dessa colocação estivesse ape-
da a noite clara de verão ordena as estrelas em figuras lendárias ar-
bitrárias, e talvez seu cosmo não seja para ele pior do que o dese-
nhado pelo astrofisico. Certamente o zoólogo tem boas razões para
.
nas em nossa nova forma de observar a natureza de acordo com
' .
essa fisica e não na propna natureza.
Ousemos dar mais um passo em nossas perplexidades. Pode-
classificar a baleia entre os mamíferos e não entre os peixes, mas mos ter certeza de que todo o universo é ordenado da mesma ma-
também as tem o marinheiro que a considera o maior dos peixes, e neira que a porção dele na qual nos encontramos e que nossos
não outra coisa: por que respirar com os pulmões e não com as meios de conhecimento alcançam? Não será possível que vivamos
guelras é um critério de ordenação melhor do que o fato de ser um em um fragmento cósmico ordenado por acaso de forma que nos
animal que vive no mar?
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seja acessível, ao passo que muitas de suas províncias desenvolvem lômana nos coloca a um passo de nos vangloriar supondo que o fru-
fórmulas distintas que nos estarão vedadas para sempre e que para to maduro que o universo se propôs em seu desenvolvimento somos
nós seriam mero caos? Não poderia ocorrer que a ordem que com- justamente - oh, que casualidade! - nós. Não é que as condições
provamos ao nosso redor fosse justamente a que nos permitiu exis- cósmicas sejam tais que permitam nosso surgimento (e, uma vez
tir, e que as demais ordens ou desordens possíveis nos excluíssem surgidos, nos permitam entendê-lo em parte objetivamente), mas
não apenas intelectualmente, mas tambémfisicamente como espé- que seriam tais a fim de que surgíssemos. Mas a modéstia (e a sen-
cie? Essa vinculação intrínseca entre nossa forma de conhecer e satez!) nos deveriam proibir aspirar a tanto.
nossa possibilidade de existir é o que levou alguns astrofisicos Supor que o projeto universal exige nosso surgimento como
atuais a formular o que denominam princípio antrópico (princípio espécie implica que esse infinito cenário seja feito (pelo menos em
que aponta ou se encaminha para o homem) do cosmo, que admite boa medida) para nossa complacência. Em versos eloqüentes de sua
duas formulações, uma mais cautelosa e outra muito mais "forte". De rerum natura (no livro V, 195 a 234), Lucrécio acumula argu-
A primeira, do início dos anos sessenta, deve-se a Robert Dicke mentos contra essa suposição. E Michel de Montaigne também re-
(mais tarde foi subscrita também por Stephen Hawking, em sua jeita vigorosamente essa pretensão: "Quem o fez (o homem) acredi-
Breve história do tempo) e diz aproximadamente o seguinte: "Uma tar que esse admirável movimento da abóbada celeste, a luz eterna
vez que há observadores no universo, este deve ter as propriedades dessas luminárias que giram tão acima de sua cabeça, os movimen-
que permitem a existência desses observadores." Colocada dessa tos admiráveis e terríveis do oceano infinito, tenham sido estabele-
maneira, a coisa é óbvia: o fato de haver observadores no cosmo cidos e prossigam ao longo de tantas idades para seu serviço e con-
quer dizer, sem dúvida, que no cosmo pode haver observadores. Mas veniência? Pode-se imaginar algo mais ridículo do que essa mise-
o que mostra esse aparente truísmo é que as regularidades causais rável e frágil criatura, que, longe de ser dona de si mesma, se acha
que observamos no universo têm que estar ligadas ao nosso próprio submetida à injúria de todas as coisas, chame a si mesma dona e
surgimento nele como estudiosos do real. Conforme já dissemos no imperatriz do mundo, quando carece de poder para conhecer a par-
capítulo dois, se somos capazes de refletir, em certa medida com te ínfima e o que dirá para governar o conjunto?" 1 Embora tenha-
objetividade, como é o mundo (ou pelo menos como é a parte do mos a capacidade de conhecer de certo modo algumas partes do
mundo que nos "cabe") é porque fazemos parte dele ... e porque, se cosmo e, também, embora renunciemos à pretensão de governá-lo,
fôssemos totalmente incompatíveis com sua compreensão, não o não é exorbitante crer que sejamos seu objetivo (ou um de seus ob-
saberíamos, pois nem sequer teríamos tido ocasião de existir. jetivos) necessário?
Anos mais tarde, Brandon Carter reformulou o princípio an- Qual é a origem do universo ? A terceira grande pergunta refe.-
trópico de uma maneira muito mais comprometedora, embora sem re-se à causa inicial dessa realidade universal, seja ela una e finita
dúvida também mais sugestiva: "O universo deve estar constituído ou infinitamente plural, tanto se ordenada em si mesma como se
de tal forma em suas leis e em sua organização que não poderia dei- apenas em parte ou se somos nós a ordená-la a nosso modo ao ob-
xar de algum dia produzir um observador." Aqui já parece que as servá-la. Voltam a ocorrer neste caso os paradoxos que acarreta for-
coisas são levadas, descaradamente, longe demais. É indubitável mular sobre c~njuntos enormes ou sobre o infinito as perguntas que
que a existência do homem no universo é possível (porque de fato são perfeitamente assumíveis em menor escala. Estamos acostuma-
ele existe!), mas supor que um acontecimento tão faustoso fosse
inevitável encerra um excesso de autocomplacência. A não ser que 1. Ensaios, de M. de Montaigne. [Para este livro, tradução feita a partir do
sustentemos que as possibilidades, quando cumpridas, transfor- texto citado pelo autor: Ensayos, cap. XII, trad. esp. de Eugenio lmaz.] (Trad. bras.
mam-se obrigatoriamente em necessidades ... Essa convicção mega- Os ensaios , São Paulo, Martins Fontes, 200 1.)

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do~ a perguntar pela causa ou causas originais dos seres que nos ro- mênides compôs um poema que talvez continue sendo a reflexão
deiam e a responder de modo bastante aceitável: a origem causal mais profunda e enigmática da qual temos notícia. Diz que sempre
d~s Meninas é Velázquez, esta árvore provém da semente que plan-
há, houve e haverá algo, ou seja, que o "há" é único para tudo o que
tei há anos, a mesa foi feita por um marceneiro e eu mesmo fui en- existe e nem se faz nem se destrói, diferentemente das coisas que
gendrado pela fecundação de um óvulo da minha mãe por um es- há, todas as quais - grandes ou pequenas - aparecem e desapare-
per?1atozóide d~ meu pai. A pergunta pela origem causal de algo po- cem. Esse "há" (traduzido pelos comentadores como "ser" ou "o
dena ser transcrita grosseiramente assim: de onde vem isso que está ser") não é nenhuma das coisas que há nem pode ser pensado sem
elas mas que permite pensar em cada uma porque é o que todas têm
aí? O que queremos saber é a partir do que chegou a ser o que an-
em comum: um perpétuo aparecer e desaparecer que nunca desapa-
tes não era: buscamos o objeto ou ser anterior sem cuja intervenção
receu nem desaparecerá. O ser não é nada sem as coisas mas as coi-
nunca se teria dado o que agora temos diante de nós. Damos por cer-
sas não "são" sem o ser. As implicações e interpretações do poema
to que tud? deve ter uma "razão suficiente" para chegar a existir, usan-
de Parmênides ocuparam todos os metafisicos desde então até nos-
do a termmologia de Leibniz. Pois bem, se tudo tem sua causa, não
sos dias .. . e certamente continuará ocupando enquanto os homens
deveria haver também uma Causa de Tudo? Se parece sensato per-
continuarem sendo capazes de refletir. Mas essa reflexão não des-
guntar-se o porquê da existência de cada coisa, não será também
vanece e, sim, agrava nossas perplexidades. Porque, se cada coisa
sensato indagar o porquê do conjunto da existência universal de
existente tem sua origem em outra e, por sua vez, é causa de outras
coisas? Ou, para dizê-lo da maneira pela qual Heidegger o colocou mais, num processo infinito, isto é, que não tem começo, como
no século XX, por que existe algo e não, antes, nada? Qual é a cau- pode ter chegado até nós? Como pode ter efeitos agora uma série
sa da existência em geral? causal que não começou propriamente nunca? Somos capazes de
Como em outras ocasiões em que formulamos sobre o Todo a conceber o tempo sucessivo da causalidade "menor" que conhece-
pergunta que estamos acostumados a responder sem dificuldades mos dentro da duração infinita da causalidade universal que nem
sobre a parte, a busca da Causa de todas as causas nos faz cair ime-
começa nem acaba?
diatam~n~e na vertigem intelectual. Em geral consideramos que, Em nossa tradição cristã, a resposta mais popular a essa em-
por defm1ção, as causas têm que ser distintas de seus efeitos e an- brulhada é recorrer a um deus criador. Deixando de lado a respei-
teriores a eles. De modo que a Primeira Causa do universo tem que tável religiosidade de cada um, trata-se de tentar explicar algo que
ser distinta do universo e anterior a ele. Pois bem, o que entende- entendemos pouco por meio do que não entendemos nada. O uni-
mos por universo é exatamente o conjunto de tudo o que existe na verso e sua origem são dificílimos de compreender, mas e Deus,
realidade. Se a Causa Primeira existe na realidade, deve fazer par- então ...! A eternidade e a infinitude de Deus provocam o mesmb
te do universo (e portanto cabe perguntar também a respeito dela: desconcerto que a eternidade e a infinitude do universo : se à per-
qual é sua causa?); se não existe na realidade, como pode atuar? É gunta sobre por que há universo respondemos que Deus o fez, a
claro que renunciar a uma causa primeira também não nos deixa sa- pergunta seguinte inevitável é por que há Deus ou quem fez Deus.
tisfeitos. Podemos racionalmente assumir que o universo (ou seja, Se formos aceitar que Deus não tem causa, também poderíamos ter
o encadeamento perpétuo de causas e efeitos) sempre existiu e por- aceitado antes que o universo não tem causa e nos pouparíamos
tanto não começou nunca. À pergunta por que existe "algo" e não, dessa viagem. Alguns teólogos sustentam que Deus é causa sui, ou
antes, "nada"? responderemos tranqüilamente: e por que o "nada" seja, uma causa que causa a si mesma, o que contraria as duas ca-
deveria existir antes do "algo"?, por acaso conhecemos alguma racterísticas que definem o que normalmente entendemos por cau-
ocasião em que houvesse "nada"?, de onde tiramos que possa algu- sa: não é distinta de seu efeito mas idêntica a ele e não é anterior
ma vez não ter havido "nada"? No início da filosofia o grego Par- mas simultânea a ele. Podemos então continuar chamando de "cau-

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tão semelhante ao homem quanto a baleia às calhandras. Por con-
sa" algo que é oposto por definição ao que habitualmente entende-
mos por "causa"? seguinte, não deixa de me assombrar que homens famosos d~g~m
O argumento intuitivo mais comum em favor de um Deus cria- que uma asa de mosca encerra mais sabedoria do que ~ rdogi~.
dor é a ordem do cosmo, a qual supomos que só pode provir de uma A frase não diz mais do que isto: a maneira de fazer relog10s nao
Inteligência ordenadora. Dissemos anteriormente que essa "ordem" serve para fazer uma asa de mosquito; mas,ª ~orma de fa~e~ ª~,:s de
bem pode provir da inteligência do observador e não de um criador. mosquito também não serve para fazer relog10s de r~pet~çao .
Desde o século XVIII já se repetiu muitas vezes a metáfora do re- Dizer "Deus criou o mundo do nada" é tão explicativo quanto
lógio: se ao sair de casa encontramos um relógio, supomos que não afirmar "não sabemos quem fez o mundo, nem sabemos como pôde
tenha sido feito pelo acaso mas que deve ter sido fabricado por um fazê-lo". Mas, quando se referem ao tema da origem, os cienti~t~s
relojoeiro; do mesmo modo, ao comprovar as assombrosas engre- costumam incorrer em paradoxos não muito diferentes dos teologi-
nagens da maquinaria universal, devemos supor que tenha sido fa- cos . Segundo a teoria do big bang, por exemplo, o ~ivers? se e~­
bricado por um fazedor de mundos, de inteligência semelhante à pande a partir de uma explosão inicial, uma singulandade mepetl-
humana, embora infinitamente superior. Mas o certo é que temos vel que não se deu em um ponto do espaço e um momento do tem-
experiência de que os relógios são feitos por uma inteligência se- po e, sim, a partir da qual começou a se abrir o espaço e.a correr o
melhante à nossa, ao passo que não temos experiência nenhuma de tempo. Bem, pois também não é muito claro. Para que haJa uma ex-
alguém que faça árvores, mares e muito menos mundos. Por isso é plosão inicial, por mais metafórica que seja, algo deve explodir,n~la;
irrefutável o protesto de David Rume em seus magníficos Diálogos talvez a explosão desse "algo" seja a origem das nebulosas, galaxi~s,
sobre a religião natural: "Alguém vai me dizer seriamente que um buracos negros e demais objetos que bem ou mal conhecemos (m-
universo ordenado tem que provir de algum pensamento e alguma cluindo no lote nós mesmos), mas então de onde saiu esse "algo"?;
arte semelhantes aos do homem porque temos experiência dele? se sempre esteve aí (ou seja, em lugar nenhum), por que esse " ª.1go "
Para confirmar esse raciocínio seria preciso que tivéssemos expe- explodiu quando explodiu, e não antes ou depois? ~te., etc. Vistos
riência da origem dos mundos, e sem dúvida não é suficiente que os resultados dessas indagações, não será melhor deixarmos de nos
tenhamos visto que os barcos e as cidades procedem da arte e da in- fazer essas perguntas ou voltarmos aos mitos para lhes responder
venção humanas." 2 E outro pensador do século das luzes, Lichten- poeticamente? No entanto, por acaso podemos de~xar de fazê-las?
berg, também se indigna veementemente contra essa suposição: Em seu romance El resto es silencio, o escntor guatemalteco
"Nas interpretações comuns sobre o Criador do mundo com fre- Augusto Monterroso cria o perfil humorístico de um pensador dad.o
qüência se intromete a insensatez santarrona e afilosófica. A excla- às mais graves meditações. Uma delas diz o seguinte: "Poucas cõi-
mação 'como será quem criou tudo isto!' não é muito superior a sas como 0 universo!" De fato, o que parece evidente é que, se há
'como será a mina onde se encontrou a lua!', pois para começar se- algo como uma Coisa-Universo, ela é extremamente singular en~e
ria preciso perguntar-se se o mundo alguma vez foi feito e depois
0 resto das coisas. No entanto sem dúvida é justamente aí, no um-
se o ser que o fez teria condições de construir um relógio de repe- verso, que nós humanos somos e atuamos. Talvez devamos descer
tição de lata ... creio que não, isso só pode ser feito por um homem. do cósmico e voltar a nos ocupar de nossos pequenos afazeres en-
[ .. .].Se nosso mundo alguma vez foi criado, quem o fez foi um ser
tre o zero e o infinito ...

2. Diálogos sobre a religião natural, de David Hume. [Traduzido a partir do


3. Aforismos, de G. Ch. Lichtenberg, trad. esp. de J. Villoro, Fondo de Cultura
texto citado pelo autor: Diálogos sobre la re/igión natural, trad. esp. de A. J. Capel-
Económica, México. [Traduzido a partir do texto citado pelo autor.]
letti e Horacio López, Sígueme, Salamanca.]

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Dá o que pensar...
Capítulo seis
Por que nós, humanos, necessitamos um "mundo" no qual vi- A liberdade em ação
ver e não só a realidade? Quais são os diferentes tipos de "mun-
do" em que habitamos? Como se ascende de um ao outro? Quais
foram as primeiras respostas dadas à questão sobre o "universo" e
o que existe nele? Os mitos são meras superstições ignorantes? Em
que os mitos se parecem com os princípios propostos pelos primei-
ros filósofos? Que características vantajosas a narração filosófica
apresenta com relação à narração mítica? Quais são as três gran-
des perguntas básicas sobre o universo que se fazem os filósofos?
Quais são as duas acepções principais do conceito de "universo"?
Que dificuldades teóricas cada uma delas apresenta? Que parado-
xos encerra fazer sobre o imenso as perguntas que fazemos sobre
aquilo que podemos alcançar? Em que consiste o "materialismo" O homem habita no mundo. "Habitar" não é o mesmo que es-
entendido filosoficamente? O universo é antes de tudo "cosmo" ou tar incluído no repertório de seres que há no mundo, não é simples-
"caos"? Existe uma "ordem" no universo? Podemos desligar o con- mente estar "dentro" do mundo como um par de sapatos está den-
ceito de "ordem" de nossas necessidades e interesses? O que chama- tro de sua caixa nem ter um mundo biológico próprio como o mor-
mos de "ordem " do universo pode ser determinado por nossa forma cego ou qualquer outro animal. Para nós, humanos, o mundo não é
de conhecer ou também por nossa forma de existir? O que é o ''prin- simplesmente a trama total dos efeitos e causas, mas a palestra
cípio antrópico" e quais são suas duas formulações? A causali- cheia de significado na qual atuamos. "Habitar" o mundo é "atuar"
dade que nos diz de onde provém cada objeto a nosso alcance po- no mundo; e atuar no mundo não é apenas estar no mundo, nem se
de se aplicar ao universo inteiro? É inexplicável que haja "algo" e mover pelo mundo, nem reagir aos estímulos do mundo. O morce-
não "nada"? Recorrer a Deus resolve nossas inquietudes teóricas
go ou qualquer outro animal responde a seu mundo de acordo com
sobre a origem da realidade universal? O universo é semelhante a
um programa genético próprio das necessidades evolucionais de
um relógio, que necessita de seu relojoeiro? O big bang ou as ou-
sua espécie. Nós, os humanos, não só respondemos ao mundo que
tras respostas dos astrofisicos resolvem o problema da origem do
universo? Se o universo é uma grande Coisa, por que não pode ser habitamos como também o vamos inventando e transformando de
como o resto das coisas que conhecemos? uma maneira não prevista por nenhuma pauta genética (por isso as
ações dos aborígenes australianos não são iguais às dos astecas ou
às dos vikings). Nossa espécie não está "fechada" pelo determinis-
mo biológico, mas permanece "aberta" e incessantemente criando
a si mesma, conforme anunciou Pico della Mirandola. Quando falo
em "criar", não estou me referindo a "tirar algo do nada", como um
prestidigitador tira um coelho do chapéu aparentemente vazio (digo
"aparentemente" porque se trata de um truque, um engano: ilusio-
nismo), mas refiro-me a "atuar" no mundo e a partir das coisas do
mundo ... porém em certa medida mudando o mundo!

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A questão importante agora é determinar o que é a ação e o fazer algo, e ninguém pode fazer algo se não se propõe fazê-lo ."
que significa atuar. Tarnbérn urn rnovirnento corporal não é o mes- "Pois sabe de uma coisa? Joguei a droga do bilhete fora porque me
mo que uma ação: não é o rnesrno "estar andando" e "sair para dar deu vontade!" Multa na certa.
um passeio". De rnodo que as perguntas vitais a que devemos ten- A verdade é que há uma diferença entre o que simplesmente me
tar responder, a seguir, são: o que significa "atuar"?, o que é urna acontece (esbarro a mão num copo e o derrubo na mesa quando vou
ação humana e corno ela se diferencia de outros movimentos que os pegar o sal), o que faço sem me dar conta e sem querer (o tal bilhe-
outros seres fazem, assim corno de outros gestos que também nós, te jogado pela janela!), o que faço sem me dar conta mas conforme
humanos, fazemos?, não será uma ilusão ou um preconceito imagi- uma rotina adquirida voluntariamente (enfiar os pés no chinelo ao
nar que somos capazes de verdadeiras ações e não de simples rea- me levantar da cama meio adormecido) e o que faço me dando con-
ções diante do que nos rodeia, nos influencia e nos constitui? ta e querendo (jogar o fiscal pela janela para que ele vá buscar o
Suponhamos que eu tenha tomado um trem e comprado o bi- maldito bilhete). Parece que a palavra "ação" é um termo que só
lhete correspondente. Durante o trajeto, estou distraído, pensando convém à última dessas possibilidades. Claro que também há outros
em minhas coisas, e sem me dar conta vou brincando com o peda- gestos dificeis de classificar, mas que sem dúvida parecem qual-
cinho de papelão, que eu enrolo e desenrolo, até jogá-lo descuida- quer coisa menos "ações": por exemplo, fechar os olhos e levantar
damente pela janela. Então aparece o fiscal e me pede o bilhete: de- os braços quando alguém me atira alguma coisa no rosto ou procu-
solação! E, provavelmente, multa. Só posso murmurar, para medes- rar um apoio quando estou caindo. Não, decididamente uma "ação"
culpar: "Eu o joguei fora ... sem rne dar conta." O fiscal, que tam- é só o que eu não teria feito se não quisesse fazê-lo: chamo de ação
bém é um pouco filósofo , comenta: "Bem, se não estava se dando um ato voluntário. O "falecido" fiscal, portanto, tinha razão ...
conta do que fazia, também não se pode dizer que o jogou fora . É Como saber, no entanto, se um ato é voluntário ou não? Por-
como se o tivesse deixado cair." Mas não estou disposto a aceitar que, antes de realizá-lo, talvez eu delibere entre várias possibilida-
esse álibi. "Desculpe, mas uma coisa é deixar o bilhete cair, outra é des e finalmente me decida por uma delas. Claro que não é o mes-
jogá-lo fora, mesmo que o tenha feito inadvertidamente." O fiscal mo "decidir fazer alguma coisa" e "fazê-la". "Decidir" é pôr fim a
parece achar mais divertido discutir do que me aplicar uma multa: uma deliberação mental sobre o que eu realmente quero fazer. Po-
"Veja bem, 'jogar' o bilhete é uma ação, algo diferente de deixar cair, rém, uma vez decidido, ainda tenho que fazê-lo . O que decido é o
que é só uma dessas coisas que acontecem. Quando alguém faz objetivo ou fim de minha ação, mas talvez não a própria ação. Por
uma ação é porque quer fazê-la, não é mesmo? Em contrapartida, exemplo: decido pegar o copo e estico o braço para pegá-lo. O que
as coisas acontecem sem a gente querer. De modo que, como o se- eu realmente decidi fazer: pegar o copo ou esticar o braço? Minha
nhor não queria jogar fora o bilhete, podemos dizer que na verdade deliberação teve a ver com o copo ou com meu braço? E qual é a
o deixou cair." Eu me rebelo contra essa interpretação mecanicista: verdadeira ação: pegar o copo ou esticar o braço? Se eu estico o
"De jeito nenhum! Poderíamos dizer que deixei o bilhete cair se eu braço e derrubo o copo, posso dizer que atuei ou não? Ou atuei
tivesse adormecido, por exemplo. Ou então se uma rajada de vento "pela metade"?
o tivesse arrancado da minha mão. Mas eu estava bem acordado, A noção de "voluntário" também não é tão clara como parece.
não havia vento e o que aconteceu foi que joguei o bilhete sem in- Em sua Ética a Nicômaco , Aristóteles imagina o caso de um capi-
tenção." "Ahá!", diz o fiscal, batendo com o lápis em seu bloqui- tão de navio que deve levar uma certa carga de um porto para ou-
nho, "se não tinha intenção, como sabe então que foi o senhor, exa- tro. No meio da travessia despenca uma enorme tempestade. O ca-
tamente o senhor, quem o jogou fora? Porque 'jogar' uma coisa é pitão chega à conclusão de que só pode salvar o barco e a vida de

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seus tripulantes se jogar a carga pela borda para equilibrar a embar- ço?" Onde está meu "querer-levantar-o braço" a não ser nesse pró-
cação. De modo que ele a joga na água. Pois bem, ele a jogou por- prio braço levantado? Há algo mais?
que quis? É evidente que sim, pois poderia não se ter livrado dela e Volto a considerar o assunto, desta vez um pouco mais caute-
arriscar-se a morrer. Mas é evidente que não, pois o que ele queria losamente, e concluo que sim, que há algo mais: quando afirmo que
era levá-la até seu destino final, caso contrário teria ficado sosse- meu braço se move voluntariamente, porque eu quero, o que estou
gado em casa, sem zarpar! De modo que a jogou querendo ... mas indicando é que também poderia não o ter movido. Não sei como
sem querer. Não podemos dizer que a tenha jogado involuntaria- eu movo o braço quando quero, não sei se há diferença entre que-
mente, nem que jogá-la fosse sua vontade. Às vezes poder-se-ia di- rer mover meu braço e movê-lo efetivamente, mas sei, por outro
zer que atuamos voluntariamente ... contra a nossa vontade. lado, que, se eu não quisesse movê-lo, ele não se teria movido. Os
Voltemos por um momento ao gesto muito simples do qual fa- especialistas nas relações entre o sistema nervoso e o sistema mus-
lávamos antes: movo meu braço. Eu o movo voluntariamente, ou cular podem explicar como acontece que eu mova o braço quando
seja, não o agito em sonhos nem o levanto para proteger meu rosto decido movê-lo, mas para mim o que conta fundamentalmente - o
em um gesto reflexo ao ver uma pedra vir contra mim. Pelo contrá- que transforma esse gesto trivial em uma verdadeira "ação" - é que
rio, anuncio a quem me quiser ouvir: "Vou levantar o braço daqui a sou tão capaz de movê-lo como de não o mover. De modo que "fiz
cinco segundos." E cinco segundos depois, de fato, levanto o braço. voluntariamente tal ou tal coisa" significa: sem minha permissão,
Mas o que fiz para levantá-lo? Pois limitei-me a querer levantá-lo tal ou tal coisa não teria acontecido. É ação minha tudo o que não
e, como se vê, o levantei. Suponhamos que então você me diz: aconteceria se eu não quisesse que acontecesse. A essa possibilida-
"Ouvi-o dizer que ia levantar o braço e depois, de fato, vi seu bra- de de fazer ou de não fazer, de dar o "sim" ou o "não" a certos atos
ço levantado, mas isso só mostra que você é capaz de dizer ao cer- que dependem de mim, é o que podemos chamar de liberdade. E é
claro que, chegando à liberdade, não resolvemos todos os nossos
to quando vai levantar o braço, não que o tenha levantado volunta-
problemas, mas tropeçamos em indagações mais dificeis ainda.
riamente." Insistirei em que sei muito bem que quis levantá-lo e que
Para começar, podemos suspeitar que essa história de "liberda-
por isso o braço se levantou. Mas a verdade é que, pensando bem,
de" talvez seja simplesmente uma ilusão que tenho sobre minhas
não sei o que fiz para mover meu braço: simplesmente o movi e
possibilidades reais. Afinal de contas, tudo o que acontece tem sua
pronto. Digo que eu "quis" movê-lo e depois ele se moveu, de modo
causa determinante de acordo com as leis da natureza. Abro um
que, ao que parece, fiz duas coisas: uma, querer mover o braço; ou-
pouco a torneira e vejo sair dela alguns pingos de água: se eu sou-
tra, movê-lo. Mas em que se diferencia "querer" mover o braço de
besse de antemão em que lugar do encanamento estavam esses pi11-
"movê-lo"? Se não estou amarrado nem sou paralítico, é de imagi- gos, e levando em conta a lei da gravidade, os padrões que sempre
nar que eu quisesse mover meu braço e ele não se movesse? Teria segue o movimento dos líquidos, a posição do orificio da torneira,
sentido dizer "estou desejando com todas as minhas forças mover etc., certamente eu poderia determinar qual pingo deveria sair em
o braço, de modo que daqui a pouco espero que meu braço acabe primeiro lugar e qual em quarto. O mesmo ocorre com todos os
se movendo"? Em suma, já que nada me impede, externa ou fisio- acontecimentos que observo à minha volta e até com a maior parte
logicamente, de mover o braço, não é o mesmo querer mover obra- do que acontece em meu corpo (respiração, circulação sangüínea,
ço e movê-lo efetivamente? São duas coisas ou uma só? Wittgen- tropeção na pedra que não vi, etc.). Em cada caso posso remontar a
stein refere-se a algo assim, em suas Investigações filosóficas (§ uma situação anterior que faz com que seja inevitável o que acon-
621 ), quando se pergunta: "Este é o problema: o que resta se sub- teceu depois. Só minha ignorância de como estão as coisas no mo-
traio o fato de meu braço se levantar do fato de eu levantar o bra- mento A justifica que eu me surpreenda com o que acontece depois

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no momento B. A doutrina determinista (um dos pontos de vista fi- ação livre. Se ninguém discute que a vida provém do que não está
losóficos mais antigos e persistentes) estabelece que , se eu soubes- vivo e a consciência do que carece dela, por que a liberdade não po-
se como estão dispostas todas as peças do mundo agora e conheces- deria provir daquelas formas materiais estritamente determinadas?
se exaustivamente todas as leis da fisica, poderia descrever sem Vamos tentar definir um pouco melhor a noção que para nós
erro tudo o que vai ocorrer no mundo dentro de um minuto ou den- se transformou em problemática (o que por certo será sempre o pri-
tro de cem anos. Como também sou uma parte do universo, devo meiro passo de qualquer análise filosófica que não queira deslum-
estar submetido à mesma determinação causal que os outros. Onde brar ou surpreender mas entender, ou seja, da filosofia honrada).
fica então o "sim ou não" da liberdade? Não será o ato livre aque- Para começar, digamos que a liberdade não parece supor um ato
le que não posso prever nem mesmo conhecendo completamente a sem causa prévia, um milagre que interrompe a cadeia dos efeitos
situação anterior do universo, ou seja, um ato que invente sua pró- e suas causas (segundo a expressão de Spinoza, um novo "império
pria causa e não dependa de nenhuma precedente? dentro do império geral" do mundo), mas outro tipo de causa que
Deixemos de lado, agora, a questão sobre se uma doutrina "de- também deve ser considerado junto com o resto. Falar de liberda-
terminista" estrita é realmente compatível com as colocações da fí- de não implica renunciar à causação, mas ampliá-la e aprofundar-
sica quântica contemporânea. O princípio de incerteza de Heisen- se nela. A "ação" é livre porque sua causa é um sujeito capaz de
berg parece implicar uma visão muito mais aberta das determina- querer, de escolher e de pôr em prática projetos, ou seja, de realizar
ções causais no universo material... ou pelo menos da forma pela intenções. Nesse sentido, o simples ato de levantar o braço, que co-
qual nós podemos estudá-lo. O prêmio Nobel de fisica Ilya Prigo- mentamos antes, dificilmente pode ser considerado uma "ação", a
gine e o grande matemático René Thom polemizaram há alguns não ser que venha inserido num quadro intencional mais amplo: le-
anos sobre esse assunto, o primeiro advogando por um certo inde- vanto o braço para pedir a palavra em uma assembléia, para tocar a
terminismo e o segundo sustentando um certo determinismo mais campainha ou chamar um táxi ... ou até para provar, numa discussão
semelhante ao tradicional. Falta-me a mais leve competência para filosófica, que sou livre dono de meus atos! Por outro lado, os de-
interferir no debate, mas acredito ser pelo menos possível afirmar sejos e projetos desse sujeito capaz de atuar intencionalmente tam-
que nem o determinismo "forte" de um Laplace duzentos anos atrás bém têm, sem dúvida, suas próprias causas antecedentes, sejam
nem o indeterminismo relativo de Heisenberg ou Prigogine hoje "apetites", "motivos" ou "razões". Voltaremos a falar sobre isso.
podem responder à pergunta sobre a liberdade humana. Porque a Por ora, basta deixar definido que a liberdade não é uma ruptura na
questão da liberdade não se coloca no terreno da causalidade física cadeia da causalidade, mas uma nova linha de consideração prática
- ninguém supõe que os atos humanos careçam de causas que pos- que a enriquece. Dizer "fiz livremente esta ação" não equivale a ·
sam explicar as leis da ciência experimental, por exemplo a neuro- "esta ação não é efeito de nenhuma causa", mas a "a causa desta
fisiologia -, e sim no da ação humana como tal, que não pode ser ação sou eu como sujeito".
vista apenas de fora, como seqüência de acontecimentos, mas deve O termo "liberdade" tem geralmente três usos diferentes, que
também ser considerada de dentro, com a intervenção de variáveis freqüentemente se confundem nos debates sobre o tema e que con-
dificeis de manejar, como a "vontade", a "intenção", os "motivos", viria tentar distinguir pelo menos na medida do possível.
a "previsão", etc. a) A liberdade como disponibilidade para atuar de acordo com
A mera indeterminação científica não equivale à "liberdade": os próprios desejos ou projetos. É o sentido mais comum da pala-
os elétrons podem ser imprevisíveis, mas não "livres'', em nenhum vra, ao qual nos referimos a maioria das vezes em que aparece o
sentido relevante da palavra. E também ao inverso: o física ou fisio- tema em nossa conversação. Faz alusão a quando carecemos de im-
logicamente determinado não tem por que excluir a emergência da pedimentos fisicos, psicológicos ou legais para agir como quere-

108 109
mos. Segundo esta acepção, é livre (para se mover, para ir e vir)
quem não está amarrado ou encarcerado nem sofre de nenhum tipo sejos sobre os desejos que temos; não só temos intenções como
de paralisia; é livre (para falar ou calar, mentir ou dizer a verdade) também gostaríamos de certas intenções ... mesmo que de fato não
quem n~o se acha ameaçado, submetido a torturas ou drogado; tam- as tenhamos! Suponhamos que eu passe por uma casa em chamas e
bém é hvre (para participar da vida pública, aspirar a cargos políti- ouça uma criança chorar lá dentro: não quero entrar para tentar sal-
cos) quem não está marginalizado nem excluído por leis discrimi- vá-la (me dá medo, é muito perigoso, para isso existem os bombei-
natórias, quem não padece dos excessos atrozes da miséria ou da ros ... ) mas ao mesmo tempo eu gostaria de querer entrar para sal-
ignorância, etc. Na minha opinião, esta perspectiva da liberdade vá-la, porque me agradaria não ter tanto medo do perigo e viver em
implica não só poder tentar o que se quer como também uma certa um mundo em que os adultos ajudassem as crianças em caso de in-
possibilidade de consegui-lo. Se não há nenhuma perspectiva de cêndio. Sou o que quero ser mas ao mesmo tempo gostaria de ser
êxito, também não diríamos que há liberdade: diante do impossível de outra maneira, de querer outras coisas, de querer melhor. Qual-
ninguém é realmente livre. quer um pode fugir do perigo, mas ninguém quer ser covarde; às ve-
b) A liberdade de querer o que quero e não só de fazer ou ten- zes tenho vontade ou interesse em mentir, mas não gostaria de me
tar fazer o que quero. Trata-se de um nível mais sutil e menos ób- considerar um mentiroso; gosto de beber mas não quero me trans-
vio do conceito de "liberdade". Mesmo que eu esteja amarrado e formar num alcoólico. O que "quero fazer agora" não é idêntico ao
encarcerado, ninguém poderá me impedir de querer realizar uma que "quero ser". Quando me perguntam o que quero fazer, expres-
determinada viagem: só podem impedir-me de realizá-la efetiva- so meu querer imediato, direto, mas quando me perguntam o que
mente. Se eu não quero, ninguém pode me obrigar a odiar meu tor- quero ser (ou como quero ser) respondo expressando o que gosta-
turador nem a crer nos dogmas que ele tenta me impor pela força. ria de querer, o que creio que me conviria querer, o que me faria não
A espontaneidade de meu querer é livre mesmo que as circunstân- só "querer" livremente como também "ser" livremente. O poeta la-
cias façam com que as possibilidades de colocá-lo em prática sejam tino Ovídio expressou essa contradição entre formas de querer em
nulas. Os sábios estóicos insistiram orgulhosamente nessa liberda- um verso: "Vídeo meliora proboque, deteriora sequor" (vejo o que
de invulnerável da vontade humana. O curso dos acontecimentos é melhor e o aprovo, mas continuo fazendo o pior: ou seja, conti-
não está em minhas mãos (uma simples pedra no sapato pode inter- nuo querendo o que eu gostaria de não querer). Esse tipo de liber-
rom~er meu caminho) mas a retidão de minha intenção (ou sua per- dade nos aproxima de uma vertigem infinita: porque eu poderia
versidade!) desafia as leis da fisica e do estado. Um exemplo entre querer querer o que não quero, querer querer o que não quero que-
mil nos é dado pelo estóico Catão, na Roma antiga, ao apoiar os re- rer. Querer querer querer o que quero ou o que não quero de fato
publicanos sublevados contra César. Depois que os rebeldes foram querer, etc. Onde estabelecer a última fronteira do querer, isto é, de
derrotados, ele comentou, segundo Plutarco: "A causa dos vencidos minha vontade livre como sujeito?
desagr~dou aos deuses mas foi do agrado de Catão." Os deuses (a Um grande pensador moderno da vontade, Arthur Schopenhauer,
necessidade, a história, o irremediável) podem vencer os propósi- negou no início do século XIX a existência de liberdade na tercei-
tos humanos mas não podem impedir que os humanos tenham es- ra acepção do termo aqui apresentada. Segundo ele, nós, humanos
ses propósitos e não outros. - como os demais seres, em um grau ou outro -, somos formados
e) A liberdade de querer o que não queremos e de não querer basicamente de vontade, de "querer" (querer viver, querer devorar
o que de fato queremos. Sem dúvida, a mais estranha e dificil tan- ou possuir, etc.). Para ele, literalmente, somos o que queremos, não
to de explicar como de compreender. Para abordá-la, observemos no sentido de nos termos configurado de acordo com nossos dese-
que nós, humanos, sentimos não apenas desejos como também de- jos, mas de sermos intimamente constituídos por eles. De modo
que, sem dúvida, pode-se afirmar que temos "liberdade" no segun-
110
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do sentido anteriormente explicado. Nada pode impedir-me de cada um de nós pretende estabelecer como sua verdadeira identida-
"querer" o que quero assim como nada pode me vetar "ser o que de - nossa profissão, nossa nacionalidade, nossa religião, etc. -,
sou", uma vez que sou precisamente o que quero (não o objetivo re- mas somos o que não somos, o que ainda não somos ou o que de-
sultante de meus desejos - infinitos, inaplacáveis segundo Schopen- sejamos ser, nossa capacidade de nos inventarmos permanentemen-
hauer - mas o próprio conjunto de tais desejos, sua incessante ati- te, de transgredir nossos limites, a capacidade de desmentir o que
vidade). No entanto também não posso realmente querer ou deixar fomos antes. Para Sartre, o homem não é nada senão a disposição
de querer o que quero. Ou seja, sou o que quero mas inevitavelmen- permanente para escolher e revogar o que quer chegar a ser. Nada
te também quero o que sou, quero os quereres que me fazem ser. nos determina a ser isto ou aquilo, nem de fora nem de dentro de
Posso escolher o que quero fazer a partir de minha vontade (conce- nós mesmos. Apesar de às vezes tentarmos nos refugiar no que es-
bida como meu "caráter", como o modelo de indivíduo que sou, colhemos ser como se constituísse um destino irremediável - "sou
que sempre se inclinará diante de um tipo de motivos e rejeitará ou- engenheiro, espanhol, monógamo, cristão, etc." - , o certo é que
tros, etc.) porém não é possível escolher minha própria vontade sempre estamos abertos a nos transformar ou a mudar de caminho.
nem modificá-la conforme meu arbítrio. Não posso optar sobre o Se não mudamos, não é porque "temos" que escolher como esco-
que me permite querer. De modo que, segundo Schopenhauer, é lhemos e ser o que somos, mas porque "queremos" ser desta ou da-
compatível a mais radical das liberdades ("sou o que quero ser") quela maneira e não de outra.
com o mais estrito determinismo ("não tenho outro remédio além Mas e as determinações que provêm de nossa situação históri-
de ser o que sou"). Podemos ter ilusões sobre o que gostaríamos de ca de nossa classe social ou de nossas condições físicas ou psíqui-
ser até que um motivo irresistível nos demonstra o que realmente ca~? E os obstáculos que a realidade opõe a nossos projetos? Para
somos e o que queremos. Por isso, observa Schopenhauer, rogamos Sartre, tudo isso também não impede o exercício da liberdade por-
na oração do pai-nosso "não nos deixes cair em tentação, não nos que sempre se é livre "dentro de um estado de coisas ~ diante des-
induzas à tentação: meu Deus, não permitas que eu conheça o pior se estado de coisas''. Sou eu que escolho me resignar a minha con-
do que livremente quero fazer, ou seja, não me reveles como sou!''. dição social ou me rebelar contra ela e transformá-la, sou eu que
Será preciso dizer que Sigmund Freud, inventor da psicanálise, descubro as adversidades de meu corpo ou da realidade ao me pro-
compartilhou a partir de sua doutrina do inconsciente grande parte por objetivos que as desafiam. Até os obstáculos que bloqueiam o
da perspectiva schopenhaueriana? exercício de minha liberdade provêm de minha determinação de ser
Em contrapartida, no século XX, o francês Jean-Paul Sartre livre e de sê-lo desta ou daquela maneira que nada me impõe! A ga-
formulou toda uma metafísica radical da liberdade de acordo com gueira só era impedimento para Demóstenes porque ele havia deci-
a terceira acepção do conceito. Foi chamada de "existencialismo", dido livremente ser orador... A liberdade humana, entendida no sen-
visto que, segundo ele, o primordial no homem é o fato de que exis- tido radical que Sartre lhe outorga, é a vocação de negar tudo o que
te e deve inventar a si mesmo, sem estar predeterminado por ne- nos rodeia na realidade e de projetar outra realidade alternativa a
nhum tipo de essência ou caráter imutável. O lema que melhor con- partir de nossos desejos e paixões livremente assumidos. Podemos
densa o pensamento de Sartre é uma frase extraída de Hegel - um fracassar na tentativa (de fato, sempre fracassamos, sempre nos
contemporâneo de Schopenhauer essencialmente odiado por este chocamos de alguma maneira contra o real, "o homem é uma pai-
último - segundo a qual "o homem não é o que é e é o que não é". xão inútil"), mas não podemos deixar de tentá-lo nem renunciar a
Esse aparente trava-línguas pode ser racionalmente esclarecido: tal empenho pretextando a necessidade invencível das coisas. A
nós, os humanos, não somos algo dado previamente de uma vez por única coisa que nós, humanos, não podemos escolher é entre ser e
todas, algo "programado" de antemão, nem sequer esse "algo" que não ser livres: estamos condenados à liberdade, por mais paradoxal

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do sentido anteriormente explicado. Nada pode impedir-me de cada um de nós pretende estabelecer como sua verdadeira identida-
"querer" o que quero assim como nada pode me vetar "ser o que de - nossa profissão, nossa nacionalidade, nossa religião, etc. -,
sou", uma vez que sou precisamente o que quero (não o objetivo re- mas somos o que não somos, o que ainda não somos ou o que de-
sultante de meus desejos - infinitos, inaplacáveis segundo Schopen- sejamos ser, nossa capacidade de nos inventarmos permanentemen-
hauer - mas o próprio conjunto de tais desejos, sua incessante ati- te, de transgredir nossos limites, a capacidade de desmentir o que
vidade). No entanto também não posso realmente querer ou deixar fomos antes. Para Sartre, o homem não é nada senão a disposição
de querer o que quero. Ou seja, sou o que quero mas inevitavelmen- permanente para escolher e revogar o que quer chegar a ser. Nada
te também quero o que sou, quero os quereres que me fazem ser. nos determina a ser isto ou aquilo, nem de fora nem de dentro de
Posso escolher o que quero fazer a partir de minha vontade ( conce- nós mesmos. Apesar de às vezes tentarmos nos refugiar no que es-
bida como meu "caráter", como o modelo de indivíduo que sou, colhemos ser como se constituísse um destino irremediável - "sou
que sempre se inclinará diante de um tipo de motivos e rejeitará ou- engenheiro, espanhol, monógamo, cristão, etc." -, o certo é que
tros, etc.) porém não é possível escolher minha própria vontade sempre estamos abertos a nos transformar ou a mudar de caminho.
nem modificá-la conforme meu arbítrio. Não posso optar sobre o Se não mudamos, não é porque "temos" que escolher como esco-
que me permite querer. De modo que, segundo Schopenhauer, é lhemos e ser o que somos, mas porque "queremos" ser desta ou da-
compatível a mais radical das liberdades ("sou o que quero ser") quela maneira e não de outra.
com o mais estrito determinismo ("não tenho outro remédio além Mas e as determinações que provêm de nossa situação históri-
de ser o que sou"). Podemos ter ilusões sobre o que gostaríamos de ca, de nossa classe social ou de nossas condições físicas ou psíqui-
ser até que um motivo irresistível nos demonstra o que realmente cas? E os obstáculos que a realidade opõe a nossos projetos? Para
somos e o que queremos. Por isso, observa Schopenhauer, rogamos Sartre, tudo isso também não impede o exercício da liberdade por-
na oração do pai-nosso "não nos deixes cair em tentação, não nos que sempre se é livre "dentro de um estado de coisas é\ diante des-
induzas à tentação: meu Deus, não permitas que eu conheça o pior se estado de coisas". Sou eu que escolho me resignar a minha con-
do que livremente quero fazer, ou seja, não me reveles como sou!''. dição social ou me rebelar contra ela e transformá-la, sou eu que
Será preciso dizer que Sigmund Freud, inventor da psicanálise, descubro as adversidades de meu corpo ou da realidade ao me pro-
compartilhou a partir de sua doutrina do inconsciente grande parte por objetivos que as desafiam. Até os obstáculos que bloqueiam o
da perspectiva schopenhaueriana? exercício de minha liberdade provêm de minha determinação de ser
Em contrapartida, no século XX, o francês Jean-Paul Sartre livre e de sê-lo desta ou daquela maneira que nada me impõe! A ga-
formulou toda uma metafisica radical da liberdade de acordo com gueira só era impedimento para Demóstenes porque ele havia deti-
a terceira acepção do conceito. Foi chamada de "existencialismo'', dido livremente ser orador... A liberdade humana, entendida no sen-
visto que, segundo ele, o primordial no homem é o fato de que exis- tido radical que Sartre lhe outorga, é a vocação de negar tudo o que
te e deve inventar a si mesmo, sem estar predeterminado por ne- nos rodeia na realidade e de projetar outra realidade alternativa a
nhum tipo de essência ou caráter imutável. O lema que melhor con- partir de nossos desejos e paixões livremente assumidos. Podemos
densa o pensamento de Sartre é uma frase extraída de Hegel - um fracassar na tentativa (de fato, sempre fracassamos, sempre nos
contemporâneo de Schopenhauer essencialmente odiado por este chocamos de alguma maneira contra o real, "o homem é uma pai-
último - segundo a qual "o homem não é o que é e é o que não é". xão inútil"), mas não podemos deixar de tentá-lo nem renunciar a
Esse aparente trava-línguas pode ser racionalmente esclarecido: tal empenho pretextando a necessidade invencível das coisas. A
nós, os humanos, não somos algo dado previamente de uma vez por única coisa que nós, humanos, não podemos escolher é entre ser e
todas, algo "programado" de antemão, nem sequer esse "algo" que não ser livres: estamos condenados à liberdade, por mais paradoxal

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que possa soar esta fórmula sartriana, já que é a liberdade que nos dificil, para não dizer impossível, compreender verdadeiramente a
define como humanos. ação humana. Os instintos e as demais forças da natureza bastam
A noção de "liberdade" tem uma ampla gama de aplicações para explicar os acontecimentos protagonizados por humanos, as-
teóricas, e pode-se muito bem aceitá-la em um de seus sentidos e sim como se pode explicar o comportamento dos animais, o cresci-
rejeitá-la em outros. Em todas as suas formas, reconhecer-nos "li- mento das plantas ou a queda dos sólidos na direção do planeta que
vres" supõe admitir que nós, humanos, orientamos nossa atividade os atrai. Mas a compreensão total da atividade humana exige além
de acordo com "intenções" que agrupam uma série de ações conca- disso uma perspectiva interna ao sujeito agente que reconheça as
tenadas. Por exemplo, tenho intenção de tomar o trem de manhã: conexões entre o que pensamos e o que fazemos, entre nosso uni-
com esse fim, na noite anterior ponho o despertador para uma de- verso simbólico e nosso desempenho vital no mundo fisico.
terminada hora, levanto cedo, tomo banho, me visto, desço de ele- Seja como for, por que é tão importante para nós a questão da
vador até a rua, chamo um táxi, peço que ele me leve até a estação, liberdade, seja para afirmá-la com arroubo entusiasmado e orgu-
etc. Onde está o peso de minha ação livre, na intenção de tomar o lhoso, seja para negá-la com não menor energia? O céptico David
trem ou em cada um dos passos necessários para esse fim? Alguns Hume, que era fundamentalmente determinista, sustentou que a
filósofos, como Donald Davidson, afirmam que as únicas verdadei- idéia de liberdade é compatível com o determinismo porque não se
ras ações que existem são as mais simples e primitivas, ou seja, os refere à casualidade física mas à causalidade social. Temos neces-
movimentos corporais voluntários. Esses gestos podem ser "narra- sidade de acreditar em certa medida na liberdade para poder atribuir
dos" de acordo com diversas histórias, algumas das quais estarão cada um dos acontecimentos protagonizados por humanos a um su-
centradas em meus projetos ou intenções e outras em lógicas nar- jeito responsável, que possa ser elogiado ou censurado - e castiga-
rativas diferentes (por exemplo, as que incluem os efeitos não de- do, se for o caso - por sua ação. A liberdade é imprescindível para
sejados de minhas ações intencionalmente desejadas). estabelecer responsabilidades, porque sem responsabilidade não se
Por outro lado, salvo algum sartriano ultra-radical, não creio pode articular a conveniência em nenhum tipo de sociedade. Mas
que alguém negue que nós, os humanos, temos apetites instintivos esse ser livre não só é um motivo de orgulho como também de so-
que em muitas ocasiões nos impelem a atuar. Mas também parece çobra e até de angústia. Assumir nossa liberdade supõe aceitar nos-
evidente que não somos simplesmente arrastados pelos objetos de sa responsabilidade pelo que fazemos, inclusive pelo que tentamos
nosso instinto mas que, ao mesmo tempo, permanecemos em nós fazer ou por algumas conseqüências indesejáveis de nossos atos.
mesmos, sabendo-nos agentes e estilizando as satisfações instinti- Ser livre não é responder vitorioso "eu fui!" na hora da distri-
vas de acordo com diferentes projetos vitais. Embora alguns de nos- buição de prêmios, mas é também admitir "fui eu!" quando se pro-
sos fins sejam irremediáveis e não escolhidos {nuhição, sexo, auto- cura o culpado por um malfeito. Para o primeiro sempre há volun-
conservação, etc.), tentamos cumpri-los de modos não irremediá- tários, porém no segundo caso o mais comum é refugiar-se no peso
veis, optativos. Daí que, além de apetites, possamos apontar também esmagador das circunstâncias: o trapaceador de viúvas atribuirá seus
como causas de nossas ações "motivos" a mais longo prazo e tam- delitos ao abandono precoce dos pais, às tentações da sociedade de
bém "razões", ou seja, considerações que buscam ser compartilha- consumo ou aos maus exemplos da televisão .. . ao passo que quem
das por nossos semelhantes. Lembre-se do que dissemos no capítu- recebe o prêmio Nobel só falará de seu esforço diante do destino
lo dois sobre o "racional", a busca dos melhores instrumentos para adverso e de seus méritos. Ninguém quer ser simplesmente reduzi-
lidar com os objetos, e o "razoável", o procedimento de tratar com do ao catálogo de suas más ações: a quem nos repreende por uma
sujeitos que supomos tão dotados de intenções respeitáveis quanto grosseria, respondemos "não pude evitar, queria ver você no meu
nós mesmos. Sem considerar os dois tipos de motivos racionais é lugar, eu não sou assim, etc.", tentando ao mesmo tempo transferir

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~ culpa para a sociedade em que vivemos ou para o sistema capita- qual nos amarra. Assim por exemplo Macbeth, quando vacila na
lista, porém mantendo aberta a possibilidade de sermos limpos, de- noite atroz antes de assassinar o rei Duncan - o que lhe outorgará a
sinteressados, valentes, melhores. Por isso a liberdade não é algo coroa que ele deseja - , ponderando abalado a responsabilidade ine-
como um galardão, mas também uma carga, e muitas pessoas duvi- vitável que cairá sobre ele: "Se fazendo-o estivesse feito!. .. O me-
dosamente maduras - ou seja, pouco autônomas, pouco conscien- lhor então seria fazê-lo sem demora. Se o assassinato solucionasse
tes de si mesmas - preferem renunciar a ela e passá-la para um lí- todas as conseqüências e com sua cessação o êxito estivesse asse-
der social que ao mesmo tempo tome as decisões e carregue o peso gurado! ... Se esse golpe fosse o todo, só o todo, sobre o banco de
das culpas. O psicanalista Erich Fromm escreveu um livro intitula- areia e o baixio deste mundo, saltaríamos para a vida futura! Mas
do O medo da liberdade, em que ele analisava a partir dessa óptica nesses casos somos julgados aqui mesmo; damos simplesmente li-
os fervores maciços que o totalitarismo nazista ou o bolchevique ções sangrentas que, aprendidas, voltam-se para atormentar seu in-
despertaram em nosso século. ventor" (ato 1, cena VI1)1. Macbeth quer a ação (o assassínio de
Mas a questão da "responsabilidade" provém de muito antes. Duncan) e quer o que irá conseguir por meio dessa ação (o trono),
Na tragédia grega, por exemplo, a responsabilidade se transforma mas não quer ficar vinculado para sempre à ação, ter que se respon-
às vezes ,no destino inevitável do personagem, que - como aconte- sabilizar por ela diante dos que lhe peçam prestação de contas ou
ce com Edipo nas tragédias de Sófocles Édipo rei e Édipo em Ca- extraiam a lição terrível de seu crime. Se apenas se tratasse de fazê-
fona - tem que cumprir, mesmo sem querer nem saber, as ações à lo e isso fosse tudo, ele o faria sem escrúpulos; mas a responsabili-
que está predestinado, mas ao mesmo tempo sem deixar de com- dade é a contrapartida necessária da liberdade, seu avesso, talvez -
preender os dispositivos voluntários que o enredam na máquina fa- como diz Hume - o próprio fundamento da exigência de liberdade:
tal. Nosso querer nos arrasta ao irremediável, mas depois o irreme- as ações devem ser livres para que alguém responda por cada uma
diável deve ser assumido como a parte cega de nosso querer: acei- delas. O sujeito é livre para fazê-las, embora não para desprender-
tar que devíamos ser culpados nos abre os olhos sobre o que somos se de suas conseqüências ...
e assim purifica o que podemos vir a ser. Os gregos não conhece- Sófocles ou Shakespeare costumam falar de uma responsabili-
ram a noção de "liberdade" no segundo e no terceiro sentidos ex- dade "culpada" e não simplesmente por gosto sensacionalista: o
plicados anteriormente, portanto também não tiveram uma noção vínculo entre liberdade e responsabilidade torna-se mais evidente
de responsabilidade realmente "personalizada", ou seja, ligada à in- quando a primeira nos apetece e a segunda nos assusta. Ou seja, quan-
tenção subjetiva do agente e não à objetividade do fato realizado. A do estamos diante de uma tentação. Em nossa época, são abundan-
maldição do culpado recai sobre Édipo por crimes que ele ignora tes as teorias que pretendem nos desculpar do peso responsável da
ter cometido (matar o pai, deitar-se com a mãe) e que depois deve liberdade quando nos é fastidioso:· o mérito positivo de minhas ações
assumir como parte do destino que lhe pertence ... e ao qual ele per- é meu, mas minha culpa eu posso dividir com meus pais, com a ge-
tence. Segundo Sófocles, o que nos torna responsáveis não é o que nética, com a educação recebida, com a situação histórica, com o
projetamos fazer nem o que fazemos efetivamente, e sim a reflexão sistema econômico, com qualquer uma das circunstâncias que não
sobre o que fizemos. está em minhas mãos controlar. Todos nós somos culpados de tudo,
No início da modernidade, foi sem dúvida outro grande trági- logo ninguém é principal culpado de nada. Em minhas aulas de éti-
co - Shakespeare - quem melhor esmiuçou os segredos contraditó- ca costumo colocar o seguinte caso prático, que eu adorno confor-
rios da liberdade em ação. Seus personagens são lúcida e terrivel-
mente conscientes da vertigem em que oscila quem deseja o que a
1. Macbeth, de W Shakespeare, trad. esp. de Astrana Marín. [Traduzido a par-
ação promete mas treme diante da cadeia culpabilizadora com a
tir do texto citado pelo autor.]

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tentar matar ele distingue vários parentes e amigos (trata-se de uma
me a inspiração do dia. Suponhamos uma mulher cujo marido em- guerra civil, fratricida) e isso o angustia a tal ponto que considera
preende uma longa viagem; a mulher aproveita essa ausência para seriamente abandonar o combate. Então o auriga que dirige seu car-
ir ao encontro de um amante; de um dia para outro, o marido des- ro de combate, e que não é outro senão o deus Krishna, identifica-
confiado anuncia sua volta e exige a presença da esposa no aero- se e lhe faz uma preleção sobre seu dever. Segundo Krishna, o es-
porto para recebê-lo. Para chegar ao aeroporto, a mulher precisa crúpulo que Arjuna sente diante da tarefa de matar é infundado,
atravessar um bosque onde se esconde um terrível assassino. Assus- porque "nem dos mortos nem dos vivos se compadecem os sábios" .
tada, ela pede ao amante que a acompanhe, mas ele se nega, pois No mundo das aparências enganosas em que nos movemos, o ver-
não quer enfrentar o marido; então pede proteção ao único guarda dadeiramente substantivo (Brahma, o Absoluto incriado e imorre-
que há no povoado, que também diz que não pode ir com ela, pois douro) não pode ser destruído por dardos nem modificado por ne-
deve atender com o mesmo zelo aos outros cidadãos; recorre a di- nhuma operação humana. A cada um cabe atuar como o que é - no
versos moradores e moradoras do povoado, mas todos se recusam, caso de Arjuna, que é um guerreiro, lutando no campo de batalha -,
alguns por medo, outros por comodismo. Finalmente ela faz a via- mas a sabedoria consiste em não ter nenhum apego aos frutos ou
gem sozinha e é assassinada pelo criminoso do bosque. Pergunta: conseqüências da ação: "Na ação está teu empenho, não em seus
quem é responsável por sua morte? Costumo receber respostas para frutos, jamais: não tenhas como fim os frutos da ação nem tenhas
todos os gostos, conforme a personalidade do interrogado ou da in- apego à inação." Todos somos obrigados a atuar pelas circunstân-
terrogada. Há quem culpe a intransigência do marido, a covardia do cias naturais em que transcorre nossa vida: "Ninguém, nem por um
amante, a falta de profissionalismo do guarda, o mau funcionamen- momento, jamais está sem agir; é levado à Ação, mau grado seu,
to das instituições que nos prometem segurança, a falta de solida- pelos fios nascidos da Natureza." O segredo está em agir como se
riedade dos moradores, até a má consciência da própria assassina- não se agisse, em realizar as ações que nos cabem sem deixar que
da ... Poucos respondem o óbvio: que o Culpado (com maiúscula de nosso ânimo se perturbe pelo desejo, pela ira, pelo temor ou pela
principal responsável pelo crime) é o próprio assassino que a mata. esperança. "Por isso sem apego sempre a Ação que há de fazer-se
2
Sem dúvida, na responsabilidade de cada ação intervêm numerosas faz; se realiza a Ação sem apego, o mais alto alcança o homem."
circunstâncias que podem servir de atenuantes e às vezes diluir ao Para nossas mentalidades cristãs (por mais que nos considere-
máximo a culpa como tal, mas nunca ao ponto de "desligar" total- mos leigos ou até ateus), esse deus que tranqüilamente recomenda
mente do ato o agente que o realiza intencionalmente. Compreen- ao homem que pratique a matança como se não estivesse fazendo
der todos os aspectos de uma ação pode levar a perdoá-la mas nun- nada - ou como se estivesse fazendo qualquer outra coisa! - é difi-
ca a apagar completamente a responsabilidade do sujeito livre: caso cil de entender. A própria idéia de que devemos resignar-nos à ação
contrário, já não se trataria de uma ação mas de um acidente fatal. como parte da ordem da natureza mas nos entregando a ela com
No entanto não será justamente a própria liberdade o acidente fatal pleno "desinteresse" pelo que promete é contrária a tudo o que sig-
da vida humana em sociedade? nifica "projeto", "intenção", assim como ao "êxito" ou "fracasso"
Uma das reflexões mais enigmaticamente sugestivas sobre o do que é empreendido. Mas o peso da responsabilidade da ação -
vínculo entre ação e responsabilidade é a que se encontra no "Bha- que não é mero projeto ocidental, uma vez que o próprio Arjuna o
gavad Gita", ou "Canção do Senhor", um longo poema dialogado experimenta quando está prestes a massacrar seus parentes, tanto
composto provavelmente no século III a. C., incluído no Mahabha-
rata , a grande epopéia hindu. O herói Arjuna avança em seu carro
2. Canción dei Seíior, em Atma y Brahma, trad. esp. de F. Rodríguez Adrados,
de guerra contra as tropas inimigas e dispõe as flechas com que irá Editora Nacional, Madri. [Traduzido a partir do texto citado pelo autor.]
exterminar todos os que puder. Mas entre os adversários que deve
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quanto Macbeth antes de se decidir pelo assassinato de Duncan - vivem satisfeitos por ser como são.
alivia-se com o chocante raciocínio de que é preciso perpetrar o { ..} No terceiro planeta do sol,
evitável como se fosse inevitável. No fundo , atuar "conscientemen- a consciência limpa e tranqüila
te" nada mais é do que compreender de que modo todos nós somos é um sintoma primordial de animalidade.3
atuados pelo aparente e reconhecer nossa identidade com o que
sempre é mas nunca faz. Podemos encontrar paralelismos entre essa O homem parece ser o único animal que pode ficar desconten-
perspectiva oriental e a forma de pensar dos estóicos ou de Spino- te consigo mesmo: o arrependimento é uma das possibilidades sem-
za, embora premissas semelhantes desemboquem em regras práti- pre abertas à autoconsciência do agente livre. Mas, se somos natu-
cas muito diferentes: no pensamento ocidental, a consideração ob- ralmente livres, como podemos nos arrepender daquilo que fazemos
jetiva da rede causal dentro da qual atuamos permite "entender" com nossa liberdade natural? Como pode o desenvolvimento do que
melhor a ação, mas nunca "nos desinteressar" dela, isto é, de seus naturalmente somos trazer-nos conflitos íntimos? Devemos então,
objetivos e conseqüências. Assim é possível compreender melhor as agora, elucidar qual é nossa natureza e que sentido tem a noção de
respeitosas repreensões que um grande admirador da sabedoria hin- "natureza" para nós, os animais capazes de consciência pesada.
du, Octavio Paz, formula (em seu livro Vislumbres de la Jndia) con-
tra essa doutrina do Bhagavad Gita: "O desprendimento de Arjuna
é um ato íntimo, uma renúncia a si mesmo e a seus apetites, um ato Dá o que pensar...
de heroísmo espiritual e que, no entanto, não revela amor ao próxi-
mo. Arjuna não salva ninguém exceto a si mesmo ... o mínimo que O que significa "habitar" o mundo? Trata-se simplesmente de
se pode dizer é que Krishna prega um desinteresse sem filantropia." estar contido nele ou de fazer parte dele? O que é "atuar "? "Fa-
Ser livre é responder por nossos atos e sempre se responde zer algo" é o mesmo que "executar uma ação"? Pode haver "ações
diante dos outros, com os outros como vítimas, como testemunhas involuntárias"? Como sabemos que estamos fazendo algo volunta-
e como juízes. No entanto, todos parecemos buscar "algo" que nos riamente? Há coisas que fazemos voluntariamente mas também
alivie a pesada carga da liberdade. Não podemos supor que nossa "sem querer"? "Decidir fazer algo" é o mesmo que ''jazê-lo"?
natureza humana seja livre mas que dentro dessa liberdade "neces- "Querer mover meu braço" e "movê-lo " são duas ações ou apenas
sária" atuamos tão inocentemente como crescem as plantas ou se uma? Quando se pode dizer que estou atuando livremente? Se não
desenvolvem os animais? Se somos livres "por natureza", será que o faço livremente, é possível dizer que "atuo"? O que diz a teoria
a própria natureza não marca o âmbito de eficácia de nossa liber- determinista? Podem ser compatíveis um certo determinismo e um
dade? Em que se distingue o irremediavelmente livre de nossa con- certo tipo de liberdade? A fisica contemporânea é "determinista"
dição natural do simplesmente irremediável de outros seres natu- no mesmo sentido em que o foi a fisica clássica? O determinismo
rais? Talvez um indício de resposta nos seja oferecido por este belo da fisica tem algo a ver - muito ou pouco - com o problema da li-
poema da polonesa Wistlawa Szymborska: berdade humana? Quais são os diferentes usos que se fazem da no-
ção de "liberdade"? Podemos aceitar ser livres em um deles e não
A águia ratoeira não costuma censurar-se nada. em outro ou outros? Qual a relação entre a liberdade e as exigên-
Carece de escrúpulos apantera negra.
As piranhas não duvidam da honradez de seus atos.
3. Extraído de Paisaje con grano de arena, de W. Szymborska, trad. esp. de A.
E a cascavel à constante auto-aprovação se entrega. M . Moix e J. Slawomirski, Lumen, Barcelona. [Tradução livre a partir do texto cita-
A lagosta, o caimã, a triquina e a mutuca do pelo autor.]

120 121
cias da vida em sociedade? O que significa "ser responsável" ou Capítulo sete
"fazer-se responsável" por uma ação? Pode haver ações pelas
quais, sejamos todos responsáveis ou pelas quais ninguém seja res- Artificiais por natureza
ponsavel? Como a responsabilidade da ação é entendida pela tra-
gédia grega, por Shakespeare e pelo Bhagavad Gita? Poderíamos
nos arrepender do que fazemos se não fôssemos livres para fazê-lo
ou não? Se somos livres por natureza, é antinatural ter consciência
pesada pelo que fizemos livremente?

No capítulo quatro fizemos um esboço genérico do homem


como "animal simbólico", mostrando as características que o defi-
nem com relação a outros seres vivos com os quais - quanto ao
mais - ele também tem um parentesco indubitável. Os símbolos são
convencionais, portanto o homem é um animal "convencional", um
ser vivo capaz de estabelecer, aprender e praticar acordos de signi-
ficado com seus semelhantes. Mas agora deveríamos nos perguntar
se existe uma natureza humana, se nós, humanos, somos feitos pela
natureza e fazemos parte dela, se também somos "seres naturais"
além de - apesar de? - sermos "convencionais", se há contradição
ou incompatibilidade entre uma coisa e outra. Essas perguntas nos
interessam porque talvez conhecer nossa natureza ou nossa relação
com a natureza possa nos orientar a respeito de como atuar e como
empregar convenientemente nossa liberdade. Afinal, quando que~e­
mos aprovar ou desculpar um comportamento, costumamos dizer
que é "natural" agir assim; e também reprovamos algumas condu-
tas dizendo que são "antinaturais" ou contrárias à natureza. O que
queremos dizer quando fazemos esses comentários?
Em nossa época ouve-se falar muito da "natureza". As atitudes
ecológicas nos previnem contra certas formas de agir que represen-
tam ameaças contra o "natural", uma vez que põem em perigo a
"natureza" por meio de abusos técnicos, poluição industrial, supe-
rexploração dos recursos, aniquilamento de espécies vivas, manipu-
lações genéticas, etc. Alguns afirmam que muitos de nossos males

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provêm de se ter voltado as costas para o "natural" e recomendam outras coisas (incluindo-se entre elas os sentidos do observador) e
que voltemos à "natureza", que nos consideremos parte dela e não os modos pelos quais outras atuam sobre ele." 1 Talve~ também d~­
seus donos tirânicos, deixando-nos, de certo modo, guiar por ela. vêssemos acrescentar explicitamente a essas caractensticas - p01s
Segundo esse ponto de vista bastante difundido, deveríamos mane- caso contrário Lucrécio não nos perdoaria - a composição física e
jar fontes de energia e consumir produtos "naturais". Outros acre- a gêneses desse objeto ou coisa. A natureza de alguma coisa é sua
ditam que tais atitudes nos devolvem à barbárie, a épocas primiti- forma de ser, de chegar a ser e de operar no conjunto ~o rest~ do
vas, que nos fazem voltar atrás no caminho do progresso científico, que existe. De modo que a Natureza com mai~scula sera o conJun~
o qual nada pode nem deve deter. Mostram que a suposta norma do to dos poderes ou propriedades de todas ~s c01sas, t~nto das que .h~
"natural" também serve para desqualificar repressivamente como como das que poderia haver, conforme d~z, ~om raz~o, Stuart Mil!.
"antinaturais" certas reivindicações sociais, como por exemplo as "Assim, 'Natureza', em sua acepção mais simples, e o nome cole-
do feminismo ou as dos homossexuais. Vamos indagar de novo: de tivo para todos os fatos, tanto os que ocorrem como os meramente
que estamos falando tão apaixonadamente? possíveis; ou (para falar mais precisament~) um nom,e para o modo,
Como já disse em várias ocasiões ao longo dos capítulos ante- em parte conhecido e em parte desconhecido para nos, pelo qual as
riores, nossa primeira tarefa filosófica - embora evidentemente não coisas acontecem." .
seja a única! - deverá consistir em definir o mais possível os usos Claro que estamos nos referindo realmente a tu~o º. que exis-
da noção sobre a qual se estabelece a controvérsia, neste caso "na- te no universo, ou que pode existir, seja animado ou mam.i:iad?, ra-
tureza" ou "natural". Só a má filosofia começa inventando novos cional ou irracional, inclusive as mesas, os castelos, os av10es ~nter­
termos retumbantes que ninguém entende em vez de propor-se es- continentais e demais artefatos que nós, humanos, produzimos.
clarecer o que entendemos pelas palavras comuns que utilizamos Qualquer uma das coisas feitas pelo homem também t~m sua nat~­
habitualmente. Evidentemente, não parece que estejamos nos refe- reza tal como uma flor ou um rio, e responde a propnedades físi-
rindo à mesma coisa quando dizemos que a gravidade é uma lei da cas ~u químicas que compartilha com muitos seres não humana-
Natureza descoberta por Newton, que é natural que as mães gostem mente fabricados. Nesse sentido, nada do que o homem faça pode
de seus filhos , que a natureza é muito bonita, que naturalmente o ir contra a natureza, nem destruí-la ou prejudicá-la, pois os produ-
agredido reage contra seu agressor, que os seres humanos são tos do homem também fazem parte dela (não está nas mãos do ho-
iguais por natureza e que o mais natural é descer pela escada ou mem "violar" a natureza, mas apenas utilizar de um modo ou de ou-
pelo elevador e não saltar do sexto andar para a rua. Examinemos tro os seus padrões). Um pesticida não é mais nem menos "na~ral:'
tudo isso wn pouco mais detidamente. dó que a água clara da fonte, a bomba atômica. res~onde a prmci-
Quais são os principais usos do termo "natureza"? pios tão naturais quanto o amanhe~er ou. a fabncaça? ~e ~avos pe,~
O primeiro é o adotado no título do famoso poema de Lucré- las abelhas, o incêndio provocado mtenc10nalmente e tao ~atura!
cio, De rerum natura ou Da natureza das coisas. Cada uma das coi- quanto a floresta devastada por ele. O home~ pode destrmr certos
sas que existem no universo tem sua própria natureza, ou seja, sua objetos naturais ou prejudicar out~os seres ;iv?s, mas sempre s~­
própria/arma de ser. No século XIX, uma das pessoas mais lúci- guindo procedimentos que se baseiam na propna ~atu_reza das c01-
das e honestas que se dedicou à filosofia - John Stuart Mill - es- sas. Neste primeiro sentido do termo há uma contmmdade natural
creveu uma obra breve, intitulada justamente A natureza, que co- entre tudo o que existe ou acontece na realidade.
meçava assim: "O que queremos dizer quando falamos na 'natu-
reza ' de um objeto particular, tal como o fogo, a água, ou qualquer
planta ou animal? Evidentemente, o conjunto ou agregado de seus l. A natureza , de John Stuart Mil!. [Traduzido a p.artir do texto citado pelo au-
poderes ou propriedades; os modos pelo qual tal objeto atua sobre tor: La naturaleza, trad. esp. C. Mellizo, Alianza Editorial, Madn.]

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Mas há outro sentido da palavra "natureza" segundo o qual é teriza pela espontaneidade, ao passo que tudo o que é submetido a
natural tudo o que aparece no mundo sem intervenção humana. No uma norma pertence à cultura e apresenta os atributos do relativo e
livro X de sua Física, Aristóteles estabelece que são seres naturais do particular (As estruturas elementares do parentesco). Quanto à
os que têm seu princípio e finalidade em si mesmos, ou seja, os que primeira parte dessa afirmação - o universal no homem é natural-,
são espontaneamente o que são e como são. Pelo contrário, uma convém assinalar que seu contrário não é verdadeiro: o inato ou na-
cama ou um computador têm seu princípio na capacidade de produ- tural em cada ser humano concreto tem múltiplas particularidades,
ção do homem e respondem a fins que os homens se propuseram. algumas genéricas e compartilhadas com muitos outros (o sexo, por
De um lado, então, estão os seres naturais, brotados de uma espon- exemplo, ou a cor da pele e dos olhos, certas malformações, etc.),
taneidade criadora que chamamos, em seu conjunto, de "natureza"; mas outras únicas e irrepetíveis (impressões digitais, dotação gené-
de outro, os objetos artificiais, fruto da arte ou da técnica humana (a tica, salvo em gêmeos univitelinos, etc.). Também poderíamos con-
palavra grega techné, donde provém nossa "técnica", também signi- siderar parte 'natural' de cada um as mudanças acidentais que sua
fica "arte"). Mas a distinção entre uma coisa e outra deixa preocu- estrutura fisica vai sofrendo, por exemplo as seqüelas deixadas pela
pantes zonas de penumbra. Em 1826 foi sintetizada pela primeira poliomielite ou o simples e universal fenômeno do envelhecimen-
vez em laboratório a uréia, uma substância que também existe es- to, uma vez que não há pessoas que envelheçam de maneira exata-
pontaneamente na natureza: o produto assim obtido deve ser consi- mente igual. Nem, certamente, que morram de maneira exatamen-
derado natural, artificial... ou artificialmente natural? As diversas te igual. Por certo também cabe discutir esse último ponto: se fico
raças de cães, os porcos Duroc-Jersey ou os cavalos de corrida são manco depois de ser atropelado por um carro, trata-se de um per-
naturais ou artificiais? E as variedades de flores conseguidas por en- calço 'natural' ou 'cultural'? Ou de um percalço 'cultural' que afe-
xertos? O reflorestamento é natural ou artificial? A maioria das paisa- ta minha parte 'natural'? Lembro agora o velho chiste: 'Do que
gens que nos cercam são inseparáveis da ação humana, seja porque morreu o Fulano? De morte natural. Como foi? Um piano caiu do
ela tenha interferido ativamente em sua configuração, seja por- oitavo andar em cima dele. E você chama isso de morte natural?
que tenha deixado de intervir, embora pudesse fazê-lo. Essa evi- Ora, se você não acha natural que alguém morra quando um piano
dência transforma em "artificial" todo o nosso entorno? Claro que lhe cai em cima .. .' "
a questão mais dificil é colocada pelo próprio ser humano, que não Acontece que, em cada um de nós, qualquer característica "na-
chegaria a existir sem a intervenção de outros seres humanos que o tural" está sempre contaminada pela cultura, e vice-versa. Nada mais
engendrassem fisica e culturalmente. Segundo afirma Lévi-Strauss natural e universal nos humanos - como nos outros animais - do
em sua Antropologia estrutural, "os homens não fizeram menos a si que a necessidade de comer, mas ninguém come sem se submeter a
mesmos do que fizeram as raças de seus animais domésticos". Nós, normas culturais, reverenciar modas gastronômicas, escolher ou r~­
humanos, somos naturais, artificiais ... ou artificiais por natureza? jeitar alimentos de acordo com hábitos adquiridos: é natural ter que
Quando o aplicamos ao caso do homem, o termo "natureza" se se alimentar mas sempre nos alimentamos culturalmente. Perg1:111te-
contrapõe em primeiro lugar a "cultural": o natural é o inato, o bio- se aos sobreviventes daquele acidente aéreo nos Andes, que tiveram
logicamente determinado, o que não se escolhe nem se aprende, que optar entre devorar os cadáveres de outras vítimas ou morrer de
mas se padece; em contrapartida, é cultural o aprendido, o que re- inanição enquanto esperavam ser resgatados! Inclusive se tivessem
cebemos por bem ou por mal de nossos semelhantes, o que esco- sido obrigados a finalmente sacrificar algum deles para continuar
lhemos ou imitamos, tudo o que fazemos deliberadamente. Volte- se alimentando, certamente teriam feito um sorteio, em vez de es-
mos a consultar o antropólogo Lévi-Strauss: "Digamos que tudo o colher o mais gordinho, como seria "natural" ... Também é natura-
que é universal no homem provém da ordem da natureza e se carac- líssimo, ao que parece, o instinto sexual, mas não o tabu do inces-

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to, o casamento, o amor romântico, os Vinte poemas de amor e uma no homem uma primeira capa de comportamentos que chamaría-
canção desesperada de Pablo Neruda, etc. É "natural" querer pro- mos 'naturais' e um mundo cultural ou espiritual fabricado. Tudo é
teger-se das inclemências do tempo, mas não o é construir palácios fabricado e tudo é natural no homem, diga-se o que for, no sentido
ou casas geminadas, nem mesmo decorar as cavernas com pinturas de que não há uma palavra nem uma conduta que não deva algo ao
rupestres ... E o que dizer do poder? Provavelmente é muito natural ser puramente biológico e que ao mesmo tempo não se furte à sim-
que os mais fortes dominem os fracos, como Calicles lembra a Só- plicidade da vida animal, não desvie de seu sentido as condutas vi-
crates no Górgias de Platão, mas isso nunca acontece entre os hu- tais, por uma espécie de escamoteio por um gênio do equívoco que
manos sem um complicado aparato político e jurídico. E muitas ve- poderia servir para definir o homem." Por mais que mergulhemos
zes acontece o caso assombroso de que os física ou naturalmente no fundo natural do humano, sempre encontramos o carimbo da
mais fortes obedeçam a um velho ou até a uma criança por razões cultura mesclando o adquirido com o inato; do mesmo modo, não
culturais cuja "artificialidade" foi destacada por um amigo de há como isolar uma atitude ou perspectiva cultural que não cheire
Montaigne, Étienne de la Boétie, em seu Discurso sobre a servidão a zoológico, a condicionamento simiesco. O mais natural nos ho-
voluntária. A "força" com que alguns homens se impõem a outros mens é nunca o ser totalmente.
quase nunca é mera superioridade muscular ou numérica, sempre Aplicado à conduta humana, o termo "natural" também tem ou-
precisa passar ao simbólico, ou seja, "artificializar-se" ... tros usos comuns que vale a pena pelo menos mencionar de passa-
E também se pode contar a história a partir do outro lado. Nas gem, pois ilustram o que se mostrou até aqui. Por exemplo, dizemos
sofisticadas conferências de política internacional vêem-se de vez que um comportamento é " natural" quando corresponde ao que é
em quando brilhar as garras e as presas da fera "natural" que talvez habitual ou costumeiro. Já se disse, com razão, que o costume é
sejamos, os ouropéis do desfile de modas se explicam, afinal de uma segunda natureza... que muitas vezes substitui ou desloca a
contas, pela cobiça carnal de nosso instinto, e Proust não foi o pri- primeira! Assim, é "natural" na Espanha começar uma refeição to-
meiro nem o último homem que, em sua hora derradeira, esqueceu mando sopa, para depois continuar com o prato principal, ao passo
o prestígio das convenções para morrer, muito naturalmente, cha- que os chineses ou os japoneses consideram "natural" tomá-la mais
mando a mãe. Como entender tudo isso? Diremos que o homem é adiante ou no final da refeição. É "natural" o mais antigo, o habi-
composto de camadas superpostas, como uma cebola, e que as mais tual, o de sempre ... razão pela qual alguns consideram "antinatural"
básicas ou íntimas são naturais enquanto sobre elas foi se deposi- todo elemento modernizador que rompa as rotinas estabelecidas:
tando o estrato da educação, da sociabilidade, dos artifícios, etc.? com essa dificuldade esbarraram os que quiseram abolir a escravi-
Agora lembro que nos romances de Tarzã - que tanto contribuíram dão ou a pena de morte, assim como os defensores da igualdade ji.i-
para a felicidade de minha adolescência - , quando o significativa- rídica e trabalhista entre homens e mulheres ou os que lutam con-
mente assim chamado "homem-macaco", muito depois de ter aban- tra a discriminação ao homossexualismo.
donado a selva, enfrentava seus inimigos, o começo de sua ira jus- Também se costuma chamar de "natural" o comportamento
ticeira costumava expressar-se mais ou menos assim: "Então rom- dos que atuam de maneira não premeditada, impulsiva: é "natural" ,
peu-se a fina crosta de civilização que o cobria e ..." E os malvados por exemplo, a pessoa se zangar muito quando é insultada ou co-
podiam pôr-se a tremer! Será a cultura simplesmente uma capa ou meçar a rir quando vê alguém escorregar numa casca de banana.
mão de pintura que recobre nossa natureza intacta? Parece antes Mas por acaso a educação recebida ou a experiência social de cada
que a impregnação transforma uma coisa e outra em inseparáveis, um não tem a ver com essas reações supostamente espontâneas?
tal como escreve em sua Fenomenologia da percepção um filósofo Quem acaba de fraturar uma perna num escorregão, por exemplo,
contemporâneo, Maurice Merleau-Ponty: "É impossível sobrepor não costuma rir quando vê outra pessoa cair, mas acode mancando

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rias por meio de um novo contrato social). Atualmente, certos eco-
para ~jud~-la ~se levantar... Se o homem, por mais animal que seja,
logistas radicais chegam a defender os "direitos" inalienáveis da
ta~b~m e racional, por que não seria tão "natural" pensar o que se
Natureza acima dos mesquinhos e depredadores direitos humanos.
vai dizer ou fazer quanto reagir sem pensar? Finalmente, dizemos
Inevitavelmente, a pergunta é: por quê?
que uma pessoa deixa de se comportar "naturalmente" - de acordo
Os que tomam um certo ideal chamado "natureza" como me-
com seu "modo de ser" - quando ela muda de atitude ou de condu-
dida ou padrão para valorar a realidade humana parecem entender
ta por influência de alguma causa exterior: por exemplo, Fulano era por "Natureza" o estado original em que todas as coisas, esponta-
"naturalmente" alegre até que seu filho morreu ou era pacífico até neamente ou por desígnio de seu divino Criador, ainda eram como
que o provocaram. Mas também não é "natural" mudar quando mu- deve ser. Depois os homens surgiram, cresceram, se multiplicaram
dam as circunstâncias? Esses estímulos externos não revelam uma e sobretudo "pecaram" (ou seja, inventaram artifícios não previstos
"forma de ser" mais verdadeira - ou igualmente verdadeira - do no plano natural), o que os condenou a uma forma de vida "antina-
que a demonstrada até então? Lembremos o que dizia Schopen- tural" e má, que acabou contaminando seu próprio meio natural.
hauer sobre o "não nos deixes cair em tentação" ... Pois bem, de onde eles tiram que a Natureza é o ideal do que "deve"
Afinal de contas, dá a impressão de que os próprios termos ser? Entendida no primeiro sentido comentado anteriormente - o
"natural" ou "natureza humana" encerram aspectos fortemente cul- conjunto das propriedades e "forma de ser" de todas as coisas exis-
turais. Até parecem inventados para servir de contrapeso à cultura tentes-, a Natureza tem a ver apenas com o que as coisas são, nun-
e ao mesmo tempo de parâmetro para avaliá-la e talvez orientá-la. ca com o que "deveriam" ser... a não ser que decidamos que as coi-
l'.m pensad~r do século XVIII ao qual geralmente se atribui espe- sas sempre devem ser o que são, o que acaba com qualquer "valo-
cial nostalgia pelo primitivo "estado de natureza" humano, Jean- ração" imaginável! Justamente o que parece que nunca encontra-
Jacques Rousseau, reconhece em seu prefácio ao Discurso sobre a mos no mundo natural são "valores", ou seja, o Bem e o Mal em
origem e fundamento da desigualdade entre os homens: "Não é em- suas manifestações mais indiscutíveis. Em todo caso, podemos
preitada fácil desenredar o que há de original e de artificial na Na- mostrar coisas naturalmente "boas" ou "más" de acordo com a for-
ture~~ ªU:ªl do. homem e conhecer bem esse estado (o de Natureza), ma de ser de cada um dos elementos que existem. Por exemplo,
que Jª nao existe, que talvez nunca tenha existido, que provavel- para o fogo a água é algo muito "mau", pois ela o apaga. Em con-
~ente nunca ex~stirá, do qual no entanto é necessário ter noções trapartida, é uma coisa muito "boa" para as plantas, que necessitam
Justas para bem Julgar nosso estado presente." Precisamos do natu- dela para crescer. O leão é muito "mau" para os antílopes e as ze-
ral ou do ~stado de natureza para valorar adequadamente a situação bras, porque os devora. No entanto, na opinião do leão, os "maus"
atual (social, moral, etc.) em que vivemos. Precisamos dele mesmo seriam os antílopes e as zebras que se esforçassem por correr tanto
que, como honrosamente Rousseau reconhece, nunca tenha existi- que ele nunca pudesse caçá-los, pois o condenariam a morrer de
do e nunca venha a existir! Temos que comparar esse ideal chama- fome. Os antibióticos são muito "bons" para o homem porque ma-
do "Natureza" com a realidade humana em que vivemos atualmen- tam os micróbios que o fazem adoecer, embora sejam "péssimos"
te, para determinar se nos afastamos de sua perfeição ou se cami- para os próprios micróbios que eliminam. Etc., etc.
nhamos para ela. A resposta de Rousseau (e de quase todos os que Quer dizer que, conforme já observaram Spinoza e alguns ou-
propõem esse exercício de valoração) é que nossa sociedade atual tros sábios que houve no mundo, o naturalmente "bom" para cada
está se distanciando do ideal da Natureza, e tanto mais quanto mais coisa é o que lhe permite continuar sendo o que é, e o "mau" é aqui-
"moderna" é a instituição concreta que consideramos (embora lo que coloca obstáculos a sua forma de ser ou a destrói. Mas, como
na Natureza há muitíssimas - infinitas? - coisas diversas, cada uma
Rousseau ache que não se deve chorar pela inocência perdida mas
com interesses correspondentes ao que ela é por natureza, é inevitá-
tratar de reconstruir algumas de suas melhores realizações igualitá-

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vel que não haja um Bem nem um Mal válidos para todo o real, mas giar eletronicamente e nunca cairíamos na tentação de nos embru-
uma pluralidade de "bons" e "maus", tão numerosos quanto as coi- tecer vendo concursos na televisão.
sas diferentes que há na realidade. O "bom" para esta é "mau" para O bom Stuart Mil! protestava, amargurado: "Se o artificial não
aquela e vice-versa. De modo que os que pretendem estabelecer um é melhor do que o natural, que finalidade há em todas as artes da
ideal "natural" para julgar a conduta e o devir humanos terão primei- vida? Cavar, arar, construir, vestir-se são violações diretas do man-
ro que determinar não o que os homens são agora, nem o que fo- damento de seguir a Natureza." Alguns lhe responderão que melhor
ram ontem ou há mil anos, mas o que são "por natureza", ou seja, seria e melhores seríamos se seguíssemos tais mandamentos natu-
o que são, foram ou serão quando cumprirem sua "forma de ser" rais. Mas o problema fundamental continua sendo o mesmo: por aca-
própria, quando foram, forem ou chegarem a ser "como deve ser". so sabemos o que a Natureza manda? Podemos dizer que nos "man-
Para isso deveríamos separar claramente o "natural" do "cultural", da" morrer quando pegamos algum micróbio e que ela nos "proí-
o plano da "natureza" dos projetos culturais realizados pelo homem be" de usar óculos ou voar? Por acaso sabemos o que a Natureza quer
consigo mesmo, o que não é precisamente uma tarefa fácil, confor- - se é que existe uma senhora tão importante - de nós ou em nós?
me o próprio Rousseau se viu obrigado a reconhecer. E, além do Dos acontecimentos naturais podem-se tirar lições morais mui-
mais, como ter certeza de que a própria "cultura" não é o desenvol- to diferentes. Por exemplo, os filósofos estóicos, no início da era cris-
vimento mais "natural" do que convém ao homem? Se não há ho- tã, recomendavam viver de acordo com a Natureza e entendiam que
mens sem "cultura'', como poderia a "cultura" não ser algo natural, esse acordo consistisse em refrear as paixões instintivas, ser verda-
que corresponde a nossa forma de ser em qualquer tempo e lugar? deiros e abnegados, cumprir honrosamente os deveres de nossa si-
Mais ainda: poderíamos dizer que o artificial é algo melhor do tuação social, etc. Mas Nietzsche zomba assim de suas pretensões:
que o natural e que sua utilidade consiste justamente em nos prote- "Vocês querem viver ' de acordo com a Natureza'? Ó nobres estói-
ger da natureza. Os remédios são artificiais mas servem para nos cos, que engano o seu! Imaginem uma organização como a Nature-
curar das doenças, que são naturalíssimas; a calefação artificial nos za, pródiga sem medida, indiferente sem medida, sem intenções e
protege do frio natural e o artificio do pára-raios nos livra do raio sem considerações, sem piedade e sem justiça, ao mesmo tempo fe-
natural. O artificial não só nos protege como também nos potencia: cunda, árida e incerta; imaginem a própria indiferença erigida em
permite-nos viajar até a Lua, descobrir seres microscópicos, comer poder: como seria possível viver de acordo com essa indiferença?
presunto delicioso, ouvir música sem que haja nenhuma orquestra Viver não é justamente a aspiração a ser diferente da Natureza? Pois
presente e está me servindo agora para me comunicar com você, bem, admitindo que seu imperativo 'viver conforme a Natureza' sig-
leitor, por meio destas páginas impressas (mesmo que talvez você nificasse no fundo o mesmo que 'viver conforme a vida', não po-
não esteja disposto a considerar esta última como uma grande van- deriam vocês viver assim? Por que fazer um princípio do que vocês
tagem do artificio!). Se não houvesse cultura artificial, dizem al- mesmos são, do que não podem deixar de ser? De fato, é o contrá-
guns otimistas, viveríamos menos, nos moveríamos mais devagar, rio: pretendendo ler com avidez o cânone de sua lei na natureza, vo-
seríamos muito mais ignorantes, teríamos que nos alimentar de tu- cês aspiram a outra coisa, assombrosos atores que enganam a si
bérculos e carne crua, perderíamos tempo lutando aos socos com os mesmos. Seu orgulho quer impor-se à Natureza, fazer penetrar nela
ursos e não nos deleitaríamos com Shakespeare, Mozart ou Hitch- a moral e o ideal de vocês." 2
cock. Mas os pessimistas nos lembram que sem tantos artificios
não teríamos que padecer a contaminação dos mares nem das flo-
restas por substâncias fabricadas pelo homem, não morreriam mi- 2. Para além do bem e do mal, F. Nietzsche. [Traduzido a partir do texto citado
lhões de pessoas em tiroteios e bombardeios, não haveria acidentes pelo autor: Más aliá dei bien y del mal, § 9, trad . esp. de E. Ovejero y Maury, Agui-
de automóvel nem de avião, os governantes não poderiam nos vi- lar, Madri.]

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Os que recomendam comportar-se "de acordo com a Nature- muito diferente e bem mais sutil. Segundo ele, foi a própria seleção
za" selecionam alguns aspectos naturais e descartam outros. Os es- natural que favoreceu o desenvolvimento dos instintos sociais - em
tóicos queriam ser "naturais" controlando suas paixões e respeitan- especial a "simpatia" ou "compaixão" entre os semelhantes - nos
do o próximo, ao passo que, por exemplo, o marquês de Sade esta- quais se baseia a civilização humana, ou seja, o êxito vital de nos-
va convencido de que não há nada mais "natural" do que fazer tudo sa espécie. Para Darwin, é a própria seleção natural que desembo-
aquilo que nos apetece, doa a quem doer e por mais dano que se ca na seleção de uma forma de convivência que aparentemente con-
cause aos outros. Ou será que vemos a Natureza preocupada com o tradiz a função da "luta pela vida" em outras espécies, mas que
sofrimento de tantos milhões de seres vivos que padecetn para que apresenta vantagens de ordem já não meramente biológica, mas so-
os outros satisfaçam seus apetites à sua custa? Em sua disputa com cial. Ao contrário do que supõem Calicles e seus discípulos, o que
Sócrates (no Górgias de Platão), Calicles também sustenta que a nos faz "naturalmente" mais fortes como conjunto humano é a ten-
primeira "lei" da Natureza diz que os mais fortes e inteligentes têm dência instintiva a proteger os indivíduos fracos ou circunstancial-
direito a dominar o resto dos homens e a possuir as maiores rique- mente desfavorecidos em face dos biologicamente mais potentes. A
zas, e por isso considera "antinaturais" e portanto "injustas" as leis sociedade e suas leis "artificiais" são o verdadeiro resultado "natu-
democráticas que estabelecem a igualdade de direitos na pólis, as ral" da evolução de nossa espécie! De modo que o "antinatural"
quais protegem os fracos e difundem uma moral semelhante à de para nós será recair da "luta pela vida" nua e crua, na qual prevale-
Sócrates, segundo a qual é preferível padecer um apuro a causá-lo. ce a simples força biológica ou seus equivalentes modernos: por
Hoje não faltam cientistas sociais ou políticos que dêem razão mais exemplo, a habilidade de alguns para acumular em suas mãos os re-
ou menos explicitamente a Calicles em nome da teoria da evolução cursos econômicos e políticos que deveriam estar distribuídos de
de Charles Darwin: se a Natureza vai selecionando os indivíduos modo socialmente mais equilibrado. Dessa questão teremos que fa-
mais aptos de cada espécie (as espécies mais aptas entre as que lar no próximo capítulo.
competem em um mesmo território) por meio da "luta pela vida", Afinal de contas, será preciso dar razão ao velho Galileu quan-
que elimina os mais frágeis ou os que pior se adaptam às circuns- do, no início do século XVII, ele confessa numa carta a Grienber-
tâncias ambientais, não deveria a sociedade humana fazer o mesmo ger que "a natureza não tem nenhuma obrigação para com os ho-
e deixar que cada um demonstrasse o que vale, sem levantar os caí- mens nem firmou nenhum contrato com eles". Porém o contrário
dos nem subvencionar os torpes? Assim a sociedade funcionaria de também é verdade? Podemos dizer que nós, os homens, não temos
modo muito mais "natural" e se favoreceria a multiplicação da raça nenhuma obrigação para com a natureza, uma vez que os únicos
impiedosa mas eficaz dos triunfadores ... contratos que nos obrigam sempre são firmados com humanos
No entanto, esses Calicles modernos não leram Charles Dar- como nós? Muitas pessoas acham que temos um certo tipo de 'de-
win com muita atenção. As doutrinas que eles professam devem-se veres para com os seres naturais, como por exemplo não poluir os
mais a alguns "hereges" do darwinismo, como Francis Galton (um mares, não atentar contra a biodiversidade do mundo exterminando
primo de Darwin que inventou a eugenia, segundo a qual a repro- espécies vegetais ou animais, não destruir as paisagens bonitas, não
dução da espécie humana deve ser orientada como a dos animais fazer sofrer outros seres vivos capazes de sentir dor, etc. Para aten-
domésticos, a fim de produzir os melhores exemplares, teoria que der a uma distinção que já utilizamos anteriormente, sem dúvida é
os nazistas puseram em prática de maneira atroz) e Herbert Spen- "racional" pôr os elementos naturais a nosso serviço para melhorar
cer, filósofo social partidário de um ultra-individualismo radical. nossa vida, prolongá-la e torná-la mais interessante, mas também
Em contrapartida Darwin, em A ascendência do homem (seu se- parece "razoável" respeitar e conservar determinados aspectos da
gundo grande livro, depois de A origem das espécies), sustenta algo natureza com os quais nos achamos especialmente vinculados ou

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que não poderemos substituir se forem destruídos. Afinal nossa colher o que deve ser conservado porque tem mais interesse do que
própria vida como seres humanos - não só em seus aspect;s estri- o mais. A tarefa de valorar é o empenho humano por excelência e a
tamente bio~ógicos como também em sua vertente simbólica que base de qualquer cultura humana. Na natureza reina a indiferença,
nos caractenza como espécie - se nutre permanentemente de acon- na cultura a diferenciação e os valores. Então devemos nos pergun-
tecimentos "naturais", em qualquer sentido que demos à palavra. tar que critérios de valoração podemos ter para fundamentar nossas
Se não me engano, quando falamos de certas obrigações hu- supostas "obrigações" para com os elementos naturais. Deixando
manas para com a natureza, queremos dizer que, embora nela não claro de antemão que, sejam quais forem esses critérios, sempre se-
haja valores propriamente ditos, pode ser justificado nós conside- rão "culturais" e nunca propriamente "naturais" ...
rarmos valiosas algumas de suas realidades. Novamente mesclam- Na minha opinião, poderiam ser de três classes: uns descobri-
se assim o "cultural" e o "natural", porque atribuir valor é a tarefa riam o valor intrínseco de certas coisas naturais (ou de todas!), ou-
cultural por excelência, a dimensão menos "natural" .. . de nossa tros atenderiam à utilidade dos elementos naturais para nós e, final-
própria "natureza"! O funcionamento geral da natureza, tal como mente, os estéticos, que se baseariam na beleza do natural. Vejamos
podemos observá-lo, é regido pela mais estrita neutralidade ou in- brevemente cada um desses modelos de valoração:
diferença: a natureza não tem preferências entre os seres, destrói e - O valor intrínseco da natureza me parece o mais difícil de ar-
engendra com perfeita imparcialidade, não parece mostrar nenhum razoar, a não ser que se adote uma perspectiva religiosa segundo a
"respeito" especial por suas próprias obras. Como o mar vê se su- qual tudo o que existe é sagrado porque foi criado por um Deus sá-
cederem suas ondas que se desmancham umas às outras sem pre- bio e bom, etc. Ainda assim, não é fácil sustentar esse ponto de vis-
tender conservar nenhuma delas em especial, assim age a Natureza ta, pois algumas das religiões que conhecemos melhor (por exem-
com relação às criaturas. Entre as falias* de Valência sempre há plo, a judaica e a cristã) sustentam que as coisas naturais foram pos-
~ma que se salva da queima, por aclamação do povo, que a prefere tas por Deus a serviço do homem e não descartam o sacrifício do
as outras, mas a Natureza nunca indulta nenhum de seus ninots** ... gado para homar a divindade ou cortar milhares de flores para ofe-
N_ão podemos afirmar que a "natureza" sente mais simpatia pe- rendá-las à Virgem de Pilar. Evidentemente, todas as igrejas conhe-
los peixes do mar do que pelas substâncias químicas que os dizi- cidas bendizem explodir as rochas de uma montanha para construir
mam, nem mais pela floresta do que pelo fogo que a destrói, nem ali um belo templo ou um mosteiro. Na verdade, o "sagrado" con-
q~e ela mostra mais interesse por qualquer um de nós do que pelo siste em apontar certos lugares ou certas coisas mais valiosas e res-
vrrus da AIDS que nos mata. Milhares de espécies vivas, a começar peitáveis do que outras semelhantes (uma árvore que não é como as
pelos veneráveis dinossauros, foram destruídas "naturalmente" an- outras árvores, uma fonte que não é como as outras fontes, etc., por
tes que o homem surgisse sobre a terra; os astros explodem nos céus causa de alguma presença divina ou santa), o que vai diretamente
longínquos em conflagrações monumentais que deixam no chinelo de encontro à suposição do valor intrínseco das realidades naturais.
Em resumo: se todo o natural é "puramente" natural, nada tem pro-
a maior de nossas bombas nucleares com a mesma "naturalidade"
priamente mais valor do que qualquer outra coisa, ou seja, nada tem
com que aparecem novos sóis, etc. Mas "valorar" é justamente fa-
valor próprio; se há algo de "sobrenatural" no natural, seu valor
zer diferenças entre umas coisas e outras, preferir isto a aquilo, es-
deve provir desse acréscimo divino, e não dele mesmo.
Só poderia haver uma relativa exceção: a obrigação de respei-
. *Alusão à_ festa popular valenciana, na véspera de São José, em que as/atlas, tar a vida, porque se trata de uma condição que nós também com-
figuras de madeira e papelão em geral alusivas a acontecimentos da atualidade são partilhamos. Poderíamos dizer que temos a obrigação de respeitar
queimadas em praça pública. (N. da T.) ' todos os seres vivos, pois são nossos "irmãos" vitais. Mas, como a
**Bonecos que são levados às ruas por ocasião das/atlas de Valência. (N. da T.) caridade bem entendida começa por si mesmo, respeitar "nossa" vi-

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da nos obriga a inevitavelmente sacrificar outras: os animais e ve- O critério estético é ao mesmo tempo convincente e também
getai~ que com_emos (ninguém pode alimentar-se só de minerais), muito complexo. A contemplação de certas formas da natureza nos
os m1croorgamsmos que eliminamos para nos curar de nossas é prazerosa: nós as consideramos "bonitas" (no capítulo nove des-
doenças, as pragas que exterminamos para conservar nossas plan- ta obra tentaremos abordar as perguntas suscitadas pela questão ge- ·
tações, etc. Até os jainistas (que colocam um véu diante da boca ral da beleza). Os animais, as flores e florestas, os mares, o céu es-
para não respirar insetos sem se dar conta) "matam" umas alfaces trelado, etc., alimentam nossa imaginação e suscitam em nós senti-
de vez em quando para se alimentar. Em contrapartida, talvez pos- mentos de serenidade e satisfação. Mas esses sentimentos nem
samos dizer que há algo intrinsecamente valioso em evitar sofri- sempre são compartilhados universalmente: os pescadores têm uma
mentos desnecessários aos animais dotados de um sistema nervo- visão "estética" do mar muito diferente de nós, que não temos que
so capaz de sentir dor. O difícil é então esclarecer o que é "desne- enfrentar seus temporais, e os pastores apreciam os lobos menos do
cessário", pois o parâmetro só pode ser estabelecido por nossas ne- que alguns ecologistas da cidade. Às vezes talvez seja conveniente
cessidades humanas: parece evidente que é "desnecessário" torturar lembrar o ditado cheio de bom senso embora um pouco cínico de
um animal pelo mero prazer de vê-lo sofrer, mas é necessário ou Jules Renard em uma anotação de seu Diário (21 de fevereiro de
desnecessário alimentar monstruosamente os gansos para obter foi e 1901): "Sim, a natureza é bela. Mas não te enterneças demais com
gras, caçar baleias, tourear, matar o porco, etc.? Isso nos leva ao as vacas. Elas são como todo o mundo." Porque, além do mais ova-
ponto seguinte. lor estético da natureza que nos obrigará a respeitar as paisagens às
- O valor utilitário de certas coisas naturais é o mais fácil de vezes colide com outros valores, quer utilitários, quer também es-
arg~e~tar. A obrigação de não poluir o ar, as florestas, ou as águas téticos: por exemplo, a polêmica despertada pelo projeto do escul-
denva d!retamente do fato de que nos são úteis. Faremos mal se de- tor Eduardo Chillida de vazar a montanha canária de Tindaya para
teriorarmos nosso meio pela mesma razão pela qual faremos mal se transformá-la em uma grande obra de arte. Devemos preferir a es-
pusermos fogo na nossa casa .. . ou na do vizinho! Se destruímos ho- tética "espontânea" da natureza ou a estética do artista, dotada de
je por torpeza ou cobiça aquilo de que necessitaremos amanhã es- um significado humano?
~an:os agindo de ~aneira suicida; se pelas mesmas más razões ~re­ Possivelmente é razoável resumir o sentido de nossas "obriga-
JUd1camos o ambiente de outros seres humanos ou mesmo aquilo de ções" para com a natureza numa fórmula que um filósofo contem-
que podemos supor que nossos filhos irão necessitar, estamos agin- porâneo, Hans Jonas, denominou imperativo ecológico: "Age de tal
do de maneira criminosa. Segundo esse critério, é valioso na natu- modo que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a perma-
reza tudo o que nos é imprescindível ou benéfico e que não sería- nência de uma autêntica vida humana sobre a terra" (em O princí-
mos capaz de substituir se desaparecesse. Por isso é imprescindível pio de responsabilidade) 3 • E nem assim acabamos com as dúvidas
tentar encontrar caminhos que tornem os benefícios do desenvolvi- incômodas, pois como determinar de modo inequívoco e universal-
mento industrial compatíveis com a economia de energias não re- mente válido o que é uma "autêntica" vida humana?
nováveis e de outros recursos naturais, tal como propõe de manei- A relação característica do homem com o acontecer natural
ra engenhosa e sugestiva um filósofo suíço com muito senso práti- sempre se baseou na técnica. Ao lado da linguagem simbólica, a
co - Suren Erkman - em um livro recente, cujo título já encerra técnica é a capacidade ativa mais distintiva de nossa espécie. O que
todo o seu programa: Por uma ecologia industrial: como colocar
em prática o desenvolvimento duradouro numa sociedade hiperin-
dustrial. Os enfoques atuais do que vem a se chamar "sustentabili- 3. Evidentemente, a fómula de H. Jonas parafraseia o imperativo categórico
que condensa a norma moral segundo Kant: "Age segundo aquela máxima que ao
dade", embora variados, estariam nesse contexto. mesmo tempo possas querer que se transforme em norma universal."

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é a técnica? Não só o manejo de instrumentos para realizar certas tou exponencialmente a poluição do ambiente, e alguns até acredi-
operações vitais (usar um pau para alcançar uma fruta que está mui- tam que estejamos ameaçados pelo esgotamento de certos elemen-
to no alto), pois isso também fazem vários primatas e alguns inse- tos naturais básicos. Hoje, qualquer ser humano de um país mode-
tos sociais, como também criar instrumentos por meio dos quais se radamente industrializado conta com possibilidades de conforto e
possam fazer outros instrumentos: pegar uma pedra dura e afiá-la entretenimento inauditos há poucas décadas: mas talvez sua vida
para cortar galhos de árvores, poli-las e transformá-las em paus esteja cada vez mais condicionada ao mero consumo de novidades
com os quais se alcancem frutas que estejam muito no alto .. . Em que o cega para o conhecimento sossegado de si mesmo e dos ou-
suma, há técnica não só quando se dá um uso instrumental aos ob- tros. Então a técnica é "boa" ou "má"? Provavelmente ambos os juí-
jetos como também quando existem procedimentos para transfor- zos se justifiquem, mas em todo caso em nada adiantam pois a téc-
mar os objetos em instrumentos. Por extensão, chama-se "técnica" nica, ao que parece, se amplia e se multiplica apesar de nós, ainda
a todos os procedimentos necessários para fazer bem alguma coisa: que impulsionada por nossos anseios e cobiças. É como se caval-
a dança tem sua técnica, assim como o toureio ou a argumentação. gássemos um tigre do qual já não poderemos saltar sem que seja-
Nesse sentido, a "técnica" nunca designa um comportamento oca- mos imediatamente devorados por ele ...
sional, único (por mais genial que seja), mas implica um conjunto Talvez a visão mais feroz e depredadora do fenômeno técnico
de modos e regras que se transmitem, que podem ser aprendidos e tenha sido esboçada em nosso século por Oswald Spengler, um
reproduzidos: uma certa tradição eficaz. pensamento de tom intensamente pessimista (sua obra mais conhe-
Diferentemente da ciência, que pode ser meramente contem- cida intitula-se A decadência do Ocidente) . Para Spengler, "a técni-
plativa ou "desinteressada" - embora quase nunca o seja por muito ca é a tática da vida inteira. É a forma íntima de se lidar com a luta,
tempo ... - , a técnica responde sempre à vocação do homem para a que é idêntica à própria vida ... Sem dúvida existe um caminho que,
ação, a seus interesses vitais, a seu anseio de produzir, conseguir, da guerra primordial entre os animais primitivos, conduz à atuação
acumular, conservar, controlar, resguardar... ou agredir! Resumin- dos modernos inventores e engenheiros, e igualmente da arma pri-
do: o anseio construtivo ou destrutivo de domínio . Na época moder- mordial, a cilada, conduz à construção das máquinas, com a qual se
na, a proliferação assombrosa da técnica (diz-se que em nosso sé- desenvolve a guerra atual contra a natureza e com a qual a nature-
culo foram patenteados noventa por cento de todas as invenções da za cai na cilada do homem" 4 • Essa perspectiva da técnica como
humanidade ao longo de sua história) produziu dois sentimentos "guerra" contra a natureza contrasta com a visão clássica e renas-
contraditórios. Por um lado, entusiasmo transbordante: os avanços centista do mesmo assunto (até Francis Bacon, por exemplo), se-
técnicos - o progresso! - resolverão as doenças, a morte, a pobre- gundo a qual só é possível dominar a natureza obedecendo a ela, ou
za, a ignorância, nos permitirão conquistar os céus e viver sob o seja, prolongando sabiamente seus próprios procedimentos. Porêm
mar, etc. Por outro, temor e hostilidade: a técnica chegou a tal pon- o mais significativo em Spengler é sua insistência em que, uma vez
to que já somos capazes de exterminar "industrialmente" nossos se- empreendido o caminho da técnica, nunca mais poderemos nos de-
melhantes, de assassinar multidões em poucos segundos e até de ter, pois alimentando-nos com máquinas desperta nosso apetite por
aniquilar toda forma de vida em nosso planeta. Graças à técnica, outras novas e devemos nos resignar a que "cada invenção contenha
multiplicaram-se enormemente os recursos humanos e o próprio a possibilidade e necessidade de novas invenções, a que cada <lese-
número de indivíduos da nossa espécie, mas também se destruíram
os postos de trabalho de populações inteiras, aumentou o abismo 4 O homem e a técnica, de O. Spengler. [Traduzido a partir do texto citado
que separa os povos desenvolvidos industrialmente daqueles que pelo autor: El hombre y la técnica, trad. esp. de M. García Morente, col. Austral,
continuam conhecendo apenas as técnicas mais primitivas, aumen- Madri.]

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jo cumprido desperte outros mil desejos e cada triunfo obtido sobre a denúncia dessas "assembléias populares" multitudinárias, ou seja,
a natureza estimule a novos e maiores êxitos. A alma desse animal refutando a técnica junto com a democracia. De acordo com isso, o
de rapina é insaciável, sua vontade nunca pode ser satisfeita; essa é aristocrata do espírito possui o sentido artesanal do que importa de
a maldição que pesa sobre esse tipo de vida, mas também a gran- fato, ao passo que a massa se alimenta das aparências vulgarizado-
deza de seu destino". Segundo Spengler, a técnica nasce como táti- ras de sabedoria proporcionadas pelos meios tecnicamente ultrade-
ca vital do feroz depredador que há dentro de cada ser humano; mas senvolvidos de comunicação. Cabe indagar se às vezes as reservas
não poderíamos dizer também que é o próprio desenvolvimento da à técnica entendida como produção insaciável de meios sem aten-
técnica, cada vez mais acelerado, que fomenta nosso lado insacia- ção aos fins não provém de uma concepção antidemocrática que re-
velmente depredador? pudia a difusão para a massa do que antes era apenas privilégio cul-
Um dos pensadores mais controvertidos de nosso século, e tural e hierárquico de alguns. Em todo caso, as objeções de Heideg-
sem dúvida o de maior influência, Martin Heidegger, adotou uma ger são sérias demais para poderem ser desenvolvidas com uma ca-
visão da técnica - entendida como culminância da "vontade de po- netada. Porém, será que a técnica é obrigatoriamente insaciável por
der" nietzschiana - que se apóia claramente na perspectiva de provir de nossa índole de animais ferozes em luta contra o natural
Spengler. Mas para Heidegger não há nenhuma "grandeza" no des- ou, antes, por responder a uma organização industrial sem nenhu-
tino que nos espera, mas antes o desespero de esquecer na socieda- ma meta mais elevada do que o lucro privado dos investidores? Se-
de massificada e consumista as perguntas essenciais da vida. Ques- rão inimagináveis formas técnicas de reconciliação com a nature-
tões, por certo, que com a ressaca de nossa embriaguez tecnológica za, da qual todos dependemos, não exclusivamente baseadas em
ainda teremos, mais cedo ou mais tarde, que voltar a nos formular: seu saque ilimitado?
"Quando o mais longínquo rincão do globo tiver sido tecnicamen- Seja como for, surpreende a mescla de "ad~ração" e desdém
te conquistado e economicamente explorado; quando um aconteci- que em nosso tempo se dispensa à tecnologia. E freqüente ouvir
mento qualquer for rapidamente acessível em um lugar qualquer e que as máquinas são inumanas e os romances de ficção científica
num tempo qualquer; quando se puderem 'experimentar' simulta- exploraram de maneiras alarmantes e muitas vezes aterradoras essa
neamente o atentado a um rei na França e um concerto sinfônico "inumanidade". Mas o certo é que as máquinas podem ser qualquer
em Tóquio; quando o tempo for apenas rapidez, instantaneidade e coisa - má ou boa! - menos, justamente, "inumanas". Ao contrário,
simultaneidade, ao passo que o temporal, entendido como acontecer elas são completamente "humanas", pois são fabricadas de acordo
histórico, tiver desaparecido da existência de todos os povos; quan- com nossos projetos e nossos desejos. Segundo mostrou muito bem
do o boxeador reger como o grande homem de uma nação; quando, Karl Marx no primeiro livro de O capital, o que distingue a ca~a
em número de milhões, as massas triunfarem reunidas em assem- construída por um arquiteto da colméia feita pelas abelhas é que o
bléias populares, então, justamente então, voltarão a atravessar toda arquiteto tem um "projeto" prévio da casa, fruto de sua imaginação
essa festa das bruxas, como fantasmas, as questões: para quê? para colocada a serviço de seus desejos. A abelha não tem outro remé-
onde? e depois?" 5 dio senão fazer colméias, ao passo que nós podemos fazer casas,
É preciso assinalar o toque elitista - despótico, talvez - de Hei- palácios, choças, sobrados geminados, ou sabe-se lá o quê. Nossas
degger, mesclando o protesto diante do império vazio da técnica com obras - quer sejam máquinas ou qualquer outro tipo de produto -,
além de serem plenamente "humanas", são até mais humanas do
que nós mesmos ... uma vez que, por outro lado, cada um de nós de-
5. Jntrodução à metafisica, de M. Heidegger. [Traduzido a partir do texto cita- pende de um programa biológico não inventado pela mente huma-
do pelo autor: lntroducción a la metafisica, trad. esp. de E. Estiú, Editorial Nova,
Buenos Aires.]
na. As máquinas são humanas, e demasiado humanas, porque pro-

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vêm apenas do cálculo humano, ao passo que nós somos também haveria de ser mais "natural" o arrebatamento instintivo do que o
filhos do acaso ou do irremediável, em todo caso do que escapa a cálculo racional? Existem valores "naturais"? O que é o "bem" e o
qualquer cálculo. Essa é a principal razão pela qual são eticamente "mal " de acordo com a natureza? A "natureza" pode servir de ideal
questionáveis certos projetos de manipulação genética ou as formas para julgar a realidade social humana? Temos obrigação de ser
de reprodução por clonagem que privariam o novo ser humano de "naturais"? O que é moralmente melhor: o "natural" ou o "artifi-
uma parte de sua dotação genética casual, transformando-o em ma- cial"? Nossos valores morais respondem ao que a Natureza orde-
na? O que a Natureza quer de nós ? O "artificial" ou cultural ser-
nufatura de seus semelhantes. O que finalmente nos decepciona e
ve para remediar os males da Natureza, pelo menos no que se refe-
em parte irrita nos produtos técnicos (mesmo nos mais imprescin-
re a nós? Temos obrigações para com os seres naturais? Em caso
díveis) é que sabemos "tudo" o que eles são - e portanto não admi-
afirmativo, por quê? O que é a técnica e como ela nos relaciona
timos que possam voltar-se contra nós -, mas o que nos fascina, as-
com a Natureza? Qual é a visão da técnica que tem Oswald Spen-
susta e dá esperança quanto a nossos semelhantes humanos é que
gler? Quais são as limitações da sociedade tecnológica segundo
ninguém - nem eles mesmos! - pode saber inteiramente o que é e
Martin Heidegger? As máquinas são "inumanas"? Nós somos mais
o que há de ser. "inumanos" do que as máquinas ... felizmente? Qual é a obra-pri-
Justamente por isso, entre todas as técnicas há uma que é mais
ma e fundamental da capacidade técnica humana?
essencial, aquela da qual todas as outras dependem e sem a qual
nada se poderia fabricar, a grande obra de arte dos humanos: nossa
sociedade, o artefato que todos juntos formamos, vivendo em co-
mum de acordo com determinadas normas .. . e em freqüente desa-
cordo sobre elas! Dedicaremos o próximo capítulo a comentar di-
versos aspectos dessa máquina social.

Dá o que pensar...

, O que quer dizer que o homem é um "animal convencional"?


E a mesma coisa que dizer que ele é um animal "simbólico"? É in-
compatível sermos convencionais com termos "natureza"? Os ter-
mos "natural" e "natureza "são usados sempre da mesma maneira?
O que queremos dizer quando falamos da "natureza" das coisas?
Todas as coisas que existem na realidade têm "natureza" ou só al-
gumas? A "natureza " refere-se apenas ao que existe ou também ao
que pode existir? E'!1 que outro sentido costuma-se empregar a pa-
lavra "natureza"? E "natural" tudo o que existe sem intervenção do
homem ou só o que não é "artificial"? Nós, homens, somos "natu-
rais ", "artificiais"... ou meio a meio? Pode-se separar, no homem,
o natural do cultural? "Natural" e "natureza" são termos culturais ...
ou naturais? O costume equivale a uma segunda natureza? Por que

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Capítulo oito
Viver juntos

Ninguém chega a se tomar humano se está sozinho. Nós nos fa-


zemos humanos uns aos outros. Fomos "contagiados" por nossa hu-
manidade: é uma doença mortal que nunca teríamos desenvolvido
se não fosse pela proximidade de nossos semelhantes! Foi-nos pas-
sada boca a boca, pela palavra, mas antes ainda pelo olhar: quando
ainda estamos muito longe de saber ler, já lemos nossa humanida-
de nos olhos de nossos pais ou de quem cuida de nós em seu lugar.
É um olhar que contém amor, preocupação, censura ou zombaria:
ou seja, significados. E que nos tira de nossa insignificância natu-
ral para nos tomar humanamente significativos. Um dos autores
contemporâneos que tratou do tema com maior sensibilidade, Tzve-
tan Todorov, expressa-o assim: "A criança procura captar o olhar de
sua mãe não só para que esta acuda para alimentá-la ou reconfortá-
la, mas porque esse olhar em si mesmo lhe traz um complement0
indispensável: confirma-a em sua existência. [... ] Como se soubes-
sem a importância desse momento- embora não seja assim-, o pai
ou a mãe e o filho podem olhar-se nos olhos longamente; essa ação
seria completamente excepcional na idade adulta, quando um olhar
mútuo de mais de dez segundos não pode significar mais do que
duas coisas: que as duas pessoas vão brigar ou fazer amor." 1

1. A vida em comum, T. Todorov. [Traduzido a partir do texto citado pelo au-


tor: La vida en común, trad. esp. de H. Subirats, Taurus, Madri.]

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Sendo como somos, como humanos, fruto desse contágio so- lam estratégias vitais para que o coletivo não devore totalmente
cial, à primeira vista é surpreendente que suportemos nossa socia- nossa intimidade: colaboremos com a sociedade enquanto nos for
bilidade com tanto desassossego. Não seríamos o que somos sem os vantajoso e saibamos nos dissociar dela quando nos parecer opor-
outros, mas custa-nos ser com os outros. A convivência social nun- tuno. Afinal de contas, como disse em certa ocasião a empreende-
ca é indolor. Por quê? Talvez justamente porque é importante de- dora Mrs Thatcher, a sociedade é uma enteléquia e os únicos que
mais para nós, porque esperamos ou temos medo demais dela, por- existem realmente são os indivíduos ...
que nos incomoda precisar tanto dela. Durante um período de tem- A favor desses protestos e receios há uma infinidade de argu-
po muito breve, cada ser humano acredita ser Deus ou pelo menos mentos aceitáveis. As modernas sociedades de massas tendem a des-
rei de seu minúsculo universo conhecido: o seio materno aparece personalizar as relações humanas, tornando -as apressadas e burocrá-
para acalmar a fome (quase sempre em forma de mamadeira), mãos ticas, isto é, muito "frias" em comparação com a "calidez" imedia-
carinhosas respondem a nosso choro para nos secar, refrescar ou ta das antigas comunidades, menos reguladas, menos populosas e
aquecer, para nos oferecer companhia. Falo dos felizes , pois há mais homogêneas. Em contrapartida, cresce a possibilidade de con-
crianças cujo destino atroz lhes nega até esse primeiro paraíso de trole governamental ou simplesmente social sobre as condutas in-
onipotência ilusória. Mas nosso reinado acaba logo, mesmo nos ca- dividuais, cada vez mais vigiadas e obrigadas a submeter-se a cer-
sos menos infelizes. Logo temos que assumir que esses seres de tas normas comuns ... embora esta última forma de tirania também
quem tanto dependemos têm sua própria vontade, que nem sempre nunca tenha faltado nas pequenas comunidades pré-modernas! Ape-
consiste em obedecer à nossa. Um dia choramos e a mamãe demo- sar de tanto controle, demasiados cidadãos conhecem muito poucas
ra para vir; isso nos anuncia e nos prepara à força para outro dia vantagens da vida em comum e padecem miséria e abandono. So-
mais distante, o dia em que choraremos e a mamãe não virá mais. bretudo, nosso século conheceu exemplos pavorosos do terror tota-
A filosofia e a literatura contemporâneas estão repletas de la- litário que os coletivismos ditatoriais podem exercer sobre as p~s­
mentos sobre a carga que nos impõe viver em sociedade, as frustra- soas. Tantas adversidades podem levar a esquecer o quanto a socm-
ções que acarreta nossa condição social e os preservativos que po- bilidade não é simplesmente um fardo alheio que se impõe a nossa
demos usar para padecê-las o menos possível. Em seu drama Huis autonomia mas uma exigência de nossa condição humana sem a
elos [Entre quatro paredes] , Jean-Paul Sartre cunhou uma sentença qual nos seria impossível desenvolver essa própria autonomia da q~al
célebre, depois mil vezes repetida: "O inferno são os outros." Isso nos sentimos tão justificadamente zelosos. Sem querer contranar
significa que o paraíso seria a solidão ou o isolamento (que por cer- Mrs Thatcher, parece evidente que as sociedades não são simples-
to estão muito longe de ser a mesma coisa). O tema da "incomuni- mente um acordo mais ou menos provisório, mais ou menos conve-
cação" aparece também das mais diversas maneiras em obras de niente, ao qual chegam indivíduos racionais e autônomos, mas que,
pensamento, romances, poemas, etc. Às vezes é uma queixa pela pelo contrário, os indivíduos racionais ~ autônomos sã? produtos
perda de uma comunidade de sentido que supostamente existia nas excelentes da evolução histórica das sociedades, para cuJa transfor-
sociedades tradicionais e que o individualismo moderno destruiu; mação eles, por sua vez, depois contribuem. Como poderia ser de
mas em outros casos parece provir antes desse próprio individualis- outro modo?
mo, que se considera incompreendido pelos outros no que tem de Os outros são o inferno? Só na medida em que podem tornar-
único e irredutivelmente "especial". Outros autores deploram ou se nos a vida infernal ao nos revelar - às vezes com pouca conside-
rebelam contra as limitações que a convivência em sociedade im- ração - as fissuras do sonho libertário de onipotência que nossa
põe à nossa liberdade pessoal: nunca somos o que realmente quere- imaturidade autocomplacente gosta de imaginar. Vivemos neces-
mos ser, mas o que os outros exigem que sejamos! Alguns formu- sariamente incomunicados? Sem dúvida, se por "comunicação"

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entendemos que os outros nos interpretem espontaneamente de dos na sociedade e permanecer totalmente despercebidos por todos
modo tão exaustivo quanto nós mesmos acreditamos nos expressar; os membros que a compõem." 2 Ninguém chegaria à humanidade se
mas só muito relativamente, se assumimos que não é a mesma coisa não fosse contagiado pela dos outros, pois tornar-se humano nunca
pedir compreensão e fazer-se compreender e que a boa comunica- é coisa de um só mas tarefa de vários; mas, uma vez humanos, a
ção tem por primeiro requisito fazer um esforço para compreender pior tortura seria que ninguém nos reconhecesse como tais ... nem
esse outro de quem pedimos compreensão. Os outros e as institui- sequer para nos aborrecer com suas censuras!
ções que compartilhamos com eles limitam nossa liberdade? Talvez Voltemos por um momento ao tema da natureza e da cultura,
a pergunta devesse ser formulada de maneira diferente: tem sentido que tratamos no capítulo anterior. É "natural" a necessidade impe-
falar em liberdade sem referência à responsabilidade, ou seja, à nos- riosa de ser reconhecidos por nossos semelhantes, a qual por sua
sa relação com os outros?, não são justamente as instituições - a co- vez abre caminho para todos os nossos empenhos propriamente
meçar pelas leis - que nos revelam que somos livres para obedecer- "culturais"? Em A f enomenologia do espírito, indiscutivelmente
lhes ou desafiá-las, assim como para estabelecê-las ou revogá-las? uma das peças-chave da filosofia moderna, Hegel narra esse trân-
Mesmo os abusos totalitários ou simplesmente autoritários servem sito por meio de uma espécie de mito especulativo conhecido como
para compreendermos melhor - na resistência contra eles - as im- "O senhor e o servo" (ou, mais dramaticamente ainda, "O amo e o
plicações políticas e sociais de nossa autonomia pessoal. escravo"). Partamos do princípio de que pelo mundo vagueia um
Por mais justificados que sejam os protestos contra as formas ser dotado de consciência, o qual ainda não sabemos se é animal ou
efetivas da sociedade atual (de qualquer sociedade "atual"), conti- humano. Tem apetites (fome, sede, abrigo, sexo ... ) que procura sa-
nua sendo igualmente certo que somos humanamente configurados tisfazer de modo imediato, assim como rivais e inimigos com os
para e por nossos semelhantes. É nosso destino de seres lingüísti- quais deve lutar ou dos quais tem que fugir. Para essa consciência
cos, ou seja, simbólicos. Ao nascer, somos "capazes" de humani- o mundo não é mais do que um lugar onde se suscitam e se satisfa-
dade, mas não atualizamos essa capacidade - que inclui entre suas zem seus apetites, o âmbito em que ocorre sua busca a todo custo
características a autonomia e a liberdade - até gozar e sofrer a re- de sobrevivência biológica. Existe plena continuidade entre o mun-
lação com os demais. Que, por certo, nunca são "demais", ou seja, do e a consciência que se move nele ou, para usar a expressão de
nunca são supérfluos ou meros impedimentos para o desenvolvi- George Bataille em sua Teoria da religião, a consciência vital - zoo-
mento de uma individualidade que na realidade só se afirma entre lógica - ainda se encontra no mundo "como a água na água". De
eles. Para conhecermos a nós mesmos, necessitamos primeiro ser modo que, na realidade, não há "mundo" como algo independente e
reconhecidos por nossos semelhantes. Por pior que eventualmente separado da consciência, portanto também não há realmente "cons,
possa ser para nós a relação com os outros, nunca será tão irrevo- ciência" como uma vontade autônoma para si mesma. Mas agora
gavelmente aniquiladora quanto seria a ausência total de relação, suponhamos que a consciência se transforme em autoconsciência,
ser plena e completamente "desconhecidos" por quem deve nos re- em consciência de si mesma, e comece a valorar a própria indepen-
conhecer. Expressou-o muito bem o grande psicólogo William Ja- dência de seus desejos com relação ao mundo circundante. Imedia-
mes: "O eu social do homem é o reconhecimento que este obtém de tamente o mundo também se transforma em algo "alheio", que re-
seus semelhantes. Além de sermos animais gregários, gostando da siste ou se opõe a seus apetites, que parece "querer" por sua conta
proximidade com nossos companheiros, também temos uma ten- contrariando o que a autoconsciência tem como seu querer próprio.
dência inata a nos fazer conhecer, e conhecer com aprovação, pelos
seres de nossa espécie. Não se poderia conceber nenhum castigo
mais diabólico, se fosse fisicamente possível, do que nos ver lança- 2. Citado porTodorov, na obra mencionada.

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A autoconsciência, então, já não se conforma simplesmente perde. O outro - quando salva a pele! - é reconhecido como o va-
com a sobrevivência biológica que lhe bastava enquanto se achava lente, ou seja, o que vale mais, aquele cujo desprezo pela morte o
em plena continuidade com o resto do mundo. Agora a autocons- coloca mais longe da animalidade (por certo, a maioria dos animais,
ciência quer antes de tudo seu próprio querer, sua vontade autôno- quando lutam com seus semelhantes e estão perdendo, se oferecem
ma distinta do mundo que se lhe opõe. De certo modo isso a situa rendidos ao adversário antes que a briga tenha um resultado fatal).
à margem da vida, do simples durar "como a água na água", e a de- A autoconsciência vencida - vencida sobretudo pelo medo de
fronta com a morte. De consciência da vida passa a transformar-se morrer - submete-se às ordens do vencedor (que não reconhece ou-
em autoconsciência que assume e desafia a certeza de sua própria tro "amo" senão a própria morte). Porém o derrotado não se trans-
morte. Nesse mundo que se opõe e resiste à realização de seus ape- forma em um mero animal: para servir ao senhor vê-se obrigado a
tites, a autoconsciência começa a ser cada vez mais capaz de valo- trabalhar, o que o afasta da simples imediatez dos apetites zooló-
rar, de escolher, de hierarquizar seus desejos de acordo já não ape- gicos. Por meio do trabalho o mundo deixa de ser apenas um obs-
nas com a sobrevivência, mas com a afirmação autônoma de seu táculo ou um inimigo e se converte em material para realizar trans-
querer. Mais cedo ou mais tarde, a autoconsciência terá que defron- formações , projetos, tarefas criadoras. A longo prazo, o amo, cujos
tar com outra autoconsciência aparentemente semelhante a ela mes- desejos se vêem imediatamente satisfeitos por seu escravo, recai
ma. ~~s de c~ofre não está disposta a aceitar esse parentesco: pelo pouco a pouco na animalidade e já não lhe resta outro entreteni-
contrano, a~pira a ser reconhecida como única pela outra e a que mento "humano" além de, uma vez ou outra, contemplar seu rosto
esta renuncie a suas aspirações a se considerar sua igual. Então no espelho da morte, até se identificar com ela. Em contrapartida,
ocorre a luta mortal pelo reconhecimento entre ambas, uma batalha o servo se torna depositário da mais duradoura autoconsciência,
na qual se mesclarão as armas físicas e também as simbólicas. não limitada ao desafio estéril diante da morte, mas dedicada à
Como poderá uma autoconsciência afirmar-se triunfalmente criação de novas formas para racionalizar a vida. Finalmente, cada
diante da outra? Por meio do mais universal dos instrumentos o uma das autoconsciências representa apenas uma metade da vonta-
medo da morte. Uma vez que ambas estão conscientes de sua m~r­ de autônoma do homem: a afirmação de sua independência como
talidade, deverão provar até que ponto estão "acima" do mero instin- valor superior à mera sobrevivência biológica e o empenho técnico
to de sobrevivência que ainda as entronca com a zoologia, da qual de chegar a viver mais e melhor. Mais um passo ainda e cada uma
se empenham em se safar para consolidar sua autonomia. O com- das autoconsciências reconhece a validade da outra: a validade do
bate pelo reconhecimento será ganho então pela autoconsciência Outro. Já no plano de igualdade, o indivíduo admite a dignidade hu-
mais capaz de se sobrepor ao terror de morrer: vence o temerário, mana dos outros não como simples instrumentos - de morte ou•de
capaz de combater com a frieza implacável de alguém que já esti- criação - mas como fins em si mesmos, cujos direitos serão reco-
v~sse I?orto, diante do timorato, ainda por demais apegado ao pal- nhecidos num contexto social de cooperação.
pitar VItal e que nunca renuncia a se defender ou retroceder a tem- Até aqui minha paráfrase libérrima - Hegel que me perdoe! -
po. A situação é semelhante à daquele jogo incrível que há poucas da dialética mitológica entre o senhor e o servo, que também inspi-
décadas fez furor nos Estados Unidos, uma de cujas versões apare- rou talentos melhores que o meu, como os de Karl Marx ou de Ale-
ce ?o filme de Nicholas Ray, Rebelde sem causa: os competidores xandre Kojeve. Para esta fábula especulativa podem-se buscar di-
dmgem os automóveis lançados a toda velocidade um contra o ou- versas ilustrações antropológicas ou históricas. O que me parece
tro, ou ambos em paralelo na direção de um precipício. O primeiro mais significativo dela - seria absurdo levá-la ao pé da letra - é o
que breca ou desvia por instinto de sobrevivência é o "frouxo" e esforço por narrar de maneira inteligível uma perspectiva do trân-

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sito entre natureza e cultura, entre a consciência da morte e a von-
Também não é verdade que sejamos espontaneamente "violen-
tad~ de ass,egur~r a vi~a: do rebanho submetido ao despotismo do tos" ou "anti-sociais". Claro que em todas as sociedades existem
mais forte a sociedade Igualitária que divide as tarefas sociais. Ten- pessoas assim, que padecem de alguma alteração psíquica ou que
do-se c?egado ao pl~no ~~ sociedade humana - ao mesmo tempo foram tão maltratadas pelos outros que depois lhes pagam na mes-
submetida a valoraçoes etzcas e a considerações políticas _ a per- ma moeda. Não podemos, legitimamente, esperar que aqueles a
gunta ~assa~ ser esta: como organizar a convivência? Essa pergun- quem o resto da comunidade trata como se fossem animais, utili-
ta contmua vigente mesmo que já se tenha superado a oposição bru- zando-os como burros de carga e não se interessando por sua sorte,
tal entre amos e escravos. Porque cada um dos diversos "sócios" depois se comportem como verdadeiros cidadãos. Mas não há tan-
que fazem parte da ~omun~dade mantém seus próprios apetites e in- tos casos como seria de esperar (é surpreendente, de fato, o quanto
teresses, sua necessidade mcansável de reconhecimento pelos ou- se empenham em continuar sendo sociáveis até aqueles que menos
tr?s, :eus enfrentamentos em torno da maneira como devem ser dis- proveito tiram da sociedade) nem rompem a convivência humana
tribut?os os bens que admitem divisão e quem deve possuir aqueles tanto quanto outras causas que diríamos opostas. Com efeito, os
que so podem ter um dono. Em suma, a questão é como a discórdia grandes enfrentamentos coletivos geralmente não são protagoniza-
humana se transforma em concórdia social. dos por indivíduos pessoalmente violentos, mas sim por grupos for-
Por que exi~te a d~scór?ia? Sem dúvida, não é porque nós, se- mados por indivíduos disciplinados e obedientes, que foram con-
~es human?s, sejamos IrraciOnais ou violentos por natureza, como vencidos de que seu interesse comum depende de que lutem contra
a.s vezes dizem os pregadores de trivialidades. Muito pelo contrá- certos adversários "estranhos" e os destruam. Não são violentos por
no. Grande pa~te de nossos antagonismos provêm do fato de ser- razões "anti-sociais", mas por excesso de sociabilidade: têm tanto
mos seres decididam~nte "racionais", ou seja, muito capazes de anseio de "normalidade", de se parecer o mais possível com o res-
calcul:r nos.so beneficiO e decididos a não aceitar nenhum pacto do to do grupo, de conservar sua "identidade" com ele a todo custo,
~ual. nao. ~~Iamos claramente ganhadores. Somos suficientemente que estão dispostos a exterminar os diferentes, os forasteiros, os
raci~n~Is pelo menos para nos aproveitar dos outros e desconfiar que têm crenças ou hábitos estranhos, os que se considera que
do proximo (supondo, com bons argumentos, que ele se portará co- ameacem os interesses legítimos ou abusivos do próprio rebanho.
n?sco, se possível, como nós tentamos nos portar com ele). Tam- Não, não são abundantes os lobos ferozes e os que há não represen-
bem usamos .a razão suficientemente para nos dar conta de que tam o maior risco para a concórdia humana; o verdadeiro perigo
nada nos n:ana tanto beneficio como viver numa comunidade de provém, em geral, das ovelhas raivosas ...
pessoas leais e solidárias diante da desgraça alheia porém nos p _ Desde muito antigamente vem-se tentando organizar a socie-
t . "E . ' er dade humana de modo que ela garanta o máximo de concórdia. Por
gun an:os;, se os outros amda não se deram conta disso?", para
conclutr: Eles que comecem, e eu me comprometo a lhes pagar na certo para consegui-lo não podemos confiar simplesmente no ins-
~esma moeda." Tudo muito racional, como se vê. A esta altura do tinto social de nossa espécie. É verdade que ele nos faz ter necessi-
dade da companhia de nossos semelhantes, mas também nos põe
hvro espe~o não ter que lembrar ao leitor a diferença já reiterada en-
em confronto com eles. As mesmas razões que nos aproximam dos
tre o "racwnal" e o "razoável". Se preciso, observem a realidade
outros podem fazer com que eles se tornem nossos inimigos. Como
que os cer~a (na qual. al.gumas poucas centenas de privilegiados
isso pode acontecer? Somos seres sociáveis porque nos parecemos
p~ssuem a Imensa mawna das riquezas, ao passo que milhões de
muito uns com os outros (muito mais, sem dúvida, do que a diver-
cnaturas morrem de fome) e poderão concluir que vivemos em um
sidade de nossas culturas e formas de vida levam a supor) e em ge-
mundo tremendamente racional mas pouquíssimo razoável...
ral queremos todos aproximadamente as mesmas coisas essenciais:
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reconhecimento, companhia, proteção, abundância, diversão, segu- fo pode ocorrer falar com um certo discreto alívio do "final da his-
rança ... Porém somos tão parecidos que freqüentemente desejamos tória" como ocorreu há não muito tempo a Fukuyama. O que a
ao mesmo tempo as mesmas coisas (materiais ou simbólicas) e as maioria dos demais filósofos que o denunciaram com veemência
disputamos uns com os outros. É até muito freqüente desejarmos censuravam era apenas o fato de acreditar que esse momento jubi-
certos bens só porque vemos que outros também os desejam: a tal
loso já havia chegado, pois cada um deles tinha seu próprio :inal da
ponto somos gregários e conformistas!
história que ainda esperava se realizar. Mas eles compartilhavam
De modo que a mesma coisa que nos une também nos opõe. A
com Fukuyama o desejo de que a história acabasse de uma vez por
palavra "interesse" vem do latim inter esse, o que está no meio, en-
todas junto com a política, essa enfadonha e confusa dor.
tre duas pessoas ou grupos: mas o que está entre duas pessoas ou dois
Por essa razão tantos grandes filósofos, desde o grego de nos-
grupos às vezes serve para uni-los e outras vezes se interpõe para
so início, foram críticos e até adversários declarados das idé~as de-
separá-los e torná-los hostis um ao outro. Às vezes aproxima os dis-
mocráticas. Essa animadversão não deixa de ser um verdadeiro pa-
tantes (só junto de você posso obter o que busco) e outras vezes co-
radoxo, porque a filosofia nasce com a democracia e em certo sen-
loca em oposição os diferentes (quero o que você quer e, se for pa-
tido essencial é inseparável dela: há democracia quando os humanos
ra você, não poderá ser para mim). A mesma "sociabilidade" indu-
assumem que suas leis e projetos políticos não provêm dos deuses
bitável dos interesses humanos faz que tenhamos necessidade de
ou da tradição, e sim da autonomia de cidadão de cada um, h~rm~­
viver em sociedade, mas também, em muitas ocasiões, que a con-
nizada polêmica e transitoriamente com as dos outros, com 1gums
córdia social seja impossível.
direitos de opinar e decidir; há filosofia quando os humanos ass~­
Como fazer para organizar o que Kant chamou, com acerto e
mem que devem pensar por si mesmos, sem dogmas preestabele~I­
uma ponta de ironia, "nossa insaciável sociabilidade"? Os filósofos
dos, suportando a crítica e o debate com seus semelh~ntes ,r~Cio­
elucubraram sobre este ponto, assim como sobre as demais ques-
nais. No fundo, o projeto da democracia é no plano socwpohtlco _o
tões de alcance e profundidade semelhante. Mas com uma notável
mesmo que o projeto filosófico no plano intelectual. ~ dem~cr~c1a
diferença, que Hannah Arendt notou com perspicácia. A filosofia
implica que sempre haverá política (no sentid? de ~1s~ord~nc1a e
do conhecimento não quer que o conhecimento acabe, nem a filo-
conflito que vimos), pela mesma razão que a filosofia 1mphca q~e
sofia cosmológica pretende abolir o universo, em contrapartida a
sempre haverá pensamento, ou seja, dúvida e disputa s?bre o mms
filosofia política parece supor que só terá êxito autêntico quando a
essencial. A isto os filósofos costumam se entender mms ou menos
política for suprimida. Ou seja, de Platão em diante, os filósofos
a contragosto (que grande filósofo não gostaria que os grandes pro-
sempre trataram a política como um conflito indesejável que é pre-
blemas fossem definitivamente resolvidos por ele?), mas no que ,se
ciso corrigir, não como uma expressão de liberdade criadora que
refere aos fundamentos da política todos coincidem em querer dei-
deve ser protegida e canalizada. Porque a política é colisão de inte-
xá-los resolvidos de uma vez por todas. O pensamento autônomo
resses, ensaios no sentido de uma harmonia sempre precária, achar
acabar representa uma desgraça até mesmo para o pensad9r mais
para os velhos problemas soluções parciais que inevitavelmente
arrogante; mas cancelar de uma vez por todas a a~tonomia s?,cial
criam dificuldades novas e não menos desconcertantes. Ao falar de
discordante dos indivíduos seria visto como um tnunfo deseJavel
política, a maioria dos filósofos está desejando colocar um ponto
por muitos grandes teóricos da sociedade... . , ,
final em tanta confusão. Eles sonham com uma fórmula definitiva
Suponho que daí provenha o gosto de tantos f1losofos da poh-
que acabe de uma vez por todas com as rivalidades, discórdias e
tica pelas utopias. Embora atualmente se use a palavr~ :'utopia" e o
aporias da vida comum, em suma: uma solução que nos permita vi- adjetivo "utópico" em um sentido muito vago e genenco, para al-
ver sem política. E portanto tatnbém sem história; só a um filóso- guns significando "absurdo" ou "irrealizável", ao passo que para

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outros equivale ao ímpeto racional de transformar o mundo positi- Uma vez assim estabelecido o modo "utópico" como gênero
~amente_e acabar com as i~ustiças, o termo deveria ser empregado literário, podemos estender o conceito para trás - à República de
e maneira u~ P?uco mais precisa. Ele provém, como se sabe de
Platão - e vê-lo prosseguir em obras como a Nova Atlântida de
~ relato fantastico que tem justamente esse título - U.t . '
cnto em 1516 Th opw - , es- Francis Bacon, a Cidade do sol de Campanella, outras de Charles
. . por ornas Morus, personagem realmente notável
que r~unm ~tn_butos ,muito pouco conciliáveis, como ser pensador Fourier ou Robert Owen, e um extenso etcétera, que chega até as
e~tadista; martlr da fe e santo da Igreja católica. Num filme biográ~ ficções de H. G. Wells em nosso século, sem esquecer algumas per-
~Icofn~~avel em sua época, excelentemente interpretado por Paul versões do modelo, como os Cento e vinte dias de Sodoma do mar-
co Ie, . ele era cha~~do de "um homem para todas as ocasiões" quês de Sade. Em linhas gerais, os aspectos positivos das utopias
sem ,d~vida ur~a qualificação merecida. Seu relato Utopia tem al ~ são a proposta de uma alternativa global para as sociedades real-
de satlra e mmto de experimento mental· "C . .g mente existentes (modificando o modo de ver rotineiro que consi-
se " Desde , · , . . · orno senam as coisas
.. . o propno titulo, a Iroma de Morus joga com ambigüi- dera "inevitável" tudo o que de fato é vigente) e na maioria dos ca-
dades calculadas porque d . .
. . . " ' ' segun o sua etimologia grega "u-topia" sos a proposta de uma harmonia social baseada na renúncia à cobi-
Sigmftca lugar que não está em lugar nenhum" (ou sej~ u - ça e aos abusos do interesse econômico privado. Mas também são
lugar), mas também tem um som parecido com "eu-t '. '~tao­ abundantes outras características seriamente negativas: autoritaris-
~o~~~- ~ ' ~
mo claustrofóbico, conversão dos ideais humanos abertos (liberda-
vr . Mu~tas ~as car~~terísticas das utopias já se encontram nesse li- de, justiça, igualdade, segurança ... ) em regulamentos asfixiantes,
o. um amblto pohhco fechado e sem escapato'ri·a ("Ut . , , suposição de que basta o cálculo racional - sempre exercido por al-
"lli) · · ~e~
I_ a ' a~tontansmo supostamente benevolente baseado 1.
çao estr t d · , · . na ap Ica- guns poucos ilustrados - para determinar a vida melhor de "todos"
. . I a e cntenos racwnais, regulamentação minuciosa da vida . os cidadãos, desaparecimento da espontaneidade e da inovação (as
cot:diana ~e. todo o mundo (inclusive os momentos de ócio as re-
"utopias" costumam propor-se para o futuro, no entanto nenhuma de-
~açoesbfat_ml:ares ou a sexualidade), abolição da propriedad; priva- las admite o futuro desconhecido como prolongamento de si mes-
a, su missao absoluta de cada indivíduo ao bem comum (as pes-
soas pod~m ser deslocadas de um lugar para outro de acordo com ma), regulamentacionismo que atinge até os recônditos mais ínti-
~s ~ec_essid~?es ger~is!, _igualdade econômica, abolição da com e- mos da privacidade, etc.
t~çao, Imobihdad~ histonca (as leis foram ditadas pelo ancestral ~í­ A realização efetiva de projetos que em sua época podem ter
hco Utop~s~ havia ~ovecentos anos!), etc. Morus também incluía parecido legitimamente "utópicos" (começando pelos Estados Uni-
em se~ O~Igmal pro~eto alguns elementos que se chocavam contra dos e prosseguindo com a União Soviética, o Estado de Israel ou até
sua propr~a ortodoxia eclesiástica, como a tolerância religiosa (tal- o Terceiro Reich de Hitler) nos tornaram muito mais receosos ,do
vezb um :~na: para seu amigo Erasmo?) ou a eutanásia voluntária que foram seus pioneiros quanto às coisas boas do gênero como
em o~a m~ mente ele reconhecesse que seguir a verdade revelad~ guia de organização política. Até nos melhores casos, os bens so-
pela fe podia ser uma "utopia" ainda melhor Sem du' v·d . . ciais conseguidos nunca deixam de ter sérias contrapartidas que o
d d 1 · I a, sena ma-
equa o er esse relato como um programa poli'ti"co o Ih mero planejamento racional não previa. Daí a ficção científica con-
f I'f · , u me or an-
Ip,o I_Ico, Ignorando seu c~mponente lúdico, de jogo teóric~. O temporânea estar repleta de "distopias", ou seja, "utopias franca-
~~pno aut?r s: neg~u, no _fmal da vida, que fosse traduzido do la- mente detestáveis propostas como modelos a não serem seguidos,
para o mgles, .!?oi~ temia que servisse para corromper os incul- assim como Admirável mundo novo de Aldous Huxley ou Nós de
tos."Um t_emo~ mmto JUStificado, quando se vêem alguns dos efei- Zamiatin. Apesar das boas intenções filosóficas que inspiraram a
tos utopistas postenores.
maioria delas, as tentativas de cunhar uma concórdia pré-fabricada
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e sem resquícios como sonho de alguns se transforma ao realizar- dro comunitário que lhes dá sentido: são "particulares" porém não
se historicamente no pesadelo de todos os outros. "anti-sociais", pois se o fossem deixariam de funcionar como pro-
Alguns utopistas e quase todos os políticos totalitários de nos- priamente "humanos". Portanto, é possível decidir em co~um o que
so século reclamaram um "homem novo" como matéria-prima dis- concerne a todos e rever periodicamente as normas assim estabe-
posta a submeter-se a seus projetos. Mas, felizmente, não pode ser lecidas: também será necessário que os governantes intervenham
"novo" sem deixar de ser propriamente humano uma vez que sua periodicamente para corrigir disfunções que resultem da mera l~ta
própria substância simbólica é composta com uma tradição de co- entre os interesses particulares ou proteger os que, por alguma .cir-
nhecimentos adquiridos, experiências históricas, conquistas sociais, cunstância, se vejam incapacitados para atender a suas necessida-
memória e lendas. As pessoas nunca podem ser lousas recém-apa- des mais básicas.
gadas - e que métodos terríveis se utilizaram nas últimas décadas A segunda perspectiva, por outro lado, desconfia da capacida-
para apagar das mentes o que merece ser lembrado e defendido! - de deliberativa dos membros no que se refere ao melhor para a co-
nas quais se escreva arbitrariamente a nova lei social, por melhor munidade. o poder político deve estabelecer apenas um contexto o
que seja a letra que o legislador se proponha a fazer. Também não mais flexível e menos intervencionista possível, dentro do qual se
é factível purgar os homens do apego racional a seus próprios inte- movam livremente as liberdades dos sócios em busca de satisfazer
resses encontrados para submetê-los a um interesse global ou bem seus interesses. Cada um é muito capaz de buscar o melhor para si
comum determinado por alguma sabedoria situada acima de suas mesmo, ainda que não o seja para planificar o que deve se~ preferí-
cabeças. Não, é preciso forjar a política de concórdia a partir dos vel para todos. Acontece, no entanto, que justamente o ~awr b.e~e­
seres humanos realmente existentes com suas razões e paixões, ficio público surgirá da interação entre os que busca~ mcondici~­
com suas discórdias, com sua tendência ao egoísmo depredador nalmente seu proveito particular, por causa da men~wnad~ condi-
~as ta~bém com sua necessidade de ser reconhecido pela simpa- ção "social" de nossos. interesses aparent~ment~ mais parti?u.lares.
tia social dos outros. Pelo que sabemos, essa concórdia sempre será Na busca de seu própno bem, cada um nao tera outro remed10 se-
frágil e padecerá mil ameaças: segregará seus próprios venenos, às não colaborar, ainda que não se proponha a isso, com o dos outros,
vezes a partir de suas melhores conquistas. Como orientar a refle- pois sempre obtemos mais dos outros beneficiando-~s d~ que o~
xão sobre tantos paradoxos, sobre esse drama coletivo de nossa prejudicando. Uma espécie de "mão invisível" harmomzara o qu~ e
vida em comum?
aparentemente discordante, reforçará os me~hores p~anos de VIda
Há dois enfoques principais, cada um com matizes muito di- comunitária e condenará ao fracasso as soluçoes capnchosas ou er-
versos. O primeiro pensa a organização política da comunidade hu- rôneas. O poder político deve abster-se o mais_pos.sí~el de inter; ir
mana a pa~tir de um contrato social entre os indivíduos (não é pre- nesse jogo entre as artimanhas privadas para nao VICiar ?. re~u.lt~â?,
Ciso acreditar que tenha ocorrido como acontecimento histórico final e causar dano ao conjunto, buscando um excesso artificial
basta aceitar o ponto de partida teórico "como se" tivesse aconteci~ de perfeição.
do), que planejam em comum suas leis, suas hierarquias, a distri- Em resumo, empregando as palavras de ~oger Scrut?~: "O de-
buição do poder e a melhor forma de atender às necessidades pú- fensor da decisão coletiva busca uma sociedade explicitamente
blicas. Além de se preocupar com seus interesses privados, os consentida por seus membros: isto é, que eles mesmos façam a es-
membros compreendem também que é imprescindível organizar colha quanto às instituições e às condições materiais. O defe_nsor da
determinados aspectos políticos que redundam em beneficio para mão invisível busca uma sociedade que resulte do consentimento,
todos e sustentam a própria viabilidade do grupo como tal. Os in- mesmo que nunca tenha sido explicitamente consentida em conjun-
teresses de cada um podem opor-se aos de outros, mas não ao qua- to, uma vez que as escolhas de seus membros individuais recaem

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dhon, e diz o seguinte: "A justiça é o respeito, espontaneamente ex-
sobre que~tões q~e ~ada têm a ver com o resultado global." ) Em li- perimentado e reciprocamente garantido, à dignidade humana, em
nh~~ gerais, a P~~meira das duas perspectivas políticas é considera- qualquer pessoa e em qualquer circunstância em que esteja com-
da .de esquerda e a segunda "de direita"; mas creio que a marcha prometida, e seja qual for o risco a que nos exponha sua defesa"
e~etlva de quase todas ~s sociedades que conhecemos atualmente (Da justiça na revolução e na Igreja). O conceito de dignidade hu-
na? po?~ ~er compreendida sem aplicar em maior ou menor grau os mana em sua forma contemporânea (embora no capítulo três já te-
dois cntenos. nhamos visto que o renascentista Pico della Mirandola também o
.o grande pr~blema é que - diferentemente do que ocorre nas empregava) começa a se generalizar a partir do século XVIII, quan-
utopias - nas ~o~Iedades existentes nem todos os ideais são plena- do entra em crise revolucionária o sistema de honras próprio da
mente com~~tiv.eis. Por exemplo, as liberdades públicas são extrema- aristocracia - reservado a uma minoria - para dar lugar à exigência
mente des,eJa~eis, ma~ às vezes vão contra a segurança do cidadão, do reconhecimento da qualidade de cada um como homem e como
que tambem e um pnncípio digno de ser considerado. Em muitos cidadão. Então aparece o conceito político de "direitos humanos",
casos ocorre~ ~onflitos semelhantes e ainda piores: é importante que se incorporam às constituições democráticas e vão se fortale-
d~fender os direit~s humanos das mulheres nas sociedades _ como cendo teoricamente - embora nem sempre, infelizmente, cumpri-
a Imp,osta pelo Tahban no Afeganistão - que não os respeitam mas dos na prática - durante os últimos duzentos anos. Implicam uma
tambem merece respeito o direito de cada comunidade hum~na a verdadeira subversão das sociedades tradicionais, tanto em sua ori-
d~sen~olver suas próprias interpretações de valores sem ingerên- gem (na América apareceram depois de uma guerra de independên-
~Ias vw~en:a~ de o~tras nações, a liberdade de comércio e empresa cia e na Europa impuseram-se depois de uma revolução que deca-
e ~ pn~ciplO mmto respeitável mas entre suas conseqüências in- pitou reis) como agora, quando se tenta defendê-los de fato. Os di-
dese~avets parece ~s~a~ a miséria crescente de grande parte da hu- reitos humanos ou direitos fundamentais são como que uma decla-
mamdade, etc. No Imcw do nosso século, Max Weber falou das "ba- ração mais detalhada do que implica essa "dignidade" que é justo
talhas entre. deu.ses" que representam, na realidade histórica, esses os homens reconhecerem uns nos outros.
c~oques de Idems contrapostos. São como licores fortes e puros que O que implica a dignidade humana? Em primeiro lugar, a invio-
~ao podem ser tomados sem serem misturados. Talvez a arte polí- labilidade de cada pessoa, o reconhecimento de que não pode ser
tica por excelênci~ seja acertar a dosagem do coquetel que integre utilizada ou sacrificada pelos outros como um mero instrumento
todos eles sem deixar de ser socialmente "digerível" para a realização de fins gerais. Por isso não há direitos "humanos"
. Desde Pl ... concórdia
. atão, a virtude que melhor expressa essa coletivos, assim como não há seres "humanos" coletivos: a pessoa
social a. pa~tlr de ele~entos discordantes da qual vimos falando se humana não pode ocorrer fora da sociedade mas não se esgota no
chamaJ,ustzça. Na ~mha opinião, estamos por demais acostumados serviço a ela. Daí a segunda característica de sua dignidade, o n:\co-
~ enfoca-la de maneira meramente distributiva (dar a cada um 0 que nhecimento da autonomia de cada um para traçar seus próprios pla-
e .seu,. a cada ~m segundo o que merece ou o que necessita) ou re- nos de vida e seus próprios parâmetros de excelência, sem outro li-
tnb.utiva (castigar os maus e premiar os bons). Mas há definições mite que não o direito semelhante dos outros à mesma autonomia.
~ms amplas e que me parecem preferíveis. A que mais me agrada Em terceiro lugar, o reconhecimento de que cada um deve ser tra-
e a de um pensador anarquista do século XIX, Pierre-Joseph Prou- tado socialmente de acordo com sua conduta, mérito ou demérito
pessoais, e não segundo os fatores aleatórios que não são essenciais
a sua humanidade: raça, etnia, sexo, classe social, etc. Em quarto e
. 3. Modern Philosophy, de R. Scruton, Mandarin Books Grã-Bretanha Esse último lugar, a exigência de solidariedade para com a desgraça e
hvro oferece uma excelente (e muitas vezes polêmica) visão de síntese de todos os sofrimento dos outros, o manter viva e ativa a cumplicidade com os
campos do pensamento filosófico atual. [Traduzido a partir do texto citado pelo autor.]

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outros. A sociedade dos direitos humanos deve ser a instituição na nos objetos como até nas terras ou paisagens. O. imbecil "aqui n_ós
qual ninguém seja abandonado. somos assim" e a mitificação das "raízes" própnas - co~o se nos,
Esses fatores da dignidade humana individual tropeçaram, nos seres humanos, fôssemos vegetais - bloqueiam a verdadeira neces-
tempos modernos, com presunções supostamente "científicas" que sidade humana de hospitalidade que devemos uns aos ou~ros de
tendem a "coisificar" as pessoas, negando sua liberdade e sua res- acordo com o que chamamos de "dignidade". Para qu_em e capaz
ponsabilidade e reduzindo-as a meros "efeitos" de circunstâncias de refletir, somos todos estrangeiros, judeus err~ntes, viemos tod~s
genéricas. O racismo é o exemplo mais notável dessa negação da de não se sabe onde e vamos para o desconhecido (os desconheci-
dignidade humana, mas atualmente está sendo substituído por ou- dos?), todos temos uns para com os outros dever de hospeda~e~
tro tipo de determinismo étnico ou cultural, segundo o qual cada em nosso breve trânsito por este mundo comum a todos, nossa un~­
um se deve exclusivamente à configuração inevitável que recebe de ca verdadeira "pátria". Isso foi muito bem formulado por um e~cn­
sua comunidade. Supõe-se assim que as culturas são realidades fe- tor judeu contemporâneo, George Steiner: "As árvores têm rmz~s;
chadas sobre si mesmas, insolúveis umas para as outras e incompa- os homens e as mulheres, pernas. E com elas atravessam ~ barreira
ráveis, cada uma delas sendo portadora de um modo completo de da estultice delimitada com alambrados, que são as ~ronteiras; co~
elas visitam e nelas habitam entre o resto da humamdade na quah-
pensar e de existir que não deve ser "contaminado" pelas outras
dade de convidados. Há um personagem fundamental nas lendas,
nem alterado pelas decisões individuais de seus membros. Esses
numerosas na Bíblia, mas também na mitologia grega e em outras
dispositivos fatais "programam" suas crias, às vezes para opô-las
mitologias: o estrangeiro à porta, o visitante que chama. ao e~tarde­
irremediavelmente aos de outras culturas (o "choque de civiliza-
cer, depois de sua viagem. Nas fábula~, e~~e c~a~ado e m~It~s ve-
ções" de que fala Samuel Huntington) ou pelo menos para fechá-
zes 0 de um deus oculto ou de um emissano dlV_I~o que poe a pro-
las ao intercâmbio espiritual com essas culturas. Oxalá dentro de
va nossa hospitalidade. Quisera pensar nesses visltantes com~ nos
cinqüenta ou cem anos as invocações à hoje sacrossanta "identida-
autênticos seres humanos que devemos propor-nos a ser, se e que
de cultural" dos povos, que segundo alguns deve ser preservada po-
liticamente a todo custo, sejam vistas com o mesmo receio hostil desejamos sobreviver." 4 • • •
Conforme diz Sigmund Freud - fundador da psicanahse e um
com que a maioria de nós acolhe as menções ao Rh do sangue ou à
dos maiores espíritos de nossa época - em sua obra O mal-est~r da
cor da pele! Pois sem dúvida no fundo elas encerram uma vontade
civilização, o sofrimento humano tem três f~ntes:_ "~supremacia da
não menos "injusta" de atentar contra o pressuposto essencial da
natureza, a caducidade de nosso corpo e a msuf~~wncm de nossos
dignidade humana de cada um: o de que nós, homens, não nasce-
métodos para regular as relações humanas na famiha, no Estad? e na
mos para viver formando batalhões uniformizados, cada um com sociedade." Mas nenhuma dessas três desgraças pode ser considf~a­
sua própria bandeira à frente, mas para nos mesclarmos uns com os da propriamente o pior do que nos assedia: para o ser que nec~sslta
outros sem deixar de reconhecer, apesar de todas as diferenças cul- do olhar compreensivo e confirmador do outro para con~egmr ser
turais, uma semelhança essencial entre nós e a partir dessa mescla ele mesmo "o mal é, originalmente, aquele pelo qual se e a~eaça­
inventar-nos sempre de novo (veja-se o que dissemos a respeito dis- do com a perda do amor". Nada nos deixa mais inermes, mms d_es-
so na última parte do capítulo quatro). validos mais ameaçados do que a perda do amor, este _entendido
A obsessão característica dos nacionalismos, essa doença tanto n~ sentido mais literal (entre pais e filhos ou erótico) como
maior do século XX, glorifica o necessário "pertencimento" de
cada ser humano a sua terra natal e o transforma em fatalidade cio-
sa de si mesma. No fundo trata-se apenas da detestável mentalida- 4. Errata, de G. Steiner, Siruela, Madri. [Traduzido a partir do texto citado
de possessiva que quer pôr o carimbo do dono não só nas casas e pelo autor.]

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também no mais geral, que os gregos denominavamfilia: a amiza- sando nos outros e chamando-os por meio delas quando não estão
~~ entre os que se escolhem mutuamente como complementares presentes. Por exemplo, rir. O humor é um aceno e~ busca de au-
( porq~e el~ e~a .ele, porque eu e,ra eu", com estas belas palavras tênticos "companheiros vitais" que possam compartilhar ~onosco o
~?~t~Igne juAstiflca suafilia por Etienne de la Boétie) e a simpatia surgimento prazeroso e às vezes demoli~or do sem-~en!Ido n~. or-
Civil - cortes e vagamente Impessoal mas solidária de modo nada dem rotineira dos significados estabelecidos. Nada e tao sociavel
irrelevante - que os concidadãos têm que mostrar cotidianamente nem une tanto como o senso de humor: por isso, quando numa reu-
uns pelos outros para que a vida em sociedade seja gratificante. nião de amigos se ouvem muitas risadas ou se trocam sorrisos em
Sem amor nemfilia a humanidade se atrofia e ficamos nas mãos de profusão dizemos que estão "se divertindo". Ou seja, estão se dan-
uma inóspita lei da selva. Com razão Goethe disse que "saber-se do bem ;econhecendo-se uns aos outros. Até quem ri sozinho na
amado dá mais força do que se saber forte." verdade está rindo à espera das almas gêmeas que podem unir-se a
, . Como ~~demos merecer o amor dos outros? Grande parte dos ele para rir. E muitas amizades- e não poucos amores!- começam
codigos de etlca em todas as culturas dedicaram-se a nos dar instru- quando duas pessoas entendem um chiste que escapa aos outros ...
ções para consegui-lo. Isaac Asimov, escritor de ficção científica A criação estética e seus prazeres também não podem ser en-
q~e na minha opinião também é um bom filósofo, inventou as "três tendidos adequadamente se não são compartilhados. Quando des-
lets da robótica" gravadas na programação das criaturas mecânicas cobrimos algo bonito, a primeira coisa que fazemos é procurar al-
que pr~tag?nizam Eu, robô e outros relatos seus. São as seguintes: guém que possa desfrutá-la conosco: junto com ele ou com ela ta:n-
Pnmeira: Não prejudicarás nenhum ser humano. bém nós desfrutaremos mais. As crianças pequenas passam a vida
Seg~da:. Aj~darás os seres humanos o máximo possível (des- puxando os adultos pela manga para lhes mostrar ~equenas ma~a­
de que nao seja vwlando a primeira regra). vilhas que às vezes os grandes são estúpidos demais para aprecmr
. !erceira: C~nservarás tua própria existência (sempre que não 0
quanto valem. Mas o que é a beleza? Por que é tão i~por~an~e
seja a custa de vwlar as duas leis anteriores). para nós descobri-la, criá-la e compartilhá-la? P?r que ate o few. as
C~mo não somos robôs, a maioria das morais passadas e pre- vezes tem que se virar para aparecer como bomto para que a vida
sentes mvertem a ordem desses três preceitos mas, quanto ao mais, não deixe de nos apetecer?
suas normas estão bem resumidas na tríade de Asimov. Sem dúvi-
da, .sempre houve, há e haverá conselheiros provocativamente desi-
ludidos q~e nos recomendem aproveitar-nos o máximo possível dos Dá o que pensar...
q~e r~s~elta~ a moralidade para obter outras vantagens. Graças a
tais sabws vivemos rodeados de polícias, cárceres, miséria e aban- Podemos nos fazer "humanos" por nós mesmos, sem neces.~i­
do~o. S~rá?que ~sses conselheiros cínicos são tão espertos quanto dade de ninguém mais? Começamos a nos huma~izar com a pala-
se Imagma. Sera que valem mesmo a pena as vantagens ocasionais vra ou já antes, com o olhar dos semelhantes? E inevitável que a
que obtemos pessoalmente ao lhes dar ouvidos em comparação convivência com os outros nos seja "dolorosa"? Justifica-se pro-
com o que todos perdemos em geral? Será prudente você leitor e testarmos contra os resultados efetivos dessa sociedade da qual,
eu renunciarmos a tentar merecer o amor de nossos semelhantes ~té por outro lado, tanto necessitamos? Não seria pior o inferno ~~ ser
que o último dos distraídos ou dos maus tenha se convencido de ignorado pelos outros do que o de viver entre eles? ~o mos mco.-
que necessitamos é de fi lia e nada mais? municados " ou será que não devemos esperar nunca nos comunz-
As m~nifestações humanas mais características só podem ser car" totalmente? Nós, humanos, entramos em confronto na socie-
compreendidas em um contexto social: são coisas que fazemos pen- dade porque não somos suficientemente racionais ou porque não

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s?mos razo~v~is? É possível obter algum modo de concórdia a par-
tzr da dzscordza produzida pelas razões contrapostas dos homens?
Capítulo nove
Como Hegel explica a passagem de nossa animalidade "natural" O calafrio da beleza
par~ nossa "humani,d~de " histórica e cultural? Os filósofos que re-
fletzram sobre a polztzca querem compreendê-la melhor ou aboli-la
de uma vez? Pode haver "política" sem conflito nem enfrentamen-
tos? Pode haver democracia sem política? Em que a essência dafi-
~~sofi~ s~, parece com a essência da democracia? O que são as
, utopzas ? Por que os filósofos costumam gostar delas? "Utopia"
e o mesmo que "ideal"? Há "utopias" abomináveis ou pelo menos
perzgosas? Alguma "utopia" se realizou historicamente? Nós, hu-
manos, estabelecemos um "contrato social" ou somos antes 0 re-
sult~do d~ es~olha~ ?rivadas q~e determinam o melhor para to-
do~. Os zde~zs P_Olz~zcos na so~zedade efetiva são todos compatí-
vezs? O que e a;ustzça? Qual e sua relação com a "dignidade hu- Nas Leis, seu último diálogo, o velho Platão comenta que nós,
mana"? Qual é a relação entre a "dignidade" humana e os humanos, estamos submetidos à inevitável pedagogia de dois mes-
"~ireitos humanos "? Pode haver "direitos humanos" coletivos? tres inteligentes: o prazer e a dor. Eles nos ensinam com suas coa-
Nos, humanos, somos inexoravelmente determinados por nossa ções - gratas ou terríveis - a viver e a sobreviver. Como a maior
raça ou nossa cultura? Quais são os princípios mais gerais das mo- parte do que faz os humanos gozarem ou sofrerem é comum a to-
razs humanas? O riso é um argumento a favor da vida em comum dos, o prazer e a dor são fortes braçadeiras da irmandade universal
dos homens?
entre nós; mas, como ninguém desfruta ou padece exatamente com
os mesmos matizes nem foi submetido aos mesmos estímulos ao
longo da trajetória de sua vida, também são prazeres e dores que
nos conferem uma biografia irrepetível, que traçam o perfil da au-
têntica individualidade de cada um. O prazer e a dor nos ensinam
que somos "iguais" quanto ao geral mas ao mesmo tempo "diferen-
tes" quanto ao particular. Novamente se comprova que o que nos
une - nossos "interesses" - é também o que nos separa, nos pen;o-
naliza e mais cedo ou mais tarde, talvez, nos opõe.
Examinemos um pouco mais de perto o que, em termos muito
amplos, poderíamos chamar de "prazer". Não me refiro apenas ao
que nos produz uma sensação fisicamente grata, mas a tudo aquilo
- seja coisa, pessoa, produto, comportamento, etc. - diante do que
sentimos claramente aprovação: "isso sim!", "disso, mais!", "isso,
de novo!". Por exemplo, um delicioso prato de comida ... (deixo a
cada um preencher as reticências com o nome de sua especialidade
culinária favorita), que nos dá prazer porque é muito agradável ao

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paladar. Ou talvez um banho de chuveiro refrescante no calor do que a construíram daquele sofrimento injusto. E, é claro, não tenho
verão, também enormemente prazeroso. Essas sensações "gratifi- o menor desejo de que se volte a empreender uma obra semelhante
cantes" são muito importantes na vida de todos nós, humanos, mas com aqueles procedimentos inumanos. No entanto, não posso deixar
também o são para qualquer animal dotado de um sistema nervoso de reconhecer que acho a grande pirâmide muito bonita, apesar de
passavelmente desenvolvido. Outro exemplo diferente: a satisfação não ver nela nada de "agradável" e de não achar moralmente "bom"
que nos causa ver alguém realizar uma ação generosa e valorosa ou que algum dia tivesse sido construída. E já não sei o que mais diz~r
melhor ainda, nós mesmos a realizarmos. "Veja só - suspiramo~ diante das alfinetadas de meu amigo, porque não sou capaz de di-
contentes -, isso sim que é bom! Assim deveríamos nos comportar zer claramente o que eu extraio disso que chamo de "beleza" para
sempre!" O apreço pelo "bom" é próprio dos seres dotados de ra- que ela me seja prazerosa apesar de tudo: é dificil dizer por que ela
z~o, que.' ao refletirmos, nos damos conta do quanto essa droga de me "interessa" tanto.
vida sena m,elhor se todos nós fôssemos capazes de tais condutas Kant, de quem até aqui parafraseei à minha maneira algumas
excelentes. Ultimo exemplo: vejo um pôr-do-sol flamejante no mar colocações em a Crítica do juízo, afirma que o deleite produzido
ou _ouço uma polonaise de Chopin bem interpretada ao piano. E pela beleza é o único verdadeiramente desinteressado e livre. Com
mms uma vez me surge a aprovação prazerosa: "Que beleza!" efeito nossas demais satisfações provêm dos interesses necessários
No entanto, esse caso é diferente dos outros dois: sem dúvida de no~sos sentidos ou de nossa razão. O "agradável" nos atrai por-
não poderia desfrutar do "belo" se não fosse pelos meus sentidos, que cumpre os anseios primordiais de comida, bebida, abrigo, con-
mas a razão também interfere nesse gozo, pois não se trata de uma forto, recompensa sexual, etc. O "bom" impõe-se a nós porque nos-
satisfação meramente sensorial. Os prazeres da beleza são os me- sa razão não tem outro remédio senão aceitar que a vida humana é
nos "zoológicos" de todos. Porém o que sinto diante da beleza tam- mais digna de ser vivida quando qualquer um de nós faz o que é de-
bém. não é algo. que se assemelhe ao respeito moral ou ao aplauso vido e reconhece os outros como verdadeiros semelhantes, não me-
suscitado_ em mim por um gesto virtuoso; inclusive é possível que ros instrumentos manipuláveis. Mas o anseio de beleza não parece
eu prefensse, por razões éticas, que no mundo não houvesse esta ou responder a nenhuma necessidade concreta nem sensorial nem ra-
aquela coisa bonita ... embora nem por isso deixe de achá-la bonita! cional. Sabemos por que os homens primitivos fizeram vasilhas de
Suponhamos que estou com um amigo diante da grande pirâmide barro cozido para satisfazer sua fome e sua sede com maior confor-
egípcia de Quéops e lhe confesso que a acho muito bonita. "Boni- to. Podemos supor que também as tenham utilizado para alimentar
t~? A que você está se referindo? Devo supor que você gostaria de seus filhos ou dar de beber a seus companheiros sedentos, uma vez
VIver dentro desse túmulo escuro? Ou que você acha um lugar que somos seres necessariamente sociais. Mas por que os enfeita-
'agradável' para ficar fora, sentado, em pleno sol do deserto?" Res- ram com uma barra de figuras geométricas ou de motivos florais?
pondo que a simples idéia de morar numa pirâmide ou de me enca- Essa decoração não serve para nada, não cumpre, aparentemente,
rapitar nela para tomar sol me é perfeitamente desagradável. '~lém nenhuma função: nenhum chimpanzé teria perdido tempo acrescen-
do mais - continua maldosamente meu amigo - , por acaso você não tando essa futilidade a um objeto cuja utilidade, quanto ao mais,
sabe como ela foi construída? Milhares de escravos arrastando pe- poderia até entender. No entanto, esses motivos ornamentai~ reve-
dras enormes, sob chicotadas, para construir uma tumba suntuosa lam que os homens não só buscam satisfazer suas necessidades
para o tirano que pisoteava seus direitos! É isso que você acha tão como também têm interesse em que as coisas sejam bonitas ou que
bonito? Por acaso quer que se volte a construir pirâmides como essa lhes pareçam bonitas. Que tipo de "interesse"? Sem recuar diante
a esse preço?" Admito que não, muito pelo contrário : até preferiria do paradoxo, Kant diz que se trata de um interesse desinteressado.
que a pirâmide não existisse se desse modo se tivesse poupado os Isso, francamente, não nos ajuda muito a resolver essas dúvidas ...

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Mas vamos continuar um pouco mais na companhia de Kant menos, definir: por mais "desinteressado" que seja nosso apreço
que nunca é uma companhia totalmente má. Segundo Kant, "é bel~ estético por um palácio ou um cavalo de corrida, nunca pode se
o que agrada universalmente, sem conceito". As duas característi- desligar totalmente do fato de sabermos "para que eles servem". O
cas são importantes. Dizer que uma flor é "bonita" ou que um poe- mesmo acontece com as obras de arte baseadas na representação
m~ é ':belo" não é a mesma coisa que afirmar "gosto de paella": no fiel do real ou em refinadas análises morais e psicológicas, cuja
pnmeiro caso, consideramos que a beleza está na flor ou no poema beleza sempre está ligada também à interpretação precisa do que
e que qualquer um poderá vê-la se a olhar de maneira adequada (e existe ou deveria existir. Em contrapartida, a beleza "vaga" é a que
não apenas do nosso ponto de vista pessoal e intransferível!); no se- corresponde às flores, às conchas que encontramos na praia, ao
gundo, admitimos que - como se costuma dizer - "o gosto é meu" jogo das sombras numa tarde de verão, aos intrincados hieróglifos
e "sobre gostos não há nada escrito" (ou seja, não há nenhuma lei ornamentais da arte islâmica, ao desenho de uma tapeçaria ou a al-
escrita que nos obrigue a compartilhá-los, pois quanto ao mais es- go que Kant não pôde conhecer porque surgiu no mundo mais de
creve-se muitíssimo sobre gostos ... talvez mais do que sobre qual- um século depois de sua morte: a pintura abstrata (Mondrian, Jack-
quer outra coisa). Ao dizer que o belo agrada "universalmente" son Pollock ... são exemplos que o velho filósofo talvez tivesse
Kant não quer dizer que "de fato" todos coincidimos em considera; considerado com atônito apreço). Segundo Crítica do juízo, todos
"bel~s" as mesmas coisas, mas que só chamamos de "belo" o que esses tipos de beleza "sem sentido" nem "conceito" são os que sus-
consideramos que tem direito e mérito suficiente em si mesmo para citam com maior clareza e nitidez o prazer mais indiscutivelmente
ser considerado assim por todo o mundo, ao passo que não exigi- "estético" ... embora Kant não costumasse empregar essa palavra
mos tanto ao proclamar outro tipo de gostos: seria de uma ridícula em seu uso atual!
falsa modéstia dar a entender que algo é "belo" só para mim, ao Mas podemos realmente separar a beleza completamente de
passo que seria admissível - embora profundamente errôneo! - outros valores humanos, utilitários ou morais? Em sua origem,
considerar um traço original e muito pessoal do meu caráter meu como sempre costuma acontecer com termos laudatórios, essas for-
gosto pela paella. mas de apreço deviam estar muito mais misturadas do que hoje, se
Igualmente interessante é a afirmação kantiana de que o belo a etimologia não nos engana. A palavra que nos é imediatamente
"não tem conceito". De acordo com o uso que Kant faz do termo mais familiar- "belo", do latim bellus- parece ser um diminutivo
o conceito é o que nos permite identificar inequivocamente algum~ de "bom" - bonus, bonulus -, como também ocorre, obviamente,
coisa e, além disso, nos fornece uma regra prática para construí-la com o termo "bonito": algo bastante bom, superior à média, embo-
ou julgá-la. Mas, mesmo que possamos identificar conceitualmen- ra não excelente, mas antes "agradável". Também o grego kalos,
te que tal coisa é um amanhecer e tal outra é uma catedral, carece- termo para o qual Platão busca ou imagina uma etimologia que sig-
mos de uma regra ou modelo determinante que estabeleça necessa- nifica "atraente", está semanticamente ligado ao vocábulo "bom" -
riamente quando uma coisa e a outra merecem o atributo de "bele- agathos - e às vezes forma compostos muito comuns, como kalo-
z~"· Só o pedantismo ou o academicismo estéril acreditam poder kagathos, qualificação habitual do homem exemplar, perfeitamen-
ditar normas segundo as quais certas coisas serão obrigatoriamente te bem-posto fisica e civicamente. Observemos de passagem que
belas e outras não. Kant até vai além e distingue a beleza propria- em grego moderno kalos significa propriamente bom. Também em
~ente "livre" ou "vaga" da beleza "aderente" (embora já nos tenha chinês, o ideograma para "belo" - miei, que representa um grande
dito que o contentamento produzido por todo tipo de beleza é de- cordeiro - está diretamente ligado ao ideograma para "bom" ou
s.interessado e livre). A beleza "aderente" é a das coisas cujo obje- "bem" (shan, que, a não ser que eu esteja mal informado, represen-
tivo conhecemos ou cuja perfeição funcional podemos, mais ou ta a mãe com a criança nos braços). Quanto a "formoso", vem do

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latim formosus, ou seja, aquilo que conserva adequadamente sua
e o que nos comove no patético é o vislumbre de algum bem; a im-
"forma", de maneira harmônica e de acordo com a devida propor-
perfeição só tem valor como uma perfeição incipiente". Em outro
ção entre suas partes. Remo Bodei, de quem tomo estes dados eti-
livro seu, Reason in art [Razão na arte], ele afirma taxativamente
mológicos, observa que o apreço pela idéia de "forma" provém pri-
que "é pura barbárie acreditar que uma coisa é esteticamente boa
mordialmente, talvez, do contraste com o horror provocado pelo
mas moralmente má, ou moralmente boa mas odiosa à percepção.
desfazer-se dos organismos corroídos pelo tempo e pela morte 1:
As coisas parcialmente boas ou parcialmente feias podem ter sido
amamos o bem formado porque amamos antes o que está bem vivo.
escolhidas sob a coerção de circunstâncias desfavoráveis, antes que
Resumindo: parece indubitável que, originariamente, a idéia
do belo (não ainda da própria Beleza), formulada de modo mais in- chegasse algo pior; mas, se uma coisa é feia, por isso mesmo não
tuitivo do que reflexivo, esteve ligada à noção do bom (ainda não pode ser completamente boa, e, se é completamente boa, forçosa-
do Bem), ou seja, o melhor para a vida. Tanto o belo como o bom mente também deve ser bonita". E transforma os antigos gregos em
e obviamente o agradável, as categorias que Kant distingue e - até uma cópia do paraíso e um cânon, para assim refutar aos que se
certo ponto - separa, derivam provavelmente de um núcleo comum afastam deles na direção dos aspectos bárbaros do que chamamos
centrado em um mesmo objetivo: tornar a vida humana melhor, ou de "modernidade" (sobre o "feio" na arte contemporânea teremos,
seja, mais cooperativa e solidária, mais rica em experiências, mais sem dúvida, que falar mais adiante: "Entre os gregos a idéia de fe-
cheia de imaginação, mais confortável e refinada, em suma, menos licidade era estética e a beleza era moral; e não porque os gregos
submissa à escuridão devoradora e insensível da morte. Resumo estivessem confusos, mas porque eram civilizados" (The Mutability
dos resumos: o belo compartilha com o bom e o delicioso a tarefa ofAesthetics Categories).
de conseguir que haja mais vida e menos morte ... para os mortais. No entanto, os gregos da época clássica também não conside-
Um dos filósofos contemporâneos que mais e melhor insistiram raram o assunto da beleza de modo nítido e uniforme. O mais ilus-
nessas perspectivas é Jorge Santayana (pensador de origem espa- tre protagonista de nossa tradição filosófica, Platão, distingue a be-
nhola e existência ditosamente errante que escreveu toda a sua obra leza propriamente dita - que efetivamente coincide com o bom e o
em inglês). verdadeiro - do tipo de beleza a que os artistas aspiram. Ele vê esta
Para Santayana, os valores estéticos nunca podem ser "separa- última como prescindível por sua inautenticidade e por ser até pe-
dos" do resto dos valores vitais humanos, embora devam ser distin- rigosa para uma ordem política bem concebida. Em sua República,
guidos dos demais em certos aspectos. Não são "desinteressados" o diálogo em que ele descreve como deveria ser uma pólis organi-
- o valor sempre demonstra "interesse" apaixonado por um aspec- zada de acordo com a mais reta justiça nos informa que, se à sua ci-
to positivo da vida - mas exploram e ampliam o campo possível de dade ideal chegasse um poeta dramático, ele seria acompanhado
nossos interesses. Sempre se trata de alargar a finitude estreita da com firmeza cortês à fronteira e mandado de volta para casa, sem
vida para diminuir o quanto se possa a largueza angustiante da mor- mais trâmites. Em outras passagens da mesma obra dá-se a enten-
te. Mais ainda, segundo Santayana, a arte jamais precisou de uma der que um tratamento parecido também seria reservado a outros
base ou motivo prático nem de uma função intelectual, social ou re- artistas ... começando por certos arquitetos de tendências "moder-
ligiosa. Em sua obra principal sobre esse tema, O sentido da bele- nas" para sua época. E o que para nós, hoje, é mais escandaloso ain-
za, ele afirma que "nada a não ser o bom da vida entra na textura da: em As leis, não só se preconiza a censura de obras de arte por
do belo. O que nos encanta no cômico, o que nos incita no sublime razões políticas como até se dão normas bastante detalhadas para
aplicá-la do modo mais eficaz. Será preciso lembrar que quando
Platão fala de poetas e outros artistas não está se referindo a gente
I. Le form e de! bel!o, de R. Bodei, I! Mulino, Bolonha.
medíocre ou movida apenas por baixos interesses comerciais - como
174
175
os que hoje se denunciam tão reiteradamente -mas a gênios como vro maravilhoso, O fogo e o sol, em que a notável romancista e pen-
Homero, Ésquilo, Sófocles, Fídias, Policleto, etc., ou seja, aos cria- sadora irlandesa Iris Murdoch estuda com argúcia o "caso" platôni-
dores que formaram o que, com a perspectiva dos séculos, nos pa- co. Em seguida acompanharemos em parte sua análise, citando em
2
rece uma Idade de Ouro artística da humanidade? certos momentos alguns trechos relevantes dessa obra •
Não foi Platão o único apaixonado pela beleza (e de certo Vamos começar esclarecendo que Platão desconfia dos artistas
modo, sem dúvida, ele mesmo também artista, pois seus diálogos e nos previne contra ele porque está convencido de sua força, ou
são obras-primas da literatura universal cujo prestígio foi constan- seja, de sua capacidade de sedução. Se a arte fosse apenas uma tri-
te desde vinte e tantos séculos atrás) que fustigou, ou pelo menos vial perda de tempo, Platão provavelmente não lhe teria dedicado a
menosprezou, as realizações da beleza artística, a primeira em que menor atenção crítica. Onde reside a "força" dos artistas? Sem dú-
provavelmente nós pensamos agora quando se diz que alguém é vida em sua habilidade de produzir prazer, que, ao lado da dor-
"amante da beleza" ou que tem "bom-gosto estético". Também para como já dissemos -, é o instrumento por excelência da formação
Kant o protótipo da verdadeira beleza é o espetáculo do natural, e social das pessoas. Quem é dono dos mecanismos de prazer tam-
ele vê os artistas com certa desconfiança, no máximo concedendo bém controla, pelo menos em grande parte, a educação da cidada-
que alcançam de vez em quando essa "beleza aderente" ou acres- nia: portanto, é melhor que esses instrumentos estejam em boas
centada, de categoria nitidamente inferior. Rousseau detestava o mãos. Nesse sentido, Platão não acha que os artistas sejam candi-
teatro, que ele gostaria de ter visto completamente erradicado dare- datos idôneos a educadores. Os mais perigosos de todos são os que
pública de Genebra na qual vivia, e em certas ocasiões parece con- se ocupam em descrever os sentimentos, paixões e destinos huma-
siderar todas as artes uma forma de decadência da qual os cidadãos nos, ou seja, os poetas épicos ou os dramaturgos (sem a menor dú-
vida, hoje em dia Platão incluiria nessa categoria os romancistas e
com melhor saúde democrática fariam bem em se afastar. E um ar-
os criadores do cinema), uma vez que nada exerce maior sedução
tista tão excepcional do romance como Leon Tolstói escreveu pági-
sobre os seres humanos do que a representação, por mais fictícia e
nas violentas contra ninguém menos do que Shakespeare (do qual
caprichosa que seja, do comportamento vital de nossos semelhan-
por certo Wittgenstein também não gostava), considerando-o repre-
tes. Qualquer pessoa minimamente adestrada no uso da razão pode
sentante de um tipo de arte que corrompe a retidão moral e religio-
descobrir as falhas ou as armadilhas de uma argumentação teórica
sa de suas vítimas. Inclusive um esteta tão refinado como Santaya-
(se a maioria parece incapaz de fazê-lo é simplesmente porque não
na observou em sua última obra, Dominations and Powers [Domi-
presta atenção aos raciocínios), mas por outro lado um bom artista
nações e poderes], que "um genuíno amante do belo poderia nunca pode tornar "credível" e até admirável qualquer tipo de vida, até
entrar em um museu".
para o mais sofisticado dos espectadores ... sem falar de sua influên-
Vamos nos concentrar, porém, nos argumentos antiartísticos
cia sobre o vulgo!
de Platão, os mais importantes não apenas pela excepcionalidade Mas por que os dramatizadores artísticos da vida humana exer-
incomparável do personagem como também porque, de um modo cem, em geral, uma influência mais perniciosa do que benéfica?
ou de outro, Rousseau, Tolstói e os demais - inclusive os nazistas Porque, segundo Platão, a arte costuma aceitar acriticamente as
que perseguiram as obras de arte "degeneradas", o Taliban que aparências, em vez de questioná-las: ou seja, porque o artista gosta
proíbe no Afeganistão a música e quase todo o cinema americano, sobremaneira dessas aparências que também fascinam o público
ou aqueles que exigem menos violência e maior moralidade nos em geral, em vez de apreciar e promover as verdades racionais sub-
programas de televisão - repetem, sabendo ou sem saber, boa par-
te da argumentação platônica. Por que Platão queria desterrar os ar-
tistas de sua cidade ideal? Essa pergunta serve de subtítulo a um li- 2. El fuego y el sol, de I. Murdoch, Fondo de Cultura Económica, México.

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jacentes a elas e que as desmentem, verdades das quais só se ocupam de arte, só se opõe à arte demasiado individualista e pessoal, à dos
os filósofos ... isto é, os autênticos educadores. Fantasiar sobre coi- grandes criadores; em contrapartida não faz objeções ao que hoje
sas inverossímeis é muito mais "divertido" do que estudar a essên- chamaríamos de arte "popular", os artesanatos tradicionais e a mú-
cia imutável do real, sóbria e rigorosa como a geometria. Mais gra- sica tonificante que desperta sadias emoções patrióticas ou religio-
ve ainda: como o poeta ou o dramaturgo (em nossos dias também o sas - ou seja, as manifestações nas quais o coletivo prima sobre a
romancista, o diretor de cinema, etc.) querem antes de tudo agradar idiossincrasia subversiva de algumas subjetividades com tendência
a sua clientela e causar prazer à maioria, eles se concentram com à introspecção. Em nome da harmonia unânime da sociedade deve-
deleite nas biografias de pessoas más "porque o homem mau é múl- se censurar o que um certo tipo de arte tem de desagregador. Será
tiplo, divertido e extremo, ao passo que o homem bom é tranqüilo preciso sublinhar que em nosso século também existiram e existem
e sempre o mesmo". Em matéria de diversão, a ética está em des- afirmações semelhantes, embora sempre a serviço de doutrinas po-
vantagem diante da estética. Por quê? Ora, porque sabemos de an- líticas pouco desejáveis pelos partidários da liberdade pessoal?
temão como devem ser as pessoas decentes - sua atuação é regida Mas a pretensão platônica de opor a beleza do fingimento ar-
por princípios, ou seja, por normas que conhecemos mesmo antes tístico à beleza da verdade filosófica não é de modo algum inatacá-
de conhecer essas pessoas - , ao passo que os maus são variados em vel. Embora Platão tenha tido seguidores de destaque, Aristóteles e
sua transgressão e surpreendentes. Só há algumas maneiras de se outros muitos filósofos também consideráveis pensaram de modo
portar bem, ao passo que as maneiras de se comportar mal são inu- muito diferente, sustentando que as obras dos grandes artistas não
meráveis; essa é a razão pela qual a ética - que não faz outra coisa são um obstáculo para se chegar ao verdadeiro conhecimento da
senão lembrar sempre de novo o que é fundamental - é "chata", ao realidade, mas, ao contrário, são imprescindíveis para desenvolvê-
passo que a estética - que pretende antes de tudo a novidade e o in- lo integralmente. Com efeito, a seu modo os artistas também explo-
sólito - é moralmente suspeita. Tal como resume Murdoch, "o ar- ram novas vias de compreensão do que existe. Sem dúvida, partem
tista não pode representar nem elogiar o bom, mas apenas o demo- de sua maneira peculiar de sentir e dos fantasmas de sua interiori-
níaco, o fantástico e o extremo; ao passo que a verdade é tranqüila, dade, mas será que podemos excluir o subjetivo da compreensão to-
sóbria e limitada; a arte é falseamento, na melhor das hipóteses tal da realidade, como se se tratasse meramente de uma ilusão su-
uma mimese (imitação) irônica, cuja falsa 'veracidade' é um astuto pérflua? Mesmo as obras de arte que apostam no fantástico também
inimigo da virtude".
desenvolvem nossa percepção das possibilidades do real e ofere-
Para Platão, há uma clara contraposição entre a arte e o verda- cem suas alternativas ao que é vigente.
deiro conhecimento, ou seja, a filosofia. Na arte, predomina antes Não é verdade que os melhores artistas pretendem apenas di-
de tudo a personalidade feiticeira do artista, ao passo que a filosofia vertir ou agradar às paixões menos nobres do público: antes de
aspira à realidade impessoal tal como é em si mesma, para além dos tudo, aspiram a ajudá-lo a melhorar seu conhecimento. Leonardo
arrebatamentos e caprichos humanos. Os artistas conseguem, graças da Vinci disse que a missão da pintura e da escultura era chegar a
à sua capacidade de sedução, objetivar universalmente sua mera sub- saper vedere, a saber ver melhor. E por acaso, de fato, não desco-
jetividade, ao passo que a tarefa do filósofo é apropriar-se subjetiva- brimos novos matizes das coisas, das formas e das cores graças ao
mente, por meio do conhecimento, da universalidade objetiva. A be- próprio Leonardo, a Michelangelo, a Velázquez ou a Picasso? Por
leza a que o filósofo aspira é a alegria que produz em nós a realida- acaso os poetas, dramaturgos e romancistas não enriqueceram de-
de quando a compreendemos com precisão matemática depois de nos cisivamente a compreensão da vida humana, do que significa habi-
termos purificado de nossos desejos, não o estremecimento doen- tar como humanos a complexidade do mundo? Sem dúvida essa vi-
tio que embala nossas paixões. Platão também não descarta todo tipo são que eles nos proporcionam nem sempre é plácida e tranqüiliza-

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dora, mas nisso mesmo reside seu maior mérito. Eles nos desassos- lavra, ela também é incapaz de afirmar o caráter e de iluminar o in-
segam porque nos abrem os olhos, não por simples desejo de nos telecto. A cultura estética, pois, deixa na mais completa indetermi-
ofuscar. Como observa acertadamente Iris Murdoch, "o bom artis- nação o valor de um homem ou sua dignidade, na medida em que
ta nos ajuda a ver o lugar da necessidade na vida humana, o que se esta só pode depender dele mesmo; a única coisa que a cultura es-
deve suportar, o que fazer e desfazer, e a purificar nossa imagina- tética consegue é colocar o homem, por natureza, em situação de
ção até contemplar o mundo real (geralmente velado por medos e fazer por si mesmo o que queira, devolvendo-lhe completamente a
ansiedade), incluindo o terrível e o absurdo". Às vezes também o liberdade de ser o que deva ser." A função da beleza, quer provenha
obsceno, o contraditório e o sinistro, embora isso geralmente abor- da admiração da natureza ou da criação artística (especialmente es-
reça os bem-intencionados guardiães da decência pública. ta última), é puramente emancipadora: serve para revelar ao ho-
Talvez o pensador que se opôs mais decisivamente às teses pla- mem o que há de aberto e até o que há de terrível em sua liberdade.
tônicas (embora, diga-se, cerca de vinte e quatro séculos mais tar- A grande originalidade de Schiller é relacionar a vocação artís-
de!) tenha sido Friedrich Schiller. Em suas Cartas sobre a educa- tica com urna dimensão da atividade humana habitualmente consi-
ção estética do homem, esse discípulo pouco ortodoxo de Kant rei- derada trivial e de categoria inferior: o jogo*. Só alguns pré-socráti-
vindica com ardor romântico a importância de cultivar a sensibili- cos, como Heráclito (veja-se capítulo cinco), ousaram comparar a
dade estética para conseguir cidadãos autênticos, capazes de viver suposta "ordem" do universo como os resultados de um jogo infan-
e participar numa sociedade moderna não autoritária. No fim das til, embora nesse caso as "crianças" que jogam pudessem ser os deu-
contas, para Schiller "a obra de arte mais perfeita possível é o esta- ses ou o acaso. A atividade lúdica não tem outro objetivo, não se
belecimento de uma verdadeira liberdade política" 3, projeto que propõe outro modelo nem obtém outro proveito além de seu próprio
sem dúvida só teria contado com a aprovação de Platão depois de cumprimento: assim também o mais grave, isso que chamamos de
infinitas reservas e ressalvas ... se é que teria a felicidade de a ob- "cosmo". Certamente Platão desconfiava dessa metáfora perigosa-
ter! Para Schiller, a formação estética complementa decisivamente mente anárquica. Schiller volta a ela, situando a diferença específi-
o preparo moral e intelectual do cidadão e o dispõe para decidir li- ca do humano justamente na capacidade de jogar: "O homem só
vremente por si mesmo como possuidor não apenas de razão como joga quando é homem no pleno sentido da palavra, e só é plenamen-
também de sentidos corporais não menos nobres do que ela. A arte te homem quando joga." Os filhotes dos animais superiores e as
certamente não nos indica o que temos que fazer - nesse caso seria crianças muito pequenas, mais do que "jogar" propriamente, entre-
mera sucursal plástica ou narrativa da moral -, mas nos agita e pu- têm-se prazerosamente na realização dos gestos e movimentos cor-
rifica tonificantemente, para que sejamos o que queremos chegar a porais que depois irão necessitar para cumprir as tarefas da vida
ser. Pegando o touro pelos chifres, Schiller responde vigorosamen- adulta. O verdadeiro "jogo" começa quando se constitui um mundo ,
te a Platão, assim: "É preciso dar razão aos que dizem que o belo e simbólico auto-suficiente e auto-referente no qual se desenvolve
o estado em que o belo põe o espírito são inteiramente indiferentes uma atividade que dá a si mesma as devidas normas e sanções. Esse
com relação ao conhecimento e à convicção moral. Eles têm razão, mundo tem a ver, é claro, com o da vida cotidiana, que de certo
de fato: a beleza absolutamente não produz um resultado particular modo ele imita e reflete, mas também desvencilha-se de suas nor-
e não realiza nenhum fim, nem intelectual nem moral; não nos re- mas e descarta as premências mortíferas da necessidade. Segundo
vela uma verdade, não nos ajuda a cumprir um dever; e, numa pa-

* Em espanhol, juego e o verbo correspondente jugar incluem todas as acep-


3. La educación estética dei hombre, de F. Schiller, trad. esp. de M. García ções de "jogo" e "jogar" no português. Neste caso, no entanto, o sentido se aproxima
Morente, co!. Austral, Madri. [Traduzido a partir do texto citado pelo autor.] mais do sentido de "brincar". (N. da T.)

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Schiller, nesse âmbito do jogo é que se move o artista: joga com a
beleza do real e transforma em realidade primordial a própria bele-
za como tesouro que vai descobrindo e ao mesmo tempo forjando
nossa liberdade. O jogo da arte nos converte em donos de um mun-
do próprio e assim torna manifesto para nós um destino social e tam-
bém pessoal para além das coações naturais ou legais, no qual tere-
mos que decidir sem culpas nem desculpas o que queremos vir a ser.
Em várias ocasiões nos referimos anteriormente aos artistas,
sobretudo aos maiores, chamando-os de criadores. É um termo que
não se costuma aplicar aos cientistas ou aos esportistas, por mais
notáveis que sejam. Por que essa diferença de tratamento? Em que
sentido dizemos que um artista é um "criador"? Sem dúvida, não
parece que seja "criador" tal como se supõe que Deus o seja, pois
nem o maior artista pode tirar sua obra do nada. Eles sempre utili-
zam materiais prévios (tintas, mármore, uma língua, as notas musi-
cais ... ) e se apóiam mais ou menos no que fizeram seus antecesso-
res, mesmo que seja para rejeitá-lo e buscar novos caminhos. Mas
um pouco "divinos" eles são, pois sua obra não explica sem eles -
sem sua vocação e personalidade -, ou seja: se cada um deles não
tivesse existido, o que fizeram nunca teria chegado a ser. Explico:
se Colombo não tivesse chegado em 1492 ao continente americano,
cedo ou tarde outro teria feito essa viagem partindo da Europa, as-
sim como os vikings a realizaram em épocas mais remotas; se Ale-
xander Fleming não tivesse descoberto a penicilina, cedo ou tarde
outro sábio teria descoberto as propriedades curativas do fungo mi-
lagroso; e o recorde dos cem metros rasos foi batido muitas vezes
e sem dúvida o será de novo, mais cedo ou mais tarde. O descobri-
dor, o cientista e o campeão desportivo são os primeiros a chegar
onde ainda não se havia conseguido ... mas em terrenos já existen-
tes que se oferecem previamente à curiosidade e à habilidade de
qualquer um. Em contrapartida, se Mozart ou Cervantes tivessem
morrido no berço, ninguém teria composto A flauta mágica nem
contado a história de Dom Quixote. Não nos faltariam músicas ou
romances, mas não teríamos essa música ou esse romance. Pode-
mos imaginar o telefone sem Graham Bell ou a teoria da relativida-
de sem Einstein, mas não As meninas sem Velázquez. Dizemos que
é "criador" quem fabrica algo que sem ele nunca teria chegado a

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ser, quem traz ao mundo algo - grande ou pequeno - que sem ele
nunca poderia ter existido exatamente desse modo e não de outro
mais ou menos parecido. As obras de arte não são possibilidades ou
qualidades realizadas do que já existe previamente, mas brotam da
própria personalidade dos artistas que as realizam. Parecem-se com
eles, refletem tanto a forma de ser de quem as faz como a realida-
de do mundo de que passam a fazer parte. O artista não é o primei-
ro a descobrir ou conseguir algo, mas é o único que poderia "criá-
lo" a seu insubstituível modo e maneira ...
Mas a obra realizada pelo artista tem que ser sempre "bela" no
sentido de "bonita", ou seja, o contrário de "feia"? Tem que ser fun-
dada explicitamente na harmonia e no equilíbrio entre as partes, na
perfeição do conjunto, ou pode também acolher o dissonante e até o
disforme? A santíssima trindade platônica é formada pelo Bem, pela
Verdade e pela Beleza e pertence a uma ordem ideal que está além
deste mundo; mas a tríade infernal que, por outro lado, parece pre-
sidir a nossos conflitos terrenos é constituída pelo Mal, pelo Falso e
pelo Feio. É obrigação do artista aspirar apenas a mostrar-se devoto
da primeira trindade ou sua tarefa também inclui dar-se conta e nos
dar conta da segunda? Tomemos por exemplo o caso de Giorgione,
um dos pintores mais excelsos do Renascimento italiano. Em mui-
tas ocasiões ele reproduziu a formosura de figuras humanas bonitas,
no entanto também pintou o retrato implacavelmente fiel de uma
velha desdentada e decrépita que devia ter sido bonita na mocida-
de, pois o quadro se intitula Cal tempo ("Com o tempo"). É um
quadro que representa não a beleza mas o que o tempo costuma fa-
zer com a beleza. E a velha assim representada não é "bela" sob ne-
nhum ponto de vista, nem tem nada de bonito ou harmonioso a des-
trutiva passagem dos anos que a reduziu a tão triste estado físico.
Então Giorgione traiu seu compromisso artístico com a "beleza"
pintando algo que produz em nós quase repulsa e que pode suscitar
sombrios temores se refletirmos sobre ele? No entanto, eu me atre-
veria a dizer que o quadro é artisticamente "bonito", até infinita-
mente mais belo do que tantas reproduções já batidas de paisagens
melosas ou de alguma Miss Universo na flor da idade. Por quê?
Porque talvez o que em arte se pode chamar de "beleza" - se é
que admitimos que o que a arte pretende é produzir beleza a todo

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custo - tenha pouco a ver, em muitas ocasiões, com o sentimento promessa de felicidade". Porém manter viva a aspiração à harmo-
de agrado ou com a placidez do decorativo. O poeta Rainer Maria nia que encerra essa promessa nos obriga a nos comprometermos
Rilke era da opinião de que a beleza "é aquele grau do terrível que até o final com o mau, o falso e o feio da realidade ainda não re-
ainda podemos suportar". A atração da arte não nos chega sempre conciliada em que vivemos. Na denúncia do que falta vislumbra-se
como uma suave carícia, mas sim, muitas vezes, como uma unha- à contraluz a possibilidade futura do que poderia ser a plenitude.
da. Alain, um pensador contemporâneo que escreveu muito sobre o Sem dúvida o perigo dessa trajetória é cair no meramente chocan-
processo artístico, observa que "o belo não agrada nem desagrada, te ou em formas tão abstrusas de representação estética que requei-
mas nos detém". O efeito estético primordial é fixar a atenção dis- ram a aceitação de dissertações teóricas para digerir o que é senso-
traída que resvala sobre a superfície das coisas, das formas, dos rial ou emocionalmente arbitrário, provocando além do mais uma
sentimentos ou dos sons sem lhes prestar mais do que uma consi- confrontação radical entre os produtos artísticos populares - que o
deração rotineira. Segundo esse critério, é realmente bonito tudo mercado se encarrega de vulgarizar cada vez mais - e a chamada
aquilo em que não há como deixar de nos fixar. Mais do que bus- "grande arte", cada vez mais reservada a uma elite que pode ser
car nossa complacência ou nosso acordo, a arte reclama nossa aten- tanto de entendidos como de simples pedantes.
ção. E ficar atentos pode ser o oposto a nos deixar invadir pelo ime- Esse caminho é reversível? Será que podemos, sem renunciar
diatamente gratificante, como quem entra, depois de um longo dia ao que sabemos, aspirar à volta nostálgica a uma harmonia perdi-
de esforços, num banho bem quente. É antes o contrário, se damos da, que talvez nunca tenha sido como hoje a imaginamos, a partir
razão a outro pensador atual - Theodor W. Adorno -, que em sua de nosso desencanto? Certamente Giorgione tinha razão: também
Estética afirma que "o êxito estético poderia ser definido como a para a beleza, assim como para cada um de nós, assim como para
capacidade de produzir algum tipo de calafrio, como se a pele de todo o real, o tempo passa e se nega a retroceder ou a se deter. O
galinha* fosse a primeira imagem estética". Impressiona-nos o que
tempo .. . mas o que é o tempo? Bem poderia ser essa a questão que
não nos permite passar ao largo, o que nos agarra, nos submete e
encerrasse nossa trajetória teórica pelas perguntas da vida.
nos sacode: a evidência do real, deslumbrante e atroz, que talvez
nunca tivéssemos percebido antes em sua pureza e nudez implacá-
veis. Paradoxo da beleza, que às vezes pode ser experimentada
Dá o que pensar...
como beatitude e outras vezes coino calafrio ...
A trajetória da arte moderna, sobretudo a mais contemporânea,
Quais são os dois instrumentos fundamentais que condicio-
nos confunde com distorções do som e da forma, nos confronta
com o monstruoso, nos familiariza com os dilaceramentos de almas
nam socialmente a nós, os humanos? Por acaso temos outra bio-
sem esperança. No entanto, também através dela podemos sentir o grafia que não a de nossos prazeres e dores? Em que consiste o
frêmito comovedor da beleza e às vezes conseguimos, até a partir "prazer", além da mera sensação fisica agradável? Além dos evi-
de um radical desassossego, vislumbrar certas formas de serenida- dentes prazeres da sensação e da satisfação de necessidades fisi-
de. Traição à beleza? Talvez muito ao contrário: uma tentativa de cas, há também prazeres da razão? Podemos dizer que prazeroso
não a oferecer muito barata, fácil e acessível, ou seja, enganosa. O não é apenas o confortável ou o útil mas também o "bom"? Que
romancista Stendhal disse, memoravelmente, que "a beleza é uma tipo de prazer produz a beleza e em que se diferencia dos outros
prazeres mencionados? A beleza é prazerosa por ser "útil" ou
"boa"? Por que Kant disse que o apreço da beleza é um "interes-
* No espanhol, piei de gallina, expressão correntemente empregada para de- se desinteressado"? Qual é a diferença kantiana entre a beleza
signar "arrepio". (N. da T.) "vaga ou livre" e a beleza "aderente"? Os valores estéticos sem-

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pre estiveram radicalmente separados dos valores da vida? Qual é Capítulo dez
a posição de Santayana sobre a relação entre o belo e o bom? É
possível valorizar a beleza e desconfiar da "beleza" produzida pe- Perdidos no tempo
los artistas ou menosprezá-la? Ocorreu que grandes artistas des-
confiassem das obras de arte? Por que Platão quis desterrar os
poetas e demais artistas de sua cidade ideal? Platão diria que um
"bom" artista é o mesmo que um artista "bom "? Qual é a diferen-
ça platônica entre a tarefa educacional do artista e a do filósofo?
Qual foi a resposta de Schiller às teses platônicas? Em que o jogo
e a arte se parecem ? A educação artística pode favorecer a prepa-
ração do cidadão para a liberdade política? Por que chamamos de
"criadores" os artistas e não os cientistas? O artista deve sempre
buscar a beleza ou às vezes também tem que representar a feiúra e
até o mal? É 'feio" ou "mau", esteticamente falando, representar
o "mau" ou o 'feio "? Por que a arte moderna e contemporânea Perguntemos a qualquer um como é sua vida cotidiana. Talvez
parecem ter abandonado o conceito tradicional de "beleza"? Em ele opte por responder enumerando suas diversas atividades: "Às
que sentido a beleza pode ser uma promessa de felicidade? Como oito, me levanto; às oito e meia, tomo café da manhã; às nove, co-
a beleza nos "detém " e que tipo de "calafrio" ela produz? meço a trabalhar, etc." Outro pode preferir um estilo mais impres-
sionista: "Não tenho tempo para nada!" Haverá os que preferem a
confidência: "Estou saindo com uma garota há dois meses e, ago-
ra, finalmente sou feliz ." Com certeza também ouviremos alguns
nostálgicos: "Não faço outra coisa senão lembrar de quando éramos
pequenos e brincávamos na praia." Se o interrogado for um velho ,
deveremos nos preparar para o suspiro: "Eu levo a vida sem pressa,
para o tempo que me resta!. .." E sempre: "Há dez anos não tenho
aumento de salário, desde que o Franco morreu a gente está respi-
rando melhor, já não somos tão jovens como antes, amanhã come-
ça a primavera!, etc." Ninguém conseguirá falar de si mesmo, de
sua vida, do que quer ou teme, do que o cerca, sem se referir ime-
diatamente ao tempo. Sem indicações cronológicas de algum tipo
somos ininteligíveis e inexpressáveis.
Portanto, seria de supor que nada nos é tão conhecido e fami-
liar quanto o tempo, do qual lançamos mão constantemente para fa-
lar de nós mesmos, do que fazemos e do que acontece conosco. No
entanto, com o tempo acontece o mesmo que com o computador, o
fax, o vídeo e tantos outros aparelhos que temos em casa: sabemos
como utilizá-los e já não podemos viver sem eles, mas se alguém
nos perguntar por que funcionam e em que consistem (o que são)

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só nos restará encolher os ombros. No entanto, diferentemente de seu "agora", o que consigo é comemorar um "agora" que já não
nossa ignorância eletrodoméstica, o desconcerto quanto ao tempo está ou prevenir um "agora" que ainda não está. Paradoxalmente, o
vem de muito antigamente ... como não poderia deixar de ser! Tal- momento passado que já não é e o momento futuro que ainda não
vez tenha sido uma mente tão preclara e tão sincera como a de san- é parecem mais manejáveis do que o instante presente, que se des-
to Agostinho, por volta do início do século V de nossa era, que o vanece enquanto se apresenta, ou melhor, enquanto tento me fixar
expressou de um modo que continua sendo estritamente válido: "O nele. Vemos o presente vir e o vemos afastar-se mas nunca o vemos
que é, pois, o tempo? Sei bem o que é, se não me perguntam. Mas, estar. E como podemos determinar o que "é" o que nunca "está"?
quando quero explicá-lo a quem me pergunta, não sei. Porém me Vamos tentar de novo. O tempo é um potro selvagem, difícil de
atrevo a dizer que sei com certeza que se nada acontecesse não ha- montar, porque mal queremos nos dar conta ele nos derruba e o ve-
veria tempo passado. E, se nada existisse, não haveria tempo pre- mos afastar-se corcoveando. Mas não nos devemos deixar enganar
sente" (Confissões, XI, 14). pela redução ao infinitesimal da atualidade vivida. Segundo Zenão
Diz Agostinho de Hipona: se me perguntam. Mas neste como de Eléia, o veloz Aquiles nunca poderá alcançar a vagarosa tartaru-
em tantos outros casos da reflexão filosófica é preciso entender "se ga, por menor que seja a vantagem que ele lhe conceda: se a distân-
me pergi.mto", pois o diálogo com os outros não é mais do que a cia que os separa é, por exemplo, de vinte centímetros, Aquiles le-
ocasião ou a provocação para dialogar consigo mesmo, ou seja, vará um tempo curtíssimo para percorrê-los; nesse tempo, a tarta-
pensar. Dentro de cada um estão todas as vozes, e também é certo ruga irá um pouco adiante, estabelecendo uma nova separação en-
que pensamos entre todos (lembre-se do que já dissemos no capítu- tre eles; Aquiles também a percorrerá com extrema velocidade, mas
lo segundo). Pois bem: de modo que eu sei o que é o tempo enquan- sempre empregará nessa viagem tão curta alguma fração de tempo,
to não me perguntam nem me pergunto, ou seja, enquanto não pre- aproveitada pelo quelônio obstinado para se distanciar rastejando:
ciso demonstrar que o sei. Depois começam as dificuldades e o tão perto, tão longe, o animal fugitivo permanece lentamente ina-
grande enigma. cessível... E, no entanto, maldição, sabemos que Aquiles alcança a
O que o tempo tem de "enigmático"? Por que ele é tão difícil tartaruga, embora não consigamos explicar de maneira convincen-
de pensar? Porque para pensar alguma coisa é preciso fixar-se nela te como ele se vira para cumprir essa façanha. Do mesmo modo, sa-
e fixá-la, mas o tempo não se deixa fixar, ele é inapreensível, não bemos que vivemos o presente e que "agora" é exatamente agora,
há maneira de vê-lo "quieto" ... nem mesmo imaginariamente! Su- nem antes nem depois. Sabemos, é claro; por outro lado, "pensá-lo"
ponhamos que tento me fixar no tempo conforme ele passa, deten- já é mais complicado ... como reconhecia o bom santo Agostinho.
do o momento transitório tal como o Fausto de Goethe quis orde- É surpreendente, conforme Hegel já disse muito bem, que aqui-
nar um dia a um certo instante: "Detém-te, és tão bonito ... !" Mas lo de que aparentemente podemos ter mais certeza, o que temos
em que momento poderei me fixar? Pois neste mesmo: agora! No mais à mão, o que desafia o cepticismo, o que somos tentados acha-
entanto, esse "agora" já passou, já não é "agora" mas "antes", "um mar de "concreto"- "agora", "aqui", "isto" ... - esvazia-se comple-
instante atrás". Em suma, trata-se de um "agora" velho, no qual tamente de conteúdo quando tentamos submetê-lo ao pensamento.
sem dúvida nasceram e morreram milhares de pessoas, carícias se Temos absoluta certeza de estar aqui, mas acontece que todos os
fizeram, sonhos foram sonhados, promessas foram trocadas, co- "aqui" se parecem tanto que logo necessitam ser mais bem defini-
nhecimentos foram adquiridos e esquecidos, etc. Foi mas já não é: dos. À pergunta "onde?" não basta responder "aqui", pois essa res-
passou. Em que outro "agora" eu poderia me fixar? No que está posta é uma indicação subjetiva, e - como já dissemos no capítulo
prestes a chegar? Mas esse ainda não é e seria insólito tentar agar- segundo - a tarefa racional consiste em tentar combinar o ponto de
rá-lo antes que ele chegasse. Quando pretendo "fixar" o tempo em vista meramente subjetivo com o objetivo. Portanto, terei que ten-

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tar responder alguma coisa mais: "Estou aqui, no meu quarto, em sem que nenhuma mudança possa afetá-la. Diremos que é eterna?
tal rua de tal cidade, em tal país, em tais coordenadas, etc." Confor- Para evitar essa palavra de linhagem teológica, talvez seja melhor
me for ganhando conteúdo, a ampliação de meu "aqui" irá perden- dizer que ela é "intemporal". As verdades lógicas ou matemáticas
do certeza: talvez eu me engane de rua ou de província, de latitude estão "fora" do tempo, embora delas se ocupem seres com os quais
ou de longitude, mas nunca poderei me enganar ao dizer simples- o tempo tem muitíssimo a ver. Demais, como diremos em seguida.
mente "aqui". O mesmo acontece quando afirmo "isto", enquanto, Conscientes do tempo e da dificuldade para pensá-lo, nós, hu-
por exemplo, aponto com o dedo ou- melhor ainda - dou umas ba- manos, concebemos maneiras muito diversas de estabelecer esse
tidinhas no objeto indicado. Não há dúvida de que "isto é isto"; passar que nunca se detém. Ou seja, diversas formas de medir o tem-
mas, para pensar adequadamente o que é isto e por que não é aqui- po. Mas o que estamos "medindo" quando medimos o tempo? Co-
lo outro, devo dizer que se trata de uma mesa, feita de nogueira, fei- mo "medir" algo que nem mesmo sabemos o que é? Medir o tem-
ta há cinqüenta anos por um artesão chamado ... etc., uma série de po equivale mais ou menos a determinar o prazo das mudanças que
noções que vão enchendo "isto" de conteúdo, embora também au- nos afetam, a nós, a nossas atividades e ao mundo em que habita-
mentando as possibilidades de dúvida ou erro. Nunca irei falhar se, mos. Mas, como essas mudanças podem ser de muitos tipos e como
por querer ser concreto, disser o mais abstrato: "Isto é isto." Mas, as medidas que lhes aplicamos correspondem a critérios muito di-
quando quero ser concreto de verdade para explicar a alguém au- ferentes, é impossível, na verdade, falar de um só "tempo": teremos
sente o que tenho diante de mim, aí é que são elas. que nos resignar a que haja diversos "tempos", conforme as mudan-
Seja como for, pelo menos "aqui" ou "isto" continuam em seu ças observadas e os padrões de medição utilizados. E também con-
lugar enquanto procuro passar da mera subjetividade ao intersubje- forme a urgência social de controlar certas mudanças acima de to-
tivo objetivado. O "agora", em contrapartida, resiste a essa determi- das as outras.
nação, perdendo-se imediatamente quando pretendo dar conta dele. Os filósofos, e junto com eles as pessoas comuns, tendemos a
Para fixar tanta mobilidade, deverei vincular o instante buscado a pensar que a intuição do tempo que passa é algo "natural" que ocor-
outro movimento de tipo diferente que sirva como referência para re do mesmo modo em todos os seres humanos. É uma forma de
meu interlocutor: "Quando será agora?" Resposta: "Quando eu bai- pensamento "atemporal", "a-histórica", que peca justamente contra
xar o braço, quando o ponteiro do relógio chegar ao doze, quando o próprio conceito que tenta estabelecer. Um autor que se dedicou
avistarmos o barco que está voltando de Delfos (assim foi determi- profundame"nte a refletir sobre a antropologia e a sociologia dos
nado o 'agora' da execução de Sócrates), quando o cavalo cruzar costumes, Norbert Elias, demonstra de maneira convincente que
aquele poste, quando a menina tiver sua primeira menstruação, costumamos absolutizar como "naturais" as formas de temporali-
quando o ditador morrer, etc." Como Aristóteles já viu em sua Físi- dade que na realidade correspondem a nossa cultura e a nossa épo-
ca, a noção de tempo está intrinsecamente ligada à do movimento ca histórica 1• Os grupos humanos se orientaram temporalmente de
dos seres, entendendo-se esse termo em toda a sua extensão: deslo- maneira muito diferente. Estabelecer os ritmos e prazos do tempo
não responde a uma curiosidade meramente teórica, mas à necessi-
camento de um lugar para outro, mudança de estado (por exemplo,
dade de marcar claramente o momento oportuno de realizar certas
alta ou baixa de temperatura, mudanças de cor), nascimento e mor-
atividades sociais (colheitas, caçadas, rituais religiosos) e também
te, envelhecimento, aumento ou redução, etc. O tempo passa por-
ao desejo de sincronizar tarefas que devemos executar em comum
que as coisas passam ou às coisas acontecem outras coisas. Onde
com os outros. A rede de precisões temporais em que nos movemos
nada possa acontecer não se poderá falar de "tempo". Por exemplo,
na aritmética: à pergunta "quando?" não podemos responder "quan-
do dois mais dois forem quatro", porque essa relação existe sempre, l. Sobre e/ tiempo, N. Elias, Fondo de Cultura Económica, México.

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hoje tem a malha muito fina, mas para Aristóteles ou santo Agosti- tempo de precisão angustiante mas também muito mais "privatiza-
nho coisas como os minutos ou os segundos não contavam intelec- do" do que em outras coletividades. Não são tanto os marcos cole-
tualmente ... sem falar dos nanossegundos da física atual! tivos mas as relações entre particulares que se vêem submetidas a
Para determinados grupos humanos se orientarem temporal- horários estritos. Quanto ao mais, cada um se orienta temporalmen-
mente bastou dizer "quando fazia frio"; outros falam de "inverno" te a seu gosto: quanto mais moderna é uma grande cidade, tanto
e depois de '~aneiro" ou "fevereiro", de meses, dias, etc. Certas co- mais fácil, por exemplo, é comer ou fazer compras a qualquer mo-
munidades orientaram-se pelas fases da lua (suponho que a alter- mento. Mesmo assim, persistem alguns marcos coletivamente sig-
nância "dia" e "noite" seja a mais comum e antiga de todas as re- nificativos, como o final do ano ou o início das férias de verão, e
gras temporais), pela chegada das chuvas, pela subida das águas certas convenções são carregadas de significados transcendentes:
fluviais ou das marés, até chegar aos atuais cronômetros de preci- basta pensarmos nas elucubrações que se têm feito em torno de
são. Às vezes, um acontecimento histórico (uma batalha, o nasci- uma vicissitude do calendário tão fortuita como a próxima mudan-
mento de Jesus Cristo) basta para estabelecer um sinal indicativo no ça de milênio* ...
fluxo temporal. Depende das atividades que o grupo deva cumprir, Sejam quais forem as medidas de tempo que adotemos, não
da memória compartilhada que ele guarde de seu passado ou do ní- podemos deixar de pensar que existe, além e à margem delas, um
vel científico das observações que realize no mundo natural. O tempo independente de qualquer convenção humana. Isto é, certas
camponês ou o caçador não necessita da mesma exatidão na deter- mudanças naturais cumprem seus prazos seja qual for nossa forma
minação do instante que o operário industrial da sociedade moder- de nos orientarmos socialmente no temporal. Os astros levam um
n<;t. A medida do tempo é sempre um ponto de encontro social no determinado tempo para percorrer suas órbitas e as células têm ins-
qual membros do grupo se harmonizam de acordo com determina- crita sua própria data de caducidade, embora ninguém a possa esta-
dos objetivos compartilhados: às vezes basta que os campos flores- belecer precisamente: não é por carecer de uma medida exata da
çam ou que os pássaros voltem (o que nem sempre ocorre em pra- volta da Terra em torno do Sol que nenhum homem chega a viver
zos idênticos), outras vezes devem estabelecer recorrências preci- mil anos ... Por mais arbitrários que sejam nossos padrões de orien-
sas que tenham a ver com mecanismos abstratos e não admitam al- tação temporal, em todos eles certos acontecimentos sempre e irre-
teração ou exceções, como o tempo de nossos relógios mecânicos. versivelmente precedem outros, como o nascimento de um pai pre-
Em todo caso, as formas de medir o tempo são convenções ne- cede o de seus filhos ou a semeadura precede a colheita. Embora a
cosmologia atual relativize nossas formas de medir o tempo a esca-
cessárias para estabelecer determinadas unanimidades socialmente
la cósmica e até se fale de uma "criação" constante de espaço e
imprescindíveis. Sem medidas de tempo comuns (assim como sem
tempo de acordo com a expansão do universo, ninguém sustenta'em
parâmetros comuns para medir comprimentos, quantidades ou pe-
favor dessa perspectiva que o surgimento do Sol tenha sido poste-
sos) o funcionamento do grupo social - baseado na cooperação e
rior ao do resto dos planetas ou que os mamíferos tenham antece-
no intercâmbio - se torna impossível. Certos grupós só requerem
dido os dinossauros na evolução. Além do tempo "social", estabe-
medidas temporais muito frouxas, em outros exige-se a maior exa-
lecido por nossas necessidades coletivas e pelas formas de medição
tidão; nas sociedades tradicionais, o importante é determinar os mo-
que correspondem a elas, deve haver algo como outro tempo "na-
mentos de reunião de toda a coletividade, nas modernas importa so-
tural" que às vezes serve como orientação do primeiro mas que,
bretudo a forma pela qual cada um organiza suas atividades parti-
seja como for, transcorre de modo independente às normas huma-
culares. Sem dúvida esses padrões de medida caracterizam o tom
particular da relação com o tempo dentro de um grupo. Nas socie-
dades tecnicamente desenvolvidas, por exemplo, vivemos em um *Cabe lembrar que este livro é de 1999. (N. da T.)

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nas. Só em fantasias subversivas, como Do outro lado do espelho, do e futuro são reais, ou seja, onde podem ter algum tipo de efeitos
de Lewis Carroll, acontece que primeiro se grite de dor, depois se (creio que podemos chamar de "real" apenas o que afeta de algum
comece a sangrar e finalmente se sofra a picadura em um dedo ... modo outras realidades, nunca aquilo de que não saberíamos mos-
Conforme já dissemos no início, o "agora" que responde à per- trar o modo pelo qual sua existência modifica de fato qualquer ou-
gunta "quando?" pode ser registrado em qualquer uma das três gran- tra coisa existente). Novamente é santo Agostinho que aborda o as-
des zonas que dividem nossa compreensão do tempo: passado, pre- sunto de maneira mais competente: "Também não se pode dizer
sente e futuro. Mas, das três, duas - o passado e o futuro - têm ape- com exatidão que os tempos sejam três: passado, presente e futuro.
nas uma realidade, digamos, "virtual". A vida sempre ocorre no pre- Dever-se-ia dizer mais propriamente que há três tempos: um presen-
sente, e fora do presente nada é inteiramente real, nada tem efeitos te das coisas passadas, um presente das coisas presentes e um pre-
diretos: nenhuma das balas disparadas na segunda guerra mundial sente das coisas futuras. Essas três coisas existem de algum modo
irá me ferir nem posso me bronzear ao sol do verão do ano 2005. O na alma, mas não vejo que existam fora dela. O presente das coisas
trocista Lewis Carroll inventou uma deliciosa geléia que se podia idas é a memória. O das coisas presentes é a percepção ou a visão.
comer qualquer dia, menos hoje: isso equivale a nos deixar literal- E o presente das coisas futuras a espera." 2 Tanto o passado como o
futuro têm efeitos presentes porque estão presentes em nosso pre-
mente com água na boca, pois o que não posso comer "hoje"- qual-
sente. Mutilar o presente da lembrança do passado e da expectativa
quer que seja a data no calendário desse "hoje"- não poderei sabo-
do futuro é deixá-lo sem densidade, sem "substância" ...
rear nunca. Deveríamos então nos desinteressar do passado e do fu-
No entanto, nossa relação com o passado não é simétrica à que
turo para nos concentrar exclusivamente no presente? Fazemos mal
temos com o futuro. Diríamos antes que o que já ocorreu nos afeta
em encher nosso presente com as sombras do passado e as promes-
no presente de modo oposto ao que vai ocorrer, desde que caracte-
sas do futuro? Essa é a opinião de Pascal, severo e lúcido moralis-
rizemos o presente como o momento em que a vida sucede e temos
ta: "O passado não nos deve preocupar, porque dele só podemos la-
que atuar. No passado situa-se o conhecido, que já não podemos
mentar nossas faltas. Mas o porvir deve nos afetar ainda menos,
modificar; no futuro está o desconhecido ainda modificável. Ne-
porque nada tem a ver conosco e talvez nunca cheguemos até ele.
nhuma de nossas ações pode mudar o passado, embora todas pos-
O presente é o único tempo verdadeiramente nosso e que devemos
sam levá-lo em conta; em contrapartida, nada do futuro podemos
usar conforme Deus manda ... No entanto, o mundo é tão inquieto que
dar como favas contadas, ainda que qualquer uma de nossas ações
não se pensa quase nunca no presente e no instante que vivemos,
vá influir em seu devir. Diríamos que as coisas passadas já temos
mas no que viveremos. De modo que sempre estamos empenhados
nas mãos - embora intangíveis -, ao passo que as futuras estão en-
em viver no vindouro e nunca em viver agora" (carta a Koannez,
volvidas na escuridão do mistério, mas admitem e até exigem, para
dezembro de 1656). Não é só em nível individual que os remorsos
se fazer presentes, nossa intervenção. Se nossa condição humana é
do passado ou o desânimo do futuro podem nos estragar o presen-
antes de tudo ativa, parece que o futuro deve contar em nosso pre-
te em que efetivamente vivemos: também vemos que povos, nações
sente mais do que o passado.
ou coletividades sacrificam o presente "agora" empenhando-se em
Contra essa opinião também se podem levantar reservas: à
vingar ou reparar agravos passados ou sacrificam as gerações atuais mais dogmática chamaremos doutrina do destino, e à mais hipoté-
em nome do bem-estar das futuras (por que esse bem-estar incerto
deveria ser preferível ao de nossos contemporâneos?).
Se o passado e o futuro oprimem de tal modo nosso presente, 2. Confissões, de santo Agostinho. [Traduzido a partir do texto citado pelo au-
talvez devamos pensar que não são tão "passado" e "futuro" como tor: Confesiones, de Agustín de Hipona, trad. esp. de P Rodríguez de Santidrián,
parecem. Ora, o presente também é a zona temporal em que passa- Alianza Editorial, Madri.]

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tica costuma-se denominar teoria dos futuros contingentes. Os ser verdade nem que "amanhã haverá uma batalha" nem que "ama-
crentes no destino -os filósofos estóicos, por exemplo - sustentam nhã não haverá uma batalha" 3 • Ou seja, o verdadeiro "para amanhã"
que todos os acontecimentos futuros estão rigorosamente determi- é a dúvida entre duas ou mais possibilidades, não a certeza proféti-
nados desde sempre, assim como o estiveram os passados. Segun- ca de uma ou outra. O futuro é "contingente" -pode ser assim ou de
do Crisipo (século III a. C., citado por Áulio Gélio, Noites áticas, outro modo -, não fatal nem necessário. O que ocorrer amanhã te-
VII), "o destino é uma disposição natural de tudo, desde a eternida- rá, sem dúvida, suas próprias causas, entre as quais bem pode estar
de, de como cada coisa segue e acompanha cada outra coisa, e essa nossa efetiva decisão humana de agir, que só intervirá no real quan- .
disposição é inviolável". Portanto, o porvir "já está escrito", como do a pusermos em prática e nunca antes. Certamente, pode haver fu-
se costuma dizer: na realidade não há futuro, porque não há novi- turos contingentes que não dependam em nada de ações humanas.
dade nem incerteza no que há de ocorrer, só ignorância de nossa Não nos limitamos pois a "ler" um futuro já escrito e, sim, colabo-
parte para prevê-lo. A ordem universal se desdobra como uma tela ramos para escrevê-lo. Obrigado, Aristóteles.
pintada que vai se desenrolando paulatinamente mas em que nada Talvez essas formas de negação do futuro se devam em gran-
pode aparecer, a não ser o que já sabemos que está previamente re- de medida a uma concepção espacial do tempo. Quando tentamos
presentado nela. Nesse quadro que vai se desvendando pouco a pensar o tempo começamos por "imaginá-lo", e é dificil- impossí-
pouco também está cada um de nós, com todos os incidentes que vel? - ter "imagens" que não sejam espaciais. "Vemos" o tempo
irão ocorrer na vida: portanto, não só nossa liberdade como nossa passar como algo que se desloca no espaço: o tempo "corre", é
própria capacidade de ação (se por "ação" entendemos a possibili- muito "longo", "avançamos" para o ano 2000, estamos a uma "dis-
dade de intervir no curso do real e não de simplesmente o seguir) tância" de dois séculos do Iluminismo, e o poeta Jorge Mairinque
continuam seriamente em dúvida. Podem-se aplicar aqui mutatis disse que "nossas vidas [isto é, o transcurso temporal de nossas vi-
mutandis algumas das reflexões que fizemos no capítulo sexto. das, F. S.] são os rios que vão dar no mar que é o morrer" ... A com-
Agora observemos apenas que quando o futuro desaparece - por paração do tempo com um "rio" é particularmente repetida: é habi-
ser predeterminado, seja por disposição de Deus ou da Natureza- tual nos referirmos a um "lapso" de tempo, palavra cuja etimologia
asfixia-se a liberdade, que só pode respirar ares de porvir. nos remete ao latim labi, "fluir". Mas o tempo também pode ser
Mais sutil é a colocação aristotélica (no capítulo IX do tratado uma espécie de "vento" que sopra nas velas da história para nos le-
Da interpretação), dirigida justamente à defesa da possibilidade de var para o futuro; e Walter Benjamin, comentando o quadro de Paul
um futuro propriamente futuro, ou seja, aberto, diante de quem, por Klee Angelus novus - que representa um anjo voando para trás - ,
razões estritamente lógicas, possa inclinar-se a negá-lo. Suponha- imagina-o antes como uma autêntica tormenta que "desce do Paraí-
mos que estejamos aparentemente às vésperas de uma grande bata- so, se renioinha em suas asas e é tão forte que o anjo não consegue
lha naval. Sobre essa eventualidade, são possíveis duas proposi- movê-las. Essa tempestade o arrasta irremediavelmente para o fu-
ções: "amanhã haverá uma batalha naval" ou "amanhã não haverá turo, para o qual ele volta as costas, enquanto o acúmulo das ruínas
uma batalha naval". Uma e só uma dessas duas afirmações é certa sobe diante dele para o céu. Essa tempestade é o que chamamos de
já hoje, embora ainda não saibamos qual. Mas o que é verdade é progresso" 4 • A concepção judaico-cristã do tempo apresenta-o co-
verdade in aeternum, pode lembrar-nos um lógico implacável (há
gente para tudo!): portanto, em algum lugar deve estar escrito esse
futuro que toma verdadeira ou falsa cada uma das proposições. Com
3. Atualmente é tema de discussão se Aristóteles diz isso ou quer dizer ama-
um senso comum racionalista que dá alívio, Aristóteles sustenta, nhã "necessariamente" ...
por outro lado, que a única coisa hoje verdadeira é que "amanhã ha- 4. Tese de filosofia da história, de W Benjamin, em Ensayos escogidos, trad.
verá ou não haverá uma batalha naval", ao passo que ainda não pode de H. Murena, Ed. Sur, Buenos Aires. [Traduzido a partir do texto citado pelo autor.]

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mo mna flecha que avança do paraíso ao Juízo Final de modo irre- na mesma estrada -, mas flui sem trajeto prévio, aparecendo no
versível; na versão laica desse mito, à qual Benjamin se refere, esse mesmo instante em que desaparece através de nós: não nos trans-
avanço é um "progresso", ou seja, viaja do pior para o melhor; não porta, mas nos transpõe.
faltam pessimistas que o vêem como uma perpétua decadência de Há muitas outras diferenças essenciais entre o movimento no
sinal contrário. espaço e o passar do tempo. ~ mais notável é que em cada lugar do es-
Muitas outras culturas - e alguns autores dentro da nossa, co- paço só se pode encontrar um corpo, ao passo que em cada instan-
mo Giambattista Vico ou Nietzsche - preferiram imaginar um tem- te do tempo acham-se todos os corpos contemporâneos, desde a es-
po cíclico, que se desloca girando como uma roda ou que roda per- trela mais remota até a formiga que sobe no nosso sapato. Em cada
manentemente sobre si mesmo, trazendo sempre de novo o mesmo ponto do espaço só cabe esta ou aquela coisa definida, ao passo que
cenário do presente. Um rio, uma flecha, mna roda, mna tempesta- qualquer subdivisão do tempo, por menor que seja, abarca o inume-
de, sempre algmn tipo de energia motriz que nos transporta de um rável... ou o infinito. Sem dúvida, a velocidade de nossas viagens
ponto a outro seguindo uma trajetória que se parece demais com as pela superfície terrestre nos habituaram a supor que, em certa me-
que realizamos através do espaço. Por certo, a ficção científica con- dida, elas também nos transportam pelo tempo: o avião que parte
temporânea deu de, literalmente, "viajar pelo tempo" e compôs vá- de Madri para Nova York "ganha" horas em seu trajeto, de modo
rios romances sobre o tema, desde o magnífico A máquina do tem- que, quando chegamos à cidade norte-americana e telefonamos pa-
po, de H. G. Wells, até as invenções de Poul Andersen, Ray Brad- ra nossa família, seus relógios estão marcando várias horas mais do
bury, os filmes do tipo De volta para o futuro e muitas outras va- que o nosso (lembremos a surpresa final de A volta ao mundo em
riantes cada vez mais sofisticadas que continuam se acrescentando oitenta dias, de Júlio Veme, quando o aventureiro Phileas Fog des-
à lista (lembro também um ingênuo seriado de televisão de minha cobre que, no final das contas, conseguiu ganhar sua aposta graças
adolescência, que me encantava, protagonizado por David Hedison às mudanças de horário devidas à rotação da Terra). Mas esses "ga-
e chamado O túnel do tempo... em cuja homenagem privada escre- nhos" ou "perdas" de horas o são apenas quanto à medição conven-
vi este capítulo, pois, para refletir sobre o tempo, me parece obri- cional do tempo, não quanto ao próprio tempo: o instante que eu vi-
gatório partir da memória). vo enquanto falo pelo telefone com minha mulher através do Atlân-
Diversos pensadores protestaram contra essa "espacialização" tico é o mesmo que ela vive, embora ... aos olhos de quem? Também
do temporal. No primeiro terço de nosso século, Henri Bergson "viajar" pelo tempo nunca poderia ser como se deslocar espacial-
contrapôs o tempo "exteriorizado" da visão cientificista e raciona- mente para frente ou para trás, por mais que os escritores de ficção
lista à durée, a duração intimamente vivida e contínua que resiste a científica nos entretenham engenhosamente especulando sobre
qualquer fragmentação espacializante. Segundo Bergson, o "tempo" essa possibilidade. O problema não está apenas nos diversos absur-
dos físicos é algo parecido com o "movimento" reproduzido pelo dos que seriam propiciados (volto ao passado para me asfixiar no
cinema: uma série de fotogramas ou "instantâneos" sucessivos que berço e me impedir de crescer, assim nunca chegando à idade de
o olho humano capta como gestos, corridas, explosões, etc. Mas empreender minha viagem; ou viajo para o futuro para me encontrar
nós, que estamos dentro do filme, sabemos que o movimento não é comigo mesmo e revelar a meu "eu" o porvir dessa travessia crono-
verdadeiramente uma sucessão de instantes estáticos - a armadilha lógica, que já deveria conhecer por tê-la efetuado "antes" de chegar
de Zenão! - e, sim, uma "continuidade" que só depois de assassi- a esse encontro, etc.). Todas essas contradições mostram que os su-
nada pode ser dissecada como a soma rapidíssima de muitas para- cessivos "lugares" do tempo não são simplesmente justapostos como
das; do mesmo modo, o transcurso do tempo não percorre uma sé- os "lugares" do espaço, mas têm uma concatenação interna que não
rie de estações intemporais - aqui, lá e mais para lá ainda, sempre pode ser invertida sem destruir o propriamente "temporal" do pró-

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prio tempo. Além do mais, qualquer "deslocamento" temporal tam-
Le temps s'en va, le temps s'en va, ma Dame,
bém implicaria um lapso de tempo, por mais breve que fosse, que Las!, !e temps non, mais nous nous en allons.
não saberíamos se pertence ao passado ou ao futuro nem como com-
putá-lo. Ou seja, quando viajamos pelo espaço, sempre podemos sa- (O tempo se vai, o tempo se vai, minha senhora,
ber onde estamos, mas durante a viagem temporal não estamos tem- Ai!, o tempo não, mas nós nos vamos.)
poralmente em lugar nenhum. É que, ao que parece, o tempo não "es-
tá aí", já dado, como o espaço, para que o percorramos, mas nós o Queremos supor que o tempo passa, mas na realidade sabemos
carregamos. Um pouco adiante voltaremos a essa questão. que o tempo está sempre aí, fluindo, embora sem diminuir nem au-
Há mais uma diferença importante entre espaço e tempo, na mentar: o que transcorre e diminui incessantemente não é o tempo,
qual insiste o pensador contemporâneo Cornelius Castoriadis. No é o nosso tempo. Pois bem, se a natureza do tempo é esse passar ir-
espaço nos é oferecido o distinto, mas é no tempo que pode apare- remediável que, considerado em termos absolutos, não afeta o pró-
o
cer radicalmente outro, a verdadeira alteridade. Abarcadas pelo prio tempo mas em contrapartida, concerne antes a nós, não será o
espaço se reproduzem as diversas formas da identidade, mas o es- tempo nada mais, nada menos do que nossa dimensão essencial? O
pírito criador amadurece com o passar do tempo e se ergue de re- lúcido Agostinho já em sua época suspeitou algo assim: "Parece-
pente trazendo a autêntica novidade do não-idêntico, do literalmen- me que o tempo não é outra coisa senão uma certa extensão. Mas
te "nunca visto": trata-se de um poema, uma ferramenta, uma des- não sei de que coisa. Pergunto-me se não será da própria alma."
coberta científica, uma sinfonia, uma lei ou uma revolução. Os an- Não medimos o tempo, medimos a nós mesmos no tempo ... a não
tigos gregos falavam do kairós, o momento propício no qual se ser que seja o tempo que nos mede!
pode realizar o que antes era impossível e no qual aparece por obra Talvez então seja preciso recolocar a questão do tempo, vincu-
do ânimo humano a nova "idéia" que antes faltava no mundo real. lando-o de maneira muito mais direta a nossa condição humana (ou
O que conta de fato na temporalidade é a possibilidade sempre pelo menos à nossa condição "humana" tal como a entendemos os
aberta do kairós, o instante futuro que rompe a rotina e o previsível ocidentais da modernidade). Isso é justamente o que faz Martin
para inaugurar uma perspectiva inédita de vida consciente no uni- Heidegger no livro de filosofia mais celebrado e discutido do sécu-
verso: o momento em que a imaginação se põe em prática. No es- lo XX, Ser e tempo (1927). Já três anos antes de publicar sua obra
paço podemos explorar o desconhecido e encontrar o que ainda não máxima, Heidegger concluía uma conferência intitulada "O concei-
sabíamos que estava ali, mas é no tempo que podemos dar à luz to de tempo", formulando de outro modo a velha pergunta: "O que
aquilo que imaginamos em ruptura com o meramente constatável. é o tempo? transformou-se em: quem é o tempo? Mais exatamente:
Em 31 de dezembro de 1902, Jules Renard anota em seu diário: o tempo somos nós mesmos? Ou mais precisamente: meu tempo
"Ano, uma rodela cortada do tempo e o tempo continua inteiro." sou eu?" A resposta de Heidegger é afirmativa: o que ele chama de
Além das constatações antropológicas sobre a forma de medir o Dasein, o existente humano, consiste precisamente em "tempo",
tempo e os diferentes papéis da temporalidade nas culturas, além das essa inconsistência transitória. Sua colocação coincide substancial-
elucubrações dos fisicos sobre o tempo no universo, o que pasma vi- mente com a formulação ao mesmo tempo poética e reflexiva com
vencialmente a nós, humanos, é que o tempo - esse algo inapreen- que Jorge Luis Borges conclui seu ensaio significativamente intitu-
lado Nova refutação do tempo (um propósito metafisico que, sem
sível que escapa perpetuamente - permaneça, em certo sentido,
dúvida, ele não consegue levar a cabo): "O tempo é um rio que me
completo e intacto enquanto somos tragados por seu remoinho. É o
arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou
tempo que é fugaz ou o somos nós nele? A resposta do poeta Pierre
o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo,
de Ronsard (século XVI) certifica nossa mais profunda convicção: infelizmente, é real; eu, infelizmente, sou Borges."

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E desse modo voltamos a esbarrar na realidade inevitável da inconcreto no início de nossa vida consciente, para tornar-se mais
morte, da qual partimos, no primeiro capítulo. Para Heidegger, tal premente com os anos). Esse medo é o eco da consciência tempo-
como para Borges (por isso ele queria refutar o tempo!), ser feitos ral de nosso destino de seres arrastados para seu fim, conforme ex-
de tempo significa estar no rumo da morte, deslizar sem trégua para plica muito bem Marcel Conche em sua obra Tempo e destino : "Um
ela. Como nos importaria pouco o tempo, em qualquer uma de suas Medo difuso é o fundo afetivo de nosso ser, a tonalidade afetiva
formas ou medidas, se nos acreditássemos imortais! Não prestaría- fundamental. O medo sempre está presente. Uma ninharia e temos
mos atenção a ele, como as crianças pequenas, que nos dizem "lem- medo, pois essa 'ninharia', quem sabe?, talvez não seja uma ninha-
bra ontem ... ?" e estão se referindo ao verão passado .. . ou a hoje de ria, talvez já seja a morte." 5 E, como é o corpo que constantemente
manhã! A temporalidade é a consciência de nosso trânsito para a nos expõe sem proteção à morte por sua própria natureza, em todas
morte e do trânsito do fim ou da ruína das coisas que mais amamos. as épocas cultivou-se entre os humanos a idéia de que há em nós
Por isso ela nos urge, por isso nos angustia, por isso nos impele à algo não-corporal, portanto não-temporal, inatingível aos ferimen-
melancolia ... ou ao desafio. A esse respeito, tanto faz vivermos tos e invulnerável diante dos processos letais da biologia, algo inex-
muitos. ou poucos anos. Segundo conta Baltasar Gracián, em El cri- tenso, inexpugnável, oposto em tudo às características corporais,
ticón, um certo rei se dispunha a construir um grande palácio mas, imorredouro. E Marcel Conche observa: "A noção de espírito puro
antes de começar, quis saber quanto ia viver, para ter certeza de que ou de alma, como substância incorporal, indivisível, etc., parece
o investimento valia a pena. Seus astrólogos lhe disseram que ele fruto do Medo. O homem tem um medo tão profundo diante da
viveria mil anos, e, então, o rei renunciou ao projeto, dizendo que morte que forjou uma idéia de si mesmo como homem-sem-corpo
= alma, para escapar a seu destino, à morte." Assim a alma seria
para um prazo tão curto qualquer choça lhe bastaria. Ser temporais
(saber-nos temporais) é sempre viver "pouco", mas também confe- consciente do tempo apenas como algo que acontece ao corpo,
re um gosto forte, intenso, à brevidade da vida que saboreamos. A mantendo-se ela mesma a salvo de seu perpétuo desgaste ...
vida nunca nos pode deixar indiferentes, pois sempre está acaban- No entanto, pode estar realmente vivo o que não deve morrer?
Talvez nascer e morrer não sejam apenas o começo e o final de nos-
do: e a espreita da morte torna arrebatadoramente interessante o
mais insípido dos momentos. so destino, mas um componente que se repete incessantemente ao
longo de toda a nossa existência. Em cada trajetória de vida a mor-
O que nos ata definitivamente ao tempo e, portanto, à imorta-
te da criança dá lugar ao jovem, a perda de um amor ou o término
lidade é nosso corpo. Em suas células esconde-se o veneno de re-
de uma tarefa nos impelem para novas empreitadas, o que se vai é
lojoaria que pouco a pouco vai nos corroendo. Podemos supor, com
condição do que vem, não poderíamos nos abrir para o inédito -
fundamento, que esse tempo mortal que "somos" é um requisito fi-
seja terrível ou prazeroso - se não fôssemos despojados do antigo.
siológico dos órgãos que, evolutivamente, cabem a cada um dos
O futuro se lança na nossa direção trazendo nosso fim mas também
membros da nossa espécie. Enquanto "produto" material, temos a
é a região desconhecida na qual sempre estamos entrando como ex-
data de caducidade inscrita em nossos genes. É o que nos garantem
ploradores inevitáveis para descobrir armadilhas e tesouros. Vamos
os especialistas: tenho sobre a mesa, por exemplo, um estudo cien- novamente recorrer ao ditame de um poeta, um desses grandes
tífico sobre o processo de envelhecimento chamado El relo} de la orientadores do pensamento. Diz William Butler Yeats que "o ho-
edad [O relógio da idade] (de John J. Medina, Ed. Crítica), no qual mem vive e morre muitas vezes entre suas duas eternidades". Essa
se explicam os diversos passos bioquímicos desse processo irrever-
sível. Somos "programados" para envelhecer e morrer. Submetidos
aos achaques do corpo, constantemente também sentimos medo, 5. Temps et destin, de M. Conche, PUF, Paris. [Traduzido a partir do texto ci-
seja um temor vago e inconcreto ou premente (talvez mais vago e tado pelo autor.]

202 203
~
J1

1
i
alternância de vida e morte é justamente aquilo que, sem renunciar ; Epílogo
a nossa liberdade, podemos chamar de "destino humano", em face
da eternidade que nos exclui. A vida sem por quê
~
Soy, más, estoy. Respiro.
Dá o que pensar... Lo profundo es e! aire.
La realidad me inventa.
Poderíamos dar conta - ou nos dar conta - de nossa vida sem Soy su leyenda. jSalve!*
recorrer a referências temporais? Por acaso há algo que nos seja ·~
mais "familiar" do que o tempo? No entanto, sabemos realmente o JORGE GUILLÉN
i
que é o tempo? Em que consiSte a dificuldade para pensar o tempo?
Podemos "fixar" o agora, o momento presente? Por que é mais fá-
cil falar do "agora" no tempo passado ou na expectativa do futuro?
Por que recorremos a movimentos para tentar determinar o instan-
te temporal? As formas de medir o tempo são algo intrínseco à con-
dição humana ou elas têm a ver com as diversas culturas e as si-
j Tão antigo quanto a filosofia é o costume de rir dos filósofos.
Do primeiro deles, Tales de Mileto, conhecemos a anedota de que
tuações históricas das sociedades? Por que cada sociedade estabe- caiu num poço porque ia olhando para o firmamento, o que provo-
lece medidas unânimes do tempo para todos os seus membros? Por cou as gargalhadas das criadas que passavam por ali. Os humoristas
que o tempo do homem atual é ao mesmo tempo mais angustiante também se aproveitaram desses personagens tão espontaneàmente
e mais "privado " do que em outras culturas ou épocas? Pode exis- !
cômicos. Em As nuvens, Aristófanes zomba com desabrida cruelda-
tir um tempo que esteja além das formas humanas de medi-lo ou de de de seu contemporâneo Sócrates: parodia sua índole intelectual até
empregá-lo socialmente? O passado e o futuro têm a mesma "rea-
l o galimatias e o apresenta em uma cena da comédia pendurado
lidade " que o presente? O passado e o futuro são igualmente rele- numa cesta bem no alto para estudar melhor as estrelas. Também lhe
vantes para o homem como sujeito ativo? Em que sentido o futuro ~ atribui ensinar os jovens a dar pauladas nos pais, brincadeira bem
.l
nega a teoria fatalista do destino? Por que nossas "imagens" do mais perigosa do que as demais, em vista das acusações de corrup-
tempo são quase todas de tipo espacial? Qual é a diferença entre tor da juventude que serviram para condenar Sócrates. O arguto sa-
os instantes do tempo e os lugares do espaço? Poderíamos "viajar" .l
tírico Luciano de Samosata (século II d. C.) escreveu um diálogo
através do tempo? É realmente o próprio tempo que passa ouso- muito engraçado, intitulado Leilão de filósofos: o próprio Zeus,
mos nós que passamos temporalmente? O ser humano é "feito" es- ajudado por Hermes, oferece em público remate aos principais lu-
sencialmente de tempo? Qual a relação que existe entre nosso in- minares da filosofia, como se fossem escravos ou prostitutas. Os com-
teresse pelo problema do tempo e nossa preocupação com a mor- 1
pradores pagam de acordo com a utilidade das doutrinas dos leiloa-
te? O corpo é a única "parte" de nós submetida ao desgaste do dos - comicamente resumidas - para guiar suas vidas. Os mais co-
tempo? O medo da morte influi em nossa tendência a imaginar l
·1 tados são Sócrates e Platão, a dois talentos cada um; o lance mais
"algo " incorporal em nós? O que não pode morrer está realmente alto para Aristóteles não vai além de vinte minas (cada talento são
vivo? De que maneira nascimento e morte são ingredientes cons-
tantes de nossa existência temporal? l

*Tradução livre: "Sou, mais, estou. Respiro. / O profundo é o ar. / A realidade


1 me inventa. / Sou sua lenda. Salve! " (N. da T.)

204 205

1
sessenta minas) e Epicuro, verdadeira pechincha, acaba sendo re- dências do senso comum ou as respeitáveis tradições que as pes-
matado por apenas dois. Heráclito e Demócrito, incompreendidos, soas decentes nunca criticam. Mais ainda, em geral eles utilizam
são retirados por falta de comprador! Moliere, é claro, também um jargão incompreensível - com abundância de termos obsoletos
apresenta em suas peças vários sábios ridículos, um deles, por ou estrangeiros, quando não diretamente inventados para a circuns-
exemplo, empenhado em explicar os efeitos soníferos do ópio por tância - e não aceitam discutir com as pessoas que argumentam em
uma "qualidade oculta" chamada vis dormitiva (ou seja, pontifican- linguagem coloquial, olhando-as por cima do ombro. Eles podem,
do que o ópio faz dormir porque tem uma qualidade que se chama eventualmente, ser modestos - "só sei que não sei nada"-, mas por
"força-para-fazer-dormir"), etc. baixo da túnica transparece a arrogância disparatada: "Ninguém
Às vezes o sorriso à custa dos filósofos tem um tom de irôni- sabe tanto quanto eu!" Alguns não se privam de dar lições sublimes
ca simpatia ou, pelo menos, de comiseração por eles. A ópera Ce- de moral, mas raramente os vemos viver de acordo com o que pre-
nerentola (Cinderela) de Rossini oferece uma variante "ilustrada" gam (embora nem todos cheguem, é claro, aos extremos de Eddie
do conto clássico devida ao libretista Giacomo Ferretti, na qual a Féretro!). Para culminar, se dão muito mal uns com os outros e de-
fada madrinha que protege a menina desafortunada e propicia sua sacreditam seus colegas com autêntico ódio. Em poucas palavras:
ligação com o príncipe é substituída pelo filósofo Alidoro. O sábio são pedantes, pomposos, inúteis, irreverentes, hipócritas e egocên-
senhor transforma-se assim numa figura benfazeja mas irreal, do tricos. Há quem dê mais ... por menos?
gênero "bom-demais-para-ser-verdade", ao qual também perten- Embora haja muito exagero e generalização injusta nessas acu-
cem suas primas, as fadas. E há pouco tempo foi publicado um en- sações, é preciso admitir que, em grande parte, não deixam de ter
genhoso romance de Tibor Fischer, The Thought Gang (em espa- grande parte de razão. E nós, professores de filosofia, com freqüên-
nhol, Filosofia a mano armada, ed. Tusquets), protagonizado pelo cia, infelizmente, agravamos esses defeitos já presentes nos gran-
professor de filosofia Eddie Féretro, fracassado e beberrão, que se des mestres. Há mais de quarenta anos Jean-François Revel escre-
dedica a planejar assaltos a bancos seguindo as pautas dos mais fa- veu um contundente libelo intitulado Pourquoi des philosophes?
mosos sistemas de pensamento. O filosófico gângster anota de vez (Filósofos para quê?), muito discutido e discutível, mas que convi-
em quando suas profundas reflexões, uma das quais tem muito a ria voltar a ler hoje. Ele apontava alguns males que continuam afli-
ver, por certo, com o tema deste livro: "Avançamos com dificulda- gindo em grande medida o ensino da filosofia. Por exemplo, a sa-
de através de perguntas e respostas que nos chegam até a cintura; cralização de nossa linguagem especializada e a recusa em discutir
inundaram o mundo, há tantas que, se conseguimos alcançar umas com quem não a domine: "Vá estudar Kant ou Hegel e depois con-
poucas, já é um bom avanço ..." O certo é que, como método para versaremos." Embora supérflua em muitas ocasiões (e, é claro,
assaltos, os sistemas filosóficos mostram-se, no romance, muito sempre que se recorre sem outro motivo que não o exibicionismo
mais úteis do que costumam ser em outros campos. de erudição a palavras estrangeiras, como se só fosse possível ques-
Por que tão freqüentemente os filósofos são risíveis para aque- tionar a realidade em alemão ou em grego), a decantação de uma
les que não gostam deles e até para muitos que gostam? Em primei- linguagem técnica para a filosofia pode afinar nossos instrumentos
ro lugar, provavelmente, pela mistura característica que há neles de de compreensão e tornar os debates mais precisos. Afinal, filosofar
ambição teórica desmedida (querer perguntar tudo, sempre "por é uma tradição antiga e certos termos são contribuições muito va-
quê?" e mais "por quê?") e resultados práticos escassos (quase to- liosas que nos permitem pensar a partir do já pensado e não come-
das as suas respostas são tão inquietantes quanto as perguntas e em çar do zero a cada momento. Mas isso não quer dizer que o filóso-
geral não servem para fazer nada "eficaz" a partir do que afirmam). fo ou o professor de filosofia devam se fechar com desdém às ques-
Além disso, com freqüência os filósofos se chocam contra as evi- tões colocadas pelo profano inteligente. É provável que palavras

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mais adequadas e carregadas de sentido pela reflexão do passado rio ter a melhor formação cultural possível. Nem todas as pessoas
melhorem nossa discussão do real, mas o que conta é justamente o cultas são filósofos, mas não há filósofos declaradamente incul-
real e não as palavras com que tentamos entendê-lo. Com razão, tos ... e as ciências são parte imprescindível da cultura, não um des-
Kierkegaard aconselha a desconfiar de qualquer suposto pensa- vio de interesse puramente instrumental. Sem preparo cultural pré-
mento que só se pode "dizer" de uma maneira determinada e acon- vio a filosofia chega no máximo a fórmulas totalmente irrelevantes
selha, como sinal de honradez, a eventualmente mudar de expres- mas bastante limitadas, do tipo do "não somos ninguém" que se
são: uma idéia não é o mesmo que uma "fórmula verbal". Às vezes costuma pronunciar na hora dos pêsames nos enterros ou às consi-
é muito mais interessante analisar as expressões da linguagem co- derações tumultuosas sobre a justiça e a verdade que abundam nas
mum que manejamos quase automaticamente do que substituí-las tertúlias radiofônicas.
de repente por termos mais especializados que matam a curiosida- Filosofar não deveria ser sair de dúvidas, mas entrar nelas. É
de fingindo satisfazê-la e costumam se transformar em fetiches. Os claro que muitos filósofos - e até dos maiores! - cometem às vezes
filósofos devem tentar responder às perguntas e inquietudes dos hu- formulações peremptórias que dão a impressão de já ter encontra-
manos, e não se fechar em discussões melindrosas de terminologia do respostas definitivas às perguntas que nunca podem nem devem
só com os de seu grupo. "fechar-se" por inteiro intelectualmente (veja-se a introdução deste
Já comentamos na introdução deste livro as diferenças que há livro). Vamos agradecer-lhes suas contribuições, mas não seguir
entre a indagação propriamente filosófica e a científica. Mas não se seus dogmatismos. Há quatro coisas que nenhum bom professor de
trata de modo algum de dois mundos totalmente alheios e muito filosofia deveria esconder de seus alunos:
menos opostos. Não há nada mais justificadamente risível em nos- - primeira, que não existe "a" filosofia, mas "as" filosofias e,
sos dias do que esses metafísicos que desprezam com arrogância os sobretudo, o filosofar: "A filosofia não é um longo rio tranqüilo,
cientistas, por seu apego "empírico" ao meramente "positivo". O em que cada um pode pescar sua verdade. É um mar no qual mil
pior é que em geral o fazem invocando a defesa da educação "hu- ondas se defrontam, em que mil correntes se opõem, se encontram,
manista", como se o humanismo consistisse tanto em saber Cícero às vezes se misturam, se separam, voltam a se encontrar, opõem-se
de cor como em ignorar meticulosamente a física quântica. O cer- de novo ... cada um o navega como pode, e é isso que chamamos d
to é que a filosofia é uma atividade intelectual que vem "depois" filosofar." 1 Há uma perspectiva filosófica (em face da perspectiva
da informação positiva nos diversos campos do saber humano, não científica ou da artística), mas felizmente ela é multifacetada;
"antes". O filósofo carece de qualquer ciência infusa que lhe per- - segunda, que o estudo da filosofia não é interessante porqu
mita falar do homem em geral sem ter o mínimo conhecimento de a ela se dedicaram talentos extraordinários como Ari stóteles ou
antropologia ou psicologia, aprofundar-se na linguagem sem saber Kant, mas esses talentos nos interessam porque se oc upara m dessas
uma palavra de lingüística ou razoar sobre estética sem visitar mu- questões de amplo alcance que são tão importantes para nossa pró-
seus, ler romances ou ver filmes. Um pensador que hoje tentasse pria vida humana, racional e civilizada. Ou seja, o empenho de fi -
fazer-se perguntas filosoficamente sérias sobre a matéria ignoran- losofar é muito mais importante do que qualquer uma das pessoas
do tudo da física ou da química atuais seria um xamã ou um necro- que bem ou mal se dedicaram a ele;
mante, nunca um filósofo. Por essa via a filosofia se transforma em - terceira, que até os melhores filósofos disseram absurdos no-
verbosidade obscurantista, o mais oposto que se cabe imaginar a tórios e cometeram erros graves. Quem mais se arrisca a pensar
seu verdadeiro desígnio ilustrado. A tarefa da filosofia é refletir so-
bre a cultura em que vivemos e seu significado não só objetivo
1. La sagesse des modernes, de A. Comte-Sponville e L. Ferry, Laffont, Paris.
como também subjetivo para nós: para isso, obviamente, é necessá- [Traduzido a partir do texto citado pelo autor.]

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fora dos caminhos intelectualmente trilhados corre mais riscos de sentido de uma obra de arte é o que seu autor quer expressar (uma
se equivocar, e digo isso como elogio e não como censura. Portan- forma de beleza, a representação do real, a insatisfação diante do
to, a tarefa do professor de filosofia não pode ser apenas ajudar a real, a ilusão do ideal, etc.); o sentido de uma conduta ou de uma ins-
compreender as teorias dos grandes filósofos, nem mesmo contex- tituição é o que se quer conseguir por meio dela (amor, segurança,
tualizadas em sua devida época, mas sobretudo mostrar como a in- diversão, riqueza, ordem, justiça, etc.).
telecção correta dessas idéias e raciocínios pode nos ajudar hoje a Em todos os casos, o que conta para determinar o sentido de
melhorar a compreensão da realidade em que vivemos. A filosofia alguma coisa é a intenção que a anima. Os símbolos, obras, condu-
não é um ramo da arqueologia e muito menos simples veneração de tas e instituições humanas estão carregados dos sentidos que nos-
tudo o que vem assinado por um nome ilustre. Seu estudo deve nos sas intenções lhes concedem, tal como os comportamentos dos ani-
render alguma coisa mais do que um título acadêmico ou um certo mais ou até os tropismos das plantas ou dos ciliados. Em todos os
verniz de "cultura elevada"; casos, a intenção está ligada à vida, a conservá-la, reproduzi-la, di-
- quarta, que em determinadas questões extremamente gerais versificá-la, etc. Onde não há vida também deixa de haver intenção
aprender a perguntar bem também é aprender a desconfiar das res- e, portanto, sentido: podemos explicar as causas de uma inundação,
postas demasiado taxativas. Filosofamos partindo do que sabemos de um terremoto ou de um amanhecer, mas não seu "sentido". Por-
para o que não sabemos, para o que parece que nunca poderemos tanto, se as intenções vitais são a única resposta inteligível à per-
saber totalmente; em muitas ocasiões filosofamos contra o que sa- gunta pelo sentido, como poderia a própria vida ter "sentido"? Se
bemos, ou melhor, repensando e questionando o que acreditávamos todas as intenções remetem como última referência à vida, que "in-
já saber. Então nunca podemos tirar nada a limpo? Sim, quando tenção" poderia ter a própria vida em seu conjunto?
pelo menos conseguimos orientar melhor o alcance de nossas dú- É próprio do "sentido" de alguma coisa remeter intencional-
vidas ou de nossas convicções. Quanto ao mais, quem não for ca- mente a outra coisa que não a si mesma: aos propósitos conscien-
paz de viver na incerteza fará bem em nunca se pôr a pensar. tes do sujeito, a seus instintos, em última instância à autoconserva-
Um dos motivos de ridículo mais justificado em que os filóso- ção, auto-regulação e propagação da vida. Mas, se nos perguntamos
fos costumam incorrer é pretender competir com a religião na bus- "o que a vida quer?", as únicas respostas possíveis - viver, viver
ca redentora do sentido da vida. Acontece que a pergunta por esse mais, etc. - nos levam de volta à própria vida sobre a qual estamos
"sentido" já é religiosa por si só, e a única coisa que a filosofia perguntando. Para encontrar o sentido da vida devemos buscar "ou-
pode fazer com relação a ela é mostrar - como estou tentando fazer tra coisa", algo que não seja a vida nem esteja vivo, algo além da
agora- essa religiosidade e tentar reformulá-la de outro modo para vida. Suponhamos que nossa resposta seja "o sentido da vida orgâ-
que se torne filosoficamente válida. Quando dizemos estar buscan- nica é o perpétuo desdobramento do universo inorgânico do "qual
do - ou ter encontrado! - o sentido da vida, a que tipo de "sentido" brotou". Conceder "intenções" ao inorgânico parece bastante enga-
estamos nos referindo? Dizemos que tem "sentido" aquilo que quer noso, só se pode fazê-lo estendendo o significado da palavra "in-
significar algo por meio de outra coisa ou que foi concebido de tenção" a ponto de se desmontar, mas vamos admiti-lo por um mo-
acordo com determinado fim. O sentido de uma palavra ou de uma mento. A pergunta imediata é: e qual é o sentido do universo inor-
frase é o que ela quer dizer; o sentido de um sinal é o que ele quer in- gânico? Para responder a isso de modo não auto-referente ( evitan-
dicar (uma direção, o escalão de uma pessoa, etc.) ou o que quer do dizer "a intenção do universo é continuar sendo universo cada
avisar (um perigo, a hora de levantar, a passagem de pedestres, etc.); vez mais", por exemplo) devemos referir-nos a algo que não faça
o sentido de um objeto é aquilo para que ele quer servir (tomar a parte do próprio universo, ou seja, da natureza tal como a conhe-
sopa, matar o inimigo, falar com alguém que está longe, etc.); o cemos: algo "sobrenatural", o que é apelar autenticamente para o

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desconhecido, porque ninguém sabe realmente como seria algo "so- dogmático quanto qualquer pontífice ou inquisidor (embora em ge-
brenatural". Wittgenstein disse, com razão, em seu Tractatus logico- ral com menos forças repressoras a seu serviço para castigar os he-
philosophicus, outra das obras-primas da filosofia deste século: "O reges) . Merecem o que Cioran anota em seus Cahiers, publicados
sentido do mundo deve-se encontrar fora do mundo" (6, 41). Mui- postumamente: "Um sistema filosófico é como uma religião, mas
to bem, mas onde? O mundo tem um "fora"? (Veja-se o capítulo mais bobo."
cinco.) A pergunta sobre o sentido termina onde termina o mundo Se a vida não tem "sentido" (pela mesma razão por que todos
ou podemos continuar perguntando pelo sentido "mais além"? os demais "sentidos" remetem mediata ou imediatamente à vida),
O que caracteriza a mentalidade religiosa (por oposição direta devemos concluir desoladamente que a vida é absurda? De modo
à filosófica) não é responder "Deus" à questão sobre o sentido ou algum. Chamamos de "absurdo" o que deveria ter sentido mas não
a intenção do universo: propriamente religioso é crer que, uma vez tem, não o que - por cair fora do âmbito do intencional - não
dada uma resposta tão sublime, já está justificado deixar de pergun- "deve" ter sentido. Do mesmo modo, dizemos que um homem ou
tar. Graças a Deus as coisas têm sentido, mas seria ímpio perguntar um animal é "cego" quando não vê, mas não podemos dizer, a não
que sentido, então, tem Deus. No entanto, de um ponto de vista fi- ser metaforicamente, que uma pedra seja "cega": porque o homem
losófico, a pergunta que indaga pelo sentido de Deus é tão razoável ou o animal "deveriam" ver de acordo com sua condição natural, ao
e urgente quanto a que pretende desvendar o sentido do mundo ou passo que a visão não faz parte do que poderíamos pedir a uma pe-
o sentido da vida. Se essa pergunta não pode ser feita ou em nome dra. Não é absurdo que a vida em seu conjunto não tenha sentido,
do Grande Enigma Divino é suportável não lhe responder ("Deus é porque não conhecemos intenções fora das vitais, e mais além do
o sentido e além Dele a pequenez humana nada pode saber" , etc.), âmbito do intencional a pergunta pelo sentido ... carece de sentido!
teria dado no mesmo nos conformar muito antes. Poderíamos ter Realmente "absurdo" não é a vida carecer de sentido, mas nos em-
aceitado de início, por exemplo, a lição daqueles versos de O guar- penharmos em que ela deva tê-lo.
dador de rebanhos, de Fernando Pessoa: Na realidade, a busca de um "sentido" para a vida não se preo-
cupa com a vida em geral nem com o "mundo" em abstrato, mas
As cousas não têm significação: têm existência, com a vida humana e com o mundo em que habitamos e sofremos.
As cousas são o único sentido oculto das cousas. Ao perguntar se a vida tem sentido, o que queremos saber é se nos-
sos esforços morais serão recompensados, se vale a pena trabalhar
Aceitar que Deus seja o Sentido Supremo, o que dá Sentido a honradamente e respeitar o próximo ou daria na mesma entregar-se
todos os Sentidos, é um pacto mais conformista ainda com a escu- a vícios criminosos, em suma, se nos espera algo além e fora da
ridão do que responder que o sentido de todos os sentidos é a inten- vida ou _só a tumba, como parece evidente. Um dos pensadores que
cionalidade vital ou a intenção humana. Pelo menos existem razões colocou a questão com maior crueza foi justamente alguém geral-
filosóficas para não ampliar para além da vida a pergunta sobre o mente muito pouco truculento: Kant. No final da Crítica do juízo 2
sentido, ou seja, para além do uso habitual da palavra "intenção": fala do homem reto (dá como exemplo, nada casual, Spinoza) que
uma vez transposta essa barreira, não há por que se deter nem se tem convicção de que não há Deus nem vida futura. Como se arran-
contentar, nunca. O religioso não é tanto querer ir além quanto crer jará então para justificar seu próprio compromisso moral? Por mais
que depois seja justificado "frear". Alguns filósofos tentaram, com que mostre boa vontade, suas realizações sempre serão limitadas e
grandes respostas sistemáticas, justificar também uma "freada" se-
melhante à da religião, seja recorrendo ao sobrenatural, seja sem
2. Crítica dei juicio, de I. Kant, apêndice da 2 ~ parte, § 87, trad. esp. de M.
chegar a ele. E com freqüência tomaram suas respostas de modo tão García Morente, col. Austral, Madri. [Traduzido a partir do texto citado pelo autor.]

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nunca evitarão totalmente que o engano, a violência e a inveja con- recompensa em sua própria atividade, fazendo com que ele se sai-
tinuem agindo livremente entre os homens. Tanto ele como os de- ba mais razoavelmente humano e livre. Em suma, ele não vive para
mais homens justos que houver - por mais dignos que sejam de ob- a morte ou a eternidade, mas para alcançar a plenitude da vida na
ter a felicidade - serão tratados pela imparcial natureza do mesmo brevidade do tempo. Pelo menos creio que Spinoza teria respondi-
modo que os maus e estarão submetidos "a todos os males da mi- do algo assim a Kant.
séria, das doenças, de uma morte prematura, exatamente como os Vamos dizê-lo de outro modo. O homem se sabe mortal e é
outros animais da Terra, e continuarão a estar até que a terra pro- esse destino que o desperta para a tarefa de pensar. Sua primeira
funda abrigue a todos (retos ou não, dá no mesmo) e os volte a reação diante da certeza da morte (caso opte por não a negar e re-
afundar, a eles que podiam crer ser o fim final da criação, no abis- nuncie a se refugiar na ilusão de algum tipo de existência no além)
mo do caos informe da matéria de onde foram tirados". Ao consta- é de angustiado desespero, pelas razões bem expostas anteriormen-
tar esse panorama tão pouco alentador, a única defesa - segundo te por Kant. Que conduta o desespero irá lhe ditar? Sem dúvida,
Kant - que resta à pessoa decente para salvaguardar sua retidão e medo diante de tudo o que ameaça acelerar seu fim (privações, hos-
não a considerar um empenho estéril é aceitar a existência de um tilidade, doença, etc.), junto com avidez por acumular tudo o que
Deus que seja o criador moral do mundo, garantindo assim um parece lhe oferecer resguardo da morte (riqueza, segurança, proe-
"sentido" ultramundano feliz para a boa vontade, tão tristemente re- minência social, fama, etc.) e ódio contra aqueles que disputam es-
tribuída aqui embaixo. ses bens com ele ou parecem obrigá-lo a compartilhá-los: quem
Não serei eu, é claro, quem tomará levianamente o que pensou teme o nada, tem necessidade de tudo. O medo, a avidez e o ódio
sobre essa questão uma inteligência tão lúcida e um espírito tão res- são as características de viver no desespero: naturalmente, também
peitável como Kant. Só me atrevo a indicar a possibilidade de uma não conseguem salvar ninguém de seu destino fatal, mas, em con-
linha de reflexão alternativa, que também conta com adeptos .ilus- trapartida, dão um jeito de introduzir o mal-estar da morte em cada
tres (creio que majoritários na filosofia posterior a Kant). Com momento da vida, inclusive em seus maiores prazeres.
efeito, não é por se comportar eticamente e lutar para que haja mais Quando consegue sobrepor-se ao desespero, o ser humano
solidariedade e justiça no mundo humano que nenhum homem ou constata que tão certo quanto o fato de que vai morrer é o de que
nenhuma mulher consegue escapar ao destino comum que nos re- agora está vivo. Se a morte consiste em não ser nem estar de ne-
serva nossa condição de mortais. Nenhum esforço, tampouco, por nhum modo em nenhum lugar, todos já derrotamos a morte uma
mais reto que seja, isentará definitivamente nossa convivência de vez, a decisiva. Como? Nascendo. Não haverá morte eterna para
engano e violência, possibilidades sempre abertas à liberdade de nós, uma vez que já estamos vivos, ainda vivos. E a certeza glorio-
cada um e, muitas vezes, favorecidas por estruturas socioeconômi- sa de nossa vida não poderá ser apagada nem obscurecida pela cer-
cas aberrantes. Mas isso implica necessariamente que o projeto mo- teza da morte. De modo que temos direito a perguntar, como no li-
ral seja um sem-sentido supérfluo, a não ser que alguma sanção so- vro sagrado: "Morte, onde está tua vitória?" A morte poderá um dia
brenatural o referende contra a própria morte? O homem reto (e impedir que continuemos vivendo, nunca que agora estejamos vi-
sensato!) quer viver melhor, não escapar à sua condição de mortal: vos nem que já tenhamos vivido. Pode transformar em cinzas nos-
tenta fazer o que é bom não só apesar de ter consciência de que so corpo, nossos amores e nossas obras, mas não a presença real de
sempre existirá o que é mau, mas justamente por isso, para defen- nossa vida. Por que deveria a morte futura diminuir a importância
der contra o irremediável a fragilidade preciosa do que considera da vida, uma vez que a vida presente já se impôs à obscura morte
preferível. Não se conduz eticamente a fim de conseguir algum prê- eterna? Por que para nós deveria contar mais a morte em que não
mio ou retribuição, mas chama de "ética" a maneira de agir que o somos do que a vida que somos? Cada um pode repetir, com o poe-

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ta Lautréamont: "Não conheço outra graça que não a de ter nasci- são marcadas pelo medo, pela avidez e pelo ódio do desespero. No
do. Um espírito imparcial a acha completa." entanto não é o desespero que cria, mas a alegria. Lembrar isso
Quando constata sua presença na vida, o ser humano se exal- constitui a única lição da ética. Por isso Spinoza chamou o homem
ta. E essa constatação exaltada é o que podemos chamar alegria. A reto de "alegre". E sábio.
alegria afirma e assume a vida em face da morte, diante do deses- Em si mesmo, o mundo em que nós, humanos, nos movemos
pero. A alegria não celebra os conteúdos concretos da vida, com carece de qualquer sentido ou significado próprio. A prova? Que re-
freqüência atrozes, mas a própria vida, porque não é a morte, por- siste a todos, por mais diversos que sejam. Como observou Casto-
que não é "não" mas "sim'', porque é tudo em face de nada. Mas a riadis, "só pelo fato de não existir um significado intrínseco ao mun-
alegria não é puro êxtase e, sim, atividade e ainda mais: luta contra do, os homens precisaram e souberam atribuir-lhe essa variedade
3
o mal-estar desesperado da morte que nos infecta de medo, de avi- extraordinária de significados extremamente heterogêneos" • O sen-
dez e de ódio. Nunca a alegria poderá triunfar completamente so- tido é algo que nós, humanos, damos à vida e ao mundo, em face do
bre o desespero (dentro de cada um de nós coexistem o desespero abismo insignificante do caos ao qual vencemos brotando e ao qual
e a alegria), mas também não se renderá a ele. A partir da alegria nos submetemos morrendo. Vitória significativa e derrota insignifi-
tentamos "aliviar" a vida do peso opressor e nefasto da morte. O cante porque morre o indivíduo mas não o sentido que quis dar à sua
desespero só conhece o nada que ameaça cada um, ao passo que a vida ... esse fica para nós, seus companheiros de humanidade. Mas o
alegria busca apoio e estende sua simpatia ativa a nossos semelhan- abismo caótico também está oculto em todos os nossos significados,
tes, os mortais vivos. A sociedade é o laço formado por milhares de como seu avesso, como sua densidade. Vivemos sobre o abismo e
cumplicidades que une os que sabem que vão morrer para afirmar conscientes dele. Por isso a razão humana não é uma simples fábri-
juntos a presença da vida. ca de instrumentos nem se contenta com encontrar soluções a per-
Se a morte é esquecimento, a sociedade será comemoração; se guntas ainda não definitivas. E por isso também a filosofia não é só
a morte é igualação definitiva, a sociedade estabelecerá as diferen- razão mas imaginação criadora: "Foi a mediação do imaginário, do
ças; se a morte é silêncio e ausência de significado, o eixo da so- inverificável (o poético), foram as possibilidades da ficção (menti-
ciedade será a linguagem que transforma tudo em significativo; se ra) e os saltos sintáticos para amanhãs sem fim que transformaram
a morte é debilidade completa, a sociedade buscará a força e a ener- homens e mulheres, mulheres e homens, em charlatães, em murmu-
gia; se a morte é insensibilidade, a sociedade inventará e potencia- radores, em poetas, em metafisicos, em planejadores, em profetas e
rá todas as sensações, o esbanjamento "sensacional"; como a mor- em rebeldes em face da morte" (George Steiner, em Errata) .
te é o isolamento final, a sociedade instituirá a companhia do afeto A religião promete salvar a alma e ressuscitar o corpo; em con-
e a ajuda mútua na desventura; se a morte é imobilidade, a socieda- trapartida a filosofia nem salva nem ressuscita mas apenas preten-
de humana premiará as viagens e a velocidade que nada consegue de levar até onde possível a aventura do sentido do humano, a ex-
deter; se a morte é repetição do mesmo, a sociedade tentará o novo ploração dos significados. Nem rechaça a realidade da morte -
e amará como algo sempre novo os velhos gestos da vida, os novos como o mito - nem se deixa impregnar desesperadamente pelo
seres como nós, a progênie indomável dos mortais; contra a putre- medo e pelo ódio que brotam dela: tenta pensar os conteúdos da
fação informe cultivará a beleza, o jogo em que se pode morrer e vida e seus limites ... como se a própria vida nos fosse nisso! E o faz
ressuscitar várias vezes, as metamorfoses do significado. Cada so- com tal denodo que às vezes provoca zombaria ou sorriso.
ciedade é uma prótese de imortalidade para mortais, os que conhe-
cem a morte mas desacatam suas lições desesperadamente aniqui-
3. Las creaziones dei tempo, de C. Castoriadis, Volontà , 1195 , Milão.
ladoras. Certo, todas as empreitadas sociais dos humanos também

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Esbocei o índice deste livro há um par de anos, durante um vôo
entre Bogotá e Lima com escala em Quito, no qual já não me res- Despedida
tavam revistas para ler. O resultado definitivo acabou sendo sur-
preendentemente fiel ao esquema inicial. Comecei a escrever em
maio deste ano e levei a cabo a maior parte da obra durante o ve-
rão, em San Sebastián. Todos os dias, de manhã cedo, enquanto
passeava por La Concha, a caminho de Peine de los Vientos*, eu
planejava a parte que deveria desenvolver à tarde. Certo dia, um tu-
rista me abordou e me perguntou onde ficava o "Peine del Tiem-
po" **; enquanto eu desfazia seu engano e lhe indicava o caminho,
pensei que aquele pente é o que deixa todos nós calvos ... Terminei
os três últimos capítulos durante o outono, em Madri, onde coloco
ponto final hoje, 10 de dezembro de 1998 e 50? aniversário da De-
claração dos Direitos do Homem. Oxalá o leitor possa sentir, em al-
guns momentos, o mesmo prazer com que foram escritas muitas E não deixamos de nos perguntar,
destas páginas. uma vez e mais outra,
até que um punhado de terra
nos cale a boca ...
Mas será isso uma resposta?

HEINRICH REINE, "Lázaro"*

*Tradução literal, "Pente dos Ventos".


**Tradução literal, "Pente do Tempo" . *Tradução livre do texto citado pelo autor.

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