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LITERATURA ERÓTICA

http://www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/L/literatura_erotica.htm

Género literário que inclui toda a literatura licenciosa, dirigida para a


libertação do desejo sexual ou do amor sensual, independentemente
do grau de licenciosidade, o que levaria, como alguns entendem, a
uma distinção entre literatura erótica (menos licenciosa) e literatura
pornográfica (abertamente licenciosa). Esta distinção está longe de
ser válida para toda a literatura que descreve experiências do desejo
sexual e do amor explícito. Se atendermos ao facto de que até ao
final do século XIX, por força da moral estabelecida canonicamente,
toda a literatura que ofendesse os bons costumes, excitasse
claramente o apetite sexual ou cuja linguagem incluísse termos
licenciosos ou obscenos era considerada “erótica”, com uma forte
carga pejorativa, então não devemos ser nunca capazes de
estabelecer um critério rigoroso para distinguir o que é erotismo do
que é pornografia. Por exemplo, uma busca na Internet sobre
literatura erótica levar-nos-á hoje a toda a espécie de sítios de
pornografia comercial, o que pode ajudar a compreender como é fácil
confundir erotismo com pornografia. Por outro lado, a literatura
erótica remete para as descrições estéticas do amor sensual,
rejeitando a exclusividade da procura do prazer explícito que resulta
da exibição pública ou privada desse amor. O nível de representação
do amor sensual tem servido também, com muitos riscos, para
distinguir o erotismo (softcore, menos explícito, menos descritivo,
menos visual) da pornografia (hardcore, mais explícita, mais
descritiva, mais visual). Obviamente, encontraremos nas literaturas
de todo o mundo inúmeros exemplos que podem contrariar esta
distinção. Uma outra distinção tem a ver com o tipo de censura que o
erotismo (menos censurável) e a pornografia (mais censurável)
podem veicular. Como esta distinção depende do tipo de formação
cultural e moral de cada indivíduo, não vemos como pode funcionar
como critério independente para avaliar as diferenças entre os dois
tipos de representação literária do amor sensual. Finalmente, as mais
recentes tentativas da crítica feminista para distinguir entre uma arte
menos opressora da figura da mulher enquanto objecto do desejo
sexual (erotismo) e uma arte que repugna por reduzir a mulher a um
mero objecto sexual, simbólico ou real (pornografia), encalham no
facto de muitas representações literárias não separarem os papéis
sexuais de forma tão clara, colocando até a figura masculina em
funções pouco edificantes ou em posições de perda de poder. Por
estas razões, e porque a base de todo o desejo sexual é a relação
amorosa (o elogio de eros) e não necessariamente a relação
pornográfica (do grego porné, “cortesã, prostituta”, logo o elogio da
prostituição), optamos por consagrar a entrada deste verbete a partir
da designação mais universal de literatura erótica, ficando implícita a
inclusão da literatura que se considere pornográfica, mas também
obscena, indecente, libidinosa, licenciosa, ultrajante, etc., adjectivos
com os quais tem convivido sinonimamente. Aceitemos que “a
pornografia é o erotismo dos outros” (pensamento atribuído a Chris
Marker) ou que estamos a falar de “duas palavras que designam as
mesmas coisas como é evidente, conforme o olhar que incida sobre
elas” (Jean-Jacques Pauvert, A Literatura Erótica, Teorema, Lisboa,
2001, p. 9). Prevalecendo a expressão literatura erótica, aceitemos
ainda que ela representa uma conquista da literatura decadentista do
século XIX, tendo até aí sido dominante a expressão literatura
sotádica (do grego Sotadès, autor obsceno do séc.III, a.C.).
Os primórdios da literatura mundial conhecem já
variadíssimos exemplos de expressão literária do amor sensual.
Aristófanes legou-nos Lisístrata (411 a.C.), uma das primeras obra
importante do erotismo antigo, história de uma jovem que exorta as
suas conterrâneas atenienses a uma greve de sexo para pôr fim à
guerra do Peloponeso. Os textos bíblicos contêm inúmeros exemplos
que facilmente entram na categoria de literatura erótica, como este
passo de Isaías: “15- Naquele dia Tiro será posta em esquecimento
por setenta anos, conforme os dias dum rei; mas depois de findos os
setenta anos, sucederá a Tiro como se diz na canção da prostituta.
16- Toma a harpa, rodeia a cidade, ó prostituta, entregue ao
esquecimento; toca bem, canta muitos cânticos, para que haja
memória de ti. 17- No fim de setenta anos o Senhor visitará a Tiro, e
ela tornará à sua ganância de prostituta, e fornicará com todos os
reinos que há sobre a face da terra. 18- E será consagrado ao Senhor
o seu comércio e a sua ganância de prostituta;” (Isaías, 23: 15-18).
Aqui, mais do que em qualquer outro código de ética, fica já implícito
que o amor sensual implica a uma certa compostura (“Igualmente
quanto à mulher com quem o homem se deitar com sêmem ambos se
banharão em água, e serão imundos até a tarde.”, Levítico, 16: 18),
cuja infracção pode ser severamente punida, o que é particularmente
grave na “descoberta da nudez”, pecado maior que deve ser punido
exemplarmente (“Pois qualquer que cometer alguma dessas
abominações, sim, aqueles que as cometerem serão extirpados do
seu povo.”, Levítico, 18: 29). Durante o período Han, na China
antiga, entre 206 e 220 a.C., circularam vários manuais didácticos
sobre a prática sexual, segundo a fórmula literária do diálogo entre
um Imperador e um dos seus perceptores ou profefessores de
práticas sexuais. No século IV, na nossa era, surge, na Índia, o mais
universal de todos os manuais sexuais, o Kama Sutra, ainda hoje lido
e apreciado, escrito pelo letrado Vatsyayana para manter uma antiga
tradição de escrita de sutras (textos religiosos para o grande público
de fácil leitura e compreensão).
A Idade Média conserva uma importante literatura satírica
que inclui inúmeras espécies eróticas e pornográficas. Os poemas
eróticos de Eustache Deschaws, o livro De amore, de Andreas
Capfillanus, o Decâmeron de Boccaccio, os Canterbury Tales, de
Geoffrey Chaucer, e, no espaço galego-português, as cantigas de
escárnio e mal dizer, por exemplo, constituem alguns bons exemplos
de uma literatura erótica que rompe com todas as regras do amor
cortês. Esta herança medieval está bem vincada numa das mais ricas
literaturas europeias, a francesa, que conhece nos século XVI obras-
primas do género como Pantagruel (1532) e La Vie très Horrificque
du Grand Gargantua (1534), de Rabelais, celebrações parodísticas de
todos os excessos do amor sensual. Neste mesmo contexto, um
grupo de poetas franceses, conhecido por La Pléiade, onde se
destacam Pierre de Ronsard e Joachim du Bellay, privilegiou a poesia
amorosa de forte carácter libidinoso. Em 1553, Ronsard publicou
Livret de folastries, mas será o seu livro de sonetos Sonnets pour
Hélène (1578) que o distinguirá, ficando na memória histórica a
figura simbólica do amor serôdio e proibido de um velho que se
apaixona por uma mulher muito mais nova, resumido no célebre
verso: “Quand Vous Serez Bien Vieille, le Soir, à la Chandelle”, mais
tarde parafraseado pelo poeta irlandês W. B. Yeats (“When You are
Old and Grey and Full of Sleep”).
A literatura erótica do século XVIII encontra no português
Bocage um exemplo de como é possível não estabelecer limites ao
grau de licenciosidade no texto literário. Na sua obra mais marginal,
Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas (Marujo Editora, Lisboa,
[2001]), no soneto “Lá quando em mim perder a humanidade”,
podemos ler versos como estes que apresentam o Poeta como um
sofredor de amor no mais alto grau de licenciosidade: “Lavre-me este
epitáfio mão piedosa: // ‘Aqui dorme Bocage, o putanheiro: / Passou
a vida folgada, e milagrosa: / Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.’
“. Pela mesma altura, o inglês John Cleland publica Fanny Hill:
Memoirs of a Woman of Pleasure, publicado em dois volumes em
1748 e 1749, o que lhe valeu de imediato a prisão sob a acusação de
ter publicado um livro pornográfico, ofensivo para os bons costumes.
O romantismo alemão também nos legou obras como a colecção de
poemas eróticos com que Goethe contribuiu para a revista dirigida
por Schiller, Die Horen, onde se incluem as Römische Elegien (1795;
Elegias Romanas, 1876), poemas inspirados na relação amorosa de
Goethe com Christiane Vulpius. Mas neste século XVIII poucos
ganharam lugar de maior destaque na história da literatura erótica do
que o exemplo do Marquês de Sade (1740-1814) escritor francês
cuja obra foi amaldiçoada publicamente enquanto viveu. Os
constantes atentados ao pudor, a prática quase selvagem de relações
sexuais que não conheceram limites, e as ofensas à moral levaram-
no à prisão várias vezes, onde escreveu a maior parte das suas
obras, sob rigorosa censura. De salientar os romances Cent vingt
journées de Sodome (Cento e Vinte Dias de Sodoma, 1782-1785) e
Justine ou les malheurs de la vertue (Justina ou as Infelicidades da
Virtude, 6 volumes, 1791-97). Cento e Vinte Dias de Sodoma, obra
de esgotamento criativo, onde Sade julgava ter alcançado o seu
próprio limite, perdeu-se na Bastilha, onde tinha estado preso
durante dois anos. As mais de 300 páginas do livro foram
recuperadas mais tarde por um carcereiro, que as encontrou. Sade
também soube descrever, com rigor filosófico, as suas próprias
experiências sexuais, bizarras, agressivas, obscenas, pouco ortodoxas
e sempre a roçar os limites do desejo libidinoso. Tais práticas incluem
a sodomia (sexo anal) a pedofilia e a macrofilia (sexo com crianças e
velhos) e a coprofilia (sexo com fezes). À lista das suas reflexões
teremos que juntar Le Philosophie dans le boudoir (1795). Esta
personalidade fortemente inclinada para o excesso da vida sexual,
com recurso a todo o tipo de perversão, fez com que o seu nome se
consagrasse para designar um tipo de neurose ou pulsão agressiva a
que os psiquiatras chamam sadismo. No lado oposto, o elogio do
amor sensual pelo triunfo do poder único da sedução, temos ainda
Les Liaisons dangereuses (1782), de Pierre Choderlos de Laclos.
Como bem comenta um dos mais conhecidos teóricos do erotismo,
Francesco Alberoni, “ Há uma estreita ligação entre a raiz colectiva do
erotismo feminino e a sedução como manipulação e intriga. Tudo o
que é colectivo está inextricavelmente ligado ao poder e à luta pelo
poder. Nas cortes, nas sociedades ariostocráticas como a França do
século XVIII, a sedução era um potente meio de afirmação social, de
prestígio, por último, de revolta.” (O Erostismo, 8ª ed., Bertrand,
Venda Nova, 1995, p.229).
A procura do prazer pela dor não é um exclusivo do sadismo. O
austríaco Leopold Franz Johann Ferdinand Maria Sacher-Masoch
(1836-1895) ficou conhecido por um outro tipo de perversão sexual,
o prazer obtido pela dor física e pelo sofrimento corporal, pulsão que
foi imortalizada com o nome de masoquismo. Masoch foi um
aristocrata letrado, escritor de qualidade, tendo-nos legado histórias
eróticas de indivíduos que só alcançavam o prazer sexual se fossem
chicoteados, por exemplo: Eine Galizische Geschichte (Uma História
Galega, 1846); Der Don Juan von Kolomea (O Don Juan de Kolomea,
1866); Das Vermächtnis Kains (O Legado de Caim, 1870-1877), que
inclui o famoso romance erótico Venus im Pelz (A Vénus das Peles,
1874). Em França, o ano de 1857 é particularmente importante para
a literatura erótica: Gustave Flaubert publica o romance Madame
Bovary, imediatamente classificado como pornográfico por tomar
como tema as experiências de adultério de uma jovem provinciana
casada com um viúvo medíocre, mas que há-de marcar o ponto de
partida da época de ouro do romance realista. 1857 é ainda o ano de
Les Fleurs du mal, de Baudelaire, também acusado de imediato de
imoralidade, pelo satanismo, pela preocupação com o macabro e com
as perversões sexuais. Este livro de poemas tornar-se-ia no
manifesto do decadentismo e persistirá nessa condição até ao século
XX. Em Portugal, será Eça de Queirós quem interpretará de forma
mais justa e à letra a tese naturalista com O Crime do Padre Amaro,
onde concentrou a sua atenção na descrição dos ambientes sociais,
particularmente nas deficiências e nas imperfeições da natureza
humana, incapaz de ceder ao desejo carnal mais primitivo. Um outro
tipo de erotismo pode ser encontrado na poesia de Cesário Verde,
como exemplo de sublimação do amor sensual, sempre fingido ou
sempre adiado.
No primeiro volume da História da Sexualidade, A Vontade
de Saber, Michel Foucault conclui na história do sentimento ocidental
dois procedimentos fundamentais para a realização da verdade do
sexo: por um lado, as numerosas sociedades (Roma, China, Índia,
Japão, e sociedades arábico-muçulmanas) que desenvolveram uma
ars erotica, que extraiu a verdade do prazer em si mesmo, se
compreendido como uma prática, acumulável como experiência, onde
não existe lugar para as proibições, e prazer medido na sua
intensidade pelos reflexos que produz no corpo e no espírito. Há
nesta arte erótica um segredo a perseverar, um conhecimento que
perderá a sua essência se se divulgar, por isso exige a instituição de
um mestre que detém esse segredo de vitalidade e só ele pode
transmitir a sua arte, de forma esotérica. Pelo contrário, a civilização
ocidental não possui qualquer ars erotica. É a única civilização a
praticar uma scientia sexualis, isto é, a única civilização a
desenvolver durante séculos as regras de procedimento que nos hão-
de garantir a verdade do sexo. Para isso, desenvolve-se o primado da
confissão, em estreito contraste com a arte da iniciação e do segredo
esotérico. Foucault acaba por declarar que o homem ocidental se
tornou um animal confessor. A sexualidade é o resultado da prática
discursiva dessa actividade confessional e constitui-se em scientia
sexualis, que o cristianismo ocidental instituiu para produzir a
verdade sobre o sexo. A poesia feminina (isto é, virada para o
objecto feminino) de Cesário Verde é a expressão subjectiva da coita
amorosa masculina, quase sempre determinada por um amor sem
possibilidades de realização libidinosa - uma poesia de mimos e
nunca de jouissance plena. A coita do português arcaico vem do latim
cogitare, que significa "ficar a cismar", daí que ao trovador fique bem
o atributo de coitado, isto é, aquele que está pré-ocupado por alguma
paixão. Veremos, como este estado se ajusta na perfeição ao caso de
Cesário, cuja poesia é bastante fixa, codificada num número restrito
de atitudes/posições sexuais, pouco inovadoras, a exemplo das
cantigas de amor medievais. A vassalagem sentimental, a mesura ou
submissão do amante, o louvor patético (relativo ao sofrimento e ao
amor) da mulher divinizada e confundida num panteísmo mal
explicado, a saudade da "mia senhor" - entre todos estes temas do
amor cortês do lirismo provençal, encontramos exemplos na poesia
para a mulher de Cesário Verde. Com mais insistência, vamos
encontrar aquela atitude que se perde nos tempos de talhar preito e
menagem, que mais do que a promessa do namorado ser presente
na entrevista amorosa é uma promessa de submissão à mulher. Para
mais, no sentido de alcançar o favor supremo de quantas donas
invoca na sua poesia, Cesário se mostra um fraco amante não indo
além do estádio do fenhedor que se consome em suspiros. Nunca
ousa pedir, nunca chega a corresponder-se ou a ser correspondido, e
muito menos ensaia os prazeres da jouissance feminina a que os
trovadores provençais aspiravam ao atingirem a maturidade do drut
(amante). As convenções da poesia amorosa de Cesário saem do
lirismo provençal e procuram obedecer religiosamente ao código da
cortesia, que dificilmente entrará na categoria de literatura erótica.
De outra espécie é a arte de Eça de Queirós, em O Crime do Padre
Amaro:

Quando descia para o seu quarto, à noite, ia sempre exaltado.


Punha-se então a ler os «Cânticos a Jesus», tradução do francês
publicada pela Sociedade das Escravas de Jesus. É uma
obrazinha beata, escrita com um lirismo equívoco, quase torpe -
que dá à oração a linguagem da luxúria: Jesus é invocado,
reclamado com as sofreguidões balbuciantes de uma
concupiscência alucinada: «Oh! Vem, amado do meu coração,
corpo adorável, minha alma impaciente quer-te! Amo-te com
paixão e desespero! Abrasa-me! Queima-me! Vem! Esmaga-me!
Possui-me!» E um amor divino, ora grotesco pela intenção, ora
obsceno pela materialidade, geme ruge, declama assim em cem
páginas inflamadas onde as palavras gozo, delícia, delírio,
êxtase, voltam a cada momento, com uma persistência histérica.
(Obras Completas de Eça de Queiroz, vol.4, Círculo de Leitores,
Lisboa, 1980, p.29)

Não admira a preferência de Amaro por estes cânticos, pois eles


traduzem, sem levantar suspeita, a linguagem do desejo libidinoso.
Amaro conclui: "É beato e excitante" — precisamente, essa é também
a conclusão de todo o romance. Este passo do romance contém,
aliás, todos os termos da jouissance. "Concupiscência", ou apetite
sexual ou desejo intenso de gozo, é o termo de Eça que
corresponderá à jouissance. As palavras que Eça destaca — "gozo,
delícia, delírio, êxtase" — são significantes da jouissance e
determinam não só toda a dialéctica do desejo n'O Crime do Padre
Amaro como pode ilustrar o léxico privilegiado do discurso amoroso
da literatura erótica.
O modernismo que inaugura o século XX teve nos seus poetas
de vanguarda os melhores intérpretes do erotismo, bem representado
no grito "Rezai a Luxúria." — exortação às gerações portuguesas do
século XX pronunicado pelo pintor, desenhador, poeta, romancista,
declamador, dramaturgo, ensaísta, conferencista e crítico de arte
Almada Negreiros. Aquele grito de vanguarda pertence ao
"Ultimatum" que escreveu para o número único do Portugal Futurista,
revista porta-voz do futurismo literário português publicada em
Lisboa, em 1917. Ao texto de Almada seguia-se um «Manifesto
Futurista da Luxúria» de Madame Valentine de Saint-Point. Aqui
podemos ler as coordenadas da sexualidade da poesia de vanguarda
de Almada Negreiros: “A Luxúria é a tentativa carnal do desconhecido
(...) A arte e a guerra são as grandes manifestações da sensualidade;
a luxúria é a sua flor. (...) A Luxúria estimula as energias e
desencadeia as forças. É preciso ser consciente na Luxúria. É preciso
dispor da Luxúria como um ser inteligente e raffiné dispõe de si
próprio e da sua vida; é preciso fazer da Luxúria uma obra de arte.”
(Portugal Futurista, edição facsimilada, Contexto, Lisboa, 1990). O
poema de vanguarda de Almada Negreiros "A Cena do Ódio" (escrito
em 1915, aos 22 anos, publicado em parte na revista Contemporânea,
nº7), realiza uma subversão daqueles que eram, no princípio do
século XX, os valores morais, naturais e sociais, sobretudo pelo
recurso a imagens de pedofilia, bestialidade, prostituição, adultério,
sodomia e pela instituição de condições perversas de realização
sexual, como fetichismo, travestismo, voyeurismo e
sadomasoquismo. A léxis da Luxúria no poema de Almada inclui
quase todas as perversões e patologias sexuais: sodomia ("Hei-de
morder-te a ponta do rabo", p.50), prostituição ("não tenho sequer,
irmãs bonitas / nem uma mãe que se venda por mim", p.51),
nudismo ("O nu d'aluguer / na meia-luz dos cortinados corridos!",
p.52), impotência ("as mulheres portuguesas / são a minha
impotência", 56) satiríase "de tanto se encharcar em gozos / o seu
corpo atrofiou", p.57), adultério ("Porque casaste com a tua mulher /
se dormes mais vezes co'a tua criada?", p.62), zooerastia ("Vem ver
os chimpanzés! / Acorpanzila-te neles te ousas!", p.63), sadismo ("Eu
quero-te vivo, muito vivo, a sofrer!", p.63), frigidez ("Hei-de ser a
mulher que tu gostes, / hei-de ser Ela sem te dar atenção!", p.66).
Não há aberrações sexuais mais chocantes para com as
conveniências sociais e religiosas do que a bestialidade e a sodomia.
Durante muito tempo, a bestialidade foi punida com a morte na
fogueira, tanto para o homem como para o animal. Almada quer
agora levar para essa mesma fogueira a escória burguesa. A história
indecente desta escória parece pertencer a um dos Cento e Vinte
Dias de Sodoma, que o não menos perverso Sade narrou. Almada
tentou fazer a história dos dias da Sodoma moderna.
O inglês D. H. Lawrence (1885-1930) é o autor de um dos mais
polémicos romances eróticos da primeira metade do século XX: Lady
Chatterley’s Lover, escrito em 1928, publicado parcialmente em
1932, banido de imediato em Inglaterra, de novo publicado pela
Peguin Books em 1959 e de novo proibido, só por decisão de um
tribunal em 1960 o livro pode circular livremente. O romance é a
história de Constance Reid, uma mulher da nobreza, bela e sedutora,
que se envolve sexualmente com um empregado da mansão em que
vive, depois de o seu marido ter ficado inválido numa das frentes de
batalha na Primeira Guerra Mundial. Lawrence descreve com
pormenor as relações sexuais de ambos, tentando glorificar a força
do amor sensual longe que não pode obedecer às leis castas da
sociedade, em termos que só podiam chocar a mentalidade puritana
inglesa. O que fica bem ilustrado neste romance, também estudado
hoje como um texto anti-feminista, é o elogio do triunfo do falo: “And
afterwards, when they had been quite still, the woman had to
uncover the man again, to look at the mystery of the phallos. `And
now he's tiny, and soft like a little bud of life!' she said, taking the
soft small penis in her hand. `Isn't he somehow lovely! so on his
own, so strange! And so innocent! And he comes so far into me! You
must never insult him, you know. He's mine too. He's not only yours.
He's mine! And so lovely and innocent!' And she held the penis soft in
her hand.” (cap. 14). Outro escritor que também ficou marcado como
maldito por causa dos seus romances eróticos foi o americano Henry
Miller (1891-1980), autor de obras tão divulgadas mundialmente
como Tropic of Cancer (Trópico de Câncer, França, 1934; E.U.A.,
1961), Tropic of Capricorn (Trópico de Capricórnio, França, 1939;
E.U.A., 1961), Sexus, Plexus e Nexus (publicados como um todo em
1965). Miller, que escolheu Paris para viver e trabalhar na sua
escrita, para onde traduziu as suas experiências pessoais com
prostitutas francesas, glorificando a pornografia (recordemos que a
etimologia grega desta palavra diz respeito à prostituição) como uma
espécie de nova religião, o que levou a que os seus livros, censurados
e proibidos em muitos países, constituíssem um fruto muito apetecido
para a imaginação e curiosidade sexual de muitos adolescentes e
adultos. O filme de Philip Kaufman, Henry & June (1990), baseado
nos diários (1914-1934) de uma escritora hoje referência obrigatória
na literatura erótica, Anaïs Nin, retrataram o caso amoroso entre
Henry Miller e a sua mulher June. O filme levou a que nos E.U.A. se
criasse uma nova categoria, ficando proibida a sua visualização a
menores de dezassete anos (NC-17). Dentro do mesmo tipo de
glorificação da pornografia, são de referência obrigatória Emmanuelle
Arsan, autor de Emmanuelle (1959) e Dominique Aury, que sob o
pseudónimo de Pauline Réage publicou Histoire d’O (A História d’O,
1954). Obras de extremo erotismo, todas marcadas pelo escândalo,
incluindo as suas adaptações cinematográficas, exploram os limites
do amor carnal e a relação de poder entre os parceiros sexuais.
Outros escritores preferiram glorificar outras formas de
realização da literatura erótica, como a pedofilia e o voyeurismo.
Está, neste caso, o escritor russo-americano Wladimir Nabokov, o
célebre autor de Lolita (1955), onde se destaca o anti-herói Humbert
Humbert, Nabokov reclama a paternidade do termo ninfeta, objecto
sexuais proibidos, que o público associa hoje ao romance Lolita.
Apesar de insistir na originalidade do termo, “I am informed that a
French motion picture company is about to make a picture entitled
‘The Nymphet’s (‘Les Nymphettes’). The use of this title is an
infringement of my right since this term was invented by me for the
main character in my novel Lolita and has now become completely
synonymous with Lolita in the minds of readers throughout the
world.” (Selected Letters: 1940-1977, Harcourt, 1989, p. 312),
sabemos que o já citado poeta francês Ronsard, em Les Amours,
utilizou essa expressão com sentido idêntico, sendo um dos lexemas
clássicos da literatura erótica: “Amourette / Petite Nymphe folastre, /
Nymphette que j'idolatre, / Ma mignonne dont les yeulx / Logent mon
pis et mon mieux;” (CCXI, in http://www.bibliopolis.fr). O livro de
Nabokov foi adaptado ao cinema por Stanley Kubrick em 1962.
Em 1965, Natália Correia publicou, seleccionou, prefaciou e
anotou uma importante Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e
Satírica (3ª ed., 1999), que inclui autores como Martim Soares, Pero
da Ponte, João Garcia de Guilhade, Gil Vicente, Luís de Camões,
Fernando Pessoa, Gregório de Matos, Guerra Junqueiro, José Régio,
Leonor de Almeida, Jorge de Sena, Ana Harthetly, Maria Teresa
Horta, Herberto Helder. A própria autora publica um poema seu,
“Cosmocópula”, “Membro a pino / dia é macho / submarino / é
entre coxas / teu mergulho / vício de ostras. // O corpo é praia a
boca é a nascente / e é na vulva que a areia é mais sedenta / poro a
poro vou sentindo o curso de água / da tua língua demasiada e
lenta / dentes e unhas rebentam como pinhas / de carnívoras plantas
te é meu ventre / abro-te as coxas e deixo-te crescer / duro e
cheiroso como o aloendro.”

DECADENTISMO; DIFERENÇA SEXUAL; GINOCRÍTICA;


FALOCENTRISMO; ESTUDOS SOBRE HOMOSEXUALIDADE;
MASCULINIDADE; SEXUALIDADE E LITERATURA

Bib. : Alexandrian: História da Literatura Erótica (Lisboa, 1991);


Afrânio Coutinho: O Erotismo na Literatura: O Caso Rubem Fonseca
(1979); Anthony Giddens: Transformações da Intimidade:
Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas, 2ª ed .
(Oeiras, 1996); Camille Paglia: Sexual Personae: Art Decadence from
Nefertiti to Emily Dickinson (1990); C. J. Schneider (ed.): The
Encyclopedia of Erotic Literature (1996); Frances Ferguson:
“Pornography: The Theory”, Critical Inquiry, Spring, 21:3 (1995);
Francesco Alberoni: O Erotismo (Venda Nova, 8ª ed., 1995); Georges
Bataille: O Erotismo (3ª ed ., Lisboa, 1988); Gill Dines, Robert Jensen
e Ann Russo: Pornography: The Production and Consumption of
Inequality (1998); Jean Jacques Pauvert: A Literatura Erótica (Lisboa,
2001).

http://www.uolsinectis.com.ar/biblioteca/especiales/literatura_erotica
/
http://www.literatura.org/Steimberg/asTexto2.html

http://www.sagepub.co.uk/frame.html?
http://www.sagepub.co.uk/journals/details/j0065.html

http://www.fitzroydearborn.com/london/eros/intro.htm

SELEÇÃO DE POEMAS ERÓTICOS – VÁRIOS AUTORES

1) CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

A língua lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas


da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

**********

No corpo feminino, esse retiro

No corpo feminino, esse retiro


- a doce bunda - é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
pois tanto mais a apalpo quanto a miro.

Que tanto mais a quero, se me firo


em unhas protestantes, e respiro
a brisa dos planetas, no seu giro
lento, violento... Então, se ponho e tiro
a mão em concha - a mão, sábio papiro,
iluminando o gozo, qual lampiro,
ou se, dessedentado, já me estiro,

me penso, me restauro, me confiro,


o sentimento da morte eis que o adquiro:
de rola, a bunda torna-se vampiro.

************

Para o sexo a expirar

Para o sexo a expirar, eu me volto, expirante.


Raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor - o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.

Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,


a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.

Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo, quem sabe?


enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.

Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,


e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
de sêmen aljofrando o irreparável ermo.

*****************

Não quero ser o último a comer-te

Não quero ser o último a comer-te.


Se em tempo não ousei, agora é tarde.
Nem sopra a flama antiga nem beber-te
aplacaria sede que não arde
.
em minha boca seca de querer-te,
de desejar-te tanto e sem alarde,
fome que não sofria padecer-te
assim pasto de tantos, e eu covarde
.
a esperar que limpasses toda a gala
que por teu corpo e alma ainda resvala,
e chegasses, intata, renascida,
.
para travar comigo a luta extrema
que fizesse de toda a nossa vida
um chamejante, universal poema.
**********

Sugar e ser sugado pelo amor

Sugar e ser sugado pelo amor


no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pleno
que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar e ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.

************

Sob o chuveiro amar

Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,


ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo -- é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fontes?

***********

A paixão medida

Trocaica te amei, com ternura dáctila


e gesto espondeu.
Teus iambos aos meus com força entrelacei.
Em dia alcmânico, o instinto ropálico
rompeu, leonino,
a porta pentâmetra.
Gemido trilongo entre breves murmúrios.
E que mais, e que mais, no crepúsculo ecóico,
senão a quebrada lembrança
de latina, de grega, inumerável delícia?

Amor - pois que é palavra essencial

Amor – pois que é palavra essencial


comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?


Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,


fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?


Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,


já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,

a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Vai a penetração rompendo nuvens


e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte


que, além de nós, além da prórpia vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,


menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o climax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,


no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,


estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

Mimosa boca errante

Mimosa boca errante


à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.
Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?

Mimosa boca e santa,


que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça


de magnificar meu membro.
Sem que eu esperasse, ficaste de joelhos
em posição devota.
O que passou não é passado morto.
Para sempre e um dia

o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.

Hoje não estás nem sei onde estarás,


na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo não te escuto não te aperto
mas tua boca está presente, adorando.

Adorando.

Nunca pensei ter entre as coxas um deus.

2) ARTHUR AZEVEDO

Por decoro

Quando me esperas, palpitando amores


E os lábios grossos e úmidos me estendes,
E do teu corpo cálido desprendes
Desconhecido olor de estranhas flores;

Quando, toda suspiros e fervores,


Nesta prisão de músculos te prendes,
E aos meus beijos de sátiro te rendes,
Furtando às rosas as purpúreas cores;

Os olhos teus, inexpressivamente,


Entrefechados, lânguidos, tranqüilos,
Olham, meu doce amor, de tal maneira,

Que, se olhassem assim, publicamente,


Deveria, perdoa-me, cobri-los
Uma discreta folha de parreira.
3) GUILHERME DE ALMEIDA
Harmonia velha
O teu beijo resume
Todas as sensações dos meus sentidos
A cor, o gosto, o tato, a música, o perfume
Dos teus lábios acesos e estendidos
Fazem a escala ardente com que acordas o fauno encantador
Que, na lira sensual de cinco cordas,
Tange a canção do amor!

E o tato mais vibrante,


O sabor mais sutil, a cor mais louca,
O perfume mais doido, o som mais provocante
Moram na flor triunfal da tua boca!
Flor que se olha, e ouve, e toca, e prova, e aspira;
Flor de alma, que é também
Um acorde em minha lira,
Que é meu mal e é meu bem...

Se uma emoção estranha


o gosto de uma fruta, a luz de um poente
- chega a mim, não sei de onde, e bruscamente ganha
qualquer sentido meu, é a ti somente
que ouço, ou aspiro, ou provo, ou toco, ou vejo...
E acabo de pensar
Que qualquer emoção vem de teu beijo
Que anda disperso no ar...
5) BERTOLD BRECHT
Hábitos de amar
Não é exato que o prazer só perdura,
Muita vez vivido, cresce ainda mais.
Repetir as mil versões prévias, iguais
É aquilo que a nossa atração segura:

O frêmito do teu traseiro há muito


A pedi-las! Oh, a tua carne é ardil!
E a segunda é, que traz venturas mil,
Que a tua voz presa exija o desfruto!

Esse abrir de joelhos!


Esse deixar-se coitar!
E o tremer, que à minha carne sinal solta
Que saciada a ânsia, logo te volta!
Esse serpear lasso!
As mãos a buscar-me.
Tua a sorrir!
Ai, vezes que se faça:
Não fossem já tantas,
não tinha tanta graça!
6) J. G. DE ARAÚJO JORGE

Teus seios

Teus seios... quando os sinto, quando os beijo


na ânsia febril de amante incontentado,
são pólos recebendo o meu desejo,
nos momentos sublimes de pecado...

E às manhãs... quando acaso, entre lençóis


das roupagens do leito, saltam nus,
lembram, não sei, dois lindos girassóis
fugindo à sombra e procurando a luz!...

Florações róseas de uma carne em flor


que se ostenta a tremer em dois botões
na primavera ardente de um amor
que vive para as nossas sensações...

Túmidos... cheios... palpitantes, como


dois bagos do teu corpo de sereia
tem um rubro botão em cada pomo
como duas cerejas sobre a areia...

Quando os tenho nas mãos... Quantas delícias!...


Arrepiam-se, trêmulos, sensuais,
e ao contato nervoso das carícias
tocam-me o peito como dois punhais!...

Meu lúbrico prazer sempre consolo


na carne destas ondas revoltadas,
que são como taças emborcadas
no moreno inebriante do teu colo...

Razões de amor

Gosto de ti desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrosias, brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos para as minhas alegrias;
de teu ventre - uma enseada - porto sem cais e sem mar -
branca areia à espera da onda que em vaivém vai se espraiar;
de teu quadris, instrumento de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram as brancas asas do sexo;
- do teu corpo só de alvuras - das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem que só de carícias tecem
esses desejos da gente...
Gosto de ti desesperadamente;
gosto de ti, toda, inteira nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos em teus pequeninos pés)
- gosto de ti, feiticeira,
tal como tu és...

7) FLORBELA ESPANCA

Frêmito de meu corpo

Frémito do meu corpo a procurar-te,


Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,


Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma


Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que me não amas...

E o meu coração que tu não sentes,


Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,


A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus barcos...

Quando me lembra: esse sabor que tinha


A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,


Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...


Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Horas rubras
Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas…

Ouço as olaias rindo desgrenhadas…


Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas…

Os meus lábios são brancos como lagos…


Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…

Sou chama e neve branca misteriosa…


E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

A tua voz na primavera

Manto de seda azul, o céu reflete


Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios úmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo não repete


O ritmo e a cor dum mesmo beijo... olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,


Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos...

Para os teus beijos, sensual, flori!


E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!

Charneca em flor

Enche o meu peito, num encanto mago,


O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago


Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,


Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,


Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

8) ÁLVARES DE AZEVEDO

Seio de virgem

O que eu sonho noite e dia,


O que me dá poesia
E me torna a vida bela,
O que num brando roçar
Faz meu peito se agitar,
E o teu seio, donzela!

Oh! quem pintara o cetim


Desses limões de marfim,
Os leves cerúleos veios
Na brancura deslumbrante
E o tremido de teus seios?

Ouando os vejo, de paixão


Sinto pruridos na mão
De os apalpar e conter...
Sorriste do meu desejo?
Loucura! bastava um beijo
Para neles se morrer!

9) BOCAGE

Amar dentro do peito...

Amar dentro do peito uma donzela;


Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:

Fazê-la vir abaixo, e com cautela


Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,


E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:

Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;


Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo.
10) CAMÕES

O fogo que na branda cera ardia

O fogo que na branda cera ardia,


Vendo o rosto gentil que eu na alma vejo,
Se acendeu de outro fogo do desejo,
Por alcançar a luz que vence o dia.

Como de dous ardores se incendia,


Da grande impaciência fez despejo,
E, remetendo com furor sobejo,
Vos foi beijar na parte onde se via.

Ditosa aquela flama, que se atreve


A apagar seus ardores e tormentos
Na vista de que o mundo tremer deve!

Namoram-se, Senhora, os Elementos


De vós, e queima o fogo aquela neve
Que queima corações e pensamentos.

11) CHICO BUARQUE

O meu amor

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele inteira fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada, ai

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes, ai

Eu sou sua menina, viu?


E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita, ai
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai

Eu sou sua menina, viu?


E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

12) CRUZ E SOUSA

Lésbia

Cróton selvagem, tinhorão lascivo,


planta mortal, carnívora, sangrenta,
da tua carne báquica rebenta
a vermelha explosão de um sangue vivo.

Nesse lábio mordente e convulsivo,


ri, ri, risadas de expressão violenta
o Amor, trágico e triste, e passa, lenta,
a morte, o espasmo gélido, aflitivo...

Lésbia nervosa, fascinante e doente,


cruel e demoníaca serpente
das flamejantes atrações do gozo.

Dos teus seios acídulos, amargos,


fluem capros aromas e os letargos,
os ópios de um luar tuberculose...

13) ÉTIENNE JODELLE

Touche de main mignonne...

Touche de main mignonne, fretillarde,


Sur l'Instrument le plus doux en amour,
Qui peut chasser la plaintive clamour,
Sous un accord de plaisance gaillarde,
Et, au tenter d'une ruse pillarde,
Pince et blandit mainte corde à l'entour,
En l'animant d'agile brusque tour,
Par la vertu de sa voix babillarde.
Assez, assez, pour jouir à plaisir
Et commencer me tente le desir:
Tiens la mesure, ou sur mon Luth fredonne
Les doux accords des accordants débats;
Ce temps pendant, du pouvoir que me donne
Le long repos, je fournirai le bas.
14) FERNANDO PESSOA

Dá a surpresa de ser

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro,
faz bem só pensar em ver
seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem


(se ela estivesse deitada)
dois montinhos que amanhecem
sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco


assenta em palmo espalhado
sobre a saliência do flanco
do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.


Tem qualquer coisa de gnomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

15) FERREIRA GULLAR

Um sorriso

Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas

quando
com o meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?

16) JORGE DE SENA

Conheço o sal...
Conheço o sal da tua pele seca
Depois que o estio se volveu inverno
De carne repousada em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos


Quando das bocas se estreitavam lábios
E o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros


Os louros ou cinzentos que se enrolam
Neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos


Como nas praias o perfume fica
Quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal


Da tua língua, o sal de teus mamilos,
E o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,


Ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
Um cristalino pó de amantes enlaçados.

17) JOSÉ RÉGIO

Cântico

Num impudor de estátua ou de vencida,


Coxas abertas, sem defesa... nua
Ante a minha vigília, a noite, e a lua,
Ela, agora, descansa, adormecida.

Dos seus mamilos roxo-azuis, em ferida,


Meu olhar desce aonde o sexo estua.
Choro... e por quê? Meu sonho, irreal, flutua
Sobre funduras e confins da vida.

Minhas lágrimas caem-lhe nos peitos...


Enquanto o luar a numba, inerte, gasta
Da ternura feroz do meu amplexo.

Cantam-me as veias poemas nunca feitos...


E eu pouso a boca, religiosa e casta,
Sobre a flor esmagada do seu sexo.

18) JUNQUEIRA FREIRE

Inspirações do claustro (trechos)

Aqui – já era noite... eu reclinei-me


Nas moles formas do virgíneo seio:
Aqui – sobre ela eu meditei amores
Em doce devaneio.

Aqui – inda era noite... eu tive uns sonhos


De monstruosa, de infernal luxúria:
Aqui – prostrei-me a lhe beijar os rastros
Em amorosa fúria.

...

Aqui – era manhã... via-a sentada


Sobre o sofá – voluptuosa um pouco:
Aqui – prostrei-me a lhe beijar os rastros
Alucinado e louco.

...

Aqui – oh quantas vezes! ... eu a tive


Unida a mim – a derreter-se em ais:
Aqui – ela ensinou-me a ter mais vida,
Sentir melhor e mais.

Aqui – oh quantas vezes!... eu a tive


Em acessos de amor desfalecida!
Lasciva e nua – a me exigir mais gostos
Por sobre mim caída!

19) MARC ANTOINE DE PAPILLON

Ça, je veux fourniller...

Ça, je veux fourniller en ton joli fourneau;


Car j'ai de quoi éteindre et allumer la flamme,
Je vous veux chatouiller jusqu'au profond de l'âme
Et vous faire mourir avec un bon morceau.
Ma petonne, inventons un passe-temps nouveau.
Le chantre ne vaut rien qui ne dit qu'une gamme,
Faites donc le seigneur et je ferai la dame,
Serrez, poussez, entrez, et retirez tout beau.
Je remuerai à bonds d'une vitesse ardente,
Nos pieds entrelacés, notre bouche baisante:
La langue frétillarde ira s'entre-moillant.
Jouons assis, debout, à côté, par-derrière, –
Non à l'italienne, – et toujours babillant:
Cette diversité est plaisante à Cythère.

20) MÁRIO DE ANDRADE

Aceitarás o amor como eu o encaro?

...Azul bem leve, um nimbo, suavemente


Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.
Tudo o que há de melhor e de mais raro

Vive em teu corpo nu de adolescente,


A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo


Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo


Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.

21) MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Como eu não possuo

Como eu desejo a que ali vai na rua,


tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...

Desejo errado... Se eu a tivera um dia,


toda sem véus, a carne estilizada
sob o meu corpo arfando transbordada,
nem mesmo assim – ó ânsia! – eu a teria...

Eu vibraria só agonizante
sobre o seu corpo de êxtases dourados,
se fosse aqueles seios transtornados,
se fosse aquele sexo aglutinante...

De embate ao meu amor todo me ruo,


e vejo-me em destroço até vencendo:
é que eu teria só, sentindo e sendo
aquilo que estrebucho e não possuo.

22) PABLO NERUDA

Cuerpo de mujer...

Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,


te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros


y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.

Pero cae la hora de la venganza, y te amo.


Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
¡Ah los vasos del pecho! ¡Ah los ojos de ausencia!
¡Ah las rosas del pubis! ¡Ah tu voz lenta y triste!

Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.


Mi sed, mi ansia si límite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.

Corpo de mulher?
Pablo Neruda
Tradução de Fernando Assis Pacheco

Corpo de mulher, brancas colinas, coxas brancas,


Assemelhas-te ao mundo no teu jeito de entrega.
O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti
E faz saltar o filho do mais fundo da terra.

Fui só como um túnel. De mim fugiam os pássaros,


E em mim a noite forçava a sua invasão poderosa.
Para sobreviver forjei-te como uma arma,
Como uma flecha no meu arco, como uma pedra na minha funda.
Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te.

Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme.


Ah os copos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limite, meu caminho indeciso!
Escuros regos onde a sede eterna continua,
E a fadiga continua, e a dor infinita.

23) PIERRE DE RONSARD

Je te salue…

Je te salue, ô vermeillette fente


Qui vivement entre ces flancs reluis;
Je te salue, ô bienheuré pertuis,
Qui rend ma vie heureusement contente!
C'est toi qui fais que plus ne me tourmente
L'archer volant qui causait mes ennuis;
T'ayant tenu seulement quatre nuits,
Je sens ma force en moi déjà plus lente.
Ô petit trou, trou mignard, trou velu,
D'un poil follet mollement crêpelu,
Qui à ton gré domptes les plus rebelles:
Tous verts galants devraient, pour t'honnorer,
À beaux genoux te venir adorer,
Tenant au poing leurs flambantes chandelles!

24) RAIMUNDO CORREIA

Na penumbra

Raiava, ao longe, em fogo a lua nova,


Lembras-te?... apenas reluzia a medo,
Na escuridão crepuscular da alcova
O diamante que ardia-te no dedo...

Nesse ambiente tépido, enervante,


Os meus desejos quentes, irritados,
Circulavam-te a carne palpitante,
Como um bando de lobos esfaimados...

Como que estava sobre nós suspensa


A pomba da volúpia; a treva densa
Do teu olhar tinha tamanho brilho!

E os teus seios que as roupas comprimiam,


Tanto sob elas, túmidos, batiam,
Que estalavam-te o flácido espartilho!

25) SAFO

A uma mulher amada

Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!


Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.

Sinto um fogo sutil correr de veia em veia


por minha carne, ó suave bem-querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.

Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.


Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala... eu quase morro ... eu tremo.

26) VINICIUS DE MORAES

Soneto da devoção

Essa mulher que se arremessa, fria


E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.
Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama


A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! — uma cadela


Talvez... — mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

Soneto de agosto

Tu me levaste, eu fui... Na treva, ousados


Amamos, vagamente surpreendidos
Pelo ardor com que estávamos unidos
Nós que andávamos sempre separados.

Espantei-me, confesso-te, dos brados


Com que enchi teus patéticos ouvidos
E achei rude o calor dos teus gemidos
Eu que sempre os julgara desolados.

Só assim arrancara a linha inútil


Da tua eterna túnica inconsútil...
E para a glória do teu ser mais franco

Quisera que te vissem como eu via


Depois, à luz da lâmpada macia
O púbis negro sobre o corpo branco.

27) PEDRO KILKERRY

Em meus nervos, a arder, a alma é volúpia... Sinto

Que Amor embriaga a Íon e a pele de ouro. Estua,

Deita-se Íon: enrodilha a cauda o meu Instinto

aos seus rosados pés... Nyx se arrasta, na rua...

Canta a lâmpada brônzea? O ouvido aos sons extinto

Acorda e ouço a voz ou da lâmpada ou sua

O silêncio anda à escuta. Abre um luar de Corinto

Aqui dentro a lamber Hélada nua, nua.


Íon treme, estremece. Adora o ritmo louro

Da áurea chama, a estorcer os gestos com que crava

Finas frechas de luz na cúpula aquecida...

Querem cantar de Íon os dois seios, em coro...

Mas sua alma - por Zeus! - na água azul doutra Vida

Lava os meus sonhos, treme em seus olhos, escrava.

28) GUILLAUME APPOLINAIRE

La vaseline

Chez un pharmacien, place de l’ Opéra

O Pincel

MOTE

Fui uma noite pintar


Com um caneco emprestado;
Eu pintei sem reparar,
Pintei e fiquei pintado.

GLOSAS

Eu comecei com jeitinho


A compor o ramalhete;
Primeiro foi com azeite
E depois foi com cuspinho.
No começo era estreitinho,
Custava o pincel a entrar...
Começa a dona a gritar:
"Não me parta a tigelinha",
Mas que coisa engraçadinha,
Fui uma noite pintar...

Comecei devagarinho...
Quando fui ao outro mundo
Meti o pincel ao fundo
E parti o canequinho.
Até mesmo o pincelinho
Veio de lá todo pintado,
Eu já estava desmaiado,
Perdendo as cores do rosto;
Mas pintei com muito gosto
Com um caneco emprestado.
Vem a mãe toda zangada:
"Tem que pagar-me a vasilha...
No caneco da minha filha
Não pinta você mais nada...
...Lá isto, a moça deitada,
Sem poder levantar-se,
Com tanta tinta a pingar
No lugar da rachadela!..."
"Diga lá, que desculpe ela,
Eu pintei sem reparar!"...

P'ra que vejam que sou pintor


E meu pincel nunca deixo;
P'ra que saibam que o Aleixo
Não é somente cantor...
Também pinto qualquer flor
E faço qualquer bordado;
Mas aqui o ano passado,
Perdi, de pintar, o tino...
Fui pintar, fiz um menino,
Pintei e fiquei pintado.

(António Aleixo)

As Metamorfoses do Vampiro

E no entanto a mulher, com lábios de framboesa


Coleando qual serpente ao pé da lenha acesa,
E o seio a comprimir sob o aço do espartilho,
Dizia, a voz imersa em bálsamo e tomilho:
- "A boca úmida eu tenho e trago em mim a ciência
De no fundo de um leito afogar a consciência.
As lágrimas eu seco em meios seios triunfantes,
E os velhos faço rir com o riso dos infantes.
Sou como, a quem me vê sem véus a imagem nua,
As estrelas, o sol, o firmamento e a lua!
Tão douta na volúpia eu sou, queridos sábios,
Quando um homem sufoco à borda de meus lábios,
Ou quando os seio oferto ao dente que o mordisca,
Ingênua ou libertina, apática ou arisca,
Que sobre tais coxins macios e envolventes
Perder-se-iam por mim os anjos impotentes!"

Quando após me sugar dos ossos a medula,


Para ela me voltei já lânguido e sem gula
À procura de um beijo, uma outra eu vi então
Em cujo ventre o pus se unia à podridão!

Os dois olhos fechei em trêmula agonia,


E ao reabri-los depois, à plena luz do dia,
Ao meu lado, em lugar do manequim altivo,
No qual julguei ter visto a cor do sangue vivo,
Pendiam do esqueleto uns farrapos poeirentos,
Cujo grito lembrava a voz dos cata-ventos
Ou de uma tabuleta à ponta de uma lança,
Que nas noites de inverno ao vento se balança.

(Charles Baudelaire - Poemas malditos)

A Torre de Babel ou a porra do Soriano

Eu canto do Soriano o singular mangalho!


Empresa colossal! Ciclópico trabalho!
Para o cantar inteiro e para o cantar bem
precisava viver como Matusalém.
Dez séculos!

Enfim, nesta pobreza métrica


cantemos essa porra, porra quilométrica,
donde pendem colhões que idéia vaga
das nádegas brutais do Arcebispo de Braga.

Sim, cantemos a porra, o Carvalho iracundo


que, antes de nervo cru, já foi eixo do Mundo!
Mastro de Leviathan! Iminência revel!
Estando murcho foi a Torre de Babel
Carvalho singular! É contemplá-lo
É vê-lo teso!
Atravessaria o quê?
O sete estrelo!!

Em Tebas, em Paris, em Lagos, em Gomorra


juro que ninguém viu tão formidável porra
É uma porra, arquiporra!
É um caralhão atroz
que se lhe podem dar trinta ou quarenta nós
e, ainda assim, fica o Carvalho preciso
para cozer a Terra, Eva no Paraíso!!

É uma porra infinita, é um Carvalho insone


que nas roscas outrora estrangulou Laoccoonte.

Oh, Carvalho imortal! Oh glória destes lusos!


Tu podias suprir todos os parafusos
que espremem com vigor os cachos do Alto Douro!
Onde é que há um abismo, onde há um sorvedouro
que assim possa conter esta porra do diabo??!
O Marquês de Valadas em vão mostra o rabo,
em vão mostra o fundo o pavoroso Oceano!
? Nada, nada contém a porra do Soriano!!

Quando morrer, Senhor, que extraordinária cova,


que bainha, meu Deus, para esta porra nova,
esta porra infeliz, esta porra precita,
judia errante atrás duma crica infinita??

? Uma fenda do globo, um sorvedouro ignoto


que lhe dá de abrir talvez um dia um terramoto
para que deságüe, esta porra medonha,
em grossos borbotões de clerical langolha!!!

A porra do Soriano, é um infinito assunto!


Se ela está em Lisboa ou em Coimbra, pergunto?
Onde é que ela começa?
Onde é que ela termina
essa porra, que estando em Braga, está na China,
porra que corre mais que o próprio pensamento
que porra de pardal e porra de jumento??
Porra!

Mil vezes porra!


Porra de bruto
que é capaz de cozer o Cosmo num minuto!!

(Guerra Junqueiro)

O amor e a morte

Canção cruel

Corpo de ânsia.
Eu sonhei que te prostava,
E te enleava
Aos meus músculos!

Olhos de êxtase,
Eu sonhei que em vós bebia
Melancolia
De há séculos!

Boca sôfrega,
Rosa brava
Eu sonhei que te esfolhava
Petala a pétala!

Seios rígidos,
Eu sonhei que vos mordia
Até que sentia
Vómitos!

Ventre de mármore,
Eu sonhei que te sugava,
E esgotava
Como a um cálice!

Pernas de estátua,
Eu sonhei que vos abria,
Na fantasia,
Como pórticos!

Pés de sílfide,
Eu sonhei que vos queimava
Na lava
Destas mãos ávidas!
Corpo de ânsia,
Flor de volúpia sem lei!
Não te apagues, sonho! mata-me
Como eu sonhei.

(José Régio)

É quando estás de joelhos...

É quando estás de joelhos


que és toda bicho da Terra
toda fulgente de pêlos
toda brotada de trevas
toda pesada nos beiços
de um barro que nunca seca
nem no cântico dos seios
nem no soluço das pernas
toda raízes nos dedos
nas unhas toda silvestre
nos olhos toda nascente
no ventre toda floresta
em tudo toda segredo
se de joelhos me entregas
sempre que estás de joelhos
todos os frutos da Terra.

(David Mourão Ferreira)

A biciclete

MOTE

Meu amor já veio de França,


Trouxe-me uma biciclete;
Ele diz que aquilo cansa,
Mas também não paga frete.

GLOSAS

No dia em que ele chegou


foi ao meu sítio passear,
P'ra me ver e p'ra mostrar
A lembrança que comprou.
Quando em minha casa entrou,
Eu vi a linda lembrança,
E assim me nasceu a esperança
De andar naquilo também...
Fui dizer à minha mãe:
Meu amor já veio de França.

"Se queres. monto-te agora..."


Montou-me, mas foi agoiro,
Aquilo deu logo um estoiro.
Ele disse: "Não demora."
Tirou a coisa p'ra fora,
Que noutra coisa se mete.
Deu seis sacadas ou sete,
E logo a roda se encheu.
Enfim, para andar mais eu
Trouxe-me uma biciclete...

Às vezes manda-me pôr


No quadro, à frente, e abala

Depois é ele que pedala,


Mas entrega-me o guiador.
Já tenho dito: "Ai, amor,
Com que força isto avança."
Gosto de andar nesta dança,
Pois não pedalo, nem nada;
Eu vou muito descançada,
Ele diz que aquilo cansa.

Na velocidade, murmuro,
Digo: "Ai, amor, vou p'rò céu...
Vê-lá se rompe algum pneu,
Conta amor com algum furo..."
Diz ele: "O pneu está duro,
Só um prego que se espete,
Ou alguma camionete
Que não buzine, nem toque."
Sujeita-se a gente ao choque,
Mas também não paga frete!

(António Aleixo)

Eu que a levei ao rio,


pensando que era donzela,
porém tinha marido.

Foi na noite de Santiago


e quase por compromisso.
Apagaram-se os lampiões
e acenderam-se os grilos.
Nas últimas esquinas
toquei seus peitos dormidos,
e se abriram prontamente
como ramos de jacintos.
A goma de sua anágua
soava em meu ouvido
como uma peça de seda
rasgada por dez punhais.
Sem luz de prata em suas copas
as árvores estão crescidas,
e um horizonte de cães
ladra mui longe do rio.

Passadas as sarçamoras,
os juncos e os espinhos,
debaixo de seus cabelos
fiz uma cova sobre o limo.
Eu tirei a gravata.
Ela tirou o vestido.
Eu, o cinturão com revólver.
Ela, seus quatro corpetes.
Nem nardos nem caracóis
têm uma cútis tão fina,
nem os cristais com lua
reluzem com esse brilho.
Suas coxas me escapavam
como peixes surpreendidos,
a metade cheias de lume,
a metade cheias de frio.
Aquela noite corri
o melhor dos caminhos,
montado em potra de nácar
sem bridas e sem estribos.
Não quero dizer, por homem,
as coisas que ela me disse.
A luz do entendimento
me faz ser mui comedido.
Suja de beijos e areia,
eu a levei do rio.
Com o ar se batiam
as espadas dos lírios.

Portei-me como quem sou.


Como um cigano legítimo.
Dei-lhe um estojo de costura,
grande, de liso palhiço,
e não quis enamorar-me
porque tendo marido
me disse que era donzela
quando a levava ao rio.
(Federico Garcia Lorca)

Do prazer dos homens casados

Mulheres minhas, infiéis, adoro amá-las:


Vêem meu olho em sua pelve embutido
E têm de encobrir o ventre já enchido
(Como dá gozo assim observá-las).

Na boca ainda o sabor do outro homem


Ela é forçada a dar-me tesão viva
Com essa boca a rir para mim lasciva
Outro Carvalho ainda no frio abdómen!

Enquanto a contemplo, quieto e alheio


Do prato do seu gozo comendo os restos
Esgana no peito o sexo, com seus gestos

Ao escrever os versos, ainda eu estava cheio!


(O gozo ia eu pagar de forma extrema
Se as amantes lessem este poema.)

(Bertolt Brecht)

Por onde ela passa...

Por onde ela passa todo mundo espia


Não para a cara que não é formosa
Mas para a bunda, que é maravilhosa
Em bunda nunca vi tanta magia

Sobre, requebra e rodopia


Numa expressão maravilhosa
Deve ser uma bunda cor de rosa
Da cor do céu quando desponta o dia

E ela sabe que sua bunda é boa


Vai pela rua rebolando à toa
Deixando a multidão maravilhada

Eu a contemplo num silêncio mudo


Embora a cara não valesse nada
Só aquela bunda me valia tudo!

(António Aleixo)

Se duvidas que teu corpo...

Se duvidas que teu corpo


Possa estremecer comigo -
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
- desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.

Se o que vês no meu olhar


Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha -
Se tanto for necessário
Para ser compreendido.

(António Botto)

Beijo

Um beijo em lábios é que se demora


e tremem no de abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mas beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
E dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

(Jorge de Sena)

Adão e Eva

Olhámo-nos um dia,
E cada um de nós sonhou que achara
O par que a alma e a cara lhe pedia.

E cada um de nós sonhou que o achara...

E entre nós dois


Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,
... Se deu, e se dará continuamente:

Na palma da tua mão,


Me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado.

Meu nome é Adão...


E em que furor sagrado
Os nossos corpos nus e desejosos
Como serpentes brancas se enroscaram,
Tentando ser um só!

Ó beijos angustiados e raivosos


Que as nossas pobres bocas se atiraram
Sobre um leito de terra, cinza e pó!

Ó abraços que os braços apertaram,


Dedos que se misturaram!

Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri,


Sede que nada mata, ânsia sem fim!
Tu de entrar em mim,
Eu de entrar em ti.

Assim toda te deste,


E assim todo me dei:

Sobre o teu longo corpo agonizante,


Meu inferno celeste,
Cem vezes morri, prostrado...
Cem vezes ressuscitei
Para uma dor mais vibrante
E um prazer mais torturado.

E enquanto as nossas bocas se esmagavam,


E as doces curvas do teu corpo se ajustavam
Às linhas fortes do meu,
Os nossos olhos muito perto, imensos,
No desespero desse abraço mudo,
Confessaram-se tudo!
... Enquanto nós pairávamos, suspensos
Entre a terra e o céu.

Assim as almas se entregaram,


Como os corpos se tinham entregado,
Assim duas metades se amoldaram
Ante as barbas, que tremeram,
Do velho Pai desprezado!

E assim Eva e Adão se conheceram:

Tu conheceste a força dos meus pulsos,


A miséria do meu ser,
Os recantos da minha humanidade,
A grandeza do meu amor cruel,
Os veios de oiro que o meu barro trouxe...

Eu, os teus nervos convulsos,


O teu poder,
A tua fragilidade
Os sinais da tua pele,
O gosto do teu sangue doce...

Depois...

Depois o quê, amor? Depois, mais nada,


Que Jeová não sabe perdoar!

O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada...

Continuamos a ser dois,


E nunca nos pudemos penetrar!

(José Régio)

O uso das palavras obscenas

Desmedido eu que vivo com medida


Amigos, deixai-me que vos explique
Com grosseiras palavras vos fustigue
Como se aos milhares fossem nesta vida!

Há palavras que a cozer dão euforia:


Para o fodidor, foda é palavra louca
E se a palavra traz sempre na boca
Qualquer colchão furado o alivia.

O puro fodilhão é de enforcar!


Se ela o der até se esvaziar: bem.
Maré não lava o que a arvore retém!

Só não façam lavagem ao juizo!


Do homem a arte é: cozer e pensar.
(Mas o luxo do homem é: o riso).

(Bertolt Brecht)

Cosmocópula

Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras

II

O corpo é praia a boca é a nascente


e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso da água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro

(Natalia Correia)