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r e v i s ta

direitos
humanos
NavaNEthem Pillay

Boaventura de
Sousa Santos

Leonardo Sakamoto
Marcus Barberino

Paulo Sérgio Pinheiro

Silvia Pimentel

Nilmário Miranda

José Geraldo de
Sousa Júnior

Horácio Costa

João Roberto Ripper

Paulo Betti

02
junho 2009
Apresentação
“A vida é procurar cada vez mais.
E se um dia alcançarmos o nosso sonho,
então temos que sonhar mais alto ainda!”.

C
om tal enunciado poético, Augusto Boal fechou sua antológica restrito a número limitado de brasileiros, segue envergonhando o País e
entrevista ao número 1 desta revista, pouco antes de morrer, le- nos convocando à construção de amplo consenso em torno da necessi-
gando a todos nós o desafio de prosseguir na busca. dade de erradicá-la imediatamente.
Aqui está o número 2 da revista, orgulhosa do sucesso da edição O reitor da Universidade de Brasília (UnB), José Geraldo de Sousa,
inaugural, com dez mil exemplares rapidamente distribuídos, e já deci- jurista conhecido pelas brilhantes conceituações a respeito do “Direito
dida a tornar-se quadrimestral. O plano é lançar o número 3 em setem- Achado na Rua”, analisa toda a temática da Educação em Direitos Hu-
bro e o número 4 em dezembro deste ano. manos no Brasil e o conteúdo mais central do Plano Nacional em curso
Nesta nova edição, a própria Alta Comissária de Direitos Humanos desde 2003, que ele próprio ajudou a formular e implementar.
da ONU, a sul-africana Navanethem Pillay, atendeu a nosso convite para O direito à diversidade sexual, como legítimo Direito Humano do
escrever sobre a real importância da Conferência de Revisão de Durban segmento LGBT, está também presente na revista, tanto no belo poema
contra o Racismo, ocorrida em Genebra, no final de maio. Seu relato po- do professor da Universidade de São Paulo (USP) Horácio Costa, quanto
sitivo corrige o festival de distorções patrocinado pela mídia de muitos na homenagem a nosso companheiro Paulo Biagi, que coordenou, até o
países, sob pretexto do lamentável discurso de Ahmadinejad colocando último domingo de Páscoa, o Programa Brasil sem Homofobia.
em dúvida o Holocausto. Neste número 2, a sessão permanente de entrevistas focaliza o ator
O conhecido professor e sociólogo de Coimbra, Boaventura de Sou- Paulo Betti, protagonista de filmes e novelas, mas também militante enga-
sa Santos, ofereceu à revista denso ensaio, aqui resumido, com refle- jado em diferentes causas dos Direitos Humanos, em especial nas ativida-
xão instigante sobre as perspectivas de universalização da agenda dos des da Casa da Gávea, no Rio de Janeiro, e do Quilombinho, em Sorocaba,
Direitos Humanos e seus condicionantes. Sem defender o relativismo direcionadas a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
cultural, seu texto mostra que é imprescindível dialogar com tradições O ensaio fotográfico deste número estampa impressionantes ima-
afastadas do racionalismo ocidental – como o Hinduísmo e o Islamis- gens de João Roberto Ripper, sempre portadoras de aguda sensibilidade
mo – para que a pretendida universalidade não se limite a bordão tão social. Quanto às ilustrações, foram cedidas pelo artista plástico equa-
repetitivo quanto oco de sentidos. toriano Pavel Égüez.
A jurista Sílvia Pimentel, das mais respeitadas lideranças brasileiras na Ao final, a revista segue publicando os mais importantes instrumen-
luta das mulheres, reconstrói os avanços conquistados nessa temática an- tos internacionais sobre Direitos Humanos. Na edição anterior, tratou-se
gular dos Direitos Humanos, da Constituinte de 1986 à Lei Maria da Penha. de destacar a própria Declaração Universal, em seu aniversário de 60
Paulo Sérgio Pinheiro, com sua autoridade de relator da ONU em anos. Este número 2 traz a Convenção da ONU sobre os Direitos da
distintas questões (violência contra a criança no mundo, Mianmar, Bu- Criança, que completa 20 anos em 2009.
rundi etc.), e também membro da Comissão Interamericana de Direitos Com certeza, a leitura atenta deste número 2 da Revista Direitos
Humanos, desenha possibilidades otimistas nos Estados Unidos e no Humanos, bem como sua discussão com turmas de alunos e colegas
planeta, com a posse e com os primeiros cem dias de Barack Obama. em salas de aula, sua veiculação pela internet, seu debate em reuniões
O ex-ministro dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda, reconstrói de sindicatos, associações, ONGs e movimentos populares, ajudarão a
o processo histórico da Anistia de 1979 – que em agosto completará reforçar mais um pouco a longa caminhada para concretizar e efetivar 3
30 anos –, deixando claro que ela não foi “ampla, geral e irrestrita”, esses direitos no cotidiano nacional brasileiro.
Revista Direitos Humanos

conforme desinformação muito reiterada nos últimos meses, seja pela


grande imprensa, seja pela voz de altíssimas autoridades da República. Brasília, junho de 2009
Leonardo Sakamoto e o juiz trabalhista Marcus Barberino partilham Paulo Vannuchi
artigo apontando o potencial e as dificuldades do combate ao trabalho Ministro da Secretaria Especial dos
escravo no Brasil, mancha histórica e ética que, não importando se Direitos Humanos da Presidência da República
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sumário Wilson Dias/ABr


6 O início de uma história
de sucesso
NavANethem Pillay

10 Direitos Humanos: o desafio


da interculturalidade
Boaventura de Sousa Santos

Arquivo pessoal Arquivo pessoal

Combate ao trabalho

19 escravo: como plantar uma


floresta de Direitos Humanos
Leonardo Sakamoto e
marcus menezes barberino mendes

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23 Obama: uma comissão da


verdade para os torturadores?
Paulo Sérgio Pinheiro

Fernanda Monteiro

A superação da cegueira

27 de gênero: mais do que um


desafio – um imperativo
Silvia pimentel
Expediente
Presidente da República
Luiz Inácio Lula da Silva
Ministro da Secretaria Especial dos Direitos
Foca Lisboa
Humanos da Presidência da República
Paulo Vannuchi

31 Aos 30 anos, anistia ainda é


um processo inconcluso
Secretário Adjunto
Rogério Sottili
Conselho editorial
Paulo Vannuchi (Presidente)
Nilmário Miranda Aída Monteiro
André Lázaro
Carmen Silveira de Oliveira
Dalmo Dallari
Darci Frigo
Egydio Salles Filho
Diógenis Santos Erasto Fortes Mendonça
José Geraldo de Sousa Júnior
José Gregori

35
Marcos Rolim
Educação em Direitos Humanos: Marília Muricy
Izabel de Loureiro Maior
desafio às universidades Maria Victoria Benevides
Matilde Ribeiro
José Geraldo de Sousa Júnior Nilmário Miranda
Oscar Vilhena
Paulo Carbonari
Paulo Sérgio Pinheiro
Perly Cipriano
Ricardo Brisolla Balestreri
Pedro Stephan
Samuel Pinheiro Guimarães
Coordenação editorial:

41
Erasto Fortes Mendonça
Mariana Carpanezzi
Poemas Paulo Vannuchi
Patrícia Cunegundes

Horácio Costa Tradução:


Mariana Carpanezzi
Revisão:
Bárbara de Castro e Joíra Coelho
Colaboração:
Fátima Monteiro
Fernanda Reis Brito
Projeto gráfico:

42
Wagner Ulisses
Imagens Diagramação:
Erika Yoda, Fabrício Martins
e Maria Luísa Barsanelli
João Roberto Ripper Capa e ilustrações:
Pavel Égüez
Produção editorial:
Jacumã Comunicação

Juliana Hallack Secretaria Especial dos Direitos Humanos


Esplanada dos Ministérios, Bloco T, Edifício
Sede, sala 424

50
70.064-900 Brasília – DF
direitoshumanos@sedh.gov.br
Entrevista www.direitoshumanos.gov.br
ISSN 1984-9613
Distribuição gratuita 5
Paulo Betti Tiragem: 10.000 exemplares
Revista Direitos Humanos

Direitos Humanos é uma revista de distribuição gratuita,


publicada pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos
da Presidência da República.

>>
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parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte e não
seja para venda ou qualquer fim comercial.
artigo

O início de uma
história de sucesso
Navanethem Pillay

A
Navanethem Pillay é Conferência das Nações Unidas para por alhear-se ao processo a retomar seu lugar
alta-comissária das Nações Unidas a Revisão de Durban foi concluída em nos esforços internacionais de superação da
para os Direitos Humanos Genebra no dia 24 de abril de 2009 discriminação e da intolerância, apontados no
com amplo acordo enunciando medidas que documento final da conferência. Muitos entre
reafirmam a tolerância, o respeito à diversi- esses Estados haviam se engajado nos traba-
dade e a continuidade da luta para combater lhos de redação da versão preliminar do docu-
6
o racismo. A rápida e consensual adoção do mento e se colocado como parte do consenso
Revista Direitos Humanos

documento final da conferência prova a con- emergente até a véspera da Conferência de Re-
fiança que muitos países e inúmeras vítimas visão. Espero que reexaminem o documento fi-
depositaram no processo de revisão. nal, que o valorizem considerando o mérito que
Tradução para o português Tal resultado deveria convencer os Esta- detém, e que a partir deste olhar reconsiderem
Mariana Carpanezzi dos-membros das Nações Unidas que optaram sua posição de afastar-se das discussões.
"Racismo e discriminação racial atacam e
podem corromper as próprias fundações da
dignidade de um indivíduo”

Uma tal reavaliação seria simplesmente culturais ou de argumentos falaciosos apre- das formas mais comuns de violação dos
justa. Apesar das críticas apontadas por al- sentados como evidências científicas. A Direitos Humanos e tende a intensificar-se
guns analistas, a conferência fez jus ao que história insiste em nos provar que, uma vez em condições de ressurgência de precon-
se propunha realizar: uma celebração da enraizados, a discriminação, o racismo e a ceitos e medos, bem como em situações de
dignidade e da tolerância para todos. Con- intolerância despedaçam os próprios pilares competição por recursos e oportunidades de
cluímos aquele encontro com sentimento de que sustentam a sociedade e os corrompem trabalho. Ela é também, e de modo frequente,
realização que nos renovou e reenergizou a por gerações. Posso dizê-lo a partir de minha inerente às assimetrias de poder nas socieda-
determinação e o projeto de luta. Tal senti- própria experiência de ter crescido e vivido des. Ela explora e perverte o desejo humano
mento e consciência certamente nos ajuda- durante o regime do apartheid sul-africano. de pertencimento, assim como as legítimas
rão a levar em frente a tarefa que se coloca Conheço a força destrutiva que reside no ra- aspirações a um espaço cultural, históri-
para o futuro: o duro trabalho de honrar nos- cismo institucionalizado. co e psicológico que preserve e alimente a
sos compromissos; a urgente obrigação de Apesar da garantia de não discriminação identidade pessoal.
aportar efeitos concretos ao documento da inscrever-se em todo e qualquer instrumento Tudo isso explica a importância da con-
conferência; o imperativo de apagar essa an- de Direitos Humanos, as leis de alguns paí- ferência em Genebra. Ela representou uma
tiga vergonha que o racismo representa. ses e as práticas de muitos outros, em todas chance para que todas as nações pudessem
Não há dúvida de que o racismo, a into- as regiões do mundo, ainda autorizam e tole- reunir-se e acordar um só documento que
lerância e a discriminação subsistem entre ram a discriminação. O presidente Luiz Inácio inscrevesse aspiração comum – combater o
as questões mais urgentes de nosso tempo. Lula da Silva já se pronunciou de maneira racismo, em todas as suas manifestações, e
Não apenas a discriminação persiste, como eloquente sobre os desafios que enfrentou expressá-lo conjuntamente numa só voz. Foi
vai adquirindo novas formas e dando origem como garoto pobre de uma família do campo, uma oportunidade de dar ímpeto à imple-
a sinistras agendas baseadas no mito da exposto a arraigados preconceitos, vivendo mentação dos compromissos assumidos oito
supremacia de um grupo sobre outro. Ne- “na periferia do mundo o drama da estag- anos atrás em Durban, em 2001, no curso
nhuma sociedade, grande ou pequena, rica nação e da profunda desigualdade social”. da Conferência Mundial contra o Racismo,
ou pobre, é imune a ele. A carga do racismo Além disso, o presidente também já fez notar a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras
é pesada tanto para indivíduos quanto para que a maioria de seus predecessores, mesmo Formas de Intolerância.
comunidades inteiras. os reformistas, governou para poucos, preo- A Declaração e Programa de Ação de Dur-
Racismo e discriminação racial atacam e cupando-se com “um Brasil no qual apenas ban (DDPA), documento final daquela confe-
podem corromper as próprias fundações da um terço da população importava”. rência, foi adotada por consenso. Constitui a
dignidade de um indivíduo, uma vez que bus- Sem desconsiderar o conhecimento que mais completa plataforma internacional para a
cam dividir a família humana entre categorias acumulamos a respeito dos efeitos pernicio- luta contra o racismo, o preconceito, a xenofo-
7
de pessoas e atribuir-lhes valor diferenciado. sos que a intolerância, a opressão e a sub- bia e outras formas correlatas de intolerância.
Revista Direitos Humanos

Todos os aspectos da discriminação de- jugação vêm produzindo através dos séculos A esperança de milhões de vítimas está anco-
vem ser denunciados e forçosamente rejei- e dos continentes, temos de continuar em- rada na implementação do documento, mas
tados, sempre que se manifestem em suas preendendo esforços para que nos livremos essa nobre carta se reduzirá a retórica vazia
várias expressões de ódio, seja sob a forma da discriminação e da marginalização. A se os compromissos que ela enfeixa não ge-
de oportunismo político, de pressupostos discriminação racial, particularmente, é uma rarem efeitos práticos. Precisamos monitorar
artigo O início de uma história de sucesso

e avaliar quantas dessas solenes promessas sobre os Direitos das Populações Indígenas
enunciadas pelos Estados em 2001 foram são igualmente promissoras.
realizadas. Ao mesmo tempo, precisamos de Apesar dos ganhos obtidos, imensos
compreensão mais clara sobre as lacunas que desafios ainda se colocam à nossa frente.
ainda persistem na esfera da proteção das ví- Um breve olhar sobre o trabalho recente do
timas, assim como das negligências observa- Comitê para a Eliminação de Todas as For-
das com relação ao DDPA. mas de Discriminação Racial revela que as
A região latino-americana e caribenha já leis nacionais e as medidas para garantir a
deu início a tal processo de avaliação. Se- eliminação do racismo são tanto inadequadas
guindo a conferência de 2001 em Durban, a quanto ineficientes. É preocupante o limitado
região demonstrou forte compromisso com a número de Estados da região que detêm in-
implementação dos objetivos e recomenda- dicadores para aferir os progressos no tema
ções contidos no DDPA. No nível nacional, de combate ao racismo. A representação de
praticamente todas as Constituições da região grupos minoritários em cargos públicos é
garantem o princípio da igualdade. Muitos diminuta. Há ainda poucas campanhas edu-
países empreenderam reformas jurídicas para cacionais públicas voltadas à promoção da
eliminar leis discriminatórias. Alguns países igualdade, da diversidade e da tolerância.
passaram a adotar planos de ação nacionais Dado o legado histórico deixado pelo ra-
contra o racismo, tal como recomendado pelo cismo na região – exclusão social de popu-
DDPA. Embora nem todos os planos tenham lações indígenas e afrodescendentes –, mais
sido integralmente implementados, a adoção Estados deveriam adotar medidas para pro-
do plano, por si só, configura um passo na mover a participação e a representação dos
direção correta. grupos marginalizados e vulneráveis. Se a re-
Noto, com satisfação, que a maioria gião, por um lado, guarda bons registros com
dos países da região já ratificou os prin- respeito à ratificação de tratados internacio-
cipais tratados internacionais de Direitos nais sobre os Direitos Humanos, por outro é
Humanos das Nações Unidas e do sistema preciso notar que importantes instrumentos,
regional. Fortalecendo e expandindo esse tais como a Convenção para a Proteção dos
corpo de leis, a versão provisória da futura Direitos dos Trabalhadores Migrantes e Mem-
Convenção Interamericana contra o Racis- bros de suas Família, a Convenção nº 169 da
mo e Todas as Formas de Discriminação e Organização Internacional do Trabalho (sobre
Intolerância promete converter-se em agen- Populações Indígenas e Tribais) e a Conven-
te catalisador desse processo. Apesar de a ção sobre os Direitos das Pessoas com De-
convenção ainda não ter atingido sua ver- ficiência têm sido objeto de apoio modesto.
são final, ela constitui desde já instrumento Os problemas que a região enfrenta não
que contempla e enfrenta universo amplo são restritos ao Hemisfério Ocidental. Como
de diversas formas de discriminação, como repetidamente venho fazendo notar, a imple-
jamais outro o fez. A criação, em 2005, do mentação da Declaração e Programa de Ação
8 mandato de relator especial para os Direitos de Durban vem sendo dificultada em diferen-
Humanos das Populações de Origem Afri- tes localidades por toda sorte de obstáculos.
Revista Direitos Humanos

cana e para a Discriminação Racial consti- No seio das devastadoras consequências da


tui outra pedra fundamental no combate ao atual crise financeira e da recessão econô-
racismo. As atuais discussões relacionadas mica, a pobreza e a exclusão continuarão a
à adoção de uma Declaração Americana representar desafios centrais. A convergência
dessas crises com os efeitos da mudança cli- e espírito de compromisso sem precedentes.
mática certamente afetarão desproporcional- Todos foram agudamente sensíveis ao fato de
mente todos os grupos vulneráveis dentro de que o racismo, quer institucionalizado, quer
suas respectivas sociedades. manifesto como mero ódio contra pessoas,
A globalização sublinha o desafio de religião ou classes, constitui simples e pura
garantir respeito mútuo entre indivíduos negação dos Direitos Humanos.
que carregam consigo diferentes trajetó- No conjunto das várias histórias nacio-
rias de vida nas sociedades multiculturais. nais, já assistimos a casos de intolerância
Com a intensificação dos movimentos de que negam as identidades do “outro”, ou
pessoas através das fronteiras nacionais, que rejeitam os sofrimentos das minorias que
os migrantes passam a ser percebidos recusam dividir a chamada “história oficial”.
como competidores pelos escassos recur- Vimos emergi-los sob novas formas, como
sos disponíveis, bem como ameaça para os o tráfico de pessoas, cujas vítimas tendem
modos de vida de outros grupos. Por fim, a ser preferencialmente mulheres e crianças
a exploração da diferença – étnica, racial de situação socioeconômica desprivilegiada.
ou religiosa – continua a funcionar como Refugiados, asilados, trabalhadores migran-
combustível para os conflitos armados e tes e migrantes sem documentação vêm
para tensões dentro das comunidades. sendo cada vez mais estigmatizados, se não
O documento final da Conferência de perseguidos. Uma nova política de xenofobia
Revisão de Durban convoca os Estados a encontra-se em estágio de ascensão.
prevenir manifestações de racismo, de dis- A discriminação não desaparece por si
criminação racial e de xenofobia, especial- própria. Ela deve ser desafiada a todo mo-
mente com relação a migrantes, refugiados mento. Não devemos esperar. Cada nação
e asilados. Os Estados também são instados deve ser parceira nessa luta.
a promover maior grau de participação e de A magnitude da tarefa que se coloca dian-
oportunidades para as pessoas de descen- te de nós deve incentivar nossa união, para
dência africana ou asiática, populações indí- que façamos o melhor uso de nossas energias
genas e indivíduos pertencentes a minorias e recursos, com o propósito de criar um mun-
étnicas, religiosas ou linguísticas. A centrali- do de oportunidades e de tratamentos iguais
dade da liberdade de expressão é reafirmada para todos, independentemente de raça, gê-
lado a lado com a sua compatibilidade com nero, língua, religião, opinião, posição políti-
os instrumentos internacionais que proíbem a ca, origem social ou nacional, de propriedade,
incitação ao ódio, com vistas a harmonizar o de nascimento ou de qualquer outra condição.
conflito artificial que se estabeleceu entre os Tal como a vejo, a Conferência em Gene-
dois princípios. bra é o começo de um processo, muito mais
Estados ainda reconheceram as injusti- do que o seu fim. A longa marcha da huma-
ças e atrocidades do passado e compromete- nidade em sua campanha contra o racismo
ram-se a evitar sua repetição. Nesse sentido, nunca foi fácil. Como podemos pensar que
envidaram esforços para proibir atividades ficará mais fácil no futuro? Assim, faço ape- 9
violentas, racistas e xenófobas de grupos lo a todos os países para que se unam nesta
Revista Direitos Humanos

propagadores de ideologias extremistas. marcha à frente. Se a tolerância e o respeito


Demonstrando sensibilidade pelas de- pela diversidade constituem nosso horizonte
mandas de nossos tempos, os participantes futuro, o melhor é que comecemos a praticar
demonstraram flexibilidade, clareza de projeto essas mesmas qualidades aqui e agora.
Direitos Hum
o desafio
Boaventura de Sousa Santos

A
forma como os Direitos Humanos
se transformaram, nas duas últimas
décadas, na linguagem da política
progressista, em quase sinônimo de eman-
cipação social causa alguma perplexidade.
De fato, durante muitos anos, após a Se-
gunda Guerra Mundial, os Direitos Humanos
foram parte integrante da política da guerra
fria, e como tal foram considerados pelas
forças políticas de esquerda. Duplos crité-
rios na avaliação das violações dos Direitos
Humanos, complacência para com ditadores
amigos do Ocidente, defesa do sacrifício dos
Direitos Humanos em nome dos objetivos
do desenvolvimento – tudo isso tornou os
Direitos Humanos suspeitos enquanto roteiro
emancipatório.
Quer nos países centrais, quer em todo
o mundo em desenvolvimento, as forças
progressistas preferiram a linguagem da re-
volução e do socialismo para formular uma
política emancipatória. E no entanto, perante
a crise aparentemente irreversível desses pro-
Boaventura de Sousa Santos é professor
jetos de emancipação, são essas mesmas for-
catedrático da Faculdade de Economia da
ças que recorrem hoje aos Direitos Humanos
Universidade de Coimbra, distinguished legal
para reinventar a linguagem da emancipação.
scholar da Faculdade de Direito da Universidade
É como se os Direitos Humanos fossem in-
de Wisconsin-Madison e global legal scholar da
vocados para preencher o vazio deixado pelo
Universidade de Warwick. É diretor do Centro de
Socialismo ou, mais em geral, pelos projetos
10 Estudos Sociais da Universidade de Coimbra,
emancipatórios. Poderão realmente os Direi-
diretor do Centro de Documentação 25 de Abril da
Revista Direitos Humanos

tos Humanos preencher tal vazio? A minha


mesma universidade e coordenador científico do
resposta é um sim muito condicional.
Observatório Permanente da Justiça Portuguesa.
O meu objetivo neste trabalho é identifi-
Este artigo foi resumido de um ensaio maior por
car as condições em que os Direitos Huma-
Erasto Fortes Mendonça, com autorização do autor nos podem ser colocados a serviço de uma
manos:
o da interculturalidade
política progressista e emancipatória. Tal ta- forma de Estado e interesses e grupos so- pós-nacional. A efetividade dos Direitos
refa exige que sejam claramente entendidas ciais que se reproduzem melhor sob a forma Humanos tem sido conquistada em pro-
as três tensões dialéticas que informam a de sociedade civil, tornando o âmbito efe- cessos políticos de âmbito nacional, e por
modernidade ocidental. A primeira ocorre en- tivo dos Direitos Humanos inerentemente isso a fragilização do Estado Nação pode
tre regulação social e emancipação social. A problemático. Historicamente, nos países trazer consigo a fragilização dos Direitos
segunda ocorre entre o Estado e a sociedade do Atlântico Norte, a primeira geração dos Humanos. Por outro lado, os Direitos Hu-
civil. A terceira ocorre entre o Estado Nação e Direitos Humanos, dos direitos civis e polí- manos aspiram hoje a um reconhecimento
o que designamos por globalização. ticos, foi concebida como luta da sociedade mundial e podem mesmo ser considerados
A primeira tensão dialética entre regula- civil contra o Estado, considerado principal como um dos pilares fundamentais de uma
ção social – simbolizada pela crise do Estado violador potencial dos Direitos Humanos. emergente política pós-nacional. A ree-
intervencionista e do Estado-providência – e A segunda e terceira gerações, dos direi- mergência dos Direitos Humanos é hoje
emancipação social – simbolizada pela crise tos econômicos, sociais e culturais e da entendida como sinal do regresso do cultu-
da revolução social e do Socialismo como qualidade de vida foram concebidas como ral e até mesmo do religioso. Ora, falar de
transformação radical – deixou de ser, nes- atuações do Estado, considerado principal cultura e de religião é falar de diferença, de
te início de século, tensão criativa. As crises garantidor dos Direitos Humanos. fronteiras, de particularismos. Como pode-
de regulação e emancipação sociais são si- Por fim, a terceira tensão ocorre entre rão os Direitos Humanos ser uma política
multâneas e alimentam-se uma da outra. A o Estado Nação e o que designamos por simultaneamente cultural e global?
política de Direitos Humanos, que pode ser globalização. Hoje, a erosão seletiva do Es- Nessa ordem de ideias, o meu objetivo
simultaneamente uma política regulatória e tado Nação, imputável à intensificação da é desenvolver um quadro analítico capaz de
uma política emancipatória, está armadilhada globalização, coloca a questão de saber se, reforçar o potencial emancipatório da política
nessa dupla crise, ao mesmo tempo em que quer a regulação social, quer a emancipa- dos Direitos Humanos no duplo contexto da
é sinal do desejo de a ultrapassar. ção social, deverão ser deslocadas para o globalização, por um lado, e da fragmentação
A segunda tensão dialética que ocorre nível global. É nesse sentido que se come- cultural e da política de identidades, por ou-
entre o Estado e a sociedade civil, apesar ça a falar em sociedade civil global, gover- tro. Pretendo apontar as condições que per-
de considerado o dualismo fundador da nança global, equidade global e cidadania mitem conferir aos Direitos Humanos, tanto
modernidade ocidental, aponta como pro-
blemáticas e contraditórias a distinção e a
relação entre ambos.
Nas últimas décadas, tornou-se mais
“É como se os Direitos Humanos
claro que a distinção entre o Estado e a so- fossem invocados para preencher 11
Revista Direitos Humanos

ciedade civil, longe de ser um pressuposto


da luta política moderna, é o resultado dela.
o vazio deixado pelo Socialismo
A tensão deixa, assim, de ser entre Estado ou, mais em geral, pelos projetos
e sociedade civil para ser entre interesses
e grupos sociais que se reproduzem sob a emancipatórios”
artigo Direiros humanos: o Desafio da Interculturalidade

o escopo global como a legitimidade local, gua inglesa em língua franca, a globalização
para fundar uma política progressista de Di- do fast food americano ou da sua música
reitos Humanos – Direitos Humanos concebi- popular, ou seja a adoção mundial das leis
dos como a energia e a linguagem de esferas de propriedade intelectual ou de telecomu-
públicas locais, nacionais e transnacionais nicações dos EUA. “A globali
atuando em rede para garantir novas e mais
intensas formas de inclusão social.
À segunda forma de globalização chamo
globalismo localizado. Consiste no impacto
processo
específico de práticas e imperativos transna- determinad
Acerca das globalizações cionais nas condições locais. Tais globalis-
Muitas definições de globalização cen- mos localizados incluem: desflorestamento ou entidade l
tram-se na economia. Privilegio, no entanto,
uma definição mais sensível às dimensões
e destruição maciça dos recursos naturais
para pagamento da dívida externa; tesouros
a sua infl
sociais, políticas e culturais. Não existe es- históricos, lugares ou cerimônias religio- todo o
tritamente uma entidade única chamada glo- sos, artesanato e vida selvagem postos à
balização, mas, em vez disso, globalizações, disposição da indústria global do turismo;
termo que, a rigor, só deveria ser usado no “compra” pelos países do Terceiro Mundo
plural e que, como feixes de relações sociais, de lixos tóxicos produzidos nos países capi-
envolvem conflitos, vencedores e vencidos. talistas centrais para gerar divisas externas;
Frequentemente, o discurso sobre globaliza- conversão da agricultura de subsistência
ção é a história dos vencedores. em agricultura para exportação como parte
Proponho, pois, a seguinte definição: a do “ajustamento estrutural”; alterações le-
globalização é o processo pelo qual deter- gislativas e políticas impostas pelos países
minada condição ou entidade local estende centrais ou pelas agências multilaterais que
a sua influência a todo o globo e, ao fazê-lo, eles controlam; uso de mão de obra local
desenvolve a capacidade de designar como por parte de empresas multinacionais sem
local outra condição social ou entidade rival. qualquer respeito por parâmetros mínimos
Aquilo que chamamos globalização é de trabalho (labor standards). A divisão in-
sempre a globalização bem-sucedida de ternacional da produção da globalização as-
determinado localismo. Em termos ana- sume o seguinte padrão: os países centrais
líticos, seria correta a utilização do termo especializam-se em localismos globaliza-
localização em vez de globalização para dos, enquanto aos países periféricos cabe
designar a presente situação. O motivo da tão só a escolha entre várias alternativas de
preferência para o último termo é basica- globalismos localizados. O sistema-mundo
mente porque o discurso científico hege- é uma trama de globalismos localizados e
mônico tende a privilegiar a história do localismos globalizados.
mundo na versão dos vencedores. À terceira forma de globalização de-
Distingo quatro modos de produção da signo por cosmopolitismo, conjunto muito
globalização, os quais, em meu entender, vasto e heterogêneo de iniciativas, movi-
12 dão origem a quatro formas de globalização. mentos e organizações que partilham a luta
A primeira forma de globalização é o localis- contra a exclusão e a discriminação sociais
Revista Direitos Humanos

mo globalizado. Consiste no processo pelo e a destruição ambiental produzidas pelos


qual determinado fenômeno local é globali- localismos globalizados e pelos globalis-
zado com sucesso, seja a atividade mundial mos localizados, recorrendo a articulações
das multinacionais, a transformação da lín- transnacionais tornadas possíveis pela
revolução das tecnologias de informação e nica. Localismos globalizados e globalismos
de comunicação. As atividades cosmopoli- localizados são a globalização de-cima-para-
tas incluem diálogos e articulações Sul-Sul; baixo, neoliberal ou hegemônica; cosmopo-
novas formas de intercâmbio operário; redes litismo e patrimônio comum da humanidade
ização é o transnacionais de lutas ecológicas, pelos são a globalização de-baixo-para-cima, soli-

pelo qual direitos da mulher, pelos direitos dos po-


vos indígenas, pelos Direitos Humanos em
dária ou contra-hegemônica.

da condição geral; solidariedade anticapitalista entre o Os Direitos Humanos como


Norte e o Sul. O Fórum Social Mundial que roteiro emancipatório
local estende se reuniu em Porto Alegre a partir de 2001 é A complexidade dos Direitos Humanos

fluência a hoje a mais pujante afirmação de cosmopo-


litismo no sentido aqui adotado.
reside em que eles podem ser concebidos
e praticados, quer como forma de localis-
globo” Não uso cosmopolitismo no sentido mo- mo globalizado, quer como forma de cos-
derno convencional. Para mim, cosmopolitis- mopolitismo ou, por outras palavras, quer
mo é a solidariedade transnacional entre gru- como globalização hegemônica, quer como
pos explorados, oprimidos ou excluídos pela globalização contra-hegemônica. O meu
globalização hegemônica. O cosmopolitismo objetivo é especificar as condições culturais
que defendo é o cosmopolitismo do subalter- para que os Direitos Humanos constituam
no em luta contra a sua subalternização. forma de globalização contra-hegemônica.
A quarta forma de globalização refere- A minha tese é que, enquanto forem conce-
se à emergência de temas que, por sua bidos como direitos humanos universais, os
natureza, são tão globais como o próprio Direitos Humanos tenderão a operar como
planeta e aos quais eu chamaria, recorren- localismo globalizado e, portanto, como
do ao Direito internacional, o patrimônio forma de globalização hegemônica. Para
comum da humanidade. Trata-se de temas poder operar como forma de cosmopolitis-
como a sustentabilidade da vida humana na mo, como globalização contra-hegemônica,
Terra, por exemplo, ou temas ambientais os Direitos Humanos têm de ser reconcei-
como a proteção da camada de ozônio, a tualizados como multiculturais. Concebidos
preservação da Antártica, da biodiversida- como direitos universais, como tem sucedi-
de ou dos fundos marinhos. Incluo, ainda, do, os Direitos Humanos tenderão sempre
nessa categoria, a exploração do espaço, a ser instrumento do “choque de civiliza-
da Lua e de outros planetas, dadas as inte- ções”, tal como o concebe Samuel Hunting-
rações globais, físicas e simbólicas, entre ton (1993), ou seja, como arma do Ocidente
eles e o planeta Terra. A preocupação com contra o resto do mundo. É sabido que os
o cosmopolitismo e com o patrimônio co- Direitos Humanos não são universais na sua
mum da humanidade conheceu grande de- aplicação. Serão os direitos humanos uni-
senvolvimento nas últimas décadas, mas versais, enquanto artefato cultural, um tipo
também fez surgir poderosas resistências. de invariável cultural ou transcultural, parte
Em face da análise precedente, é fun- de uma cultura global? A minha resposta 13
damental distinguir entre globalização de- é não. Apenas a cultura ocidental tende a
Revista Direitos Humanos

cima-para-baixo e globalização de-baixo- formulá-los como universais. Por outras pa-


para-cima, entre globalização neoliberal e lavras, a questão da universalidade é uma
globalização solidária ou entre globalização questão particular, uma questão específica
hegemônica e globalização contra-hegemô- da cultura ocidental.
artigo Direiros humanos: o Desafio da Interculturalidade

O conceito de Direitos Humanos assenta A dualidade entre uma “política de invisi- reitos Humanos sobre universalismo e rela-
num bem-conhecido conjunto de pressupos- bilidade” e uma “política de supervisibilida- tivismo cultural. Todas as culturas são relati-
tos, todos claramente ocidentais e facilmente de” correlacionadas aos imperativos da polí- vas, mas o relativismo cultural, como posição
distinguíveis de outras concepções de digni- tica externa norte-americana foi denunciada filosófica, é incorreto. Por outro lado, todas
dade humana em outras culturas. por Richard Falk (1981), ao citar a ocultação as culturas aspiram a preocupações e valores
A marca ocidental liberal do discurso total pela mídia das notícias sobre o geno- válidos independentemente do contexto de
dominante dos Direitos Humanos pode cídio do povo maubere em Timor Leste ou a seu enunciado, mas o universalismo cultural,
ser facilmente identificada em muitos ou- situação dos cerca de duzentos milhões de como posição filosófica, é incorreto.
tros exemplos: na Declaração Universal “intocáveis” na Índia, bem como a exuberân- A segunda premissa da transformação
de 1948, elaborada sem a participação da cia com que os atropelos pós-revolucionários cosmopolita dos Direitos Humanos é que
maioria dos povos do mundo; no reconhe- dos Direitos Humanos no Irã e no Vietnã fo- todas as culturas possuem concepções de
cimento exclusivo de direitos individuais, ram relatados nos Estados Unidos. dignidade humana, mas nem todas elas a
com a única exceção do direito coletivo à Mas essa não é toda a história das políti- concebem em termos de Direitos Humanos.
autodeterminação; na prioridade concedida cas dos Direitos Humanos. Muitas pessoas e A terceira premissa é que todas as cultu-
aos direitos civis e políticos sobre os direi- organizações não governamentais têm luta- ras são incompletas e problemáticas nas suas
tos econômicos, sociais e culturais; e no do pelos Direitos Humanos, correndo riscos concepções de dignidade humana. Se cada
reconhecimento do direito de propriedade em defesa de grupos oprimidos vitimizados cultura fosse tão completa como se julga,
como o primeiro e, durante muitos anos, o por Estados autoritários, por práticas econô- existiria apenas uma só cultura. Aumentar a
único direito econômico. micas excludentes ou por políticas culturais consciência de incompletude cultural é uma
A história dos Direitos Humanos no pe- discriminatórias. Tais lutas emancipatórias das tarefas prévias à construção de uma con-
ríodo imediatamente posterior à Segunda são, por vezes, explícita ou implicitamente cepção multicultural de Direitos Humanos.
Guerra Mundial nos leva a concluir que as anticapitalistas. Creio que a tarefa central da A quarta premissa é que todas as culturas
políticas de Direitos Humanos estiveram em política emancipatória do nosso tempo con- têm versões diferentes de dignidade humana,
geral a serviço dos interesses econômicos e siste em transformar a conceitualização e a algumas mais amplas do que outras, algumas
14 geopolíticos dos Estados capitalistas hege- prática dos Direitos Humanos, de um loca- com um círculo de reciprocidade mais largo
mônicos. Um discurso generoso e sedutor lismo globalizado num projeto cosmopolita. do que outras, algumas mais abertas a outras
Revista Direitos Humanos

sobre os Direitos Humanos coexistiu com Identifico três premissas dessa transfor- culturas do que outras.
atrocidades indescritíveis, as quais foram mação. A primeira premissa é a superação Por último, a quinta premissa é que
avaliadas de acordo com revoltante duplici- do debate intrinsecamente falso e prejudicial todas as culturas tendem a distribuir as
dade de critérios. para uma concepção emancipatória dos Di- pessoas e os grupos sociais entre dois
“Um discurso generoso e
sedutor sobre os Direitos
Humanos coexistiu com
atrocidades indescritíveis”

princípios competitivos de pertença hierár- A hermenêutica diatópica baseia-se na reitos Humanos, o dharma também é incom-
quica. O princípio da igualdade e o princí- ideia de que os topoi de uma dada cultura, pleto, dado o seu enviesamento fortemente
pio da diferença. Embora na prática os dois por mais fortes que sejam, são tão incom- não dialético a favor da harmonia, ocultando,
princípios se sobreponham frequentemente, pletos quanto a própria cultura a que perten- assim, injustiças e negligenciando totalmen-
uma política emancipatória dos Direitos cem. Tal incompletude não é visível a partir te o valor do conflito como caminho para
Humanos deve saber distinguir entre a luta do interior dessa cultura, uma vez que a as- uma harmonia mais rica. Além disso, o dhar-
pela igualdade e a luta pelo reconhecimen- piração à totalidade induz a que se tome a ma não está preocupado com os princípios
to igualitário das diferenças, a fim de poder parte pelo todo. O objetivo da hermenêutica da ordem democrática, com a liberdade e a
travar ambas as lutas eficazmente. diatópica não é, porém, atingir a completude autonomia, e tende a esquecer que o sofri-
Essas são as premissas de um diálogo – objetivo inatingível – mas, pelo contrário, mento humano possui uma dimensão indi-
intercultural sobre a dignidade humana que ampliar ao máximo a consciência de incom- vidual irredutível: não são as sociedades que
pode levar, eventualmente, a uma concepção pletude mútua, por meio de um diálogo que sofrem, mas sim os indivíduos.
mestiça de Direitos Humanos, uma concep- se desenrola, por assim dizer, com um pé A mesma hermenêutica diatópica pode
ção que, em vez de recorrer a falsos univer- numa cultura e outro, noutra. Nisso reside o ser ensaiada entre o topos dos Direitos Huma-
salismos, se organiza como uma constelação seu caráter dia-tópico. nos e o topos da umma na cultura islâmica,
de sentidos locais, mutuamente inteligíveis, Um exemplo de hermenêutica diatópi- que se refere sempre à comunidade étnica,
e que se constitui em rede de referências nor- ca é a que pode ter lugar entre o topos dos linguística ou religiosa de pessoas que são
mativas capacitantes. Direitos Humanos na cultura ocidental, o to- o objeto do plano divino de salvação. Vista a
pos do dharma na cultura hindu e o topos partir do topos da umma, a incompletude dos
A hermenêutica diatópica da umma na cultura islâmica. Vistos a partir Direitos Humanos individuais reside no fato
Podemos compreender topoi como do topos do dharma, os Direitos Humanos de, com base neles, ser impossível fundar os
lugares comuns retóricos mais abrangen- são incompletos, na medida em que não laços e as solidariedades coletivas, sem as
tes de determinada cultura, que funcionam estabelecem a ligação entre a parte (o indi- quais nenhuma sociedade pode sobreviver,
como premissas de argumentação que, por víduo) e o todo (o cosmos). Vista a partir do e muito menos prosperar. A dificuldade da
sua evidência, não se discutem e tornam dharma, a concepção ocidental dos Direitos concepção ocidental de Direitos Humanos 15
possíveis a produção e a troca de argu- Humanos está contaminada por uma simetria em aceitar direitos coletivos de grupos so-
Revista Direitos Humanos

mentos. Compreender determinada cultura muito simplista e mecanicista entre direitos ciais ou povos é um exemplo específico de
a partir dos topoi de outra cultura é tarefa e deveres. Apenas garante direitos àqueles a uma dificuldade muito mais ampla: a dificul-
muito difícil, para a qual proponho uma her- quem pode exigir deveres. Por outro lado e dade em definir a comunidade como arena
menêutica diatópica. inversamente, visto a partir do topos dos Di- de solidariedades concretas, campo político
artigo Direiros humanos: o Desafio da Interculturalidade

dominado por uma obrigação política hori- fontes do Islamismo, que relativiza o con-
zontal. Esta ideia de comunidade, central para texto histórico específico em que a Sharia
Rousseau, foi varrida do pensamento liberal, foi criada pelos juristas dos séculos VIII e
que reduziu toda a complexidade societal à IX. No contexto atual, haveria todas as con-
dicotomia Estado/sociedade civil. dições para uma concepção mais alargada
Mas, por outro lado, a partir do to- da igualdade e da reciprocidade a partir das
“No contexto pos dos Direitos Humanos individuais, é fontes corânicas. Estaria inclinado a sugerir
fácil concluir que a umma sublinha de- que, no contexto muçulmano, a energia mo-
muçulmano, masiadamente os deveres em detrimen- bilizadora necessária para um projeto cos-

a energia to dos direitos e por isso tende a perdoar


desigualdades que seriam de outro modo
mopolita dos Direitos Humanos poderá ge-
rar-se mais facilmente num quadro religioso
mobilizadora inadmissíveis, como a desigualdade entre moderado. Se for esse o caso, a abordagem
homens e mulheres ou entre muçulmanos e de An-na’im é muito promissora.
necessária não muçulmanos. A hermenêutica diatópica Na Índia, uma via per mezzo semelhante
para um mostra-nos que a fraqueza fundamental da está a ser prosseguida por alguns grupos de
cultura ocidental consiste em estabelecer defesa dos Direitos Humanos, particularmen-
projeto dicotomias demasiadamente rígidas entre te por aqueles que centram a sua ação na de-

cosmopolita o indivíduo e a sociedade, tornando-se,


assim, vulnerável ao individualismo posses-
fesa dos intocáveis.
Por sua própria natureza, a hermenêuti-
de Direitos sivo, ao narcisismo, à alienação e à anomia. ca diatópica é um trabalho de colaboração
De igual modo, a fraqueza fundamental das intercultural e não pode ser levada a cabo
Humanos culturas hindu e islâmica deve-se ao fato de a partir de uma única cultura ou por uma
poderá nenhuma delas reconhecer que o sofrimen- só pessoa. Na minha perspectiva, An-na’im
to humano tem uma dimensão individual aceita demasiadamente fácil e acriticamen-
gerar-se mais irredutível, a qual só pode ser adequada- te a ideia de Direitos Humanos universais.

facilmente mente considerada numa sociedade não


hierarquicamente organizada.
Esse autor, ao mesmo tempo em que pro-
põe uma abordagem evolucionista crítica
num quadro O reconhecimento de incompletudes mú- e contextual da tradição islâmica, faz uma
tuas é condição sine qua non de um diálogo interpretação da Declaração Universal dos
religioso intercultural. Direitos Humanos surpreendentemente ana-
moderado” Um exemplo de hermenêutica diatópica crônica e ingenuamente universalista.
entre a cultura islâmica e a cultura ociden- A hermenêutica diatópica conduzida por
tal dos Direitos Humanos é a proposição de An-na’im, a partir da perspectiva da cultura
Abdullahi An-na’im (1990; 1992) de uma islâmica e as lutas pelos Direitos Humanos
via per mezzo identificando áreas de conflito organizadas pelos movimentos feministas
entre o sistema jurídico religioso do Islã, a islâmicos, seguindo as ideias da “Reforma
Sharia, e os critérios ocidentais dos Direitos islâmica” por ele propostas, têm de ser
Humanos e, sugerindo uma reconciliação complementadas por uma hermenêutica
16 ou relação positiva entre os dois sistemas. diatópica conduzida a partir da perspectiva
Compreendendo como problemática na de outras culturas e, nomeadamente, da
Revista Direitos Humanos

Sharia histórica a exclusão das mulheres e perspectiva da cultura ocidental dos Direi-
dos não muçulmanos do princípio da reci- tos Humanos. Este é provavelmente o úni-
procidade, propõe a “Reforma Islâmica”, co meio de integrar na cultura ocidental a
assentada numa revisão evolucionista das noção de direitos coletivos, os direitos da
natureza e das futuras gerações, bem como
a noção de deveres e responsabilidades para
com entidades coletivas, sejam elas a co-
munidade, o mundo ou mesmo o cosmos.

As dificuldades da
interculturalidade progressista
Que possibilidades existem para um di-
álogo intercultural quando uma das culturas
em presença foi moldada por massivas e
continuadas agressões à dignidade humana
perpetradas em nome da outra cultura? O
dilema cultural que se levanta é o seguinte:
dado que, no passado, a cultura dominante
tornou impronunciáveis algumas das as-
pirações à dignidade humana por parte da
cultura subordinada, será agora possível
pronunciá-las no diálogo intercultural sem,
ao fazê-lo, justificar e mesmo reforçar a
subordinação?
Um dos mais problemáticos pressupos-
tos da hermenêutica diatópica é a concepção
das culturas como entidades incompletas. como pressuposto da hermenêutica diatópi- Condições para uma
Pode se argumentar que, pelo contrário, só ca, é um exercício macabro, por mais eman- interculturalidade progressista
culturas completas podem participar em di- cipatórias que sejam as suas intenções. As seguintes orientações e imperativos
álogos interculturais sem correr o risco de O dilema da completude cultural pode transculturais devem ser aceitos por todos
ser descaracterizadas ou mesmo absorvidas ser assim formulado: se uma cultura se os grupos sociais e culturais interessados no
por culturas mais poderosas. Uma variante considera inabalavelmente completa, então diálogo intercultural.
desse argumento reside na ideia de que so- não terá nenhum interesse em envolver-se 1. Da completude à incompletude. O
mente a uma cultura poderosa e historica- em diálogos interculturais; se, pelo contrá- verdadeiro ponto de partida do diálogo é
mente vencedora, como é o caso da cultura rio, admite, como hipótese, a incompletude o momento de frustração ou de desconten-
ocidental, pode atribuir-se o privilégio de que outras culturas lhe atribuem e aceita tamento com a cultura a que pertencemos.
se autodeclarar incompleta, sem, com isso, o diálogo, perde confiança cultural, torna- Esse sentimento suscita a curiosidade por
correr o risco de dissolução. Assim sendo, a se vulnerável e corre o risco de ser objeto outras culturas. A hermenêutica diatópi-
ideia de incompletude cultural será, afinal, o de conquista. Por definição não há saídas ca aprofunda, à medida que progride, a
instrumento perfeito de hegemonia cultural fáceis para esse dilema, mas também não incompletude cultural, transformando a
e, portanto, uma armadilha quando atribuída penso que ele seja insuperável. Tendo em consciência inicial de incompletude, em
a culturas subordinadas. mente que o fechamento cultural é uma es- grande medida difusa e pouco articulada,
As culturas dos povos indígenas das tratégia autodestrutiva, não vejo outra saída numa consciência autorreflexiva. 17
Américas, da Austrália, da Nova Zelândia, da senão elevar as exigências do diálogo inter- 2. Das versões culturais estreitas às ver-
Revista Direitos Humanos

Índia, dentre outras, foram tão agressivamen- cultural até um nível suficientemente alto sões amplas. As culturas têm grande varieda-
te amputadas e descaracterizadas pela cul- para minimizar a possibilidade de conquista de interna, e a consciência dessa diversidade
tura ocidental que, recomendar-lhes agora cultural, mas não tão alto que destrua a pró- aprofunda-se à medida que a hermenêutica
a adoção da ideia de incompletude cultural, pria possibilidade do diálogo. diatópica progride. Das diferentes versões de
artigo Direiros humanos: o Desafio da Interculturalidade

temas demasiadamente importantes para


“Temos o direito a ser iguais ser incluídos no diálogo com outras cultu-

quando a diferença nos ras. Ainda assim, o importante para a her-


menêutica diatópica é a direção, a noção e
inferioriza; temos o direito a ser o sentimento de incompletude da cultura.

diferentes quando a igualdade 5. Da igualdade ou diferença à igualdade


e diferença. O multiculturalismo progressista
nos descaracteriza.” pressupõe que o princípio da igualdade seja
prosseguido de par com o princípio do re-
conhecimento da diferença. A hermenêutica
uma dada cultura, deve ser escolhida para o ferente quando tomado por uma cultura do- diatópica pressupõe a aceitação do seguinte
diálogo intercultural a que representa o círculo minante ou por uma cultura subordinada. No imperativo transcultural: temos o direito a ser
de reciprocidade mais amplo, a versão que vai primeiro caso, frequentemente manifestam- iguais quando a diferença nos inferioriza; te-
mais longe no reconhecimento do outro. No se objetivos imperiais, como a “luta contra mos o direito a ser diferentes quando a igual-
que respeita às duas versões da cultura ociden- o terrorismo”, enquanto no caso de culturas dade nos descaracteriza.
tal dos Direitos Humanos, a liberal e a social- subordinadas trata-se, muitas vezes, de auto-
democrática, deve ser privilegiada a última, defesa ante a impossibilidade de controlar mi- Conclusão
porque amplia para os domínios econômico e nimamente os termos do diálogo. A vigilância Na forma como têm sido predominante-
social a igualdade que a versão liberal apenas política, cultural e epistemológica da herme- mente concebidos, os Direitos Humanos são
considera legítima no domínio político. nêutica diatópica é, pois, uma condição do um localismo globalizado, uma espécie de
3. De tempos unilaterais a tempos parti- êxito desta. Cabe às forças, aos movimentos esperanto que dificilmente se poderá trans-
lhados. Pertence a cada comunidade cultural e às organizações cosmopolitas defender as formar na linguagem quotidiana da dignidade
decidir quando está pronta para o diálogo virtualidades emancipatórias da hermenêutica humana nas diferentes regiões culturais do
intercultural. A cultura ocidental, durante sé- diatópica dos desvios reacionários. globo. Compete à hermenêutica diatópica
culos, não teve qualquer disponibilidade para 4. De parceiros e temas unilateralmente aqui proposta transformá-los numa política
diálogos interculturais mutuamente acor- impostos a parceiros e temas escolhidos cosmopolita que ligue, em rede, línguas dife-
dados e agora, ao ser atravessada por uma por mútuo acordo. Talvez a condição mais rentes de emancipação pessoal e social e as
consciência difusa de incompletude, tende a exigente da hermenêutica diatópica seja a torne mutuamente inteligíveis e traduzíveis. É
crer que todas as outras culturas estão igual- ideia de que tanto os parceiros como os este o projeto de uma concepção multicultu-
mente disponíveis para reconhecer a sua temas do diálogo devem resultar de acor- ral dos Direitos Humanos. Nos tempos que
incompletude e, mais do que isso, ansiosas dos mútuos. No que respeita aos temas, a correm, esse projeto pode parecer mais do
para se envolver em diálogos interculturais convergência é muito difícil de alcançar, que nunca utópico. É-o, certamente, tão utó-
com o Ocidente. porque a possibilidade de tradução inter- pico quanto o respeito universal pela dignida-
O direito à pausa antes de avançar para cultural dos temas é inerentemente proble- de humana. E nem por isso este último deixa
uma nova fase, bem como a reversibilidade mática e porque em todas as culturas há de ser uma exigência ética séria.
do diálogo são cruciais para impedir que ele
se perverta e se transforme em conquista
cultural ou em fechamento cultural recípro-
Referências
18 co. A ausência ou a deficiente explicitação
An-na’im, Abdullahi A. (1990), Toward an Islamic Reformation. Siracusa: Syracuse University Press.
de regras para o diálogo intercultural podem
Revista Direitos Humanos

transformá-lo na fachada benevolente sob a An-na’im, Abdullahi A. (1992) (org.), Human Rights in Cross-Cultural Perspectives. A Quest for Consensus. Filadélfia:
qual se escondem trocas culturais muito desi- University of Pennsylvania Press.

guais. Da mesma maneira, o estabelecimento Huntington, Samuel (1993), The Clash of Civilizations?, Foreign Affairs, 72(3).
unilateral do fim do diálogo intercultural é di-
Combate ao
trabalho escravo:
como plantar uma floresta de Direitos Humanos

Z
Leonardo Sakamoto e é Pereira já foi alcunha de bloco de carnaval. Poderia ser
Marcus Menezes Barberino Mendes esta a lembrança perene e bem-humorada que o nome
evoca no imaginário popular. Mas Zé Pereira é também
o símbolo de uma chaga encravada no meio e não na ponta
do mercado de trabalho brasileiro. José Pereira Ferreira ganhou
Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência notoriedade em novembro de 2003, quando foi aprovada pelo
Política e coordenador da organização não governamental Congresso Nacional uma indenização a ele no valor de R$ 52 19
Repórter Brasil. mil. Zé Pereira havia sido escravizado na fazenda Espírito San-
Revista Direitos Humanos

to, em Sapucaia, Sul do Pará. Em setembro de 1989, com 17


Marcus Menezes Barberino Mendes é juiz anos, fugiu dos maus-tratos e foi emboscado por funcionários
federal do Trabalho do Tribunal Regional da 15ª Região da propriedade, que atingiram seu rosto. O caso, esquecido pe-
e doutorando em Desenvolvimento Econômico pela las autoridades brasileiras, foi levado à Organização dos Esta-
Universidade Estadual de Campinas/SP. dos Americanos. Para evitar uma condenação, o Brasil acabou
artigo Combate ao trabalho escravo: como plantar uma floresta de Direitos Humanos

“É equivocado opor o combate Portanto, estão sob a influência direta da eco-


nomia de mercado e dela dependem.
ao trabalho escravo à atividade A análise das interações na cadeia pro-

econômica produtiva. Sua forma dutiva mostra o grau de interdependência


entre o padrão de consumo dos brasileiros
contemporânea é uma forma em cidades de qualquer dos estados e a
ocorrência de trabalho análogo à condição
monstruosa de dumping social” de escravo e degradante. Do fast-food aos
prosaicos churrascos de fim de semana, do
realizando uma solução amistosa com a OEA, pela libertação de trabalhadores. No mes- belo par de sapatos ao automóvel de última
em que assumia uma série de compromissos mo período, a Comissão Pastoral da Terra, geração, supostamente movido a combustí-
para o combate ao trabalho escravo. organização ligada à Conferência Nacional vel eficiente e fruto de atividade econômica
Como Zé Pereira, a cada ano milhares de dos Bispos do Brasil e principal referência ambientalmente sustentável, todo o nosso
trabalhadores rurais provenientes de regiões civil no combate a essa forma de explora- cotidiano está permeado pelo sofrimento de
pobres do Brasil são obrigados a trabalhar em ção, registrou denúncias envolvendo mais brasileiros que, ao sair de suas modestas ca-
fazendas e carvoarias, submetidos a condições de 50 mil trabalhadores. sas em busca de trabalho, dignidade e espe-
degradantes e impedidos de romper a relação A incidência do problema está con- rança, encontraram à sua frente a promessa
com o empregador. As vítimas mais agredidas centrada nas regiões de expansão agro- de um elemento tradicional no mercado de
permanecem presas até que terminem a tarefa pecuária da Amazônia (de Rondônia até trabalho brasileiro: o intermediador e o arre-
para a qual foram aliciadas, sob ameaças que o Maranhão, coincidindo com o Arco do gimentador de mão de obra, conhecido pela
podem ir de torturas psicológicas até espan- Desflorestamento, onde a floresta perde alcunha de “gato”.
camentos e assassinatos. No Brasil, essa for- espaço para a agropecuária) e do Cerra- É nesse momento que a prática mais do
ma de exploração é chamada de escravidão do (principalmente na Bahia, em Goiás, que secular da mercantilização do trabalho à
contemporânea, de nova escravidão ou ainda no Mato Grosso do Sul e em Tocantins). brasileira captura suas vítimas e esmaga seus
de trabalho análogo ao escravo. Sua natureza Contudo, há casos confirmados em São sonhos. Como autênticas veias abertas da
econômica a distingue da escravidão da anti- Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa América Latina, esse elo da cadeia produtiva
guidade clássica, da escravidão moderna, da Catarina e Rio Grande do Sul, entre outras vai espalhar pelos estados da federação cen-
Colônia e do Império. Mas o tratamento desu- regiões, em que o capital e as instituições tenas de milhares de brasileiros no trabalho
mano, a restrição à liberdade e o processo de estatais já estão estabelecidos, o que de- rural estacional, nas mais diversas culturas
“coisificação” do ser humano são característi- monstra que a origem desse fenômeno não agrícolas, na pecuária e no extrativismo.
cas similares às das anteriores. está vinculada ao locus da fronteira agrí- A utilização de trabalho escravo contem-
O número de trabalhadores envolvidos cola, mas a outro elemento que perpassa porâneo no Brasil não é resquício de práticas
na forma mais tosca de trabalho escravo realidades sociais diferentes. arcaicas que sobreviveram provisoriamente
contemporâneo é relativamente pequeno, Os relatórios de fiscalização do Ministério ao capitalismo, mas sim instrumento utili-
mas não desprezível: de 1995, quando o do Trabalho mostram que os empregadores zado pelo próprio capitalismo para facilitar
sistema de combate ao trabalho escravo envolvidos nesse tipo de exploração não são a acumulação em seu processo de expan-
contemporâneo foi criado pelo governo fe- pequenos sitiantes isolados econômica e são ou modernização. Esse mecanismo ga-
deral, até dezembro de 2008, mais de 30 geograficamente do restante da sociedade, rante competitividade a produtores rurais de
20
mil pessoas foram encontradas nessa situ- mas, na maioria das vezes, grandes proprie- regiões e situações de expansão agrícola
Revista Direitos Humanos

ação, de acordo com dados do Ministério tários rurais, muitos deles produzindo com que optam por uma via ilegal. Dessa forma,
do Trabalho, que, junto com o Ministério tecnologia de ponta. Pesquisas da ONG Re- fazem concorrência desleal com os outros
Público do Trabalho e as Polícias Federal pórter Brasil apontam que esses produtores empregadores que agem dentro da lei. Por
e Rodoviária Federal, é o principal órgão fornecem commodities às grandes indús- isso é equivocado opor o combate ao traba-
responsável pela apuração de denúncias e trias e ao comércio nacional e internacional. lho escravo à atividade econômica produtiva.
Sua forma contemporânea é uma forma sustentáveis – e implantação, nos muni-
monstruosa de dumping social. cípios emissores de população, de infra-
O trabalho análogo à condição de estrutura pública que eleve as condições
escravo tem no Brasil conceito inscrito de bem-estar desses brasileiros, desesti-
no Direito Penal, e é esse conceito que mulando a migração por desalento.
baliza o comportamento dos agentes de Mas, como se trata de um fenômeno
Estado encarregados da sua repressão. inserido numa lógica amoral de concor-
Como o Direito Penal institui seus tipos rência no mercado de bens e serviços,
a partir do mínimo civilizatório admis- não podemos prescindir de políticas de
sível, é possível derivar do conceito repressão a esse comportamento econô-
adotado a gravidade das repercussões mico violador dos Direitos Humanos de
do trabalho análogo à condição de es- modo transversal. Em verdade, precisa-
cravo para o funcionamento do mercado mos ampliar a utilização dos instrumentos
de trabalho e para o exercício de direitos jurídicos de repressão a essa forma bár-
sociais dos trabalhadores. bara de exploração dos seres humanos.
As ações de fiscalização, repressão e O combate ao trabalho escravo, para
prevenção empreendidas no âmbito ad- ser efetivo, passa por um conjunto de
ministrativo e extrajudicial pelo Ministé- ações nacionais e multilaterais, como a
rio do Trabalho e pelo Ministério Público repressão aos ganhos econômicos ge-
do Trabalho permitiram levantamento de rados pela exploração dessa forma de
amplo banco de dados sobre origem e mão de obra, não só no Brasil, mas em
destino da população afetada, seu status todos os países. O Brasil já possui me-
de cidadania. Já sabemos de onde vêm e canismos para que os compradores de
para onde vão esses brasileiros. É pos- commodities não adquiram mercadorias
sível reconhecer os déficits de cidadania produzidas com trabalho escravo, como
nos municípios de origem. Mas é neces- a consulta ao cadastro de empregadores
sário saltar essa etapa do acúmulo de co- que utilizaram essa prática, que ficou
nhecimento decorrente das atividades de conhecido como a “lista suja”. Institui-
repressão e desenvolver estratégias que ções financeiras têm negado crédito a
atuem em dois vetores: promoção de tra- essas pessoas e as empresas signatá-
balho digno – seja por meio de um mer- rias do Pacto Nacional pela Erradica-
cado de trabalho que ofereça empregos ção do Trabalho Escravo têm cortado
estruturados e dotado dos mecanismos relações comerciais com elas. Dessa
de proteção da cidadania, seja por meio forma, é possível agir cirurgicamente,
de programas de promoção de atividades separando o joio do trigo, limpando
econômicas social e ambientalmente uma determinada cadeia produtiva e,

“Não podemos prescindir de 21

políticas de repressão a esse


Revista Direitos Humanos

comportamento econômico
violador dos Direitos Humanos”
artigo Combate ao trabalho escravo: como plantar uma floresta de Direitos Humanos

ao mesmo tempo, afastando tentativas de leiros, sem contar o sem-número de direitos A Comissão Pastoral da Terra, o Movimen-
erguer barreiras comerciais não tarifárias a individuais e coletivos violados pelo com- to dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, entre
setores inteiros devido a um protecionismo portamento escravista, sinônimo, segundo o outros grupos sociais, sindicatos e federações
barato travestido de justificativas sociais. tipo do art. 149 do Código Penal do Brasil, de de trabalhadores rurais e organizações não go-
Contudo, é importante ressaltar que há trabalho degradante. vernamentais defendem a realização de ampla
um limite para o alcance disso, pois o tra- A ampliação das sanções já existentes reforma agrária como elemento fundamental
balho escravo não é uma doença, e sim uma ou a simples imposição de formas já pre- no combate à escravidão. Portanto, mudar o
febre, um indicador de que o corpo está vistas de satisfação aos atingidos, tanto no modelo de desenvolvimento para possibilitar
doente. Tratar a febre – como libertar traba- plano dos direitos dos indivíduos como no uma reforma agrária ampla e a criação de alter-
lhadores – é muito importante, pois alivia a plano da proteção e da promoção dos di- nativas de geração de renda contribuiriam com
dor, mas não resolve em definitivo. O Brasil reitos difusos e coletivos, é o desafio que o processo de redução da pobreza.
ainda falha ao tentar implementar medidas se impõe aos agentes de Estado, principal- A distribuição de terra não é a panaceia
para atacar a impunidade – como a propos- mente àqueles que administram o sistema para o problema da exploração do trabalho no
ta de mudança na Constituição, que prevê a País, mas a socialização, pelo menos parcial,
expropriação de terras onde escravos forem dos meios de produção no campo significaria
encontrados, por meio da PEC nº 438/2001,
aprovada no Senado e que está aguardando
“O trabalho um pesado golpe nos empreendimentos que,
direta ou indiretamente, se aproveitam do
segunda votação na Câmara dos Deputados escravo não é exército-reserva de mão de obra disponível
– ou reduzir a pobreza, elementos que, junto para superexplorá-lo. E garantiria um futuro
com a ganância, formam o tripé que sustenta uma doença, e para milhões de pessoas.
a escravidão contemporânea no Brasil. sim uma febre, Teremos coragem de empreender as mu-
A expropriação seria medida extrema, danças necessárias para fazer deste um país
mas a simples existência da sanção já signi- um indicador melhor para todos? Ou permitiremos que al-
ficaria um estímulo jurídico e, principalmen-
te, econômico para que o detentor da terra se
de que o corpo guns poucos continuem a desfrutar de uma
vida de privilégios baseada na exploração de
voltasse ao cumprimento integral da função está doente” nossos semelhantes? Vale a pena recordar
social da propriedade. À falta desse instru- uma passagem de um cidadão do mundo,
mento, resta-nos contar com os instrumentos Pierre “Fatumbi” Verger, nascido na França,
jurídicos e deixar de olhar para o mercado de de justiça. Exemplificativamente, o sistema e que escolheu e foi escolhido pelo Brasil:
trabalho como apêndice dos mercados de de justiça ainda não testou a utilização de “Então conheci a liberdade que não havia
bens e serviços, para compreendê-lo como concessão de usufruto judicial das unida- conhecido antes. Não era um branco entre
bem público, espaço destinado à promoção des econômicas flagradas na prática da le- os negros. A escuridão da floresta africana
de direitos difusos dos brasileiros e de todos são, que é, ao mesmo tempo, civil, penal apagou a diferença”1. Pierre Verger se referia
os seres humanos que aqui se radicam, como e ambiental-trabalhista. Também não houve a sua própria sensação de pertencimento em
o direito ao trabalho e ao meio ambiente do desafio do Judiciário para, invocando-se a uma nova cultura, onde sua origem geográfi-
trabalho sustentável. Política Nacional de Meio Ambiente, instituir ca e cultural não era mais o traço distintivo,
Essa visão mais abrangente e integral servidão pública ou limitação de atividade na nem mesmo a cor da sua pele. Os brasileiros
do mercado de trabalho nacional permitiria ocorrência de violações ao meio ambiente e estrangeiros que aqui se radicam, todos
22 manusear os instrumentos de proteção e pro- do trabalho, cerne da exploração econômica eles, precisam ser inseridos numa mesma e
moção ambientais a partir das macrolesões em desafio ao conceito de função social da indistinta floresta: a floresta da partilha uni-
Revista Direitos Humanos

perpetradas aos direitos difusos dos brasi- propriedade e de baixa sustentabilidade. versal dos Direitos Humanos.

1. Excerto extraído da obra fotoantropológica O olhar viajante de Pierre Fatumbi Verger, pág. 136. Editado pela Fundação Pierre Verger, Salvador, 2002.
Paulo Sérgio Pinheiro

Paulo Sérgio Pinheiro, titular da Secretaria de


Estado dos Direitos Humanos em 2002, é membro
da Comissão Interamericana de Direitos Humanos
(CIDH), Washington. Foi expert independente do
secretário-geral da ONU para o estudo mundial
sobre violência contra a criança. Em 2006 publicou
o World report on violence against children, editado
em português pela Secretaria Especial dos Direitos
Humanos em dezembro de 2007.

D
esde 1977, por exigência do Congresso
americano, o Departamento de Estado (o
Ministério das Relações Exteriores dos EUA)
elabora e apresenta apenas anualmente um relatório
sobre a situação dos Direitos Humanos em todo o
mundo. No começo, os informes cobriam apenas
os países que recebiam ajuda dos Estados Unidos
naquele ano, mas depois se expandiram, chegando
hoje a cobrir mais de 190 países. Os relatórios se
baseavam nos direitos individuais, civis, políticos
e trabalhistas formulados no âmbito da Declaração
Universal dos Direitos Humanos, não dependiam da 23
Revista Direitos Humanos

orientação partidária do governo e as embaixadas


tinham alguma autonomia para coletar informações,
inclusive da oposição e das organizações da socie-
dade em cada país. E em muitos contextos serviram
para denunciar violações que os governos negavam.
artigo Obama: uma comissão da verdade para os torturadores

Essa autoridade moral, se é que se pode publicadas cinco anos atrás, com o implacá- campanha esses passos estavam anunciados.
falar de moral no contexto da política inter- vel e sóbrio relatório do Comitê Internacional Em março de 2008, concordando com a ne-
nacional e se referindo à potência hegemô- da Cruz Vermelha, em 20073, e agora, com cessidade de dotar as agências de segurança
nica, foi completamente por água abaixo a completa liberação dos memoranda dos dos instrumentos de que elas necessitam,
quando as torres do World Trade Center, em advogados do governo que construíram a Obama afirma que isso será feito ao mesmo
Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001, fundamentação jurídica para a CIA e as forças tempo em que “irá restaurar o Estado de Direi-
foram alvo dos ataques terroristas que as armadas torturarem, as mentiras da admi- to [the rule of Law] de que nós necessitamos
destruíram e fizeram milhares de mortos. No nistração Bush vieram abaixo. O relatório do para ganhar a batalha de corações e mentes.
afã de dar uma resposta àqueles ataques que Comitê das Forças Armadas do Senado, con- Isto significará fechar Guantánamo, restaurar
a administração Bush não conseguira prever, cluído em novembro de 2008 e recentemente o habeas corpus e respeitar as liberdades ci-
os Direitos Humanos foram postos no banco liberado para publicação, conclui que “as vis”6. Em 10 de dezembro, Dia Universal dos
de trás e a chamada “guerra global” contra o diretrizes para interrogatório endossadas por Direitos Humanos, já presidente eleito, Obama
terrorismo passou a poder tudo justificar. A altos funcionários civis e militares autorizan- afirmava que o princípio sobre o qual os EUA
tortura, que os relatórios dos Direitos Huma- do o uso de técnicas de interrogatório brutais tinham sido fundados, segundo o qual todas
nos do Departamento de Estado sempre de- foram uma das maiores causas de abuso dos as pessoas têm direitos inalienáveis, hoje está
nunciavam nos outros países, para “evitar um presos sob a custódia dos EUA”4. “corporificado em documentos que os EUA
mal maior” foi posta em prática por agentes Registre-se que os Estados Unidos não ajudaram a fazer – a Declaração Universal dos
do Estado norte-americano como instrumen- estiveram isolados na promoção da tortura5, Direitos Humanos, as Convenções de Genebra
to legítimo para extrair informações com ra- porque todas as democracias europeias co- e os tratados contra a tortura e o genocídio
pidez, igualzinho ao que se praticou no Brasil laboraram gostosamente, quase clandestina- – e eles unem todos os povos de qualquer
durante a ditadura militar. mente, com os voos de rendition, da entrega país e de qualquer cultura”. Convidou todos
Em 2004, apesar de toda a dissimula- de prisioneiros alegadamente terroristas para “neste dia, a nos dedicar de novo aos Direi-
ção, estava claro para a sociedade americana ser torturados por terceiros países, como Egi- tos Humanos e às liberdades para todos e a
e para o mundo que o governo Bush e sua to, Jordânia e Marrocos, além de tolerar em nos comprometer a viver pelos ideais que nós
administração haviam decidido torturar os seu território prisões clandestinas dos EUA promovemos no mundo”7. Não poderia haver
prisioneiros capturados.1 Já era evidente que para alojar esses prisioneiros. mais clara refutação da negação desses prin-
a tortura foi uma política premeditada, apro- É nesse contexto que ocorrem a eleição, a cípios praticada por seu antecessor.
vada pelos mais altos níveis de governo, com posse, em 21 de janeiro, e agora os primeiros Era um anúncio de que Obama iria des-
psicólogos e médicos colaborando para me- cem dias da administração Obama. Ninguém montar as três pontas do triângulo de violações
dir sua intensidade2, como também ocorreu poderá alegar que se surpreendeu com as sobre que se fundava a política de Bush, blin-
nas ditaduras militares aqui e no Cone Sul. decisões referentes à política externa e aos dando Guantánamo do alcance da Constitui-
Com as primeiras denúncias sobre Guantá- Direitos Humanos, desde os primeiros dias ção americana, negando recursos jurídicos às
namo, depois as fotos de presos torturados de governo e durante os cem dias. Porque em decisões de cortes militares e implementando
por soldados americanos em Abu Ghraib, inúmeros discursos pronunciados durante a um Patriot Act, a Lei Patriota, que tornou todo

1. Ver Danner, Mark. “The Red Cross Torture Report: What it Means”, The New York Review of Books, v. 56, n. 7, Abr./30/2009.
2. Ver Rich, Frank. “The banality of Bush White House Evil”, The New York Times, Abr./26/2009.
3. ICRC Report on the Treatment of Fourteen “High Value Detainees” in custody of the CIA, 40 p. http://www.nybooks.com/icrc-report.pdf.
24 4. United States Senate. Inquiry into the Treatment of Detainees in U.S. Custody. Report of the Committee on Armed Services. Washington ,DC, US Senate,
nov./2008, p. 25.
Revista Direitos Humanos

5. Ver a respeito: International Commission of Jurists (ICJ). Assessing Damage, Urging Action. Report of the Eminent Jurist Panel on Terrorism, Counter-terrorism and
human rights. Geneva, ICJ, 2009, 195 p. Ver igualmente talvez o primeiro relatório sobre os riscos de a “guerra global” contra o terrorismo cometer graves violações
dos Direitos Humanos, Inter-American Commission on Human Rights, IACHR, Organization of American States, Report on Terrorism and Human Rights. Washington,
DC, OAS, 2002. http://www.cidh.org/Terrorism/Eng/toc.htm [ há tradução em português e espanhol].
6. Grifo meu. Obama, Barack. The World Beyond Iraq, mar./18/2008, Fayettevile, N[orth] C[arolina]. In: Olive, David, An American Story, The speeches of Barack
Obama. Ontario, ECW Press, 2008,280-281.
7. Obama marks human rights day, Washington Post, 10.12.2008.
cidadão americano suspeito até prova em con-
trário e permitiu escutas de telefone indiscri-
minadas, sem necessidade de ordem judicial.
Durante o discurso de Obama, ficou evidente
que ele iria restaurar uma conexão presente na
longa caminhada da defesa dos direitos civis,
valendo internamente, e dos Direitos Humanos
no exterior. Obama anunciava um governo em
que os princípios do direito humanitário e do
direito internacional dos Direitos Humanos
voltariam a prevalecer na política externa dos
Estados Unidos8. Não há a menor dúvida de
que, num contexto da profunda crise política,
econômica e moral dos Estados Unidos, esses
sinais, somados à própria biografia de Obama,
indicavam que estávamos, como bem aponta a
professora Emília Viotti da Costa, numa análi-
se sobre sua eleição, “diante de um indivíduo
realmente excepcional, um liberal de centro-
esquerda, contrário à violência e preocupado
com as condições de vida das populações po-
bres, a concentração de riqueza nas mãos de
uns poucos(...), um reformista consciente da doravante a agência respeitasse os mesmos de técnicas aprimoradas de interrogatório, do
precariedade de seu mandato e das inúmeras padrões em vigor nas forças armadas. Can- waterboard,10 a nossa conhecida tortura “sub-
dificuldades que teria pela frente”9. celou as autorizações dadas pelo presidente marino”, que consiste em imobilizar a vítima e
Por todas essas razões, não surpreendeu Bush para a CIA torturar prisioneiros, revogan- jogar água gelada através de um pano que co-
que no mesmo dia em que tomou posse Oba- do as diretivas presidenciais e os regulamen- bre seu nariz e sua boca, impedindo-a de res-
ma determinasse a suspensão por 120 dias tos que autorizavam o tratamento abusivo no pirar, até induzir pânico associado ao medo de
do funcionamento da comissão militar de interrogatório dos prisioneiros. Repudiou toda morte iminente. Essa “técnica”, considerada
julgamento dos illegal combattants, expressão a tortuosa justificativa para os métodos de crime de guerra pelos tribunais após a derrota
forjada pelo governo Bush para designar pre- interrogatório abusivos de prisioneiros entre do nazismo, aliás utilizada amplamente pela
sos estrangeiros detidos pelo exército ameri- 11 de setembro de 2001 e 20 de janeiro de ditadura militar de 1964 (e ainda hoje pela po-
cano e privá-los da proteção devida aos pri- 2009, contidos nos quatro memoranda da as- lícia brasileira no tratamento de suspeitos nas
sioneiros de guerra constante das convenções sessoria jurídica do Departamento de Justiça. delegacias), evidentemente viola as leis ame-
de Genebra. No seu segundo dia no cargo, em Os EUA também anunciaram a candidatura de ricanas e internacionais. Um dos memoranda
22 de janeiro, publicou ordem executiva, de- seu retorno ao Conselho de Direitos Humanos registrara, com precisão quase clínica, que um
terminando o fim do programa de detenções da ONU, abandonado pelo governo Bush. preso havia sido submetido, em um mês, 183
secretas da CIA. Essa mesma ordem execu- Aqueles memoranda, que no final de abril vezes ao “submarino”.
tiva também proibia a CIA de usar técnicas foram todos publicados, permitiam o uso, en- É claro, há ainda muito que fazer para 25
de interrogatório repressivas, exigindo que tre outras enhanced interrogation techniques, sanear o legado de Bush, e organizações
Revista Direitos Humanos

8. Ver Pinckney, Darry. What he really said, The New York Review of Books. fev./26- mar./11, v. LVI, n. 3, p. 26.
9. Viotti da Costa, Emília. A eleição de Barack Obama, 22/mar./2009, manuscrito, p. 12.
10. Report Card on President Obama’s First 100 Days. abr./24/2009. http://www.hrw.org/en/news/2009/04/24/report-card-president-obama-s-first-100-days.
artigo Obama: uma comissão da verdade para os torturadores

internacionais de Direitos Humanos clamam Ainda é prematuro dizer o que Obama até não anima o Estado brasileiro, depois de
para que os presos de Guantánamo sejam fará, ainda que nas últimas semanas ele vinte e cinco anos do final da ditadura, a fazer
logo apresentados diante de tribunais fe- tenha dado sinal verde a seu ministro da enfim o mesmo e acertar contas com os tor-
derais americanos ou que sejam libertados Justiça para considerar a abertura de in- turadores e seus mandantes incrustados nos
sem o risco de ser repatriados para seus quéritos criminais, autorizando a publicação aparelhos do Estado da ditadura.
países de origem para ser novamente tortu- dos devastadores memoranda acima men- Mas é prudente termos um otimismo
rados. Para o anunciado respeito às normas cionados. Obama, durante visita à sede da cauteloso, mesmo que exultemos com o
internacionais será necessário que os EUA CIA, para demonstrar o quanto apreciava o mundo todo com essas medidas. O fato de o
levantem as reservas a vários tratados de trabalho dos agentes e que entendia a ne- presidente Obama reconhecer os tratados dos
Direitos Humanos, como aquelas à conven- cessidade da proteção da identidade deles, Direitos Humanos e respeitá-los na política
ção contra a tortura. Finalmente, espera-se também mencionou que sua administração internacional não deverá significar, pelo me-
que investigações criminais sejam abertas poderia estabelecer uma Comissão da Ver- nos no começo, a revisão das alianças ou o
quanto à prática de desaparecimentos (no dade para investigar o que havia ocorrido no apoio a autocracias ou tiranias que desrespei-
melhor estilo das ditaduras brasileira e tratamento dos prisioneiros, e que aqueles tam sistematicamente os Direitos Humanos,
latino-americanas), tortura, detenções clan- responsáveis por definir a política de inter- como o Paquistão e o Egito, que recebem a
destinas e mortes de detentos. rogatórios abusivos poderiam ser processa- maior parte da ajuda externa norte-america-
Pasme-se, o impensável está agora acon- dos judicialmente11. no, ou a Arábia Saudita, aliado decisivo no
tecendo no debate público norte-americano: Numa reunião pública em Istambul, em Oriente Médio e importante fornecedor de
há parlamentares pedindo e petições reivin- 7 de abril, Obama argumentou que o “navio- petróleo. Mas não nos façamos de rogados,
dicando uma comissão de responsabilização Estado norte-americano” é muito mais um não diminuamos por um segundo sequer a
para elaborar, quem sabe, uma espécie de supertanque do que uma lancha rápida, pois formidável importância de Obama fazer o
Estados Unidos: Nunca Mais, para que as o presidente não pode mexer o leme e zarpar governo norte-americano abandonar práticas
atrocidades cometidas pela administração logo numa nova direção; ao contrário, “você de seus aliados autoritários, como a tortura,
Bush não se repitam. Essa comissão apar- tem de ir movendo devagar e aí você estará e deixar de servir-se deles, como fez Bush,
tidária teria como objeto investigar a tortura numa direção diferente”12. De qualquer modo, para terceirizar essas práticas. As mudanças
e os abusos cometidos contra os presos, de todos os gestos dos cem dias, a publicação decisivas em Direitos Humanos, estamos
modo a melhor proteger a segurança nacional do relatório do Senado, os horrores revelados cansados de saber, vêm mesmo do interior
americana e restabelecer a credibilidade do nos memoranda certamente irão pesar numa de cada país, das lutas dos defensores de
país no mundo, para investigar os fatos e as decisão de estabelecer aquela Comissão da Direitos Humanos, ONGs, intelectuais, ad-
circunstâncias de tais abusos, para preparar Verdade. E aí se verá que o “colosso do Nor- vogados, religiosos (lembremo-nos da irmã
um relatório sobre as lições aprendidas e te”, como chamava os Estados Unidos o Barão Dorothy Stang, assassinada no Pará) e de go-
fazer recomendações para que esses abusos do Rio Branco, vai ter de se curvar à larga ex- vernantes, juízes, promotores que, no interior
não se repitam. Os peticionários acreditam periência de vários países na América Latina, do Estado, se esforçam (e assumem riscos)
(como nós aqui no Brasil quanto aos crimes como Argentina, Chile, El Salvador, Guatema- para implementar esses princípios, como fe-
da ditadura de 1964) que tal comissão seja la, onde se implantaram comissões da verda- lizmente tem ocorrido no Brasil desde a volta
necessária para apontar os torturadores e de para igualmente restabelecer o Estado de à democracia. A hora é de regozijarmo-nos,
seus mandantes, para reafirmar o compro- Direito após regimes autoritários (como tam- os EUA voltam a ser de novo um compagnon
misso do Estado com a Constituição e as bém o nosso entre 1964 e 1985), que, como de route, um companheiro de estrada, para
26 obrigações dos tratados internacionais que o governo Bush, se valeram da tortura, dos de- todos aqueles que promovem dentro de seus
os EUA preconizam para todo o mundo, mas saparecimentos e das detenções clandestinas. países e na comunidade internacional os Di-
Revista Direitos Humanos

que não estavam mais praticando. Quem sabe se o eventual precedente nos EUA reitos Humanos. Não é coisa pouca.

11. Lexington, After the dark side, The Economist. abr./25/2009.


12. Lexington, After the dark side. The Economist. abr./25/2009, p. 40.
A superação da
cegueira de gênero:
mais do que um desafio –
um imperativo

Silvia Pimentel

Silvia Pimentel é vice-presidente do Comitê Cedaw/ONU –


Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres,
cofundadora e membro honorário do Cladem – Comitê Latino-Americano
e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher e membro do Conselho
Diretor da Comissão de Cidadania e Reprodução.
.

N
o que tange aos direitos civis, nós perversa lacuna entre a igualdade de jure e de cegueira de gênero, que mina a efetividade
mulheres avançamos muito nas úl- facto, no país, e enormes esforços são neces- dos Direitos Humanos das mulheres, é não só
27
timas décadas, conseguindo a re- sários para superá-la. o grande desafio, mas representa um verda-
Revista Direitos Humanos

vogação de leis discriminatórias e a adoção As causas que podem explicar as dificul- deiro imperativo, seja à sociedade enquanto
de leis igualitárias, que nos aproximaram da dades de alcançar a igualdade de facto, em um todo, seja especialmente ao próprio Po-
igualdade em termos formais. No entanto, termos reais, são múltiplas e, obviamente, to- der Judiciário.
estamos ainda longe de atingir a igualdade das elas devem ser objeto de atenção. Contu- O acesso por parte das mulheres ao
substancial ou material. Há uma grande e do, não há dúvida que buscar a superação da Judiciário ainda é incipiente, apesar das
artigo A superação da cegueira de género: mais do que um desafio – um imperativo

garantias constitucionais e legais conquista- Vale relembrar que, em 1986, como fruto audiências no Congresso Nacional, inúmeras
das. Um dos grandes obstáculos, ainda, é a de campanha muito bem articulada e plane- reuniões, ressaltando-se a atuação da relatora
falta de conscientização por parte da mulher jada, tendo em mente a diversidade de nosso do projeto de lei, deputada Jandira Feghali,
acerca de seus direitos. Mas é inegável que, país, milhares de mulheres participaram do conseguimos a adoção da Lei n° 11.304/06
considerando-se a atuação do Poder Judiciá- processo constituinte, que resultou na Cons- sobre a Violência Doméstica e Familiar contra
rio, este ainda não se tem revelado suficien- tituição da República Federativa do Brasil de as Mulheres – Lei Maria da Penha, como é
temente sensível e preparado para tratar das 1988, apropriadamente apelidada por Ulis- carinhosamente chamada e conhecida por
questões em que a mulher é parte interessa- ses Guimarães de Constituição Cidadã. Esta todos, desde o presidente Lula, o Congres-
da. Em outras palavras, este ainda não se tem representa um marco histórico em termos so Nacional e o Poder Judiciário, incluindo
revelado sensível à questão de gênero. de democracia, direitos fundamentais, não o Supremo Tribunal Federal, até as pessoas
Desde meados da década de 70, o movi- discriminação e igualdade, tendo, inclusive, mais humildes.
mento brasileiro de mulheres – em particu- introduzido a normativa internacional de Di- O nome que recebeu essa lei representa
lar o feminista – tem consciência da discri- reitos Humanos da ONU no sistema legisla- homenagem a uma mulher vítima de vio-
minação estrutural contra as mulheres, que tivo nacional e adotado grande contingente lência por parte de seu marido, que tentou
atinge as áreas dos direitos civis, políticos, de nossas propostas, em especial a questão matá-la duas vezes. Mesmo paraplégica, ela
econômicos, sociais e culturais. Entretanto, da violência doméstica, que afeta majorita- redirecionou seu sentimento de vítima, rea-
nossa luta começou focando principalmente riamente as mulheres e as meninas, em seu lizando forte reação jurídica e política. A for-
as leis discriminatórias – do Código Civil, artigo 226, parágrafo 8º.1 ça de Maria da Penha foi o “toque mágico”,
do Código Penal e da legislação trabalhista O esforço conjunto do consórcio das or- responsável pelo fato de a lei rapidamente
– e a questão da violência contra a mulher. ganizações não governamentais – Agende, conseguir a atenção e atingir o coração de
Durante as três últimas décadas, devido à Advocaci, Cepia, Cfemea, Cladem e Themis e tantas pessoas, levando-lhes uma mensa-
ação das organizações não governamen- da Secretaria Especial de Políticas para as Mu- gem concreta de um “basta de violência”
tais, por todo nosso grande país, por meio lheres (SPM) – veio coroar anos de trabalho contra as mulheres e meninas. A Lei Maria
de uma perspectiva crítica e firme vontade do movimento com a temática da violência. da Penha foi recebida como instrumento de
de transformar ideologias, leis e estruturas Coordenado pela ministra Nilcéa Freire, foi prevenção, assistência, proteção e punição
patriarcais, alguns canais de comunicação criado, em março de 2004, o Grupo de Traba- contra a violência.
foram abertos com os Poderes Executivo e lho Interministerial para elaborar proposta de Vale registrar que em 1998 – oito anos
Legislativo, nas escalas federal, estadual e medida legislativa e outros instrumentos para antes da vigência da Lei – a mulher Maria da
municipal. Contudo, o Judiciário ofereceu coibir a violência doméstica contra a mulher, Penha, juntamente com o Comitê Latino-Ame-
maior resistência e só recentemente esta- e dar outras providências. Este contou com a ricano e do Caribe para a Defesa dos Direitos
mos conseguindo abrir alguns canais de participação de representantes do Consórcio da Mulher (Cladem) e o Centro pela Justiça
comunicação. Tal aproximação ainda é pre- Feminista em suas reuniões, das quais resul- e o Direito Internacional (Cejil), encaminhou
cária, o que representa grande desafio para tou o anteprojeto de lei encaminhado ao Con- petição à Comissão Interamericana de Direi-
o movimento de mulheres. gresso Nacional. Após audiências regionais, tos Humanos (CIDH), alegando negligência

1.“Constituinte pra valer tem que ter palavra de mulher”. Com este lema, o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher lançou a campanha MULHER E CONSTITUINTE.
Inspiradas por esta convicção, milhares de mulheres brasileiras reuniram-se durante meses, estudaram, debateram e formularam suas reivindicações.
Os resultados de todos esses debates chegaram a Brasília pelas mãos de mais de mil mulheres, no dia 26 de agosto de 1986, e serviram de subsídios para a ela-
28 boração da Carta da Mulher Brasileira aos Constituintes.
Essa carta é, no meu entender, a mais ampla e profunda articulação reivindicatória feminina brasileira. Nada igual, nem parecido. É marco histórico da práxis política
Revista Direitos Humanos

da mulher, grandemente influenciada pela teoria e práxis feministas dos últimos dez anos.
A mulher urbana e a mulher rural; a mulher dos meios acadêmicos, a semianalfabeta e a analfabeta; a mulher branca e a mulher negra; a mulher jovem, a mulher
madura e a mulher idosa; a mulher trabalhadora e a mulher doméstica (patroa ou empregada); a mulher casada, a mulher companheira, a mulher mãe solteira; a
mulher bem assalariada e a mulher explorada e despossuída, todas elas estão representadas nesse conjunto de propostas.
E a mulher não se limitou às suas especificidades. Mostrou que as coloca dentro do contexto mais amplo das questões gerais que interessam a todos, homens e
mulheres.
do Estado brasileiro, pois, inclusive, o crimi- tradicionalmente reduzida à fórmula “todos
noso continuava em liberdade. Ganhou a cau- são iguais perante a lei”, para consolidar a
sa. Pela primeira vez, um país foi considerado exigência ética da “igualdade material”, a
internacionalmente responsável por omissão igualdade como um processo em constru-
e falta de devida diligência quanto à proteção ção, como busca constitucionalmente de-
das mulheres no âmbito da violência domés- mandada. Tanto é assim que a Constituição
tica e familiar. Além disso, a CIDH recomen- que afirma a igualdade entre os gêneros es-
dou ao Brasil a adoção de diversas medidas tabelece, por exemplo, no seu artigo 7º, XX,
de políticas públicas para o enfrentamento da “a proteção do trabalho da mulher mediante
violência doméstica contra as mulheres2. incentivos específicos”.
O inacreditável ganho histórico e simbó- Se, para a concepção formal de igual-
lico da Lei Maria da Penha, no entanto, corre dade, esta é tomada como um pressuposto,
risco, se esta não for efetivamente imple- como um dado e um ponto de partida abs-
mentada. Nesse sentido, é importante men- trato, para a concepção material de igual-
cionar as fortes resistências e oposições dade esta é tomada como um resultado ao
advindas precisamente do Poder Judiciário, qual se pretende chegar, tendo como ponto
alegando sua inconstitucionalidade. Para de partida a visibilidade às diferenças. Isto
tanto, vale resgatar algumas ideias de artigo é: mostra-se essencial distinguir a diferen-
conjunto elaborado com a constitucionalis- ça da desigualdade. A ótica material ob-
ta Flávia Piovesan. Na contramão de tantos jetiva construir e afirmar a igualdade com
avanços históricos, foram proferidas várias respeito à diversidade e, assim sendo, o
decisões judiciais centradas no argumento reconhecimento de identidades e o direito
de que a Lei Maria da Penha desrespeita os à diferença é que conduzirão a uma plata-
objetivos da República Federativa do Brasil, forma emancipatória e igualitária. Estudos
pois fere o princípio da isonomia, violando e pesquisas revelam a existência de desi-
“o direito fundamental à igualdade entre ho- gualdade estrutural de poder entre homens
mens e mulheres”. e mulheres e grande vulnerabilidade social
A Constituição Federal de 1988, marco das últimas, muito especialmente na esfera
jurídico da transição democrática e da insti- privada de suas vidas. Daí a aceitação do
tucionalização dos Direitos Humanos no país, novo paradigma que, indo além dos prin-
consagra, dentre os objetivos fundamentais cípios éticos universais, abarque também
da República Federativa do Brasil, “promo- princípios compensatórios das várias vul-
ver o bem de todos, sem preconceitos de nerabilidades sociais.
origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer Neste contexto, a Lei Maria da Penha, ao
outras formas de discriminação” (artigo 1º, enfrentar a violência que de forma despropor-
IV). Prevê, no universo de direitos e garantias cional acomete tantas mulheres, é instrumen-
fundamentais, que “homens e mulheres são to de concretização da igualdade material
iguais em direitos e obrigações, nos termos entre homens e mulheres, conferindo efetivi-
desta Constituição”. O texto constitucional dade à vontade constitucional, inspirada em 29
transcende a chamada “igualdade formal”, princípios éticos compensatórios. Atente-se
Revista Direitos Humanos

2. Vale ressaltar que, por ocasião da apresentação do I Relatório Brasileiro ao Comitê Cedaw da ONU – Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra as
Mulheres, este órgão de Direitos Humanos das Nações Unidas, em agosto de 2003, recomendou ao país que, sem demora, adotasse legislação específica sobre
violência doméstica.
artigo A superação da cegueira de género: mais do que um desafio – um imperativo

“O inacreditável da criação dos Juizados Especiais de Violên-


cia Doméstica e Familiar por todo o Brasil, da
Todos os profissionais da área jurídica
e afins devem estar preparados para enten-
ganho histórico melhora da infraestrutura judiciária nacional der a violência contra as mulheres como

e simbólico enquanto um todo e, muito especialmente, da


superação da ideologia patriarcal que mina os
manifestação perversa de discriminação
de gênero que, lamentavelmente, integra
da Lei Maria Direitos Humanos das mulheres, reforçando as estruturas sociais, econômicas, cultu-
estereótipos sociais, preconceitos, discrimi- rais e políticas patriarcais. Também devem
da Penha, nação e violência contra nós. estar abertos e aptos para se comportar

no entanto, Os estereótipos e preconceitos de gênero


existem universalmente e, sendo assim, es-
como nossos aliados, utilizando-se de um
discurso em relação ao poder que repudie
corre risco, se tão presentes em todas as culturas e estão enfaticamente a ideia de que a subordina-

esta não for profundamente inculcados nos (in)conscien-


tes de cada indivíduo; são, portanto, absorvi-
ção social das mulheres e a consequente
violência que sofrem não são um destino,
efetivamente dos pelos operadores do direito e refletidos “are not fate”, como afirmado no estudo re-
na sua prática jurídica. cente 15 anos de relatoria especial da ONU
implementada” É necessário que os profissionais da Jus- sobre violência contra a mulher, suas cau-
tiça, cujo principal papel constitucional é sal- sas e consequências (1994 – 2009) – Uma
vaguardar os Direitos Humanos fundamentais, revisão crítica.
que a Constituição dispõe do dever do Estado bem como todos os operadores do Direito, não Deixem-me concluir relembrando as
de criar mecanismos para coibir a violência reproduzam os mitos que envolvem a ideia de palavras da Recomendação Geral nº 19, do
no âmbito das relações familiares (artigo inferioridade feminina. Esses mitos são res- Comitê Cedaw: “A violência dentro da família
226, § 8º). Inconstitucional não é a Lei Maria ponsáveis pela subordinação social da mulher é uma das piores formas de violência contra a
da Penha, mas a ausência dela. e, consequentemente, pela discriminação e mulher, que afeta sua saúde e sua capacidade
Além da pronta e efetiva reação do mo- violência que a vitimiza. Todos os operadores de participar, nos níveis familiar e público, de
vimento de mulheres a esses flagrantes devem realizar estudos e participar de análises forma igualitária.” E, também, as palavras das
retrocessos, o próprio presidente Lula apre- e debates críticos em relação às condições Observações Finais desse mesmo comitê ao
sentou ação ao Supremo Tribunal Federal de existência femininas, desiguais e injus- Brasil, em 2007, recomendando que “com
(ADC 19), em dezembro de 2007, pedindo tas. Considerando a dignidade humana das eficiência sejam adotadas medidas efetivas
declaração de constitucionalidade da Lei. mulheres e que elas são metade do mundo, para a completa implementação da nova le-
Novamente, o movimento feminista agiu, é necessário repensar os papéis masculinos gislação, como a rápida criação de tribunais
organizou e apresentou um amici curiae, e femininos na sociedade – sobre a base da especiais para a violência doméstica por todo
que foi excepcionalmente aceito devido à equidade – para tornar possível a afirmação de o país e o completo envolvimento de todos
relevância do assunto e à legitimidade das uma justiça embasada no gênero. os atores relevantes, incluindo organizações
ONGs que o apresentaram: Themis, Ipê e Ao escrever este artigo, tive por objetivo não governamentais, operadores do direito
Antígona, membros do Cladem. contribuir na ampliação do debate sobre a e outros profissionais que trabalham com a
As reações a essa lei revelam claramente igual dignidade e os direitos das mulheres, violência contra as mulheres.”
a necessidade de enfrentar os valores culturais em especial por meio de um diálogo cons- Muito mais do que um desafio, é um
30 patriarcais e as tensões axiológicas existentes trutivo com os operadores do Direito, visan- imperativo ético e jurídico a superação da
na sociedade, no interior do Poder Judiciário, do à elaboração de uma análise crítica da cegueira de gênero, que mina a efetividade
Revista Direitos Humanos

e até mesmo entre membros do Ministério ideologia patriarcal que impede a realização dos Direitos Humanos das mulheres. Ceguei-
Público, da Defensoria Pública, Advocacia e do desenvolvimento de seus Direitos Huma- ra, por parte da sociedade enquanto um todo,
Polícia. O grande desafio dessa lei é precisa- nos e reforça a discriminação e a violência cegueira dos profissionais de Direito e, inclu-
mente sua implementação, que depende tanto existentes contra elas. sive, ainda, cegueira de muitas mulheres.
A
comemoração dos 30 anos da pri-
meira Lei de Anistia (Lei nº 6.653/79),
aprovada pelo Congresso Nacional
em agosto de 1979, nos leva a duas reflexões.
Foi um marco para a luta pela redemocratiza-
ção do país e é um processo inconcluso.
A Lei nº 6.653/79 foi o primeiro passo da
reparação das arbitrariedades cometidas du-
Nilmário Miranda rante a ditadura ao longo dos longos 21 anos.
Por seu caráter restrito, pela visível incomple- 31
tude e por ter excluído dos seus feitos amplos
Revista Direitos Humanos

setores atingidos pela repressão ampla, geral


e irrestrita, necessitou de um segundo mo-
mento – a Lei nº 9.140/95, conhecida como
Nilmário Miranda, ex-ministro dos Direitos Humanos, Lei dos Mortos e Desaparecidos Políticos. E
é jornalista e presidente da Fundação Perseu Abramo. de um terceiro momento – a Lei nº 10.559, de
artigo Aos 30 anos, anistia ainda é um processo inconcluso

2002, para reparar a violência contra dezenas e pela Comissão Especial sobre Mortos e a discussão “não concerne à revisão de leis,
de milhares de pessoas em relação ao vínculo Desaparecidos Políticos, com a presença do e sim ao alcance delas, que não contempla o
laboral e outras modalidades de perseguição, presidente da República e seus ministros, ato crime de tortura”. Ao mesmo tempo, processo
e instituiu a atuante Comissão de Anistia. importante para enunciar o direito à memória contra o Estado brasileiro está em trâmite na
À medida que a democracia se consoli- como direito de emancipação do presente, foi Corte Interamericana de Direitos Humanos da
da, as instituições democráticas se fortale- recebido sem crises pelo país. OEA, movido por familiares de desaparecidos
cem e os Direitos Humanos ganham espaço, Não se trata de rever a Lei de Anistia, de na Guerrilha do Araguaia. A Comissão e a Cor-
a anistia recebe ressignificados e é recolo- 1979, já tão modificada pelas leis de 1995 e te de San José têm jurisprudência acerca da
cada em discussão. 2002. Ela cumpriu seu papel para o bem – imprescritibilidade de crimes de lesa-huma-
Está em curso no país uma profícua dis- contribuiu ao reincorporar ao espaço público nidade, como os crimes de tortura, de tortura
cussão sobre a imprescritibilidade do crime milhares de cidadãos que a ditadura proscre- com execução extrajudicial e como o desapa-
da tortura, sobre a abertura dos arquivos mili- veu – e para o mal, ao ter se omitido quanto recimento forçado de pessoas.
tares até hoje ocultados, com base no direito aos mortos e desaparecidos políticos e ter se Por outro lado, a Justiça brasileira admi-
à memória e sobre a localização dos restos furtado à responsabilização criminal dos ho- tiu Ações Declaratórias com o fito de declarar
mortais de 160 desaparecidos políticos e, micidas e torturadores. como torturadores alguns chefes de centros
ainda, sobre a necessidade da instituição de Este é o momento de clarear conceitos. de detenção e tortura. Fóruns, grupos, ci-
uma Comissão de Verdade. O quarto momen- Ao contrário do que se propalou na transição dadãos legitimamente se movimentam. Não
to deste processo de atos civilizatórios. do autoritarismo para a nossa democracia, a há como interditar esse debate por meio da
Por certo há e haverá choro e ranger de anistia não pode ser admitida como ato des- imposição do medo ou de mistificações, tais
dentes por parte de militares e civis envolvi- tinado ao esquecimento do que se passou, como alegar que aqui, ao contrário de alhu-
dos com a violação dos Direitos Humanos no conquanto o direito dos povos à verdade res, houve uma “ditabranda”.
período da ditadura. Mas o país está maduro e à memória liberte nossa consciência de O regime instituído por meio de gol-
para “dar um futuro ao passado”, como disse lembranças funestas e constitui direito ina- pe de Estado em 1º de abril de 1964 usou
Boaventura de Sousa Santos. O lançamento fastável da cidadania. Anistia não deve ser e abusou de instrumentos excepcionais para
do livro Direito à Verdade e à Memória pela distorcida como perdão, como se houvera perseguir e maltratar pessoas que instituiu
Secretaria Especial dos Direitos Humanos crime a ser perdoado por beneplácito do como “inimigas” do Estado e da segurança
poder. Ela é ato reparatório que decorre da nacional. Assassinou mais de 400 opositores,

“A Justiça quebra do Estado de Direito que prevalecia.


Ademais, anistia é para pessoas atingidas
163 dos quais transformou em desaparecidos
políticos. Prendeu arbitrariamente e torturou
brasileira pelo arbítrio, por leis excepcionais. A boa e milhares de resistentes. Cassou mais de 700

admitiu Ações velha ética rejeita estendê-la aos que agiram


em nome do Estado.
mandatos legítimos e suspendeu os direitos
políticos de 4.682 opositores. Nada menos
Declaratórias Há um movimento histórico em curso, que 6.592 militares que repudiaram o golpe
que socorre os familiares das vítimas que foram punidos e desligados das Forças Arma-
com o fito de nunca sucumbiram. das. Cento e trinta brasileiros foram banidos,

declarar como A OAB entrou com Arguição de Descum-


primento de Preceito Constitucional no Su-
tiveram seus passaportes cancelados. A União
Nacional dos Estudantes (UNE) foi proibida e
torturador premo Tribunal Federal (STF), com base no 245 estudantes foram expulsos das universi-
32
alguns chefes argumento de que tortura e assassinato de
opositores políticos foram crimes comuns, e
dades e proibidos de entrar nas universidades
públicas. 1.202 sindicatos sofreram inter-
Revista Direitos Humanos

de centros de não crimes políticos, e seus perpetradores não venção estatal, 254 foram dissolvidos e 78
foram processados nem anistiados. Quase 500 diretórios foram destituídos para implantar um
detenção e juristas de reconhecidos saberes e honradez modelo excludente e socialmente perverso de

tortura” assinaram manifesto, em que afirmaram que desenvolvimento econômico, concentrador


de renda, de riqueza, do saber, do conhe-
cimento e do poder. Só em 1964, 49 juízes
foram expurgados. A magistratura perdeu a
vitaliciedade, a inamovibilidade e a estabili-
dade. Três ministros do STF foram afastados,
para subjugar o Poder Judiciário.
A imprensa chegou a ter censura pré-
via. O teatro, colocado sob suspeição per-
manente, teve 692 peças censuradas e 300
mutiladas. O obscurantismo proibiu filmes,
músicas, livros. Cientistas, intelectuais, aca-
dêmicos, renomados e reconhecidos, foram
perseguidos, compelidos ao exílio, que che-
gou a abranger mais de 10 mil cidadãos em
diáspora pelo mundo.
O Congresso Nacional foi colocado em
recesso por três vezes, assim como Assem-
bleias Legislativas de sete estados.
A Operação Condor, aliança sinistra
de forças repressivas de Brasil, Argentina,
Chile e Uruguai para perseguir, prender e
matar pessoas onde quer que estivessem, tidos, impossibilitou os direitos políticos das torturas, a elucidação das mortes e dos
por meio de procedimentos insidiosos e legais, desenvolveu-se no país impressio- desaparecimentos, libertação de todos os
cruéis, atravessou fronteiras, deixando ras- nante rede de resistência por meio de co- presos, punição dos responsáveis, anulação
tro de vergonha. munidades de base, movimentos populares dos processos, volta dos exilados, banidos,
O golpe de 1964 interrompeu o processo urbanos, movimentos sindicais, estudantis cassados e aposentados à força. A volta do
de aprendizado democrático iniciado no pós- e culturais, resistência nos cárceres, no habeas corpus, a revogação das leis de exce-
guerra. Nos breves 18 anos, da Constituição exílio, na clandestinidade, nos grupos de ção, as liberdades civis e políticas.
de 1946 ao golpe de 1964, pela primeira vez, Direitos Humanos. Ante a força que os movimentos pela
os pobres dos campos, os herdeiros de es- Organizações como OAB, ABI, SBPC, anistia e pela democratização do país agre-
cravos, o povo de periferias, palafitas, favelas CNBB e Conselho Mundial de Igrejas passa- garam, inclusive com a entrada em cena do
e mocambos saíram da letargia para exercer a ram a criticar duramente a ditadura. Sindica- movimento operário e estudantil e ante o
democracia, reivindicando direitos mínimos, listas, lideranças populares, estudantes, jor- crescimento do Movimento Democrático Bra-
à seguridade social, ao trabalho decente, à nalistas, profissionais liberais, intelectuais, sileiro (MDB), os dirigentes civis e militares
educação, à terra urbana e rural. professores fundem as lutas por democracia do regime passaram a considerar a hipótese
Pela primeira vez, por meios pacíficos, às lutas sociais. de uma anistia seletiva, restrita, como estra-
um grande movimento erigia-se em unidade Nesse contexto nasceram os movimentos tagema para permanecer no poder e se servir
nacional em prol dos direitos e da dignidade femininos pela anistia, fruto da coragem cívi- dela para garantir a sua própria impunidade
humana e do efetivo direito à cidadania. ca de esposas, mães, filhas, irmãs, parentes (pela primeira vez a Justiça Federal reconhe- 33
Não houve “ditabranda”, e sim uma dita- e amigas dos atingidos e resistentes. Surgido ceu a morte por tortura de Vladimir Herzog).
Revista Direitos Humanos

dura com nefastas consequências econômi- em São Paulo, em 1975, espalhou-se pelo A cúpula civil-militar queria com a anistia:
cas, políticas, sociais, culturais e ambientais. país. Em 1978 foi constituído o Comitê Bra- excluir os que pegaram em armas, retardar a
À medida que a ditadura criminalizou os sileiro pela Anistia, o CBA, com o objetivo da soltura dos presos; impedir a volta dos milita-
conflitos sociais e políticos, extinguiu par- Anistia Ampla, Geral e Irrestrita. Exigia o fim res punidos às Forças Armadas, assim como
artigo Aos 30 anos, anistia ainda é um processo inconcluso

dos civis aos cargos que ocupavam; evitar lada uma comissão de apoio às famílias. arquivos) e publicar livro-relatório ao cabo
indenizações e direitos relativos a salários, No ano seguinte são devolvidos os ar- dos trabalhos da Comissão Especial; de
promoções, ressarcimentos. quivos dos DOPS estaduais recolhidos à todo modo, mais uma barreira foi quebrada.
Queriam dividir o MDB, cujo crescimen- Polícia Federal em Brasília após as vitórias Finalmente, em 2002, é aprovada a Lei
to poderia inviabilizar a eleição do próximo de opositores em 1982 em São Paulo, Mi- nº 10.559/02, regulamentando artigo das
representante do autoritarismo pelo Con- nas, Rio de Janeiro e Paraná. Mesmo ten- Disposições Transitórias da Constituição de
gresso, perdão total para os torturadores, do passado por uma “operação limpeza”, 1988. É constituída uma Comissão de Anis-
homicidas e para toda a cadeia do comando. documentos e fotos confirmam o dossiê tia, encarregada da reparação moral e finan-
As pressões internas e internacionais, a gre- organizado pelos familiares e comprovam ceira aos perseguidos políticos prejudicados
ve de fome dos presos forçou concessões; execuções e torturas. na relação laboral e outras formas de violação
no entanto, a Lei de Anistia, aprovada por de direitos. Ela já recebeu nada menos que
quatro votos de diferença apenas, ficou nos 65 mil requerimentos, indeferiu 13 mil por
termos almejados pelos militares, atenden-
do aos integrantes do aparato repressivo e a
“Não se trata de improcedentes e deferiu 40 mil, e promete
examinar todos até 2010. Nesses 30 anos a
seus chefes militares e civis. remexer feridas. Lei de Anistia de 1979 foi modificada duas
O CBA reagiu: “A Lei aprovada resultou Justiça nunca vezes, caracterizando um processo histórico.
em cometer mais e maiores injustiças (...) Na Argentina as leis de impunidade foram
o regime militar desfigurou, pois, até onde é revanchista. revogadas pela Suprema Corte, com base no
pôde o instituto universal da Anistia. E assim Trata-se de Direito Internacional e cerca de 300 tortura-
agindo, nos empurra a prosseguir na luta”. dores e seus chefes foram julgados e con-
A oposição moderada resignou-se com avançar no denados dentro das estritas regras do Estado
os limites da anistia, sobrelevou os ganhos sonho de um de Direito. Chile e Uruguai, cada um a seu
em detrimento das flagrantes omissões e
injustiças. Fato é que uma bem-sucedida
Brasil sem modo, enfrentam o passado para banir do fu-
turo a tortura e a ditadura. A própria eleição
operação política e de mídia, lastreada numa torturas” de Obama, ao proibir a tortura, contribui para
inconteste conquista democrática, hegemo- este processo, sendo eficaz mesmo para o
nizou a ideia da “anistia para os dois lados” combate ao terrorismo.
e isolou os familiares dos mortos e desapa- Em 1995 é instalada a Comissão de Di- Os familiares dos mortos e desapareci-
recidos políticos e os defensores de Direitos reitos Humanos na Câmara dos Deputados, dos políticos, fóruns e grupos que reúnem
Humanos que questionaram o lado perverso que coloca o reconhecimento estatal das ex-presos políticos, movimentos e ONGs de
da lei aprovada. mortes e desaparecimentos como primeira Direitos Humanos, juristas e intelectuais saí-
Só em 1985, quando surgem o grupo prioridade. Pierre Sane, secretário-geral da ram em defesa dos ministros da Justiça e dos
Tortura Nunca Mais, o livro Brasil: Nunca Anistia Internacional, cobra publicamente Direitos Humanos. O que se pretende quando
Mais, a lista com 444 torturadores e com a do presidente Fernando Henrique esta pro- da comemoração dos 30 anos da primeira
derrota de Paulo Maluf no Colégio Eleitoral, vidência. As famílias, jornalistas, juristas, lei é um novo passo, de conteúdo profunda-
o assunto volta à tona, sempre acompanhado grupos de Direitos Humanos se movimen- mente democrático. São decisões que cabem
da advertência para “não cutucar a onça com tam e o presidente encarrega José Gregori, ao Executivo (arquivo, localização de restos
vara curta” e com a pecha do revanchismo. veterano defensor dos Direitos Humanos, mortais, instituição de uma Comissão da Ver-
34 Em 1991 explode o caso da Vala de Pe- da elaboração de projeto de lei que resul- dade) e ao Judiciário (exclusão do crime de
rus. A então prefeita Luiza Erundina manda tou na Lei nº 9.140/95, reconhecendo a tortura do alcance da Lei de Anistia).
Revista Direitos Humanos

abrir em São Paulo a vala dos indigentes responsabilidade objetiva do Estado pelas Não se trata de remexer feridas. Justiça
no cemitério de Perus, onde estavam restos mortes e desaparecimentos de resistentes. nunca é revanchista. Trata-se de avançar no
mortais de militantes enterrados com nomes O ônus da prova fica com as famílias. Ao sonho de um Brasil sem torturas e quanto a
falsos. A Câmara Municipal de São Paulo cria Estado cabe indenizar, realizar buscas por dois velhos e estúpidos conhecidos de nossa
uma CPI e na Câmara dos Deputados é insta- restos mortais (sem, no entanto, abrir os história: impunidade e violência estatal.
Educação em Direitos Humanos:
desafio às universidades
José Geraldo de Sousa Júnior

O
José Geraldo de Sousa Júnior processo de elaboração do Plano
é reitor da Universidade de Brasília e Nacional de Educação em Direitos
membro do Núcleo de Estudos para a Paz Humanos (PNEDH), iniciado em
e os Direitos Humanos da UnB 2003, com a formação do Comitê Nacional
de Educação em Direitos Humanos (CNEDH)
e com o lançamento de sua primeira versão,
trouxe para o lugar de política pública a di-
mensão pedagógica do tema e chamou para
o campo de ação, desde logo, ou seja, para o
comprometimento com a cultura de respeito
e promoção dos Direitos Humanos, entre ou-
tros atores, a universidade.
Nos anos que se seguiram, o PNEDH tem
sido debatido e tem recebido inúmeras con-
tribuições para seu aprimoramento e, em sua
versão atual1, consolida um conjunto de prin-
cípios e concepções que balizam o modo de
consideração da educação superior em seu
âmbito e lança desafios para as ações das
universidades.
Na base desses princípios e concepções
está o enunciado, expresso no plano2, se-
gundo o qual, “as universidades brasileiras,
especialmente as públicas, em seu papel de
instituições sociais irradiadoras de conheci-
mentos e práticas novas, assumiram o com-
promisso com a formação crítica, a criação
de um pensamento autônomo, a descoberta
do novo e a mudança histórica”.
35
A referência alude ao marco legal e cons-
Revista Direitos Humanos

titucional em que se assenta a organização

1. BRASIL. Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos/Comitê Nacional de Educação em Direitos
Humanos – Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, Ministério da Educação, Ministério da Justiça, Unesco, 2007.
2. PNEDH, 2007, p. 27.
artigo Educação em Direitos Humanos: desafio às universidades

das universidades no Brasil, de onde se extrai d) a Educação em Direitos Humanos deve se espírito novo que, graças precisamente a esta
a seguinte diretriz estampada no plano: constituir em princípio ético-político orien- percepção nas nossas crescentes interde-
tador da formulação e crítica da prática das pendências, graças a uma análise partilhada
As atribuições constitucionais da univer- instituições de ensino superior; e) as ativi- dos riscos e dos desafios do futuro, conduza
sidade nas áreas de ensino, pesquisa e dades acadêmicas devem se voltar para a à realização de projetos comuns ou, então, a
extensão delineiam sua missão de or- formação de uma cultura baseada na univer- uma gestão inteligente e apaziguadora dos
dem educacional, social e institucional. salidade, indivisibilidade e interdependência inevitáveis conflitos”.5
A produção do conhecimento é o motor dos Direitos Humanos, como tema transversal Esses pontos correspondem, em seus
do desenvolvimento científico e tecno- e transdisciplinar, de modo a inspirar a ela- fundamentos, às expectativas que defendem
lógico e de um compromisso com o boração de programas específicos e metodo- uma universidade aberta à cidadania, preocu-
futuro da sociedade brasileira, tendo em logias adequadas nos cursos de graduação e pada com a formação crítica dos acadêmicos
vista a promoção do desenvolvimento, pós-graduação, entre outros; f) a construção e mais democrática. Uma universidade, como
da justiça social, da democracia, da ci- da indissociabilidade entre ensino, pesquisa indica Boaventura de Sousa Santos, cons-
dadania e da paz.3 e extensão deve ser feita articulando as dife- ciente de que “o que lhe resta de hegemonia
rentes áreas do conhecimento, os setores de é o ser um espaço público onde o debate e a
Ainda no plano, são arrolados os prin- pesquisa e extensão, os programas de gradu- crítica sobre o longo prazo das sociedades se
cípios que devem nortear a contribuição da ação, de pós-graduação e outros; g) o com- podem realizar com muito menos restrições
educação superior na área de Educação em promisso com a construção de uma cultura de do que é comum no resto da sociedade” e
Direitos Humanos: “a) a universidade, como respeito aos Direitos Humanos na relação com que encontra nos Direitos Humanos a media-
criadora e disseminadora de conhecimento, é os movimentos e entidades sociais, além de ção apta a torná-la uma “incubadora de soli-
instituição social com vocação republicana, grupos em situação de exclusão ou discrimi- dariedade e de cidadania ativa”.6
diferenciada e autônoma, comprometida com nação; h) a participação das IES na formação Um modelo assim já se apresenta como
a democracia e a cidadania; b) os preceitos de agentes sociais de educação em Direi- uma proposição que interpela a universida-
da igualdade, da liberdade e da justiça de- tos Humanos e na avaliação do processo de de convencional para que ela se abra a, pelo
vem guiar as ações universitárias, de modo implementação do PNEDH”.4 menos, duas condições. A primeira é o dar-
a garantir a democratização da informação, o Colocados esses princípios como de- se conta da natureza social do processo que
acesso por parte de grupos sociais vulneráveis safios à universidade, eles remetem àquela lhe cabe desenvolver. Não é condição trivial,
ou excluídos e o compromisso cívico-ético, necessidade, identificada pela Comissão porque ela implica opor-se à tentação de mer-
com a implementação de políticas públicas Delors, de caminhar em direção a “uma so- cadorização do ensino e consequente redução
voltadas para as necessidades básicas desses ciedade educativa”, para a qual, a contribui- do sentido de indisponibilidade do bem Edu-
segmentos; c) o princípio básico norteador da ção do ensino superior, pela mediação dos cação, reconhecidamente um bem público.
Educação em Direitos Humanos como práti- Direitos Humanos, pode vir a contribuir para Com efeito, contrariando as conclusões
ca permanente, contínua e global, deve estar realizar o pilar-síntese da educação pensada da Conferência Mundial do Ensino Superior
voltado para a transformação da sociedade, como condição para o aprendizado “do viver realizada em Paris, em outubro de 1998, sob
com vistas à difusão de valores democráticos juntos, desenvolvendo o conhecimento acer- coordenação da Unesco, quando se estabe-
e republicanos, ao fortalecimento da esfera ca dos outros, da sua história, das tradições leceu que o ensino superior é um serviço
pública e à construção de projetos coletivos; e da espiritualidade (e) a partir daí, criar um público, portanto, um direito a que todo

36
3. PNEDH, 2007, p. 27.
Revista Direitos Humanos

4. PNEDH, 2007, p. 28.


5. Delors, Jacques et. al., Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para a Unesco, da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, 5ª edição – São
Paulo: Cortez; Brasília, DF: MEC: Unesco, 2001, p. 19.
6. A Universidade no Século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da universidade. São Paulo: Cortez, 2004 (Coleção questões da nossa época; v.
120), págs. 80 e 92.
cidadão tem acesso, ganha intensidade no
seio da Organização Mundial do Comércio
(OMC) a tentativa, capitaneada por impor-
tantes países, entre eles os EUA, o Canadá, a
Austrália, a Nova Zelândia, a Noruega e o Ja-
pão, de considerar o ensino superior como
um serviço comercial.
Em bem-fundamentado estudo sobre
esse tema, o professor Marco Antônio Ro-
drigues Dias, ex-diretor da Divisão de Ensino
Superior da Unesco7, identifica a razão dessa
tentativa, ao revelar a existência de cobiçado
mercado mundial de conhecimento, que po-
deria ter alcançado o montante de 53 bilhões
de dólares em 2003.
O professor Rodrigues Dias refere-se a
documento de trabalho de uma reunião en-
tre a Organização para a Cooperação e o De-
senvolvimento Econômico (OCDE), o Banco
Mundial e o governo dos Estados Unidos, re-
alizada em Washington, em 2002, no qual se
afirmava que “até recentemente, a educação
esteve, em grande medida, ausente do debate
sobre a globalização, porque se pensava que
era um serviço não comercial. Porém, isso
não é mais verdadeiro”.
O certo é que se ensaia, hoje, cronologia
iniciada desde 1995, com a criação da OMC,
quando se inseriu na sua área de ação, entre
os serviços classificados, os serviços edu-
cacionais e suas subdivisões (básica, fun-
damental, superior e cursos especializados),
que dá ensejo para negociações, tendo por
objeto a Educação, concebida como bem de
consumo, subordinado a diretrizes de merca-
do, conforme normas que possam ser esta-
belecidas no contexto do Acordo-Geral sobre
o Comércio de Serviços (Gats), da OMC.
As consequências desse deslocamento 37
não se concretizam apenas na consolidação
Revista Direitos Humanos

de processo global de privatização do setor

7. A OMC e a educação superior para o mercado. In: BROVETTO, Jorge; MIX, Miguel Rojas e PANIZZI, Wrana Maria (orgs). A Educação Superior Frente a Davos.
Porto Alegre: UFRGS, 2003.
artigo Educação em Direitos Humanos: desafio às universidades

de serviços e da Educação e, a partir disso,


da transferência de regulação do sistema, do
Estado para o mercado, por intermédio da
“Nos anos que se seguiram, o
OMC. Provoca-se, também, subtração das PNEDH tem sido debatido e tem
funções de governo, em sua atribuição de
estabelecer políticas estratégicas para o de- recebido inúmeras contribuições
senvolvimento nacional.
Por isso que o professor Rodrigues Dias
para seu aprimoramento”
aponta para o perigo que daí decorre, ou
seja, em “aceitar a prioridade ao comércio A OMC, definitivamente, não é o foro nalização, em 1987, na Universidade de
sobre os Direitos Humanos, a capacidade adequado para a deliberação sobre temas de Brasília (UnB), de seu Núcleo de Estudos
dos países de formar seus cidadãos cons- alta relevância estratégica, que se constituem para a Paz e os Direitos Humanos e da dis-
cientes e com capacidade crítica estará de- reserva soberana da regulação estatal: saú- ciplina Direitos Humanos e Cidadania.13
finitivamente condenada, se o que rege as de, meio ambiente, propriedade intelectual Tratou-se de dar institucionalidade à mo-
ações é uma concepção que dá prioridade e educação. Mais que valores, são direitos, bilização de esforços traduzidos num con-
aos aspectos comerciais”.8 incumbindo aos Poderes Legislativo, Execu- senso sobre compromissos diligentemente
Nesse mesmo sentido se orienta a obje- tivo e Judiciário, preservar.10 Trata-se, como definidos e orientados para: a) apelar para
ção do sociólogo português Boaventura de propõe Joaquín Herrera Flores, de buscar ou- forma de corresponsabilidade mundial no
Sousa Santos, que vê esse processo como tro tipo de racionalidade, orientada por versão cumprimento dos Direitos Humanos; b)
“uma liberalização total, a destruição da uni- crítica e emancipatória dos Direitos Huma- fazer implicar essa corresponsabilidade no
versidade moderna, a imposição para o en- nos, segundo pauta jurídica, ética e social.11 dever de cada cidadão do mundo de mobili-
sino superior de tudo que é contrário a sua A outra condição, é a de interpelar a uni- zar-se na denúncia constante de toda forma
história, pois sua história foi no sentido de versidade para que ela se abra a novos modos de desrespeito aos Direitos Humanos; c)
garantir a possibilidade de se pensar na so- de ingresso e de inclusão de segmentos dela assumir a denúncia, não apenas das formas
ciedade a existência de interações não mer- excluídos, a exemplo das ações afirmativas tradicionais de desrespeito aos Direitos Hu-
cantis, isto é, a ideia de cidadania, a ideia de e da formação de turmas especiais, que têm manos, mas a todas aquelas maneiras in-
Democracia, a ideia de conhecimento. Nesse servido a assentados e beneficiários da re- diretas, sob forma de intervenção política,
momento, traz-se o Mercantilismo para den- forma agrária ou, ainda, a redesignação da militar e econômica visíveis ou disfarçadas;
tro da universidade. Como é que professores base epistemológica da formação, alargando d) apoiar a construção de mecanismos de
que estão envolvidos em uma universidade o âmbito das pautas pedagógicas para a cida- proteção, entre os quais o desenvolvimento
totalmente mercantilizada – ou que podem dania em seu espaço acadêmico.12 do princípio de proteção permanente dos
ser forçados a participar dela – podem depois Bom exemplo desse processo de alar- Direitos Humanos; e) assumir o compro-
defender durante as aulas os valores da so- gamento de pautas pedagógicas pode ser misso, que é político, científico e cultural,
lidariedade, da cidadania, da Democracia”.9 referido a partir do processo de institucio- de buscar os paradigmas de democratização

8. Op.cit. p. 53.
9. Entrevista. Jornal do Sindjus-DF, ano XI – nº 14 – maio/junho/2002.
10. SOUSA JÚNIOR, José Geraldo de. Ideias para a Cidadania e para a Justiça. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2008, p. 40.
38 11. La Reivención de los Derechos Humanos. Andalucía: Atrapasueños, 2008, pág. 11: “Los derechos humanos pueden convertise em la pauta jurídica, ética y social
que sirva de guia a la construcción de esa nueva racionalidad. Pero, para ello debemos sacarlos de la jaula de hierro em la que los tiene encerrados la ideologia de
Revista Direitos Humanos

mercado y su legitimación jurídica formalista y abstracta”.


12. SOUSA JÚNIOR, José Geraldo de; SOUSA, Nair Heloisa Bicalho de; SANT’ANNA, Alayde Avelar Freire; ROMÃO, José Eduardo Elias; SANTANA, Marilson
dos Santos e CÔRTES, Sara da Nova Quadros (orgs). Educando para os Direitos Humanos: pautas pedagógicas para a cidadania na universidade. Porto Alegre:
Síntese, 2004.
13. SOUSA JÚNIOR, José Geraldo de Sousa. A institucionalização do Núcleo de Estudos para a Paz e os Direitos Humanos e da disciplina Direitos Humanos e
Cidadania na UnB. In: Educando para os Direitos Humanos: pautas pedagógicas para a cidadania na universidade, op. cit. págs. 9-15.
para instaurar sociedade nova formada pe-
las comunidades libertárias de concretiza-
ção dos Direitos Humanos.14
O Núcleo de Estudos para a Paz e os
Direitos Humanos (NEP) tomou para si a
tarefa de realizar esses compromissos e, no
mesmo ano de sua criação, lançou também,
na UnB, a cadeira Direitos Humanos e Cida-
dania, que é até hoje oferecida em módulo
livre a alunos de todos os cursos instalados
na universidade. Em seu programa original,
que é praticado hoje com variações conjun-
turais, foram incorporados elementos para-
digmáticos que derivam do debate político
e epistemológico que serviu de fundamento
à concepção da disciplina, com especial
atenção para o reconhecimento da força
dos movimentos sociais e dos sujeitos co-
letivos neles constituídos para a criação de
direitos: 1. análise das condições teóricas
e das condições sociais do conhecimento
e dos paradigmas filosófico-jurídicos dos
Direitos Humanos; 2. percepção dos Direitos
Humanos e da cidadania na construção das
lutas sociais e na constituição de novos su-
jeitos de direito; 3. os movimentos sociais e decisão política; 5. critérios para elaboração Esse programa se insere, como se pode
a emergência de sujeitos coletivos de direito; de programa de Direitos Humanos na cons- ver, numa perspectiva dos Direitos Humanos
4. a cidadania como possibilidade de colo- trução e reconstrução das democracias lati- que, articulando lutas por igualdade e lutas
car no social esses novos sujeitos capazes no-americanas; 6. experiências de organiza- por reconhecimento das diferenças, deposita
de criar direitos como Direitos Humanos mu- ção, práticas políticas e estratégias sociais na ação protagonista dos movimentos sociais
tuamente reconhecidos e aptos a determinar de criação dos direitos; 7. educação para os a condição emancipatória para a superação de
a sua participação autônoma no espaço da Direitos Humanos e cidadania.15 estruturas injustas e alienadoras do humano.16

14. Idem, op. cit., págs. 12-13.


15. Ibidem, p. 13.
16. SOUSA, Nair Heloisa Bicalho de. Unidades de pesquisa das universidades brasileiras sobre violência, Direitos Humanos e paz: uma abordagem preliminar.
MARTINS, José Renato Vieira; SOUSA, Nair Heloisa Bicalho de e MARTON-LEFÉVRE, Júlia (orgs), Educação para a Paz e Direitos Humanos. Brasília, Presidência
da República, Secretaria-Geral da Presidência da República, 2008, págs. 93-94: “Santos (2003) reflete a partir dessa perspectiva multicultural dos Direitos
Humanos, mostrando como o discurso da universalidade é questão específica da cultura ocidental, destacando algumas premissas importantes para guiar o
debate. A primeira, propõe diálogo intercultural, buscando convergências em linguagens e universos culturais diferentes. Alerta, ainda, para a importância de 39
critérios para diferenciar o caráter regulatório de uma política do seu teor emancipatório. A segunda, indica a necessidade de reconhecer preocupações e aspi-
Revista Direitos Humanos

rações diferentes ou semelhantes entre as culturas. A terceira premissa aponta em direção à consciência da incompletude cultural presente em todas as culturas,
fator importante para a abordagem multicultural. A quarta, refere-se à importância de conhecer as concepções e práticas da modernidade ocidental a respeito
dos Direitos Humanos, verificando qual delas está mais aberta ao diálogo com outras culturas. Finalmente, a quinta propõe uma política emancipatória dos
Direitos Humanos, capaz de distinguir, de um lado, a luta pela igualdade que lida com hierarquias entre unidades homogêneas (de classe, cidadão/estrangeiro
etc.) e, de outro, a luta pelo reconhecimento igualitário das diferenças, a qual opera por meio da hierarquia entre identidades e diferenças únicas (etnias, raças,
sexos, religiões e orientações sexuais, entre outras)”.
artigo Educação em Direitos Humanos: desafio às universidades

Trata-se, portanto, de programa de edu- necessariamente, vir de esforços conjuntos bem como em processos de construção
cação para os Direitos Humanos, tal como que podem operar transformações pontuais disseminados no território nacional, poderão
pensado segundo a pedagogia de Paulo Frei- que, uma vez somadas, ao longo do tempo dar origem a sementes amadurecidas para
re, logo, apoiada numa compreensão diferen- e em processos de partilhamento de conhe- a construção de uma sociedade mais justa,
te do desenvolvimento da aprendizagem, por- cimentos, novos horizontes e experiências, igualitária e solidária”.21
que implica uma experiência de participação
crescente, dos seus sujeitos, “com vistas à
Referências
reinvenção do mundo”.17
Daí o buscar estabelecer, para o seu BITTAR, Eduardo C. B. (coordenador). Educação e Metodologia para os Direitos Humanos. São Paulo: Quartier Latin
do Brasil, 2008.
desenvolvimento, nos espaços acadêmicos,
um projeto educativo emancipatório. Atenta BITTAR, Eduardo C. B. e TOSI, Giuseppe (orgs). Democracia e Educação em Direitos Humanos numa Época de Insegu-
rança. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, 2008.
a essa categoria e com base em Boaven-
tura de Sousa Santos, Inês Barbosa de Oli- BRASIL. Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos/
Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos – Brasília: Secretaria Especial de Direitos Humanos, Ministério da
veira sustenta ser essa a condição para criar
Educação, Ministério da Justiça, Unesco, 2007.
possibilidades mais amplas de formação de
DELORS, Jacques e outros (org). Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para a Unesco, da Comissão Internacio-
subjetividades inconformistas, necessárias à
nal sobre Educação para o Século XXI, 5ª edição – São Paulo: Cortez; Brasília, DF: MEC: Unesco, 2001.
educação em Direitos Humanos.18
E, a rigor, é tanto mais necessário pensar- DIAS, Marco Antônio Rodrigues. A OMC e a educação superior para o mercado. In: BROVETTO, Jorge; MIX, Miguel
Rojas e PANIZZI, Wrana Maria (orgs). A Educação Superior Frente a Davos. Porto Alegre: UFRGS, 2003.
se um projeto educativo emancipatório, quan-
to se tenha em mente, nos espaços univer- FREIRE, Paulo. Direitos humanos e educação libertadora. In: FREIRE, Ana Maria Araújo (org), Pedagogia dos Sonhos
Possíveis, São Paulo: Editora Unesp, 2001.
sitários, operar com insuficiências de fundo
metodológico, para poder permitir que a apro- HERRERA FLORES, Joaquin. La Reivención de los Derechos Humanos. Andalucía: Atrapasueños, 2008.

ximação pelos fragmentos de diferentes áreas SANTOS, Boaventura de Sousa. Entrevista. Jornal do Sindjus-DF, ano XI – nº. 14 – maio/junho/2002.
de abordagem – os campos de conhecimento SANTOS, Boaventura de Sousa. A Universidade no Século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da
– tornem possível consolidar uma educação universidade. São Paulo: Cortez, 2004 (Coleção questões da nossa época; v. 120).
para os (ou nos) Direitos Humanos.19 SOUSA, Nair Heloisa Bicalho de. Unidades de pesquisa das universidades brasileiras sobre violência, Direitos Huma-
Em suma, um tremendo desafio se põe nos e paz: uma abordagem preliminar. In: MARTINS, José Renato Vieira; SOUSA, Nair Heloisa Bicalho de e MARTON-
às universidades, seja como apelo de supera- LEFÉVRE, Júlia (orgs), Educação para a Paz e Direitos Humanos. Brasília: Presidência da República, Secretaria-Geral
ção de suas deficiências de desempenho, no da Presidência da República, 2008.

tocante as suas responsabilidades sociais20, SOUSA Jr., José Geraldo de; SOUSA, Nair Heloisa Bicalho de; SANT’ANNA, Alayde Avelar Freire; ROMÃO, José Eduardo
seja como resposta às interpelações do con- Elias; SANTANA, Marilson dos Santos e CÔRTES, Sara da Nova Quadros (orgs). Educando para os Direitos Humanos:
pautas pedagógicas para a cidadania na universidade. Porto Alegre: Editora Síntese, 2004.
junto de proposições do PNEDH para fundar
as bases sólidas de uma cultura de educação SOUSA JÚNIOR, José Geraldo de. Ideias para a Cidadania e para a Justiça. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris

nos Direitos Humanos. Como lembram Bittar Editor, 2008.

e Tosi, “os incentivos a este caminho devem,

17. Direitos humanos e educação libertadora. In: FREIRE, Ana Maria Araújo (org), Pedagogia dos Sonhos Possíveis. São Paulo: Unesp, 2001, pág. 99.
18. Boaventura & a Educação, 2ª edição, Belo Horizonte: Autêntica, 2008, págs. 101-102: Os Direitos Humanos como base de projeto educativo emancipatório
40 para afirmar “o papel da educação na formação das subjetividades inconformistas e rebeldes, voltadas para a luta pela emancipação social e a necessidade de
ampliação do caráter democrático das subjetividades individuais e coletivas como meio de levar a luta pela emancipação a contribuir efetivamente para a ampliação
Revista Direitos Humanos

da democracia social”.
19. BITTAR, Eduardo C. B. (coordenador). Educação e Metodologia para os Direitos Humanos. São Paulo: Quartier Latin do Brasil, 2008, pág. 19.
20. SANTOS, Boaventura de Sousa, op. cit. p. 90.
21. BITTAR, Eduardo C. B. e TOSI, Giuseppe (orgs). Democracia e Educação em Direitos Humanos numa Época de Insegurança. Brasília: Secretaria Especial dos
Direitos Humanos da Presidência da República, 2008, p. 8.
poemas
ASSISTINDO a UM ESPECIAL
SOBRE LEONARD COHEN NUMA
SAUNA GAY EM IPANEMA
O televisor de plasma tem mais de trinta polegadas
E fica quase debaixo da escada pela qual incessantemente
Sobem e descem homens de todas as idades enrolados em suas toalhas.
Interessam-se ao ver-me plugado ao que acontece no vídeo:

Nunca soube que o Leonard Cohen, now aged 75,


Tinha tantos admiradores entre os mais jovens.
Bono Vox, Rufus Wainwright, o pessoal da pesada
Da música de língua inglesa dos oitenta e noventa
E mesmo jovens ainda mais jovens, um certo Antony
Que canta como um rouxinol metrossexual,
Alternam-se neste especial montado, ao que parece,
Em Sydney, Austrália.

Observam-me e seguem subindo e descendo os degraus,


E nas quase duas horas que levo assistindo ao especial
Nenhum dos coroas ou dos jovens que sobem e que descem
De fato parou, o que se chama parar, para de fato entender
Qual a razão que tão atentamente me traz transfixado
A este programa que para eles deve parecer
Pelo menos bizarro. Ninguém vai a uma sauna gay
Para assistir com firmeza a um especial
Sobre Leonard Cohen.

Não posso evitar os olhares de espanto nem quero


Deixar de assistir ao programa. Se os mais jovens
Ao menos me perguntassem sobre a minha escolha.
Se os mais velhos tivessem o mesmo repertório
E soubessem o que Leonard Cohen significou
Para a minha geração e o mundo ou a deles.
Mas não.
HORÁCIO COSTA
A uma sauna gay se vai por sexo, dizem esses
Poeta, crítico, tradutor, professor universitário. Diplo-
Ressabiados olhares. Não queira inventar moda.
mado em Arquitetura e Urbanismo, pela Universidade
Ninguém está aqui para saber de mais nada.
de São Paulo (USP), 1978; Master of Arts (M.A.), New
Pare com o teu programa, e mande botar de novo
Algum filme pornô, que todo mundo entende York University, 1983; Doctor of Philosophy (PhD), Yale
E não tem blá-blá-blá em inglês australiano University, 1994, com a tese “José Saramago: o período
Nem poemas cantados. formativo”. Foi professor titular da Universidade Nacional
Autônoma do México-UNAM; 1993-2001; atualmente é
Mas não me desligo da tela, estou cativado, professor-doutor na Faculdade de Filosofia, Letras e Ci-
Até que no último número o septuagenário ências Humanas da USP.
De Montreal, com pele manchada e cabelos Em 2008, como presidente da Associação Brasileira
Grisalhos e vestindo Zegna ou Armani,
41
de Estudos da Homocultura (Abeh), organizou seu IV
Canta com uma voz mais do que sensual
Revista Direitos Humanos

Congresso, na FFLCH e no MAC-USP, precedido do En-


Com o grupo U2 um poema de amor e de
contro Hispano-Brasileiro de Militantes Homossexuais.
Autoconhecimento, com arriscadas, perfeitas
Atualmente, é coordenador do Programa de Estudos da
Rimas internas, e um olhar que perfura o plasma
Diversidade (Homo)Sexual da Universidade de São Paulo
Do televisor.
(PEDHS-USP).
RJ/SP, 16 II 09
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imagens
João Roberto Ripper
©João Roberto Ripper
©João Roberto Ripper

O
fotógrafo carioca João Roberto Ripper tem como proposta colocar a fotografia a serviço dos Direitos Humanos. Sua
especialidade é a fotografia social, documental e o fotojornalismo. Com militância trabalhista e sindical e longa experi-
ência em jornais e revistas, Ripper criou e coordenou a Imagens da Terra, nos anos 1990, entidade sem fins lucrativos
especializada na fotografia documental de denúncia social. Entre os temas que permeiam o trabalho do fotógrafo estão a vida do
homem do campo, o habitat indígena, a seca do Nordeste, o trabalho escravo de carvoeiros a crianças em Mato Grosso do Sul.
O encontro de João Roberto Ripper com a fotografia aconteceu quando ele cursava a terceira série do antigo curso Científico e
teve as primeiras lições com o amigo e companheiro de escola Júlio Cezar Pereira, à época já considerado um bom profissional.
Em 1972, aos 19 anos, Ripper ingressou na carreira de repórter-fotográfico na Luta Democrática, de Tenório Cavalcanti.
Vieram em seguida o Diário de Notícias, a Última Hora, a sucursal carioca do Estadão e O Globo, além de diversos trabalhos
como freelance para vários outros jornais e revistas.
Quando deixou O Globo, participou da criação da Agência F4, do Rio; a Ágil, de Brasília; e a Angular, de São Paulo. Quan-
do deixou a F4, Ripper criou o Projeto Imagens da Terra, em que seu olhar sobre a vida dos trabalhadores rurais consolidaria
sua visão de fotografar a serviço dos Direitos Humanos.
44 Em junho deste ano, abriu, na sede da Petrobras, no Rio de Janeiro, a mostra Sonhos Velados, um conjunto de fotografias
produzidas por adolescentes em conflito com a lei, fruto de parceria entre a empresa e a Ação Comunitária do Brasil do Rio de
Revista Direitos Humanos

Janeiro (ACB/RJ), por meio do projeto Pan Social. A exposição apresenta flashes da vida e dos sonhos de crianças e adoles-
centes que estão cumprindo medidas socioeducativas em duas unidades do Departamento Geral de Ações Socioeducativas
(Degase). Com imagens produzidas durante as aulas da oficina FotoOlhares, a mostra divulga, por meio de fotos introspecti-
vas e esperançosas, uma visão humanista das ações desenvolvidas pelo Novo Degase.
©João Roberto Ripper

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entrevista Juliana Hallack

Movimento Humanos Direitos: Você teve MHuD: O que você aprendia no Oratório?
algum interesse político quando estuda- PB: Eu pensava que era religião, basica-
va na faculdade? mente. Mas, hoje em dia, vejo que era muito
Paulo Betti: Na Escola de Arte Dramática, sim; mais. Por exemplo, hoje eu tenho noção de
antes disso, não. Eu sou de 1952. Em Sorocaba, que o padre Martini, o nosso líder do Orató-
antes da faculdade, eu tinha uma atenção para a rio, o técnico do time de futebol, era muito
Paulo Betti

política, rudimentar, um sentimento, em função mais do que isso. Eu não avaliava a capaci-
de meus pais serem lavradores e de eu ter essa dade intelectual, a formação dele. Hoje me
noção da condição da  pessoa do campo. Mas dou conta de que ele sabia a Divina comédia
não posso dizer que era interesse político. Impac- inteira, de cor,  e a recitava em diferentes
tante foi ver O pagador de promessas no Oratório dialetos italianos. Isso sempre passava nos
dos Salesianos. Acho que foi um dos primeiros sermões, nas aulas de catecismo, essa eru-
50 dição.  Ele  é uma sumidade.  Cada dia que
toques políticos articulados que recebi.
Revista Direitos Humanos

a gente frequentava o Oratório e participava


MHuD: O que era o Oratório? das orações e do trabalho de catequese, a
PB: O Oratório era um projeto dos Salesia- gente ganhava um cartãozinho,  carimbado.
nos, concretizando um sonho de Dom Bosco, No fim do mês, esses cartõezinhos, soma-
cuidar das crianças pobres. dos, davam direito a compras num bazar, que
MHuD: E você era bom de futebol?
O ator Paulo Sérgio Betti nasceu em Rafard, região de Sorocaba, PB: Eu não era muito bom, não. Mas gosta-
no interior paulista, em 1952. É ator e diretor, formado na Escola de va, era apaixonado pelo futebol. A bola era
Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP). Um de seus muito dura, o campo muito áspero, não tinha
grama nenhuma. Cair era uma ralação dana-
trabalhos marcantes foi a peça Cerimônia para Um Negro Assassina-
da, aquele pedregulho. Não tinha uma única
do, de Fernando Arrabal, em que estreou como diretor de teatro. De touceira de grama no campo. As chuteiras
1977 a 1984 participa, como professor, da implantação do Centro de tinham pregos imensos. Padre Leci, sim, era
Teatro da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp. um grande jogador, jogava de óculos e de
A partir da década de 1990,  Paulo Betti se dedica com maior batina. Arregaçava a batina e víamos a meia
e a chuteira. Mesmo de óculos, ele subia de
intensidade à televisão, quando trabalha como ator em várias nove-
cabeça, cabeceava! E craques eram os meus
las da TV Globo. Atua também no cinema, no qual suas principais amigos, os meninos do bairro; alguns pode-
atuações estão em Jogo Duro, de Ugo Giorgetti; Ed Mort, de Alain riam ter sido profissionais.
Fresnot, Doida Demais e Guerra de Canudos, de Sergio Rezende.
É um dos fundadores e produtores da Casa da Gávea, espaço para MHuD: Você tinha percepção política do
que estava vivendo?
apresentações, cursos e produção cultural no Rio de Janeiro, onde
PB: Não uma percepção clara,  apenas uma
ocorreu a entrevista. revolta com a condição de pobreza de minha
A trajetória pessoal do ator o levou a uma atuação como militan- familia na roça. Minha mãe teve 15 filhos!
te dos Direitos Humanos. Nesta entrevista concedida ao Movimento Perdeu 8! Eu fui temporão. Nasci quando ela
Humanos Direitos, Paulo Betti conta sobre sua vida e sua atuação na tinha 45. Minha mãe se orgulhava de nunca
ter dado um filho!
área de Direitos Humanos.
Teve uma época que todos nós tínha-
mos bócio! Éramos papudos! Minha irmã,
que trabalhava como enfermeira no hospi-
tinha até leite de soja, uma novidade absolu- Picchia, Juca Mulato. Mas ali no Salesiano, tal, percebeu e nos levou para a cidade. Eu
ta. Minha avó gostava, e eu ficava na dúvida os padres nos incentivaram a criar o pri- ouvia essas histórias, sabia que tinha algu-
se pegava leite de soja para ela ou se pegava meiro grupo de teatro de que eu participei, ma coisa errada ali. Trabalhei no hospital,
uma calça jeans para mim. As roupas vi- o Tejusa – Teatro da Juventude Salesiana. minha família toda nas Indústrias Votoran-
nham de um projeto chamado Aliança para o Ali montamos O rapto das cebolinhas, da tim. Aquelas casas todas iguais, os operá-
Progresso, um acordo do governo brasileiro Maria Clara Machado. Depois começamos rios pareciam sair de um filme neorrealista
com os EUA. Eles mandavam roupas, jeans a ensaiar O auto da compadecida, do Aria- italiano, aquelas pessoas que chegavam
que haviam sido de jovens que morriam na no Suassuna. Lembro de a gente rodar os estropiadas, com os pulmões colados de
guerra do Vietnã, eu fantasiava. Uma vez pe- textos nos mimeógrafos com álcool. Era cimento para ser tratadas no hospital.
guei uma jaqueta que estava furada de bala, a produção, a viabilização dos ensaios. E Aqueles bedéis arrogantes, na escola, exi-
com cheiro de pólvora. Ninguém tinha jeans tinha o cineclube! Os padres afastavam a gindo que cortássemos os cabelos, aqueles
desbotáveis e a gente  tinha. imagem de Nossa Senhora Auxiliadora e, discursos e os hinos cantados antes das aulas.
Tinha um clima opressivo. E eu adorava o LP 51
no centro da igreja, projetavam filmes em
Revista Direitos Humanos

MHuD: Nesse momento você tinha algu- 16 milímetros. Foi ali que vi O pagador de Hora de lutar, do Geraldo Vandré. Eu escrevia
ma inspiração cultural? promessas, que viria a ser uma forte influ- uns poemas falando dos lavradores, da pobre-
PB: Já havia feito uma tentativa de teatro ência para mim. Imagine como os padres za. Meu pai vendia sorvete na frente da escola,
com a professora de Português, tinha de- eram progressistas. O pagador é um filme com as calças remendadas, chapéu de palha;
corado um poema imenso do Menotti Del extremamente crítico à igreja obscurantista. aqueles sorvetes bem humildes. Não eram as
entrevista Paulo Betti

carrocinhas da Kibon. Era complicado para um da Congregação tocando seus instrumentos. MHuD: E você, para que lado foi?
menino sair da escola e encontrar o pai venden- A Vila Leão era um universo muito rico. E eu PB: Basicamente sou católico. Mas te-
do sorvete na porta, as crianças são preconcei- tinha interesse na leitura. A única assinatura de nho grande simpatia e afeto  por essas
tuosas. Isso tudo vai virando um amálgama. jornal, no bairro, era a minha. Lógico que isso religiões que frequentei quando menino,
A escola, o Ginásio Industrial, era exce- era influência da minha mãe, da angústia que a Umbanda , o Kardecismo, pela acolhida
lente. Ali aprendi eletricidade, torno mecâni- eu via nela por não saber ler. Acho que essa que minha família, meu pai, minha mãe,
co, desenho, línguas. E tinha refeição, sobre- mistura toda me levou a ser ator. minha avó tiveram na igreja, na Congrega-
mesa, comida balanceada. Era uma escola ção. Eles são muito solidários, ajudam-se
em tempo integral, uma espécie de Ciep. MHuD: E economicamente? mutuamente. É bonito!
Entrava na escola às 7 horas e saía às PB: Minha mãe, além do emprego, lavava
17 horas. E ia direto para o Salesiano, futebol, roupa para os estudantes da Faculdade de MHuD: Seu pai era italiano?
teatro, o tempo todo ocupado! Medicina, tinha uma república no meu bairro. PB: Não. Meus quatro avôs eram italianos. Eu
Tive muita sorte, estudei em boas esco- Eu ajudava passando. Fiquei craque em pas- tenho passaporte italiano.
las públicas. Como minha mãe era empre- sar roupa. Com 16 anos, eu também passei a
gada doméstica numa família legal, pude ser importante, porque comecei a trabalhar e MHuD: Qual deles trabalhou na fazenda
ter contato com livros e minha mãe, que era a ajudar a família. Conseguimos aposentado- de um negro?
analfabeta, valorizava muito a leitura. Eu fi- ria rural para meu pai e minha mãe. PB: Meu avô materno. Meu avô e minha avó
cava lendo gibis. Minhas irmãs, mais velhas, Comecei a ajudar nas internações de meu paternos eu não conheci. Quando viemos
reclamavam. E ela dizia: “Deixa o menino, ele pai, que tinha esquizofrenia. de Rafard para Sorocaba, eu tinha três anos.
está estudando”. Abençoada, minha mãe! Meu avô e minha avó por parte de mãe vie-
MHuD: Mas você tinha formação religio- ram também, e meu avô passou a trabalhar
MHuD: E o que você levou para sua car- sa, inspiração religiosa? como meeiro numa fazenda cujo proprietá-
reira de ator? PB: Eu era coroinha. Adorava fazer as leitu- rio era negro, o João Quiló. No caminho da
PB:  Acho que minha mãe foi uma grande in- ras, ajudando na missa, mas não gostava da roça havia a igreja do João de Camargo, que
fluência. Era muito dramática. Meu bairro era roupa de coroinha, tinha vergonha daquela marcou muito como um líder carismático.
uma espécie de Macondo, pouca luz, muito saia vermelha com aqueles bordados. O pes- Já tinha morrido há uns 15 anos, mais ain-
batuque. Vivia num mundo povoado de fantas- soal do bairro tirava sarro. da estava muito presente. E eu fui também
mas, de histórias de pessoas mortas, parecia a esse culto, essa crença que veio pelo meu
o universo do Gabriel García Márquez. Quando MHuD: Sua mãe era religiosa? avô materno, João. Para ir à roça dele, era
um vento abria uma porta, minha mãe falava PB: Minha mãe era católica, mas misturava obrigatório passar na frente da igreja e a
“Entre!”, como se algum espírito estivesse muito as religiões. Por causa da doença de meu gente entrava. O meu avô, na última vez em
querendo entrar. Isso tudo estimulava muito pai, ela tentava outras, como o Espiritismo, e que foi trabalhar, antes de morrer, entrou na
a fantasia. E minha mãe me enfiou na cabeça por isso frequentei muito centro kardecista. igreja quando voltava para casa,  e depois 
que leitura era uma coisa importante. O anal- Depois, ela frequentou alguns terreiros de Um- disse que quem havia ajudado a carregar
fabeto vive num mundo à parte, para quem o banda, onde eu ia também. Eu gostava muito de um mourão que tinha nas costas, tinha sido
tempo é diferente. Minha mãe precisava per- ouvir a batida dos tambores, admirava as roupas o espírito de seu João. A roça do meu avô
guntar para onde ia um ônibus, que nome es- bonitas, mas tinha medo de “cair”, ser tomado era uma coisa linda, porque ele era muito
tava escrito nas placas. Eu era assinante de um pelos espíritos. Mais tarde, minha mãe, minha delicado. Eu me lembro muitas vezes de
52 jornal da capital, aos 15 anos de idade. E dos avó e meu pai se converteram à Congregação ver meu avô na roça e também o negro, em
livros da Coleção Saraiva. Tinha Machado de Cristã do Brasil, que é uma igreja muito bonita posição de superioridade. O homem negro
Revista Direitos Humanos

Assis, José de Alencar, os clássicos. Um bair- também, tem fundamentos muito interessantes. habitando a Casa Grande e eu na Senzala,
ro negro, quatro ruas de terra, cruzadas como São os “língua de fogo”, com seus sermões ouvindo minha mãe, que falava: “Você vai
um jogo da velha. Dali saíam as três escolas inspirados e a música! O centro do culto é a casar com a Nazaré”. Nazaré era filha do
de samba da cidade. E tinha os evangélicos música, uma banda em cada igreja. João Quiló. Nossa família foi empregada
dele, quase toda a família, porque na época MHuD: E de grupo político, você não nome dela ficou marcado em minha memó-
da colheita todo mundo ajudava a colher. fez parte? ria. Foi a primeira vez que me dei conta que
Íamos todos, numa espécie de mutirão na PB: Não fiz parte de nenhum grupo político, gente da nossa área, da área teatral, estava
hora de colher arroz. Era muito bonito. nenhuma militância. desaparecendo na repressão. Mas realmen-
te nunca estive dentro de nada organizado. 
MHuD: A sua militância vem mais da MHuD: Por quê?
vida do que da elucubração política. PB: Porque ninguém nunca chegou e me MHuD: Você acaba de fazer referên-
Você não era um revolucionário, mas convidou para algo. Lembro que a primei- cia à Heleny Telles Guariba, morta sob
atuava muito. A sua mentalidade política ra vez em que participei de uma passeata  torturas, provavelmente na chamada
vem da atuação? foi em 1974, quando houve a Revolução Casa da Morte, em Petrópolis. Como
PB: Acho que quase tudo está relacionado de Portugal, a Revolução dos Cravos. Nós, foi para você interpretar Carlos Lamar-
com essa experiência da minha família. Eu chamados pela Ruth Escobar, saímos do ca no cinema?
não tinha nenhuma orientação política. A teatro e fomos em direção à Praça da Sé, PB: Eu sabia quem tinha sido o Lamarca,
gente falava “lavrador”, não “camponês”. De- distribuindo cravos e rosas numa passea- mas não sabia a dimensão do que ele havia
pois eu fui para a USP e, em 1972, eu estava ta que foi proibida. Também me lembro de feito, do seu gesto, da sua liderança. Só fui
na Escola de Arte Dramática. Ensaiávamos e uma coisa que me marcou muito, que foi a entender quando fiz o filme e estudei, incor-
havia policiais olhando na janela, rondando. Heleny Guariba, diretora de teatro, desapa- porei o personagem. Fui tomado por ele, por
Toda noite, quando íamos para casa, éramos recida política, presa em 1971 pelo regime sua memória. Emagreci 15 quilos, em dois
parados na frente da Academia de Polícia militar. A Heleny tinha sido jurada de um meses. O filme foi feito com pouco dinhei-
para ser revistados.  festival de teatro em Sorocaba. Por isso, o ro, não dava para esperar o ator engordar e
emagrecer. Era o único filme sendo rodado
Juliana Hallack
naquele momento. O cinema havia sofrido
um atentado violento do governo Collor, que
queria acabar com o cinema brasileiro! Ima-
gine que esse cara voltou e está no Senado!
Mas, voltando, vivi o Lamarca intensamente e
fiquei impregnado pelo personagem durante
muito tempo.
 
MHuD: E seu personagem Lamarca vol-
tou no filme Zuzu Angel. Heleny e Zuzu
foram mortas pela repressão política do
regime militar. Qual sua opinião sobre o
debate atual, agora em 2009, sobre as
torturas, arquivos, punição, anistia?
PB: Acho muito importante punir os res-
ponsáveis pela tortura, pela repressão. Uma
coisa que não pode ser esquecida. Às vezes,
percebo tentativas de minimizar a ditadura e 53
isso me deixa revoltado. Dizer que a nossa
Revista Direitos Humanos

foi branda é de uma cara de pau que não tem


tamanho. Quem viu o documentário Cidadão
Boilensen tem uma dimensão da crueldade
que foi a ditadura no Brasil.
entrevista Paulo Betti
Juliana Hallack

MHud: Falando de teatro, o seu teatro é PB: Exatamente. Não é uma estratégia. Se
muito forte. Você considera que seu tea- eu escolhi certos lados ou certas posições,
tro é quase político em razão de sua atu- foi muito mais determinado por empatia,
ação, que também é quase política? por uma coisa intuitiva, do que por racio-
PB: Acaba sendo, mas não é um objetivo nalidade política. Mas ainda hoje me inco-
predeterminado. Não penso em eficácia po- moda um pouco isso, esse pragmatismo,
lítica ao fazer uma peça. É mais um desejo, esse olhar distanciado, frio, tentando ver
uma necessidade interior de expressar algu- os resultados políticos a ser alcançados,
ma coisa, é poesia. A primeira peça que fiz estratégias. Por exemplo, quando o Lula
foi O pagador de promessas, que tem con- perdeu para o Collor, em 1989, nós que-
teúdo político muito forte. Se você pensar ríamos que o PT fizesse as Comunidades
bem, toda escolha de repertório é política. Na Artísticas de Base. Era até um projeto do confisco econômico e a peça fazia muito su-
Escola de Arte Dramática fiz peças como A Boal. Naquela época, o que a gente que- cesso. Viajamos pelo Brasil inteiro, todas as
vida é sonho, do Calderón de La Barca, Rastro ria era uma atuação efetiva: “Vamos fazer capitais. Eu fui  fazendo debates  pela demo-
atrás, de Jorge Andrade, e O doente imagi- o governo paralelo, mas na estrutura que cracia dos meios de comunicação. Fizemos
nário, do Molière. Quando fiz Cerimônia por nós temos hoje no Brasil, de diretórios do um movimento muito interessante, pois havia
um negro assassinado, por exemplo, uma re- PT; vamos botar gente fazendo atendimento a necessidade de saber o porquê de o Lula ter
pórter falou assim: “Mas essa peça fala mui- médico, psiquiátrico, psicológico, den- perdido a eleição. Ao mesmo tempo, fui tam-
to mais da repressão do general Franco do tário, teatral etc.” Mas havia uma  ala que bém de diretório em diretório do PT tentando
que de poesia”. Nunca perguntei isso para o tachava isso de assistencialismo. Sempre estabelecer o que seria uma coisa parecida
Arrabal (espanhol, autor da peça), pode até me incomodou muito essa visão pragmáti- com a futura Casa da Gávea1. Quando volta-
ser. Me projeto nos trabalhos que faço e, às ca. Penso que se a gente tivesse feito dois mos, alugamos esse local e estamos tocando
vezes, eles têm conteúdo político, mas minha mil diretórios pelo Brasil, fazendo o que isto aqui, somos precursores dos  Pontos de
ação não é direcionada nesse sentido. Não dá pudesse fazer para ajudar, teríamos tido Cultura, projeto do Ministério da Cultura. 
para se ter tanto controle, não se consegue. um resultado político incrível e resultado Mas, hoje, há muitas coisas que fazemos
Lutamos para tocar o público, atingi-lo de efetivo social também. na Casa da Gávea e percebo que elas estão
alguma maneira, diverti-lo, fazer que ele se Detesto essa história de “ensina a pes- relacionadas com aquele exemplo dos Sale-
emocione, pense. car, não dá comida”! “Primeiro a educa- sianos, como o cineclube. A ideia da asso-
Poucas vezes conseguimos isso. Uma das ção”. É claro que tem de aprender a pescar! ciação, penso que vem do Nhô João de Ca-
melhores peças que fiz foi Na carrera do Divino, É claro que tem de ter educação! Mas com margo, que criou uma Associação em 1917!
onde falávamos da cultura caipira, um texto do a barriga vazia?  Ajudei a criar a Cooperativa Paulista de
Carlos Alberto Sofredini, uma peça que poderia Teatro e a Casa da Gávea também é uma
ser adotada pelo MST. Fizemos em 1979. O que MHuD: E a Casa da Gávea acabou sendo associação. As coisas vão sendo plantadas
queríamos com a peça? Dizer que o sotaque ca- uma experiência que lembra um pouco na gente e acabam brotando muito tempo
rioca que ouvíamos na televisão não era o único essa ideia, não é? depois. Fui muito influenciado por um pro-
bonito. Que o caipira também era! E a peça re- PB: Foi isso. O Lula perdeu num domingo. jeto do Sesi, que levava peças profissionais
sultou muito mais do que isso, é claro. Na segunda-feira apareceu na casa do Adair para o interior, para formar plateias; depois
Quem quiser ter uma ideia do que era a peça, Rocha essa ideia. O Lula estava lá. Comecei eles faziam debates. Vi uma peça e um de-
54 veja o filme Marvada carne, do André Klotzel. a viajar com uma peça de teatro e, nessa via- bate depois, e fiquei fascinado. Aquele ator
gem, eu fui pregando a tal ideia, de transfor- profissional, que parecia um gigante no pal-
Revista Direitos Humanos

MHud: É mais uma questão humana, de mar cada diretório num centro de cultura. Fui co, tinha o mesmo tamanho que eu! Ficava
expressão, não é? em cada cidade. O Collor tinha baixado aquele possível fazer teatro, então.

1. Associação não governamental para estudo, debate, divulgação e produção de arte e cultura.
MHuD: Você tem uma experiência de matança de animais, tinha medo. A mesma velha. Hoje tem lá o Quilombinho2, e isso
contato com as pessoas que não têm lu- coisa no Espiritismo, com todo mundo jun- para mim é maravilhoso, mas também não foi
gar social, não é? to, cantando Ave Maria de Gounod e dizen- decidido como uma peça de teatro  política.
PB: Meus amigos de infância. Quase todos do que aquela água fluida seria comungada Aconteceu como uma soma de ações, de ati-
se perderam na vida. Parece que estou o tem- por todos. Mas eu não acredito naquela tudes não planejadas.
po todo procurando reencontrá-los. complicação das teorias reencarnatórias. A
Congregação Cristã, os cultos são lindos, os MHuD: O que a realização do filme Ca-
MHuD: Queria te provocar para uma re- depoimentos, a banda tocando e o povo can- fundó representou para você? Existiu al-
flexão sobre o diálogo com a diferença. tando os hinos! Mas eles ficam o tempo todo guma relação com sua participação em
Penso na questão do Oriente e do Oci- tentando catequizar. Aí é chato. A Igreja Cató- A guerra de Canudos?
dente: temos um problema interno no lica tem aberrações também, mas eu usufruí PB: Tem relação com Canudos porque tam-
Brasil, que é a exclusão do Candomblé um trabalho social dela, não posso negar. Fui bém fala de um líder carismático. Mas João
e das religiões afro-brasileiras. Esse é atingido todo o tempo pela fé, pela beleza, de Camargo evitou o confronto, veio depois
também um problema internacional, que pela leitura do Evangelho. de Antônio Conselheiro, numa região diferen-
toca o tema da relação com a diferença. Ter transitado por tantas religiões me dá te, outro contexto.
Bush tinha uma atitude, e agora há outro uma compreensão das diferenças. Por exem- Cafundó foi como uma grande missão
presidente que parece ter uma atitude di- plo, eu gosto de futebol, vou aos estádios, para mim. Parece que eu tinha a obrigação
ferente. Você pode falar algo sobre isso? mas não entendo por que uma torcida tem de fazer o filme, foi uma provação, um rito de
PB: Não foi uma consciência de fora para de gritar contra a outra, expressar ódio pela passagem. Levei quase metade da minha vida
dentro que me fez ver que meus amigos ne- outra. Tentar ver a razão do outro. Preconcei- fazendo. Saiu filme, livro, saiu um grande en-
gros, do bairro onde eu morava, tinham me- to? Todos nós temos. O preconceito racial tendimento de minhas origens. Aprendi todas
nos chances do que eu. Não foi. Eu vi o que está na nossa pele, nas diferenças culturais. as etapas de produção de um filme. Antes, só
aconteceu com eles! Os outros meninos eram Se você não souber filtrar isso, não trabalhar havia trabalhado em filmes como ator.
iguaizinhos a mim, éramos vizinhos, a mes- isso, você vai ser preconceituoso. Temos que É  um projeto que acho que consegui-
ma condição social. Mas eles não tiveram as entender por que aquele cara, ao meio-dia, mos completar. Antropológico, sociológico.
mesmas condições. Eu encontrava com eles às seis da tarde, encosta a cabeça no chão, Pode ser um bom material para estudo em
no bairro, eu brincava com eles na rua, mas e  que aquilo faz sentido para ele, é a fé dele. faculdades. Quem se interessar pelo tema
eu não brincava com eles dentro da escola. Quando aconteceu a guerra do Iraque, me pode ir ao nosso site www.cafundo.com.br
E a maioria se perdeu na bebida. deu uma bronca do papa João Paulo! Ele emi- e baixar o trabalho feito por Florestan Fer-
Quanto à religião, estou impregnado de tiu uma nota contra a guerra! Quer coisa mais nandes quando tinha 22 anos. A primeira
religião. Tenho uma fé geral, mas também anticristã? Mais descompromissada? Mais incursão dele na questão do negro! Está lá,
muitas vezes duvido. Acho que tenho fé é na distanciada?  Ele estava quase morto! Por no item bibliografia:“Contribuição para o
força que a religião tem de reconectar a gente que não pegou um avião e foi para Bagdá? estudo de um líder carismático”.
com uma emoção boa, uma alegria de estar Alguém ia atirar uma bomba sobre o papa? É A pessoa pode pegar o DVD, ver o filme
junto com os outros, de ser igual. preciso ser menos formal, às vezes. e, nos extras, ver a entrevista com o mestre
Tem coisas de que gosto e de que des- dois meses antes de ele morrer. Florestan fala
gosto na religião. Tem muita manipulação, MHuD: Você carregou Sorocaba na sobre o mesmo tema 50 anos depois do seu
muita enganação. sua vida? trabalho seminal.
Quando ia no terreiro de Umbanda, era PB: Carreguei, porque estavam lá minha mãe Fico feliz por ter realizado esse trabalho. 55
bonito ver as pessoas limpas, vestidas de e meu pai. E meu irmão ainda está lá. Não Acho que tem alguma utilidade para o estudo,
Revista Direitos Humanos

branco, tocando tambores e cantando. Mas foi por mérito nenhum. Eu tinha uma culpa além de ser um filme, de ter o objetivo de
eu não gostava de ver as pessoas em transe, tremenda de deixar minha mãe, que era mais contar uma história cheia de poesia e fé.

2. Projeto que funciona na casa onde Paulo Betti foi criado.


entrevista Paulo Betti

MHuD: Hoje em dia você tem um papel pau a pau, por Acorda, Raimundo, que só Martini disse: “Aqueles que, por obras valo-
didático importante, de professor, inclu- passou em igreja ou movimentos de base. rosas, se vão da lei da morte libertando”. É
sive na Casa da Gávea. Essa formação Sempre gostei de estar com os índios e se- Camões, Os lusíadas.
humana, cultural, política lhe dá uma ringueiros no Encontro dos Povos da Flo-
responsabilidade? Você tem consciência resta, com os sem-terra da Fazenda Anone. MHuD: E o que você acha de um grupo
dessa responsabilidade? Eu gosto de estar nesse lugares. Sinto que de artistas à frente dos Humanos Direi-
PB: Acho que tenho. Durante sete anos fui sou parecido, que sou querido ali como em tos? Acha que atrapalha a atuação artís-
professor da Universidade de Campinas. Na minha família. tica deles?
Casa da Gávea, sempre que posso me meto PB: Olha o nome: Humanos Direitos. Como
a dar cursos de teatro também. Acho que te- MHuD: Você fez O canto da terra, não é? isso pode atrapalhar? O artista lida com isso,
nho consciência dessa formação e que devo PB: Fiz O canto da terra, do Paulo Rufino. Fiz com o humano. Não acho que as pessoas
passar isso da melhor maneira e com o maior o papel de um historiador que conta sobre têm obrigação de fazer, mas algumas têm
empenho que eu puder. Foram muito gene- a distribuição de terras no Brasil, desde as necessidade de fazer. Foi uma experiência
rosos comigo, então eu tenho o dever de de- capitanias hereditárias até chegar às grandes incrível quando fui para Rio Maria, no Pará,
volver alguma coisa. Fui muito atingido por propriedades, comparando com os Estados inesquecível! O teatro nasce da necessidade
uma frase do Gandhi, que ficou durante muito Unidos. É um filme bem esclarecedor. de o homem contar para o outro, de tocá-lo. E
tempo exposta na minha casa: “Fôssemos era o que vocês faziam ali, quando colocavam
tudo que somos capazes de ser, estaria re- MHuD: E o que está fazendo agora? a roupa com o sangue dos mortos nas por-
solvida a maioria dos problemas do mundo”. PB: Estou trabalhando como ator na peça tas. Na hora em que eu passo por uma porta
Tinha um diretor de teatro com quem eu Sonhos de uma noite de São João, baseada e esbarro no sangue de alguém que morreu,
trabalhei na adolescência, o Carlos Alberto em Shakespeare. Apresentamos a peça em meu compromisso com aquela história muda.
Soffredini, que sempre falava nos ensaios: praças. Somos 30 atores. Fora isso, começo Quando alguém escraviza um lavrador, esse
“Não se poupe, não se poupe”. Era um man- a ensaiar A Tartaruga de Darwin, de um autor lavrador poderia ser meu avô. Como posso ser
tra. Porque é um escândalo se poupar num espanhol, Juan Mayorga. Vou dirigir e atuar contra o Movimento Sem-Terra? Minha mãe
país como o Brasil. Tem de ir para a luta. É nessa peça, onde vamos comemorar os 40 assinava em cruz! Se tem um movimento que
bacana quando se está em turnê, termina a anos de teatro da Cristina Pereira. Fora isso, representa essa gente, eu tenho de ser a favor.
peça, vai para o restaurante jantar, volta para vou aparecer na televisão com a minissérie
o hotel, no dia seguinte fica na piscina e vai Som e fúria, do Fernando Meirelles, e me O Movimento Humanos Direitos (MHuD),
fazer a peça  à noite. Mas se você está em preparo para dirigir o filme Canção brasileira, que realizou a entrevista com Paulo Betti
Aracaju, Teresina, dá para fazer outras coi- baseado numa opereta de 1933 que fiz no nesta edição, é um coletivo da sociedade
civil que realiza projetos e programas de
sas, fazer reuniões, participar de encontros. teatro. Conta a história das origens da músi-
proteção e defesa dos Direitos Humanos.
Dá para aproveitar, fazer a excursão  render ca popular brasileira. Vamos lançar o CD em Parceiro da revista Direitos Humanos
mais, trocar mais. O desgaste é maior, mas breve, está pronto e está lindo. É uma ho- desde a edição inaugural, o MHuD reúne
eu nunca perdi a voz na hora de fazer a peça menagem ao Luiz Antônio Martinez Correa, militantes com trajetórias profissionais
variadas – atores, produtores, fotógrafos,
por causa disso. Essas coisas todas acabam grande diretor que morreu muito jovem.
professores e outros –, e tem como
devolvendo a energia para a gente. Fico vibrando porque sei que esses tra- propósito fortalecer o espírito de cidadania
Sempre fui dessa teoria, não se pou- balhos vão ser acompanhados pela crian- na sociedade brasileira. O grupo age em
par, botar a mão na massa, e acaba dando çada lá do Quilombinho, na casa onde fui cooperação com outras organizações,
promove e incentiva o debate público
56 um resultado tão maravilhoso... Aquilo que criado em Sorocaba. Vai ser um estímulo
e a reflexão sobre o tema dos direitos
você planta, você acaba colhendo. Sabe para eles também. fundamentais. Suas ações concentram-se
Revista Direitos Humanos

que um dos filmes que fiz com mais reper- Hoje eles fazem peças de teatro, Brecht, em quatro eixos prioritários: a erradicação
cussão foi o Acorda, Raimundo, acorda, que João Cabral de Mello Netto, no quintal onde tanto do trabalho escravo quanto do
trabalho infantil, a demarcação das terras
passou nas comunidades de base? Ideia do eu ajudava minha avó a matar porco. Na inau-
indígenas e dos territórios quilombolas e a
Betinho! Militância pura. Coisa do Ibase. guração, eu tentava entender o porquê de promoção do sócioambientalismo no país.
Sou reconhecido pela novela Tieta e, quase fazer aquilo, de fazer as coisas.  E o   padre
serviços
Cidadania da População LGBT
>> Homenagem: Paulo César Biagi
Nasceu em Anápolis, no estado de Goiás, no dia 5 de maio de
1964. De família humilde, filho de dona Lourdes e “seu” João, que
tinham mais oito filhos.
Desde jovem, sempre foi muito persistente e dinâmico. Co-
meçou sua vida profissional muito cedo e, aos doze anos, teve
seu primeiro trabalho registrado, atividade que dividia com seus
estudos noturnos.
Quando tinha quinze anos, mudou-se para Brasília com seu ir-
mão mais novo, Júlio. Com dezesseis anos começou a se destacar
profissionalmente.
Aos 21 anos de idade, voltou para Anápolis. Foi aprovado em seu primeiro vestibular para licen-
ciatura em Matemática, ao mesmo tempo em que passou num concurso e foi lecionar.
Em 1987, foi cursar Fonoaudiologia na PUC-GO e, em 1989, tomou posse na Caixa Econômica
Federal. O banco transformou sua vida e ele ajudou a transformar o cotidiano da empresa. Com sua
perspicácia e personalidade forte, passou por diversos setores da Caixa, onde foi protagonista de
projetos inovadores.
Sempre se importando com questões sociais, militou no Partido dos Trabalhadores entre 1985 e
1991. Em busca de novos horizontes, em 1992 mudou-se para São Paulo.
Em 2001, Paulo voltou para Brasília, onde trabalhou na matriz da Caixa até novembro de 2007.
Sua inquietude se somou a seu senso de justiça e, então, assumiu o desafio de trabalhar no Pro-
grama Brasil sem Homofobia, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos.
Suas habilidades pessoais e profissionais transformaram a rotina do programa, onde ele se tornou
um grande líder. Com sua atuação, o setor construiu bravamente a primeira Conferência Nacional
GLBT em 2008, e firmou a agenda do programa como nunca havia ocorrido.
Sua trajetória à frente da coordenação do programa foi interrompida em 12 de abril de 2009,
quando foi vítima fatal de acidente de carro na madrugada do domingo de Páscoa.
>>>
>> Publicação:
- Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais,
Travestis e Transexuais – LGBT: Plano Nacional, construído por 18 ministérios do governo federal,
baseado nas propostas aprovadas na Conferência Nacional LGBT, ocorrida em junho de 2008. Esse
plano sistematiza as políticas públicas que já existem e implementa outras diversas ações com o
objetivo de reconhecer a cidadania plena de LGBT e combater a homofobia no Brasil. 57
Revista Direitos Humanos

>> Evento:
13ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo – 14/6/2009 (São Paulo).
serviços

Educação em Direitos Humanos


Considerando que a Educação em Direitos Humanos é o eixo estratégico para a construção de um novo patamar de respeito à
dignidade intrínseca da pessoa humana, as ações desenvolvidas pela CGEDH buscam contribuir para a promoção, proteção e defesa
dos Direitos Humanos.
Entre as principais atividades articuladas para garantir a efetivação dessas diretrizes, estão as seguintes:

>> Agenda: ¤ Cartilha Os Direitos Humanos, ilustrada pelo artista Ziraldo


com utilização do personagem Menino Maluquinho.
¤ intervenção na audiência pública na Comissão de Direi-
tos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal para ¤ Livro Educação em Direitos Humanos: fundamentos teó-
discutir a situação do analfabetismo no Brasil como violação ao rico-metodológicos. Parceria da SEDH com o MEC, coletânea
direito humano à educação. de textos organizada por professores da Universidade Federal da
Paraíba (UFPB).
¤ organização do curso de graduação em História e Direitos
Humanos na América Latina da Unila – Universidade da Integra- ¤ Livro Democracia e Educação em Direitos Humanos
ção Latino-Americana. numa época de insegurança. Coletânea de artigos organizada
por Giuseppe Tosi e Eduardo Bittar como resultado da expo-
¤ realização do seminário Educação em Direitos Humanos: sição no IV Seminário Internacional de DH da UFPB e III En-
um compromisso do Estado, em Recife, com os secretários es- contro Anual da ANDHEP, ocorridos em setembro de 2007 em
taduais de Educação e de Direitos Humanos para apresentar e João Pessoa.
discutir a introdução do tema Direitos Humanos nos currículos
da Educação Básica a partir da experiência da Secretaria Estadu- ¤ Em fase de elaboração a segunda edição do minicódigo
al de Educação de Pernambuco, vencedora do Prêmio Nacional de Direitos Humanos, revista e ampliada. A publicação contém,
de Educação em Direitos Humanos de 2008 (SEDH/MEC/OEI). na íntegra, instrumentos internacionais e nacionais da área de
Direitos Humanos.
¤ colaboração na realização de encontros, conferências,
simpósios e seminários, no intuito de disseminar as cinco di-
retrizes traçadas pelo Plano Nacional de Educação em Direitos >> Audiovisuais:
Humanos, quais sejam a Educação Básica, a Educação Superior,
a Educação Não Formal, a Educação dos Profissionais dos Siste- ¤ DVD Educação em Direitos Humanos – coletânea de seis
mas de Justiça e Segurança e Educação e Mídia. vídeos educativos e uma campanha para TV sobre temas dos
Direitos Humanos, produzido pela SEDH e realizado pela Oficina
de Imagens.
>> Publicações:
58 ¤ DVD Direitos Humanos no Ensino da Psicologia – quatro
¤ Caderno Conselho Escolar e Direitos Humanos, 11° da sé- temas sobre os Direitos Humanos no ensino da Psicologia apre-
Revista Direitos Humanos

rie Programa Nacional de Fortalecimento dos Conselhos Escola- sentados em videoconferência realizada pelo Conselho Federal
res – elaborado em parceria SEDH/MEC, dirigido a conselheiros de Psicologia e pela Associação Brasileira de Ensino da Psicolo-
das escolas de educação básica de todo o país. gia com apoio da SEDH e do MEC.
Plataforma DHESCA
Coleção Cartilhas de Direitos Humanos da Plataforma
Dhesca Brasil
A Plataforma Dhesca Brasil finaliza, neste ano, a coleção com seis car-
tilhas de Direitos Humanos que abordam os seguintes direitos específicos:
Alimentação e Terra Rural, Educação, Meio Ambiente, Moradia e Terra Urbana,
Trabalho e Saúde. Os conteúdos foram elaborados a partir da experiência dos
relatores nacionais em Dhesca, que, ao realizar missões investigativas sobre
violações aos Direitos Humanos, coletaram diversos dados, fatos e consegui-
ram estabelecer uma tipologia das violações no país. A cartilha é voltada para
lideranças comunitárias, agentes públicos e representantes de organizações e
movimentos sociais que se interessam em conhecer a realidade dos direitos
em questão e os mecanismos de exigibilidade deles. Todos os exemplares
estão disponíveis gratuitamente no site www.dhescbrasil.org.br, onde também
estão notícias, opiniões e documentos sobre Dhescas.

59
Revista Direitos Humanos
Registro Civil de Nascimento
Erradicar o sub-registro civil de nascimento é missão da Secretaria
Especial dos Direitos Humanos. Parceria firmada com gestores estaduais
e municipais, outros ministérios, Conselho Nacional de Justiça e socie- REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL
REGISTRO CIVIL DAS PESSOAS NATURAIS

dade civil já produz resultados significativos para que todos os brasilei- CERTIDÃO DE NASCIMENTO
ros e brasileiras tenham acesso ao Registro Civil de Nascimento (RCN), NOME:

MATRÍCULA:

documento fundamental para garantia da cidadania.


99999999999 9999 9 9999 999 9999999 99
DATA DE NASCIMENTO (POR EXTENSO) DIA MÊS ANO

Entre as ações desenvolvidas para acesso ao RCN estão o fortaleci- HORA DE NASCIMENTO MUNICÍPIO DE NASCIMENTO E UNIDADE DA FEDERAÇÃO

MUNICÍPIO DE REGISTRO E UNIDADE DA FEDERAÇÃO LOCAL DE NASCIMENTO SEXO

mento da Declaração de Nascido Vivo (DNV), para reconhecimento oficial FILIAÇÃO


PAI MÃE

da criança no ato de seu nascimento; a execução de 1.600 mutirões até AVÓS


AVÔ PATERNO AVÔ MATERNO

2010, para registrar todas as pessoas existentes; a implantação de 1.000


AVÓ PATERNA AVÓ MATERNA

Unidades Interligadas, vinculando maternidades a cartórios, para que as


GÊMEOS NOME E MATRÍCULA DO(S) GÊMEO(S)

crianças saiam da maternidade registradas e com a Certidão de Nasci- DECLARANTE

mento que agora está padronizada em todo território brasileiro, de acordo DATA DO REGISTRO (POR EXTENSO) NÚMERO DA DNV (DECLARAÇÃO DE NASCIDO VIVO)

OBSERVAÇÕES / AVERBAÇÕES

com Decreto n° 6.828/09.


NOME DO OFÍCIO O conteúdo da certidão é verdadeiro. Dou fé.
Data e Local:

Para mais informações: OFICIAL REGISTRADOR

MUNICÍPIO /UF

Coordenação Registro Civil de Nascimento ENDEREÇO Assinatura do Oficial

www.direitoshumanos.gov.br
registrocivil@sedh.gov.br

Pavel Égüez
O artista que colaborou com suas ilustrações nesta edição da revista Direitos Humanos, Gustavo
Pavel Égüez, trabalha há mais de 25 anos com a consciência de uma necessária aproximação entre
arte e cotidiano. Tornou-se um dos mais ativos muralistas, não apenas pela variedade de temas e pela
produção internacional, mas pela atuação com movimentos sociais, sobretudo em seu país, o Equa-
dor. Nos últimos anos, vem trabalhando no desenvolvimento de uma linguagem artística que identi-
fique e una os novos movimentos sociais num só grito. Realizou a série El Grito de los Excluídos(as).
60
Pavel Égüez trabalhou como adido cultural do Equador em Brasília e é um interlocutor ativo, que
Revista Direitos Humanos

realiza a conscientização política simultanemente à conscientização artística pela produção de uma


iconografia nova para os movimentos sociais.
Convenção sobre os Direitos da Criança
Adotada pela Resolução n.º L. 44 (XLIV) da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 20 de novembro
de 1989 e ratificada pelo Brasil em 24 de setembro de 1990.
Preâmbulo Tendo em mente que, como indicado na ou órgãos legislativos, terão como consideração
Os Estados Membros na presente Convenção Declaração sobre os Direitos da Criança, a criança, primordial os interesses superiores da criança.
Considerando que, em conformidade com os em razão de sua falta de maturidade física e mental, §2. Os Estados Membros se comprometem
princípios proclamados na Carta das Nações necessita proteção e cuidados especiais, incluindo a assegurar à criança a proteção e os cuidados
Unidas, o reconhecimento da dignidade inerente proteção jurídica apropriada antes e depois do necessários ao seu bem-estar, tendo em conta
e dos direitos iguais e inalienáveis de todos os nascimento. os direitos e deveres dos pais, dos tutores ou de
membros da família humana constitui o fundamento Relembrando as disposições da Declaração outras pessoas legalmente responsáveis por ela
da liberdade, da justiça e da paz no mundo. sobre os Princípios Sociais e Jurídicos Relativos e, para este propósito, tomarão todas as medidas
Tendo presente que os povos das Nações Unidas à Proteção e ao Bem-Estar da Criança, com legislativas e administrativas apropriadas.
reafirmaram na Carta, sua fé nos Direitos Humanos especial referência à adoção e à colocação em §3. Os Estados Membros assegurarão que as
fundamentais e na dignidade e no valor da pessoa lares de adoção em âmbito nacional e internacional instituições, serviços e instalações responsáveis
humana e resolveram promover o progresso social (Resolução da Assembleia Geral n.º 41/85, de 3 de pelos cuidados ou proteção das crianças
e a elevação do padrão de vida em maior liberdade. dezembro de 1986), as Regras - Padrão Mínimas conformarse-ão com os padrões estabelecidos
Reconhecendo que as Nações Unidas pro- para a Administração da Justiça Juvenil das Nações pelas autoridades competentes, particularmente
clamaram e acordaram na Declaração Universal dos Unidas (“As Regras de Pequim”) e a Declaração no tocante à segurança e à saúde das crianças,
Direitos Humanos e nos Pactos Internacionais de sobre a Proteção da Mulher e da Criança em ao número e à competência de seu pessoal, e à
Direitos Humanos que toda pessoa humana possui Situações de Emergência e de Conflito Armado. existência de supervisão adequadas.
todos os direitos e liberdades nele enunciados, sem Reconhecendo que em todos os países do Artigo 4º
distinção de qualquer tipo, tais como raça, cor, sexo, mundo há crianças que vivem em condições Os Estados Membros tomarão todas as
língua, religião, opinião política ou outra, de origem excepcionalmente difíceis, que tais crianças medidas apropriadas, administrativas, legislativas
nacional ou social, posição econômica, nascimento necessitam considerações especial. e outras, para a implementação dos direitos
ou outra condição. Levando em devida conta a importância das reconhecidos nesta Convenção. Com relação aos
Recordando que na Declaração Universal dos tradições e dos valores culturais de cada povo para direitos econômicos, sociais e culturais, os Estados
Direitos Humanos as Nações Unidas proclamaram a proteção e o desenvolvimento harmonioso da Membros tomarão tais medidas no alcance máximo
que a infância tem direito a cuidados e assistência criança. de seus recursos disponíveis e, quando necessário,
especiais. Reconhecendo a importância da cooperação no âmbito da cooperação internacional.
Convencidos de que a família, unidade fun- internacional para a melhoria das condições de vida Artigo 5º
damental da sociedade e meio natural para o das crianças em todos os países, em particular nos Os Estados Membros respeitarão as
crescimento e bem-estar de todos os seus membros países em desenvolvimento. responsabilidades, os direitos e os deveres dos
e, em particular das crianças, deve receber a Acordam o seguinte: pais ou, conforme o caso, dos familiares ou
proteção e assistência necessárias para que possa da comunidade, conforme os costumes locais,
assumir plenamente suas responsabilidades na PARTE I dos tutores ou de outras pessoas legalmente
comunidade. Artigo 1º responsáveis pela criança, de orientar e instruir
Reconhecendo que a criança, para o desen- Para os efeitos da presente Convenção, entende- apropriadamente a criança de modo consistente
volvimento pleno e harmonioso de sua personalidade, se por criança todo ser humano menor de 18 anos de com a evolução de sua capacidade, no exercício
deve crescer em um ambiente familiar, em clima de idade, salvo se, em conformidade com a lei aplicável dos direitos reconhecidos na presente Convenção.
felicidade, amor e compreensão. à criança, a maioridade seja alcançada antes. Artigo 6º
Considerando que cabe preparar plenamente a Artigo 2º §1. Os Estados Membros reconhecem que toda
criança para viver uma vida individual na sociedade §1. Os Estados Membros respeitarão os direitos criança tem o direito inerente à vida.
e ser educada no espírito dos ideais proclamados previstos nesta Convenção e os assegurarão a toda §2. Os Estados Membros assegurarão ao
na Carta das Nações Unidas e, em particular, em criança sujeita à sua jurisdição, sem discriminação máximo a sobrevivência e o desenvolvimento da
um espírito de paz, dignidade, tolerância, liberdade, de qualquer tipo, independentemente de raça, criança.
igualdade e solidariedade. cor, sexo, língua, religião, opinião política ou Artigo 7º
Tendo em mente que a necessidade de outra, origem nacional, étnica ou social, posição §1. A criança será registrada imediatamente
proporcionar proteção especial à criança foi econômica, impedimentos físicos, nascimento ou após o seu nascimento e terá, desde o seu
afirmada na Declaração de Genebra sobre os qualquer outra condição da criança, de seus pais ou nascimento, direito a um nome, a uma nacionalidade
Direitos da Criança de 1924 e na Declaração sobre de seus representantes legais. e, na medida do possível, direito de conhecer seus
os Direitos da Criança, adotada pela Assembleia §2. Os Estados Membros tomarão todas pais e ser cuidada por eles. 61
Geral em 20 de novembro de 1959, e reconhecida as medidas apropriadas para assegurar que a §2. Os Estados Membros assegurarão a
na Declaração Universal dos Direitos Humanos, criança seja protegida contra todas as formas de implementação desses direitos, de acordo com
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no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos discriminação ou punição baseadas na condição, suas leis nacionais e suas obrigações sob os
(particularmente nos artigos 23 e 24), no Pacto nas atividades, opiniões ou crenças, de seus pais, instrumentos internacionais pertinentes, em
Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e representantes legais ou familiares. particular se a criança se tornar apátrida.
Culturais (particularmente no artigo 10) e nos Artigo 3º Artigo 8º
estatutos e instrumentos relevantes das agências §1. Todas as medidas relativas às crianças, §1. Os Estados Membros se comprometem
especializadas e organizações internacionais que se tomadas por instituições de bem estar social públicas a respeitar o direito da criança, de preservar sua
dedicam ao bem-estar da criança. ou privadas, tribunais, autoridades administrativas identidade, inclusive a nacionalidade, o nome e
as relações familiares, de acordo com a lei, sem §2”, os Estados Membros respeitarão o direito da ao exercício desses direitos, a não ser as que, em
interferências ilícitas. criança e de seus pais de deixarem qualquer país, conformidade com a lei, forem necessárias em uma
§2. No caso de uma criança se vir ilegalmente incluindo o próprio, e de ingressar no seu próprio sociedade democrática, nos interesses da segurança
privada de algum ou de todos os elementos país. O direito de sair de qualquer país só poderá nacional ou pública, ordem pública (ordre public),
constitutivos de sua identidade, os Estados ser objeto de restrições previstas em lei e que forem da proteção da saúde ou moral públicas, ou da
Membros fornecer-lhe-ão assistência e proteção necessárias para proteger a segurança nacional, proteção dos direitos e liberdades de outrem.
apropriadas, de modo que sua identidade seja a ordem pública (ordre public), a saúde ou moral Artigo 16
prontamente restabelecida. públicas ou os direitos e liberdades de outrem, §1. Nenhuma criança será sujeita a interferência
Artigo 9º e forem consistentes com os demais direitos arbitrária ou ilícita em sua privacidade, família, lar
§1. Os Estados Membros deverão zelar para reconhecidos na presente Convenção. ou correspondência, nem a atentados ilícitos à sua
que a criança não seja separada dos pais contra Artigo 11 honra e reputação.
a vontade dos mesmos, exceto quando, sujeita §1. Os Estados Membros tomarão medidas para §2. A criança tem direito à proteção da lei
à revisão judicial, as autoridades competentes combater a transferência ilícita de crianças para o contra essas interferências ou atentados.
determinarem, em conformidade com a lei e os exterior e a retenção ilícita das mesmas no exterior. Artigo 17
procedimentos legais cabíveis, que tal separação §2. Para esse fim, os Estados Membros Os Estados Membros reconhecem a importante
é necessária ao interesse maior da criança. Tal promoverão a conclusão de acordos bilaterais ou função exercida pelos meios de comunicação de
determinação pode ser necessária em casos multilaterais ou a adesão a acordos já existentes. massa e assegurarão que a criança tenha acesso às
específicos, por exemplo, nos casos em que a Artigo 12 informações e dados de diversas fontes nacionais
criança sofre maus-tratos ou descuido por parte §1. Os Estados Membros assegurarão à criança, e internacionais, especialmente os voltados à
de seus pais ou quando estes vivem separados e que for capaz de formar seus próprios pontos de promoção de seu bem-estar social, espiritual e
uma decisão deve ser tomada a respeito do local da vista, o direito de exprimir suas opiniões livremente moral e saúde física e mental. Para este fim, os
residência da criança. sobre todas as matérias atinentes à criança, levando- Estados Membros:
§2. Caso seja adotado qualquer procedimento se devidamente em conta essa opiniões em função a) Encorajarão os meios de comunicação a
em conformidade com o estipulado no “presente da idade e maturidade da criança. difundir informações e dados de benefício social e
artigo, §1”, todas as partes interessadas terão a §2. Para esse fim, à criança será, em particular, cultural à criança e em conformidade com o espírito
oportunidade de participar e de manifestar suas dada a oportunidade de ser ouvida em qualquer do “artigo 29º”.
opiniões. procedimento judicial ou administrativo que lhe diga b) Promoverão a cooperação internacional
§3. Os Estados Membros respeitarão o direito respeito, diretamente ou através de um representante na produção, intercâmbio e na difusão de tais
da criança que esteja separada de um ou de ambos ou órgão apropriado, em conformidade com as informações e dados de diversas fontes culturais,
os pais de manter regularmente relações pessoais e regras processuais do direito nacional. nacionais e internacionais.
contato direto com ambos, a menos que isso seja Artigo 13 c) Encorajarão a produção e difusão de livros
contrário ao interesse maior da criança. §1. A criança terá o direito à liberdade de para criança.
§4. Quando essa separação ocorrer em virtude expressão; este direito incluirá a liberdade de d) Incentivarão os órgãos de comunicação a ter
de uma medida adotada por um Estado Membro, buscar, receber e transmitir informações e ideias de particularmente em conta as necessidades lingü.
tal como detenção, prisão, exílio, deportação ou todos os tipos, independentemente de fronteiras, de sticas da criança que pertencer a uma minoria ou
morte (inclusive falecimento decorrente de qualquer forma oral, escrita ou impressa, por meio das artes que for indígena.
causa enquanto a pessoa estiver sob a custódia do ou por qualquer outro meio da escolha da criança. e) Promoverão o desenvolvimento de diretrizes
Estado) de um dos pais da criança, ou de ambos, §2. O exercício desse direito poderá sujeitar-se apropriadas à proteção da criança contra informações
ou da própria criança, o Estado Membro, quando a certas restrições, que serão somente as previstas e dados prejudiciais ao seu bem-estar, levando em
solicitado, proporcionará aos pais, à criança ou, em lei e consideradas necessárias: conta as disposições dos “artigos 13 e 18”.
se for o caso, a outro familiar, informações básicas a) Ao respeito dos direitos e da reputação de Artigo 18
a respeito do paradeiro do familiar ou familiares outrem. §1. Os Estados Membros envidarão os maiores
ausentes, a não ser que tal procedimento seja b) À proteção da segurança nacional ou da esforços para assegurar o reconhecimento do
prejudicial ao bem estar da criança. Os Estados ordem pública (ordre public), ou da saúde e moral princípio de que ambos os pais têm responsabilidades
Membro se certificarão, além disso, de que a públicas. comuns na educação e desenvolvimento da criança.
apresentação de tal petição não acarrete, por si só, Artigo 14 Os pais e, quando for o caso, os representantes
consequências adversas para a pessoa ou pessoas §1. Os Estados Membros respeitarão o direito da legais têm a responsabilidade primordial pela
interessadas. criança à liberdade de pensamento, de consciência educação e pelo desenvolvimento da criança. Os
Artigo 10º e de crença. interesses superiores da criança constituirão sua
§1. Em conformidade com a obrigação dos §2. Os Estados Membros respeitarão os preocupação básica.
Estados Membros sob o “artigo 9º, § 1”, os pedidos direitos e deveres dos pais e, quando for o caso, §2. Para o propósito de garantir e promover os
de uma criança ou de seus pais para entrar ou sair de dos representantes legais, de orientar a criança no direitos estabelecidos nesta Convenção, os Estados
um Estados Membros, no propósito de reunificação exercício do seu direito de modo consistente com a Membros prestarão assistência apropriada aos
familiar, serão considerados pelos Estados evolução de sua capacidade. pais e aos representantes legais no exercício das
Membros de modo positivo, humanitário e rápido. §3. A liberdade de professar sua religião sua funções de educar a criança e assegurarão o
Os Estados Membros assegurarão ademais que a ou crenças sujeitar-se-á somente às limitações desenvolvimento de instituições e serviços para o
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apresentação de tal pedido não acarrete quaisquer prescritas em lei e que forem necessárias para cuidado das crianças.
conseqü.ncias adversas para os solicitantes ou para proteger a segurança, a ordem, a moral, a saúde §3. Os Estados Membros tomarão todas as
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seus familiares. públicas, ou os direitos e liberdades fundamentais medidas apropriadas para assegurar que as crianças,
§2. A criança cujos pais residam em de outrem. cujos pais trabalhem, tenham o direito de beneficiar-
diferentes Estados Membros terá o direito de Artigo 15 se de serviços de assistência social e creches a que
manter regularmente, salvo em circunstâncias §1. Os Estados Membros reconhecem os fazem jus.
excepcionais, relações pessoais e contatos diretos direitos da criança à liberdade de associação e à Artigo 19
com ambos os pais. Para este fim e de acordo com liberdade de reunião pacífica. §1. Os Estados Membros tomarão todas as
a obrigação dos Estados Membros sob o “artigo 9º, §2. Nenhuma restrição poderá ser imposta medidas legislativas, administrativas, sociais e
educacionais apropriadas para proteger a criança bilaterais ou multilaterais, e envidem esforços, campos da assistência médica preventiva e do
contra todas as formas de violência física ou mental, nesse contexto, com vistas a assegurar que a tratamento médico, psicológico e funcional das
abuso ou tratamento negligente, maus-tratos ou colocação da criança em outro país seja levada a crianças deficientes, inclusive a divulgação de
exploração, inclusive abuso sexual, enquanto estiver cabo por intermédio das autoridades ou organismos informação a respeito dos métodos de reabilitação
sob a guarda dos pais, do representante legal ou de competentes. e dos serviços de ensino e formação profissional,
qualquer outra pessoa responsável por ela. Artigo 22 bem como o acesso a essa informação, a fim de
§2. Essas medidas de proteção deverão §1. Os Estados Membros adotarão medidas que os Estados Membros possam aprimorar sua
incluir, quando apropriado, procedimentos eficazes pertinentes para assegurar que a criança que capacidade e seus conhecimentos e ampliar sua
para o estabelecimento de programas sociais que tente obter a condição de refugiada, ou que seja experiência nesses campos. Nesse sentido, serão
proporcionem uma assistência adequada à criança considerada como refugiada de acordo com o direito levadas especialmente em conta as necessidades
e às pessoas encarregadas de seu cuidado, assim e os procedimentos internacionais ou internos dos países em desenvolvimento.
como outras formas de prevenção e identificação, aplicáveis, receba, tanto no caso de estar sozinha Artigo 24
notificação, transferência a uma instituição, como acompanhada por seus pais ou por qualquer §1. Os Estados Membros reconhecem o direito
investigação, tratamento e acompanhamento outra pessoa, a proteção e a assistência humanitária da criança de gozar do melhor padrão possível de
posterior de caso de maus-tratos a crianças acima adequadas a fim de que possa usufruir dos direitos saúde e dos serviços destinados ao tratamento das
mencionadas e, quando apropriado, intervenção enunciados na presente Convenção e em outros doenças e à recuperação da saúde. Os Estados
judiciária. instrumentos internacionais de Direitos Humanos ou Membros envidarão esforços no sentido de
Artigo 20 de caráter humanitário nos quais os citados Estados assegurar que nenhuma criança se veja privada de
§1. Toda criança, temporária ou per- sejam partes. seu direito de usufruir d esses serviços sanitários.
manentemente privada de seu ambiente familiar, ou §2. Para tanto, os Estados Membros cooperarão, §2. Os Estados Membros garantirão a plena
cujos interesses exijam que não permaneça nesse da maneira como julgarem apropriada, com todos os aplicação desse direito e, em especial, adotarão as
meio, terá direito à proteção e assistência especiais esforços das Nações Unidas e demais organizações medidas apropriadas com vista a:
do Estado. intergovernamentais competentes, ou organizações a) Reduzir a mortalidade infantil.
§2. Os Estados Membros assegurarão, não governamentais que cooperem com as Nações b) Assegurar a prestação de assistência
de acordo com suas leis nacionais, cuidados Unidas, no sentido de proteger e ajudar a criança médica e cuidados sanitários necessários a todas
alternativos para essas crianças. refugiada, e de localizar seus pais ou membros da as crianças, dando ênfase aos cuidados básicos de
§3. Esses cuidados poderão incluir, inter alia, a família, a fim de obter informações necessárias que saúde.
colocação em lares de adoção, a Kafalah do direito permitam sua reunião com a família. Quando não c) Combater as doenças e a desnutrição,
islâmico, a adoção ou, se necessário, a colocação for possível localizar nenhum dos pais ou membros dentro do contexto dos cuidados básicos de saúde
em instituições adequadas de proteção para as da família, será concedida à criança a mesma mediante, inter alia, a aplicação de tecnologia
crianças. Ao se considerar soluções, prestar-se-á a proteção outorgada a qualquer outra criança privada disponível e o fornecimento de alimentos nutritivos
devida atenção à conveniência de continuidade de permanentemente ou temporariamente de seu e de água potável, tendo em vista os perigos e riscos
educação da criança, bem como à origem étnica, ambiente familiar, seja qual for o motivo, conforme da poluição ambiental.
religiosa, cultural e linguistica da criança. o estabelecido na presente Convenção. d) Assegurar às mães adequada assistência
Artigo 21 Artigo 23 pré-natal e pós-natal.
Os Estados Membros que reconhecem ou §1. Os Estados Membros reconhecem que a e) Assegurar que todos os setores da sociedade
permitem o sistema de adoção atentarão para o fato criança portadora de deficiências físicas ou mentais e em especial os pais e as crianças, conheçam os
de que a consideração primordial seja o interesse deverá desfrutar de uma vida plena e decente em princípios básicos de saúde e nutrição das crianças,
maior da criança. Dessa forma, atentarão para que : condições que garantam sua dignidade, favoreçam as vantagens da amamentação, da higiene e do
a) A adoção da criança seja autorizada sua autonomia e facilitem sua participação ativa na saneamento ambiental e das medidas de prevenção
apenas pelas autoridades competentes, as quais comunidade. de acidentes, e tenham acesso à educação
determinarão, consoante as leis e os procedimentos §2. Os Estados Membros reconhecem o direito pertinente e recebam apoio para aplicação desses
cabíveis e com base em todas as informações da criança deficiente de receber cuidados especiais conhecimentos.
pertinentes e fidedignas, que a adoção é admissível e, de acordo com os recursos disponíveis e sempre f) Desenvolver a assistência médica preventiva,
em vista da situação jurídica da criança com que a criança ou seus responsáveis reúnam as a orientação aos pais e a educação e serviços de
relação a seus pais, parentes e representantes condições requeridas, estimularão e assegurarão planejamento familiar.
legais e que, caso solicitado, as pessoas a prestação de assistência solicitada, que seja §3. Os Estados Membros adotarão todas as
interessadas tenham dado, com conhecimento de adequada ao estado da criança e às circunstâncias medidas eficazes e adequadas para abolir práticas
causa, seu consentimento à adoção, com base no de seus pais ou das pessoas encarregadas de seus tradicionais que sejam prejudiciais à saúde da
assessoramento que possa ser necessário. cuidados. criança.
b) A adoção efetuada em outro país possa §3. Atendendo às necessidades especiais da §4. Os Estados Membros se comprometem a
ser considerada como outro meio de cuidar da criança deficiente, a assistência prestada, conforme promover e incentivar a cooperação internacional
criança, no caso em que a mesma não possa disposto no “presente artigo, §2”, será gratuita com vistas a lograr progressivamente, a plena
ser colocada em lar de adoção ou entregue a sempre que possível, levando-se em consideração efetivação do direito reconhecido no presente
uma família adotiva ou não logre atendimento a situação econômica dos pais ou das pessoas que artigo. Nesse sentido, será dada atenção especial às
adequado em seu país de origem. cuidem da criança, e visará a assegurar à criança necessidades dos países em desenvolvimento.
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c) A criança adotada em outro país goze de deficiente o acesso à educação, à capacitação, aos Artigo 25
salvaguardas e normas equivalentes às existentes serviços de saúde, aos serviços de reabilitação, Os Estados Membros reconhecem o direito
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em seu país de origem com relação a adoção. à preparação para emprego e às oportunidades de uma criança que tenha sido internada em um
d) Todas as medidas apropriadas sejam de lazer, de maneira que a criança atinja a mais estabelecimento pelas autoridades competentes
adotadas, a fim de garantir que, em caso de adoção completa integração social possível e o maior para fins de atendimento, proteção ou tratamento
em outro país, a colocação não permita benefícios desenvolvimento cultural e espiritual. de saúde física ou mental, a um exame periódico
financeiros aos que dela participem. §4. Os Estados Membros promoverão, de avaliação do tratamento ao qual está sendo
e) Quando necessário, promovam os objetivos com espírito de cooperação internacional, um submetido e de todos os demais aspectos relativos
do presente artigo mediante ajustes ou acordos intercâmbio adequado de informações nos à sua internação.
Artigo 26 §2. Os Estados Membros adotarão todas as Artigo 32
§1. Os Estados Membros reconhecerão a todas medidas necessárias para assegurar que a disciplina §1. Os Estados Membros reconhecem o direito
as crianças o direito de usufruir da previdência social, escolar seja ministrada de maneira compatível com da criança de estar protegida contra a exploração
inclusive do seguro social, e adotarão as medidas a dignidade humana da criança e em conformidade econômica e contra o desempenho de qualquer
necessárias para lograr a plena consecução desse com a presente Convenção. trabalho que possa ser perigoso ou interferir em
direito, em conformidade com a legislação nacional. §3. Os Estados Membros promoverão e sua educação, ou seja nocivo para saúde ou para
§2. Os benefícios deverão ser concedidos, estimularão a cooperação internacional em seu desenvolvimento físico, mental, espiritual,
quando pertinentes, levando-se em consideração questões relativas à educação, especialmente moral ou social.
os recursos e a situação da criança e das pessoas visando a contribuir para eliminação da ignorância §2. Os Estados Membros adotarão medidas
responsáveis pelo seu sustento, bem como e do analfabetismo no mundo e facilitar o acesso legislativas, administrativas, sociais e educacionais
qualquer outra consideração cabível no caso de aos conhecimentos científicos e técnicos e aos com vistas a assegurar a aplicação do “presente
uma solicitação de benefícios feita pela criança ou métodos modernos de ensino. A esse respeito, será artigo”. Com tal propósito, e levando em
em seu nome. dada atenção especial às necessidades dos países consideração as disposições pertinentes de outros
Artigo 27 em desenvolvimento. instrumentos internacionais, os Estados Membros
§1. Os Estados Membros reconhecem o Artigo 29 deverão em particular:
direito de toda criança a um nível de vida adequado §1. Os Estados Membros reconhecem que a) Estabelecer uma idade ou idades mínimas
ao seu desenvolvimento físico, mental, espiritual, a educação da criança deverá estar orientada no para a admissão em empregos.
moral e social. sentido de: b) Estabelecer regulamentação apropriada
§2. Cabe aos pais, ou a outras pessoas a) Desenvolver a personalidade, as aptidões e a relativa a horários e condições de emprego.
encarregadas, a responsabilidade primordial de capacidade mental e física da criança e todo o seu c) Estabelecer penalidades ou outras sanções
proporcionar, de acordo com suas possibilidades e potencial. apropriadas a fim de assegurar o cumprimento
meios financeiros, as condições de vida necessárias b) Imbuir na criança o respeito aos Direitos efetivo do presente artigo.
ao desenvolvimento da criança. Humanos e às liberdades fundamentais, bem como Artigo 33
§3. Os Estados Membros, de acordo com as aos princípios consagrados na Carta das Nações Os Estados Membros adotarão todas as
condições nacionais e dentro de suas possibilidades, Unidas. medidas apropriadas inclusive medidas legislativas,
adotarão medidas apropriadas a fim de ajudar os c) Imbuir na criança o respeito aos seus pais, administrativas, sociais e educacionais para proteger
pais e outras pessoas responsáveis pela criança à sua própria identidade cultural, ao seu idioma e a criança contra o uso ilícito de drogas e substâncias
a tornar o efetivo esse direito e, caso necessário, seus valores, aos valores nacionais do país em que psicotrópicas descritas nos tratados internacionais
proporcionarão assistência material e programas de reside, aos do eventual país de origem e aos das pertinentes e para impedir que crianças sejam
apoio, especialmente no que diz respeito à nutrição, civilizações diferentes da sua. utilizadas na produção e no tráfico ilícito dessas
ao vestuário e à habitação. d) Preparar a criança para assumir uma vida substâncias.
§4. Os Estados Membros tomarão todas as responsável em uma sociedade livre, com espírito Artigo 34
medidas adequadas para assegurar o pagamento de compressão, paz, tolerância, igualdade de sexos Os Estados Membros se comprometem a
da pensão alimentícia por parte dos pais ou de e amizade entre todos os povos, grupos étnicos, proteger a criança contra todas as formas de
outras pessoas financeiramente responsáveis pela nacionais e religiosos e pessoas de origem indígena. exploração e abuso sexual. Nesse sentido, os
criança, quer residam no Estados Membros quer no e) Imbuir na criança o respeito ao meio Estados Membros tomarão, em especial, todas as
exterior. Nesse sentido, quando a pessoa que detém ambiente. medidas de caráter nacional, bilateral e multilateral
a responsabilidade financeira pela criança residir em §2. Nada do disposto no “presente artigo ou no que sejam necessárias para impedir:
Estado diferente daquele onde mora a criança, os artigo 28” será interpretado de modo a restringir a a) O incentivo ou coação para que uma criança
Estados Membros promoverão a adesão a acordos liberdade dos indivíduos ou das entidades de criar se dedique a qualquer atividade sexual ilegal.
internacionais ou a conclusão de tais acordos, bem e dirigir instituições de ensino, desde que sejam b) A exploração da criança na prostituição ou
como a adoção de outras medidas apropriadas. respeitados os princípios enunciados no “presente outras práticas sexuais ilegais.
Artigo 28 artigo, §1”, e que a educação ministrada em tais c) Exploração da criança em espetáculos ou
§1.Os Estados Membros reconhecem o direito instituições esteja de acordo com os padrões materiais pornográficos.
da criança à educação e, a fim de que ela possa mínimos estabelecidos pelo Estado. Artigo 35
exercer progressivamente e em igualdade de Artigo 30 Os Estados Membros tomarão todas as
condições esse direito, deverão especialmente: Nos Estados Membros onde existam minorias medidas de caráter nacional, bilateral ou multilateral
a) Tornar o ensino primário obrigatório e étnicas, religiosas ou lingüísticas, ou pessoas de que sejam necessárias para impedir o sequestro, a
disponível gratuitamente a todos. origem indígena, não será negado a uma criança venda ou o tráfico de crianças para qualquer fim ou
b) Estimular o desenvolvimento do ensino que pertença a tais minorias ou que seja indígena sob qualquer forma.
secundário em suas diferentes formas, inclusive o direito de, em comunidade com os demais Artigo 36
o ensino geral e profissionalizante, tornando-o membros de seu grupo, ter sua própria cultura, Os Estados Membros protegerão a criança
disponível e acessível a todas as crianças, e adotar professar e praticar sua própria religião ou utilizar contra todas as demais formas de exploração
medidas apropriadas tais como a implantação seu próprio idioma. que sejam prejudiciais a qualquer aspecto de
do ensino gratuito e a concessão de assistência Artigo 31 seu bem-estar.
financeira em caso de necessidade. §1. Os Estados Membros reconhecem o direito Artigo 37
64 c) Tornar o ensino superior acessível a todos, da criança ao descanso e ao lazer, ao divertimento Os Estados Membros assegurarão que:
com base na capacidade e por todos os meios e às atividades recreativas próprias da idade, bem a) Nenhuma criança seja submetida a tortura
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adequados. como à livre participação na vida cultural e artística. nem a outros tratamentos ou penas cruéis,
d) Tornar a informação e a orientação edu- §2. Os Estados Membros respeitarão e desumanos ou degradantes. Não será imposta
cacionais e profissionais disponíveis e acessíveis a promoverão o direito da criança de participar a pena de morte, nem a prisão perpétua, sem
todas as crianças. plenamente da vida cultural e artística e encorajarão possibilidade de livramento, por delitos cometidos
e) Adotar medidas para estimular a frequência a criação de oportunidades adequadas, em por menores de dezoito anos de idade.
regular às escolas e a redução do índice de evasão condições de igualdade, para que participem da b) Nenhuma criança seja privada de sua
escolar. vida cultural, artística, recreativa e de lazer. liberdade de forma ilegal ou arbitrária. A detenção, a
reclusão ou a prisão de uma criança, será efetuada §2. Nesse sentido, e de acordo com as que as crianças sejam tratadas de modo apropriado
em conformidade com a lei e apenas como último disposições pertinentes dos instrumentos inter- ao seu bem-estar e de forma proporcional às
recurso, e durante o mais breve período de tempo nacionais, os Estados assegurarão, em particular: circunstâncias do delito.
que for apropriado. a) Que não se alegue que nenhuma criança Artigo 41
c) Toda criança privada da liberdade seja tenha infringido as leis penais, nem se acuse ou Nada do estipulado na presente Convenção
tratada com humildade e o respeito que merece a declare culpada nenhuma criança de ter infringido afetará as disposições que sejam mais convenientes
dignidade inerente à pessoa humana, e levando-se essas leis, por atos ou omissões que não eram para a realização dos direitos da criança e que
em consideração as necessidades de uma pessoa proibidos pela legislação nacional ou pelo direito podem constar:
de sua idade. Em especial, toda criança privada de internacional no momento em que foram cometidos. a) Das leis de um Estados Membros.
sua liberdade ficará separada de adultos, a não ser b) Que toda criança de quem se alegue ter b) Das normas de Direito Internacional vigente
que tal fato seja considerado contrário aos melhores infringido as leis penais ou a quem se acuse de para esse Estado.
interesses da criança, e terá direito a manter contato ter infringido essas leis goze, pelo menos, das
com sua família por meio de correspondência ou de seguintes garantias: PARTE II
visitas, salvo em circunstâncias excepcionais. I) Ser considerada inocente, enquanto não for Artigo 42
d) Toda criança privada sua liberdade tenha comprovada sua culpa, conforme a lei. Os Estados Membros se comprometem a dar
direito a rápido acesso a assistência jurídica e a II) Ser informada sem demora e diretamente ou, aos adultos e às crianças amplo conhecimento dos
qualquer outra assistência adequada, bem como quando for o caso, por intermédio de seus pais ou princípios e disposições da Convenção, mediante a
direito a impugnar a legalidade da privação de sua de seus representantes legais, das acusações que utilização de meios apropriados e eficazes.
liberdade perante um tribunal ou outra autoridade pesam contra ela, e dispor de assistência jurídica Artigo 43
competente, independente e imparcial e a uma ou outro tipo de assistência apropriada para a §1. A fim de examinar os progressos realizados
rápida decisão a respeito de tal ação. preparação de sua defesa. no cumprimento das obrigações contraídas pelos
Artigo 38 III) Ter a causa decidida sem demora Estados Membros na presente Convenção, deverá
§1. Os Estados Membros se comprometem por autoridade ou órgão judicial competente, ser constituído um Comitê para os Direitos da
a respeitar e a fazer com que sejam respeitadas independente e imparcial, em audiência justa Criança, que desempenhará as funções a seguir
as normas do Direito Internacional Humanitário conforme a lei, com assistência jurídica ou outra determinadas.
aplicáveis em casos de conflitos armado, no que assistência e, a não ser que seja considerado §2. O Comitê estará integrado por dez
digam respeito às crianças. contrário aos melhores interesses da criança, especialistas de reconhecida integridade moral
§2. Os Estados Membros adotarão todas as levando em consideração especialmente sua idade e competência nas áreas cobertas pela presente
medidas possíveis, a fim de assegurar que todas e a de seus pais ou representantes legais. Convenção. Os membros do Comitê serão eleitos
as pessoas que ainda não tenham completado IV) Não ser obrigada a testemunhar ou se pelos Estados Membros dentre seus nacionais e
quinze anos de idade não participem diretamente de declarar culpada, e poder interrogar ou fazer exercerão suas funções a título pessoal, tomando-se
hostilidades. com que sejam interrogadas as testemunhas de em devida conta a distribuição geográfica eqüitativa,
§3. Os Estados Membros abster-se-ão de acusações, bem como poder obter a participação e bem como os principais sistemas jurídicos.
recrutar pessoas que não tenham completado quinze o interrogatório de testemunhas em sua defesa, em §3. Os membros do Comitê serão escolhidos,
anos de idade para servir em suas Forças Armadas. igualdade e condições. em votação secreta, de uma lista de pessoas
Caso recrutem pessoas que tenham completado V) Se for decidido que infringiu as leis penais, indicadas pelos Estados Membros. Cada Estado
quinze anos mas que tenham menos de dezoito anos, ter essa decisão e qualquer medida imposta em Membro poderá indicar uma pessoa dentre os
deverão procurar dar prioridade aos de mais idade. decorrência da mesma submetidas a revisão cidadãos de seu país.
§4. Em conformidade com suas obrigações, de por autoridade ou órgão judicial competente, §4. A eleição inicial para o Comitê será
acordo com o Direito Internacional Humanitário para independente e imparcial, de acordo com a lei. realizada, no mais tardar, seis meses após a entrada
proteção da população civil durante os conflitos VI) Contar com a assistência gratuita de um em vigor da presente Convenção e, posteriormente,
armados, os Estados Membros adotarão todas as intérprete, caso a criança não compreenda ou fale a cada dois anos. No mínimo quatro meses antes
medidas necessárias a fim de assegurar a proteção e o o idioma utilizado. da data marcada para cada eleição, o Secretário
cuidado das crianças afetadas por um conflito armado. VII) Ter plenamente respeitada sua vida privada Geral das Nações Unidas enviará uma carta aos
Artigo 39 durante todas as fases do processo. Estados Membros, convidando-os a apresentar
Os Estados Membros adotarão todas as §3. Os Estados Membros buscarão promover o suas candidaturas em um prazo de dois meses. O
medidas apropriadas para estimular a recuperação estabelecimento de leis, procedimentos, autoridades Secretário Geral elaborará posteriormente uma lista
física e psicológica e a reintegração social de toda e instituições específicas para as crianças de quem da qual farão parte, em ordem alfabética, todos os
criança vítima de: qualquer forma de abandono, se alegue ter infringido as leis penais ou que candidatos indicados e os Estados Membros que
exploração ou abuso; tortura ou outros tratamentos sejam acusadas ou declaradas culpadas de tê-las os designaram e submeterá a mesma aos Estados
ou penas cruéis, desumanos ou degradantes; ou infringido, e em particular : Membros na Convenção.
conflitos armados. Essa recuperação e reintegração a) O estabelecimento de uma idade mínima §5. As eleições serão realizadas em reuniões dos
serão efetuadas em ambiente que estimule a saúde, antes da qual se presumirá que a criança não tem Estados Membros convocadas pelo Secretário Geral
o respeito próprio e a dignidade da criança. capacidade para infringir as leis penais. na sede das Nações Unidas. Nessas reuniões, para
Artigo 40 b) A adoção, sempre que conveniente e as quais o quorum será de dois terços dos Estados
§1. Os Estados Membros reconhecem o direito desejável, de medidas para tratar dessas crianças Membros, os candidatos eleitos para o Comitê serão
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de toda criança, de quem se alegue ter infringido as sem recorrer a procedimentos judiciais, contanto aqueles que obtiverem o maior número de votos e
leis penais ou a quem se acuse ou declare culpada de que sejam respeitados plenamente os Direitos a maioria absoluta de votos dos representantes dos
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ter infringido as leis penais, de ser tratada de modo Humanos e as garantias legais. Estados Membros presentes e votantes.
a promover e estimular seu sentido de dignidade e §4. Diversas medidas, tais como ordens de §6. Os membros do Comitê serão eleitos
de valor, e a fortalecer o respeito da criança pelos guarda, orientação e supervisão, aconselhamento, para um mandato de quatro anos. Poderão ser
Direitos Humanos e pelas liberdades fundamentais de liberdade vigiada, colocação em lares de adoção, reeleitos caso sejam apresentadas novamente
terceiros, levando em consideração a idade da criança programas de educação e formação profissional, suas candidaturas. O mandato de cinco anos dos
e a importância de se estimular sua reintegração bem como outras alternativas à internação em membros eleitos na primeira eleição expirará ao
e seu desempenho construtivo na sociedade. instituições, deverão estar disponíveis para garantir término de dois anos; imediatamente após ter sido
realizada a primeira eleição, o Presidente da reunião, §6. Os Estados Membros tornarão seus §2. Para cada Estado que venha a ratificar a
na qual a mesma se efetuou, escolherá por sorteio relatórios amplamente disponíveis ao público em Convenção ou a aderir a ela após ter sido depositado
os nomes desses cinco membros. seus respectivos países. o vigésimo instrumento de ratificação ou de adesão,
§7. Caso um membro do Comitê venha a Artigo 45 a Convenção entrará em vigor no trigésimo dia após
falecer ou renuncie ou declare que por qualquer A fim de incentivar a efetiva implementação da o depósito, por parte do Estado, do instrumento de
outro motivo não poderá continuar desempenhando Convenção e estimular a cooperação internacional ratificação ou de adesão.
suas funções, o Estados Membros que indicou esse nas esferas regulamentadas pela Convenção: Artigo 50
membro designará outro especialista, dentre seus a) Os organismos especializados, o Fundo das §1. Qualquer Estado Membro poderá propor uma
cidadãos, para que exerça o mandato até o seu Nações Unidas para a Infância e outros órgãos das emenda e registrá-la com o Secretário Geral das Nações
término, sujeito à aprovação do Comitê. Nações Unidas terão o direito de estar representados Unidas. O Secretário Geral comunicará a emenda
§8. O Comitê estabelecerá suas próprias regras quando for analisada a implementação das disposições proposta aos Estados Membros, com a solicitação de
de procedimento. da presente Convenção em matérias correspondentes que estes o notifiquem caso apóiem a convocação de
§9. O Comitê elegerá a Mesa para um período a seus respectivos mandatos. O Comitê poderá uma Conferência de Estados Membros com o propósito
de dois anos. convidar as agências especializadas, o Fundo das de analisar as propostas e submetê-las à votação. Se,
§10. As reuniões do Comitê serão celebradas Nações Unidas para a Infância e outros órgãos em um prazo de quatro meses a partir da data dessa
normalmente na sede das Nações Unidas ou em competentes que considere apropriados a fornecerem notificação, pelo menos um terço dos Estados Membros
qualquer outro lugar que o Comitê julgar conveniente. assessoramento especializado sobre a implementação se declarar favorável a tal Conferência, o Secretário Geral
O Comitê se reunirá normalmente todos os anos. A da Convenção em matérias correspondentes a seus convocará a Conferência, sob os auspícios das Nações
duração das reuniões do Comitê será determinada respectivos mandatos. O Comitê poderá convidar as Unidas. Qualquer emenda adotada pela maioria de
e revista, se for o caso, em uma reunião dos agências especializadas, o Fundo das Nações Unidas Estados Membros presentes e votantes na Conferência
Estados Membros na presente Convenção, sujeita à para a Infância e outros órgãos das Nações Unidas a será submetida pelo Secretário Geral à Assembleia Geral
aprovação da Assembleia Geral. apresentarem relatórios sobre a implementação das para sua aprovação.
§11. O Secretário Geral das Nações Unidas disposições da presente Convenção compreendidas §2. Uma emenda adotada em conformidade
fornecerá o pessoal e os serviços necessários para no âmbito de suas atividades. com o “presente artigo, §1” entrará em vigor quando
o desempenho eficaz das funções do Comitê, de b) Conforme julgar conveniente, o Comitê aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas
acordo com a presente Convenção. transmitirá às agências especializadas, ao Fundo e aceita por uma maioria de dois terços de Estados
§12. Com a prévia aprovação da Assembleia das Nações Unidas para a Infância e a outros Membros.
Geral, os membros do Comitê, estabelecidos de órgãos competentes quaisquer relatórios dos §3. Quando uma emenda entrar em vigor,
acordo com a presente Convenção, receberão Estados Membros que contenham um pedido de ela será obrigatória para os Estados Membros
remuneração proveniente dos recursos das assessoramento ou de assistência técnica, ou nos que a tenham aceito, enquanto os demais
Nações Unidas, segundo os termos e condições quais se indique essa necessidade juntamente Estados Membros permanecerão obrigados pelas
determinados pela Assembleia. com as observações e sugestões do Comitê, se as disposições da presente Convenção e pelas
Artigo 44 houver, sobre esses pedidos ou indicações. emendas anteriormente aceitas por eles.
§1. Os Estados Membros se comprometem a c) O Comitê poderá recomendar à Assembleia Artigo 51
apresentar ao Comitê, por intermédio do Secretário Geral que solicite ao Secretário Geral que efetue, §1. O Secretário Geral das Nações Unidas
Geral das Nações Unidas, relatórios sobre as em seu nome, estudos sobre questões concretas receberá e comunicará a todos os Estados Membros
medidas que tenham adotado, com vistas a tornar relativas aos direitos da criança. o texto das reservas feitas pelos Estados no momento
efetivos os direitos reconhecidos na Convenção e d) O Comitê poderá formular sugestões e da ratificação ou da adesão.
sobre os progressos alcançados no desempenho recomendações gerais com base nas informações §2. Não será permitida nenhuma reserva
desses direitos: recebidas nos termos dos “artigos 44º e 45º” incompatível com o objeto e o propósito da presente
a) Dentro de um prazo de dois anos a partir da presente Convenção. Essas sugestões e Convenção.
da data em que entrou em vigor para cada Estado recomendações gerais deverão ser transmitidas aos §3. Quaisquer reservas poderão ser retiradas
Membro a presente Convenção. Estados Membros e encaminhadas à Assembleia a qualquer momento, mediante uma notificação
b) A partir de então, a cada cinco anos. Geral, juntamente com os comentários eventualmente nesse sentido, dirigida ao Secretário Geral das
§2. Os relatórios preparados em função do apresentados pelos Estados Membros. Nações Unidas, que informará a todos os Estados.
presente artigo deverão indicar as circunstâncias Essa notificação entrará em vigor a partir da data de
e as dificuldades, caso existam, que afetam o PARTE III recebimento da mesma pelo Secretário Geral.
grau de cumprimento das obrigações derivadas Artigo 46 Artigo 52
da presente Convenção. Deverão também conter A presente Convenção está aberta à assinatura Um Estado Membro poderá denunciar a
informações suficientes para que o Comitê de todos os Estados. presente Convenção mediante notificação feita por
compreenda, com exatidão, a implementação da Artigo 47 escrito ao Secretário Geral das Nações Unidas.
Convenção no país em questão. A presente Convenção está sujeita à ratificação. A denúncia entrará em vigor um ano após a data
§3. Um Estado Membro que tenha apresentado Os instrumentos de ratificação serão depositados em que a notificação tenha sido recebida pelo
um relatório inicial ao Comitê não precisará repetir, junto ao Secretário Geral das Nações Unidas. Secretário Geral.
nos relatórios posteriores a serem apresentados Artigo 48 Artigo 53
conforme o estipulado no “presente artigo, A presente Convenção permanecerá aberta Designa-se para depositário da presente
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§1, alínea b”, a informação básica fornecida à adesão de qualquer Estado. Os instrumentos de Convenção o Secretário Geral das Nações Unidas.
anteriormente. adesão serão depositados junto ao Secretário Geral Artigo 54
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§4. O Comitê poderá solicitar aos Estados das Nações Unidas. O original da presente Convenção, cujos textos
Membros maiores informações sobre a imple- Artigo 49 seguem em árabe, chinês, espanhol, francês e russo
mentação da Convenção. §1. A presente Convenção entrará em vigor são igualmente autênticos, será depositado em
§5. A cada dois anos, o Comitê submeterá no trigésimo dia após a data em que tenha sido poder do Secretário Geral das Nações Unidas.
relatórios sobre suas atividades à Assembleia Geral depositado o vigésimo instrumento de ratificação Em fé do que, os abaixo assinados, devidamente
das Nações Unidas, por intermédio do Conselho ou de adesão junto ao Secretário Geral das autorizados por seus respectivos Governos,
Econômico e Social. Nações Unidas. assinaram a presente Convenção.
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