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NO CAPITALISMO SUI GENERIS, UMA PRÁTICA PUNITIVA SUI GENERIS: A

VIOLÊNCIA DO CÁRCERE NA AMÉRICA LATINA E O CAPITALISMO


DEPENDENTE
Priscilla Batista da Silva1
Palavras-chave: economia política da pena; cárcere; América Latina; capitalismo
dependente
Eixo V: Controle social e criminologia crítica

O eixo teórico fundamental deste trabalho encontra-se na clássica obra da


Economia Política da Pena “Punição e estrutura social”, de Georg Rusche e Otto
Kirchheimer, e está baseada na premissa de que “todo sistema de produção tende a
descobrir formas produtivas que correspondem às suas relações de produção” 2. A dita
obra situa, conforme indica o prefácio à edição brasileira, o “processo de ideologização
subjacente à problemática da punição” e, como não poderia deixar de ser, foca esse
processo no sistema capitalista e em suas necessidades econômicas básicas.
A teoria que parte da punição como forma de gestão da força de trabalho utiliza-
se de uma análise histórica e materialista para indicar que “os diferentes sistemas penais
e suas variações estão intimamente relacionados às fases do desenvolvimento
econômico”3. Para comprovar tal hipótese, Rusche e Kirchheimer passam pela Idade
Média, pelo momento de surgimento do capitalismo, pelo mercantilismo, pela revolução
industrial e, como não poderia deixar de ser, as formas penais típicas de cada um desses
contextos.
Nessa toada, o cárcere figurou como a principal forma de punição no mundo
ocidental quando da Revolução Industrial, chegando, inclusive, à superpopulação nas
principais prisões europeias. Trata-se, como buscam evidenciar os autores, de forma
especificamente burguesa de punição. Também a questão da oferta da força de trabalho
está no centro da tese apresentada, superando a ideia de a taxa de encarceramento
variaria de acordo com a taxa de crimes ou violência, como destaca o brasileiro Marco
Alexandre de Souza Serra4.

1
Graduanda em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina e bolsista do PET Direito UFSC.
2
RUSCHE, Georg; KIRCHHEIMER, Otto. Punição e Estrutura Social. Rio de Janeiro. 2004. p.
20.
3
Ibidem, p. 23.
4
SERRA, M. A. S.. Economia política da pena. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2009. v. 1.
p. 66
Já “Cárcere e Fábrica”, de Dario Melossi e Massimo Pavarini busca entender o
porquê de o cárcere cumprir em todas as sociedades industrialmente desenvolvidas a
função punitva e “define a relação capital-trabalho assalariado como a clave para
compreender a instituição carcerária, elegendo a formação do proletariado como objeto
do interesse científico da pesquisa”, conforme indicado no prefácio à edição Brasileira.
Desenvolvem, a partir daí, o estudo sobre a gênese da instituição carcerária moderna na
Europa, com foco na Inglaterra e na Itália, e, posteriormente, a experiência dos Estados
Unidos na questão penitenciária na primeira metade do século XIX. Analisa, então, as
mudanças que “dizem respeito a elementos fundamentais da nossa situação atual: a
composição do capital, a organização do trabalho, o surgimento de um movimento
operário organizado, a composição das classes, o papel do Estado, a relação global
Estado-sociedade civil”5.
Assim como em “Punição e estrutura social”, parte-se, aqui, de uma perspectiva
marxista, chegando os próprios autores a indicarem que estabelecem “uma conexão
entre o surgimento do modo de produção capitalista e a origem da instituição carcerária
moderna6”.
No que diz respeito à produção de Loic Wacquant , destaca-se “Punir os pobres:
a nova gestão da miséria nos Estados Unidos”, que busca tratar da relação das prisões
com o chamado neoliberalismo. Numa abordagem bastante abrangente, trata da
criminalização da pobreza, da disciplina dos pobres dada pela reforma da assistência
social e da superpopulação carcerária para refletir a interdependência entre o sistema
carcerário norte-americano e a forma com a qual o governo administra a pobreza.
Em outro texto, chamado “Forjando o estado neoliberal: trabalho social, regime
prisional e insegurança social”, Wacquant evidencia que “Punir os pobres” “analisa os
Estados Unidos após o auge do movimento pró-direitos civis enquanto marco histórico
da contenção punitiva como técnica para a adminsitração da marginalidade e laboratório
vivo do futuro neoliberal em que a renovação convergente dos braços social e penal do
estado podem ser delineados com particular clareza7”.

5
MELOSSI, Dario; PAVARINI, Massimo. Cárcere e fábrica: as origens do sistema penitenciário
(séculos XVI-XIX). Rio de Janeiro: Revan: ICC, 2006. P. 25
6
Ibidem p. 20.
7
WACQUANT, Loic. Forjando o estado neoliberal: trabalho social, regime prisional e
insegurança social. in: Loic Wacquant e a questão penal no capitalismo neoliberal. Org. Vera
Malaguti Batista. Rio de JANEIRO: Revan, 2012. P. 13
Na breve análise dessas três obras, de naturezas distintas, porém fundamentais
para a construção da Economia Política da Pena, observa-se a centralidade do modelo
de produção para a compreensão do desenvolvimento de diversas formas punitivas em
diversos lugares. Há, porém, um ponto de concordância: avaliam esta gênese no
contexto do capitalismo central, pressuposto como pano do fundo teórico e material do
objeto de estudo dos ditos autores.
Há, por outro lado, a América Latina: dependente e subordinada no contexto do
capitalismo mundial que, estabelecendo relações peculiares, desenvolve, conforme
indica Marini, não um “pré-capitalismo”, mas um “capitalismo sui generis”. Ou seja, há
características tão próprias no modo como aqui opera o sistema produtivo que não pode
ser considerado apenas como uma forma “menos desenvolvida” do capitalismo central.
No sistema penal Latino Americano também são flagrantes –muito além do que
nos dos países centrais- as violações sistemáticas de Direitos Humanos e, até mesmo, o
genocídio, conforme pode-se verificar na obra de autores como Zaffaroni e Vera
Malaguti Batista. A crítica criminológica não foi recepcionada pelos operadores do
sistema –como também não o foi no centro capitalista- e segue em plena vigência a
ideologia da segurança pública que elegeu um inimigo comum: o “bandido”,
personificado nos jovens negros pobres e moradores das periferias.
Sendo assim, há um grande contingente de violência material e simbólica que
precisa, de fato, ser teoricamente compreendido em suas especificidades. Conforme nos
aponta Rosa del Olmo em “América Latina e sua criminologia”, o conhecimento
criminológico construído no centro capitalista sempre determinou, mais do que apenas
influenciou, a criminologia na América Latina a partir de interesses dos países
hegemônicos e é com isso que objetiva-se romper. Parte-se, aqui, do pressuposto de que
entender a realidade específica do cárcere de nossa região passa necessariamente pela
compreensão do capitalismo específico que aqui opera.

Este trabalho tem por objetivo o entendimento da relação entre o


aprofundamento da superexploração do trabalho pelo sistema produtivo e a
intensificação da violência pelo sistema punitivo, em especial pelo cárcere.
REFERÊNCIAS

CONTENTO DE OLIVEIRA, Giuliano; VASQUEZ, Daniel Arias. Florestan


Fernandes e o capitalismo dependente: elementos para a interpretação do Brasil.
OIKOS | Rio de Janeiro | Volume 9, nº 1•2010.
DEL OLMO, Rosa. A América Latina e sua criminologia. Rio de Janeiro: Revan ICC.
2004.
MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência\ uma antologia da obra de Ruy
Mauro Marini; organização e apresentação Emir Sader. Petrópolis-RJ: Vozes; Buenos
Aires: CLACSO, 2000.
MELOSSI, Dario; PAVARINI, Massimo. Cárcere e fábrica: as origens do sistema
penitenciário (séculos XVI-XIX). Rio de Janeiro: Revan: ICC, 2006.
RUSCHE, Georg; KIRCHHEIMER, Otto. Punição e Estrutura Social. Rio de Janeiro.
2004.
SERRA, M. A. S.. Economia política da pena. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Revan,
2009. v. 1. 294p.
WAQUANT, Loic. Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos [a
onda punitiva]. Tradução de de Sergio Lamarão. Rio de Janeiro: Revan, 2003. Terceira
edição revista e ampliada, agosto de 2007.
________. Forjando o estado neoliberal: trabalho social, regime prisional e
insegurança social. in: Loic Wacquant e a questão penal no capitalismo neoliberal. Org.
Vera Malaguti Batista. Rio de JANEIRO: Revan, 2012.