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Solange Menezes da Silva Demeterco

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO

2.ª edição
2009

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© 2003-2009 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autoriza-
ção por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

D449s
2.ed.

Demeterco, Solange Menezes da Silva.


Sociologia da educação / Solange Menezes da Silva Demeterco. - 2.ed. - Curitiba, PR :
IESDE Brasil, 2009.
352 p.

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-387-0265-8

1. Sociologia educacional. I. Inteligência Educacional e Sistemas de Ensino.


II. Título.

09-1973 CDD: 306.43


CDU: 316.74:37

Capa: IESDE Brasil S.A.


Imagem da capa: Jupiter images / DPI images

Todos os direitos reservados.

IESDE Brasil S.A.


Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200
Batel – Curitiba – PR
0800 708 88 88 – www.iesde.com.br

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Solange Menezes da Silva Demeterco

Doutora e Mestre em História do Brasil pela UFPR. Especialista em Currículo e


Prática (Tutoria a Distância) pela PUC-Rio. Graduada em Ciências Sociais pela
UFPR.

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Sumário
A sociologia e a educação...................................................... 13
O que é sociologia? .................................................................................................................. 14
A sociologia da educação e alguns conceitos básicos................................................. 19
A socialização e seus agentes................................................................................................ 20

A sociologia da educação....................................................... 33
Os primeiros grandes sociólogos:
a educação como tema e objeto de estudo..................................................................... 34
As teorias sociológicas e a educação.................................................................................. 43

A sociologia da educação no Brasil.................................... 51


Formação da sociedade brasileira:
economia agrário-exportadora e economia industrial................................................ 52
A sociologia continua seu caminho: dos anos 1970 aos dias atuais........................ 55

Educação e família.................................................................... 63
As transformações da família................................................................................................. 64
Educação e família no Brasil................................................................................................... 70

Concepções de infância e juventude................................. 81


O sentimento de infância – o trabalho de Ariès.............................................................. 82
O surgimento das escolas e as visões da infância.......................................................... 85

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A escola como instituição social.......................................... 99
A escola como organização..................................................................................................103
Algumas possibilidades.........................................................................................................105

A escola e o controle social..................................................113


Padrões sociais de comportamento..................................................................................116

A escola e o desvio social.....................................................133


Comportamentos desviantes..............................................................................................135
Conformidade versus conformismo...................................................................................137

A mudança social....................................................................151
Fatores que desencadeiam a mudança............................................................................154
A ação pedagógica e a mudança social...........................................................................157

A estratificação social............................................................169
Formas de estratificação social............................................................................................173
A educação e a estratificação social..................................................................................177

A mobilidade social................................................................189
Tipos de mobilidade social...................................................................................................190
Educação como fator de mobilidade social....................................................................193

Educação e movimentos sociais........................................203


As formas de luta e ação coletiva.......................................................................................206
Alguns tipos de movimentos sociais e educação.........................................................210

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A educação e o Estado..........................................................223
O conceito de Estado e suas funções................................................................................226
Estado e educação no Brasil.................................................................................................228

Educação e desenvolvimento.............................................241
As desigualdades sociais e o subdesenvolvimento.....................................................245
Origens históricas do subdesenvolvimento...................................................................247
As desigualdades sociais e o papel transformador da educação...........................248

Educação e cotidiano no Brasil...........................................259


O difícil cotidiano dos “menos iguais”...............................................................................263

Problemas da educação no Brasil......................................275


O fracasso escolar: uma tentativa de explicação..........................................................279

A profissão de professor.......................................................293
A questão da formação profissional..................................................................................295
O ofício de professor e seu papel na sociedade............................................................298

Perspectivas da educação no Brasil..................................311


A questão da diversidade cultural – o multiculturalismo..........................................315
A democratização da educação..........................................................................................317

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Apresentação

O que você espera dessa disciplina? Quais são suas expectativas em relação à so-
ciologia? No que a sociologia se aproxima da educação? Essas e outras perguntas
nos acompanharão a partir daqui.
Mas, antes disso, seria interessante esclarecer algumas questões que nortearão
nosso trabalho. Inicialmente, deve-se destacar que o que se apresenta aqui é uma
síntese dos temas mais relevantes da sociologia enquanto Ciência Social, preocu-
pada em tentar explicar a vida social e as questões relacionadas à vida do homem
em sociedade, em seus múltiplos aspectos. Não se pretendeu elaborar um manual
e muito menos um compêndio que pretendesse dar conta de todos os temas e/
ou conceitos relacionados a essa ciência. Optou-se por privilegiar alguns tópicos
que são considerados básicos e depois relacioná-los com a questão da educação.
A sociologia da educação tem como objetivo pesquisar e analisar a educação em
seus aspectos sociológicos, isto é, os fenômenos sociológicos.
O objetivo maior é procurar conhecer e analisar a inter-relação entre o homem, a
sociedade e a educação, à luz de diferentes teorias sociológicas, bem como das
práticas pedagógicas ratificadoras e/ou transformadoras dos contextos cultural,
social, político, econômico e ecológico.
A proposta é despertá-lo para discussões futuras a partir do embasamento teórico
que essa ciência oferece e, sempre que possível, trazer o debate para a realidade
educacional brasileira. Para tanto, sugere-se alguns textos de apoio, bem como
atividades para autoavaliação. Indicações de leituras complementares e filmes
acompanharão o texto-base, e são importantes para aprofundar algum assunto/
tema que se considere relevante.
Vale lembrar também que nada substitui a leitura dos próprios mestres, no caso
aqui, os “fundadores” da sociologia e da sociologia da educação. Portanto, não de-
sanime em buscar na própria fonte as respostas às suas inquietações. Vá em frente!
A disciplina pretende desenvolver módulos que possibilitem a compreensão
da constituição da realidade social e sua relação com a educação, por meio do
estudo de aspectos dos processos sociais presentes na produção e configuração
do sistema educacional. Assim, o livro está estruturado em 18 unidades, em que
se propõe uma discussão sobre a relação entre a sociologia e a educação, apresen-
tando as contribuições dos autores clássicos e sua percepção acerca das questões
relacionadas à educação (A Sociologia da Educação) e contextualizando a ciência
no Brasil (A Sociologia da Educação no Brasil).
A partir daí, tem-se a discussão de alguns temas/conceitos fundamentais para
a reflexão aqui proposta. Na unidade intitulada educação e família apresenta-se
uma síntese das transformações pelas quais passou a família ao longo do tempo
e sua importância quando se discute educação. Para tanto, também se faz ne-
cessário observar como o sentimento de infância surge e se modifica a partir do
que se tem, inclusive o surgimento dos colégios e novas visões da infância e da
juventude (concepções de infância e juventude).

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A discussão sobre a escola à luz de alguns conceitos sociológicos compõe as
próximas unidades: a escola como instituição social, a escola e o controle social e a
escola e o desvio social. Em seguida, são abordados outros conceitos também im-
portantes para a sociologia da educação: a mudança social, a estratificação social,
a mobilidade social, educação e movimentos sociais e a educação e o Estado.
Finalmente, são apresentados alguns temas mais amplos que dizem respeito à rea-
lidade do país (educação e desenvolvimento, educação e cotidiano no Brasil e pro-
blemas da educação no Brasil), da escola e do professor (a profissão de professor),
além de chamar a atenção para questões que exigem muita reflexão por parte do
docente, no sentido de avaliar sua prática pedagógica (perspectivas da educação
no Brasil).
Vale ressaltar, enfim, que vivemos um momento privilegiado na história, uma vez
que a presença da sociologia no currículo está intimamente ligada à democratiza-
ção do acesso ao conhecimento científico, com vistas ao incremento da discussão
consciente, racional e bem fundamentada do educador na realidade social.
Bom trabalho!

Solange Menezes da Silva Demeterco

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A estratificação social

Pode-se entender estratificação como um conjunto de posições hierar-


quizadas segundo o que a sociedade considera importante, como poder,
propriedade, riqueza ou prestígio. É simples: uns mandam e outros obe-
decem, de acordo com as posições que cada indivíduo ocupa na estrutura
social. Essa é a premissa básica que norteia a ideia de uma sociedade hie-
rarquizada: alguns indivíduos e/ou grupos estão acima de outros e a au-
toridade não é a mesma para todos. Essa relação de subordinação define
posições mais ou menos elevadas, de acordo com valores que podem
estar relacionados a vários fatores, tais como o poder econômico. Em
alguns casos é bem difícil, e até mesmo impossível, que essa hierarquia
seja quebrada.

Nas Ciências Sociais, e na sociologia em particular, a estratificação social


é conceituada como um “conjunto de posições hierarquizadas segundo
um determinado aspecto relevante da sociedade. Os principais aspectos
que criam uma estratificação são o poder, a propriedade privada, a riqueza
e o prestígio. Esses elementos criam uma hierarquia entre os indivíduos.”
(Ferreira, 1993, p. 137). E o que se pode observar é que em muitos casos
esses fatores se juntam, tornando a estratificação ainda mais consistente.
É o caso, por exemplo, do indivíduo que detém diversos bens, o que o faz
rico, dando-lhe prestígio e, finalmente, tornando-o poderoso.

Quando se fala em estratificação social se está falando da diferenciação


de forma hierárquica de indivíduos e grupos em posições (status), esta-
mentos ou classes.

Mas não foi sempre assim, porque as primeiras sociedades eram iguali-
tárias, sem uma organização social que lembrasse o que se vê nas socieda-
des da atualidade. Não havia estratificação ou normas e regras institucio-
nalizadas. A mudança começa a acontecer quando se efetiva a existência
da propriedade privada e a divisão social do trabalho, acontecimentos que
dão início a uma nova forma de organizar a vida e sociedade, com base na
posse ou não dos meios e bens de produção.

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Sociologia da Educação

Desde o surgimento do Estado, pondo fim à Pré-História da humanidade,


tem início uma nova forma de organizar a vida em sociedade. Aliás, a própria
noção de sociedade, de civilização surge nesse momento. Tudo isso porque a
partir do fim do coletivismo e com o surgimento da propriedade privada passa a
ser necessária alguma forma de organização social e, por conta disso, as relações
de poder se efetivam. A questão fundamental é saber como e quem irá exercer o
poder sobre o grupo.

Na medida em que as sociedades vão se tornando mais complexas, econômi-


ca e socialmente, vão se diferenciando também em termos de produção – algu-
mas voltadas para a criação de animais enquanto outras dedicadas à agricultura.
Ao começar a produzir excedentes agrícolas e se tornar mais complexa essas
sociedades passam a demandar proteção. Quando começam a surgir os primei-
ros responsáveis pela defesa das aldeias, tem-se um primeiro esboço do que
viria a ser uma sociedade estratificada com base nas relações de poder. Serão
os guerreiros mais fortes ou os sacerdotes mais influentes aqueles que primeiro
exercerão o poder sobre o grupo, constituindo as primeiras classes dominantes
de que se tem notícias.

Em paralelo com esse processo acontece outro, que vai opor homens e mu-
lheres, sendo que a opressão masculina se materializa sobre a mulher e os demais
membros da família (outra ideia que aparece nesse contexto).

A história mostra que a estratificação social, independentemente de que tipo


ou em nível for, é uma situação que gera também uma busca por mudança. Na
medida em que a sociedade se torna mais hierarquizada, ao longo do tempo po-
dem-se encontrar movimentos no sentido de mudar essa situação. O ápice dessa
luta é o surgimento da ideia de que todos os homens eram iguais, que constitui no
lema da Revolução Francesa, ao lado do ideal de liberdade e de fraternidade.

Essa concepção de uma nova ordem social baseada nesses princípios será o
fio condutor do ideário comunista e socialista, das constituições nacionais e da
universalização dos direitos.

Chegando até os dias atuais, essa também é a ideia que orienta o modo de
vida contemporâneo. Vários fatores contribuem para dinamizar esse processo,
tornando-o algo concreto para os indivíduos; a existência do processo eleitoral
baseado no voto universal, por exemplo, é uma das formas de fazer valer na prá-
tica o ideal de igualdade.

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A estratificação social

Nas modernas sociedades os meios de comunicação de massa são instrumentos


através dos quais as questões da igualdade e da fraternidade são discutidas e apre-
sentadas de forma a se tentar constituir uma nova sociedade, em que as diferenças
de posição social não se reflitam na negação da cidadania.

Em termos culturais também se pode perceber a influência da estratificação


social, especialmente pelo papel que a indústria cultural exerce sobre a socie-
dade. Observa-se a hegemonia dos valores ligados às classes mais abastadas e
“bem-postas” na sociedade, em detrimento aos valores das camadas populares,
especialmente da chamada periferia das grandes cidades. Na maioria das vezes,
o que se difunde como sendo os modelos a serem seguidos é o estilo de vida –
os valores a ele agregados–, da classe dominante.

Além disso, se mantém na sociedade o paradigma de que a posição social é


algo que precisa ser preservado, especialmente quando o objetivo não é mais de
manter, mas sim, ascender socialmente. Ferreira (1993, p. 139) afirma que é ine-
gável o “princípio de que as melhores posições na estrutura devem ser obtidas e
mantidas por meio da competição. A lei deve assegurar que todos, independen-
temente de sua origem ou condição social, tenham o direito de ocupar posições
mais elevadas.”

Mas o que se observa é que mesmo num contexto em que as diferenças sejam
defendidas e desejáveis, em nome do multiculturalismo1, as hierarquias sociais
e, consequentemente, as desigualdades sociais, econômicas, étnicas, políticas,
culturais, religiosas, de gênero, sexuais, permanecem.

A estratificação social persiste em grandes diferenças, tanto em termos de opor-


tunidades para indivíduos oriundos das camadas sociais mais abaixo na pirâmide
social, quanto de tratamento legal. As unidades prisionais abarrotadas de indivíduos
que fazem parte desse grupo são uma prova do que se diz. A maioria dos ocupantes
das cadeias no país são representantes de setores da sociedade brasileira que são
excluídos social, econômica e culturalmente, o que reflete bem a sociedade estratifi-
cada e hierarquizada, marcada pelas contradições acerca do que deve ser feito para
tentar mudar essa realidade. São em sua maioria pessoas pobres, negras ou pardas,
homens, jovens, com baixa escolaridade e sem emprego formal2.

Movimentos em defesa da igualdade e da diversidade cultural são a marca da


contemporaneidade e, ao serem analisados pela sociologia, colocam em discussão
1
Multiculturalismo: entendimento de que a sociedade é plural, constituída por diferentes identidades culturais e plurais. São identidades baseadas
na diversidade de gênero, raças, classe social, padrões culturais, linguísticos etc. Constitui-se hoje, também, num marco teórico em várias áreas.
2
Ver site: <http://direitos_humanos.sites.uol.com.br/> para saber mais sobre a questão dos Direitos Humanos no Brasil, com destaque para o artigo
sobre os presidiários. Há também o site da Secretaria Especial dos Direitos Humanos: <http://www.presidencia.gov.br/estrutura_presidencia/sedh/>.

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Sociologia da Educação

a própria estrutura da sociedade brasileira, baseada na estratificação, sobretudo


econômica. O objetivo maior tanto dos estudos acadêmicos quanto da sociedade
civil organizada é buscar a universalização dos direitos garantindo a permanência
e a preservação das especificidades culturais.

Entretanto, o que se deve discutir é por que as hierarquias sociais e as de-


sigualdades socioeconômicas se mantêm, fazendo com que as oportunidades
não sejam as mesmas para todos, realçando privilégios de alguns e as relações
de poder que contribuem para manter essa situação. O conceito de classe social
pode ser útil para explicar a estratificação social, já que o status da posição a ser
ocupada pelo indivíduo na escala social está relacionado ao conjunto de papéis
que ele desempenha e que, em última instância, liga-o a uma classe social. O
pertencimento a uma ou outra classe social define a posição do indivíduo na
sociedade. E a hierarquização social determina também que os meios e os fins
das ações sociais, sejam diferenciados de acordo com a posição do indivíduo e
com seu modo de vida.

Um outro aspecto importante que deve ser ressaltado é a existência de insti-


tuições sociais, muitas delas, inclusive, encarregadas de exercer o controle social,
como a polícia, por exemplo. Algumas dessas instituições podem desempenhar
um papel conservador, tentando assim impedir que mudanças sociais aconte-
çam e eventualmente alterem a ordem estabelecida. Isso acontece porque nem
todos os indivíduos e/ou grupos querem que a mudança aconteça, reforçando
o que se disse há pouco,
[...] em cada um dos estratos, as posições sociais são definidas. Os fins e os meios não são os
mesmos para todos os membros da sociedade. Essa diferenciação se observa nos modos de
vida dos indivíduos.

Ora, sendo os estratos sociais hierarquizados, implicam controle social. Por exemplo, há classes
controlantes ou dominantes e classes controladas ou dominadas. Na verdade, a estratificação
social não é senão, sobretudo, uma modalidade de controle social, sem prejuízo de ser
explicável também pelos processos de socialização e grupal.” (Souto, 1985, p.199).

Sabemos que a sociedade se organiza e dispõe de mecanismos para garantir


a socialização e a estabilidade social. Mas nada impede a estratificação e, de certa
forma, toda a organização social que dela decorre, considerando que as condições
materiais de existência e os fatores econômicos de modo geral são determinantes.

No caso da sociologia da educação, esse é um assunto importante porque


pode explicar alguns problemas que enfrentamos nessa área. Mas antes de dis-
cutir como essa questão é vista, é preciso entender melhor como a estratificação
social acontece e quais são seus mecanismos.

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A estratificação social

Formas de estratificação social


Existe certo consenso na sociologia de que há ao menos duas concepções
sobre a questão da estratificação social. Para alguns ela é naturalizada, isto é, é
vista como sendo alguma coisa que realmente constitui a sociedade que, por sua
vez, seria “naturalmente” desigual. Essa percepção não considera as causas da de-
sigualdade e muito menos as razões pelas quais uns são “mais iguais” do que os
outros. De acordo com esse ponto de vista, essas diferenças estariam ligadas às ca-
pacidades de cada um e não ao contexto social do qual é parte integrante. Como
a própria mostra que em todos os tempos e em qualquer sociedade sempre exis-
tiram sociedades estratificadas, tem-se a ideia de que isso faria parte da organiza-
ção social em si, e não fosse resultado da ação dos indivíduos sobre o meio social.

Mas a estratificação social e as implicações que gera em termos de garantias


e direitos individuais podem ser vistas como resultado da forma de exploração e
de dominação de uma classe/um grupo sobre outra/o. Por meio de diversos me-
canismos, tais como a ideologia, as políticas públicas, a inoperância do Estado ao
realizar seu papel de garantir a todos os direitos fundamentais, enfim, pelos pro-
cessos históricos que se concretizam o tempo todo no meio social, a hierarquia
se mantém. Diante desse quadro, o que se vê são indivíduos que não conseguem
ascender socialmente, independentemente de sua vontade e/ou capacidade. A
estrutura da sociedade na qual está inserido não permite que isso ocorra.

Os fatores que estabelecem uma hierarquização na sociedade e, por conse-


quência, uma estratificação social são vários. Partindo-se do que foi apontado
sobre o conceito de estratificação, pode-se dizer que um dos primeiros critérios
é ser ou não proprietário de determinados bens. Outra forma de estratificação
é aquela decorrente da profissão dos indivíduos, já que algumas desfrutam de
maior prestígio na sociedade. Um exemplo muito representativo da realidade
brasileira é a carreira docente. Por mais que as pessoas tenham noção da impor-
tância do professor, essa é uma das profissões menos valorizadas e que pouco
prestígio dá a quem a abraça. E não se pode esquecer daquela variável que se
constitui como uma das mais relevantes em termos de estratificação: a riqueza,
quanto mais rico for o indivíduo, mais alta será sua posição na estrutura social.

Quanto à sua caracterização, a estratificação social pode ser de três tipos:

 estratificação econômica: tem como base posse de bens materiais, fazen-


do com que haja pessoas ricas, pobres ou em situação intermediária (as
chamadas “classes médias”);

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Sociologia da Educação

 estratificação política: baseada na relação de poder que se estabelece na


sociedade (grupos que têm e grupos que não têm poder de condução
política da sociedade);

 estratificação profissional: baseada nos diferentes graus de importância


atribuídos a cada profissional pela sociedade.

Desde que o homem se organizou para viver em sociedade existe, como já se


disse, formas de estratificação, sendo o sistema de classes, a sociedade estamen-
tal e a sociedade de classes os modelos mais recorrentes.

Os sistemas sociais mais conhecidos quando se fala em estratificação são a


escravidão, as castas e os estados, que se constituem na divisão da população
por meio da lei. Mas, além desses, há também a estratificação baseada nas dife-
renças de classes sociais.

Na escravidão um indivíduo detém a posse de outro que passa a ser proprie-


dade sua, condição que é imposta à força. Caracterizou algumas civilizações da
Antiguidade e se estendeu até há pouco mais de um século em países como o
Brasil, por exemplo. A escravidão dos negros trazidos da África marcou profun-
damente o caráter nacional e as relações sociais entre brancos e negros no país.
Constituiu-se no mais cruel sistema de estratificação social, exemplo de desi-
gualdade extrema.

O sistema de castas é característico da Antiguidade, mas atualmente ainda é


encontrado na Índia, como produto de uma tradição de que a autoridade emana
dos deuses e é exercida pelos seus representantes na Terra, constituindo um sis-
tema de governo chamado de Teocracia. O poder político nesse caso está vin-
culado ao poder religioso. Além disso, a posição do indivíduo na sociedade é
determinada pelo nascimento e a sociedade indiana é marcada pela presença
de grupos sociais fechados e endógamos, ou seja, um sistema em que o indiví-
duo se casa com alguém do seu próprio grupo. Em razão da importância da li-
nhagem na organização da sociedade na Índia, até a escolha da profissão segue
a tradição da atividade exercida pelo pai.

Com tudo isso e diante da rigidez desse sistema, o indivíduo “adquire ao


nascer sua posição social, além de direitos e deveres específicos, não podendo
ascender socialmente mediante qualidades pessoais ou realizações profissio-
nais” (Oliveira, 2003a, p. 122).

A estratificação da sociedade indiana é marcada pela divisão nas seguintes


castas, segundo o mesmo autor (2003, p. 122):

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A estratificação social

 brâmanes: composta pelos sacerdotes e mestres, cuja função é a preser-


vação dos princípios divinos da ordem social, situam-se no topo da estru-
tura;

 chátrias: formada pela aristocracia militar e governantes de origem princi-


pesca. Sua função é de proteção da ordem estatal e do saber sagrado;

 vaixiás: são os comerciantes, artesãos e camponeses, e que exercem a fun-


ção produtiva na sociedade;

 sudras: casta mais baixa antes dos párias, são os encarregados do trabalho
braçal de produção e executores de trabalhos manuais pesados;

 párias: casta composta pelos miseráveis da Índia, não têm direito a ne-
nhum privilégio e são considerados impuros e renegados pela estrutura,
formando a camada mais baixa da sociedade indiana. 

Istock Photo.
Istock Photo.

Outra forma de estratificação é a sociedade estamental, isto é, baseada em


estamentos (grupos sociais com status jurídico próprio), em critérios ligados à
honra e à linhagem do indivíduo, valores culturais que marcaram a Idade Média
e o Feudalismo3. Nesse sistema chega a haver possibilidade de mobilidade social
vertical, ainda que em poucos casos, especialmente por meio da concessão de
títulos de nobreza, emancipação, pelo casamento ou quando o indivíduo era
recrutado pela Igreja.

A organização social é marcada por três categorias, com a nobreza e o clero


ocupando a ponta da pirâmidade (Primeiro Estado), os homens livres comer-
ciantes, artesãos e camponeses livres, membros da chamada burguesia comer-
cial (Segundo Estado) e, na camada mais baixa, onde estavam os servos (Terceiro
Estado). Não é preciso dizer que esta era a camada mais populosa da população,

3
Feudalismo: modo de produção que vigorou durante a Idade Média, principalmente na Europa Ocidental, pautado em relações de fidelidade, isto
é, em obrigações mútuas entre senhores feudais e servos.

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Sociologia da Educação

o que não significava que tivesse algum tipo de privilégio e muito menos parti-
cipação na condução da vida do país. A possibilidade de ascensão social vertical
nesse sistema era mínima.

Domínio público.
A última forma de estratificação é aquela caracterizada pela sociedade de
classes, própria do sistema industrial-capitalista, produto da Revolução Indus-
trial e da Revolução Francesa. Da primeira em especial é que surge a classe que
se constituirá sujeito da história nesses dois processos: a burguesia.

Essa classe ascendeu rapidamente por conta dos ganhos conquistados com
a atividade comercial e buscou adquirir também prestígio social aliando-se aos
reis que governavam os nascentes Estados nacionais. Enquanto lhe interessou
essa aliança, soube tirar proveito e quando não ainda mais aos seus interesses,
soube mobilizar as camadas mais pobres da sociedade e promove as chamadas
revoluções burguesas, na França e na Inglaterra. Esse é um exemplo de mobili-
dade social conquistada através do poder econômico.

Nas sociedades de classes, a estratificação social se organiza da seguinte forma:

 burguesia: desde o seu surgimento, é a classe que detém a posse do ca-


pital e dos meios de produção. É composta por industriais, comerciantes,
proprietários de terras e banqueiros;

 classe média: ou melhor, as classes médias, uma vez que hoje se pode en-
contrar uma hierarquização dentro do que se convencionou chamar de
classes médias. Sua composição também é bem variada (profissionais li-
berais, militares, servidores públicos etc.);

 classe trabalhadora: formada por todos os indivíduos que têm apenas sua
força de trabalho e que constitui a maioria da população.

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A estratificação social

Comstock Complete.
A sociedade apresenta também uma estratificação baseada em outros fato-
res, tais como cor da pele, religião ou em características ligadas à questão de
gênero (homem x mulher).

Mas o importante é saber que, seja qual for o tipo de estratificação que defina
a organização de uma sociedade, ela é sempre resultado de desigualdades. Além
disso, pode se estender por diversas áreas como, por exemplo, na diferença de
acesso aos direitos básicos do cidadão e oportunidades, ao mercado de traba-
lho, ao acesso à cultura, o lazer e à educação.

A educação e a estratificação social


Entendendo a estratificação social como forma de organização que aconte-
ce por meio da divisão da sociedade em camadas sociais distintas, define-se a
partir das diferenças entre indivíduos e/ou grupos sociais.

Falar em estratificação social no Brasil é falar de um dos países mais desiguais


do mundo4, num momento em que a tendência é que os requisitos para ascender
socialmente se tornam cada vez mais complexos. Há algumas décadas, ter um diplo-
ma universitário era quase que uma garantia de mobilidade social; hoje se sabe que
só o diploma não basta. São necessárias outras habilidades e uma formação mais

4
Em 2007 “o Brasil entrou no grupo de países de Alto Desenvolvimento Humano, depois de ultrapassar a barreira de 0,800 no Índice de Desen-
volvimento Humano (IDH), ocupando a 70.ª posição no ranking de 177 países. O país com maior IDH é a Islândia, seguida por Noruega e Austrália,
respectivamente, em segundo e terceiro lugares. Em último lugar na lista – 177.ª posição –, está Serra Leoa”. Disponível em: <http://planetasusten-
tavel.abril.co. shtml>. Acesso em: fev. 2009.

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Sociologia da Educação

ampla para conseguir o mesmo resultado, num mercado e numa sociedade cada
vez mais competitivos. Principalmente em países como o Brasil, os critérios e códi-
gos definidores e sinalizadores das hierarquias e dos status se tornam complexos e
se pluralizam.

Discutir a relação da estratificação e dessas desigualdades que marcam o país


e sua relação com a educação demanda uma análise sobre o papel da escola e
dos educadores nesse processo. É preciso lembrar que tanto a instituição quanto
o profissional são construtores da própria sociedade na qual estão inseridos.

Assim, quando se analisa a relação entre educação e estratificação social, é


possível observar que
[...] a estrutura social de uma sociedade é um modo essencial para o estudo da educação,
uma vez que ela se reflete no modo como se distribuem os benefícios da educação entre os
alunos das várias classes sociais, em face da diferença de aproveitamento escolar, das variadas
aspirações e do próprio conteúdo da educação. (Pessoa, 1997, p. 100)

Um exemplo disso é a coexistência do ensino público e do ensino privado,


sendo o segundo superior ao primeiro.

A escola é uma das instituições sociais que tem entre as suas funções o con-
trole social, exercido das mais diversas formas, dentro do sistema educacional.
Mais ou menos autoritária, a escola terá as características da sociedade na qual
se insere. Poderá ser mais ou menos democrática conforme seja do interesse das
classes dominantes dessa sociedade.

Quando se fala em estratificação social e educação, deve-se pensar, inicial-


mente, em analisar a posição ocupada pela família do educando na estrutura
social, pois ela é determinante das condições de acesso à própria educação, à
permanência na escola e à qualidade do ensino. Existe uma forte relação entre o
nível de renda da família e o desempenho escolar. E todas essas formas de estra-
tificação se refletem na educação de alguma maneira5.

Com relação ao papel efetivo desempenhado pela educação, há hoje certo


consenso de que os sistemas educacionais tanto podem atuar como agentes
conservadores, perpetuando padrões de estratificação social, quanto podem ser
importantes para transformar a sociedade. O caráter conservador da escola foi
e continua sendo um tema de discussão da sociologia da educação, sem que
se tivesse chegado a uma conclusão definitiva até hoje. Seria conservadora na
medida em que funcionaria como agente de transmissão de normas e valores
5
Ver no site do IBGE os dados sobre a relação de desigualdade e educação. Disponível em: <www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noti-
cia_visualizada.php?id_noticia=1233&id_pagina=1>.

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A estratificação social

pertinentes à classe dominante, num contexto determinado pelas políticas pú-


blicas voltadas para a tentativa de manter os privilégios dessa elite.

A própria estrutura burocrática da escola e seu atrelamento às políticas públi-


cas de certa forma dificultam, quando não impedem efetivamente, que ocorram
mudanças na estrutura do sistema educacional.

No Brasil, é sabido que existem

Marcello Casal JR./ABr.


vários tipos de escolas, segundo a po-
sição ocupada pelo indivíduo na
escala de estratificação. A dicotomia
entre a escola pública e a escola priva-
da é um reflexo dessa estratificação
que se verifica na sociedade como um
todo.

Jupiter Images/DPI Images.


Pensando na questão da estratifica-
ção social e da sua relação com a edu-
cação, vale lembrar da diferenciação
que Pedro Demo (1985, p. 18-19) faz
entre educar e treinar. Para ele,
[...] educar significa o horizonte em pro-
fundidade da formação da personali-
dade, cuja substância se encontra num
modo de ser. Entendido como fenôme-
no de autopromoção de despertar e de-
sabrochar a capacidade própria, como
sujeito de si mesmo, autônomo e autos-
-sustentado, como gestação da criativi-
dade individual e social, é o contrário de
treinar, onde sobressai a marca do ades-
tramento, da acumulação compulsória
de hábitos e habilidades. Treinamento é
algo técnico, educação, algo criativo.

Essas palavras são valiosas para se entender como é importante não


se perder de vista que, independentemente da estrutura social e da forma como
os indivíduos estão organizados hierarquicamente, a percepção do que seja
educação deveria ser a mesma. O que se vê, particularmente na realidade bra-
sileira, é que aqueles que ocupam posições “inferiores” na escala social tendem
a receber uma educação burocrática, voltada apenas para o treinamento, para
atender às demandas impostas pelas classes dominantes.

A sociologia há muito tempo vem se instrumentalizando para ter condições


de investigar e analisar todas as mudanças que estão acontecendo na sociedade
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Sociologia da Educação

contemporânea, a uma velocidade nunca vista. E a escola tem sido objeto de


estudo, vista como instituição voltada para a constituição de sujeitos sociais e
que deve tentar mostrar as diversas formas de organização da sociedade, de-
senvolvidas por diferentes comunidades étnicas e grupos sociais, explicitando
que a pluralidade e o respeito ao outro é fator de fortalecimento das culturas e
de entrelaçamento das diferentes formas de organização social. Assim, enten-
de-se como fundamental que o aluno tenha o máximo de oportunidades para
valorizar a natureza, a produção cultural, os fatos históricos e o dinamismo das
transformações sociais, tornando-se mais consciente de sua realidade e poden-
do questionar a estrutura social da sociedade em que vive.

Partindo da visão da sala de aula como um espaço de comunicação, é pos-


sível observar que na atualidade essa comunicação tenha ficado mais com-
plexa, difícil e, mais do que nunca, necessária. Envolvendo diversos atores,
em especial professor – aluno, tem-se uma prática que, tendo sido forjada na
vida em sociedade, caracteriza-se pelas contradições, pelo conflito, pelas dú-
vidas e hesitações e, sobretudo, pela necessidade de responder às inúmeras
demandas da sociedade complexa da atualidade e que, às vezes, implicam
mudança.

Diante, por exemplo, da facilidade de manipulação de toda informação


apoiada na tecnologia hoje disponível, é preciso que a escola busque novas
metodologias de trabalho. Entretanto, essas metodologias precisam estar in-
seridas no contexto socioeconômico-político-cultural em que a escola se situa,
para que realmente estejam a serviço da educação. A utilização pedagógica
das novas tecnologias de informação pode auxiliar a relação cognitiva dos
alunos com os objetos de conhecimento e facilitar a comunicação em sala de
aula.

Mas tudo isso só terá valor se houver o apoio de um professor preparado para
utilizar esses novos recursos e que possa orientar seus alunos nesse contexto
da cultura da mídia e da informação, na qual se percebe uma naturalização das
tecnologias e uma tecnologização da natureza. Sem isso, o que se terá é o acir-
ramento da competitividade que já marca a sociedade atual, quando os jovens
são bombardeados com ideias de investir em si mesmos como forma de serem
aceitos no mundo e, assim, poder ascender socialmente.

Finalmente, isso tudo só fará sentido se puder ajudar o indivíduo a compre-


ender melhor as mudanças sociais, saber como e por que ocorrem e, sobretudo,
possa pensar e até mesmo decidir sobre o tipo de sociedade que deseja.

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A estratificação social

Texto complementar

Estratificação social
Para falar em classes sociais no Brasil é preciso estabelecer primeiro os
critérios de classificação, os padrões que as possam definir. Numa sociedade
em que a escravidão ocupava lugar de destaque, a primeira classificação é
relativa ao trabalho, separando escravos e livres. A importância dessa classi-
ficação explica a aversão do brasileiro pelo trabalho braçal, servil, por ser o
critério fundamental na hierarquia social.

Mas nem esse critério, aparentemente inconfundível, é tão definido como


parece, pois era muito pequena a diferença entre um negro de ganho, escravo,
que trabalhava praticamente em liberdade, e um negro alforriado, de quem
os brancos continuavam a exigir sinais de reverência e submissão.

“Os brancos exigiam que os negros, mesmo livres, lhes cedessem o


lugar nas estradas e ruas. O mulato claro tinha maior facilidade de alforria.
Era ponto de honra branco só hospedar-se com branco. Mesmo nas mise-
ricórdias faziam-se restrições ao negro. Embora fosse corrente o dito que
negro rico é branco e branco pobre é negro, a realidade era outra; é fácil
perceber como o negro livre mantinha arraigada a mentalidade de escravo,
reconhecendo a sua posição na sociedade racista. Apesar da grande influên-
cia que tiveram os mulatos na vida nacional, principalmente após 1831, e de
modo especial pelo caminho do exército, eles carregavam sempre o comple-
xo racial, procurando aproximar-se o mais possível do tipo branco” (PRADO
JUNIOR, C. Formação, p. 97-98).

Entramos assim em outro fator de classificação em que se misturavam


classe e raça. A cor, ou melhor, os estigmas raciais, principalmente da raça
negra, era critério de segregação, impediam ou limitavam a ascensão social.
Para subir era preciso, além de livre, ter cabelos bons, isto é, liso, pele não
muito escura, e nariz não muito chato.

Falamos em subir. Subir para onde? – Para a classe dos privilegiados, que
exerciam influência na sociedade; a classe dos ricos. A propriedade, a riqueza,
era fator determinante na escala social; mas não era exclusivo. Havia pretos

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Sociologia da Educação

ricos; não muitos, mas havia; e eles jamais fariam parte da classe alta, por lhes
faltar o outro elemento, o racial. Não é por acaso que, ao delinear-se a socieda-
de brasileira em formação, aparece o complexo do branqueamento, num país
em que os brancos puros eram tão pequena minoria. Cresce o complexo de ser
o brasileiro de raça inferior, que por muito tempo vai acompanhar os intelectu-
ais brasileiros.

Inteligência e cultura também classificavam, mas na dependência dos


critérios de riqueza e de cor; mulato pobre, embora inteligente, não rompia
facilmente a barreira.

Satisfeito o requisito racial, o elemento mais forte de classificação era a


riqueza, expressa principalmente na posse de terras e na quantidade de es-
cravos. Daí a preocupação de ostentar riqueza, e a mania geral de querer
chegar a senhor-de-engenho ou grande fazendeiro.

Na luta de estratificação, de acomodação das camadas sociais, que se


percebe paralela à revolução da Independência, os senhores-de-engenho,
os ricos fazendeiros, os traficantes de escravos, e outros detentores das ri-
quezas, não tardarão em tomar as rédeas do poder, comandando a contrar-
revolução; serão eles os donos do país após 1831.

As classes sociais não eram estáticas; não existindo, como em sociedades


mais antigas, um critério de nobilitação, como o nascimento, a pessoa podia
mudar de posição na escala social, seja enriquecendo e subindo, seja per-
dendo os bens e descendo, em dura competição.

Os grandes comerciantes, todos estrangeiros, não eram bem vistos pelos


brasileiros; foi em relação a eles que começaram a diferenciar-se portugue-
ses e brasileiros, e muitos movimentos populares nasceram de reação ou
protesto contra eles. Havia ricos negociantes portugueses muito rudes, anal-
fabetos. Em nosso período multiplicam-se os negociantes de outras proce-
dências, principalmente ingleses e franceses.

Era de muita importância social a ostentação de riqueza, que podia ser


exibida no número de escravos, principalmente nas aparatosas comitivas de
escravos de libré, bem tratados e limpos, que acompanhavam a família em
suas saídas; nas roupas e meios de transporte; nas joias e nas baixelas de
ouro e prata; na irmandade a que alguém pertencia; no lugar que ocupava
na Igreja e nas procissões. Em muitas Igrejas de Minas é possível, ainda hoje,

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A estratificação social

imaginar a cena: à frente, em estaque junto aos presbitérios, recebendo as


honras do incenso e da paz, as pessoas de importância especial; ao centro
da nave isolado por grades de madeira, as mulheres brancas, acocoradas ou
assentadas no chão; em redor das grades, os homens brancos; na entrada, e
fora da porta, os pobres e escravos.

Para o conforto eram pouco aproveitadas as riquezas; o modo de comer e


morar variava pouco do remediado para o rico. O contato com estrangeiros,
nas cidades maiores, é que começou a criar hábitos de conforto. Na zona
rural continuavam como expressão de riqueza as casas-grandes das regiões
açucareiras, e as fazendas; nas concentrações urbanas destacavam-se os so-
brados. O sobrado classifica e segrega; isola o interior da casa do burburi-
nho da rua; a separação muitas vezes é agressiva, com muros, cacos de vidro,
grades de ferro com pontas.

Havia ainda outros elementos de classificação social: as comendas, que


podiam ser adquiridas por dinheiro; viajar em rede; andar de sapatos; não
hospedar-se em vendas à beira da estrada; manter os negros a certa distân-
cia. Também eram importantes as irmandades e associações religiosas como
expressão de separação social e racial.

De modo geral podemos admitir duas classes, sendo uma constituí-


da pelo pequeno número de privilegiados, e a outra pela massa do povo.
Entre os privilegiados podem ser colocados: os grandes proprietários rurais;
alguns altos escalões do funcionalismo público, por força dos prestígios e da
influência; os comerciantes; algumas profissões muito rendosas, como a dos
mercadores de escravos; o clero, por dois critérios: participavam os padres da
pouca numerosa elite cultural, e eram representantes da religião que, por ser
oficial, lhes dava prestígio de funcionários qualificados e, por ser profunda-
mente arraigada na alma popular, lhes garantia o respeito do povo.

Maior dificuldade estava em definir quem era o povo. Num estudo de 1821,
do Conselheiro Silvestre Pinheiro Ferreira, poucos entravam na classificação
de povo: “o povo é uma classe, no Brasil, proporcionalmente muito menor
do que na Europa, porque tirada a classe dos escravos e libertos, quase todo
o resto se compõe de homens que receberam aquele grau de instrução que
nos outros países eleva certa classe acima do que se chama povo”.

Neste sentido povo, como disse, não existia. Podemos classificar como povo
a grande massa dos que não conseguiam os meios regulares de subsistência,
fossem livres, libertos ou escravos; aqueles que não eram considerados cidadãos

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Sociologia da Educação

ativos nem eleitores: criados, caixeiros, artesãos, marinheiros, pequenos funcio-


nários, soldados, e a multidão de desempregados que eram chamados de vadios.
Os escravos não eram considerados cidadãos e, como os índios não integrados,
nem brasileiros, mesmo ao receberem a liberdade, se nascidos na África.

Constituindo maioria, embora sem consciência de unidade, a massa do


povo procurou ter parte ativa no processo da Independência, que lhe interessa-
va muito mais no aspecto social do que no político. Os vadios participaram de
todos os movimentos e sublevações, mantendo o país em estado pré-anárquico.
Quanto mais os privilegiados se consolidavam no poder, mais se impacientava o
povo, e mais forte se tornava a repressão. A opinião de Feijó, classificando o povo
como anarquista, em oposição aos proprietários e industriais, “que representam
famílias e bens”, exprime o sentimento dos que dirigiam o país. As lideranças
brasileiras dão continuidade à política colonial portuguesa de manter em estado
de medo os índios, os escravos, os caboclos, o povo.

(Disponível em: <http://virtual.unipar.br/courses/FIL2005/document/!._Ano_de_


Ci%EAncias_Biol%F3gicas.doc?cidReq=FIL2005>. Acesso em: mar. 2009.)

Dicas de estudo
Assista ao filme Gandhi, com o objetivo de ver como é a realidade de uma
sociedade estratificada num sistema de castas e sua influência no cotidiano do
país – a Índia.

Antes de trabalhar com a música indicada, vale a pena ver o documento do


IPEA: Desigualdade e Pobreza no Brasil, organizado por Ricardo Henriques, em
2000, particularmente a parte II, que vai tratar das origens e determinantes da
pobreza e da desigualdade no Brasil e, em especial, o capítulo 13 da parte III,
intitulado Desigualdade, Desenvolvimento Socioeconômico e Crime, dos professo-
res da UFMG Cláudio C. Beato Filho e Ilka Afonso Reis. Nesse capítulo os autores
apresentam uma explicação, segundo eles próprios, alternativa às abordagens
que tratam esses temas, que parte da análise das condições contextuais/am-
biente de oportunidades dos delinquentes e que favorece a criminalidade.

(Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/082/08201004.jsp?ttCD_CHAVE=238>. Acesso


em: jan. 2009.)

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A estratificação social

Depois procure escutar a música Pra Onde Vai? de Gabriel O Pensador e


Memê. Ao falar da morte de um jovem na rotina violenta de uma grande cidade,
os autores discutem uma sociedade que exclui, discrimina e rotula os indivíduos
a partir da posição social que ocupam. Relacione a história contada com o con-
teúdo do artigo acima citado e os conceitos discutidos nesta unidade.

Mais uma vida jogada fora


Um coração que já não bate mais, descanse em paz
Sonhos que vão embora, antes da hora
Sonhos que ficam pra trás
Pra onde vai você? Pra onde vai? Pra onde vai o sol quando a noite cai?
E agora? A dor é do tamanho de um prédio
A casa sem ele vai ser um tédio
Não tem remédio, não tem explicação, não tem volta
Os amigos não aceitam, o irmão se revolta
A família não acredita no que aconteceu
Ninguém consegue entender porque o garoto morreu
Tiraram da gente um jovem tão inocente
E a sua avó que era crente hoje tem raiva de Deus
O seu pai ficou mais velho, mais sério e mais triste
E a mãe simplesmente não resiste
Além do filho, perdeu o seu amor pela vida
E a nora agora tem tendências suicidas
E a namoradinha com quem sonhava se casar
Todo mundo toda hora tem vontade de chorar
Quando se lembra dos planos que o garoto fazia
Ele dizia: “eu quero ser alguém um dia”
Sonhava com o futuro desde menino
Ninguém podia imaginar o seu destino
Mais uma vítima de um mundo violento
Se Deus é justo, então quem fez o julgamento?
Pra onde vai você? Pra onde vai? Pra onde vai o sol quando a noite cai?
Por que um jovem que vivia sorridente perde a sua vida assim tão de
repente?
Logo um cara que adorava viver
Realmente é impossível entender
Nenhuma resposta vai ser capaz de trazer de novo a paz à família do
rapaz

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Sociologia da Educação

Nunca mais suas vidas serão como antes


E eles olham o seu retrato na estante
Aquele brilho no olhar e o jeitão de criança
Agora não passam de uma lembrança
E a esperança de que ele esteja bem, seja onde for, não diminui o
vazio que ele deixou
É insuportável quando chega o seu aniversário
E as suas roupas no armário parecem esperar que ele volte de surpresa
Pra ocupar o seu lugar vazio à mesa
A tristeza às vezes é tão forte que é mais fácil fingir que não houve
morte
Porque sempre que ele chega pra matar as saudades
Ele vem com aquela cara de felicidade
Alegrando os sonhos e querendo dizer que a sua alma nunca vai
envelhecer
E que sofrer não é a solução
É melhor manter uma chama acesa no coração
E a certeza na mente de que um dia se encontrarão novamente.
Pra onde vai você? Pra onde vai? Pra onde vai o sol quando a noite cai?

Sugestões de leituras
AGUIAR, Neuma. (Org.). Desigualdades Sociais, Redes de Sociabilidade e
Participação Política. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2007.

A autora investiga as dimensões da desigualdade social tomando-as como objeto


de estudo e como fenômenos que conformam diversos processos sociais.

IANNI, Octavio. Teorias de Estratificação Social. São Paulo: Companhia Edi-


tora Nacional, 1978.

Obra clássica da sociologia brasileira quando se fala em estratificação social.

PINHEIRO, Luana; FONTOURA, Natália de Oliveira; QUERINO, Ana Carolina;


BONETTI, Alinne; ROSA, Waldemir. Retrato das Desigualdades de Gênero e
Raça. 3. ed. Brasília, 2008.

Relatório que discute a desigualdade relacionando-a com a estratificação


social no Brasil, a partir de blocos temáticos.

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A estratificação social

Atividades
1. Conceitue estratificação social e aponte as formas como pode se organizar
uma sociedade socialmente hierarquizada.

2. Como pode ser caracterizado o processo de estratificação social?

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Gabarito

A estratificação social
1. Estratificação é um conjunto de posições hierarquizadas segundo o
que a sociedade considera importante, como poder, propriedade, ri-
queza ou prestígio. Quando se fala em estratificação social se está fa-
lando da diferenciação de forma hierárquica de indivíduos e grupos
em posições (status), estamentos ou classes. Os sistemas sociais mais
conhecidos quando se fala em estratificação são a escravidão, as cas-
tas e os Estados, que se constitui na divisão da população por meio da
lei, e a estratificação baseada nas diferenças de classes sociais.

2. Quanto à sua caracterização, a estratificação social pode ser de três


tipos:

 estratificação econômica: tem como base posse de bens materiais,


fazendo com que haja pessoas ricas, pobres ou em situação inter-
mediária (as chamadas “classes médias”);

 estratificação política: baseada na relação de poder que se estabe-


lece na sociedade (grupos que têm e grupos que não têm poder de
condução política da sociedade);

 estratificação profissional: baseada nos diferentes graus de impor-


tância atribuídos a cada profissional pela sociedade.

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