Vous êtes sur la page 1sur 32

Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.

Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.

KAYODE OKEYODE

HIROYUKI ITO/GETTY IMAGES


sequência. Fazem decisões no tem-
po e no espaço.”
Este processo de tentar distribuir
o poder de decisão entre coreógrafos
e bailarinos —problematizado duran-
te o decorrer da própria performan-
ce — é também um reflexo dos valo-
res democráticos que norteavam o
ambiente criativo da Judson Dance
Theater, que funcionava como uma
espécie de cooperativa artística sem
líderes. Sobretudo no caso de Yvon-
ne Rainer, esse desapego pelas hie-
rarquias e pelos complexos autorais
acabaria também por dar lugar a mé-
todos de criação a favor da sobrepo-
sição e colisão de referências, de uma
assemblage de discursos paralelos

A “Talvez gostasse
nos 60 e os Estados Unidos Sábado dá uma conferência chamada que geram ou não relações com o
ferviam. Estava tudo a A Truncated History of the Universe discurso dançado. Em The Concept
acontecer: o Movimento
dos Direitos Civis contra a
for Dummies (Uma História Truncada
do Universo para Totós), seguida de de ser recordada of Dust, isso materializa-se no cruza-
mento de coreografias da própria
segregação racial, a segun-
da vaga do feminismo, os
uma leitura do seu livro de poesia,
Poems (2011). No domingo, apresen- por ser uma autora com outras de nomes tão dis-
tintos como Isadora Duncan, Fritz
protestos contra a Guerra do Viet-
name, a contracultura hippie e o
ta pela primeira vez em Portugal o
seu trabalho coreográfico, na primei- provocateur. E por Lang, Michael Douglas Peters (via
Michael Jackson), Les Twins ou Jac-
rock’n’roll, o movimento LGBT, a
Pop Art e o Minimalismo, a par de
ra pessoa e com os seus bailarinos.
É a estreia nacional de The Concept ter contribuído para ques Tati, que por sua vez se mistu-
ram com a música The Sinking of the
uma série de manifestações artísti-
cas que aconteciam nas ruas, em
of Dust: Continuous Project — Altered
Annually, peça parcialmente ilumi- algo, que é mais do Titanic, de Gavin Bryars, que parece
trazer uma certa dimensão afectiva
caves, bares, galerias e espaços im-
provisados.
Yvonne Rainer estava em Nova
nada por uma criação sua de 1969-70,
Continuous Project — Altered Daily,
que foi reconstruída em Serralves,
que podemos pedir” à peça, associada aos possíveis signi-
ficados da palavra dust/ pó (essência
da vida, erosão, envelhecimento), e
Iorque e estava a ver tudo isto a em Setembro de 1997, pelo colectivo com pedaços de textos de vários au-
acontecer, enquanto fazia a sua pró- Quatuor Albrecht Knust no âmbito tores, incluindo da própria Rainer.
pria revolução numa igreja desacti- do programa 30 Anos de Dança, co- “Não há uma narrativa, há o que a
vada de Greenwich Village, a Judson missariado por António Pinto Ribei- [escritora e ensaísta nova-iorquina]
Memorial Church, na companhia de ro, em que Yvonne Rainer esteve Susan Sontag chamava de ‘justapo-
coreógrafos, compositores e artistas presente para mostrar (e falar sobre) sição radical’”, afirma a coreógrafa.
visuais como Trisha Brown, Steve os seus filmes, outra etapa funda- Por causa da idade avançada, Yvon-
Paxton, Robert Rauschenberg, Lu- mental e incontornável do seu traba- ne Rainer não dança durante a peça.
cinda Childs, Robert Morris, John lho artístico transdisciplinar. “Leio os textos, caminho, ocasional-
Herbert McDowell, Simone Forti e Neste regresso de Rainer ao Porto, mente interrompo o que os bailari-
Deborah Hay. Um grupo que ficou a escolha de The Concept of Dust co- nos estão a fazer e participo na per-
conhecido como Judson Dance The- mo momento central da programa- Em cima, The Concept of Dust: formance da maneira que consigo”,
ater, responsável por uma revolução ção não surge por acaso. “Esta obra Yvonne Rainer a olhar o mundo e esclarece. Contudo, The Concept of
a que se chamou de dança pós-mo- é representativa do processo de pes- a transmitir aos bailarinos o Dust não é só Yvonne Rainer a trans-
derna — e que viria a mudar não só quisa, do desenvolvimento do tra- passado que lhe está nos ossos. mitir aos seus bailarinos o passado
o curso da história da dança como balho criativo e do posicionamento Em baixo: (em primeiro plano) que lhe está nos ossos. Também é
a lançar premissas éticas e estéticas político da artista”, sintetiza Cristina Twyla Tharp, Martha Graham, presente, também é Yvonne Rainer
para as artes contemporâneas nas Grande, programadora de artes per- Jose Limon e (atrás) Merce a olhar o mundo. “É uma peça polí-
suas várias frentes. Eram corpos que formativas de Serralves. Levada a Cunningham, Erick Hawkins, tica onde há referências pessoais à
se abriam ao quotidiano, a gestos palco pela primeira vez em 2014, Paul Taylor, Yvonne Rainer e Don idade da artista e ao seu corpo, à do-
banais e à imprevisibilidade, a pro- The Concept of Dust é uma peça viva, Redlich ença e à morte, mas também ao im-
cessos de pesquisa e de trabalho em contínuo desenvolvimento e
JACK MITCHELL/GETTY IMAGES

fundados na colaboração artística e configuração — princípio que Rainer


na permeabilidade interdisciplinar. foi recuperar a Continuous Project
Corpos que aproximavam a arte à — Altered Daily (também o título de
vida, movidos por um desejo de de- uma escultura de Robert Morris). As
mocracia e partilha. soluções coreográficas, entre a frag-
“Foi uma altura tão fértil para a mentação e a repetição, obedecem
rebelião, em todos os sentidos. So- a algumas regras, mas são activadas
cialmente, politicamente, sexual- de modo diferente em cada apresen-
mente, artisticamente. Foi muito tação “consoante os desejos dos
formativo para mim. Os anos 60 es- bailarinos”, explica a coreógrafa.
tão-me nos ossos”, diz Yvonne Rai- “Nenhum dos bailarinos sai de cena,
ner, 83 anos, ao Ípsilon, dias antes mas podem optar por fazer ou não
de mostrar no Museu de Serralves, fazer num determinado momento,
no Porto, parte daquilo em que se por ficar de lado à espera de uma
tornou: numa das mais influentes ideia ou de uma oportunidade para
coreógrafas do século XX, pioneira voltar a entrar. Deixo alguns meca-
que abriu portas para a dança con- nismos de controlo nas mãos deles.
temporânea, mas também numa es- Eles não inventam os seus movimen-
critora e activista política insaciável. tos, mas improvisam em termos de
6 | ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017
Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.

Sábado dá uma conferência


chamada A Truncated History of
the Universe for Dummies,
seguida de uma leitura do seu
livro de poesia, Poems. No
domingo, apresenta o seu
trabalho coreográfico, na
primeira pessoa e com os seus
bailarinos: The Concept of Dust:
Continuous Project — Altered
Annually

pacto ambiental, às migrações dos


povos, à invisibilidade de algumas
culturas face ao mundo ocidental”,
descreve Cristina Grande.
“Os textos que leio têm a ver com
os acontecimentos políticos actuais
e com um pensamento crítico sobre
o que se está a passar nos EUA”, as-
sinala a artista. “O meu foco muda
consoante o que está a acontecer no
mundo”, acrescenta, assinalando
que as suas últimas reflexões políti-
cas estão expostas no texto da con-
ferência que irá apresentar em Ser-
ralves. Nele, a artista encarna o deus
Apolo, que desce à terra e ao século
XXI para falar sobre a situação na
Síria, o genocídio da comunidade
muçulmana Rohingya levado a cabo
na Birmânia, o assédio e abuso sexu-
al de mulheres, ou a constante troca
de ameaças entre o Presidente da
Coreia do Norte, Kim Jong-un, e Do-
nald Trump, a quem Rainer chama
de “esse idiota-de-merda-saco-de-
peidos de um presidente”, deixando
ainda um recado certeiro a Kim Jong-
un: “Posso assegurar-te que chama-
rem nomes um ao outro em público,
como miúdos da escola malcriados,
não te leva a lado nenhum”.
No fundo, aos 83 anos, Yvonne
Rainer continua a ser aquela rapari-
ga inconformista, rebelde com causa,
que nas décadas de 60 e 70 saía para
as ruas em protesto contra a Guerra
do Vietname — agora talvez com uma
ironia e desfaçatez mais afiadas, cor-
tesia da escola da vida. “Aquando da
Invasão do Iraque ordenada por Ge-
orge W. Bush, e mesmo depois do
Trump ter sido eleito, fui para a rua
manifestar-me ao lado de milhares
de pessoas”, recorda. “Não sou uma
líder ou uma oradora muito expe-
riente, mas escrevo bastante e junto-
me a manifestações sempre que pos-
so. Há uma atitude de resistência ao
status quo que tem estado sempre
comigo, ao longo da minha vida. Afi-
nal, cresci entre radicais.”

De Cage a Rauschenberg
Yvonne Rainer cresceu em São Fran-
cisco numa família de anarquistas.
Desde pequena que os pais a levavam
a piqueniques e festas anarcas italia-
nas (o pai era imigrante italiano nos
EUA), a par de idas à ópera, ao ballet
e ao cinema, conta a artista na sua
autobiografia Feelings Are Facts
ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017 | 7
Os direitos de propriedade intelectual de todos
Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser co

(2006), um valioso documento para Um corpo funcional, implicado


conhecer mais a fundo o seu percur- nas acções e nos gestos do
so artístico e descobrir a sua perso- quotidiano: falar, caminhar,
nalidade intensa e militante. Rainer comer, manusear objectos — a
escreve abertamente sobre as suas estética do Judson Dance
experiências sexuais e o seu desejo Theater
tanto por homens como por mulhe-
res (“as mulheres da minhas fantasias
sexuais eram parecidas com a Mari- Democracy’s Body: Judson Dance The-
lyn Monroe e a Jayne Mansfield”), os ater. No caso de Yvonne Rainer, além
pensamentos suicidas, as depressões da influência dos métodos de com-
e as consultas de psicoterapia, o abor- posição de John Cage baseados no
to feito por uma médica que a humi- acaso e na indeterminação, é eviden-
lhou — também por isso, anos mais te uma forte ligação ao Dadaísmo e,
tarde, manifestou-se pela legalização sobretudo, ao Minimalismo. Não só
do aborto e pelos direitos reproduti- pelas peças que criou (ou que dan-
vos das mulheres ao lado do grupo çou) com Morris e Rauschenberg,
feminista No More Nice Girls. entre elas Parts of Some Sextets (1965),
Em Feelings Are Facts, Rainer des- mas também pelas conexões teóricas
creve também a sua chegada a Nova que estabeleceu entre as novas ten-
Iorque, em 1956. A dança começa a dências na dança americana e as es-
tornar-se num assunto sério. Tem culturas minimalistas. É a partir des-
aulas com Martha Graham, depois sa reflexão que Rainer escreveu, em
com Merce Cunningham. Entretan- 1965, um texto celebrizado como o
to, vai estudar com Anna Halprin na “Manifesto do Não” (“Não ao espec-
Califórnia. É lá que conhece outros táculo, não ao virtuosismo, não à
bailarinos que viriam a formar a ge- transformação e magia e faz de con-
ração Judson e onde se familiariza ta.”) e que, um ano mais tarde, cria
com o uso da improvisação, as ex- a performance Trio A, parte de The
periências de criação colectiva, a Mind Is a Muscle. Ambos ficam para
apresentação de performances nas a história como emblemas da dança
ruas, em parques e noutros espaços pós-moderna e do próprio trabalho
até então considerados não conven- de Rainer — o que não sendo injusto,
cionais para fazer dança (nada é por é bastante redutor.
acaso: Halprin estava com os sit-ins
e todas as marchas do Movimento Uma provocateur
dos Direitos Civis na cabeça). A caminho dos anos 70, altura em
De regresso a Nova Iorque, come- que co-criou o colectivo de dança
ça a aproximar-se do circuito das Grand Union, a inquietação política
artes visuais. Conhece gente como de Yvonne Rainer crescia a passos
JACK MITCHELL/GETTY IMAGES

Robert Morris, Andy Warhol e Ro- largos e começava a contaminar de


bert Rauschenberg, e vê exposições forma mais imbricada a sua produ-
no loft de Yoko Ono, onde assiste a ção artística. Em protesto contra a
concertos de músicos experimentais Guerra do Vietname e o então pre-
como Terry Riley e La Monte Young. sidente dos EUA, Richard Nixon, faz
As coisas começam a crescer. Em WAR, peça onde empregou várias
Julho de 1962, na sequência de tra- metáforas de guerra e tácticas mili-
balhos experimentais criados em
aulas de improvisação e coreografia
tares. No mesmo período, em soli-
dariedade com os cidadãos que fo- “Não sou uma líder tas, questões pós-coloniais e a iden-
tidade lésbica (entre eles Privilege,
a mente continua a expelir lingua-
gem”. Olhando para trás, Yvonne
orientadas pelo músico Robert
Dunn, por sugestão de John Cage,
ram presos por terem queimado a
bandeira americana, cria uma per- ou uma oradora de 1990, que foi premiado no festival
de Sundance). “Por causa da ideia
Rainer sabe que esteve no lugar cer-
to, no momento certo. E que “foi
Rainer e os colegas dão início ao Ju-
dson Dance Theater. As actividades
formance de rua para quarenta pes-
soas em Manhattan, chamada M- experiente, mas abstracta da coreografia e da minha
dança, o filme oferecia-me formas
muito privilegiada”. “Não invejo os
jovens bailarinos de hoje. Nos anos
do grupo decorrem oficialmente até
1964, mas as colaborações entre
Walk e inspirada numa sequência
do filme Metropolis, de Fritz Lang. escrevo bastante mais concretas para construir algo
à volta das questões políticas e so-
60 podíamos alugar um estúdio por
dois dólares à hora e havia bolsas de
muitos dos seus membros continu-
am nos anos seguintes, a par das
A isso acrescenta uma remontagem
de Trio A na Judson Church, dança- e junto-me ciais”, explica a artista. O movimen-
to feminista serviu de impulso. “O
apoio à criação muito maiores. Pelo
meu apartamento em Nova Iorque
suas carreiras individuais.
Juntos ou separados, os represen-
da sem roupa, apenas com bandei-
ras dos EUA atadas ao pescoço — um a manifestações feminismo estava a abrir toda uma
nova paisagem de resistência, diá-
pagava uma renda mensal de 40 dó-
lares, o que hoje seria totalmente
tantes da geração Judson questionam
as definições hegemónicas do que é
protesto com várias acções em que
participaram também o pintor Jas- sempre que posso. logo e discurso, e isso deu-me per-
missão para fazer uma série de in-
impensável”, exemplifica. “Além
disso, tínhamos muitas paredes es-
ou não é dança. Entram em confron-
to directo com a artificialidade ex-
per Johns e a escritora feminista Ka-
te Millett. Há uma atitude de vestigações e também extrapolações
ficcionais a partir da minha vida.”
téticas por partir e atravessar. Isso
não é tão claro actualmente.”
pressionista, o simbolismo e as mi-
tologias da dança moderna de Mar-
Contudo, a dança deixa mesmo
de ser suficiente para canalizar a resistência ao status Em 2000, Rainer regressa à dan-
ça. É convidada por Mikhail Barysh-
Olhando para trás, Yvonne Rainer
só tem uma reclamação a fazer.
tha Graham, dando lugar a um corpo
que é ele próprio. Um corpo funcio-
subjectividade política de Yvonne
Rainer, que vai ganhando cada vez quo que tem estado nikov, super-estrela do ballet, para
coreografar o espectáculo After
“Acho que quando morrer vou ser
lembrada por duas coisas: o Trio A
nal, implicado nas acções e nos ges-
tos do quotidiano: falar, caminhar,
mais consciência do meio privile-
giado e demasiado branco em que sempre comigo, ao Many a Summer Dies the Swan. Des-
de então que se tem focado nas suas
e o manifesto. É o meu destino”,
graceja. Contraproposta? “Nunca
comer, manusear objectos banais.
Contudo, apesar dos princípios par-
tilhados, “a estética da Judson nunca
se insere. Em 1972 lança-se numa
carreira como cineasta, à qual se
dedica exclusivamente entre 1975 e
longo da minha vida” criações, ao seu ritmo. “Agora já não
é tanto sobre a minha presença físi-
ca, mas sobre a minha presença in-
me fizeram essa pergunta. Talvez
gostasse de ser recordada por ser
uma provocateur. E por ter contri-
foi monolítica”, lembra a historiado- 1996, realizando uma série de valio- telectual”, diz. Como resume na sua buído para algo, que é mais do que
ra de dança Sally Banes no livro sos filmes sobre temáticas feminis- biografia, “o corpo entra declínio, podemos pedir.”
8 | ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017
Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
eúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.

O poder de contaminação
de Yvonne Rainer
“Estabelecer procedimentos,
A influência da obra da coreógrafa americana manifesta-se hoje tarefas, investigações, ir
configurando, em vez de partir
de várias formas, directa e indirectamente – incluindo no trabalho para o trabalho com uma ideia
concreta de como vai ficar no
de diferentes gerações de artistas portugueses, como Vera final. Há uma indeterminação à
partida”, enuncia Vera. “A
Mantero, Diana Policarpo e João dos Santos Martins. extensão da minha colaboração
com outros artistas e músicos,
mas também com profissionais
de outras áreas e activistas, está
próxima das ideias de Rainer em
relação às questões de

D
esde 1997 que Serralves omnipresente, seja de um Ela escreveu isto nos anos 60, autoridade, poder e entrega”,
tem feito, de forma modo consciente ou nós não lemos, mas toda a assume Diana, que diz
continuada, um inconsciente. “Vemos a nossa conjectura e aquilo que encontrar “inspiração” no
levantamento do coreografia de Rainer quando íamos vendo — que “trabalho profundamente
trabalho e do legado da vemos movimentos de pedestres, indirectamente já tinha recebido político e feminista” de
geração da Judson Dance gestos e pautas gráficas, trabalho essas influências — levou-nos Yvonne Rainer.
Theater e de alguns dos artistas em improvisação, repetição, naturalmente para necessidades João dos Santos Martins
que gravitavam em redor do onde o dia-a-dia assume parecidas.” assinala ainda o papel que os
colectivo. Não só através da importância na performance.” A No caso de João dos Santos museus têm tido no
apresentação dos seus trabalhos, artista portuguesa destaca ainda Martins (n.1989), um dos mais “reaparecimento e reinteresse”
muitas vezes com a presença dos a abertura referencial cultivada valiosos bailarinos e coreógrafos na obra de Rainer, cujos registos
protagonistas, como dando pela coreógrafa, a lógica de da nova geração da dança existentes são poucos. Nesse
espaço a recriações, adaptações e sobreposição de discursos e portuguesa, a influência de sentido, Vera Mantero considera
retransmissões das suas peças linguagens que podem não estar Rainer é bastante directa e que esse trabalho de resgate da
activados por gerações actuais de conectados entre si. “Fui bastante significativa. No final do memória “e de passagem do
performers e coreógrafos. Steve influenciada por essa ideia de mestrado, que tirou no âmbito da saber” deveria também ser posto
Paxton, Yvonne Rainer, Simone justaposição de coisas que não formação ex.e.r.ce do Centro em prática por instituições
Forti, Charlemagne Palestine, combinam originalmente.” Coreográfico CCN de Montpellier, públicas em Portugal como a
Robert Rauschenberg, Trisha O facto de Yvonne Rainer ter João participou num workshop Escola Superior de Dança,
Brown Dance Company, Elaine estado mais de vinte anos afastada orientado pelos coreógrafos incluindo o reforço da formação
Summers, Deborah Hay, Robert do trabalho coreográfico faz com Xavier Le Roy e Christophe teórica e prática sobre o legado
Morris e Babette Mangolte são os que a sua influência na dança Wavelet em que se propunha de Yvonne Rainer e de toda a
nomes dessa época que já contemporânea não seja tão óbvia trabalhar a partir de Continuous Judson Dance Theater. M.D.
estiveram sob o foco da como a dos colegas da Judson Project — Altered Daily (1969-70),
programação da instituição Steve Paxton e Trisha Brown, peça paradigmática de Rainer.
(alguns deles passaram também lembra Vera Mantero (n.1966), “Foi muito transformador para
por outros espaços como a nome central da Nova Dança mim a sensação de estar a activar
Culturgest, em Lisboa). Um Portuguesa, movimento que veio um processo que é em si a
exercício importante para revolucionar a dança nacional no possibilidade de um trabalho. O
compreender a dança que se faz final dos anos 80 e nos anos 90. facto de os elementos de
hoje, para fixar uma memória e “Quando eu vim ao mundo como discussão, de construção, de
herança tantas vezes difusas e criadora ela já tinha deixado a dúvida, de experimentação
efémeras, e para pôr em dança”, nota Mantero, que viu serem eles próprios os elementos
perspectiva o raio de influência Brown em Lisboa na década de 80 que constituem a obra em si.”
desta geração. e que colaborou com Paxton. Uma operação que introduz
O regresso de Yvonne Rainer, Contudo, a artista e coreógrafa outras problemáticas na “lógica
agora com a apresentação do seu portuguesa sente-se “muito tradicional de fazer dança ou de
trabalho coreográfico na primeira próxima de uma série de coisas” trabalhar com um grupo”, nota.
pessoa e com os seus bailarinos, é que Rainer “propôs e lançou no “[Esta peça] tenta desfazer as ISABEL ORTIZ CARVAJAL
mais uma investida nesse sentido. mundo” — e que acabaram por ter relações de poder entre
No seu caso, interessa perceber uma influência indirecta no seu coreógrafo e bailarinos. São
como é que a sua obra pensamento artístico. ideologias democráticas de como
contamina, directa e “Ela menciona o facto de ter pensar o labor artístico.”
indirectamente, gerações tido muita sorte em ter encaixado Para o coreógrafo, essa
diferentes da dança portuguesa. numa geração, o que é algo que experiência “foi tão marcante”
E como essa influência se alastra eu e as pessoas da minha geração que em 2015 fez Projecto
a outras áreas da produção sentimos muito. Isso cria uma Continuado, peça que é “uma
artística contemporânea — o que energia especial”, diz. “E as ressonância” do processo de
está em sintonia com o próprio misturas disciplinares que ela trabalho de Continuous Project
posicionamento interdisciplinar abraçou e lançou, e nós também. — Altered Daily. “Mais do que o
de Rainer, coreógrafa, escritora, Eu, o Francisco Camacho, o João resultado final, interessava os
activista e cineasta. Fiadeiro, e não só, fomos muito materiais que usávamos, os jogos-
Para Diana Policarpo (n.1986), por aí.” Vera sublinha ainda a acção com almofadas, a
artista e compositora que importância da dança política e justaposição de referências e de
trabalha entre Inglaterra e próxima da realidade estimulada modos de operação em cena. O Vera Mantero sublinha a
Portugal nos territórios das artes por Rainer. “No Manifesto do Não pensar em conjunto e redefinir as importância da dança política e
visuais, som, instalação, que ela escreve, diz não aos fronteiras de autoria.” Também próxima da realidade
performance e escultura, o rasto clichés, não ao virtuosismo, não Vera Mantero e Diana Policarpo estimulada por Rainer; João dos
deixado por Rainer na ao fingimento, não ao heroísmo. referem a importância dessa Santos Martins fala nas
performance e na sua A minha geração já não podia dinâmica laboratorial e desse “ideologias democráticas de
conceptualização é quase aguentar mais esse tipo de coisas. sentido de comunidade. como pensar o labor artístico”
ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017 | 9
Os direito co.
Os conteúdos disponibilizados ao U co – Comunicação Social, S.A.

Uma história de bem e mal, de


pais e filhos, é também uma “Atingimos um novo
história de dores de
crescimento — de um jovem, de
uma jovem, de um sistema
ponto baixo na
político, de um clima planetário nossa política e não
é exagero dizer que
a maior parte dos
americanos
provavelmente quer
Além da Escuridão: Star Trek (2013), a tactear o terreno na sua visão de quem se apoiar”, reflecte Filipe quer coisa neste filme...”. Ele fala do
fazer o que Luke
Thor: O Mundo das Trevas (2013)
ou Capitão América: O Soldado de
como podia crescer a saga: por um
lado, permitia coisas como edito-
Homem Fonseca, para quem Impé-
rio é o melhor filme da saga. “De-
“mundo em que vivemos”, garante,
onde faz particular eco esta história
Skywalker fez
Inverno (2014) carregaram o escuro
dos segundos capítulos no nome.
riais sobre peles na Vogue em que
“The Force of Fur” justificava que
pois, o balanço da negritude, com
filmes mais negros, era feito no res-
“do que é seguir as nossas tendências
humanas, obscuras e narcisistas e de
algures entre
Até As 50 Sombras de Grey são Mais
Negras (2017) à segunda volta e na
as modelos encasacadas convives-
sem com Darth Vader ou C-3P0 nas
caldo disso, [quando] já havia dis-
tanciamento.” Hoje, “a quantidade
onde isso nos leva”.
Procurado para entretenimento, O Regresso de Jedi
nova televisão que não larga os
anos 1980, Stranger Things 2 é uma
páginas de uma revista de moda;
por outro, lembra Chris Taylor no
de filmes de super-heróis e o re-
gresso de Star Wars e Star Trek ao
reencontro e emoção, um filme
Star Wars é apenas um grão de areia e O Despertar da
série que quis intitular-se como fil-
me e enegrecer mais a sua fotogra-
livro How Star Wars Conquered the
Universe, processava Neil Young
cinema [mostram que] há uma ape-
tência enorme, em virtude desse
no zeitgeist, mas é um grão que se
vê a partir de qualquer parte do Força — afastar-se
fia e a sua história.
Dos filmes já estreados ou por
por ter em palco actores vestidos
de jawas, os pequenos seres de
ímpeto escapista que a realidade
nos traz”, por histórias deste géne-
mundo. E o seu tom é também um
sinal. Há quem procure nestas tri- de tudo”, escreve
estrear, alguns com a marca Lucas-
Spielberg bem vincada, muitos in-
mantos castanhos e olhos lumino-
sos do planeta de Luke Skywalker.
ro, por fantasia. E “com a rapidez
actual, agora é tudo em sinfonia”
logias um ponto entre o preto e o
branco, entre o negrume turbulen- Stephen Kent
vocam O Império Contra-Ataca co-
mo referência. O novo filme Mundo
Jurássico: Reino Caído quer ser o
O filme inclui, acredita Chris Taylor,
alguns “dos momentos mais ater-
rorizantes e traumatizantes do ci-
— há tanto escapismo quanto espe-
lhos para os problemas do mundo
que vive fora da sala de cinema.
to da adolescência e a infância lu-
minosa. Stephen Kent, autor de um
podcast sobre Star Wars e política,
no Washington
Império Contra-Ataca dos novos fil-
mes de dinossauros, tal como Bat-
nema infantil”. É Star Wars a olhar
para a idade adulta.
O realizador de Os Últimos Jedi
tem 43 anos e apenas três longas-
lembrava em Abril no Washington
Examiner uma fala da saga: “o bem
Examiner
man v Super-Homem: O Despertar “Império torna a inocência, en- metragens no currículo, todas escri- é um ponto de vista”, como diz um
da Justiça queria ser “um pouco O tusiasmo e optimismo do primeiro tas também por si - Brick, Os Irmãos burocrata tornado ditador, o sena-
Império Contra-Ataca” nas palavras filme em algo bastante negro. No Bloom e Looper - Reflexo Assassino. dor Palpatine, em A Vingança dos
do seu argumentista. O próprio primeiro filme há uma ‘boa guerra’, Assinou também três episódios de Sith (2005).
elenco de Os Últimos Jedi contribui e no segundo Yoda diz que ‘as guer- Breaking Bad (entre os quais Ozy- “Atingimos um novo ponto baixo
para a eterna associação e expec- ras não tornam ninguém grandio- mandias) e terá a seu cargo a futura na nossa política e não é exagero
tativa — o guião do novo filme, tam- so’”, lembra Anne Lancashire. Tam- trilogia Star Wars independente dos dizer que a maior parte dos ameri-
bém escrito por Johnson, “é seme- bém Os Últimos Jedi vão ter guerra, Skywalker. Insiste que não há ecos canos provavelmente quer fazer o O novo filme mostra a guerra de
lhante a como O Império Contra- filmada de uma forma inédita se- da actualidade no filme, mas sim de que Luke Skywalker fez algures en- forma nova, dizem os actores;
Ataca tem um tom diferente”, disse gundo Boyega, num mundo que é humanidade. tre O Regresso de Jedi e O Despertar em O Império Contra-Ataca, a
Adam Driver, aliás o aprendiz de radicalmente diferente daquele em Mas Gwendolyn Christie, a actriz da Força — afastar-se de tudo”, es- guerra idealista de Uma Nova
vilão Kylo Ren, à Variety. que os seus antecessores foram for- dentro da máscara prateada de Ca- creve. Fala da importância do en- Esperança é algo que “não torna
jados. “Sou da geração dos Beatles; pitão Phasma, avisa que “há qual- contro de um meio-termo neste ninguém grandioso”
A idade adulta acreditava que o amor era a única
de Star Wars coisa de que precisávamos”, disse
Os filmes contam histórias e estas Hamill ao Sydney Morning Herald.
são as dos Skywalker, e de rapazes A sua geração acreditava em chegar
e raparigas a aprender as fronteiras ao poder e “não haveria mais guer-
do bem e do mal, com naves e sabres ras, mais discriminação racial, não
de luz místicos à mistura. Kylo Ren, haveria mais ódio para as comuni-
uma das novas figuras da galáxia dades LGBT e trans.(...) E no entan-
muito, muito distante que mais dei- to, o mundo está muito pior hoje
xou a sua marca no reboot mercan- do que na altura”. Num “tempo
til de Star Wars, faz a sua própria muito cínico, pós-Vietname, pós-
viagem no novo filme. “Lembra-me, Watergate”, com o cinema pejado
como rapaz, da transição de menino de “anti-heróis”, prossegue, uma
para homem, [de como] aprender fantasia como Star Wars tocava es-
como manter um certo tipo de ener- ses elementos de forma indirecta,
gia que se tem e a escolher a forma orgulha-se. Hoje, e tendo em conta
como se liberta essa energia. É com que Star Wars veio para ficar, de
isso que ele luta”, diz John Boyega, que Star Wars precisamos?
o Finn dos novos filmes, sobre a per-
sonagem de Driver. Sinfonia de crise
A jornada do herói, segundo Jo- e escapismo
seph Campbell, é o reconhecido “Os filmes na cultura pop acabam
molde de onde Lucas forjou a sua por ser um espelho dos tempos em
história, e de onde Lawrence Kas- que vivemos e até há bem pouco
dan depois partiria para o argu- tempo - uma, duas décadas - o tem-
mento de Império. Um filme que po de crise era acompanhado por
coincide com o momento em que filmes mais solares porque as pes-
a produtora Lucasfilm estava ainda soas precisavam de heróis em
12 | ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017
Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.

O homem que
esculpe com a luz
RICARDO LOPES

14 | ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017


Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.

Vittorio Storaro esteve atrás da câmara em


Apocalypse Now, O Último Tango em Paris ou
O Último Imperador. Veio a Lisboa receber um
prémio de carreira e falar com estudantes, e
explicou ao Ípsilon como constrói a fotografia de
um filme — no caso, Roda
Gigante de Woody Allen. Jorge Mourinha

“H
oje em dia, qualquer português (a tradução literal “cine-
pequena câmara di- matografia” é em português um si-
gital é tão sensível nónimo de “produção cinematográ-
que podemos foto- fica” ou “indústria cinematográfica”).
grafar uma imagem Storaro, fazendo coincidir a volubili-
onde quer que for- dade que identificamos com os ita-
mos. Não é preciso ter nenhuma lianos com o rigor pedagógico de
arte especial. Mas não é isso o mais quem conhece o seu métier de dentro
importante: o mais importante é a para fora, debate sem problemas as
nossa visão pessoal, o nosso olhar contradições que ele próprio levanta:
pessoal sobre essa imagem.” o cinema é um trabalho colaborativo
É por estas e por outras que o ita- entre muitos departamentos artísti-
liano Vittorio Storaro (n. 1940), for- cos diferentes, mas o responsável da
mado ainda nos tempos da película fotografia tem de ter uma visão pes-
e do preto e branco nos anos de ou- soal e intransmissível.
ro do cinema italiano, não tem pro- “O cinema é uma linguagem da
blemas nenhuns em filmar em digi- imagem,” explica, “e é por isso que
tal. Foi, até, um dos primeiros direc- fico satisfeito que, no palco global,
tores de fotografia a abraçar as o nosso trabalho como ‘cinemató-
possibilidades do que então se cha- grafos’ seja reconhecido como arte,
mava “cinema electrónico” — foi em como criatividade, como co-autor
1982 e com a obra-prima maldita Do
Fundo do Coração, a segunda das
suas quatro colaborações com Fran-
cis Ford Coppola.
A primeira, Apocalypse Now

Formado
(1979), valeu-lhe o primeiro dos seus
três Óscares. Os outros dois foram
“No plateau,
ainda nos
tempos da
por Reds (1981) de Warren Beatty e
O Último Imperador (1987) de Ber-
apenas pode existir
película e do
preto e branco
nardo Bertolucci, cineastas que fa-
zem parte do raríssimo “núcleo du-
um director,
nos anos de
ouro do
ro” com que o romano trabalhou
regularmente ao longo de 50 anos
e sem o realizador
cinema
italiano, não
de carreira. Só com Bertolucci, o
“recordista”, foram oito filmes, des-
para me dirigir
tem
problemas
de A Estratégia da Aranha (1970) a
Pequeno Buda (1993), entre os quais
eu não existo.
nenhuns em
filmar em
O Último Tango em Paris (1972) e
1900 (1976). Mais recentemente, tem
É como uma
digital sido mais “fiel” ao espanhol Carlos
Saura (seis filmes) e ao mexicano
orquestra. Não
Alfonso Arau (três filmes) — e a Woo-
dy Allen, com quem acabou de fil-
posso fazer nada
mar a terceira colaboração, A Rainy
Day in New York, no mesmo momen-
sem o realizador”
to em que a segunda, Roda Gigante,
chega às salas de todo o mundo.
O acaso quis que viesse a Lisboa
receber o Prémio Carreira da Aca-
demia Portuguesa de Cinema e dar do filme. A verdade é que se eu não
uma master-class no âmbito do pré- estiver a trabalhar a imagem, não
mio Sophia Estudante, poucos dias estamos a fazer cinema. Um argu-
antes de Roda Gigante se estrear nas mentista pode escrever um livro,
salas nacionais (esta semana). Mas um realizador pode encenar uma
não lhe chamem director de foto- peça de teatro, um compositor pode
grafia, que Storaro não gosta: “No escrever uma sinfonia. Mas nesse
plateau, apenas pode existir um di- caso, não estão a fazer cinema. O
rector, e sem o realizador para me cinema é uma expressão comunal,
dirigir eu não existo. É como uma múltipla; um trabalho colaborativo
orquestra. Não posso fazer nada que convoca as nove Musas da anti-
sem o realizador,” clarifica, num guidade, inseparável da literatura,
intervalo da sua preenchida agenda da música, da pintura, da arquitec-
lisboeta. tura, da escultura...”
Ele prefere a expressão “cinema- Storaro mantém-se na antiguida-
tografia”, que tem vindo a ser mais de clássica para explicar o que dife-
adoptada ao longo dos últimos anos rencia a “cinematografia” da “foto-
para descrever o trabalho de concep- grafia”: “Fotografar é uma expressão
ção e de um filme, embora seja com- que vem do grego photosgraphe, que
plicado encontrar um substantivo em quer literalmente dizer ‘desenhar
ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017 | 15
Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.

CHRISTOPHE D YVOIRE/SYGMA VIA GETTY IMAGES


Na rodagem de um dos “seus”
três Óscares, O Último
Imperador, filme de Bernardo
Bertolucci, cineasta com quem
trabalhou em oito títulos

por Isaac Newton — branco, verme-


lho, laranja, amarelo, verde, azul,
violeta — as que melhor represen-
tavam estas duas personagens, am-
bas apaixonadas por alguém que
está no centro do espectro, que é
o Mickey [ Justin Timberlake].”
Em seguida, Storaro discutiu as
suas ideias com o realizador. “O
Woody disse-me para levar em con-
ta que, nos anos 1950, as pessoas
que trabalhavam em cafés ou res-
taurantes muitas vezes saíam do
emprego ao anoitecer, iam jantar ou
iam a casa e eram capazes de ir de-
pois de jantar trabalhar mais um
bocado. Se a Ginny pára de traba-
lhar ao crepúsculo, então esse é o
momento perfeito, o tom perfeito
de cor para ela. A Carolina vai ter
com a luz’, escrever com a luz, nu- interessante, porque olho sempre cinco anos a fazer. Foi um período aulas à noite, e a «hora mágica» da
ma única imagem. Ora, no cinema para um actor como uma escultura maravilhoso, porque passei muito luz azul quando a noite começa a
o que temos são múltiplas imagens viva. Alguém que está vivo, em mo- mais tempo com a minha família, cair era ideal. Algumas das ideias
durante um período do tempo, daí vimento, mas que tem algo de par- a minha cultura, a filmar no meu vieram do trabalho do ilustrador
que eu prefira a designação de ‘ci- ticularmente físico nas proporções país e nos países por onde o Impé- Norman Rockwell, e das suas ilus-
nematografia’ para o trabalho de do rosto...” Faz um pequeno desvio rio Romano tinha passado, e com trações sobre a vida americana no
imagem de um filme. Trata-se de histórico. “Sabe que, no ponto mais um óptimo realizador, Luigi Bozzo- pós-II Guerra Mundial. O Woody
narrar toda a história, visualmente, alto da minha carreira, depois do ni, que era arquitecto. E não ima- gostou disso, e depois levou-me a
e são necessários muitos componen- meu terceiro Óscar, decidi parar de gina a quantidade de estátuas que Coney Island. Ora, na minha igno-
tes muito diferentes. É preciso tem- fazer filmes algum tempo, porque tive de filmar! O Luigi disse-me que rância, eu não sabia que Coney Is-
po, ritmo.” precisava de pensar, de estudar, de aquelas estátuas não tinham sido land era um parque de diversões, e
Seria, então, preferível ir buscar pesquisar, de me renovar. E aceitei pensadas para ser vistas de um ân- tudo encaixou nesse momento. As
a designação de Tarkovski para o fazer uma série de documentários gulo em particular, e que eu deveria pessoas iam a Coney Island divertir-
cinema, “esculpir o tempo”? Stora- sobre a história de Roma [Roma identificar qual era o melhor ângu- se, ir à praia, andar na montanha
ro pausa. “Esculpir é uma palavra Imago Urbis, 1994-95], que me levou lo, a melhor perspectiva para as russa ou na roda gigante, e tudo isso
filmar. E essa foi uma enorme lição acontecia lá fora. Mas dentro do
para aprender a pôr a câmara em apartamento de Ginny, toda a gente
frente a um actor.” vive com conflitos, e achei que podia
Storaro exemplifica o seu método ser boa ideia ligar a fisiologia da cor
de trabalho usando como exemplo a uma história onde lá fora existe
Roda Gigante, que chega esta sema- um mundo de fantasia e dentro de
na aos cinemas portugueses — e casa o drama é interminável. E o
avança, orgulhoso: “Aposto que Woody disse-me: Vittorio, é perfei-
nunca viu um filme do Woody Allen to, adoro!”
com este uso da cor!”. Tudo come- O tempo não é elástico, e por mui-
ça com a leitura do guião: “Daí tiro to que ficássemos horas a ouvir com
o conceito principal da história, o prazer Storaro falar, ficou muito por
tipo de viagem em que o filme nos perguntar, desde o porquê da sua
vai levar. Ouço o que o realizador adopção do digital como ferramenta
tem em mente, porque sem a his- de trabalho à sua opinião sobre o ac-
tória para visualizar nem o realiza- tual “pânico moral” que rodeia a 7ª
dor para me conduzir não existo. arte — afinal, foi ele que esteve atrás
E aí começo a desenvolver a minha da câmara no tão controverso Último
visão pessoal, e a procurar referên- Tango em Paris, e já vai em três filmes
cias que a possam sustentar — foto- com Woody Allen. Mas voltamos ao
grafias, quadros, mesmo livros.” princípio e perguntamos: como é
Último Tango em Paris, de No caso do filme de Allen, tratou- que você se dá ao luxo de só traba-
Bernardo Bertolucci, e Do Fundo se de fazer coincidir personalidades lhar com quem quiser, e de trabalhar
do Coração, de Francis Coppola, e cores — “a cor como a energia vi- com um núcleo tão pequeno e espe-
filme em que Storaro foi um dos sível de cada personagem. Repare cífico de realizadores?
primeiros directores de na Ginny [personagem de Kate Storaro interrompe. “Ah, não,
fotografia a abraçar as Winslet], que vive muito no passa- não, não é verdade! Não tenho nada
possibilidades do que então se do, e é alguém de apaixonado: ela essa sorte. Tive-a ao princípio, no
chamava “cinema electrónico” tem de ser iluminada por uma cor meu primeiro filme, Giovinezza, Gio-
que represente simbolicamente a vinezza (1969). O realizador Franco
sua personalidade. Carolina [ Juno Rossi estava à procura de um jovem
Temple] tem de ser o contrário, director de fotografia. Era a preto e
porque está sempre a olhar para o branco, e durante um teste de ima-
futuro. Por isso, escolhi entre as gem com um dos actores, logo no
sete cores do espectro identificado primeiro dia, eu estava a tentar mos-
16 | ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017
Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.

Se Roda
Gigante
parece
histriónico ou
barroco, isso é
deliberado
por parte de
Allen que
compreendeu
como esta
história não se
compadecia
com as meias-
-tintas do
trar ao realizador — e de certa ma- realismo
neira a mim mesmo — a relação en-
tre luzes, sombras e corpos. Mas a
dada altura o Franco estava tão ner-
voso que me disse ‘Vittorio, pára lá
com as experiências e dá-me só uma
luz muito forte para eu ver como é
que a actriz é na vida real’. Chamei
o técnico de iluminação e disse-lhe
‘ouviste o realizador? Põe-lhe a luz
que ele quer’. E depois do teste, dis-
se ao Franco, ‘muito obrigado, mas
Uma roda gigante chamada desejo
amanhã não volto.’ ‘Desculpa?’ ‘Tu
não precisas de mim, precisas é de Woody Allen mergulha nos histrionismos teatrais do grande teatro
um electricista que ponha as luzes
onde tu queres.’ ‘Vittorio, meu americano e, na linhagem de Match Point e Crimes e Escapadelas,
Deus, desculpa, eu estava tão ner-
voso, não foi de propósito.’ ‘Não arranca um dos seus grandes filmes recentes.
interessa, tens muitos jovens direc-
tores de fotografias que podem fazer
o que tu queres’. E fui-me embora. Talvez não exista um título mais pequena tragédia familiar entre os entre a Blanche Dubois do Eléctrico
apropriado para esta fase da feirantes. Chamado Desejo e o Terry Malloy
carreira de Woody Allen do que Ginny (Kate Winslet), actriz de Há Lodo no Cais (”I coulda been a
Roda Gigante — já há uns anos que frustrada e criada numa contender...”). E é nesse jogo de
domina a sensação do realizador marisqueira, vai gerindo como referências entre o palco, o ecrã e a
andar, literalmente, “à roda”, em pode a responsabilidade de vida que Allen ganha Roda Gigante.
“Aposto que círculo, umas vezes mais inspirado
outras menos mas sempre sem
aguentar de pé uma família
disfuncional, entre um filho um
A história que criou pode limitar-se
a baralhar as mesmas cartas e dá-
nunca viu um filme sair das coordenadas que lhe são
já reconhecidas. Roda Gigante,
pirómano em construção e um
segundo marido operador de
las de novo, mas tem algo de estufa
claustrofóbica ampliada pela
do Woody Allen felizmente, é um filme inspirado
— e bastante inspirado por sinal,
carrossel e alcoólico em
recuperação. No meio do caos cai
cenografia do apartamento como
uma espécie de palco teatral onde
Roda Gigante
Wonder Wheel
com este uso da pelo grande teatro americano de
dramaturgos como Tennessee
Carolina ( Juno Temple), a
enteada, em fuga do mafioso com
tudo se revela; o salva-vidas,
também ele um romântico
De Woody
Allen
cor!”, diz, Williams ou Eugene O’Neill, e
pelas próprias questões
quem casou e que a quer mandar
desta para melhor, à procura de
candidato à desgraça, tem
aspirações a dramaturgo e às tantas
Com Jim
Belushi, Juno
referindo-se existenciais que perseguem o
Allen mais sério de Crimes e
um poiso para refazer a vida. A
coisa, escusado será dizer, vai dar
oferece a Ginny as obras completas
de Eugene O’Neill. Tudo se encaixa
Temple, Justin
Timberlake
a Roda Gigante, Escapadelas (1989) ou Match Point
(2005). Depois do bastante
para o torto quando as duas
mulheres dão por si atraídas por
numa espécie de “meta-texto”
onde a dimensão teatral da história
esta semana subvalorizado Cafe Society (2016),
Allen volta a ancorar o novo filme
um dos salva-vidas das praias da
zona ( Justin Timberlake).
está sempre presente mas é
transcendida e prolongada pelo e
mmmmm

nas salas no passado, neste caso na Nova


Iorque dos anos 1950 e mais
Winslet, em grande forma, torna
Ginny numa mulher
para o cinema; as suas personagens
são seres flagelados pelo destino,
especificamente no enorme desesperadamente romântica, condenados a penar pelos erros
parque de diversões ao ar livre de disposta a tudo para fugir ao que cometeram, arquétipos tirados
Coney Island, onde instala uma destino que a parece tolher, algures das tragédias clássicas, numa
Tinha 28 anos, era o meu primeiro BOBBY BANK/GC IMAGES mistura de praga judia e castigo
filme, a minha mulher estava grávi- dos deuses gregos (em ambos os No caso do
da do meu segundo filho, quase não casos, tópicos recorrentes no filme de
tinha dinheiro no banco. E estava cinema de Allen). Se Roda Gigante Woddy Allen,
disposto a abandonar o filme. O parece por vezes histriónico ou tratou-se de
Franco veio atrás de mim, e disse- barroco, isso é claramente fazer coincidir
me ‘Espera, não te vás embora, ado- deliberado por parte de um personalida-
ro o que estavas a fazer, peço-te realizador que compreendeu como des e cores
imensa desculpa...’ E fizemos o me- esta história não se compadecia
lhor filme que podíamos fazer.” com as meias-tintas do realismo —
Faz uma pausa. “E fui sempre as- tal como a fantasia de Coney
sim, qualquer que fosse o filme. Es- Island, exige as luzes e o neon, o
tive à beira de ir embora do Confor- simbolismo carregado e puxado ao
mista quando o Bertolucci tomou limite, com riscos formais que não
de ponta o meu operador de câma- são habituais nos seus filmes.
ra, estive à beira de ir embora do Nada de novo, é certo, mas feito
Apocalypse Now quando me quise- com uma inteligência e
ram obrigar a ir processar os rushes maturidade extraordinária que
a Los Angeles em vez de a Roma. tornam Roda Gigante num dos
Não se trata de ser eu a escolher com melhores momentos da
quem quero trabalhar. Trata-se de filmografia de Allen, digníssimo
os realizadores escolherem com sucessor de Match Point e Blue
quem querem trabalhar.” Jasmine (2013). J.M.
ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017 | 17
Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.

Mário Lopes
“C
ada um dos meus dis- onde encontramos as primeiras ver- em descobrir o ontem e o hoje, de
cos é, para mim, co- sões de Pocahontas ou Powderfinger, lhe ver o retrato complexo e contra-
mo uma autobiogra- e por fim editado em Setembro des- ditório formar-se enquanto viajamos
fia em construção”, te ano. Poderia falar da aventura aleatoriamente por cinco décadas
dizia Neil Young a new-wave de Trans (vocoder incluí- de música. Alojados em www.nei-
Dia 1 de Cameron Crowe nas do), em 1982, ou de, em 2006, ter lyoungarchives.com, são a concre-
Dezembro páginas da Rolling Stone em 1975, o
ano do negro e tumultuoso Tonight’s
gravado num ímpeto Living with
War, impressionado com os anos de
tização de um projecto de longuís-
sima data: a disponibilização de
chegou novo the Night, obra-prima regada a te- chumbo da intervenção americana toda a música de Young, de todos
quilla e cocaína e assombrada pela no Iraque e Afeganistão. Podia falar os pontos da carreira e em qualquer
álbum, The morte por overdose de Danny Whit- do trabalho meticuloso que dedicou formato em que se encontrem, que
Visitor. Nesse ten, guitarrista dos Crazy Horse, e
do roadie Bruce Berry. Nessa altura,
a Greendale (2003), o álbum concep-
tual de activismo ecologista, tão am-
este foi diligentemente guardando
desde que, em 23 de Julho de 1963,
mesmo dia, Neil Young tinha atrás de si seis ál-
buns a solo, três com os Buffalo
bicioso quanto falhado, tornado fil-
me e peça teatral. Podia falar, conti-
gravou com os Squires, em Winni-
peg, no seu Canadá natal, o primei-
uma notícia Springfield, um integrado nos Cros- nuemos, de como revelou uma ro single da sua carreira — lado A,
by, Stills, Nash & Young. Tinha ainda intimidade desarmante, lunar, em The Sultan, lado B, Aurora; dois pe-
surpreendente: muita autobiografia para escrever. After the Gold Rush (1970), e de como daços de surf-rock com Hank Mar-
toda a música de Depois de Tonight’s the Night fo-
ram editados mais de três dezenas
se deixou contagiar pela energia pri-
mitiva dos Crazy Horse, a banda que
vin, guitarrista dos Shadows e herói
da adolescência de Young, como fi-
Neil Young foi de álbuns com o seu nome credita- todos os seus amigos músicos con- gura tutelar.
do na capa — descontando reedições sideravam um bando de inaptos sem O trabalho começou no final dos
disponibilizada e edições especiais —, o último dos o talento que Young merecia — mas anos 1980, quando Young reuniu
online. É uma quais, The Visitor, gravado com os
Promise of the Real, a banda dos fi-
ouve-se Zuma, de 1975, ouve-se Sle-
eps with Angels, gravado quase duas
uma equipa para começar a organi-
zar todo o material que fora acumu-
vida (muito lhos do grande amigo e lenda da
country Willie Nelson, e criado co-
décadas depois, e é óbvio que Neil
Young sabia muito bem a preciosi-
lando ao longo do tempo. Ano após
ano, deparávamos com notícias que
preenchida). mo oposição visceral, como tudo em dade que descobrira em Billy Talbot, davam o trabalho como quase con-
Young, à América de Trump, chegou Ralph Molina, Danny Whitten e, cluído e com notas sobre a edição
MICHAEL BUCKNER/GETTY IMAGES

dia 1 de Dezembro. Nesse mesmo após a morte deste, Frank “Poncho” iminente dos primeiros volumes do
dia, chegou a notícia surpresa: toda Sampedro. material arquivado. Sempre noticia-
a sua obra passou a estar disponível do, sempre adiado. Assim foi até
online nos Neil Young Archives. O arquivista 2009, quando se tornou oficial: che-
“A minha cena é expressar o que caótico-metódico gava às lojas o primeiro volume,

Toda
me vai passando pela cabeça. Não Os arquivos agora disponibilizados cobrindo o período 1963-1972, e era
espero que as pessoas ouçam a mi- online por Neil Young permitem-nos anunciada para breve a edição do
nha música a toda a hora. Por vezes saltar de uma gravação para outra, segundo (o que não aconteceu até
é demasiado intensa”, dizia Young ao sabor da descoberta, de um im- agora). Em seu lugar chegaram vá-
ao então jornalista Cameron Crowe, pulso momentâneo, da curiosidade rios álbuns de actuações ao vivo,
futuro realizador de Singles ou Qua- registados entre a década de 1960 e
se Famosos. “Se queres ouvir um os anos 1990, chegaram reedições

a
disco às 11 da manhã, não escolhas remasterizadas de álbuns já edita-
o Tonight’s the Night. Ouve antes os dos ou raridades como o supracita-
Doobie Brothers”, rematou. Lamen- do Hitchhiker.
tamos desiludir Neil Young, força
maior da música popular urbana das Os arquivos agora Dia 1 de Dezembro, a surpresa: ao
anunciado novo álbum juntou-se o
últimas cinco décadas, inquebran-
tável, sempre vital, mesmo quando disponibilizados site onde podemos ouvir (quase)
toda a música editada por Young,

vida online por Neil Young


a sua ânsia de fazer o conduz a becos disponível através do seu novo ser-
sem saída ou o leva a dar tiros rigo- viço de streaming de alta-fidelidade,
rosa e dolorosamente ao lado. La-
mentamos, mas não nos deixa alter- permitem-nos saltar o Xstream. Até 30 de Junho de 2018,
é todo nosso — a partir daí, o acesso
nativa: é que, se não está tudo, mes-
mo tudo, no site agora inaugurado, de uma gravação só será possível através de uma subs-
crição paga.
está muito, está uma imensidão.
para outra, ao sabor Quando em 2003, numa entrevis-

de Neil
“Soas muito bêbado naquele ál- ta ao The Times, lhe perguntaram,
bum [Tonight’s the night]”, comenta
Crowe. “Vejo-me obrigado a dizer da descoberta, tinha ele 57 anos, quais as desvan-
tagens de ver os anos passarem, res-
que é o álbum mais líquido que al-
guma vez fiz”, começa por respon- de um impulso pondeu sem pestanejar: “Cristo! Sou
um velhote. Essa é a desvantagem.
der Young, entre gargalhadas. Acres-
centará, com a razão do seu lado, momentâneo, Olho-me ao espelho e pergunto:
‘Mas quem raio és tu?’. Costumava

Young, da curiosidade em
dado falarmos de uma das suas ser tão cool. Mas não é nada de im-
obras mais memoráveis: “Penso que portante. Estou num jogo para jo-
é algo que as pessoas devem ouvir.
Devem ouvir aquilo a que soa o ar- descobrir o ontem vens, só que já não é assim. O
rock’n’roll seguiu em frente”. O site
tista em todas as circunstâncias”.
Avesso à exposição pública do que e o hoje, de lhe ver é exactamente o que se esperaria de
Neil Young, deste Neil Young, o ve-

aqui
é privado, desconfortável no jogo da
cultura de celebridade desde os pri- o retrato complexo lho sabedor das coisas da vida desde
muito novo (tinha 19 anos e já cho-
meiros sinais de sucesso, Neil Young
nunca se escondeu na sua música, e contraditório rava a infância perdida em Sugar
mountain), o homem em quem arde
nunca procurou maquilhá-la para se
adequar a uma imagem cristalizada formar-se enquanto uma chama, denunciada pelo brilho
intenso e misterioso do olhar, que
dele próprio. “Estarás apenas a fingir
viajamos o impele sempre em frente, que o

e agora
se não deixares a tua música tornar- impele a fazer-se um com a guitarra,
se tão líquida como tu mesmo quan-
do estás pedrado a sério”. Falava de aleatoriamente por ser feérico movido a electricidade
incontrolável.
Tonight’s the Night, mas poderia falar
de Hitchhiker, gravado em 1976 num cinco décadas Organizado como se de um ver-
dadeiro arquivo físico se tratasse —
único dia e noite de lua cheia com o
seu lendário produtor, David Briggs, de música uma das modalidades de pesquisa
consiste em avançar pasta a pasta
18 | ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017
Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.

GIJSBERT HANEKROOT/REDFERNS
Podemos ouvir (quase) toda a
música editada por Young
através do seu novo serviço de
streaming de alta-fidelidade, o
Xstream. Até 30 de Junho de
2018, é todo nosso

(ou seja, ficheiro a ficheiro), ano


após ano, como se folheássemos um
arquivo real —, é um trabalho mo-
derno com design de coisa antiga
(quase sentimos o pó saltar do ecrã,
quase sentimos o cheiro a papel e
cartão). Navegando pela linha tem-
poral (outra das formas de pesqui-
sa), podemos aceder aos discos, à
música contida neles, aos créditos
de produção e à arte gráfica. Botões
alinhados na metade inferior do
ecrã dizem-nos o que andava Neil
Young a fazer, por exemplo, a 14 de
Abril de 1976 (foi o dia em que gra-
vou Ocean girl com Stephen Stills).
Trabalho em construção, tem as-
sinalados álbuns perdidos que co-
nhecerão edição no futuro, como
Chrome Dreams, da década 1970 e
casa original de Like a hurricane, ou
Toast, gravado com os Crazy Horse
no início deste século e que os co-
nhecedores dizem ser uma pérola
por descobrir. Frustra não conse-
guirmos ouvir os Mynah Birds, ban-
da que partilhou com Rick James
(esse, o de Superfreak) no período
pré-Buffalo Springfield, frustra não
conseguirmos ver nenhum dos seus
filmes para além de Journey Throu-
gh the Past, realizado por Young sob
o seu pseudónimo cinematográfico
Bernard Shakey e estreado em 1974
— suspeitamos que muito do que se
encontra inacessível estará disponí-
vel quando o acesso aos Arquivos
passar a ser pago.
Ainda assim, impressiona ver as-
sim e poder viajar assim pela carrei-
ra do homem que, naquele mesmo
Journey Through the Past, ouvia um
radialista passar canções dos Buffa-
lo Springfield e, banda desmembra-
da há um mero par de anos, excla-
mava: “É estranho ouvir todas estas
velhas canções. Estamos num sítio
completamente diferente”. Estáva-
mos, e a viagem continuou, de sítio
diferente em sítio diferente, sem que
Young parasse de olhar para trás
enquanto os olhos se fixavam no
horizonte à sua frente.
Na entrevista ao The Times de
2003, Neil Young comentava a situ-
ação política no seu país de adop-
ção. “O que existe neste momento
é o melhor terreno fértil para a re-
volução que temos nos Estados Uni-
dos desde a era Nixon. É muito fér-
til neste preciso momento. Dentro
de três ou quatro anos, acabará num
levantamento semelhante ao dos
anos 1960”. Quando o jornalista pe-
sava ainda as sábias palavras do ve-
terano muito experiente e muito
vivido, Neil Young exclama: “Mas
repare que já estive errado. Muitas,
muitas vezes”. Isso nunca o fez pa-
rar, como podemos agora compro-
var, andando para trás e para a fren-
te nestes velhos arquivos tornados
matéria muito moderna. À imagem
do homem que os criou, portanto.
ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017 | 19
Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.

D
Arrumada a e início era o cinema. Ou
melhor, a frustração de
chos pessoais. À semelhança, por-
tanto, de filmes como Big Trouble
pequenas histórias encomendadas
pela gigante norte-americana Dark
parceria com Juan Cavia tenha to-
mado um rumo bastante distinto
saga de Dog não conseguir fazer cine-
ma. As Aventuras de Dog
in Little China (traduzido, inventi-
vamente, como As Aventuras de Jack
Horse Comics, o ciclo cumpriu-se e
ficou fechado de vez. “Hoje já não
com a publicação de Os Vampiros,
em 2005. De um momento para o
Mendonça e Mendonça e Pizzaboy (In- Burton nas Garras do Mandarim), conseguiria fazer algo como o Dog outro, desabava a monumentalida-
Pizzaboy, Filipe críveis, Extraordinárias e
Fantásticas, de acordo com cada um
com um Kurt Russell de camisola
de alças e competente mullet a es-
Mendonça com a mesma convic-
ção”, reconhece Filipe Melo. “Sinto
de e adentravam num tom mais
pessoal e fortemente ancorado na
Melo e Juan Cavia dos três tomos) tinham sido, antes
de mais, guião para impossíveis fil-
banjar displicência e heroísmo aci-
dental.
que estamos mais velhos, no melhor
dos sentidos. E, de repente, come-
realidade, a partir da exploração
de uma ideia que começara por ser
aventuraram-se mes de espectacularidade cinema- Foram três volumes de BD que çamos a perceber que as nossas vi- pensada como história de terror,
tográfica, carregados de efeitos es- Filipe Melo escreveu e trabalhou em das são isto, vidas pequenas, em que de zombies e afins, e se converteu
por uma banda peciais de encher qualquer olho parceria com os argentinos Juan Ca- a grande recompensa que encontro numa intensa e fulgurante narrati-
desenhada adolescente e feitos de um heroís-
mo de protagonistas improváveis,
via e Santiago Villa. E foram três por-
que Melo queria desafiar a maldição
é mesmo nas relações com as pes-
soas e na observação como reagem
va em torno da Guerra Colonial. Era
um corte abrupto com os resquícios
em que o tipos de mau feitio, ar de poucos
amigos, relação desconfiada com o
das terceiras obras em cada saga de
contornos épicos — o terceiro capí-
a determinadas situações.”
Daí que depois de ter realizado
de adolescência tardia abundantes
na série anterior e um mergulho
espectacular mundo e cujo compromisso a con- tulo parece estar sempre fadado ao uma curta-metragem de terror em desamparado e emocional num dos
cede terreno tragosto de salvar o planeta se con-
fundia sempre com a satisfação
mais desonroso desastre. Apesar do
enorme sucesso para o modesto
2003 (I’ll See You in My Dreams) e
escalado na popularidade da trilo-
episódios mais traumáticos da His-
tória recente portuguesa.
para a egoísta dos mais comezinhos capri- mercado da BD portuguesa, e das gia de Dog Mendonça e Pizzaboy, a Depois de Os Vampiros era impos-

ambiguidade.
RICARDO LOPES

Depois de
Os Vampiros,
Comer/Beber, em
apresentação
na Comic Con,
convida a um
tom mais íntimo.
Gonçalo
Frota

Carlos Vaz Marques, da Granta


Portugal, convidou Melo e Cavia
a participarem com uma história
no número temático Comer/
Beber: os actos heróicos
surgem imersos em
ambiguidade e aproximam-se
da vida tal como a vivemos

Já não há heróis acident


20 | ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017
Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.

sível voltar atrás. E quando Carlos tos no movimento de rotação da pois foi preciso convencer a amiga Mas as expectativas começam a ser
Vaz Marques, coordenador da revis- Terra, nem de alterar o estado do a autorizar que a história saísse do geridas logo a partir do formato do
ta literária Granta Portugal, convidou mundo na mais ínfima escala. reduto familiar e pudesse chegar à livro. Comer/Beber é bem mais pe-
Melo e Cavia a participarem com Talvez, precisamente, porque tan- casa de desconhecidos. queno do que as obras anteriores
uma história no número temático to em Os Vampiros como agora em O impacto de Majowski prende-se da dupla, ameaça passar desperce-
Comer/Beber, os heroísmos de am- Majowski, a primeira das duas curtas precisamente com a ausência de bido nos escaparates das livrarias,
bição desmedida e os lobisomens de histórias de Comer/Beber — apresen- moral clara. Não há lições óbvias, mas alerta de imediato o leitor para
Tondela já tinham sido enfiados na tação sábado na Comic Con, Porto, embora não faltem sentidos e sim- a necessidade de enfiar a cabeça
gaveta para, muito possivelmente, e Fnac Chiado, Lisboa, segunda -, bolismos a extrair daquilo que se mais dentro das páginas, de ter de
não mais saírem de lá. Agora, a haver Filipe e Juan estão a sujar as mãos conta em menos de 30 páginas. De se deixar sugar pelas histórias e as-
actos heróicos, surgem imersos em de realidade — e a realidade tem, início, quando recebeu os dois gui- sinar um pacto de intimidade que
tanta ambiguidade e são tão pouco com frequência, o dom de perder a ões, o desenhador argentino ligou- está a anos-luz da saga de Dog Men-
claros que se aproximam, afinal, da clareza. Foi no relato de uma amiga se mais a Sleepwalk, investida num donça. A capa, com a imagem de
vida tal como a vivemos — e não co- (Nádia Schilling) acerca do episódio certo imaginário de road movie em uma típica bomba gasolina do inte-
mo a sonhamos ou imaginamos. Não familiar em que o seu bisavô, no dia que o protagonista atravessa vários rior norte-americano, plantada no
há gestos magnânimos, mas decisões da invasão nazi da Polónia, correu a estados norte-americanos para che- meio do nada, parece dizer com to-
turvas, contraditórias — capazes, no esconder a melhor garrafa de cham- gar à afamada tarte de maçã de Do- das as letras: ‘aqui não há nem ex-
limite, de providenciar uma salva- panhe que guardava no restaurante, lores Turk — só mais tarde os moti- plosões nem um mundo à beira do
ção pessoal, mas também de não que Melo pensou de imediato assim vos serão explicados de forma par- abismo’.
gerar nada, não produzir sobressal- que chegou o convite da Granta. De- cial. “A estrutura é mais linear e há As regras ficam, portanto, esta-
um desenlace do qual se poderia belecidas desde o primeiro contac-
sacar uma conclusão mais clara”, to. Comer/Beber é invadido por aqui-
diz Cavia, que não sucumbiu de lo que há de vulgar e mundano nos
imediato aos encantos de Majowski. nossos dias, embora seja atravessa-
Acontece que, nos dias seguintes, do, em ambas das histórias, por um
eram as interrogações sobre aque- último reduto de humanidade e dig-
la narrativa que o inquietavam e se nidade perante as situações mais
recusavam a dar-lhe descanso. adversas — que tanto podem ter ori-
gem em episódios devastadores na
Disparadores História mundial como nos peque-
de memória nos dramas pessoais. Se bem que
“Sinto que estamos Não só o facto de a realidade se in-
filtrar em Majowski ajuda a explicar
em Majowski não custa descortinar
um desarmante choque entre o des-
mais velhos, no esta relação menos imediata, mas
porventura mais sedutora com as
tino individual daquele dono de
restaurante e o destino colectivo —
melhor dos sentidos. histórias que Filipe Melo e Juan Ca-
via têm vindo a desencobrir. É tam-
a forma como à desgraça de um po-
de corresponder a felicidade de
E, de repente, bém o próprio mistério que desper-
ta nos dois criadores, tão intrigados
muitos.
Novidade para ambos foi a sur-
começamos quanto os leitores sobre o que move
aquelas personagens, ariscas q.b.,
presa de que, já depois de o livro
estar entregue e em produção, Ná-
a perceber que as que se furtam a definições inequí-
vocas e instantâneas. O final de am-
dia Schilling ter descoberto um por-
menor que poderia mudar toda a
nossas vidas são bas as propostas não é conclusivo,
não há uma compensação evidente
narrativa. Filipe Melo ainda ficou
um pouco atormentado pela desco-
isto, vidas pequenas, para o leitor. “Se calhar fica na ca-
beça uma sensação mais emocio-
berta de um filho do verdadeiro
Majowski que morrera durante a
em que a grande nal”, admite Filipe Melo, “mas que
obriga a descodificar um bocadinho
guerra, facto que poderia ter con-
sequências no primeiro conto de
recompensa que mais a mensagem — gosto disso e,
no futuro, gostava de ir mais por aí
Comer/Beber. Mas a verdade é que
o guião foi construído a partir de
encontro é mesmo [está já em curso um novo livro ima-
ginado a partir da sugestiva capa do
uma carta de Beatrice Schilling,
mãe de Nádia, que omitia esse dado
nas relações com as disco Le Poète du Piano, de Samson
François].” E cita The Master, filme
factual. Algo que, ao mesmo tempo,
liberta a história para o mais autên-
pessoas e na de Paul Thomas Anderson, como
exemplo dessa reserva em entregar
tico terreno da realidade, em que
há sempre segredos e detalhes que,
observação como os pontos todos ao seu público, dei-
xando-lhe a tarefa de descobrir o
muitas vezes, não chegam a ser des-
tapados.
reagem que fazer e que sentido dar à histó-
ria que lhe é atirada para o colo. “O
Só que essa é também a virtude
natural da fixação de cada história
a determinadas The Master pareceu-me bastante
mais interessante do que a grande
— trazê-la a discussão, levar ao apon-
tar de correcções e descobrir-se,
situações” maioria das coisas que tenho visto”,
explica. “Não se sabe muito bem o
afinal, mais do que se sabia à parti-
da. Até porque o que realmente in-
Filipe Melo que se acabou de ver, tem de se ficar
a processar.”
teressava a Filipe Melo nestes dois
contos era explorara a ideia de como
Juan Cavia alinha numa posição uma bebida ou uma comida podem
semelhante, uma assunção de risco, disparar uma série de memórias.
de “não querer ficar bem com deus Acontece que estava a pensar nas
e com o diabo”, sabendo que os lei- memórias tanto das personagens
tores mais acérrimos de Dog Men- quanto dos leitores. Ignorava que
donça e Pizzaboy poderão não se pudesse fazê-lo com os detentores
sentir preenchidos pela ausência de de uma história com certificado de
um final limpo, sem pontas soltas. autenticidade.

ais na BD de Melo e Cavia ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017 | 21


Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.

O piano
de Filipe
Raposo
percorre Depois de ter nove”. Uma pequena extirpação da tivos, um por capítulo, que repete, na, desaparecesse qualquer barrei-

as ruas de habituado o seu


piano a conviver
realidade que abre para o ciclo
maior da vida traçado por Lisboa,
Crónica Anedótica, da chegada de
desenvolve, estende, adultera e usa
como trampolim para outras ideias,
mas que teve sempre presente a re-
ra entre o espectador e o interve-
niente, e um pudesse, por breves
instantes, habitar o corpo e o espa-

Lisboa
comboio à cidade, quase a direito flexão sobre como “simbolizar a ço do outro.
com as imagens para as amas-de-leite dos bebés na
Misericórdia, até ao final em que a
realidade daquele período histórico,
final dos anos 20 e princípios dos
Ao interpretar a música de um
filme sobre a sua cidade, Filipe Ra-
do cinema mudo velhice e a infância se fundem, en-
quanto os velhos fabricam os seus
anos 30” e, ao mesmo tempo, “tra-
zer não só a contemporaneidade
poso entende que este é um convite
— que espera extensível ao especta-
em sessões da próprios caixões e revolvem a terra para o filme mas estabelecer uma dor — para uma reflexão sobre o es-
que os há-de engolir. “Como se vive, ponte entre passado e presente”. paço que habitamos, sobre as ruas
Cinemateca como se nasce em Lisboa”, dizem “Quer queiramos quer não”, diz, e as figuras locais por que passamos
Portuguesa,

H
á um plano de Lisboa, Cró- os intertítulos iniciais do filme de “ao revisitarmos esse passado esta- todos os dias, varrendo-as automa-
nica Anedótica, sinfonia Leitão de Barros. mos a revisitar-nos a nós próprios.” ticamente para a irrelevância por
urbana que Leitão de Bar- Filipe Raposo Há muito que Filipe Raposo vem Daí que tenha acontecido olhar pa- serem personagens demasiado pre-
ros filmou em 1930, de que criando cumplicidade e intimidade ra aquelas caras, que o olhavam de sentes, próximas e previsíveis. Aqui
Filipe Raposo gosta espe- junta agora com estas imagens. Com estas e ou- volta através do tempo e do cinema, quer-se virar esse tabuleiro ao con-
cialmente. As mulheres
saem da lota, equilibrando na cabe-
música original tras pertencentes a outras sinfonias
urbanas essenciais — Berlim, Sinfo-
e lhe parecesse reconhecê-las, como
se a distância temporal se esbatesse
trário, abrir um espaço para a con-
templação dessa aparente banalida-
ça as canastras amontoadas de pei-
xe, e descalças assentam as solas dos
a um título nia de Uma Capital (Walther Rutt-
mann), O Homem da Câmara de Fil-
e se encontrassem de súbito nas ru-
as de uma cidade que “é uma espé-
de. Por isso, o pianista não resiste a
deixar que as suas próprias memó-
pés no chão num gesto que para o fundamental do mar (Dziga Vertov) ou Manhatta cie de palco que nos recebe, geração rias emocionais dos bairros se ma-
pianista é sinónimo de uma certeza (Paul Strand e Charles Sheeler) -, após geração”. nifestem. Talvez por defeito profis-
e de uma consciência do dia que as cinema mudo que tem acompanhando com as no- sional, admite, seria capaz de “tra-
espera. Há sorrisos nos seus rostos, português: tas do piano, ao vivo, em sessões da Um mapa sonoro çar um mapa da cidade com o mero
mas que mal disfarçam as horas que Cinemateca Portuguesa dedicadas A experiência que Filipe Raposo recurso ao som”, pensando como
têm pela frente, pouco enganam em Lisboa, Crónica à histórica cinematografia do cine- vem acumulando nas teclas do pia- as pedras da calçada, o chão de al-
relação ao que se imagina “que seria ma mudo. Guiando-se, nalguns ca- no enquanto fazedor de música que catrão o eco nos becos, a música que
vender, o que seria sobreviver num Anedótica, sos, por instruções oferecidas pelos acompanha cinema mudo foi-lhe se escuta nalguns pontos, a distân-
período dificílimo, em que se uma
destas mulheres não saísse de casa
sinfonia urbana realizadores — que chegavam a ela-
borar uma playlist rigorosa a ser
ensinando que tão importante quan-
to as notas que toca são aquelas que
cia entre as paredes, os espaços
abertos ou fechados, o tráfego aju-
para trabalhar isso apenas significa-
va ausência de rendimento”.
de Leitão de executada como acompanhamento
-, noutras situações segue apenas
silencia. Não podendo ter Leitão de
Barros ao seu lado para o questionar
dam a dar forma a uma ideia sonora
de cada lugar.
Essa dureza que impregna as ima- Barros. aquilo que a intuição e a sua relação sobre a justeza das suas opções, ten- Nas imagens de Alfama, por exem-
gens é, por outro lado, contrapesa- com os frames vai sugerindo e di- tando “adivinhar aquilo que o rea- plo, o piano vagueia pelo tradicional
da por uma poética carregada, so-
bretudo, nas sequências em slow
motion, quando esses gestos repe-
Gonçalo Frota tando no momento. Mas se o filme
de Leitão de Barros fora já alvo da
sua leitura musical na Cinemateca,
lizador gostaria que fosse feito”,
frisa que “tem de se partir para um
trabalho como este com um grande
Fado Cravo, enquanto o slow motion
regressa e acompanha os putos a
brigar-se em mais uma sequência
tidos e gastos do dia-a-dia se revelam o convite de Tiago Baptista, director respeito pela imagem”. Afinal, está coreográfica — “ao retardador, as
autênticas coreografias. É assim que do ANIME, para registar os seus a acrescentar música a uma obra bofetadas são carícias, diz o intertí-
acontece na belíssima marcha das apontamentos sonoros numa edi- que não lhe pertence, e não a gravar tulo. Uma pequena manipulação de
peixeiras à saída da lota, numa qua- ção em DVD de Lisboa, Crónica Ane- um disco a solo em que apenas ele uma cena encenada, parte de um
lidade de movimentos quotidianos dótica — que inclui ainda as curtas responde pelo objecto final. Por is- filme que finta o documentário ao
que o pianista compara a uma esté- Malmequer e Mal de Espanha, do so, em certos momentos, Filipe op- acolher contantes desvios ficcionais,
tica ressoadora da linguagem da mesmo realizador e também musi- ta por deixar o piano soar até o som mas que não deixa, ainda assim, de
coreógrafa alemã Pina Bausch. O cadas — obrigou a um trabalho bas- se extinguir, subtraindo-se do filme, retratar a pobreza, as enormes as-
pianista encanta-se com uma poesia tante mais meticuloso e detalhado num apelo para que o olhar de cada simetrias sociais, o peso das insti-
que é também metafórica, das mu- sobre os nove capítulos que com- um seja aprisionado pelas imagens tuições na educação e formatação
lheres que carregam o alimento, põem o filme. e pelos dramas diários de sobrevi- das crianças e a dureza do trabalho
movidas por “uma urgência de avan- Essa fixação da música num regis- vência que, em diversas ocasiões, braçal. Um filme para, depois de ver,
çar e de fazer com que a própria to gravado levou a que Filipe Rapo- se atravessam na frente da câmara. continuar a olhar em volta. E não
espécie não pare, continue e se re- so trabalhasse a partir de vários mo- Como se, retirando a música de ce- somente para trás.

22 | ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017


Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.

The Letters of Sylvia Plath tem


cartas que a autora de Ariel
escreveu desde os oito anos até
às vésperas da sua morte,
a 11 de Fevereiro de 1963,
quando aconchegou os dois
filhos, fechou a porta da cozinha
e pôs a cabeça no forno depois
de ter ligado o gás

A
São quase perspectiva do leitor é
sempre a da tragédia. Nin-
1400 cartas guém lê hoje Sylvia Plath
alheio ao desfecho da vida
em dois volumes, da escritora que se suici-
dou aos 30 anos. Mesmo
a maioria delas no momento em que se está peran-
inéditas. te uma carta feliz. “Querido amor
Teddy... de hoje a uma semana es-
O primeiro tarei a apanhar o comboio muito
cedo para te encontrar e começar a
volume desta viver o meu 25º aniversário”, escre-
veu a 20 de Outubro de 1956 ao ma-
integral acaba rido, o poeta Ted Hughes, com
de sair nos quem casara em Junho desse ano
depois de um fugaz e apaixonado
Estados Unidos namoro de pouco mais de três me-
ses. Foi uma Sylvia também feliz que
e em Inglaterra escreveu à mãe a 25 de Fevereiro:
“Conheci (...) um brilhante poeta
e revela ex-Cambridge (...). Provavelmente
não o voltarei a ver (...) mas entre-
uma mulher tanto escrevi o meu melhor poema
ambiciosa, sobre ele: é o único homem que co-
nheci forte o suficiente para se equi-
com sentido de parar a mim; a vida é assim.” Em
Outubro, Sylvia começava o seu se-
humor, relação gundo ano em Cambridge, onde
estudava graças a uma bolsa da fun-
obsessiva com dação Fullbright, e Hughes traba-
a comida, que lhava em Londres. Quase todos os
dias se escreviam e em todas as car-
gostava de moda tas Sylvia demonstrava-lhe a sua
paixão e a impaciência por viver
e queria ser feliz. longe dele.
As cartas de Sylvia a Ted estão no

A vida epistolar
fim do primeiro volume de uma
obra gigantesca que dificilmente se-
rá publicada em português e são o
grande trunfo desta integral. The
Letters of Sylvia Plath, com organi-
zação de Peter K. Steinberg e Karen
V. Kukil, reúne 1400 cartas escritas

de Sylvia Plath
por Sylvia Plath e dirigidas a mais
de 140 pessoas. O primeiro volume
acaba de sair nos Estados Unidos e
em Inglaterra e torna publicas 838
dessas missivas em 1400 páginas
organizadas cronologicamente. O
segundo volume contempla a cor-

é publicada para
respondência dos últimos cinco
anos da vida de Plath, não deve che-
gar às 500 cartas, mas é aquele que
reserva a maior curiosidade. Deverá
sair no Outono de 2018.
A fazer a ponte entre o primeiro e
o segundo volumes estão as cartas

desafiar o mito
de Sylvia a Ted. “Amo-te e estou mor-
ta morro para estar contigo, deitada
na cama contigo, beijando-te por
toda parte & tendo apenas pensa-
mentos selvagens & dando & beijan-
do a tua querida e amada boca

Isabel Lucas ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017 | 23


Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.

Nas cartas, muitas delas


ilustradas, há desenhos de
alimentos, como há de modelos
de vestidos e casacos, flores,
gente a praticar desporto. Há
nisso tanto de pueril quanto de
manifestação de outros talentos

(...) Amo-te teddy teddy teddy e gos- tura irregular e questionável quanto Temos Sylvia em relação a Ted Hu-
taria de estar contigo, de viver con- ao interesse que podem ter para o ghes, em relação ao pai, Otto Plath,
tigo...”, escreveu a 19 de Outubro de público todas as cartas de uma crian- que morreu tinha ela oito anos; Syl-
1956. Nessas cartas estamos perante ça ou adolescente, por mais brilhan- via em relação à poesia, à ambição,
uma Sylvia mais apaixonada do que te que tenha sido, sem passar pelo à maternidade, à depressão, ao sui-
a dos diários, mas também de uma crivo da selecção ou edição. The Let- cídio. Mas quem foi Sylvia além do
Sylvia consciente de estar ao lado de ters of Sylvia Plath tem cartas que a que todos os biógrafos já escreveram
um homem volúvel. Numa carta à autora de Ariel escreveu desde os e os intérpretes da sua obra têm afir-
mãe, descreve-o como “um destrui- oito anos até às vésperas da sua mor- mado? É uma pergunta que atraves-
dor de coisas e de pessoas”. E apenas te ocorrida a 11 de Fevereiro de 1963, sa este livro em dois volumes, mas a
um breve exemplo das extensas pá- quando, separada de Ted há seis me- que o livro não dá resposta, embora
ginas onde lhe conta o seu dia a dia, ses, aconchegou os dois filhos, Frie- queira contribuir para chegar perto
descreve as paisagens por onde pas- da, de três anos, e Nicholas, de um, da essência dessa mulher que um dia
sa, traça planos de uma vida comum, fechou a porta da cozinha e pôs a sua disse à mãe que gostaria que a famí-
confessa ambições, relata o trabalho, cabeça no forno depois de ter ligado lia tivesse orgulho nela, a visse como
expõe dúvidas. o gás. Ainda casada, Hughes herdou “uma pessoa versátil, responsável,
Esse núcleo de 16 cartas onde Syl- o espolio e entre a culpa e o dever feliz”, mas que deixou uma sombra
via Plath se revela dominada por moral, foi publicando a obra, então densa na sua passagem pela vida.
uma paixão invulgar foi disponibili- quase toda inédita, da mulher que “Sylvia Plath foi muitas coisas para
zado por Frieda Hughes, a filha so- conhecera seis anos antes e tinha muita gente: filha, sobrinha, irmã,
brevivente do casal — Nicholas sui- uma ambição suprema: ser uma po- aluna, jornalista, poeta, amiga, artis-
cidou-se em 2009 —, uma atitude eta aclamada. Em 1965, publicou ta, namorada, mulher, romancista,
que a própria justifica no preâmbu- Ariel, e em 1981 The Collected Poems, colega e mãe; mas talvez a caracte-
lo deste volume, um texto que pare- com toda a produção poética de Syl- rística mais ignorada da sua vida é a
ce feito em defesa do pai. “Sempre via desde que o conheceu. Um ano de que foi humana e, enquanto tal,
foi minha convicção que a razão pe- depois, saíam The Journals of Sylvia falível. Ela deu erros ortográficos, fez
la qual a minha mãe suscita o inte- Plath. A vida e a obra de Plath fica- pontuação incorrecta, mentiu, citou
resse dos leitores se deve ao meu pai, vam, assim, indissociáveis não ape- mal, exagerou, foi sarcástica, e por
porque, independentemente do mo- nas do suicídio, mas da depressão vezes brutalmente honesta. Todos
do como o casamento de ambos ter- em que parece ter vivido parte da estes aspectos, e mais alguns, estão
minou, ele honrou o trabalho da vida e, sobretudo, da relação com em Letters of Sylvia Plath”, lê-se logo
minha mãe e a sua memória ao pu- Ted Hughes. “Mergulhar neste tra- no início da introdução ao primeiro
blicar Ariel, a colectânea de poemas balho foi ter acesso a um olhar muito volume, como um quase aviso ao
que a lançou no conhecimento pu- íntimo sobre como Plath se relacio- leitor de que vai ser deixado só com
blico, depois da sua morte. Ele, tal- nava e se comportava com determi- o ser humano e não com o mito ao
vez mais do que ninguém, reconhe- nadas pessoas: a mãe, os namorados, logo das centenas de páginas preen-
ceu e percebeu o seu talento extra- as amigas, o marido, os editores. Em chidas por cartas reveladoras de uma
ordinário”. Peter Steinberg agradece: cada pessoa com quem se corres- complexidade que o mito, como
“Eu estava muito nervoso por ter de pondeu há uma visão única da na- qualquer mito, simplifica.
falar com Frieda. Acho muito cora- tureza das suas relações”, diz Peter Subjacente a esta edição encon-
joso da parte dela escrever o que Steinberg, o responsável por ler e tramos a ideia de autenticidade,
escreveu e estou muito grato por nos digitar cada uma das palavras escri- que, alegam os organizadores, edi-
ter facultado as cartas a Ted Hughes. tas por Sylvia Plath, trabalho tão tores e colaboradores, dificilmente
Foi um acto de confiança e de gene- intenso, como capaz de mudar a sua se encontra em todo o material es-
rosidade dar ao mundo essas cartas visão da mulher que as escreveu. crito ou divulgado de e sobre Sylvia.
privadas”, admite numa conversa Um ser humano. Não uma lenda, As cartas estão transcritas tal qual
com o Ipsilon, confirmando a emo- não um mito. “Nas cartas temos tan- foram escritas, sem edição ou qual-
ção que o segundo volume promete. tas vozes diferentes e tantos aspec- quer espécie de contextualização,
“O segundo volume pode ser difícil tos diferentes da sua personalidade com minúsculas onde a norma esti-
para muitos leitores. Foi muito emo- que dizer ‘humano’ é como que de- pularia o uso de maiúsculas, subli-
tivo do ponto de vista editorial por- safiar qualquer outra classificação. nhados, incorrecções. Como auxi-
que sabemos sempre o que está pa- Não é apenas uma poeta, não é ape- liares de leituras apenas 3 600 notas
ra vir. No fim do volume I, temos nas uma irmã, não é só uma filha ou de rodapé que não procuram ser
Sylvia Plath e Ted Hughes muito sobrinha. É tudo isso. É tudo o que exaustivas. E os autores insistem
apaixonados e a começar uma bela cada um de nós também é. À medida num ponto: com esta edição integral
relação e a criar uma parceria. Nós que as pessoas vão lendo o livro ela das cartas estamos perante uma “au-
temos a perspectiva de já saber o que vai ficando mais acessível”, acrescen- tobiografia”, “narrada pela autora
se segue, mas ler as cartas só por si ta este académico que descobriu a através da sua correspondência”.
é duro”, salienta. obra de Plath depois de um desgosto Afirmar isto no prefácio é outro de-
Neste, o dos primeiros anos de Syl- amoroso e teve uma ambição: con- safio: uma autobiografia, e conhe-
via, é preciso, pois, passar as mil pá- tribuir para acabar com alguns estig- cendo melhor Sylvia Plath também
ginas para chegar ao auge de um livro mas e ajudar a ultrapassar o mito que depois destas cartas, teria decerto
que, ao querer inclui tudo, é de lei- surge inseparável de Sylvia. sido submetida a edição pela autora.

24 | ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017


Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.

Um dos objectivos desta edição


em dois volumes é ajudar a
ultrapassar o mito que surge
inseparável de Sylvia Plath

Esta não foi. Frieda Hughes diz mais pueril quanto de manifestação de
ou menos o mesmo no preâmbulo outros talentos. A voz é outra vez de
a esta edição: “Ela esta melhor ex- Steinberg: “Uma vez eu estava a fa-
plicada através das suas próprias lar com uma das melhores amigas
palavras”, sublinha, acrescentando de Plath sobre isso, as descrições de
que capta o espírito real do tempo alimentos, e ela disse-me que havia
em que viveu, bem como a sua “pai- sempre muita comida em casa dela
xão pela literatura e vida — e pelo e que a comida era sempre prepa-
meu pai, Ted Hughes”. Na senda rada com cuidado. Sylvia adorava
dessa fidelidade, Peter Steinberg comer e escrever sobre isso. Quan-
digitou cada erro, gralha, falha, in- do estava a recuperar da primeira
coerência em cada carta, deixando tentativa de suicídio em 1953/54 [ti-
a nu toda a contradição e, subjacen- nha 20 anos] dava grandes jantares
te, a ideia de construção: Plath es- e a partir daí tornou-se uma cozi-
condia a autenticidade num jogo nheira confiante; era também uma
que dominava, o das palavras que boa doceira.”
alinhava de forma a ajustarem-se ao O investigador quer sublinhar o
interlocutor. Era inautêntica ou a lado desarmante da escritora que o
sua autenticidade era indissociável atraiu pelo modo como era capaz
desse ser duplo que ela tão bem en- “de dar expressão, em prosa como
tendeu na obra com o mesmo titulo em poesia, às suas experiências pes-
de Dostoiévski? soais ampliando-as para uma dimen-
Deixar tal qual Sylvia escreveu foi são universal”, refere, e não se fica
uma opção. “Tudo começou em por aí. “É um talento incrível! Sem-
2012. A co-autora, Karen V. Kukil, pre me senti intimidado pela Sylvia
recebeu um convite da editora para Plath por ser uma artista tão genial
organizar um livro com as cartas de que desde muito cedo sabia exacta-
Plath e pediu-me para fazer o traba- tificar o mergulho profundo que foi ção até, mas as cartas foram escritas mente o que queria fazer. Sempre
lho de transcrição”, conta Steinberg,
acentuando a intensidade da sua
este trabalho. “Foi ter acesso a um
olhar muito íntimo sobre o modo
não só para ela mesma, mas tam-
bém para as pessoas a quem são
“Não é apenas uma quis ser escritora e trabalhou muito
para ser bem sucedida e chegar ao
missão. Ele lera Letters Home, uma
compilação das cartas de Plath edi-
como Plath se relacionava e se com-
portava com determinadas pessoas:
endereçadas”, refere.
E nesta fase da vida de Sylvia Pla-
poeta, não é apenas objectivo de ver o seu trabalho pu-
blicado. Mas com as cartas podemos
tadas pela mãe em 1975 com o es-
crutínio de Ted Hughes. Consta que
a mãe, os namorados, as amigas, o
marido, os editores, cada pessoa
th, os seus primeiros 25 anos, a maio-
ria é dirigida à mãe, Aurelia, com que
uma irmã, ver os bastidores do que foi o desen-
volvimento do seu carácter.”
com isso, também ela queria huma-
nizar a filha, resgatá-la da sombra
com quem se correspondeu dá-nos
uma visão única da natureza das
manteve uma relação tão próxima
quanto complexa. Cartas literárias,
não é só uma filha Voltamos à autenticidade. As car-
tas que revelam o que mais nada
da doença e do mito.
Aqui, pelo contrario, esta tu-
suas relações”, continua um dos au-
tores de uma obra que está a susci-
filosóficas, domésticas, intimas ou
meras descrições do quotidiano, são
ou sobrinha. parece capaz, Sylvia por ela mesma,
sem mediação. É o discurso dos edi-
do. “Li o volume de cartas de uma
vez, nos anos 90, e fiquei muito de-
tar alguma polémica por isso mes-
mo: a pretensão de, ao incluir tudo,
muitas vezes redundantes, mas de-
monstram a força que Sylvia acredi-
É tudo isso. É tudo tores que já sofreu fortes críticas em
jornais como o Guardian ou o New
siludido. Não voltei a trabalhar com
as cartas de Plath”, refere Peter
perder a força e interessar apenas a
uns poucos investigadores. Mas nun-
tava ter. Ela não era apenas um ser
depressivo, como, aliás, também su-
o que cada um de York Times. Questionavam nada
mais do que a extensão do livro e o
Steinberg que chegou a Plath num
momento infeliz da sua vida.
ca houve duvidas quanto ao objec-
tivo. Só não se sabiam a extensão
blinha Steinberg, salientando o sen-
tido de humor que os leitores conhe-
nós também é. interesse de grande parte das cartas.
Sobretudo neste primeiro volume.
“Foi em 1994, a minha namorada
deixou-me e em consequência disso
das epístolas de Sylvia Plath, a re-
metente atenta.
cem em A Campânola de Vidro, úni-
co romance de Plath, publicado
À medida que as Até chegar a Ted Hughes. O interes-
se surge a partir daí. Outra vez Ted.
fui frequentar aulas de poesia. Le-
mos Lady Lazarus, Daddy e muitos
“Algumas das cartas foram escri-
tas de forma muito consciente, para
pouco tempo antes da sua morte, e
podem confirmar aqui.
pessoas vão lendo Sylvia em relação a Ted, na relação
com Ted, na tragédia em que tudo
outros poemas. Fiquei muito inte-
ressado em Plath e pedi ao meu pro-
uma audiência muito particular,
soubesse ou não que alguém pode-
“É um humor muito eficaz”, afir-
ma Peter Steinberg. “Numa das pri-
o livro ela vai ficando terminou para ela quando ele foi
viver com outra mulher. O ultimo
fessor mais informação; ele disse-
me que não queria que eu lesse Pla-
ria trabalhar essas cartas no futuro.
Não sei. Não sei quanto do que ali
meiras cartas que enviou à família
quando estava num campo de fé-
mais acessível” volume é isso. As cartas de Sylvia
sobre isso. O que trarão? Sobre o
th. Nunca me deu uma razão, mas
um dia um amigo levou-me à biblio-
esta é uma representação, uma per-
formance, ou quanto é só o produto
rias, conta que come muito. Vivia-se
a II Guerra Mundial e havia raciona-
Peter Steinberg, regresso a América, os filhos, e a ida
para Londres, a decisão da morte.
teca e mostrou-me mais obras e
quanto mais lia mais interessado eu
natural da sua vida. Acho que os bi-
ógrafos no futuro vão ter muito mais
mento. Ela escreveu que quando
chegasse a casa podiam comê-la em
editor Neste livro, a ultima carta é dirigida
a um editor americano; diz-lhe que
ficava no trabalho e na vida dela. para chegar perto do que foi Sylvia substituição de porco.” Steinberg ira aos Estados Unidos, que quer
Lembro-me de muitos amigos me Plath quando trabalharem estas car- ri. A comida parecia ser uma das fazer tudo para que lhe publiquem
dizerem que isso era uma fase pela tas em conjunto com os seus diários. obsessões de Plath. Nas cartas, mui- a obra lá. No país onde nasceu a 27
qual todos passavam. Já estou nessa Temos duas pessoas diferentes; nos tas delas ilustradas, há desenhos de de Outubro de 1932, Em Boston,
fase há muito tempo, há 23 anos. seus diários estão os seus pensa- alimentos, como há de modelos de Massachussets. Foi para lá que es-
Nunca pensei, é mais de metade da mentos privados e ela usa-os de for- vestidos e casacos, flores, gente a creveu a primeira carta desta colec-
minha vida”, diz Steinberg para jus- mas muito distintas, com imagina- praticar desporto. Há nisso tanto de tânea, ao pai, que morreria.

ípsilon | Sexta-feira 15 Dezembro 2017 | 25