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11/02/2018 Os africanos que propuseram ideias iluministas antes de Locke e Kant - 24/12/2017 - Ilustríssima - Folha de S.

Paulo

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Os africanos que propuseram ideias
iluministas antes de Locke e Kant

DAG HERBJORNSRUD
TRADUÇÃO CLARA ALLAIN
ILUSTRAÇÃO FABIO ZIMBRES
24/12/2017 02h00

Fabio Zimbres

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Ilustração de Fabio Zimbres

RESUMO Os ideais mais elevados de Locke, Hume e Kant foram


propostos mais de um século antes deles por Zera Yacob, um etíope
que viveu numa caverna. O ganês Anton Amo usou noção da
filosofia alemã antes de ela ser registrada oficialmente. Autor
defende que ambos tenham lugar de destaque em meio aos
pensadores iluministas.

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Os ideais do Iluminismo
O que você procura? são a base de nossas democraciasBuscar
e
universidades no século 21: a crença na razão, na ciência, no
ceticismo, no secularismo e na igualdade. De fato, nenhuma outro
período se compara à era do Iluminismo.

A Antiguidade é inspiradora, mas está a um mundo de distância das


sociedades modernas. A Idade Média é mais razoável do que sua
reputação sugere, mas ainda assim é medieval. A Renascença foi
gloriosa, mas em grande medida graças ao seu resultado: o
Iluminismo. O romantismo veio como reação à era da razão, mas os
ideais dos Estados modernos não se expressam em termos de
romantismo e emoção.

Segundo a história mais contada, o Iluminismo tem origem no


"Discurso do Método" (1637), de René Descartes, continuou por
cerca de um século e meio com John Locke, Isaac Newton, David
Hume, Voltaire e Kant e terminou com a Revolução Francesa, em
1789 —talvez com o período do terror, em 1793.

Mas e se a história estiver errada? E se o Iluminismo puder ser


associado a lugares e pensadores que costumamos ignorar? Tais
perguntas me assombram desde que topei com o trabalho de um
filósofo etíope do século 17: Zera Yacob (1599-1692), também
grafado Zära Yaqob.

Yacob nasceu numa família pobre numa propriedade agrícola perto


de Axum, a lendária antiga capital do norte da Etiópia. Como
estudante, ele impressionou seus professores e foi enviado a uma
nova escola para estudar retórica ("siwasiw" em ge'ez, a língua
local), poesia e pensamento crítico ("qiné") por quatro anos.

Em seguida, estudou a Bíblia por dez anos em outra escola,


recebendo ensinamentos dos católicos ePositivo
dosStilo
coptas,
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bem como da
tradição cristã ortodoxa, majoritária no país.
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Na década de 1620, um jesuíta português convenceu o rei Susenyos


a converter-se ao catolicismo, que não tardou a virar religião oficial
da Etiópia. Seguiu-se uma perseguição aos livres-pensadores, mais
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intensa a partir de 1630. Yacob, que nessa época lecionava na região
de Axum, havia declarado que nenhuma religião tem mais razão que
outra —e seus inimigos o denunciaram para o rei.

Yacob fugiu, levando apenas um pouco de ouro e os Salmos de Davi.


Viajou para o sul, para a região de Shewa, onde se deparou com o rio
Tekezé.

Ali encontrou uma área desabitada com uma "bela caverna" no


início de um vale. Construiu um muro de pedra e viveu nesse local
isolado para "encarar apenas os fatos essenciais da vida", como
Henry David Thoreau descreveria uma vida também solitária, dois
séculos mais tarde, em "Walden" (1854).

Por dois anos, até a morte do rei, em setembro de 1632, Yacob


permaneceu na caverna como ermitão, saindo apenas para buscar
alimentos no mercado mais próximo. Na caverna, ele alinhavou sua
nova filosofia racionalista.

Ele acreditava na primazia da razão e afirmava que todos os seres


humanos, homens e mulheres, são criados iguais. Yacob
argumentou contra a escravidão, criticou todas as religiões e
doutrinas reconhecidas e combinou essas opiniões com sua crença
pessoal em um criador divino, asseverando que a existência de uma
ordem no mundo faz dessa a opção mais racional.

Em suma: muitos dos ideais mais elevados do Iluminismo foram


concebidos e resumidos por um homem que trabalhou sozinho em
uma caverna etíope de 1630 a 1632.

LIVROS

A filosofia de Yacob, baseada na razão, éPositivo


apresentada
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em sua obra
principal, "Hatäta" (investigação). O livro foi escrito em 1667 por
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insistência de seu discípulo, Walda Heywat, que escreveu ele próprio


uma "Hatäta" de orientação mais prática.

Hoje,O 350
que você
anosprocura? Buscar
mais tarde, é difícil encontrar um exemplar do
trabalho de Yacob. A única tradução ao inglês foi feita em 1976 pelo
professor universitário e padre canadense Claude Sumner. Ele a
publicou como parte de uma obra em cinco volumes sobre a filosofia
etíope, que foi lançada pela nada comercial editora Commercial
Printing Press, de Adis Abeba.

O livro foi traduzido ao alemão e, no ano passado, ao norueguês,


mas ainda é basicamente impossível ter acesso a uma versão em
inglês.

A filosofia não era novidade na Etiópia antes de Yacob. Por volta de


1510, "The Book of the Wise Philosophers" (o livro dos filósofos
sábios) foi traduzido e adaptado ao etíope pelo egípcio Abba Mikael.
Trata-se de uma coletânea de ditados de filósofos gregos pré-
socráticos, Platão e Aristóteles por meio dos diálogos neoplatônicos,
e também foi influenciado pela filosofia arábica e as discussões
etíopes.

Em sua "Hatäta", Yacob critica seus contemporâneos por não


pensarem de modo independente e aceitarem as palavras de
astrólogos e videntes só porque seus predecessores o faziam. Em
contraste, ele recomenda uma investigação baseada na razão e na
racionalidade científica, considerando que todo ser humano nasce
dotado de inteligência e possui igual valor.

Longe dele, mas enfrentando questões semelhantes, estava o francês


Descartes (1596-1650). Uma diferença filosófica importante entre
eles é que o católico Descartes criticou explicitamente os infiéis e
ateus em sua obra "Meditações Metafísicas" (1641).

Essa perspectiva encontra eco na "Carta sobre a Tolerância" (1689),


de Locke, para quem os ateus não devem serStilotolerados.
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As "Meditações" de Descartes foram dedicadas "ao reitor e aos


doutores da sagrada Faculdade de Teologia em Paris", e sua
premissa era "aceitar por meio da fé o fato de que a alma humana
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não morre com o corpo e de que Deus existe".

Yacob, pelo contrário, propõe um método muito mais agnóstico,


secular e inquisitivo —o que também reflete uma abertura ao
pensamento ateu. O quarto capítulo da "Hatäta" começa com uma
pergunta radical: "Tudo que está escrito nas Sagradas Escrituras é
verdade?" Ele prossegue pontuando que todas as diferentes religiões
alegam que sua fé é a verdadeira:

"De fato, cada uma delas diz: 'Minha fé é a certa, e aqueles que
creem em outra fé creem na falsidade e são inimigos de Deus'. (...)
Assim como minha fé me parece verdadeira, outro considera
verdadeira sua própria fé; mas a verdade é uma só".

Assim, ele deslancha um discurso iluminista sobre a subjetividade


da religião, mas continua a crer em algum tipo de criador universal.
Sua discussão sobre a existência de Deus é mais aberta que a de
Descartes e talvez mais acessível aos leitores de hoje, como quando
incorpora perspectivas existencialistas:

"Quem foi que me deu um ouvido com o qual ouvir, quem me criou
como ser reacional e como cheguei a este mundo? De onde venho?
Tivesse eu vivido antes do criador do mundo, teria conhecido o
início de minha vida e da consciência de mim mesmo. Quem me
criou?".

IDEIAS AVANÇADAS

No capítulo cinco, Yacob aplica a investigação racional a leis


religiosas diferentes. Critica igualmente o cristianismo, o islã, o
judaísmo e as religiões indianas.

Ele aponta, por exemplo, que o criador,Positivo


em sua sabedoria, fez o
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sangue fluir mensalmente do útero das mulheres, para que elas
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possam gestar filhos. Assim, conclui que a lei de Moisés, segundo a


qual as mulheres são impuras quando menstruam, contraria a
natureza e o criador, já que "constitui um obstáculo ao casamento e
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a toda a vida da mulher, prejudica a lei da ajuda mútua, interdita a
criação dos filhos e destrói o amor".

Desse modo, inclui em seu argumento filosófico a perspectiva da


solidariedade, da mulher e do afeto. E ele próprio viveu segundo
esses ideais.
Fabio Zimbres

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Ilustração de capa da Ilustríssima, por Fabio Zimbres

Depois de sair da caverna, pediu em casamento uma moça pobre


chamada Hirut, criada de uma família rica. O patrão dela dizia que
uma empregada não estava em pé de igualdade com um homem
erudito, mas a visão de Yacob prevaleceu. Consumada a união, ele
declarou que ela não deveria mais ser serva, mas seu par, porque
"marido e mulher estão em pé de igualdade no casamento".

Contrastando com essas posições, Kant (1724-1804) escreveu um


século mais tarde em "Observações sobre o Sentimento do Belo e do
Sublime" (1764): "Uma mulher pouco se constrange com o fato de
não possuir determinados entendimentos".

E, nos ensaios de ética do alemão, lemos que "o desejo de um


homem por uma mulher não se dirige a ela como ser humano, pelo
contrário, a humanidade da mulher não lhe interessa; o único objeto
de seu desejo é o sexo dela".

Yacob enxergava a mulher sob ótica completamente diferente: como


par intelectual do filósofo.

Ele também foi mais iluminista que seus pares do Iluminismo no


tocante à escravidão. No capítulo cinco, Yacob combate a ideia de
que "possamos sair e comprar um homem como se fosse um
animal". Assim, ele propõe um argumento universal contra a
discriminação:

"Todos os homens são iguais na presença de Deus; e todos são


inteligentes, pois são suas criaturas; elePositivo
nãoStilodestinou
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um povo à
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vida, outro à morte, um à misericórdia e outro ao julgamento. Nossa


razão nos ensina que esse tipo de discriminação não pode existir".

O que você
As palavras procura?
"todos Buscar
os homens são iguais" foram escritas décadas
antes de Locke (1632-1704), o pai do liberalismo, ter empunhado
sua pena.

E a teoria do contrato social de Locke não se aplicava a todos na


prática: ele foi secretário durante a redação das "Constituições
Fundamentais da Carolina" (1669), que concederam aos homens
brancos poder absoluto sobre seus escravos africanos. O próprio
inglês investiu no comércio negreiro transatlântico.

Comparada à de seus pares filosóficos, portanto, a filosofia de Yacob


frequentemente parece o epítome dos ideais que em geral
atribuímos ao Iluminismo.

ANTON AMO

Alguns meses depois de ler a obra de Yacob, enfim tive acesso a


outro livro raro: uma tradução dos escritos reunidos do filósofo
Anton Amo (c. 1703-55), que nasceu e morreu em Gana.

Amo estudou e lecionou por duas décadas nas maiores


universidades da Alemanha (como Halle e Jena), escrevendo em
latim. Hoje, segundo o World Library Catalogue, só um punhado de
exemplares de seu "Antonius Guilielmus Amo Afer of Axim in
Ghana" está disponível em bibliotecas mundo afora.

O ganês nasceu um século após Yacob. Consta que ele foi


sequestrado do povo akan e da cidade litorânea de Axim quando era
pequeno, possivelmente para ser vendido como escravo, sendo
levado a Amsterdã, para a corte do duque Anton Ulrich de
Braunschweig-Wolfenbüttel —visitada com frequência pelo polímata
G. W. Leibniz (1646-1716).
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Batizado em 1707, Amo recebeu educação de alto nível, aprendendo


hebraico, grego, latim, francês e alemão —e provavelmente sabia
algo de sua língua materna, o nzema.
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Tornou-se figura respeitada nos círculos acadêmicos. No livro de


Carl Günther Ludovici sobre o iluminista Christian Wolff (1679-
1754) —seguidor de Leibniz e fundador de várias disciplinas
acadêmicas na Alemanha—, Amo é descrito como um dos wolffianos
mais proeminentes.

No prefácio a "Sobre a Impassividade da Mente Humana" (1734), de


Amo, o reitor da Universidade de Wittenberg, Johannes Gottfried
Kraus, saúda o vasto conhecimento do autor, situa sua contribuição
ao iluminismo alemão em um contexto histórico e sublinha o legado
africano da Renascença europeia:

"Quando os mouros vindos da África atravessaram a Espanha,


trouxeram com eles o conhecimento dos pensadores da Antiguidade
e deram muita assistência ao desenvolvimento das letras que pouco
a pouco emergiam das trevas".

O fato de essas palavras terem saído do coração da Alemanha na


primavera de 1733 ajuda a lembrar que Amo não foi o único africano
a alcançar o sucesso na Europa do século 18.

Na mesma época, Abram Petrovich Gannibal (1696-1781), também


sequestrado e levado da África subsaariana, tornava-se general do
czar Pedro, o Grande, da Rússia. O bisneto de Gannibal se tornaria o
poeta nacional da Rússia, Alexander Pushkin. E o escritor francês
Alexandre Dumas (1802-70) foi neto de uma africana escravizada e
filho de um general aristocrata negro nascido no Haiti.

Amo tampouco foi o único a levar diversidade e cosmopolitismo a


Halle nas décadas de 1720 e 1730. Vários alunos judeus de grande
talento estudaram na universidade. O professor árabe Salomon
Negri, de Damasco, e o indiano Soltan Gün
Positivo Achmet,
Stilo XCI76... de Ahmedabad,
também passaram por lá. R$ 2.116,95
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CONTRA A ESCRAVIDÃO

Em sua tese, Amo escreveu explicitamente que havia outras


O que você
teologias da cristã, incluindo entre elas a dos turcos eBuscar
alémprocura? a dos
"pagãos".

Ele discutiu essas questões na dissertação "Os Direitos dos Mouros


na Europa", em 1729. O trabalho não pode ser encontrado hoje, mas,
no jornal semanal de Halle de novembro de 1729, há um artigo curto
sobre o debate público de Amo. Segundo esse texto, o ganês
apresentou argumentos contra a escravidão, aludindo ao direito
romano, à tradição e à razão.

Será que Amo promoveu a primeira disputa legal da Europa contra a


escravidão? Podemos pelo menos enxergar um argumento
iluminista em favor do sufrágio universal, como o que Yacob
propusera cem anos antes. Mas essas visões não discriminatórias
parecem ter passado despercebidas dos pensadores principais do
iluminismo no século 18.

David Hume (1711-76), por exemplo, escreveu: "Tendo a suspeitar


que os negros, e todas as outras espécies de homem em geral (pois
existem quatro ou cinco tipos diferentes), sejam naturalmente
inferiores aos brancos". E acrescentou: "Nunca houve nação
civilizada de qualquer outra compleição senão a branca, nem
indivíduo eminente em ação ou especulação".

Kant levou adiante o argumento de Hume e enfatizou que a


diferença fundamental entre negros e brancos "parece ser tão grande
em capacidade mental quanto na cor", antes de concluir, no texto do
curso de geografia física: "A humanidade alcançou sua maior
perfeição na raça dos brancos".

Na França, o mais célebre pensador iluminista, Voltaire (1694-1778),


não só descreveu os judeus em termos antissemitas, como quando
escreveu que "todos eles nascem com fanatismo desvairado em seus
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corações"; em seu ensaio sobre a históriaR$universal


2.116,95
(1756), ele
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afirmou que, se a inteligência dos africanos "não é de outra espécie


que a nossa, é muito inferior".

O que
Como você procura?
Locke, Buscar
Voltaire investiu dinheiro no comércio de escravos.

CORPO E MENTE

A filosofia de Amo é mais teórica que a de Yacob, mas as duas


compartilham uma visão iluminista da razão, tratando todos os
humanos como iguais.

Seu trabalho é profundamente engajado com as questões da época,


como se vê em seu livro mais conhecido, "Sobre a Impassividade da
Mente Humana", construído com um método de dedução lógica
utilizando argumentos rígidos, aparentemente seguindo a linha de
sua dissertação jurídica anterior. Aqui ele trata do dualismo
cartesiano, a ideia de que existe uma diferença absoluta de
substância entre a mente e o corpo.

Em alguns momentos Amo parece se opor a Descartes, como


observa o filósofo contemporâneo Kwasi Wiredu. Ele argumenta que
Amo se opôs ao dualismo cartesiano entre mente e corpo,
favorecendo, em vez disso, a metafísica dos akan e o idioma nzema
de sua primeira infância, segundo os quais sentimos a dor com
nossa carne ("honem"), e não com a mente ("adwene").

Ao mesmo tempo, Amo diz que vai tanto defender quanto atacar a
visão de Descartes de que a alma (a mente) é capaz de agir e sofrer
junto com o corpo. Ele escreve: "Em resposta a essas palavras,
pedimos cautela e discordamos: admitimos que a mente atua junto
com o corpo graças à mediação de uma união natural. Mas negamos
que ela sofra junto com o corpo".

Amo argumenta que as afirmações de Descartes sobre essas


questões contrariam a visão do próprio filósofo francês. Ele conclui
sua tese dizendo que devemos evitar confundir as coisas que fazem
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parte do corpo e da mente. Pois aquilo que opera na mente deve ser
atribuído apenas à mente.

O que
Talvez você procura?
a verdade Buscar
seja o que o filósofo Justin E. H. Smith, da
Universidade de Paris, aponta em "Nature, Human Nature and
Human Difference" (natureza, natureza humana e diferença
humana, 2015): "Longe de rejeitar o dualismo cartesiano, pelo
contrário, Amo propõe uma versão radicalizada dele".

Mas será possível que tanto Wiredu quanto Smith tenham razão?
Por exemplo, será que a filosofia akan tradicional e a língua nzema
continham uma distinção cartesiana entre corpo e mente mais
precisa que a de Descartes, um modo de pensar que Amo então
levou para a filosofia europeia?

Talvez seja cedo demais para sabermos, já que uma edição crítica
das obras de Amo ainda aguarda ser publicada, possivelmente pela
Oxford University Press.

COISA EM SI

No trabalho mais profundo de Amo, "Treatise on the Art of


Philosophising Soberly and Accurately" (tratado sobre a arte de
filosofar com sobriedade e precisão, 1738), ele parece antecipar
Kant. O livro trata das intenções de nossa mente e das ações
humanas como sendo naturais, racionais ou de acordo com uma
norma.

No primeiro capítulo, escrevendo em latim, Amo argumenta que


"tudo é passível de ser conhecido como objeto em si mesmo, ou
como uma sensação, ou como uma operação da mente".

Ele desenvolve em seguida, dizendo que "a cognição ocorre com a


coisa em si" e afirmando: "O aprendizado real é a cognição das
coisas em si. E assim tem sua base na certeza da coisa conhecida".
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Seu texto original diz "omne cognoscibile aut res ipsa", usando a
noção latina "res ipsa" como "coisa em si".

HojeOKant
que você procura?
é conhecido BuscarDing
por seu conceito da "coisa em si" ("das
an sich") em "Crítica da Razão Pura" (1787) —e seu argumento de
que não podemos conhecer a coisa além de nossa representação
mental dela.

Mas é fato sabido que essa não foi a primeira utilização do termo na
filosofia iluminista. Como diz o dicionário Merriam-Webster no
verbete "coisa em si": "Primeira utilização conhecida: 1739". Mesmo
assim, isso foi dois anos depois de Amo ter entregue seu trabalho
principal em Wittenberg, em 1737.

À luz dos exemplos desses dois filósofos iluministas, Zera Yacob e


Anton Amo, talvez seja preciso repensarmos a Idade da Razão nas
disciplinas da filosofia e da história das ideias.

Na disciplina da história, novos estudos comprovaram que a


revolução mais bem-sucedida a ter nascido das ideias de liberdade,
igualdade e fraternidade se deu no Haiti, não na França. A
Revolução Haitiana (1791-1804) e as ideias de Toussaint
L'Ouverture (1743""1803) abriram o caminho para a independência
do país, sua nova Constituição e a abolição da escravidão.

Em "Les Vengeurs du Nouveau Monde" (os vingadores do novo


mundo, 2004), Laurent Dubois conclui que os acontecimentos no
Haiti foram "a expressão mais concreta da ideia de que os direitos
proclamados na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão,
de 1789, eram de fato universais".

Nessa linha, podemos indagar se Yacob e Amo algum dia serão


elevados à posição que merecem entre os filósofos da Era das Luzes.

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Este texto foi publicado originalmente no site Aeon.
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DAG HERBJORNSRUD, 46, é historiador de ideias e fundador do SGOKI


(Centro de História Global e Comparativa de Ideias), em Oslo.

CLARA ALLAIN é tradutora.


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FABIO ZIMBRES, 57, é quadrinista, designer e artista visual.

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NELSON PRADO ROCCHI 24/12/2017 16h12


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Sem dúvida vão encontrar evidências suprimidas pelos brancos colonialistas


e racistas de compositores negros superiores a Bach, Mozart e
Beethoven,escultores superiores a Michelangelo e Rodin, pintores superiores
a Leonardo e Rafael, filósofos superiores a Platão e Aristóteles.Sem dúvida
muitos impérios sofisticados e civilizados de negros
Positivo existiram antes da
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http://m.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/12/1945398-os-africanos-que-propuseram-ideias-do-iluminismo-antes-de-locke-e-kant.shtml?utm_so… 16/19
11/02/2018 Os africanos que propuseram ideias iluministas antes de Locke e Kant - 24/12/2017 - Ilustríssima - Folha de S.Paulo

Babilônia eEgito, mas foram destruídos pelos colonialistas brancos que com
isso justificaram a escravidão dos negros como se fossem animais

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Murilo Soares 24/12/2017 17h28


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Esse texto tem diversas marcas que sugerem ser uma brincadeira, como
aquela dos escritores russos desconhecidos, publicada há anos. Nenhuma
referência é conhecida, os autores são desconhecidos, os livros não estão
acessíveis, a publicação apareceu em um site obscuro, etc. A Folha precisa
zelar pela credibilidade, nesse momento de auge das chamadas fase New.

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Murilo Soares 24/12/2017 17h27


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Esse texto tem diversas marcas que sugerem ser uma brincadeira, como
aquela dos escritores russos desconhecidos, publicada há anos. Nenhuma
referência é conhecida, os autores são desconhecidos, os livros não estão
acessíveis, a publicação apareceu em um site obscuro, etc. A Folha precisa
zelar pela credibilidade, nesse momento de auge das chamadas fase New.

O comentário não representa a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

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