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09/03/2018 Francisco Mora: “É preciso acabar com o formato das aulas de 50 minutos” | Economia | EL PAÍS Brasil

ECONOMIA

ENTREVISTA | FRANCISCO MORA, ESPECIALISTA EM NEUROEDUCAÇÃO ›

Francisco Mora: “É preciso acabar com o formato das


aulas de 50 minutos”
Especialista em Neuroeducação aposta na mudança de metodologias,
mas pede cautela na aplicação da neurociência na educação
ANA TORRES MENÁRGUEZ

Madri - 22 FEV 2017 - 23:47 BRT

A neuroeducação, disciplina que estuda como o cérebro aprende, está


dinamitando as metodologias tradicionais de ensino. Sua principal contribuição é
que o cérebro precisa se emocionar para aprender e, de alguns anos para cá, não
existe ideia inovadora considerada válida que não contenha esse princípio. No
entanto, uma das maiores referências na Espanha nesse campo, o doutor em
Medicina Francisco Mora, recomenda cautela e adverte que na neuroeducação
ainda há mais perguntas do que respostas.

Francisco Mora em seu escritório na Faculdade de Medicina da Universidade Complutense. JAIME


VILLANUEVA (EL PAÍS)

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Mora, autor do livro Neuroeducación. Solo se puede aprender aquello que se ama
(Neuroeducação. Só se pode aprender aquilo que se ama), que já atingiu a marca
de onze edições desde 2013, também é doutor em neurociência pela
Universidade de Oxford. Começou a se interessar pelo assunto em 2010, quando
participou do primeiro Congresso Mundial de Neuroeducação realizado no Peru.

Mora argumenta que a educação pode ser transformada para


MAIS INFORMAÇÕES
tornar a aprendizagem mais eficaz, por exemplo, reduzindo o
tempo das aulas para menos de 50 minutos para que os
alunos sejam capazes de manter a atenção. O professor de
Fisiologia Humana da Universidade Complutense alerta que
na educação ainda são consideradas válidas concepções
Professor cria
método para ajudar equivocadas sobre o cérebro, o que ele chama de neuromitos.
aluno a aprender a
Além disso, Mora está ligado ao Departamento de Fisiologia
estudar
Molecular e Biofísica da Universidade de Iowa, nos Estados
Sim, eu posso acabar Unidos.
com o analfabetismo

Quer melhorar a
qualidade da
Pergunta. Por que é importante levar em conta as
educação? Não descobertas da neuroeducação para transformar a forma de
subestime a opinião
aprender?
dos alunos

Já não basta escolher


entre Ciências, Resposta. No contexto internacional há muita fome para
Humanas ou Exatas ancorar em algo sólido o que até agora são apenas opiniões, e
esse interesse se dá especialmente entre os professores. O
que a neuroeducação faz é transferir a informação de como o
cérebro funciona com a melhoria dos processos de aprendizagem. Por exemplo,
saber quais estímulos despertam a atenção, que em seguida dá lugar à emoção,
pois sem esses dois fatores nenhuma aprendizagem ocorre. O cérebro humano
não mudou nos últimos 15.000 anos; poderíamos ter uma criança do paleolítico
 
inferior numa escola e o professor não perceber. A educação tampouco mudou
nos últimos 200 anos e já temos algumas evidências de que é urgente fazer essa
transformação. Devemos redesenhar a forma de ensinar.

P. Quais são as certezas que já podem ser aplicadas?

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R. Uma delas é a idade em que se deve aprender a ler. Hoje sabemos que os
circuitos neurais que codificam para transformar de grafema a fonema, o que
você lê e o que você diz, não fazem conexões sinápticas antes dos seis anos. Se
os circuitos que permitirão aprender a ler não estão formados, se poderá ensinar
com um chicote, com sacrifício, sofrimento, mas não de forma natural. Se você
começa com seis, em pouquíssimo tempo aprenderá, enquanto que se começar
com quatro talvez consiga, mas com enorme sofrimento. Tudo o que é doloroso
tendemos a rejeitar, não queremos, enquanto aquilo que é prazeroso tentamos
repetir.

P. Qual é a principal mudança que o sistema de ensino atual deve sofrer?

R. Hoje estamos começando a saber que ninguém pode aprender qualquer coisa
se não estiver motivado. É necessário despertar a curiosidade, que é o
mecanismo cerebral capaz de detectar a diferença na monotonia diária. Presta-se
atenção àquilo que se destaca. Estudos recentes mostram que a aquisição de
conhecimentos compartilha substratos neuronais com a busca de água,
alimentos e sexo. O prazeroso. Por isso é preciso acender uma emoção no aluno,
que é a base mais importante sobre a qual se apoiam os processos de
aprendizagem e memória. As emoções servem para armazenar e recordar de
uma forma mais eficaz.

P. Quais estratégias o professor pode usar para despertar essa curiosidade?

Sabemos que para um aluno prestar atenção na aula não basta


exigir que ele o faça

 
R. Ele deve começar a aula com algum elemento provocador, uma frase ou uma
imagem que seja chocante. Romper o esquema e sair da monotonia. Sabemos
que para um aluno prestar atenção na aula não basta exigir que ele o faça. A
atenção deve ser evocada com mecanismos que a psicologia e a neurociência
estão começando a desvendar. Métodos associados à recompensa, e não à
punição. Desde que somos mamíferos, há mais de 200 milhões de anos, a

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emoção é o que nos move. Os elementos desconhecidos, que nos surpreendem,


são aqueles que abrem a janela da atenção, imprescindível para a aprendizagem.

P. O senhor alertou em várias ocasiões para a necessidade de ser cauteloso em


relação às evidências da neuroeducação. Em que ponto o senhor está?

R. A neuroeducação não é como o método Montessori, não existe um decálogo


que possa ser aplicado. Ainda não é uma disciplina acadêmica com um corpo
ordenado de conhecimentos. Precisamos de tempo para continuar pesquisando
porque o que conhecemos hoje em profundidade sobre o cérebro não é
totalmente aplicável ao dia a dia em sala de aula. Muitos cientistas dizem que é
muito cedo para levar a neurociência às escolas, primeiro porque os professores
não entendem do que você está lhes falando e segundo porque não há literatura
científica suficiente para afirmar em quais idades é melhor aprender quais
conteúdos e como. Há flashes de luz.

P. O senhor poderia contar alguns dos mais recentes?

R. Estamos percebendo, por exemplo, que a atenção não pode ser mantida
durante 50 minutos, por isso é preciso romper o formato atual das aulas. Mais
vale assistir 50 aulas de 10 minutos do que 10 aulas de 50 minutos. Na prática,
uma vez que esses formatos não serão alterados em breve, os professores devem
quebrar a cada 15 minutos com um elemento disruptor: uma anedota sobre um
pesquisador, uma pergunta, um vídeo que levante um assunto diferente... Há
algumas semanas, a Universidade de Harvard me encarregou de criar um MOOC
(curso online aberto e massivo, na sigla em inglês) sobre Neurociência. Tenho de
concentrar tudo em 10 minutos para que os alunos absorvam 100% do conteúdo.
Nessa linha irão as coisas no futuro.

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Francisco Mora, doutor em Medicina e Neurociência. JAIME VILLANUEVA

P. Em seu livro Neuroeducação: Só se pode aprender aquilo que se ama, o senhor


adverte sobre o perigo dos chamados neuromitos. Quais são os mais difundidos?

R. Há muita confusão e erros de interpretação dos fatos científicos, o que


chamamos de neuromitos. Um dos mais generalizados é que utilizamos apenas
10% da capacidade do cérebro. Ainda se vendem programas de computador
baseados nisso e as pessoas acreditam que poderão aumentar suas capacidades
e inteligência para além de suas próprias limitações. Nada pode substituir o lento
e difícil processo do trabalho e da disciplina quando se trata de aumentar as
capacidades intelectuais. Além disso, o cérebro utiliza todos os seus recursos a
cada vez que se depara com a resolução de problemas, com processos de
 
aprendizagem ou de memória.

Outro neuromito é o que fala do cérebro direito e esquerdo e que as crianças


deveriam ser classificadas em função de qual dos dois cérebros é mais
desenvolvido nelas. Ao analisar as funções de ambos os hemisférios em
laboratório, constatou-se que o hemisfério direito é o criador e o esquerdo é o

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analítico – o da linguagem e da matemática. Extrapolou-se a ideia de que há


crianças com predominância de cérebros direitos ou esquerdos e criou-se o
equívoco, o mito, de que há dois cérebros que trabalham de forma independente,
e que se tal separação não for feita na hora de ensinar as crianças, isso as
prejudica. Essa dicotomia não existe, a transferência de informações entre os
dois hemisférios é constante. Se temos talentos mais próximos da matemática ou
do desenho, isso não se refere aos hemisférios, mas à produção conjunta de
ambos.

P. A neuroeducação está influindo em outros aspectos do ensino?

R. Há um movimento muito interessante que é o da neuroarquitetura, que visa à


criação de escolas com formas inovadoras que gerem bem-estar enquanto se
aprende. A Academia de Neurociências para o Estudo da Arquitetura, nos
Estados Unidos, reuniu arquitetos e neurocientistas para conceber novos modos
de construir. Novos edifícios nos quais, embora seja importante seu desenho
arquitetônico, a luz seja contemplada, assim como a temperatura e o ruído, que
tanto afetam o rendimento mental.

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