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A EPISTEMOLOGIA E O ESPÍRITO CIENTÍFICO: A Constituição de uma teoria de um conhecimento científico verdadeiro. David Santos Salomão1 RESUMO O presente trabalho tem como objetivo explanar sobre a origem e formação do conhecimento, construção da Epistemologia, passando pelas opiniões de vários autores acerca do conceito e aplicação da teoria do conhecimento, para por fim trazer teorias da verdade e demonstrar através do “Mito do contexto” a importância do conceito de verdade e suas consequências práticas e filosóficas. Palavras-chave: Epistemologia; Teoria do Conhecimento Científico; Verdade. ABSTRACT The present study aims to elaborate on the origin and formation of knowledge, construction of epistemology, passing by the opinions of various authors about the concept and application of theory of knowledge, to finally bring theories of truth and demonstrate through the “Myth of the context” the importance of the concept of truth and its practical consequences and philosophical. 1 Mestrando em Direito pela Universidade Federal do Ceará, Especialista em Direito e Processo do Trabalho pela Faculdade entre Rios do Piauí. E-mail: davidssalomao@gmail.com INTRODUÇÃO Desde a era primitiva que o ser humano lida com suas formas de apreensão do conhecimento e crença na realidade, passando desde uma visão mitológica, baseada em acontecimentos justificados pela causalidade, por uma visão divinatória e dogmática da religião, e por fim , para o uso da razão através de um pensamento filosófico e uma visão geral e universal da essência do conhecimento. O surgimento da filosofia na história do ser humano foi marco inolvidável e que permitiu uma percepção cognitiva diferenciada da realidade. O ser passou a se questionar sobre as funções e coisas elementares da natureza, olhando para si e para o todo que o cerca, buscando em seus valores práticos e teóricos a construção de uma visão do mundo e uma visão de si. A relação de sujeito cognoscente e objeto cognoscível fundamentou a própria percepção do que seria o conhecimento, na medida que ao enxergar a sua limitação cognitiva e temporal, o sujeito passou para um novo patamar crítico das teorias que ele mesmo criava, e começou a buscar novos argumentos e soluções analisando as consequências dos mesmos para por fim encontrar o próprio conceito de verdade. Diante da construção de um conhecimento cientifico e filosófico, surgiu a necessidade de uma teoria que estudasse o conhecimento: a Epistemologia, que vem para validar os argumentos científicos e a própria ciência, para elucidar qual a maneira mais coerente de enxergar a realidade, e por fim qual seriam os critérios para a formação de um conhecimento verdadeiro. No primeiro tópico será abordado a gênese do conhecimento, o próprio conceito de filosofia e os pressupostos e critérios para o surgimento da Epistemologia. No segundo tópico se discutirá o conceito de conhecimento e a formação de um espírito científico, que tem como objetivo a pesquisa, a inquietação diante de teorias vigentes, a construção de um sentido inesgotável. Por fim no terceiro e último tópico serão analisadas algumas teorias da verdade, bem como o conceito de “Mito do contexto” que surgirá como demonstrativo prático da importância desta pesquisa, primordialmente com relação ao respeito pelos direitos de todos, a análise da tolerância de contextos e culturas distintas em contraponto ao cumprimento de leis ou costumes, ao aprendizado com as diferenças entre participantes de uma discussão. 1 A FORMAÇÃO DE UM ESPIRÍTO EPISTEMOLÓGICO Para adentrar no tema da gênese do conhecimento, é necessário explanar o próprio conceito de filosofia, já que a teoria do conhecimento é considerada uma disciplina filosófica (HESSEN, 2003, p. 3). Porém, dado o caráter inesgotável do sentido, da limitação da cognição humana e da linguagem, conceituar filosofia é uma tarefa praticamente irrealizável, mas também inarredável, devido ao espírito cientifico imbuído na busca pelo conhecimento que transpassa as barreiras reducionistas e simplificadoras da realidade. Uma tentativa de significação da filosofia é adentrar em conceitos de autores diversos que trazem um norteamento para esta tarefa, ao passo que também paradoxalmente se contradizem em alguns casos, dado a polaridade acentuada de definições. Contudo existe uma base comum de argumentos trazidos pelos sistemas como os de Platão, Aristóteles, Descartes e Leibniz, Kant e Hegel que pode caracterizar a filosofia seja por seu caráter de uma visão universal (da totalidade), como pela atividade pensante do filósofo, ou seja, pela atitude cognitiva e racional do individuo em relação a totalidade dos objetos (HESSEN, 2003, p. 5). 1.1 A origem do conhecimento Quando Aristóteles tenta explanar as causas buscadas pela sapiência e suas características gerais, ele parte da consideração que sábio é aquele com maior conhecimento das causas (possuir a ciência do universal) e que é mais capaz de ensinar os outros (ARISTÓTELES, tradução de Marcelo Perine, 2002, p. 9). Portanto, a ciência deseja a busca por uma ciência do máximo cognoscível, a mais elevada, aquela que conhece do que é feita cada coisa e o seu fim, que estipula os princípios e causa de tudo. Segundo o filósofo (ARISTÓTELES, tradução de Marcelo Perine, 2002, p. 9): De modo que, se os homens filosofaram para libertar-se da ignorância, é evidente que buscam o conhecimento unicamente em vista do saber e não por alguma utilidade prática. E o modo como as coisas se desenvolveram demonstra: quando já se possuía praticamente tudo o de que se necessitava para vida e também para o conforto e para o bem-estar, então se começou a buscar essa forma de conhecimento. É evidente, portanto, que não a buscamos por nenhuma vantagem que lhe seja estranha; e mais ainda, é evidente que, como chamamos livre o homem que é fim para si mesmo e não está submetido a outros , assim só esta ciência, dentre todas as outras, é chamada livre, pois só ela é fim para si mesma. O conceito aristotélico da filosofia traz uma visão geral da realidade, uma visão de mundo, onde no núcleo está a metafísica que volta o estudo para a essência das coisas e os princípios últimos da realidade. Visão que se opõe a Sócrates e Platão que tratam de uma reflexão individual, uma auto-reflexão do espírito acerca de valores teóricos e práticos, valores “do verdadeiro , do bom e do belo” (HESSEN, 2003, p. 6). Esse movimento pendular da definição do conceito de filosofia atravessa a história e os pensadores, de forma que pode ser observado sempre uma retração ou avanço na visão de si ou na visão de mundo dentro da essência do que é a filosofia em autores como Descartes, Espinosa, Leibniz, Kant, Hegel, Husserl, Scheler. Segundo Johannes Hessen a filosofia é: “a auto reflexão do espírito sobre seu comportamento valorativo e prático e, igualmente, aspiração a uma inteligência das conexões últimas das coisas, a uma visão racional de mundo” (HESSEN, 2003, p. 8-9). Para o autor o espirito humano tenta atingir uma visão de mundo através dessa auto-reflexão de seus valores práticos e teóricos, nisto consiste a conclusão do seu conceito de filosofia. A atitude do filósofo é antes de qualquer coisa uma incursão cognitiva e exploratória, é a atitude de não aceitar o desconhecido e sim buscar por si mesmo um caminho diferente através da especulação (RUSSELL, 2001, p. 10). A filosofia parte de perguntas gerais que buscam uma ordem em eventos fortuitos e acidentais, exploração esta somente permitida pela cognição humana. Surge nesse aspecto a noção de investigação cientifica observada na Grécia Antiga, onde a palavra teoria tinha um significado próximo de “ato de contemplar” e essa curiosidade associada a uma “investigação apaixonada, embora desinteressada”, deu um lugar único à filosofia grega na historia (RUSSELL, 2001, p. 17-18).2 Segundo o conhecimento histórico até então elucidado, a primeira escola de filósofos científicos apareceu em Mileto, onde a filosofia e a ciência começam partir da célebre frase atribuída a Tales de Mileto: “Todas as coisas são feitas de água” (RUSSELL, 2001, p. 21). A partir desse ponto, os filósofos como Tales de Mileto e seus sucessores buscaram explicar a essência das coisas, notoriamente os fenômenos naturais, que antes era justificados por mitos ou magia. Segundo Bertrand Russel (2001, p. 18), este último conceito seria “uma tentativa 2 Bertrand Russel (2001, p.17) faz importantes considerações à Filosofia Grega em seu livro História do Pensamento Ocidental na medida que afirma que a tradição filosófica ocidental nasceu na Grécia. A filosofia grega se baseava em dualismos; havia a discussão de conceitos como verdade e falsidade, bem e mal, harmonia e discórdia, mente e matéria, aparência e realidade; uma escola se vinculava a um dos lados do dualismo, posteriormente outra escola se contrapunha, e uma terceira produzia uma espécie de compromisso substituindo as anteriores. A importância dos gregos foi única na filosofia, pois essa maneira instrutiva das primeiras escolas filosóficas abordarem o conhecimento deu origem, posteriormente, a estudos por Hegel e sua noção de dialética por exemplo. de obter resultados específicos com base em certos ritos rigidamente definidos”. Observa-se neste conceito o princípio da causalidade que diante das mesmas condições e circunstâncias espera-se o mesmo resultado, formando uma protociência. Em contrário senso, a religião tenta anular o princípio da causalidade, pois tenta obter resultados sem observar as mesmas condições, com base no divinatório. Esses dois conceitos de formulação do conhecimento acompanharam o homem durante toda era primitiva, e a construção de um pensamento filosófico a partir da Grécia Antiga foi fundamental para o uso de um pensamento racional, para a formação de um espírito científico de edificação do conhecimento. 1.2 A construção da Epistemologia Mas como o ser obtêm o conhecimento? Como se dá a gênese do conhecimento e de que forma ele é apreendido pelo intelecto humano? A teoria do conhecimento ou epistemologia (embora haja diferenciação para alguns autores) derivaria da teoria da ciência entendida assim a filosofia enquanto reflexão do pensamento teórico, ou seja, uma teoria do conhecimento científico se dividiria em teoria formal (lógica) e material, sendo esta última a teoria do conhecimento científico (HESSEN, 2003, p. 13), que pode ser definida para Hessen como: “a teoria material da ciência ou como teoria dos princípios materiais do conhecimento humano”. A Epistemologia é considerada a filosofia da ciência que tem como objeto de estudo a investigação científica e seu produto, e passou de um mero capítulo na teoria do conhecimento para um ramo importante da filosofia. Para Mario Bunge, no período clássico (de Platão a Russell) o estudo da teoria do conhecimento era feito por matemáticos, cientistas e filósofos em horas vagas que não tinham uma grande preocupação científica; nenhum dos filósofos desse período poderia ser considerado um epistemólogo profissional. Somente em 1927 com a fundação do Wiener Kreis (Círculo de Viena) que a Epistemologia passou para um estudo específico e aprofundado da mesma, com a reunião de epistemólogos com intuito de elaborar uma nova epistemologia, que ainda esbarrava em conceitos empiristas e indutivistas (BUNGE, 2002, p. 21-23). Wittgenstein trouxe uma influencia para o estudo da linguagem da ciência que acabou desviando o objetivo inicial do Círculo de Viena, que associado aos fatores políticos da Segunda Guerra Mundial, acabou dissolvendo o Círculo. A Epistemologia passou por uma fase artificial, e recentemente passa por um “renascimento” nas palavras de Mario Bunge, que enumera condições para que uma filosofia da ciência seja considerada útil: a] Concierne a la ciencia propiamente dicha, no a la imagen pueril y a veces hasta caricaturesca tomada de libros de texto elementales. b] Se ocupa de problemas filosóficos que se presentan de hecho en el curso de la investigación científica o en la reflexión acerca de los problemas, métodos y teorías de la ciencia, en lugar de problemitas fantasma. c] Propone soluciones claras a tales problemas, en particular solucio nes consistentes en teorías rigurosas e inteligibles, así como adecuadas a la realidad de la investigación científica, en lugar de teorías confusas o inadecuadas a la experiencia científica.
 d] Es capaz de distinguir la ciencia auténtica de la seudociencia; la investigación profunda, de la superficial; la búsqueda de la verdad, de la bús queda del pan de cada día. e\ Es capaz de criticar programas y aun resultados erróneos, así como de sugerir nuevos enfoques promisorios. De acordo com a perspectiva de Mario Bunge, para a conceituação de uma nova epistemologia se faz necessário apresentar e debater problemas lógicos, semânticos, gnosiológicos, metodológicos, ontológicos, axiológicos, éticos e estéticos, que resultariam respectivamente em novos ramos da Epistemologia . Para Hessen (2003, p. 14-15), a teoria do conhecimento apareceu como disciplina independente pela primeira vez na Idade Moderna com John Locke em sua obra Essay concerning Human Understanding de 1690, que traz questões ligadas a origem do conhecimento, bem como sua certeza e sua essência. A disciplina prosseguiu sendo abordada por outros autores como Leibniz, George Berkeley, David Hume, mas somente Immanuel Kant surge como seu verdadeiro fundador em sua obra epistemológica Crítica da Razão Pura, onde tentou fundamentar de forma crítica o conhecimento das ciências naturais através de seu método transcendental, que tenta explicar a validade lógica do conhecimento questionando “como é possível o conhecimento, sobre quais fundamentos, sobre quais pressupostos ele repousa” (HESSEN, 2003, p. 15). Posteriormente, Fichte trata da teoria do conhecimento pela primeira vez com essa nomenclatura de teoria, bem como Schelling, Hegel, Schopenhauer, Hartmann, onde evidencia-se a fusão da teoria do conhecimento com a metafísica. Em sentido contrário, surgem novas correntes neokantianas para separar os conceitos de metafísica e teoria do conhecimento, e ,posteriormente, surgem várias correntes com conceitos e abordagens distintas de epistemologia. (HESSEN, 2003, p. 15-16) Devido a proximidade de conceitos e divergência de autores sobre os mesmos termos, neste trabalho iremos utilizar teoria do conhecimento e epistemologia no mesmo sentido, embora haja autores que indicam a primeira gênero da qual a segunda é espécie (MACHADO SEGUNDO, 2014, p. 198), mas o objetivo da pesquisa não é incursionar sobre a definição minuciosa de conceitos como teoria do conhecimento, epistemologia, gnosiologia, filosofia da ciência, mas sim de entender a origem do conhecimento, para passar ao modo de como entendemos a realidade e a busca pelo conhecimento verdadeiro. 2 O DESENVOLVIMENTO DE UM ESPÍRITO CIENTÍFICO A elaboração de uma teoria do conhecimento faz necessária a conceituação do próprio conhecimento. O ato de conhecer é inerente ao próprio ser, na medida que partindo do pressuposto da sua existência, o ser naturalmente conhece, apreende o sentido quando se depara com a realidade, que pode até não ser perfeitamente correspondida dentro da sua cognição, mas é incontestável a ação cognitiva e interação entre ser e objeto, ideia e realidade. O sujeito que é capaz de entender a realidade e dela dar significação ao objeto com que se relaciona, forma o liame principal da relação de conhecimento. Relação esta que se norteia com base na interpretação da própria realidade, ou seja, a princípio tudo o que o ser se depara são imagens cognitivas dos objetos reais, e mediante a formulação de relações e propriedades do mundo corpóreo, surgem as hipóteses sobre o conhecimento e posteriormente teorias que serão validadas desde que os argumentos que as fundamentam sejam suficientemente próximos a concepção de verdade dentro do paradigma vigente. 2.1 O conceito de conhecimento. A busca pelo conhecimento é uma característica da própria história humana, na medida que sendo o conhecimento um fato, é indubitável a sua existência e somente poderão ser contestadas “a sua validade, a objetividade, ou o grau de precisão” (MARQUES NETO, 2001, p. 12). O conhecimento é obtido através de uma interpretação ou explicação da realidade, apreendendo suas característica essenciais através do método fenomenológico, ou seja, aquele que procura obter a essência do fenômeno concreto não de um processo de conhecimento determinado, mas daquilo que é essencial a todo conhecimento (HESSEN, 2003, p. 19). Para Aristóteles (tradução de Marcelo Perine, 2002, p. 3), o ser tem amor pelas sensações, principalmente pela visão, pois esta viria a propiciar maiores conhecimentos que os outros sentidos; a apreensão de sensações associada a memória faz com que um animal seja mais apto a aprender do que outros. A experiência seria o meio pelo qual o ser humano viria a adquirir a arte e a ciência, de forma que na concepção aristotélica, a arte seria o modo de apreensão de conhecimento na teoria caracterizada por ser o conhecimento dos universais, enquanto a experiência seria o conhecimento dos particulares. (ARISTÓTELES, tradução de Marcelo Perine, 2002, p. 5) Na concepção de Aftalión, Vilanova e Rafoo (2004, p. 21), o que determina o conhecimento que o homem tem do mundo e das coisas, objetos ou entes, e a forma de originária de acesso a estes entes, é a maneira como se relaciona com eles na vida cotidiana. O saber do homem que está implícito na sua conduta, em suas próprias ações é denominado practognosis (resultado de uma aprendizagem feita pelo próprio indivíduo) , enquanto o saber do homem explícito em palavras que é denominado de opinião (que pode ser verdadeira ou falsa). Considerando esta última definição de saber, de maneira simplificada o conhecimento seria considerado “o conjunto de opiniões verdadeiras”; mas dada a dificuldade de evidenciar a verdade, o conhecimento a visaria, mas não se pode afirmar que o verdadeiro constituiria uma posse segura do conhecimento. Para os autores existiria uma zona denominada familiar, que seriam as circunstâncias onde o homem vive e tem determinado conhecimento; uma zona de penumbra que rodearia a zona familiar, onde o saber nela presente não teria a mesma precisão nem a mesma consistência que a zona familiar, seria um saber por referências; e por fim, rodeando a zona de penumbra existiria a zona desconhecida, que seria uma zona sem conhecimento, sem nenhuma referência de saber pelo indivíduo. A partir desses três conceitos pode se afirmar que “o conhecimento é uma relação com o desconhecido, que consiste em indagá-lo ou investigá-lo” (AFTALIÓN, VILANOVA, RAFFO, 2004, p. 23-25). Para Hessen (2003, p. 20), a relação de conhecimento ocorre entre sujeito e objeto e ao mesmo tempo que caracteriza-se pelo dualismo dos dois elementos, também é uma relação recíproca, na medida que o sujeito somente é sujeito para o objeto, e o objeto somente é objeto perante o sujeito, sendo portanto uma relação de transcendência do objeto no sujeito, já que este é modificado cognitivamente, indo além da sua própria esfera de existência. Dessa forma, o conhecimento pode ser conceituado como “uma determinação do sujeito pelo objeto”, na qual a imagem do objeto, figura que contém as determinações do mesmo e surge entre os dois elementos, é que é determinada no sujeito propriamente pelo objeto, ou seja, o sujeito não é simplesmente determinado pelo objeto e sim a imagem deste que é determinada naquele. Uma característica importante dessa relação é a receptividade e a espontaneidade: o sujeito é receptivo perante o objeto, pois apreende dele o sentido na relação de conhecimento a partir de sua interação, mas ao mesmo tempo o sujeito é espontâneo perante a imagem do objeto em sua consciência, pois tem a atividade criadora presente na interação com a imagem do objeto (HESSEN, 2003, p. 21). A correlação entre sujeito e objeto só é indissolúvel e irreversível na relação de conhecimento, pois eles não se esgotam um para o outro : existe um ser em si além da relação de conhecimento naquilo que é desconhecido para o objeto, e para o sujeito naquilo que ele é além de sujeito que conhece, pois além de conhecer ele pode sentir e querer. Cessada a correlação entre os dois elementos, o objeto deixa de ser objeto e o sujeito continua sujeito só que não mais cognoscente (HESSEN, 2003, p. 22). 2.2 A elaboração de um conhecimento científico. Gaston Bachelard (1996, p. 17) explicita que o conhecimento científico vai sendo construído a partir de análises de teorias e argumentos que justificam-nas e consequentemente derrubam outras teorias que estivessem sendo aplicadas, pois a certeza que preenche a mente de um indivíduo que acha que encontrou o verdadeiros saber, ofusca-o daquilo que realmente deveria ter conhecimento: O conhecimento do real é luz que sempre projeta algumas sombras. Nunca é imediato e pleno. As revelações do real são recorrentes. O real nunca é o que se poderia achar mas é sempre o que se deveria ter pensado. O pensamento empírico torna-se claro depois, quando o conjunto de argumentos fica estabelecido. Ao retomar um passado cheio de erros, encontra-se a verdade num autêntico arrependimento intelectual. No fundo, o ato de conhecer dá-se contra um conhecimento anterior, destruindo conheci- mentos mal estabelecidos, superando o que, no próprio espírito, é obstáculo à espiritualização. Nesse sentido, existe uma oposição entre ciência e opinião, pois a última não se preocupa com a investigação cientifica, nem com a descoberta de problemas a partir de um esforço científico em conhecer, mas a opinião tão somente revela conceitos como necessidade, utilidade, que não surgem a partir do conhecimento do objeto e seu estudo. Diferente da opinião, a ciência necessita de problemas para solucioná-los e estes surgem a partir das indagações provenientes da pesquisa científica que formam o conhecimento científico, mas que pode ser derrubado na medida que novos questionamentos aparecerem. É notório que o conhecimento que o ser já obteve da realidade e costuma utilizar com frequência é mais valorizado por sua mente, é mais claro e faz mais sentido, o que propõe um sério obstáculo epistemológico (BACHELARD, 1996, p. 18- 19) O espírito científico exige do ser uma atitude revolucionária diante do conhecimento, ele deve sempre questionar, nunca deve ficar preso ao argumento reincidente, sob aparente clareza e desnecessidade de aperfeiçoamento. O epistemólogo tem como sua tarefa conhecer os fatos, mas sempre tendo em mente que eles são ideias (BACHELARD, 1996, p. 22), inseridos em contextos diversos, e que nessa atitude cognitiva estão presentes limitadores temporais, linguísticos, culturais. Diante dos conceitos de conhecimento expostos percebe-se que existe alguns fatores relevantes nessa explanação. A relação de conhecimento se faz dentro de uma realidade que se pressupõe existir com alguma segurança, pois, fugindo de um ceticismo radical, a forma como se conhece o mundo parte de convenções e conceitos pré-estabelecidos que são universalmente difundidos e com baixo teor de indeterminação (como as leis matemáticas e físicas fundamentais, ou o próprio conceito dos objetos, que dificilmente seriam completamente extirpados ). Apesar de existir classificações de mundo (um real e outro ideal, ou na visão de três mundos de Popper3) e percepções distintas da realidade, esta existe e tem nela contida os elementos fundamentais da relação de conhecimento: sujeito e objeto. O sujeito é cognoscente pois é capaz de apreender o objeto cognoscível, que é apreensível e determina o sujeito que o observa e tem a sua cognição alterada. Desta consideração é possível afirmar que o sujeito tem uma pré-compreensão da realidade, que é constantemente alterada pela sua relação de conhecimento com o objeto em uma busca inesgotável pelo sentido das coisas. Conforme preleciona Raimundo Bezerra Falcão (1997, p. 31-32), o sentido é filosoficamente inesgotável, na medida que a relação de conhecimento entre o sujeito e objeto sempre irá existir, e a alteração nos preconceitos e ideias do sujeito é permanente e necessária à sua própria natureza. É imprescindível explanar que a relação de conhecimento pressupõe a busca pelo verdadeiro, ou aquilo que esteja mais próximo da verdade. Os critérios para aferição de argumentos verdadeiros para ciência será objeto de análise do próximo tópico, dada a relevância dentro do conceito da teoria do conhecimento. 3 A VERDADE COMO PARADIGMA UNIVERSAL O conhecimento em sua essência está ligado ao conceito de verdade, de forma que somente é considerado conhecimento aquele que é verdadeiro, não o sendo seria somente um erro. Portanto, é um conceito considerado relacional na medida que somente será verdadeiro 3 Para Karl Popper existiriam três mundos: o primeiro mundo seria o mundo dos corpos físicos e dos seus estados físicos e fisiológicos; o segundo mundo seria o mundo dos estados ou processos mentais; o terceiro mundo seria o mundo dos produtos da mente humana que podem ser expressos em livros, esculturas, pinturas, construções ou outras formas de expressão, de forma que todo estado mental expresso faria parte do terceiro mundo (POPPER, 2009, p. 18-19) aquele conhecimento que tem uma relação de concordância com o objeto (este não pode ser verdadeiro e nem falso). Este é denominado conceito transcendente de verdade , ou seja o objeto na relação de conhecimento é transcendente (HESSEN, 2003, p. 22-23, grifo do autor). Contudo, este é apenas um dos entendimentos acerca do que seria verdade, e portanto, se faz necessário entender o que de fato é verdadeiro, que critérios serão utilizados para essa determinação. A relação de conhecimento é verdadeira por uma correspondência, por uma coerência de crenças, por uma satisfação semântica de sentenças abertas e objetos não linguísticos ou ainda por uma redundância (HAACK, 2002, p. 127-129)? Faz-se necessária uma incursão na teoria da verdade e nos critérios para a utilização das mesmas. 3.1 As teorias da verdade Segundo classificação das teorias da verdade proposta por Susan Haack (2002, p. 128), as teorias da coerência (explanadas por Rescher por exemplo) consistiriam em considerar verdade como “relações de coerência em um conjunto de crenças”; as teorias da correspondência (defendidas por Russell por exemplo) estabelecem como verdade não a relação de uma proposição com outras, mas dela com a realidade; a teoria pragmatista (defendida por Dewey por exemplo) seria um meio termo entre as duas primeiras, já que considera como verdade a correspondência com a realidade, mas também de sua coerência com outras crenças; a teoria semântica de Tarski considera “a verdade é definida em termos da relação semântica de satisfação, uma relação entre sentenças abertas (como ‘x > y’) e objetos não-lingüísticos (como os números 6 e 5)”; a teoria da verdade como redundância de Ramsey considera a verdade redundante, “pois dizer que é verdade que p é equivalente a dizer que p.” (HAACK, 2002, p. 127-129). Conforme Alan Chalmers (1993, 190-192), o realismo traz o conceito de que as teorias científicas serão verdadeiras se descreverem a realidade do mundo como ela é, pois o mundo continua existindo independentemente do ser humano o conhecer, o mundo “é da forma que é independentemente de nosso conhecimento teórico”. Em outra linha de pensamento, o instrumentalismo traz uma visão de que existiria uma realidade observável da qual se extrai situações observáveis e conceitos teóricos; estes últimos serviriam para ligar um conjunto de regras a um conjunto de fenômenos, mas não seriam o fundamento de uma descrição verdadeira de como o mundo é, pois somente utilizando descrições das entidades observáveis se chegaria a essa verdade. O cientista não poderia afirmar nada além daquilo que extraísse de uma observação segura da realidade, pois “não é atividade da ciência estabelecer aquilo que possa existir para além do reino do observável. A ciência não dá qualquer meio seguro de transpor o fosso entre o observável e o não-observável.”(CHALMERS, 1993, p. 192). Dessa afirmação depreende-se que a teoria realista é mais propensa ao desenvolvimento da ciência, pois parte para um maior enfrentamento quando tenta descrever a realidade com base em teorias e estas são consideradas falsas. O instrumentalismo ingênuo traz uma visão acomodada neste aspecto, pois ao separar as teorias cientificas como instrumentos para ligar o conjunto de fatos observáveis, como apenas um artificio para cálculos, foge da discussão da verdade (CHALMERS, 1993, p. 193). A partir do enfrentamento da verdade como correspondência, originaram-se teorias como a de Alfred Tarski que preleciona conceitos que tentam dirimir paradoxos surgidos a partir do ideal da verdade como correspondência, como o paradoxo do mentiroso: “Se eu digo ‘eu nunca falo a verdade’ então, se o que eu disse é verdade, o que eu disse é falso”. Para o autor seria necessária a percepção de quando se analisa ume sentença deve-se distinguir a linguagem do objeto e a metalinguagem, ou seja, a linguagem a qual se está falando, da linguagem que se está usando respectivamente, como por exemplo: “the dog is black” é verdadeiro se e somente se o cachorro é preto, temos um exemplo de linguagem do objeto (inglês) e a metalinguagem (português) diferentes. Os estudos de Tarski direcionaram-se no sentido de que a ciência não teria como objetivo a verdade. 3.2 Sobre a Verdade e o Mito do Contexto Na visão de Karl Popper (2009, p. 68-69), não existe o chamado “Mito do contexto” que traz a concepção de que a verdade seria mutável de acordo com o contexto histórico, social e cultural na qual se insere, havendo portanto uma impossibilidade de gerações de culturas distintas dialogarem: “a existência de uma discussão racional e produtiva é impossível, a menos que os participantes partilhem de um contexto comum de pressupostos básicos ou, pelo menos, tenham acordado em semelhante contexto em vista da discussão”. O autor começa sua explanação afirmando que a discussão entre participantes de contextos distintos pode ser difícil, assim como qualquer discussão entre participantes de contextos pouco comuns ou quanto maiores forem as sobreposições entre os contextos. Com relação à discussão ser proveitosa, não é o fato dos contextos serem diferentes que irá determinar quão proveitoso será o debate, pois os participantes podem estar em um contexto comum e podem ter ideias distintas, tornando a discussão improdutiva, assim como podem estar em contextos diferentes e podem ter ideias similares, tornando o debate proveitoso. Na verdade, a discussão é considerada mais proveitosa quando seus participantes aprendem mais, o que geralmente ocorre quando existe uma divergência inicial entre eles (POPPER, 2009, p. 70-71). Diante de um confronto entre pessoas de contextos díspares, nem sempre o acordo será por finalidade desejável, pois embora não haja acordo entre as partes , o confronto pode ser proveitoso diante da lição aprendida com a situação, ou ainda renovados seus argumentos diante da sua fragilidade inicial e o crescimento dentro do próprio confronto. O buraco existente entre participantes de contextos diferentes nem sempre é superado, mas geralmente o é na medida que até os problemas comuns nem sempre são necessários , o ser humano pode aprender muito com o outro e consequentemente será em sua essência fruto dessas discussões inconclusivas (POPPER, 2009, p. 74-75). Quando as divergências entre indivíduos ocorrerem entre regras convencionais e costumes ,por exemplo, as partes quando não chegarem a um acordo somente poderão se lamentar e ter a sensação de que não tiveram nenhum novo aprendizado (autor cita exemplo de regras de transito na Inglaterra e nos Estados Unidos da América). Contudo, quando se estiver diante de leis que regem um Estado, estar-se-á diante de uma situação mais complexa, pois não cabe o argumento de que devido ao contexto divergente as leis não são comparáveis, pelo contrário devem ser sim comparadas (POPPER, 2009, p. 86-88) para se chegar a um conceito mundial de proteção aos direitos fundamentais. Conclui-se que existem duas discussões racionais: uma com “caráter de justificação, de prova, de demonstração ou de derivação lógicas de premissas e aceites” e outra que se baseia em uma discussão crítica que testa a teoria em questão para consequências logicas desejáveis e indesejáveis. O primeiro método conduz a um dogmatismo infinito, na medida que questiona como justificar a tese em discussão (método errado de crítica) fruto de uma concepção relativista; o segundo método conduz a comparar as consequências das diferentes teorias (método correto de crítica) e reconhecer a própria falibilidade das teorias, tendo sempre como norteamento melhorar o universo, buscar novos conhecimentos, aperfeiçoar e substituir as teorias que tragam maiores danos a sociedade (POPPER, 2009, p. 110-111). Diante de uma explanação teórica da origem do conhecimento, a construção de uma teoria epistemológica, e a consequente busca pela verdade e seus conceitos diversos, conclui- se por demonstrar neste tópico final a importância da temática do que seja verdadeiro, quando bem elucida Popper a gravidade de um conceito relativista da verdade, na medida que associada ao contexto de leis do Estado, podem até legitimar a prática de crimes cruéis sobre a perspectiva da impossibilidade de comparação de leis que venham de países com contextos díspares, o que representa uma afronta aos direitos fundamentais, e um retrocesso na própria pesquisa científica e no sentimento filosófico de busca pelo conhecimento. CONCLUSÃO O presente trabalho procurou elucidar e explicar como se deu a origem da filosofia e do próprio conhecimento, bem como a formação de uma teoria do conhecimento para o estudo dos critérios e de conceitos para melhor identificação do objeto epistemológico, da realidade e da verdade como paradigma universal. O ser é dotado de uma pré-compreensão da realidade onde carrega valores, experiências, instintos, que foram obtidos e serão modificados repetidamente e de forma inovadora a cada novo contato com o objeto. É este quem determina o sujeito, que por sua vez constrói uma imagem desse objeto a partir de seus sentidos e de como apreende a realidade em sua mente. O ato de conhecer é inerente ao próprio ser humano, que busca ter uma visão de mundo através de uma auto-reflexão de seus valores práticos e teóricos. Surge a Epistemologia como teoria material da teoria da ciência (filosofia como teoria do conhecimento científico) e deve se ocupar do estudo do conhecimento, da apreensão do sentido na realidade, e das teorias da verdade. O conhecimento científico é construído a partir da iniciativa científica, que visa encontrar novos paradigmas para ciência, na medida que a construção de qualquer teoria pressupõe a busca inesgotável pelo conhecimento e consequentemente o constante teste da teoria. A partir da análise de que para a teoria da verdade, esta pode ser conceituada como uma relação de coerência entre crenças, correspondência entre a realidade, entre outras conceituações, percebe-se a dificuldade de se definir seguramente critérios para comprovar e assegurar o conhecimento e argumento verdadeiro. Contudo é inafastável que conforme explanado no “Mito do contexto” sempre deve se ter em mente que em uma discussão nem sempre haverá um acordo e nem por isso ela deixará de ser proveitosa pois aprendemos muitos uns com os outros. O conhecimento despertou a atividade especulativa no ser humano de querer conhecer, filosofar, investigar acerca da realidade, o que tornou necessário um estudo mais aprofundado acerca da teoria do conhecimento (surgindo como disciplina autônoma) e do próprio conceito de verdade. Conclui-se que a relativização contextual da verdade representa sempre um risco para a tomada de decisões e proposição de leis, que se não concluir com um argumento minimamente universalizante, poderá dar margem a proteção de crimes cruéis sob a perspectiva de que dada a diferença entre contextos culturais, sociais, econômicos, não cabe comparação entre as leis, o que será uma grave ameaça aos direitos fundamentais. 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