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COLEÇÃO UNI PAZ - PSICOLOGIA

TRANSPESSOAL

- As fron teiras da regressão -


Origens da consciência cósmica
Pierre Weil
- O homem holístico - A unidade
men te-natureza
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Francisco Di Biase
Richard Amoroso
(organizadores)

Francisco Di Biase
- Iluminação espiritual- A emelgência do sagrado
Lilian Costa Pinto
- A revolução da consciência: novas descobertas sobre a mente no
século XXI
A REVOLUÇÃO DA
Richard Amoroso e Francisco Di Biase
CONSCIÊNCIA
COLEÇÃO UNI PAZ - TRANSPESSOAL NOVAS DESCOBERTAS SOBRE A MENTE
Coordenadores: Pierre Weil e Roberto Crema
NO SÉCULO XXI
A Transpessoal é um ramo da Psicologia que estuda os diferentes es-
tados de consciência pelos quais passa o ser humano. Em cada estado de
consciência é experienciada uma forma específica da realidade. A Psico-
logia Transpessoal estuda a relação destes estados de consciência e a vi- Tradução de Vera Lúcia Joscelyne
vência da realidade, mais particularmente a consciência cósmica.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
A revolução da consciência: novas descobertas
sobre a mente no século XXI / Richard L. Amoroso, Karl Pribram Mihai Drãgãnescu
Francisco Di Biase, (organizadores) ; tradução Stanislav Grof Menas Kafatos
de Vera Lúcia Joscelyne. - Petrópolis, RJ : Ruppert Sheldrake
Vozes, 2004.
Mário Sérgio Rocha
Amit Goswami Andrew Lohrey
ISBN 85.326.3069-3
Título original: Science and the primacy of Benny Shanon
consciousness : intimation of a 21 st century
revolution.
V ários autores.
Bibliografia.
I. Ciência - Filosofia 2. Consciência-
Pesquisa 3. Cosmologia 4. Filosofia da mente
5. Neurociências 6. Psicologia - Filosofia
7. Teoria quântica I. Amoroso, Richard L.
lI. Di Biase, Francisco.

04-5567 CDD-126 Y
• EDITORA
VOZES
Índices para catálogo sistemático:
1. Consciência e mente: Filosofia 126 Petrópolis
2004
Título original inglês: Science and the primacy of
consciOUSlless: intimation of a 21st centwy revolution

Direitos de publicação em língua portuguesa:


Editora Vozes Ltda.
Rua Frei Luís, 100 SUMÁRIO
25689-900 Petrópolis, RJ
Internet: http://www.vozes.com.br
Brasil

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá


ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou
quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e Apresentação - Ciência e consciência na Era da Informação (Fran-
gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados cisco Di Biase), 7
sem permissão escrita da Editora.
PARTE 1- NEUROBIOLOGIA, 11
1. O primado da experiência consciente (Karl H. Pribram), 13
Este volume é composto de 11 capítulos, selecionados
PARTE 11 - FILOSOFIA DA MENTE, 25
dentre os 39 do original inglês, a partir da organização
conjunta de Francisco Di Biase e Richard Amoroso. 2. Consciência, uma definição radical: o dualismo da
substância soluciona o Hard Problem (Richard L.
Amoroso), 27
3. Princípios fundamentais gerais na Filosofia da Ciência
(Mihai Drãgãnescu e Menas Kafatos), 50
Editoração: Sheila Ferreira Neiva
Projeto gráfico e capa: AG.SR Desenv. Gráfico PARTE 111- FÍSICA QUÂNTICA E COSMOLOGIA, 73
4. Simetria: A Teoria do Tudo (Andrew Lohrey), 75
5. Ciência e consciência: um novo paralelismo,
ISBN 85.326.3069-3 (edição brasileira) quântico-psicofisico (Amit Goswami), 101
ISBN 0-9678687-1-8 (edição inglesa)
PARTE IV - PSICOLOGIA TRANSPESSOAL, COGNITIVA
E PARAPSICOLOGIA, 115
6. O futuro da psiquiatria e da psicologia: desafios
conceituais da pesquisa clínica da consciência (Stanislav
Groff), 117
7. A mente ampliada (Ruppert Sheldrake), 159
8. Ayahuasca, mente e consciência (Benny Shanon), 196
Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda.
PARTE V - INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, REDES NEU-
RAIS E CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO, 221
9. Computação Quântica Evolucionária: seu papel no
cérebro, sua realização como hardware eletrônico e suas
implicações para a Teoria Pampsíquica da Consciência
(Ben Goertzel), 223 APRESENTAÇÃO
Ciência e consciência na Era da
PARTE VI - INFORMAÇÃO E TEORIA DOS
SISTEMAS, 245 Informação
10. Informação, auto-organização e consciência - Rumo a
uma teoria holoinformacional da consciência (Francisco Di
Francisco Di Biase
Biase, Albert Schweitzer e Mário Sérgio F. Rocha), 247
Neurocirurgião, Grand PhD,
PARTE VII - FÓRUM DE DEBATES, 269 AEI-WIDU, Bélgica - Professor
11. A ciência e o primado da consciência (Karl Pribram, honorório da Albert Schweitzer
Inlernalional Universily, Suíça
Rupert Sheldrake, Stanislav Grof e Amit Goswami -
Moderador: Benny Shanon), 271

Índice, 297 Desde Descartes no século XVII, a questão da natureza da


consciência foi sendo progressivamente relegada a um plano se-
cundário, sendo praticamente esquecida pelos meios acadêmicos
nos últimos séculos. Graças às modernas pesquisas nos campos
das Neurociências, Física Quântica, Dinâmica Cerebral Holográfi-
ca e Teoria da Informação Quântica, Psicologia Transpessoal e
Cognitiva, Inteligência Artificial e Ciências da Computação, Pa-
rapsicologia, Cosmologia e Filosofia da Mente, a consciência tor-
nou-se na atualidade um dos principais temas de estudo e discus-
são da ciência.
A consciência não é um problema científico qualquer, pois é a
nossa própria consciência que queremos entender. A compreensão
de sua natureza pode nos conduzir a uma nova visão de nós mes-
mos e de nosso lugar no universo. Pela primeira vez na história lm-
mana, temos as condições científicas necessárias para entendermos
a consciência e sua relação com o universo.
Richard Amoroso, organizador do livro nos Estados Unidos,
levanta o problema da consciência com as seguintes indagações:
"Como pode a consciência surgir no universo?" "É a consciência

7
Os artigos que compõem o livro são as conferências apresenta-
um fenômeno emergente dos processos cerebrais, ou é o cérebro
das durante o congresso internacional Science and the Primacy of
um fenômeno emergente da consciência?"
Consciousness, realizado no período de 22 a 24 de abril de 1998, na
Os autores, todos experts em estudos da consciência, sinteti- Universidade de Lisboa, em Portugal. A conferência sobre a Teoria
zam os desenvolvimentos e as múltiplas perspectivas resultantes Holoinformacional da Consciência, apresentada por mim, foi a
do moderno estudo da consciência, revelando dimensões que a cul- única contribuição latino-americana publicada no livro original
tura ocidental somente agora está começando a compreender. Sta- nos USA.
nislav Grof, um dos criadores da Psicologia Transpessoal, afirma
Durante o congresso tive a maravilhosa oportunidade de con-
neste livro: "As experiências transpessoais têm muitas característi- viver tête-a-tête com Karl Pribram, moderador do caloroso debate
cas estranhas que rompem todas as premissas metafisicas mais bá-
que se seguiu à minha controvertida apresentação, e de quem guar-
sicas do paradigma cartesiano-newtoniano e da visão materialista
do gratas recordações, não só pelo apoio dado às minhas idéias,
do mundo". É este aspecto revolucionário, e ao mesmo tempo fun-
mas principalmente pela amizade espontânea que nasceu entre
damentador, do emergente paradigma holístico, que a meu ver, tor-
nós. Durante o debate, eu havia sido interpelado por um outro con-
na este livro único.
ferencista, que de forma sutil tentou desviar o entusiasmo da pla-
Encontramo-nos neste início de milênio, em um ponto de mu- téia para com minha apresentação para a sua, que também utilizava
tação da cultura ocidental, em que os pilares da ciência acadêmica bases infonnacionais. Pensando que estaria me colocando em uma
do século XX, tais como a fisica newtoniana e a neurociência me- enrascada, me solicitou que definisse infonnação dentro do con-
canicística do funcionamento cerebral e da consciência, estão sen- texto que eu acabara de apresentar. No silêncio que se seguiu, meu
do minados por uma moderna ciência holística de natureza sistêmi- cérebro, como que num passe de mágica, fez mil associações de
ca, quântica e não-reducionista, que vem solucionando o antigo idéias instantaneamente, e de um modo mais intuitivo do que lógi-
dualismo cartesiano que separou mente e matéria, e homem e uni- co-racional, respondi em poucos segundos: "nesta concepção, in-
verso. É neste contexto que situamos este livro, como a mais atual e formação deve ser entendida como uma propriedade intrínseca, ir-
abrangente obra acerca dos modernos estudos da consciência já redutível e não-local do universo, capaz de gerar ordem, auto-orga-
publicada no Brasil. Sua leitura proporciona ao leitor um salto nização e complexidade, e deve ser considerada mais básica do que
quântico, revelando de modo elegante e paradigmático o padrão o princípio da conservação da matéria e energia". Ao ouvir isto,
holístico que une matéria, vida e consciência à consciência univer- Karl se levantou de um pulo, e encaminhando-se em minha dire-
sal e à dimensão espiritual. ção, me cumprimentou efusivamente, afirmando: "com o que con-
Entre os autores deste volume estão alguns dos maiores expo- cordo totalmente", emudecendo assim todo o restante da platéia.
entes mundiais da área de estudos da consciência, como Stanislav Recordo-me com saudades dos momentos de lazer, durante os al-
Grof, psiquiatra, um dos pais da Psicologia Transpessoal, Karl moços nos restaurantes de Lisboa, entre um copo de vinho e outro,
Pribram, neurocientista criador da Teoria Holonômica do funcio- em que tivemos a oportunidade de manter um diálogo extrema-
namento cerebral, Ruppert Sheldrake, biólogo e parapsicólogo, mente produtivo, acerca de seu monismo ontológico. como ele gos-
criador da Teoria dos Campos Mórficos, Amit Goswami, fisico ta de definir sua posição filosófica, e de discutir suas restrições em
quântico, criador de uma teoria quântica da consciência, e Ri- relação ao interacionismo-dualismo de Sir Jolm Eccles de quem
chard Amoroso, psicólogo e cosmologista do Noetic Advanced ele sempre foi grande amigo e admirador. Demonstrou-me que,
Studies Institute, da Califórnia, criador da Teoria do Campo Noéti- apesar de pern1anecer um monista, acredita ser viável, como Eccles
co da consciência. sugere, a possibilidade de um dualismo epistemológico, ou um plu-
ralismo, como coloca Popper.

9
8
Gostaríamos de agradecer à Faculdade de Psicologia e Ciên-
cias Educacionais da Universidade de Lisboa e à Fundação Bial
pelo apoio dado à realização do congresso do qual se originou este
livro, e ao Journal of COl1sciousness Studies pela publicação do
mesmo, e, especialmente, a todos os participantes e organizadores
desta aventura do conhecimento que foi este evento seminal.

PARTE I

NEUROBIOLOGIA

10
1
o primado da experiência consciente
Karl H. Pribram

Radfard Universily, USA

Resumo

Nos dias atuais, esforços para compreender a dualidade men-


te/cérebro vêm despertando cada vez mais interesse. Isso se deve
em parte ao sucesso extraordinário das ciências psicológicas e neu-
rológicas. A lacuna aparente entre mente e matéria está sendo preen-
chida com uma p1etora de dados que estabelecem finnemente, e em
grande detalhe, as possíveis relações entre nossa experiência e a
organização do cérebro. O sucesso desse empreendimento nos faz
recordar os sucessos recentes da teoria darwiniana, onde a lacuna
evolucionaria existente entre seres humanos e primatas não-huma-
nos está sendo preenchida com novas descobertas quase que dia-
riamente.

1. Uma história sinótica da dualidade mente/cérebro

Atualmente, a distinção rígida entre mente e matéria é nonnal-


mente atribuída a Descartes. No entanto, René Descartes (1634)
articulou uma dualidade que remonta às origens das elocuções pro-
posicionais: um sujeito, um objeto e um verbo que atribui ao sujei-
to um aspecto compartilhado pelo objeto, ou uma "intenção" di-
recionada para o objeto. Holofrases, tais como OM em sânscrito e
Yaveh em hebraico que querem dizer "ser", escondem, ou melhor,
falham em expor, significados proposicionais. Diz-se que as holo-

13
frases precederam as elocuções do desenvolvimento das lingua- "faculdades" psicológicas eram dependentes do funcionamento
gens, da mesma forma que as holofrases precedem o desenvolvi- normal de sistemas que poderiam ser mais ou menos localizados
mento da linguagem em crianças. O processo de ser se transforma no cérebro. A conectividade anatômica desses sistemas e sua res-
em um ser, um sujeito com uma barba que entrega os mandamentos posta eletrofisiológica ao estímulo sensorial já foram descritas.
a Móises, um objeto. Com o passar do tempo e à medida que as técnicas melhores
Para Descartes, o pensador é sujeito; todo o resto é objeto. iam ficando disponíveis, as antigas descobertas básicas foram apri-
Emanuel Kant, no entanto, mostrou que os objetos do pensamento moradas. No momento atual, com procedimentos revolucionários
são idéias e que as idéias têm duas fontes: experiência de fenôme- como tomografia computadorizada e as imagens por ressonância
nos iniciada sensorialmente (imagens de objetos) e númenos, as magnética nuclear, os estudos que procuram identificar as relações
contribuições da razão do pensador. Com isso, tanto o pensador entre os tipos de experiência psicológica e os sistemas cerebrais
quanto o conteúdo do pensamento se tomam subjetivos - e o co- ganham fúrça.
nhecimento do aspecto "material" e objetivo do mundo toma-se Na convexidade do cérebro, podemos distinguir grosseira-
"incerto" .
mente um modelo de três camadas para esses sistemas. Cada siste-
Arthur Schopenhauer, incomodado com essa indetenninação, ma sensorial principal estimula, de uma forma relativamente dire-
com essa nossa incapacidade de "realmente" conhecer o mundo ta, determinadas áreas do córtex. Circundando essas áreas existem
devido ao nosso envolvimento nele, chegou a dar ênfase ao papel outras que, quando estimuladas eletricamente, dão origem a movi-
do pensador, da energia e da "vontade", das intenções, no desema- mentos da musculatura associados com cada um dos órgãos dos
ranhamento da imprecisão das imagens. Ele observou que o de se- sentidos (por exemplo, músculos oculares para visão, músculos
maranhamento do "nó do mundo", que é resultado do emaranha- auditivos para a audição e músculos do corpo para sensações so-
mento dos fenômenos e dos númenos, depende de nós. Isto nos dá a máticas). Essas áreas estão conectadas extrinsecamente, ou seja,
liberdade de explorar e também as oportunidades de moldar o conectadas a órgãos da periferia do corpo e, conseqüentemente, for-
mundo que habitamos. Hoje em dia muitas vezes ouvimos dizer necem perspectivas que relacionam o corpo ao mundo à sua volta.
que a solução para alguns de nossos problemas sociais não é so- Ao redor dessas áreas extrínsecas, existem áreas sensoriais es-
mente dinheiro, mas vontade política. Essa visão é muito seme- pecíficas que são principalmente conectadas de maneira intrínse-
lhante à de Schopenhauer. ca, ou seja, a outras estruturas cerebrais.
Em um certo sentido, Schopenhauer retoma à totalidade que a Essas áreas fornecem perspectivas - tais como as que são for-
holofrase abrange e indica que os seres humanos, pelo fato de ope- necidas pela cor e constância do objeto - que são intrínsecas às en-
rarem de um modo semelhante à proposição, têm, por meio de suas tidades percebidas. Finalmente, existem áreas que operam ao rece-
intenções, a oportunidade de moldar as imagens ou representa- ber estímulos de uma variedade de sentidos que relacionam suas
ções que vivenciamos e, conseqüentemente, a nossa interpretação perspectivas umas às outras. Todas essas áreas e os sistemas cere-
do mundo. Voltaremos a isto brevemente.
brais que elas representam estão envolvidos na organização de
nossas percepções dos fenômenos. A tenninologia atual, os cha-
2. Entra a ciência do cérebro mados de aspectos da percepção direcionados sensorialmente (veja
Pribram, 1991).
Descartes, Kant e Schopenhauer sabiam que a organização da Outro grupo de sistemas, mais "numenísticos" em sua função,
experiência psicológica depende em parte do modo como o cére- está localizada na parte frontal e na borda mediallímbica dos he-
bro funciona. Nos últimos dois séculos, uma profusão de detalhes misférios cerebrais. Esses sistemas e suas funções na organização
foi sendo acrescentada. Inicialmente, foi demonstrado que certas de nossa experiência serão abordados na parte final deste ensaio.

14 15
Entretanto, existem tipos de experiência psicológica que não cias. Em suma, o hard problel'n se aplica a todo o conhecimento, a
podem ser assim tão facilmente classificados de acordo com os toda ciência, não somente ao estudo da consciência.
sistemas cerebrais que os organizam. O hard problem é o problema do conhecimento, o problema
Aspectos da percepção consciente, armazenamento e recupe- ontológico da epistemologia. É o problema de desemaranhar o nó
ração (lembranças) de memórias e a capacidade de transferir o que do mundo, quase voltando ao problema cartesiano do cognitivo ver-
foi aprendido em uma situação para outra, ou o que foi aprendido sus todo o restante. No entanto, a maneira nova pela qual Kant e
de uma forma para outra (por exemplo, com uma mão para a outra Schopenhauer entenderam, todo restante deve ser incluído no hard
mão). O que foi descoberto é que esses dois tipos de interpretação problem e para solucionar esse problema no plano que eles estabele-
do emaranhado do mundo dependem, em parte, de processos que ceram requer um envolvimento ativo, intenção, vontade. Pesquisa
estão distribuídos pelo cérebro. Uma vez mais, técnicas recentes neuropsicológica e neurocientífíca é a expressão atual desse intento.
estão fortalecendo a investigação: dessa vez, o desenvolvimento Uma última observação. Enquanto os psicólogos e os neuro-
de arquiteturas computacionais maciçamente paralelas e o uso de cientistas estão solucionando a dualidade mente/matéria de uma
gravações múltiplas com microeletrodos.
perspectiva, os físicos quânticos vêm abordando a questão de outro
ângulo. Bohr, Heisenberg, Dirac e Wigner, cada um de sua manei-
ra, observaram que a forma como abordamos uma observação em
3. O Hard Problem (problema difícil)
grande parte a determina.
Alguns filósofos (por exemplo, David Chalmers) classificam a Como me foi descrito pessoalmente por Wigner, na física quân-
questão mente/cérebro em difícil e fácil: "o que estamos realizan- tica já não temos mais observáveis, somente observações. Os princí-
do, afirmam eles, é a parte fácil". Mostram que, em uma extensão pios de complementaridade de Bohr e de indeterminação de Heisen-
considerável, a revolução cognitiva na psicologia experimental, e berg propõem o mesmo argumento kantiano (veja Stapp, 1972).
sua influência na neuropsicologia, não só está tendo êxito na for- Toda ciência, não apenas a ciência psicológica, deve algo ao
mulação de uma verdadeira ciência psicológica que leva a sério a hard problem.
experiência subjetiva, mas, ao mesmo tempo, está preenchendo o
abismo mente/cérebro. No entanto, eles também observam que é
muito mais difícil transpor a distância entre nossa experiência pes- 4. A dualidade na experiência subjetiva
soal e a experiência alheia, que validamos através da comunicação
por meio de comportamentos verbais ou instrumentais. Como observamos na introdução, no próprio cogito de Des-
Os filósofos insatisfeitos realmente têm alguma razão, e essa cartes, várias concepções diferentes, e dualidades distintas, cha-
maram a atenção dos filósofos. Uma delas, mais claramente articu-
razão nos leva de volta a Descartes, Kant e Schopenhauer. Existe
uma dualidade entre minha experiência subjetiva e a dos outros. lada por Franz Brentano, é a dualidade entre aquele que percebe e a
Apesar disso, creio que os filósofos atuais estão errados quando coisa percebida (Brentano 1973). Isso também reflete a dualidade
restringem o hard problem à percepção consciente de nossa expe- cartesiana: aquele que percebe está mentalizando; todo o restante é
riência. A dualidade de Descartes foi corrigida por Kant: todas nos- o que está sendo percebido e mentalizado.
sas experiências envolvem representação fenomênica e "núme- Mas, ao contrário de Descartes, Brentano está menos interes-
nos". Nem nossos sentidos nem nossa cognição nos fornecem sado naquilo que está sendo percebido e mais naquele que percebe.
prontamente réplicas não adulteradas daquilo que "está lá fora". E Tonalidades de Schopenhauer emergem na medida em que aquele
é por isso que devemos nos esforçar por entender a percepção que percebe "intenciona" suas percepções - pode até intencionar
consciente, mas também as origens de todas as nossas experiên- perceptos "inexistentes" tais como unicómios.

16 17
A pesquisa sobre o cérebro já demonstrou (veja Pribram & rio, ela faz parte de uma consciência holística saudável, sem quais-
Bradley, 1998) que os sistemas que ocupam a convexidade posterior
quer fronteiras.
dos hemisférios cerebrais estão envolvidos na organização da duali-
A ciência psicológica e neurológica fez grandes progressos re-
dade de Brentano. Quando os sistemas do lóbulo parietal são danifi-
centemente com respeito à compreensão desse tipo de percepção.
cados é possível que o paciente comece a ter a sensação de que o bra-
Primeiramente, Endel Tulving (veja Bradley & Pribram, 1998) es-
ço do lado oposto à lesão cerebral não é seu próprio braço. Um de
tabeleceu a diferença entre dois tipos de memória humana: um tipo
meus alunos, que sofreu uma lesão deste tipo, apelidou seu braço de
semântico ou de dicionário e outro que lida com episódios de nossa
Alice e afinnou que "Alice não vive mais aqui". Apesar dessa perda
do sentimento de pertencer, o braço continua a desempenhar tarefas própria experiência. Ao mesmo tempo, a pesquisa com primatas
não-humanos estabeleceu a diferença entre os sistemas cerebrais
rotineiras, como levar um xícara de café até a boca, para enorme sur-
presa desta quando percebe o que está acontecendo. que lidam com memória referencial e os que lidam com tipos de
processamento de tentativas e erro.
Lesões na parte ainda mais posterior da convexidade produz
Há evidência suficiente, obtida através da pesquisa neuropsi-
"visão cega".
cológica humana, que permite a diferenciação entre processos res-
Aqui também a pessoa pode desempenhar tarefas rotineiras ponsáveis pela memória semântica e os relativos à memória refe-
que exigem aferência óptica do lado cego, mas o paciente não está rencial. Esses processos são prejudicados quando a convexidade
consciente daquele input. Com o cérebro intacto, estamos consci- posterior do cérebro é lesada. A dualidade de Brentano envolve
entes tanto de nós mesmos, enquanto "aqueles que vêem", quanto justamente o "referencial", a capacidade de estar consciente da dis-
daquilo que está sendo visto. tinção entre aquele que percebe e a coisa percebida.
Nesses exemplos e em outros semelhantes, a consciência de Há também bastante evidência obtida com animais de que o
nosso self corporal e do ambiente estão prejudicados. "Alice já não processamento através de tentativa e erro conduz à lembrança de
faz mais parte de mim; o comportamento cego, guiado opticamen- exemplos únicos e, portanto, ao processamento de episódios. O
te, não é meu." A partir de observações <:omo essas podemos dedu- processamento episódico é prejudicado por qualquer lesão nos sis-
zir que, nonnalmente, esses sistemas cerebrais funcionam para temas límbicos que se encontram na borda interior (daí o termo
pennitir a ocorrência da consciência de um "mim" corpóreo. Quan- límbico) dos hemisférios cerebrais.
do isso é prejudicado, já não existe mais a distinção entre aquele
A deterioração do processamento episódico conduz a uma di-
que percebe e a coisa percebida - da mesma maneira que um daltô-
ficuldade surpreendente. Pacientes com tipo de lesão têm aspecto
nico não consegue distinguir o vermelho do verde. Na ausência de
normal e são capazes de interagir socialmente momento a momen-
diferenciação, nenhuma das duas cores existe para aquela pessoa.
to graças ao seu processamento semântico/referencial intacto. No
Na ausência da consciência da diferença entre aquele que percebe e
entanto, qualquer interrupção ou distração simplesmente impedirá
a coisa percebida, nem um nem outro existem.
o episódio de ter uma consciência futura como se aquele único epi-
Há ainda uma outra dualidade totalmente distinta que preocu- sódio nunca tivesse ocorrido. Portanto, com o passar do tempo e de
pou os filósofos. Além de um self de um eu, eles se preocuparam episódios sucessivos, não é estabelecido um "eu" narrativo, qual-
com uma consciência transcendental de nossa união com uma or- quer hermenêutica pessoal.
dem maior, mais universal. Os arquétipos de Cárl Jung abordam
O processamento episódico que leva à experiência de um "eu"
esse aspecto da experiência (Jung, 1933). Paradoxalmente, essa
narrativo é diferente daquele que conduz a um "mim" corpóreo.
experiência é tão intensamente pessoal quanto holística. A expe- Crianças que têm lesão bilateral nos sistemas límbicos desde o nas-
riência não pode ser analisada como um "aqui dentro" versus "lá
cimento conseguem aprender a ler e outros aspectos do processa-
fora", como no caso da intencionalidade de Brentano. Ao contrá-
mento semântico não são prejudicados. Um estudo de caso de-

18 19
monstra, de maneira dramática, a deficiência na construção de um Os sistemas cerebrais que organizam o processamento episódi-
"eu" narrativo. co também têm estímulos e respostas e esses também se superpõem
Uma criança que nasceu com cistos enormes envolvendo a consideravelmente. Um sistema motor mediobasal cobre as porções
parte límbica e frontal do cérebro foi submetida a duas operações anteriores do córtex límbico e centros na amígdala, um gânglio ba-
antes dos seis meses. Ela nunca mostrou qualquer evidência da pre- sal. A estimulação elétrica desse córtex produz mudanças marcantes
sença de memória episódica; no entanto, foi capaz de aprender a no ritmo cardíaco e respiratório, na pressão sangüínea e nas contra-
linguagem verbal em níveis adequados para sua idade. Com oito ções gastrintestinais. Em contraste com os resultados da estimulação
anos era capaz de dizer seu nome, idade, aniversário e nomes dos do córtex motor somático que somente produz um desvio grosseiro
membros da família. Durante os testes, declarou quais eram seu do corpo e dos olhos para o lado oposto ao estimulado.
jogo e seu programa de televisão favoritos e sua cor preferida. As Além disso os estímulos vindos do corpo nascem principalmen-
habilidades de expressão lingüística eram adequadas para a idade e te dos tratos relacionados com estímulos viscerais, anatômicos, do-
a criança não tinha problemas evidentes com a gramática. Apesar lorosos e térmicos. Juntos, esses inputs podem ser classificados como
disso, não era capaz de se lembrar do que tinha comido no café da mediadores dos aspectos emocionais hedônicos (agradáveis/desa-
manhã algumas horas antes. Não era capaz de identificar correta-
gradáveis) da consciência. Portanto, não é surpreendente a existên-
mente um dos examinadores com quem tinha trabalhado aquela cia de uma relação anátomo-fisiológica entre os processamentos he-
manhã em um grupo de quatro pessoas, não conseguia dizer o que
dônico e episódico. Afinal de contas o "eu" narrativo vivencia os
tinha comido no almoço e o valor do restaurante.
episódicos, e a pesquisa demonstrou que as recompensas e as puni-
É claro que o processamento episódico não é necessário para o ções são essenciais para "fixar" um episódio a fim de que este passe
estabelecimento do processamento semântico normal. O reverso a ser uma parte lembrada da narrativa pessoal.
também é verdadeiro: crianças que sofrem dano nos sistemas que
Schopenhauer enfatiza a importância do corpo na organização
processam o "mim" corpóreo, como, por exemplo, aqueles que são da intenção, da vontade, mas falha em distinguir o corpo como um
espásticos de nascimento, não têm problemas com o processamen-
"mim" qualificado e o corpo como um "eu" hedônico. Plans and
to episódico e desenvolvem um "eu" narrativo normal.
the structure of behavior (Miller et ai., 1960) separou esses aspec-
Essas crianças também desenvolvem um processamento se- tos da vontade ao distinguir motivações (hedônicas) como predis-
mântico normal, indicando que o "mim" tem dois aspectos distin- posições, e intenções como disposições. Por sua vez, as intenções
tos: um relacionado com estímulo sensorial e outro com a reação são subdividas em estratégicas (intenções a priori) e táticas (inten-
motora. Essa separação entre habilidades motoras e consciência ções na ação, como foram chamadas por John Searle, 1983).
corporal é devida à importância cada vez maior desses sistemas Existe uma relação entre emoção, motivação, estratégia e táti-
motores somáticos. Os sentidos de distância dependem de seus ca. Como indicou William James (1950), as emoções param na
componentes motores principalmente para aprimorar o processa- pele, as motivações (denominadas, na literatura da época, de ins-
mento sensorial. Ao contrário, o sistema motor somático tem a ca-
tintos) vão mais além. Para implementar as motivações, desenvol-
pacidade de mudar - com grande habilidade e de forma dramática vemos intenções, tanto estratégicas quanto táticas. Sistemas cere-
- o estímulo ambiental. Como resultado, com sistemas motores em brais distintos estão relacionados com cada uma dessas categorias
primatas, inclusive os dos seres humanos, tornam-se mais distinta-
comportamentais. A amígdala à emoção; o caudado putâmen à
mente separados dos sistemas somáticos de estímulos sensoriais, motivação; o córtex frontal anterior às estratégias; e o frontal mais
enquanto no caso dos sentidos de distância existe maior superposi- posterior, o córtex pré-central, às táticas.
ção entre o estímulo e o resultado.
Embora familiarizado com os Upanishades, Schopenhauer não
os acompanha na ênfase que dão aos aspectos hediônicos da totali-

20 21
dade como exemplificado pela jardinagem ou pelo ato sexual e, Searle [1983]) que percebem falhas na posição materialista. Mas
portanto, falham em entender completamente o aspecto holístico materialismo e mentalismo estão relacionados um com o outro as-
transcendental do "eu". Apesar de seus esforços para dar à vontade sim como "para baixo" está relacionado com "para cima" - um não
uma base corporal, a elaboração de Schopenhauer sobre o envolvi- existiria sem o outro. O que vem primeiro, nossa experiência do
mento do corpo no desemaranhamento do nó do mundo resulta em mundo material ou o cérebro material que torna essa experiência
um "mim" corpóreo, não em um "eu" holístico. As conseqüências possível? Será que a galinha é uma forma ovular de se reproduzir
dessa falha fizeram com que ambas as filosofias nazista (idealista) ou será o contrário?
e comunista (materialista) negligenciassem o incentivo ao indivÍ- A revolução da informação está começando a virar as costas
duo e paradoxalmente contribuíssem para o surgimento de uma so-
para aquele enorme interesse em uma dualidade mente/matéria e a
ciedade doentia, não-holística e profana. voltar-se para a questão com que se preocupou Platão e Aristóteles:
Se seguirmos as diretrizes dos materialistas elimina listas nos- o ideal versus o real. Alguns matemáticos (por exemplo, Roger
sa sociedade pode terminar de forma similar. Como observou um Penrose [1989]) já se declararam - não surpreendentemente - a fa-
juiz em uma reunião recente dedicada a estudos da consciência, re- vor de Platão. Dualidades tais como essa são extremamente úteis
duzir a psicologia aos neurônios é um erro de categoria que destrui- na exposição de questões, mas são instrumentos relativamente pri-
ria toda nossa estrutura moral: não podemos responsabilizar os neu- mitivos. Pragmatismos holísticos pré-socráticos, tais como os pra-
rônios por nosso comportamento. Um dos eliminalistas, Francis ticados por Pitágoras ao dividir uma corda vibrante em duas para
Crick (1994), observou que categorias são invenções humanas e descobrir o princípio da oitava ou, do mesmo modo, o pragmatis-
III1I
normalmente as mudamos à medida que nosso conhecimento au- mo americano de Charles Pierce (1934), contribuíram para colocar
menta. Porém, isso é irrelevante: um erro de categoria não tem a essas dualidades em uma perspectiva adequada.
ver com a maneira como categorizamos per si, e sim com o nível ou Kant (que estudou Direito) e Schopenhauer, e mesmo antes os
escala que a categoria abrange. O erro da categoria não é apenas Upanishades, focalizaram essa alternativa sadia à eliminação: a
um artificio filosófico sem importância - cometer um erro desse humilde compreensão de que o caminho para o conhecimento é
pode ter conseqüências pesspais e sociais sérias. consistente; que o hard problem envolve todo o conhecimen-
Em 1989, B.F. Skinner, um dos pioneiros do behaviorismo ra- to; e que é preciso o envolvimento pessoal e dedicação ao trabalho
dical, que durante toda sua vida lutou contra a psicologia popular para desemaranhar o nó do mundo.
(Folk Psychology) em defesa de uma ciência comportamental do
"organismo vazio", terminou sua carreira um ano antes de morrer
com a seguinte idéia revisada, que nos dá uma alternativa saudável Referências bibliográficas
à eliminação: existem duas lacunas inevitáveis no contexto beha-
BRENTANO, F.W. (1973). Psychology froll1 all elllpirical sfandpoinf.
viorista: uma entre a ação estimulante do ambiente e a resposta do
Nova Iorque: Routledge.
organismo e outra entre conseqüências e a mudança do comporta-
mento resultante. Só a ciência do cérebro pode preencher essas la- CHALMERS, DJ. (1995). Absent qualia, fading qualia, dancing qualia.
cunas. Ao fazê-lo, ela completa o contexto; ela não faz um relato 111: METZINGER'S, T. COllscious experiellce. Schõningh: Imprint
diferente da mesma situação (13-18). Academic, p. 309-328.
Onde isso nos deixa? Em outros ensaios, observei que nosso CRICK, F.H.C. (1994). The ASfonishillg Hypolhesis - The scielllific se-
enorme interesse na dualidade mente/matéria foi estimulada pela archfor lhe soul. Nova Iorque: Charles Scribner's Son's.
Revolução Industrial. A maioria dos cientistas é materialista e ge-
DESCARTES, René (1934). A Discourse onlllefhod. Londres: J .M. Dent
rou mentalistas (como por exemplo Roger Sperry [1980] e Jolm & Sons.

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24
2
Consciência, uma definição radical:
o dualismo da substância soluciona o
Hard Problem
Richard L. Amoroso

Noetic Advanced Studies Institute, USA

Estou abrindo caminho por entre os


terrenos sem trilhas do reino das Musas
Pierianas, onde antes ninguém jamais
pisou. Que alegria é subitamente
encontrar fontes virgens e beber de
suas águas. Que alegria é arrancar
flores novas e colher para a minha
frente uma guirlanda maravilhosa de
campos cuias flores nunca foram
trançadas pelas Musas ao redor de
qualquer cabeça. Essa é minha
recompensa por ensinar esses tópicos
sublimes, por lutar para livrar as
mentes humanas dos nós apertados da
superstiçõo e para fazer brilhar; em
cantos escuros, o raio brilhante de
minha cançõo que irradia tudo com o
fulgor das Musas (Lucrécio, ca. 55 a.c.).

Resumo

A metodologia científica atual, ao descrever a consciência como


um Hard Problem que reduz a mente a processos nem"ais no cére-
bro, parece incapaz de compreender a consciência devido a limi-
tações na avaliação e na interpretação da necessária metafisica

27
subjacente. Uma definição radical de consciência é apresentada a essa nomenclatura refere-se principalmente ao conteúdo da cons-
partir de uma "perspectiva noética" que incorpora métodos de in- ciência e não à própria consciência, principalmente porque a natu-
vestigação científicos, filosóficos e teológicos, com isso amplian- reza da consciência ainda não foi compreendida o suficiente para
do os limites da ciência para representar uma epistemologia com- permitir uma definição operacional. ~~ e~tanto, não é possível
pleta. A mente I'P" > é uma cosmologia quantificável fisicamente prosseguirmos com os estudos da conSClenClasem um modelo me-
que compreende três estados-base integrados. A natureza triúna lhor para a formulação dessas investigações. Por esse motivo este
deste número da consciência é descrita em tennos de dois aspectos capítulo não aborda nem o conteúdo da consciência, nem seus esta-
dos _ temas principais dos debates no passado e uma das razões
complementares: 1) Inteligência Elementar I'P, > e 2) O Princípio
de Ordenação Cosmológica l'Pc >. Esses estados interagem com o principais para que a consciência ainda esteja sem uma definição
adequada. Em vez disso, esboça-se aqui a base fisica fundamental
cérebro definido como um aparato clássico IBI'Pb > da fenomenolo- do "nÚIDeno" da consciência, mediado por um campo no ético teleo-
gia; um domínio para interação mental no quantum local e no nível lógico vital e unificado como uma definição operacional para aju-
unitário não local. Esse é o dualismo da mente e do corpo e que fi- dar a pesquisa. Essa formulação tem uma "perspectiva noética"
nalmente fornece uma resposta às críticas de que o dualismo de que requer um passo evolucionário na direção de novas e radicais
substância cartesiano está além dos métodos empíricos da fisica. A fronteiras da epistemologia ao exigir uma abordagem ontológica
postulação de uma base fisica para a mente prepara o terreno para mais holística para o estudo da mente.
testar experimentalmente o modelo interacionista. A mente tem
É certo que as primeiras dúvidas do homo sapiens no despertar
propriedades de campo quântico e depende de um campo noético do ser humano estavam relacionadas com a natureza da consciên-
unitário não local para mediar a interação com o cérebro. O bóson cia. A explicação para essa questão fundamental da existência per-
mediador é chamado de Noeon. Esses componentes da consciência maneceu elusiva durante milênios; a lacuna se ampliou com a se-
interagem com o cérebro no nível dos microtúbulos docitoesquele- paração entre o empirismo científico e a epistemologia teológica
to e de outras estruturas de escala nanométrica tais como a fenda si- ocorrida há uns trezentos ou quatrocentos anos com a revolução
náptica ou os canais iônicos onde sabemos que ocorrem os efeitos de Galileu. Mas a ciência e a teologia não são mutuamente exclu-
quânticos. O pensamento é descrito como um esvanecimento dinâ- sivas, apenas pólos opostos de um amplo espectro de possibilida-
mico local de energia consciente, que se propaga continuamente des para a compreensão humana. Nunca houve uma teoria "real"
de dualismo/interacionismo; apenas generalizações filosófi-
através dos estados tribásicos por mediação do "campo noético vi-
cas/teológicas não satisfatórias para os mais pragmáticos. O dua-
tal" quantizado, auto-organizado e não-local. A dinâmica dos esta- lismo de substância noética nos oferece um modelo abrangente e
dos-base integrados forma uma hierarquia de projeções subespaço testável empiricamente que "fisicaliza" a mente. Isso sugere que
HD, também envolvida na formação de 3(4)D espaço-tempo da uma "metafisica empírica" seja uma possibilidade prática; e irá
realidade habitual. Um modelo preliminar para a "luz da consciên- romper a barreira entre a 3U e a lU pessoa. Hoje, após décadas de
cia" ou noeon é apresentada com uma descrição rudimentar da psi- ser jogado nos mares da inefabilidade e fustigado pelos ventos da
coes/era - o limite total da mente consciente individual. evasiva (as faculdades universitárias não tinham autorização para
sequer mencionar o termo "consciência" seriamente), parece que
um consenso para tentar entender a consciência finalmente ga-
Introdução nhou corpo. A literatura recente mais conhecida (Freedman,
1994; Horgan, 1994) coloca a consciência na lista das grandes
A consciência só foi definida através de generalizações pouco q.uestões não respondidas e a considera um dos maiores misté-
convincentes pertinentes aos vários campos de trabalho ou para sa- nos da ciência. "Será uma das conquistas de que mais nos orgu-
lharemos se conseguirmos desmistificar a consciência" (Flanni-
tisfazer as necessidades de um pesquisador específico. Além disso,
gan,1992).

29
28
o Simpósio de Atenas sobre Ciência e Consciência concluiu terpretação ontológica da Teoria Quântica que vá além do modelo
que "A ciência fez muito pouco progresso no entendimento do fe- padrão. Essa teoria mais ampla precisa também incluir a não-loca-
nômeno, ou mesmo em decidir sobre o que ele é" (Josephson & lidade, não apenas os tipos I e II como descritos pelo modelo pa-
Rubik, 1992). A importante conferência de Tucson utilizou uma drão, mas também um tipo de não-localidade III do campo unitário
abordagem interdisciplinar mais promissora, mas a busca cruza os
(Kafatos & Nadue, 1990) que é considerado obrigatório para en-
mais diferentes ramos da ciência que acham dificil a comunicação. tender a cosmologia da consciência e da mente. Einstein disse que
A conferência de Arizona terminou definindo consciência como
toda a fisica baseia-se unicamente em dois únicos sistemas de me-
"um problema dificil" (Hard Problem): "não há nada mais dificil dir: o da duração e o da extensão (Amoroso, 2000). Nós estamos
de explicar" (Chalmers, 1995; 1996). Hard Problems sendo aque- embebidos nesses modos de medir, e somos feitos deles. Isso é par-
les nos quais o progresso da ciência é quase impossível; mas na his- te do motivo para o princípio de incerteza. A ciência limitou-se a
tória da ciência "problemas dificeis" surgem normalmente quando "observar" unicamente o fenômeno percebido; não o númeno sub-
os princípios subjacentes não foram bem compreendidos. É nossa
jacente - ou a coisa propriamente dita atrás do "véu da realidade
intenção aqui mostrar que o modelo adequado para definir a cons-
perceptual" em cuja progressão temporal nós surfamos.
ciência revela que ela não é assim um problema dificil tão inexpri-
mível. É claro que os problemas científicos fáceis muitas vezes
constituem um desafio. Os estados-base que compreendem a cos- 1. Os problemas da ciência
mologia noética da consciência sãofisicos e, portanto, abertos à in-
vestigação empírica. Isso remove o erro de categoria da atual abor- Com relação ao potencial para progredirmos, a discussão pare-
dagem à filosofia da mente que indaga "que processos no cérebro ce envolver três arenas principais:
dão origem à consciência". São os aspectos extracorpóreos não-lo-
1) Continuar usando os métodos extremamente bem-sucedidos
cais que são pré-requisitos essenciais.
da ciência como estão, como vimos fazendo durante os últimos sé-
Um esforço considerável vem sendo feito para trazer os estu- culos, na expectativa de descobrir variáveis ocultas ou até que algu-
dos sobre a consciência para a linha de frente. No entanto, ainda ma nova descoberta radical rompa os dilemas atuais e impulsione as
existe uma séria preocupação de que a própria base da ciência pre- coisas para adiante. Essa é uma posição de poder aparente porque
cisa ser rompida e reformulada para incluir nela uma metafísi- mesmo nos períodos mais negros a ciência sempre acabou se salvan-
ca mais ampla (Harman, 1991; James, 1912; Amoroso, 2000) que do com enorme sucesso ao descrever o mundo material. No entanto,
alcance a ontologia mais profunda do llúmeno da consciência. A é altamente provável que esse método de progredir seja finito e que
['1111 noética (do grego antigo nous, que significa mente), uma disciplina tenhamos alcançado limites de medida com respeito ao materialis-
que abrange ciência, filosofia e teologia, oferece um modelo para a mo redutivo. Além disso, como mencionei brevemente acima, a
solução potencial. A interpretação padrão da Teoria Quântica cha- ciência não progrediu muito na compreensão da mente e provavel-
mada de interpretação de Copenhague, que surgiu com Bohr e ou- mente precisa ser refonnulada para abordar essa tarefa.
tros na virada do século passado, é uma interpretação epistemoló- 2) Físicos matemáticos, como Roger Penrose, propõem uma
gica. Fundamenta-se em uma abordagem fenomenológica ou natu-
ciência de não-computabilidade para solucionar o problema. Pen-
ralista darwiniana na qual a realidade é baseada em uma medida e rase ainda não foi capaz de definir plenamente o que significa
uma observação que são feitas à medida que aquela realidade é não-computabilidade; mas certamente resolvendo o problema da
compreendida pela mente do observador. Mas, no final das contas,
d.efiniçãa da computabilidade das interações de probabilidade se-
a realidade é mais complicada do que se aceita atualmente. Um na um passo significativo para a compreensão da natureza da razão
unitarismo mais profundo não disponível correntemente devido ao
problema da mensuração (Amoroso & Martin, 1995) exige uma in-

30 31
que parece não-computável devido a sua natureza não-linear e acau- não pode ser ignorado simplesmente porque é dificil e tradicional-
sal (Penrose, 1994). mente repleto de problemas. Como diz Searle (1984), "a existência
Já surgiu alguma esperança com a descoberta da ordem oculta da subjetividade é um fato objetivo da biologia". E mais, "se o fato
na teoria do caos. Embora promissor em muitas áreas o caos parece da subjetividade contraria uma certa definição de 'ciência' , então é
ser um artefato da transição entre causalidade e acaso, marcando o a definição e não o fato que devemos abandonar". A maneira como
limite entre descrições da mecânica clássica e quântica, e somente funciona a experiência subjetiva é a essência da questão que os es-
um ponto de entrada superficial na ontologia mais profunda do uni- tudos da consciência desejam investigar; insistir que ela não tem
verso consciente. O estocástico emerge na interface em que nossa um lugar na caixa de ferramentas é absurdo. Precisamos elaborar
uma metodologia adequada que satisfaça os controles exigidos
temporal idade "surfa" diante da eternidade. Existe um processo de
redução dimensional contínuo; e os efeitos estocásticos no caos pelo empirismo. Por definição a ciência baseia-se no empirismo;
do vácuo de Dirac representam os graus extras de liberdade ne- mas se algo obviamente existe, ele não pode ser veementemente ig-
cessários para conter e processar teleologicamente nossa realidade norado apenas porque momentaneamente a metodologia adequada
(Amoroso, 2001). não está disponível. Mas essas são, é claro, as alternativas do dile-
ma. A ciência está como está devido à teimosia e à mente estreita
Com o cancelamento do Superconducting super collider e a de teólogos em posições de poder. Hoje a ciência tornou-se equiva-
certeza de que os aceleradores de partículas de tamanho galáctico lente ao próprio Leviatã.
não vão surgir, fisicos foram obrigados a buscar alternativas para
"a grande ciência". Cline (1994) fala de caminhos de baixa energia
para observar fenômenos altamente energéticos. Ao examinar cor- 2. O dualismo de substância - Interacionismo
rentes neutrais que mudam de sabor (algumas das quais foram ob-
servadas recentemente) reações que eram proibidas pelo modelo A posição de Descartes, no século XVII, de propagar o dualis-
padrão podem ser observadas. A terceira família dos quarks e lép- mo da mente e do corpo que lhe havia sido revelado por Deus (Ke-
tons foi completada recentemente com observações do quark topo fatos & Nadeau, 1990) durou até hoje porque a intuição inerente
Com um super conducting super collider superior uma quarta estabelece que o selfé separado do mundo. Tem também a ver com
família poderia ser observada, se existir. Mas partículas cada vez a natureza acausal da racionalidade ou livre-arbítrio, em oposição
mais pesadas na hierarquia quark-Iépton têm mais probabilidade ao determinismo evidente no universo externo. A violação da se-
de ser uma metáfora para a estrutura espaço-tempo semelhante ao gunda lei da termodinâmica e do fluxo da entropia nos sistemas vi-
processo de estimular os elétrons para que galguem a hierarquia de vos e a fragilidade de nossa percepção da realidade em comparação
níveis energéticos no modelo do átomo de Bohr, assim produzindo à inefabilidade ou descontinuidade de suas origens no cérebro de-
uma imagem inversa e ilusória do quadro da realidade profunda monstra a inadequação de nosso pensamento atual. O dualismo de
que estamos realmente procurando. Em palavras mais simples, até substância afirma que a mente tem uma existência independente do
mesmo um acelerador de partículas do tamanho do universo não corpo, mas age de acordo com ele (Pagels, 1988). Tradicionalmen-
pode penetrar no campo unitário. Esse método epistemológico do te além da fisica, porque, por definição, somente quantidades men-
modelo padrão tenta utilizar uma força irresistível contra um obje- suráveis existem, essa perspectiva levou a maior parte dos cientis-
to impassível. O caminho para a ontologia unitária passa pela sin- tas a acreditar, erroneamente, que o cérebro é igual à mente. Como
cronicidade e não pela medida do estado, destrutivo. o cérebro é um objeto fisico, cientistas acreditaram que o cérebro é
a base para a elaboração de uma teoria fisica da mente.
3) Postergar a incorporação inevitável da subjetividade como
ferramenta é de uma inutilidade pueril e dogmática. Esse problema

32 33
3. O enigma da atual nomenclatura
A crítica ao pensamento atual refere-se aos limites da investi-
gação que é restrita por sua base metafisica míope. A ciência se en- O uso contemporâneo do tenno consciência nos dá uma des-
quadra na definição básica de uma teologia devido a sua rígida ade- crição inadequada e confusa, que se refere, principalmente, ao con-
rência a seus princípios. Essa heresia não é um apelo para que a teúdo abstrato da mente, que inclui processos psicológicos e feno-
ciência abrace uma filosofia a priori; desde Galileu, aprendemos menologia sensorial. O tenno "consciente" é usado como o proces-
bem o valor do empirismo. Mas as limitações finitas que envolvem so de estar alerta. A consciência é o estado alerta, e o estado de
o problema de medida e a necessidade de uma abordagem mais on- consciência é a totalidade dos processos mentais (Chaplin, 1985;
tológica em vez da atual, epistemológica, sugerem fortemente que Dorland, 1982). Esse estado total, quando inclui o presente e o pas-
voltamos ao ponto de partida, onde é hora de exigir outro passo sado, é usado como um sinônimo de mente. Definições mais elabo-
evolucionário para melhorar: 1) A capacidade de fazer perguntas radas do vernáculo das várias disciplinas acabam levando à mesma
básicas e empíricas e 2) As técnicas para a coleta e avaliação de da- tautologia. Como nos informa Penrose (1988), isso exibe tonalida-
dos que aceitem inputs em termos ontológicos ou subjetivos ou des do paradoxo de Godel: uma coisa não pode ser descrita em seus
ambos. É provável que não haja alternativa a não ser integrar uma próprios termos.
ciência com base noética para que possa haver progresso. A filoso-
Precisamos livrar-nos desta flatland (terra plana) (Abbott,
fia perene, atribuída a Kant e outros, afirma: 1) A divindade existe;
1884) de raciocínio circular e míope se quisermos encontrar a
2) é reconhecível; 3) fornece um caminho para encontrá-Ia (Smith,
consciência. A estrutura através da qual o modelo padrão está bus-
1989). Os beneficios da utilização da filosofia perene incluem um
cando a teleologia da consciência toma essa descoberta impossí-
insight sobre a natureza da verdade absoluta (Kimball, 1978) que
vel; especialmente quando se despreza um componente teleológi-
promete uma bússola mais eficaz para testar a realidade; e um in-
co de um universo consciente. As descrições fenomenológicas são
sight sobre a utilidade da subjetividade ao desenvolver uma meto-
negligentes quando delineiam o númeno da consciência, nem são
dologia aceitável para instituir o empirismo radical de James (Ja-
elas capazes de fazê-Io. O interacionismo fisico nos diz que existe
mes, 1912).
um númeno da mente; atualmente uma abordagem radical nos cír-
Aspectos das premissas que se seguem baseiam-se em "uma culos científicos onde a regra geralmente aceita da neurociência re-
perspectiva no ética" utilizando elementos da modalidade cartesia- ducionista e emergente ainda presume que a mente não existe
na (instituição e verificação por revelação ou insight meditativo). como um "objeto" e só é investigada como qualidades abstratas
Eles são introduzidos de forma axiomática como um apelo ousado que surgem dos estados cerebrais.
para que essa hipótese seja testada. É preciso enfatizar que a utili-
zação da "modalidade cartesiana" não tem que interferir com o
pragmatismo do método empírico. É apenas uma fonna de econo- 4. A complementaridade da consciência
mizar tempo; se um modelo correto é "adivinhado", economizan-
do centenas de anos de busca, ainda assim ele terá de ser verificado O númeno da consciência tem dois aspectos complementares.
experimentalmente. A distinção que Descartes faz entre res exten- Todas as qualidades da mente se originam de uma dessas raízes, ou
sa e res cogitans não foi testada. E se, no final, isso acabar sendo o de ambas, que em termos de funcionamento estão integradas ao
modelo correto como está sendo apresentado aqui, será tão surpre- cérebro e ao corpo fisico. Primeiramente a inteligência elementar
endente assim que tão pouco progresso tenha sido feito, se nin- significa a primeira demarcação ou limite perene de qualquer self
guém procura no lugar onde se esconde a resposta? ou unidade individual. Em segundo lugar, um princípio cosmoló-
gico de consciência preenche e ordena a imensidão do espaço.

35
34
As disciplinas teológicas dizem que existe uma raiz e uma ra-
mificação na alma (Smith, 1833). A alma é aqui definida como o mais simples é que ele controla o corpo, a difícil é que ele mantém a
uniformidade da realidade.
espírito no corpo, o que, é claro, tem conotações tanto temporais
quanto eternas. O espírito é um quantum de ação baseado em bó- Uma onda estacionária não é uma conceitualização verdadei-
sons. Uma primeira impressão poderia imaginar essas qualidades ra, mas pode ser usada como metáfora para ilustrar o argumento. O
como os pés firmados no firmamento da Terra, e o corpo e os mem- ponto de vista apresentado s~gere que o cérebro material é um ins-
bros estendidos no arouno espaço, como oramo, vibrando no espí- trumento transiente temporal que modula os aspectos atemporais
rito que preenche a imensidão. Esta seria uma perspectiva ingênua. da mente numênica e da consciência. Nossa cultura genética ou in-
A tradição médica oriental diz que os intestinos - ou o umbigo - consciente coletivo fez com que nos acostumássemos à miragem
são significativos enquanto local de entrada da força vital. Mais es- de 3(4) dimensões que chamamos de realidade. Sabemos bem que
pecificamente, no vaso meridiano de governo, a entrada da vida a musculatura, mesmo quando não está em atividade, está constan-
está na base da coluna. Como será discutido mais adiante, inicial- temente preparada para disparar, em um ponto equilibrado de ex-
mente os gregos pareciam acreditar que a "cabeça" como sede das tensão e contração. Inúmeros autores em uma miríade de subdisci-
emoções estava centralizada no seio. As filosofias védicas india- plinas relatam efeitos somáticos da mente. Não podemos deixar de
nas falam de centros de energia semelhantes, os chacras. Parece aceitar que uma grande quantidade de processamento ocorre per-
que o cérebro pode ser uma raiz ou local de entrada da força N(f) do manentemente em um cérebro relegado à função corporal e ao pro-
campo noético da consciência, um no do para transferir os dados cessamento neurossensorial. No entanto, há dois aspectos na metá-
sensoriais para a mente; e que o tradicional complexo coração-in- fora da onda estacionária. O cérebro-corpo é um processador entre
testino chacra-meridiano são nodos importantes para a ramifica- a temporalidade e a atemporalidade. A tarefa corporal é semelhan-
ção ou saída no ciclo do fluxo da consciência. Querendo dizer com te à função última do cérebro. O corpo atua como uma garrafa mag-
isso que o cérebro é somente uma porta para a mente e não contém nética para acoplar e dar uma base para a onda estacionária da reali-
ou dá origem a ela como as abordagens materialistas exigiriam. dade percebida e para abrigar, temporariamente, a alma. Nós pen-
Isso confundiu a verdadeira função do cérebro e criou obstáculos samos o corpo como um veículo para a locomoção, mas é provável
para qualquer progresso genuíno no estudo da natureza da cons- que essa outra tarefa seja mais importante - a raiz e ramificação de
ciência. Para provocar a maioria dos cientistas neoclássicos que se no dos RI e R2 de uma onda estacionária que permite que a cons-
opõem vigorosamente a esse conceito, chamemos o cérebro de ciência numênica seja projetada, por assim dizer, para dentro do
uma verruga gigante infestando a cabeça - o que é basicamente o complexo corpo-mente. É provável que oscilações hemisféricas
que os gregos pensavam há milhares de anos. Quando isso foi su- também façam parte desse mecanismo. O espaço-tempo e todos os
gerido a John Searle (1994) ele respondeu que "Nós agora sabemos átomos estão infundidos com esse campo noético. Portanto, o cor-
mais que os gregos, ora, nós sabemos até mais que Aristóteles". po inteiro, e não somente o cérebro, é parte da mente.
Apesar do humor de Searle, aceitamos a importância de seu argu-
Nosso atual estado evolucionário faz um uso mínimo da per-
mento, mas a verdadeira natureza da consciência irá revelar que
cepção interior. A maior parte do trabalho do cérebro no processa-
ambos aspectos são importantes e necessários para o funciona-·
mento da consciência é utilizada em modulação sensorial externa.
mento da mente. Se a mente não é um estado do cérebro emergente
Não é necessário que isso seja assim, e isso é uma boa razão para a
e, como foi dito, o cérebro é, ao contrário, um local de entrada para
necessidade de uma ciência subjetiva. Existem dois níveis de fun-
campos de consciência primários e não locais, qual é, então, a fun-
cionamento cerebral: 1) A: regulação cérebro-corpo; B: modula-
ção do cérebro e qual o motivo de sua complexidade? A resposta
ção sensorial cerebral; e 2) A: integração cérebro mente; B: regula-
ção cerebral da consciência. O próximo passo é fazer um uso mais
ou menos igual dos complementos de nossa inteligência interiores

36
37
e exteriores, atemporais e temporais, locais e não-locais - opsi não
é "extra-sensorial" mas utiliza os mesmos sentidos acoplados a nho para uma explicação, existe apenas através de uma percepção
uma ontologia mais profunda. Portanto, não é um sexto sentido e noética. O complemento implícito está localizado mais além das
sim uma acoplagem implícita em vez de um uso exterior explícito mais elevadas dimensões compactadas do espaço, no domínio pri-
do mesmo aparelho. Isso é vagamente parecido com comer versus mal do númeno envolvendo a inteligência elementar individual.
jejuar. Quando comemos, extraímos os sucos do estômago que fo- Em poucas palavras, se a inteligência individual não tem um cam-
ram ingeridos para obter energia, mas quando jejuamos há uma po definido, isto é, não está delimitada de alguma maneira, ela não
mudança de circuito no local de acoplagem interior e passamos a pode existir com qualquer conotação de individualidade. Parece
extrair energia dos estoques interiores do corpo. O campo noético que temos tantas
vemos diante de coisas
nós. atrás da cortina da realidade quantas as que
pode estar acoplado à realidade externa ou não acoplado e voltado
para dentro através da meditação. A acoplagem externa obedece ao Primeiramente, a individualidade deve ser separada do um em
princípio de exclusão Pauli e estimula a individualidade através do
algum nível, pois unidade absoluta é, mais uma vez, nada, e o nada
bloqueio do estado descontínuo colapsado. A acoplagem interna não tem limites nem pode existir por sua própria definição. Pois até
estimula a unidade através da sincronicidade. Tal mecanismo está
mesmo a demarcação do nada propriamente dito exige sua qualifi-
oculto dentro dos seres humanos aguardando o momento de ser rea- cação por algo existente que lhe dá existência. Isso também não é
lizado mais plenamente, e generalizadamente, não só para indiví-
entendido como no sentido abstrato do vermelho, por exemplo.
duos iluminados, raros e aleatórios, mas sim representando um es- Embora ao vermelho não se atribua "ser uma coisa" ele tem exis-
tágio evolucionário profundo para a humanidade, tão importante
tência na percepção dos sentidos e, portanto, não pode ser apenas
como a fronteira entre o macaco e o homo sapiens. Talvez seja o mo- "nada". Esse é o conteúdo abstrato da consciência muitas vezes
mento de criar um clube para lucis sapiens (Amoroso et aI., 2002). considerado sem importância. No entanto, segundo as normas da
Do ponto de vista científico, esse trabalho ainda é bem dificil, Teoria do Campo Noético (Amoroso, 1998), a idéia, ou percepção
mas a arena filosófica já está preparada e a integração da teoria ho- do vermelho, é uma configuração numenal fisica do campo noéti-
lonômica do cérebro com os efeitos quânticos no soma cerebral co, codificada com informação. Portanto, a abstração pode agora
está começando a fazer progresso. O verdadeiro salto começará ser relegada à tangibilidade; assim é que a barreira entre a 3a e a 1a
quando a ciência finalmente escapar da deificação do cérebro e pessoa será venci da. Em séculos anteriores, a tabela periódica dos
descobrir que existe um princípio teleológico governando um uni- elementos químicos foi detalhada; agora começa o mapeamento da
verso consciente. métrica noética numenal dos elementos mentais!
Em segundo lugar, sem alguma forma de separação da unidade
5. Inteligência elementar não há qualquer auto-identidade. Sem essa identidade ou limites
qualquer coisa desapareceria na unidade ou no nada, como disse-
A inteligência elementar como uma unidade base da mente mos antes. No sentido filosófico pleno, a unidade "absoluta" é o
fornece um padrão de referência para a individualidade e existe nada, não pode existir e não pode ser compreendida. Além disso,
fora do espaço-tempo e dos limites da realidade fenomenológica esse complemento da inteligência elementar é fixado não local-
restrita ao espaço Minkowski observado. Sabe-se que esse limite, mente e estimula a separação essencial para a individualidade.
embora atualmente seja em terreno indefinível que ainda não pos-
sui uma base empírica e espera pela quantização do vácuo e uma
compreensão mais profunda da não localidade para abrir o cami-

38
39
Eternidade Gravitação Espaço Twistor Pré-espaço Espaço-tempo Cérebro às diferenças funcionais e de domínio e ao fato de que o númeno da
Atemporalidade Vácuo Zero consciência é um estado complementar tanto da unidade como da
Gravidade cosmo lógica Quantização do vácuo Flutuações do ponto desunião. Esse é o ponto-chave: e também porque um monismo es-
Fermions psychons piritual absoluto não é intelectualmente atraente. Somos aspectos
Noumenons
(acoplados ao vácuo) complementares tanto da unidade como da separação.
~
O aspecto cosmo lógico da consciência existe em toda a maté-
neurõnios~ ria e é em si mesmo um material puro que obedece às estatísticas de
r--- (\. dendrons
Bose. No entanto, como os fótons ordinários de Bose se originam
em geometrias atômicas acopladas às propriedades que terminam

" (l o
'.) )9
,,'-
a
'J \.J
C:J ~
t' -~ Mt's
hOlosca~e
Bósons
....f' ~
no espaço Minkowski, os psychons de base noeons se originam nas
geometrias pré-espaciais de quiralidade projetiva que seguem as
várias linhas nulas resultantes. Nesse sentido, não "verdadeiras"
(acoplados ao projetor O)
Matriz Heisenberg
ou mensuráveis no espaço Minkowski. Néons noéticos são confi-
Gravidade Quântica nados como os quarks - e por essa razão não são mensuráveis pelos
Projetor dimensionalTwistors Spinors Strings Grupo de fibras Quasipartículas métodos normais da fisica e pela mesma razão é necessário uma
Tipo I
Transições caóticas extensão ontológica de QT rompendo a incerteza.
Corrente Não localidade Complementaridade Não localidade Condensação Bose A consciência permeia os átomos, é o poder organizador mais
epistemológica Tipo 111 profunda Tipo 11 profundo do que a gravitação que controla o universo, causa a gra-
Matéria
Pregeometria Twistors Spinors Strings Quarks vitação e o fluxo do qual surge a vida (A gravitação é causada pelo
(curvadores)
movimento do espírito). A vida vegetal não parece fazer uso direto
da inteligência elementar, e sim unicamente do princípio de orde-
A estrutura hierárquica do universo conhecida em termos da mente,
nação cosmológica e do estado Fermi. A suscetibilidade às sensa-
começando com a holopaisagem cerebral e atravessando a matriz Heisen- ções é resultado da integração autopoiética da inteligência elemen-
berg, a sede da interação mente-corpO através do condensado Bose-Eins- tar e cosmológica. Essa estrutura holística básica incorpora as or-
tein da Transição FQB para o númeno de não localidade onde a fronteira
dens implícita e explícita descritas por Bohm.
atemporal da inteligência elementar é acessada através do psychon esca-
lar essencial para a teoria holonômica de Pribram.
7. A consciência tem qualidades substantivas
6. A consciência é um princípio universal A consciência não é um conceito abstrato imaterial e sim um
númeno fisico. Essa idéia surgiu com os atomistas gregos princi-
O segundo complemento da consciência é um princípio cos-
palmente Demócrito em 500 a.C. e Lucrécio em 55 a.c. que acredi-
mológico que preenche e ordena a imensidão do espaço e fornece o tavam que o universo era composto de átomos de tamanhos dife-
elan vital ou faísca da vida, além de ser também a luz da mente. Em rentes. A visão científica teve início com Descartes no século
contraste com a inteligência elementar acima, este aspecto não é
XVII; mas na época moderna, conceitos sobre uma substância
fixo, pois representa fluxo e promove a unidade. Essa é a raiz do mental separada (dualismo de substância) foram considerados iló-
problema mente-cérebro. Embora o interacionismo pressuposto gicos e em conflito com a suposta ordem científica. Hoje em dia, a
aqui tenha uma base fisica, em oposição à sua intangibilidade defi- maioria dos cientistas acredita que a mente é de natureza material
nida historicamente, é concebível que desenvolvimentos futuros
(Searle, 1992), mas que essa materialidade é equacionada unica-
possam indicar que a mente e o corpo são compostos do mesmo mente com o cérebro, miopicamente deixando de lado a cosmolo-
material, à medida que a natureza da matéria for redefinida (Wolff,
gia noética mais profunda e essencial. No entanto, é preciso que fi-
2001); mas a diferença entre mente e corpo ainda existiria devido

41
40
I\!
.I:!
que totalmente claro que esse materialismo biológico que sugere
que os fenômenos mentais podem ser reduzidos à neurofisiologia cas e ácidas da tubulina. Descobriu-se que o dímero polipeptídio da
cerebral, à emergência ou à bioquímica quântica está incompleto. tubulina tem sete espécies alfa e mais de dez espécies beta. Outras
Somente quando esse conflito for solucionado é que o verdadeiro diferenças incluem uma taxa de turnouver com variância, dinâmica
trabalho sobre a consciência irá começar. ou estável. Os microtúbulos estão envolvidos em uma ampla varie-
A consciência não é um estado cerebral, epifenômenos, um dade de funções celulares. Eles formam os fusos durante a mitose e a
processo emergente ou um algoritmo heurístico. O númeno da meiose, o corpo citoesqueletal desempenha um papel fundamental
consciência é uma cosmologia material distinta por si mesma. Os na morfologia celular, os microtúbulos ajudam a movimentação e
gregos achavam que: mantêm locais da superficie celular tais como as cápsulas receptoras
(Schulze, 1987; Webster, 1987; Cleveland, 1985).
"O que posso chamar de cabeça e a força dominante no corpo
inteiro é aquele princípio orientador que chamamos de intelecto. Os microtúbulos não detêm todo o processamento da informa-
Esse está firmemente localizado na região central do seio. Aqui é o ção dos estados mentais. Há um sistema integrado de processa-
lugar onde o medo e o susto pulsam. Aqui se sente o toque carinho- mento de dados que inclui o DNA, a topologia celular, os microtú-
so da alegria. Aqui então é a sede do intelecto e da mente" (Lucré- bulos, cAMP e água (Koruga, 1992), não apenas no cérebro, mas
cio, 55 a.C.). também acoplando o campo noético através de todo corpo modula-
A lógica de Lucrécio é a mesma lógica usada pelos "adorado- do pela dinâmica muscular, pelo pensamento e por outros proces-
res do cérebro" de hoje. Assim como a terra não é o centro do uni- sos da psicoesfera (Amoroso & Martin, 1995; Amoroso, 1998).
verso, tampouco o cérebro é o centro da consciência. "É um dos er- Para uma discussão mais completa do citoesqueleto veja referên-
ros mais comuns considerar que o limite de nosso poder de percep- cias de Hameroff & Koruga. Aqui não chegamos nem a começar a
ção é também o limite de tudo que existe para ser percebido" (atri- discutir os aspectos adicionais da psicoesfera incluídos no "in-
buído a C.W. Leadbeater). Não podemos culpar os gregos ou os consciente coletivo" de Jung.
neurocientistas atuais; temos uma tendência inata a aceitar o que
vemos originalmente. Mas é preciso irmos mais fundo.

8. A sutileza do cérebro
Estado. ••
alta

O cérebro é um mecanismo clássico que atua como um pro-


cessador para a fenomenologia somática e sensorial com com-
plementos mentais numenais de inteligência elementar e princípio
cosmológico. O que temos de mais certo no momento sugere que
os eventos quânticos no microtúbulo e em outros objetos de escala
nanométrica são suficientes para processar a quantidade necessá-
ria de informação para satisfazer as necessidades da consciência.
beta
Estado n
U
A. Dímero da tubulina

Os estados conformacionais do dímero da tubulina estão acopla- B. Segmento do microtúbulo


dos aos momentos do dipolo de Van der Wall. Cada estado confor-
macional poderia representar um bit para o intercâmbio de informa- A: As configurações alfa e beta dos dÍmeros protéicos da tubulina for-
ção (Hameroff, 1990). necem um modelo de estado de bits para o processamento de infonnação
no nível quântico nas estruturas celulares. B: Segmento de um microtúbulo
Existem vários tipos de microtúbulos no citoesqueleto que pare-
composto de anéis de tubulina. Os de cor escura representam a ordenação
cem ter características complementares tais como subunidades bási-
confonnacional como dados de modelos 1/0 em estados quânticos ativos
cOmo uma base para a dinâmica da consciência ao nível cerebral.

42
43
Fourier e Gabor (Pribram, 1991); e a Dinâmica Cerebral Quântica
9. Um modelo para reflexão (Jibu & Yasue, 1995).

Qualquer teoria completa da consciência deve explicar de ma- Do lado da mente esse sistema é superimposto com parâmetros
coerentes não-locais do númeno da consciência. Com esse modelo
neira adequada o problema do conexão na interface mente-cére-
bro. O problema de conexão é uma questão simples na Teoria do em mente, presume-se que se a consciência é mediada por noeons
tensores a principal singularidade do cone de luz é modulada por
Campo Noético. Os princípios da Teoria de Campo Noético (Amo-
uma fase do campo do noeon twistor (curvador). O modelo twistor
roso, 1998) sugerem que a mente IYM> é um estado com proprieda-
pychon-noeon depende também do desenvolvimento do modelo
des quantificáveis. Esse númeno da consciência é formado por três
de gravitação Sakarov (Puthoff, 1989) para a integração da relati-
principais estados-base integrados: inteligência elementar IY. >,
vidade geral e da gravidade quântica como uma flutuação do vá-
princípio de ordenação cosmológica IYc > e o cérebro definido
como um aparato clássico IBIYb>' Os estados-base da mente intera- cuo. O autor tem alguns trabalhos que mostram que o gráviton é
uma forma de fóton confinada (Amoroso et ai., 1998).
gem nos níveis quânticos e do pré-espaço, como descrito geral-
mente na equação (2) ou como a soma representada em (1) São necessários novos trabalhos antes que o pychon-noeon
possa ser isolado. Como é que ele surge do campo noético unitário?
IyM>:d\Ye>+IY.>+IB\Yb> (1)
Com o surgimento da não-localidade como um princípio da nature-
equação 2 onde N é os estados-base superimpostos za, e à medida que mais cientistas começam a compreender que a
za Z. teoria do quantum está incompleta, a não-localidade que ocorre
IYM > == ( Ni \ IY,> (2) nas dimensões mais profundas do espaço-tempo deverá ser parte
de qualquer nova teoria.
A esfera para a atividade mental denomina-se psicoesfera. A
estrutura da psicoesfera é a conexão complexa, uma hiperestrutura Atualmente não existe qualquer consenso para o número de di-
contendo a totalidade da consciência e a abrangência de sua in- mensões, mas sabe-se que o espaço é quantificável e o trabalho
fluência. Isso significa tanto localmente, no cérebro e nos campos continua para levar a cabo essa tarefa. Todas as partículas da maté-
corpóreos, como não-localmente no subespaço. A psicoesfera in- ria são transientes, criadas e destruídas devido a uma espuma de
clui uma hiperesfera dimensional superior ou tesseracto para inte- partículas virtuais no plenum. É do conhecimento geral que as par-
rações não-locais. Esse é o domínio onde Bose pychons coerentes tículas Fermi (matéria atômica) são compostas de quarks. Neste
condensam e interagem com os estados Fermi dos microtúbulos nível, os pontos não existem e suspeita-se que os quarks sejam
cerebrais e outras estruturas quânticas como foi apresentado na se- compostos de objetos unidimensionais chamados de superstrings.
ção anterior. A mente, o pensamento e o cérebro têm características Essa é a face do subespaço, a torre HD Kaluza - Klein ou espaço
complementares no sentido sugerido por Bohr. A complementari- twistor. Segundo a teoria, as strings são formadas de feixes de fi-
dade no aspecto cerebral sugere que o pensamento seja uma quan- bras ou pares de spinors. Os spinors são compostos de configura-
tização local da energia consciente, dinamicamente acoplada com ções de twistors que são as singularidades das quais o espaço é pro-
uma matriz Heisenberg como um scanning raster operacional- jetado para representar nossa realidade observada. Uma boa visão
mente ligado com coeficientes Fourier ao substrato biomolecular geral de alguns desses conceitos é fornecida por Peat, 1988. Vários
da holopaisagem no interior da psicoesfera (Amoroso & Martin, tipos de twistors projetam bósons, grávitons ou férmions. Os bó-
1995,1998; Pribram, 1991). Existem relatos dessa ocorrência com sons são atemporais e representam um aspecto da eternidade. Os
a condensação quântica dos correlatos Bose-Einstein no microtú- férmions que obedecem ao princípio de exclusão de Pauli são rele-
bulo (Hammeroff, 1990). Esses conceitos são esclarecidos melhor gados à temporalidade espaço-tempo.
através da teoria holonômica do cérebro usando as relações de

45
44
As dimensões ocultas são uma estrutura necessária que forne- Referências bibliográficas
ce um mecanismo para traduzir o domínio da fenomenologia tem-
poral no númeno da eternidade. A incerteza fornece a lubrificação AMOROSO, R.L. (1992). The psychogenic initiation of Alzheimer's di-
para esse processo. Uma ciência de não-computabilidade é neces- sease. Proceed. Western Psychological Association, 1: 183.
sária para superar a incerteza, mas como o argumento desenvolvi-
do acima sugere, é preciso a espiritualidade ou a unidade da não-lo- - (1994). The telecerebroscope: a rudimentmy modelo Albany: The No-
etic Press.
calidade através da ontologia da sincronicidade para que isso acon-
teça. A metodologia da mensuração não pode ser invasiva ou des- - (1995). The extracelIular containment of natural intelIigence: a new
trutiva como costuma ser a fonua normal de medição; ela precisa direction for strong. Alln/ormatica, 19: 585-590.
ser uma ontologia - uma transformação ou superposição com o sis-
tema ou estado, de tal forma que toda a informação seja comparti- - (2000). The parameters of temporal correspondence in a continuous
lhada através da unidade. É dessa forma que a não-computabilida- state conscious universe. In: BUCCHERI, L. & SANIGA, M. (orgs.).
de funciona e não existe o problema da conexão (binding problem) Studies
Londres:onPlenum.
the structure o/time: From physics to psycho(patho)logy.
devido à mesma superposição inerente da ontologia subjacente do
númeno em um universo consciente. - (2001). The continuous state universe. 1n: AMOROSO, R.L. et aI.
(orgs.). Gravitation and cosmology: From the hubble radius to the
planck scale. Dordrecht: Kluwer Academic.
Conclusão
AMOROSO, R.L. & MARTIN, B. (1995). Modeling the Heisenberg ma-
A compreensão da mente irá fazer com que as próximas déca- trix: quantum coherence 7 thought at the holoscape manifold & dee-
das sejam as mais estimulantes na história da humanidade. Embora per complementarity. In: PRIBRAM, K. (org.). Scale in conscious
o conhecimento da natureza da consciência possa ser mais apavo- experience:Lawrence
HilIsdale: Is the brain too important to be lefi to biologists to study?
Earlbaum.
rante que a utilização da energia nuclear, em geral, os beneficios
serão muito maiores que os riscos. A psicologia finalmente pas- AMOROSO, R.L. et ai. (1998). The origin of cosmological redshift in
sará a ser uma ciência "dura" e a medicina sofrerá mudanças pro- spin exchange vacuum compactification and nonzero rest mass pho-
fundas, com o fato de que etiologias até aqui incuráveis como a ton anisotropy.
modern physics.In: JEFFERS, S. et aI. (orgs.). Causalityand locality in
doença de Alzheimer (Amoroso, 1992) ou a colite começarão a
ser compreendidas e reclassificadas como doenças noéticas da - (2002). Lucis sapiens (s.n.t.].
consciência (Osoroma, 2000). Uma ação mais profunda do que
aquilo que é hoje considerado psicogenético ou psicossomático. BAYM, G. & PETHICK, C. (1991). Landau/ermi-liquid theOly. Nova
A telepatia também será compreendida e sua dificuldade históri- Iorque: 10hn Wiley.
ca será explicada. Novas formas de arte usando os "telecerebros-
copes", aparelhos que permitem ver à distância as imagens mentais BECK, F. & ECCLES, J.c. (1992). Quantum aspects ofbrain activity and
the role of consciollsness. Prac. National Acadell1Y o/ Science, 89:
11357-11361.
e de sonhosjá serão possíveis (Amoroso, 1994). Não parece que o
ser humano merece realmente conhecer a mente; mas como esse
conhecimento é necessário para sua evolução, esperemos que a CHALMERS, D. (1995). Facing up to the problem of consciollsness. J.
Consciousness Studies, 2: 200-219.
oportunidade venha a ser aproveitada da melhor maneira possível,
à medida que, ao entrar no novo milênio, o ser humano dê esse de-
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48 49
reza da matéria e a realidade em geral. A exploração da filosofia da
ciência que propomos é uma tentativa de encontrar princípios fun-
damentais que serão usados para guiar a ciência futura. Embora
não estejamos desprezando as realizações extraordinárias da ciên-
cia durante seu desenvolvimento nos últimos séculos, aqui damos
3 ênfase ao futuro.
Os sucessos da ciência são realmente extraordinários se consi-
Princípios fundamentais gerais na derannos seu desenvolvimento contínuo nos últimos séculos. No
Filosofia da Ciência entanto, acreditamos que a ciência atual precisa ser ampliada além
de seus limites presentes, e precisa também de um novo modelo
ontológico da realidade, uma nova filosofia da ciência, bem como
Mihoi Drãgãnescu uma revisão da metodologia para adequá-Ia às mudanças.
Romanian Academy, Romênio A incapacidade da ciência fisica de solucionar problemas rela-
cionados com a natureza da realidade final e também de contribuir
para um entendimento da natureza da vida e da consciência pode
estar indicando que, em vez de seguir caminhos diferentes na tenta-
Menos Kofotos
tiva de entendê-Ios, devemos considerar essas realidades em con-
junto, como um todo indivisível. É possível que não possamos ex-
George Mason Universily, USA
plicar a vida, a mente e a consciência sem conhecer a natureza da
realidade subjacente. Portanto é provável que seja necessário ex-
plorar a estrutura básica dessa realidade subjacente. Uma aborda-
Resumo gem axiomática como essa pode levar à pergunta: "é possível que a
consciência seja o nível subjacente fundamental mais profundo da
A ciência atual não consegue explicar totalmente a vida, a mente existência?", pergunta cuja resposta ainda parece estar fora do al-
e a consciência, e nem a natureza da matéria e a realidade em geral. cance da ciência. Questões relacionadas, tais como "a existência
Na tentativa de descobrir princípios fundamentais que possam ser mais profunda possui os ingredientes necessários para a emergên-
usados para guiar a ciência futura, apresentamos aqui uma explora- cia da vida e da mente como as conhecemos?"; ou, "qual é a relação
ção na filosofia da ciência. Os princípios fundamentais propostos es- entre energia, substância e infonnação e os princípios da realidade
tão em parte apoiados em fatos científicos, e em parte baseados em subjacente?" e assim por diante.
considerações filosóficas que extrapolam dados científicos recentes Quando observamos que, talvez, uns poucos princípios funda-
ainda não incorporados ao sistema da ciência existente.
mentais sejam a fonte de todos os esforços científicos e filosóficos,
podemos ter a impressão de que existe o risco de que o reducionis-
mo (um dos principais princípios operacionais da ciência moder-
Introdução
na) se reinstale nas novas abordagens filosóficas e científicas. É
Estamos envolvidos em um programa de pesquisa para uma preciso desenvolver uma abordagem fundamental para garantir
nova exploração das bases da ciência. Existem bons motivos para que não há qualquer risco de reducionismo absoluto e completo.
crer que a ciência atual não só é incapaz de explicar totalmente a Na verdade, na exploração de princípios fundamentais podemos
vida, a mente e a consciência, mas tampouco pode explicar a natu- re-examinar se o próprio reducionismo é conseqüência de um prin-

50 51
em seu caráter (Rosen, 1988; Drãgãnescu, 1990; 1993; 1996).
cípio generalizado de simplicidade: um todo é composto de partes Nossa ênfase em principalmente é resultado da compreensão que a
mais simples que produzem distinções. O reducionismo, então, se- realidade subjacente profunda, como parte de um universo, intro-
ria a metodologia para explorar a distinção e os relacionamentos duz, por sua vez, a influência de suas leis semânticas para suple-
que dela surgem. mentar as leis físicas do universo, formais e estruturais.
Podemos supor que a própria existência consiste de princípios A existência de tais processos no universo é confirmada pelo
complementares em suas bases mais profundas. Podemos supor reconhecimento em anos recentes de que o fenômeno mental da
que das profundezas da existência um único universo (ou mundo) experiência é, por si mesmo, uma realidade objetiva, que ultrapas-
se manifesta (ou muitos universos se esses não estão conectados de sa sua forma subjetiva de manifestar-se na consciência humana.
nenhuma forma) e pode manter uma conexão direta com os princí- Miahi Drãgãnescu (1985, usando o conceito de sentido mental
pios fundamentais originais e com os níveis subjacentes. Podemos fenomenológico), David Chalmers (1995; 1996), Henry P. Stapp
supor também uma variedade de outras possibilidades, no sentido (1993), Willis W. Harman (1996), Yves Kodratoff (1996), J.G.
de também serem possíveis níveis diferentes de existência ou de Taylor (1998), Francesco Varela (1998), Richard Amoroso (1998),
universos. Assim, toma-se necessário um modelo ontológico da Menas Kafatos (1998) e outros mais reconhecem a existência obje-
natureza total da realidade, um novo modelo que seja capaz de so- tiva do fenômeno experiencial e consideram que ele já não pode ser
lucionar esses problemas e responder à necessidade de compreen- negligenciado pela ciência.
der modelos ontológicos precedentes, sejam eles filosóficos ou su-
Para David Chalmers e Mihai Drãgãnescu, o fenômeno expe-
geridos por cientistas, porque quase todos os modelos históricos
riencial é um dos fenômenos fundamentais da natureza. Drãgãnes-
refletem alguma verdade parcial. E, é claro, a expectativa é que o
cu, ao considerar seu caráter semântico, chamou-o de sentido feno-
novo modelo ontológico clarifique os limites da ciência.
menológico, considerando que ele deve ser um fenômeno geral que
ocorre na existência profunda e que se manifesta em muitos pro-
1. Princípios fundamentais e teorias físicas cessos da natureza, inclusive em processos físicos. As proprieda-
des semânticas específicas do sentido fenomenológico lhe confe-
Princípios fundamentais são mais essenciais que as teorias fí- rem o caráter de informação. É claro, essa informação é totalmente
I sicas (Kafatos, 1998 a). Mas, apesar disso os princípios fundamen- distinta da informação estrutural e pode ser caracterizada como
"

tais têm de depender de um modelo geral da existência e precisam uma espécie de informação fenomenológica. Sem essa informa-
ser desenvolvidos de uma maneira sistemática. Consideramos que ção, existente na natureza das coisas, nem a matéria nem a infor-
a existência inteira tem duas partes ou componentes principais: mação estrutural fariam qualquer sentido. Por outro lado, o sentido
uma realidade subjacente profunda (Kafatos & Nadeua, 1990; fenomenológico tem de se manifestar através de uma dinâmica
física específica em um novo tipo de realidade física, que pode
Drãgãnescu 1985, 1979/1997) e um ou mais universos, não conec-
tados uns com os outros. Esses dois componentes não estão exata- ser chamada, para todos os objetivos, de informatter (Drãgãnescu,
1985, 1997/1979). Como a informação é tanto fenomenológica quan-
mente separados, porque universos ou mundos nascem da realida-
to estrutural ela é, portanto, ontologicamente universal.
de subjacente profunda e mantêm contacto com ela. A realidade
subjacente profunda é uma matriz sobre a qual o universo se desen- O modelo que propomos, como uma base dos princípios for-
volve; e o substrato do universo também é parte dessa realidade mativos fundamentais na filosofia da ciência, presumiria a existên-
subjacente profunda. cia de uma realidade subjacente profunda e o reconhecimento do
Vistas do interior de um universo específico, as leis físicas são primado do sentido fenomenológico que, no caso específico de fe-
sobretudo formais, ou estruturais. As leis físicas da realidade sub- nômeno mental, pode ser chamado de experiência, tanto no nível
físico como no nível informacional da realidade.
jacente profunda são, por outro lado, principalmente semânticas

53
52
Um modelo da realidade que reconhece o primado do senti- 2.1. Complementaridade
do fenomenológico é um modelo da realidade estrutural-fenome-
nológico. Da mesma forma, um modelo da realidade que reconhe- Tendo lançado seu princípio de complementaridade na mecâ-
ce a realidade subjacente profunda é um modelo ortofisico (Drãgã- nica quântica, que serviu como um modelo lógico na construção
nescu, 1985). A verdade sobre a existência e o primado da realida- consciente da realidade, em Como, na Itália, em 1927, Niels Bohr
de subjacente profunda (se decidirmos considerá-Ia como matéria começou também a aplicá-Io a outras disciplinas, tais como biolo-
profunda ou como existência profunda) é inferida por forte evidên- gia e psicologia, abrindo caminho para uma interpretação ontoló-
cia científica e também por considerações filosóficas (Kafatos & gica de seu princípio. Após o reconhecimento da realidade subja-
cente profunda (Kafatos & Nadeau, 1990) e dos sentidos fenome-
Nadeau, 1990; Drãgãnescu, 1985).
nológicos (fenômenos experienciais), a resposta para as perguntas
Uma visão ortofisica da realidade tem de lidar com uns poucos "a complementaridade é fundamental?" (Kafatos, 1996) e "a com-
detalhes ou muitos deles na medida em que esses estão relaciona- plementaridade é uma marca que atesta a autenticidade do univer-
dos com a realidade. Além disso, a expectativa é de que uma filoso- so?" (Kafatos, 1996; 1998b) passou a ser que a complementarida-
fia ortofisica da ciência irá, ao mesmo tempo, ser equivalente à fi- de é um princípio fundamental da estrutura do universo (Kafatos,
losofia da ciência estrutural-fenomenológica e estaria de acordo 1998a). Portanto, a complementaridade passa a ser uma catego-
com as previsões e sucessos científicos sobre o universo fisico (ou ria ontológica (Drãgãnescu, 1997a) e a própria existência toma-se
estrutural). Isso é o que ocorre com a teoria estrutural-fenomenoló- "complementar" em suas raízes e em suas manifestações (Drãgã-
gica ortofisica de um de nós (Drãgãnescu 1985, 1997/1979). Ade- nescu, 1998a). Com isso, temos:
mais, uma teoria estrutural fenomenológica da mente e da cons-
ciência e com outras alusões, na medida em que está relacionada A complementaridade é um princípio fundamental da existên-
com toda a realidade, foi apresentada por David Chalmers (Chal- cia (Pl), que se aplica em todos os níveis, do nível da existência
mers 1995a; 1995b; 1996; veja também Drãgãnescu 1997b). Final- profunda até os domínios quânticos e cosmo lógicos.
mente, o modelo recente, ainda em desenvolvimento, apresentado O princípio ontológico da complementaridade é inferido atra-
por Richard Amoroso, relativo a uma teoria quântica do cérebro vés de várias evidências e de dados recentes na ciência, baseados
(Amoroso, 1997), que recorre a uma realidade subjacente profunda no princípio de Bohr. Pode ser usado na moldura de um modelo on-
com alguns sugestões detalhadas relativas à sua organização, pro- tológico da realidade, como o que foi apresentado acima, para ob-
cessos e fenômenos, também é um tipo de teoria ortofisica. ter teorias que possam ser verifica das por uma metodologia cientí-
A seguir, examinaremos um grupo de princípios fundamentais fica ampliada e adaptada às novas facetas da realidade.
propostos para a existência total, para a realidade subjacente pro- A complementaridade se manifesta no comportamento total!
funda e para o(s) universo(s) correspondente(s). parcial da realidade, nas propriedades energéticas/informacionais
da realidade profunda, na dualidade onda/partícula no universo,
nos aspectos estruturais/fenomenológicos da consciência, nas pro-
2. Princípios relacionados com a existência total priedades locais/não-locais do universo, nos fenômenos contí-
nuos/descontínuos, para mencionar apenas alguns.
Aqui levaremos em consideração os seguintes princípios fun-
A aplicação do princípio ontológico de complementaridade
damentais que se aplicam à existência total ou à realidade como foi
definida acima: complementaridade (P 1); a natureza fisica e infor- pode ser muito útil para a solução de algumas situações de impasse
macional da existência (P2); as leis semânticas e as tendências do na ciência atual. Uma dessas situações pode ser, por exemplo, o en-
tendimento da vida, da mente e da consciência, que não podem ser
vir a ser (P3); auto-organização (P4); consciência fundamental da
existência (P5). totalmente explicadas e, na verdade, não podem nem sequer ser en-

54 55
tendidas quando usamos somente os elementos estruturais reco- guiar/comandar a parte física. Não há nada fora do físico, nem
nhecidos pela ciência estrutural contemporânea. Para explicar e mesmo a informação.
entender a vida é preciso tentar encontrar um ingrediente comple-
O físico significa material, matéria, substância, energia. A ma-
mentar à parte estrutural de um organismo.
téria tem formas diferentes na realidade profunda e no(s) univer-
Na descrição do universo existem horizontes do conhecimento soes) que se originam da realidade subjacente profunda. O conteú-
resultantes da observação e horizontes teóricos do conhecimento do da matéria no universo, que pode ser substância, espaço-tempo,
(Kafatos & Nadeau, 1990; Kafatos, 1989). Ao abordar um hori- campos, etc. é dado pela realidade profunda com sua própria infor-
zonte de conhecimento, os dados resultantes de observações dispo- mação. Embora ela contenha uma consciência fundamental (prin-
níveis "impedem que decidamos inequivocamente como esses tes- cípio P5 abaixo), de um modo geral, a matéria, com sua informa-
tes confirmam ou rejeitam modelos teóricos específicos" (Kafatos, ção, é independente (Drãgãnescu, 1990: 85-90; 1993; 1996), ou
1989). Esses modelos representam construtos complementares e não há nada fora da matéria. Não existem idéias imateriais fora do
o universo está, naquele horizonte de conhecimento, emergindo físico, e nenhum ser fora dele. Pode-se entender que a concepção
como uma fronteira entre esses construtos. das idéias de P1atão aplica-se na interface entre um universo e a
Os horizontes de conhecimento estão presentes não só na cos- realidade profunda, porque a última está fora do espaço e do tempo
mologia, mas também em outros campos. Pode ser útil observar (vej a abaixo) e como sua informação não tem localizações espaciais,
que um horizonte de conhecimento implica complementaridade ou pode parecer que ela está fora do espaço do universo considerado
como a única realidade material.
em fatos naturais e/ou em explicações teóricas. Quando a expe-
riência foi reconhecida como um fato objetivo, a ciência alcançou O princípio (P2) pode ser considerado como um princípio de
um horizonte de conhecimento para fenômenos mente-cérebro. um materialismo informaciona1 na filosofia. Isso realmente impli-
Aqui está presente uma complementaridade estrutural-fenomeno- ca dua1ismo - embora uma forma de dualismo atenuado - e não há
lógica. Complementaridades estruturais-fenomenológicas podem qualquer contradição fundamental entre a informação e a matéria,
ser encontradas também em outros horizontes de conhecimento, elas são apenas complementares.
por exemplo, fenômenos vitais. Juntos, esses dois horizontes espe-
Um aspecto importante da existência total é sua energia. Existe
cialmente, isto é, para a vida e para a mente/consciência, estão, atual-
energia na existência profunda com propriedades específicas. Po-
mente, a fronteiras da ciência, que se caracteriza por uma das com-
demos chamá-Ia de orto-energia. A física quântica indica que o vá-
plementaridades principais da natureza.
cuo contém grandes quantidades de energia, que, de fato, é a ener-
gia da realidade profunda e que pode se manifestar sob uma forma
2.2. A natureza da existência
adequada no universo. E todos os elementos quânticos (partículas
A afirmação a natureza da existência é tanto jisica quanto in- elementares, ou supercordas, oup-branes e quanta de espaço) con-
formacional (P2) é um princípio fundamental da existência. Esse têm energia. A energia presente no universo é a base principal de
Sua dinâmica.
princípio contém a complementaridade das partes fisicas e infor-
macionais, que estão manifestando a realidade total. Além disso, a Portanto (Drãgãnescu, 1990; 1993; 1996), a energia é um prin-
informação não pode existir fora do domínio físico (que, por si só, cipio universal ontológico da existência (P2a). Da mesma forma
depende do aspecto informacional), a manifestação da natureza da (Drãgãnescu, 1990; 1993; 1996), que a informação é um princí-
existência é sobretudo jisica (P2). A informação é contida no físi- pio universal ontológico da existência (P2b).
co, embora ela possa se desenvolver de maneira independente, de Por sua natureza a matéria inclui tanto energia quanto informa-
várias formas, em inúmeras possibilidades, e possa influenciar ou ção e contém também uma consciência fundamental.

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Portanto, as tendências do vir a ser são uma propriedade geral
Na realidade subjacente profunda, a informação fenomenoló- da existência e o princípio (P3) é ontologicamente universal. A leis
gica desenvolve-se através de processos físicos e compreende tan- evolucionárias ou "do vir a ser" estão na origem da causalidade,
to aspectos físicos quanto informacionais. A informação fenomeno- que se manifesta por fenômenos deterministas, estatístico-deter-
lógica é um sentimento, um tipo de experiência naquele nível, e en- ministas e até mesmo não deterministas. Dessa forma, todos os
volve conseqüências múltiplas: causa as leis semânticas fundamen- processos têm uma causa, a não ser a realidade subjacente profun-
tais do vir a ser (veja parágrafo 3.3 abaixo); compreende a consciên- da. O não-determinismo é uma forma de manifestação de causali-
cia fundamental da existência; estabelece as leis físicas de um uni- dade já que um processo não-detenninista é ele próprio produzi-
verso por meio de processos não deterministas, ou através de proces- do por uma lei de tendências. Em um estudo interessante sobre
sos deterministas induzidos por uma consciência; e participa de fe- causalidade, VJ. Perminov (Perminov, 1988/1979), considera, sem
nômenos experienciais no universo. Em um universo, a informação qualquer referência explícita aos processos fenomenológicos, que
também se transforma em estrutural (como informação digital) ou a conexão causal "não pode reduzir-se à regularidade temporal dos
estrutural-fenomenológica (como encontrada em organismos, na eventos, não se identifica com a idéia da conexão entre estados [...]
mente e na consciência). A informação é, portanto, uma realidade é baseada na noção de produção (geração)". E mais: "A produção é
fundamental da existência, e a física pode acomodá-la como parte a única exigência obrigatória para a conexão causal. Todas as ou-
da ciência da física somente após o reconhecimento da existência tras exigências emitidas com o título de necessária e universal não
da informação (experiencial) fenomenológica. são, defato, o que pretendem ser; elas só refletem a especificida-
de da conexão causal em uma situação ou outra" (Perminov,
2.3. Leis semânticas e as tendências do vir a ser 1988/1979). Em nossa opinião, o determinismo (inclusive o deter-
minismo estatístico) e o não determinismo são complementares e,
Os aspectos fenomenológicos da realidade subjacente profun- segundo Perminov, isso é uma generalização do princípio de com-
da, pelo menos os mais importantes, são, por natureza, equivalen- plementaridade de Niels Bohr.
tes a leis semânticas porque dão as tendências da evolução (Drãgã-
\
\~I
l\tl nescu, 1990; 1993; 1996). Essas são as leis mais fundamentais da
Essa complementaridade não-determinista/determinista se ma-
nifesta em eventos não-formais/formais da realidade profunda
existência e o princípio das leis semânticas e as tendências do vir a
e em processos formais/não-formais na mente humana em atos de
ser (P3) é um princípio fundamental. Robert Rosen expressou a
intuição e criação e em muitos outros processos e fenômenos. A
idéia de que as leis da natureza podem não ser inteiramente sintáti-
fonte das leis semânticas são a infraconsciência da existência e a
cas e podem ter componentes semânticos que "não podem ser for-
malizados em uma maneira finita" (Rosen, 1988). A fonte das leis consciência fundamental. A primeira contém a tendência do vir
semânticas da natureza encontra-se na existência profunda, mas a ser que gera novos atributos fenomenológicos por processos não-
deterministas. A segunda pode gerar sentidos fenomenológicos
essas leis são transferidas no universo em formas adotadas pelas
por processos deterministas, usando também eventos não-determi-
suas leis fonnais e também, de uma maneira mais direta, por alguns
nistas. Como a primeira é o núcleo da segunda, as duas formam
possíveis processos fenomenológicos em organismos vivos (Drã- uma unidade.
gãnescu, 1985) bem assim como na consciência humana.
As leis semânticas da natureza são fenomenológicas e têm ten-
dência a evoluir. Como essas leis estão na origem das leis formais 2.4. Auto-organização
de um universo, as mais recentes levam as tendências das anterio- Se as leis semânticas da existência e os pensamentos da cons-
res. Evoluções físicas e biológicas, e até mesmo as evoluções cul- ciência (fundamentais, humanos/sociais ou até mesmo de outros
turais, científicas, tecnológicas e sociais têm sua origem ou na fon- organismos) estão estabelecendo tendências de vir a ser e de evolu-
te ou nas leis semânticas fundamentais.

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nós (Kafatos, 1998b) propôs que a auto-organização, em relação à
ção, essas tendências são, então, realizadas na moldura do princí- simplicidade e à complexidade, seja examinada como candidata ao
pio ontológico de auto-organização (P4). A auto-organização é princípio fundamental na filosofia da ciência. O princípio de au-
realizada nos domínios estruturais da realidade e em domínios fe-
to-organização é realmente tão importante quanto os outros princí-
nomenológico-estruturais ou estrutural-fenomenológicos, na rea-
pios fundamentais. A auto-organização está presente em todos os
lidade profunda e no(s) universo(s) associado(s). É um princípio
níveis da existência e pode-se dizer que é constante em escala.
fundamental.
Com relação à complexidade/simplicidade a situação é bas-
No domínio estrutural, a auto-organização é produzida devido
tante ambígua. Se a existência fosse somente estrutural e as partí-
a leis formais específicas que governam este domínio ou seus sub-
culas elementares fossem os únicos tijolos de construção do uni-
domínios. A gravidade leva a objetos auto-organizados como pla-
verso, então poderíamos dizer que o universo é extraordinariamen-
netas, estrelas, galáxias e grupos de galáxias. Os átomos e molécu-
te simples em níveis fundamentais, já que bastam umas poucas si-
las são formados por auto-organização. Os núcleos são objetos
metrias elegantes para descrever as partículas fundamentais. Para
auto-organizados de quarks. A não-linearidade e os processos go- um universo estrutural, a matemática é o idioma que o descreve, e a
vernados pela dinâmica não-linear são essenciais para uma gran-
Mecânica Quântica e a Teoria Geral da Relatividade são elegante-
de quantidade de estruturas auto-organizadas. A auto-organização mente simples. A complexidade em um universo estrutural se ma-
atua em estruturas como autômatos celulares, sistemas adaptativos
nifesta em níveis cada vez mais altos devido à auto-organização.
complexos, sistemas de vida artificial, processos caóticos determi-
nistas, todos esses formando os domínios mais recentes da ciência Se, no entanto, existirem mais níveis fundamentais que o das
estrutural (a ciência neo-estrutural). São contribuições importan- partículas elementares, e isso é o que ocorre, será que a simplicida-
tes para a ciência, mas ainda assim são ciência estrutural. de continua até esses níveis mais profundos? Parece que a resposta
neste caso é não. Em níveis mais profundos, encontramos partici-
Os fenômenos de auto-organização também estão presentes no
pação fenomenológica, leis semânticas, consciência fundamental,
nível social (insetos sociais e sociedades humanas). O surgimento
e a situação não parece ser mais simples do que no nível das partí-
da Internet é um exemplo de auto-organização. culas elementares.
A emergência de vida em um universo é um processo de au-
No domínio estrutural do universo, sabe-se que as estruturas e
to-organização que, em um primeiro estágio, envolve somente uma
fenômenos complexos se manifestam, em muitos casos, na base de
auto-organização estrutural até que, ao ser alcançado um ponto de-
equações matemáticas muito simples. Os fenômenos do caos e os
terminado, a auto-organização estrutural-fenomenológica inter-
fractais são aparentemente complexos, mas são simples em suas
vém. O acoplamento das partes estruturais e fenomenológicas de
raízes nas equações básicas. Talvez uma complexidade maior este-
um organismo vivo é um fenômeno de auto-organização resultante
ja presente nos Sistemas Adaptativos Complexos (CAS), um con-
de leis naturais. A vida não é traz ida de fora do organismo; ela
ceito apresentado no Instituto Santa Fé (Kaufmann, 1995; Coveny,
emerge após um processo de auto-organização. A vida se auto-or-
High-field, 1995; John Holland, 1995; Morowitz 1995). É possível
ganiza. O processo de auto-organização pode ser usado pela cons-
também observar que, mesmo no domínio estrutural, a complexi-
ciência humana (como é o caso na construção de estruturas nano- dade ainda não é um conceito científico único e bem definido. Um
métricas). Na realidade subjacente profunda, após a emergência de
dos principais fundadores do Instituto de Santa Fé observa que
um grupo de sentidos fenomenológicos, isso é seguido por um pro-
"qualquer definição de complexidade é necessariamente depen-
cesso de auto-organização que pode gerar um universo, ou por uma
dente do contexto, até mesmo subjetivo" (Gell-Mann, 1994).
intervenção em um universo. A própria consciência fundamental
pode usar os processos de auto-organização. A auto-organização Várias noções de complexidade são úteis para uma caracteri-
constrói coisas mais complexas com coisas mais simples. Um de zação pragmática de vários tipos de sistemas. Uma medida geral

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60
inicial da complexidade estrutural foi proposta por Kolmogorov e pode não ser certo -, só então a complexidade seria, por si mesma,
Chaitin na informação algorítmica. Essa parecia ser uma boa medi- um princípio fundamental. Essa questão continua em aberto para
da da complexidade porque a informação algorítmica é determina- futuras investigações.
da pelo comprimento, em bits, do programa mínimo que descreve
Se a existência profunda, que é complexa, der origem a domí-
um sistema. Infelizmente, embora seja possível encontrar um pro-
nios estruturais com base na simplicidade, como foi mencionado
grama tão mínimo quanto possível para descrever um sistema, não
acima no caso das partículas elementares, e a evolução dessas es-
se pode nunca ter certeza, em princípio, que esse é o mínimo abso-
truturas desenvolver objetos complexos com partes fenomenológi-
luto ou o menor de todos. Como o programa mais curto não é com-
cas, então existe um movimento ou fluxo complexidade>simplici-
putável, a complexidade não pode, assim, ser medida corretamente
dade>complexidade.
com a informação algorítmica.
Gell-Mann define uma "complexidade efetiva" pela extensão Pode ser verdade que, na realidade profunda, a infraconsciência
da existência, que é o sentido da existência mais fundamental e feno-
de uma descrição concisa da regularidade de um sistema (Gell-
Mann, 1994). Para um organismo, por exemplo, a complexidade menológico, ou o próprio sentimento de existência, possa ser muito
efetiva será encontrada no genoma. O comprimento da parte rele- simples, como a energia profunda, mas abranja tudo para gerar com-
vante do genoma representa uma medida da complexidade efetiva. plexidades. Nesse caso, o movimento ou fluxo mencionado seria
A complexidade efetiva se aplica à classe dos sistemas adaptativos simplicidade>complexidade>simplicidade>complexidade.
complexos, que são sistemas constituídos de uma grande quantidade Poderemos então formular um princípio fundamental relativo
de agentes com memória ou um modelo interno, com propriedades também à simplicidade e à complexidade.
adaptativas, como são os organismos e outros sistemas.
A ciência contemporânea tenta explicar uma grande parte da 2.5. A consciênciajimdamental da existência
realidade através da complexidade de processos estruturais. Ao
contrário, Robert Rosen considera que tudo que é estrutural não é Nos últimos tempos, a idéia de um universo consciente (Kafa-
necessariamente complexo: "Eu chamei de sistema simples, ou tos & Nadeau, 1990) ganhou um certo ímpeto (Drãgãnescu, 1997a)
mecanismo, um sistema material que tenha apenas modelos com- e foi amplificada com o conceito da consciência fundamental da
putáveis. Chamo de complexos os sistemas que não sejam simples existência (Drãgãnescu, 1998a; 1998b) através da proposição que
nesse sentido. Um sistema complexo deve, portanto, ter modelos ela é um princípio fundamental (Kafatos, 1998b). Com isso, pode-
não computáveis" (Rosen, 1997). Esse é um ponto de vista radical. mos postular que a consciênciajimdamental da existência (P5) é
Modelos não computáveis implicam, em nossa opinião, também um princípio fundamental importante.
processos fenomenológicos e, portanto, seria melhor fazer uma Richard Amoroso considera que a consciência cósmica é um
distinção entre a complexidade estrutural e a complexidade estru- princípio universal para ser usado em teorias físicas (Amoroso,
tural-fenomenológica (Stefan, 1997); a primeira sendo redutível a 1997a). Essa consciência existe a priori, antes do verdadeiro uni-
algum grau de simplicidade, a última sendo uma complexidade verso (Amoroso, 1997b). Acreditamos que a realidade básica não é
verdadeira. Os organismos são realmente complexos, a consciên- apenas mente. Tampouco é consciência, embora a consciência fun-
cia humana é complexa, a realidade profunda é complexa, a cons- damental seja uma parte essencial ou básica da realidade e da exis-
ciência fundamental da existência é complexa. A esfera estrutural tência total. A consciência fundamental ainda possui um tipo de
é, portanto, complexa. Se não considerarmos os objetos do domí- mente, um tipo de mente cósmica.
nio estrutural como complexos, então a complexidade está implíci- A consciência pode ser de dois tipos: a) a consciência humana
ta nos processos fenomenológicos. Só se reconhecennos a comple- em um ambiente social, e também as formas de consciência de ou-
xidade estrutural como sendo a verdadeira complexidade - o que

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63
3. A natureza da realidade subjacente profunda
tros organismos e b) a consciência fundamental da existência. A
consciência humana é hoje objeto de estudos intensos. O problema
A existência profunda (a realidade subjacente profunda) é a
é identificar quais partes são os princípios mais importantes da
primeira e última realidade, que existe fora do espaço e do tempo
consciência que sejam válidos para os dois tipos e quais as diferen-
(Kafatos & Nadeau, 1990; Drãgãnescu, 1990; 1993; 1996).
ças entre eles. A consciência fundamental não é antropomórfica
A realidade subjacente profunda (P6) é um princípio funda-
(Kafatos & N adeau, 1990). Sua existência depende principalmente
da natureza da realidade subj acente profunda, usando os elementos mental na proposta da filosofia da ciência que, a nosso ver, precisa
ser aceita antes de qualque.r; outra coisa. Talvez seja muito dificil
e propriedades dessa realidade, coexistindo com ela, e envolvendo
universos como estruturas para a inteligência (Drãgãnescu, 1998a; compreender, com nossa mente normal, a qualidade de ser fora do
espaço e do tempo e, portanto, precisamos de uma mente mais filo-
1998b). A verdadeira possibilidade da consciência fundamental,
sófica para aceitar essa afirmação. E ainda há mais coisas, porque
antes de tudo, depende da manifestação fenomenológica da reali-
temos de imaginar alguns detalhes relacionados com a unidade e a
dade profunda. Um sentido fenomenológico que garanta a unidade
multiplicidade dessa existência. Idéias interessantes referentes aos
da realidade profunda e com ela a unidade da existência total, é o
detalhes da realidade profunda poderão ser encontradas na filoso-
que se manifesta como um sentimento de existir, ou uma infracons- fia de Plotino e na filosofia do principal filósofo romeno deste sé-
ciência da existência. Ao redor dessa infraconsciência uma cons-
culo, Lucian Blaga, em um trabalho recente de Richard Amoroso
ciência se desenvolve usando a energia profunda para formar es-
(Amoroso, 1997a) e em um dos autores do presente trabalho (Drã-
truturas. Para "saber", para tomar-se reflexiva, ela deve usar estru-
gãnescu, 1985).
turas para obter inteligência. Essas estruturas não podem ser nada
Para passar da unidade para a multiplicidade,já que isso é ine-
mais
. que universos
. criados com a ajuda de atributos fenomenoló-
vitável se considerarmos a geração de um mundo quântico, a reali-
glCOSe energia.
dade profunda precisa se dividir em algum tipo de "célula" que
Os universos estão envolvidos na consciência fundamental da
pode se organizar em comunidades comandadas por alguns senti-
existência (Drãgãnescu, 1998a), sob o comando das leis semânti- dos fenomenológicos específicos. Devido ao sentido fenomenoló-
cas da realidade e da própria consciência. Portanto, a consciência gico de existir e da unidade cada uma das células é vizinha de qual-
fundamental é estrutural- fenomenológica, implicando a existência quer outra célula. Portanto, os sentidos fenomenológicos, ou uma
total, e por esse motivo é um princípio fundamental. A consciência parte deles, podem ter algumas tendências topológicas para orga-
humana é estrutural-fenomenológica. Essa é uma diferença impor- nizar as células de várias maneiras.
tante entre esses dois tipos de consciência. No entanto, também Embora a realidade profunda exista sem espaço, sem dimen-
ocorre que a consciência é fundamental de uma maneira geral, e sões, ela pode possuir espaços "abstratos" ordenados por vários
não é um acidente evolucionário. sentidos topológicos. De certa forma, essas são as raízes subjacen-
Isto significa que a existência está "viva", se ela tem um todo tes para o espaço comum de um universo. As comunidades das cé-
consciente? Talvez os atributos da vida, que envolvem também a lulas na realidade profunda podem organizá-las em espaços multi-
mortalidade dos organismos no universo, não sejam adequados para direcionais até uma infinidade de direções ou dimensões. É inte-
a consciência fundamental. Ao ser imortal, fora do espaço e do tem- ressante que a mente humana possa conceber esses espaços. Uma
po, podemos então usar o antigo termo filosófico de ser para ela. Po- futura teoria da realidade profunda poderia usar essa possível pro-
demos observar também que a consciência é complementar à exis- priedade para descrever pelo menos uma parte do comportamento
tência fisica, e podemos dizer que "O universo e a consciência estão fisico e informacional. O espaço de 11 dimensões dos conceitos
relacionados um com o outro da mesma maneira que o corpo e a teóricos quânticos do universo pode ser conseqüência de um espa-
mente estão relacionados um com o outro" (Kafatos, 1998b). ço "abstrato" multidirecional.

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deau, 1990), envolvendo a convergência do todo unificado do es-
A real~dade profunda também deve ter raízes para o tempo no paço-tempo para a unidade integridade da realidade subjacente
universo. E possível que tenha um chronos, um tempo rudimentar, profunda. As não-localidades de tipo I e tipo 11são, na verdade, fa-
sem direção ou duração, para comandar o aparecimento dos senti- cetas da não-localidade tipo m.
dos fenomenológicos, da mudança e da auto-organização. O chro- Hoje em dia aceita-se que o universo estrutural é um sistema
nos pode ser imaginado como uma vibração de relaxamento, e os quântico. O universo completo não somente é quântico, mas tam-
sentidos fenomenológicos como a vibração produzida pelos im- bém é fenomenológico, portanto o seguinte princípio fundúnental
pulsos do chronos (Drãgãnescu, 1985; 1996). Essas "vibrações" na é aplicável a ele (Drãgãnescu, 1998a).
injormatéria são os sentimentos dos sentidos fenomenológicos.
O universo é quântico-jenomenológico (P8), que é mais amplo
Um fenômeno importante da realidade profunda é o acopla-
que a afirmação de que "o universo estrutural é um sistema quânti-
mento, sob circunstâncias específicas, entre a informação feno me-
co" (embora essa afirmação também seja verdadeira, mas não tem
nológica e a energia profunda, a primeira da injormatéria e a se-
a natureza de um princípio fundamental).
gunda daquilo que poderia ser chamado de energo-matéria, isto é,
um acoplamento desses componentes da matéria profunda. O prin- Em uma primeira aproximação, o universo é estrutural e a
cípio acima (P6), que tem bastante fundamento hoje em dia, possi- ciência estrutural trabalhou com essa aproximação, que para os de-
bilita a especulação sobre modelos possíveis da realidade subja- mais efeitos era bastante útil. Como exemplo, uma característica
cente profunda e que se proponha, no futuro, princípios fundamen- interessante da estrutura e da ordem estrutural do universo é dada
tais específicos para essa parte da realidade. pelos Diagramas Universais (Kafatos, 1986; Kafatos & Nadeau).
Diagramas Universais (UD) representam os relacionamentos entre
as quantidades fisicas (massa, tamanho, luminosidade, temperatu-
4. O universo ra da superficie, entropia irradiada, etc.) de objetos de partículas
elementares e os átomos, moléculas, organelas subcelulares (cro-
Se um universo for gerado pela realidade profunda e a ela co-
mossomos, etc.) células, outras entidades biológicas, objetos in-
nectado, os princípios governando o universo com um caráter as-
dustriais e fabricados pelo homem, cidades, planetas, estrelas, ga-
sim aberto devem ser um reflexo dessa condição.
láxias, grupos de galáxias, supergrupos, etc. Os diagramas mos-
O primeiro desses princípios é (Kafatos & Nadeau, 1990; Ka- tram a continuidade nos relacionamentos descritos das várias clas-
fatos, 1998b) não_localidade/totalidade (P7). A não-localidade se ses de objetos no universo. Se, em algumas regiões onde há conti-
manifesta no universo devido ao fato de que as partículas elemen- nuidade de curvas ou linhas em escalas logarítmicas não existem
tares, na realidade profunda, são semelhantes a ondas e isso permi- pontos representando objetos, é de se esperar que esses serão des-
te a integridade ou totalidade. Atualmente, a não-localidade já está cobertos um dia (como grandes planetas, super-supergrupos etc.).
firmemente estabelecida (Kafatos, 1998a). Na moldura do modelo
O princípio (P8) é confirmado por todos os fenômenos da ex-
padrão da mecânica quântica, uma não localidade espacial ou do
periência. A forma pela qual o universo é quântico-fenomenológi-
tipo I produz um emaranhamento de partículas elementares (por
co é tema de pesquisas na filosofia da ciência e na ciência. Ainda
exemplo, de fótons) através de regiões distintas no espaço, mesmo
em escalas astronômicas; uma não-localidade temporal ou do tipo precisamos trabalhar muito para construir modelos quânticos-fe-
nomenológicos do universo. A expansão permanente da teoria
Il que afinna que um caminho seguido por uma partícula (por ex.
um fóton) não está determinado até que seja feita uma escolha qUântica estrutural e os novos esforços para definir uma teoria quân-
experimental demorada (per Wheeler), como se o passado fosse tica do cérebro (Amoroso, 1997a) podem oferecer insights para uma
unido ao presente. Na moldura de uma teoria de campo unifi- teoria quântica fenomenológica do universo.
cado, seria esperado um tipo III de não-localidade (Kafatos & Na-

66
que as fontes fenomenológicas e as que contêm energia sejam ex-
Outra conseqüência da posição peculiar do universo que pos- ploradas. Com relação aos objetos viventes, ocorre que nesses ob-
sui um substrato de realidade profunda, que por sua própria totali- jetos, por si mesmos, por auto-organização, dá-se um acoplamento
dade é mais parecido com um continuum, é a manifestação, para os das partes estruturais e fenomenológicas que emerge como uma
observadores, de propriedades complementares contínuas/descon- propriedade geral da natureza. Esse acoplamento pode ser a base
tínuas. Esta completaridade não poderia estar presente em um uni- para solucionar "a lacuna explanatória" do problema cérebro-men-
verso puramente estrutural, mas somente em um universo estrutu- te (Drãgãnescu, 1998c). Esse acoplamento é diferente do acopla-
ral fenomenológico. mento da energia e da informação fenomenológica na realidade
profunda. Parece que existem muitas formas de acoplamento de ob-
A objetividade da continuidade observada entre os organismos
jetos e fenômenos.
e a mente humana no universo é devida à ação fenomenológica da
informatéria acoplada às estruturas dos organismos. O universo é
essencialmente descontínuo quando consideramos quanta de es- Conclusão
paço, partículas elementares e talvez "quanta" de informatéria,
mas ele ainda tem suas raízes no substrato contínuo da realida- Os princípios fundamentais propostos neste artigo são em par-
de profunda. Os quanta da "informatéria" estão produzindo meios te baseados em fatos científicos e, em parte, em considerações filo-
para a intra-abertura do universo e estão mergulhados na realidade sóficas que extrapolam novos dados científicos ainda não incorpo-
profunda contínua, que é também uma continuidade da informaté- rados ao sistema científico existente. Uma mistura de ciência e filo-
ria. Do "ponto de vista da existência profunda" o universo é uma sofia da ciência pode ser uma ponte entre a ciência antiga e a nova,
totalidade (com multiplicidades em um continuum), do "ponto de sob construção. Esses princípios podem ser usados como hipóteses
vista do universo" ele é descontínuo e ambos os pontos de vista es- operacionais para ampliar a ciência, para elaborar novas teorias ci-
tão fundidos na complementaridade descontínua/contínua. entíficas. Com os novos avanços da ciência, eles poderão ser apri-
Quando o ser humano percebeu que ele possuía um corpo, um morados. Ao examinar a lista sugeri da (P 1) a (P9) de princípios fun-
damentais podemos nos perguntar: qual é o paradigma ou paradig-
corpo contínuo, ele viu unicamente corpos (não-viventes e viven-
mas sugeridos pela filosofia da ciência que abarcam esses princí-
tes) e principalmente continuidades a seu redor. Quando ele perce-
pios? Candidatos para os novos paradigmas são: a realidade subja-
beu que os corpos podem ser divididos em partes, e essas partes em
outras, em breve começou também a perceber a descontinuidade cente profunda; o sentido fenomenológico (experiência, informa-
do universo. As leis contínuas do universo tais como as teorias da ção fenomenológica); a consciência fundamental da existência.
relatividade, especial e geral, refletem essas circunstâncias e, por Com relação à metodologia da ciência, a ciência estrutural ba-
esse motivo, não são subjetivas, já que refletem as propriedades seia-se na teoria, especialmente em modelos matemáticos e medi-
objetivas profundas da existência. E é por isso que elas são passí- das. É possível que a parte mais crítica do método científico hoje
veis de verificação através de experimentos. seja o papel das medidas. Lord Kelvin disse uma vez (citado por
Robert A. Millikan (Millikan, 1935): "Quando você pode medir
Segue-se um importante princípio fundamental, ou seja, os ob- aquilo sobre o que está falando e expressá-lo em números, você
jetos com vida, mente e consciência em um universo são estrutu- sabe algo sobre ele, e quando você não pode medi-lo, quando não
rais-fenomenológicos (P9), o que define a natureza completa des- pode expressá-lo em números, seu conhecimento é pobre e insatis-
ses objetos. fatório. Pode ser o começo do conhecimento, mas você mal chegou
O universo é estrutural-fenomenológico porque é quântico-fe- até o estágio científico".
nomenológico, e também porque seus fenômenos de vida, mente Hoje a ciência estrutural aceita provas indiretas da teoria, como
e consciência são estrutural-fenomenológicos. Acreditamos que a
Ocorreucom a teoria dos quarks. Essas partículas não foram isoladas
evolução ou o aprofundamento da atual teoria quântica permitirá

69
68
- (1996). L 'universalité ontologique de I 'infonnation. Buearesta Editu-
e medidas, mas a prova indireta de sua existência validou a teoria. ra Aeademiei Romãne [Préfaee et notes par Yves Kodratoff, prof.
Provas indiretas se tomaram mais importantes, até mesmo funda- Université de Paris-Sud, Diretor de pesquisa no CNRS].
mentais, com a ampliação ou aprofundamento da teoria quântica,
mesmo no domínio estrutural. Para a nova ciência, que parece tor- (1997/1979). The depths of existence [Publieado em inglês -
nar-se estrutural-fenomenológica e ortofisica, são necessários no- http://www.racai.ro/books/doe- tradução da edição romena Profilll-
zimile lumii materiale. Bucareste, 1979].
vos princípios metodológicos. De qualquer forma, por enquanto,
podemos acrescentar o princípio fundamental seguinte à metodolo- - (1997a). Deep reality, conscious uni verse and complementarity. The
gia da ciência estrutural (Drãgãnescu, 1990; 1993; 1996). Noetic Journal, vol. 1, n. 1, p. 114-117.
A ciência estrutural é insuficiente e incompleta para descrever
- (1997b). On the structural-phenomenological theories of conscious-
a realidade total (P 1O),ou, dito de outra maneira, a ciência estrutu-
ness. The Noetic Journal, vol. 1, n. 1, p. 28-30.
ral é insuficiente para descrever objetos com processos fenomeno-
lógicos, ou objetos com vida, mente e consciência, bem assim - (1998a). Structural-phenomenological theories in Europe and USA
como a existência profunda, a consciência fundamental da existên- [Paper apresentado na oficina Convergences].
cia e a natureza geral da existência.
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PARTE III

FÍSICA QUÂNTICA E
COSMOLOGIA

72
4
Simetria: A Teoria do Tudo

Andrew Lohrey

Universidade da Tasmânia, Austrália

Resumo

Este trabalho faz uma crítica às teorias reducionistas de tudo


(Teoria do Tudo) e propõe, em vez delas, um esboço para uma Teo-
ria do Tudo holístico baseada na simetria. A simetria é onipresente
no universo, tem uma arquitetura relacional e pode ser caracteri-
zada por seus potenciais formativos, energéticos e infinitos, bem
como por sua base na significação e na consciência. Essas caracte-
rísticas inclusivas e genéricas combinam - se para fornecer a base
necessária para uma teoria holística do tudo - uma teoria que inclui
uma concepção de Deus.

Introdução

A história da fisica é a história da unificação da ciência. New-


ton, Maxwell, Eistein e Bohr desenvolveram, individualmente,
uma série de conexões simétricas antes desconhecidas. Talvez de-
vido a esses desenvolvimentos isomórficos, a busca de uma Teoria
do Tudo (TOE - the01Y of everything), uma teoria que possa expli-
car as leis básicas de todo o universo em todos seus detalhes infini-
tamente sutis, parece mais que um ato de fé. No coração de uma
TOE situam-se os conceitos de unidade e unificação que foram os
frutos da fisica nos últimos trezentos anos. A idéia de uma Teoria
do Tudo continua a despertar o interesse dos fisicos teóricos. Este

75
interesse tem como base a crença de que somente as leis da fisica mente detalhados como parâmetros da fisica de partículas. Uma
podem explicar as leis básicas da criação. Segundo Davis e Brown Teoria do Tudo bem-sucedida deveria então implicar uma unidade
(1988: 1), essa crença é estimulada pela filosofia do reducionismo. universal que seria, necessariamente, um aspecto inclusivo de to-
Essa perspectiva assume que a psicologia pode ser reduzida à bio- dos os estudos disciplinares, da fisica de partículas à psicologia, e
logia, a biologia à química e a química à fisica: "a seta da compre- mais além, à análise de discursos, aos estudos culturais e à teologia.
ensão aponta para baixo, para o nível mais profundo da realidade Esse é o argumento inclusivo que Stephen Hawking defende quan-
até que, no final das contas, tudo possa ser explicado em termos dos do afirma que uma teoria unificada nos permitiria conhecer a men-
constituintes fundamentais da matéria". te de Deus (1991: 185).
A visão reducionista das Teorias do Tudo muitas vezes se ori-
1. Reducionismo gina da linguagem que é utilizada para descrever essas teorias.
Por exemplo a " seta explicativa" que aponta para baixo não é
uma metáfora inclusiva e não pode explicar processos auto-re-
Em sua introdução a Superstrings: A Theory o/ Everything,
flectivos ou circulares da própria "explicação" ou discursos, ou a
Davis & Brown dizem que, para ser bem-sucedida, uma Teoria do
dinâmica da subjetividade produzida por tipos diferentes de ex-
Tudo teria que ter três características gerais: a) deveria explicar por
plicações. Em outras palavras, uma Teoria do Tudo não deveria
que os fisicos observam as partículas elementares e não outras; b) ser sobre uma seta de explicação que aponta para baixo e sim so-
deveria poder explicar as interações entre as partículas e c) deveria bre um modelo essencialmente circular e discursivo onde a subje-
ser capaz de explicar os cálculos da dispersão (scattering) das am- tividade, na forma de percepção, explicação e teoria, pode intervir
plitudes e as taxas de decaimento etc., entre partículas. Em suma, em todos os pontos possíveis no espaço-tempo. A metáfora mais
uma Teoria do Tudo bem-sucedida deveria ser capaz de expli- adequada para essa perspectiva não é uma seta linear e sim um CÍr-
car "todos os parâmetros de mensuração da fisica das partículas". culo holístico, comum aos modelos do caos auto-semelhantes e
Quase como uma reflexão posterior os autores acrescentam que hierarquicamente estruturados.
uma Teoria do Tudo bem-sucedida deveria também "fornecer uma
Uma outra crítica às abordagens reducionistas à Teoria do
topologia de espaço-tempo e um relato convincente de como sur-
giu o universo" (1988: 5). Tudo é que essas perspectivas têm a tendência de reproduzir a ar-
madilha que Whitehead chamava de "concretude mal colocada".
O que é interessante sobre o perfil que Davis & Brown fazem Vemos evidência disso na própria terminologia usada na fisica de
de uma Teoria do Tudo bem-sucedida é que ela se enquadra perfei- partículas. Nesse campo, termos concretos são utilizados para in-
tamente com a filosofia reducionista que eles criticam tanto. Sua dicar processos que não são essencialmente concretos ou fisicos.
abordagem, por exemplo, não é um perfil interdisciplinar de uma O termo" partícula" é um desses casos. As partículas são basica-
Teoria do Tudo e sim um tipo de abordagem especializada em que a
mente interações/relacionamentos, mas o termo "partícula" tende
permissão básica é que também a subjetividade, a consciência, sig-
a obscurecer esse significado. Comentários semelhantes podem
nificados discurso cultura, sociedade, loucura, fisica de partículas"
ser feitos sobre a teoria da corda que propõe que os "objetos" bá-
é ampla o suficiente para explicar, de forma adequada, "tudo", já
sicos do universo não são partículas e sim "coisas" que são como
que a abrangência de uma Teoria do Tudo deveria também incluir
"um pedaço de corda infinitamente fina" (Hawking, 1991: 168).
um explicação sobre essas outras considerações interdisciplinares.
Esses termos embutem uma "concretude mal-colocada" em qual-
Não há duvida de que esse seria o objetivo de uma Teoria do quer Teoria do Tudo, e com isso reforçam tacitamente as premis-
Tudo bem-sucedida; sua abrangência deveria se totalmente inclu- sas reducionistas fazendo com que tenhamos a expectativa de
siva e seus elementos interdisciplinares não devem ser tacitamente que é possível descobrir um processo fisico fundamental que ex-
assumidos ou vistos como periféricos. Deveriam ser tão explicita- plique tudo.

76 77
Essas críticas sugerem uma abordagem alternativa. Este estudo explicação. Podemos concordar que as relações são anteriores aos
busca uma Teoria do Tudo interdisciplinar e holística. Ela será um estados derivativos chamados objetos e entidades fisicas, mas "rela-
exercício discursivo que utiliza modelos autocirculares e não a con- ções" é um termo por demais amplo para nos dar uma visão profun-
cretude mal colocada e será capaz de descrever e valorizar os proces- da do conteúdo estrutural de uma ordem hierárquica. Para que isso
sos não-fisicos como sendo não-fisicos. As diferenças entre uma Teo- ocorra temos de examinar os tipos de relações e, em particular, a re-
ria do Tudo reducionista e uma Teoria do Tudo holística são claras e lação fuandamental de simetria. Mas, antes de nos voltarmos para a
decisivas. Um abordagem reducionista presume que uma explica- simetria, são necessários primeiramente alguns comentários sobre
ção de tudo no universo pode se originar de constituintes irredutíveis a hierarquia de ordens implícitas e explícitas de Bohm.
da matéria, ainda não descobertos. Ao contrário, uma perspectiva
holística examina as características genéricas do conceito de "tudo", 2.1. Bohm
isto é, a possibilidade de identificar aquelas características "muni"
inter-relacionadas embora tão diferentes que são totalmente inclusi- O fisico teórico David Bohm desenvolveu um modelo hierár-
vas e interdisciplinares e verdadeiramente universais. quico que tem sérias inferências para uma Teoria do Tudo holística
bem-sucedida. O sistema de Bohm tem como base o conceito de
Para aventurar-nos nesse processo holístico, começamos abor-
causalidade primária que é expressa através do holomovimento. O
dando algumas considerações estruturais relacionadas com o con- holomovimento é uma totalidade indivisível de toda a existência. É
ceito de "ordem". Com efeito, isso significa analisar as relações
um movimento indivisível, flutuante, sem limites, uma ordem na
que criam hierarquia, pois é a hierarquia que está implícita quando
usamos o termo "ordem". qual a totalidade da existência está introjetada em cada ponto do
continuum espaço/tempo (Bohm, 1983: 172). O holomovimento
pode ser comparado à função de onda primordial do universo, uma
2. Rede função de onda que interconecta um universo não dividido.
Em Wholeness and the implica te order (a Totalidade e a ordem
Uma ordem hierárquica não deve ser confundida com uma rede implícita) Bohm diz que as características do holomovimento são
de relações. O conceito de conhecimento científico como uma rede "indefiníveis e imensuráveis"; e assim ele clama por uma holono-
de relações na qual nenhuma parte é mais fundamental que as outras mia, isto é, a lei da totalidade. Além disso, produz alguma álgebra
representa a filosofia "bootstrap" (cadarço de bota) auto-sustentá- relevante para o holomovimento. Essas qualificações parecem in-
vel de Geoffrey Chew (Capra, 1997: 39). A vantagem da filosofia dicar que Bohm resistiu à possibilidade de uma descrição parcial,
"bootstrap" é que ela abandona a idéia de que a base fisica da nature- se não de alguma mensurabilidade, dessa misteriosa ordem primá-
za apóia-se em blocos de construção fundamentais. A desvantagem ria que tem o estado de "primazia" cosmo lógica.
é que ela rejeita todas as posições fundamentais. Assim, para ela, ne- Embora a fisica não proíba a idéia de uma função de onda cós-
nhum aspecto da rede de relações que compõe o conhecimento cien- mica, a ciência reducionista certamente não correu para abraçar o
tífico é fundamental. Portanto, não há nada que se assemelhe a uma
holomovimento de Bohm. Talvez isso seja porque, como indicou
hierarquia de relações, pois o simples fator que liga as inter-relações Bohm, o holomovimento não pode ser medido. Talvez também
determina a estrutura de toda a rede ou de todas as relações.
haja alguma relutância devido às implicações cosmo lógicas de
No entanto, o termo "inter-relações" nos oferece uma frágil ex- uma função de onda universal. Certamente o holomovimento tem
plicação da natureza da estrutura e, em termos do conceito hierárqui- algumas contradições aparentes. Como aponta Gordon Globus, o
co de "ordem", as inter-relações não têm nada a dizer. Portanto, o holomovimento de Bohm tem primazia ontológica sobre o mundo
poder explicativo desse tenno de conexão é limitado e não deve ser em virtude de estar criando-o (Globus, 1991: 376). Ao mesmo tem-
único como se fosse uma categoria fundamental e detenllinante de po, a localização desse campo foi muitas vezes descrita como um

78 79
vácuo. Como essas duas concepções - uma, de causalidade primá- estão evidentes em todos os níveis da realidade - do micro ao ma-
ria e a outra de um vácuo - podem ser compatíveis? Esse é o dilema cro, das partículas às pessoas. Ele chamou o primeiro movimento
principal criado pela teoria do big-bang na qual nos dizem que a de ordem "implícita" porque esta se esconde introjetando a infor-
causa primária do universo, isto é, sua emergência, se originou do mação e as estruturas do mundo em si mesma. O segundo mo-
vácuo de uma simetria primal. vimento ele chamou de ordem "explícita" porque esta revela o
.mundo que somos capazes de conhecer através da observação.
Assim, objetos, físicos, entidades e processos são da ordem explí-
3. Ciência e religião cita. Sua existência material foi o resultado do desdobramento de
ondas de movimento implícitas e, como entidades físicas, elas são
Para a ciência, as questões sobre a causalidade primária fazem destruÍdas ao serem envolvidas (introjetadas) novamente dentro da
surgir o espectro de uma história de conflito com a religião. No en- ordem implicada.
tanto, essa história não deu à ciência uma posição firme sobre a
Portanto, a existência material com suas causas e efeitos mecâ-
questão da causalidade primária. Durante os últimos 150 anos, a
nicos e suas forças que empurram e puxam representam a ordem
noção religiosa de um único criador onisciente foi muitas vezes
explícita. O próprio significado do conceito de "existência" é as-
erodida pela secularização social, no entanto, a ciência tem resulta-
do em assumir plenamente a alternativa ateísta, em proclamar com sim condicional, já que se refere à existência na ordem explícita. O
certeza que o universo é dirigido por forças cegas e sem propósito. "ser" e a existência, portanto, nunca podem se referir a um estado
Muitos dos grandes cientistas deste século, e muitos que recebe- da ordem implícita, pois a ordem implícita é um movimento uni-
ram o Prêmio Nobel, não concordaram com a alternativa ateísta da versal invisível ao qual falta espaço, tempo e substância, mas que é
causalidade sem propósito. Outro fator que dificulta ainda mais a eterno, onipresente e absolutamente não-local. Em outras palavras,
situação da ciência é a imposição histórica de uma escolha que, in- um estado de "existência" implica resultados relativamente está-
felizmente, deixa muito pouco espaço entre "um criador único" e veis de um desdobramento da ordem implícita, um desdobramento
"forças mecânicas" para aqueles que atribuiriam características que cria as entidades da ordem explícita. As ordens implícita e ex-
causais ao vácuo. plícita, portanto, não são opostas, mas tampouco são um par biná-
rio. Ao contrário, elas são altamente integradas por meio de ondas
No entanto, uma causa primária é essencial para a ciência. A
constantes de transformação entre uma e outra. Essa função de
causa está sempre implícita todas as vezes que um cientista se refe-
re às "leis da natureza". Tais leis, se é que elas estão realmente além onda de introjeção (inclusão) e extrojeção ocorre em todos os ní-
das relatividades culturais das regularidades observadas, devem veis, do micro ao macro e do macro ao micro de modo que as ondas
podem se movimentar do micro ao macro e do macro ao micro,
significar algumas das características causais últimas naquilo que
Bohm chamou de holomovimento. Em outras palavras, como a para se tomarem funções de onda do universo. Nesse nível de tota-
lidade está o holomovimento. O que nos interessa para a presente
base ontológica dessas Leis deve estar além do visível, do explícito
e do observável (ou não teriam um aplicação geral), aquele lugar discussão com relação à ordem e à hierarquia é que a ordem implí-
"mais além" deve ser um campo determinante primário, cujas di- cita de Bohm, e sua extensão na ordem superimplícita do holomo-
mensões Bohm descreveu como holomovimento. vimento, é sempre o campo determinante primário. Em contraste,
a ordem explícita, que é construída com as substâncias observá-
veis da existência material, é a ordem secundária e derivativa. O
4. As ordens implícita e explícita modelo do holomovimento de Bohm com suas ordens implícita e
explícita, portanto, representa um modelo holístico, não reducio-
O holomovimento de Bohm é a expressão universal de dois nista, apropriado para o desenvolvimento de uma Teoria do Tudo
movimentos ou ordens inter-relacionadas e complementares que de sucesso.

80 81
6. Simetria
5. Outras implicações

A linguagem do holomovimento de Bohm com suas ordens Embora Bohm estivesse errado com relação à definição e à
implícita e explícita é muito diferente da terminologia científica mensuração do holomovimento, esses são exatamente os passos
normal que se refere ao terreno e ao lugar de nascimento do univer- necessários para desenvolver uma Teoria do Tudo holística. No en-
so como sendo o vácuo. O termo "vácuo" é redutivo e tecnológico tanto, na tentativa de seguir esses passos é essencial usar métodos e
e implica um estado morto de vacuidade. No entanto, essa vacuida- discursos não reducionistas. Como prosseguir?
de fecunda ferve com criatividade a tal ponto que alguns fisicos re- Uma das sugestões colocadas por este autor (Lohrey, 1997) é
ferem-se a ela como "espuma do espaço-tempo" (Swimme, 1996: que o holomovimento de Bohm tem uma arquitetura simétrica.
93). A contradição aparente de um vácuo que fervilha com criativi- Essa arquitetura se evidencia pelas suas características de não-lo-
dade se origina de resultados experimentais, que vão além do signi- calidade, atemporalidade e pré-espacialidade. Mas esse tipo de es-
ficado exclusivo de uma terminologia anacrônica e redutiva (vá- trutura simétrica precisa conter também a energia formativa ne-
cuo), comum a uma visão newtoniana do mundo. cessária para a emergência (desdobramento) contínua e destruição
Durante muitos anos os cientistas elaboram uma série de expe- (introjeção) da ordem explícita do universo. Propõe-se, portanto,
rimentos interessantes com aceleradores de partículas que investi- que o holomovimento é um movimento simétrico infinito e su-
til, que não é percebido pela percepção humana, mas que funciona
gam a estrutura do vácuo e muitos tipos de formas novas de matéria
virtual foram descobertos. Portanto, o vácuo não é um "nada" iner- como contexto por ser anterior às realidades físicas da ordem ex-
plícita. Em suma, é a simetria do holomovimento que é o princípio
te, e, sim, umplenum cheio de vibrações virtuais, quanta virtuais e
causal primário através de todo o universo.
partículas virtuais. Parece assim que o vácuo tem um potencial in-
finito. No entanto, a realidade virtual criada pelos aceleradores de Ao propor que o holomovimento tem uma arquitetura simétri-
partículas não fornece uma base para uma Teoria do Tudo bem-su- ca e atua como a causa primária do universo, estamos dizendo algo
cedida, seja ela holística ou reducionista. O motivo para isso é que bem diferente da abordagem comum às grandes teorias unificadas
as realidades virtuais que o vácuo gera são de um tipo explícito e adotadas, por exemplo, por Stephen Hawking. Hawking nos diz
diferencial. Em outras palavras, com os aceleradores de partícula que o primeiro passo necessário para uma teoria assim seria combi-
os cientistas estão criando uma nova ordem completa de existência nar a relatividade geral com o princípio de incerteza (1991: 165).
física. É portanto uma ordem explícita e virtual. Uma ordem desse Essa perspectiva se origina de uma tradição que considera que a ta-
refa da física moderna é descobrir as simetrias do mundo. Como
tipo sempre será uma ordem derivativa e secundária e nunca uma
ordem primária. disse Heinz Pagels, "a maior parte da história da física moderna é a
descoberta de novas simetrias" (1982: 304).
As práticas científicas lidam quase que exclusivamente com a
ordem explicada por meios e métodos também explícitos. Como Se acreditarmos que o objetivo da ciência é revelar novas si-
metrias, então a descoberta de uma simetria entre a relatividade ge-
regra geral, tais práticas consideram os processos físicos como pri-
ral e a mecânica quântica parece um dos primeiros passos essen-
mários quando na verdade eles são secundários. Quando isso ocor-
ciais para uma teoria unificada. No entanto, esse é o caminho que
re, cria-se o reducionismo e a ciência confunde o entendimento e
o conhecimento necessários para elaborar uma Teoria do Tudo coloca a simetria ou como uma propriedade do universo físico ou
bem-sucedida. Confusões desse tipo sempre surgem devido a uma como uma função matemática. O holomovimento de Bolun não é
nenhum dos dois. Ao contrário, ele é uma realidade causal defini-
dependência exclusiva de práticas explícitas, que continuamente
da - um campo universal de causalidade primária. A proposta aqui
se desviam, por omissão ou negligência, da realidade unificadora e
é que esse campo primário é um campo de simetria e, como tal, es-
fecunda da ordem implícita subjacente.

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tamos menos interessados em descobrir novas simetrias a fim de
versal, suas características se enquadrarão com as características
desenvolver uma Teoria do Tudo do que em definir a natureza da
gerais de uma Teoria do Tudo bem-sucedida, já que uma Teoria do
própria simetria. Essa é a questão mais básica para uma Teoria do Tudo deve, por definição, ter aplicação universal.
Tudo e uma questão que presume a primazia do holomovimento. É
também uma questão que revela o motivo pelo qual a tarefa da fisi- O que se propõe aqui é que a simetria seja a base de uma Teoria
ca moderna é descobrir novas simetrias: porque a simetria é o esta- do Tudo já que a simetria representa o estado mais básico (ground
do mais básico (ground state) do universo. state) do universo (o holomovimento) que pode ser descoberto em
todos os pontos do espaço/tempo. Essa proposição implica que as
Que base existe na fisica moderna para que possamos conside-
características da simetria podem nos dar uma base para a teoria
rar a simetria como o princípio causal primário do universo? Her-
holística do tudo, uma teoria na qual o princípio de unidade, na for-
mann Weyl disse: "que eu saiba, todos as afirmações feitas a priori
ma de simetria, é tanto uma causa primária (infinita) quanto está
na fisica têm sua origem na simetria" (Wade, 1993: 17). Diz-se
também presente em toda a miríade de formas derivativas (finitas)
que, pouco antes de morrer, Werner Heisenberg argumentou "que do universo.
aquilo que era verdadeiramente essencial na natureza não eram as
partículas propriamente ditas, mas as simetrias que se encontram
além delas" (Peat, 1987: 94). Outras indicações de que um campo 7. Características universais
sutil de simetria existe anteriormente ao universo fisico e explícito
podem ser encontradas no relacionamento que campos tipo "gau- Como então idéntificar algumas das características universais
ge" (gauge fields) têm com os quatro campos fundamentais de in- da simetria, o estado mais básico do universo, um estado que é
teração. Por exemplo, hoje os fisicos acreditam que esses quatro muitas vezes descrito como um nada, um ponto zero, um vazio?
campos, o gravitacional, o eletromagnético e os campos nucleares Como já foi indicado, a abordagem da ciência moderna à simetria
forte e fraco, são baseados em gauge fields que são, eles próprios, é colocá-Ia como um propriedade de alguma mudança fisica (um
resultados da simetria (Pagels, 1982: 264-79). Cada um dos quatro arranjo proporcional). Na mineralogia, por exemplo, acredita-se
campos de interação tem características simétricas, e os gauge fi- que a simetria refere-se às estruturas angulares dos cristais, en-
elds são campos de interações simétricas. Portanto, a simetria pode quanto, na geometria, ela é uma característica de certas formas e
ser considerada como uma característica inerente a cada um desses
moldes. Na matemática, a simetria é considerada uma função de
campos, assim como primária a eles. transformação. Portanto, existe uma diferença considerável entre
Um campo simétrico também ocupa um lugar primário em essas descrições funcionais e elementares da simetria e a atual
abordagem holística.
subjetividade, isto é, como processos inconscientes anteriores à
percepção consciente explícita (que discutiremos mais tarde). As Em Fearful Symmetry, Stewart & Golubitsky (1993) definem
mesmas ordens implícita e explícita também operam na linguagem simetria em termos de sua característica mais geral, a de transfor-
com significado implícito e explícito. Cada um desses três níveis: o mação. Uma transformação simétrica é um processo no qual algo
cósmico, o individual e o discursivo, está envolvido na produção muda e algo permanece o mesmo. Normalmente, demonstra-se a
de qualquer teoria científica. Em outras palavras, se o holomovi- ocorrência de uma transformação simétrica em formas geométri-
mento é um campo verdadeiramente universal ele teria de estar cas que giram ou refletem. No tempo, a transformação simétrica
onipresente, isto é, presente em cada uma dessas dimensões. Essa tem o caráter de periodicidade ou ciclicidade. Uma transformação
inferência nos leva a uma questão mais geral acerca da natureza da simétrica no entanto é um processo que inclui outras relações além
própria simetria. Mas ela também implica a possibilidade de uma de relações simétricas e, na medida em que outras relações são in-
Teoria do Tudo holística. Se algumas das características da sime- cluídas, elas tendem a obliterar o significado direto de simetria. De
tria podem ser definidas, e se a simetria é uma causa primária uni- nosso ponto de vista, a transformação não é tanto o significado da

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simetria e sim seu efeito mais potente, universal e imediato. Não segunda característica da simetria, campo primário da causalidade.
podemos definir simetria apenas examinando seus efeitos. Deve- Os potenciais da simetria manifestam-se através dos processos de
mos começar por focalizar diretamente nesse próprio campo sutil, transformação - quando, por exemplo, a simetria perfeita é trans-
misterioso e oculto. formada em não-simetria. Um estado de "transformação" repre-
Parte do significado de simetria é encapsulado em palavras tais senta os estados de desdobramento e introjeção (inclusão), isto é,
como "invariância", "unifonnidade", "vácuo", "nada" (nothing- um desdobramento da ordem explícita de Bohm através da trans-
formação da simetria perfeita em não-simetria e uma introjeção
ness) e "ponto zero". O símbolo de igual "=", na matemática tam-
bém transmite o significado de simetria. A simetria pode tam- (inclusão) da não-simetria de volta à simetria. Esses são atos de
bém ser descrita de maneira negativa por aquilo que não é, por criação e destruição e representam um poder causal universal tão
sua não-localidade, sua atemporalidade e sua pré-espacialidade. poderoso que pode ser descrito como onipotente.
Esses termos identificam parte do sentido de simetria mas nem Ainda uma terceira característica da simetria envolve intera-
mesmo começam a explicar os potenciais formativos desse cam- ções e relacionamentos. As relações são ubíquas, isto é, são univer-
po primário universal. Esses potenciais, que se manifestam atra- sais, ocorrendo em todos os pontos no espaço/tempo. A simetria,
vés de todas as transformações, são infinitos. De várias maneiras, portanto, é relacional. As relações simétricas, que são relações de
o significado direto de simetria é místico e deve permanecer um uniformidade, igualdade e invariância, não são, no entanto, sim-
mistério para nossos estados comuns de percepção explícita, uma plesmente relações que se interligam, conectam e integram. É ver-
particularidade a que retomaremos mais tarde. Portanto, embora dade que fazem tudo isso, mas essa interligação, conexão e integra-
o significado de simetria possa ser dificil de captar, podemos co- ção são conseguidas, não arbitrariamente ou de maneira unidimen-
nhecer muito sobre ela através da lógica isomórfica (a lógica da si- sional, mas sim dentro dos limites de uma ordem universal unifica-
milaridade e inferência) de suas muitas características. A primeira dora. Essa ordem cósmica tem uma estrutura hierárquica gerada
delas e a onipresença. pela primazia das relações simétricas (a ordem implicada) e a "se-
Um exemplo da onipresença da simetria encontra-se na trans- cundariedade" das relações transformadoras (a ordem explícita).
formação. A transformação ocorre em todas as partes e níveis do Essa hierarquia cósmica é, então, transcendente e imanente. Ela é
universo. Ocorrem na matemática, na fisica, na biologia, na cons- transcendente em sua primazia como ordem implícita e imanente
ciência e em processos informais e simbólicos. Todas as transfor- nas transfonnações que são sempre secundárias e comuns à ordem
explícita. As relações dessa hierarquia cósmica, portanto, forne-
mações têm sua base na simetria e, portanto, deveriam ser chama-
das de transfonnações simétricas. Através dos processos de trans- cem a estrutura e a arquitetura para todas as formas explícitas, o
formação, a simetria é imanente em tudo, e o conceito de "tudo" faz que significa, na verdade, toda a matéria inorgânica e todas as for-
mas de vida orgânica.
sua presença onipresente. Como podemos aplicar o conceito de
transformação simétrica igualmente bem ao tempo, às fonnas geo- Uma quarta característica da simetria está relacionada com
métricas e à criação universal, uma característica da simetria é que seus potenciais fonnativos e causais. Esses potenciais fornecem "a
ela é tanto uma força primária (na criação) quanto é imanente em capacidade de gerar trabalho", em outras palavras, eles são a ener-
todas as transformações. Uma de suas características principais é, gia inerente aos potenciais simétricos. A quinta característica da si-
portanto, a onipresença. metria está relacionada com significado e consciência. Significado
Além da onipresença, podemos dizer que a simetria tem poten- e consciência são características que fogem dos discursos científi-
ciais infinitos. Os potenciais infinitos da simetria do holomovimen- cos normais sobre simetria e precisarão ser mais detalhados.
to são potenciais formadores e fonllativos ou, mais simplesmente, Em suma, como um campo primário, a simetria tem essas cin-
potenciais causais. São os potenciais cósmicos que criam as for- co características gerais: onipresente, onipotente, transcendente e
mas visíveis e diferenciais do universo explícito. Aqui então está a imanente, energética, possui significado e consciência.

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Neste breve trabalho será preciso fazer alguns outros comen- Cada um desses fenômenos possui relações simétricas como sua ca-
tários sobre essas características afim de indicar que a simetria racterística não-racional central. A simetria também é uma caracte-
pode ocupar o lugar da Teoria do Tudo. É preciso observar que es- rística básica do hábito (através da repetição) que ocorre em todas as
sas características não estão em qualquer formação seqüencial. formas de vida e que é uma parte importante de todo aprendizado,
mas, apesar disso, são altamente integradas. seja ele em um pântano ou em uma sala de aula.
A onipresença da simetria abrange duas dimensões: a infinita e
a finita. Como uma causa infinita e primária ela tem uma "prima-
8. Onipresença zia" no esquema das coisas. A simetria também está presente em
todas as transformações, e as transformações podem ocorrer em to-
A onipresença é uma referência à abrangência universal da si- dos os pontos no espaço-tempo.
metria e a suas dimensões omni ou infinitas e não-locais. Essa é sua
qualidade totalmente inclusiva, abrangente e sem exceção. O que
isso significa é que não há nenhum local, espaço, dimensão ou es- 9. Transcendência e imanência
tado em todo o universo que não tenha simetria. A abrangência
deste campo, portanto, é universal e também são universais as suas A transcendência da simetria - juntamente com sua imanência
dimensões. Encontra-se a simetria em todos os lugares e assim, de através de transformações (que são sempre secundárias) - é explica-
uma maneira contraditória típica da simetria, ela está implicita- da estruturalmente por referência às relações. Relações e não partí-
mente em todas as partes e explicitamente em nenhuma. culas ou supercordas são a base do universo. As relações são onipre-
Alguns exemplos da sua onipresença são o Princípio de Exclu- sentes e metafisicas. As relações são fecundas e podem criar formas.
são de Pauli ao qual atribuem a responsabilidade de todas as orga- Uma forma pode ser sólida, líquida, gasosa ou simbólica. Uma for-
nizações que ocorrem na natureza. Além disso, o espaço e o tempo ma de qualquer tipo é uma expressão de uma certa regularidade de
são ambos simétricos no sentido de que ambos possuem uma inva- estrutura. Uma regularidade de estrutura, ou padrão, é um conjunto
riância mesmo quando ocorre alguma forma de translação para de relações. Assim, o estado sólido da matéria é gerado quando se
eles. Mais formal é a simetria que é inerente a toda a matemática e estabelece um equilíbrio entre um conjunto de relações que se atra-
está representada diretamente pelo sinal de igual "=". Outro exem- em e se repelem. Uma forma simbólica é criada de maneira seme-
plo da generalidade universal da simetria é a natureza do significa- lhante, quando um equilíbrio assimétrico é estabelecido entre um
do implícito. O significado implícito representa a maior parte dos conjunto de relações simétricas e não-simétricas (Lohrey, 1997). No
significados em todas as linguagens e discursos (Lohrey, 1997). entanto, embora possamos falar de uma maneira familiar sobre
conjuntos de relações, raramente nos ocorre perguntar "o que é uma
A simetria também é uma característica permanente e primária
relação?" Essa questão é central para a natureza da simetria.
da subjetividade. Por exemplo, ela é a natureza da subjetividade
pré-refletida e também do inconsciente freudiano. Nessa última for- Uma relação pode ser uma relação se ela se conecta simetrica-
ma, ela é pré-racional em seu agrupamento arbitrário (identificação) mente? Podemos dizer, no caso de conexões instantâneas observa-
de impressões passadas, sensações e memórias. A racional idade in- das em experimentos destinados a demonstrar conexões não-lo-
trínseca da simetria é evidente em outros campos, quando se trata da cais, que essas são relações? Se aceitarmos que são, e acho que te-
simetria do pré-espaço ou quando nos referimos a alguma coisa mos de aceitá-lo, então obviamente um relacionamento de simetria
como sendo atemporal ou não-local ou como tendo uma conexão envolve algo mais que o conceito inanimado de um "elo" ou até
instantânea. A simetria também é um fator-chave em uma série de mesmo de um vácuo ponto-zero. Se há um holomovimento de rela-
condições estudadas pela parapsicologia, tais como a telepatia, a cla- ções simétricas, então todos os pontos zeros no continuum espa-
rividência, a psicocinesia, pré-cognição e percepção extra-sensorial. ço-tempo estarão cheios de relações simétricas e essas relações es-

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tarão em todas as partes no universo inteiro e estarão sendo cone c- em que criam o comportamento interativo das partículas constitu-
tadas instantaneamente o tempo todo. Com isso, a não-localidade intes. Portanto, as relações têm o papel fonnativo e causativo de
será a característica dominante do holomovimento. Essa é uma des- criar aquilo que nós chamamos de "quanta", "partículas", "entida-
crição próxima da unidade sem forma que é típica dos ensinamen- des" - as coisas diferenciais da ordem explicada.
tos místicos de todas as religiões. Se as relações são formativas e causativas, elas devem ter tanto
Uma importante mudança paradigmática - do reducionismo energia quanto estrutura, e tanto movimento quanto arquitetura.
ao holismo - ocorre se nos concentrarmos nas relações e não no Esses atributos são as características de toda quanta, mas chega-
conceito de ser ou existência. Como disse Gregory Bateson, as re- mos a isso por meio das relações. Assim, as relações são aqui con-
lações devem ser a base de todas as definições (Bateson, 1988: 17). sideradas agentes ativos do universo, o que significa que é unica-
No entanto, a identificação de novas partículas exóticas vem sendo mente através das relações que a energia se movimenta e vibra.
o objetivo das ações da fisica durante a maior parte deste século. Mas isso é dizer muito mais do que meramente que "todas as vi-
Levar a cabo um discurso sobre fisica, química, biologia, psicolo- brações têm uma estrutura relaciona!". O poder formativo das rela-
gia ou lingüística com um foco em entidades em vez de em relações ções é evidente nas relações simétricas as quais, segundo nos diz a
é entregar-se à "concretude mal-colocada". Quando isso ocorre, ciência, criaram o universo inteiro. Se as relações são agentes ati-
nossos discursos nessas disciplinas irão construir tacitamente uma vos do universo, elas representam as condições metafisicas onipo-
ordem inversa do mundo onde o fisico e o concreto têm prioridade, tentes e onipresentes do cosmos - metafisicas porque as relações
têm primazia. são anteriores ao fisico, o que é simplesmente o resultado de um
Esse é o modo convencional de expressão na fisica, na quími- equilíbrio de relações.
ca, na biologia e na psicologia onde o foco da interpretação está so- As relações também são arquiteturais no sentido de que forne-
bre a existência e processos fisicos. Essa estratégia interpretativa cem a estrutura de qualquer campo, quanta, partícula ou entidade.
tende a relegar as relações a um papel secundário e, em alguns ca- Em The meaning of cOl1sciouness (Lohrey, 1997) propõe-se que a
sos, a ob1iterá-las completamente. Por exemplo, diz-se que as par- arquitetura cósmica do universo é estruturada por meio de apenas
tículas têm interações, o que implica que as interações não têm par- três relações fundamentais: a simetria, a não-simetria e a assime-
tículas. Nesse sentido concreto, as interações (relações) estão posi- tria. Essas três relações são arquetípicas, isto é, elas fornecem a
cionadas como posteriores, como algum tipo de propriedade que base universal para a ordem e a hierarquia cósmicas. Essas três re-
pertence às partículas - como um produto secundário ou um sub- lações também fornecem a base para todas as transformações e,
produto das partículas. Sabemos que isso não ocorre. As partículas além disso, todas as outras relações também se originam dessas
quânticas elementares são definidas unicamente em termos das re- três básicas. Qualquer hierarquia, em qualquer situação, irá repro-
lações que as transformam. Além disso, as interações de partículas duzir uma ordem transfonnacional que reflete a hierarquia cósmi-
representam as relações sociais de um grupo e, portanto, não são a ca dessas três relações.
propriedade de uma única partícula. O próprio conceito de uma A hierarquia arquetípica dessas três relações é estabelecida
"partícula" como uma entidade fisica ou formal por si mesma é, quando a assimetria (uma relação irreversível) emerge da não-si-
portanto, uma ilusão. Considerar as interações como sociais é metria (uma relação de diferença) e a não-simetria emerge da sime-
transfonnar o significado de "interação", transfonnando-a de uma tria (uma relação de uniformidade pré-racional). Essa ordem de
propriedade passiva das partículas, por elas possuída, em um con- emergência é evidente em todas as hierarquias em todos os cam-
ceito de um agente social ativo e anterior, tendo poder e energia pos. Toda a ordem, desordem e caos, ao lado de todas as hierar-
para criar partículas individuais e também para afetar seu com- quias e todas as relações, em última instância se originam dessas
portamento. É neste sentido ativo que as relações são anteriores às três e elas, por sua vez, emergem de uma relação fundamental e pri-
partículas porque elas criam essas constituintes ao mesmo tempo mária: a simetria.

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o termo "simetria-interrompida" não é utilizado aqui porque ca é, portanto, a emergência de relações não-simétricas de uma
nos concentramos em relações e não em processos fisicos ou enti- base de relações simétricas.
dades. As entidades podem ser interrompidas, as relações não. O O último passo nessa tríade cósmica é o desdobramento de um
conceito de uma simetria interrompida é resultado de uma concretu-
sistema as simétrico de relações a partir de relações não-simétricas.
de mal-colocada que distribui atributos fisicos às relações. Uma re- Isso ocorre quando um número suficiente de relações não-simétri-
lação não pode nunca se romper porque as transformações só criam cas é desdobrado para produzir um processo de feedbaek de refe-
novas relações. Isso é o mesmo que dizer que as relações nunca são rências cruzadas, complexo o bastante para produzir irreversibili-
fisicas embora elas possuam energia poderosa e sutil. A teoria do dade. As três relações básicas com suas propriedades emergentes
big-bang fala sobre energias altíssimas que existiram nos primeiros estabelecem assim uma ordem cósmica fundamental que começa
nanossegundos da origem do universo, e, à medida que o tempo foi com a simetria tendo a primazia, a não simetria o segundo lugar e a
passando, o universo esfriou e a simetria perfeita começou a se rom- assimetria o terceiro lugar.
per. Em relatos como esse, a temperatura surge como a força que cria
o rompimento da simetria. No entanto, os agentes da mudança nes- No entanto, a ordem arquitípica dessas relações não se encai-
se drama não são os processos fisicos, são as relações. Esse é o caso xa, simplesmente e de uma forma reducionista, à hierarquia de dis-
em termos como "calor", "temperatura", "partículas" e "intera- ciplinas acadêmicas que vai das preocupações micro da fisica e da
ções", cada um deles representando um conjunto de relações. química até os objetos macro da biologia e das humanidades. Ao
contrário, essas três relações se transformam holisticamente em
De uma perspectiva holística, os fatores genéricos em todas as configurações circulares, que se realimentam em todos os níveis
transformações são as próprias relações e a energia e a temperatura do universo. Esse é um modelo clássico de complexidade e, em
são subprodutos das circunstâncias contextuais da transformação princípio, pode ser ampliado indefinidamente, como ocorre na ma-
simétrica. Isso significa que em contextos diferentes serão gera- temática de sistemas fractais.
das temperaturas diferentes pelas circunstâncias das transforma-
ções simétricas. Por exemplo, o calor produzido no big-bang não O que é significativo sobre essa hierarquia cósmica não é tanto
pode ser comparado ao calor gerado pela transformação geométri- sua lógica holística, circular e semelhante a si mesma, e inerente a
ca da rotação. Tais mudanças na geometria também serão menores seus sistemas que se expandem eternamente, mas sim toda a sua
que a temperatura produzida pelas transformações emocionais de coesão arquitetural universal produzida pelas relações, e especial-
declarar nossos medos. Em cada uma dessas circunstâncias, o big- mente o poder formativo do relacionamento orioginal: a simetria.
bang, a geometria e as emoções, o calor é produzido, mas não como Portanto, podemos dizer que o universo inteiro - todos os campos,
um agente causal da transformação. O agente causal é sempre as quanta, partículas ou entidades - têm uma arquitetura relacional
próprias relações. que é modelada nessa tríade cósmica de assimetria, não-simetria e
simetria e essas relações, por sua vez, emergiram do estado trans-
Como aqui nosso foco é nas relações, substituímos o termo "si-
cendente (o holomovimento) da simetria universal.
metria interrompida" por "não-simetria" sem modificar o sentido.
Portanto, embora troquemos esses termos, as transformações si-
métricas designadas pela terminologia distinta permanecem e as- 10. Significado e consciência
sim a não-simetria irá sempre surgir da simetria, não importa o
contexto ou a circunstância. Isso é o que ocorre seja no big-bang, Em The meaning of eonsciousness (Lohrey, 1997) foi sugerido
ou no ato de perceber um objeto, ou na lógica, ou em nossa vida que o significado ocupa a mesma localização que a consciência.
emocional, ou nos processos que geram o discurso - ou, aliás, em Seu relacionamento é um relacionamento de simetria perfeita, no
qualquer outro lugar. O significado de uma transformação simétri- qual não surge qualquer distinção (não-simetrias): c=m e m=c.
Portanto, podemos falar da consciência em termos do significado

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sem prejudicar o sentido e podemos sempre nos referir ao signifi- gar e a seguir tentar vivenciá-la através do terceiro lugar, isto é,
cado como consciência. Essa simetria nos leva a concluir que todos através de métodos explícitos. Isso é uma abordagem racional e
os tipos de significado representam um tipo de consciência e que empírica. Ao contrário, o método precisa envolver auto-reflexão,
cada qualidade da consciência é também do significado. O signifi- um processo que combina um discurso auto-referenciado com sig-
cado implícito, portanto, irá representar a estrutura do inconscien- nificado inefável. Esse é um grupo de processos que cria ressonân-
te, enquanto o significado explícito fornece a estrutura para a aten- cia e harmonia entre a primazia e o terceiro lugar. Essa é uma abor-
ção e a percepção consciente. Essa simetria da consciência e do dagem isomórfica ou pós-racional.
significado sempre foi implícita em toda a literatura de uma grande Uma diferença-chave para ajudar-nos a entender como a cons-
variedade de disciplinas por milhares de anos. ciência se relaciona com uma Teoria do Tudo é a compreensão de
Significado e consciência entram em nossa descrição das ca- que a estrutura e a organização da percepção consciente não são a
racterísticas de uma Teoria do Tudo porque têm a mesma arquitetu- mesma coisa. Como a consciência está estruturada por três relações,
ra relacional que o resto do universo, isto é, o significado e a cons- assim também a percepção consciente pode ser organizada de três
ciência são estruturados pelas relações de simetria, não-simetria e maneiras diferentes (Lohrey, 1997). Em suma, esses três paradigmas
assimetria. Eles também exibem a mesma hierarquia que o resto do são: um simetrizado, um não-simetrizado e um isomórfico. De um
universo como foi retratado pelas ordens emergentes de Bohm: as modo geral, uma percepção consciente simetrizada é pré-racional
ordens implícitas e explícitas. Por exemplo, a ordem implícita pri- e inconsciente de suas raízes inconscientes e está organizada por
mária da subjetividade é o significado implícito, pré e não-racional meio de super-reações e emoções desequilibradas, faltando-lhe va-
de vários estados inconscientes. Esses estados estão sempre domi- lores diferenciais apropriados. Uma percepção consciente orientada
nados pela relação simétrica e são primários em todas as transfor- não-simetricamente é racional e vai para o outro extremo ao negar
mações de subjetividade. A ordem explícita secundária da subjeti- sua própria base simétrica através da supervalorização de não-sime-
vidade é representada por todos os significados explícitos da per- trias, relações que são normalmente chamadas de diferenças. Essa
cepção consciente. Esse tipo de significado é estruturado pelas consciência é demasiado racional e friamente intelectual. Finalmen-
relações não-simétricas. Mais que isso, a percepção consciente é te, a percepção consciente pode ser organizada isomorficamente.
formada por meio da própria emergência de sistemas de relações Esse tipo de consciência é pós-racional. Ela aceita as implicações
não-simétricas. que fazem parte de sua base simétrica e tende a encontrar uma res-
sonância com um universo inter-relacionado, através de um dis-
Portanto, a menor unidade na percepção consciente é sempre
curso que cria distinções em uma unidade mais ampla.
um sistema, isto é, um grupo de relações assimétricas. (Relações
não-simétricas só são concebíveis - ou seja, só existem - no con- Cada um desses três paradigmas da consciência produz seu
texto de um grupo mais amplo de relações assimétricas que cons- próprio discurso que reflete e reforça as orientações básicas do pa-
troem a percepção consciente.) Devido à hierarquia estrutural da radigma. Por exemplo, uma consciência simetrizada produzirá ge-
subjetividade (simetria, não-simetria, assimetria) a relação de si- neralizações exageradas, estereótipos e discursos que fazem dife-
metria será algo assim como um mistério para a percepção cons- renciações do tipo preto e branco. Uma consciência não-simetrica-
ciente,já que sempre é anterior a ela. Em outras palavras, a percep- mente organizada criará, reproduzirá e será reforçada por discur-
ção consciente está em terceiro lugar na ordem desse grupo arque- sos racionais/empíricos, enquanto uma consciência isomórfica cri-
típico enquanto a simetria, que é uma relação oculta e inconsciente, ará, reproduzirá e será reforçada por discursos integradores que
está sempre em primeiro lugar e o terceiro nunca pode ser uma pri- produzem harmonia entre as diferenças.
mazia. A inferência dessa hierarquia arquetípica é que a simetria O papel da consciência e do discurso com relação a uma Teoria
não pode ser vivenciada por meios simbólicos ou diferenciais. Tal
do Tudo é que eles são os principais sistemas de feedbaek em uma
expectativa seria o equivalente a colocar a simetria em terceiro lu-

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Teoria do Tudo. Esses sistemas circulares de auto-refletividade po- significado e consciência. Dessa forma, o universo é transformado,
dem ser ampliados e aprimorados por um discurso que reitera sua deixando de ser uma máquina cega e sem objetivo e passando a ser
própria natureza reflexiva. Ao contrário, quando o discurso traba- um mundo animado, onde a consciência funciona como a força for-
lha contra sua própria refletividade, negando seu próprio papel me- mativa na mecânica da fisica, nos campos e nos quanta. Nesse sen-
diador ou criando uma sensação de separação e objetividade, a au- tido, a consciência fornece o impulso energético para a vida em to-
to-refletividade é reduzida. Mas quando o discurso é isomórfico e dos os organismos vivos e é, ela própria, o significado de nosso ob-
sua refletividade inerente está em ressonância com outros proces- jetivo neste mundo. Assim, vivemos nossas vidas em um oceano
sos unificadores, essa harmonia pode, às vezes, adaptar-se à sime- de significados que é cósmico, individual e discursivo. O fato de
tria subjacente da natureza. Quando essa ressonância harmônica é que alguns entre nós achamos que falta sentido à vida - que ela é
criada ela é vivenciada como beleza, admiração ou "assombro ex- sem sentido e desconexa - pode ser explicado como função de um
tasiado". Quando isso ocorre com um cientista tão dedicado como paradigma de consciência simetrizado ou não-simétrico.
Einstein, é como um sentimento religioso que Se todas as relações contêm significado e consciência, então, a
toma a forma de um assombro extasiado diante da chamada "informação", evidente através de todo o universo, das
harmonia da lei natural, que revela uma inteligência partículas às pessoas, não é aquilo que parece. Informação é um
de tal superioridade que, comparado a ela, todo o pen- termo tecnológico envolvendo códigos mecanicísticos e inanima-
samento sistemático e a atuação dos seres humanos dos. "Informação" é um termo que se origina de uma concretude
são apenas um reflexo totalmente insignificante. Esse mal-colocada. Sob todas e quaisquer circunstâncias a informação
sentimento é o princípio orientador de sua vida e de não é possível a não ser que ela transmita um significado. A infor-
sua obra, na medida em que ele consegue manter-se mação representa um formalismo abstrato que cerceia a base de
livre das algemas do desejo egoísta. Não há dúvida al- seu próprio significado, que é o significado. Colocar de lado o ter-
guma de que é (um sentimento) muito próximo da- mo "informação" e substituí-Io por significado, no contexto da pre-
quele que domina os gênios religiosos de todas as sente discussão, é desistir de parte do delírio gerado pela concretu-
épocas (Einstein, 1935: 28). de mal-colocada, e começar a ver o mundo como animado, como
A questão da abrangência da consciência também é importante possuindo consciência.
para uma Teoria do Tudo holística. A consciência não é apenas um É o papel arquitetural e estrutural do significado e da consciên-
atributo pessoal chamado de subjetividade individual, mas tem cia, e sua onipresença em todos os níveis do universo, que fornece
também uma dimensão holística e universal. O presente autor fidelidade à proposta do "primado da consciência". Em contraste,
(Lohrey, 1997) propôs que existem três níveis gerais ou "camadas" o fisico, o material ou o substancial não podem ordenar nada e não
da consciência. Estes são: a) o contexto holomovimento da cons- poderiam jamais fornecer a estrutura para uma hierarquia, simples-
ciência cósmica do qual o mundo fisico, explícito, emerge e no mente porque "ordem" e "hierarquia" são unicamente relacionais.
qual desaparece; b) o contexto da subjetividade individual, que é Como tais, são estados de significado e consciência. E mais ainda,
uma reflexão estrutural do significado cósmico; e c) o contexto do o conceito de "ordem" não é algum tipo de estado transcendental
discurso, a manifestação da consciência cultural, que emerge do acima do significado e da consciência, como alguns matemáticos
contexto anterior de subjetividade. Esses três contextos têm a mes- platônicos gostariam de acreditar. A ordem é criada pela própria
ma arquitetura relacional, a mesma ordem e hierarquia, e também natureza a priori hierárquica, das relações cardinais de simetria,
operam com base nas transformações simétricas. não-simetria e assimetria, e pela maneira pela qual essas relações
Como cada um dos três níveis da consciência têm a mesma ar- se manifestam nas três camadas da consciência: consciência cós-
quitetura relacional, infere-se que todas as relações são relações de mica, subjetividade e discurso.

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Finalmente, se a consciência tem como base a simetria, então a
cisariam levar em conta a natureza recursiva do sistema total, seus
simetria, ocupando a posição de primazia sobre todas as coisas,
vários níveis de consciência, suas várias habilidades reflexivas em
será uma consciência que é transcendente. Em outras palavras, a si-
metria terá os potenciais de tudo saber, de ser onisciente. cada um dos níveis e, muito importante, os tipos de processos que
produzem equilíbrio, ordem e integração, e o tipo de relações que
criam desequilíbrio, desordem e entropia.
11. Uma ciência da simetria
Poderíamos levantar a hipótese de que essas duas variáveis ge-
rais (que em outros contextos podem ter sido chamadas de bem e
Essas cinco características gerais da simetria - onipresente, mal) percorrem todos os três níveis, mas se manifestam de forma
onipotente, relacional, energética e onisciente - representam as ca- diferente em cada um deles. Por exemplo, a ordem nos processos
racterísticas genéricas do holomovimento de Bohm. Representam mórficos e a desordem da entropia são, normalmente relacionados
também o esboço básico para uma teoria holística de tudo. A fim de com a organização e desorganização da matéria, mas essas condi-
refutar essa teoria, é apenas necessário encontrar evidência de um ções, consideradas do ponto de vista das relações, deveriam tam-
único exemplo, em que a não-simetria - a diferença - esteja sozi-
bém funcionar na subjetividade. Talvez com a ajuda de mais pes-
nha e não seja precedida por um contexto de simetria. Tal desco-
quisas possamos descobrir que a estrutura relacional subjacente a
berta tomaria imediatamente nula e sem valor a hipótese de que a
essas duas variáveis se manifesta na subjetividade como amor e
simetria é o estado básico do universo, e é evidente em todos os
medo - o amor sendo um equilíbrio de relações ordenado, integra-
pontos no espaço/tempo.
do e isomórfico, enquanto o medo dissipa energia no processo de
Estudantes de teologia reconheceram que essas cinco caracte- supervalorizar a diferença, conduzindo à desordem e à desorgani-
rísticas também representam a maior parte dos atributos conven- zação. Uma vez mais, no nível do discurso, essas duas variáveis ge-
cionais de Deus. Que Deus possa ser discutido em termos de signi- rais devem também encontrar alguma forma de expressão. Senti-
ficado, consciência e das relações de simetria, não-simetria e assi- mo-nos tentados a propor que elas podem se manifestar, por um
metria, seria do interesse tanto dos estudantes de teologia como dos lado, como discursos que são abertos, interrogativos e altamente
de ciência. Que Deus possa ser considerado tão simétrico como o auto-reflexivos, e, por outro, como discursos fechados, cheios de
holomovimento de Bohm pode talvez causar mal-estar em alguns preconceitos, fixos, tradicionais e não-reflexivos.
teólogos, mas não deveria surpreender ninguém que tenha um leve
Entretanto, a ciência da simetria poderia ela mesma atuar como
interesse na história inter-relacionada da ciência e da religião.
um processo mórfico muito importante, integrando todo aquele co-
A ciência é e deve ser uma atividade inspirada pela religião e,
nhecimento passado que parece tão díspar e tão separado, pois o
ao inverso, a devoção religiosa precisa do apoio animador dos dis- foco na simetria é um meio de explicar a unidade fundamental de to-
cursos científicos contemporâneos. A aparente separação desses das as coisas. Como a simetria é o primeiro relacionamento na com-
dois domínios, da ciência e da religião, não precisa persistir, se der-
plexa hierarquia do significado e da consciência, sua elucidação
mos atenção à questão acadêmica geral da interdisciplinaridade, pode ajudar a dissipar a confusão de como um universo assim tão di-
assim como aos princípios universais da unidade. Essencialmente, verso pode ter uma unidade totalizadora suprajacente. Essa é uma
isso significa concentrar-nos na ciência da simetria.
questão tanto mística quanto científica. É uma pergunta que todos os
A presente proposta de uma Teoria do Tudo baseada na sime- devotos espirituais têm de enfrentar quando viajam através da "noite
tria é apenas um esboço de futuras possibilidades. O que precisa- escura da alma". Para encontrar Deus dentro de nós mesmos, e em
mos é de uma ciência da simetria que possa produzir aquilo que todos os outros lugares no universo, é necessário uma circularidade
Bohrn chamou de holol1omia, isto é, "a lei do todo". Essas leis pre- estrutural da consciência que só é possível devido ao caráter recursi
Vo dessa ordem hierárquica baseada na simetria.

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99
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Introdução
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o paralelismo psicofisico é uma filosofia antiga. Na filosofia
WADE, David (1993). Crystal and dragon. Rochester: Destiny Books. de dualismo interacional, a mente e o corpo (o cérebro) são consi-
derados corpos separados, feitos de substâncias totalmente dife-
rentes. Mas surge então a crítica - como é que esses dois corpos in-
teragem sem um intermediário? Uma solução seria o paralelismo
psicofisico - a mente e o cérebro são entidades paralelas: corres-
pondendo a cada estado cerebral existe um estado mental. No en-
tanto, isso também tem um dualismo sutil- o que é que mantém o
paralelismo?
Uma nova interpretação da mecânica quântica, baseada na
consciência (Goswami, 1989; 1990; 1993) tem a resposta para a úl-
tima pergunta: a consciência - considerada a base do ser (e não um

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100
epifenômeno do cérebro) - media as ações paralelas da mente e do
cérebro. onda de possibilidade do objeto como em uma simples hierarquia;
Para entender como a consciência pode atuar como mediadora ao contrário, o resultado da mensuração quântica descontínua (o
colapso) é a nossa experiência dividida entre sujeito-objeto em
da interação mente-cérebro e como mantenedora do paralelismo
uma observação. O sujeito supostamente colapsador e o objeto co-
psicofisico, precisamos da mecânica quântica. Atualmente está fir- lapsado aparecem de forma co-dependente.
memente estabelecido que os objetos materiais obedecem à mecâ-
nica quântica. Isso significa que os objetos materiais são descritos, Agora podemos facilmente formular um novo paralelismo psi-
em termos matemáticos, como ondas de possibilidades; para cada cofisico se postularmos que, como o cérebro fisico, a mente tam-
bém consiste de ondas de possibilidades, embora de uma substân-
possibilidade pode ser calculada uma probabilidade, e nada mais.
Com isso, a previsibilidade da fisica quântica é limitada a um gran- cia não-material diferente. Devido a sua experiência, a consciência
de número de objetos, eventos ou ambos. Para eventos individuais, não só colapsa as ondas de possibilidade material no cérebro, mas
a redução da onda de possibilidades (também chamada de colapso) também as ondas de possibilidade mental na mente "não-local-
mente correlacionada".
para uma única passibilidade não pode ser prevista. A redução, ou
colapso, é descontínua e não-local. Não podemos oferecer um me- Elaboremos, então, o conceito puramente quântico de correla-
canismo para o colapso, e assim, nenhuma máquina material pode ção não-local. Na fisica quântica, dois objetos podem tornar-se tão
precipitar um colapso. correlatos em fase que quando um deles colapsa por meio de uma
Na interpretação da mecânica quântica baseada na consciên- observação consciente, o outro fica bloqueado para ser colapsado
cia, reconhece-se que a consciência é tanto necessária quanto su- em um estado fase-relacionado sempre que for observado. No ex-
ficiente para realizar a tarefa de colapsar a onda de probabilidade. perimento do fisico Alain Aspect (Aspect et ai., 1982) um átomo
A suficiência é fácil de perceber: sempre que observamos algo, ve- de cálcio decai emitindo dois destes fótons correlacionados em
mos realidade, não possibilidade. Conseqüentemente, a observa- fase; um fóton viaja em uma direção, o outro na direção oposta. Os
ção consciente deve ser suficiente para colapsar a possibilidade em fótons têm um atributo bivalorado chamado de polarização. Cada
realidade. Que a consciência também é necessária, pode ser con- um dos fótons é uma superposição de duas possíveis polarizações.
cluído, reconhecendo-se, com von Neumann (1955), que, se envi- Mas sempre que observamos um deles colapsando um estado defi-
armos uma série de máquinas materiais (que também obedecem ao nido de polarização para si, sempre encontramos o outro fóton em
cálculo de probabilidade quântica) para executarem a tarefa de rea- um estado de polarização idêntico quando o observamos.
lizar o colapso, cada uma delas aumenta o escopo de possibilidades No experimento de Jacobo Grinberg-Zylberbaum (Grinberg-
da mensuração prévia, mas não pode reduzi-lo à realidade. Precisa- Zylberbaum et ai., 1994), observou-se que duas pessoas se tor-
mos de algo não-material que transcenda a mecânica quântica. nam correlacionadas através da não-localidade quântica quando
Esse algo não-material também deve estar relacionado com o co- meditam juntas durante vinte minutos e mantêm a intenção de co-
nhecimento porque, como reconheceu Heisenberg, o colapso cer- municação direta durante a meditação e pelo resto da duração do
tamente aumenta o nosso conhecimento do sistema. Obviamente, experimento. Os sujeitos são separados depois de vinte minutos,
então, o agente que provoca o colapso é necessariamente a cons- colocados em câmaras isoladas eletromagneticamente, e seus cé-
ciência, nossa facilidade de conhecer. Uma análise detalhada de- rebros são conectados a máquinas individuais de eletroencefalo-
monstra (Goswami, 1993) que a consciência deve ser a base do ser grama (EEG). Quando se mostra a um dos sujeitos uma série de
no qual a matéria existe como possibilidade e que a consciência flashes luminosos, a atividade elétrica de seu cérebro é registrada
deve ser unitiva (isto é, nossa individualidade é um epifenômeno pela máquina EEG como um potencial evocado. A interação dos
ilusório). Mais importante, o colapso é emaranhado hierarquica- dois sujeitos é demonstrada pelo aparecimento de um potencial
mente - não podemos dizer que o sujeit%bservador colapsa a transferido de energia e fase similares ao potencial evocado no

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cérebro do segundo sujeito conforme registrado pelo EEG, em- nome de campos morfogenéticos - campos relacionados com o de-
bora esse sujeito não tenha visto nenhum flash luminoso, e nem
senvolvimento das formas características de uma espécie, a partir
sequer esteja ciente de queflashes luminosos estão sendo mostra- do embrião unicelular. A questão é a seguinte: os genes são instru-
dos ao primeiro sujeito. ções para fazer proteínas. Mas o que instrui as células a "ligarem"
No experimento de Grinberg-Zylberbaum, é claro que a cons- certos genes em vez de outros, para que as células possam se dife-
ciência estabelece e mantém a correlação (via intenção). É claro, renciar, o que é a chave para a morfogênese. Em outras palavras,
também que a consciência escolhe estados de realidade pratica- precisamos de um programa para a elaboração das formas - os
mente idênticos nos dois cérebros interconectados, a partir das campos morfogenéticos.
possibilidades avaliáveis em ambos os cérebros - ou seja, a cons- O biólogo Rupert Sheldrake (1981) reconheceu corretamen-
ciência é o mediador para a interação dos dois cérebros. te que os campos morfogenéticos devem ser não-locais e fora do
Da mesma forma, a consciência atua como mediador de nossa mundo fisico da matéria. Mas ele não os chamou de corpo vital de-
mente e cérebro. Para cada estado mental, a consciência colapsa um vido a controvertida história anterior desse conceito.
estado do cérebro que pode ser chamado um mapa do estado mental. No entanto, agora que a questão do dualismo já foi resolvida e
Para que serve a mente? Para pensar, é claro, mas para que serve que já se descobriu um meio de formular o paralelismo psicofisico,
pensar? Pensar dá sentido ao mundo a nossa volta (Goswami, 1998). a história pode ser revertida. Ampliemos, então, a definição de psi-
O cérebro é semelhante ao hardware de um computador, ele proces- que, dizendo que ela consiste de três corpos diferentes: o corpo vi-
sa símbolos. A mente dá sentido a esses símbolos. O mapa da mente tal, que dá forma aos seres vivos; o corpo mental que dá sentido aos
no cérebro que a consciência faz ao gerar o colapso da mente e do cé- mundos vital e fisico; e o corpo intelectual que dá o contexto do
rebro simultaneamente, pode ser compreendido como um software movimento do corpo fisico, do vital e do mental. Finalmente, reco-
de computador. A consciência, claro, é o programador. nheçamos que tanto o corpo fisico quanto a psique estão mergu-
lhados na consciência que transcende a todos eles. A consciência
Mas a psique é mais do que a mente, do que o pensar. O psicó-
logo Carl Jung (1971) explorou a idéia de que temos quatro facul- transcendente é chamada de corpo da iluminação (anandamaya
kosha) em Vedanta.
dades: perceber, pensar, sentir e intuir. Dessas quatro, o perceber
claramente envolve o mundo fisico e o pensar, o mental. A que cor- Agora, estamos prontos para fazer ciência na consciência. Tra-
respondem os outros dois? tarei primeiramente de biologia, a seguir de psicologia, e, final-
mente, de medicina.
No Vedanta do Oriente há referências não só aos corpos fisico
e mental da consciência, mas também a dois outros corpos: um cor-
po de prana (pranamaya kosha) e um corpo de vijnana - contexto 1. A nova biologia
do conhecimento (vijnanamaya kosha). A palavra prana em sâns-
crito pode ser traduzida como energia vital e o corpo prânico como A nova biologia começa quando reconhecemos que a maneira
corpo vital. Esse corpo vital está relacionado com sentimentos e de distinguir entre a vida e a não-vida é através da mensuração
emoções. O vijnanamaya kosha, ou corpo de contextos, relacio- quântica auto-referencial. Como enfatizou o biólogo Humberto
na-se com a criatividade (que em seu nível mais fundamental é a Maturana (1980) é a cognição sujeito-objeto - a capacidade de dis-
descoberta de novos contextos de pensamentos) e o intelecto. tinguir entre si mesmo e o seu ambiente - que é especificamente di-
Não necessariamente devido à descoberta da biologia molecu- ferente nos seres vivos em comparação aos objetos não vivos.
lar nos anos cinqüenta, o corpo vital foi banido da biologia oficial Conseqüentemente, temos de reconhecer que até mesmo uma
(como dualismo desnecessário), mas retomou recentemente sob o única célula é auto-referente porque ela tem a capacidade para a

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mensuração quântica hierárquica emaranhada, dando lugar a sua freqüências, como na recepção de rádio [analogia de Sheldrake
habilidade de experiência dividida entre sujeito-objeto. No proces- (1981)]. Esta geração criativa de formas conduz a evoluções mais
so da mensuração quântica, a consciência se identifica com a célula e mais complexas para as idéias vitais do ser vivo, tais como repro-
viva, e é essa identidade consciente que a faz viva em oposição à dução, manutenção (arte da qual é a eliminação dos dejetos), auto-
não-viva. Então a consciência colapsa ondas de possibilidades em conhecimento, auto-expressão, intuição e integração.
uma célula viva escolhendo entre superposições de possibilidades
distinguíveis macroscopicamente a única realidade se manifestan-
do em uma mensuração quântica específica. A oportunidade de 2. A nova biologia e a compreensão dos chacras
uma escolha criativa, selecionando uma nova possibilidade emer-
gindo de contingências tais como a mutação, agora se apresenta. No corpo humano, empiricamente, foram identificadas sete
Essa é a chave para a compreensão da evolução da vida. áreas mais importantes e muitas outras menos importantes onde
ocorre a elaboração dos mapas das idéias do corpo vital, em formas
Como está sendo agora gradualmente reconhecido, o neodarwi-
no corpo fisico. No Oriente, essas áreas são chamadas de chacras.
nismo é uma teoria de adaptação e homeostasia; não é uma boa teo-
Os sete chacras principais são:
ria da evolução. Uma teoria muito melhor é a do equilíbrio pontuado
(Eldredge & Gould, 1972). Aqui complementamos a lenta evolução 1) na base da coluna vertebral (chamado de chacra raiz) rela-
darwiniana com a rápida evolução "quântica", pois os marcos de cionado com os órgãos de eliminação;
pontuação complementam a prosa de uma frase que, de outro modo, 2) no órgão sexual (chamado de chacra sexual) relacionado
seria contínua. No entanto, a teoria do equilíbrio pontuado não teve com os órgãos de reprodução;
grande aceitação, porque seus autores não foram capazes de de-
monstrar um mecanismo responsável pela evolução rápida. 3) no umbigo (chacra umbilical) relacionado com os órgãos de
manutenção (por exemplo, digestão);
A abordagem da criatividade quântica nos dá uma explicação
4) à direita do coração (chacra do coração) relacionado com os
para o equilíbrio pontuado. Uma das maiores dificuldade para a
órgãos de circulação e o sistema imunológico correspondendo
explicação darwiniana das grandes mudanças evolucionárias é a
à idéia do self;
questão de como as muitas variações ou mutações necessárias po-
dem se acumular sem serem selecionadas outra vez Uá que mu- 5) na garganta (chacra da garganta) relacionado com os órgãos
tações únicas normalmente não são vantajosas). Na abordagem de auto-expressão;
quântica, simplesmente aceitamos que as acumulações necessárias 6) na junção das sobrancelhas (o terceiro olho) relacionado
ocorrem todas em forma de possibilidade. Quando a consciência,
com os órgãos da intuição;
através do processamento inconsciente (ou seja, sem colapso), en-
contra a gestalt total que conduz à nova espécie, ela colapsa todas 7) no topo da cabeça (o chacra da coroa) relacionado com a
as mudanças necessárias possíveis em realidade, de um só golpe idéia de integração.
(Goswami, 1997a). Descobriu-se que esses chacras desempenham um papel im-
No entanto, há algo mais sutil aqui, e é por isso que o corpo vi- portante na nova psicologia das emoções e também em nosso en-
tendimento da cura.
tal e seus campos morfogenéticos são essenciais. A probabilidade
de reconhecer a gestalt de possibilidades para uma mudança criati-
va é muito pequena. Felizmente, a consciência tem uma idéia vital
3. A Psicologia das Emoções
preexistente (o campo morfogenético) para o qual está tentando
encontrar forma no fisico. Isso faz com que o reconhecimento seja
mais fácil (Goswami, 1997b), sendo algo como uma sintonia de Até a pouco tempo, as emoções costumavam ser um mistério.
Gradualmente estamos descobrindo o que está envolvido nas emo-

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ções. Por exemplo, foram descobertas algumas das moléculas rela- mu1taneamente colapsa superposições macroquânticas de possibi-
cionadas às emoções (Pert, 1997). Pesquisas na área de psiconeu- lidades do corpo vital, does) órgão(s) fisico(s), do chacra correlato
roimunologia e em áreas corelatas mostraram que a mente e o cére-
respectivo e do cérebro (que está ligado a todos os órgãos do corpo
bro estão conectados (uma conexão de mão dupla) com os vários
através do sistema nervoso e das moléculas da emoção) e da mente
órgãos do corpo não só através do sistema nervoso, mas também que está correlacionada com o cérebro. A realidade resultante, de
através dessas moléculas da emoção. quatro componentes, é o que vivenciamos como emoção.
No entanto, os modelos materialistas da emoção ignoram a co-
As emoções podem também ser classificadas como negativas
nexão do corpo vital com as emoções e, é claro, com o experiencia-
e positivas dependendo se os efeitos fisiológicos e mentais são po-
dor (consciência). Observe cuidadosamente quando você sentir sitivos ou negativos com respeito a nossa saúde fisica e mental.
uma emoção e procure descobrir como, além de um componente Medo, lascívia, raiva, ciúme e orgulho são exemplos de emoções
mental e de um componente fisico, há um ingrediente óbvio, uma negativas; amor, altruísmo, satisfação, exaltação - emoções asso-
sensação interna; essa sensação interna é nossa percepção direta de ciadas com a experiência máxima da criatividade - são exemplos
um movimento do corpo vital associado com a sua emoção. de emoções positivas.
A sabedoria popular conhece esses movimentos do corpo vital A questão mais importante da psicologia das emoções é como
associados com as emoções desde a Antigüidade. No Ocidente, as-
lidar com emoções negativas prejudiciais (Krishnamurthy, 1998).
sociamos o dia de São Valentin com romance, mas é simbolizado No Ocidente, orientado para a ação, o condicionamento cultural in-
pelo coração. Quem não sentiu pequenos murmúrios à direita do duz a suprimir as emoções. Isso toma os ocidentais eficientes em
coração físico quando apaixonado? Mais sangue que flui? Pou- ações orientadas para o exterior, mas seu mundo interno sofre de
co provável. É o movimento do corpo vital que os habitantes das solidão e isolamento. No Oriente, o condicionamento cultural pre-
Índias Orientais chamam de prana, os chineses de chi, e os japone- dominante induz à expressão de emoções, o que toma os orientais
ses de ki, em conjunção com o chacra do coração que está associa- ineficientes. O caminho do ioga, que transcende as duas culturas e
do com a expansão dos limites do self. que ajudaria a nem suprimir nem expressar as emoções, seria a so-
Da mesma forma, a sensação de "borboletas no estômago" que lução. No entanto, ele exige muita sutileza.
sentimos às vezes são movimentos do prana ou energia vital, em O que é o ioga? A palavra ioga significa união. Temos uma
conjunção com o chacra umbilical. Uma secura na garganta quan- identidade em dois níveis: um nível universal que chamo de self
do falamos pela primeira vez depois de algum tempo calados é re- quântico e um nível individual que é normalmente chamado de
sultado da falta de fluxo da energia vital em conjunção com o cha- ego. A ioga tem como objetivo a união desses dois níveis.
cra da garganta, e sentir calor no terceiro olho (o local entre as so-
brancelhas) quando nos concentramos em um esforço de compre- Como surge a identidade em dois níveis? A mensuração quân-
ensão intelectual é uma experiência de energia vital conectada com tica de um estímulo produz a divisão entre sujeito-objeto de nossa
o chacra do terceiro olho. experiência de percepção. Na percepção primária produzida por
um estímulo, a experiência do selfé universal- essa é a experiência
Quando fazemos uma correlação entre nossas emoções e o quântica do self. Mas as experiências geram memórias. Um estí-
movimento de energia vital em conjunção com um chacra adequa- mulo aprendido (vivenciado anteriormente) normalmente é viven-
do, os elementos de uma psicologia das emoções começam a tomar ciado outra vez após refletir no espelho de todas as memórias pas-
forma facilmente. Os psicoterapeutas definem a emoção de uma sadas do estímulo e das respostas. Esse reflexo no espelho da me-
maneira geral como um sentimento intenso que produz mudanças mória produz uma tendência no conjunto de probabilidades das
fisiológicas e mentais. Podemos agora identificar esse sentimento respostas possíveis (Mitchell e Goswami, 1992). Como resultado,
intenso como um movimento da energia vital. A consciência si- a consciência não é completamente livre para escolher entre todas

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das até mesmo sem estímulo apropriado e freqüentemente são re-
as possibilidades quânticas disponíveis, mas se toma condicionada sultado de fantasias. São essas emoções ilusórias que conduzem a
para responder a favor de comportamentos passados. Esse padrão uma situação desequilibrada em relação aos movimentos da ener-
de hábitos condicionados, ao lado da história pessoal contida em
gia vital e fisiológica.
toda a memória acumulada, é nosso ego.
Fisiologicamente falando, as emoções ilusórias transformam
Portanto, no nível do ego de nosso ser, falta-nos o livre-arbítrio situações ordinárias em situações emergenciais e ativam o sistema
para escolher uma emoção positiva quando emoções negativas nos nervoso simpático. Essa é a resposta normal do estresse. A medita-
dominam. O objetivo do ioga - e a prática específica, nesse caso, é ção mental ajuda a estabelecer a resposta de relaxamento e uma
a meditação - é recuperar o livre-arbítrio para escolher o positivo ação mais equilibrada entre os sistemas nervosos parassimpático
em vez do negativo. Mas a meditação aqui consiste não somente na e simpático.
meditação comum sobre padrões mentais do pensamento, mas tam-
bém meditação sobre padrões de energia vital. Da mesma forma, a meditação baseada nas energias vitais atra-
vés do pranayama (e outras técnicas tais como os movimentos cor-
O olhar meditativo sobre nossoS padrões de pensamento toma
porais do Tai Chi e Aikido) conduz a uma ação equilibrada dos mo-
mais lentos os processos de nossa percepção secundária (os refle- vimentos de energia vital.
xos no espelho da memória passada), bastante envolvidos com o
É claro, estamos apenas arranhando a superfície aqui. Mui-
pensamento condicionado, para criar uma brecha entre o pensa-
mento e a ação. É esse espaço que nos permite dizer "não" ao com- ta pesquisa será necessária antes que tenhamos um entendimento
profundo da psicologia das emoções.
portamento negativo condicionado a que normalmente nos levam
as emoções negativas. Ainda mais sutil é a prática da meditação so-
bre nossos padrões de energia vital. 4. A integração das medicinas oriental e ocidental
Um meio muito eficaz, desenvolvido sobretudo na Índia, é
chamado de pranayama, a observação da inalação e exalação da A medicina ocidental é uma medicina materialista - baseia-se
respiração. A respiração está relacionada com todos os órgãos do no paradigma de que a vida é um fenômeno da biologia molecular e
corpo e a observação da respiração faz com que respiremos mais que tudo que não funciona nos sistemas vivos só pode ser consertado
lentamente, e ao fazê-Io toma mais lentos os padrões de percepção com algo fisico ou químico. A medicina oriental opera com base em
secundária da energia vital, associados com os chacras. Isso nos per- um sistema de crenças diferente. Aqui, a ênfase é sobre o corpo vital.
mite dizer "não" ao movimento condicionado da energia vital nos Acredita-se que a doença é causada por desequilíbrios do corpo vital
chacras "inferiores" (as energias dos instintos, associadas com os que levam a um mapeamento incorreto no fisico. Alternativamente,
chacras raiz, sexual e umbilical) correspondentes à emoção negati- se algo sai errado nos mapas fisicos, novos mapas podem ser feitos a
va, e gera espaço para o salto quântico criativo em direção aos movi- partir das idéias do corpo vital que ainda estão disponíveis.
mentos da energia vital que correspondem às emoções positivas, en- Em um certo sentido, podemos dizer que a medicina ocidental
volvendo os chacras superiores, e começando com o do coração. Na é adequada para os aspectos mais grosseiros da doença e a medici-
literatura oriental, esse movimento criativo de energia vital é chama- na oriental para os aspectos mais sutis. Quando as bactérias nos
do de ascensão da kundalini shakti (a palavra kundalini em sânscri- atacam ou sofremos um ataque cardíaco, os antibióticos e uma ope-
to quer dizer enroscada, e shakti significa energia vital). ração, respectivamente, podem ser o melhor recurso. Mas quando
Há ainda mais sutileza aqui. Nossos instintos não são necessa- somos atacados por uma doença crônica, a medicina ocidental é
riamente prejudiciais. Foram elaborados, pela evolução, para que ineficaz e pode até ser perigosa devido aos efeitos colaterais da
possamos agir de maneira adequada em certas situações ambien- maioria dos remédios. Nesses casos, algo sutil é mais adequado, a
medicina oriental.
tais. O que ocorreu com a civilização é que as emoções são evoca-

111
110
Como funciona a medicina oriental? Tanto na medicina india- - (1993). The self-aware universe: How consciousness creates the mate-
na (ayurveda) como na chinesa, ervas empiricamente testadas são rial world. Nova Iorque: Putnarnrrarcher.
utilizadas e quando ingeri das pelo paciente podem restaurar o
- (1997a). Consciousness and bio1ogica1 order: toward a quantum the-
equilíbrio da energia vital necessário. Incidentalmente, a homeo-
ory oflife and its evolution. /ntegrated Physiological and Behavioral
patia levou essa abordagem a um nível ainda mais sutil, ao notar Science, 32, p. 75-89.
que algumas ervas podem ser bastante venenosas em níveis físi-
cos, mas são úteis para restaurar o equilíbrio da energia vital. - (1997b). A Quantum exp1anation ofShe1drake's morphic resonance.
Assim, a homeopatia elimina substancialmente a parte física das /n: DURR, H.-P. & GOTTWALD, F.T. (org.). Rupert Sheldrake in der
ervas (por diluição progressiva) e usa unicamente seu aspecto vital Diskussion Bem: Sherz.
como remédio.
- (1998) Quantum creativity. Cresskill, N.J.: Hampton Press.
A medicina chinesa também usa a acupuntura. Pontos no cor-
- (s.d.) Quantum physics, consciousness and a new science ofhea1ing.
po, empiricamente descobertos, quando estimulados por agulhas,
/n: RUBICK, B. (org.). Frontiers ofconsciousness.
induzem a consciência a colapsar as idéias do corpo vital necessá-
rias para a saúde, de modo que novos mapas possam ser elaborados GRINBERG-ZYLBERBAUM, J. et ai. (1994). Einstein-Podo1sky-Ro-
no nível físico. sen paradox in the human brain: the transfered potential. Physics
Essays, 7, p. 422-428.
É claro, portanto, que a medicina ocidental atua com base nos
princípios da física clássica, nos aspectos físicos mais grosseiros JUNG, C.G. (1971). /n the portable Jung. Nova Iorque: Viking
da doença, enquanto a medicina oriental dá ênfase à cura quântica [CAMPBELL, J. (org.)].
- uma frase que o autor e médico Deepak Chopra (1990) tomou fa-
mosa - evocando a consciência e movimentos quânticos do sutil KRISHNAMURTHY, U. (1998). Positive mental health: the approach of
Yoga therapy [s.n.t.].
corpo vital. Assim, na medicina oriental a consciência é importante
e a intenção do paciente desempenha um papel importante. Nesse MATURANA, H. (1980). Bio1ogy ofcognition. /n: MATURANA, H. &
sentido, a medicina oriental é semelhante à medicina mente-corpo VARELA, F. (1980). Autopoiesis and cognition. Dordrecht, Ho1anda:
sobre a qual já escrevi em outro lugar (Goswami). D. Reidel.

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- (1990). Consciousness in quantum physics and the mind-body prob1e-


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112 113
6
o futuro da psiquiatria e da
psicologia: desafios conceituais da
pesquisa clínica da consciência
Stanislav Grof

Transpersonal Psychology, Mill Valley, USA

Resumo

A pesquisa moderna de estados holotrópicos (um grande sub-


grupo especial de estados não-ordinários de consciência) tais como
psicoterapia experiencial, trabalho clínico e de laboratório com
substâncias psicodélicas, antropologia de campo, tanatologia, e
terapia com indivíduos passando por crises psicoespirituais ("emer-
gências espirituais") gerou uma pletora de observações extraordi-
nárias que abalaram algumas das premissas mais fundamentais da
psiquiatria, psicologia e psicoterapia modernas. Algumas dessas
descobertas questionaram seriamente os dogmas filosóficos mais
básicos da ciência ocidental relacionados à interação entre matéria,
vida e consciência. Este trabalho faz um resumo das mais impor-
tantes revisões que terão de ser realizadas em nosso entendimento
da consciência e da psique humana saudável e enferma para aco-
modar esses desafios conceituais.

Introdução

I) Ao contrário do que diz a ciência acadêmica, o software da


psique humana não se limita à biografia pós-natal e ao inconsciente

117
individual freudiano. A psique individual humana inclui duas ou- 6) Muitas experiências em estados não-ordinários da cons-
tras dimensões importantes - o domínio perinatal, intimamente re- ciência contestam seriamente não só as atuais teorias psiquiátricas
lacionada com o trauma do nascimento, e o reino transpessoal, a e psicológicas, como também as premissas filosóficas básicas da
ciência materialista ocidental referente à natureza da realidade e à
fonte de experiências que transcendem o corpo-ego - e é essencial-
mente equivalente a toda a existência. relação entre matéria e consciência. À luz de novas descobertas, a
consciência não é um produto dos processos neurofisiológicos do
2) Os distúrbios emocionais e psicossomáticos de origem psi- cérebro, mas sim um aspecto fundamental da existência que é me-
cogenética não podem ser explicados de forma adequada por even- diada, mas não produzida, pelo cérebro.
tos traumáticos pós-natais; eles têm raízes perinatais e transpesso-
ais significativas. Por esse motivo, a psicoterapia, para ser eficaz,
precisa incluir esses domínios transbiográficos que vão mais além 1. Experiências holotrópicas e seu potencial heurÍstico
da biografia e não pode se restringir ao trabalho com o material da e de cura
vida pós-natal.
A fonte das observações examinadas neste artigo tem sido um
3) Além da manipulação do material biográfico que é usado
estudo sistemático de longo prazo, daquilo que a psiquiatria acadê-
atualmente pelas várias escolas de psicoterapia ocidental, os esta- mica chama de "estados alterados de consciência" ou "estados
dos holotrópicos oferecem mecanismos de cura experiencial pode-
não-ordinários da consciência." Os focos primordiais dessa pes-
rosos que se tomam disponíveis nos níveis perinatais e transpesso-
quisa foram experiências que representam uma fonte útil de dados
ais da psique, tais como revi ver o nascimento biológico e a expe-
sobre a psique humana, e aquelas que têm um potencial de cura,
riência da morte e renas cimento psicoespiritual, experiências de
transformador e evolucionário. Para esse objetivo, o termo "esta-
vidas passadas, seqüências arquetípicas, episódios de unidade cós-
dos não-ordinários da consciência" é demasiado geral; inclui uma
mica e outros mais.
série muito ampla de condições que não são interessantes ou rele-
4) Os estados holotrópicos, sejam espontâneos ou induzidos, vantes para nosso ponto de vista.
mobilizam forças de cura intrínsecas ao organismo. Quando com-
A consciência pode ser profundamente modificada por uma
preendidos e apoiados de forma adequada, eles podem resultar variedade de processos patológicos - por traumas cerebrais, por in-
em curas emocionais e psicossomáticas, transformações positi- toxicações com produtos químicos venenosos, por infecções, ou
vas da personalidade e evolução da consciência. Oferecem possi- por processos degenerativos e circulatórios no cérebro. Tais condi-
bilidades terapêuticas que são radicalmente diferentes e superio- ções podem provocar mudanças mentais profundas que seriam in-
res aos esforços convencionais para entender racionalmente a di- cluídas na ampla categoria de "estados não-ordinários da consciên-
nâmica dos distúrbios emocionais e tratá-Ios por meio de inter- cia". No entanto, eles causam "delírios triviais" ou "psicoses orgâ-
venções verbais psicoterapêuticas que refletem as crenças das vá- nicas", estados associados com desorientação geral, deterioração
rias escolas de psicoterapia. do intelecto e amnésia subseqüente. Essas condições são muito im-
5) A espiritualidade em sua forma genuína é uma dimensão le- portantes do ponto de vista clínico, mas não são de grande interesse
gítima e importante da existência e é incorreto rejeitá-Ia como pro- para os pesquisadores da consciência.
duto da ignorância, da superstição, do pensamento mágico primiti- Este capítulo sumariza as observações que dão ênfase a um
vo ou da patologia. Experiências místicas não devem ser conside- subgrupo amplo e importante de estados não-ordinários da cons-
radas indicações de doença mental, e sim manifestações normais e ciência para os quais a psiquiatria contemporânea não tem um ter-
altamente desejáveis da psique humana que possui um potencial mo específico. Cheguei à conclusão que, devido a suas característi-
extraordinário para curas e transformações. cas peculiares, eles merecem ser diferenciados dos demais e colo-

118 119
cados em uma categoria especial. Por esse motivo, eu lhes dei o uma doença mental séria, a psicose. Essa conclusão não é corrobo-
nome de holotrópicos. Essa palavra composta significa literalmen- rada por evidência clínica e, no mínimo, é altamente problemática.
te "orientado para a totalidade" ou "indo na direção da totalidade" Referir-se a essas condições como "psicoses endógenas" pode pa-
(do grego holos = todo e trepein = indo para ou na direção de algo). recer extraordinário para uma pessoa leiga, mas é pouco mais do
O significado geral do termo e a justificativa para seu uso ficarão que uma admissão da ignorância dos profissionais com relação à
mais claros mais adiante neste trabalho. Este nome sugere que, etiologia dessas condições.
em nosso estado de consciência cotidiano, estamos fragmentados e
É difícil imaginar o que e como um processo patológico afe-
nos identificamos apenas com uma pequena fração daquilo que re- tando o cérebro possa produzir o rico e intrigado espectro expe-
almente somos.
riências holotrópicas, envolvendo fenômenos como seqüências
Nos estados holotrópicos, a consciência é modificada qualita- devastadoras de morte e renas cimento psicoespiritual, encontros
tivamente de uma maneira muito profunda e fundamental, mas não com seres arquetípicos, visitas a reinos mitológicos, cenas da vida
sofre uma deterioração grosseira como no caso de psicoses orgâni- passada de outras culturas, ou visões de discos voadores e expe-
cas ou de delírios triviais. Vivenciamos a invasão de outras dimen- riências de seqüestro por alienígenas. Além disso, um estudo cui-
sões da existência que podem ser muito intensas e mesmo engol- dadoso da natureza dessas experiências e a informação que elas
fantes. No entanto, ao mesmo tempo, em geral permanecemos to- transmitem diretamente contradizem tal interpretação. Um dos ob-
talmente orientados, e não perdemos totalmente o contato com a jetivos deste trabalho é explorar o estado ontológico das experiên-
realidade cotidiana. Os estados holotrópicos caracterizam-se por cias holotrópicas e demonstrar que elas são fenômenos sui generis
uma transformação específica da consciência associada com mu- - manifestações normais da psique humana que têm um grande po-
danças perceptuais dramáticas em todas as áreas sensoriais, emo- tencial heurístico e de cura.
ções intensas e muitas vezes incomuns e alterações profundas nos Culturas antigas e aborígines gastaram muito tempo e energia
processos do pensamento. Eles são também comumente acompa- desenvolvendo técnicas poderosas de alteração da mente que podem
nhados por uma variedade de intensas manifestações psicossomá- induzir estados holotrópicos. Essas "tecnologias do sagrado" com-
ticas e formas não convencionais de comportamento.
binam de várias maneiras o canto, respiração, tambores, danças rít-
O conteúdo dos estados holotrópicos é muitas vezes espiritual micas, jejum, isolamento social e sensorial, dor física extrema e ou-
ou místico. Podemos vivenciar seqüências de morte psicológica e tros elementos (Eliade, 1964; Campbell, 1984). Com esse objetivo,
renascimento e um amplo espectro de fenômenos transpessoais, muitas culturas usavam materiais botânicos contendo alcalóides psi-
tais como sentimentos de união e identificação com outras pessoas, codélicos (Stafford, 1977; Schultes & Hofmann, 1979).
com a natureza, com o universo e com Deus. Podemos descobrir o Os mais famosos exemplos dessas plantas são várias varieda-
que parecem ser memórias de outras encarnações, encontrar figu- des de cânhamo, cogumelos "mágicos", o cacto mexicano conhe-
ras arquetípicas poderosas, comunicar-nos com seres desencama- cido como peote, o rapé sul-americano e caribenho, o arbusto afri-
dos e visitar inúmeras paisagens mitológicas. Nossa consciência cano eboga e o cipó da floresta amazônica, Banisteriopsis caapi, a
pode se separar de nosso corpo e ainda assim manter a capacidade fonte do iagê ou ayahuasca. Entre os materiais psicodélicos de ori-
de perceber o ambiente imediato e lugares remotos. gem animal estão as secreções da pele de algumas rãs e a carne do
Os psiquiatras ocidentais estão cientes da existência de expe- peixe kyphosusfuscus, do Oceano Pacífico.
riências holotrópicas, mas, devido a sua estrutura conceitual estrei- Outros importantes desencadeadores de experiências holotró-
ta, limitada à biografia pós-natal e ao inconsciente individual freu- picas são as várias formas de práticas espirituais sistemáticas que
diano, não têm qualquer explicação adequada para eles. Conside- envolvem meditação, concentração, respiração e exercícios de
ram-nos como produtos patológicos do cérebro, sintomáticos de movimento corporal, que são usados nos vários sistemas do ioga,

120 121
, .y •.•""unu Len J:judlsmo, a Vajrayana tibetana, o Taoísmo,
UU diferencia entre os estados místicos e espirituais e as doenças men-
o misticismo cristão, o Sufismo e a Cabala. Outras técnicas eram tais, pessoas vivenciando esses estados são muitas vezes conside-
usadas nos mistérios antigos da morte e renascimento, tais como radas psicóticas e são hospitalizadas e submetidas a tratamentos
as iniciações dos templos egípcios de Ísis e Osíris e a baeehanalia psicofarmacológicos supressivos. Minha esposa e eu considera-
grega, os ritos de Attis e Adonis e os mistérios de Elêusis. Os deta- mos esses estados como crises psicoespirituais ou "emergências
lhes dos procedimentos envolvidos que esses ritos secretos conti- espirituais". Acreditamos que se eles forem apoiados adequada-
nuam em sua maior parte desconhecidos, embora seja provável mente e tratados, podem ter como resultado curas emocionais e
que as preparações psicodélicas tenham desempenhado um papel psicossomáticas, transformação positiva da personalidade e evolu-
importante neles (Wasson et al., 1978). ção da consciência (Grof & Grof, 1989; 1990).

Entre meios modernos de induzir estados holotrópicos de cons- Culturas antigas e pré-industriais valorizavam os estados ho-
ciência estão os princípios ativos puros isolados das plantas psico- lotrópicos imensamente, praticavam-nos regularmente em con-
délicas (mescalina, psilocibina, e derivados da triptamina, har- textos socialmente sancionados, e gastavam muito tempo e energia
malina, ibogaina, cânabis e outros). Substâncias sintetizadas no desenvolvendo técnicas seguras e eficazes para induzi-Ios. Esses
laboratório [LSD, anfetamina e ketamina (Shulgin & Shulgin, estados têm sido o veículo principal para sua vida ritual e espiritu-
1991)] e formas experienciais poderosas de psicoterapia, tais como al, como um meio de comunicação direta com os domínios arquetí-
a hipnose, abordagens neo-reichianas, terapia primal e o renasci- picos de divindades e demônios, forças da natureza, o reino animal
mento. Minha esposa Cristina e eu desenvolvemos um trabalho de e o cosmos. Usos adicionais incluíam o diagnóstico e a cura de do-
respiração holotrópica, um método poderoso que pode desencade- enças, o desenvolvimento da intuição e da percepção extra-senso-
ar estados holotrópicos profundos por meios muito simples - res- rial (PES), e a obtenção de inspiração artística, bem como objeti-
piração consciente, música evocativa e trabalho corporal focado vos práticos, tais como a localização da caça e de objetos ou pes-
(Grof, 1988). soas perdidas. Segundo o antropólogo Victor Turner, partilhar es-
ses estados em grupos também contribui para a união tribal e tende
Existem também técnicas de laboratório muito eficazes para
a criar uma sensação de conexão profunda (eommunitas).
alterar a consciência. Uma delas é o isolamento sensorial, que en-
volve redução significativa de estímulos sensoriais importantes. A psiquiatria e a psicologia ocidentais não consideram os esta-
Em sua forma extrema, o indivíduo é privado de qualquer estímulo dos holotrópicos (à exceção de sonhos que não são recorrentes ou
sensorial submergindo-a em um tanque escuro à prova de som, assustadores) como fontes potenciais de informações valiosas so-
cheio de água na temperatura corporal (Lilly, 1977). Outro método bre a psique humana e sobre a cura, e sim, basicamente, como fenô-
bem conhecido para alterar a consciência é o biofeedbaek, onde o menos patológicos. Os clínicos tradicionais tendem a usar indiscri-
indivíduo é guiado por sinais eletrônicos de feedbaek até que entre minadamente os rótulos patológicos e a medicação supressiva
em estados não-ordinários de consciência caracterizados pela pre- sempre que esses estados ocorrem espontaneamente. Michael Har-
ponderância de certas freqüências específicas de ondas cerebrais ner, um antropólogo com excelente reputação acadêmica, que se
(Green & Green, 1978). Poderíamos também mencionar aqui as submeteu a uma iniciação xamânica durante seu trabalho de campo
técnicas de privação do sono e de sonhos e o sonho lúcido (La Ber- na selva amazônica e pratica o xamanismo, sugere que a psiquiatria
ge, 1985). ocidental é seriamente preconceituosa em pelo menos dois modos
significativos (Harner, 1980).
É importante
enfatizar que episódios de estados holotrópi-
cos de duração variada podem também ocorrer espontaneamente, Ela é etnoeêntriea, o que significa que ela considera que a sua
sem qualquer causa específica identificável e muitas vezes contra a própria visão da psique humana e da realidade é a única correta
vontade das pessoas envolvidas. Como a psiquiatria moderna não e Superior a todas aquelas compartilhadas por outros grupos cultu-

122 123
rais. Dessa perspectiva, as experiências e comportamentos para os ancestrais, raciais e cármicas e identificação com a mente univer-
quais não existe nenhuma explicação psicanalítica ou behaviorista, sal ou o vazio (Orof, 1975). Essas são experiências que foram des-
são atribuídas à doença mental. Segundo Hamer, a psiquiatria oci- critas através dos tempos na literatura religiosa, mística e ocultista.
dental também é cognicêntrica (uma palavra mais exata poderia
ser "pragmacêntrica"), querendo dizer com isso que ela só leva em
consideração experiências e observações no estado ordinário da 3. Biografia pós-natal e o inconsciente individual
consciência. A falta de interesse e o menosprezo que a psiquiatria
tem pelos estados holotrópicos teve como resultado uma aborda- o nível biográfico da psique não exige muita discussão,já que
gem culturalmente insensível, e uma tendência a considerar como é bem conhecido através da literatura profissional oficial. Aliás, é
patologia todas as atividades que não podem ser compreendidas no aquilo de que tratam a psiquiatria, a psicologia e a psicoterapia
estreito contexto do paradigma materialista monístico. Isso inclui a tradicionais. No entanto, existem algumas diferenças importantes
vida espiritual e ritual das culturas antigas e pré-industriais e toda a entre explorar esse domínio através da psicoterapia verbal e atra-
história espiritual da humanidade. vés de abordagens que usam estados holotrópicos. Primeiramen-
te, em terapias experienciais intensas, nós não só lembramos de
Se estudarmos sistematicamente as experiências e observa- eventos significativos emocionalmente, ou os reconstruímos indi-
ções associadas com os estados holotrópicos, veremos que isso le- retamente a partir dos sonhos, de lapsos lingüísticos ou de distor-
vará a uma revisão radical de nossas idéias básicas sobre a cons-
ções de transferência. Vivenciamos as emoções originais, as sen-
ciência e sobre a psique humana e a uma abordagem totalmente sações jisicas e até as percepções sensoriais em uma regressão
nova à psiquiatria, à psicologia e à psicoterapia. As mudanças que etária total. Isso significa que, quando revivemos um trauma im-
teríamos de fazer em nosso pensamento se dividem em várias gran- portante da primeira infância ou da infância em geral, nós real-
des categorias: 1) Nova compreensão e nova cartografia da psi- mente temos a imagem corporal, a percepção ingênua do mundo,
que humana; 2) A natureza e arquitetura dos distúrbios emocio- as sensações e as emoções que correspondem à idade que tínha-
nais e psicossomáticos; 3) Mecanismos terapêuticos e o processo mos à época.
de cura; 4) A estratégia da psicoterapia e auto-exploração; 5) O pa-
pel da espiritualidade na vida humana; 6) A natureza da realidade. A segunda diferença entre o trabalho com material biográfico
em estados holotrópicos, quando comparado com psicoterapias
verbais é que no primeiro, além de enfrentar os traumas psíquicos
2. Nova compreensão e cartografia da psique humana de sempre, as pessoas muitas vezes têm de revi ver e integrar trau-
mas que eram primordialmente de natureza física. Muitas pessoas
A psiquiatria e a psicologia acadêmicas tradicionais usam um têm de processar experiências de quase-afogamento, operações,
modelo da psique que é restrita à biografia pós-natal e ao inconsci- acidentes e doenças infantis, principalmente aquelas associadas
ente individual freudiano. Para explicar todos os fenômenos que com sufocação, tais como a difteria, a coqueluche, ou a aspiração
ocorrem em estados holotrópicos, nosso entendimento das dimen- de um objeto estranho.
sões da psique humana tem de ser ampliado drasticamente. Eu Esse material emerge bastante espontaneamente e sem qual-
mesmo sugeri uma cartografia ou modelo da psique que contém, quer programação. À medida que ele vem à tona, as pessoas com-
além do nível biográfico comum, dois domínios transbiográficos: preendem que esses traumas físicos realmente desempenharam um
o domínio perinatal, relacionado com o trauma do nascimento bio- papel significativo na psicogênese de seus problemas emocionais e
lógico; e o domínio transpessoal, que explica fenômenos tais como psicossomáticos, tais como a asma, a enxaqueca, e uma variedade
a identificação experiencial com outras pessoas, animais e plantas, de dores psicossomáticas, fobias, tendências sadomasoquistas ou
visões de seres e reinos arquetípicos e mitológicos, experiências depressão e tendências ao suicídio. Reviver essas memórias trau-

124 125
máticas, e sua integração, podem então ter conseqüências terapêu-
nassem a dinâmica do nível biográfico do inconsciente. À medida
ticas de longo alcance. Isso contrasta nitidamente com as atitudes
que minha experiência com estados holotrópicos tomou-se mais
da psiquiatria e psicologia acadêmicas que não reconhecem que in-
rica e mais extensa, compreendi que as raízes dos sistemas coex
júrias fisicas podem ter uma influência direta na fonnação de trau-
são muito mais profundas. Cada uma das constelações coex parece
mas psíquicos.
superimpor um aspecto específico do trauma do nascimento, anco-
Outra informação nova sobre o nível de relembranças biográ- rando-se nele. Além disso, um sistema coex típico vai ainda mais
ficas da psique que surgiu com minha pesquisa psicodélica e holo- longe e tem suas raízes mais profundas nas várias formas de fenô-
trópica foi a descoberta de que as memórias emocionalmente rele- menos transpessoais, tais como experiências de vidas passadas, ar-
vantes não são armazenadas no inconsciente como um mosaico de quétipos junguianos, identificação consciente com vários animais,
impressões isoladas, mas na forma de constelações complexas e e outras. Atualmente eu considero os sistemas coex como princí-
dinâmicas. Eu cunhei para essas constelações o nome sistemas pios gerais organizadores da psique humana. O conceito de siste-
coex que é uma abreviação de "sistemas de experiência condensa- mas coex parece, até certo ponto, com as idéias junguianas sobre
da". Um sistema coex consiste de memórias impregnadas de emo- complexos psicológicos (Jung, 1960) e com os sistemas dinâmi-
ções de períodos diferentes de nossa vida que se parecem umas cos trans- fenomenais de Hanskare Leuner (Leuner, 1962) mas têm
com as outras em termos da qualidade da emoção ou da sensação muitas características que os diferenciam de ambos conceitos.
fisica que compartilham. Cada coex tem um tema básico que per-
Os sistemas coe~ desempenham um papel importante na nossa
meia todas suas camadas e representa seu denominador comum.
vida psicológica. Podem influenciar a maneira como percebemos a
As camadas individuais contêm, então, as variações desse tema bá-
nós mesmos, outras pessoas, e o mundo e como nos sentimos a res-
sico que ocorreram nos vários períodos da vida da pessoa.
peito deles. Eles são as forças dinâmicas por trás de nossos sinto-
A natureza do tema central varia consideravelmente de um coex mas emocionais e psicossomáticos, dificuldades de relacionamen-
para outro. As camadas de um sistema específico podem, por exem- to com outras pessoas e comportamento irracional. Existe uma in-
plo, conter todas as memórias mais importantes de experiências hu- teração dinâmica entre os sistemas coex e o mundo externo. Even-
milhantes, degradantes ou vergonhosas que prejudicaram nossa au- tos externos em nossa vida podem especificamente ativar sistemas
to-estima. Em outro sistema coex o denominador comum pode ser a coex correspondentes e, ao contrário, sistemas coex ativos podem
ansiedade, vivenciada em várias situações chocantes ou aterradoras nos fazer perceber e nos comportarmos de tal maneira que recria-
ou sentimentos de sufocação e claustro fobia evocados por circuns- mos seus temas centrais em nossa vida presente (Grof, 1975).
tâncias opressivas e de confinamento. A rejeição ou a privação emo-
Antes de continuar nossa discussão da nova cartografia ampli-
cional que danifica nossa capacidade de confiar nos homens, nas
ada da psique humana, é importante mencionar brevemente uma
mulheres ou nas pessoas em geral, é outro motivo comum. Situações
característica muito importante e extraordinária dos estados holo-
que geraram em nós sentimentos profundos de culpa e uma sensação
trópicos que desempenharam um papel muito significativo no ma-
de fracasso, eventos que nos deixaram a convicção de que o sexo é
peamento dos territórios experienciais da psique e que também é
perigoso ou asqueroso, e encontros com agressão e violência indis-
inestimável para o processo de psicoterapia. Os estados holotrópi-
criminada podem ser acrescentados à lista acima como exemplos ca-
cos tendem a "ligar" algo assim como um "radar interno" que auto-
racterísticos. Particularmente importantes são os sistemas coex que
maticamente traz à consciência os conteúdos do inconsciente que
contêm memórias de encontros com situações perigosas para a vida,
têm a carga emocional mais forte e que são mais relevantes psi-
para a saúde ou para a integridade do corpo.
codinamicamente naquele momento. Isso representa uma gran-
Quando descrevi pela primeira vez os sistemas coex nas pri- de vantagem em comparação à psicoterapia verbal, onde o cliente
meiras fases da minha pesquisa psicodélica, pensei que eles gover- apresenta uma série ampla de informação de vários tipos, e o tera-

126
127
peuta tem de decidir o que é importante, o que é irrelevante e o que direta que nascemos de nádegas, que foi usado um fórceps durante
o paciente está bloqueando. o parto ou que nascemos com o cordão umbilical enrolado no pes-
Como não há qualquer concordância geral sobre as questões coço. Podemos sentir a ansiedade, a fúria biológica, a dor fisica e a
teóricas básicas entre as várias escolas, tais avaliações serão sem- sufocação associadas com esse evento atemorizador e até reconhe-
pre idiossincráticas, refletindo as perspectivas da escola do tera- cer, com precisão, o tipo de anestesia usada quando nascemos. Isso
peuta e suas visões pessoais. Os estados holotrópicos evitam que o é, muitas vezes, acompanhado por várias posturas e movimentos
terapeuta tenha de tomar essas decisões tão dificeis, e elimina mui- da cabeça e do corpo que recriam corretamente a mecânica de um
tas das tendências pessoais e profissionais das abordagens verbais. tipo específico de parto. Todos esses detalhes podem ser confirma-
Essa seleção automática de material relevante por parte da psique dos se existem registros precisos do nascimento ou testemunhas
do paciente também espontaneamente guia o processo de auto-ex- pessoais fidedignas.
ploração mais além do nível biográfico e o orienta para os níveis A forte representação do nascimento e da morte em nossa psi-
perinatal e transpessoal da psique. Esses são domínios transbiográ- que e a íntima associação entre eles pode surpreender psicólogos e
ficos que não são reconhecidos nem aceitos pela psiquiatria e psi- psiquiatras tradicionais, mas na verdade isso é lógico e facilmente
cologia acadêmicas. compreensível. O parto termina bruscamente com a existência in-
tra-uterina do feto. Ele ou ela "morrem" como organismo aquático e
nasce como uma forma de vida que respira o ar, e é fisiológica e até
4. O nível perinatal da psique mesmo anatomicamente diferente. E a própria passagem pelo canal
do nascimento é uma situação dificil e que pode ameaçar a vida.
Quando nosso processo de profunda auto-exploração experi-
encial vai além do nível das memórias dos primeiros anos e da in- O que não é tão fácil de compreender é por que a dinâmica pe-
fância e alcança o próprio nascimento, começamos a nos deparar rinatal também regularmente inclui um componente sexual. Quan-
com emoções e sensações fisicas de intensidade extrema, que mui- do estamos revivendo os estágios finais do parto no papel do feto,
tas vezes ultrapassam qualquer coisa que anteriormente considerá- isso é tipicamente associado com uma excitação sexual extraordi-
vamos humanamente possível. A essa altura, as experiências tor- nariamente forte. O mesmo ocorre com as mulheres durante o par-
nam-se uma combinação estranha dos temas de nascimento e mor- to, que podem vivenciar uma combinação de medo da morte e de
te. Elas envolvem uma sensação de aprisionamento que ameaça a excitação sexual intensa. Essa conexão parece estranha e surpreen-
própria vida e uma luta desesperada e decidida para nos libertar- dente, sobretudo no caso do feto, e certamente merece umas pala-
mos e sobreviver. Esse relacionamento íntimo entre o nascimento e vras de explicação.
a morte no nível perinatal reflete o fato de que o nascimento é um Parece existir um mecanismo no organismo humano que trans-
evento que pode ser um risco de vida. A criança e a mãe podem re- forma sofrimento extremo, especialmente quando é associado com
almente perder suas vidas durante o processo e crianças podem sufocação em uma forma peculiar de excitação sexual. Essa cone-
nascer arroxeadas por asfixia, ou até mesmo mortas e precisando xão experiencial pode ser observada em uma variedade de situa-
ser ressuscitadas. ções além do nascimento. Pessoas que tentaram se enforcar e fo-
A revivência de vários aspectos do nascimento biológico pode ram salvas no último momento tipicamente descrevem que, no
ser muito autêntica e convincente e muitas vezes repetimos o pro- auge da asfixia, sentiram uma excitação sexual quase insuportável.
cesso em detalhe fotográfico. Isso pode ocorrer mesmo em pessoas Sabe-se que homens que são executados por enforcamento normal-
que não têm qualquer conhecimento intelectual de seu nascimento mente têm uma ereção e ejaculam.
e a quem faltam informações sobre obstetrícia, mesmo as mais ele- A literatura sobre tortura e lavagem cerebral descreve que so-
mentares. Podemos, por exemplo, descobrir através da experiência frimento fisico desumano muitas vezes provoca êxtase sexual. Nas

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seitas de flagelantes, que regularmente se submetem à tortura au-
chance de escapar dessa situação, já que o cérvix está firmemente
to-infligi da, e nos mártires religiosos que foram submetidos a tor-
fechado. As contrações contínuas empurram o cérvix sobre a cabe-
mentos inimagináveis, a dor fisica extrema, em um determinado
ça do feto até que ele esteja suficientemente dilatado para permitir
momento, se transforma em excitação sexual e eventualmente pro-
a passagem através do canal do nascimento. A dilatação total do
voca arroubos extáticos e experiências transcendentais. Em uma
cérvix e a descida da cabeça para encaixar-se na pelve marcam a
forma menos extrema, esse mecanismo opera em várias práticas
transição do primeiro para o segundo estágio do parto que é carac-
sadomasoquistas que incluem estrangulamento e sufocação.
terizado pela gradual e dificil propulsão através das vias do nasci-
O espectro experiencial do domínio perinatal do inconsciente mento. E finalmente, no terceiro estágio, o recém-nascido emerge
não se limita a emoções e sensações fisicas que podem ser originá- do canal do nascimento e, depois que o cordão umbilical é cortado,
rias de processos biológicos, envolvidos no parto. Também en- ele ou ela se tomam um organismo anatomicamente independente.
volve um rico imaginário simbólico que é extraído dos domínios
Em cada um desses estágios o bebê vivencia um conjunto de
transpessoais. O domínio perinatal é uma interface importante en-
emoções intensas e sensações fisicas específicas e típicas. Essas
tre os níveis biográficos e transpessoais da psique. Representa uma
passagem para os aspectos históricos e arquetípicos do inconscien- experiências deixam marcas inconscientes profundas na psique
que, mais tarde, irão desempenhar um papel importante na vida do
te coletivo no sentido junguiano. Como o simbolismo específico
dessas experiências têm sua origem no inconsciente coletivo, e não indivíduo. Reforçadas por experiências emocionalmente impor-
tantes da primeira infância e da infância em geral, as memórias do
nos bancos de memórias individuais, ele pode se originar de qual-
quer contexto geográfico e histórico, assim como de qualquer tra- nascimento podem formar a percepção do mundo, influenciar pro-
fundamente o comportamento cotidiano e contribuir para o desen-
dição espiritual do mundo, de forma bastante independente de nos-
volvimento de vários distúrbios emocionais e psicossomáticos.
so contexto racial, cultural, educacional ou religioso.
Nos estados holotrópicos, esse material inconsciente pode vir
A identificação com o bebê enfrentando a penosa experiência da
à tona e ser vivenciado plenamente. Quando nosso processo de au-
passagem através do canal do nascimento parece dar acesso a expe-
to-exploração profunda nos leva de volta ao nascimento, descobri-
riências de pessoas de outras épocas e culturas, de vários animais e
mos que reviver cada um dos estágios do parto se associa com um
até de figuras mitológicas. É como se, ao conectar com a experiência
padrão experiencial distinto, caracterizado por uma combinação
do feto lutando para nascer, atingíssemos uma conexão íntima, qua-
específica de emoções, sensações fisicas e imagens simbólicas.
se mística, com a consciência da espécie humana e com outros seres
Refiro-me a esses padrões da experiência como matrizes perinatais
sencientes que estão, ou já estiveram, em um apuro semelhante. básicas (MPBs).
A confrontação experiencial com o nascimento e a morte parece
A primeira matriz perinatal (MPB I) é relacionada com a expe-
ter como resultado, automaticamente, uma abertura espiritual e a
riência intra-uterina que imediatamente precede o nascimento e as
descoberta de dimensões místicas da psique e da existência. Parece
três matrizes restantes (MPB 11- MPB IV) com os três estágios clí-
não fazer qualquer diferença se esse encontro com o nascimento e a
nicos do parto descritos acima. Além de conter elementos que repre-
morte ocorre em situações reais da vida, tais como no caso de mulhe-
sentam um replay da situação original do feto em um estágio especí-
res dando à luz e no contexto de experiências de quase morte, ou se é
fico do nascimento, as matrizes perinatais básicas também incluem
puramente simbólico. Seqüências perinatais intensas em sessões
várias cenas naturais, históricas e mitológicas com qualidades expe-
psicodélicas e holotrópicas ou durante crises psicoespirituais espon-
rienciais semelhantes extraídas de domínios transpessoais.
tâneas ("emergências espirituais") parecem ter o mesmo efeito.
As conexões entre as experiências dos estágios consecutivos
O nascimento biológico tem três estágios distintos. No primei-
do nascimento biológico e várias imagens simbólicas associadas
ro, o feto é apertado pelas contrações uterinas sem ter qualquer
com elas são muito específicas e consistentes. O motivo pelo qual

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elas emergem juntas não faz sentido em termos da lógica conven- 4.2. Segunda Matriz Perinata! Básica (MPB IJ)
cional. No entanto, isso não quer dizer que as associações sejam ar-
bitrárias ou ao acaso. Elas têm sua própria ordem profunda cuja Quando a regressão experiencial atinge a memória do começo
melhor descrição é "lógica experiencial". O que isso significa é do nascimento biológico, normalmente sentimos que estamos sen-
que a conexão entre as experiências características dos vários está- do tragados por um rodamoinho gigantesco ou engolidos por algu-
gios do nascimento e os temas simbólicos concomitantes não estão ma fera mítica. Podemos também sentir como se o mundo inteiro,
baseados em alguma similaridade externa formal, mas sim no fato ou até mesmo o cosmos estivessem sendo tragados. Isso pode ser
de que elas partilham os mesmos sentimentos emocionais e as mes- associado com imagens de monstros arquetípicos que agarram ou
mas sensações físicas. devoram, tais como leviatãs, dragões, cobras gigantescas, tarântu-
Ias e polvos. A sensação esmagadora de risco de vida pode provo-
car ansiedade intensa e uma desconfiança de tudo que é quase
4.1. Primeira Matriz Perinata! Básica (MPB I)
como uma paranóia. Podemos também vivenciar uma queda nas
Ao experimentar os episódios de uma existência embriônica profundezas do submundo, no reino da morte, ou no inferno. Como
serena (MPB I), muitas vezes encontramos imagens de vastas re- o mitólogo Joseph Campbell descreveu de forma tão eloqüente,
giões sem quaisquer fronteiras ou limites. Às vezes as identifica- esse é um tema universal nas mitologias da viagem do herói (Camp-
mos com galáxias, espaço interestelar, ou o cosmos inteiro, outras bell, 1968).
vezes temos a sensação de estar flutuando no oceano ou de estar- .Reviver o primeiro estágio do nascimento biológico em sua
mos nos transformando em vários animais aquáticos tais como pei- plena evolução, quando o útero está se contraindo, mas o cérvix
xes, golfinhos ou baleias. A experiência uterina serena pode também ainda não está aberto (MPB 11)é uma das piores experiências que
abrir para visões da natureza - seguras, belas e incondicionalmente um ser humano pode ter. Sentimo-nos presos em um pesadelo
nutritivas, como um bom útero (a Mãe Natureza). Podemos ver po- claustrofóbico monstruoso, sofremos dores físicas e emocionais
mares exuberantes, campos de milho maduro, terraços agrícolas nos extremas e temos uma sensação de impotência e desespero total.
Andes ou ilhas da Polinésia ainda não exploradas. A experiência do Nossos sentimentos de solidão, de culpa, do absurdo da vida e o de-
útero bom pode também dar acesso seletivo ao domínio arquetípi- sespero existencial podem atingir proporções metafísicas. Perde-
co do inconsciente coletivo e mostrar imagens de paraísos ou céus mos conexão com o tempo linear e ficamos certos de que essa si-
como são descritos nas mitologias de culturas diferentes. tuação nunca chegará ao fim e que não há absolutamente nenhuma
Quando estamos revi vendo episódios de distúrbios uterinos, saída. Não há dúvida em nossa mente que o que nos está ocorrendo
ou experiências de "útero mau" temos uma sensação de ameaça é aquilo a que as religiões chamam de inferno - tormento físico e
oculta e geral, e muitas vezes sentimos como se estivéssemos sen- emocional insuportável sem qualquer esperança de redenção. Com
do envenenados. Podemos ver imagens que retratam águas poluí- efeito, isso pode ser ainda acompanhado por imagens arquetípicas
das ou depósitos de lixo tóxico. Isso reflete o fato de que muitos de diabos e paisagens infernais de culturas diferentes.
distúrbios pré-natais são causados por mudanças tóxicas no corpo Quando estamos enfrentando a situação de nenhuma saída e
da mãe grávida. A experiência do útero tóxico pode ser associada estamos nas garras das contrações uterinas, podemos nos conectar,
com visões de figuras demoníacas assustadoras do reino arquetípi- experiencialmente, com seqüências do inconsciente coletivo que
co do inconsciente coletivo. A revivência de interferências mais envolvem pessoas, animais e até seres mitológicos que estão em
violentas durante a existência pré-natal, tais como um aborto natu- uma situação dolorosa e desesperada semelhante. Identificamo-
ral iminente, ou uma tentativa de aborto provocado, é usualmente nos com prisioneiros em masmorras, internos de campos de con-
relacionada com uma sensação de ameaça universal ou com visões centração ou de hospícios e com animais presos em armadilhas.
apocalípticas e sangrentas do fim do mundo. Podemos vivenciar as torturas intoleráveis de pecadores no inferno

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rantes, sadomasoquistas, escatológicas ou até mesmo satânicas.
ou de Sísifo rolando sua pedra gigantesca montanha acima, no
Podemos ser dominados por cenas dramáticas de abuso sexual,
abismo mais profundo do Hades. Nossa dor pode transformar-se
perversões, estupros e assassinatos por motivos eróticos.
na agonia de Cristo perguntando a Deus por que Ele o havia aban-
donado. Parece-nos que estamos enfrentando a perspectiva de Ocasionalmente essas experiências podem adotar a forma de
condenação eterna. Este estado de escuridão e desespero profun- participação em rituais de que participam bruxas e satanistas. Isso
dos é conhecido na literatura espiritual como a Noite Escura da parece estar relacionado com o fato de que a revivência desse está-
Alma. De uma perspectiva mais ampla, apesar dos sentimentos gio do nascimento envolve a mesma combinação estranha de emo-
de total desespero que ele envolve, esse estado é um estágio im- ções, sensações e elementos que caracterizam as cenas arquitípicas
portante de abertura espiritual. Se vivenciado em sua profundida- da Missa Negra e dos Sabás das Bruxas (Noite de Walpurgi). É uma
de total, pode ter um efeito expurgado r e liberalizante para aqueles mistura de excitação sexual, ansiedade aterrorizante, agressão, amea-
que o VlvenClam. ça vital, dor, sacrificio e encontro com materiais biológicos nor-
malmente repulsivos. Esse amálgama experiencial peculiar é asso-
ciado com uma sensação do sagrado ou numinoso que reflete o fato
4.3. Terceira Matriz Perinatai Básica (MPB III)
de que tudo isso está se desenvolvendo em muita proximidade a
A experiência do segundo estágio do nascimento, a propulsão uma abertura espiritual.
através do canal do nascimento depois que o cérvix se abre e a Esse estágio do processo do nascimento pode também ser as-
cabeça desce (MPB I1I), é extraordinariamente rica e dinâmica. sociado com inúmeras imagens do inconsciente coletivo retratan-
Enfrentando as energias conflitantes e as pressões hidráulicas en- do cenas de agressão assassina, tais como batalhas cruéis, revolu-
volvidas no parto, somos inundados com imagens do inconsciente ções sangrentas, massacres ensangüentados e genocídio. Em todas
coletivo representando seqüências de batalhas titânicas e cenas de as cenas violentas e sexuais que encontramos nesse estágio, alter-
violência e tortura sangrenta. É também nessa fase que nos defron- namos entre o papel do perpetrador e o da vítima. Esse é o momen-
tamos com impulsos sexuais e energias de natureza problemática e to de um encontro importante com o lado escuro de nossa persona-
intensidade extraordinária. lidade, a Sombra de Jung.
Já descrevemos anteriormente que a excitação sexual é uma À medida que essa fase perinatal culmina e se aproxima do
parte importante da experiência do nascimento. Isso coloca nosso fim, muitas pessoas vêem Jesus, o Caminho da Cruz e a crucifica-
primeiro encontro com a sexualidade em um contexto muito precá- ção ou até mesmo vivenciam uma espécie de identificação total
rio, em uma situação em que nossa vida está ameaçada, onde esta- com o sofrimento de Jesus. A esfera arquetípica do inconsciente
mos sofrendo e infligindo dor e em que não podemos respirar. Ao coletivo contribui para essa fase com figuras mitológicas heróicas
mesmo tempo, estamos vivenciando uma combinação de ansieda- e divindades representando a morte e o renascimento, tais como o
de vital e fúria biológica primitiva, a última sendo uma reação deus egípcio Osíris, as divindades gregas Dioniso e Perséfone ou a
compreensível por parte do feto a essa experiência dolorosa e ame- deusa sumeriana Inana.
açadora de sua vida. Nos últimos estágios do nascimento, podemos
também encontrar várias formas de material biológico - sangue,
4.4. Quarta Matriz Perinatai (MPB IV)
muco, urina e até mesmo fezes.
Devido a essas conexões problemáticas, as experiências e ima- A revivência do terceiro estágio do processo do nascimento, da
gens que encontramos nessa fase normalmente apresentam o sexo verdadeira emergência no mundo (MPB IV) normalmente tem iní-
de uma maneira profundamente distorcida. A combinação estra- cio com o tema fogo. É possível ter a sensação de que nosso corpo
nha de excitação sexual com dor fisica, agressão, ansiedade vital e está sendo consumido e chamuscado pelo calor, temos visões de ci-
material biológico leva a seqüências que são pornográficas, aber-

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dades e florestas pegando fogo, ou nos identificamos com vítimas Embora só um pequeno passo nos separe da experiência de li-
de imolação. As versões arquetípicas desse fogo podem tomar a bertação radical, temos uma sensação de ansiedade que tudo per-
forma das chamas purificadoras do Purgatório ou do legendário meia e de uma iminente catástrofe de enormes proporções. A im-
pássaro Fênix, morrendo no calor de seu ninho queimado e emer- pressão de fim iminente pode ser muito convincente e arrebatadora.
gindo das cinzas renascido e rejuvenescido. O fogo purificador pa- O sentimento predominante é que estamos perdendo tudo aquilo que
rece destruir tudo o que seja corrupto em nós e preparar-nos para o conhecemos e que somos. Ao mesmo tempo, não temos nenhuma
renascimento espiritual. Quando estamos revi vendo o momento idéia do que pode estar do outro lado, ou mesmo se há qualquer coisa
mesmo do nascimento, o vivenciamos como a extinção total e o re- lá. É devido a esse medo que, nesse estágio, muitas pessoas, se po-
nascimento e a ressurreição subseqüentes. dem, desesperadamente resistem ao processo. Em conseqüência
dessa resistência, elas podem ficar psicologicamente presas nesse
Para entender por que sentimos a revivência do nascimento
território problemático por um período indefinido de tempo.
biológico como se fosse morte e renascimento, temos de compre-
ender que o que ocorre conosco é muito mais do que meramente O encontro com a morte do ego é um estágio da viagem espiri-
um replay do evento original do nascimento. Durante o parto, esta- tual em que provavelmente precisaremos de muito encorajamento
mos totalmente presos no canal do nascimento e não temos meios e apoio psicológico. Quando conseguirmos vencer o medo metafi-
de expressar as emoções e sensações extremas que estão emjogo. sico associado com essa importante conjuntura e decidirmos dei-
Assim, nossa memória desse evento permanece psicologicamente xar que as coisas aconteçam, vivenciamos extinção total em todos
mal-digerida e mal assimilada. Grande parte de nossa autodefini- os níveis imagináveis. Isso inclui destruição fisica, desastre emoci-
ção futura e de nossas atitudes com relação ao mundo são forte- onal, derrota intelectual e filosófica, fracasso moral final e até con-
mente contaminadas pela lembrança constante e profunda da vul- denação espiritual. Durante essa experiência, teremos a sensação
nerabilidade, inadequação e fragilidade que vivenciamos durante o de que todos os pontos de referência, tudo que é importante e signi-
nascimento. Em um certo sentido nascemos anatomicamente, mas, ficativo em nossas vidas foi destruído impiedosamente.
emocionalmente, não nos damos realmente conta de que a emer- Logo após a experiência de extinção total- "chegando ao fundo
gência e o perigo já passaram. do poço cósmico" - seremos dominados por visões de uma luz que
O "morrer" e a agonia durante a luta para o renas cimento refle- tem um brilho e beleza supematurais e que normalmente é conside-
te a verdadeira dor e ameaça à vida que ocorre no processo do nas- rada sagrada. Essa epifania divina pode ser associada com a aparição
cimento biológico. No entanto, a morte do ego que imediatamente de lindos arcos-íris, desenhos de penas de pavão diáfanas e visões de
precede o renascimento é a morte de nossos antigos conceitos de reinos celestiais com seres angélicos ou divindades surgindo na luz.
quem somos e de como é o mundo, que são forjados pela marca Esse é também o momento quando podemos vivenciar um encontro
traumática do nascimento. À medida que estamos expurgando es- profundo com a figura arquetípica da Grande Deusa Mãe ou com
ses programas antigos de nossa psique e de nosso corpo, deixan- uma de suas muitas formas ligadas às várias culturas.
do-os emergir na consciência, estamos diminuindo sua carga ener- A experiência de morte e renascimento psicoespiritual é um
gética e restringindo sua influência destrutiva em nossa vida. De passo importante na direção do enfraquecimento de nossa identifi-
uma perspectiva mais ampla, esse processo tem, na verdade, a ca- cação com o corpo-ego, ou com o "ego-encapsulado na pele",
pacidade de curar e de transformar. E no entanto, quando nos apro- Como o chamou o escritor e filósofo anglo-americano Alan Watts,
ximamos de sua resolução final, podemos paradoxalmente sentir e da re-conexão com a esfera transcendental. Sentimo-nos redimi-
que, como as antigas impressões estão abandonando nosso siste- dos, libertados e abençoados e temos uma nova percepção de nossa
ma, estamos morrendo com elas. Às vezes, não só temos uma sen- natureza divina e status cósmico. Normalmente também sentimos
sação de aniquilamento pessoal, mas também da destruição do mun- uma forte onda de emoções positivas com relação a nós mesmos, às
do como o conhecemos.

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outras pessoas, à natureza, a Deus e à existência em geral. Ficamos com os padrões de nossa cultura e da psiquiatria contemporânea
cheios de otimismo e temos uma sensação de bem-estar emocional (Grof, 1975; 1988).
e fisico. No estado ordinário ou "nonnal" da consciência, nos vivencia-
É importante enfatizar, também, que esse tipo de experiência mos como objetos newtonianos, existindo dentro dos limites de
de cura e de mudança de vida ocorre quando os estágios finais do nossa pele. Como mencionei anteriormente, Alan Watts referiu-se
nascimento biológico tiveram uma evolução mais ou menos natu- a essa experiência de nós mesmos como associada ao ego encapsu-
ral. Se o parto foi muito debilitante ou tornou-se confuso devido a lado pela pele. Nossa percepção do ambiente é restrita pelas limita-
uma anestesia muito forte, a experiência do renascimento não tem ções fisiológicas de nossos órgãos sensoriais e pelas características
fisicas do ambiente.
a qualidade de emergência triunfal na luz. Será mais semelhan-
te a um despertar, ou como a recuperação de uma ressaca com Não podemos ver objetos de que estejamos separados por uma
tonteira, náusea e uma consciência confusa. Nesse caso, é prová- parede sólida, ou navios que estejam além do horizonte, ou o outro
vel que muito esforço psicológico seja necessário para trabalhar lado da lua. Se estivermos em Praga, não poderemos ouvir o que
essas questões adicionais e os resultados positivos serão muito me- nossos amigos estão conversando em São Francisco. Não podemos
nos surpreendentes. sentir a maciez de uma pele de cordeiro a não ser que a superficie
A esfera perinatal da psique representa uma encruzilhada ex- de nosso corpo esteja em contato direto com ela. Além disso, só po-
demos sentir vividamente, e com todos nossos sentidos, os eventos
periencial de importância crucial. Ele é não só o ponto de encontro
de três aspectos absolutamente essenciais da existência biológica que estão acontecendo no momento presente. Podemos nos lem-
humana - o nascimento, o sexo e a morte - mas também a linha di- brar do passado e antecipar eventos futuros ou fantasiar sobre eles;
visória entre vida e morte, o indivíduo e a espécie e a psique huma- no entanto, essas são experiências muito distintas da experiência
na individual e o espírito universal. A plena experiência consciente imediata e direta que temos do momento presente. Nos estados
do conteúdo desse domínio da psique com uma boa integração sub- transpessoais da consciência, no entanto, nenhuma dessas limita-
seqüente podem ter conseqüências de longo alcance e conduzir a ções é absoluta e qualquer uma delas pode ser ultrapassada.
uma abertura espiritual e a uma profunda transformação pessoal. As experiências transpessoais podem ser divididas em três gran-
des categorias. A primeira delas envolve primordialmente a trans-
cendência das barreiras espaciais comuns, ou das limitações do
5. Domínio transpessoal da psique ego encapsulado pela pele. A esta categoria pertencem as experiên-
cias de fusão com outra pessoa em um estado que pode ser chama-
o segundo maior domínio que tem que ser acrescentado à car- do de unidade dual, em que se assume a identidade da outra pessoa,
tografia da psique humana da psiquiatria dominante quando traba- identificando-se com a consciência de todo um grupo de pessoas
lhamos com estados holotrópicos é hoje conhecida com o nome (ex. todas as mães do mundo, toda a população da Índia, ou todos
de transpessoal, querendo dizer, literalmente, além do pessoal ou os internos dos campos de concentração), ou até mesmo vivencian-
transcendendo o pessoal. As experiências que se originam nesse do uma ampliação da consciência que parece abranger toda a hu-
nível envolvem a transcendência dos limites normais do indiví- manidade. Experiências desse tipo já foram descritas inúmeras ve-
duo (seu corpo e ego), e das limitações do espaço tridimensional e zes na literatura espiritual mundial.
do tempo linear que restringem nossa percepção do mundo no es-
tado normal da consciência. A melhor maneira de definir as expe- Da mesma maneira, podemos transcender os limites da expe-
riência especificamente humana e identificar-nos com a consciên-
riências transpessoais é contrastá-Ias com a experiência cotidiana
de nós mesmos e do mundo - como devemos vivenciar a nós mes- cia de vários animais, plantas ou até uma forma de consciência que
parece ser associada com objetos e processos inorgânicos. Nos ca-
mos e ao ambiente, para que passemos por "normais" de acordo

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sos extremos, é possível sentir a consciência de toda a biosfera, de deveríamos poder ter uma experiência vívida de estar lá, deitados
nosso planeta, ou de todo o universo material. Por mais incrível e e feridos nas barricadas de Paris. Sabemos que há muitas coisas
absurdo que isso possa parecer a um ocidental envolvido com o acontecendo no mundo em lugares onde não estamos presentes,
materialismo monístico, essas experiências sugerem que tudo que mas é normalmente considerado impossível vivenciar algo que
nós vivenciamos em nosso estado de consciência cotidiano como está ocorrendo em localidades remotas (sem a mediação da televi-
sendo um objeto tem, nos estados não-ordinários da consciência são e de um satélite). Podemos também ter a surpresa de encontrar
uma representação subjetiva correspondente. É como se tudo n~ a consciência associada com animais inferiores, plantas e com a
universo tivesse seu aspecto objetivo e seu aspecto subjetivo, como natureza inorgânica.
é descrito nas grandes filosofias espirituais orientais (por exemplo, No entanto, a terceira categoria de experiências transpessoais
no hinduísmo, tudo que existe é uma manifestação de Brahma, ou, é ainda mais estranha que as duas anteriores. Aqui a consciência
no taoísmo, uma transformação do Tao).
parece estender-se a domínios e dimensões que a cultura industrial
A segunda categoria de experiências transpessoais caracteri- ocidental não considera "reais". A essa categoria pertencem as inú-
za-se sobretudo pela ultrapassagem de limites temporais em vez de meras visões de seres arquetípicos e paisagens mitológicas, encon-
limites espaciais, através da transcendência do tempo linear. Já fala- tros ou até identificação com divindades e demônios de várias cul-
mos sobre a possibilidade de uma revivência vívida de memórias da turas e comunicação com seres desencamados, guias espirituais,
primeira infância e do trauma do nascimento. Essa regressão históri- entidades supra-humanas, extraterrestres e habitantes de universos
ca pode ir mais além e envolver memórias autênticas fetais e embriô- paralelos. Nos seus casos extremos, a consciência pode se identifi-
nicas, de períodos distintos da vida intra-uterina. Tampouco é inco- car com a Consciência Cósmica, ou com a Mente Universal, co-
mum vivenciar, no nível de consciência celular, uma identificação to- nhecida sob muitos nomes diferentes - Brahma, Buda, o Cristo
tal com o espermatozóide e o óvulo no momento da concepção. Cósmico, Keter, Alá, o Tao, o Grande Espírito e muitos outros. A
Mas a regressão histórica não pára aqui, e é possível ter expe- experiência máxima parece ser a identificação com o vazio supra-
riências de vida de nossos antepassados humanos ou animais, ou cósmico ou metacósmico, o vazio misterioso e primordial e o nada
até aquelas que parecem vir do inconsciente coletivo e racial como que é consciente de si mesmo e é o berço último de toda existência.
foi descrito por C.G. Jung (Jung, 1956; 1959). Com bastante fre- Ele não tem um conteúdo concreto e, no entanto, parece conter
qüência, as experiências que parecem estar ocorrendo em outras tudo que existe em uma forma germinal e potencial.
culturas e períodos históricos são associadas com uma sensação de As experiências transpessoais têm muitas características es-
lembrança pessoal. Nesse caso, as pessoas falam que estão revi- tranhas que rompem todas as premissas metafisicas mais básicas
vendo memórias de vidas passadas, de encarnações anteriores. do paradigma newtoniano-cartesiano e da visão materialista do
Nas experiências transpessoais descritas até aqui, o conteúdo mundo. Os pesquisadores que estudaram esses fenômenos fasci-
reflete vários fenômenos que existem no espaço-tempo. Elas en- nantes - ou os vivenciaram pessoalmente - compreendem que as
volvem elementos da realidade cotidiana familiar - outras pessoas, tentativas da ciência oficial de menosprezá-los considerando-os
animais, plantas, materiais e eventos do passado. O que é surpreen- produtos irrelevantes da fantasia e imaginação humanas ou como
dente aqui não é o conteúdo dessas experiências e sim o fato que alucinações - produtos erráticos de processos patológicos no cé-
podemos observar ou nos identificarmos plenamente com algo que rebro - são ingênuas e inadequadas. Um estudo não preconcei-
normalmente não é acessível a nossa experiência. Sabemos que tuoso da esfera transpessoal da psique tem de chegar à conclusão
existem baleias grávidas no mundo, mas não deveríamos ser capa- de que essas observações representam um desafio crucial, não só
zes de ter uma experiência autêntica de ser uma delas. O fato de a para a psiquiatria e para a psicologia, mas também para toda a fi-
Revolução Francesa ter existido é facilmente admissível, mas não losofia da ciência ocidental.

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Embora as experiências transpessoais ocorram no processo com a psicologia, a etologia, hábitos específicos ou ciclos reprodu-
de profunda auto-exploração individual, não é possível intelpre- tivos pouco comuns de animais. Em alguns casos, isso era acompa-
tá-las simplesmente como fenômenos intrapsíquicos no sentido nhado por inervações musculares arcaicas não características dos
convencional. Por um lado, elas aparecem no mesmo contínuo ex- seres humanos, ou mesmo comportamentos tão complexos como o
periencial das experiências biográficas e perinatais e, portanto, desempenho de uma dança de "fazer a corte".
vêem de dentro da psique individual. Por outro lado, elas parecem
O desafio filosófico associado com as observações já descritas,
ser capazes de recorrer, diretamente e sem a mediação dos senti-
por mais extraordinário que possa ser em si mesmo é ainda maior
dos, a fontes de informação que estão claramente muito além do
alcance convencional do indivíduo. Em algum lugar no nível peri- pelo fato de que as experiências transpessoais que refletem correta-
mente o mundo material, muitas vezes aparecem no mesmo contí-
natal da psique, um estranho estremecimento como o do matemáti-
nuo e intimamente emaranhadas com outras que contêm elementos
co Moebius parece ocorrer e aquilo que até então era uma investi-
que o mundo ocidental industrial não considera verdadeiros. Aqui
gação intrapsíquica passa a ser uma vivência do universo como
um todo através de meios extra-sensoriais. pertencem, por exemplo, as experiências que envolvem divindades
e demônios de várias culturas, domínios mitológicos tais como céus
Essas observações indicam que podemos obter informações e paraísos, e seqüências lendárias ou de contos de fadas.
sobre o universo de duas maneiras radicalmente diferentes: além
Podemos, por exemplo, ter uma experiência do céu de Shiva,
da possibilidade convencional de aprender através da percepção
do paraíso de Tlaloc, o deus da chuva asteca, do submundo sumeri-
sensorial e da análise e síntese de dados, podemos também desco-
ano, ou de um dos infernos quentes budistas. É possível também
brir a respeito de vários aspectos do mundo através de uma identifi-
sentirmos como se fôssemos Jesus na cruz, ou termos um encontro
cação direta com eles em um estado holotrópico da consciência.
surpreendente com a deusa hindu Kali, ou identificar-nos com Shi-
Cada um de nós, portanto, parece ser um microcosmo contendo, de
va Dança. Esses episódios podem até fornecer novas informações
uma maneira holográfica, a informação sobre o macrocosmo. Nas
corretas sobre simbolismo religioso e temas míticos que eram ante-
tradições místicas, isso era expresso por frases tais como "tudo o
riormente desconhecidos pela pessoa envolvida. Observações des-
que está em cima é igual a tudo o que está embaixo" ou "tudo o que
se tipo confirmam a idéia de C.G. Jung de que, além do inconscien-
está fora, é igual a tudo o que está dentro".
te freudiano individual, podemos também acessar o inconsciente
Relatos de sujeitos que vivenciaram episódios de existência coletivo que contém o patrimônio cultural de toda a humanidade
embriônica, o momento da concepção, e elementos de consciência (Jung, 1959).
celular, tecidual e dos órgãos, abundam em insights médicos apu-
A existência e natureza das experiências transpessoais violam
rados sobre os aspectos anatômicos, fisiológicos e bioquímicos
algumas das premissas mais básicas da ciência mecanicística.
dos processos envolvidos. Da mesma forma, memórias ancestrais,
Envolvem noções tão aparentemente absurdas como a relativida-
raciais e coletivas e experiências de encarnações passadas nos dão
de e a natureza arbitrária de todos os limites fisicos, as conexões
muitas vezes detalhes muito específicos sobre arquitetura, costu-
não-locais no universo, a comunicação através de meios e canais
mes, armas, formas artísticas, estrutura social e práticas religiosas
desconhecidos, a memória sem um substrato material, a não-linea-
e rituais das culturas e períodos históricos envolvidos, ou até mes-
mo sobre eventos históricos concretos. ridade do tempo, ou a consciência associada com todos os organis-
mos vivos, e até com a matéria inorgânica. Muitas experiências
As pessoas que vivenciam experiências filo genéticas ou iden- transpessoais envolvem eventos do microcosmo e do macrocos-
tificação com formas de vida existentes não só acham que elas são mo, domínios que normalmente não podem ser atingidos pelos
extraordinariamente autênticas e convincentes, mas também ad- sentidos humanos sozinhos, ou de períodos históricos que prece-
quiriram nessa experiência insights extraordinários relacionados dem a origem do sistema solar, a formação do planeta Terra, a apa-

142 143
rição de organismos vivos, o desenvolvimento do sistema nervoso flito psicológico, a importância da dinâmica familiar e dos relacio-
e a emergência do homo sapiens. namentos interpessoais e o impacto do ambiente social.
A pesquisa dos estados holotrópicos, portanto, revela um para- As observações do estudo de estados holotrópicos de cons-
doxo desconcertante com relação à natureza dos seres humanos. ciência mostram que os distúrbios emocionais e psicossomáticos,
Ela claramente demonstra que, de uma maneira misteriosa e ainda inclusive muitos estados atualmente diagnosticados como psicóti-
inexplicável, cada um de nós contém a informação sobre o universo cos, não podem ser adequadamente compreendidos apenas através
inteiro e sobre toda a existência, tem acesso experiencial potencial a das dificuldades no desenvolvimento pós-natal. Segundo aos no-
todas suas partes e, em um certo sentido, na medida em que somos vos insights, essas condições têm uma estrutura multidimensional
apenas uma parte infinitesimal da rede cósmica e uma entidade bio- e de vários níveis, com raízes importantes adicionais no nível peri-
lógica separada e insignificante, somos também a rede cósmica em natal (trauma do nascimento) e no domínio transpessoal (memó-
sua totalidade. A nova cartografia reflete esse fato e retrata a psique rias ancestrais, raciais e coletivas, experiências cármicas e dinâmi-
individual humana como sendo essencialmente equivalente ao cos- ca arquetípica). Levando esses elementos em consideração temos
mos inteiro e à totalidade da existência. Por mais absurda e implau- um quadro radicalmente novo muito mais amplo e completo da
sível que possa parecer essa idéia a um cientista qualificado e ao "psicopatologia. "
nosso sentido comum, ele pode ser reconciliado, sem muita dificul-
O reconhecimento das raízes perinatais e transpessoais dos
dade, com os novos desenvolvimentos revolucionários que são nor-
distúrbios emocionais não implica que os fatores biográficos pós-
malmente chamados de o novo ou emergente paradigma (Bohm,
natais, descritos pela psicanálise, sejam irrelevantes para seu de-
1980; Sheldrake, 1981; Laszlo, 1994). senvolvimento. Os eventos na primeira infância e na infância em
A cartografia ampliada esboçada acima é de importância cru- geral certamente continuam a desempenhar um papel importante
cial para qualquer abordagem a fenômenos tais como o xamanis- no quadro geral. No entanto, em vez de representar a fonte des-
mo, os ritos de passagem, o misticismo, a religião, a mitologia, a ses distúrbios, eles passam a ser determinantes importantes para a
parapsicologia, as experiências de quase-morte e estados psicodé- emergência de material psicológico de níveis mais profundos do
licos. Esse novo modelo de psique não é apenas uma questão de in- inconsciente.
teresse acadêmico. Como veremos nas sessões que se seguem, ele O registro inconsciente das experiências associadas com o
tem implicações profundas e revolucionárias para a compreensão nascimento representam uma rede universal de emoções dificeis e
de distúrbios emocionais e psicossomáticos, inclusive psicoses, e sensações fisicas que constituem uma fonte potencial para várias
oferece perspectivas novas e excitantes para a terapia. formas de psicopatologia. Se sintomas e síndromes manifestas irão
realmente se desenvolver, e que forma irão tomar, depende, en-
tão, da influência reforçadora de eventos traumáticos na história
6. A natureza e a arquitetura das doenças emocionais e psi-
cossomáticas pós-natal ou, ao contrário, dos efeitos mitigantes dos vários fatores
biográficos. Além disso, os distúrbios emocionais e psicossomáti-
A psiquiatria tradicional usa como explicação para os vários cos podem ser co-determinados por vários fatores transpessoais,
distúrbios que não têm uma base orgânica ("psicopatologia psico- tais como elementos cármicos, arquetípicos ou filogenéticos. Eles
gênica") modelos explicativos que se limitam à biografia pós-natal são, assim, o resultado de uma rede complexa de influências recí-
e ao inconsciente freudiano individual. Esses modelos dão ênfase a procas entre fatores biográficos, perinatais e transpessoais.
fatores tais como influências traumáticas na primeira infância e na Assim, por exemplo, uma pessoa que sofre de asma psicogené-
infância em geral e, da vida tardia, o potencial patogênico do con- tica pode atribuir a origem desse distúrbio a uma situação de quase
afogamento na idade de sete anos, memórias de ser quase estrangu-

144 145
lado por um irmão mais velho, um episódio de coqueluche na pri- ordinários da consciência. O princípio básico da terapia holotrópi-
meira infância, asfixia durante o parto e experiências de vidas pas- ca é que os sintomas dos distúrbios emocionais representam uma
sadas envolvendo estrangulamento e enforcamento. Da mesma ma- tentativa do organismo de se livrar de impressões traumáticas anti-
neira, o material subjacente à claustrofobia pode incluir memórias gas, de se curar, e de simplificar seu funcionamento. Portanto, não
infantis de ser trancado repetidamente em um armário ou em um são unicamente um incômodo e complicação na vida, mas também
porão na infância, o uso de cueiros, um parto dificil e episódios de uma oportunidade importante.
vida passada de encarceramento em uma masmorra medieval e um A terapia eficaz, portanto, consiste em ativação temporária, in-
campo de concentração nazista, e assim por diante. tensificação e subseqüente resolução dos sintomas. Esse é um prin-
A abrangência deste trabalho não me permite demonstrar quão cípio que a terapia holotrópica compartilha com a homeopatia.
profundamente as novas observações mudam nossa compreensão Um terapeuta homeopata tem a tarefa de identificar e utilizar
de um espectro amplo de distúrbios emocionais e psicossomáticos o remédio que, em pessoas saudáveis, durante os chamados tes-
específicos. Tenho de sugerir ao leitor interessado que leia uma pu- tes, produz exatamente os sintomas manifestados pelo paciente
blicação anterior minha onde fiz essa demonstração com um deta- (Vithoulkas, 1980). O estado holotrópico da consciência tende a
lhamento considerável (Grof, 1985). Neste contexto, posso apenas funcionar como um remédio homeopático universal no sentido de
enfatizar que o novo modelo conceitual nos oferece explicações, que ele ativa quaisquer sintomas existentes e exterioriza os sinto-
muito mais completas e convincentes para muitas formas de "psico- mas que estão latentes.
patologias" e seus vários aspectos, que não poderiam ser adequada- Esse entendimento não se aplica unicamente a neuroses e dis-
mente explicados pelas escolas existentes de psicologia profunda. túrbios psicossomáticos, mas também a muitas condições que psi-
quiatras da corrente oficial diagnosticariam como psicótico e con-
sideram como sendo manifestações de doença mental séria (crises
7. Mecanismos terapêuticos e o processo de cura
psicoespirituais ou "emergências espirituais"). A incapacidade de
reconhecer o potencial de cura dessas condições extremas reflete a
o novo entendimento das dimensões da psique humana e da
estreiteza do modelo conceitual da psiquiatria ocidental que é limi-
arquitetura dos distúrbios emocionais e psicossomáticos descritos
tada à biografia pós-natal e ao inconsciente individual. As expe-
acima têm implicações profundas para a terapia. A psicoterapia
riências para as quais esse modelo não fornece uma explicação ló-
tradicional conhece apenas mecanismos terapêuticos que operam
gica são então atribuídas a um processo patológico de origem des-
no nível do material biográfico, tais como a lembrança de eventos conhecida.
esquecidos, a remoção da repressão, a reconstrução do passado
através de sonhos, a revivência de memórias traumáticas da in- Uma análise cuidadosa da fenomenologia das emergências es-
fância e a análise de transferência. O trabalho com estados holo- pirituais demonstra que elas constituem várias combinações de
trópicos revela muitos outros mecanismos importantes adicionais experiências perinatais, transpessoais e biográficas. Como a nova
para a cura e a transformação da personalidade que se tomam dis- cartografia ampliada inclui os elementos de todos esses domínios,
poníveis quando nossa consciência atinge os níveis perinatais e um modelo conceitual que o incorpora não tem de explicar a ori-
transpessoais. gem do conteúdo desses episódios. Seus elementos experienciais
pertencem a níveis profundos da psique humana per se, compreen-
Essa abordagem pode ser denominada de estratégia holotrópi- didos dessa forma abrangente (a anima mundi de Jung).
ca de psicoterapia. Ela representa uma alternativa importante às
técnicas de várias escolas de psicologia profunda, que enfatizam o A explicação teórica só deve explicar o fato de que algumas
intercâmbio verbal entre oCa) terapeuta e o paciente, assim como pessoas necessitam envolver-se em práticas espirituais sistemáti-
àquelas terapias experienciais que são levadas a cabo em estados cas, respirar mais rápido ou ingerir uma substância psicodélica

146 147
para atingir esses níveis da psique, enquanto que para outras o con- gência e profundidade dessa situação correlaciona-se, aproxima-
teúdo mais profundo emerge no meio de sua vida cotidiana. Os pa- damente, com a seriedade da doença resultante - desenvolvimento
drões específicos das experiências que constituem esses episódios de fenômenos neuróticos ou psicóticos. Uma situação como essa
podem ser entendidos através dos princípios gerais que governam representa uma crise ou até uma emergência, mas também uma
a dinâmica da psique (coex) (sistemas, matrizes perinatais, dinâ- grande oportunidade.
mica arquetípica, etc.).
O objetivo principal da estratégia holotrópica de cura é ativar o
inconsciente e libertar a energia presa aos sintomas emocionais e
8. A estratégia da psicoterapia e da auto-exploração psicossomáticos, que converte esses sintomas em uma corrente de
experiência. A tarefa do facilitador ou terapeuta na terapia holotró-
O objetivo na psicoterapia tradicional é alcançar uma compre- pica, então, é dar apoio ao processo experiencial com total confian-
ensão intelectual de como a psique funciona e por que os sintomas ça em sua natureza curadora, sem tentar direcioná-lo ou modifi-
se desenvolvem e extrair dessa compreensão uma técnica e uma es- cá-lo. Esse processo é orientado pela própria inteligência curadora
tratégia que tornaria possível corrigir o funcionamento emocional do paciente. O termo terapeuta é usado aqui no sentido do grego
dos pacientes. Um sério problema com essa abordagem é a falta ex- therapeutes, que significa a pessoa que ajuda no processo de cura,
traordinária de acordo entre os psicólogos e psiquiatras sobre ques- e não um agente ativo cuja tarefa é "consertar o paciente".
tões fundamentais, o que resulta em um número surpreendente de Algumas experiências curadoras e transformadoras poderosas
escolas de psicoterapia que competem entre si. O trabalho com es- podem não ter qualquer conteúdo específico; consistem de seqüên-
tados holotrópicos nos mostra uma alternativa radical surpreen- cias de construção intensa de emoções e de tensão fisica e subse-
dente - a mobilização da inteligência interna profunda dos pró- qüente libertação e relaxamento profundo. Com freqüência, os in-
prios pacientes que guia o processo de cura e transformação. sights e conteúdos específicos emergem mais tarde no processo ou
Uma premissa importante da estratégia holotrópica é que em mesmo nas sessões seguintes. Em alguns casos a resolução ocorre
nossa cultura uma pessoa média opera de um modo muito abaixo no nível biográfico, em outras em conexão com o material perina-
de seu real potencial e capacidade. Esse empobrecimento ocorre tal ou com vários temas transpessoais. Curas dramáticas e transfor-
porque elas se identificam apenas com um aspecto de seu ser, o cor- mações pessoais com efeitos duradouros muitas vezes resultam de
po fisico e o ego. Essa falsa identificação leva a um modo de vida experiências que totalmente eludem a compreensão racional. É im-
inautêntico, pouco saudável e insatisfatório e contribui para o de- portante que o terapeuta apóie o desdobramento experiencial, mes-
senvolvimento de distúrbios emocionais e psicossomáticos de ori- mo se ele ou ela não o entendem racionalmente. Naturalmente,
gem psicológica. O surgimento de sintomas que não têm qualquer com mais experiência, o terapeuta acumula um conhecimento sig-
base orgânica pode ser considerado como uma indicação de que o nificativo dos princípios gerais que servem de base ao processo,
indivíduo que opera com premissas falsas chegou a um ponto onde mas isso não evita que ele ou ela tenha surpresas. A dinâmica da
ficou óbvio que sua antiga maneira de ser no mundo não funciona psique é maravilhosamente criativa e não pode ser capturada em
mais e tornou-se insustentável. um conjunto de fórmulas rígidas aplicáveis de forma rotineira.
À medida que a orientação com relação ao mundo externo en-
tra em colapso, o conteúdo do inconsciente começa a emergir na 9. O papel da espiritualidade na vida humana
consciência. Esse colapso pode ocorrer em uma certa área limitada
da vida - tal como o casamento, a vida sexual, a orientação profis- Na visão do mundo da ciência materialista ocidental só a maté-
sional e a bpsca de realização de várias ambições pessoais - ou afli- ria existe realmente e não há lugar para qualquer forma de espiri-
gir simultaneamente a totalidade da vida do indivíduo. A abran- tualidade. Ser espiritual é visto como um sinal de falta de instrução,

148
149
de superstição, de um pensamento mágico primitivo, de fantasias
seuS membros, porque elas estimulam a independência e não po-
ambiciosas e imaturidade emocional. Experiências empíricas das dem ser controladas de maneira eficaz.
dimensões espirituais da realidade são consideradas como mani-
festações de doença mental séria, de psicoses. A pesquisa sobre es- As observações do estudo dos estados holotrópicos confir-
mam as idéias de c.G. Jung referentes à espiritualidade. Segundo
tados holotrópicos da consciência trouxe evidências de que, se pro-
priamente compreendida e praticada, a espiritualidade é uma di- ele, as experiências de níveis mais profundos da psique (em minha
mensão natural e importante da psique humana e do esquema uni- terminologia, experiências perinatais e transpessoais) têm uma
versal das coisas. certa qualidade que Jung denominou de numinosidade (conforme
Rudolph Otto). Os sujeitos que estão tendo essas experiências sen-
Para evitar a confusão e o desentendimento que no passado tem que estão encontrando uma dimensão que é sagrada, santa, ra-
atormentou as discussões sobre a vida espiritual e criou um falso dicalmente diferente da vida cotidiana, pertencente a uma outra or-
conflito entre religião e ciência é essencial deixarmos bem clara a dem da realidade. O termo numinosidade é relativamente neutro
diferença entre espiritualidade e religião. A espiritualidade é ba- e com isso preferível a outros, tais como "religioso", "místico",
seada em experiências diretas de dimensões da realidade que nor- "mágico", "santo", "sagrado", "oculto", e outros mais, que foram
malmente estão ocultas. Ela não exige, necessariamente, um lugar usados muitas vezes em contextos problemáticos e podem facil-
especial, ou uma pessoa especial mediadora do contato com o divi- mente levar a erro.
no, embora os místicos possam certamente se beneficiar de uma
orientação espiritual e de uma comunidade de pessoas que buscam As pessoas que têm experiências de dimensões numinosas da
a mesma coisa. A espiritualidade envolve um relacionamento es- realidade abrem-se à espiritualidade encontrada nas ramificações
pecial entre o indivíduo e o cosmos e é em sua essência algo pes- místicas das grandes religiões do mundo ou em suas ordens monás-
soal e privado. No advento de todas as grandes religiões ocorreram ticas, não necessariamente em suas organizações oficiais. A verda-
as experiências visionárias (perinatais e transpessoais) de seus fun- deira espiritualidade é universal e abrange tudo e baseia-se em uma
dadores, profetas, santos e até mesmo seguidores comuns. Todas as experiência mística pessoal, e não em um dogma ou nas escrituras
grandes escrituras espirituais - os Vedas, o Canon Pali Budista, o religiosas. As religiões oficiais organizadas unem as pessoas loca-
Alcorão, o Livro dos Mórmons e muitas outras - são baseadas em lizadas na área de seu raio, mas tendem a ser divisivas porque colo-
revelações em estados holotrópicos. cam seu próprio grupo contra todos os demais e muitas vezes ten-
dem a convertê-Ios ou a erradicá-Ios. Não pode existir nenhum
Por comparação, a base da religião organizada é atividade gru- conflito entre a verdadeira espiritualidade e a ciência entendida
paI institucionalizada que ocorre em um local designado (templo, corretamente. As experiências transpessoais são uma manifesta-
igreja, sinagoga), e envolve um sistema de mediadores oficiais.
ção natural da psique humana e não há nada não-científico em sub-
Idealmente, as religiões deveriam dar a seus membros acesso a ex- metê-Ias a um estudo sério.
periências espirituais diretas, e apoio durante essas experiências.
No entanto, o que ocorre muitas vezes é que, tão logo a religião se
torna organizada, ela mais ou menos perde a conexão com sua fon- 10. A natureza da realidade
te espiritual e passa a ser uma instituição secular explorando as
necessidades espirituais humanas sem satisfazê-Ias. Em vez disso, As revisões necessárias que discutimos até este momento fo-
ela cria um sistema hierárquico que tem como foco a busca do po- ram relacionadas com a teoria e a prática da psiquiatria, da psicolo-
der, do controle, da política, do dinheiro e outras possessões. Nes- gia e da psicoterapia. No entanto, o trabalho com estados holotró-
sas circunstâncias, a hierarquia religiosa tende a desencorajar ati- picos traz desafios de uma natureza muito mais básica. Muitas das
vamente, e até a suprimir, as experiências espirituais diretas de experiências e observações que ocorrem durante esse trabalho não
podem ser compreendidas no contexto da abordagem materialista

ISO
151
monística da realidade e, com isso, solapam as premissas metafisi- bioquímicos do cérebro, eles têm pouca relação com a natureza e
cas mais fundamentais da ciência ocidental. a origem da consciência. Examinemos mais detalhadamente as
O mais sério desses desafios conceituais refere-se à afirmação, observações clínicas relevantes e os experimentos de laboratório,
por parte da ciência materialista, de que a matéria é a única realida- bem assim como as interpretações da evidência forneci da pela
de e de que a consciência é seu produto. Essa tese já foi apresentada ciência tradicional. Não há dúvida de que os vários processos no
muitas vezes com grande autoridade como um fato científico que cérebro estão intimamente associados e correlacionados com mu-
já está comprovado sem qualquer dúvida razoável (Dennett, 1991; danças específicas na consciência. Um golpe na cabeça que provo-
Crick, 1994). No entanto, quando o submetemos a um exame mais que uma concussão cerebral ou uma compressão das artérias caró-
minucioso, fica claro que essa afirmação não é e nunca foi uma de- tidas limitando assim o fornecimento de oxigênio para o cérebro
claração científica séria e sim uma premissa metafisica disfarçada pode causar perda de consciência. Uma lesão ou tumor no lobo
de afirmação científica. A brecha entre matéria e consciência é tão temporal do cérebro é freqüentemente associado com mudanças
radical e tão profunda que é dificil imaginar que a consciência pos- muito características da consciência que são surpreendentemente
sa simplesmente surgir como um epifenômeno da complexidade diferentes daquelas observadas nas pessoas com um processo pa-
de processos materiais no sistema nervoso central. tológico no lobo pré-frontal.
Os sintomas associados com as várias lesões do cérebro são
Temos ampla evidência clínica e experimental que mostra cor-
relações profundas entre a anatomia, a fisiologia e a bioquímica do muitas vezes tão diferentes que podem ajudar o neurologista a
cérebro e os processos conscientes. No entanto, nenhuma dessas identificar a área afetada pelo processo patológico. Às vezes uma
descobertas nos dá uma indicação clara de que a consciência é ver- intervenção neurocirúrgica bem-sucedida pode corrigir o proble-
dadeiramente gerada pelo cérebro. A origem da consciência na ma- ma e a experiência consciente volta ao normal. Esses fatos são nor-
téria é simplesmente presumida como um fato óbvio e auto-eviden- malmente apresentados como evidência conclusiva de que o cére-
te, com base na crença do primado da matéria no universo. Em toda a bro é a fonte da consciência humana. À primeira vista, essas obser-
história da ciência, ninguémjamais ofereceu uma explicação plausí- vações podem aparecer impressionantes e convincentes. No entan-
vel sobre a geração da consciência através de processos materiais, to, elas não se sustentam se as submetemos a um exame mais minu-
ou até mesmo sugeriu uma abordagem viável para o problema. cioso. Para ser mais preciso, tudo o que esses dados demonstram
inequivocamente é que mudanças no funcionamento do cérebro
A idéia de que a consciência é um produto do cérebro natural- estão intimamente e bem especificamente relacionadas com mu-
mente não é totalmente arbitrária. Seus proponentes normalmente se danças na consciência. Mas eles dizem muito pouco com relação à
referem aos resultados de muitos experimentos neurológicos e psi- natureza da consciência e sobre sua origem. Na verdade, deixam
quiátricos, e a um corpo vasto de observações clínicas específicas essas questões totalmente em aberto. É certamente possível pensar
oriundas da neurologia, neurocirurgia e psiquiatria para sustentar em interpretações alternativas que usariam os mesmos dados, mas
sua posição. Quando questionamos essa crença tão profundamente chegariam a conclusões diferentes.
enraizada, estaremos querendo dizer que duvidamos da veracidade
dessas observações? A evidência para uma forte conexão entre a Isso pode ser ilustrado se examinarmos o relacionamento entre
anatomia do cérebro, a neurofisiologia e a consciência é inquestio- o aparelho de TV e a programação. A situação aqui é muito mais
nável e avassaladora. O que é problemático não é a natureza da evi- clara, já que envolve um sistema que é feito pelo homem e incom-
dência apresentada, e sim a interpretação de seus resultados, a lógica paravelmente mais simples. A recepção final do programa de TV, a
do argumento e as conclusões que são extraídas dessas observações. qualidade da imagem e do som dependem de uma maneira muito
crítica do funcionamento adequado do aparelho e da integridade de
Embora esses experimentos mostrem claramente que a cons- . seus componentes. Mau funcionamento de suas várias partes terá
ciência está intimamente ligada aos processos neurofisiológicos e como resultado mudanças muito diferentes e específicas na quali-

152 153
dade do programa. Algumas delas levam a distorções na forma, na cia oficial) não poderia fazer de jeito algum. Há, por exemplo, am-
cor, no som, outras à interferência entre os canais. Como o neurolo- pla evidência sugerindo que a consciência tem acesso à infonnação
gista que usa mudanças na consciência como uma ferramenta para que não está - e nem poderia estar - armazenada no cérebro. Ao
ajudar o diagnóstico, uni mecânico de televisão pode inferir, pela discutir as características das experiências transpessoais, referi-me
natureza das anomalias, que partes do aparelho e que componentes a várias situações nas quais estados visionários davam acesso a as-
específicos estão funcionando mal. Quando o problema é identifi- pectos precisos do universo que eram anteriormente desconheci-
cado, o conserto ou a substituição desses elementos corrigirá as dos do sujeito e que não poderiam ter sido adquiridos por meio dos
distorções. canais convencionais. Estudos de caso específicos ilustrando esse
Como conhecemos os princípios básicos da tecnologia da te- fenômeno podem ser encontrados em muitos de meus livros (Grof,
levisão, é óbvio para nós que o aparelho simplesmente intermedia 1975; 1985; 1988; 1992; 1998).
o programa, e que ele não o cria, nem contribui em nada para ele. No entanto, deixem focalizar em evidência ainda mais surpre-
Nos riríamos de alguma pessoa que tentasse examinar e esmiuçar endente que sugere que a consciência pode, em certas circunstân-
todos os transístores relés, e circuitos do aparelho de televisão e cias, desempenhar funções que vão muito mais além das capacida-
analisar todos os seus fios na tentativa de descobrir como ele cria des do cérebro. O que tenho em mente é a existência de experiên-
os programas. Mesmo se estendermos esse esforço mal-orientado cias fora-do-corpo (Obes) com percepção exata do ambiente. Essas
até os níveis molecular, atômico ou subatômico, ainda assim não experiências podem ocorrer espontaneamente, ou em uma varieda-
teremos a menor idéia de por que, em um determinado momento, de de situações facilitadoras que incluem o transe xamânico, ses-
um desenho animado do camundongo Mickey, ou um capítulo do sões psicodélicas, hipnose, psicoterapia experiencial e particular-
Star Trek, ou um clássico de Hol/ywood aparecem na tela. Ofato de mente experiências de quase-morte (NDE) (Moody, 1975; Ring,
que existe uma correlação assim tão próxima entre ofuncionamento 1982; 1985; Sabom, 1982). Em todas essas situações a consciência
do aparelho de televisão e a qualidade do programa não significa pode se separar do corpo e manter sua capacidade sensorial, ao
necessariamente que todos os segredos do programa estão no pró- mesmo tempo em que se movimenta livremente para lugares pró-
prio aparelho. No entanto, é exatamente esse tipo de conclusão que ximos ou distantes.
a ciência materialista tradicional extraiu de dados comparáveis a
De interesse especial são as OBE verídicas em que verifica-
respeito do cérebro e sua relação com a consciência.
ção independente prova a exatidão da percepção do ambiente nes-
Portanto, a ciência materialista ocidental ainda não foi capaz sas circunstâncias. Recentemente os tanatólogos Ring & Cooper
de produzir nenhuma evidência convincente de que a consciência é (1997) publicaram um estudo fascinante indicando que tais expe-
um produto de processos neurofisiológicos no cérebro. Aliás, ela riências podem ocorrer até mesmo em pessoas que são congenita-
só foi capaz de manter sua posição atual resistindo, censurando e mente cegas. Inúmeros relatos que confirmam a possibilidade des-
até ridicularizando um corpo vasto de observações indicando que a sa "aparente visão sem olhos", como Ring a chamou, deve, por si
consciência pode existir e funcionar independentemente do corpo só, dar aos cientistas oficiais razões suficientes para questionar se-
e dos sentidos fisicos. Essa evidência vem da parapsicologia, da riamente suas crenças referentes ao relacionamento entre a cons-
antropologia, da pesquisa sobre LSD, da psicoterapia experiencial, ciência e o cérebro e, em geral, entre a consciência e a matéria.
da tanatologia e do estudo de estados holotrópicos da consciência
que ocorrem espontaneamente.
Conclusões
Todas essas disciplinas colecionaram dados impressionantes
que demonstram claramente que a consciência humana é capaz de
Neste trabalho, tentei fazer um breve sumário de algumas das
fazer muitas coisas que o cérebro (como ele é entendido pela ciên-
observações mais surpreendentes e desafiadoras dos mais de qua-

154
155
renta anos de minha pesquisa sobre os estados holotrópicos da ELIADE, M. (1964). Shamanism: The archaic techniques of ecstasy.
consciência, focalizando, primordialmente, três áreas: terapia psi- Nova lorque: Pantheon Books.
codélica, trabalho de respiração holotrópica e trabalho clínico com
GREEN, E.E. & GREEN, A.M. (1978). Beyond biofeedback. Nova lor-
indivíduos passando por crises psicoespirituais espontâneas ("emer-
que: Delacorte.
gências espirituais"). O escopo deste artigo não me permitiu in-
cluir exemplos específicos e histórias de caso para sustentar minha GROF, e. & GROF, S. (1990). Stormy search for the selI A guide to per-
posição. No entanto, espero que, mesmo nessa forma sintética, eu sonal growth through transformational crisis. Los Angeles: 1.P. Tar-
tenha conseguido demonstrar que os estados holotrópicos mere- cher.
cem a séria atenção de pesquisadores e teóricos.
GROF, S. (1975). Realms of the human unconscious: Observations from
Os fenômenos associados com os estados holotrópicos são LSD research. Nova lorque: Viking.
verdadeiramente extraordinários, e não há dúvida de que eles não
- (1980). LSD Psychotherapy. Pomona, CA: Hunter House.
podem ser explicados em termos das teorias atuais de psiquiatria e
psicologia. Além disso, eles também questionam seriamente as - (1985). Beyond the brain: birth, death and transcendence in psy-
premissas filosóficas básicas da ciência ocidental, especialmente chotherapy. Albany, N.Y.: State University New York Press.
seu materialismo monístico. Os círculos acadêmicos ignoraram ou
- (1988). The adventure of self-discovery. Albany, N.Y.: State Univer-
não levaram a sério a evidência que foi coletada por várias verten-
sity New York Press.
tes da pesquisa moderna sobre consciência a esse respeito. Foram
assim capazes de evitar a crise conceitual radical que teria sido pro- - (1992). The holotropic mind: The three levels of consciousness and
vocada por uma avaliação crítica e não preconceituosa dos dados how they shape our lives. São Francisco, CA: Harper Collins.
existentes. Creio firmemente que essa avaliação levaria a uma mu-
- (1998). The cosmic game: explorations ofthefrontiers ofhuman COI1S-
dança radical em nosso entendimento da natureza humana e da na-
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tion. Nova Iorque: Harper & Row. entífica e a história do pensamento sobre a psique ou a alma, na Eu-
SCHULTES, R.E. & HOFFMANN, A. (1979). Plants ofthe Gods: ori- ropa. E a seguir aparesentarei um exame de alguns experimentos
gins ofhallucinogenic use. Nova Iorque: McGraw Hill Book.
realizados recentemente que demonstram que a consciência é mui-
to mais abrangente que o cérebro.
SHELDRAKE, R. (1981 ).A new science oflife. Los Angeles: J.B. Tarcher.
***
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Berkeley, CA: Transform. Depois de um longo período em que os cientistas preferiam
nem falar sobre ela, hoje a consciência retoma à pauta científica. E,
STAFFORD, P. (1977). Psychodelics Encyclopedia. Berkeley, CA: por mais estranho que pareça, mesmo na psicologia, o estudo da
And/Or Press.
consciência tem um certo ar de vanguarda um tanto perigoso. Em
VITHOULKAS, G. (1980). The science of homeopathy. Nova Iorque: uma reunião na Sociedade Britânica de psicologia a que assisti re-
Grave Press. centemente haviam acabado de criar um grupo sobre consciência e
todos os membros estavam temerosos de estarem no limite e se ar-
WASSON, R.G. et al.(1978). The road to eleusis: unveiling the secret of riscando; haviam muitas pessoas contrárias porque psicólogos fa-
the mysteries. Nova Iorque: Harcourt, Brace Jovanovich. lavam sobre consciência. Para as pessoas alheias à psicologia,
isso pode parecer um estranho paradoxo, mas o fato é que, embora
a consciência tenha se transformado em um tópico de moda e real-
mente importante, no campo da ciência, grande parte do pensa-
~ento sobre a consciência ainda está limitado pela visão materia-
lIsta que equipara consciência ao cérebro. Como cientistas, todos
nós fomos criados acreditando que a consciência está localizada
dentro de nossa cabeça e na ciência institucional, a maioria das pes-

158 159
soas acha que a consciência é apenas uma atividade do cérebro. É tanto, se o mundo é uma máquina, se os animais são máquinas, po-
bom lembrar que, ao contrário, as tradições espirituais e religiosas demos ter uma ciência totalmente mecânica e essa ainda é a base
sempre tiveram uma visão muito mais ampla da consciência e têm em que se apóia toda a ciência institucional. Se pensarmos que os
muito pouco contato com a visão científica muito mais restrita. animais são máquinas sem sentimento, sem pensamentos, então, é
Falarei por alguns minutos sobre a história da visão científica e claro, podemos tratá-Ios de qualquer maneira: cientistas podem
do pensamento europeu sobre a psique ou a alma. A seguir, fala- cortá-Ios para experimentos, os agricultores podem criá-Ios em fá-
rei sobre alguns experimentos que venho realizando recentemente bricas; o fato é que muitas das bases do pensamento moderno sobre
animais, agricultura e vivisseção apóiam-se nessa visão. Para Des-
que demonstram que a consciência é muito mais ampla que o cére-
bro e que a mente vai muito mais além do cérebro. Durante esta pa- cartes, a única coisa que não se enquadrava nessa visão mecânica
lestra, explicarei por que acho que a mente está interconectada tan- era a mente racional dos seres humanos. O corpo humano passou a
to através do espaço quanto do tempo, e é muito mais extensa que ser uma máquina como a de qualquer animal mas, em algum lugar
os limites físicos do cérebro. A idéia de que a alma - ou a psique - é do cérebro, essa misteriosa mente racional interagia com o tecido
muito mais que o cérebro é obviamente aceita sem discussão em nervoso de uma maneira que Descartes não conseguia entender.
Ele imaginou que essa interação ocorria na glândula pineal. A teo-
qualquer parte e essa visão ampla da psique era a visão normal na
ria moderna da natureza humana e da consciência é essencialmente
Europa. Na Grécia Antiga, Aristóteles a formulou de uma maneira
mais sistemática. Para ele, todos os seres vivos tinham uma psique a mesma que a de Descartes e, a não ser pelo fato de que o local da
alma andou uns 5 centímetros até o córtex cerebral, esse ainda é o
ou alma. A alma das plantas, a alma vegetativa organizava a forma
da planta e, portanto, um carvalho em crescimento era estimulado tipo de visão que encontramos predominantemente hoje em dia. Os
pela psique da planta a se transformar na forma madura do carva- materialistas dizem: "bem, como ninguém pode dizer o que é essa
lho. Seria algo como um plano invisível da árvore. Os animais tam- misteriosa alma humana e como ninguém pode dizer como ela in-
bém têm almas vegetativas, que organizam o crescimento do em- terage com o cérebro, vamos partir do princípio que ela simples-
brião, o desenvolvimento do corpo e sua manutenção em um esta- mente não existe, e que o cérebro é apenas maquinaria, é apenas um
do saudável. Mas, além disso, os animais tinham almas de animais computador e a consciência é, de alguma forma, gerada pela ativi-
relacionadas com os movimentos, a sensibilidade e os instintos. E, dade da maquinaria computacional do cérebro". Essa metáfora
é claro, a palavra animal vem do latim anima que quer dizer "um com o computador, uma versão atualizada da antiga metáfora que
ser com alma". Nós os seres humanos, além de termos uma alma comparava a vida a uma máquina, passou a dominar uma grande
vegetativa, que nos liga a todas as plantas, teríamos uma alma ani- parte do pensamento sobre consciência, particularmente nos de-
mal, que nos liga a todos os animais e uma alma intelectual, aquele partamentos de psicologia. Todas essas perspectivas, ou seja, tanto
aspecto especificamente humano da psique, que tem a ver com o a visão interacionista, que diz que a consciência interage com uma
parte do cérebro, como a visão materialista, localizam a consciên-
pensamento, a razão e a linguagem. Essa era a visão adotada na Eu-
cia dentro da cabeça. O resto do corpo é apenas maquinaria, e todo
ropa Medieval e por Santo Tomás de Aquino. Essa visão grega da
o nosso sistema médico baseia-se nesse paradigma, ou nesse mo-
psicologia foi incorporada pela teologia cristã. E essa foi também a
delo do meio ambiente e da natureza humana.
visão dos seres humanos e da natureza que foi ensinada nas univer-
sidades por toda a Europa até o século dezessete. O que vou lhes sugerir esta manhã é que essa visão é demasia-
'I
A revolução cartesiana no século dezessete mudou o curso do do limitada. É claro, já descobrimos muita coisa sobre o funciona-
mento do cérebro e dos nervos e esse é um conhecimento valioso e
pensamento acerca da psicologia na tradição científica. Para Des-
cartes, todos os animais e plantas, como todo o universo, eram ape- importante, e obviamente a consciência está diretamente relacio-
nas máquinas. Assim, a alma foi retirada de toda a natureza, já não nada com o cérebro, mas acho que ela é muito mais do que isso.
havia qualquer princípio dando vida aos animais e às plantas. Por- Para começar, gostaria que pensássemos sobre o que ocorre na

160 161
consciência durante a percepção, é um começo por meio de uma agora. Acho que quando vemos coisas nós projetamos imagens da-
experiência muito simples e direta. Usemos como exemplo vocês quilo que estamos vendo, que normalmente coincidem com o lugar
me vendo parado aqui. A explicação normal é que a luz, refletida onde as coisas que estamos vendo estão, ou seja, sua imagem de
mim projetada coincide com o lugar onde eu estou. Se não fosse as-
de mim, viaja através do campo eletromagnético, através da lente
de seus olhos, a imagem é invertida na retina, muda nas células reti- sim, ela seria uma ilusão ou uma alucinação. Eu acho que, em certo
nianas, os impulsos seguem pelos nervos ópticos, gerando mudan- sentido, nossas mentes literalmente se estendem para tocar tudo
ças complexas no córtex óptico e em outras partes do cérebro. Até que vemos e se olhamos as estrelas no céu à noite, nossas mentes li-
aí tudo bem. Tudo o que pode ser analisado, foi analisado pelos mé- teralmente se estendem por distâncias astronômicas para tocar
todos da neurofisiologia, e assim por diante. Mas então algo muito aquilo que estamos olhando. E se isso não é apenas um jogo de pa-
estranho ocorre: vocês formam uma imagem subjetiva de mim, em lavras, se nossas mentes realmente se estendem para tocar o que es-
tamos olhando, nós deveríamos ser capazes de influenciar as coi-
algum lugar dentro de sua cabeça. Bem, não existe nenhuma expli-
sas simplesmente olhando-as. Quando pensei nisso pela primeira
cação para que você deva formar essa imagem, na verdade, algu-
vez, pensei, "bem, como é que podemos provar isso?" E então pen-
mas pessoas chamariam isso de o hard problem o problema difícil
da consciência. Mas ainda mais misterioso é o fato de que você não sei "bem, que tal se escolhermos algo que possa ser bastante sensí-
vel, por exemplo, as pessoas". Será que o fato de serem olhadas po-
sente que a minha imagem está localizada dentro de sua cabeça. O
deria influenciar as pessoas? É claro, se você vir que estou lhe
que imagino é que você vivencia sua imagem de mim, como se ela
estivesse localizada no lugar onde eu estou. O que vou sugerir ago- olhando, você será influenciado pelas razões psicológicas nor-
ra é uma idéia tão simples que fica muito difícil de entender. Essa mais, mas e se olharmos uma pessoa pelas costas e ela não souber
idéia é que sua imagem de mim é uma imagem - ela está na sua que estamos ali? As pessoas sentem quando estão sendo olhadas
mente. Mas ao mesmo tempo, sua imagem de mim está localizada pelas costas? No momento em que você faz essa pergunta, você
exatamente onde parece estar, ou seja, aqui, e não dentro de sua ca- compreende que a sensação de ser olhada fixamente pelas costas
é uma experiência cotidiana, muito comum. Levantamentos na
beça. Ela está localizada fora de sua cabeça, no ambiente, onde a
Grã-Bretanha mostraram que 90% da população já tiveram essa
imagem parece estar. Esse fato tão simples da experiência é algo
experiência. Existem pequenas diferenças de gênero - mais mu-
que todos nós aprendemos a negar ou a rejeitar. Os dados mais ime-
diatos de nossa experiência foram rejeitados a favor de uma teoria lheres do que homens tiveram a experiência de serem olhados e de
atribuída a Descartes e a outros filósofos, e o curioso é que essa vi- se virarem e mais homens que mulheres tiveram a experiência de
são das coisas domina nosso pensamento, e com isso faz com que fazer com que outras pessoas se virassem olhando para elas. Cerca
de 90 por cento da população já teve essa experiência e eu imagino
neguemos nossa experiência mais imediata.
que a maioria das pessoas nesta sala já vivenciou esse fenômeno
Os alunos de psicologia, pelo menos na Grã-Bretanha, que fo- de uma forma ou de outra. Temos aqui um fato muito interessante:
ram criados tendo essa rejeição reforçada - no primeiro ano de seu inúmeras pessoas crêem poder influenciar outras simplesmente olhan-
curso lhes ensinam que, no passado, pessoas burras e ignorantes do para elas, ou que elas sabem quando uma outra pessoa está
pensavam que a percepção ocorria porque algo saía de seus olhos olhando para elas pelas costas.
enquanto que nós, modernos, pessoas inteligentes e instruídas, sa-
O que é que a ciência tem a nos dizer sobre esse fato tão conhe-
bemos que ela ocorre porque a luz entra nos olhos. A teoria da in;
cido? A maioria dos cientistas acha que só porque a maioria das
tromissão da percepção é tratada como se fosse a única verdade. E
pessoas acredita nesse fato, ele deve ser falso. Isso é um argumento
claro, as teorias tradicionais não negam que algo entra nos olhos,
muito estranho: é claro que se muitas pessoas acreditam em algu-
mas na maior parte do mundo acredita-se que a visão envolve um
ma coisa isso não prova que ela é verdadeira, mas certamente tam-
movimento para fora, bem assim como um movimento para den-
tro. E essa idéia de que algo entra e sai é o que estou lhes sugerindo bém não prova que ela é falsa, e é uma boa justificativa, se ela é

162 163
uma ilusão, pelo menos para examinar como surge essa ilusão. No as inteiras de investigação é uma das maneiras de limitar o conhe-
entanto, esse fenômeno é uma espécie de tabu, e esteve totalmente cimento científico. O que quero dizer agora é que esse fenômeno,
se é verdadeiro, tem muita coisa a nos dizer sobre a natureza da
fora da pauta científica. É possível ler toda a literatura publicada
sobre esse assunto no espaço de uma única tarde ou, se lermos o su- mente. Sugere que nossa mente realmente se estende para influen-
mário dele em meu livro Seven experiments, levaremos uns 10 mi- ciar aquilo que estamos olhando. Se nossa mente pode influenciar
nutos. Há menos que 10 trabalhos publicados sobre o assunto des- outras pessoas ou outras coisas à distância, isso é uma coisa muito,
de 1890 e essa é uma área que foi incrivelmente negligenciada. muito importante a ser levada em consideração, porque mostra que
Acho que os psicólogos a negligenciaram porque tiveram todas es- a mente pode ter efeitos não-locais.
sas aulas em seu primeiro ano lhes dizendo que só pessoas burras e Será, então, que as pessoas realmente sabem quando estão sen-
ridículas acreditam na idéia de que algo sai do olho, e eles não que- do olhadas pelas costas? É possível elaborarmos experimentos ex-
rem parecer burros, é claro, e por isso nunca mencionam o fato em tremamente simples para testar essa idéia. Em meu livro Seven ex-
público. Mas penso que o verdadeiro motivo para isso ter sido um periments that could change the world um de meus experimentos
tema tabu é porque, à época do Iluminismo, quando muitos intelec- está voltado para esse fenômeno, a sensação de estar sendo olhado
tuais na Europa tiveram a idéia da marcha do progresso da ciência e pelas costas. Meu objetivo no livro era pensar sobre experimentos
da razão, o que eles queriam deixar para trás eram coisas como a re- radicais que pudessem mudar nossa visão da realidade e que pu-
ligião, a superstição e a irracionalidade, e esse fenômeno da in- dessem ser realizados com orçamentos de 20 dólares ou menos
fluência dos olhos foi classificado como superstição e rejeitado pe- porque, a não ser pela oferta maravilhosa que tivemos essa manhã
los cientistas. da Fundação Bial, normalmente não é possível conseguir fundos
Acho que uma das razões que contribuiu para que ele fosse para pesquisas científicas radicais. Portanto, a forma de lidar com
classificado como superstição é que no mundo todo existe muito essa situação é realizar experimentos tão baratos que não necessitem
folclore sobre o poder dos olhos, do olhar. Acreditam que você de doações. E o experimento para testar a sensação de estar sendo
pode influenciar as pessoas - ou animais, ou crianças, ou coisas - olhado fixamente é praticamente grátis - esse, na verdade, é de gra-
olhando para elas, apenas olhando para elas. Na Índia, acreditam ça. É algo que todos nesta sala podem fazer e tem as mais profundas
que se um homem santo ou uma mulher santa olhar para você, você conseqüências. Já foi realizado em grande escala: os resultados fo-
recebe uma bênção desse olhar, do darchan porque darchan signi- ram extraordinariamente positivos e significativos; é um experi-
fica literalmente olhar, e, portanto, há um efeito positivo no olhar. mento que pode ser facilmente repetido. Eu o descreverei para vocês
Mas no mundo todo encontramos também muitas crenças popula- rapidamente. Nesse experimento básico, as pessoas trabalham em
res que dizem que se uma pessoa olha para outra, ou para uma pares. Uma pessoa senta de costas para a outra; as duas usam uma
criança, ou para um animal, com raiva, ou especialmente com in- venda - eu uso essas vendas da Virgin Atlantic Airways, uma forma
veja, o olhar dela terá um efeito prejudicial naquilo que foi olhado. conveniente de venda. A outra pessoa senta atrás da primeira e, em
Em inglês, chamamos isso de evil eye (olho mau); em português uma seqüência aleatória, elas ou olham para a nuca da outra ou não.
diz-se "mal olhado" e há um nome em quase todas as línguas para Há uma série de 20 tentativas. Para indicar o começo de uma tentati-
esse fenômeno. E por que existe uma crença tão forte nisso, e por va elas dão um sinal, que é feito com um clique mecânico, para evitar
que ela era tão forte em toda a Europa e ainda é forte em muitas par- que sejam dadas deixas - eu uso essas coisas de plástico que tiro de
tes da Europa e por todo o mundo árabe, na Índia e na África, en- cabides que vêm das lojas de roupas Marks and Spencer e eles indi-
contramos essa crença em praticamente todos os lugares, eu acho cam o começo de um teste. A pessoa que está sentada ali tem de
que essa é uma das razões pelas quais os cientistas nunca quiseram adivinhar se está ou não sendo olhada. Nos testes de olhar, a pessoa
lidar com o assunto. Eles a classificaram como superstição e a reje- olha fixamente para a nuca da outra e nos testes de não olhar olha
itaram totalmente. Acho que essa criação de tabus e rejeição de áre- para o outro lado e pensa em outra coisa. Esses experimentos muito

164 165
simples são os testes básicos, que eu tenho realizado. Mais tarde fa- eles só teriam trapaceado nos testes de olhar e, de alguma forma,
larei sobre versões mais sofisticadas. Mas esses experimentos dão fosse lá qual fosse o sinal, as pessoas não reconheceriam a ausência
resultados incrivelmente consistentes. nos testes de não olhar. Isso não seria coerente nem com trapaça nem
com deixas sutis. Ora, esses experimentos já foram feitos em uma
Vocês podem ver aqui os resultados da percentagem de suposi- escala gigantesca e eu sintetizei os resultados cumulativos, até ago-
ções corretas em alguns experimentos. Esses foram os primeiros ra, um total de cerca de 18.000 suposições. Aqui estão os testes de
experimentos que fiz com grupos de adultos em oficinas e seminá- não olhar e esses são os totais de suposições, corretas e incorretas.
rios. Os resultados gerais - 50% é o nível de probabilidade e nor-
malmente 55% das suposições estavam corretas e 45% erradas. Não Essa aqui é uma outra maneira de fazer a contagem dos resulta-
é um efeito muito grande, mas algumas pessoas são muito mais sen- dos. Aliás, estatisticamente essa é melhor, ela me foi sugerida por
síveis que outras. Esse é um efeito médio em grandes grupos de sujei- um cético, o Professor Nicholas Humphrey, um dos mais impor-
tos não selecionados, com observadores também não selecionados, tantes estudiosos do assunto, mas, como ele também é amigo meu,
nós muitas vezes discutimos esses resultados. Ele sugeriu que a
porque algumas pessoas olham melhor que as outras, têm um olhar
mais intenso. Mas aqui vocês vêem uma marca muito característica melhor maneira de fazer a contagem é a seguinte: pegar cada um
desse efeito. Nos testes de olhar, os sucessos eram cerca de 60% e dos participantes que faz 20 testes, descobrir quantos participantes
nos testes de não olhar é mais ou menos no nível da probabilidade. obtêm 11 ou mais suposições corretas, pessoas que acertam mais
vezes do que erram - quantos participantes obtêm 9 ou menos cor-
Esses experimentos foram repetidos em uma série de escolas na Ale-
manha e na América, realizados por professores sob minha orienta- retas - pessoas que erram mais do que acertam - e ignorar as pes-
soas que obtêm exatamente meio a meio. Quando examinamos os
ção. Nesse caso vocês vêem exatamente o mesmo padrão outra vez,
testes dessa maneira, os participantes que acertaram mais do que
só que o efeito é maior. As crianças são mais sensíveis a esse teste
erraram por comparação aos que erraram mais do que acertaram
do que os adultos e agora faço esses experimentos principalmente são os dos testes de olhar.
com crianças, porque elas são melhores.
A significância estatística desse efeito é 1 em 10 elevado a 37
Aqui vocês vêem uma vez mais que o efeito do olhar nos testes
que representa uma probabilidade de trilhões e trilhões contra um.
é grande, e que não há nenhum efeito nos testes de não olhar; os to-
tais são a média dos dois. A princípio, quando pensamos nisso, fi- São efeitos incrivelmente significativos. No caso dos testes de não
olhar, a significância foi nula. Então, nesse caso, temos uma enor-
quei intrigado, mas faz sentido: se realmente existe uma sensação
de ser olhado, é de se esperar que a sensação funcione quando a me significância e no outro nenhuma significância, essa é uma di-
ferença dramática. E nesses resultados aqui, que, é claro, são a
pessoa está sendo olhada. Nos testes de não olhar, nos testes de
controle, você está pedindo aos participantes que descubram a au- combinação dos outros dois, o efeito geral, a significância é de 102
sência de uma sensação. Na vida real, normalmente não temos prá- para 1, contra a possibilidade de casualidade. Portanto, aqui temos
tica em descobrir quando não estão nos olhando. Essa é uma situa- um método experimental que é extremamente fácil de ser repetido,
que não custa nada, que pode ser feito nas salas de aula dos colé-
ção completamente artificial e irrealista, e nos testes de não olhar
gios ou universidades e já está sendo realizado em escolas em
as pessoas estão apenas adivinhando, os resultados não são melho-
todo o sistema escolar do estado de Connecticut na América, e na
res que a probabilidade. Esse padrão, que é uma marca característi-
ca desses resultados experimentais, é interessante de outro ponto Grã-Bretanha em escolas no norte da Inglaterra como uma aula
de vista, porque também atua como um controle interno contra frau- prática padrão para as crianças explorarem fenômenos que não es-
des ou deixas sutis. Se os alunos estivessem trapaceando falando tão no mapa psicológico comum. As crianças adoram fazer esses
baixinho um com o outro, ou fazendo sinais, seria de se esperar que ~Xperimentos porque estão interessados no fenômeno, todas elas
melhorassem sua contagem no caso de olhar, e também no caso de Já .Ouviram falar dele. Os professores também gostam porque as
não olhar, não se poderia esperar um efeito seletivo indicando que cnanças têm um experimento que realmente querem fazer. Todo

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166
o mundo gosta porque é de graça, e eu gosto porque obtenho mui- te e outras pessoas cujo negócio é olhar outras pessoas. A maioria
tos dados produzidos de graça, porque as pessoas me enviam seus das pessoas fica constrangida de olhar fixamente para outra pessoa
dados. Se algum de vocês quiser fazer esses experimentos, com seus durante muito tempo, mas há pessoas cujo trabalho é fazer exata-
amigos ou alunos, pode baixar o procedimento completo, inclusive mente isso o dia todo e, é claro, elas têm muito mais experiência
as folhas para a contagem dos pontos já ponderadas, do meu site na que a maioria. A maior parte dessas pessoas que são observadores
Internet e eu gostaria de encorajá-Ios a tentar fazer o experimento profissionais dos demais está muito consciente desse fenômeno, e
porque é um procedimento que pode ser repetido. É claro, para obter alguns daqueles que operam sistemas de segurança em shoppings,
resultados estatísticos são necessárias amostragens bem grandes. O edificios, aeroportos e hospitais também estão muito conscientes
resultado não seria estatisticamente significativo com apenas dez ou desse efeito. Em uma das principais lojas de departamento de Lon-
vinte pessoas fazendo o teste uma única vez, seria preciso um pouco dres, os detetives da loja disseram que podiam olhar as pessoas na
mais do que isso, mas se alguém aqui fizer o experimento, por favor, loja através de uma TV e quando viam alguém roubando, um gatu-
me mande os resultados. Sobre os dados que eu incluí aqui, os céti- no, muitas vezes perceberam que se olhassem para essa pessoa
cos dizem: "Bem, se as pessoas mandaram os resultados, então elas muito intensamente pela tela da TV, a pessoa começava a olhar a
só irão mandar se obtiverem resultados positivos, e com isso você te- seu redor procurando as câmeras escondidas e depois devolvia o
ria um viés". Na verdade, os dados que incluí aqui são aqueles em que tinha tirado e saía da loja. Um segurança em um hospital disse
que eu tinha séries completas. Em Connecticut, a universidade es- que onde isso dava mais certo era com uma câmera oculta que co-
tadual fez com que os professores realizassem esse experimento bria uma área onde as pessoas iam fumar, embora não fosse permi-
como parte do curso e com isso eu tenho todos os dados de lá, e em tido fumar no hospital, mas quando ele observava os fumantes atra-
meus próprios experimentos eu incluí todos esses dados. Portanto, vés da televisão de circuito fechado eles imediatamente começa-
esse fenômeno é realmente passível de repetição. vam a parecer constrangidos e apagavam seus cigarros e saíam
Recebi muitos comentários de céticos sobre isso e um desses dali. Portanto, há muitas experiências práticas. No SAS britânico,
comentários é um argumento sutil, que diz que se as pessoas estão que são as forças especiais usadas para tomar de assalto terroristas
na mesma sala poderia haver mudanças na respiração, pequenos em embaixadas e lugares semelhantes, parte do treinamento ensina
sons, etc. Portanto, para testar essa possibilidade, fizemos os últi- que se você está se aproximando cuidadosamente de uma pessoa
mos experimentos através de janelas. Colocamos as crianças em por trás, para esfaqueá-Ia nas costas, você não deve olhar fixamen-
uma sala de aula e as outras crianças sentadas na outra direção, a te para as costas dela, porque é quase certo que, se o fizer, ela vai se
uns 100m de distância, usando aquelas máscaras, portanto não há virar e lhe fazer alguma coisa horrível. E a primeira lição que um
possibilidade de que elas possam ouvir ou ver as crianças na sala de detetive particular aprende sobre seguir alguém é que você não
aula ou sentir o cheiro delas e esses efeitos funcionam através de ja- olha para quem está seguindo, porque se olhar ele vai se virar e seu
nelas, funcionam através de espelhos, e até mesmo através da tele- disfarce terá sido descoberto, a pessoa o verá e você já não poderá
visão de circuito fechado. Esses experimentos agora já foram reali- segui-Ia. Por isso, não se deve olhá-Ios fixamente.
zados em um número de universidades através da televisão de cir-
Existe uma enorme quantidade de experiências práticas sobre
cuito fechado e em vez de perguntarem às pessoas se elas estão sen- esse fenômeno. Pessoas comuns já o vivenciaram, e existe também
do olhadas ou não, monitora-se a resistência de sua pele automati- muita experiência individual. Tenho coletado relatos que as pes-
camente. E há mudanças na resistência da pele quando as pessoas soas fazem desse fenômeno. Portanto há uma grande quantidade
estão sendo olhadas de uma tela de televisão por alguém numa ou- de história natural, há forte evidência experimental, e acho que se
tra sala. O interessante é que na vida real há muito conhecimento existem no reino humano, também existem entre os animais. Co-
sobre esse efeito. Entrevistei alguns detetives particulares, pessoal mecei recentemente alguns experimentos nos quais examino pás-
da vigilância na polícia, pelotões antiterrorismo da Irlanda do Nor- saros e outros animais para ver se eles sabem quando estão sendo

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169
olhados. Parece que sim. Acabei de mencionar o procedimento que nha hipótese geral sobre campos mórficos, campos que conectam
elaboramos para isso: temos uma câmera de vídeo, para uma situa- coisas que formam um todo. O observador e o observado, como os
ção real, que fica ligada continuamente observando pássaros, por fisicos muitas vezes nos dizem, estão conectados um ao outro. Na
exemplo; a seguir, um observador se esconde em algum lugar, ou fisica já não é heresia dizer que o observador e o observado têm
fica atrás de um espelho de duas faces ou de vidro enfumaçado, e uma conexão entre eles. Na biologia, é claro, isso ainda é herético,
esse observador fica olhando os pássaros por um minuto e depois mas, é claro, isso é realmente senso comum. E esses experimentos
não olha por um minuto; com isso você terá uma seqüência aleató- ajudam bastante a trazer o fenômeno para a biologia oficial e pen-
ria de testes de um minuto. Ao analisar o vídeo depois, que pode ser so, portanto, que a idéia da mente, da percepção, precisa ir mais
contado por uma terceira pessoa neutra, você descobre se os pássa- além da noção de que tudo se passa dentro da cabeça, e precisamos
ros ficaram mais agitados durante os períodos em que estavam sen- ver o processo como um processo muito mais amplo.
do olhados do que quando não estavam. Os resultados preliminares Bem esse é meu primeiro argumento, a primeira noção que
sugerem que ficam. Animais parecem ser sensíveis ao olhar e, no aponta para a idéia da mente ampliada. O segundo ponto que eu
momento em que você pensa nisso, você vê que os animais sabem quero expor sobre a mente ampliada é que nossa mente não está
quando outros animais estão olhando para eles, e se uma presa sou- simplesmente localizada dentro de nossa cabeça. Acho que a idéia
ber quando um predador está olhando para ela, isso teria valor evi- de que a mente está dentro de nossa cabeça nos dá uma idéia falsa
dente para a sobrevivência. E isso é de importância fundamental no de nosso relacionamento com nossos próprios corpos. As psicolo-
reino animal provavelmente porque as pressões da seleção seriam gias tradicionais achavam que a psique ou alma estavam espalha-
muito fortes para que eles desenvolvessem essa sensibilidade. Ela das pelo corpo todo e até mesmo ao redor dele, conectando com o
poderia estar presente por pelo menos cem milhões de anos, ou, tal- ambiente e até com os ancestrais. Portanto as psicologias tradicio-
vez, 200 milhões de anos, desde a evolução dos olhos. Eu acho que nais têm a idéia de que existem muitos centros psíquicos, não só a
o que a princípio parece uma curiosidade, um fenômeno secundá- cabeça ou o córtex cerebral, mas que existem centros no coração,
rio na vida humana, essa sensação de ser olhado pelos outros, pode por exemplo. Os sistemas hindus e budistas falam de chacras,
ter uma importância biológica significativa. É claro, na evolu- como sendo os centros psíquicos através do corpo. Na Europa Oci-
ção dos relacionamentos presa/predador, se as presas ficassem boas dental existia também uma idéia semelhante, nas liturgias cristãs,
demais na arte de saber quando os predadores estavam olhando por exemplo ainda falamos dos "pensamentos do coração", as pes-
para elas, os predadores passariam fome. Portanto, é de se esperar soas falam de "sentimentos viscerais". Portanto, a idéia de centros
que os predadores desenvolvem meios de não se trair, talvez eles psíquicos ainda sobrevive e muito bem no Ocidente, embora não
possam atuar como os membros do SAS britânico, ou como deteti- na agenda oficial. A partir de Descartes e da visão mecanicista, o
ves particulares, não olhando demasiado. Mas, essa é uma área a coração passou simplesmente a ser uma bomba, não um centro de
qual não se dá muita atenção, a etologia animal, portanto só pode- pensamentos. A idéia da psique permeando o corpo é fundamental
mos depender de relatos de naturalistas. Mas aqui há uma enorme na visão tradicional no mundo todo.
área de biologia, de história natural, de psicologia que não foi ex-
Acho que, de várias maneiras, no mundo moderno, o conceito
plorada cientificamente e que poderia ser explorada sem grandes
científico que nos permite nos aproximarmos mais da idéia tradi-
gastos e que tem imensas conseqüências para nossa compreensão
cional da alma é o conceito de campos. No mundo antigo as pes-
da natureza da mente.
soas acreditavam que o universo inteiro mantinha-se unido graças
Acho que essas áreas são a conexão entre a pessoa que está à alma do mundo, a anima mundi. Hoje acreditamos que tudo se
olhando e aquilo que está sendo olhado, o que ocorre através daqui- mantém unido graças ao campo gravitacional universal, que é o
lo que poderíamos chamar de campo perceptual, e no meu caso, eu que mantém as estrelas em seu lugar, e mantém o universo integra-
penso neles como sendo campos mórficos e são um aspecto da mi- do, portanto o campo gravitacional de Einstein ocupou o lugar da

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alma do mundo. Até o século dezessete as pessoas pensavam que animação é o próprio termo usado pelos médicos - acho que nos
os fenômenos elétricos e magnéticos dependiam da alma do imã. O diz algo sobre a natureza do fantasma.
campo magnético da Terra era considerado um aspecto da alma da A visão médica, é claro, é que o fantasma é produzido dentro
Terra. Hoje os chamamos de campos magnéticos e elétricos, e as- do cérebro e é meramente referido ou projetado para o lugar do bra-
sim como a alma que organizava as plantas e os animais que Aris- ço, mas ainda está no interior do cérebro. Eu acredito que é possível
tóteles chamava de "alma vegetativa", uma idéia muito parecida
que o braço ou perna fantasma está, na verdade, onde parece estar,
foi incorporada desde a década de 1920 ao termo "campo morfoge-
é o campo do braço ou da perna. Normalmente não é possível sepa-
nético", campos formativos que organizam o embrião em desen- rar o braço verdadeiro do campo do braço, mas no fenômeno do
volvimento, e o corpo, e ajudam a manter o corpo saudável, e são a
membro fantasma é possível separá-los, você tem o campo sem o
base de seus processos regenerativos. Como biólogo, comecei com braço ou perna materiais. Portanto, será que esse campo está real-
biologia do desenvolvimento e passei uns vinte anos trabalhando mente lá? Como podemos detectar esse campo? Essa é a maneira
com esse tipo de biologia e a idéia dos campos morfogenéticos foi perfeita de detectar o campo do corpo, é uma situação extraordiná-
meu ponto de partida para essa investigação mais ampla. ria, maravilhosa para fazê-lo. É muito triste para os que tiveram
Quando começamos a tratar da relação do campo do corpo, seus membros amputados, mas é uma sorte para nós que estamos
que, a meu ver, podíamos imaginar como sendo uma espécie de interessados nessas questões mais amplas, porque aqui temos uma
psique, realidade psíquica, no velho sentido de alma, e, é claro, o separação clara entre a experiência subjetiva, o que eu chamaria de
campo do corpo e o próprio corpo, normalmente são relacionados, campo do membro, e a estrutura material. O que é que está real-
da mesma maneira que um campo magnético é relacionado com mente lá? Há algumas pessoas que afirmam serem capazes de ver
um imã. O campo magnético está dentro do imã, e também a seu re- corpos sutis, auras, há outras envolvidas na chamada medicina
dor, mexendo-se o imã, o campo se mexe. Penso, por exemplo, que energética, ou medicina da energia sutil, que afirmam serem capa-
o campo de meu braço está dentro de meu braço e ao redor dele. zes de sentir esses campos corporais. Há até algumas pessoas que
Mas, o que é interessante é que se eu perdesse meu braço, se ele ti- praticam a técnica chamada de "toque terapêutico", que desco-
vesse sido cortado como resultado de um acidente ou uma opera- brem que podem aliviar a dor nos membros fantasmas massagean-
ção, eu ainda sentiria o braço. Pessoas que tiveram suas pernas ou do-os. É claro, eles estão massageando um membro que não está lá,
braços amputados têm membros fantasmas, quase todas elas, e es- mas eles afirmam que podem sentir o membro que, com a prática,
ses membros fantasmas parecem reais. Um dos grandes problemas podem realmente detectar o membro.
em hospitais onde são feitas amputações de membros é que alguns Bom, eu desenvolvi um experimento muito simples para testar
dias depois da operação a pessoa tenta se levantar e andar, porque a os membros fantasmas. Esse é um experimento que desenvolvi
perna ainda parece tão real que ela tenta andar apoiando-se nela, e muito recentemente. Mencionei uma versão mais antiga dele no
cai no chão. Essas pernas e braços, esses fantasmas, continuam pa- meu livro, mas recentemente elaborei uma versão melhor que, por
recendo verdadeiros por muito tempo, na verdade, duram indefini- enquanto, só tive tempo de experimentar uma vez e o experimento
damente. Há pessoas ainda vivas hoje que têm braços e pernas fan- não deu certo. Mencionei isso porque a técnica é simples, e é algo
tasmas de membros que perderam na Segunda Grande Guerra, há que alguns de vocês podem querer tentar se tiverem a oportunida-
mais de 50 anos. Quando alguém tem um braço ou uma perna falsa,
de. Acho que não funcionou porque eu estava trabalhando com um
uma prótese, na literatura médica o termo que usam para isso é di- vedor, uma pessoa que normalmente procura água subterrânea ou
zer que, quando colocam um braço falso, o fantasma do braço dá tesouros enterrados, e ele nunca tinha feito esse tipo de coisa antes,
vida à prótese, encaixa-se como uma mão em uma luva. E as pou- teria sido melhor fazê-lo com algum terapeuta ou praticante de
cas pessoas que não têm fantasmas têm muita dificuldade de adap-
energia sutil. O experimento foi feito na casa de uma pessoa, atrás
tar-se à prótese, portanto, essa animação do membro artificial - da porta pusemos pedaços de papel, seis pedaços de papel colados

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dos outros experimentos, mas o menciono porque há muitas opor-
atrás da porta, numerados. A seguir a pessoa sem braço ficou atrás
tunidades para esse tipo de pesquisa, onde é possível expandirmos
da porta com meu assistente, que jogou um dado, obtendo um nú-
nossa visão das coisas, no momento em que abandonemos as limi-
mero de um a seis, e a pessoa colocou o braço fantasma através da
tações estreitas de uma visão convencional e possamos ver que há
almofada da porta com o número correspondente. Imagine, então,
muitas oportunidades para pesquisas científicas usando métodos
que eu sou uma pessoa que amputou o braço e agora estou passan-
do meu braço fantasma através de uma dessas almofadas, e você é estatísticos que podem ampliar nossa visão. Isso teria imensa rele-
vância para a medicina alternativa bem assim como para o conhe-
um vedor ou um terapeuta de energia sutil, e você tem que me dizer
o número da almofada. Se você puder fazer isso corretamente vá- cimento teórico sobre a relação mente/corpo.
rias vezes, isso seria uma boa evidência tanto para a existência de Penso que nossas mentes podem também influenciar o que
braços fantasmas quanto para o resultado dessas técnicas de diag- ocorre no mundo a nossa volta. Alguns pesquisadores psíquicos
nósticos sutis. Portanto, é um procedimento bastante simples. No estudaram fenômenos de psicocinesia, a mente controlando a ma-
entanto, há um problema com isso: quando fizemos o experimento téria, e a estudaram em relação a decaimento radioativo e em rela-
o vedor ficou dando as respostas erradas, que eram as respostas ção aos fenômenos que envolvem processos aleatórios. A meu ver,
certas no teste anterior. Ele disse que a memória se agarrava à por- um dos experimentos mais interessantes é aquele que foi feito por
ta. Esses vedores muitas vezes dizem que a memória das coisas é Renee Pehoc, na França, que usou galinhas, aliás, pintinhos. Ele
um problema para eles, portanto, a solução para isso teria sido reti- tem uma máquina robótica que se movimenta de acordo com um
rar os pedaços de papel e colocá-los em outra porta, e como a maio- gerador de números aleatórios. Ele pega pintinhos com um dia de
ria das casas e instituições tem muitas portas, é possível usar uma vida e eles se fixam (imprint) nessa máquina. Como vocês sabem
porta nova para cada experimento. os pintinhos com um dia de vida se fixam em qualquer objeto mó-
Outro método seria tentar detectar o fantasma por meio de ins- vel, é um de seus primeiros procedimentos de aprendizagem. Eles
trumentos. Se o fantasma interagir com qualquer tipo de instru- se fixam em pessoas, em brinquedos, em qualquer coisa que mexa.
Então, eles se fixam nessa máquina. A seguir ele põe os pintinhos
mentação, haveria uma forma de colocar isso sobre uma base cien-
tífica muito mais rigorosa, porque mostraríamos que essas coisas em uma gaiola, em um lado da sala, e a máquina no chão. Como es-
tão fixados na máquina, eles querem chegar perto dela, mas os mo-
poderiam ser detectadas não só por pessoas, mas também por meio
de instrumentos. O método mais simples seria se as pessoas com vimentos da máquina são totalmente aleatórios, gerados por uma
membros fantasmas os colocassem dentro de vários tipos de apare- fonte aleatória. Quando os pintinhos não estão presentes, os movi-
mentos da máquina pela sala são totalmente aleatórios, ela se mo-
lhos científicos, por exemplo, um aparelho de televisão: se alguém
colocasse seu braço fantasma no tubo catódico de um aparelho de vimenta pela sala aleatoriamente. No entanto, quando os pintinhos
televisão e se uma sombra de sua mão aparecesse na tela, isso seria estão na sala, a máquina vai para aquele lado e passa a maior parte
muito dramático. Se eles os colocassem em um detector de cintila- do tempo perto da gaiola. O desejo deles de que a máquina che-
gue mais perto influencia a máquina de tal forma que encontramos
ção ou em um espectrômetro de massa e se, em um deles, houvesse
uma mudança no ponteiro, isso seria uma descoberta muito produ- desvios padrões extraordinariamente altos nesses experimentos.
tiva. Infelizmente, ainda não consegui convencer nenhuma pessoa Esses são experimentos fascinantes e foram repetidos por outras
pessoas. Renee Pehoc também já fez o mesmo experimento com
com um membro amputado a fazer isso, porque, embora os médi-
cos lhes tenham dito que é tudo imaginação e que o fantasma é uma outros animais além de pintinhos, como coelhos.
ilusão, quando você lhes pede que coloquem o braço fantasma den- Acho que esses são os resultados mais interessantes. Acho que
tro de um aparelho de TV eles ficam com medo de levar um choque a psicocinesia, os efeitos da mente sobre a matéria, se eles existem,
elétrico. Essa é uma área em que fiz apenas algumas investigações ocorrerão quando as pessoas têm um motivo forte. O problema
preliminares, porque tenho estado muito ocupado fazendo alguns com a maioria das pesquisas parapsicológicas é que ela envolve ta-

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refas bastante sem sentido. Ou seja, influenciar a direção de um selecionados aleatoriamente. Portanto, existem grandes efeitos da
mente sobre a matéria na psicologia e na medicina.
gráfico no computador não é muito importante para a maior parte
das pessoas e adivinhar cartas de um tipo totalmente insignificante E nas demais ciências? Bom, ninguém sabe. Ninguém jamais
que estão sendo olhadas por um estranho em uma outra sala, pen- testou a influência do pesquisador nas ciências físicas e aqueles
sem bem, não poderíamos imaginar uma situação em que a proba- que praticam a física e a química, normalmente consideradas as
bilidade da coisa funcionar fosse menor. É surpreendente que eles mais objetivas das ciências, são totalmente ignorantes de técnicas
consigam qualquer resultado, porque os fenômenos da vida real de simulação. A fim de examinar até que ponto elas são levadas em
dependem de coisas que realmente importam para as pessoas. Se consideração na prática da ciência normal, eu fiz um levantamen-
estamos procurando efeitos da mente sobre a matéria, o melhor lu- to recentemente de publicações científicas importantes para ver
gar para procurá-Ios seria nos laboratórios científicos, especial- quantos trabalhos publicados envolviam o uso de técnicas cegas.
mente laboratórios químicos, fisicos e biológicos. Os cientistas No primeiro grupo de publicações importantes de física e química
têm fortes expectativas sobre o que querem encontrar. Eles têm um do tipo Journal O/lhe American Chemical Society, dos 237 traba-
tabu extraordinariamente forte contra a possibilidade de que pos- lhos que examinamos nenhum deles envolvia técnicas de simula-
sam ter qualquer influência paranormal sobre aquilo que acontece ção. Nas ciências biológicas, dos 914 trabalhos que examinamos
em seus experimentos e têm uma crença ingênua em sua total obje- apenas 7 envolviam essas técnicas. Em coisas como o Biochemical
tividade. Isso cria condições ideais para a manifestação de fenôme- Journal, Cell Heredity, nenhum deles. Nas ciências médicas 5,9%
nos psicocinéticos. Ora, sabemos que no domínio da psicologia e dos experimentos publicados envolviam técnicas cegas. Mais do
da medicina os efeitos do pesquisador são bem descritos e docu- que a biologia, mas mesmo assim abaixo daquilo que seria de se es-
mentados. Na medicina, o efeito placebo ocorre quando as pessoas perar. Na psicologia e no comportamento animal, 4,9%, também
esperam que uma pílula nova tenha poderes de cura maravilhosos, muito menos do que seria de se esperar, considerando-se a cons-
e médicos e pacientes acreditam isso. Se eles não sabem qual é a pí- ciência que os psicologistas têm desse fenômeno. Na parapsicolo-
lula falsa, e qual é o remédio, o efeito placebo muitas vezes funcio- gia foram 85%, portanto a parapsicologia está bem na frente de to-
na bem. É claro, se você disser às pessoas "essa é o placebo, é uma das as outras ciências no uso de metodologias objetivas e rigorosas,
pílula falsa, e essa é o remédio maravilhoso", as pessoas que toma- e nas ciências físicas as técnicas são praticamente desconheci-
rem o placebo não se beneficiam dele. Só funciona se você não das. Quando fizemos um levantamento das universidades, nas
souber o que está tomando. De qualquer forma, os testes duplo-ce- onze melhores universidades na Grã-Bretanha, Oxford, Cambrid-
gos são padrão na medicina clínica. Na psicologia, a importância ge, Londres, Edinburgh, e assim por diante, para ver quantos de-
de técnicas experimentais cegas é amplamente reconhecida, e há partamentos usavam métodos cegos em pesquisa, ou os ensinavam
livros inteiros sobre o efeito experimental. Isso mostra que as pes- a seus alunos, o resultado foi o seguinte: na química inorgânica, ne-
soas, os pesquisadores, podem influenciar o que ocorre. Ninguém nhum em 7; na química orgânica, nenhum em 7; na física 1 em 9 e
jamais explicou por que eles têm uma influência assim tão forte so- esse departamento de física só os usava porque tinham um contrato
bre o resultado de testes médicos e psicológicos, e, é claro, isso industrial que estipulava seu uso.
também funciona com animais. Como aqueles entre vocês que es-
Não sou o tipo de pessoa que diga "vamos falar mal dos ou-
tudaram psicologia provavelmente sabem, Robert Rosenthal e ou- tros", acho que devemos sempre tentar encontrar uma abordagem
tros fizeram experimentos em que as pessoas testam ratos ou ou-
positiva, e o experimento que estou sugerindo aqui é para ver se
tros animais, e se eles acreditam que os ratos que estão sendo testa-
existem efeitos da mente sobre a matéria na ciência regular. O ex-
dos são inteligentes, astutos, os ratos têm resultados melhores no
perimento que proponho é o seguinte: em aulas práticas laborato-
teste do que no caso em que eles acreditam que os ratos são burros, riais normais, do tipo que os estudantes fazem normalmente, diga-
mesmo que os ratos tenham sido tirados de um mesmo grupo e mos, uma aula prática de bioquímica - normalmente, numa aula

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prática desse tipo as pessoas comparam uma amostra do teste com
psíquicos - efeitos da mente à distância - a maior parte das pesqui-
uma amostra de controle, por exemplo, uma enzima ativada com sas até o momento foram feitas na área de parapsicologia humana.
uma enzima de controle - eu sugeriria que nessas aulas práticas Na verdade, alguns parapsicólogos definem sua disciplina como o
metade dos alunos fizesse tudo como sempre faz, sabendo o que é o estudo das capacidades humanas extraordinárias. A meu ver, no
quê, e a outra metade faça um teste cego, e as amostras sejam rotu- entanto, estamos olhando no local errado se quisermos realmente
ladas de A e B. Você verá que não há qualquer custo envolvido nis- descobrir mais sobre esses fenômenos. Acho que se essas coisas
so; estamos fazendo a aula prática normal, a única diferença é a eti- existem, elas provavelmente serão muito mais freqüentes em ani-
quetagem dos tubos. A seguir você faz uma análise da divergência mais do que em seres humanos. Pessoas urbanas e modernas são
entre os resultados para ver se há alguma diferença dos resultados provavelmente o último lugar onde devemos procurar fenômenos
do teste cego e do teste feito em condições abertas. Se os resultados passíveis de repetição como esses. Quando comecei a pensar no as-
nas condições cegas forem diferentes, isso mostraria a existência sunto, pensei "como estudaríamos esses fenômenos nos animais?"
de um efeito do pesquisador. Essa técnica simples pode ser utiliza- É claro, os comportamentalistas de animais têm os tabus normais e
da em qualquer ramo da ciência, e pode ser que em alguns ramos da não estudam essas coisas em animais selvagens. As pessoas que
física e da química não haverá efeitos do pesquisador, e então, pela verdadeiramente as observam são as que têm animais domésticos.
primeira vez, haveria evidência experimental para a suposta objeti- Metade dos domicílios na Grã-Bretanha, provavelmente um pouco
vidade das ciências físicas. Mas, se existirem efeitos do pesquisa- menos em Portugal, tem animais domésticos, as pessoas têm ani-
dor, o que eu acho que haveria, então temos que ver o porquê. Será mais porque gostam de tê-Ios por perto, têm algum tipo de ligação
apenas tendência do observador? É porque as pessoas registram os com eles. O relacionamento entre humanos e animais é algo muito
dados de uma maneira tendenciosa, de acordo com suas expectati- antigo, e é claro, sociedades rurais tradicionais estão sempre envol-
vas? Ou são os próprios sistemas que dão resultados diferentes de vidas com animais, gatos, cachorros, carneiros, cavalos, burros,
acordo com suas expectativas? Poderia haver uma espécie de efei- galinhas, etc. e antes disso, nas sociedades dos caçadores-coleto-
to psicocinético real nas enzimas ou nos próprios sistemas sob in- res, as atividades xamânicas eram em grande parte relacionadas
vestigação, afinal de contas,já ficou demonstrado que eles influen- com animais e espíritos de animais. Portanto, acho que essa cone-
ciam os processos de decaimento radioativo. xão com animais é essencial para nossa humanidade. Tem sido as-
Acho que esses efeitos da mente sobre a matéria, a interação sim por toda a história humana, e creio que nossa consciência evo-
entre o observador e a coisa observada, podem desempenhar um luiu junto a esse relacionamento com animais. Nas sociedades
papel essencial na ciência. É claro, quando muitas pessoas esperam urbanas modernas as pessoas não têm necessidade de animais que
um resultado específico, quando se constrói um consenso científi- trabalhem, como no caso dos agricultores, mas, apesar disso, elas
co, há uma tendência para que o resultado apareça repetidamente têm animais domésticos em casa, embora seja um hábito caro, eles
nos experimentos. Mas até que ponto a construção de consenso ci- dão trabalho, têm cheiro forte, etc. As pessoas realmente querem
entífico é a descoberta de uma realidade objetiva e até que ponto é a esses relacionamentos com animais. As pessoas que têm animais
criação ou uma moldagem da realidade de acordo com nossas ex- domésticos os observam dia a dia, semana a semana, ano a ano,
pectativas. Ninguém sabe a resposta para essa pergunta até o mo- muito mais do que cientistas e laboratórios que apenas os exami-
mento porque ninguém fez os experimentos. Acho que a mente nam durante algumas horas. Donos de animais e agricultores estão
ampliada poderia se ampliar até o próprio coração da ciência. Pu- estudando seus animais o tempo todo, e há um enorme corpo de in-
bliquei um trabalho recentemente com esses resultados no Journal formações sobre o comportamento animal entre esses donos. Mas
of Seientifie Exploration e tenho cópias se alguém quiser. essa infonnação foi completamente negligenciada pela ciência or-
Entro agora em uma outra área de experimentação que acho ganizada, porque acham que não pode ser levada a sério e, uma vez
particularmente importante e interessante. Com relação a efeitos mais, há a questão do tabu, essa arrogância que, a meu ver, foi um

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mal da ciência por tanto tempo: as mentalidades arrogantes dizem: do. Desde então venho colocando anúncios emjornais e revistas na
"não escutem o que dizem os donos de animais, eles são apenas Grã-Bretanha, na Alemanha, na Suíça e na França solicitando his-
pessoas ignorantes e sem instrução que querem acreditar nessas tórias desse tipo. Hoje tenho mais de 2.000 histórias, classificadas
coisas sobre seus animais, porque têm esse relacionamento emo- em várias categorias, em um banco de dados informatizado e isso
cional antinatural com eles". É muito fácil para as pessoas dizerem me dá uma história natural básica desses fenômenos com animais
isso, e rejeitarem esse conhecimento, e esse tabu significa que uma domésticos. Deixe-me dar um exemplo, do tipo de histórias que re-
fonte preciosa de informação que pode ser oferecida pelos donos cebemos neste banco de dados, sobre um c~chorro que sabe quan-
de animais foi completamente menosprezada. Nas escolas e uni- do seu dono está chegando em casa. Essa é de uma pessoa no Ha-
versidades veterinárias existe hoje uma área em crescimento cha- vaí: "Meu cachorro Debby sempre fica esperando na porta uma
mada de "estudos de animais companheiros" mas o único financia- meia hora antes de meu pai chegar em casa do trabalho. Como meu
mento para isso, na verdade, busca examinar o beneficio que ani- pai estava no exército, ele tinha um horário de trabalho muito irre-
mais domésticos trazem para os seres humanos. Essa área estuda gular. Não fazia diferença se meu pai ligava antes, e uma época eu
como ter animais domésticos reduz a probabilidade de ataques car- achei que o cachorro reagia à chamada telefônica, mas isso obvia-
díacos ou faz as pessoas idosas se sentirem menos sozinhas, e as- mente não era o caso porque às vezes meu pai dizia que estava vin-
sim por diante. Mas, na verdade, ela não examina os animais. do para casa mais cedo, mas tinha que ficar até mais tarde. Às vezes
ele nem telefonava. O cachorro nunca se enganava, portanto eu eli-
Portanto, essa área foi completamente menosprezada. Há um
tabu sobre levar animais domésticos a sério, assim como sobre le- minei a teoria do telefone. Minha mãe foi a primeira pessoa que no-
tou esse comportamento. Ela estava sempre preparando o jantar
var paranormais a sério. Mas quando examinamos as coisas que os
quando o cachorro ia para a porta. Se o cachorro não fosse até a por-
donos de animais dizem, há uma fonte preciosa de informação. A
maioria dos donos de animais acredita ter uma ligação telepática ta, nós sabíamos que papai ia chegar mais tarde. Se ele chegasse
tarde, o cachorro mesmo assim o esperava, mas só quando ele já es-
com seus cães ou gatos. Isso foi descoberto através de levantamen-
tivesse no caminho de casa". Como vocês podem ver, temos agora
tos, e há inúmeras histórias que podem ser coletadas, como eu ve-
em nosso banco de dados cerca de 580 relatos de cachorros que fa-
nho coletando, de donos de animais sobre coisas que seus animais
zem isso, cerca de 300 relatos de gatos que fazem isso, com esse
fazem, que sugerem uma sensibilidade para com o pensamento e a
tipo de qualidades.
intenção humanos, que podem funcionar à distância. Por exemplo,
a capacidade que muitos cães ou gatos têm de saber quando seus O cético de carteirinha irá dizer "bem é apenas uma rotina"
donos estão vindo para casa. Muitas pessoas observaram que cães, mas na maioria dos casos não é uma rotina, se fosse as pessoas nem
gatos ou outros animais, especialmente papagaios, ficam nervosos notariam. A maioria das pessoas não é idiota, e se fosse apenas uma
10, 15 minutos, meia hora, às vezes até uma hora antes de seu dono rotina, elas estariam conscientes dessa possibilidade. Na maior parte
chegar em casa. Os cães normalmente vão esperar perto da porta, dos casos é óbvio que não é uma rotina. O próximo argumento do cé-
ou os gatos vão olhar por uma janela, ou mostrar algum comporta- tico de carteirinha é "bom, o que deve acontecer é que as pessoas da
mento característico que significa que parece que sabem quando casa sabem quando o dono está vindo e com isso seu estado emocio-
seu dono está a caminho de casa. A primeira vez que eu ouvi essa nal muda, e o animal capta essa mudança através de deixas sutis".
história fiquei muito surpreso. Pessoalmente eu nunca tinha obser- Bem, é claro que isso é possível se as pessoas realmente prevêem
vado isso com nenhum de meus animais, mas comecei a perguntar que alguém está vindo para casa, seu estado emocional pode mudar,
a amigos e parentes e descobri que isso é extremamente comum. elas podem ficar excitadas ou talvez deprimidas e o animal pode
Então fiz um apelo nos Estados Unidos para que as pessoas envias- captar essa mudança emocional e reagir a ela. Mas, em muitos dos
sem histórias sobre isso e colecionei muitas delas, o que me fez casos, as pessoas na casa não sabem quando a outra está vindo para
pensar que era um fenômeno que realmente merecia ser investiga- casa, é o animal que lhes diz e não elas que dizem ao animal.

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temos aqui um fenômeno muito bem conhecido. Há uma grande
Quando eu estava discutindo esse assunto com Nicholas
Humphrey, meu amigo cético disse: "bem, tudo isso ainda não eli- quantidade de experiências que sugerem que isso realmente ocor-
re, e o que estamos fazendo agora são experimentos em que real-
mina a possibilidade de que eles ouvem o barulho do motor do car-
mente testamos se os cachorros sabem quando as pessoas estão
ro, um motor de carro familiar a 30, 40 quilômetros de distância", e
eu disse: "isso é obviamente impossível". E ele: "pelo contrário, vindo para casa. Nos primeiros experimentos que foram feitos, pe-
díamos às pessoas que anotassem em um caderno o comportamen-
apenas demonstra como a audição dos cachorros é aguçada". Foi
to do cachorro, mas os céticos disseram: "bem, assim você tem
essa discussão que levou à idéia de fazer um experimento. Eu dis-
uma tendência subjetiva". Portanto, agora nós fazemos uma fita de
so: "OK, e se eles vierem para casa de táxi, ou no carro de um ami-
vídeo de todos os experimentos. Temos uma câmera de vídeo em
go, ou de trem, ou de bicicleta da estação em uma bicicleta empres-
um tripé, apontando para o lugar onde o cachorro ou o gato espe-
tada, para que não haja sons familiares?" E ele disse: "nesse caso, o
cachorro não reagiria", e desde a publicação deste livro eu já des- ram pela pessoa que vem para casa. Há um controle de tempo na câ-
cobri muitos cachorros, gatos e outros animais que fazem isso. Eu mera e ela fica funcionando por horas. Então, temos horas de filme
falarei do experimento em um momento, mas, primeiro, direi algu- que irão mostrar se o cachorro ou o gato vão até a janela, e por
ma coisa sobre o levantamento que fizemos. Já fizemos quatro le- quanto tempo ficam lá, um registro objetivo e perfeito. É claro, es-
vantamentos domiciliares usando amostras aleatórias que pergun- ses filmes não são muito interessantes de ver, centenas de horas de
tavam aos donos de animais a respeito das habilidades de seus ani- capachos de portas da frente não são lá um tema muito emocionan-
mais. Vemos aqui o resultado de dois levantamentos na Grã-Breta- te, mas, felizmente, há um botão para acelerar e passar rapidamente
nha e dois nos Estados Unidos, um nos subúrbios de Los Angeles e pelos pedaços em que nada está acontecendo. O que vou lhes mos-
um em Santa Cruz, Califórnia, um em Londres e outro em Rams- trar daqui a pouco é um vídeo de um desses experimentos que foi
bottom, uma cidadezinha perto de Manchester, no nordeste da feito com um cachorro com que trabalhei principalmente na Ingla-
terra. O cachorro chama-se JT e o nome de sua dona é Pam. Quan-
Inglaterra. Telefonamos para pessoas escolhidas aleatoriamente
usando técnicas padronizadas de amostragem e perguntamos se do Pam sai, ela deixa JT com seus pais, que vivem no apartamento
elas tinham animais. Dos donos de animais, havia mais donos de ao lado do dela. Eles observaram há muitos anos que JT sempre ia
cachorros do que de gatos na maior parte das localidades, a não ser para a janela quando Pam estava a caminho de casa, ou quase sem-
em Santa Cruz onde havia mais donos de gatos do que de cachor- pre. Esse experimento foi filmado profissionalmente pela televisão
ros. Perguntávamos: então "seu animal parece saber previamente estatal austríaca, e por essa razão a trilha sonora é em alemão, em-
bora seja um cachorro inglês. Portanto, eu explicarei o que está
quando um membro da família está vindo para casa?" Aproxima-
damente 50% dos donos de cachorro em todas as localidades disse- acontecendo em inglês para aqueles cujo alemão não é lá muito
bom. O importante, aqui, é que o experimento foi genuíno, eu con-
ram que sim - em Los Angeles foram mais de 60% - e podemos ver
através desses resultados que os gatos em todas as localidades fa- cordei em realizar esse experimento para a televisão estatal austría-
zem isso menos que os cachorros. Portanto há uma diferença clara ca, se eles filmassem com duas câmeras, para que pudéssemos ver
o cachorro e a pessoa que estava na rua ao mesmo tempo. E se eles
entre gatos e cachorros, mas eu acho que não é necessariamente
escolhessem as horas de sua vinda para casa de maneira aleatória,
porque os gatos sejam menos sensíveis que os cães, apenas que a
que nem ela mesma soubesse previamente, que ninguém soubesse
maior parte deles simplesmente está menos interessada. Portanto,
há uma diferença óbvia entre gatos e cães, os gatos também fazem, previamente; o operador filmando o cachorro, e nem ela nem seus
mas no caso dos cachorros são muitos, pois cerca de 50% dos ca- pais sabiam previamente quando ela viria para casa, e ela viria para
chorros parecem mostrar esse comportamento prévio. Estamos fa- casa de táxi para eliminar a possibilidade de sons de carros familia-
lando de milhões de cães só na Europa. Todas as cidades e aldeias res. Esse, portanto, é um experimento que foi realizado dentro des-
provavelmente têm um cão que faz isso, ou vários deles. Portanto sas condições.

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Na vida real, Pam não vem para casa em horas escolhidas alea- do por ela principalmente quando ela está no caminho de casa.
Essas aqui são ausências curtas, essas são alguns experimentos
toriamente, e que ela própria desconheça previamente. Quando
está no trabalho, ou quando sai para fazer compras ou visitar ami- mais barulhentos, mas eles mostram o mesmo resultado. O que é
claro nesses gráficos é que JT não vai para a janela com mais fre-
gos, ela vem para casa em vários momentos diferentes, e nós moni-
toramos regularmente as horas em que ela volta, mais de 200 expe- qüência quanto mais tempo ela estiver fora. Ele obviamente está
rimentos foram monitorados, temos dezenas deles em vídeo. O ca- muito mais na janela aqui, quando ela está no caminho de volta,
do que nos períodos correspondentes aqui. Esses efeitos têm uma
chorro nem sempre reage, cerca de 85% das vezes JT realmente es-
enorme significância estatística. Vários tipos de análise mostram
pera por ela quando ela está vindo para casa, cerca de 15% ele não o
faz. Analisamos as ocasiões em que ele não faz, a maioria das vezes significâncias que vão mais além da escala de meu computador.
Esses efeitos são do tipo p é menor que .00001.
ocorreu quando a cadela do apartamento vizinho estava no cio. Isso
mostra que JT pode se distrair. Isso também ocorreu algumas vezes Esses resultados foram amplamente publicados na Grã-Breta-
quando havia visitas na casa ou outro cachorro, e algumas vezes nha, nos jornais, e é claro foram criticados pelos céticos, que estão
sem nenhum motivo. De qualquer forma, JT normalmente reage sempre prontos para dizer que nada semelhante poderia ocorrer.
quando Pam decide que vai para casa. Naquele filme vocês viram Esses experimentos foram criticados por um dos céticos mais ati-
que ele não começa a reagir quando ela entra no táxi, e sim quando vos na Grã-Bretanha, cujo nome é Richard Wiseman. Segundo ele,
ela estava pronta para ir para casa. Na vida real ele não reage quan- eu não tinha usado procedimentos adequados, não os tinha regis-
do ela entra no carro para ir para casa, e sim quando ela começa a se trado de forma adequada, etc. Eu fiz também muitos experimentos
despedir dos amigos e pensando "bem, vou-me embora". Ele pare- com horas de retomo aleatórias. Pam tem um pager em seu bolso
ce captar essa intenção dela. E este é o número de segundos no pe- que eu ativei por telefone de Londres e ela vem para casa em mo-
ríodo de dez minutos em que JT está esperando perto da janela. É mentos verdadeiramente aleatórios, usando um desses pagers da
bem verdade que ele vai até a janela ocasionalmente quando Pam telecom. De qualquer forma, ele criticou os detalhes, então eu dis-
não está a caminho de casa, normalmente porque vai latir para um se: "Tudo bem, por que você mesmo não faz o experimento? Eu or-
gato que passa na rua ou está olhando alguma coisa que está acon- ganizo tudo para que você possa fazê-Io com o mesmo cachorro.
tecendo do lado de fora. Nesses gráficos incluímos todos esses ca- Emprestamos uma câmera de vídeo, Pam irá onde você quiser, o
sos, embora fique claro no vídeo que ele não está esperando, mas seu ajudante ficará observando-a". Na verdade, então, o próprio
como os céticos dizem que se você usar evidência seletiva isso de- Wiseman filmou o cachorro e ficou no apartamento dos pais da
monstra que você inventou a coisa toda, não fizemos nenhuma se- Pam, enquanto seu ajudante ia com a Pam para pubs, ou outros lu-
leção aqui. Às vezes há uns trechos barulhentos, quando ele vai até gares, até que em um momento determinado aleatoriamente fosse
a janela de qualquer maneira, mas podemos ver que isso é a média decidido que eles voltariam para casa. Eles checavam o tempo todo
de 12 ocasiões diferentes quando ela estava fora por mais de 3 ho- para garantir que não haveria chamadas telefônicas secretas, ne-
ras. O tempo que ele está esperando na janela é maior aqui e aqui, nhum meio de comunicação invisível, nenhuma fraude ou trapaça.
quando ela está no caminho de casa do que quando ela não está. Ve- Wiseman é um mágico, e ele é um desses céticos que está sem-
mos um pequeno aumento antes de ela ir para casa, que, a meu ver, pre afirmando que tudo pode ser feito por trapaça ou ilusionismo.
tem que ver com esse efeito antecipatório. O tempo em que ela está Bem, ele mesmo esteve lá, e eles estavam se protegendo de tudo, e
voltando é o tempo em que ela já está no carro, portanto, ela está se ele realizou três experimentos com Pam na casa de seus pais, e es-
preparando para vir no momento imediatamente anterior a esse. ses foram os resultados dos três experimentos que ele fez, usando
Essas são ausências de tempo médio, seis ausências de tempo mé- todos seus controles rigorosíssimos, seu próprio procedimento ale-
dio e uma vez mais aqui vemos essa antecipação nos dez minutos atório, e outras coisas mais (os resultados são exatamente iguais
antes de ela sair. É bastante claro, mas JT está obviamente esperan-
aos outros; o público ri). Portanto, esses resultados são sólidos,

184 185
mesmo com um cético, que ao fazer o experimento na verdade não dificuldades da pesquisa parapsicológica tradicional é que nesses
quer que ele dê certo. E agora estamos trabalhando com outros ca- experimentos um tanto monótonos os pontos geralmente vão dimi-
chorros e gatos e encontramos resultados semelhantes, e se vocês nuindo, porque os participantes ficam entediados. Bem, felizmente
estiverem procurando temas para projetos de pesquisas essa é uma os cachorros nunca ficam entediados com a chegada de seus donos
área extremamente produtiva e interessante. As pessoas leigas a em casa, e podemos fazer esse tipo de experimento milhares de ve-
acham fascinante, porque elas geralmente estão interessadas em zes. Esses são fenômenos muito mais sólidos do que os fenômenos
animais domésticos e as implicações são enormes, mas também é meio efêmeros da parapsicologia.
simplesmente divertido e pode ser feito com um custo muito baixo, Essa é uma área de pesquisa muito produtiva e o que demons-
você precisa de uma câmera de vídeo pra esses experimentos, mas tra é que cães ou gatos ou outros animais podem captar as intenções
câmeras de vídeo são bastante baratas hoje em dia e muitas pessoas de seus donos. Eles captam essas intenções quando os donos estão
as têm. Atualmente realizo uma série de experimentos em Santa em casa, mas nesse caso, é claro, é muito mais dificil eliminar os
Cruz, Califórnia, com um tipo de periquito italiano que mostra o efeitos de sugestões sutis, linguagem corporal, efeito Clever Hans,
mesmo tipo de reação: eles guincham quando o dono está vindo e assim por diante. Quando eles estão a quilômetros de distância,
para casa, e obtemos quase o mesmo tipo de gráficos, mostrando como no caso desse experimento que acabamos de ver com o JT,
que os guinchos vão aumentando de intensidade quando o dono que foi feito com distâncias maiores que 8 quilômetros, muitas
está a caminho de casa em horas aleatórias. com 15 ou 20 quilômetros, quando estão a uma larga distância, a
Portanto, provavelmente aqui em Portugal, seria possível fa- idéia de sugestões sutis, efeitos Clever Hans e outras coisas mais é
zer esses experimentos com cães e gatos, na verdade acho que eliminada. O que eles mostram é que as intenções humanas podem
essa pesquisa pode ser feita em qualquer lugar. É uma pesquisa ter um efeito à distância, a intenção de ir para casa irá afetar o ca-
muito, muito interessante. Como o contribuinte paga pela maior chorro e, se o cachorro pode reagir a uma intenção humana a mui-
parte da ciência, e como a maior parte dos contribuintes tem ani- tos quilômetros de distância, pode ser que um ser humano também
mais domésticos, se a ciência for refletir o interesse das pessoas possa responder a uma intenção humana a muitos quilômetros de
que pagam por ela, esse tipo de pesquisa estaria no topo da agenda distância. A interconexão de pessoas através da intenção a grandes
científica. Nas circunstâncias atuais chega a estar proxímo ao úl- distâncias é, é claro, algo que as culturas tradicionais pressupõem.
timo lugar. Mas eu acho que é o tipo de pesquisa que dá uma nova Mas é uma daquelas áreas que sempre foi um tabu para o tipo de
dogmatismo racionalista da ciência moderna. Acho que esse estu-
perspectiva à ciência, uma nova maneira de olhar o mundo, que
do de intenção à distância abre uma enorme área de diálogo poten-
faria a ciência muito mais importante e significativa, e certamen-
te muito mais interessante, e daria grandes projetos para alunos cial com tradições espirituais. No decorrer dos últimos anos, venho
de escolas e universidades. mantendo uma série de diálogos com Mathew Fox, um padre e teó-
logo norte-americano, uma pessoa com mente aberta e interessan-
Embora divertidos, esses experimentos nos mostram muita coi- te, e exploramos como essas novas idéias oriundas desse tipo de
sa sobre o comportamento animal e confirmam a maior parte das pesquisa pode nos dar uma idéia mais ampla da noção de alma e da
coisas que os donos de animais dizem que seus animais fazem. Isso psique em geral. Também abre uma nova possibilidade de pensa-
faz com que eu leve muito mais a sério essas histórias de donos de mento sobre o poder da oração, que tem muito que ver com inten-
animais. Existe conjunto enorme de experiências, cerca de 8 ou 9 ção. As pessoas que rezam acreditam que suas intenções podem ter
fenômenos diferentes, que estamos investigando atualmente com resultados à distância sem saber bem como isso funciona e, se cães
animais domésticos, e também com cavalos. São divertidos, e tam- podem reagir a intenções à distância, então há uma nova área de
bém são evidência para fenômenos do tipo psíquico. Acho que esse diálogo abrindo-se aqui, que é extremamente interessante. Discuti-
fenômeno é semelhante à telepatia e, se quisermos estudar essas mos isso em nosso livro Natural grace, que é uma série de diálogos
coisas, é muito melhor estudar animais do que pessoas. Uma das sobre questões desse tipo.

186 187
o ponto de vista convencional, é que, se você rezar, tudo o que há razão para que isso não aconteça, que eu saiba, mas, por enquan-
acontece é uma série de pequenas mudanças elétricas e químicas to, eu falo sobre isso em termos de campos mórficos. Acho que es-
em sua cabeça e é praticamente impossível que isso tenha algum ses campos têm uma espécie de memória, essa é minha idéia de res-
efeito à distância. Bem, a meu ver a mente e os efeitos da mente se sonância mórfica, o que significa que cada tipo de campo mórfico
estendem no espaço, através da percepção, através da intenção e tem uma memória de sistemas passados semelhantes, por meio de
através daquilo que queremos que aconteça no mundo. Eu dei al- um processo de ressonância através do espaço e do tempo. Os cam-
guns exemplos de experimentos simples que podem ser examina- pos são locais, estão dentro e ao redor do sistema que eles organi-
dos e outros que podem também mostrar que a mente pode estar zam, mas sistemas semelhantes têm uma influência não-local atra-
relacionada ao corpo, através do fato de que ela se estende espaci- vés do espaço e do tempo, oriunda da ressonância mórfica que dá
almente por toda a área onde a imagem de nosso corpo está. Acho uma memória coletiva para cada espécie. Não tenho tempo de ex-
que esses efeitos são mediados por campos mórficos que mantêm plicar os detalhes da teoria da ressonância mórfica, a não ser para
unidas partes de sistemas auto-organizadores, e quando você está dizer que cada espécie neste planeta teria uma memória coletiva.
lidando com animais domésticos e seus donos, por exemplo, a Todos os ratos extrairiam memórias da memória coletiva de ratos
maneira como os campos mórficos se organizam depende do fato anteriores. Se ratos aprenderem um novo truque no laboratório, ou-
de que cada sistema, em todos os níveis de organização, tem um tros ratos em outros locais deveriam ser capazes de aprender o
campo mórfico, e esses poderiam estar em átomos, em moléculas, mesmo truque mais rapidamente. Há já evidência, que eu discuti
em cristais, em órgãos, em organismos, em sociedades, e acho em meus livros, de que isso realmente ocorre. No reino humano, se
mesmo que cada sociedade tem um campo mórfico para todo o as pessoas aprendem uma nova habilidade, como windsurf, ou an-
agrupamento social. Um cão e um ser humano, quando formam dar de skate, ou programação de computador, o fato de que muitas
uma união entre eles, são parte de um grupo social. Os cães são pessoas já aprenderam a mesma coisa deveria fazer com que fosse
animais intensamente sociais, eles descendem dos lobos que têm mais fácil para os outros aprenderem. Bem, essa é uma teoria que,
uma vida social intensa. Portanto, eu acho que o que ocorre quando claramente, é muito polêmica, e eu a descrevi em detalhe em meus
uma pessoa sai de casa, é que ela ainda continua conectada pelo livros A new science of life e A presença do passado. A presença
campo mórfico da família, do qual o cão é parte. O campo mórfico do passado foi traduzido em português e publicado pelo Instituto
se estica, por assim dizer, mas eles ainda estão ligados por esse Piaget, portanto está disponível aqui.
campo mórfico, e é devido a essa conexão contínua invisível que a Já houve um número considerável de testes experimentais e
informação pode viajar, as intenções da pessoa podem afetar o ca- quando um número grande de pessoas está envolvida, eles dão re-
chorro em casa.
sultados positivos; com uma amostra pequena (20, 30 pessoas)
Portanto, eu interpreto tudo isso em termos de campos mórfi- aprendendo algo novo, os resultados são às vezes positivos e às ve-
coso É claro, outras pessoas podem querer interpretá-Io em termos zes não significativos. Esses efeitos são relativamente pequenos e
de outras coisas, e pode ser que isso esteja relacionado com a difíceis de detectar no contexto de variações individuais. Mas há
não-localidade quântica, ninguém sabe. Existem na fisica quânti- certos tipos de evidência que surgiram espontaneamente, que são
ca, fenômenos não-locais misteriosos, sistemas que foram cone c- relevantes aqui, e um deles está relacionado com testes de QI.
tados como parte do mesmo sistema, e quando são separados retêm Como vocês sabem, os testes padrão de QI vêm sendo ministrados
essa conexão não-local e não separável à distância. Bem, uma pes- por muitos anos para medir a inteligência e esses mesmos testes
soa e um cachorro, que estiveram conectados por terem vivido jun- são aplicados ano após ano, todos os anos as médias expressas em
tos como companheiros, quando se separam podem ter uma cone- porcentagens. Foram feitos estudos para examinar a contagem de
xão não-local semelhante. Mas ninguém sabe se essa não localida- testes de QI no decorrer do tempo; quando examinamos o desem-
de quântica se estende aos fenômenos macroscópicos ou não. Não penho absoluto nesses testes - e aqui estamos falando de testes fei-

188
tos por milhões de pessoas - os testes mostram um efeito muito in- cristais e a moléculas. Se você o cristalizar repetidamente o campo
teressante que foi descoberto pela primeira vez por James Flynn, e mórfico ficará mais forte, e ficaria mais fácil para a substância se
portanto é chamado de Efeito Flynn: há um aumento misterioso e cristalizar. Na verdade isso é um fato bem conhecido dos químicos,
inesperado nas porcentagens do QI com o correr do tempo. Aqui isso é que os novos compostos se cristalizam com mais facilidade
temos um gráfico mostrando resultados de testes de QI. Isso foi ti- com o passar do tempo nos vários laboratórios. A explicação des-
rado de um número recente da revista Scientific American, de uma ses químicos é que isso ocorre porque fragmentos dos cristais ante-
discussão do Efeito Flynn. As porcentagens aumentaram uns três riores são levados de um laboratório para o outro, nas barbas de
por cento a cada década, não só nos Estados Unidos, mas também químicos migrantes ou que foram transportados da atmosfera
na Inglaterra, na Alemanha, na França, provavelmente em Portu- como partículas invisíveis de poeira. Mas eu estou sugerindo que
gal. O que quero dizer é que, onde quer que fosse que eles exami- isso poderia ser um efeito da ressonância mórfica e essa é uma das
nassem os dados, descobriram esse aumento. Por que o QI é uma áreas em que ela pode ser testada. Na química existem também ou-
questão polêmica na psicologia, tem havido muita discussão sobre tras áreas onde ela pode ser testada.
a razão pela qual isso aconteceu: melhor nutrição, escolas melho- O quadro mais importante desse fenômeno de ressonância
res, mais experiência com os testes, e assim por diante. Mas nenhu- mórfica é que as chamadas leis da natureza podem não ser pré- fixa-
ma dessas teorias foi capaz de explicar mais do que uma fração des- das, pode ser que nem todas elas estivessem lá no momento do big
se efeito. O próprio Flynn, após IO anos pensando sobre isso, e tes- bang, como uma espécie de código napoleônico cósmico. Ao con-
tando todas essas explicações, chegou à conclusão que o efeito é trário, as leis da natureza podem ter evoluído com o passar do tem-
desconcertante, não há explicação para ele na ciência convencio- po, talvez elas sejam mais como hábitos, dependendo da memória
nal. No entanto, é apenas o tipo de efeito que seria de se esperar inerente na natureza. A ciência convencional é baseada na idéia de
com a ressonância mórfica. Não é porque as pessoas estão real- que as leis sempre foram fixas, e até a década de sessenta pensa-
mente ficando mais inteligentes, não há nenhuma evidência inde- va-se que o cosmos era fixo e não evolucionário. Hoje temos uma
pendente para um aumento na inteligência. O que está acontecendo cosmologia radicalmente evolucionária, onde a antiga idéia de leis
é que elas simplesmente estão mais eficientes quando fazem os tes- estabelecidas não faz realmente muito sentido. Pelo menos preci-
tes de QI, e eu acho que estão mais eficientes porque milhões de samos considerar a idéia de que elas puderam evoluir e que isso, eu
pessoas já fizeram os mesmos testes. Portanto, acredito que o que penso, é uma maneira de compreender a evolução das regularida-
estamos vendo aqui é um efeito de ressonância mórfica, que pode- des da natureza em termos de hábito. Mas de uma certa forma isso
ria explicar esse fenômeno. A meu ver existem muitos fenômenos também tem conseqüências diretas e práticas para a compreensão
de memória coletiva que poderiam ser testados experimentalmente do patrimônio biológico, da memória humana e de uma série bem
e, em meus livros, eu sugiro algumas maneiras de como isso pode- ampla de fenômenos psicológicos. Portanto, acho que nossas men-
ria ser feito. tes se estendem não só no espaço, mas também no tempo. Que de-
A idéia de memória coletiva não, é claro, unicamente associa- pendemos da memória coletiva daqueles que existiram antes de
da com essa teoria. Com relação aos seres humanos, Jung, o psicó- nós e, por sua vez, todos nós contribuímos para essa memória cole-
logo, já tinha sugerido uma idéia semelhante com sua noção do in- tiva. Portanto, nossas mentes, em vez de serem coisas individuais
consciente coletivo. Mas o que estou sugerindo é que algo como o isoladas na privacidade de nossos crânios, são extremamente mais
inconsciente coletivo não é apenas um fenômeno humano, animais interconectadas com as demais através do espaço e do tempo. São
também o têm, todas as espécies o têm e, com efeito, acho que esse muito mais permeáveis às demais, e somos afetados pelos pensa-
tipo de processo da memória opera em toda a natureza. Se você fi- mentos de outras pessoas, bem como por suas ações. E por sua vez,
zer um novo cristal que nunca existiu antes, não poderia existir um podemos afetar outras pessoas, através de nossos pensamentos e
campo mórfico para esse cristal. Essa teoria se aplica também a atitudes. Isso é algo que a maioria das tradições religiosas nos ensi-

190 191
naram através dos tempos, mas que é negada pela teoria da cons- tanto, se você pensar no assunto, mesmo aceitando o ponto de vista
ciência isolada, que se enquadrou tão bem com o atomismo social materialista, que a interface entre a consciência e o cérebro tem
das teorias sociais do Ocidente moderno, particularmente na parte algo que ver com os padrões elétricos de atividade no cérebro, e
do mundo que fala inglês. essa é uma visão bastante geral, que esses campos elétricos mutan-
Finalmente, eu queria dizer que quando pensamos sobre a tes são de alguma forma uma interface entre a estrutura fisica do
consciência deveríamos ampliar nossos horizontes e abandonar a cérebro e a consciência. E muitas vezes nos dizem que o cérebro
preocupação tão limitada com os sistemas nervosos e cerebrais, e humano é a coisa mais complexa do universo, e que somos os mais
seres humanos e cães e gatos e assim por diante. A maioria das pes- conscientes. Na verdade, em termos de padrões elétricos, nosso cé-
soas que pensam na consciência diz "bem, é claro que somos cons- rebro é deploravelmente atrasado em relação ao sol. O sol, sabe-
cientes" e além disso existem muitos debates hoje em dia na litera- mos hoje em dia, tem uma série incrível de mutações de ressonân-
tura sobre psicologia animal sobre se os cães são ou não conscien- cia elétrica e magnética ocorrendo em seu interior: ciclos de onze
tes. É claro, por muitos anos achava-se que eles não o eram, que anos, explosões de manchas solares, dinâmica caótica, freqüências
eram supostamente máquinas. Hoje é bastante respeitável na etolo- ressonantes. No momento existem dois programas principais inter-
gia cognitiva se dizer que os animais pensam, mas isso é o ponto nacionais de observação solar, Soho e Gaun como são chamados.
máximo a que o debate chegou. Eu penso que é possível que haja Um é um sistema de observatórios solares espalhados por todo o
muitas, muitas formas de consciência no universo. Acho muito di- mundo, e o outro é um satélite que está observando o sol continua-
ficil acreditar que 15 bilhões de anos de evolução cósmica tiveram mente. Atualmente esses sistemas estão monitorando, com um de-
como resultado unicamente a evolução da consciência humana talhamento anteriormente considerado impossível, essas incríveis
neste planeta, com uma possível versão reduzida dela nos cães e mudanças eletromagnéticas - minuciosas e complexas - que estão
outros animais, e enquanto isso todo o resto do universo é total- ocorrendo no sol. Bem, se padrões elétricos complexos são uma in-
mente inconsciente. Essa é a visão que a ciência nos dá e na astro- terface suficiente para a consciência e o cérebro humano, por que é
nomia ou na cosmologia não há qualquer discussão sobre cons- que o sol não poderia tê-los também? Por que o sol não poderia
ciência. Mas penso que deveria haver. Gostaria de terminar com pensar? E se ele está pensando, sobre o que estará pensando? Essas
uma nota bastante provocativa que é uma consideração da cons- não são o tipo de questões para as quais esperamos ter uma resposta
ciência do sol. Ora, a idéia de que corpos celestiais possam estar vi-
imediata, pois não são exatamente aquelas sobre as quais os manu-
vos é familiar à maioria das pessoas hoje em dia através da teoria de
ais de astronomia irão nos ajudar, embora eu pense que os detalhes
Gaya. Se a Terra Gaya é um organismo vivo, se a Terra está viva,
da eletrofisiologia do sol está sendo estudada de uma maneira mui-
então será que a Terra pensa? Será que ela poderia ser conscien-
to sofisticada. Um grupo do qual fizemos parte reuniu-se na Ingla-
te? Essa é uma questão que raramente vemos ser discutida, mas eu
terra no solstício de verão do ano passado, e realizamos uma confe-
acho que é um tema muito importante para discussão.
rência sobre a consciência do sol com alguns fisicos, cosmólogos,
Mas ainda mais relevante é a questão do sol. Todas as religiões pessoas com tradições místicas, e discutimos esse assunto durante
tradicionais tratam o sol como sendo consciente. É um deus, na re- três ou quatro dias. Foi uma discussão fascinante já que ninguém
ligião grega. Na Índia, Surya é um deus e os devotos saúdam o sol sabe nada sobre isso. Ficamos livres de quaisquer limitações espe-
de manhã. Eu mesmo faço um exercício de ioga chamada Surya cíficas, fomos forçados a lançar-nos em especulações totais e, é
na mascar que é uma saudação matinal ao sol. Portanto, essas são claro, se o sol é consciente, por que não as estrelas? E se as estrelas
tradições que existem em todas as partes, mas, é claro, para nós, são conscientes, por que não as galáxias? Essas últimas teriam uma
com uma estrutura científica, o sol é apenas uma grande explosão consciência de um tipo muito mais inclusivo do que a das estrelas
nuclear do tipo que ocorre o tempo todo emitindo radiação. No en- que elas contêm. E se as galáxias, por que não os grupos de galá-

192
xias? Então teríamos uma idéia de níveis hierárquicos de consciên- época muito estimulante para estar vivo, e estou muito contente de
cia por todo o universo. É claro, na tradição ocidental, como em to- que seja possível discutir essas idéias.
das as tradições, temos uma idéia exatamente desse tipo. A idéia
das hierarquias dos anjos na Idade Média não era a de seres com
asas, isso era apenas uma maneira bastante ingênua de represen- Referências bibliográficas
tá-los. Eles eram compreendidos tradicionalmente como níveis de
consciência além do humano. Havia nove níveis dos quais três ou SHELDRAKE, R. (1988). The presence ofthe pasto Londres, Collins.
mais eram relacionados com as estrelas e com a organização de
- (1994). Seven experiments that could change the world. Londres,
corpos celestiais. Eles eram as inteligências das estrelas e dos pla- Fourth Estate.
netas, os três níveis intermediários dos anjos. Portanto, já existe a
tradição no Ocidente sobre uma consciência super-humana. Mathew - (1998a). The sense ofbeing stared at: experiments in schools. Journal
Fox, eu mesmo, e os principais textos ocidentais sobre anjos, e um ofthe Society for Psychical Research, 62, p. 311-323.
livro nosso chamado Afisiea dos anjos, publicado recentemente, - (1998b). Experimenter effects in scientific research: how widely are
retomam o texto principal de Santo Tomás de Aquino, Hildegard they neglected? Journal of Scientific Exploration, 12, p. 73-78.
de Bingen e de Dionísio o Areopagita, as principais autoridades
ocidentais em anjos, e examinam o que eles significavam, e que - (1999a). The sense of being stared at confirmed by simple experi-
ments. Biology Forum, 92, p. 53-76.
novo significado eles poderiam ter à luz da cosmologia moderna.
Ora, como vocês podem imaginar, esse não é o tipo de livro que vai - (1999b). Dogs that know when their owners are coming home. Lon-
estarnas listas de leitura das universidades, e é obviamente especu- dres, Hutchinson.
lativo, mas foi nossa tentativa de explorar essa questão, sobre a
- (1999c). How widely is blind assessment used in scientific research?
qual, a meu ver, os cosmólogos nos desapontaram bastante, de ex-
Alternative Therapies, 5, p. 88-90.
plorar a questão de lidar com os níveis superiores de consciência
que podem existir em todas as sociedades, que, tradicionalmente,
acredita-se existirem por todo o universo. Podemos não saber mui-
to sobre eles, mas, é claro, eu tampouco sei muito sobre sua cons-
ciência. É um problema notoriamente dificil de se provar, até mes-
mo que um outro ser humano está consciente. Portanto, se é difícil
provar que o sol e a galáxia são conscientes, temos de lembrar que
tampouco isso é uma coisa fácil de provar, mesmo com pessoas ou
animais. Mas, penso realmente que precisamos ter uma perspecti-
va ampla quando estivermos pensando sobre psicologia transpes-
soal, sobre a consciência, sobre os novos paradigmas nas ciências,
devemos tentar evitar o tipo de ehauvinismo humano antropocên-
trico, ou até mesmo o chauvinismo terrestre, e reconhecer que é
possível que haja muitas formas de consciência no universo. Penso
que estamos no limiar de um período inteiramente novo de desco-
bertas e investigações científicas, e creio também que esta é uma

194
chel-Dolmatoff, 1975; 1978, as várias contribuições em Hamer,
1973 e Luna, 1986a; para uma bibliografia abrangente veja Luna,
1986 b). A infusão é feita de duas plantas - normalmente a primeira
é a Banisteriopsis caapi, um cipó da família das Malpighiáceas, e a

8 segunda é aPsychotria viridis, um arbusto. Na linguagem popular,


o termo ayahuasca é utilizado para referir-se não só à infusão, mas
também à primeira das duas plantas constituintes. Quimicamente,
Ayahuasca, mente e consciência os principais ingredientes ativos na poção são os alcalóides N, N-
dimetiltriptamina ou DMT, a harmina, a harmalina e a beta-Iepta-
florina (para um exame clássico sobre a botânica e a farmacologia
Benny Shanon da ayahuasca, veja Schultes, 1972; para mais informações atuali-
zadas veja Ou, 1993; 1994). Os povos indígenas da região amazô-
lhe Hebrew University, Israel
nica usam a ayahuasca há milênios. Na vasta região que inclui o
oeste do Brasil e as áreas leste do Equador, do Peru e da Colômbia,
a ayahuasca é a coluna central da cultura (para uma análise históri-
Resumo
ca, veja Naranjo, 1983). No passado, a ayahuasca era usada para
todas as decisões principais de uma tribo, particularmente para lo-
Este trabalho é parte de um projeto de pesquisa em curso atual- calizar a caça e para declarar guerra; era também parte essencial
mente que investiga, de uma perspectiva cognitivo-psicológica, a dos ritos de iniciação. Hoje ela é o instrumento básico dos xamãs e
infusão psicotrópica ayahuasca. Até o momento, a ayahuasca foi dos curandeiros de toda a região. Dizem que a ingestão da bebida
estudada principalmente pelos cientistas ditos naturais (botânicos,
faz com que os curandeiros sejam capazes de ver a constituição in-
farmacólogos e fisiologistas) ou pelos cientistas sociais - principal-
terior de seus pacientes e com isso fazer o diagnóstico correto e rea-
mente antropólogos. Nosso argumento é que, se quisermos apreciar
lizar o tratamento.
verdadeiramente o que é especial a respeito da ayahuasca, necessi-
tamos de uma investigação cognitivo-psicológica das experiências No século XX, como resultado de contatos inter-raciais, em
subjetivas peculiares que a bebida induz. Por um lado, o modelo várias seitas sincréticas que se estabeleceram no Brasil, as tradi-
cognitivo psicológico serviria para estabelecer as bases para um es- ções indígenas da ayahuasca se juntaram a elementos culturais
tudo sistemático da fenomenologia da experiência com a ayahuas- cristãos e a outros não indígenas, particularmente africanos. En-
ca. Por outro, o estudo da ayahuasca pode introduzir ao psicólogo tre essas seitas a mais importante é a Igreja do Santo Daime e a
cognitivo novos territórios mentais antes nunca mapeados e, assim, União do Vegetal (UdV). Na última década os dois grupos se ex-
também oferecer-lhe novas questões e novas perspectivas para o es- pandiram significativamente por todos os centros urbanos brasilei-
tudo da mente. Neste trabalho, focalizo as várias mudanças que a ros e recentemente também estabeleceram comunidades no ex-
ayahuasca induz no estado de consciência das pessoas, e destaco o terior (para informação geral a respeito da Igreja do Santo Daime,
grande potencial que o estudo da experiência com a ayahuasca pode veja Monteiro da Silva, 1983; Polari, 1984; 1992; Froes, 1986;
ter para o estudo do fenômeno da consciência humana.
MacRae, 1992; Groisman & SeU, 1995, e o Centro de Memória e
Documentação, 1989, para o UdV).
1. A ayahuasca e sua investigação científica O consumo da ayahuasca provoca visões poderosas assim
como também alucinações em todas as outras modalidades percep-
A ayahuasca é uma infusão psicotrópica consumi da em toda tuais. Efeitos cognitivos não-perceptuais pronunciados também se
a região do Alto Amazonas (para uma discussão geral, veja Rei- manifestam. Esses incluem ideações, tanto espirituais quanto inte-

196 197
lectuais, insights pessoais profundos e várias experiências místi- do consumo, mas o que podem dizer sobre o fenômeno propria-
cas. Além disso, a ayahuasca introduz as pessoas que a tomam ao mente dito é bastante limitado.
que parece ser outras realidades. Assim, aqueles que consomem a É bem verdade que o Ocidente não teria conhecido a ayahuas-
infusão podem sentir que estão ganhando acesso a novas fontes de ca se não fosse pelas aventuras ousadas de botânicos e antropólo-
conhecimento e que os mistérios e verdades últimas do universo gos. No entanto, uma vez descobertas, as experiências especiais,
lhes estão sendo reveladas. Tudo isso é muitas vezes acompanhado talvez até misteriosas, que a ayahuasca oferece, não são nem botâ-
daquilo que só pode ser descrito como um encontro com o Divino. nicas nem antropológicas. Como já observamos acima, o que é es-
Praticamente toda a pesquisa científica sobre a ayahuasca se pecial sobre a ayahuasca são as experiências subjetivas extraordi-
divide em duas categorias. A primeira é a das ciências naturais - nárias que ela provoca. Portanto, os verdadeiros enigmas associa-
botânica e etnobotânica, farmacologia, bioquímica e fisiologia do dos a essa infusão não pertencem nem ao cérebro nem à cultura e
cérebro. A segunda categoria é a das ciências sociais - sobretudo a sim à mente humana. Como tal, o estudo da ayahuasca pertence
antropologia. As disciplinas da primeira categoria tentam determi- em primeiríssimo lugar ao domínio da psicologia, e mais especifi-
nar a identidade das plantas com as quais se prepara a ayahuasca, camente à psicologia cognitiva. Essa é a disciplina envolvida no
analisar os ingredientes químicos ativos nelas, e descobrir a ação estudo empírico e teórico da vida mental dos seres humanos. Suas
farmacológica que elas geram e os efeitos fisiológicos que produ- áreas de envolvimento paradigmáticas são a linguagem, a memó-
zem nos seres humanos. Parece que a essa altura os cientistas já ria, os processos do pensamento, os aspectos psicológicos do co-
descobriram respostas bastante definidas para essas perguntas. Os nhecimento e, por fim, mas igualmente importante, a consciência.
antropólogos, por sua vez, estudam como a ayahuasca é utilizada Deixe-me ainda explicar a diferença de perspectiva entre a psi-
nas várias sociedades e grupos. Eles registram os ritos religiosos ou cologia cognitiva e a antropologia. Essa diferença, é claro, não é
medicinais nos quais a bebida é consumida e o comportamento das específica ao tema da pesquisa sobre ayahuasca. A diferença a ser
pessoas que deles participam. Estudam também como a ayahuasca observada é dupla. Primeiramente, o ponto de partida do antropó-
e seus rituais estão relacionados às várias outras facetas das cultu- logo é o estudo das sociedades e da cultura. Em comparação, o pon-
ras sob estudo - sua estrutura social, mitologias, música, crenças to de partida do psicólogo é o indivíduo. Segundo, os antropólogos
religiosas, arte e artefatos. (Além dos trabalhos citados acima, su- estudam o Outro e tentam entender sua cultura estrangeira. O psi-
gerimos ao leitor Dobkin de Rios, 1972; 1973; Reichel-Dolmatoff, cólogo cognitivo investiga as estruturas comuns e os mecanismos
1975; Langdon, 1979; 1992; Luna, 1986a, bem assim como umnú- que formam a mente humana. Obviamente, as pessoas são mem-
mero especial da revista América Indígena, 1986.) bros de culturas diferentes, mas, ainda assim, enquanto seres hu-
A meu ver, por mais importantes que sejam, nenhuma dessas manos, elas são, em algum sentido básico, todas iguais. Assim,
investigações aborda o núcleo da questão. Ambas observam a para o antropólogo a ayahuasca é interessante primordialmente
ayahuasca de fora, por assim dizer. A ayahuasca desperta curio- porque ela apresenta a novidade de práticas socioculturais. Ao
sidade devido às experiências extraordinárias que provoca nas contrário, para o psicólogo cognitivo a ayahuasca é um instrumen-
to para descobrir novos territórios, até então desconhecidos, da
pessoas. Claramente, essas experiências são psicológicas. As vá-
rias ciências naturais nos dizem de que é feita a ayahuasca e que mente humana - seja ela a mente de um indiano ou de um ociden-
eventos cerebrais ela produz, mas não dizem nada - na verdade tal. Na verdade, a meu ver, a ayahuasca não é um meio para estudar
não podem dizer nada - sobre as experiências especiais associa- o Outro e sim um instrumento para estudar-me a mim mesmo, a nós
das com a bebida. As ciências sociais também olham as coisas de mesmos (para maior exposição dessa idéia, veja Shanon, 1998).
fora. Normalmente, os antropólogos descrevem como as pessoas Posso acrescentar que, a meu ver, o esforço cognitivo é orien-
de um dado grupo étnico ou social (de um modo geral, grupos que tado por uma perspectiva semelhante àquela que serve de base para
não sejam os seus próprios) usam a bebida. Focalizam o contexto

198 199
a pesquisa biológica. Naturalmente, as mentes das pessoas dife- seqüências importantes para aquilo que pode ser aprendido através
rem, da mesma maneira como diferem seus narizes e seus fígados. da literatura existente sobre o tema.
No entanto, da mesma forma como o anatomista estuda a estrutura Assim, minha própria investigação da ayahuasca baseia-se em
do nariz humano (embora os narizes de pessoas diferentes pareçam uma extensa experiência direta. Ingeri a infusão mais de cem
diferentes) e da mesma forma como o físiologista estuda a função do vezes, em vários lugares e contextos; entre eles, ambientes tradi-
fígado (embora fígados diferentes se comportem de maneira dife- cionais na Amazônia, sessões de cura organizadas por curandei-
rente), assim também o psicólogo cognitivo estuda a mente humana. ros mestiços, rituais indígenas, rituais das duas religiões sincréti-
As mentes de pessoas diferentes podem ser diferentes, mas em se cas mencionadas acima, em pequenos grupos de indivíduos que
tratando das mentes de membros de uma mesma espécie é claro que não faziam parte das instituições envolvidas, e sozinho. Descri-
faz sentido falar daquele sistema que é comum a todos os membros ções completas de todas essas sessões foram anotadas imediata-
do homo sapiens - a mente humana. Ao dizer que a disciplina mais mente após seu término. Além disso, entrevistei um grande núme-
pertinente para o estudo da ayahuasca é a psicologia cognitiva, es- ro de pessoas sobre os vários aspectos de suas experiências com a
tou também estabelecendo uma comparação com outras subdiscipli- ayahuasca. Entre as pessoas entrevistadas estavam índios e não
nas da psicologia, principalmente a psicologia médica, a psicologia Índios, curandeiros e mestres de cerimônias ayahuascas, pessoas
clínica e a psiquiatria. Os poucos estudos psicológicos existentes so- com grande experiência da infusão e outras que a estavam tomando
bre a ayahuasca pertencem a essas áreas (veja, por exemplo, Naran- pela primeira vez; entre esses últimos, havia tanto pessoas residen-
jo, 1973a; 1973b). Isso é mais do que natural, dado os usos medici- tes na América do Sul como viajantes estrangeiros que não sabiam
nais da infusão. Meu próprio objetivo é diferente: quero investigar nada sobre a ayahuasca antes de havê-Ia ingerido pela primeira
o que é a experiência ayahuasca e conseguir entender a dinâmica e vez. As entrevistas foram conduzi das em muitos lugares diferentes
os processos cognitivos a ela associados. Os vários usos - sejam no Brasil e no Peru, e também fora da América Latina. Um relató-
eles médicos ou psicológicos - da ayahuasca, por mais importan- rio quantitativo preliminar de minhas conclusões foi apresentado
tes que sejam, pertencem a uma história diferente. em Shanon (1999); e mais será dito em um livro que está sendo pre-
O presente relatório é parte de um projeto em curso que tenta parado no momento.
estudar a ayahuasca de um ponto de vista cognitivo-psicológico. Um último comentário metodológico antes que eu prossiga.
Como já foi indicado, essa é a primeira vez que se tenta implemen- Em toda essa discussão, estarei falando apenas da fenomenologia
tar um projeto desse tipo. Ele também é especial no sentido de que da experiência com a ayahuasca. No entanto, não tenho a menor
é baseado em uma extensa experiência de primeira mão da infusão, intenção de outorgar à ayahuasca um status especial por compara-
algo que não é muito comum já que, muitas vezes, a informação ção a qualquer outro agente psicotrópico. Esta discussão está limi-
que os antropólogos têm sobre a fenomenologia experiencial da tada à experiência ayahuasca simplesmente porque essa é a única
ayahuasca é de segunda mão. Mesmo quando realmente experi- experiência desse tipo da qual tenho um bom conhecimento pesso-
mentaram a bebida, os cientistas sociais nonnalmente o fizeram de al e que estudei de fonna sistemática. Embora muitas pessoas indí-
uma maneira um tanto cautelosa e como algo periférico em relação genas e alguns investigadores ocidentais tenham afirmado que a
ao que consideravam ser o objeto principal da investigação. Com ayahuasca realmente é especial por comparação a outras subs-
umas poucas exceções importantes, a experiência de primeira mão tâncias psicotrópicas (veja, por exemplo, Schultes, 1982), não di-
que os cientistas sociais que estudaram a ayahuasca tiveram da in- rei qualquer coisa sobre a comparação substantiva entre a ayahuas-
fusão foi muito limitada. Além disso, muitos daqueles que tiveram ca e outras substâncias, sejam elas naturais ou sintéticas. Metodo-
amplo conhecimento direto da ayahuasca são membros de alguma logicamente, porém, gostaria de observar que tudo que foi dito
religião ou comunidade associada com a bebida e, portanto, não to- aqui é, na verdade, naturalmente extensível a todas as outras esfe-
talmente confiáveis intelectualmente. Tudo isso, creio eu, tem con- ras dos chamados estados alternados da consciência, sejam eles in-

200 201
duzidos através de substâncias psicotrópicas ou sem elas (como sistemática da fenomenologia da experiência com a ayahuasca.
nos vários estados místicos). Com efeito, as idéias expressas aqui Em sua totalidade, essas questões são equivalente à pergunta-cha-
podem ser consideradas uma apresentação de bases conceituais e ve: "O que é que está sendo vivenciado?" O conjunto de questões
um conjunto de diretrizes básicas para um estudo cognitivo-psi- incluídas nesse primeiro grupo é o maior de todos e por isso pede
cológico (em contraste a estudos médicos, fisiológicos, psicanalí- mais subclassificações. A primeira subclassificação observada é
ticos ou psicológico-clínicos) de agentes psicotrópicos em geral. por tipos de áreas. Essas áreas incluem percepção, ideação, emoção
e efeitos corporais bem assim como alterações na consciência e no
estado do eu. Todos esses tipos de áreas abrangem uma variedade de
2. Rumo a um estudo cognitivo-psicológico da experiência
efeitos. Aqui, quero dar maiores detalhes apenas sobre os subtipos
com a ayalruasca que pertencem às duas áreas mais proeminentes - percepção e idea-
ção. Os tipos perceptuais incluem alucinações visuais com olhos
Meu interesse profissional na experiência com a ayahuasca é
abertos, alucinações visuais com os olhos fechados, alucinações au-
estimulado pela avaliação de que a ligação entre a pesquisa sobre a
ditivas, efeitos gustativos e olfativos, efeitos tácteis e efeitos envol-
ayahuasca e o estudo da mente é de mão dupla. Por um lado, a psi-
vendo sinestesia (i.e., interações entre várias modalidades senso-
cologia cognitiva apresenta uma perspectiva nova e, a meu ver,
riais). Os tipos ideacionais incluem insights sobre a personalidade e
muito pertinente, para o estudo da ayahuasca. Por outro, a ayahu-
a vida da própria pessoa, insights intelectuais e reflexões relaciona-
asca, com os fenômenos incomuns que provoca, abre novas jane-
das com áreas específicas do interesse da pessoa, idéias filosóficas
las para o estudo da mente em geral e da consciência humana em
e metafísicas e idéias de caráter espiritual e religioso.
particular. Além disso, parece-me que estudar a ayahuasca de uma
perspectiva psicológica cognitiva pode espargir uma nova luz so- A segunda subclassificação é por conteúdo. Que tipos de coisas
bre fenômenos que estão na esfera de ação de outras disciplinas vemos nas visões com a ayahuasca? Que tipos de materiais auditi-
científicas, principalmente a a~tropologia e a filosofia. vos ouvimos? Qual é o conteúdo das idéias e reflexões que nutrimos
sob o efeito da intoxicação? De um modo geral, as questões perten-
Deixem-me começar com a contribuição que a pesquisa psico-
centes ao conteúdo (mais especificamente, as questões pertencentes
lógica cognitiva pode dar ao estudo da ayahuasca (A contribuição
ao conteúdo das alucinações visuais) são as únicas que foram discu-
do estudo da ayahuasca para a psicologia cognitiva será discutida
tidas seriamente na literatura (veja, por exemplo, Hamer, 1973a;
na seção seguinte). Como mencionado na seção anterior, em essên- 1973b; Reichel-Dolmatoff, 1975; Luna & Amaringo, 1991).
cia, a tarefa da psicologia cognitiva consiste em uma tentativa de
oferecer um mapa sistematizado da fenomenologia especial apre- A terceira subclassificação das questões fenomenológicas de
sentada pela ayahuasca e conceitualizá-Ia em termos do atual co- primeira ordem é por estrutura. Dada uma alucinação! visual, po-
nhecimento empírico e teórico sobre o funcionamento da mente demos perguntar não apenas sobre seu conteúdo, mas também de
humana. A fim de definir esse esforço mais especificamente, farei que tipo de imagem ela é composta. Assim, além de determinar
um esboço de uma tipologia das perguntas cognitivo-psicológicas
que a experiência da ayahuasca estimulam. Nos parágrafos se-
guintes, as várias questões cognitivo-psicológicas pertencentes à
experiência com a ayahuasca são apresentadas aqui em termos de
vários grupos. Cada uma das questões principais e secundárias in-
I. o tenno "alucinação" é carregado com todos os tipos de eonotações que não deveriam ser
dicadas definem um tópico de investigação em si mesmo. presumidas. Ele envolve julgamentos de valor pessoais c sociais, bem assim como ques-
tões filosóficas complexas. Este não é o lugar para discutir todas essas coisas nem o con-
O primeiro grupo compreende as questões fenomenológicas texto para propor uma terminologia alternativa. Só peço ao leitor deste texto para abordar
de primeira ordem. Essas são relacionadas com a caracterização o termo da maneira mais neutra possivel, com o significado de percepções não ordinárias.

202 203
aquilo que vemos, digamos, pessoas, animais ou paisagens, pode- da. Variáveis contextuais de relevância potencial incluem o ambi-
mos também observar que as imagens que as pessoas têm em suas ente fisico, o meio social, o relacionamento interpessoal naquele
visões são imóveis ou transitórias, bem definidas ou embaçadas, momento e o ritual sendo utilizado. É pertinente também verificar as
constituídas de uma única tomada ou definindo séries completas, influências de nossas atitudes e reações emocionais com respeito à
como em um filme. infusão e as experiências de sua ingestão que tivemos anteriormente.
Essas subclassificações, observem, são ortogonais - isto é, de- Dentro do modelo do estudo de estados alterados da consciência,
vem ser consideradas como dimensões diferentes que, juntas, defi- normalmente nos referimos a esses dois subgrupos de perguntas
nem vários pontos em um espaço multidimensional. Cada um des- respectivamente como "ambiente" (setting) e "cenário" (set).
ses pontos é uma trinca de valores sobre as três dimensões observa- Com base em todos os tipos de perguntas mencionadas acima e
das. Assim, uma alucinação visual específica, retratando uma cena nas análises que elas estimulam, podemos adotar uma perspectiva
em uma floresta, será representada pelo tripé do valor "alucinação mais global e mais abstrata e voltar-nos para as questões teóricas.
visual" na dimensão de área, o valor "floresta" na dimensão de Elas definem nosso quinto grupo. Em particular, podem as várias
conteúdo, e o valor "cena completa em desenvolvimento" na di- facetas da fenomenologia da experiência ayahuasca ser caracteri-
mensão de estrutura. zadas como manifestações de um pequeno grupo de fatores subja-
centes? Que explicação geral pode ser dada para os vários fenôme-
O segundo grupo principal a ser observado é o das questões fe-
nos observados? De que forma o relato da experiência com a aya-
nomenológicas de segunda ordem. Essas estão relacionadas com
huasca pode ser incorporada à teoria geral da mente humana?
padrões ordenados revelados pelas relações entre os fenômenos
elementares que pertencem às questões da primeira ordem. Entre
as questões desse grupo estão as seguintes: Existe uma ordem na- 3. Possíveis contribuições da ayaltuasca para o estudo
quilo que vivenciamos? Existem regularidades na evolução das vi- da mente
sões e nas outras experiências que a ayahuasca induz? Podemos
identificar etapas diferentes? Quais são os padrões associados com Voltemo-nos agora para o ângulo oposto e consideremos qual a
as mudanças entre as etapas de visões? contribuição que o estudo da ayahuasca pode trazer para a psicolo-
As questões da segunda ordem são mais interessantes não so- gia cognitiva e para o estudo da mente. Mesmo antes de marcar tópi-
mente devido à fenomenologia factual com que se preocupam. Por cos específicos de interesse, deixem-me destacar a relevância cogni-
serem mais abstratas que as perguntas da primeira ordem, podemos tiva fundamental que tem, de um modo geral, o estudo de estados da
dizer que definem os limites impostos à fenomenologia da área sob consciência fora dos padrões normais. Não há, creio eu, uma melhor
investigação. Nessas circunstâncias, elas lançam as bases para um maneira de defender essa posição do que as linhas que se seguem -
relato teórico do assunto que estamos abordando. hoje já clássicas - escritas por um dos grandes precursores da psico-
logia científica moderna, William James; a passagem vem de seu li-
O terceiro grupo principal é o das perguntas relacionadas com
a dinâmica. Essas tratam dos processos cognitivo-psicológicos vro Varieties ofreligious experience (James, 1929):
que governam a evolução das experiências e a maneira pela qual Nossa consciência normal desperta, consciência ra-
essas se transformam e se desenvolvem. Em particular, podemos cional como a chamamos, é apenas um tipo especial
investigar os padrões estruturais segundo os quais uma imagem de consciência, enquanto que à sua volta, separada
conduz à outra. dela pela mais fina das telas, estão formas potenciais
O quarto grupo é o das perguntas contextuais. Essas perguntas de consciência totalmente diferentes. Podemos pas-
examinam como as várias facetas da intoxicação são influenciadas sar pela vida sem suspeitar sua existência; mas apli-
pelo contexto em que a pessoa sob o efeito da ayahuasca está situa- que o estímulo necessário e, com um toque, elas estão

204 205
lá, em toda sua plenitude, tipos definidos de mentali- tanto os fatos ordinários como os não-ordinários da mente. Assim,
dade que provavelmente terão, em algum lugar, seu os novos fenômenos revelados pela ayahuasca (juntamente com
campo de aplicação e de adaptação. Nenhuma expli- outros agentes psicotrópicos) são da maior significância cogniti-
cação do universo em sua totalidade pode ser conclu- vo-psicológica.
siva se deixar essas outras formas de consciência
A geografia da ayahuasca é vasta, e aqui me concentrarei em
negligenciadas (p. 378-379). apenas uma de suas facetas. A fim de colocar a pesquisa aqui rela-
De maneira significativa, a afirmação acima não é meramente tada em perspectiva, deixem-me fazer um esboço geral do domínio
teórica. Ela foi feita diretamente com base na experiência de primei- fenomenológico da experiência com a ayahuasca que estou estu-
ra mão de James com um agente psicotrópico, o chamado "gás do dando. Em um livro que estou escrevendo no momento, cada um
riso", óxido nitroso - NO (veja James, 1882). Observações se- dos diferentes aspectos a serem observados define o tema de um ou
melhantes foram feitas pelo romancista e filósofo Aldous Huxley mais capítulos. Primeiramente, está a atmosfera total diferente que
(1971) com base em sua experiência pessoal com outra substância a inebriação provoca e os sentimentos gerais - corporais e psíqui-
psicotrópica, a mescalina. A experiência com mescalina levou Hux- cos - a ela associados. Ainda de maior importância são os efeitos
ley a escrever dois ensaios, The doors of perception e Heaven and sensoriais e perceptuais. Esses pertencem a todas as modalidades
hell. As citações seguintes são das páginas de abertura do último: sensoriais - a visual, a auditiva, a olfato-gustativa e a tátil (essa or-
Como a Terra de cem anos atrás, nossa mente ainda dem é também uma ordem descendente das freqüências relativas
tem suas Áfricas escuras, suas Birmânias e bacias dos efeitos associados com essas modalidades); também proemi-
amazônicas não mapeadas. Com relação à fauna des- nente são os efeitos sinestésicos, isto é, os efeitos em que há per-
sas regiões, nós ainda não somos zoólogos, somos cepções de mais de uma modalidade simultaneamente. Acrescen-
apenas naturalistas e coletores de espécimes ... Como tarei, ainda, que os efeitos visuais podem aparecer tanto com olhos
a girafa e o ornitorrinco com bico de pato, as criaturas fechados como com olhos abertos. Não menos importantes são os
que moram nessas regiões mais remotas da mente são efeitos ideacionais - sob a influência da ayahuasca as pessoas sen-
extremamente improváveis. Mas, apesar disso, elas tem que suas mentes estão funcionando mais rapidamente e melhor
existem, são fatos da observação; e, como tais, elas do que normalmente e eles relatam muitas idéias novas, insights e
não podem ser ignoradas por ninguém que esteja ho- reflexões que passam por suas mentes. Quarto, são os efeitos per-
nestamente tentando entender o mundo no qual vive- tencentes às mudanças na estrutura da consciência e do eu. Asso-
mos (p. 71). ciadas a elas estão as' experiências de metamorfose nas quais nos
Um homem consiste daquilo que podemos chamar de sentimos como se a identidade pessoal estivesse se transformando
mundo antigo da consciência pessoal e, além de um (tornando-se a de uma outra pessoa ou a de um animal). Além dis-
mar divisório, de uma série de novos mundos - as não so, há os efeitos que podem ser observados publicamente - esses
tão distantes Virgínias e Carolinas do subconsciente pertencem a nosso desempenho manifesto no mundo; sobretudo, a
pessoal e da alma vegetativa; o oeste distante do in- ayahuasca muitas vezes faz com que as pessoas cantem e observa-
consciente coletivo ... ; e através de outro oceano, ain- mos, nesses casos, que elas apresentam níveis de desempenho mu-
da mais vasto, nos antípodas da consciência cotidiana, sical muito superiores aos que apresentariam normalmente. Por úl-
do mundo da experiência visionária (p. 72). timo, mas definitivamente não menos importante, estão as expe-
riências espirituais e místicas.
Como no caso da geografia, afirmações e suposições baseadas
unicamente nos estados ordinários da consciência (sobretudo os N este trabalho, focalizo a faceta da fenomenologia da ayahuasca
estados normais de vigília e de sonho) não são suficientes. Qual- que pertence especificamente às modificações em nosso estado
quer teoria da cognição que seja geral e abrangente tem que abarcar

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de consciência. Para isso, são necessários alguns comentários pre- dos limites da consciência, é extremamente dificil apreciar a exis-
liminares sobre minha concepção da consciência. tência desses parâmetros.
Para esclarecer um pouco mais essa perspectiva estrutural, dei-
xem-me usar uma analogia. Eu uso óculos. Sem eles não vejo. Nor-
4. A consciência: uma perspectiva fenomenológica
malmente, não dou muita atenção aos óculos; do ponto de vista
Minha abordagem ao estudo da consciência é uma abordagem prático, presumo que eles estarão sempre lá. No entanto, se as espe-
fenomenológica radical. Ela foi inspirada pelas obras clássicas de cificações das lentes fossem modificadas, as características do
James (1890/1950) e apresentadas em detalhe em Shanon (1993). mundo que eu percebo mudariam. Por exemplo, se as lentes fos-
No passado, utilizei essa abordagem no estudo dos vários aspectos sem tingidas de rosa, a coloração de tudo que vejo seria modifica-
da consciência normal; esses incluem atividades mentais espontâ- da. Com isso, a existência dos óculos, suas especificações e sua
neas como se fossem verbais, imagens mentais e sonhos (veja Sha- contribuição para minha visão ficariam evidentes. A mesma coisa
non, 1984; 1989; 1990; 1998; Shanon & Eifermann, 1984). ocorre com a consciência, só que nesse caso a situação é ainda mais
radical. Os óculos, afinal de contas, podem ser removidos, mas a
Em essência, como eu a vejo, a consciência é a totalidade da
consciência está sempre conosco, ou melhor dito, tudo que viven-
perspectiva humana direta e subjetiva. O psicólogo fenomenológi- ciamos tem sempre como base a consciência. Como mencionei, o
co não se pergunta como surge a consciência ou qual é o relaciona-
mento entre consciência e cérebro. Ao contrário, ele aceita a cons- objetivo básico da análise estrutural da consciência é determinar os
ciência como um dado e se pergunta quais são as características es- valores específicos de uma série de parâmetros que, juntos, defi-
nem a natureza da experiência subjetiva humana. Mas, como no
truturais desse fenômeno. De uma perspectiva estruturalista e fe-
caso dos óculos, é somente quando nosso estado de consciência
nomenológica a consciência é essencialmente o sistema cognitivo
muda que começamos a apreciar esses parâmetros e valores. Daí,
que define a experiência subjetiva humana. O fato de que nós, seres
humanos, temos uma experiência subjetiva não é um assunto trivi- então, a importância fundamental cognitivo-psicológica do estudo
dos chamados estados alterados da consciência.
al. Hipoteticamente, poderíamos conjeturar um sistema cognitivo
que não tivesse essa qualidade. Além disso, a experiência subjetiva Deixem-me repetir. No meu entendimento, um estudo estrutu-
poderia ser definida de várias maneiras. De facto, acontece que a ral da consciência é precisamente isso: a definição de parâmetros e
fenomenologia da experiência humana é definida de uma maneira seus valores. A fim de defini-los, o que precisamos basicamente fa-
específica. No entanto, os agentes cognitivos poderiam ter sido cri- zer é abordar a questão daquilo que a consciência, com efeito, não
ados ou desenvolvidos para que sentissem, intuíssem e percebes- é. Essa questão não é fácil. Algumas das características principais
sem o mundo de forma diferente. Por exemplo, poderiam perceber da consciência estão tão enraizadas em nossa existência que elas
as cores de maneira diferente, sentir que seus corpos estavam mais são presumidas e normalmente estamos cegos para elas. A fim de
pesados ou mais leves, ver as coisas no mundo como se fossem definir os parâmetros estruturais da consciência e determinar seus
maiores, mais nítidas - ou outras coisas semelhantes - e sentir que valores reais o estudante da mente tem de considerar a abrangência
o tempo fluía mais rapidamente ou mais lentamente. Assim, de um potencial desses parâmetros e seus valores. A grande contribuição
ponto de vista estrutural, a consciência pode ser definida como um potencial do estudo de estados incomuns da consciência para o co-
conjunto de parâmetros que definem a maneira específica segundo nhecimento científico da mente reside exatamente no fato de que
a qual os seres humanos vivenciam o mundo - tanto fisico como
eles tomam os parâmetros do sistema cognitivo aparentes e com
mental. Se os valores desses parâmetros mudassem, a fenomenolo- isso revelam os vários valores possíveis que esses parâmetros po-
gia da experiência seria alterada. No entanto, como nunca saímos dem assumir.

208
5. Padrões incomuns da consciência descobertos com
a ayahuasca Com a ayahuasca, às vezes isso já não ocorre. Em visões especial-
mente intensas, podemos sentir como se estivéssemos sendo sub-
A seguir, um levantamento dos vários padrões incomuns da metidos a uma metamorfose com uma mudança em nossa identida-
consciência que a ayahuasca pode induzir. de pessoal. No contexto amazônico tradicional do uso da ayahuas-
ca, tais transformações são de enorme significância. Especifica-
mente, a transformação em um animal, sobretudo o jaguar, e a ca-
5.1. Mediação
pacidade de voar, são normalmente consideradas as característi-
Normalmente, todo o material mental que vivenciamos e nu- cas principais da competência xamânica (veja Reichel-Dolmatoff,
trimos é unicamente nosso. Isso se aplica sobretudo aos pensamen- 1975). Muitos exemplos desses tipos de transformações podem ser
tos que atravessam nossa mente. Primafacie, parece inconcebível encontrados também em meu conjunto de dados fenomenológicos
que as coisas pudessem ser diferentes. Como poderia haver qual- - tanto em minhas próprias experiências com a ayahuasca quanto
quer outra possibilidade? No entanto, com a ayahuasca, sentimos, nos relatos de muitos de meus informantes (não indígenas).
às vezes, que nossos pensamentos não são nossos. Dois fenômenos
serão observados. O tipo mais comum de mudança de identidade pessoal que sur-
ge com a ayahuasca envolve mudanças na identidade humana.
O primeiro é uma dissociação entre o self e o material mental Essas variam desde uma forte afinidade com uma outra pessoa até
que vivenciamos. O conteúdo está passando pela minha mente, mas uma sensação de verdadeira transformação na qual assumimos a
eu não sinto como se fosse a fonte que está gerando esse conteúdo. identidade dessa outra pessoa. Sem exceção, as pessoas nas quais
Em vez de ser o gerador de meus pensamentos, sinto que sou um ca- sentimos que nos estamos transformando são pessoas de outros lu-
nal que os recebe. De forma significativa, recebimento é o termo pa- gares e outras épocas.
drão usado nos vários contextos do uso da ayahuasca, especialmen-
te em associação com as canções cantadas durante os rituais. Também muito comuns (uma vez mais, afirmo isso aqui com
base nos relatos de pessoas não indígenas) são as transformações
O segundo fenômeno relaciona-se com controle. A experiên-
em animais. Eu mesmo já senti que me transformava em um j aguar
cia é que não estamos mais em controle total dos pensamentos que
nutrimos. Ao contrário, sentimos que outras pessoas ou agentes es- e em várias formas de pássaro. Transformações semelhantes foram
tão controlando nossos pensamentos. O oposto também pode ocor- relatadas por meus informantes. Tipicamente, as transformações
rer, ou seja, sentimos como se estivéssemos controlando os pensa- em pássaros estão associadas com a sensação de estar voando.
mentos de outras pessoas. Um tipo raro de transformação é em um objeto inanimado. Ele
Juntos, esses dois fenômenos levam a uma situação estranha só me foi relatado por dois informantes. Um deles, um xamã perua-
na qual nossos pensamentos não são mais privados. Muitas vezes, no, me disse que considerou sua transformação em um grão de
isso é acompanhado de uma forte sensação de telepatia. A expe- areia como sendo a façanha mais marcante de sua experiência de
riência telepática é extremamente comum com a ayahuasca. Na uma vida inteira com a ayahuasca. Sua explicação para o fato foi
verdade, um dos primeiros nomes que os europeus deram ao ingre- que ele tinha passado por essa transformação para se tomar invisí-
diente ativo da ayahuasca foi telepatina (Fischer Cardenas, 1923). vel: em uma visão, seus inimigos o estavam perseguindo e ele não
tinha para onde fugir. Com a transformação, não pôde mais ser vis-
5.2. Identidade pessoal to e se salvou. Especialmente impressionante é o relato de uma ar-
tista do Rio de Janeiro que tinha visões extremamente vívidas e in-
Um aspecto elementar de estarmos conscientes é o fato de ter- tensas. Uma vez ela teve a sensação de que adquiria a identidade de
mos uma identidade pessoal definida - "Eu sou eu" é axiomático. todas as coisas para as quais olhasse.

210
5.3. Unidade damental. Especificamente, o sentido do self pode se dissipar e,
apesar disso, continuarmos a sentir a consciência.
Normalmente, presume-se que a consciência seja unificada. O
Especialmente intensas são as experiências em que sentimos
comum é sentirmos que temos uma identidade coerente e coesa.
que a consciência não é pessoal e sim parte integrante de uma mol-
Mas é possível que a consciência seja dividida e que tenhamos uma dura do ser que é maior que nós mesmos. Essa superconsciência
identidade padrão e também uma outra nova. Em nossa cultura,
pode ser ou algo cósmico - uma espécie de anima mundi - ou pode
esse fenômeno é muitas vezes associado com o estado psicopatoló-
pertencer a um self de um nível superior, ao qual estamos conecta-
gico de múltipla personalidade. No contexto ameríndio da ayahu- dos. Observações pertinentes com relação a isso foram feitas por
asca, a capacidade de manter uma identidade dupla é considerada Polari, um dos mais altos líderes da Igreja do Santo Daime, em seu
uma característica essencial em um xamã competente. O vôo xa-
livro autobiográfico O livro das mirações (1984): "Nossa cons-
mânico não significa apenas ter uma ilusão de que nossa identidade ciência [...] poderia ser [...] diretamente relacionada com [...] a to-
e localização se modificaram. Ao contrário, a experiência consiste talidade da energia cósmica [que, por sua vez, é] meramente um
em estar em duas esferas - somos nós mesmos e, ao mesmo tempo,
ponto provisório na compreensão de outras totalidades infinitas
somos uma outra pessoa ou uma outra coisa; estamos aqui e, ao que nos conduzem à verdadeira totalidade que é Deus. [Com isso,
mesmo tempo, estamos lá, no céu ou nos céus (para uma discussão segue-se] a descoberta do verdadeiro "eu" do qual o ego racional é
geral do tema veja Eliade, 1964). apenas uma caricatura desbotada".
Noções semelhantes da consciência são, é claro, encontradas
5.4. Limites e não diferenciação de estados tanto na literatura tradicional mística quanto na literatura contem-
porânea psicodélica; veja, por exemplo, Bucke (190111991), Hux-
Com a ayahuasca, é possível que o limite entre a realidade inter- ley (1944), Stace (1961) e Tart (1969).
na e externa se dissolva. Podemos sentir como se nosso "eu" estives-
se se fundindo com o dos outros, que estamos nos imergindo no A não individuação do selftambém pode se manifestar no obs-
mundo e nos unindo a ele, que não há uma distinção clara entre nos- curecimento da distinção entre o indivíduo e os outros seres huma-
so mundo mental interno e nossas percepções do mundo externo. nos. Como conseqüência disso, podemos sentir como se nossa
identidade não fosse definida individualmente e sim em termos do
Da mesma maneira, o contraste ou diferenciação entre os vá-
grupo. Realmente, é comum que ocorra uma forte identificação
rios estados mentais desaparece gradualmente. Sob a intoxicação
com as outras pessoas que participam da sessão de ayahuasca.
da ayahuasca, muitas vezes é difícil ou até impossível saber se es-
tamos percebendo ou nos lembrando, se estamos percebendo ou
produzindo pensamentos, se estamos pensando ou percebendo os 5.6. Calibração
pensamentos alheios. Normalmente nem sequer nos ocorre pensar que temos uma
certa noção do tamanho de nosso corpo, de seu peso, de nossa pos-
5.5. Não individuação do self tura no espaço e assim por diante. Sob o efeito da ayahuasca todas
essas coisas podem mudar. Por exemplo, podemos sentir como se
Normalmente presume-se que a consciência esteja associada nosso corpo fosse maior, mais leve ou mais pesado, e coisas seme-
com a identidade individual. Em outras palavras, acredita-se que a lhantes. Um número de vezes senti que meu corpo se elevava aci-
consciência seja uma propriedade manifestada pelos agentes cog- ma do nível do chão. Duas pessoas ocidentais me disseram que a
nitivos, e, como tal, presume-se que ela dependa da existência de ayahuasca fez com que eles sentissem como se seus membros não
tais agentes. Com a ayahuasca há fenômenos experienciais que pa- lhes pertencessem. Outro me disse que se sentiu no alto, à altura
recem não estar de acordo com esse princípio aparentemente fun- das árvores na floresta amazônica.

212 213
Como esse parâmetro temporal é tão fundamental para a cog-
Especialmente comum é a mudança da escala de nosso campo nição humana, falarei um pouco mais sobre o assunto. Como ob-
perceptual. Refiro-me em particular a uma expansão do espaço vi- servou Kant (1781/1953) a temporalidade é a condição básica de
sual interior. Feche os olhos. Você verá alguma luz. Qual é a exten-
nossa vida mental (veja também Bergson, 1944; Proust, 1963). Os
são espacial daquilo que você vê? Com a ayahuasca, o campo de vários modelos incomuns e desorientadores da temporalidade psi-
visão interno aumenta significativamente.
cológica que são verificados questionam todas essas idéias. Para
mim, esse fenômeno foi especialmente desorientador. Em uma te-
5.7. O locus da consciência oria abrangente da mente que eu tinha desenvolvido antes de co-
nhecer a ayahuasca (veja Shanon, 1993), argumentei em bastante
Onde está localizada a consciência? À primeira vista, essa
detalhe que a cognição humana é intrinsecamente temporal. Além
pode parecer uma questão absurda - eventos mentais não têm um disso, afirmei que a desconsideração do tempo é uma das desvanta-
"lugar". No entanto, subjetivamente, as pessoas sentem que há um gens mais básicas dos paradigmas tradicionais da ciência cognitiva
lugar em seus corpos onde está localizado o centro de sua percep- contemporânea. Assim, fiquei profundamente perturbado quando,
ção. Normalmente as pessoas localizam esse centro em suas cabe- pessoalmente, sob o efeito da ayahuasca, encontrei uma experiên-
ças. Algumas pessoas, em algumas culturas, situam o centro da cia que desafia o tempo. Há muito a ser dito sobre esse assunto, e
percepção em seu coração ou em seu estômago. Com a ayahuasca aqui não é o lugar para isso. Deixem-me apenas dizer que, no mo-
isso pode mudar. Um fenômeno bem conhecido é o da experiência mento, eu defenderia uma perspectiva em dois níveis. O que sus-
fora do corpo onde o selfse dissocia do corpo. Podemos nos pegar tento atualmente é que, em situações normais, a cognição humana
observando nosso próprio corpo de fora. é realmente baseada na temporalidade. Em situações anormais, no
entanto, a mente humana é capaz de uma proeza das mais extraor-
5.8. Tempo dinárias: ela pode entrar em "uma outra marcha", por assim dizer, e
operar em um modo atemporal. Tal afirmação exige, é claro, expli-
Normalmente, vivemos no presente. Podemos ter lembranças cação e corroboração teóricas substanciais, mas uma vez mais aqui
do passado e planos ou especulações relacionadas com o futuro, não é o lugar para elaborar esse tema mais profundamente.
mas nosso ser está no aqui e agora. A ayahuasca pode introduzir
uma espécie de máquina do tempo graças a qual podemos observar
Comentários finais
eventos passados e talvez futuros de forma perceptual, como se
eles estivessem ocorrendo no presente. A infusão pode também in-
duzir a uma calibração modificada do tempo. Com isso, podemos Olhados em conjunto, os vários modelos examinados acima
sentir como se a velocidade da passagem do tempo estivesse mu- nos levam à mesma conclusão: algumas características que são
muitas vezes consideradas fundamentais na definição da consciên-
1'1 dando - o tempo parece correr mais rapidamente ou mais lenta-
cia humana não são nem universais nem mandatárias. Em particu-
mente do que o relógio indica. Ainda mais extraordinário, a meu
lar, vimos isso com relação às seguintes características: mediação
ver, são aqueles casos em que sentimos como se o tempo tivesse
pessoal, identidade pessoal bem definida, unidade da experiência,
parado. Nesses casos, sentimos como se estivéssemos entrando em
falta de limites e diferenciação, individuação do self e certos valo-
uma esfera separada da existência. Nessa esfera, a temporalidade
res relacionados com a calibração da experiência, seu locus e tem-
padrão da cognição humana não parece ser válida. Em conseqüên-
poralidade presumidos. A fenomenologia da experiência com a
cia, podemos sentir que nossa existência já não está mais sujeita à
ayahuasca mostra que há estados da consciência em que algumas
temporalidade no sentido comum do termo. Em casos extremos, dessas características ou até mesmo todas elas não são exibidas.
pode haver uma sensação de ter atingido a esfera da eternidade.
Isso implica que muitas das caracterizações nonnais da consciên-

215
214
cia na literatura psicológica (veja, em particular, a clássica caracte-
rização da corrente de pensamento no Capítulo IX de James, cópica newtoniana de magnitudes e velocidades ordinárias, mes-
mo que, em termos práticos, os fenômenos fisicos que normalmen-
1890/1950) não são caracterizações da consciência em geral e sim
te encontramos enquadrem-se todos nesse nível. A teoria fisica
de um estado especial da consciência, ou seja, a vigília comum. O também tem de explicar os fenômenos não-ordinários encontrados
que é necessário, então, é uma teoria da consciência que abranja
nos níveis minúsculos do quantum, bem assim como as magnitu-
não só a vigília comum, mas todos os estados possíveis da cons-
des imensas da astronomia. Uma teoria da fisica que explique ple-
ciência humana. É claro, este não é o lugar para elaborar uma teoria
namente todos os fenômenos na escala ordinária, mas não aqueles
assim tão geral. No entanto, é minha intenção fazê-lo em outro lu- das escalas não-ordinárias, não é cientificamente aceitável. Creio
gar. Aqui, eu gostaria apenas de reiterar e enfatizar o grande poten- que mutatis mutandis o mesmo se aplica à teoria cognitivo-psico-
cial que a ayahuasca (bem assim como outras substâncias psico- lógica da consciência.
trópicas) tem para o empreendimento científico. Os vários tipos de
Finalmente, eu gostaria de observar que a discussão acima in-
experiências não-ordinárias que a infusão induz indica como o fe-
nômeno da consciência é variado e pleno de significado. Acima eu dica que a ayahuasca suscita não só importantes questões psico-
usei a metáfora dos óculos; aqui, neste final, deixem-me fazer uso lógicas mas também questões filosóficas interessantes. Algumas
dessas estão intimamente relacionadas com o estudo da cognição -
de outra metáfora, oriunda, dessa vez, do campo da matemática. questões referentes à natureza da mente e ao relacionamento entre
No contexto algébrico um termo tal como "a" indica um deter- ela e o mundo. Em particular, essas estão voltadas para os motivos
minado valor: é "a" em oposição a, digamos, "b". Mas, na verdade, para o aparecimento de ocorrências comuns no conteúdo das vi-
"a" é "1 a" e, além disso, é também "1 a elevado ai". Normalmente sões e de outras facetas experienciais induzidas pela ayahuasca.
a constante "1" e o poder "1" nem são indicados. Nem sequer pen- Outras questões filosóficas pertinentes estão relacionadas com o
samos neles. No entanto, na medida em que adotamos uma pers- sofrimento humano, a natureza da religião e o estudo da cultura. Há
pectiva mais ampla, polinomial, compreendemos que, realmente, também questões relacionadas com a estética e com a ética, bem
o único termo "a" é um caso específico da expressão mais geral" 1 assim como questões fundamentais - ou melhor ainda, enigmas e
a elevado ai". Assim, observamos uma diferença entre dois com- mistérios - que pertencem à ontologia e à metafisica. Todas elas,
ponentes da expressão matemática: por um lado está o termo "a", no entanto, claramente vão muito além do alcance deste trabalho.
em oposição a quaisquer outros termos possíveis, tais como "b" ou
"c". Por outro, estão os fatores de multiplicação e da potência - no
exemplo dado aqui, ambos são iguais a 1. Voltando-nos para a esfe- Referências bibliográficas
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o conteúdo específico da consciência que vivenciamos em qual- BERGSON, H.L. (1944). Creative evolution. Nova largue: The Modem
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Este trabalho foi escrito na época em que o autor era bolsista Go- PARTE V
lestan no Instituto de Estudos Avançados dos Países Baixos (Nether-
lands Institute for Advanced Study). Agradeço a Nurit Shacham e a
Yole Strimling por sua ajuda na preparação do manuscrito.
INTELIGÊNCIA
ARTIFICIAL, REDES
NEURAIS E CIÊNCIA
DA COMPUTAÇÃO

220
9
Computação Quântica Evolucionária:
seu papel no cérebro, sua realização
em hardware eletrônico e implicações
para a Teoria Pampsíquica da
Consciência

Ben Goertzel

InlelliGenesis Corporalion, USA

Resumo

Um computador quântico evolucionário (EQc) é um sistema


fisico que mantém um conjunto interno de "subsistemas quânti-
cos" macroscópicos manifestando uma indeterminação quântica
significativa, com a propriedade de que o conjunto de subsistemas
quânticos está se modificando continuamente de tal modo a otimi-
zar em alguma medida os padrões emergentes entre o sistema e seu
ambiente. Parece provável que o cérebro seja um EQC, e que um
EQC eletrônico diferente do cérebro também possa ser construído;
um projeto especulativo com esse propósito é descrito chamado
QELA (Arranjo Lógico Quântico Evolucionário), que envolve
aparatos supercondutores de interferência quântica que estabele-
cem interface com arranjos lógicos de campo programáveis re-
configuráveis. O EQC tem implicações interessantes para a visão
pampsíquica quântica da consciência: se tudo, até certo ponto, é
consciente, o EQC fornece uma explicação pela qual o cérebro hu-
mano é tão mais consciente do que a maioria dos outros sistemas. A

223
explicação é que, via EQC, o cérebro é capaz de manter um indeter- A apreciação da computação quântica exige algum conheci-
minismo quântico ("consciência pura"), de tal modo que se corre- mento da natureza peculiar da mensuração quântica (Wheeler & Zu-
laciona com sua estrutura e comportamento. Só o EQC fornece rek, 1978). Um sistema quântico existe em uma superposição proba-
esse tipo de correlação, porque só o EQC permite que sistemas bilística de estados e não em um estado único definido; na interpreta-
quânticos que não sofreram colapso interajam de forma significati- ção dos multiuniversos, acredita-se que um sistema quântico existe
va com o mundo cotidiano clássico, de função de onda colapsada. em um número de universos paralelos, um para cada estado possí-
Em termos-de-muitos-mundos o EQC permite que sistemas com vel. Se observarmos o sistema isto faz com que ele "colapse" para
uma extensão ampla além do limite de universos possíveis intera- um único estado - ou universo - possível. A promessa da computa-
jam de forma significativa com os sistemas que existem em regiões ção quântica é que, enquanto um sistema ainda não entrou em colap-
restritas do universo-espaço. so, ele pode realizar mais computação do que um sistema que já en-
trou em colapso, porque, em um certo sentido, ele está computando
em um número infinito de universos de uma vez.
Introdução
Podemos provar que o "pior" desempenho de um programa de
O conceito de computação quântica (QC) é sutil e intrigante. computador quântico não pode superar o de um programa de com-
Ao usar as propriedades especiais não-locais dos fenômenos quân- putação comum. No entanto, no caso do comportamento "médio",
ticos, parece que, potencialmente, podemos computar as coisas a coisa é diferente: em média, computadores quânticos são, em
mais eficientemente do que o faríamos em computadores digitais princípio, capazes de ter um desempenho extremamente melhor do
comuns (Deutsch, 1985). Há evidência crescente de que o próprio que computadores digitais comuns em um grande número de tare-
cérebro mostra efeitos quânticos significativos, e deveria ser mo- fas de resolução de problemas, inclusive reconhecimento de pa-
delado como um QC e não como uma máquina Turing padrão. drões e decifração de códigos (Deutsch, 1985).
Como muitos estudiosos compararam a consciência com o "colap- Isso é a teoria. A prática, até o momento, é essencialmente ine-
so da função da onda" da teoria quântica, a noção do cérebro como xis tente, e provavelmente continuará sendo inexistente por bas-
um QC tem implicações óbvias para a consciência. tante tempo. O problema é que o QC como está sendo imaginado
Neste artigo, abordarei essas questões de um ângulo novo, in- no momento é umciproposição dificil e extremamente distante de
troduzindo idéias de sistemas complexos na discussão do "cérebro se concretizar no curto prazo. O paradigma consensual atual do
quântico" através da noção da Computação Evolucionária Quânti- QC tem como base induzir sistemas de partículas a se comporta-
ca (EQC); computação quântica que funciona como algoritmos ge- rem como computadores digitais, o que é uma tarefa muito dis-
néticos, permitindo a "geração" de sistemas computacionais quân- pendiosa. A única alternativa existente é a "tecnologia neutrâni-
ticos que têm um impacto significativo no mundo fisico clássico, ca" de Lee Kent Hempjling (1997), mas, embora a abordagem de
enquanto permanecem sendo sistemas quânticos macroscópicos Hempjling seja interessante, é altamente questionável por um nú-
em forma não colapsada. O EQC, irei argumentar, é o modelo cor- mero de razões, já que se baseia em uma interpretação extrema-
reto da computação quântica no cérebro, e é uma estratégia de de- mente heterodoxa da teoria quântica.
sign viável para a construção de computadores eletrônicos quânti-
O que descreverei aqui é uma abordagem muito diferente da
cos hoje em dia. Além disso, ele tem implicações radicais para a te-
computação quântica, inspirada pela computação evolucionária e
oria da consciência. Fornece, pela primeira vez, uma justificativa
não pela computação digital comum. Mostraremos que essa nova
para o fato de que - se realmente todas as entidades no universo são
abordagem, que eu chamo de Computação Evolucionária Quântica
conscientes, como sugere o "pampsiquismo quântico" - algumas
entidades (tais como cérebros) são muito mais intensamente cons- (EQc), é uma hipótese razoável sobre a natureza da computação
cientes que outras (tais como rochas). quântica no cérebro e também um design plausível para os compu-

224 225
tadores quânticos eletrônicos diferentes do cérebro. E, de forma seja, temos sistemas operando por todo o espectro dos universos
ainda mais surpreendente, mostraremos que ela tem implicações que são úteis aos sistemas operando em universos individuais, ou
através de bandas estreitas de universos. A única restrição é que o
dramáticas para a teoria da consciência conhecida como "pampsi-
sistema de bandas estreitas de universos não deve perguntar aos sis-
quismo quântico" (Herbert, 1994).
temas de bandas largas de universos o que é que elas estão fazendo.
O pampsiquismo quântico afirma que a consciência emana da
Para grande surpresa, podemos argumentar que esse é um mo-
incerteza quântica, de tal forma que todas as entidades no universo
delo viável de dinâmica cerebral. Edelman, com sua teoria de sele-
são conscientes. Mas ele não aborda a questão dos vários graus de
consciência - por exemplo, se eu sou mais consciente do que o sofá ção de grupos neuronais, já usou argumentos muito fortes em defe-
onde estou sentado enquanto escrevo, ou por quê. Aqui, mostrarei sa da idéia de que o cérebro é um sistema evolucionário. E Jibu e
Yasue fizeram o mesmo em defesa do cérebro como um siste-
que o EQC nos fornece uma boa explicação para o fato de os cére-
bros serem tão fortemente conscientes. Eu definirei "consciência ma quântico macroscópico. Juntando os dois, obtemos uma defe-
sistêmica" como sendo, mais ou menos, a quantidade de ajuda que sa surpreendentemente sólida do cérebro como EQC. Com isso, a
a consciência quântica pura dá à operação prática de um sistema; e explicação EQC de por que o cérebro é tão fortemente consciente
irei argumentar que o EQC é essencialmente o único meio através se esquematiza muito bem.
do qual os sistemas podem obter uma consciência sistêmica alta. No entanto, o cérebro não é o único computador quântico evo-
Mas o que é exatamente o EQC? A idéia é muito, muito sim- lucionário possível. Descreverei aqui um outro tipo de EQC cha-
ples. Em vez de programar um computador quântico, ponha em mado Arranjo Lógico Quântico em Evolução que poderia ser cons-
funcionamento um conjunto de computadores quânticos e deixe truído atualmente, usando dispositivos já existentes (chips de silí-
que eles evoluam. Crie critérios para avaliar os QCs e, então, como cio configuráveis e anéis supercondutores super-resfriados) como
no caso da seleção natural, permita que os QCs bem-sucedidos so- componentes. Isso significa que é possível construir sistemas ele-
brevivam e (probabilisticamente) sofram mutações e se combinem trônicos que exibam o mesmo grau e tipo de consciência aguda que
para formar novos QCs candidatos, enquanto os QCs que não fo- o cérebro humano. Com efeito, argumentarei que não são necessá-
rem bem-sucedidos perecerão. O resultado é que teremos compu- rios grandes feitos de engenharia para conseguir esse objetivo, já
tadores quânticos desempenhando as funções desejadas por meios que a pseudo-aleatoriedade gerada nos computadores digitais é su-
desconhecidos. ficiente para fornecer aleatoriedade dentro de perspectivas subjeti-
Não sabemos como estão funcionando os QCs bem-sucedidos vas, e a aleatoriedade objetiva não é um conceito empírico.
no grupo, e não podemos sabê-Io, porque para ter essa informação
teríamos de destruir os sistemas envolvidos fazendo observações
1. Darwinismo Neurológico e Computação Quântica
de colapso da função da onda. Em geral, a única maneira de averi-
Evolucionária Cerebral
guar o verdadeiro estado multiuniversos de um sistema quântico é
criar um conjunto de sistemas idênticos, medir cada um deles e cal-
A noção do cérebro como um sistema evolucionário já foi arti-
cular as estatísticas. Mas não podemos fazer isso nesse caso, por-
culada e divulgada de maneira muito eficiente por Gerald Edelman
que não há nenhum meio de recriar os passos exatos que foram ne-
(1987) através de sua teoria de seleção de grupos neuronais ou
cessários para que a evolução ocorresse, já que esses passos envol-
"Darwinismo Neural". O ponto de partida do Darwinismo Neural é
veram, eles próprios, mutações e combinações probabilísticas.
a observação de que a dinâmica neuronal pode ser analisada em
O que temos, em EQC, é computação quântica, fazendo uso termos do comportamento de grupos neuronal. A evidência mais
pleno do poder multiuniversos da não-localidade quântica, que não convincente a favor dessa conjetura é fisiológica: muitos dos neu-
exige colapso para ser útil ao mundo que entrou em colapso. Ou

227
226
rônios do neocórtex estão organizados em grupos, cada um deles póteses. No entanto, eu considero que o conceito básico da seleção
contendo, digamos, de 10.000 a 50.000 neurônios. de grupo neuronal é em grande parte independente das particulari-
No momento em que nos propomos a examinar grupos, o pró- dades biológicas por meio das quais Edelman a definiu. Como foi
ximo passo é perguntar-nos como esses grupos estão organizados. argumentado em Goertzel (1993), eu suspeito que a mutação e a se-
Um mapa, na terminologia de Edelman, é um conjunto de grupos leção de "transformações" ou "mapas" é um componente necessá-
conectados com a propriedade de que quando uma das conexões rio da dinâmica de qualquer sistema inteligente.
intergrupais no mapa está ativa, as outras muitas vezes tendem a A teoria de Edelman nos dá a metade do argumento que o cére-
estar ativas também. Os mapas não são fixos para toda a vida de um bro é um EQC: ela nos dá a evidência de que o cérebro é um sistema
organismo. Podem ser formados e destruídos de uma maneira bem em evolução. Edelman usa equações diferenciais não-lineares so-
simples: a conexão entre dois grupos neuronais pode ser "fortaleci- bre espaços finitos-dimensionais para modelar a dinâmica de gru-
da" aumentando os pesos dos neurônios que conectam um grupo pos neuronais; ele não considera esses grupos como sistemas quân-
ao outro, e "enfraquecidas", diminuindo os pesos dos neurônios ticos. Há muita evidência, no entanto, de que o cérebro não é um
conectando os dois grupos. sistema assim tão "clássico" como Edelman e outros teóricos mais
convencionais da rede neural afirmam.
Formalmente, podemos considerar o conjunto de grupos neu-
rais como os vértices de um gráfico, e desenhar uma aresta en- As primeiras idéias a respeito da dinâmica quântica no cérebro
tre os dois vértices sempre que uma proporção significativa dos envolviam principalmente objetos quânticos chamados de conden-
neurônios dos dois grupos correspondentes interaja diretamente. sados Bose-Einstein (Marshall, 1989) que podem ser capazes de
Portanto, um mapa é um subgráfico conectado desse gráfico, e os formar estruturas grandes, mas de curta duração no cérebro (Pessa,
mapas A e B estão conectados se existir uma aresta entre algum 1988). Marshall propôs que esses condensados formam-se da ati-
elemento de A e algum elemento de B. (Se por "mapa" lermos vidade de moléculas que vibram (dipolos) nas membranas das cé-
"programa", e por "grupo neural" lermos "sub-rotina", então tere- lulas nervosas e formam a base fisica da mente. Parece haver pro-
mos um gráfico de dependência de processo como seria desenha- blemas com os detalhes da proposta original de Marshall (Clarke,
do na informática teórica.). 1994). Mas a idéia básica de condensados Bose-Einstein no cére-
Esse é o cenário, o contexto no qual a teoria de Edelman opera. bro continua válida. Muita especulação recente sobre os conden-
A parte mais importante da teoria é a seguinte hipótese: a dinâmica sados se centrou no fato de que os condensados ocorrem em tomo
em grande escala do cérebro é controlada pela seleção natural de dos microtúbulos nas paredes celulares dos neurônios (Hameroff,
mapas. Os mapas que estão ativos quando são obtidos bons resulta- 1994). Hameroff argumentou que não é o fluxo clássico de eletrici-
dos se fortalecem, os mapas que estão ativos quando são obtidos dade entre os neurônios e sim o fluxo quântico não local de carga
entre a estrutura microtubular no interior das células que compõe a
maus resultados se enfraquecem. E os mapas são transformados
continuamente pelo caos natural da dinâmica neural, e assim for- dinâmica do pensamento. A investigação mais sofisticada nessas
necem novos materiais para o processo de seleção. Através de si- direções é o trabalho de Jibu e Yasue (1996) sobre megamoléculas
mulação no computador, Edelman e seu colega Reeke mostraram de água no espaço entre neurônios. Esses autores têm argumentos
que as redes neurais formais que obedecem a essa regra podem rea- muito poderosos em defesa da teoria de que essas moléculas po-
lizar atos de percepção bastante complicados. dem se combinar para fonnar sistemas quânticos não locais expan-
didos, operando em interação paralela com as redes neurais clássi-
Essa descrição resumida, é preciso deixar claro, não faz justiça cas que são normalmente estudadas.
às idéias de Edelman. Em Neural Darwinism Edelman apresenta a
seleção de grupo neuronal como uma coleção de hipóteses biológi- A meu ver, a perspectiva de Jibu e Yasue é bastante atraente.
cas precisas e apresenta evidência a favor de um número dessas hi- Nessa visão, em vez de jogar fora tudo o que aprendemos sobre as

228 229
redes neurais, devemos meramente aceitar que existem sistemas
quânticos paralelos, que trabalham junto com as redes neurais para Logic Anay). Embora ele seja realmente passível de ser realizado,
criar o pensamento. Em termos da teoria de Edelman, não precisa- a intenção aqui é usá-lo mais como uma "prova do conceito" do
mos rejeitar a idéia do Darwinismo Neural- devemos apenas acei- que como um design para ser executado em detalhe. Se decidísse-
tar que essas populações de mapas neuronais têm um aspecto quân- mos seriamente construir uma máquina desse tipo, precisaríamos
tico assim como têm um aspecto clássico. Em outras palavras, o cé- primeiro de uma pesquisa muito mais cuidadosa dos vários compo-
rebro é uma população de redes neurais quânticas em evolução, se- nentes e desenhos possíveis.
lecionadas e sofrendo mutações baseadas em sua funcionalidade O SQUID é um anel supercondutor interrompido por uma pe-
com relação a sua interação com sistemas perceptuais e motores, quenajunção de túnel Josephson (Josephson tunneljunction). Ele
conforme determinado pelas necessidades do organismo. Edel- suporta correntes em uma estrutura em forma de loop e o objetivo é
man, somado a Jibu e Yasue, é igual ao cérebro como um EQC. que o fluxo da corrente possa estar em uma superposição de dire-
Como neurociência, isso é especulativo - mas o mesmo ocor- ções tanto no sentido dos ponteiros do relógio quanto no sentido
re, nesse estágio, com o modelo do cérebro de qualquer autor. O contrário. Sob observação, o fluxo da corrente subitamente muda-
modelo do cerebro como um EQC se enquadra em todos os dados rá de uma direção para a outra; mas quando não observado, o siste-
observados, e tem a vantagem de incorporar tanto a perspectiva de ma vive igualmente em dois universos - um com a corrente fluindo
redes neurais que é hoje padrão quanto a perspectiva que surge do no sentido dos ponteiros do relógio e o outro com a corrente fluindo
cérebro quântico. E além disso, como veremos, ele dá uma solução na direção contrária. Para ser mais exato, os dois estados macros-
nova e convincente para o problema da consciência humana. cópicos diferentes do fluxo do SQUID correspondem a corren-
tes circulando em direções opostas através de uma indutância de
0,2 nH. Muitos efeitos quânticos tais como o tunnelling ressonan-
2. Desigll para um computador quântico evolucionário te, (resonant tunnelling), o tunnelling fóton-assistido (photon-as-
sisted tunnelling) e a inversão populacional, só vistos normalmen-
Partindo do princípio que o cérebro é realmente um EQC, ele é te em sistemas microscópicos, foram observados no SQUID (Han,
apenas um entre os muitos tipos possíveis de EQC. Para objetivos 1996; Diggins et ai., 1994; Leggett, 1984). Além disso, o efeito do
da engenharia, é interessante perguntar-nos se é possível construir ruído ambiental nos SQUIDs é marcante e fascinante: foi demons-
um EQC com os componentes existentes atualmente à venda. A trado que as características tunnelling do fluxo macroscópico mu-
resposta para essa pergunta, eu creio, é definitivamente sim. Nesta dam dramaticamente de ressonante para contínuo à medida que a
seção eu apresentarei um design específico segundo o qual pode- calibração é aumentada.
ríamos construir um EQC usando os componentes disponíveis no Atualmente o SQUID é conhecido como o mais sensível dos
mercado no momento. Esse design não seria barato para imple- dispositivos existentes para a detecção do campo magnético. Ele
mentar, pois um dos componentes deve ser um dispositivo que de- foi desenvolvido extensivamente para supercondutores tradicio-
monstre a coerência quântica macroscópica. O único desses dis-
nais de baixas temperaturas que necessitam resfriamento com hé-
positivos normalmente disponível e razoavelmente conhecido é o
lio líquido a 4 graus Kelvin (-269C) e está disponível comercial-
SQUID, ou Dispositivo de Interferência Quântica Super-resfriado, mente em vários fornecedores. Em 1987, foi descoberta uma cerâ-
que é normalmente usado em aparelhos para imagens médicas. mica supercondutora de alta temperatura que só exige resfriamento
O desenho mostrado aqui baseia-se na interação (interjacing) à temperatura do ar líquido, ou seja, 77 graus Kelvin (-196C) e sen-
de um ananjo de SQUIDs com o chip lógico reconfigurável FPGA sores SQUID já foram desenvolvidos com base nesses novos mate-
(Field Programmable Gate Anay). Eu o chamo de QELA, iniciais riais. O dispositivo SQUID simples tem uma típica sensibilidade
de Ananjo Lógico Quântico Evolucionário (Quantum Evolvable de campo magnético de 2pT, enquanto no caso de um SQUID asso-
ciado a uma bobina de entrada supercondutora (superconducting
230
231
input coil), foi demonstrada uma sensibilidade de 100 IT. Isso cor- conexão entre os elementos lógicos ativos depende de um armaze-
responde a uma resolução energética melhor que 1030 J/Hz. Em namento de controle, manipulável através do software (Gray &
uma faixa de, por exemplo, 1 Hz isso é o equivalente a elevar um Kean, 1989). A implementação padrão do hardware configurável
átomo de hidrogênio 10cm no campo gravitacional. atualmente é o FPGA (Field Programmable Gate Array) que per-
mite a imp1ementação de funções lógicas em níveis múltiplos atra-
vés de uma estrutura de uma indicação de rota (routing) regular que
Figura 1- Desenho esquemático para o Arranjo Lógico inclui chaves programáveis simples.
Quântico Evolucionário (Quantum Evolvable Logic Array) Os FPGAs são categorizados em dois grupos diferentes: dis-
positivos re-configuráveis e dispositivos não re-configuráveis
(Eberling et ai., 1991). Os FPGA configuráveis, o tipo que nos

1 (I:::::::::
1~_I----------------------------I/ 13
interessa aqui, usam memória de acesso estático ramdômÍco (SRAM),
memórias de programação deletável e programável (Eprom) ou me-
mória somente para leitura deletável e programável eletricamente
íí,________ --------------------------------- / (Eeprom) para implementar chaves programáveis. As FPGAs não
re-configuráveis usam a tecnologia de programação de antifuso
1--14 para implementar chaves programáveis (um antifuso é um disposi-
tivo de dois terminais que cria uma conexão irreversível quando é
1. Painel de FPGAs reconfiguráveis. aplicada uma voltagem atraves dele). As FPGAs re-configurá-
2. Conversor que se apropria do output de fluxo magnético do veis são ideais para o tipo de interface quântica clássica que estou
SQUID e o usa para fixar chaves de FPGAs. examinando aqui. Com efeito, John Koza (comunicação pes-
3. Painel de SQUIDS. soal, 1997) fez experiências com esses dispositivos de programação
evolucionária - ele desenvolveu configurações de circuito para rea-
4. Processo convencional de software digital que supervisiona o dis-
positivo, enviando cargas de restabelecimento de fluxo para os SQUIDS
lizar várias tarefas. Dando input quântico macroscópico para esse
que estão alimentando FPGAs com mau funcionamento. tipo de chip, automaticamente criamos um computador quânti-
co evolucionário correspondente ao chip evolucionário conven-
cional de Koza.
Poderíamos usar a produção de um SQUID ou de outro objeto A fim de usar SQUIDs para fornecer input quântico para um
quântico macroscópico para controlar as entradas em um computa- computador, simplesmente precisamos criar uma conexão que jo-
dor comum, de várias maneiras, mas uma perspectiva mais interes- gue os fluxos magnéticos de uma série de SQUIDs para chaves ele-
sante a ser considerada nesse contexto é hardware configurável. O trônicas de uma FPGA. O valor binário de uma única chave lógica
que é hardware configurável? Observe que, no momento, temos pode ser detenninado pela direção do fluxo de um único SQUID -
dois métodos principais para implementar algoritmos matemáticos se é no sentido dos ponteiros do relógio ou não. Na direção dos
em computadores: hardware e software. No modelo de hardware, ponteiros significa O, na direção contrária, significa 1, etc. Assim
implementamos um algorítmo instalando conexões entre os dispo- obtemos um circuito lógico cujas chaves essenciais têm valores
sitivos fisicos. No modelo de software, implementamos um algo- quânticos indeterminados: ou seja, está fundamentalmente inde-
ritmo criando uma série de instruções que são alimentadas a um terminado se eles são O ou 1. Além disso, as colocações de cada
dispositivo fisico fixo, cujas conexões são criadas sem se preocu- chave quântica individual irá afetar a carga que passa através de
par com o algoritmo específico que está sendo implementado. O cada uma das chaves quânticas, via a dinâmica natural de fluxo da
hardware configurável é uma terceira abordagem, na qual a inter- carga fluindo através do arranjo lógico de portão (logic gate array)

232 233
e, assim, todo o sistema de SQUIDs mais FPGA será um sistema
nuamente com inputs e monitora os resultados - mas não monitora
quântico macroscópico, demonstrando coerência e indetermina-
ção quântica: um arranjo lógico multiuniversos! o que ocorre entre um e outro (para preservar a indeterminação
quântica). Ele sabe que comportamento ele quer de cada região e I •.
Medindo o estado do hardware configurável poderíamos co-
portanto ele reajusta os SQUIDs das FPGAs malsucedidas a fim de
lapsar os estados dos SQUIDs para direções definidas. Mas, me- forçá-Ios a se comportarem de uma forma mais útil. Além disso,
dindo o output do hardware, o mesmo não acontece necessaria- ele pode criar novas FPGAs quânticas através da mutação e do cru-
mente. E a beleza da programação evolucionária é que estamos zamento das bem-sucedidas. O comportamento desejado de uma
verdadeiramente avaliando nosso sistema lógico unicamente por FPGA pode ser definido como sendo o aprendizado de algumas
seus resultados, não pela maneira como opera para obter esses re- funções fixas, ou "ecologicamente" com relação aos comporta-
sultados. Tudo o que precisamos fazer para transformar esse siste- mentos das outras regiões.
ma SQUIDs mais FPGA em um computador quântico evolucioná-
rio elegante é de alguma maneira conseguir que as FPGA malsuce- Qual seria o beneficio de tal sistema? Intuitivamente, a função
didas sofram mais mutações do que as FPGA bem-sucedidas. Mas do QELA em um contexto de AI é simples: ele permite o reconhe-
isso também é fácil; é sempre possível estimular os SQUIDs ali- cimento de padrões por inferência automática de funções de pares
mentando as FPGAs malsucedidas com carga extra, a fim de fazer de input/output e o faz com ultra-eficiência quântica, porque busca
com que seu fluxo se movimente de uma forma aleatória, fornecen- todos os universos possíveis de uma única vez. Essa capacidade
do assim ruídos extras para esses sistemas. Além disso, podemos poderia ser útil em muitos contextos diferentes. Por exemplo em
copiar as FPGAs bem-sucedidas, sem medir seu estado, como se um sistema AI Webmind que estamos construindo atualmente na
segue: para copiar FPGA A pegue uma outra FPGA B idêntica à A, IntelligGenesis Corpo (veja Goertzel, 1996), temos uma rede de
e conecte cada chave de B ao mesmo SQUID em que está conecta- nodos carregando informação, e cada nodo tem seus próprios pro-
da a chave correspondente de A - sem medir a informação passan- cessos residentes de reconhecimento de padrões, que reconhece
do dos SQUIDs para as FPGAs. Variantes menores de FPGAs padrões na informação naquele nodo, e processos emergentes en-
quânticas bem-sucedidas também podem ser criadas dessa manei- tre a informação naquele no do e a informação em outros nodos.
ra, copiando uma unidade bem-sucedida e depois conectando algu- Nesse contexto, o QELA poderia, através de seu controlador de
mas chaves para um outro SQUID recentemente selecionado de software, ser usada pelo Webmind para fornecer reconhecimento
fonna aleatória em vez daqueles usados pela unidade que está sen- de padrões em nodos. Teríamos, assim, um sistema AI geral clássi-
do copiada. Além disso, dois SQUIDs A e B podem ser cruzados co quântico acoplado.
como se faz a reprodução sexual, pela criação de uma nova FPGA Observe que a medição levada a cabo pelo processo de contro-
chamada C que usa metade dos inputs do SQUID de A e metade de
le de software faz o chip entrar em colapso naquela região do espa-
B. Todas essas operações "genéticas" (Goldberg, 1988) podem ser
ço Hilbert consistindo de todos os programas compatíveis com o
realizadas sem o colapso da função da onda, e sem a observação
comportamento input/output observado - mas não o colapsa além
dos estados dos SQUIDs individuais.
disso. Assim, o chip está realizando todos os programas possíveis
Um diagrama esquemático bem simplificado do design desse coerentes com o comportamento input/output dado. Essa é uma
EQC proposto - o QELA ou Arranjo Lógico Quântico Evolucioná- abordagem fundamentalmente nova no aprendizado das máqui-
rio, foi apresentado na Figura 1. O ponto essencial é que as FPGAs nas. Em vez de nos fixarmos em um autômato inferido coerente
não são "programadas". Cada uma delas é "desenvolvida" pelo com os comportamentos desejados, tomamos uma amostra ponde-
processo de controle do software. Cada FPGA tem certos inputs e rada de todo o espaço dos autômatos coerente com os comporta-
certos outputs. O processo de controle alimenta cada região conti- mentos e a maquinaria que lhes serve de base.

234 235
3. Por que os humanos são tão profundamente conscientes? o pampsiquismo puro é uma doutrina insuficientemente informati-
va, já que não nos diz por que algumas entidades no mundo deveri-
Como observamos acima, muitos estudiosos postularam uma am ser significativamente mais conscientes do que outras. Ou seja,
conexão entre a consciência e a indeterminação quântica. Em prin- por que os humanos são mais conscientes do que gatos, ou pássa-
cípio isso pode parecer uma tentativa excessivamente fácil de re- ros, ou vermes, ou amebas, ou rochas, ou átomos?
solver duas questões complexas - a medição quântica e a percep-
Podemos negar que isso seja verdade, que qualquer uma coisa
ção da consciência - igualando uma à outra. Mas um estudo filosó-
seja mais consciente do que qualquer outra coisa. Essa é uma pers-
fico cuidadoso das questões envolvidas revela que a questão não é
tão simples assim. pectiva perfeitamente válida, mas não uma perspectiva muito infor-
mativa; ao adotar essa visão, estamos deixando de lado aspectos im-
Como argumentei em detalhe em Goertzel (1997) a relação en- portantes da noção intuitiva da consciência. Portanto, é interessante
tre consciência e indeterminação é uma relação profunda. Afinal pensar sobre meios de usar o conceito básico do pampsiquismo
de contas, a aleatoriedade é definida matematicamente como in- quântico para medir os graus de consciência das várias entidades. A
descritibilidade (Chaitin, 1988). Um número aleatório é aquele definição que mais me atrai a esse respeito é aquela que eu chamo de
que não admite uma descrição finita. E a essência da qualia, o mo- consciência sistêmica. O grau de consciência sistêmica de uma enti-
mento vivenciado, é precisamente sua fugacidade, a maneira como dade é definido como sendo proporcional ao grau de utilização que
ele sempre foge de nossas mãos. O fluxo do tempo pode ser feno- essa entidade faz da aleatoriedade para a construção de novos pa-
menologicamente caracterizado como o processo da qualia repeti- drões e para a manutenção ativa dos padrões antigos. A idéia aqui é
damente escapando de sua própria apreensão. Assim é que William bastante simples. Ou seja, se asseverarmos que padrão é a matéria
James e seu amigo Charles S. Peirce igualaram o momento viven- fundamental da mente e do universo (Goertzel, 1993; Bateson,
ciado com "puro acaso" - ou seja, aleatoriedade - bem antes de a 1980) e que a consciência está relacionada com aleatoriedade, se-
indeterminação quântica do universo fisico ser descoberta. Mas se gue-se que quanto mais um sistema usar a aleatoriedade para produ-
chance é a consciência então tudo no universo é consciente, já que zir e manter padrões, tanto mais consciente é aquele sistema. Em lin-
nada é totalmente determinista - tudo tem um certo elemento de guagem diferente, podemos dizer que a consciência sistêmica é a
aleatoriedade em si mesmo. A teoria quântica nos ensina que o uni- utilização da consciência/não-localidade/aleatoriedade pampsíquicas
verso é indeterminado, mas a observação do universo faz com que quânticas para a evolução e a autocriação de estruturas emergentes.
ele pareça definido. Em outras palavras, a definibilidade é caracte- E isso, obviamente, é onde a computação quântica evolucionária
rística das visões subjetivas do universo, mas não do universo fora entra em cena! O EQC é um mecanismo pelo qual o cérebro empre-
da visão subjetiva de qualquer pessoa. As equações da teoria quân- ga a indeterminação quântica, em grande quantidade, para solucio-
tica nos dizem que todas as visões subjetivas são, de um certo nar problemas, perceber formas e criar e manter padrões.
modo, "equivalentes" - mas elas não são equivalentes ao universo
Existem muitos algoritmos que utilizam a aleatoriedade para
"objetivo" ou intersubjetivo, que é a coleção de todas as visões
ajudar a solucionar problemas. Mary Ann Metzger (1997) discutiu
subjetivas possíveis, e é, portanto, uma distribuição de probabili-
a "temperatura" aleatória no algoritmo térmico simulado para a
dades em vez de uma entidade definida. A consciência, então, é a
evolução da rede neural e propôs que ela deveria ser comparada à
propriedade que todas as coisas têm quando consideradas intersub-
consciência. Acredito que ela esteja no caminho certo, mas ela não
jetivamente em vez de como um objeto no interior do mundo sub-
se aprofunda o suficiente nem na natureza da aleatoriedade nem na
jetivo fixo de algum outro objeto.
dinâmica do cérebro. O algoritmo simulado usa a aleatoriedade,
O que estaria errado se tudo estivesse consciente? Nada - o seja ela quântica ou não, como um simples parâmetro de controle.
pampsiquismo é a mais antiga teoria da consciência, e a única teo- Quando a solução é encontrada a temperatura é fixada em igual a
ria da consciência que não está repleta de contradições. No entanto, zero. Isso é diferente do EQC. O EQC pode usar também uma dinâ-

236 237
mica de diminuição progressiva da aleatoriedade; na verdade, o incomparável, através do seu truque de construir sistemas (quânti-
desenho do QELA descrito acima faz exatamente isso. Mas a "tem- cos) de universos de espectro amplo por meio de um colapso de
seus resultados apenas, e não de seus mecanismos internos.
peratura" final ou quantidade de aleatoriedade não será zero. Em
vez disso, a incerteza quântica será parte da solução. A eficácia da É importante entender o que está sendo afirmado aqui. A qua- I.·
solução para o problema é contingente ao processamento ocorren- lia é reconhecidamente considerada como inexplicável. A percep-
do em muitos universos simultaneamente, e portanto no não-co- ção em estado natural existe em um nível subjacente à compreen-
lapso da função de onda, a não diminuição do grau de aleatoriedade são racional; a indeterminação quântica é uma manifestação da
para zero. percepção em estado natural na teoria científica moderna. A per-
Portanto, a moral do EQC para a consciência é essa. Todas as cepção em estado natural não é mensurável por si mesma. No en-
entidades são conscientes, mas algumas são, no sentido de cons- tanto, ela é mensurável em seu relacionamento com padrões empí-
ricos, e nesse modo eu a chamei de consciência sistêmica. A cons-
ciência sistêmica, mais conscientes do que outras. O EQC é uma
ciência sistêmica é quantificável e pareceria que cérebros têm mais
estratégia para obter um alto grau de consciência sistêmica; e ainda
dela do que quase todos os outros sistemas que conhecemos. O mo-
não foi proposta ou descoberta nenhuma outra estratégia de eficá-
cia comparável. E é essa mesma dinâmica evolucionária que faz o tivo pelo qual os cérebros têm mais consciência sistêmica é porque
eles são computadores quânticos evolucionários.
cérebro tão agudamente consciente, tão capaz de correlacionar in-
determinação quântica macroscópica com a criação de padrões de- A definição de consciência sistêmica em termos de percepção
finidos no mundo - segundo o ponto de vista de alguns observado- em estado natural é, devemos admitir, um ponto filosófico proble-
res especificas. mático, e talvez mereça um pouco mais de discussão. O problema
[\. sutileza máxima aqui é que, no quadro quântico, a definibili- aqui na verdade remonta àquele mesmo ponto no qual a percepção
em estado natural é considerada pela primeira vez como tendo-sido
dade é relativa. Para compreendermos isso, temos de pensar sobre
a natureza do colapso da função da onda quântica. O universo identificada definitivamente, a fim de ser "passível de correlação"
com as atividades de um sistema. Afinal de contas a aleatoriedade
quântico é fundamentalmente probabilístico, mas diz-se que a ob-
servação faz com que ele colapse em definibilidade. Assim, se eu não é estritamente identificável. A definição de consciência sistê-
observar um sistema, para mim, então, o estado do sistema torna-se mica presume que já tenhamos identificado aquilo que não se pode
definido quando eu o observo. Por outro lado, se você obtiver a in- identificar, que já determinamos quais segmentos de um certo sis-
formação sobre o estado do sistema me perguntando, então, para tema são verdadeiramente aleatórios e quais não o são. Em princí-
pio, isso é impossível.
você, o estado do sistema só se toma definido quando você me per-
gunta, não quando eu o observo. Isso é chamado de "paradoxo do Mas, é claro, o truque é que fazemos essas avaliações o tempo
amigo de Wigner". O que isso significa é que é somente dentro de todo. A definição de consciência sistêmica faz sentido, portanto,
um ponto de vista subjetivo que os padrões definidos existem, e não com relação às avaliações subjetivas de aleatoriedade de um dado
através das superposições probabilísticas de padrões. Na realidade sistema. Emergimos com uma noção de consciência sistêmica
quântica transpessoal e intersubjetiva não há colapso para a definibi- como sendo a capacidade do sistema X de correlacionar a aleatori-
lidade. Mas na visão subjetiva de uma entidade determinada, as fun- edade quântica macroscópica, como percebido pelo sistema Y,
ções da onda colapsam quando elas encontram aquela entidade, e o com a criação de padrões que já entraram em colapso e são defini-
espectro dos universos é significativamente comprimido. E a cons- dos no mundo subjetivo do sistema Y. Ou seja, temos de pensar so-
ciência sistêmica ocorre quando, dentro desse espectro comprimido bre cujos critérios subjetivos de aleatoriedade estão sendo usados
de universos, produzido pelo sistema X, subsistemas do sistema X aqui, bem assim como quem está fazendo a realidade colapsar em
que existem no espectro amplo dos universos desempenham um definibilidade. Em última instância, o que é mais importante é a
papel criativo importante. Isso é o que o EQC realiza com eficácia

238 239
própria autopercepção do sistema: sua capacidade de correlacionar do componente digital, o componente humano do sistema fornece·
aleatoriedade macroscópica como ele próprio percebe, com a cria- uma consciência profunda. Podemos considerar o componente di-
ção de padrões que são definidos em sua própria realidade subjeti- gital da Internet como o FPGA no desenho do QELA, e o compo-
va. Isso é que nos faz profundamente conscientes: pegamos o va- nente humano da Internet como o componente SQUID, fornecendo
zio, o inclassificável, o nada, o momento incompreensível dentro um insumo quântico não-local e incerto. É claro que o futuro da in-
de nós e o usamos para criar novas coisas e preservar o atual con- formática contém muitas possibilidades fascinantes, às quais o de-
teúdo de nossas mentes. Esse é o circuito de percepção que atraves-
senho do computador digital contemporâneo nem chega a aludir.
sa nossas mentes cotidianamente; é algo que todas as entidades fa-
zem, mas que nós fazemos com maior intensidade que os outros,
devido ao nosso processo de EQC interno que permite uma inte- Conclusão
ração macroscópica substancial entre a aleatoriedade quântica e
comportamentos clássicos. A história da computação quântica evolucionária e da cons-
Finalmente, voltemos para as questões práticas de engenharia. ciência é uma história complicada a respeito de algo muito simples.
O QELA, como descrito acima, é um dispositivo de hardware alta- É complicada não porque a consciência, ou a consciência sistêmica
mente especializado - vale a pena perguntar se, de acordo com o ou o EQC sejam complicados - eles são perfeitamente simples -
modelo do EQC, é possível que um computador digital comum mas sim porque a linguagem da ciência é complicada e, além disso,
manifeste uma consciência aguda como faz o cérebro humano. não é bem adequada para a discussão da consciência. Deixando de
Essa é uma questão profunda que exige mais pesquisas, mas minha lado toda a verbosidade extravagante e os detalhes biológicos, ma-
conclusão preliminar sobre o que foi dito acima é que a resposta é temáticos e de engenharia, o que temos aqui é: percepção em esta-
sim. Meu raciocínio é o seguinte: Suponhamos que construíssemos do natural, percepção em estado natural correlacionada com ativi-
um computador digital para simular as leis da fisica quântica, e dade criativa e auto-sustentável, e percepção em estado natural a
construíssemos um cérebro digital dentro desse multiuniverso si- que se permite estar correlacionada com atividade criativa e au-
mulado. Nesse caso, as leis da fisica quântica não seriam seguidas to-sustentável por um sistema de estruturas que avalia a percepção
por essa simulação, já que haveria somente um espectro finito de em estado natural unicamente por seus resultados e não por uma in-
universos e porque o colapso da função da onda (seleção de univer- vestigação - que eliminaria qualquer percepção - sobre os detalhes
so) estaria ocorrendo de acordo com algum gerador de número pseu- de como funciona a percepção em seu estado natural. Essa é a his-
doaleatório e não por uma verdadeira aleatoriedade. No entanto, do tória completa.
ponto de vista do próprio sistema (bem assim como, incidental-
Essa é uma teoria especulativa da consciência humana, não há
mente, do ponto de vista de observadores humanos) essa pseu-
dúvida disso, no sentido de que ainda não foi demonstrado conclu-
do-aleatoriedade passaria perfeitamente pela verdadeira aleatorie-
sivamente que o cérebro é um sistema quântico macroscópico. No
dade; e o número de universos na simulação seria tão grande que
entanto, a teoria é absolutamente clara em sua lógica conceitual, e é
chegaria a parecer ilimitado. Portanto, pela definição acima, o sis-
tema seria sistemicamente consciente. coerente com tudo que sabemos sobre o cérebro atualmente. Com
efeito, é a única teoria existente que incorpora resultados recentes
Mais claramente e mais surpreendentemente, no entanto, po- sugerindo função cerebral quântica com mais modelos da rede neu-
demos nos perguntar se a Internet, como um sistema que envolve a ral convencional do cérebro (isto é, Darwinismo Neural). Além
combinação sinergética de seres humanos e computadores digitais, disso, ela tem implicações concretas e fascinantes para a próxima
poderia ser algum dia profundamente consciente. E a resposta aqui é geração de engenharia da computação. O que é especulativo hoje
obviamente sim, porque, além da questão da consciência profunda pode bem ser senso comum amanhã!

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242 243
10
." .
Informação, auto-organização e
conSClenCla
Rumo a uma teoria holoinformacional da consciência

Francisco Di Biase

Unipaz, Brasil

Albert Schweitzer

International University, Suíça

Mário Sérgio F. Rocha

Clínica Di Biase, Brasil

Resumo

Propomos uma visão holoinformacional da consciência que


incorpora os conceitos clássicos de informação, neguentropia,
ordem e organização (Shannon, Wiener, Szilard, Brillouin), às
teorias de auto-organização e complexidade (Prigogine, Atlan,
Jantsch, Kauffman). Essa visão leva em consideração ainda os re-
centes desenvolvimentos da Física da Informação (Zureck, Sto-
nier), com os seus novos conceitos de entropia estatística e entro-
pia algorítmica, esta última relacionada ao número de bits em
processamento na mente do observador. Este arcabouço conceitual
fornece uma base quântico-informacional que é integrada à lógica
da não-localidade, à teoria do holomovimento de David Bohm e à

247
unIverso, e, como veremos, da consciência. Wilber (1997) consi-
teoria holonômica do funcionamento cerebral desenvolvida por dera que uma teoria integral da consciência deve incorporar todas
Karl Pribram. Conseguem assim elaborar uma síntese em que a as características essenciais das doze principais escolas que estu-
consciência é concebida como um fluxo não-local de atividade dam a consciência, não como um ecletismo, "mas preferivelmente
quântico-informacional significativa, ativamente interagindo com como uma abordagem fortemente integrada que decorre intrinse-
cada parte do universo por meio do holomovimento. Um contínuo camente da natureza holônica do cosmos". Esta natureza holônica
processo de expansão e recolhimento do cosmos, conectando de do cosmos se fundamenta na holoarquia auto-organizadora descri-
modo holístico e indivisível a mente humana a todos os níveis do ta por Jantsch (1980) que correlaciona as interações coevolucioná-
universo auto-organizador. rias entre a microevolução dos hólons (Koestler, 1967) à macroe-
volução das suas formas coletivo-sociais. A teoria de Wilber deixa
entretanto em aberto o que consideramos o ponto-chave na com-
Introdução preensão da consciência, ou seja, o modo pelo qual a informação, a
o Tao se obscurece. quando fixamos o olhar ordem e a neguentropia são transmitidas entre os infinitos níveis de
apenas em pequenos segmentos da existência organização da holoarquia cósmica e do cérebro, dando-lhes signi-
(Chuang- Tzu). ficação. Este solo comum, capaz de integrar a consciência e o cos-
Os modelos que procuram explicar a natureza da consciência, mos em um todo ordenado e indivisível, só pode ser preenchido por
sejam oriundos das neurociências, medicina, psicologia, fisica, fi- uma teoria que leve em consideração a estrutura quântico-informa-
losofia, ciências da computação, ou da religião, compartilham, ge- cional não-local das interações cérebro-universo, e que seja tam-
ralmente, o paradigma cartesiano-newtoniano, insistindo em uma bém compatível com a teoria da relatividade.
abordagem exclusivamente reducionista, e/ou no dualismo men- Wheeler (1990) e Chalmers (1995) perceberam a importância
te-matéria. Esta dicotomia entre reducionismo/dualismo vem im- da informação nesse contexto, assim como Cha1mers, ao afirmar
pedindo desde o século XVII a apreensão da verdadeira essência que a informação deve ser considerada uma propriedade tão essen-
do que seja a consciência. cial da realidade quanto a matéria e a energia, e que a "experiência
Hameroff (1994) acredita que esta contenda pode potencial- consciente seja considerada uma característica fundamental, irre-
mente ser resolvida "por visões que coloquem que a consciência dutível a qualquer coisa mais básica". Wheeler, com seu célebre
tem uma qualidade distinta, mas que emerge dos processos cere- conceito the it Ji'om bit que permite unir a teoria da informação à
brais e que pode ser apreendida pela ciência natural". Como solu- consciência e à física: " ...cada coisa - cada partícula, cada campo
ção propõe um modelo de consciência baseado na emergência de força, mesmo o espaço-tempo continuum - deriva sua função,
de coerência quântica nos microtúbulos neurais, que desenvolveu seu significado, sua verdadeira existência inteiramente, mesmo
com Penrose (1996). Modelos como este utilizam uma interpreta- que em alguns contextos indiretamente, do aparato-desencadea-
ção tradicional da mecânica quântica, que, como o demonstra Clar- dor-de-respostas às questões sim-ou-não, escolhas binárias, bits".
ke (1995), "partem de uma posição basicamente quantum-mecâni- Uma conceituação mais abrangente dos conceitos de ordem,
ca, mas impõem modificações ao fonnalismo quântico de modo a organização, informação e neguentropia (Wiener, 1948; Shannon,
assegurar que o resultado seja basicamente newtoniano. Colocam 1949; Szilard, apud Brillouin, 1959) é essencial para o desenvolvi-
uma forte ênfase na função de onda como o objeto fundamental da mento de um modelo holoinformacional capaz de integrar a cons-
teoria quântica, invocando um 'colapso' da função de onda, para ciência à natureza. Leon Brillouin, em seu célebre teorema, de-
passar a um quadro newtoniano. Como resultado, ficam firmemen- monstrou a equivalência entre infonnação e neguentropia, e Nor-
te ligados a um quadro espacial". Ao transformar a lógica quântica bert Wiener (1948) colocou esta identidade na base conceitual da
em uma lógica newtoniana deixam de lado a função de não-locali- cibernética afirmando que "informação representa entropia negati-
dade, essência da lógica quântica e propriedade fundamental do

249
248
va", e profeticamente enfatizando que "informação é informação, efeito desorganizador, ou de forma positiva ("ambigüidade produ-
não é matéria nem energia". Bateson (1972) define informação tora de autonomia") que atua aumentando a autonomia relativa de
como "a diferença que faz a diferença", conceituação que Chal- uma parte do sistema em relação às outras, ou seja, diminuindo a
mers (1996) retoma afirmando ser este "o caminho natural para fa- redundância geral do sistema e aumentando o seu conteúdo infor-
zer a conecção entre sistemas fisicos e estados informacionais". A macional.
equivalência/identidade entre ordem/neguentropia/informação éa
Atlan desenvolveu essa teoria auto-organizadora da complexi-
senda que nos permite fundamentar e compreender todo o fluxo ir-
redutível e natural de transmissão de ordem no universo, se au- dade para sistemas biológicos. Jantsch, estudando a evolução do
universo, demonstrou que a evolução cósmica é também um pro-
to-organizando de forma significatica e inteligente através da in-
cesso auto-organizador, com a microevolução dos sistemas indivi-
formação. Na teoria termodinâmica clássica, a definição de ordem
duais (hólons) coevoluindo para estruturas macrossistêmicas cole-
é probabilística, e dependente do conceito de entropia, a qual mede
tivas mais organizadas, com acentuada redução na quantidade des-
o grau de desordem de um sistema, deixando ausente, ou reduzindo
tes sistemas coletivos. Todo este processo auto-organizador repre-
muito, a imensa riqueza das significações naturais.
senta, com efeito, uma expressão universal de uma maior aqui-
sição de variedade ou conteúdo informacional, que, como o de-
1. Auto-organização e informação monstrou Atlan, é conseqüente a uma redução da redundância na
totalidade do sistema.
Para Atlan (1972; 1979; 1983), assim como para nós, "a entro- Informação pode ser definida então como uma propriedade não-
pia não deve ser compreendida como uma medida da desordem, local, intrínseca e irredutível do universo capaz de gerar ordem, au-
mas muito mais como uma medida da complexidade" (1979: 37). to-organização e complexidade, e deve ser considerada mais básica
Para isso, é necessário considerarmos que a noção de informação do que o princípio da conservação da matéria e energia.
implica em uma certa ambigüidade, podendo significar a capacida- Ilya Prigogine, ganhador do Prêmio Nobel, desenvolveu uma
de em bits (bit capacity) de um sistema físico (e.g. Shannon), ou o
extensão da termodinâmica que demonstra como a segunda lei
conteúdo semântico (significação) conduzido pelos bits durante
também permite a emergência de novas estruturas, de ordem a par-
uma comunicação. Na teoria da informação, a organização, a or-
tir do caos. Este tipo de auto-organização gera estruturas dissipati-
dem, expressa pela quantidade de informação do sistema (a função
vas que são criadas e mantidas através de intercâmbios de energia
H de Shannon), é a medida da informação que nosfalta, a incerte- com o ambiente, em condições de não-equilíbrio. Estas estruturas
za sobre o sistema (cf. Brillouin). Relacionando esta ambigüidade,
dissipativas são dependentes de uma nova ordem, denominada por
esta incerteza, à variedade e à não-homogeneidade do sistema, Prigogine ordem porjlutuações, que corresponde a uma "flutuação
Atlan conseguiu resolver certos paradoxos lógicos da auto-organi- gigante" estabilizada pelas trocas com o meio. Nestes processos
zação e da complexidade, ampliando a teoria de Shannon. Definin- auto-organizadores a estrutura é mantida por meio de uma dissipa-
do organização de um modo quantitativamente formal, Atlan de- ção de energia, na qual a energia se desloca gerando simultanea-
monstrou que a ordem do sistema corresponde a um compromisso mente a estrutura, através de um processo contínuo. Quanto mais
entre o conteúdo informacional máximo (i.é, a variedade máxima) complexa a estrutura dissipativa, mais informação é necessá-
e a redundância máxima, e que a ambigüidade pode ser descrita ria para manter suas interconexões, tornando-a conseqüentemente
como uma função do ruído, ou mesmo do tempo, se considerarmos mais vulnerável às flutuações internas, o que significa um maior
os efeitos do tempo como relacionados aos fatores aleatórios acu-
potencial de instabilidade e de possibilidades de reorganização. Se
mulados pela ação do ambiente. Esta ambigüidade, característica as flutuações são pequenas, o sistema as acomoda, não modifican-
dos sistemas auto-organizadores, pode se manifestar de forma ne- do a sua estrutura organizacional. Se as flutuações atingem, no en-
gativa ("ambigüidade-destrutiva") com o significado clássico de

250 251
tanto, um tamanho crítico, desencadeiam um desequilíbrio no sis- difica não porque foi influenciado diretamente pela mente, mas
tema, ocasionando novas interações e reorganizações intra-sistê- porque a mente do observador desencadeou uma transferência de
micas. "Os antigos padrões interagem entre eles de novas maneiras informação no nível subatôrnico. Disto tudo resulta uma lei de con-
e estabelecem novas conexões. As partes se reorganizam em um servação da informação, tão ou mais fundamental do que a lei da
novo todo. O sistema alcança uma ordem mais elevada" (Prigogi- conservação da energia. Stonier (1990) também identifica a infor-
ne,1979). mação com a estrutura e organização do universo, sustentando que
a informação é o princípio organizacional cósmico fundamental
com status igual ao da matéria e da energia.
2. Consciência, auto-organização e informação Propomos nessa visão holoinformacional do universo que o
que auto-organiza significativamente a evolução cósmica é a rela-
Seager (1995) afirma que consciência, auto-organização e in- ção entre a entropia fisica e o conteúdo quântico-informacional do
formação se conectam no nível da significação semântica, não no universo, por meio de um processo em que a complexidade utili-
nível da bit capacidade, e que "como a teoria clássica da informa- zando o conteúdo informacional preexistente alcança níveis de or-
ção se situa em nível da bit capacidade, ela seria inapta para pro- ganização e variedade cada vez mais elevados. A complexidade no
mover a conexão própria com a consciência e temos de começar a
universo cresce progressivamente a partir das forças gravitacio-
nos mover em direção a uma visão mais radical da natureza funda-
nais e nucleares, intensificando-se com a emergência dos sistemas
mental da consciência, com um movimento em direção a uma vi-
auto-organizadores da biosfera, e alcançando um estado antientró-
são mais radical da informação". Seager nos lembra ainda que no
pico de complexidade, variedade e conteúdo informacional prati-
clássico experimento quântico das duas fendas, e no experimento
camente infinitos com a emergência da noosfera. Como veremos
denominado quantum eraser, o que está emjogo não é a bit capa-
logo adiante, existe uma teoria fisica que tem implícito em seu ar-
city, mas a correlação semanticamente significativa de sistemas fi-
cabouço conceitual, além das interações mecanicísticas locais, um
sicos "distintos", informacionalmente carregados (information la-
desdobramento informacional quântico não-local, gerador do uni-
den) de modo não-causal.
verso, que auto-organiza de forma significativa a matéria, a vida e a
Chalmers (1995) sustenta que cada estado informacional pos- consciência.
sui dois aspectos diferentes, um sob a forma de experiência cons-
ciente e o outro como processo fisico no cérebro, ou seja, um inter- A concepção da consciência como algo essencial, primário e
no/intencional e outro externo/fisico. Esta visão tem sustentação irredutível também é encontrada nas cartografias da consciência
nos atuais desenvolvimentos da chamada "fisica da informação", obtidas a partir dos milhares de relatos psicoterapêuticos e expe-
desenvolvida pelo fisico Wojciech Zureck (1990) e outros, que riências consistentes e convergentes, confirmados por vários pes-
propõe que a entropia fisica seria uma combinação de duas grande- quisadores da área de medicina e psicologia (Jung, 1959; Grof,
zas que se compensam reciprocamente: a ignorância do observa- 1985; Moody Jr., 1976; Ring, 1980; Sabom, 1982; Kubler-Ross,
dor, medida pela entropia estatística de Shannon, e o grau de de- 1983; Weiss, 1996) que estudam sujeitos submetidos a estados alte-
sordem do sistema observado, medido pela entropia algorítmica rados de consciência, por métodos variados, como hipnose, relaxa-
que é o menor número de bits necessário para registrá-lo na memó- mento, respiração holotrópica, experiências próximas da morte,
ria. Durante o processo de medição, a ignorância do observador di- etc. Estas cartografias revelam surpreendentemente "uma ontolo-
minui como conseqüência do aumento do número de bits em sua gia e uma cosmologia nas quais a consciência não pode decorrer
memória, permanecendo, no entanto, constante a soma dessas duas de, ou ser explicada em termos de, qualquer outra coisa. Ela é um
grandezas, ou seja, a entropia fisica. fato primordial da existência e dela emerge tudo o que existe"
Nessa visão informacional do universo, o observador perma- (Grof apud Capra, 1988). A replicação destas inúmeras observa-
nece incluído como parte do sistema, e o universo quântico se mo- ções clínicas por pesquisadores de notória reputação científica é

252 253
um dado extremamente importante, muitas vezes desprezado. partes. Isso significa que a atividade dinâmica - interna e externa-
Estes dados comprovam consistentemente a irredutibilidade da que é fundamental para o que cada parte é, baseia-se na sua introje-
consciência, sendo um dos poucos caminhos não-filosóficos, ção em todo o resto, incluindo todo o universo. Mas, é claro, cada
não-religiosos e não-fisicos que nos permitem investigar e com- parte pode se desdobrar (unfold) em outras em diferentes graus e
preender diretamente, in totum, o fenômeno da consciência, por modos. Ou seja, elas não estão todas introjetadas igualmente em
meio de parâmetros científicos controlados. Atualmente, estão dis- cada parte. No entanto, o princípio básico de introjeção (enfold-
poníveis uma série de psicotecnologias, que costumam ser ignora- ment) no todo, não é desse modo negado. Conseqüentemente o
das e/ou marginalizadas pela comunidade acadêmica, as quais nos processo de introjeção não é meramente superficial ou passivo,
permitem utilizar a mente humana como um sistema confiável de mas eu enfatizo novamente que cada parte está num sentido funda-
investigação e esclarecimento sobre a natureza da consciência, e mental internamente relacionada em suas atividades básicas ao
que são passíveis de replicação e comprovação. todo e a todas as outras partes. A idéia mecanicística de rela-
ção externa como fundamental é conseqüentemente negada. Cla-
ro, tais relações são ainda consideradas como sendo reais, mas de
3. Natureza, informação e consciência significância secundária. Ou seja, podemos obter aproximações
para um comportamento mecanicístico a partir disto. Isto é a mes-
Uma teoria holoinformacional e auto-organizadora, capaz de in- ma coisa que dizer que a ordem do mundo, como uma estrutura de
tegrar a consciência à tessitura quântica não-local do universo, pode coisas basicamente externas a cada uma das outras, revela-se como
solucionar a questão da natureza da consciência. Compreendemos secundária e emerge da ordem implícita mais profunda".
como Weil (1993) que "a natureza da inteligência é a inteligência da
Deste modo, podemos dizer que vivemos em um universo
natureza" e, como Atkins (1994), que "consciência é informação
quântico em que a realidade é essencialmente não-local e o mundo
emergente no momento de sua geração, transformação auto-organiza-
clássico newtoniano com suas interações externas locais emerge
dora se processando, em um modelo seiflmundo" (Atkin, 1994).
como um caso especial desta ordem quântica mais profunda.
Afortunadamente, existe uma teoria fisica do universo que in-
De acordo com Bohm (1987), a analogia com o holograma em
tegra a consciência como uma dimensão irredutí vel da natureza em
que cada parte do sistema é uma imagem do objeto total, mesmo
seu arcabouço conceitual. No entanto, esta teoria tem sido, inexpli-
sendo uma imagem estática que não transmite a natureza sempre
cavelmente, considerada de forma insuficiente pelos meios cientí-
dinâmica dos infinitos encobrimentos e descobrimentos que a todo
ficos, passando desapercebidas as suas revolucionárias implica-
instante criam nosso universo, é uma metáfora funcional, pois "as
ções acerca da interação consciência-universo. Trata-se da teoria
leis matemáticas quânticas básicas que se aplicam à propagação
do holomovimento desenvolvida pelo fisico David Bohm que de- das ondas/partículas e conseqüentemente a toda matéria são capa-
monstra matematicamente a existência de uma ordem oculta, im-
zes de descrever um tipo de movimento no qual existe um contínuo
plícita, no universo, que seria a realidade primária. Matéria, vida e desdobramento do todo em cada região, juntamente com o desdo-
consciência (a ordem explícita) se originariam deste solo comum bramento de cada região no todo novamente. Apesar de que isto
(a ordem implícita), por meio de um contínuo movimento de des- pode assumir muitas formas particulares - algumas conhecidas,
dobramento (extrojeção) e recolhimento (introjeção) do cosmos, outras ainda desconhecidas - este movimento é universal até onde
denominado holomovimento. sabemos". Bohm denomina este movimento universal de expansão
Bohm (1987) afirma que "na ordem implícita tudo está introje- e recolhimento holomovimento. Bohm afirma ainda que estas leis
tado (jolded) em tudo. Mas é importante se notar aqui que todo o são compatíveis com a teoria da relatividade, o que leva a ordem
universo está em princípio introjetado (enfolded) em cada parte ati- implícita a ter suporte das duas mais fundamentais teorias da fisica
vamente, por meio do holomovimento, assim como também as moderna, a teoria da relatividade e a teoria quântica. Em um desen-

254 255
volvimento posterior, Bohm postulou a existência de uma ordem em julho de 1997 (cf. Science, voI. 277, p. 481), Nicolas Gisin e
superimplícita, uma dimensão ainda mais sutil da organização do coI. provaram esta ação quântica não-local instantânea em grande
universo. Nesse modelo, um campo de superinformação quântica escala. Para Bohm, diferentemente de Bohr, as partículas elemen-
da totalidade do universo organizaria o primeiro nível implícito, tares não têm uma natureza dual onda/partícula, mas são partículas
em múltiplas estruturas ondulatórias que se desdobrariam na or- todo o tempo, e não somente quando são observadas. Na verdade, a
dem explícita. Segundo Bohrn (Weber apud Wilber, 1992), existe partícula se origina de flutuações do campo quântico global, sendo
um modelo fisico desenvolvido por De Broglie que propõe um novo seu comportamento determinado pelo potencial quântico, "que
tipo de campo, cuja atividade é dependente do conteúdo de infor- conduz informação sobre o meio ambiente, informando e orientan-
mação que é conduzido a todo o campo experimental, o qual se es- do o seu movimento. Como a informação no potencial é muito de-
tendido à mecânica quântica resulta na ordem superimplícita! talhada, a trajetória resultante é tão extremamente complexa que
parece caótica ou indeterminística" (D. Peat, 1987). Qualquer ten-
tativa de mensurar as propriedades da partícula altera o potencial
4. Consciência e não-localidade
quântico, destruindo sua informação. Com efeito, segundo Bohrn,
Bohr interpretou o princípio da incerteza como significando "não a
Adicionando em suas equações umpotencial quântico que sa-
existência de uma incerteza, mas a existência de uma ambigüidade
tisfaz à equação de Schrõdinger, mas que é dependente da forma, e
não da amplitude da função de onda, Bohrn (1993) desenvolveu um inerente" em um sistema quântico (apud Horgan, 1996).
modelo em que o potencial quântico conduz "informação ativa" que Como observou lohn Bell (1987) "a idéia de De Broglie-
"guia" a partícula em seu caminho. O potencial quântico possui ca- Bohm parece tão natural e simples, para resolver o dilema onda-
racterísticas inéditas, até então desconhecidas, pois diferentemente partícula, de um modo tão claro e natural, que é um grande misté-
das outras forças da natureza é sutil em sua forma e não decai com a rio ... que ela tenha sido tão amplamente ignorada".
distância. Esta interpretação permite que a comunicação entre esta
"onda-piloto" e a partícula se processe a uma velocidade maior do Na teoria holográfica, como nenhum campo organizava a or-
que a da luz, desvelando o paradoxo quântico da não-localidade, dem implícita, ela era conseqüentemente linear e de dificil desdo-
i.é, da causalidade instantânea, fundamental em nossa visão holoin- bramento. A ordem implícita é uma função ondulatória e a ordem
formacional do universo e da consciência. Este paradoxo, proposto superimplícita ou campo informacional superior uma função da
inicialmente por Einstein, que não acreditava na possibilidade de função ondulatória, i.é, uma função superondulatória, que torna
uma partícula viajar mais rapidamente do que a luz, é atualmente co- a ordem implícita não-linear, organizando-a em estruturas com-
nhecido como Efeito Einstein-Podolsky-Rosen, e afirma que após plexas e relativamente estáveis. Além disto, o modelo holográfico,
um átomo emitir duas partículas de spins opostos, se o spin de uma como modo de organização da ordem implícita, dependia do cam-
delas for alterado, mesmo que elas estejam separadas por uma po potencial de informação quântica que não possuía capacidade
grande distância (por exemplo, uma na Terra e outra em Marte), o de auto-organização e transmissão da informação, essencial para
spin da outra se modifica instantaneamente, revelando uma intera-
a compreensão da gênese e desenvolvimento da matéria, vida e
ção informacional não-local entre elas e a existência de uma unida-
de cósmica subjacente indivisíveI. consciência. A ordem superimplícita supre esta necessidade, per-
mitindo entender a consciência e a matéria como variedades de ex-
A informação passa então a ser compreendida como um pro- pressão de uma mesma ordem holoinformacionaI. Resulta então que
cesso fundamental da natureza, capaz de atuar modificando a es- a consciência desde os primórdios da criação já estaria presente
trutura do universo, pois qualquer partícula elementar se encon- nos diversos níveis de desdobramento e recolhimento da natureza.
tra unida, por meio de um potencial quântico, a todo o cosmos.
Até uma pedra é de alguma maneira viva
Em 1982, Alain Aspect e coI. comprovaram experimental- (80I1m).
mente a existência dessas ações não-locais, e mais recentemente,

256 257
5. Rumo a uma teoria holoinformacional da consciência todos os níveis de complexidade do universo, são a auto-organiza-
ção neguentrópica da informação.
Vimos que o potencial quântico guia por meio de informação N esta visão holoinformacional da consciência, ofluxo quânti-
ativa a partícula ao longo do seu curso. Esta informação ativa que co-informacional não-local, em um contínuo holomovimento de ex-
organiza o mundo da partícula revela que toda a natureza é holoin-
pansão e recolhimento, entre o cérebro e a ordem superimplícita do
formacional, ou seja, organizada de modo significativo, e este pro- universo, é a consciência universal, se auto-organizando em mente
cesso de significação é crucial para entendermos a natureza holoin- humana. A característica essencial de não-localidade quântica deste
formacional da consciência e da inteligência no universo. Matéria processo dinâmico de interação holoinformacional toma a questão
viva e consciência são atividades significativas, isto é, processos sobre a qualidade fenomenal (qualia) da experiência consciente, le-
quântico-informacionais inteligentes, ordem transmitida através vantada por Chalmers (1995), multicontextual, multidimensional,
da evolução cósmica, originária de um campo holoinformacional relativa não só ao observador, mas também ao processo de observa-
gerador situado além de nossos limites de percepção. Conseqüen- ção e ao que se observa, isto é, à informação holográfica do todo em
temente, este tipo de universo estruturado, como um campo quânti- questão. O nível desta qualidade informacional é capaz de aumentar
co holoinformacional não-local, pleno de potencial quântico com ou diminuir, em uma transição de fase, dependendo da quantidade
atividade de significação, é um universo inteligente (com informa- de informação contida na parte do holograma universal em foco, e
ção significativa) funcionando como uma mente, como Sir James do referencial de relações em questão, que pode ser externo (meca-
Jeans já tinha notado. Assim, como a consciência sempre esteve nicístico) ou interno (campo holoinformacional).
presente nos diversos níveis de organização da natureza, matéria, O hard problem da consciência proposto por Chalmers é so-
vida e consciência não podem ser consideradas como entidades se- mente difícil e problemático em um contexto cartesiano-newtonia-
paradas, capazes de ser analisadas em um arcabouço conceitual no, mecanicístico e reducionista, no qual a consciência e o univer-
cartesiano fragmentador. Com efeito, devem ser melhor considera- so são considerados entidades separadas. Em um contexto holoin-
das como uma unidade indivisível, com todos os seus processos formacional de relações internas, indivisíveis e não-locais, ele dei-
quântico-informacionais interagindo por meio de relações não-lo- xa de existir, pois os subníveis auto-organizacionais do universo
cais (holísticas), internas, e simultaneamente por meio de relações que se estruturam de modo mecanicístico-local são compreendi-
externas locais (mecanicísticas), gerando capacidades de transfor- dos como manifestações secundárias da natureza harmônica, ho-
mação, aprendizagem e evolução. Esta visão de um continuum ho- lística e não-local do continuum universal holoinformacional. Ma-
loinformacional, de uma ordem geradora fundamental, com um téria, vida e consciência são expressões deste campo holoinforma-
fluxo quântico-informacional criador, permeando todo o cosmos, cional, com relações quânticas não-locais fundamentais se desdo-
permite compreender a natureza básica do universo como uma to- brando em miríades de possibilidades.
talidade inteligente auto-organizadora indivisível, i.é, uma cons- Teoricamente, isto nos remete também à questão do inconsci-
ciência. Uma forma de consciência universal se desdobrando de
ente, que deste modo poderia ser hipoteticamente compreendido
modo "holográfico" em uma infinita holoarquia.
como a parte da consciência holográfica universal desdobrada no
As flutuações quântico-informacionais geradas a partir desta cérebro/mente que se "desfoca", se "obscurece", quando se au-
consciência universal através do holomovimento se auto-organi- to-organiza como consciência humana, tal como em um hologra-
zam nos níveis informacionais básicos do universo: o código nu- ma, em que a parte contém o todo de forma menos nítida. A cons-
clear (cosmosfera), o código genético (biosfera) e o código neural ciência holoinformacional quando estruturada (incorporada) no
(noosfera). Estes códigos holoinformacionais, ou seja, esta ordem cérebro humano reduz a qualidade (qualia) da percepção da unida-
que é transmitida de um modo significativo e inteligente através de de/totalidade (holos) da natureza, fazendo com que estes aspectos

258 259
permaneçam habitualmente inconscientes, restringindo o campo Sistemas não-lineares dinâmicos como o cérebro humano,
consciencial do ser, limitando-o mental e simbolicamente. Isto po- com estes "correlatos neurais" da consciência, são gerados não so-
deria explicar a metáfora da queda do homem encontrada com vá- mente por estas complexificações das relações externas mecani-
rias nuances em muitas tradições espirituais. císticas da matéria, mas, como já vimos, também primordialmente
Matéria, vida e consciência nunca serão compreendidas por por um desdobramento harmônico de um campo de consciência
meio de um emergencialismo fragmentador e reducionista que universal e indivisível. Este campo holográfico inteligente au-
considere somente as relações externas e mecanicistas. Isto é um to-organizador, auto-suficiente e auto-referente continuamente
erro de percepção, já apontado pelas tradições orientais há milha- cria (desdobra) e recria (replica) a si mesmo, experimentando
res de anos, com o nome de maya. Como seres simbólicos que so- continuamente novas possibilidades de existência e não-existên-
mos, podemos compreender melhor este processo através da metá- cia, num eterno e sempre novo ciclo de expansão e recolhimento. A
fora da flor e do fruto. Podemos dizer que o fruto é originário da "cosmologia não big-bang autoconsistente" de Prigogine-Gehe-
flor. Entretanto, o fruto já se encontra implícito na semente, não niau et aI. descreve as principais características deste cenário de
sendo possível afirmarmos que ele se origina somente e essencial- aprendizagem multicíclica, no qual a evolução cósmica é o resulta-
mente da flor. Isto seria um reducionismo, uma fragmentação per- do de uma interação entre o vácuo quântico e as partículas de maté-
ceptiva da realidade. Com efeito, nem mesmo a semente origina o ria sintetizadas nele. Laszlo (1993) acrescenta a este cenário "o
fruto. O fruto se origina de uma totalidade indivisível, claramen- postulado de acordo com o qual o vácuo quântico é o quinto campo
te inteligente e holorrelacionada: sol, chuva, terra, ar, vento, raios universal interagindo com a matéria", afirmando que "o campo
cósmicos, estações do ano, clima, microorganismos, insetos, pás- atua como um meio holográfico, registrando e conservando a
saros, semente, seiva, tronco, folhas ... ad injinitum, em uma ordem transformação de onda escalar da configuração dos espaços 3n-di-
holoinformacional irredutível. mensionais assumidos pela matéria no espaço" (p. 204).
Este quinto campo universal não é inferido das interações es-
pácio-temporais como as forças gravitacionais, eletromagnéticas e
6. Consciência e a mente humana
as forças nucleares fraca e forte. Neste novo tipo de campo espaço
e tempo se tomam implicados, introjetados, como descrito mate-
As redes cibernéticas de reações cíclicas hierárquicas por meio maticamente por Bohm. O quinto campo é espectralmente holo-
das quais procuramos caracterizar a vida e a consciência se in- graficamente organizado, e constituído pela energia presente nos
ter-relacionam em uma dinâmica multinível de "hiperciclos" (Ei- padrões de interferência das ondas. As transformações da ordem
gen & Schuster, 1979), se auto-organizando em ciclos "autocatalí- espácio-temporal para esta dimensão espectral são descritas por
ticos" (Prigogine, 1979; Kauffman, 1995) no "limite do caos" (Le- formulações holográficas matemáticas. Este tipo de formulações
win, 1992). Ciclos autocatalíticos se auto-organizam em níveis su- foi primeiramente descrito por Leibniz que criou a concepção de
periores, por meio de hiperciclos catalíticos (e.g. um vírus) capa- mônadas. Dennis Gabor, em nosso século, descreveu os princípios
zes de evoluírem para estruturas mais complexas e mais eficien- matemáticos da holografia, e definiu um quantum de informação
tes, até a "emergência de conjuntos, de conjuntos de ... de con- que denominou logon, um canal que é capaz de conduzir uma uni-
juntos de neurônios" (Alwin Scott, 1995). Deste modo a rede gera dade de comunicação com a menor quantidade de incerteza.
"'loops' criativos" (Erich Harth, 1993) e "hiperestruturas" (Nils
Pribam em sua teoria holonômica do funcionamento cerebral
Baas, 1995) capazes de se integrarem em sistemas com padrões de
conectividade distribuídos e paralelos, como o Global Workspace propõe que todo o processamento informacional quântico-holo-
(N ewman & Baars, 1993), e o Extended Reticular- Talamic Activa- gráfico interconectando o cérebro e o cosmos que ocorre no nível
tion System - Ertas, de James Newman (1997). subatômico interage simultaneamente com um processo holográfi-
co de tratamento da informação, o holograma neural multiplex dis-

260 261
tribuído por todo o córtex cerebral, dependente dos chamados neu- lidade objetiva", interpretando freqüências originárias de uma ou-
rônios de circuitos locais que não apresentam fibras longas e não tra dimensão, de uma ordem fundamental, um campo holoinfor-
transmitem os impulsos nervosos comuns. "São neurônios que macional situado além do espaço e do tempo.
funcionam no modo ondulatório, e são sobretudo responsáveis pe-
Como o cérebro tem a capacidade de funcionar tanto no modo
las conexões horizontais das camadas do tecido neural, conexões
holográfico não-local quanto no modo espaço temporal local, acre-
nas quais padrões de interferência holograficóides podem ser cons-
ditamos que estamos lidando aqui com o conceito de complemen-
truídos" (Pribam, 1980). Ele descreve uma "equação de onda neu-
taridade de Bohr, no funcionamento quântico do sistema nervoso
ral" (1991) resultante do funcionamento das redes neurais do cére- central.
bro, similar à equação de onda da teoria quântica.
A teoria holonômica do funcionamento cerebral de Pribram e a
Pribram (1991) demonstrou que a hiperestimulação do cére-
teoria quântico-holográfica do universo de Bohm, acrescidas com
bro anterior fronto-límbico leva os primatas, inclusive humanos, a
a contribuição de Laszlo sobre o quinto campo citada acima, mos-
operar em um modo holístico semelhante ao holográfico. A exci-
tram-nos que somos parte de algo muito maior e vasto do que nos-
tação elétrica destas áreas cerebrais relaxa a coerção Gaussiana sas mentes individuais. Nossa mente é um subsistema de um holo-
como o coloca Laszlo. "Enquanto durante os níveis ordinários de
grama universal, acessando e interpretando este universo holográ-
excitação do sistema fronto-límbico o processamento do sinal cria
fico. Somos sistemas interativos ressonantes e harmônicos, com
a usual consciência narrativa, quando a excitação deste sistema ex-
esta totalidade auto-organizadora indivisível. Somos este campo
cede um certo limiar, a experiência consciente é dominada por
holoinformacional da consciência, e não observadores externos a
processos holográficos incoercíveis. O resultado é uma sensação
ela. A perspectiva de observadores externos nos fez perder o senti-
atemporal, aespacial, acausal, 'oceânica'." Pribram descobriu que
do e o sentimento da unidade ou identidade suprema, gerando as
nestes estados o sistema nervoso se torna, como ele diz, "sintoniza-
imensas dificuldades que temos para compreender que somos um
do com os aspectos holográficos - da ordem similar ao holograma
com o todo, e não uma parte dele.
- do universo" (Laszlo, 1993: 179).
Nós não viemos a este mundo: viemos dele,
Temos no cérebro uma mais sutil e menos conhecida rela- como as folhas de uma árvore. Tal como o
ção mente/corpo do que os mapas neurofisiológicos representa- oceano produz ondas, o universo produz
dos pelo célebre homúnculo de Penfield. O homúnculo revela so- pessoas. Cada indivíduo é uma expressão de
todo o reino da natureza, uma ação singular do
mente as relações espaciais entre a superficie do corpo e o córtex universo total. Raramente este fato é, se é que
cerebral. Com efeito, o campo receptor dos neurônios corticais rea- alguma vez chega a seI; sentido pela maioria
ge seletivamente a múltiplos modos sensoriais fazendo as curvas dos indivíduos (Alan Watts).
de harmonia dos campos receptores adjacentes se misturarem
(mix) como em um piano. Deste modo, o campo de harmonia do
córtex origina uma ressonância tal como um instrumento de corda. Considerações finais
As formulações matemáticas que descrevem a curva harmônica re-
sultante são as transformações de Fourier que Gabor aplicou na Além de delinear os fundamentos de uma teoria holística não-
criação do holograma, enriquecendo estas transformações com um local, auto-organizadora e holoinformacional da consciência, esta
modelo que pode ser reconstruí do pela aplicação do processo in- abordagem fornece também bases para se compreender a informa-
verso. Esta organização holográfica é o que Bohm denomina or- ção como o princípio unificador capaz de conectar a consciência ao
dem implícita, um modelo que inclui o espaço e o tempo em sua es- universo e à totalidade do espaço e do tempo. Pennite ainda uma
trutura como uma dimensão implicada. Funcionando neste modo melhor compreensão de fenômenos e teorias relacionados à cons-
holográfico nosso cérebro pode "matematicamente construir a rea- ciência que até agora não conseguíamos explicar ou compreender

262 263
adequadamente, tais como sincronicidades, arquétipos, incons- BOHM, D. (1983). Wholeness and the implicate order. New York, Rou-
ciente coletivo (Jung), complexos inconscientes (Freud), expe- tledge.
riências próximas da morte (Moody Jr.), sonhos premonitórios,
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Brian D. Josephson, Prêmio Nobel de fisica, acredita que a teo- tledge.
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dia, de Deus na rede da ciência. Acreditamos que a perspectiva matic new look at the creative roots of science and life. New York,
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Bohm um de seus fundamentos implica a inclusão no arcabouço da
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Finalmente, podemos afirmar que no paradigma cartesiano-
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newtoniano reducionista a pergunta sobre a natureza da consciên-
cia é irrespondível. Ela pode ser útil para desdobrar novos conheci- - (1995b). The puzzle of conscious experience. Scientific American, de-
mentos e gerar novas perguntas e respostas. Entretanto, a fragmen- cember.
tação inerente a esta perspectiva obscurece cada vez mais nossa
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PARTE VII

FÓRUMDE
DEBATES

268
11
A ciência e o primado da consciência
Karl Pribram
Rupert Sheldrake
Stanis/av Grof
Amit Goswami

Benny Shanon
Moderador

1. O que é consciência?

Karl Pribram: No dicionário, a definição de consciência vem


de conscire - fazer ciência em conjunto, adquirir conhecimento
em conjunto. Portanto, é aquilo que podemos partilhar em ter-
mos de conhecimento. Quanto a minha própria visão de cons-
ciência, como sou um cientista do cérebro, estou interessado em
nossa experiência consciente e não nas definições mais amplas e
gerais da consciência divina; definições que pessoas diferentes,
grupos religiosos diferentes, civilizações diferentes deram ao
mundo - que alguns de nós chamamos de Deus, alguns de nós
chamamos de ordem na natureza, há várias maneiras de falar sobre
a consciência divina.
Outra questão que eu gostaria de mencionar é que em francês,
e talvez em outras línguas européias, não existem palavras separa-
das para conscience e consciousness. Existe algum tipo de conexão
em muitas das definições de consciência que têm uma implicação
moral e ética. Portanto, uma vez mais, não só adquirindo conheci-
mento em conjunto, mas também adquirindo o conhecimento com
um objetivo. Em inglês nós separamos essas funções totalmente.

271
Em um trabalho que escrevi há algum tempo, voltei para a defini- refere a nossas relações com os demais. Assim, para mim, ela tem
ção do dicionário; uma definição de que gosto, que vai bem com algo que ver com a esfera de possibilidade; e tem algo que ver com
essa coisa de que a consciência tem um aspecto ético, é: ser cons- a escolha entre ações possíveis. Acho que a maior parte de nossa
ciente é tentar. Tentar (to try) em inglês tem dois significados: 1. es- consciência está voltada para a ação.
forçar-se para realizar alguma coisa e 2. julgar. Portanto, uma vez Em minhas idéias, fui muito influenciado pelo filósofo francês
mais, nos embrenhamos nessa questão do sentido duplo de cons- Henri Bergson. Bergson enfatizou que até mesmo um ato de per-
ciência. Na verdade, não sei de onde vem isso e não explorei o as-
cepção é uma ação potencial porque em cada percepção separamos
sunto o bastante.
e potencialmente damos nome às coisas que estamos percebendo.
Portanto há uma ação potencial envolvida até na percepção cons-
Rupert Sheldrake: Bem, para mim a gênese de nossa cons- ciente. Acho que tem que ver com possibilidade, possibilidades ori-
ciência individual obviamente vem de "conhecer com outros" entadas para a ação e escolhas entre possibilidades. Acho que as for-
como disse Karl. Cada um de nós fica consciente em um campo de mas que a consciência assume, as formas que as percepções assu-
consciência que já existe - com nossa família, nossa sociedade e mem e a forma que nossa atividade consciente assume estão molda-
nossa cultura. Portanto tentar gerar uma compreensão de consciên- das por aquilo que chamamos de campos. Portanto, acho que a cons-
cia a partir da consciência individual me parece tentar começar ciência é uma esfera de possibilidade estruturada por campos; e que
pelo lado errado. Cada um de nós, de alguma forma, para começar, esses campos não estão simplesmente confmados no interior do cé-
cristaliza ou individualiza alguma coisa, que é maior do que nós. rebro, embora eles interajam obviamente com o cérebro. É urna es-
Por isso eu acho que esse sentido de conhecer com que está embuti- fera de possibilidade, algo assim como - um campo de campos.
do na própria base da palavra, em sua própria etimologia, é real- Esses campos têm estrutura, têm hábitos e significados em si mes-
mente importante. mos, por isso acho que a memória é inerente a esses campos mórfi-
coso Com isso a função da consciência é... mas talvez essa seja a
Quanto à questão do que é a consciência; não é uma questão próxima pergunta. Por isso me interrompo aqui, no meio da frase.
com a qual luto há muito tempo. E o que me faz desistir de me preo-
cupar com ela são coisas como o Journal ofConsciousness Studies
em que artigos e mais artigos, números e mais números, por filóso- Stanislav Grof: Eu compartilhei com você meu passado mate-
fos e outras pessoas mais [tratam disso]. Tento ler alguns desses rialista, fui educado em uma faculdade de medicina, na psiquiatria
trabalhos, mas temo dizer que eles me fazem dormir. É o tipo da coi- tradicional. Está muito claro que a consciência é urna espécie de re-
sa boa para ler na cama se estamos com insônia. Eu tinha mais inte- cém-chegado na cena cósmica. Algo que surge da complexidade do
resse na consciência antes de ela se transformar em uma indústria sistema nervoso e está lá para nós, para refletir a existência objetiva.
acadêmica importante; e agora, para expressar uma opinião, preci- Após 40 anos de trabalho com estados não ordinários e expe-
samos lutar contra páginas de jornais, pilhas de jornais e dezenas riências de estados não ordinários, ela mais ou menos deu meia
de livros que são publicados todos os anos sobre o assunto. volta. Para mim a consciência é uma espécie de fenômeno primário
Minha opinião, na verdade, é que a consciência deve ser algo da existência. De alguma maneira, para mim é mais fácil compre-
que tem que ver com a esfera de possibilidades. Essa é a única pala- ender a criação da experiência do mundo material a partir da cons-
vra que a meu ver abrange as possibilidades múltiplas e os signifi- ciência do que ser capaz de entender a consciência surgindo de pro-
cados de consciência; que ela é alguma coisa que tem que ver com a cessos materiais. Para mim, portanto, para poder, de alguma ma-
esfera de possibilidades (Pribram - "Isso significa tentar"). É, su- neira, explicar tudo que já vivenciei, tudo que já vi, eu teria que ir a
ponho que sim, e acho que provavelmente seu contexto social e sua um dos sistemas de filosofia oriental. Meu sistema favorito é o Shi-
gênese podem ter mais que ver com o aspecto da consciência que se vaísmo de Kashmir. No Shivaísmo de Kashmir o princípio supre-

272 273
mo no universo é chamado Shiva. Não é o Shiva do panteão hindu. portante como uma medição quântica, com um conceito que não
É o princípio supremo. pode ser explicado ou definido de uma maneira definitiva. E eles
Quando conhecemos um importante defensor do Shivaísmo então perguntam qual é a definição. Porque vocês ouviram o que
em Kashmir, eu perguntei por que vocês chamam isso de Shiva se Stan disse agora mesmo; e eu não vou refutar o que ele disse. Há
não é o Shiva que conhecemos da mitologia? Ele disse que era por- essa qualidade misteriosa. Então, é importante definir a consciên-
que os indianos gostam do nome Shiva. Assim, para o Shivaísmo cia. De um certo modo, sim, mas vejamos o problema. Quando
de Kashmir, Shiva, o princípio supremo no universo, é o fato da analisamos a medição quântica; e, senhoras e senhores, eu estou
consciência. Não em qualquer conteúdo específico, mas apenas o lhes dizendo realmente, na verdade não há qualquer outra explica-
fato da existência, o fato de que algo existe que é uma coisa fantás- ção para a medição quântica. Henry Stapp, eu e muitos outros; Da-
tica por si só. Por que as coisas teriam que existir? O fato é que esse vid Bohm lamentava em sua última obra que ele não podia incluir a
princípio é autoconsciente e tem a capacidade de criar esse mundo consciência. Sua teoria estava próxima de ser uma teoria causal;
infinito de fenômenos, seja de mundos arquetípicos ou de mundos mas sua teoria nunca chegou a se equiparar totalmente à mecânica
fenomenais da realidade material. Esses mundos serão vistos como quântica.
realidades virtuais que são criadas pela atividade, assim por uma E, com isso, ele não podia fazê-Io [incluir a consciência]; nin-
espécie de tecnologia dessa consciência absoluta, um jogo dessa guém, apenas com a ajuda da metafisica material, pode resolver o
consciência cósmica. Para mim, portanto, é o mistério final. É problema da fisica quântica, da interação quântica, da medição
aquela coisa totalmente irredutível da qual toda a existência, de al- quântica. A única solução que existe no momento, muitos mundos
guma forma, se origina. fracassaram gravemente, é um fato conhecido. Assim, a única que
continua de pé; a única que é vigorosamente científica é aquela que
invoca a consciência e invoca a consciência como a base de todo o
Aroit Goswaroi: Uma vantagem de ser o último é poder dizer ser. Estamos diante disso; mas vejamos o problema. Se a consciên-
que os oradores anteriores já falaram tudo. Mas realmente concor- cia é a base de todo o ser, ela é o absoluto, como Stan estava dizen-
do com praticamente tudo que foi coberto nas apresentações dos do. Ela é a posição do Shivaísmo de Kashmir, ela é a posição de Ve-
três oradores anteriores. Acho que contar a minha história pode danta, ela é a posição de toda a tradição mística.
ajudar um pouco aqui. Quando comecei a lidar com o trabalho teó-
rico quântico com a consciência, os fisicos muitas vezes ficavam E então será possível definir a base de todo o ser? Vejamos o
muito aborrecidos por eu utilizar essa idéia de uma forma muito problema; não, não é possível. E se fosse possível, a definição teria
mais ampla do que a proposta originalmente por von Neumann; um estado superior à consciência, em termos lógicos; mas a cons-
ciência é a base de todo o ser. Ela se recusa a ser definida em termos
porque a teoria de Neumann era muito dualista e, dando-lhe subs-
tância, foi possível transformá-Ia em uma teoria monística crível de qualquer outro conceito. Um outro conceito que então teria um
que já está sendo usada por algum tempo e na qual ninguém foi ca- estado superior em termos lógicos. Então, esse é o paradoxo em
paz de encontrar nada errado. E nem vão encontrar, porque, em ter- que nos encontramos. Mas há uma resposta. O grande matemático
mos lógicos, é uma teoria muito sólida. Mas os fisicos em particu- J. Spencer Brown trouxe-nos algo assim como - "Se você quiser
lar, muitos deles pelo menos, ficaram aborrecidos. Perguntavam aprender música, vá ver um músico e o músico poderá falar muito
sobre música com você, e ainda assim não lhe dará a menor idéia
"por que um conceito de psicologia deve ser invocado para expli-
car algo na fisica", porque para eles a fisica é a disciplina mais fun- do que é a música. Por isso um bom músico sempre manda o aluno
damental, a ciência mais fundamental. sentar ao piano ou outra coisa semelhante". Da mesma maneira,
um bom definidor da consciência, como vocês sabem, os místicos,
A segunda coisa que os perturbava é "o que é consciência?" eles nunca irão tentar definir consciência para vocês; eles dirão
Como é possível solucionar um problema que é tangível, tão im- medite e descubra.

274 275
Há um episódio muito bonito no Upanishads que diz tudo. É a tre duas noções de consciência que prevalecem em disciplinas di-
história de um filho que vai até seu pai para aprender sobre realida- ferentes. Uma é a noção estritamente psicológica de experiência
de, consciência; e o pai diz: medite. O filho medita e dá uma res- subjetiva que computadores definitivamente não têm e não podem
posta, que é a primeira resposta, e o pai diz: medite outra vez. O fi- ter. A outra é a questão mais ontológica e metafisica de algum prin-
lho medita outra vez, volta para o pai, e o pai, OK, medite mais ain- cípio básico de ser. E a questão é se podemos estudar a primeira
da. Isso continua por muito tempo e finalmente o filho descobre a sem a segunda. A posição normal nas ciências cognitivas contem-
consciência. E aí ele não vai até seu pai, porque não há motivo. Ele porâneas é que, sim, devemos estudar a experiência subjetiva sem
sabe. Mas esse conhecimento é o conhecimento que não pode ser a ontologia. Talvez isso esteja errado. Acho que na última palestra
expresso. Isso é o que Lao Tsu expressou ao dizer que o Tao que de Amit houve muitos argumentos contra isso. Quero fazer um co-
pode ser expresso não é o Tao absoluto. Temos que concordar com mentário; minha primeira disciplina foi a lingüística, e acho que
isso tanto científica como filosoficamente; não há outra solução. etimologistas das línguas antigas são repositórios de muita sabedo-
Portanto, aqui está uma pergunta que devemos deixar com aquele ria. Em hebraico as palavras são (o inglês não é muito bom para
elemento de mistério. Sem ele não temos a consciência. Nós a co- isso). No hebraico há duas palavras para consciência. Ambas têm a
nhecemos, ou nós podemos conhecê-Ia, nós a intuímos, que é pro- mesma raiz que conhecimento, não "conhecimento com" mas co-
vavelmente a melhor maneira de expressar isso. nhecimento direto. A raiz para conhecimento direto é como você
Mas as outras definições são muito boas. Estou muito satisfei- disse captar. É a raiz da mão. Aquele conhecimento é sempre algo
direto. Um problema com a metáfora do computador em psicolo-
to porque Rupert a define com uma escolha que é fisica quântica.
Isso deixa as coisas bem claras. Eu escolho e portanto eu sou. E fico gia é precisamente que o computador, como John Searle observou
muito grato a Karl porque ele apontou para esse "saber com". Isso em seu famoso trabalho sobre a sala chinesa, é um sistema que só
me sugere a não-localidade quântica. "Saber com" mas não com manipula informação. Os símbolos do computador nunca podem
meios locais, vejam bem. Com uma pessoa e interações locais sig- sair de sua própria moldura. Ele nunca pode saber, nunca pode to-
nificaria que poderíamos fazer uma série de coisas com outra pes- car; e ele nunca pode ter consciência.
soa. Mas máquinas também poderiam fazer vários tipos de coisas Passemos à próxima questão.
umas com as outras se houvesse qualquer mecanismo disponível
para intercâmbio de energia. Mas nós realmente interagimos dessa
forma? Realmente interagimos dessa forma? Qualquer pessoa que 2. Por que temos consciência?
já conheceu o amor sabe que podemos e diretamente. Não precisa-
mos ter o experimento de Grinberg para nos dizer que há uma co- Benny Shanon: Cada um dos palestrantes está livre para inter-
municação direta entre duas pessoas. O experimento de Grinberg é pretar consciência ou no nível psicológico, ou no nível ontológico
bom para usar em conversas com materialistas. Mas todos nós sa- ou em ambos. Por que existe esse fenômeno neste mundo? Talvez
bemos que o amor existe quando não há comunicação local. Co- possa existir um mundo onde tudo pode ser a mesma coisa sem
consciência. Os filósofos atuais falam de zumbis. Zumbis são cria-
municação se dá diretamente, não-local; e isso é o que, a meu ver, o
sentido etimológico capta. A etimologia é muito sábia: "saber turas que são idênticas a nós mas que não têm consciência. O mun-
com" e saber com a não-localidade quântica da consciência. do poderia existir sem consciência e considerando que ele tem
consciência, por que a tem?

Benny Shanon: Eu gostaria de acrescentar umas poucas pala-


vras e voltar, como um psicólogo, para aquilo que o professor Pri- Karl Pribram: Bem, voltarei para aquilo que Amit disse há
bram estava dizendo. Acho que temos realmente que distinguir en- um momento. O título de nosso simpósio é Ciência e o Primado da
Consciência, mas você não está fazendo perguntas sobre o prima-

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do. O que quero dizer é que se é primária, é primária. É aquilo com Estou lendo um livro sobre o pensamento dos animais, por Do-
que todos nós começamos. Nosso próprio, e eu diria que nossa pró- nald Griffin. A atenção que os etologistas dão ao pensamento dos
pria experiência consciente. Acho que Rupert disse isso tão bem, animais mostra quanto do comportamento animal envolve esco-
que os periódicos sobre consciência, estou indo para um simpósio lhas que não podem simplesmente ser atribuídas aos instintos e ao
sobre consciência, estou esperando descansar lá porque não irei a comportamento automático. Os predadores e as presas, por exem-
todas as palestras. A coisa fica dando voltas porque eles estão fa- plo. Quando um predador está tentando pegar uma presa, há muitos
zendo a pergunta errada. Se ela é primária, é primária. O problema lugares em que ele poderia ir procurar essa presa. Há muitos tipos
difícil, como dizem acerca da consciência. Como juntamos sua de comportamento que ele poderia ter com relação à presa. Alguns
consciência e a minha, esse é o problema difícil. Não é. O problema desses tipos de comportamento poderão fazer com que a presa fuja
difícil é como sabemos qualquer coisa. Quero dizer, é tudo a mes- e ele não a pegue. As presas também têm uma variedade de esco-
ma coisa; eu tenho minha experiência, você tem a sua. Todos nós lhas sobre onde irão se alimentar. E sobre como reagir quando
temos nossas experiências, e com isso que começamos, e depois vêem um predador se aproximando. Ou como o grupo de animais
tentamos, através da ciência, partilhar nossas experiências. Não é reage, permanecendo juntos, ou se separando. Há todo o tipo de de-
preciso que seja ciência no sentido técnico; mas acontece que ela cisões que precisam ser tomadas, momento a momento, e imagino
é um meio de partilhar. Você pode escrever romances ou outros que nenhuma situação jamais é a mesma entre predadores e presas
meios de partilhar sua própria experiência consciente. É essa parti- na administração dos seus negócios cotidianos.
lha, captando, como você disse, Shannon, captando com a mão, o Esses animais são conscientes como nós somos conscientes,
que é exatamente aquilo tudo, eu acho que é assim que começa- conscientes de estar fazendo escolhas entre possibilidades. Não
mos. Não devemos perguntar qual a vantagem dela. Ela é. quero aqui me envolver com os debates de que os filósofos tanto
gostam sobre a diferença entre a consciência animal e a consciên-
cia humana ter algo que ver com autoconsciência. Estou certo de
Rupert Sheldrake: Como eu estava dizendo antes, acho que
tem muito a ver com ações e escolhas potenciais. No que se refere que essa é uma questão importante, mas sempre fico confuso quan-
do começo a pensar nisso. Escolhas entre possibilidades é vital.
às ações potenciais, grande parte de nosso comportamento é basea-
do em hábitos e uma das características mais óbvias dos hábitos é Se falarmos sobre a consciência do universo e a consciência
que não precisamos pensar sobre eles. Aliás é uma boa coisa que a que pode estar envolvida no processo evolucionário que Amit
maior parte de nosso comportamento seja habitual, porque não po- mencionou agora, temos que lembrar que a evolução e tudo o mais
demos pensar em muitas coisas ao mesmo tempo; talvez só uma permaneceriam os mesmos e se repetiriam de forma habitual. Mas,
coisa de cada vez. Podemos fazer uma grande quantidade de coisas na verdade, o processo cósmico é um processo de criatividade con-
de forma habitual. Podemos, por exemplo, andar sem pensar aonde tínua. Para onde tudo está indo ninguém sabe, mas a evolução cós-
vamos pôr os pés. Podemos dirigir sem pensar sobre o que estamos mica, a evolução biológica e a evolução humana envolvem criati-
fazendo, posso andar de bicicleta, posso falar inglês sem pensar so- vidade contínua. Assim, a escolha é uma atividade da consciência
bre as palavras que vou dizer. Uma grande parte funciona de forma no processo cósmico, portanto eu acho que alguns desses mesmos
habitual. A maior parte disso ocorre inconscientemente. Existem princípios podem se aplicar aqui também.
muitos hábitos nos animais também, e neles provavelmente ocor-
rem inconscientemente exatamente como acontece conosco. Mas
Stanislav Grof: Gostaria de voltar ao que Karl disse e apoiá-Io
sempre que seja preciso escolher, sempre que os hábitos não este-
jam reinando sobre tudo o mais, aí é preciso existir a consciência através de algumas observações a partir de estados não ordinários
de consciência. Em estados não ordinários, como mencionei hoje
para que possa ocorrer qualquer base para a escolha. Mesmo quan-
do olhamos o comportamento dos animais. de manhã, temos a capacidade de nos movimentar através da gran-

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de corrente do ser em vez de identificar-nos experiencialmente téria. Portanto, há complementaridade entre o espírito e a matéria.
com diferentes seres sensíveis tanto do espaço-tempo como do Esse princípio encontra na criação tudo o que lhe falta em sua for-
mundo arquetípico. No final, quando todos os limites se dissol- ma original e pura.
vem, podemos vivenciar a nós mesmos como o princípio último Às vezes as pessoas mencionam a monotonia, mas na verdade
- seja qual for o nome que queiramos usar para ele. Mas isso pa- é um estado fantástico de se estar, mas é sempre o mesmo. Ele entra
rece ser essa incrível fonte de luz que também é dotada de cons- no processo de criação como uma espécie de plano divino, ou para
ciência, com uma inteligência criativa incrível que simplesmente diversão própria - aquilo que os hindus chamam de Lila. Esses são
parece existir. os vários "motivos" para a criação que podemos vivenciar quando
Assim, esta questão na verdade está invertida e deveria ser nos transformamos naquele princípio. Mas não se trata da pergunta
elaborada do seguinte modo: por que existem formas no mundo, e "qual é a função da consciência"? É simplesmente um aspecto pri-
mário da existência.
não por que a consciência está no mundo. Em outras palavras, por
que a consciência absoluta escolheu entrar no processo de cria- Mas por que há mais do que isso, por que a criação é necessária?
ção. Escrevi sobre isso bastante no Cosmic Game, que é o último Ela é muito importante porque em muitos sistemas espirituais nos
livro que escrevi. Quando as pessoas têm essa experiência, por- dizem que aqui é o nível do lixo; que aqui é o vale de lágrimas, é o
que podemos nos identificar com aquele princípio, não apenas o atoleiro de morte e renascimento e queremos sair daqui. Queremos
encontramos, na verdade, podemos nos dissolver nele. Podemos entrar no Nirvana. O termo original Nirvana em Ayana é relacionado
nos transformar nele e depois obter insights sobre a criação, e por- com o vento, é evanescência. Algo assim como soprar as tochas da
que ela ocorre. vida e ir na direção da não-existência. Mas, mais tarde no Vahayana,
Assim, as várias dimensões não se diferenciam e têm enorme isso se toma a eliminação da raiva, dos apegos e da ignorância.
potencial. Ele está consciente de seu potencial imenso e quer co- Em muitos sistemas religiosos a idéia é que aqui é o nível baixo
nhecer a si mesmo. Encontramos isso na Kabala. Uma das razões e queremos de volta a união com o divino, e assim por diante. Mas
para a criação é que o rosto queria ver o rosto, ou Deus queria ver quando finalmente temos aquela experiência, há um problema por-
Deus. O princípio só pode descobrir seu próprio potencial exterio- que compreendemos que ela não é apenas o objetivo da viagem es-
rizando-o. Transformando-se nas várias coisas em que pode se piritual. É também a fonte da criação. Por isso, se aquele estado,
transformar. por si só, fosse pleno, e completo e satisfatório, a criação não esta-
ria lá. Esses níveis fenomenais não estariam lá. Portanto uma inte-
Outro princípio mencionado com freqüência é essa enorme
abundância transbordando em criatividade, e não sendo capaz de gração realmente boa de todas essas experiências no final seria tra-
contê-Ia. Necessitando distribuí-Ia da mesma maneira que artistas, zê-Ia de volta aqui e validar este nível e transformar nossa estada
no nosso nível, estão como que grávidos da criação. Outra coisa aqui, para que consigamos o melhor de ambos os mundos. De um
que ouvi é que esse princípio compreende que está sozinho. Ele certo modo, temos experiências de seja lá o que for que este nível
tem uma necessidade incrível de dar e receber amor. Acredita-se tem a oferecer. Este é o único nível onde podemos nos apaixonar,
que isso flui através da criação de uma forma disfarçada. ou fazer amor, ou ter filhos, ou comer bouillabaisse, ou praticar
mergulho, ou escalar montanhas, etc.
Outra coisa que ouvimos é que, de alguma forma, esse princí-
pio deseja ardentemente tomar-se aquilo que não é e ter aquilo que Mas se acreditarmos completamente que não somos nada mais
não tem. Ele é etéreo, é espiritual, é eterno, é infinito, então deseja do que "egos encapsulados pela pele" indo da concepção à morte,
algo tangível, algo concreto. Há uma imagem muito interessante então haverá sofrimento e dor envolvidos. Por isso parece impor-
no códice asteca que mostra Quetzacotl como espírito, a serpente tante complementar essa vida, essa existência cotidiana com al-
emplumada, dançando uma dança de cortesia que simboliza a ma- gum tipo de auto-exploração sistemática, onde tomamos consciên-

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cia dessas outras dimensões, e também de nossa verdadeira identi- Quando nos voltamos para a fisica quântica, é claro, isso não
dade, que é o próprio princípio criativo, e de lá voltar e abraçar seja existe, como já lhes expliquei, aquele problema se modifica, mas
lá o que for que esteja disponível aqui. fiquemos com os materialistas por um momento. Para o materialis-
ta a posição essencial que o Stan, por exemplo, esclareceu de uma
maneira tão maravilhosamente otimista, não faz sentido. Para o
Benny Shanon: A propósito, o auto conhecimento é aquele materialista, essa posição a que você chega, um estado perfeito, o
dado por Jung em Resposta a Já - Porque Deus criou o homem. estado de perfeição sobre o qual Stan falou, o estado que os místi-
cos do mundo dizem ter obtido. Isso não tem sentido porque esses
Amit Goswami: Stan abordou maravilhosamente algumas são estados de ordem perfeita, onde a felicidade existe em sua per-
das coisas que eu ia dizer; talvez eu possa ilustrar um pequeno ar- feição. O mundo newtoniano é um mundo tanto de caos como de
gumento. Como eu fui um cientista materialista por muito tempo, ordem. Ordem e caos existem juntos. Há movimentos aleatórios,
conheço essa questão muito bem. Qual é a utilidade da consciên- sistemas caóticos e ao mesmo tempo há sistemas como o das estre-
cia, qual é a função da consciência? Porque, para o materialista, o las que se movimentam de uma maneira bastante metódica, os pla-
problema é muito dificil. Se a fisica newtoniana estava correta, en- netas que giram ao redor do sol em um movimento bastante metó-
tão, como argumentou Henry Stapp muito, muito bem, eu não pos- dico. Portanto, há ordem, mas também há desordem e essa é a natu-
so destruir seus argumentos tão bem quanto ele, mas não é real- reza do mundo.
mente necessário dar a esse ponto uma discussão completa. Pode- Não podemos ter felicidade perfeita, e com isso voltamos outra
mos mostrar com bastante rigor que na fisica newtoniana a cons- vez a salientar para os materialistas que, olhem, se vocês medita-
ciência só pode existir como um epifenômeno do cérebro, um efei- rem, vocês podem se transformar e descobrir diretamente a ques-
to secundário dos processos dinâmicos no cérebro. Algum tipo de tão que Rupert acabou de enfatizar: vocês podem descobrir direta-
efeito de emergência. Todos eles querem dizer a mesma coisa. A mente que têm escolha. Com efeito, uma definição da ioga que
consciência não é um agente causal, não causalmente potencial. achamos muito consoante com a fisica quântica é que a ioga é
Sua causa emerge das interações de partículas elementares em al- aquela prática que lhe dá a escolha de volta. Não preciso fazer isso.
gum nível, algum nível material, talvez holístico, mas ainda assim
Posso fazer outra coisa. Essa escolha é o primeiro passo da viagem
a consciência não é um agente causal por si mesma. Se você aceitar
transformadora. Quando nos transformamos, descobrimos que po-
isso, se a consciência é um epifenômeno, a única alternativa é o du-
demos ficar mais felizes do que éramos antes. Uma vez que nos
alismo, mas nós já descartamos o dualismo por um bom motivo.
transformamos encontramos ... ouvimos uma linda palestra ontem
Portanto, vamos ficar com esse mesmo. Então, que filosofia pode-
por Krishnamurti quando ele falou sobre emoções positivas e sobre
mos adotar que seja bem conhecida? Todo o mundo já ouviu falar
como passar das emoções negativas para positivas.
do pós-modernismo, do desespero, do existencialismo, todas essas
idéias vêm da simples sensação de que se tudo é newtoniano, se as Psicólogos, psiquiatras estão descobrindo isso à medida que
interações materiais são tudo o que existe, então nunca há nada que usam a terapia da ioga. Descobrem que podem dar a seus pacientes
se origine da consciência. A consciência não serve para nada. uma prática que realmente introduz mais e mais felicidade em suas
Então tudo o que podemos dizer é, uma vez mais, algo assim vago, vidas. Podemos escolher felicidade de uma forma metodológica se
algo do tipo a consciência tem valor para a sobrevivência. Essa é olharmos a vida de uma maneira consciente. Então o melhor tipo
uma resposta que alguns biólogos tentam dar. A razão para o deses- de resposta para os materialistas e essa pergunta só interessa real-
pero de pensar qual o valor da consciência, ou qual é a função da mente aos materialistas, é a questão levantada por eles, e a resposta
consciência, e que nós trouxemos para dentro da filosofia newto- também deve ser para eles: olha aqui, meus caros, enquanto vocês
niana aquele determinismo de ter um sistema fechado, que nos dá se recusarem a meditar, enquanto vocês se recusarem a entrar em
uma resposta direta algorítmica para tudo. programas específicos para serem mais conscientes, enquanto vo-

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cês ficarem nessa posição de separação do ego, então não há espe- a ação. Eu acho uma coisa incrível que normalmente nós olhemos a
rança de que possam sair desse desespero. Então, para vocês, não percepção como algo que pertence ao mundo externo. Eu vejo as
haverá função para a consciência. Vocês estão vivendo como zum- pessoas aqui, vejo meus colegas, mas nós também temos essa ca-
bis e estão contentes assim. Daniel Dennett, em uma conferência, pacidade surpreendente de perceber o que está ocorrendo em nos-
concordou que ele está feliz como zumbi. Portanto, não tenho nada sos próprios sistemas, de estar conscientes de nós mesmos. Acho
a dizer a Daniel Dennett. Mas há alguns entre nós que reconhecem que há muitos aspectos da consciência e esse é um deles. Portanto,
que a felicidade é muito mais interessante do que o tédio. A meu eu gostaria de introduzir uma pergunta. Antes de passarmos para a
ver, é realmente absurdo que as pessoas possam escolher infelici- próxima pergunta. Uma noção que Rupert mencionou em seu co-
dade se sabem que há felicidade. mentário anterior sobre a noção de autoconsciência. Gostaria de
Então, o que temos que fazer é botar vendas em pessoas como saber se as pessoas querem falar alguma coisa sobre isso.
Daniel Dennett e deixá-Ios fazer os exercícios respiratórios que
Stan faz, e deixá-Ios mergulhar na felicidade inconscientemente, 3. Comentários sobre autoconsciência
para que eles entendam o porquê da consciência e qual é a função
da consciência. É nos trazer a totalidade para que possamos usufru-
Karl Pribram. Não sei se posso, tenho algo a dizer, mas não
ir a separação - o jogo de uma maneira mais completa. Se estiver-
sei se vai sair. É melhor que eu fique consciente (Shanon: "Medite
mos gostando do jogo na separação, o prazer se torna ... o prazer se
primeiro"). Está certo. Há uma coisa que você disse, Benny, com
multiplica na proporção de dez ao quadrado. Ou seja, cem vezes a qual não concordo. Começarei daÍ. Se realmente entendermos o
mais, mil vezes mais. Realmente vai nessa proporção. Estamos
processamento da informação no sentido gaboriano ou shanno-
perdendo tudo isso. Há algo que um materialista não pode compre-
niano, a informação é a redução da incerteza e a definição do pen-
ender. Se você disser que está perdendo toda essa alegria eu acho
samento é redução ativa da incerteza. Portanto, realmente muito
que essa é nossa maior janela, nossa maior oportunidade de entrar
próxima à idéia de Rupert sobre escolha, quando estamos falando
em seu coração, de convencê-Ios a praticar alguma coisa ou pelo
de uma maneira sofisticada sobre o processamento da informa-
menos a ler mecânica quântica.
ção, não da maneira normal. Por isso eu acho que eu gostaria de
discordar. Eu fui criticado por ainda estar preso à maneira de pen-
Benny Shanon: Eu quero me referir a seu comentário sobre o sar sobre como o cérebro funciona que vem da área de processa-
fato de que a consciência para o materialista é epifenomenal. Isso mento de informação. Mas de uma maneira sofisticada, a coisa não
é assim tão diferente.
ocorre também com a pessoa na área da informação. Se a mente, o
sistema cognitivo é apenas um processador de informação, não Ora, se é a redução de incerteza o que temos aqui realmente - e
precisamos da consciência. Vindo dessa tradição, eu me pergunto aqui tenho que discordar de Amit e do que ele disse. Não conhece-
por que necessitamos ... não em um nível ontológico, já que é pro- mos nenhum mecanismo cerebral que funcione como um grava-
vavelmente inevitável pensar sobre isso, mas apesar disso como dor. Ele tinha dois mecanismos cerebrais: um que funciona como
sistemas cognitivos, por que necessitamos da consciência? Se ela um gravador e o outro que é muito mais quântico. Bem, o gravador
existe, provavelmente precisamos dela. Acho que o que a existên- está fora. Não há nada que eu tenha jamais encontrado em minha
cia de experiências subjetivas nos mostram é que nós não somos pesquisa sobre o cérebro, ou lido em algum lugar que chegue perto
máquinas processadoras de informação, como a maioria dos psicó- de parecer com um gravador - o que, é claro, se encaixa com a tese
logos pensam hoje, mas sim somos seres que vivenciam. Sabemos de Amit de que o cérebro é parte desse processamento quântico.
pela experiência, e a experiência na psicologia tem dois aspectos. Ora, se é isso que ocorre, ainda temos o problema de que estamos
Um é percepção, e o outro é aquilo que você mencionou, Rupert - é reduzindo incerteza, em outras palavras, algum tipo de apresenta-

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ção de escolhas possíveis. Espero, Rupert, que eu esteja dizendo grupo social e está localizada na consciência do grupo e porque
isso de maneira adequada e nós provavelmente vamos ter re-repre- cada um de nós pertence a um número de grupos diferentes. Nós
sentações daquilo. E são nas re-representações que nós começa- somos parte deste grupo, desta conferência agora. Quando formos
mos a dizer: "Oh, eu tenho todas essas escolhas" e "Eu", o se/f, para casa seremos parte dos nossos grupos familiares e quando es-
pode fazer essas escolhas. Portanto nós temos várias hierarquias tivermos em nossos locais de trabalho seremos parte de outros gru-
aqui de re-representação e re-representação e elas são dois aspec- pos. Pertencemos a muitos grupos diferentes e em cada um desses
tos do selfmuito diferentes. Eu os chamo de o "mim" e o "Eu". O grupos temos um papel social diferente ou uma persona social.
"mim" é manipulado pela parte traseira do cérebro e é basicamente o Cada um desses grupos, a meu ver, tem uma espécie de campo
eu corpo, o eu corpóreo. Não perderei tempo agora dando um exem- módico. É um campo grupal que está acima do indivíduo dentro do
plo, mas amanhã lhes falarei sobre a evidência para isso que estou grupo. Assim, em cada um desses grupos temos um papel e uma re-
dizendo, histórias de casos etc. A outra parte, o "Eu", é a parte frontal lação com os demais. Quando passamos de um desses planos so-
e límbica do cérebro dianteiro onde nós construímos narrativas. Na ciais para outro, acho, então, que temos visões de nós mesmos nes-
narrativa Eu, você sabe onde estava dez anos atrás, não sabe? Há ses grupos diferentes e isso nos dá uma espécie de autoconsciência,
uma história pessoal que nós elaboramos sobre nós mesmos, uma uma consciência de nosso self em um contexto diferente.
narrativa "Eu". Esses dois aspectos do cérebro são totalmente passí- Inevitavelmente, passamos de um grupo para outro e acho que
veis de dissociação. Você pode ter um e não ter o outro; pode ter o parte de nossa autoconsciência surge dessa maneira. Possivel-
outro e não o primeiro. Como eu disse, falarei sobre eles amanhã.
mente, no entanto, a autoconsciência depende da existência de um
Mas enquanto estou com o microfone, quero dizer que a pales- grande número de planos sociais referenciais. Talvez as sociedades
tra do Amit hoje foi uma introdução quase perfeita para minha pa- animais que são mais simples que as nossas tenham menos capaci-
lestra de amanhã de manhã. A única correção que farei é que meu dade para esse tipo de papel em grupos múltiplos. Em uma socieda-
livro foi publicado em 1991, e ele disse que essas coisas não acon- de de chimpanzés, há uma espécie de subgrupos; mas em uma col-
teciam até a década de 1990. Todos os dados que coletamos no fim méia grupos diferentes de abelhas executam tarefas diferentes.
da década de 1960 e nas décadas de 1970 e 1980 realmente modifi- Mas nenhum deles tem referências grupais múltiplas que se imbri-
caram a hipótese holográfica e fizeram dela aquilo que eu cha- cam como fazem as nossas. Procuraria parte de nossa autocons-
mo de holonômica ou é agora muitas vezes chamado de holografia ciência, aliás, muito dela, nesses papéis múltiplos que desempe-
quântica. Tem havido um grande impulso naquela direção a partir nhamos em grupos diferentes, e grupos sociais, mais do que no tipo
dos dados que coletamos. Não exatamente teoria no sentido de de coisa a que me referi anteriormente.
mera especulação, mas os dados empurraram as coisas naquela di- Quando os filósofos começam a falar sobre autoconsciência é
reção. É sobre isso que eu irei falar amanhã e tentarei tomá-Io rele- em um nível totalmente abstrato. É nesses casos que eu acho muito
vante para vocês, é claro.
dificil acompanhar os argumentos e começo a cochilar. Mas quan-
do eu a vejo no contexto de muitos grupos, e muitos termos de re-
Rupert Sheldrake: Bem, existem obviamente vários tipos de ferência, e os papéis diferentes que desempenhamos neles, e as
autoconsciência. Quero dizer um tipo a que as pessoas normalmen- muitas personalidades que cada um de nós tem, porque, realmen-
te, nós temos esses contextos sociais diferentes, nos quais nós
te se referem na linguagem cotidiana quando sentem que todo o
mupdo está olhando para elas. Elas enrubescem e ficam envergo- operamos, inclusive contextos de nós mesmos, intemalizados.
nhadas ou constrangi das. Esse tipo de autoconsciência, acho, ba- Quando estou escrevendo um livro, quando estou lendo um livro,
seia-se em um reflexo da consciência do grupo. Acho que grande há uma espécie de comunidade social de pessoas envolvidas até
parte de nossa consciência tem que ver com nossas relações com o mesmo nessas atividades porque pensamos nos leitores poten-
ciais, pensamos sobre outras pessoas que já leram o livro. Exis-
tem ainda comunidades mais abstratas ou virtuais. Mas eu procura- feio. Ele disse que nós todos éramos esses seres etéreos flutuando
ria grande parte da resposta para a pergunta sobre autoconsciência no ar e absorvendo a energia do sol e olharíamos para a direita e lá
nesses muitos papéis e referências. está o grande cânion, e à nossa frente o pôr-do-sol sobre o Pacífico
e há auroras boreais e olhamos para cima e lá estão as estrelas, e a
música de Beethoven está tocando, e há esculturas de Michelange-
Stanislav Grof: Eu abordarei o assunto de um ângulo diferen- 10 a nossa volta. Seria por demais óbvio se isso fosse uma esfera di-
te, elaborando sobre aquilo que já foi dito antes. Uma pergunta vina. Então estávamos em Baltimore que é uma cidade muito feia e
muito interessante emerge nas pessoas que têm alguns estados não ele disse, olha só o que acontece. Olha esses quilômetros de casas
ordinários muito poderosos, particularmente experiências de sua feias, vermelhas e pretas e as pessoas que vivem vidas ordinárias.
própria divindade. Se isso é verdade, que nossa identidade é conec- Todas essas funções físicas, arrotando, vomitando, soltando gases,
tada com tudo que existe, nós somos uma espécie de campo total de os lavatórios com grafite, os lixões, etc. A perfeição divina é dada
existência. Por que optamos por isso? Em outras palavras, o que só em pequenas doses aqui e ali para que, em sua totalidade, seja
Alan Watts chamou de tabu contra saber quem somos. Que nos verossímil que isso é apenas uma realidade comum.
identificamos com aquilo que é chamado de Namarupa em sâns-
crito que é o nome e a forma. Se somos esse incrível e infinito ser, Uma das tarefas principais na viagem espiritual é ser capaz de
todos nós, no final das contas, então, é uma coisa misteriosa. Por descobrir o divino naquilo que há de mais baixo, no mais comum. É
que nós extraímos com tanto esforço, um certo aspecto desse teci- muito fácil e rápido vê-lo no eclipse solar. A outra coisa que ele dis-
do da existência espacialmente, limitando-o ao corpo e depois his- se que também está embutida no jogo cósmico - são rotas de escape
toricamente a nossas memórias desse momento específico da vida, onde podemos sentir a dissolução dos limites. Vivenciamos a nós
chamando apenas uma vida de nossa vida, em vez de estar em co- mesmos como outras pessoas, como animais e seres arquetípicos e
nexão com todas as vidas. podemos voltar para nossa verdadeira identidade. Mas essas rotas de
escape não são fáceis. As pessoas que tinham experiências místicas
A melhor resposta que já ouvi foi de um homem em Baltimore na Idade Média tiveram que enfrentar a Inquisição, muitas delas fo-
com quem eu estava trabalhando que, de alguma forma, considera- ram torturadas, mortas, queimadas. Hoje temos comas de insulina,
va a existência como Li/a - como ojogo divino. Ele estava pergun- choques elétricos e diagnósticos. Quando surgiram os psicodélicos,
tando por que seria que nós optamos por essa vida, e ele disse bem, eram um meio relativamente fácil de olhar esse jogo cósmico, antes
posso ver que o princípio criativo se prende na armadilha de sua de sabermos que havia uma ameaça de dano cromossomial, e de se
própria perfeição. Se a tarefa do processo criativo é criar uma có- questionar a qualidade da substância que passou a ser ilegal e a ser
pia verossímil do mundo material onde há entidades separadas e utilizada de uma maneira descuidada e irresponsável. Desse modo
um mundo que tem características newtonianas, quanto melhor isso apenas faz o enredo mais interessante, não oferece uma saída
isso for feito, tão mais verossímil ele será. Se vamos ver um filme muito fácil. Assim, ele viu tudo isso, mais ou menos entre a perfei-
bem feito, ficamos presos nele e temos uma reação muito forte ção com a qual o jogo divino é executado, e as dificuldades associ-
a ele. Já vi pessoas que tiveram que sair correndo do cinema ou adas com essas diferentes rotas de escape que nos prendem na
iriam começar a vomitar, em filmes como o Exorcista, e outros crença de que somos apenas egos encapsulados na pele. Não é im-
mais. Portanto, se alguma coisa é realmente bem feita ela se apro- possível nos libertarmos disso, mas tampouco é fácil.
xima da realidade. A idéia seria que esse jogo cósmico é executado
com tal perfeição que as unidades divididas da consciência ficam
presas nele. Que ele se torna totalmente verossímil. O homem disse Karl Pribram: Posso dar uma palavra aqui, algo que venho
que ele achava que uma invenção particularmente engenhosa desse querendo dizer sobre Stan. Todos vocês sabem que ele vem da Re-
jogo no plano cósmico era a introdução do trivial, do banal e do pública Tcheca e tem um temperamento eslovaco que combina

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com esse mundo totalmente depressivo em que ele vive. Eu vi isso mos felizes. Portanto a solidão é a pior infelicidade, a solidão, a se-
com freqüência em Praga, à medida que as pessoas vão ficando
paração. Em outras palavras, a totalidade desaparece completa-
mais velhas ficam cada vez mais assim. Por isso eu só queria dizer mente e eu sou identificado completamente em minha individuali-
que Einstein tinha uma visão um pouco diferente, achando que a dade - isso é solidão. Essa é a separação máxima. Portanto há a se-
ciência tinha beleza, buscando as equações belas, e tudo o mais. paração e há a totalidade que é única. Essa é a única consciência
Existem outros temperamentos. Não temos que nos afundar tão que é a unidade, e depois há essa jornada da qual já falamos. Se
profundamente no lixo e no esgoto. você definir essa jornada como umajornada criativa então fica cla-
ro - porque os dois. Por causa da natureza da criatividade. A criati-
Amit Goswami: Talvez eu possa dar uma perspectiva integra- vidade - Rollo May expressou isso maravilhosamente - é um en-
dora de tudo isso. Antes de tudo, a autoconsciência, como expli- contro, um encontro entre o ego e aquilo que eu chamo de self
quei anteriormente parece realmente surgir da memória cerebral quântico e que as tradições chamam de Atman, espírito santo, self
mas essa não precisa ser necessariamente a memória gravada de transpessoal, consciência cósmica, seja lá como for que nos ex-
Karl. Poderia também ser a memória holográfica. Tomemos, por pressemos. Mas esse selfinterior, esse selfmaior, esse selfgrupal,
exemplo, a memória clássica; ela é clássica, essa é a questão. De- esse self que une e o ego do indivíduo, ambos são essenciais no
pois há esse condicionamento que é nossa modificação da probabi- jogo criativo. Ora, por que ambos são essenciais?
lidade que é explicitamente quântica. Você está totalmente certo O self quântico, o único, traz alegria, trás a capacidade para a
quando diz que ainda não sabemos os mecanismos de tudo isso de- liberdade de escolha para que possamos escolher o novo, para que
talhadamente; temos apenas o mecanismo básico. Em termos das possamos criar o novo, que é o jogo. O jogo, vocês se lembram da-
modificações da mecânica quântica, podemos provar apenas o quilo que Stan disse antes, é buscar a consciência, é vê-Ia separada
caso básico. Ninguém sabe a equação de Schrodinger do cérebro; e de si mesma em manifestação, não em possibilidade. Se a cons-
nenhum detalhe é conhecido no momento. Mas isso é apenas um ciência se satisfizesse com possibilidade, as possibilidades nunca
aparte. Portanto a autoconsciência é produzida por dois tipos de se manifestariam e a dinâmica quântica não seria necessária. Mas o
condições, a história e, é claro, os padrões habituais das condições mundo foi construído dessa maneira porque a consciência quer se
quânticas. Portanto, isso é fácil. ver separada de si mesma. Mas quão separada, essa é a questão que
está em debate. Obviamente, se ela está totalmente separada, nós
Duas perguntas são interessantes. Uma é esse agrupamento
que Rupert está mencionando, não-local e coletivo, isso também é não podemos criar nada. Nesse caso estamos solitários e não pode-
interessante. A consciência por definição, acho que é uma coisa mos criar, então temos que estar menos separados do que isso. Te-
que surgiu desta conferência desde o começo. Rupert deu o tom. A mos que ter alguma liberdade. Alguns experimentos realizados por
Benjamin Libet mostraram que nós retemos alguma liberdade; e
consciência é maior que o indivíduo. Portanto há esse aspecto
essa liberdade é a liberdade elementar da capacidade de dizer não
não-local, claramente. Portanto é ao aspecto não-local que quere-
mos ganhar mais acesso. E aí é que está a alegria, é aí onde está o vi- ao condicionamento. Isso é o que começamos a discernir quando
fazemos ioga. Discernimos muito rapidamente que temos a capaci-
ver, é aí que está a comunidade, é aí que a consciência está - porque
o prefixo com, como vocês sabem, é mesmo "com" - de comuni- dade de dizer não e ponto final.
dade, é a mesma raiz etimológica. Isso é que é gozado. Carl Rogers costumava dizer que tudo que podemos fazer para
ter criatividade é ter uma mente aberta. É tudo o que podemos fa-
A individualidade não é divertida e a prova disso é que os psi-
zer. O indivíduo está imobilizado. A pessoa limitada realmente não
cólogos estão notando cada vez mais que as pessoas estão infelizes
porque estão solitárias. Quando a solidão acaba, deixamos de estar tem mais nada a fazer. Nós chamamos de criatividade os próxi-
infelizes. É dificil estar infeliz quando não estamos sozinhos - fica- mos estágios do processamento consciente, enquanto não fazemos
nada. Portanto a criatividade, dizemos, é como o jingle de Frank
Sinatra, do be do be do. Vocêfaz e é alternativamente. Quando isso cia, não sinto falta da necessidade de ser sempre melhor que os ou-
ocorre, então reconhecemos que, quando nos alternamos dessa for- tros, não sinto falta da competição. Realmente vivo em meu mundo
ma, já estamos criando o encontro, porque aofazer nós estamos no com harmonia e felicidade; e realmente funciona. Não temos que
ego e no indivíduo e no separado. Sendo, somos um; somos uniti- sentir o cheiro do lixo. Isso é o que os místicos como Shaurabinda es-
vos, não somos separados. Portanto, se reconhecemos essa dinâmi- tão mostrando. O próximo estágio da evolução humana provavel-
ca fundamental da criatividade, começamos a ver porque ambos mente não terá todo esse trabalho que Carl Jung identificou como
são necessários. O ego nos dá o ponto de referência. O ego nos dá a "arte da sombra", os arquétipos maus, como são chamados. Nós os
capacidade algorítmica, o ego nos dá a capacidade de raciocinar, o transcenderemos; em outras palavras, já fizemos o trabalho que era
ego nos dá a capacidade de nos manifestar, de aparecer, e a auto- necessário para poder ficar sem eles. Depois iremos para o próximo
consciência quântica a capacidade de saltar - um salto quântico, a nÍvel- e acredite em mim - a criatividade ainda existe. A criativida-
capacidade de ter a liberdade de escolha completa. Isso é que faz de existe mesmo sem o desespero. Não precisamos ser existencialis-
com que este lugar seja tão interessante. tas para escrever bons romances e boa poesia. É verdade, a criação
Agora, a outra questão, realmente é muito importante reconhe- também pode surgir da felicidade. Não precisamos da infelicidade
cer, e não quero atacar sua história desenvolvimentista necessaria- para viver no mundo. Portanto, essa é minha visão da evolução hu-
mente, mas acho que não é necessário levar esse homem de Balti- mana. Estamos indo na direção de mais e mais felicidade.
more muito a sério, porque minha própria experiência me diz o
contrário. Em 1973 eu era um fisico, tinha que ir a conferências de Stanislav Grof: Vejo que vocês não entenderam muito bem o
fisica e elas eram extremamente competitivas. Lembro que fui a exemplo do homem de Baltimore. Longe de mim recomendar que
uma conferência em 1973, em um lugar muito bonito chamado nós devêssemos ter um mundo como aquele; mas o fato é que o te-
Asilomar. É provável que muitos de vocês já tenham ido aos Esta- mos. Por um lado, ele contribui, de alguma maneira, para a possibili-
dos Unidos e conheçam esse lugar maravilhoso na Califórnia, per- dade de ver nada mais que o mundo material, e o fato de que estamos
to do mar. É lindo. E o dia inteiro, o que é que eu tentava fazer? Eu alienados da dimensão espiritual também contribui para fazer o
tentava jogar o jogo que na América chama-se de one up man ship, mundo assim. O que quero dizer é que se estivéssemos conscientes
ou seja, de como ser melhor que os outros. Não sei se vocês jogam de nossa divindade e da divindade de tudo, provavelmente limparía-
esse jogo em Portugal, mas provavelmente vocês conhecem pes- mos o meio ambiente. Construiríamos casas melhores. Teríamos
soas que jogam. Portanto eu jogava esse jogo o dia todo, cheio de muita conexão com a natureza e assim por diante. Portanto, eu vejo
inveja, muito insatisfeito e muito separado. Muito separado e mui- que há um círculo vicioso. Não é uma recomendação que é necessá-
to infeliz. Então, de noite, lá pela uma hora da manhã, eu tinha be- ria. (Pribram: Eu expliquei justamente isso.) Eu sei, mas certamente
bido bastante e ainda estava me sentindo sozinho e muito separado. espero que à medida que fiquemos mais conscientes, uma das coi-
Então saí. A brisa do mar vinha na minha direção, olhei o céu, e de
sas que faremos será transformar o ambiente em que vivemos.
repente uma pergunta gigantesca surgiu, do fundo do meu coração.
E a pergunta era: por que vivo assim? Por que vivo assim? E essa
pergunta mudou minha vida. Benny Shanon: Antes de chegarmos à última pergunta - mui-
O que eu descobri após uma investigação que envolveu ioga, to rápida - eu queria fazer dois comentários sobre o que Stan e Ru-
meditação, fisica quântica e muita coisa do tipo nova era ocidental, pert disseram. A descrição do filme me fez lembrar de uma passa-
foi que tudo isso junto eventualmente começou a me conduzir para gem no Upanishad, que, realmente, essa existência inteira é sonho
estados de consciência cada vez mais felizes. Então minha própria do divino. À medida que o sonho ia progredindo ficava tão maravi-
experiência foi que esses estados de consciência mais felizes, do lhoso que o divino começou a acreditar que era tudo verdade. E
ser mais feliz são realmente mais felizes. Não sinto falta da violên- portanto é verdade.

292 293
E para Rupert existem realmente alguns psicólogos que afir- Karl Pribram: A resposta a sua pergunta é fazê-Io através do
mam que a consciência, a autoconsciência, ou a minha consciência estudo do cérebro.
de mim mesmo é dependente da minha consciência do outro. Pri-
meiro há a consciência do outro, depois há a autoconsciência. A
Stanislav Grof: Na verdade, vários alunos, ou pessoas de um
pessoa que mais elaborou sobre esse tema foi um psicólogo sovié-
modo geral, que querem estudar a consciência vêm me procurar.
tico, Vygotsky; mas existem outros psicólogos desenvolvimentis-
Tenho que dizer algo diferente. Tenho que dizer que no tipo de tra-
tas que se aprofundaram nesse assunto.
balho que estou fazendo, na psiquiatria, na verdade estou usando
A última pergunta - com ela terminamos - exige apenas uma muito pouco dos meus estudos de medicina, muito pouco dos meus
breve resposta de cada participante. Se você tivesse um bom aluno, estudos de psiquiatria. Estou usando muito mais o que aprendi na
um bom aluno de graduação que viesse até você e perguntasse: psicologia junguiana. E acho, por exemplo, a mitologia e a com-
Estou interessado em consciência, qual seria o melhor assunto ou preensão dos arquétipos muito mais útil do que qualquer coisa que
os melhores assuntos para eu estudar no momento? Então, apenas aprendi na faculdade de medicina. Quando sabemos que estamos
uma volta rápida ao redor da mesa e terminaremos com esse tema. trabalhando com pessoas que são razoavelmente saudáveis, então,
Karl, por favor. no processo seguinte vejo muito pouca medicina e certamente não
muita psiquiatria no sentido tradicional da palavra.
Já fiz isso com algumas pessoas. Temos escolas transpessoais.
4. Conselhos sobre boas questões acerca da consciência Temos várias escolas na Califórnia onde você pode conseguir um
mestrado ou um doutorado em psicologia transpessoal. Portanto,
Karl Pribram: Estude bioquímica. pode-se estudar bem especificamente esse tipo de disciplina.

Rupert Sheldrake: Bem, eu lhe daria um livro inteiro de sete Benny Shanon: Terminamos com um homem feliz.
experimentos e ainda tenho mais. Precisaria muitos universitários.
Acho que há uma série de assuntos que podemos abordar de uma
forma bastante prática como eu estava tentando explicar ontem e Amit Goswami: Bom, do ponto de vista da felicidade, a única
todos eles no final das contas estão destinados a nos dar uma maior coisa que pode ser dita é o conselho que já dou a meus alunos. Te-
compreensão da consciência. nho me esforçado bastante, e espero que todos vocês possam, junto
comigo, estabelecer um programa de estudos da consciência no
mundo inteiro que vá investigar as várias avenidas dos estudos da
Benny Shanon: Eu sou o próximo. Eu diria: 1) não estude o consciência. Essa conferência está ficando bem clara, mas é muito
cérebro, mas 2) estude aquilo que chamo de coreografia da cons- clara se a pessoa tiver uma mente aberta e quiser investigar a cons-
ciência, como Amit disse em seu último comentário. O movimento ciência, a consciência que tem muitas dimensões diferentes. Di-
entre consciência e autoconsciência e de volta à consciência é mui- mensões da psique, dimensões que já discutimos, é claro, a parte fi-
to sutil. A separação e o retorno, mesmo em estados normais da sica, o cérebro, neurofisiologia, o aspecto do contentamento e tam-
consciência. A experiência pode ser, por um lado, muito, muito in- bém da totalidade.
tensa e, por outro, muito sutil. E como você navega entre todos es- E como fazemos isso? Combinando temas acadêmicos, com-
ses territórios diferentes da consciência. Acho que primeiro é uma binando ciências "duras" como a biologia, a neurofisiologia e a fi-
dança maravilhosa, e segundo, é uma questão científica muito boa. sica quântica. Mas também combinando isso tudo com o estudo do
corpo vital, das energias vitais, combinadas com o estudo da criati-

294 295
vidade mental e intelectual, combinadas com o estudo da psicolo-
gia transpessoal. Porque é lá que podemos estudar os meios essen-
ciais para acabar com essa separação entre o ego e o self quântico.
Na cura da mente e do corpo, as energias vitais tomam-se impor-
tantes uma vez mais. Portanto todos esses componentes têm que "
ser incluídos, mas eles também precisam ser suplementados, com- Indice
plementados com a verdadeira prática. Porque os estudos da cons-
ciência sem a transformação do que a estuda, como já examinamos
aqui repetidamente, realmente não têm muito sentido.

Sumário, 5

Apresentação - Ciência e consciência na Era da Informação


(Francisco Di Biase), 7

Parte I - Neurobiologia, 11
1. O primado da experiência consciente (Karl H. Pribram), 13
Resumo, 13
1. Uma história sinótica da dualidade mente/cérebro, 13
2. Entra a ciência do cérebro, 14
3. O Hard Problem (problema dificil), 16
4. A dualidade na experiência subjetiva, 17
Referências bibliográficas, 23

Parte II - Filosofia da mente, 25


2. Consciência, uma definição radical: o dualismo da
substância soluciona o Hard Problem (Richard L.
Amoroso), 27
Resumo, 27
Introdução, 28
1. Os problemas da ciência, 31
2. O dualismo da substância - Interacionismo, 33
3. O enigma da atual nomenclatura, 35
4. A complementaridade da consciência, 35

296 297
5. Inteligência elementar, 38 4. As ordens implícita e explícita, 80

6. A consciência é um princípio universal, 40 5. Outras implicações, 82


6. Simetria, 83
7. A consciência tem qualidades substantivas, 41
8. A sutileza do cérebro, 42 7. Características universais, 85

9. Um modelo para reflexão, 44 8. Onipresença, 88

Conclusão, 46 9. Transcendência e imanência, 89


10. Significado e consciência, 93
Referências bibliográficas, 47
11. Uma ciência da simetria, 98
3. Princípios fundamentais gerais na Filosofia da Ciência
(Mihai Drãgãnescu e Menas Kafatos), 50 Referências bibliográficas, 100
Resumo, 50 5. A ciência na consciência: um novo paralelismo
quântico-psicofisico (Amit Goswami), 101
Introdução, 50
Resumo, 101
1. Princípios fundamentais e teorias fisicas, 52
Introdução, 101
2. Princípios relacionados com a existência total, 54
1. A nova biologia, 105
2.1. Complementaridade, 55
2. A nova biologia e a compreensão dos chacras, 107
2.2. A natureza da existência, 56
3. A Psicologia das Emoções, 107
2.3. Leis semânticas e as tendências do vir a ser, 58
4. A integração das medicinas oriental e ocidental, 111
2.4. Auto-organização, 59
Referências bibliográficas, 112
2.5. A consciência fundamental da existência, 63
3. A natureza da realidade subjacente profunda, 65 Parte IV - Psicologia Transpessoal, Cognitiva e Parapsicologia, 115
4. O universo, 66 6. O futuro da psiquiatria e da psicologia: desafios
conceituais da pesquisa clínica da consciência (Stanislav
Conclusão, 69
Graft), 117
Referências bibliográficas, 70 Resumo, 117
Parte 11I- Física Quântica e Cosmologia, 73 Introdução, 117
4. Simetria: A Teoria do Tudo (Andrew Lohrey), 75 1. Experiências holotrópicas e seu potencial heurístico e
Resumo, 75 de cura, 119
Introdução, 75 2. Nova compreensão e cartografia da psique humana, 124
1. Reducionismo, 76 3. Biografia pós-natal e o inconsciente individual, 125
2. Rede, 78 4. O nível perinatal da psique, 128
2.1. Bohm, 79 4.1. Primeira Matriz Perinatal Básica (MPB I), 132

3. Ciência e religião, 80 4.2. Segunda Matriz Perinatal Básica (MPB 11), 133

298 299
4.3. Terceira Matriz Perinatal Básica (MPB III), 134 Comentários finais, 215
4.4. Quarta Matriz Perinatal Básica (MPB IV), 135 Referências bibliográficas, 217
5. O domínio transpessoal da psique, 138
Parte V - Inteligência Artificial, Redes Neurais e Ciência da
6. A natureza e a arquitetura das doenças emocionais e Computação, 221
psicossomáticas, 144
9. Computação Quântica Evolucionária: seu papel no
7. Mecanismos terapêuticos e o processo de cura, 146 cérebro, sua realização como hardware eletrônico e suas
8. A estratégia da psicoterapia e a auto-exploração, 148 implicações para a Teoria Pampsíquica da Consciência
9. O papel da espiritualidade na vida humana, 149 (Ben Goertzel), 223
10. A natureza da realidade, 151 Resumo, 223
Conclusões, 155 Introdução, 224
Referências bibliográficas, 156 1. Darwinismo Neurológico e Computação Quântica
Evolucionária Cerebral, 227
7. A mente ampliada (Rupert Sheldrake), 159
Resumo, 159 2. Design para um computador quântico evolucionário, 230

Referências bibliográficas, 195 3. Por que os humanos são tão profundamente


conscientes?, 236
8. Ayahuasca, mente e consciência (Benny Shanon), 196
Conclusão, 241
Resumo, 196
Referências bibliográficas, 242
1. A ayahuasca e sua investigação científica, 196
2. Rumo a um estudo cognitivo-psicológico da Parte VI - Informação e Teoria dos Sistemas, 245
experiência com a ayahuasca, 202 10. Informação, auto-organização e consciência - Rumo a uma
3. Possíveis contribuições da ayahuasca para o estudo da teoria holoinformacional da consciência (Francisco Di
mente, 205 Biase, Albert Schweitzer e Mário Sérgio F. Rocha), 247
4. A consciência: uma perspectiva fenomenológica, 208 Resumo, 247
5. Padrões incomuns da consciência descobertos com a Introdução, 248
ayahuasca, 210
1. Auto-organização e informação, 250
5.1. Mediação, 210
2. Consciência, auto-organização e informação, 252
5.2. Identidade pessoal, 210
3. Natureza, informação e consciência, 254
5.3. Unidade, 212
4. Consciência e não-localidade, 256
5.4. Limites e não diferenciação de estados, 212
5. Rumo a uma teoria holoinformacional da consciência, 258
5.5. Não individuação do self, 212
6. Consciência e a mente humana, 260
5.6. Calibração, 213
Considerações finais, 263
5.7. O [ocus da consciência, 214
Referências bibliográficas, 264
5.8. Tempo, 214

300 301
LONDRINA, PR
Parte VII - Fórum de debates, 269 Atacado e varejo

11. A ciência e o primado da consciência (Karl Pribram, bJ


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