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Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a

intenção de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma

manifestação do pensamento humano..

Middlemarch

Um estudo da vida

provinciiana

GEORGE ELIOT

Um estudo da vida

. .

provinciana

Tradução e prefácio de

LEONARDO FRÓES

RIO DE JANEIRO · SÃO PAULO

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, R

Eliot, George, 1819-1880

E43m Middemarch: um estudo da vida provinciana /

George Eliot; traduÇão e prefácio de Leonardo Fróes. -

Rio de Janeiro: Record, 1998.

Tradução de: Middemarch

ISHN 85-01-04535-7

1. Romance inglês. I. Fróes, Leonardo. II. Título.

CDD - 823

98-0156 CDU - 820-3

Título original ínglês

MIDDLEMARCH

Copyright © Editora Record, 1998

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ISBN 85-01-04535-7

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SUMÁRIO

Prefácio .......................................................................
.................... 7

Prelúdio........................................................................

................. 13

I. Miss

Brooke..........................................................................

.... 15

II. Velhos e

Jovens ..................................................................... 139

III. À Espera da

Morte ............................................................... 249

IV Três Problemas de Amor ......................................................

345

V A Mão do

Morto .................................................................... 455

VI. A Viúva e a

Esposa .............................................................. 565

VII. Duas

Tentações .................................................................. 671

VIII. Sol Posto e Sol

Nascente ................................................... 767

Finale .........................................................................

................. 871

PREFÁCIO

Mulher e Cultura

no Dissenso Literário

Leonardo Fróes

A romancista inglesa que se tornou conhecida por este nome de homem

- George Eliot - chamava-se na realidade Mary Ann Evans e nasceu

numa fazenda do Warwickshire, da qual seu pai era o administrador, em

22 de novembro de 1819. No mesmo ano, nasceu Vitória, a rainha do

apogeu do império britânico, que se manteve por mais de sessenta anos


no trono para acabar dando nome à época. A autora, que por notável

esforço pessoal ingressou no mundo da cultura, ainda então uma exclu-

sividade dos homens, descreveu e analisou em Middemarch a situação

do império por dentro - dos seus valores, projetos, sentimentos - nos

anos conturbados que antecedem a ascensão de Vitória: qtando a teoria

e a prática do progresso, avançando pelo interior da Inglaterra, ameaça-

vam por um lado as velhas estruturas do campo e, por outro, difundiam

um clamor por reformas nem sempre claro e entendido.

Sem dote, sem berço e sem beleza, GE iniciou seu esforço de cultura

em Coventry, a cidade mais próxima da fazenda de Arbury, onde apren-

deu como autodidata, pois às moças reservava-se o ensino para salão:

de boas maneiras, belas-artes, piano, religião e bordados, e em contato

com intelectuais progressistas. Com 25 anos, começou a traduzir do ale-

mão Das Leben Jesu (The Life of Jesus), de David Friedrich Strauss. Com 32

já em Londres, era a editora-assistente e na verdade a mola mestra de

prestigiosa publicação literária, a Westminster Review. Quando morreu em

1 8

GEORGE ELIOT

" 1880, rica e famosa por seus vários romances, já era um dos nomes

mais representativos da grande prosa vitoriana - a ombrear com

Thackeray e Dickens, pela mordacidade de sua visão crítica, e, pela ori-

ginalidade de sua mente, com Samuel Butler.

Depois do sucesso em vida, a obra de GE atravessou dois momen-

tos: o de um relativo ostracismo junto ao público, em comparação com o

constante interesse por autoras como Jane Austen ou Emily Brontë, e o

da redescoberta contemporânea. Este, que se generalizou na década de

1990, com a publicação de vários trabalhos a seu respeito, tomou corpo,

em âmbito mais restrito, na de 1960, ao constituir-se o grande ciclo das

pesquisas centradas no feminismo e após livros pioneiros como os de


Barbara Hardy (The Novels of George Eliot, 1964; Middemarch: Critical

Approaches to the Novel, 1967), que puseram em realce o valor literário de

suas construções e estilo. Mas GE, antes mesmo de ser incluída no cânon

da ficção inglesa por ER. Leavis (em The Great Tradition, 1948), se·npre

contou com admiradores de peso entre os escritores. Proust, por exem-

plo, tinha particular estima por The Mill on the Floss, romance no qual ela

descreve sua infância rural e que já foi tão conhecido quanto Middemarch,

hoje unanimemente apontado como o melhor de seus livros.

A técnica do monólogo interior ou fluxo de consciência, que se di-

fundiu e radicalizou no século XX, é muito usada por GE, ainda a modo

de esboço, é verdade, mas claramente intencional e que lhe garante sem

dúvida a precedência do uso. Seguidas vezes em Middemarch, antes ou

depois de um personagem falar, é comum que ele reflita longamente

sobre suas próprias palavras, confrontando-as com a orientação dos seus

interesses ou, dependendo do personagem, seus princípios éticos. Há

sempre em cada criatura um olhar mais interno que a observa, uma voz

interior que dialoga e aconselha, e uma das marcas de GE é este esforço

de ir pelos meandros da mente em busca do mais sincero e recôndito.

Consideradas as finalidades de Proust em relação aos modos de atuação

da memória, entende-se que a introspecção da autora - sua técnica de

dissecar pensamentos - lhe tenha despertado interesse. Ao longo do

romance, o texto aqui e ali adquire feição de marcações para o palco, ou

de um futuro roteiro cinematográfico, tal o cuidado com que é feita, para

transmitir todo o impacto dos estados mentais, a indicação de gestos,

olhares e posturas que definem a presença dos personagens em cena.

Escrito entre 1869 e 1871, Middemarch recua quarenta anos no tem-

po para situar sua ação entre o outono (setembro) de 1829 e a primave-

ra (maio) de 1832. As principais questões da época, com o reino em

polvorosa, após a morte de dois reis a um pequeno intervalo e a vindou-

MIDDLEMARCH

ra entronização de uma rainha ainda adolescente, estão em relevo ple-


no. Nas conversas da elite e do povo, em linguagens bem distintas para

acentuar o desnível, ora é abordada a questão religiosa, marcada pela

recente emancipação dos católicos e pelo avanço do dissenso ou não-

conformismo daqueles que se separavam da Igreja Anglicana; ora, a ques-

tão política, centrada nos embates parlamentares, na discussão das re-

formas cuja aprovação se propunha, nas referências à formação de ligas

operárias e outros movimentos de reivindicação popular. O panorama

social como um todo, enquanto a efervescência metropolitana se espa-

lha pelo interior do país, é representado pela transformação que já se

processa, com o poder dos velhos proprietários de terras, como Mr.

Featherstone, passando para as mãos ágeis e ávidas dos capitães da in-

dústria manufatureira, como Mr. Vincy. Os pobres, vivendo em miserá-

veis casebres, despertam o ardor de Dorothea, seus ideais humanitários

de beneficência. O novo, personificado pelos que vêm de fora, Ladislaw

e Lydgate, desarruma a rotina e escandaliza, quer nos métodos de traba-

lho, quer nas relações pessoais. E novo é também o trem de ferro, que

no plano real estava começando a correr entre Liverpool e Manchester, e

que na ficção ameaça chegar a Middemarch cortando terras ao meio.

Para dar credibilidade ao realismo de seu romance, GE se muniu de

escrupulosos dados sobre o que acontecia no país por volta de 1830.

Com particular atenção ela enfoca o estado de certas áreas de atividade

como a medicina, à qual faz críticas ferozes. Todo o mundo das profis-

sões masculinas - uma seqüência de figuras caricatas como um leiloeiro

pedante, um espertalhão que vende cavalos, um juiz falastrão, médicos

venais e retrógrados - é radiografado de longe por seu olhar de mulher.

É um mundo cheio de teatralidade e astúcia, de belas e vazias palavras,

que parece brotar da falsidade e onde a gana por dinheiro silencia os

princípios. Seu representante mais perfeito será o banqueiro Bulstrode,

que esconde as falcatruas do passado, origem de sua grande fortuna, sob

um opressivo pendor por obras de caridade, hipocrisia religiosa e


mandonismo político.

A pequena cidade fictícia de Middemarch ocupa a mesma localiza-

ção de Coventry, ou seja, está no "meio da Mércia," um dos antigos

reinos da Inglaterra anglo-saxônica, independente até o século X. Ao

criá-la para aí empreender "um estudo da vida provinciana," como diz o

subtítulo de seu romance, GE seguiu por um caminho já bastante co-

mum na ficção européia e explorado por grandes predecessores, como

Balzac, Flaubert e Turgueniev, o último dos quais, por sinal, ela conhe-

ceu em pessoa. Mas isto não retira valor a seu trabalho, onde a origina-

10

GEORGE ELIOT

lidade maior reside nos seus modos de ver, resultado de experiências

" genuínas por que ela mesma passou como mulher diferente e dissidente

numa sociedade tacanha.

Dorothea, a jovem e bela heroína de Middemarch, cheia de bondade

no coração, é em parte a feia e rigorosa GE como heroína pela aquisição

" de cultura e a manutenção de ideais. O desejo de aprender, de partilhar

" deste privilégio dos homens, que deveria lhe servir de ponte para fazer o

bem à humanidade, leva Dorothea a se interessar por Casaubon, ho-

mem trinta anos mais velho do que ela, rabugento, doentio, egoísta,

mas supostamente culto, e uma das mais convincentes dentre as carica-

turas profissionais de GE - a do erudito estéril. Sua união aparente-

mente incompleta permite à romancista, que pensa o mundo e o social

com uma isenção de filósofa, mostrar os equívocos do casamento como

ilusão ou negócio, não como troca, e retratar a sujeição degradante em

que as mulheres viviam.

Quando acordar da letargia na gaiola de luxo, Dorothea terá de de-

safiar a oposição da família, as opiniões da cidade e as convenções do

mundo para realizar seu amor. Na vida real, a escritora Mary Ann Evans,

desafiando tudo isto, fugiu com um homem casado, o também escritor

George Henry Lewes, e por quase um quarto de século os dois constituí-


ram um harmonioso casal, cada qual a construir sua obra numa coopera-

ção produtiva. O nome dele está no pseudônimo, George Eliot, que ela

adotou desde o primeiro livro (Scenes of Clerical Life), e foi ele quem mais

a incentivou a escrever ficção, deixando a filosofia de lado. Em 1880,

dois anos após a morte de Lewes e sete meses antes de morrer ela pró-

pria, GE, que estava com 61 anos, casou-se com um homem vinte anos

mais moço, John Walter Cross, que foi o seu primeiro biógrafo.

Há toques feministas explícitos em Middemarch. Mas as mulheres

não são poupadas quando a vida provinciana é exposta pelo que tem de

mais tolo. Celia se submete ao marido e idiotiza-se na relação com o

filhinho, enquanto Rosamond transforma em frivolidade e lascívia o sa-

lão de seu ócio. Quando ela enjoa de Lydgate e começa a flertar com

outros homens, GE explica bem didaticamente que "o descontentamen-

to de Rosamond com seu casamento era devido às condições do casa-

mento em geral, à demanda de auto-supressão e tolerância, e não à

natureza de seu marido." Na eterna comadrice das senhoras, que vivem

tomando chá com as amigas, desde que chega um boato novo, transil.a a

maledicência mais torpe e formam-se os preconceitos gratuitos. É po-

rém uma veracidade do humano que GE procura atingir: como se armas-

se a trama do cotidiano para desvestir personagens da imposição dos

MIDDLEMARCH

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papéis, das determinações do meio; como se, no auge da sátira à socie-

dade, deixasse uma fresta aberta para se olhar com simpatia o indivíduo;

como se no interior das pessoas houvesse um princípio só e sagrado.

O que há de novo na ficção inglesa, com Middemarch e a visão de GE,

é que não há maniqueísmo na análise, as pessoas não são boas e más

por completo, mas misturas mutáveis de circunstâncias mutáveis, às quais

cedem ou resistem. Às falhas denunciadas com rigor se contrapõe o ar-

gumento de que o caráter pode adoecer como o corpo e ser tratado tam-
bém. A capacidade de observação de GE e a amplitude da visão que ela

emprega têm por efeito mais óbvio tornar facilmente críveis, para um

mundo tão diverso, seus personagens em transe - tão antigos pela apa-

rência, no entanto tão atuais pelas circunstâncias que os criam. Não se lê

impunemente GE: a tendência do leitor, a cada página, é envolver-se nas

situações, retratar-se, perguntar-se como ele mesmo agiria, ou se já agiu

assim algum dia, em circunstâncias análogas. Experiência às vezes dura,

que indica que não temos saída, senão as tentativas de correção perma-

nente pelo poder da auto-análise, mas sempre experiência proveitosa e

que nos deixa do convívio com a autora uma impressão muito forte.

Como aliás a que ela deve ter tido, na dura alegria de criá-la, ao conviver

com Dorothea: `É presença de uma natureza nobre, generosa em seus

desejos, ardente em sua caridade, muda a luz para nós: começamos a ver

as coisas de novo em suas massas maiores, mais tranqüilas, e a acreditar

que nós também podemos ser vistos e julgados na totalidade do nosso

caráter."

A presente tradução, a primeira a ser feita em português, tomou por

base a edição crítica de Bert G. Hornback, da Universidade de Michigan

(Nova York e Londres: W W Norton & Company, 1977), em constante

cotejo com a da Everyman"s Library, com introdução, bibliografia e cro-

nologia de E. S. Shaffer (Nova York e Toronto: Alfred A. Knopf, 1991).

Foram respeitadas as características do original, mesmo quando há dis-

crepâncias internas, em relação ao uso de iniciais maiúsculas, itálico,

aspas etc. e, sempre que possível, à pontuação como um todo. Em GE,

como na prosa vitoriana em geral, a pontuação - com farto emprego de

travessões em diferentes funções - é parte essencial à expressividade

do texto. Seria pois uma infidelidade submetê-lo a normas ou hábitos

de hoje, o que além do mais eliminaria o tanto de sabor de época que se

quis manter. Nas epígrafes em versos que encimam capítulos, quase um

iz

GEORGE ELIOT
, livro de poesia que se agrega ao romance, mantêm-se às vezes, mas nem

sempre, os esquemas originais de rima e métrica. Nem sempre porque

ao polimento se preferiu outras vezes a mais direta clareza, para aclarar

" o mais possível a relação entre o que diz a epígrafe e o que dirá o capítu-

lo. As falas dialetais do povo, grafadas por GE num inglês dos mais de-

formados, são indicadas apenas, na impossibilidade de achar equivalen-

tes, por desrespeito ao rigor gramatical. A edição original de Middemarch

foi publicada parceladamente entre dezembro de 1871 e setembro de

1872, correspondendo cada um dos oito livros em que se divide o ro-

mance aos fascículos de sua serialização bimensal, que forrriavam junts

uma obra em quatro tomos.

PRELÚDIO

Quem muito se importa em saber a história do homem, e como a miste-

riosa mistura se comporta sob os experimentos variáveis do Tempo, que

não se tenha debruçado, brevemente que o fosse, sobre a vida de Santa

Teresa, que não tenha sorrido com alguma ternura ao pensamento da

menina que uma manhã sai andando de mãos dadas com o irmãozinho

ainda menor do que ela, para ir em busca do martírio no país dos mouros?

Da rude Ávila, a passos vacilantes, eles partiram pois, com os olhos

arregalados e um ar de desamparo como dois cervos novos, mas com

humanos corações já batendo por uma idéia nacional; até que a realida-

de doméstica, em forma de tios, os encontrasse e mandasse de volta,

desviando-os da grande resolução. Esta peregrinação das crianças foi

um começo adequado. A natureza idealista e apaixonada de Teresa pe-

dia uma vida épica: o que eram os romances de cavalaria em muitos

volumes e as conquistas sociais de uma moça brilhante para ela? Sua

flama queimou rapidamente este combustível volátil; e, alimentada des-

de dentro, alteou-se à cata de alguma satisfação ilimitável, algum objeto

quejamais justificasse o cansaço, que conciliasse o desespero de ser com

a consciência arrebatada da vida além do ser. Foi na reforma de uma

ordem religiosa que ela encontrou sua epopéia.


Esta mulher espanhola que viveu há trezentos anos atrás certamen-

te não foi a última de sua espécie. Muitas Teresas já nascidas não encon-

traram para si a vida épica onde houvesse o constante desdobrar de uma

ação de longa ressonãoncia; talvez apenas uma vida de erros, o cruza-

mento de uma certa grandeza espiritual mal correspondida com a pe-

quenez das oportunidades; talvez um fracasso trágico que não achou

seu poeta sacro e que sem pranto afundou no esquecimento. Com luzes

baças e circunstâncias enredadas elas tentaram moldar em nobre con-

cordância seu pensamento e ação; mas afinal suas lutas, aos olhos co-

muns, pareceram mera inconsistência e informidade; pois essas Teresas

tardiamente nascidas não foram ajudadas por uma fé e ordem social

coerentes, capazes de perfazer a função do conhecimento para as almas

14

GEORGE ELIOT

ardentemente pressurosas. Seu ardor se alternava entre um vago ideal e

. a aspiração comum da condição feminina; de modo que aquele foi re-

provado como extravagância e esta, condenada como um lapso.

Alguns julgaram que essas vidas às tontas são devidas à inconveni-

ente indefinição com que o Poder Supremo forjou a natureza das mulhe-

res: caso houvesse um nível de incompetência feminina tão estrito quan-

to a capacidade de só contar até três, o destino social das mulheres po-

deria ser tratado com a exatidão da ciência. Entrementes a indefinição

permanece, e os limites de variação são realmente muito mais vastos do

que imaginaria qualquer um ante a mesmice dos penteadosfemininos e

das histórias prediletas de amor em prosa e verso. Aqui e ali um peque-

no cisne é dificilmente criado no açude turvo entre filhotes de pato e

nunca encontra, na corrente viva, o companheirismo de sua própria es-

pécie palmípede. Aqui e ali nasce uma Santa Teresa, fundadora de nada,

cujas batidas de coração e soluços por uma bondade inatingida tremem

e são dispersos entre empecilhos, ao invés de se centrarem nalguma


ação longamente reconhecível.

LIvRo I

Miss Brooke

CAPÍTULO I

"Sínce I can no good because a woman,

Reach constantly at something that is near it."

- The Maid"s Tragedy: BEAUMONT AND FLETCHER.

("Se de bom, por ser mulher, nada faço,

Tendo sempre ao que há mais perto a ele.")

A tragédia da donzela: BEAUMONT E FLETCHER.

MIss BRooKE "riNHA esse tipo de beleza que parece ser lançada em

relevo pelas roupas simples. Sua mão e o pulso eram tão delicadamen-

te feitos que ela poderia usar mangas não menos destituídas de estilo

que aquelas com as quais a Santa Virgem foi vista pelos pintores italia-

nos; e seu perfil, bem como a estatura e o porte, parecia ganhar digni-

dade maior com o vestuário singelo, que ao lado da moda provinciana

dava-lhe a impressibilidade de uma bela citação da Bíblia - ou de um

de nossos velhos poetas - num parágrafo do jornal de hoje. Falava-se

geralmente dela como sendo pessoa de inteligência notável, mas com

o acréscimo de que sua irmã Celia tinha mais bom senso. Contudo,

Celia também não se enfeitava muito; e era somente para observado-

res bem próximos que sua roupa diferia da que a irmã usava, tendo um

quê de coqueteria nos arranjos; pois a maneira singela de Miss Brooke

vestir-se era devida a um misto de condições partilhado, em sua maior

parte, por sua irmã. O orgulho de serem damas finas tinha alguma coi-

sa a ver com isso: a origem dos Brooke, embora não exatamente aris-

tocrática, era inquestionavelmente "boa": se se buscasse no passado


p ,

or uma ou duas gerações, jamais se encontraria um de seus ancestrais

que vivesse de tomar as medidas ou de fazer embrulhos - nada menor

18

GEORGE ELIOT

que um almirante ou um clérigo; e havia até um antepassado discernível

como um fidalgo puritano que servíu sob Cromwell, mas afinal se aco-

modou, e conseguiu livrar-se de todas as preocupações polítícas na

condição de proprietário de uma respeitável herdade. Moças de tal ori-

gem, vivendo numa confortável casa no campo, e freqüentando uma

igreja de aldeia pouco maior que uma saleta, naturalmente considera-

vam os enfeites uma ambição de filha de mascate. E havia ainda a eco-

nomia das pessoas de bem, que fazia da ostentação no vestir-se, nes-

ses dias, o primeiro item passível de dedução, quando qualquer mar-

gem fosse requerida para gastos mais distintivos de classe.Tais razões

bastariam para justificar a roupa simples, independentemente do sen-

timento religioso; mas no caso de Miss Brooke a religião sozinha tería

determinado isto; e Celia meigamente concordava com todos os senti-

mentos da irmâ, infundindo-os tão-só desse bom senso que é capaz de

aceitar doutrinas momentosas sem nenhuma agitação excêntrica.

Dorothea sabia de cor muitas passagens das Pensées de Pascal e de Jeremy

Taylor; e para ela os destinos da humanidade, vistos à luz da cristanda-

de, faziam com que as solicitudes da moda feminina parecessem uma

ocupação para Bedam." Não lhe era possível conciliar as ansiedades de

uma vida espiritual, envolvendo conseqüências eternas, com um inte-

resse muito grande por blusinhas de baixo e protuberâncias artificiais

de roupagem. Sua mente era teórica e, por sua natureza, ansiava por

alguma elevada concepção de mundo que pudesse francamente incluir

a paróquia de Tipton e sua própria regra de conduta lá; enamorada de

intensidade e grandeza, precipitava-se ela em abraçar qualquer causa

que lhe parecesse ter tais aspectos; e igualmente em procurar o martí-


rio, fazer retratações e afinal conhecer então o martírio em paragens

aonde não o tinha ido buscar. Certamente estes elementos, no caráter

de uma moça por casar, tendiam a interferir com seu destino e a dificul-

tar que ele fosse decidido em consonãoncia com os costumes, o encanto

pessoal, a vaidade e simplesmente a afeição canina. Com tudo isso,

ela, a mais velha, ainda não chegara aos vinte, e as duas tinham sido

educadas, desde que perderam os pais por volta dos doze anos de ida-

de, em planos a uma só vez estreitos e promíscuos, primeiro numa

família inglesa e depois, em Lausanne, numa família suíça, seu tio celi-

batário e tutor tentando assim desse rnodo remediar as desvantagens

de sua condição de órfãs.

"Nome popular do Hospítal Real de Bethlehem, o maís antigo hospícío da

Inglaterra, fundado

em 1247; por extensão, nome de qualquer ínstítuíção do gênero.

MIDDLEMARCH lg

Nem bem fazia um ano que elas tinham vindo viver em Tipton Grange

com o tio, homem de quase sessenta anos, temperamento aquiescente,

opiniões em miscelânea e voto incerto. Em anos já remotos, ele viajara

bastante, e nesta parte do país era tido por haver desenvolvido uma

mente errática. As conclusões de Mr. Brooke eram tão difíceis de prever

como o tempo: só se podia dizer em segurança que ele agiria com inten-

ções benévolas e gastaria o mínimo de dinheiro possível para levá-las à

prática. Pois as mentes mais pegajosamente indefinidas encerram alguns

duros grãos de hábito; e já se viu um homem ser relaxado em relação a

todos seus próprios interesses, exceto a retenção de sua caixa de rapé,

no tocante à qual ele é atento, suspicaz e voraz ao deitar-lhe a mão.

Em Mr. Brooke o traço hereditário de energia puritana achava-se

claramente em suspensão; mas em sua sobrinha Dorothea ele fulgurava

igualmente por entre defeitos e virtudes, transformando-se às vezes em

impaciência da conversa do tio ou do seu modo de "deixar as coisas pra

lá" na propriedade, e fazendo-a ansiar ainda mais pela maioridade, quan-


do teria controle sobre o dinheiro para generosos projetos. Era vista

como uma herdeira; pois não só cada uma das irmãs tinha por ano sete-

centas libras, mas também, caso Dorothea se casasse e tivesse um filho,

este filho herdaria a propriedade de Mr. Brooke, a qual presumivelmente

valia umas três mil libras por ano - renda que já parecia riqueza para as

famílias provincianas que ainda discutiam a mais recente conduta de Mr

Peel quanto à Questão Católica", alheias às futuras regiões auríferas e a

essa plutocracia brilhante que exaltou tão nobremente as necessidades

da vida requintada.

E como iria Dorothea não se casar, moça tão linda e com tais pers-

pectivas? Nada seria um obstáculo a isto, a não ser seu amor pelos ex-

tremos e sua insistência em regular a vida segundo noções que poderiam

levar um homem cauteloso a hesitar antes de lhe fazer uma proposta, ou

mesmo finalmente levá-la a recusar todas elas. Uma jovem dama de boa

cepa e fortuna, que se ajoelhava de súbito num chão de tijolos ao lado

de um trabalhador enfermo e orava ardorosamente como se se imagi-

nasse a viver no tempo dos Apóstolos - que tinha estranhas venetas de

jejuar como um papista e de à noite sentar-se para ler velhos livros de

teologia! Tal esposa poderia acordá-lo nalguma bela manhã com um novo

projeto para a aplicação da própria renda que interferiria com a econo-

mia política e a posse e guarda de cavalos de sela: naturalmente um

Contrário à liberdade política e religiosa para os católicos, Robert Peel

(1788-1850), ministro

do Interior no governo do duque de Wellington, mudou bruscamente de posição em

1829.

20 GEORGE ELIOT

homem pensaria duas vezes antes de arriscar-se em tal companhia. Es-

perava-se que as mulheres tivessem opiniões fracas; mas a grande salva-

guarda da sociedade e da vida doméstica era as opiniões não serem se-

guidas. As pessoas normais faziam o que os vizinhos faziam; assim, se


houvesse lunáticos por perto, poderiam saber, e evitá-los.

A opinião rural sobre as novas moças, mesmo entre os moradores

das casinhas pobres, geralmente pendia em favor de Celia, por ter o ar

tão inocente e por ser tão amável, enquanto os grandes olhos de Miss

Brooke, como sua religião, pareciam incomuns demais e assombrosos.

Pobre Dorothea! Comparada a ela, a inocente Celia era experiente e

conhecedora do mundo; tão mais sutil é a mente humana do que os

tecidos externos que para ela fazem uma espécie de brasão ou mostra-

dor de relógio.

Entretanto os que se aproximavam de Dorothea, embora com algum

preconceito por causa desse ouvir dizer alarmista, nela descobriam um

encanto que inexplicavelmente se harmonizava com ele. Os homens, em

sua maioria, julgavam-na fascinante quando estava a cavalo. Ela adora-

va o ar livre e os vários aspectos do campo e, quando uma mescla de

prazeres brilhava-lhe na face e nos olhos, pouco se parecia com uma

devota. Montar era uma indulgência que Dorothea se permitia a despei-

to de conscienciosos remorsos; sentia que gostava de montar de um

modo sensual e pagão, e sempre pensava que algum dia acabaria renun-

ciando àquilo.

Era aberta, ardente, e nem um pouco embevecida de si; com efeito,

era tocante ver como sua imaginação adornava a irmã Celia de atrativos

em tudo superiores aos seus e, se parecesse que algum cavalheiro vinha

à granja por qualquer outro motivo que não estar com Mr. Brooke, logo

deduzia que ele devia estar apaixonado por Celia: Sir James Chettam,

por exemplo, que ela constantemente considerava do ponto de vista da

própria Celia, debatendo em seu íntimo se aceitá-lo seria bom para Celia.

Parecer-lhe-ia uma irrelevância ridícula que ele pudesse ser visto como

um pretendente a ela própria. Dorothea, com toda sua impaciência para

conhecer as verdades da vida, retinha idéias muito pueris sobre o casa-

mento. Estava certa de que teria aceito o judicioso Hookert, se houvesse

nascido a tempo de salvá-lo do desditoso erro matrimonial que ele co-


meteu; ou John Milton, quando sua cegueira se manifestou; ou qualquer

dos outros grandes homens cujos hábitos bizarros teria sido gloriosa

devoção suportar; mas um baronete gracioso e amável, que dizia "Exa-

"Richard Hooker (1554-160O), teólogo inglês.

MIDDLEMARCH 21

tamente" às suas palavras, mesmo quando ela exprimia íncerteza, -

como poderia impressioná-la com seu amor? O casamento realmente

prazeroso devia ser um no qual o marido fosse uma espécie de pai que

poderia ensinar-lhe até hebreu, se esta fosse sua vontade.

Tais peculiaridades do caráter de Dorothea tornaram Mr Brooke ainda

mais criticado nas famílias da vizinhança por não contratar alguma senhora

de meia-idade como guia e companheira para suas sobrinhas. Mas ele pró-

prio temia tanto o tipo de mulher superior que provavelmente se poderia

encontrar para esse emprego, que se deixou dissuadir pelas objeções de

Dorothea, e neste caso teve coragem bastante para desafiar o mundo - ou

seja, Mrs. Cadwallader, a esposa do reitor da paróquia, e a pequena fração

de boa sociedade que ele regularmente visitava no cantão nordeste do

Loamshire. Assim Miss Brooke presidia a casa do tio, e não desgostava

nada de sua nova autoridade, com as homenagens que a ela se associavam.

Sir James Chettam ia jantar hoje na granja com um outro cavalheiro

que as moças nunca tinham visto, mas sobre o qual Dorothea já sentia uma

expectativa de veneração. Era o Reverendo Edward Casaubon, respeitado

no condado como homem de grande conhecimento, sabidamente há mui-

tos anos às voltas com uma obra concernente à história religiosa; e também

como homem de suficiente riqueza para dar lustro à sua devoção, e que

tinha opiniões muito próprias, a serem afirmadas mais claramente com a

publicação de seu livro. Seu simples nome causava uma impressão muito

funda, dificil de ser medida sem uma cronologia precisa de erudição.

No começo do dia, Dorothea já estava de volta da escola infantil que ela

criara na aldeia, e já ia tomando seu lugar costumeiro na saleta aconchegan-


te que separava os quartos das irmãs, para debruçar-se e acabar a planta de

umas construções (tipo de trabalho que ela adorava), quando Celia, que a

vinha observando com hesitante desejo de propor alguma coisa, disse:

"Dorothea, querida, se você não se importar - se não estiver muito

ocupada - que tal nós darmos uma olhada hoje nas jóias da mamãe, e

dividi-las? Hoje se completam exatamente seis meses desde que o tio as

deu a você, e você ainda nem as viu."

A face de Celia tinha a sombra de uma expressão amuada, estando a

presença plena deste amuo contida por um temor habitual de Dorothea

e princípios; dois fatores associados que poderiam mostrar uma eletrici-

dade misteriosa se incautamente alguém tocasse neles. Para seu alívio,

os olhos de Dorothea, quando se ergueram, estavam cheios de ironia.

"Que almanaquezinho maravilhoso você é, Celia! São seis meses

pelo calendário ou seis meses lunares?"

"Hoje é o último dia de setembro, e foi em primeiro de abril que o tio as

GEORGE EI.IOT

22

deu a você. Lembra? ele disse que até então tinha esquecido delas. E você,

desde que as trancou aqui no armário, acho que nunca mais pensou nisso."

"Bem, querida, nós, como você sabe, não devemos usar essas jóias

nunca." Dorothea falou num tom de todo cordial, carinhoso em parte e,

em parte, explanatório. Estava com seu lápis na mão, e na margem do

papel ia fazendo diminutos esboços.

Celia enrubesceu, e ficou muito séria. "Acho, querida, que seria falta

de respeito pela memória de mamâe deixá-las de lado e não ligar para

elas. E," acrescentou, após hesitar um pouco, com um soluço de mortifi-

cação que aumentava, "os colares agora estão muito em uso; e Madame

Poinçon, que em certas coisas era até mais rigorosa do que você, costuma-

va usar enfeites. E os cristãos de modo geral - certamente há mulheres

que agora estão no céu e que usaram jóias." Celia tinha consciência de sua

boa dose de vigor mental quando ela realmente se empenhava numa ar-
gumentação.

"Você gostaria de usá-las?" exclamou Dorothea, um ar de descober-

ta perplexa a animar sua pessoa toda com um movimento dramático que

ela havia pegado justamente dessa Madame Poinçon que usava jóias.

"Mas então vamos a elas, é claro! Por que não me disse antes? Mas e as

chaves, as chaves!" Ela apertou as mãos contra os lados da cabeça, pare-

cendo desesperar da memória.

"Estão aqui," disse Celia, em quem a explicação tinha sido longamente

pensada e premeditada.

"Então, por favor, abra a gaveta grande do armário e pegue o porta-

jóias."

Aberto o estojo sem demora, diante delas esparramaram-se as jóias,

criando em cima da mesa um ornamento brilhante. Não sendo uma co-

leção muito grande, incluía porém algumas peças que eram realmente

de extraordinária beleza; a mais bela a evidenciar-se logo foi um colar de

ametistas roxas montado em primorosa ourivesaria e com uma cruz de

pérolas com cinco brilhantes engastados. Dorothea apanhou imediata-

mente o colar e pendurou-o no pescoço da irmã, onde ele se encaixou

quase tão bem e tão justo como um bracelete; mas o círculo combinava

com o tipo Henrietta-Marial do pescoço e da cabeça de Celia, o que o

espelho entre janelas, do lado oposto, pôde confirmar para ela.

"Ah, Celia! Você pode usá-lo com o vestido de musselina indiana.

Mas acho que a cruz fica melhor com suas roupas escuras."

"Rainha-consorte (1609-1669) de Carlos I da Inglaterra, sempre retratada com um

clar de

pérolas no pescoço fino e comprido.

MIDDLEMARCH 23

Celia tentava não sorrir de prazer. "Oh, Dodo, você devia ficar com a

cruz para você."

"Não, não, não, querida," disse Dorothea, erguendo a mão em desa-


provação descuidosa.

"Devia sim, devia mesmo; ficaria muito bem em você agora - com

seu vestido preto," disse Celia insistindo. "Você deve usá-la."

"Nem por nada deste mundo. Nunca eu usaria uma cruz como um

penduricalho." Um ligeiro estremecimento percorreu Dorothea.

"Mas então a seu ver não seria também conveniente eu usá-la," dis-

se Celia sem jeito.

"Não, querida, não," disse Dorothea, alisando o rosto da irmã. `As al-

mas também têm compleições: o que convém a uma não convém a outra."

"Mas você pode querer ficar com ela pela lembrança de mamãe."

"Não, tenho outras coisas que foram de mamãe - sua caixa de

sândalo, de que eu gosto tanto - cheia de coisas. São todas suas na

verdade, querida. Não precisamos discutir mais isso. Aí está - pegue o

que lhe pertence."

Celia se sentiu um pouco ferida. Havia uma forte afirmação de supe-

rioridade nesta tolerância puritana, quase tão penosa para a carne loura

de uma irmã não fanática quanto uma perseguição puritana.

"Mas como eu iria usar adornos, se você, que é a irmâ mais velha,

nunca vai usá-los?"

"Não, Celia, isto já é pedir demais, que deva eu usar enfeites só para

lhe encorajar. Se eu tivesse de colocar um colar assim no pescoço, me

sentiria como se estivesse fazendo uma pirueta. O mundo rodaria à mi-

nha volta e eu não saberia mais como andar."

Celia tinha desabotoado e retirado o colar. "Em seu pescoço ele fica-

ria um pouco apertado; alguma coisa que se pudesse usar mais solta

seria melhor para você," disse com uma ponta de satisfação. A completa

inadequação do colar para Dorothea, sob todos os pontos de vista, au-

mentava a felicidade de Celia em conservá-lo. Ela estava abrindo umas

caixinhas de anéis, um dos quais exibia uma bela esmeralda com dia-

mantes, e justamente então foi que o sol, passando além de uma nuvem,
brilhou com força sobre a mesa.

"Que lindas são estas gemas!" disse Dorothea sob uma nova corrente

de sentimento, tão repentina quanto aquele fulgor "É estranho como as

cores parecem penetrar tão fundo na gente como os odores. Suponho que

seja esta a razão pela qual as gemas são usadas como emblemas espiri-

tuais na Revelação de São João. Parecem-se com fragmentos do céu. E

esta esmeralda a meu ver é a mais bela de todas."

GEORGE EI..IOT

24

"E há um bracelete para usar com ela," disse Celia. "Não o tínhamos

notado a princípio."

"São maravilhosos," disse Dorothea, enfiando o anel e o bracelete no

dedo e no pulso bem torneados, antes de erguê-los na direção da janela e

bem no nível de seus olhos. Enquanto isso seu pensamento tentava juscifi-

car seu prazer com as cores, mesclando-o com sua alegria místico-religiosa.

"Estas você adoraria, Dorothea," disse Celia meio titubeante, come-

çando a pensar com espanto que a irmâ demonstrava certa fraqueza, e

também que as esmeraldas, em seu próprio corpo, poderiam assentar-se

ainda melhor que as ametistas roxas. "Você deve hear com o bracelete e

o anel - ou senão com outra coisa. Mas olhe só, estas ágatas são muito

bonitas - e discretas."

"É mesmo! Vou ficar com estas - com este anel e o bracelete," disse

Dorothea. Depois, deixando a mão cair na mesa, ela disse noutro tom:

"No entanto, que homens vis os que descobrem tais coisas, e nelas traba-

lham, e as vendem!" Fez uma nova pausa, e Celia achou que sua irmã ia

renunciar às jóias, como para ser coerente ela deveria fazer

"Sim, querida, vou ficar com estas," Dorothea falou com decisão.

"Mas leve todo o restante, e o porta-jóias também."

Pegou seu lápis sem retirar as jóias, e ainda olhando para elas. Pen-

sava em tê-las com freqüência a seu lado, para alimentar a visão com

essas pequenas fontes de cor pura.


"Deveremos usá-las em reuniões?" disse Celia, que a observava com

real curiosidade em relação ao que ela iria fazer.

Dorothea olhou de relance para a irmã. Varando todo seu imaginati-

vo embelezamento daqueles de quem ela gostava, projetava-se de quando

em quando um discernimento agudo, não desprovido de uma qualidade

pungente. Se alguma vez Miss Brooke atingiu a mansidão perfeita, não

foi por falta de fogo interior.

"Talvez," disse ela arrogantemente. "Não sei dizer até que nível sou

capaz de baixar."

Celia corou e se sentiu infeliz; viu que tinha ofendido sua irmã e

sequer se atrevia a dizer alguma coisa delicada sobre o presente das

jóias, que ela pôs de novo no estojo e levou dali. Dorothea sentia-se

também descontente, ao voltar a desenhar sua planta, questionando a

pureza de seus próprios sentimentos e palavras na cena que terminara

com essa pequena explosão.

Disse-lhe a consciência de Celia que ela não estivera de todo errada:

nada mais natural e justificável que houvesse feito a pergunta, e ela se

repetia ainda agora que Dorothea era incoerente: ou bem deveria ter

MIDDLEMARCH 25

ficado com toda sua parte das jóias, ou bem, depois do que havia dito,

renunciado completamente a elas.

"Tenho certeza - ou pelo menos acredito," pensou Celia, "que o

uso de um colar não vai interferir com minhas orações. E não vejo por

que submeter-me eu às opiniões de Dorothea, se bem que ela mesma,

é claro, tenha de ser submetida por elas. Mas Dorothea nem sempre é

coerente."

E assim ficou Celia, curvada em mutismo sobre sua tapeçaria, até

que ouviu a irmã chamá-la.

"Venha ver, Kitty, olhe só minha planta; se eu não tiver posto larei-

ras e escadas incompatíveis, vou achar que sou uma grande arquiteta."

Enquanto Celia se debruçava sobre o papel, Dorothea encostou o


rosto, carinhosamente, no braço de sua irmã. Celia entendeu o gesto.

Dorothea viu que tinha errado, e Celia a perdoou. Desde que as duas se

lembravam, sempre houvera uma mistura de temor respeitoso e crítica

na atitude mental de Celia em relação à irmâ mais velha. A mais nova

sempre esteve sob o jugo da outra; mas há alguma criatura subjugada

que não tenha suas opiniões próprias?

CAPÍTULO II

"Dime; no ves aquel caballero que hacia nosotros viene so-

bre un caballo rucio rodado que trae puesto en la cabeza un

yelmo de oro?" "Lo que veo y columbro," respondiò Sancho,

"no es sino un hombre sobre un asno pardo como el mio,

que trae sobre la cabeza una cosa que relumbra." "Pues ese

es el yelmo de Mambrino," dijo Don Quijote.

- CERVANTES.

("Dize-me; não vês aquele cavaleiro que vem em nossa dire-

ção, montado num cavalo baio malhado, e que traz posto na

cabeça um elmo de ouro?" "O que vejo e distingo," respon-

deu Sancho, "não é senão um homem sobre um asno pardo

como o meu, que traz sobre a cabeça uma coisa que reluz."

"Pois este é o elmo de Mambrino," disse Dom Quixote.)

- CERVANTES.

"Sllt HUMPHltY DAvY?" disse Mr. Brooke durante a sopa, com aquele seu

jeito de sorrir à toa, aproveitando a observação de Sir James Chettam de

que ele estava estudando a Química Agrícola de Davy." "Ah, sim, Sir

Humphry Davy: pois anos atrás jantei com ele no Cartwright, e sabem

quem estava também? - o poeta Wordsworth. Coisa aliás bem singular.

Eu, que estudei em Cambridge no tempo de Wordsworth, nunca o havia

encontrado, - e vinte anos depois jantei com ele no Cartwright. As coisas

são mesmo estranhas. Mas então lá estava o Davy, que também era poeta.

Ou, como posso dizer, Wordsworth era o poeta número um, Davy, o poe-
ta número dois. Isto era verdade em todos os sentidos, sabem?"

Elements of Agricultural Chemistry (1813), de Sir Humphrey Davy (1778-1829).

MIDDLEMARCH

Dorothea sentia-se um pouco menos à vontade que de costume. No

começo do jantar, sendo pequeno o grupo e tranqüila a sala, estas partí-

culas da massa cerebral de um magistrado caíam com muito estardalha-

ço. Perguntava-se ela como um homem do porte de Mr. Casaubon su-

portaria tais banalidades. Seus modos, pensava, eram muito dignos; a

combinação da cabeleira cinza-escura com a órbita cava de seus olhos

tornava-o parecido com o retrato de Locke. Ele tinha a aparência descar-

nada, a tez pálida dos estudiosos; tão diferente quanto possível do exu-

berante inglês do tipo avermelhado de uísque que Sir James Chettam

representava.

"Estou lendo a Química Agrícola," disse este excelente baronete, "por-

que vou pegar em mãos uma das fazendas, e ver se não se pode fazer

alguma coisa para criar entre meus rendeiros um bom padrão de agricultu-

ra. Concorda com a decisão, Miss Brooke?"

"É um grande erro, Chettam," interpôs Mr. Brooke, "eletrificar suas

terras e esse tipo de coisa, e transformar seu curral numa sala de visitas.

Não vai dar certo. Eu mesmo já recorri bastante à ciência em certa épo-

ca; mas vi que não adiantaria. Ela leva a tudo; e nada você pode deixar

em paz. Não, não - cuide de que os rendeiros não vendam seus tarecos,

e esse tipo de coisa; dê manilhas de esgotos para eles, o que é ótimo.

Mas essa fazenda dos seus sonhos não dará certo - por mais caro que

você possa pagar para realizar o capricho: mais vale manter uns cães de

caça."

"Certamente," disse Dorothea, "é melhor gastar dinheiro para des-

cobrir um meio de os homens aproveitarem melhor a terra, que os sus-

tenta a todos, do que para manter cães de caça e cavalos só para galopar.

Não é pecado fazer-se pobre na realização de experiências para o bem

de todos."
Ela falou com uma energia que não seria de esperar-se em dama

assim ainda tão jovem, mas Sir James a havia interessado. Ele já estava

acostumado com isso, e elajá muitas vezes pensara que poderia incentivá-

lo a muitas boas ações, quando ele fosse seu cunhado.

Mr. Casaubon virou os olhos de modo muito acentuado para

Dorothea, nisto que ela estava falando, e pareceu observá-la sob um

ângulo novo.

"Senhoritas, como o senhor sabe, não entendem de economia polí-

tica," disse Mr. Brooke sorrindo para Mr. Casaubon. "Lembro-me de

quando estávamos todos lendo Adam Smith. Agora sim havia um livro.

Absorvi de uma só vez todas as novas idéias - a perfectibilidade huma-

na, essas coisas. Mas há quem diga que a história se move em círculos; e

GEORGE EIOT

28

isto pode ser muito bem demonstrado; eu mesmo, aliás, já o fiz. O fato

é que a razão humana pode levar-nos um pouco longe demais - e até a

ultrapassar os limites. A mim levou certa vez a uma razoável distância;

mas eu vi que não era por ali. Detive-me a tempo. Mas não de brusco.

Sempre fui a favor de um pouco de teoria: temos de ter o Pensamento;

senão, atiram-nos de volta à idade das trevas. Por falar em livros, aliás,

há a Guerra Peninsular de Southey", que estou lendo de uma sentada.

Conhece Southey?"

"Não," disse Mr. Casaubon, não acompanhando o passo da

impetuosa razão de Mr. Brooke e pensando apenas no livro. "Tenho

pouco tempo para este tipo de literatura agora. Ultimamente ando gas-

tando muito a vista sobre velhos caracteres; o fato é que preciso de um

leitor para minhas noites; mas sou muito exigente no tocante às vozes

e não consigo manter-me ouvindo um leitor imperfeito. Em certo sen-

tido, é um infortúnio: nutro-me demais das fontes interiores; vivo de-

mais com os mortos. Meu espírito é como o fantasma de uma pessoa

de outra época que perambula pelo mundo e tenta reconstruí-lo men-


talmente como um dia ele foi, a despeito das ruínas e perturbadoras

mudanças. Mas julgo necessário valer-me do máximo de cautela quan-

to à minha vista."

Era a primeira vez que Mr. Casaubon falava assim por mais tem-

po. Exprimiu-se com precisão, como se o houvessem chamado a fazer

um discurso em público; e a clareza, o equilíbrio, a cadência de sua

fala, acompanhada, de quando em quando, por um movimento com a

cabeça, sobressaíam ainda mais por seu contraste com a verbosidade

descosida do bom Mr. Brooke. Dorothea se disse que Mr. Casaubon

era o homem mais interessante que ela já tinha visto, não excetuan-

do nem mesmo Monsieur Liret, o clérigo de Vaudois que havia feito

conferências sobre a história dos waldenses.2 Reconstruir um mundo

passado, tendo em vista sem dúvida os mais altos objetivos da verda-

de, - que bom participar de um trabalho assim, dar-lhe, de alguma

forma, uma ajuda, mesmo que fosse somente segurando a luz! Tal

pensamento, que elevava, elevou-a de fato acima de seu agastamento

por ter visto ironizada sua ignorância em economia política, esta ci-

ência que, embora nunca explicada, erz lançada sobre todas as suas

luzes para extingui-las.

History of the Peninsular War (1823-1832), do poeta e ensaísta inglês Robert

Southey ( 1774-

1843), relato das lutas dos espanhóis contra Napoleão.

Seita do século XII que rejeitava a autoridade do papa e que, no século XVI,

aderiu aos

protestantes.

MIDDLEMARCH 29

"Pois então gosta de montar, não é, Miss Brooke?," Sir James en-

controu presentemente uma oportunidade para dizer. "Devo ter pensa-

do que também se interessaria um pouco pelos prazeres da caça. Se me

permitisse, gostaria de lhe mandar um cavalo castanho para a senhorita

experimentar. Foi treinado para uma dama. Pude vê-la no sábado, galo-
pando pelo morro num cavalo que era indigno de quem o montava. Meu

cavalariço trará o Corydon todos os dias aqui, basta que a senhorita

determine a que horas."

"Muito obrigada, o senhor é muito gentil. Mas eu pretendo desis-

tir de montar. Sim, não vou mais montar," disse Dorothea, impelida

a tão brusca resolução pelo pequeno incômodo que Sir James lhe cau-

sava solicitando sua atenção, quando ela queria dá-la toda a Mr.

Casaubon.

"Não, isto é um exagero," disse Sir James num tom de reprovação que

demonstrava forte interesse. "Sua irmã é dada à automortificação, não

é?" prosseguiu virando-se para Celia, que estava do seu lado direito.

`Elcho que é," disse Celia, temerosa de falar alguma coisa que desa-

gradasse à irmã, e enrubescendo da maneira mais bonita possível sobre

seu colar. "Ela gosta de desistir."

"Se isto fosse verdade, Celia, minha mania de desistir seria auto-

indulgência, e não automortificação. Mas deve haver boas razões para se

resolver não fazer o que é muito agradável," disse Dorothea.

Mr. Brooke estava falando ao mesmo tempo, mas era evidente que

Mr. Casaubon observava Dorothea, e ela tinha consciência disto.

"Exatamente," disse Sir James. A senhorita desiste por algum mo-

tivo elevado, generoso."

"Não, não exatamente. Eu não disse isto de mim mesma," respon-

deu Dorothea ruborizando-se. Ao contrário de Celia, raramente lhe

vinha o rubor à face, e quando vinha era só de raiva, ou por algum

supremo deleite. Neste momento ela sentia raiva do perverso Sir James.

Por que não dava ele atenção a Celia, não a deixava livre para ouvir Mr.

Casaubon? - Ah, se este homem tão culto pelo menos falasse, ao

invés de se permitir ser o alvo das falas de seu tio! Mr. Brooke, justa-

mente então, informava-lhe que ou a Reforma significara alguma coisa

ou não, que ele mesmo era um protestante convicto, mas que o catoli-
cismo era um fato; e, quanto à recusa de um acre de suas terras, por

parte de alguém, para uma capela católica, todos os homens necessita-

vam do freio da religião, que, propriamente falando, era o temor da

Vida Futura.

"Fiz certa vez um longo estudo da teologia," disse Mr. Brooke, como

GEORGE ELIOT

30

se explicasse seu enfoque recém-manifestado. "Conheço um pouco de

cada escola, e conheci Wilberforce" em seus melhores dias. O senhr

conhece Wilberforce?"

Mr. Casaubon disse: "Não."

"Bem, Wilberforce não chegou talvez a ser um grande pensador; mas

se eu viesse a ingressar no Parlamento, como já me foi sugerido, tomaria

assento no bloco independente, como fez Wilberforce, e iria dedicar-me

à filantropia."

Mr. Casaubon, inclinando-se, observou que era um campó muito vasto.

"Sim," disse Mr. Brooke com um leve sorriso, "mas eu tenho docu-

mentos. Faz um bom tempo que eu comecei a reunir documentos. Preci-

sam de arrumação, é fato; mas, sempre que uma questão me intrigava,

eu escrevia a alguém e obtinha resposta. Tenho documentos nos quais

me basear. A propósito, como o senhor arruma os seus documentos?"

"Em parte, nas papeleiras," disse Mr. Casaubon com um ar de esfor-

ço algo assustado.

"Ah, nas papeleiras não dá! Eu já tentei as papeleiras, mas nas

papeleiras tudo se mistura: nunca sei se um papel está no A ou no Z,."

"Gostaria, tio, que me deixasse organizar seus papéis para o senhor,"

disse Dorothea. "Eu marcaria todos eles com letras, e depois faria uma

lista de assuntos sob cada letra."

Mr. Casaubon deu um grave sorriso de aprovação e disse para Mr.

Brooke: "O senhor, como vê, tem à mão uma excelente secretária."

"Não, não," disse Mr. Brooke balançando a cabeça. "Não posso dei-
xar que as senhoritas se metam com os meus documentos, porque elas

são muito avoadas."

Dorothea sentiu-se magoada. Mr. Casaubon ia pensar que seu tio

tinha alguma razão especial para manifestar esta opinião, quando na

mente dele, entre todos os outros fragmentos que lá se achavam, a ob-

servação jazia tão levemente quanto a asa quebrada de um inseto, e qfora

uma corrente casual que a impeliu a vir pousar sobre ela.

Quando as duas moças se encontravam sozinhas na sala de visieas,

Celia disse:

"Como Mr. Casaubon é feioso!"

"Celia! Ele é um dos homens de ar mais distinto que eu já vi. É

incrível como se parece com o retrato de Locke. Seus olhos têm as mes-

mas órbitas cavas."

William Wilberforce (1759-1833), político, filantropoe escritor religioso

inglês, palali, cie

causas como a abolião da escravidão e a reforma penal.

MIDDLEMARCH 31

"Locke também tinha aquelas duas manchas brancas com pêlos?"

"Creio que sim, quando pessoas de um certo tipo olhavam para ele!"

disse Dorothea, afastando-se um pouco.

"Mr. Casaubon é tão pálido!"

"Melhor. Suponho que sua admiração vá para um homem que tenha

a pele de um cochon de lait.""

"Dodo!" exclamou Celia, olhando surpresa ao derredor. "Nunca lhe

ouvi fazer uma comparação destas."

"Por que iria eu fazê-la, antes que a ocasião surgisse? É uma compa-

ração muito boa: a correspondência é perfeita."

Miss Brooke já se entregava claramente ao descontrole, como aliás

Celia pensou.

`Acho que você está irritada, Dorothea."


"O que é triste em você, Celia, é que você olha para os seres huma-

nos como se eles fossem apenas animais sob uma toalete, e nunca vê a

grande alma, no rosto de um homem."

"Mr. Casaubon tem uma grande alma?" Não faltava a Celia um to-

que de ingênua malícia.

"Sim, creio que tem," disse Dorothea com a própria voz da deci-

são. "Tudo que vejo nele corresponde ao seu panfleto sobre Cosmologia

Bíblica."

"Ele conversa muito pouco," disse Celia.

"Não tem com quem conversar."

Célia pensou com seus botões: "Dorothea despreza Sir James

Chettam; não creio que ela o aceitasse." A seu ver, era uma pena. Ela

nunca se havia enganado quanto ao objeto de interesse do baronete. Às

vezes refletira, com efeito, que Dodo talvez nunca fizesse um marido

feliz, se ele não compartilhasse sua própria maneira de encarar as coisas;

e sufocado nas profundezas de seu coração estava o sentimento de que

sua irmã era religiosa demais para o conforto familiar. As noções e escrú-

pulos eram como agulhas esparramadas, infundindo no próximo o medo

de pisar no chão, de sentar-se ou mesmo de comer.

Quando Miss Brooke estava à mesa do chá, Sir James veio sentar-

se a seu lado, não tendo achado de forma alguma ofensivo o modo

como ela lhe respondera. Por que deveria? Julgou provável que Miss

Brooke gostasse dele, e os modos, com efeito, devem ser bem observa-

dos antes que parem de ser interpretados por concepções prévias, quer

confiantes, quer suspeitosas. Ela o tratou com toda a delicadeza, mas

Em francês no original: "leitão."

32 GEORGE ELIOT

claro está que ele teorizou um pouco sobre a ligação que almejava.

Tinha o raro mérito, feito que era de excetente mistura humana, de

saber que sua índole, mesmo largada ao descontrole, jamais colocaria

em turbulência as águas de um arroio tranqüilo: convinha-lhe portanto


a perspectiva de uma esposa à qual pudesse dizer "O que devemos

fazer?" sobre isto ou aquilo; a qual ajudasse com razões seu marido,

não deixando de estar, para tanto, altamente qualificada. No tocante à

excessiva religiosidade alegada contra Miss Brooke, ele tinha uma no-

ção muito indefinida daquilo em que consistia, e pensava que acabaria

por desaparecer com o casamento. Em suma, sentia-se em estado de

amor no lugar certo, e pronto para suportar a boa dose de predominãn-

cia que, afinal de contas, um homem sempre podia pôr por terra, quan-

do o desejasse. Sir James não tinha a menor idéia se algum dia quere-

ria pôr por terra a predominãoncia desta moça tão linda, com cuja viva-

cidade mental ele se deleítava. E por que não? A cabeça de um homem

- o que disso existe - sempre tem a vantagem de ser masculina -

como a menor bétula é de típo melhor que a maís esguia palmeira - e

até mesmo sua ignorância é de superior qualidade. Sir James pode não

ter dado origem a esta estimativa; mas a benevolente Providência for-

nece à personalidade mais claudicante um pouco de amido ou de goma

em forma de tradição.

"Resta-me a esperança de que venha a modificar sua resolução quanto

ao cavalo, Miss Brooke," disse o admirador perseverante. "Garanto-lhe

que montar ë o mais saudável dos exercícios."

"Sei disto," disse Dorothea com bastante frieza. "Acho que faria bem

a Celia - se ela se animasse a aderir."

"Mas a senhorita é uma perfeita amazona."

"Não é bem assim; tenho praticado pouco, e facilmente seria der-

rubada."

"Uma razão a mais para praticar. Todas as damas devem ser perfei-

tas amazonas, para que possam acompanhar seus maridos."

"Veja só como divergimos, Sir James. Eu já cheguei à concIusão de

que não devo ser uma perfeita amazona, e assim nunca corresponderia a

seu modelo de dama." Dorothea olhou reto para a frente e falou com fria
brusquidez, e com muito do ar de um rapaz bonito, em divertido con-

traste com a amabilidade solícita de seu admirador.

"Gostaria de conhecer suas razões para esta resolução tão cruel. Não

é possível que julgue que montar a cavalo está errado."

"É perfeitamente possível que o julgue errado para mim."

"Oh, por quê?" disse Sir James num tom mais brando de protesto.

MIDDLEMARCH 33

Mr. Casaubon se aproximara da mesa, xícara de chá na mão, e estava

ouvindo.

"Não devemos inquirir pelos motivos com curiosidade excessiva,"

interpôs ele a seu modo ponderado. "Miss Brooke sabe que é comum,

na expressão oral, eles se enfraquecerem: o aroma se mistura ao ar mais

impuro. Devemos manter longe da luz o grão que está germinando."

Dorothea corou-se de prazer e olhou agradecida para quem falava.

Ali estava um homem capaz de compreender a elevação da vida interior,

e com quem poderia haver alguma comunhão espiritual; e não só isto -

que poderia esclarecer os princípios com o conhecimento mais vasto:

um homem cuja erudição já era quase uma prova de tudo aquilo em que

ele acreditava!

As inferências de Dorothea podem parecer magnãonimas; mas real-

mente a vida jamais teria prosseguido, em qualquer período, se não fos-

se essa permissão liberal de conclusões que tem facilitado o casamento

sob as dificuldades da civilização. Alguém já pôde por acaso pinçar em

sua pequenez pilular a teia das aproximações pré-matrimoniais?

"Certamente," disse o bom Sir James. "Miss Brooke não será insta-

da a dar razões sobre as quais prefira guardar silêncio. Estou certo de

que suas razões só lhe fariam honra."

Não estava nem um pouco enciumado pelo interesse com o qual

Dorothea havia olhado para Mr. Casaubon: nunca lhe ocorrera que uma

moça a quem ele considerava fazer uma proposta de casamento pudesse

ligar para um rato-de-biblioteca sem sangue e já quase cinqüentão, a


não ser, de fato, de um modo por assim dizer religioso, como um clérigo

de certa distinção.

Contudo, já estando Miss Brooke entregue a uma conversa com

Mr. Casaubon sobre a clerezia de Vaudois, Sir James endereçou-se a

Celia, e com ela se entreteve sobre sua irmâ; falou de uma casa na

cidade, e perguntou se Miss Brooke desgostava de Londres. Longe da

irmã, Celia se exprimiu à vontade, e Sir James se disse que esta segun-

da Miss Brooke era decerto muito agradável, além de ser bem bonita,

embora não fosse, como pretendiam alguns, mais inteligente e sensata

que a irmã mais velha. Ele achava que havia escolhido a que, sob todos

os aspectos, era superior; e naturalmente um homem gosta de olhar à

frente para ter o melhor. O homem solteiro que fingisse não levar isto

em conta seria o próprio Mawworm.l

Personagem falsamente piedoso da peGa The Hypocrite (1769), de Isaac

Bickerstaffe.

CAPÍTULO III

"Say, goddess, what ensued, when Raphaël,

The affable archangel...

Eve

The story heard attentive, and was filled

With admiration, and deep muse, to hear

Of things so high and strange."

MILTON, Paradise Lost.

("Diz, ó deusa, o que se deu, quando Rafael,

O arcanjo afável...

Eva

A história ouviu atenta e se encheu

De admiração, e cisma funda, ao saber

De coisas tão elevadas e estranhas.")

MILTON, Paraíso perdido.


SE REALMENTE OCORRERA a Mr. Casaubon pensar em Miss Brooke como

uma esposa adequada para ele, as razões que poderiam induzi-la a aceitá-

lo já estavam plantadas em sua mente, e na noite do dia seguinte já

haviam dado botões e florido. Pois os dois tinham, pela manhã, tido

uma longa conversa, enquanta Celia, a quem não agradava a companhia

da palidez e das manchas de Mr. Casaubon, escapava para ir brincar no

vicariato com os filhos mal calçados, porém divertidos, do coadjut.or.

Dorothea a essa altura já havía olhado bem fundo no imensurável

reservatório da mente de Mr. Casaubon, aí vendo refletidas, em vaga f

labiríntica extensão, todas as qualidades que ela própria trazia; a elf

havia revelado bons trechos de sua experiência pessoal, assim cono delc

captara o escopo de seu grande trabalho, que era também de atraentE

MIDDLEMARCH 35

extensão labiríntica. Pois ele fora tão instrutivo quanto o "arcanjo afá-

vel" de Milton; e com algo das maneiras angelicais lhe dissera como se

havia consagrado a mostrar (o que de fato já tinham tentado antes, mas

não com a mesma profundidade, justeza de comparação e eficiência

compositiva que Mr. Casaubon pretendia) que todos os sistemas míticos

ou fragmentos míticos a errar pelo mundo eram corrupções de uma tra-

dição originalmente revelada. Uma vez dominada a posição verdadeira,

e assentado aí um pé firme, o vasto campo das construções míticas tor-

nava-se inteligível, quando não iluminado pela luz refletida das corres-

pondências. Mas ir à cata de frutos nesta grande colheita da verdade não

era trabalho leve nem rápido. Suas notas já se alongavam por uma res-

peitável coleção de volumes, mas a tarefa de coroamento seria condensar

esses resultados ainda em fase de acumulação e adequá-los, como as

primeiras safras de livros hipocráticos, a caber numa pequena prateleira.

Ao explicar isto para Dorothea, Mr Casaubon se expressara quase como

se estivesse em presença de um confrade de estudos, pois não dispunha

de dois estilos de falar: é verdade que, quando usou uma frase em grego
ou latim, deu sempre com escrupulosa atenção a tradução em inglês, o

que aliás provavelmente faria em qualquer caso. Um clérigo letrado de

provínciajá se acostumou a pensar nas pessoas com as quais se relacio-

na como "lordes, cavaleiros e outros homens nobres e dignos que não

sabem senão um acanhado latim.""

Dorothea sentiu-se de todo catívada pela enorme abrangência da con-

cepção. Aqui estava alguma coisa que não se resumia à superficialidade da

literatura da escola feminina: aqui estava um Bossuet vivo, cuja obra re-

conciliaria o conhecimento completo com a religiosidade devota; aqui es-

tava um Agostinho moderno que uniria as glórias do doutor e do santo.

A santidade não parecia menos marcada que a erudição, pois

Dorothea, ao ser impelida a abrir seu espírito sobre certos temas dos

quais não poderia falar com ninguém que já tivesse visto em Tipton,

particularmente a importância secundária das formas eclesiásticas e arti-

gos da fé em comparação com essa religião espiritual, essa submergência

do ser em comunhão com a Perfeição Divina que lhe parecia expressa

nos melhores livros cristãos das eras mais recuadas, encontrou em Mr.

Casaubon um ouvinte que a compreendeu de imediato, que lhe pôde

garantir sua concordância com esta opinião, quando devidamente tem-

perada de sensata conformidade, tendo além disso podido mencionar

exemplos históricos antes desconhecidos por ela.

Citação modificada do prólogo de Mandevílle"s Tiavels. lívro de ]ohn

Mandeville (m. em 1372).

GEORGE ELIOT

36

"Ele pensa como eu," disse Dorothea consigo mesma, "ou melhor,

pensa todo um mundo do qual meu pensamento não passa de um pobre

espelho ordinário. E seus sentimentos também, toda sua experiência -

que lago, em comparação com minhas pocinhas!"

Miss Brooke fundamentava-se em disposições e palavras sem vestí-

gios daquela hesitação tão comum às jovens de sua idade. Os signos são
pequenas coisas mensuráveis, mas suas interpretações são ilimitáveis, c

nas moças de natureza doce, ardente, todo signo tende a conjurar prodí

gios, crença, esperança, vasto como o céu e tingido por um bocado difusc

de matéria em forma de conhecimento. Nem sempre se enganam elas do

maneira grosseira; pois o próprio Sinbad pode ter dado, por sorte, corr

uma descrição verdadeira, e os raciocínios errôneos às vezes lançam po

bres mortais a conclusões corretas: partindo de uma longa distância do

ponto certo, e procedendo por voltas e ziguezagues, de quando em quan

do chegamos justamente aonde devemos estar. Como Miss Brooke fo

açodada em sua confiança, não ficou conseqüentemente claro se MI

Casaubon era indigno dela.

Ele se demorou um pouco mais do que pretendera de início, em fao

da leve pressão de um convite de Mr. Brooke, que outro chamariz não

lhe propôs senão os documentos que tinha sobre os quebra-quebras d

máquinas e a queima de medas.l Mr. Casaubon foi chamado à bibliotec

para ver tais documentos numa pilha, enquanto seu anfitrião pegava or

um ora outro e lia trechos em voz alta de modo saltitante e incertc

pulando de uma passagem inacabada a outra com um `Ah, sim, ma

aqui está!", e finalmente pondo a todos de lado para abrir o diário d

suas viagens quando jovem pelo Continente.

"Olhe aqui - aqui está tudo sobre a Grécia. Rhamnoús, as ruínas d

Ramnunte - agora o senhor é um grande grego. Não sei se já se deu a

estudo da topografia. Eu gastei um tempo infindo para escrever esta

coisas - Hélicon, veja. Aqui, veja! - `Partimos na manhã seguinte paI

o Parnasso, o Parnasso de duplo cume". Todo este volume é sobre

Grécia, sabe?," concluiu Mr. Brooke, correndo o polegar transversalmem

pela beirada das folhas, ao mostrar o livro.

Mr. Casaubon constituía uma audiência condigna, não obstante u

pouco triste; curvado no lugar certo, e evitando olhar, na medida c

possível, para tudo que fosse documentário, sem demonstrar impaciê


Alusão à quebra de máquinas por operários nas fábricas e à destruiGão de grãos

por lavrad

res, em protestos sociais generalizados na Inglaterra na época em que transcorre

a ação 

romance.

MIDDLEMARCH

37

cia nem desinteresse; pensando que um palavreado tão desconexo esta-

va associado com as instituições do país, e que o homem que o submetia

àquela grave confusão mental não só era um anfitrião atencioso, mas

também um proprietário de terras e custos rotulorum." Ou sua tolerância

foi favorecida também pela reflexão de que Mr. Brooke era o tio de

Dorothea?

Cada vez mais, sem dúvida, ele parecia inclinado a puxar conversa

com ela, a induzi-la a falar, como a própria Celia observou; e, ao olhar

para ela, era como um pálido raio de sol de inverno que um sorriso não

raro lhe iluminava o rosto. Antes de ir-se embora, no dia seguinte, e

enquanto dava uma agradável volta com Miss Brooke pelo terreiro de

cascalho, ele havia mencionado a ela as desvantagens da solidão que

sentia, a necessidade desse alegre companheirismo com o qual a presen-

ça da juventude pode atribuir mais variação e leveza aos graves instru-

mentos da maturidade. E fez esta declaração com a mesma precisão cau-

telosa de um enviado diplomático cujas palavras devessem ser ouvidas

com resultados. Com efeito, Mr. Casaubon não estava acostumado a

esperar que tivesse de repetir ou revisar seus comunicados de ordem

prática ou pessoal. Julgaria suficiente referir-se às inclinações que havia

deliberadamente exposto no dia 2 de outubro pela menção desta data; e

julgando pelos padrões de sua própria memória, que era um volume

onde um vide supra poderia evitar repetições, e não o ordinário e gasto

livro de apontamentos que só fala de escritas esquecidas. Mas neste

caso a con iança de Mr. C; " "


da, pois Dorothea ouviu 

resse de uma natureza jo

periência é uma época.

Eram três horas, con

Casaubon partiu de volta .

quilômetros de Tipton; e

se ao longo dos arbustos

pelo bosque adjacente se _

rande cão são-bernardo ios de

g 9

Surgira à sua frente a visã  ó a

eito pela

para si, e que com trêmu ., Q.  " bem-estar,

futuro visionário fosse vag ó.  tz a Providência.

no ar fresco, a cor afluiu-1

w o eição ue dantes

nossos contemporâneos pe

)uiz de paz, sob cuja guarda ficav,

o E

vida que, por breve

passadas onde, caso as

m registro que lhe possa

38 GEORGE EI.IOT

uma forma obsoleta de cesta) caiu um pouco para trás. Não sería ta(vez

caracterizá-la bem, caso omitíssemos que usava seu cabelo castanho bem

puxado e amarrado para trás com uma fita, de modo a expor-lhe o con-

torno da cabeça de um jeito audacioso, num tempo em que o gosto

público requeria que a pouquidão da natureza fosse dissimulada por

altas barricadas de cachos e ondas frisados, nunca ultrapassadas por


qualquer grande raça, exceto os habitantes das ilhas Fiji. Este era um

traço do ascetismo de Miss Brooke. Mas nada havia de uma expressão

ascética no brilho de seus olhos abertos enquanto ela fixava o caminho,

não vendo conscientemente, mas absorvendo na intensidade de seu es-

tado de espírito a solene glória da tarde com suas longas faixas de luz

por entre os renques de distantes tílias cujas sombras se tocavam umas

às outras.

Todas as pessoas, jovens ou velhas (isto é, todas as pessoas nesses

tempos ante-reformas), tomariam-na por ínteressante objeto se associas-

sem o brilho de seus olhos e faces às imagens comuns recém-despertas

do amor juvenil: as ilusões de Chloe sobre Strephon foram suficic:nte-

mente consagradas na poesia, como o encanto patético de toda confian-

ça espontânea deve ser. Miss Pippin adorando o jovem Pumpkin, e so-

nhando panoramas sem fim de um infatigável companheirismo, eis um

pequeno drama do qual nossos pais nunca se cansaram, e que foi intro-

duzido em toda a indumentária. Bastaria que Pumpkin tivesse uma figu-

ra capaz de demonstrar as desvantagens do fraque de cintura curta. para

que todos considerassem não só natural mas também necessário à per-

feição da feminilidade que uma doce menina, de imediato, se deixasse

convencer da virtude, da excepeional capacidade e, acima de tudo, da

erfeita sinceridade dele. Mas nenhuma pessoa então vivente - certa-

te ninguém nas vizinhanças de Tipton - talvez tivesse compreen-

es simpatia pelos sonhos de uma moça cujas noções sobre o casa-

coisa traíam totalmente sua cor de um entusiasmo exaltado sobre os

o Parna . um entusiasmo que era aclarado principalmente por seu

Grécia, sa que não incluía as belezuras do trousseau, nem a qualida-

pela beirada em mesmo as honras e doces alegrias da mulher madu-

Mr. Casaubo

pouco triste; curv

possível, para tudo

Alusão à quebra de máquinas po


res, em protestos sociais general,

romance.

i entrado na cabeça de Dorothea que Mr.

torná-la sua esposa, e a idéia de que viesse

numa espécie de gratidão reverente. Que bom

uase como se um mensageiro alado se

ro

beira de seu caminho e estendido a mão

tira oprimida pela indefinição que

MIDDLEMARCH

39

pairava em seu espírito, como uma bruma densa de verão, quanto ao

desejo que nutria de tornar sua própria vida grandemente eficaz. Que

poderia, que deveria ela fazer? - ela, que mal passava de uma mulher

desabrochando, porém já com uma consciência ativa e uma grande ne-

cessidade mental, incapaz de ser satisfeita por uma instrução para mo-

ças comparável às mordidinhas e juízos de um rato discursivo. Com al-

gumas prendas de estupidez e vaidade, talvez pensasse que uma jovem

cristã e de fortuna deveria encontrar seu ideal de vida em obras de cari-

dade na aldeia, no patrocínio do clero mais humilde, na leitura dos "Per-

sonagens Femininos da Escritura,"1 onde se expunha a experiência par-

ticular de Sara sob a Velha Dispensação, e a de Dorcas sob a Nova, e nos

cuidados de sua alma com seus bordados em seu próprio boudoir - ten-

do ao fundo uma perspectiva de casamento com um homem que, embo-

ra menos rigoroso que ela no tocante ao envolvimento em questões re-

ligiosamente inexplicáveis, podia ser objeto de orações e sazonalmente

exortado. Deste contentamento a pobre Dorothea estava livre. A inten-

sidade de sua inclinação religiosa, e a coerção que sobre toda sua vida

ela exercia, eram apenas um aspecto de uma natureza a um só tempo

ardente, teórica e intelectualmente conseqüente: e com uma tal nature-

za, que se debatia nas faixas de um ensino estreito, encurralada por uma
vida social que nada mais parecia a não ser um labirinto de corridas

tolas, um emaranhado de raias intramuros que jamais iam dar em parte

alguma, o resultado dece " "

exagero e incoerência. A

justificar pelo conhecim

pretensa de normas que

ainda gotejava nessa for

pudesse libertar da sua

dar-lhe a liberdade da su  , w  á.   w "

pelo verdadeiro caminhe .  w oró ., r"- o "

"vó a " " um

Aí então eu aprend

pela trilha de cavalos no

Chettam

eu pudesse auxiliá-lo m  G a r " "

a. a o gradaria.

banal em nossas vidas. , . ro  a "

mente as mais importan V    eu tio, disse

a em parte.

deria a ver a verdade pel "  s mulheres eram um

ram. E então saberia o q - o, em sua idade, acha-

era possível viver uma . , científicas sobre elas! Cá

"Female Scripture Characters (181:

enor chance que fosse.

há pressa - para você não há

GEORGE ELIOT

40

estou certa de agora estar fazendo o bem de algum modo: tudo parece

ser como partir em missão junto a um povo cuja língua eu não sei; - a

não ser que esta missão fosse a construção de casas populares condignas
- sobre o que não pode haver dúvidas. Oh, eu desejaria ser capaz de

pôr todas as pessoas de Lowick em boas moradias! Vou desenhar o má-

ximo de plantas, enquanto ainda tenho tempo."

Bruscamente Dorothea surpreendeu-se em autocensura pelo modo

presunçoso como já estava contando com acontecimentos incertos, mas

foi poupada de qualquer esforço interior para mudar a direção de seus

pensamentos pelo aparecimento de um cavaleiro a galoe numa curva

do caminho. O cavalo castanho bem tratado e os dois belos setters não

podiam deixar dúvidas de que o cavaleiro era Sir James Chettam. Ele viu

Dorothea, pulou sem perda de tempo do cavalo e, tendo-o entregue ao

seu cavalariço, avançou para ela com uma coisa branca num braço, para

a qual os dois setters latiam no maior alvoroço.

"Que alegria encontrá-la, Miss Brooke," disse ele, erguendo o cha-

péu e pondo à mostra seu cabelo louro levemente ondeado. "Um encon-

tro que abreviou o prazer que eu pretendia encontrar."

Miss Brooke não gostou da interrupção. Este baronete polido, real-

mente um marido adequado para Celia, exagerava a necessidade de se

fazer agradável para a irmâ mais velha. Mesmo um cunhado em perspec-

tiva pode ser uma opressão, se estiver sempre a pressupor um entendi-

mento muito bom com você, e concordando até mesmo quando você o

contradiz. O pensamento de que ele cometera o erro de render homena-

gens a ela mesma não poderia tomar forma: toda a atividade mental de

Dorothea se esgotara em persuasões de outro tipo. Mas no momento

ele decididamente era um importuno, e seu aperto de mão foi bem

desagrável. Ela, corando de ter o gênio açodado, e muito, respondeu ao

cumprimento com uma certa soberba.

Sir James, interpretando-lhe aquela cor mais intensa do modo mais

gratificante para si mesmo, pensou que nunca tinha visto Miss Brooke

tão bonita assim.

"Trouxe-lhe um pequeno postulante," disse ele, "ou melhor, trouxe-

o para ver se ele será aprovado antes de sua postulação ser feita." F
mostrou a coisa branca que tinha embaixo do braço, que era um mimosc

cachorrinho maltês, um dos mais inocentes brinquedos da natureza.

"Dói-me ver estas criaturas que são criadas apenas como animais de

estimação," disse Dorothea, cuja opinião se ia formando neste exatc

momento (como às opiniões acontece) sob o calor da irritação.

"Oh, por quê?" disse Sir James, nisto que eles andavam à frente.

MIDDLEMARCH 41

"Creio que a estima dada a eles nunca os torna felizes. São seres

indefesos demais: suas vidas são muito frágeis. Uma doninha ou um

camundongo que cuidam de sua própria subsistência são mais interes-

santes. Inclino-me a pensar que os animais que nos rodeiam têm almas

um pouco como as nossas, e ou bem cuidam dos seus próprios negócios

de somenos ou bem são nossos companheiros, aqui como o Monk. Já

estas criaturas são parasitas."

"Fico muito contente em saber que não lhe agradam," disse o bom Sir

James. "Por mim também nunca os criaria, mas as mulheres em geral

gostam destes cachorrinhos malteses. Ei, John, aqui, leve o cachorro, sim?"

O cãozinho objetável, cujo nariz e olhos eram igualmente pretos e

expressivos, foi posto pois fora de cena, havendo Miss Brooke decidido

que era melhor ele nem ter vindo ao mundo. Mas ela achou que era

preciso explicar.

"O senhor não devejulgar os sentimentos de Celia pelos meus. Creio

que ela aprecia estes bichinhos. Certa vez teve um minúsculo terrier do

qual gostava muito. A mim ele fazia sofrer, pois eu tinha medo de esmagá-

lo nos pés. Não tenho a vista muito boa, sabe?"

"Tem sua própria opinião sobre tudo, Miss Brooke, e é sempre uma

boa opinião."

Que resposta era possível a um cumprimento tão tolo?

"Sabe, eu lhe invejo isto," disse Sir James, enquanto continuavam

andando no ritmo algo acelerado que Dorothea impunha.


"Não entendo muito bem o que quer dizer."

"Seu poder de formar uma opinião. Sou capaz de formar uma opi-

nião sobre as pessoas. Sei quando eu gosto das pessoas. Mas sobre ou-

tras coisas, sabe, freqüentemente tenho dificuldade em decidir. Ouvem-

se coisas muito sensatas ditas de lados opostos."

"Ou que parecem sensatas. Talvez nem sempre discriminemos entre

a sensatez e um disparate."

Dorothea sentiu que havia sido um pouco rude demaís.

"Exatamente," disse Sir James. "Mas a senhorita parece ter o poder

da discriminação."

"Pelo contrário, muitas vezes sou incapaz de decidir. Mas isto por

questão de ignorância. A conclusão correta está sempre lá, embora eu

não consiga enxergá-la."

"Creio que há poucos que pudessem enxergá-la mais prontamente.

Sabe, ainda ontem Lovegood me dizia que a melhor concepção do mun-

do de planta para casa popular é a sua - surpreendente numa jovem, no

entender dele. A senhorita teria um real genus, para lembrar a expressão

42 GEORGE ELIOT

que usou. E ele disse ser de seu desejo que Mr. Brooke construísse um

novo conjunto de casas, embora parecesse achar pouco provável que seu

tio concordasse com isto. Sabe que é uma das coisas que eu gostaria de

fazer - quero dizer, em minha própria propriedade? Eu ficaria tão con-

tente de executar esta sua planta, se ma mostrasse! Naturalmente é afun-

dar dinheiro; e é por isto que lhe fazem objeções. Os trabalhadores nun-

ca podem pagar um aluguel que corresponda. Mas, afinal de contas, vale

a pena fazer."

"Vale a pena sim! vale a pena mesmo," disse Dorothea com energia,

esquecendo-se de suas ligeiras irritações anteriores. `Achò que merece-

mos ser expulsos a chicotadas de nossas belas casas - todos nós que

deixamos os trabalhadores viverem nessas pocilgas que vemos à nossa

volta. A vida em casas populares poderia ser mais feliz que a nossa, se
elas fossem casas de verdade, adequadas a seres humanos dos quais

esperamos afeições e deveres."

"Mostrar-me-ia a senhorita sua planta?"

"Sim, certamente. Ouso dizer que tem muitas falhas. Mas eu exami-

nei todas as plantas de casas populares no livro de Loudon," e selecionei

o que aparentemente são as melhores coisas. Oh, que felicidade seria

criar o modelo por aqui! Penso que, ao invés de Lázaro no portão, deve-

ríamos pór as casínholas-pocilga fora do portão do parque."

Dorothea agora estava no auge da alegria. Sir James, como seu cunha-

do, construindo casas-modelo em sua propriedade, e depois, quem sabe,

outras sendo construídas em Lowick e, em imitação, cada vez mais nou-

tros lugares - seria como se o espírito de Oberlín2 tívesse passado sobre

as paróquias para tornar bela a vida da pobreza!

Sir James viu todas as plantas e levou uma consigo, para conversar a

respeito com Lovegood. Consigo levou também uma impressão compla-

cente de que ele andava fazendo grandes progressos na consideração em

que Miss Brooke o tínha. O cachorrinho maltês não foi of"erecido a Celia;

omissão na qual Dorothea pensou depois com surpresa; embora se res-

ponsabilizasse por isto. Ela estivera a absorver toda a atenção de Sir

James. Mas af nal era um alívio que não houvesse cachorrinhos para

pisar-se em cima.

Celia estava presente, quando as plantas foram examinadas, e ob-

servou a ilusão de Sir James. "Ele pensa que Dodo liga para ele, e ela sé

"]ohn C. Loudon (1783-1843), autor de manuais de agricultura e construções

rurais.

ZJohann Friedrich Oberlin (1740-1826), pastor luterano da Alsácia, conhecido por

sua dedicação

aos pobres.

MIDDLEMARCH 43

liga para suas plantas. No entanto, não estou certa de que ela o recusas-
se, se pensasse que ele a deixaria cuidar de tudo e pôr suas idéias todas

em prática. E quão pouco à vontade ficaria Sir James! Eu não agüento

essas idéias."

Entregar-se a este desagrado era um luxo particular de Celia. Não o

ousava confessar à irmã por uma declaração direta, pois isto seria o mes-

mo que abrir-se a uma demonstração de que ela estava de algum modo

em guerra contra toda a bondade. Mas, em oportunidades seguras, tinha

um método indireto de fazer sua sabedoria negativa falar a Dorothea e

chamá-la a descer de seu estado de espírito rapsódico lembrando-lhe

que as pessoas só estavam olhando, e não ouvindo. Celia não era impul-

siva: o que tinha a dizer sempre podia esperar, e sempre provinha dela

com a mesma uniformidade firme de um staccato. Quando as pessoas

falavam com energia e ênfase ela simplesmente observava suas

fisionomias e expressões. Nunca pôde compreender como pessoas bem

educadas se permitiam cantar e abrir a boca da maneira ridícula que é

requerida para este tipo de exercício vocal.

Não se passaram muitos dias antes de Mr. Casaubon fazer uma

visita matinal, durante a qual foi convidado de novo para jantar e pas-

sar a noite, na semana seguinte. Dorothea teve assim mais três conver-

sas com ele, e convenceu-se de que suas primeiras impressões eram

corretas. Ele era tudo o que de início ela o imaginara ser: qualquer

coisa que dizia, parecia espécime de alguma jazida, ou a inscrição na

porta de um museu que poderia dar acesso aos tesouros de idades

passadas; e esta confiança na saúde mental de Mr. Casaubon era ainda

mais profunda e mais atuante em sua inclinação porque agorajá estava

óbvio que as visitas que ele fazia eram por causa dela. Este homem

realizado condescendia em pensar numa mulher tão jovem e suportava

conversar com ela, não com absurdos cumprimentos, mas sim apelos à

sua compreensão e, às vezes, até com correções instrutivas. Que com-

panhia maravilhosa! Mr. Casaubon sequer parecia ter consciência de

que existissem banalidades, e nunca desfiava essa conversa oca que é a


dos homens fúteis, tão aceitável quanto um bolo de casamento há muito

tempo guardado e já com cheiro de armário. Falava daquilo pelo que

tinha interesse, se não ele ficava em silêncio, inclinando-se com triste

civilidade. Para Dorothea, havia nisto uma autenticidade adorável, e

uma abstinência religiosa da artificialidade que esgota a alma em es-

forços de fingimento. Pois pela elevação religiosa de Mr. Casaubon,

posto acima dela, tinha o mesmo reverente respeito que por sua erudi-

ção e intelecto. Ele assentia com as expressões de devoto sentimento

GEORGE EI.IOT

44

dela, e em geral com uma citação adequada; permitiu-se até dizer que

passara por alguns conflitos espirituais em sua juventude; Dorothea

viu que aqui, em suma, poderia contar com a simpatia e compreensão

de um guia. Num - e só num - de seus temas prediletos desapontou-

se. Mr. Casaubon aparentemente não se interessava pela construção

de casas populares e, como que colocando um padrão muito alto, des-

viou a conversa para a acomodação extremamente apertada que se

impunha nas moradias dos antigos egípeios. Quando se foi, aquele

desinteresse dele fez alojar-se em Dorothea certa agitação; e sua men-

te já estava exausta, de tantos argumentos provindos das variáveis con-

dições climáticas que modificam as necessidades humanas, e da reco-

nhecida crueldade dos déspotas pagãos. Não convinha instar com Mr.

Casaubon sobre tais argumentos, quando ele viesse outra vez? Refle-

tindo melhor ela se disse que era muita pretensão querer pedir-lhe

atenção para esse assunto; ele não se oporia a que ela se ocupasse

disso nos momentos de folga, como outras mulheres esperavam ocu-

par-se dos seus bordados e roupas, - não proibiria isso quando - e

Dorothea sentiu uma ponta de vergonha ao detectar em seu íntimo

tais especulações. Mas seu tio havia sido convidado para ir a Lowick e

lá passar uns dias: seria razoável supor que Mr. Casaubon apreciasse a

companhia de Mr. Brooke em si mesma, com ou sem documentos?


Entrementes este pequeno desapontamento fê-la deliciar-se ainda

mais com a disposição de Sir James Chettam. Pronto a erguer as dese-

jadas melhorias, ele passou a vir com muito mais freqüência que Mr.

Casaubon, e Dorothea deixou de achá-lo desagradável, posto que se

mostrasse tão cheio de bons propósitos; pois ele já havia discutido

com muita habilidade prática as estimativas de Lovegood, e era encan-

tadoramente dócil. Ela propôs construir duas casas para as quais trans-

ferir duas famílias de suas velhas choupanas, que então seriam

destruídas, de modo a que nos mesmos lugares se construíssem casas

novas. Sir James disse: "Exatamente," uma observação que ela rece-

beu muitíssimo bem.

Certamente esses homens que tinham tão poucas idéias espontâ-

neas poderiam ser membros muito úteis da sociedade sob uma boa

orientação feminina, se acaso dessem sorte ao escolher suas cunhadas!

É difícil dizer se havia ou não um pouco de premeditação na cegueira

permanente dela à possibilidade de que outra espécie de escolha esti-

vesse em questão em relação à sua pessoa. Mas sua vida estava agora

repleta de esperança e ação: ela não só ia pensando em seus planos,

como também baixando doutos volumes da biblioteca e lendo às pres-

MIDDLEMARCH

45

sas muitas coisas (a fim de ser um pouco menos ignorante ao conversar

com Mr. Casaubon), ao mesmo tempo em que era assaltada por

questionamentos de consciência quanto a estar exaltando além da conta

essas pobres ações e contemplando-as com aquela auto-satisfação que

era a sentença final da ignorância e da insensatez.

CAPÍTULO IV
"Ist Gent. Our deeds are fetters that we forge ourselves,

2nd Gent. Ay, truly: but I think it is the world

That brings the iron."

"1: Sr. Nossas ações são grilhões que nos forjamos.

2: Sr. Sim, verdade: mas eu acho que é o mundo

Que traz o ferro."t

"SIR JAMES PARECE decidido a fazer tudo o que você quiser," disse Celia,

enquanto elas voltavam de carrruagem para casa, após uma inspeção ac

novo local de construção.

"Ele é ótima pessoa, e mais sensato do que se poderia pensar," dissf

Dorothea irrefletidamente.

"Você quer dizer que ele tem cara de tolo?"

"Não, não," dísse Dorothea, recompondo-se e pousando a mão ns

irmâ um momento, "mas não fala igualmente bem de todos os assun

tos."

"Tendo a pensar que ninguém o faz, a não ser as pessoas desagradá

veis," disse Celia, com sua gabarolice costumeira. "Deve ser terrível vi

ver com gente assim. Já pensou só? no café da manhã, e sempre!"

Dorothea riu. "Oh, Kitty, você é uma criatura fantástica!" E pego

no queixo de Celia, predisposta agora a achá-la muito cativante e graci

osa - com tudo para ser doravante um querubim eterno e, se não foss

doutrinalmente errado dizer assim, pouco mais necessitada de salvação

do que um esquilo. "É claro que ninguém precisa estar falando bem

Esta e as demais epígrafes não identificadas que se seguem são de autoria da

própria Geort

Eliot.

MIDDLEMARCH

47

tempo todo. Só que as pessoas, quando tentam falar bem, revelam a

capacidade de suas mentes."

"Você quer dizer que Sir James tenta mas falha."


"Eu estava falando de modo geral. Mas por que ficar-me catequizando

sobre Sir James? Agradar-me não é o objetivo da vida dele."

"Oh, Dodo, você realmente acredita nisto?"

"Sem dúvida. Ele pensa em mim como uma futura irmã - e é tudo."

Dorothea nunca havia insinuado isto antes, esperando, por certa timi-

dez em tais casos que era comum às duas irmãs, que o assunto viesse a

ser suscitado por algum fato decisivo. Celia corou, mas disse logo:

"Por favor, não cometa mais este erro, Dodo. Outro dia a Tantripp

quando estava escovando meu cabelo, disse que o cavalariço de Sir James

tinha sabido pela criada de Mrs. Cadwallader que Sir James ia-se casar

com a mais velha das irmãs Brooke."

"Como você permite que a Tantripp lhe conte um boato destes,

Celia?" disse Dorothea, indignada, e com mais raiva ainda porque deta-

lhes que em sua memória estavam recolhidos ao sono eram despertados

agora pela indesejável revelação. "Você há de lhe ter feito perguntas. É

degradante!"

"Não vejo nada de mais em que a Tantripp se ponha a conversar

comigo. É melhor ouvir o que as pessoas dizem. Você bem sabe os erros

que comete por se agarrar às idéias. Estou certa de que Sir James preten-

de fazer-lhe uma proposta; e ele acredita que você o aceitará, principal-

mente porque em relação aos seus planos você já se mostrou tão satis-

feita com ele. E o titio também - sei que ele está contando com isto.

Todo mundo pode ver que Sir James está muito enamorado de você."

A revulsão no espírito de Dorothea foi tão forte e dolorosa que as

lágrimas brotaram e fluíram copiosamente. Seus diletos planos, todos

eles, tornaram-se uma só amargura, e com desgosto ela pensou na ilu-

são de Sir James julgando que ela o reconhecia como seu pretendente.

Por causa de Celia, sua aflição era maior ainda.

"Como ele pôde pensar nisto?" explodiu ela, a seu modo mais im-
petuoso. "Nunca me pus de acordo quanto a nada com ele, a não ser as

casinhas: antes, aliás, mal fui polida ao tratá-lo."

"É, mas tem estado tão contente com ele, desde então, que ele pas-

sou a se sentir muito seguro de que você está apaixonada por ele."

`Apaixonada por ele, Celia? Como você pode empregar expressões

tão odiosas assim?" disse Dorothea, no auge da exaltação.

`llto lá, Dorothea, suponho que o certo seja você estar apaixonada

pelo homem que aceitaria por marido."

48 GEORGE EL.IOT

"É uma ofensa à minha pessoa dizer que Sir James pudesse pensar

que eu estava apaixonada por ele. Além disso, não é a expressão correta

para o sentimento que eu deveria ter em relação ao homem que fosse

aceïtar como marido."

"Bem, sinto muito, por causa de Sir James. Achei que era bom dizer-

lhe isto, porque você já ia indo como sempre vai, nunca olhando muito

bem onde está, e pisando no lugar errado. Você sempre vê o que nin-

guém mais vê; é impossível satisfazê-la; e no entanto nunca vê o óbvio.

É o seu jeito de ser, Dodo." Algo decerto dava a Celia inusual coragem;

pois ela não poupava a irmâ, à qual ocasionalmente temià. Quem pode

dizer que justas críticas Murr, o gato, talvez esteja fazendo sobre nós,

seres de especulação maís ampla?

"Dói muito," disse Dorothea, sentindo-se açoitada. "Não posso mais

dedicar-me às casas. É preciso que eu seja descortês com ele. Devo di-

zer-lhe que não terei mais nada a ver com elas. Dói muito mesmo." Seus

olhos encheram-se outra vez de lágrimas.

"Espere um pouco. Pense nisto. Como você sabe, ele vai-se afastar

por um ou dois dias para ir visitar a irmâ dele. Não haverá mais ninguém

além de Lovegood." Celia não pôde deixar de enternecer-se. "Pobre

Dodo," prosseguiu num amistoso staccato. "É um duro golpe: sua distra-

ção favorita é desenhar plantas."

"Distrafão desenhar plantas! Vocé pensa que é apenas deste modo


infantíl que eu me preocupo com casas para os meus semelhantes? Pos-

so, sim, cometer erros. Como será alguém capaz dejamais fazer alguma

coisa nobremente cristã, vivendo entre pessoas com pensamentos tão

fúteis?"

Nada mais foi dito: Dorothea estava muito descontrolada para. recu-

perar a calma e mostrar por seu comportamento que admitia algum errc

de sua parte. Predispunha-se antes a acusar a intolerável estreiteza e 

consciência obtusa da sociedade ao redor: e Celia já não era mais c

querubim eterno, mas um espinho em seu espírito, uma incrédula frívo

la, pior do que qualquer presença desencorajadora na "Viagem do Pere

grino."" A distração de desenhar plantas! Que valia a vida - que grand

fé era possível quando todo o efeito das ações de uma pessoa podia se

reduzido a uma simplificação assim tão grosseira? Quando desceu d

carruagem, ela tinha os olhos vermelhos, as faces pálidas. Era a imager

do sofrimento, e seu tio, que a recebeu logo na entrada, só não se alai

mou porque Celia, por achar-se ao lado dela com ar tão belo e faceirc

"The Pilgrim"s Progress (1678), do escritor inglês ]ohn Bunyan (1628-1688).

MIDDLEMARCH 49

levou-o a concluir de imediato que as lágrimas de Dorothea tinham ori-

gem em sua religiosidade excessiva. Durante a ausência das moças ele

havia retornado de uma ida à cidade para cuidar de uma petição para o

indulto a um criminoso.

"Bem, minhas queridas," disse éle gentilmente quando elas foram

beijá-lo, "espero que nada de desagradável tenha acontecido enquanto

estive fora."

"Não, meu tio," disse Celia, "apenas fomos a Freshitt dar uma olha-

da nas casas. Pensávamos que estivesse de volta para o almoço."

"Passei por Lowick para almoçar - ah, é, vocês não sabiam que eu

viria por Lowick! E eu trouxe uns panfletos para você, Dorothea - na

biblioteca, sabe?; estão na mesa da biblioteca."


Foi como se uma corrente elétrica percorresse subitamente Dorothea,

transportando-a do desespero à expectativa. Eram panfletos sobre a Igreja

primitiva. E ela, desvencilhando-se da opressão de Sir James, Tantripp,

Celia, rumou direto à biblioteca. Celia foi para cima. Um recado ainda

reteve ali Mr. Brooke; ao retornar à biblioteca, ele encontrou Dorothea

sentada e já imersa num dos panfletos, que continha alguma anotação à

margem por Mr. Casaubon, - e absorvendo-o com a mesma intensida-

de com que teria absorvido o refrescante perfume de um buquê depois

de uma caminhada quente, seca, exaustiva.

Lá ia ela se afastando de Tipton e Freshitt, e de sua própria e triste

tendência a pisar no lugar errado, em seu caminho para a Nova Jerusalém.

Mr. Brooke sentou-se em sua poltrona, espichou as pernas para o

fogo, onde uns tições que haviam desabado esparramavam-se por entre

os cachorros numa prodigiosa massa de brilhantes partículas, e esfregou

as mãos levemente, olhando para Dorothea de um jeito que era muito

meigo, porém neutro e pachorrento também, como se nada de especial

ele tivesse a dizer. Dorothea fechou seu panfleto, tão logo se deu conta

da presença do tio, e levantou-se como se fosse sair. Ter-se-ia normal-

mente interessado pelas misericordiosas providências do tio em benefí-

cio do criminoso, mas sua recente agitação a deixara bem distraída.

"Eu voltei por Lowick, sabe," disse Mr. Brooke, não como se tivesse

alguma intenção de impedir-lhe a saída, mas aparentemente por causa

de sua costumeira tendência a dizer o que havia dito antes. Este princí-

pio fundamental da fala humana era ostensivamente demonstrado em

Mr. Brooke. `Almocei lá e vi a biblioteca de Casaubon e esse tipo de

coisa. Vem vindo aí um vento forte. Não quer sentar-se, querida? Você

parece estar com frio."

Dorothea sentiu-se muito inclinada a aceitar o convite. Às vezes,

50 GEORGE ELIOT

quando não se tornava exasperante, o jeito descansado de seu tío enca-

rar as coisas até que acalmava um pouco. Ela tirou o xale e o chapéu e se
sentou diante dele, feliz com o fogo, mas erguendo à guisa de tela suas

mãos tão bonitas, para proteger-se do brilho. Não eram finas, suas mãos,

nem pequenas; eram mãos femininas, matemais, poderosas. E ela pare-

cia mantê-las soerguidas em propiciação por seu desejo apaixonado de

saber e pensar, que nos meios inóspitos de Tipton e Freshitt tinha re-

dundado sornente em pranto e olhos vermelhos.

Veio-lhe então à lembrança o criminoso condenado. "Que notícias o

senhor trouxe do ladrão de ovelhas, titio?"

"Ah, o coitado do Bunch? - bem, tudo indica que não há como O

salvarmos - vão enforcá-lo."

Reprovação e compaixão se fundiram na expressão do rosto de

Dorothea.

"Enforcá-lo, sabe," disse Mr. Brooke com um resignado meneio.

"Pobre Romilly!" ele nos teria ajudado. Eu conhecia o Romilly. Casaubon

não conhecia o Romilly O Casaubon vive meio enterrado nos livros,

não é?"

"Quando um homem se dá a grandes estudos e está escrevendo uma

grande obra, deve naturalmente abster-se de um muito intenso conví-

vio. Como pode ele sair travando conhecimentos por aí?"

"É verdade. Mas o homem desanima, sabe? Eu também sempre fui

um celibatário, mas tenho uma tal disposição que nunca me entreguei

ao desânimo; meu destino foi sempre rodar por toda parte e provar de

tudo. Nunca me entreguei ao desânimo: mas vejo que Casaubon se en-

trega, sabe? Ele precisa de uma companheira - uma companheira, sabe?"

"Seria uma grande honra para qualquer uma ser sua companheira "

disse Dorothea, com muita energia.

"Você gosta dele, não é?" disse Mr. Brooke, sem demonstrar surpre-

sa ou qualquer outra emoção. "Bem, eu conheço o Casaubon há dez

anos, desde que ele veio para Lowick. Mas nunca consegui extrair-lhe

nada -nenhuma idéia, sabe? No entanto é um homem destacado e que

ainda pode ser bispo - esse tipo de coisa, sabe, se Peel continuar nc
cargo. E ele pensa muito bem de você, querida."

Dorothea nem conseguia falar.

`H verdade é que ele pensa muitíssimo bem a seu respeito. E comc

fala incomumente bem - o Casaubon! Alongou-se comigo sobre su

"Sír Samuel Romílly (1757-l818), polítíco ínglës que se empenhou pela reforma da

legíslação

criminal.

MIDDLEMARCH S1

menoridade, e eu, em suma, prometi que ia falar com você, se bem lhe

dissesse que a meu ver não havia muitas chances. Fui obrigado a dizer-

lhe isto. Disse, minha sobrinha é muito jovem, e esse tipo de coisa. Mas

não achei necessário entrar em grandes detalhes. Enfim, para encurtar a

conversa, o fato é que ele me pediu permissão para fazer a você uma

proposta de casamento - de casamento, sabe," disse Mr. Brooke, com

seu meneio explanatório de cabeça. "Achei que era melhor lhe dizer,

minha querida."

Ninguém teria detectado a menor ansiedade nos modos de Mr.

Brooke, mas realmente ele queria saber alguma coisa do que a sobrinha

pensava, para que, havendo necessidade de eventuais conselhos, pudes-

se dá-los a tempo. Era genuinamente bondoso o sentimento ao qual,

como magistrado que absorvera tantas idéias, ele podia dar espaço. Não

tendo Dorothea falado logo, Mr. Brooke repetiu: `Achei que era melhor

lhe dizer, minha querida."

"Muito obrigada, meu tio", disse Dorothea, num tom claro e sem

hesitação. "Fico muito agradecida a Mr. Casaubon. Se ele me fizer um

pedido, eu o aceitarei. Admiro-o e respeito-o mais que a qualquer ho-

mem que já conheci."

Mr. Brooke fez uma ligeira pausa, antes de dizer em voz baixa, alon-

gando-se ao máximo: `E1h?... Bem! Ele é um bom partido, sob certos

aspectos. Mas, pensando bem, Chettam também é um bom partido. E


nossas terras se limitam. Nunca hei de interferir com sua vontade, mi-

nha querida. As pessoas devem decidir por si mesmas em relação ao

casamento, e esse tipo de coisa - mas até um certo ponto, não é mes-

mo? Eu sempre disse isto, até um certo ponto. Quero é que você se case

bem; e tenho boas razões para crer que Chettam quer-se casar com você.

É uma hipótese, sabe?"

"Impossível que algum dia eu me torne esposa de Sir James Chettam,"

disse Dorothea. "Se ele pensa em se casar comigo, está cometendo um

grande erro."

`Aí é que está. A gente sempre se engana. A meu modo de ver Chettam

seria justamente o tipo de homem de que uma mulher se agradaria."

"Peço não mencioná-lo de novo sob este prisma, meu tio," disse

Dorothea, sentindo que sua recente irritação já revivia em parte.

Mr. Brooke, surpreso, sentiu por sua vez que as mulheres eram um

tema inesgotável de estudo, já que nem ele mesmo, em sua idade, acha-

va-se numa situação perfeita para predições científicas sobre elas! Cá

estava um homem como Chettam sem a menor chance que fosse.

"Bem, mas Casaubon, vejamos. Não há pressa - para você não há

52 GEoRcE ELtoT

pressa. Cada ano há de pesar mais um pouco sobre ele, não é? Como

você sabe, ele já passa dos quarenta e cinco. Eu diria que é bem uns

vinte e sete anos mais velho do que você. Sem dúvida, - se você gosta

de erudição e prestígio, e esse tipo de coisa, não podemos ter tudo. E a

situação financeira dele é boa - ele tem uma bela propriedade indepen-

dente da Igreja - tem uma boa renda. Só que não é mais jovem e, não

convém que eu o oculte de você, querida, penso que a saúde dele não é

Iá das melhores. Nada mais há que eu saiba contra ele."

"Eu não gostaria de ter um marido mais ou menos da mesma idade

que eu," disse Dorothea, com grave decisão. "Gostaria de um marido

que estivesse acima de mim pelos conhecirnentos gerais e a capacidade

de julgamento."
Mr. Brooke repetiu seu controlado "f1h? - Eu pensava que você

tivesse mais opiniões próprias do que a maioria das moças. Pensava que

você prezasse mais suas próprias opiniões - que tivesse mais apreço

por elas, sabe?"

"Não consigo imaginar-me vivendo sem algumas opiniões, mas gos-

taria de ter boas razões para tê-las, e um homem sábio poderia ajudar-

me a ver que opiniões têm o melhor fundamento, ajudando-me também

a viver de acordo com elas."

"É verdade. Você não poderia colocar melhor a questão - não po-

deria, antecipadamente, colocá-la melhor Mas as coisas são muito es-

tranhas, sabe," prosseguiu Mr. Brooke, cuja consciência estava realmen-

te determinada a levá-lo a fazer o melhor possível para sua sobrinha,

nesta ocasíão. "E1 vida não está vazada num molde - não se traça por

Iinhas, nem por normas, e esse tipo de coisa. Eu mesmo nunca me casei,

e isto será até melhor para você e seu futuro marido. O fato é que eu

nunca amei ninguém bastante para me pôr, por sua causa, neste laço.

Porque é um laço, não é? Veja bem, há o gênio, a questão do gênio - e

um marido gosta de ser o mestre."

"Sei que devo contar com desafos, meu tio. O casamento impõe

grandes obrigações. Nunca o encarei como uma simples questão de con-

forto pessoal," disse Dorothea.

"Bem, você não é dada à ostentação, não liga para bailes, jantares,

uma casa suntuosa, esse tipo de coisa. Vejo que o modo de vida de

Casaubon talvez combine mais com você que o de Chettam. Decida pois

como quíser, mínha querïda. Eu jamaís críaria obstáculos para Casaubon;

fui logo dizendo isto; pois nunca se sabe como as coisas vão acabar. Você

não tem os mesmos gostos que as moças costumam ter; e um religioso e

intelectual - que pode até vir a ser bispo - esse tipo de coisa - talve

MIDDLEMARCH 53

combine mais com você. Chettam é um bom sujeito, tem um bom cora-
ção, como você sabe; mas não é muito chegado às idéias. Eu, quando

tinha a idade dele, era. Agora a vista de Casaubon, não sei não. Acho

que ele a estragou de tantas leituras.

"Eu ficaria ainda mais feliz, tio, quanto mais razões houvesse para

ajudá-lo," disse Dorothea com ardor."

"Você já tem sua decisão tomada, pelo que estou vendo. Bem, que-

rida, o fato é que eu tenho uma carta para você aqui no bolso." Mr.

Brooke entregou a carta a Dorothea e, nisto que ela se levantava para

sair, acrescentou: "Não é preciso se precipitar, querida. Pense bem sobre

isto, não é?"

Quando Dorothea o deixou, ele refletiu que sem dúvida fora muito

duro ao falar: colocara-lhe os riscos do casamento de maneira muito

alarmante. Mas era de seu dever fazê-lo. Quanto às pretensões de ser

sensato para com os jovens, - nenhum tio, por mais que tivesse viajado

na juventude, absorvido as novas idéias e jantado com celebridades já

falecidas, podia ter a pretensão de saber que tipo de casamento daria

eventualmente certo para uma moça que preferia Casaubon a Chettam.

Em suma, a mulher era um problema que, posto que a mente de Mr

Brooke se sentisse incapaz diante dele, não podia ser menos complicado

que as revoluções de um sólido irregular.

CAPITULO V

"Hard students are commonly troubled with gowts, catàrrhs,

rheums, cachexia, bradypepsia, bad eyes, stone, and collick,

crudities, oppilations, vertigo, winds, consumptions, and

all such diseases as come by over-much sitting: they are

most part lean, dry, ill-coloured... and all through

immoderate pains and extraordinary studies. If you will not

belíeve the truth of thís, look upon great Tostatus and Tho-

mas Aquinas" works; and tell me whether those men took


pains."

- BURTON, Anatomy of Melancholy.

("Os que estudam muito são comumente incomodados por

gota, gripes, dores reumáticas, caquexia, bradipepsia, vista

má, cálculos e cólicas, cruezas, opilações, vertigem, flatu-

lência, tísica pulmonar e todas essas doenças que proce-

dem do manter-se demasiadamente sentado: em sua maio-

ria eles são magros, chupados, descorados... e tudo em vir-

tude de esforços imoderados e extraordinários estudos. Se

você não quiser acredítar na verdade dísto, veja as obras do

grande Tóstato e de Tomás de Aquino; e diga-me então se

não foi grande o esforço que estes homens fizeram.")

- BURTON, Anatomia da melaneolia.

EsTA ERA A carta de Mr. Casaubon:

ESTIMADA MISS BROOKE, - É com a permissão de seu tutor que

lhe escrevo sobre um tema que me ocupa como nenhum outro o

coração. Acredito não estar enganado ao reconhecer alguma cor-

MIDDLEMARCH

respondência mais profunda que a de datas no fato de uma cons-

ciência de necessidade em minha própria vida ter surgido con-

temporaneamente à possibilidade de eu travar relações com a Se-

nhorita. Pois na primeira hora em que a vi, tive a impressão de sua

eminente e quiçá exclusiva adequação a preencher tal necessidade

(vinculada, devo dizer, a uma atividade das afeições que nem mes-

mo as preocupações de um trabalho muito especial para ser aban-

donado poderia ininterruptamente dissimular); e cada sucessiva

oportunidade de observação deu à impressão profundidade ainda

maior, convencendo-me mais enfaticamente daquela adequação que

eu havia preconcebido, e assim evocando de modo mais decisivo as

afeições às quais somente agora me refiro. Nossas conversas, pen-


so, deixaram-lhe suficientemente claro o teor de minha vida e pro-

pósitos: um teor inadequado, sei muito bem, à ordem mais co-

mum das mentes. Mas em sua pessoa eu discerni uma elevação de

pensamento e uma capacidade de devoção que até então não me

ocorrera ser compatível nem com a primeira floração dajuventude

nem com estes encantos do sexo dos quais se pode dizer que ao

mesmo tempo conquistam e conferem distinção quando combina-

dos, como notavelmente estão na Senhorita, com as qualidades

mentais acima indicadas. Estava além de minha esperança, confes-

so, encontrar esta rara combinação de elementos tão atraentes

quanto sólidos, adaptados a fornecer ajuda nos labores mais gra-

ves e a aspergir suas graças sobre as horas de ócio; e, não fosse o

fato de minha apresentação à Senhorita (que, permita-me dizê-lo

outra vez, não creio ser superficialmente coincidente com necessi-

dades prefiguradas, mas sim provídencialmente relacionada a elas

como etapas voltadas para a consecução de um plano de vida),

presumivelmente eu deveria continuar até o fim sem qualquer ten-

tativa de buscar numa união matrimonial um alívio para a solidão

que me oprime.

Tal é, estimada Miss Brooke, a declaração acurada dos meus

sentimentos; e é confiante em sua plena indulgência que me aven-

turo a perguntar-lhe agora o quanto hão de ser os seus próprios de

natureza a confirmar meu feliz pressentimento. Ser aceito pela

Senhorita como seu marido e guardião terreno de seu bem-estar,

eis o que eu consideraria a mais alta das dádivas da Providência.

Em retorno posso oferecer-lhe ao menos uma afeição que dantes

nunca se gastou e a fiel consagração de uma vida que, por breve

que venha a ser ao depois, não tem páginas passadas onde, caso as

queira virar, a Senhorita encontre algum registro que lhe possa

55

56 GEORGE ELIOT
eventualmente causar grande desgosto ou vergonha. Aguardo a

expressão de seus sentimentos com uma ansiedade que competi-

ria à sabedoria (se ela fosse possível) distrair com um labor mais

árduo que o costumeiro. Mas nesta ordem de experiência ainda

sou jovem, e na expectativa de uma possibilidade desfavorável não

posso senão sentir que a resignação à solitude há de ser mais

difícil após a temporária iluminação da esperança. Em qualquer

dos casos, afianço-lhe a minha devoção mais sincera,

EDWARD CASAUBON.

Dorothea tremia enquanto leu esta carta; depois caiu de joelhos,

enterrou o rosto nas mãos e começou a chorar. Rezar não podia; sob o

ímpeto de uma solene emoção na qual os pensamentos se tornavam

vagos e as imagens flutuavam incertas, não podia senão lançar-se, com

uma sensação infantil de confiança, no regaço da consciência divina que

lhe amparava a própria. Permaneceu nesta atitude até a hora de se vestir

para o jantar.

Como poderia ocorrer-lhe examinar a carta, olhá-la criticamente como

uma declaração de amor? Toda sua alma foi possuída pelo fato de que

uma vida mais ampla estava a se abrir diante dela: era uma neófita a

ponto de ingressar num grau mais alto de iniciação. Teria de ter espaço

para as energias que se revolviam intranqüilamente sob a obscuridade e

pressão de sua própria ignorância e o fútil mas peremptório caráter dos

hábitos do mundo.

Agora ela seria capaz de devotar-se a obrigações de vulto, contudo

bem definidas; ser-lhe-ia permitido agora viver continuamente à luz de

uma inteligência que ela podia reverenciar. A esta esperança se mesclava

decerto o brilho de um orgulhoso deleite - a alegre surpresa de uma

jovem ao ser escolhida pelo homem que sua própria admiração já esco-

lhera. Toda a paixão de Dorothea transfundia-se através de um espírito

que lutava por uma vida ideal; a radiância de sua meninice transfigurada

incidiu sobre o primeiro objeto que apareceu no mesmo nível que ela. O
ímpeto com o qual a inclinação se tornou resolução foi aumentado pelos

pequenos fatos do dia, que haviam despertado seu descontentamento

com as atuais condições de sua vida.

Depois do jantar, quando Celia estava tocando uma "ária com varia-

ções," frágil espécie de tintinamento que simbolizava a parte estética na

educação de uma moça, Dorothea subiu para o seu quarto a fim de res-

ponder a carta de Mr. Casaubon. Por que adiaria ela a resposta? Rees-

creveu-a três vezes, não porque quisesse mudar alguma palavra, mas

MIDDLEMARCH

57

porque sua mão estava incomumente trêmula, e não podia suportar a

idéia de Mr. Casaubon tomar por ilegível e má sua caligrafia. Obrigou-se

a escrever de um jeito em que cada letra era distinguível sem dar mar-

gem nenhuma a conjecturas, decidida a tirar todo o partido desta execu-

ção caprichada para poupar os olhos de Mr. Casaubon. Por três vezes

escreveu:

PREzADo MR. CAsAuBoN, - Agradeço-lhe imensamente por me

ter amor, e por julgar-me digna de ser sua esposa. Não posso con-

templar felicidade maior que a que se torne uma só com a do Se-

nhor Se eu mais dissesse, seria só a mesma coisa escrita de uma

forma alongada, pois não me posso agora deter em outro pensa-

mento senão o de que eu possa ser pela vida, devotadamente, sua

DOROTHEA BROOKE.

Mais tarde, na mesma noite, ela acompanhou seu tio à biblioteca

para entregar-lhe a carta, que ele poderia enviar pela manhâ. Mr. Brooke

surpreendeu-se, mas sua surpresa manifestou-se somente por uns pou-

cos momentos de silêncio, durante os quais ele remexeu em vários obje-

tos na sua escrivaninha, e finalmente se pôs de costas para o fogo, ócu-

los no nariz, olhando o endereço na carta de Dorothea.

"Pensou bem sobre isto, querida?" disse por fim.


"Não era preciso pensar muito, meu tio. Não sei de nada que me

faça vacilar. Se eu mudasse de idéia, só se fosse por alguma coisa impor-

tante e totalmente nova para mim."

`Ah! - então você o aceitou? Quer dizer que Chettam não tem mais

chances? Chettam magoou-a - ofendeu-a de alguma forma? Do que é

que você não gosta no Chettam?"

"Não há nada de que eu goste nele," disse Dorothea com certa im-

petuosidade.

Mr. Brooke jogou a cabeça e os ombros para trás, como se tivesse

sido atingido por uma arma de arremesso. Reprovando-se de imediato

um pouco, Dorothea disse:

Quero dizer, enquanto marido. Ele é muito bom, eu acho - real-

mente muito bom quanto às casas. Um homem de boas intenções."

"Mas você quer um intelectual, e esse tipo de coisa, não é? Bem, isto

tem um pouco a ver com nossa família. Eu mesmo tive isto - este amor

do conhecimento, este interessar-se por tudo - um pouco demais até

- que me levou muito longe; se bem que esse tipo de coisa não costu-

me ocorrer na linha feminina; a não ser que corra subterraneamente,

58 GEORGE EL fOT

como os rios na Grécia, sabe, - para aparecer nos filhos. Filhos brilhan-

tes, mães brilhantes. Certa época, fui a fundo nisto. Contudo, minha

querida, eu sempre disse que todo mundo deve fazer como bem quer

nestas coisas, mas até um certo ponto. Eu jamais poderia, como seu

tutor, concordar com um mau partido. Casaubon porém corresponde: é

boa a posição dele. Temo apenas que Chettam saia magoado, e Mrs.

Cadwallader há de jogar a culpa em mim."

Nesta noite, claro está, Celia nada soube do que havia ocorrido.

Atribuiu o ar ausente de Dorothea, e a evidência de mais choro desde

que elas voltaram para casa, ao descontrole que a dominara quanto a Sir

James Chettam e as construções, e tomou muito cuidado para não ofendê-

la ainda mais: tendo dito o que queria dizer, Celia não se dispunha a
retornar a assuntos desagradáveis. Quando criança, era de sua natureza

não brigar com ninguém - apenas observar com espanto que outros

brigavam com ela, ficando então parecidos com perus briguentos; quan-

to a ela, nestas circunstâncias, estava sempre disposta a brincar de cama-

de-gato, tão logo se recuperassem eles. Quanto a Dorothea, sempre fora

seu hábito achar algo de errado nas palavras da irmã, embora Celia se

garantisse intimamente ter dito todas as vezes apenas como as coisas

eram, e nada mais: nunca pôs nem poderia pôr em palavras coisas saídas

de sua própria cabeça. Mas o melhor em Dodo era ela não ficar zangada

por muito tempo com a irmã. Agora, se bem quase não se tivessem fala-

do durante a noite, quando Celia interrompeu seu trabalho, pretenden-

do ir para a cama, no que era sempre e com grande antecedência a pri-

meira, Dorothea, que estava sentada num tamborete baixo, incapaz de

outra ocupação que não suas meditações, disse, com a entonação musi-

cal que em momentos de sentimento profundo mas sereno dava à sua

fala um timbre de recitativo agradável:

"Celia, querida, venha dar-me um beijo," já de braços abertos ac

pronunciar esta frase.

Celia se ajoelhou, para ficar no mesmo nível, e deu-lhe uma ligeira

beijoca, enquanto Dorothea a envolvia nos seus braços gentis e grave

mente comprimia seus lábios nas bochechas da irmã, uma de cada vez

"Não fique acordada, Dodo, você hoje está tão pálida: vá para ;

cama cedo," disse Celia de um modo muito tranqüilo, sem nenhum to

que patético.

"Não, querida, eu estou muito, muito feliz," disse Dorothea con

ardor.

"Bem, melhor assim," pensou Celia. "Mas que estranho como Dod

passa de um extremo ao outro!"

MIDDLEMARCH

59
No dia seguinte, hora do almoço, o mordomo, entregando algo a Mr.

"

Brooke, disse: "Jonas já está de volta, senhor, e trouxe esta carta.

Mr. Brooke a leu e, com um meneio de cabeça para Dorothea, disse:

"Casaubon, querida: ele virá para o jantar; nem esperou para escrever

mais - nem esperou, sabe."

Que um convidado para ojantar fosse anunciado de antemão à irmâ

não poderia parecer a Celia nada extraordinário, mas, seguindo seus

olhos na mesma direção que os de seu tio, ela se impressionou com o

peculiar efeito da notícia sobre Dorothea. Foi como se alguma coisa se- ;

melhante ao reflexo de uma asa branca ensolarada tivesse passado por

seu semblante, culminando num de seus raros rubores. Pela primeira

vez veio à cabeça de Celia que entre Mr Casaubon e sua irmã poderia

haver algo mais que, de parte dele, o deleite em falar de livros e, de parte

dela, o deleite em ouvir Até então ela havia classificado a admiração por

este conhecido sabichão e "feioso" junto com a admiração por Monsieur

Liret em Lausannne, também feioso e sabichão. Dorothea nunca se can-

sava de ouvir o velho Monsieur Liret, quando o frio nos pés de Celia era

o pior possível e quando já se tornara realmente um horror ver o couro

de sua cabeça calva se mexendo na sala. Por que então o entusiasmo

dela não se estenderia a Mr Casaubon simplesmente do mesmo modo

como se endereçou a Monsieur Liret? Parecia provável, ademais, que

todos .os homens letrados lançassem para a juventude em geral uma

espécie de olhar de mestre-escola.

Mas Celia agora estava mesmo espantada com a surpresa que havia

despontado em seu íntimo. Raramente uma surpresa a abalava assim,

pois sua fantástica rapidez na observação de uma certa gama de sinais

geralmente a preparava para esperar os fatos por cujo desenrolar tinha

interesse. Não que agora ela já imaginasse Mr. Casaubon como um pre-

tendente aceito: apenas começara a sentir desgosto ante a possibilidade

de que algo na mente de Dorothea pudesse tender para tal desfecho.


Neste caso, teria realmente um motivo para se irritar com Dodo: tudo

bem que ela não aceitasse Sir James Chettam, mas que idéia se casar

com Mr. Casaubon! Celia sentiu uma espécie de vergonha, mesclada a

um senso do ridículo. Mas talvez Dodo, se de fato estivesse a se aproxi-

mar de uma extravagância dessas, pudesse ser desviada a tempo: a expe-

riência já demonstrara muitas vezes que se podia levar em conta sua

impressibilidade. O dia estava úmido, não sairiam pois para caminhar, e

assim foram ambas para o seu quarto de estar; e lá Celia observou que ,

Dorothea, ao invés de se entregar com seu diligente interesse costumei-

ro a alguma ocupação, limitava-se a apoiar o cotovelo num livro aberto

60 GEORGE ELIO

e a olhar pelajanela o grande cedro, com sua pátina de prata da chuva. 

própria Celia já se havia envolvido com a feitura de um brinquedo par

os filhos do coadjutor, e não ia precipitadamente adentrar-se por ne

nhum assunto.

De fato, Dorothea estava pensando que seria desejável para Celi

saber da momentosa mudança na posição de Mr. Casaubon desde qu

ele estivera em casa delas pela última vez: não parecia justo deixá-la n

ignorância do que necessariamente afetaria sua atitude para com eIE

mas era impossível não se retrair de contar-lhe tudo. Dorothea reprc

vou, nesta timidez, certa fraqueza sua: era-lhe sempre odioso dar-se

quaisquer pequenos medos ou maquïnações sobre suas ações, mas nes

te momento ela estava procurando a mais alta ajuda possível para pode

não temer a corrosividade da índole carnal da prosa de Celia. Seu deva

neio foi ínterrompido, e a dificuldade da decísão banida, pela vozính

bastante gutural de Celia, por cujo tom costumeiro se expressava um

observação paralela ou um "aliás."

"Vem mais alguém para jantar além de Mr. Casaubon?"

"Que eu saiba, não."

"Espero que haja mais alguém. Só assim não o ouvirei tomando


sopa daquele jeito."

"O que há de notável no jeito como eIe toma sopa?"

"Realmente, Dodo, será que você não ouve quando ele raspa a co

lher? E ele sempre pisca antes de falar Não sei se Locke também pisca

va, mas estou certa de que lamento a sorte dos que se sentavam em fac

dele, caso o fizesse."

"Celia," disse Dorothea com enfática gravidade, "por favor, não faç

mais observações deste tipo."

"Por que não? São pura verdade," retrucou Celia, que tinha su

razões para perseverar, embora já estivesse começando a ficar com m

pouco de medo.

"Muitas coisas são verdade que só as mentes mais comuns observam

"Pois então penso que as mentes mais comuns devem ser bem útei

Penso que é uma pena que a mâe de Mr. Casaubon não tivesse un

mente mais comum: poderia tê-lo educado melhor."

Alarmada por dentro, Celia estava pronta para correr, agora que a

remessara este dardo ríspido.

Já os sentimentos de Dorothea avolumaram-se em avalanche, tc

nando impossível qualquer ulterior preparo:

"É de meu dever dizer-lhe, Celia, que estou comprometida a r

casar com Mr. Casaubon."

MIDDLEMARCH 61

Nunca dantes Celia devia ter ficado tão pálida. Por mais um pouco o

boneco de papel que ela estava fazendo sairia com uma perna quebrada,

não fosse seu habitual cuidado com tudo o que tinha em mãos. Largou a

frágil figura, de imediato, na mesa e manteve-se totalmente imóvel por

alguns momentos. Quando falou, brotava-lhe uma primeira lágrima.

"Oh, Dodo, espero que você seja feliz." Seu carinho de irmã, nesta

hora, não podia senão se sobrepor a outros sentimentos, e seus receios

eram os receios do afeto.

Dorothea continuava ofendida e agitada.


"Então está decidido?" disse Celia num subtom temeroso. "E o tio

sabe?"

`Aceitei o pedido de Mr. Casaubon. Meu tio me trouxe a carta que o

continha; sabia de tudo antes."

"Perdoe-me, Dodo, se eu disse alguma coisa que lhe ofendeu," disse

Celia soluçante. Nunca teria imaginado que pudesse sentir-se num esta-

do desses. Havia em toda a questão algo funéreo, com Mr. Casaubon

dando a impressão de ser o sacerdote oficiante, sobre o qual não era

conveniente fazer observações.

"Não tem problema, Kitty, não se torture. Não devemos admirar nun-

ca as mesmas pessoas. Muitas vezes eu causo ofensas dessa ordem tam-

bém; inclino-me a falar com muito exagero dos que não me agradam."

A despeito desta magnanimidade, Dorothea ainda estava ferida: quer

pelo espanto refreado de Celia, quer por suas leves críticas. Naturalmen-

te todo o mundo ao redor de Tipton antipatizaria com este casamento.

Dorothea não sabia de ninguém que pensasse como ela sobre a vida e

seus melhores desígnios.

Todavia, antes de findar-se a noite ela estava muito feliz. Num tête-à-

tête de uma hora com Mr. Casaubon, conversou com ele com uma liber-

dade que nunca havia sentido previamente, deixando mesmo extravasar

sua alegria à idéia de lhe ser devotada e de aprender como melhor com-

partilhar e incentivar todos os grandes objetivos dele. Mr. Casaubon foi

atingido por um desconhecido prazer (que homem o não seria?) ante

este irreprimido ardor pueril: e não teve surpresa (que homem enamora-

do teria?) por ser ele o tomado como seu objeto.

"Minha estimada senhorita - Miss Brooke - Dorothea!" disse ele

apertando nas suas a mão dela, "nunca imaginei que uma felicidade des-

sas me estivesse reservada. Estava muito longe de mim, de fato, imagi-

nar que eu fosse alguma vez encontrar uma pessoa e uma alma tão rica
em prendas tão várias que pudesse tornar desejável o casamento. Sua

pessoa tem todas - não, mais que todas - as qualidades que sempre

62 GEORGE ELIO

contemplei como as excelências características da feminilidade. O gran

de encanto de seu sexo é esta capacidade de uma ardente afeição dE

quem se auto-sacrifica, na qual vemos sua adequação para coroar e com

pletar a existéncía do nosso. Até aquí conheci poucos prazeres, salvo o

de tipo mais estrito: minhas satisfações têm sido as do estudante

solitá-

rio. Pouco dispus-me a apanhar flores fadadas a murchar em minhas

próprias mãos, mas agora hei de as colher pressuroso, para as coloca

em seu peito."

Nenhum discurso teria sído maís profundamente honesto em sua

intenção: a frígida retórica, no fim, era tão sincera quantoo latido de

um

cão, ou os grasnidos de uma gralha amorosa. Não seria precipitado con

cluir que não havia paixão por trás desses sonetos a Delia", que no

comovem como a müsica terna de um bandolim?

A fé de Dorothea fornecia tudo o que as palavras de Mr. Casaubon

haviam aparentemente deixado de dizer: que convicto enxerga uma in-

felicidade ou omissão que incomoda? O texto, seja de profeta ou poeta,

expande-se pelo que lhe pode ser enxertado, e até sua má gramática É

sublime.

"Eu sou muito ignorante - há de espantar-se e não pouco com

minha ignorância," disse Dorothea. "Tenho muitas idéias que podem

estar totalmente equivocadas; e agora vou ser capaz de as colocar ao

senhor, e de inquiri-lo a respeito. Mas," ela acrescentou, rapidamente

imaginando o provâvel sentímento de Mr. Casaubon, "não o incomo-

darei em demasia; só quando estiver disposto a ouvir-me. Suponhe

que se sinta muitas vezes exausto com a pesquisa de temas em seu

próprio caminho. Já estarei ganhando muito se levar-me por ele err


sua companhia."

"Como poderei perseverar agora em qualquer caminho, sem conta

com você como companheira?" disse Mr. Casaubon, beijando a front

cândida da amada e sentindo que o céu lhe tinha concedido uma bên

ção que correspondia sob todos os aspectos às suas necessidades pac

ticulares. Ele estava sendo inconscientemente tragado pelos encanto

de uma natureza que era totalmente desprovída de cerebrações ocu"

tas, quer para efeitos imediatos, quer para fins remotos. Era isto o que

tornava Dorothea tão pueril e, segundo alguns juízes, tão tola, malgrad

toda sua reputação de inteligência; como, por exemplo, no present

caso de atirar-se, metaforicamente falando, aos pés de Mr. Casaubon

beijar-lhe, como se ele fosse um Papa protestante, os antíquado

"De autoria de Samuel Daniel (1562-t619).

MIDDLEMARCH

63

laçarotes dos sapatos. Ela não estava de modo algum ensinando Mr.

Casaubon a se perguntar se ele era realmente bom para ela, mas ape -

nas se perguntando, com ansiedade, como poderia ela ser realmente

boa para Mr. Casaubon. Antes de ele ir-se embora, no dia seguinte, foi

decidido que o casamento se realizaria em um mês e meio. Por que

não? A casa de Mr. Casaubon estava pronta. Não era um mero presbi-

tério, mas uma imponente mansão, com muita terra agregada. O pres-

bitério era habitado pelo coadjutor, que fazia todo o serviço, a não ser

pregar o sermão matinal.

CAPÍTULO VI

"My lady"s tongue is like the meadow blades

That cut you stroking them with ide hand.

Nice cutting is her funetion: she divides


With spírítual edge the millet-seed,

And makes intangible savings."

("Mínha dama tem a língua como folha que corta

Quem no campo a alisa com a mão descuidada.

Sua função é cortar bem: ela divide

Com seu gume espiritual o grão de painço

E faz reservas intangíveis.")

QUANDO IA SAINDO pela porteira, a carruagem de Mr. Casaubon barrou

a entrada de uma charrete com um pônei, conduzida por uma senhora

e levando, sentada atrás, uma criada. Era duvidoso que o conhecimen

to tivesse sido mútuo, pois Mr. Casaubon ficou olhando para a frentc

distraidamente; a senhora porém não perdeu tempo, olhou-o bem, lan

çou-lhe um cumprimento com a cabeça e um "Como tem passado 

senhor?" A despeito de seu chapeuzinho surrado e do xale indiam

muito velho, era claro que a guarda-porteira a tinha por important

personagem, pelo exagero da reverência com que seu pequeno fáeto

foi recebido à entrada.

"E então, Mrs. Fitchett, suas galinhas agora como estão botando?

disse a senhora de olhos negros, tez muito rubra, na expressão ma:

claramente cinzelada.

"Botando tão muito bem, madame, só que elas deram pra cumê c

ovos: eu num sossego mais com essas galinha."

"Que canibais! É melhor vendê-las logo barato. Por quanto as ve

MIDDLEMARCH 65

deria ao par? Galinhas de mau caráter, se o preço for alto, ninguém vai

querer comer."

"Bem, madame, meia-coroa: não posso deixar por menos."

"Meia-coroa nesta época! Espere lá - é para a canja do reitor num

domingo. As nossas de que eu podia dispor ele já consumiu todas. Com

o sermão, Mrs. Fitchett, não se esqueça de que a senhora já está paga


em parte. Fique com um casal de pombos por elas - umas gracinhas.

Apareça lá para vê-los. São de uma raça que vocês não têm no pombal."

"Bem, madame, Mestre Fitchett então é que vai ver esses pombos,

depois do trabalho. Ele é doido por uma novidade no assunto: pra agra-

dar a senhora."

"Agradar a mim! Pois vai ser a melhor barganha que ele já fez na

vida. Um casal de pombos volteadores de igreja por um par de galinhas

espanholas perversas que comem seus próprios ovos! Só espero é que a

senhora e Fitchett não se ponham a gabar-se muito depois!"

Com estas últimas palavras lá se foi o fáeton em frente, deixando

Mrs. Fitchett sorrindo e balançando lentamente a cabeça com um inter-

jetivo "Tá certo, tá certo!" - do qual se poderia inferir que aquela re-

gião rural lhe pareceria um pouco mais monótona se a esposa do reitor

tivesse a língua menos solta e não fosse assim tão sovina. Com efeito, os

agricultores e trabalhadores das paróquias de Freshitt e Tipton sentir-

se-iam atingidos por triste falta de assunto se não contassem com as

conversas sobre o que Mrs. Cadwallader tinha dito e feito: uma dama da

mais alta e imperscrutável linhagem, que descendia, por assim dizer, de

desconhecidos condes, tão imprecisos quanto a multidão de vultos he-

róicos - e que alegava pobreza, regateava nos preços e dizia graçolas na

maior camaradagem, mas com um modo de falar que logo dava a saber

quem ela era. Uma dama deste feitio conferia urbanidade tanto à posi-

ção social quanto à religião, e mitigava a amargura do dízimo que ainda

faltava pagar Outra personagem muito mais exemplar, com uma infusão

de dignidade azeda, teria sido menos útil à compreensão local dos Trinta

e Nove Artigos" e, socialmente, menos unificadora.

Mr. Brooke, que considerava os méritos de Mrs. Cadwallader de um

outro ponto de vista, franziu um pouco o sobrolho quando lhe anuncia-

ram seu nome, na biblioteca onde ele se sentava a sós.

"Vejo que o nosso Cícero de Lowick esteve aqui," disse ela, sentan-

do-se à vontade, jogando para trás seu agasalho e pondo à mostra uma
figura magra, mas bem feita. "Suspeito que o senhor e ele estejam tra-

A base da Igreja Anglicana, dada por lei elizabetana de 1563.

66 GFoRcE EI.roT

mando algum conchavo político, se não não estariam a ver-se tanto em

pessoa. Vou denunciá-los: lembre-se de que ambos se acham sob

suspeição desde que tomaram o lado de Peel na questão da Lei Católica.

Vou dizer a todo mundo que o senhor se candidatará por Middemarch,

alinhado com os liberais, quando o velho Pinkerton renunciar, e que

Casaubon vai ajudá-lo de uma maneira escusa: vai corromper os eleito-

res com panfletos, mantendo todos os bares abertos para distribuï-los.

Vamos, confesse!"

"Nada disto," disse Mr. Brooke, sorrindo e esfregando os ócuIos,

mas realmente meio sem jeito com a interrupção. "Casaubon e eu pouco

falamos de política. Ele não se interessa muito pelo lado filantrópico das

coisas; pelos maus tratos, e esse tipo de coisa. Só se interessa pelas

questões da Igreja. Não é esta a minha linha de ação, como sabe."

"Meu amigo, sei até bem demais! Eu tenho ouvido falar de suas prá-

ticas. Quem foi que vendeu seu pedacinho de terra para os apistas em

Middemarch? Creio que o senhor o comprou de propósito. E um perfei-

to Guy Faux. Cuidado para que o não queimem em efígie no próximo 5

de novembro." Humphrey não quis vir discutir o assunto com o senhor,

assim vim eu."

"Muito bem. Eu estava preparado para ser perseguido por não per-

seguir - por não perseguir, sabe?"

"Lá vai o senhor! Esta é uma boa lengalenga que já tem pronta para as

eleições. Mas não deixe que eles o aliciem para as eleições, meu caro Mr.

Brooke. Um homem sempre banca o bobo, quando está discursando: não

há desculpa senão estar do lado certo, e assim o senhor pode pedir uma

bênção até para a barulheira que faz. Mas o senhor há de perder-se, devo

adverti-lo. Há de fazer uma salada completa das opiniões de todos os


partidos políticos, e acabará sendo escorraçado por todos."

"É o que espero, sabe," disse Mr. Brooke, não querendo demonstrar

quão pouco lhe agradava esta encenação profética, - "o que eu espero

como um homem independente. Quanto aos liberais, um homem que

freqüenta os bons pensadores não se deixará levar por nenhum partido.

Pode ir junto com eles até um certo ponto - só até um certo ponto,

sabe? Mas é isto o que as senhoras, as mulheres, nunca compreendem."

"Onde fica este seu certo ponto? Não. Eu gostaria que me dissessem

como um homem pode ter um certo ponto qualquer quando ele não

pertence a partido algum - quando leva uma vida errante, sem nunca

"Nesta data, com fogueiras e queimas de efigies do personagem, celehra-se na

Grã-lirecanha

a revolta de Guy Faux (ou Fawkes), em 1605, contra as leis de repressão aos

católicos.

MIDDLEMARCH 67

permitir que os amigos saibam seu endereço. `Ninguém sabe onde vai

ficar Brooke - não se pode contar com Brooke"- isto é o que andam

dizendo a seu respeito, para ser bem franca. Pois bem, torne-se respeitá-

vel? Como poderá ir para as sessões, se todos o olharem desconfiados, e

o senhor estiver de bolso vazio mas com a consciência pesada?"

"Não me disponho a discutir política com uma senhora," disse Mr.

Brooke, com um ar de sorridente indiferença, embora se sentisse cons-

ciente, e com algum desagrado, de que este ataque de Mrs. Cadwallader

abrira a campanha defensiva à qual certos passos ousados o haviam

exposto. "Em seu sexo não há pensadores, sabe - varium et mutabile

semperl - esse tipo de coisa. Vocês não conhecem Virgílio. Eu conheci"

- Mr. Brooke refletiu a tempo que ele não travara conhecimento pes-

soal com o poeta augustano - "eu ia dizer o pobre Stoddart, sabe. Foi

ele quem disse isto. Vocês mulheres estão sempre contra uma atitude
independente - enquanto um homem só se preocupa com a verdade,

e esse tipo de coisa. Em nenhuma parte do país a opinião é mais estrei-

ta do que aqui - não tenho a intenção de atirar pedras, sabe, mas é

preciso que alguém assuma a lïnha independente; se não for eu, quem

será?"

"Quem? Bem, qualquer arrivista que não tenha berço nem posição.

Pessoas de gabarito deveriam consumir seus despropósitos independen-

tes em casa, e não alardeá-los em público. E logo o senhor! que está

para casar sua sobrinha, que é tão boa como se fosse uma filha, com um

dos nossos melhores homens. Seria um aborrecimento cruel para Sir

James: seria um golpe muito duro para ele se o senhor mudasse de posi-

ção agora e se tornasse um homem dos liberais."

Mr. Brooke outra vez estremeceu por dentro, pois ele havia pensa-

do, tão logo decidido o compromisso de Dorothea, na perspectiva dos

insultos de Mrs. Cadwallader. Seria fácil, para observadores ignorantes,

dizer: "Briga com Mrs. Cadwallader;" mas para onde irá um grão-senhor

do campo, se brigar com seus mais antigos vizinhos? Quem poderia sa-

borear o fino gosto do nome Brooke, se ele fosse fornecido casualmente,

como um vinho sem lacre? Certamente um homem só pode ser cosmo-

polita até um certo ponto.

"Espero que Chettam e eu sejamos sempre bons amigos; mas la-

mento dizer que não há hipótese de ele se casar com minha sobrinha "

disse Mr. Brooke, aliviado de ver pela janela que Celia vinha chegando.

de Virgílio (Eneida, 4:569): "Varium et mutabile semper femina" ("A mulher,

sempre

e inconstante").

68

GEORGE ELIOT

"Por que não?" disse Mrs. Cadwallader, com uma nota aguda de
surpresa. "Há nem bem duas semanas o senhor e eu ainda falávamos

disto."

"Minha sobrinha já escolheu seu pretendente - escolheu o outro,

sabe? Não tive nada a ver com isto. De minha parte eu teria preferido

Chettam; até diria que Chettam era o homem que qualquer moça esco-

lheria. Mas não há como regular essas coisas. As mulheres são capricho-

,.

sas, não é

`:Alto lá! Com quem o senhor quer dizer que vai deixá-la se casar

A mente de Mrs. Cadwallader examinava rapidamente as possibilidades

de escolha para Dorothea.

Mas nisto entrou Celia, vinda, florescente, de um passeio pelo jar-

dim e a troca de saudações desobrigou Mr. Brooke da necessidade de

res onder imediatamente. Levantando-se às pressas, ele disse: "Por fa-

p "

lar nisso, preciso ir falar com o Wright sobre os cavalos, e mais apressa-

do ainda ejetou-se da sala.

"De que se trata, minha menina? - que história é essa de sua irmã

á ter um compromisso?" disse Mrs. Cadwallader.

"Foi prometida em casamento a Mr. Casaubon," disse Celia, recorren-

do, como de costume, à mais simples declaração de fato, e feliz por ter

esta o ortunidade de conversar a sós com a esposa do reitor da paróquia.

"Oh, mas é terrível! Há quanto tempo isso já estava no ar?"

"Eu só soube ontem. Vão-se casar daqui a um mês e meio."

"Bem, querida, desejo-lhe toda a alegria com seu cunhado."

"Sinto tanto por Dorothea!"

"Sente? Pois suponho que foi ela quem quis."

"Foi; diz que Mr. Casaubon tem uma grande alma."

"Tomara que tenha mesmo."

"Oh, Mrs. Cadwallader, não penso que seja boa coisa casar com um
homem que tem uma grande alma."

"Pois então fique alerta, pois agora já conhece a cara de um; quando

o próximo aparecer e quiser casar com você, não o aceite."

"Tenho certeza de que nunca deverei."

"Não; um desses numa família já basta. Mas então sua irmã nunca

se interessou por Sir James Chettam? O que você diria dele, para set

cunhado?"

"Ah, eu adoraria! E estou certa de que ele seria um bom marido. Si

ue " acrescentou Celia com um ligeiro rubor (ela às vezes parecia rubo

q , , "

rizar-se até ao respirar), "não creio que ele servisse para Dorothea.

"Não voa muitv alto?"

MIDDLEMARCH

69

"Dodo é muito rigorosa. Pensa demais sobre tudo, e dá muito im-

portância ao que alguém diz. Sir James nunca pareceu agradar a ela."

"Mas deve tê-lo encorajado, estou certa. Isto não é muito bonito.

"Não se zangue, por favor, com Dodo; ela não vê as coisas direito.

Envolveu-se demais com a construção das casas, e com Sir James, às

vezes, foi até rude; mas ele é tão bom que nunca notou nada."

"Bem," disse Mrs. Cadwallader, pondo o xale nas costas e levantan-

do-se como se estivesse com pressa, "tenho de ir agora mesmo conversar

com Sir James e participar-lhe isto. A essa altura ele já terá trazido a mâe

dele de volta, e me cabe ir lá. Seu tio jamais irá contar-lhe. Estamos todos

muito desapontados, minha filha. Os jovens deveriam pensar em suas

famílias ao se casarem. Eu mesma dei um mau exemplo - casei-me com

um clérigo pobre, e me tornei digna de pena entre os De Bracys - obriga-

da a obter meu carvão por estratagemas, a orar aos céus por meu óleo de

salada. Casaubon, entretanto, tem um bom dinheiro; justiça se lhe faça,

quanto a isto. Quanto a seu sangue, suponho que o esquartelado da famí-

lia sejam três sables de siba e uma figura rampante. Aliás, querida, antes
que eu me vá, preciso dar uma palavrinha com Mrs. Carter sobre culinária.

Quero mandar minha moça da cozinha para aprender com ela. Como você

sabe, gente pobre como nós, e com quatro filhos, não se pode dar ao luxo

de uma boa cozinheira. Não tenho dúvida de que Mrs. Carter me fará este

favor A cozinheira de Sir James é uma verdadeira megera."

Em menos de uma hora Mrs. Cadwallader já havia enredado Mrs.

Carter e se deslocado para Freshitt Hall, que não era distante de seu

próprio presbitério, residindo seu marido em Freshitt e mantendo em

Tipton um coadjutor

Sir James Chettam, de regresso da breve viagem que o mantivera

ausente alguns dias, já havia até mudado de roupa, planejando uma

cavalgada para Tipton Grange. Seu cavalo o esperava à porta quando

Mrs. Cadwallader irrompeu, e imediatamente ele foi recebê-la ali mes-

mo, de chicote na mão. Lady Chettam ainda não havia voltado, mas a

mensagem de Mrs. Cadwallader não poderia ser transmitida na presen-

ça de serviçais; ela então pediu para ir olhar as novas plantas no jardim

de inverno contíguo; ao atingir um patamar contemplativo, disse:

"Prepare-se para um grande choque; espero que em matéria de amor

o senhor não tenha ido tão longe como dava a entender."

Era inútil protestar contra o modo de Mrs. Cadwallader colocar as

coisas. Mas Sir James perdeu um pouco a compostura. Sentiu um vago

alarme.

"Não acredito que Brooke vá afinal se expor. Acusei-o de pretender

70 GEORGE ELIOT

concorrer por Middemarch pelo lado liberal, e ele assumiu um ar de

zanga mas jamais o negou - falou da linha independente e dos contra-

sensos de praxe."

"Isto é tudo?" disse Sir James, muito aliviado.

"Bem," retomou Mrs. Cadwallader, com uma nota ainda mais agu-

da, "não há de o senhor querer dizer que gostaria de vê-lo transformar-


se em homem público desta maneira - fazendo de si mesmo uma espé-

cie de mascate político?"

"Ele poderia ser dissuadido, não hesito em pensar. A despesa decer-

to não lhe agradaria."

"Foi o que eu disse a ele. Nisto é vulnerável à razão - numa pitada

de avareza há sempre uns grãos de bom senso. A avareza é uma qualida-

de capital para se ter nas famílias; é o lado seguro por onde a loucura

pode mergulhar. E deve haver uma pequena brecha na família Brooke,

se não nós não veríamos o que ainda havemos de ver."

"O quê? Brooke concorrendo por Middemarch?"

"Pior que isto. Realmente sinto-me um pouco responsável. Porque

eu sempre lhe disse que Miss Brooke seria um ótimo partido. Eu sabia

que nela faltava um pouco de bom senso - havendo em contrapartída,

em excesso, uma espécie caótica de estofo metodista. Essas coisas, nas

moças, passarn. Contudo, desta vez fui pegada de surpresa."

"Que está querendo dizer, Mrs. Cadwallader?" disse Sir James. Seu

medo de que Miss Brooke pudesse ter fugido para ingressar na Irmanda-

de dos Morávios ou nalguma seita maluca, desconhecida da boa socie-

dade, era um pouco reduzido por seu conhecimento de que Mrs.

Cadwallader sempre tornava as coisas piores. "Que aconteceu com Miss

Brooke? Por favor, diga logo."

"Muito bem. Ela foi prometida em casamento." Mrs. Cadwallader

parou por alguns momentos, observando na face de seu amigo uma ex-

pressão muito ofendida que ele tentava disfarçar com um sorriso nervo-

so, chicoteando enquanto isso sua bota; mas ela logo acrescentou: "Pro-

metida a Casaubon."

Sir James deixou cair seu chicote e se abaixou para apanhá-lo. Nun-

ca dantes sua face tenha talvez concentrado tanto desgosto junto como

quando ele se virou para Mrs. Cadwallader e repetiu: "Casaubon?"

"Isto mesmo. Agora o senhor já sabe a minha incumbência."

"Meu Deus! Que horror! Ele é pior do que uma múmia!" (Há que se
entender tal ponto de vista como o de um rival ardente e desapontado.)

"Diz ela que ele tem uma grande alma. - Pois sim, uma grande

bexiga para encher de ervilha seca e chocalhar!" disse Mrs. Cadwallader

MIDDLEMARCH

71

"Por que é que um solteirão desses inventa de se casar?" disse Sir

James. "Ele já está com um pé na cova."

"Quer tirá-lo lá de dentro, suponho."

"Brooke não deveria permitir isto: e sim insistir em deixar a coisa de

lado até ela atingir a maioridade. Ela então poderia pensar melhor Para

que serve um tutor?"

,.

"Como se alguém jamais pudesse arrancar uma decisão de Brooke!

"Cadwallader podia conversar com ele."

"Ele não! Humphrey acha todo mundo um encanto. Nunca consigo

que ele desanque Casaubon. É capaz de falar bem até do bispo, por mais

que eu lhe diga que isto não é natural num clérigo beneficiado: o que se

há de fazer com um marido que dá tão pouca atenção às conveniências?

Disfarço isto o melhor que posso desancando eu mesma todo mundo.

Mas vamos lá, anime-se! Foi bom livrar-se de Miss Brooke, moça que

poderia exigir-lhe que à luz do dia visse estrelas. Muito aqui entre nós, a

pequena Celia vale duas dela, e é bem provável que, feitas as contas,

seja o melhor partido. Pois este casamento com Casaubon é o mesmo

que entrar para um convento."

"Oh, a meu modo de ver, é sim, - e é pensando em Miss Brooke

que acho que seus amigos deveriam usar da influência que têm sobre

ela."

"Bem, Humphrey ainda não está sabendo. Mas, quando eu for dizer

a ele, pode apostar que ele vai replicar: `Mas por que não? Casaubon é

um bom moço - e jóvem - tão jovem." Essa gente caridosa nunca


distingue o vinagre do vinho, até que o tenha engolido e descoberto a

cólica. Entretanto, se eu fosse homem eu preferiria Celia, sobretudo se

não há mais Dorothea. A verdade é que o senhor andou cortejando uma

e conquistou a outra. Pelo que vejo, ela o admira tanto, ou quase, quan-

to um homem espera ser admirado. Se fosse outro que dissesse isto, não

eu, o senhor poderia achar que era exagero. Adeus!"

Sir James ajudou Mrs. Cadwallader a subir no fáeton e depois pulou

no seu cavalo. Não ia renunciar à pretendida volta só por causa da desa-

gradável notícia de sua amiga - apenas cavalgaria mais rápido em qual-

quer outra direção que não fosse a de Tipton Grange.

Mas por que no mundo haveria Mrs. Cadwallader de se preocupar

com o casamento de Miss Brooke; e por que, quando um partido que lhe

aprazia pensar que tinha à mão se frustrava, haveria de maquinar, sem

perda de tempo, as preliminares de outro? Existia aí alguma trama enge-

nhosa, alguma ação do tipo esconde-esconde, que pudesse ser detecta-

da por um meticuloso esquadrinhamento telescópico? Não, nada disto:

72 GEORGE EI.fO"1

um telescópio que varresse as paróquias de Tipton e Freshitt, toda a

área visitada por Mrs. Cadwallader em seu fáeton, não testemunharu

uma entrevista que fosse capaz de despertar suspeitas, ou qualque.

cena da qual ela não regressasse com a mesma ímperturbável acuídado

de vista e a mesma intensa coloração natural. De fato, se este cômodo

veículo já existisse no tempo dos Sete Sábios," um deles teria observa

do sem dúvida que pouco nós podemos saber sobre as mulheres, quan

do as seguimos por aí em seus fáetons puxados por cavalinhos. Mesmc

com um microscópio direcionado sobre uma gota d"água encontramo

nos a fazer interpretações que por fim se mostram meio grosseiras

pois enquanto sob uma lente fraca pode parecer que nós vemos uma

criatura a exibir uma voracidade ativa, na qual outras criaturas meno

res entram ativamente em questão como se fossem moedas imantadas

uma lente mais forte nos revela certos filamentos irrisórios que se fa
zem de vórtices para essas vítimas, enquanto o engolidor aguarda pas

sivamente em seu guichê de aduana. Desta forma, falando metaforica

mente, uma lente forte aplicada às alcovitices de Mrs. Cadwalladel

mostrará a ínteração de pequeninas causas produzíndo o que se podf

chamar de vórtices do pensamento e da fala para levar até ela o tipo dE

alimento que precisava.

Sua vida era ruralmente simples, totalmente livre de segredos sórdi

dos, perigosos ou de outro modo importantes, e não conscientementc

afetada pelas grandes questões do mundo. Por isto as questões do gran

de mundo despertavam-lhe ainda mais interesse, quando comunicada;

em cartas de parentes bem nascidos: o modo pelo qual fascínantes filho

mais moços caíram na mais completa ruína após casarem-se com sua

amantes; a bela idiotice caquética do jovem Lord Tapir e os furiosos 

gotosos humores do velho Lord Megatherium; o exato cruzamento d

genealogias que havia introduzido um coronel2 num ramo novo e ampliad

as relações de escândalo - tais eram tópicos dos quais ela retinha deta

lhes com a maior precisão, reproduzindo-os numa excelente conserv

de epigramas com que ela mesma se deliciava ainda mais porque acred;

tava tão inquestionavelmente em berço e ausência de berço como er

caça e praga. Por pobreza, nunca repudiaria ninguém: um De Bracy rf

duzido a comer seu jantar numa bacia parecer-lhe-ia um exemplo d

patético digno de exagero, e temo que seus vícios aristocráticos não

tivessem horrorizado. Mas o sentimento que a movia em relação ac

Da antiga Grécia: Bias, Quílon, Cleóbulo, Periandro, Pítaco, Sólon e Tales.

zEm heráldica, remate em forma de coroa encimado de um escudo.

MIDDLEMARCH 73

ricos vulgares era uma espécie de ódio religioso: provavelmente todo o

dinheiro que eles tinham feito vinha de preços altos n varejo, e Mrs.

Cadwallader detestava os preços altos para tudo o que não fosse pago

em gêneros no reitorado: essas pessoas não eram parte dos desígnios de


Deus ao fazer o mundo; e sua maneira de falar era uma aflição para os

ouvidos. Um lugar onde proliferavam tais monstros pouco mais era que

uma espécie de comédia mambembe, que não poderia ser levada em

conta num esquema bem concebido do universo. Se alguma dama incli-

nada a ser mais dura com Mrs. Cadwallader perguntar pela abrangência

de suas opiniões tão belas, saiba sem nenhuma dúvida que elas propicia-

vam acomodação para todas as vidas que tinham a honra de coexistir

com a dela.

Com uma tal cabeça, ativa como o fósforo, capaz de reduzir tudo O

que tinha ao redor à forma que melhor lhe convinha, como poderia

Mrs. Cadwallader se considerar uma estranha em relação às irmãs

Brooke e suas perspectivas matrimoniais? Principalmente porque era

um hábito de anos, para ela, passar sermões em Mr. Brooke com a

franqueza mais amistosa e deixá-lo confidencialmente saber que o jul-

gava um grande tolo. Desde a chegada das moças a Tipton ela pre-

arranjara o casamento de Dorothea com Sir James e, se ele tivesse

ocorrido, sentir-se-ia plenamente canvencida de que era obra sua: mas

que ele não fosse ocorrer, depois de ela o ter preconcebido, causava-

lhe uma irritação com a qual qualquer pensador há de simpatizar. Ela

era o diplomata de Tipton e Freshitt, e tudo o que acontecesse sem sua

participação era uma irregularidade ofensiva. Com esquisitices como a

de Miss Brooke, Mrs. Cadwallader não tinha a menor paciência, e via

agora que sua opinião sobre esta moça havia sido contaminada por

algo da benevolência molenga do seu marido: esses tiques metodistas,

esse ar de ser mais religiosa que o reitor e o coadjutor juntos, vinham

de uma doença mais constitucional e mais funda do que ela se dispuse-

ra a crer.

"Contudo," disse Mrs. Cadwallader, primeiro para si mesma, depois

para seu marido, "eu desisto dela: havia uma possibilidade, caso se ca-

sasse com Sir James, de ela tornar-se uma mulher sensata e saudável.
Ele nunca iria contrariá-la, e uma mulher, quando não é contrariada, não

tem motivo para obstinar-se em seus absurdos. Mas agora, desejo-lhe

toda alegria em seu cilício."

Seguia-se que Mrs. Cadwallader precisava arranjar outro partido para

Sir James e, tomada sua decisão de que o melhor seria a mais jovem

Miss Brooke, não poderia haver cartada mais habilidosa para o sucesso

74 GEORGE ELI(

de seu plano que a alusão por ela feita ao baronete de que ele tinl

deixado uma impressão no coração de Celia. Pois ele não era um dess

cavalheiros que enlanguescem pela inatingível maçã de Safo a rir no g

lho mais alto - o encanto que

"Ri qual prímula em tufo no penhasco

Que a mão querente nunca irá pegar."

Não tinha sonetos a escrever, e era impossível que lhe fosse agr

dável não ser um objeto de preferência para a mulher que ele hav

preferido. O conhecimento de que Dorothea escolhera Mr. Casaube

já refreara sua ligação, largando-a à rédea solta. Muito embora S

James fosse um desportista, tinha alguns outros sentimentos em r

lação às mulheres que não os que nutria por raposas e tetrazes, e m

olhava sua futura esposa como uma presa, valiosa sobretudo pel;

excitações da caça. Nem era ele tão bem enfronhado assim nos cost

mes das raças primitivas para sentir que um combate ideal por ela, c

machado de guerra em punho, por assim dizer, era necessário à co

tinuidade histórica do vínculo do matrimônio. Pelo contrário, tendo

condescendente vaidade que nos une aos que gostam de nós, m:

nos desinclina pelos que nos são indiferentes, e sendo de nature;

boa e agradável, a mera idéia de que uma mulher pudesse interessa

se por ele já lhe tecia uns filetes de ternura que emanavam de st

coração para o dela.

Assim aconteceu que, após ter cavalgado bem rápido por uma me
hora em direção contrária à de Tipton Grange, Sir James diminuiu

passo e por fim desembocou num caminho que o levaria de volta por u

percurso menor. Vários sentimentos urdiram nele a determinação de a

nal ir à granja hoje, como se nada de novo houvesse acontecido. N

podia deixar de se alegrar por não ter feito o pedido e nunca assim 

sido rejeitado; a simples polidez entre amigos requeria que ele fo

visitar Dorothea para falar das casas, e agora felizmente Mrs. Cadwallac

já o preparara para dar os parabéns, se necessário, sem demonstrar c

cessiva falta de jeito. Isto porém não lhe agradava: abrir mão de Dorotl-

era mesmo penoso para ele; mas na decisão de fazer imediatamente e;

visita e dominar toda demonstração de sentimentos havia algo que 

uma espécie de antürritante e elaboração preciosa. Sem seu nítido re

nhecimento do impulso, certamente estava nele presente a impress

No original: "Smile like the knot of cowsfips on the cliff, / Not to be come

at 6y the willing har

MIDDLEMARCH

75

de que Celia estaria lá, e de que agora lhe convinha dar mais atenção a

ela que antes.

Nós mortais, homens e mulheres, devoramos muitas decepções en-

tre a hora do café da manhã e a do jantar; contenha pois suas lágrimas,

não mostre senão certo palor em torno dos lábios e, respondendo a

perguntas, diga: "Oh, não é nada!" O orgulho ajuda-nos; e não é má

coisa o orgulho quando apenas nos insta a ocultar as próprias feridas -

para não ferir os outros.

CAPÍTULO VII

"Piacer e popone
Vuol la sua stagione."

- Italian Proverb.

("O prazer e o melão

têm a sua estação."")

- Provérbio italiano.

MR. CAsAusoN, como seria de esperar-se, passou grande parte de seu

tempo, nessas semanas, na granja, e o estorvo ocasionado pelo namoro

ao progresso de sua grande obra - a Chave de Todas as Mitologias -

fê-lo divisar com ainda maior ansiedade o feliz desfecho da corte que lhe

competia fazer. Deliberadamente porém ele procurara esse estorvo, ten-

do resolvido que já estava na hora de ornamentar sua vida com as graças

da companhia feminina, de dissipar com a atividade da fantasia feminina

o abatimento que a fadiga era capaz de inculcar nos intervalos do seu

estudioso labor e de garantir-se, ao culminar nesta idade, o refrigério do

desvelo feminino em seus anos de declínio. Determinou-se pois a aban-

donar-se ao fluxo dos sentimentos, surpreendendo-se por constatar que

córrego incrivelmente raso ele era. Assim como nas regiões áridas o ba

tismo por imersão só pode ser realizado de maneira simbólica, consta

tou Mr. Casaubon que um borrifo era a mais profunda abordagem para c

mergulho que lhe permitiria seu rio; e concluiu que os poetas tinhan

exagerado em muito a força da paixão masculina. Não obstante, obser

vou com prazer que Miss Brooke demonstrava uma afeição ardente 

submissa que prometia corresponder às suas mais agradáveis previsõe

de casamento. Uma ou duas vezes, é fato, passou-lhe pela cabeça qu

MIDDLEMARCH 77

possivelmente havia alguma deficiência em Dorothea que justificava a

moderação do seu abandono; mas não foi capaz de discernir esta defici-

ência, nem de se figurar que mulher lhe teria eventualmente agradado

mais; assim pois não havia, com clareza, uma razão à qual recorrer,

excetuados os exageros da tradição humana.

"Eu não podería preparar-me agora para ser mais útil depois?" dis-
se-lhe Dorothea certa manhã, logo no começo do namoro; "não poderia

aprender a ler latim e grego para você em voz alta, como as filhas de

Milton liam para o paï, sem entender o que estavam lendo?"

"Temo que seja muito enfadonho para você," disse Mr. Casaubon

sorrindo; "e de fato, se me lembro bem, as jovens que mencionou consi-

deravam este exercicio em línguas ignoradas como um motivo de rebe-

lião contra o poeta."

"Sim; mas por um lado eram moças vazias, porque se não se orgu-

lhariam da leitura a um tal pai; por outro, poderiam ter feito um estudo

à parte e aprender a entender o que elas liam, que neste caso seria inte-

ressante. Espero que não deseje que eu seja ignorante e vazia."

"Espero que seja tudo o que uma jovem dama encantadora é capaz

de ser, em todas as possíveis circunstâncias da vida. Poderia decerto ser

uma grande vantagem se você aprendesse a copiar os caracteres gregos,

e para tanto seria bom começar com um pouco de leitura."

Dorothea apegou-se a isto como a uma permissão preciosa. Não

ousaria pedir sem mais nem menos a Mr. Casaubon que lhe ensinasse as

lfnguas, antes de mais nada porque temia ser cansativa, e não útil; mas

não era simplesmente por devoção a seu futuro marido que ela queria

saber latim e grego. Estas províncias do conhecímento masculino pare-

ciam-lhe um posto de observação de onde toda verdade poderia ser vis-

ta com mais clareza. Na situação em que estava, constantemente ela

duvidava de suas próprias conclusões, porque sentia os limites de sua

ignorância: como ter certeza de que as casinhas de um só quarto não

eram para a glória de Deus, quando homens que conheciam os clássicos

pareciam conciliar a indiferença pelas casas com o fervor pela glória?

Talvez até o hebreu fosse necessário - pelo menos o alfabeto e algumas

raízes - para chegar ao cerne das coisas e julgar com propriedade sobre

os deveres sociais de um cristão. Ela não havia atingido aquele ponto de

renúncia no qual se sentiria satisfeíta com ter um marido sábio; ela mes-
ma queria, pobre criança, também ser sábia. Com toda sua propalada

inteligência, Miss Brooke certamente era muito naïve. Celia, cuja mente

nunca fora instruída com muito alarde, via o vazio das pretensões alheias

com muito maís rapídez. Ter de modo geral somente um escasso sentir

78 GEORGE EI.lO"

parece ser a única segurança contra o sentir em demasia em qualque

ocasião específica.

Contudo, Mr. Casaubon consentiu em ouvir e ensinar por uma hor;

juntos, como um perfeito mestre-escola de crianças, ou melhor, com

um pretendente ao qual as dificuldades e a ignorância elementar da amad

adequam-se de um modo tocante. Poucos são os intelectuais que não

teriam gostado de ensinar o alfabeto sob tais circunstâncias. Já Dorothe;

sentiu-se um pouco espantada e desencorajada com sua própria igno

rância, e as respostas que obteve a algumas tímidas perguntas sobre c

valor dos acentos gregos deram-lhe a suspeita penosa de que de fatc

poderia haver segredos que não eram susceptíveis de explicação à razão

de uma mulher.

Mr. Brooke não tinha dúvidas sobre este ponto e expressou-se ;

respeito com seu vigor usual, um dia em que entrou na biblioteca nun

momento em que a leitura ia em curso.

"Mas ora esta, Casaubon, esses estudos tão aprofundados, os clássi

cos, a matemática, esse tipo de coisa, forçam muito as mulheres - for

çam demais, sabe?"

"Dorothea só está aprendendo a ler os caracteres," disse Mr. Ca

saubon esquivando-se à questão. "Ocorreu-lhe a idéia muito ponderada

de poupar-me os olhos."

"Ah, bem, sem entender, sabe - isto pode não ser tão mau assim

Na mente feminina há porém um quê de leveza - um deixar-se levar -

a música, as belas-artes, esse típo de coisa- poís é, elas deveriam estudá

las até um certo ponto, deveriam sim; mas de um jeito leve, sabe? Um

mulher deve ser capaz de sentar-se e tocar ou cantar para você um


antiga e gostosa canção inglesa. É disto que eu gosto; se bem que eu j

ouvi quase tudo - fuí á ópera em Víena: Gluck, Mozart, tudo do gênerc

Mas em música eu sou conservador - não é como no campo das idéia;

sabe? Prefiro as antigas e gostosas canções."

"Mr Casaubon não é chegado ao piano, e alegra-me que o não seja,

disse Dorothea, cujo pouco interesse pela música doméstica e as bela

artes femininas deve ser perdoado, considerando-se as insignificantc

tinidos e barrões em que no mais das vezes consistiam nesse período c

trevas. Ela sorriu, olhou com uma expressão de gratidão para o noiv

Se ele sempre lhe pedisse para tocar "A Última Rosa do Verão", teria c

ser muito resignada. "Já me contou que só há um velho cravo em Lowic

e que está coberto de livros."

"Ah, nisto você está atrás de Celia, minha querida. Celia anda toca

do muito bem agora, e sempre está disposta a tocar. Contudo, se

MIDDLEMARCH

79

Casaubon não gosta, você está certa. Mas é uma pena que não se queira

dar a pequenas recreações desse gênero, Casaubon: com o arco sempre

retesado - esse tipo de coisa, sabe, - assim não dá."

"Nunca considerei que a exposição de meus ouvidos a uma barulheira

compassada e incômoda pudesse ser vista como recreação," disse Mr

Casaubon. "Uma canção muito repetida tem o efeito ridículo de fazer com

que as palavras em minha cabeça executem uma espécie de minueto para

ocupar o tempo - um efeito que, imagino, é quase impossível de tolerar,

passada a infância. No que tange às formas mais elevadas de música, dig-

nas de acompanharem celebrações solenes, e até de servirem como influ-

ente fator na educação, segundo a antiga concepção, eu não digo nada,

pois não é com estas que estamos diretamente preocupados."

"É verdade; mas deste gênero de música bem que eu gostaria," disse

Dorothea. "Quando estávamos vindo de Lausanne para casa, meu tio nos

levou para ouvir o grande órgão de Freiberg, que me arrancou lágrimas."


"Esse tipo de coisa não é nada saudável," disse Mr. Brooke. "Agora

Casaubon, ela estará em suas mãos: convém que ensine minha sobrinha

a encarar as coisas com mais serenidade, não é, Dorothea?"

Terminou com um sorriso, não querendo ferir sua sobrinha, mas real-

mente pensando que talvez fosse melhor para ela casar-se cedo com um

sujeito assim circunspecto como Casaubon, posto que a Chettam não

daria ouvidos.

"No entanto, é incrível," disse consigo mesmo ao escapulir da sala, "é

incrível que ela tenha gostado dele. Reconheço porém que é um bom

partido. Seria exorbitar de minhas obrigações impor-lhe algum obstáculo,

diga lá o que disser Mrs. Cadwallader. O Casaubon sem dúvida ainda

chega a bispo. O panfleto dele sobre a Questão Católica foi mesmo muito

oportuno: - vale ao menos um decanado. É, devem-lhe um decanado."

E aqui devo reivindicar uma pretensão à reflexão filosófica, obser-

vando que Mr. Brooke, nesta ocasião, jamais pensou no discurso radical

que, em período posterior, foi levado a fazer sobre os rendimentos dos

bispos. Que historiador elegante deixaria passar em branco uma oportu-

nidade ideal para assinalar que seus heróis não anteviam a história do

mundo, nem mesmo suas próprias ações? - Por exemplo, esse Henrique

de Navarra, quando era um bebê protestante, jamais pensou que ia ser

um rei católico; nem esse Alfredo o Grande, quando media suas noites

laboriosas queimando velas, tinha a menor idéia de que homens de ge-

rações futuras mediriam com relógios seus ociosos dias. Eis aqui uma

mina de verdades que, não importa o vigor com que possa ser explora-

da, provavelmente há de durar mais do que o nosso carvão.

80

GEORGE ELIOT

Mas sobre Mr. Brooke faço ainda outra observação, talvez menos

comprovada por precedentes, - qual seja, a de que poderia não ter feito
grande diferença se ele houvesse antevisto seu discurso. Pensar com pra-

zer na hipótese de o marido de sua sobrinha ter uma grande renda ecle-

siástica era uma coisa - fazer um discurso liberal era outra; e só uma

mente muito estreita não é capaz de olhar um mesmo assunto sob vá-

rios pontos de vista.

CAPÍTULO VIII

"Oh, rescue her! I am her brother now,

And you her father. Every gentle maid

Should have a guardian in each gentleman."

("Oh, salve-a! Eu agora sou o irmão

E você o pai dela. Toda gentil donzela

Deve ter por guardião um cavalheiro.")

O PRÓPRIO SIR JAMES CHETTAM se admirava da maneira normal como ele

continuava gostando de ir à granja após ter encontrado a dificuldade de

olhar pela primeira vez para Dorothea na condição de uma mulher já

comprometida com outro homem. Claro está que o relâmpago fendido

pareceu trespassá-lo logo que ele se dispôs a abordá-la, mantendo-se

consciente, durante toda a conversa, de esconder seu constrangimento;

mas, bom como era, deve-se reconhecer que este constrangimento era

menor do que teria sido se porventura ele tomasse o rival por um parti-

do brilhante e desejável. Não se considerava de modo algum eclipsado

por Mr. Casaubon; alarmava-o apenas que Dorothea estivesse sob uma

ilusão de melancolia, e sua mortificação perdia um pouco da amargura

que lhe era inerente ao se mesclar à compaixão.

Apesar de Sir James se dizer que havia renunciado por completo a

Dorothea, posto que com a perversidade de uma Desdêmona ela não se

deixasse comover por uma perspectiva de casamento que lhe era adequa-

da e conforme à natureza, ele entretanto não conseguia ficar inteiramente

passivo ante a idéia do compromisso assumido pela moça com Mr.

Casaubon. No dia em que os viu juntos pela primeira vez, e à luz do que

então já era de seu conhecimento, pareceu-lhe não haver encarado o as-


sunto com a seriedade devida. Brooke realmente era passível de culpa;

82 GEORGE ELIC

competia-lhe ter imposto dificuldades. Quem poderia falar com ele? A

guma coisa precisava ser feita, e talvez ainda agora, ao menos para adu

o casamento. A caminho de casa, assim, ele passou pelo reitorado

perguntou por Mr. Cadwallader. O reitor felizmente estava em casa e

visitante foi levado ao seu gabinete, todo entulhado de apetrechos c

pesca. Mas ele mesmo se achava num quartinho contíguo, trabalhand

em seu torno, e chamou o baronete para que fosse até lá. A amizac

entre os dois era maior que entre quaisquer outros clérigos e propriet;

rios de terras do condado - fato significativo e que se achava em cor

cordáncia com a expressão cordial de ambos os rostos. "

Mr. Cadwallader era um homem corpulento, de lábios grossos e coI

um doce sorriso; muito simples e rude em seu exterior, mas dotado de;

sa tranqüilidade e bom humor imperturbáveis e sólidos que são cont

giantes e, como grandes colinas verdes ao sol, acalmam até mesmo uI

egoísmo irritado, fazendo-o envergonhar-se um pouco de si. "Olá, com

vai?" disse ele, mostrando a mão que não estava em condições de sf

apertada. "Pena que não lhe encontrei antes. Há algum problema? Voc

parece estar aborrecido."

Sir James tinha uma ruga na testa, uma pequena depressão d

supercílio, que ele parecia exagerar de propósito quando respondia.

"É apenas essa conduta do Brooke. Acho que alguém deveria ir fala

com ele."

"Do quê? a intenção de candidatar-se?" disse Mr. Cadwallader, pro

seguindo com o conserto das carretilhas de pesca que ele tinha acabad

de pôr no torno. "Custo a pensar que ele queira mesmo. Mas que mal 1

nisto, se assim o desejar? Todos que são contra o liberalismo hão c

ficar contentes se os liberais não Iançarem o candidato mais forte. El

não derrubarão a Constituição com a cabeça de nosso amigo Brool


como aríete."

"Oh, não é disto que estou falando," disse Sir James, que, após po

sar o chapéu e jogar-se numa cadeira, começou a passar a mão na per

e a examinar a sola de sua bota com uma cara muito zangada. "Est

falando é do casamento. De ele deixar essa moça ainda tão florescen

se casar com Casaubon."

"Mas qual é o problema com Casaubon? Não vejo nada de erra

nele - se a moça gosta."

"Ela ainda é muito nova para saber do que gosta. É mister que s

tutor interfira. Mister que ele não perrnita que a coísa seja feita ass

sem mais nem menos. Espanta-me que um homem como vo

Cadwallader - um homem que tem filhas, possa olhar com indiferer

MIDDLEMARCH 83

para este caso: e com um coração como o seu! Pense com seriedade no

assunto."

"Não estou brincando; estou tão sério quanto possível," disse o rei-

tor, com uma provocante risadinha para dentro. "Você é mau como Elinor

Ela queria que eu fosse e fizesse um sermão ao Brooke; e lembrei a ela

que seus próprios amigos tinham péssima opinião a meu respeito, quan-

do ela se casou comigo."

"Mas olhe bem para Casaubon," disse Sir James, indignado. "Deve

andar pelos cinqüenta, e não creio que alguma vez tenha sido mais que

a sombra de um homem. Olhe bem as pernas dele!"

"Não entendo vocês, os rapazes bonitos que acham que tudo no

mundo tem de ser de seu jeito! Vocês não compreendem as mulheres.

Elas não os admiram nem a metade do que vocês mesmos se admiram.

Elinor costumava dizer às irmãs dela que se casou comigo devido à mi-

nha feiúra - tão variada e divertida que lhe conquistara totalmente a

prudência."

"Você? era muito fácil cue uma mulher lhe amasse. Mas no caso não

é uma questão de beleza. E que eu não gosto de Casaubon." Esta era a


maneira mais forte de Sir James dar a entender que o caráter de alguém

lhe desagradava.

"Por quê? que sabe que deponha contra ele?" disse o reitor, deixan-

do suas carretilhas de lado para enfiar os polegares nas axilas, com um ar

de atenção.

Sir James fez uma pausa. Geralmente não lhe era fácil dar suas

razões: parecia-lhe estranho que as pessoas não as soubessem sem as

terem ouvido, já que ele somente sentia o que era razoável. Mas por

fim disse:

"Bem, Cadwallader, você acha que ele tem coração?"

"Acho que sim. Não é do tipo meloso, mas o cerne é de boa qualida-

de, pode estar certo disto. Ele é muito bom com seus parentes pobres:

concede pensões a várias das mulheres e, para educar um rapaz, faz

considerável despesa. Casaubon age de acordo com seu senso dejustiça.

A irmã da mãe dele fez um mau casamento - com um polonês, acho -

e se perdeu - e foi em suma deserdada pela família. Não fosse isto,

Casaubon não teria tido metade do dinheiro que tem. Acredito que ele

foi pessoalmente à procura de seus primos para ver o que podia fazer

por eles. Nem todos os homens reagiriam assim tão bem, com seu pecú-

lio posto à prova. você sim, Chettam; mas nem todos os homens."

"Não sei não," disse Sir James, ruborizando. "Não me garanto tan-

to." E, após uma breve pausa, acrescentou: "Foi uma boa ação, esta do

84 GEORGE ELIOT

Casaubon. Mas um homem, ainda que predisposto a fazer boas ações,

pode ser mesmo assim uma espécie de código em pergaminho. Uma

rnulher pode não ser feliz com ele. E penso que, quando se trata de uma

moça tão jovem, como é o caso de Miss Brooke, seus amigos devam

interferir um pouco para impedi-la de fazer alguma tolice. Você ri, por-

que imagina que haja algum sentïmento de minha parte em questão.

Mas, por minha honra, não se trata disto. Eu sentiria o mesmo se fosse
irmão ou tio de Miss Brooke."

"Bem, e o que faria então?"

; "Diria que o casamento não deveria ser decidido antes de ela chegar

à maioridade. E, se dependesse disto, nesse caso nunca se consumaria.

Espero que você tenha visto as coisas como eu - pois eu gostaria que

falasse sobre o assunto com Brooke."

Sir James levantou-se quando ainda acabava sua frase, pois viu que

Mrs. Cadwallader vinha entrando no gabinete. Trazia pela mão a filha

mais nova, de uns cinco anos de idade, que imediatamente correu para o

papai, sendo posta à vontade em seus joelhos.

"Ouvi o que você estava dizendo," disse a esposa. "Mas não vai

causar ímpressão ao Humphrey. Enquanto o peixe morder a isca, todo

mundo há de ser como tem de ser. Casaubon conseguiu, graças a Deus,

um ribeiro de trutas, e no qual não se importa de ele mesmo pescar:

pode existir homem melhor?"

"Bem, quanto a isto há alguma coisa," disse o reitor, com seu riso

tranqüilo para dentro. "Ter um ribeiro de trutas é uma qualidade muito

boa num homem."

"Mas, a sério," disse Sir James, cuja irritação ainda não havia passa-

do, "a senhora não acha que o reitor poderia estar fazendo algum bem,

se falasse?"

"Oh, eu já lhe disse de antemão o que ele iria dizer," respondeu Mrs.

Cadwallader, levantando as sobrancelhas. "Fiz o que eu pude: lavo mi-

nhas mãos sobre este casamento."

"Primeiramente," disse o reitor, com um ar mais para o grave, "seria

um contra-senso esperar que eu possa convencer o Brooke e levá-lo a

agir como se quer. Brooke é ótima pessoa, mas inconsistente; é capaz de

entrar em qualquer molde, mas não mantém a forma que toma."

"Poderia mantê-la o necessário para adiar o casamento," disse Sir

James.

"Mas, meu caro Chettam, por que deveria eu usar minha influência
para prejudicar Casaubon, a não ser que estivesse muito mais seguro do

que estou de que estaria agindo para favorecer Miss Brooke? Não sei de

MIDDLEMARCH 85

nada que deponha contra Casaubon. Pouco me ïmporto com seu

Xisuthrus", seu Fee-fo-fum2 e todo o restante; mas ele também pouco se

importa com meus apetrechos de pesca. A lïnha que adotou quanto à

Questão Católïca, é verdade, foi inesperada; mas comigo ele tem sido

sempre correto, e não vejo por que devesse eu ir estragar seu brïnquedo.

Pelo que eu possa prever, Miss Brooke talvez seja mais feliz com ele do

que o seria com qualquer outro homem."

"Humphrey, você me esgota a paciência! Sabe muito bem que prefe-

riria jantar encostado numa cerca do que a sós com Casaubon. Vocês

dois não têm nada o que dizer um ao outro."

"E o que isto tem a ver com o casamento de Miss Brooke com ele?

Não é para me divertir que ela o faz."

"Ele não tem nenhum vestígio de bom sangue vermelho," disse Sir

James.

"Não mesmo. Alguém pôs uma gota sob uma lente de aumento, e só

se viam parênteses e pontos-e-vírgulas," disse Mrs. Cadwallader

"Por que, ao invés de se casar, ele não publica seu livro?" disse Sir

James, com um desgosto que julgava autorizado pelos bons sentimen-

tos de um fidalgo inglês.

"Oh, ele sonha com notas de pé de página, e sua capacidade cerebral

se esvai de todo com elas. Dizem que, quando ainda era um garotinho,

fez um resumo de `Hop o"my Thumb,"3 e desde então vive fazendo resu-

mos. Ufa! E este é o homem com o qual Humphrey insiste em dizer que

uma mulher pode ser feliz."

"Bem, é do que Miss Brooke gosta," disse o reitor. "Não tenho a

pretensão de entender o gosto particular de cada senhorita."

"Mas, e se ela fosse sua filha?" disse Sir James.


"Seria um caso diferente. Ela não é minha filha e não me sinto

chamado a interferir. Casaubon é tão bom quanto a maioria de nós. É

um ministro anglicano erudito e que honra seu ministério. Um radi-

cal que andou arengando por Middemarch disse que o letrado Ca-

saubon tinha a incumbência de cortar a palha, Freke a incumbência

de assentar os tijolos e eu a incumbéncia de pescar à lïnha. E dou a

minha palavra que não vejo qual de nós é melhor ou pior que o ou-

tro." O reitor concluiu pelo seu riso em silêncio. Via sempre a inten-

ção de qualquer sátira a seu respeito. Tinha uma consciência compla-

Noé, no mito do dilúvio na Babilônia.

"Um ogre.

"Personagem de história infantil, como Tom Thumb, o Pequeno Polegar.

86 GEORGE E I.IOT

cente e espaçosa, como o restante dele: a qual só fazia o que podia

sem jamais perturbar-se.

Claramente não haveria interferência de Mr. Cadwallader no casa-

mento de Miss Brooke; e Sir James sentiu com certa tristeza que ela ia

ter perfeita liberdade parajulgar errado. Era um sinal de sua boa vonta-

de ele não ter esmorecido em nada na intenção de levar a cabo o plano

de Darothea para as casas populares. Sem dúvida esta persistência, para

sua própria dignidade, era a melhor opção: mas o orgulho apenas nos

ajuda a ser generosos, ele nunca nos faz assim, como a vaidade nunca

nos confere brilho. A essa altura ela estava bem consciente da posição

de Sir James a seu respeito, para apreciar a retidão da perseverança dele

num dever de propríetárío com o qual ele se comprometera de início por

complacência amorosa, e o prazer que disto lhe advinha era suficiente-

mente grande para representar alguma coisa mesmo em sua felicidade

presente. Talvez ela dedicasse às casas de Sir James Chettam todo O

interesse que pudesse poupar de Mr. Casaubon, ou melhor, da sinfonia

de sonhos esperançosos, confiança admiradora e autodevoção apaíxo-


nada que este senhor tão culto lhe havia posto em execução na alma.

Donde de fato aconteceu que nas visitas seguintes o gentil baronete,

nisto que começava a desdobrar-se em pequenas atenções com Celia,

passou a ver-se ao mesmo tempo em conversas, cada vez mais prazerosas,

com Dorothea. Ela agora se mostrava totalmente desembaraçada e sem

irritação para com ele, que pouco a pouco ia descobrindo o deleite exis-

tente na amizade e companheirismo mais francos entre uma mulher e

um homem que não têm paixão para esconder, nem para confessar.

CAPÍTULO IX

ist Gent. An ancient land in ancient oracles

Is called `law-thirsty": all the struggle there

Was after order and a perfect rule.

Pray, where lie such lands now?...

2nd Gent. Why, where they lay of old - in human souls.

i° Sr. De uma terra antiga em antígos oráculos

Diz-se que tem "sede de lei": toda luta lá

Era em prol da ordem e um perfeito governo.

Diga-me cá: agora, onde estão tais terras?...

2° Sr Ora, onde dantes jaziam - na alma humana.

o COMPORTAMENTO DE MR. Casaubon quanto aos necessários acertos foi

altamente satisfatório para Mr. Brooke, e as preliminares do casamento

transcorreram sem maiores entraves, encurtando as semanas de namo-

ro. Prometida, a noiva deve ir ver sua futura casa e ordenar as eventuais

mudanças que lá gostaria de fazer. A mulher ordena antes do casamento

a fim de que, depois, possa ter um desejo de submissão. E certamente o

erro que nós mortais, homens e mulheres, cometemos quando escolhe-

mos nosso próprio caminho pode suscitar certo espanto de que ele nos

agrade.

Numa manhâ de novembro, cinzenta mas firme, Dorothea partiu de


carruagem para Lowick em companhia de seu tio e de Celia. A residên-

cia de Mr. Casaubon era o solar. Perto, visível de algumas partes do

jardim, ficava a igrejinha, com o antigo presbitério em frente. No come-

ço de sua carreira, Mr. Casaubon contara apenas com seu benefício

eclesiástico, mas com a morte do irmão entrara também na posse do

solar da família. O qual tinha um pequeno parque, aqui e ali marcado

88 GEORGE ELIO7

por um velho e rijo carvalho, e umã alameda de tílias dando para a fa-

chada sudoeste, com uma cerca arriada entre o parque e a área de la.zer,

e assim das janelas do salão Oolhar vagava ininterruptamente por uma

encosta relvada até as tílias terminarem no nível das plantações de mi-

lho e pastos que pareciam fundir-se muitas vezes num lago sob o pôr do

sol. Este era o lado feliz da casa, pois o sul e o leste tinham um aspecto

meio melancólico até nas manhãs mais claras. Os espaços eram aqui

confinados, os canteiros de flores não demonstravam manutenção cui-

dadosa, e densos aglomerados de árvores, em geral sombrios teixos,

haviam crescido a grande altura, a menos de dez metros das janelas. A

construção, em pedra esverdeada, era no velho estilo inglês, não feia,

mas com janelas muito pequenas e, na aparência, soturna: o tipo de casa

que precisaria ter crianças, muitas flores, janelas abertas e pequenas vis-

tas de coisas brilhantes para fazê-la parecer um lar alegre. Neste final já

avançado do outono, com um esparso remanescente de folhas secas ca-

indo lentamente de través sobre as folhagens escuras numa quietude

sem sol, a casa também tinha um ar de declínio outonal, e Mr. Casaubon,

quando se apresentou, não dispunha de floração alguma que se pudesse

projetar em relevo contra tal fundo.

"Deus meu!" disse Celia consigo rnesma. "Estou certa de que Freshitt

Hall teria sido mais agradável que isto." Pensou nas pedras de cantaria

,
que eram brancas, nos pilares do pórtico, no terraço cheio de flores e em

Sir James sorrindo acima delas como um príncipe a sair de seu encanta-

mento numa roseira, com um lenço resultante da súbita metamorfose

das pétalas de mais delicado odor - Sir James, que conversava de modo

tão agradável, e sempre sobre coisas em que havia bom senso, não sobre

estudos! Celia tinha esses gostos femininos, irrefletidos e jovens que

os

homens desgastados e graves às vezes preferem numa esposa; mas feliz

mente as intenções de Mr. Casaubon haviam sido diferentes, pois elc

jamais teria chances com Celia.

Dorothea, pelo contrário, achou que a casa e seus espaços eram tudo

o que ela podia desejar: as estantes escuras na biblioteca comprida, o

tapetes e cortinas de cores esbatídas pelo tempo, os interessantes mapa

antigos e vistas panorâmicas nas paredes do corredor, com aqui e ali ur

velho vaso por baixo, não lhe davam a menor opressão, e ela os julgav

mais aconchegantes do que as estátuas e pinturas da granja, que o tio há

muito tempo trouxera para casa de suas viagens - e que estavam prov

velmente entre as manias que ele pegou certa vez. Para a pobre Dorothe

. aqueles nus clássicos tão sérios e as correggiosidades renascentistas c

sorriso afetado eram penosamente inexplicáveis em meio às suas concel

MIDDLEMARCH 89

ções puritanas: nunca lhe haviam ensinado como ela poderia pô-los nal-

gum tipo de relevância em sua vida. Mas os donos de Lowick aparente-

mente não tinham sido viajantes, e os estudos do passado por Mr.

Casaubon não eram feitos com a ajuda desses instrumentos.

Dorothea andou pela casa com uma deleitosa emoção. Tudo lhe pa-

recia santificado: ali seria o lar do qual ela seria a esposa, e era com

olhos cheios de confiança que olhava para Mr. Casaubon, quando este

lhe chamava a atenção, em especial, para determinados detalhes da ar-

rumação, perguntando-lhe se gostaria de mudar alguma coisa. Ela rece-

bia agradecida todas as deferências a seu gosto, mas nada via que mu-
dar. Nem via defeitos nos esforços de cortesia exata e solicitude formal

que ele fazia. Com perfeições não manifestadas ela preenchia todos os

claros, interpretando-o como interpretava as obras da Providência e res-

ponsabilizando pelas supostas discórdias sua própria surdez às harmo-

nias mais altas. E há muitos claros que ficam nas semanas de namoro,

completados pela crença amorosa com uma segurança feliz.

"Agora, minha querida Dorothea, eu gostaria que me indicasse, por

obséquio, que quarto pretende ter como seu boudoir," disse Mr. Casaubon,

demonstrando que seu modo de ver a natureza feminina era suficiente-

mente amplo para incluir esta necessidade.

"É muita bondade sua pensar nisto," disse Dorothea, "mas garanto-

lhe que prefiro ter essas questões já resolvidas para mim. Ficarei muito

feliz em ter tudo assim como está -justamente como você se acostu-

mou a ter, ou como há de preferir que seja. Não tenho motivos para

desejar nada mais."

"Oh, Dodo," disse Celia, "por que não fica com aquele quarto de

cima, o da janela em torrinha?"

Mr. Casaubon os conduziu até lá. A janela em torrinha dava para a

alameda de tílías; toda a mobilia era de um azul desmaiado, e havia

umas miniaturas de cavalheiros e damas de cabelo empoado pendura-

das em grupo. Uma tapeçaria por cima de uma porta também mostrava

um mundo azul-esverdeado com um veado pálido dentro. As cadeiras e

mesas, de pernas finas, eram fáceis de virar. Era um quarto no qual se

poderia ímaginar o fantasma de uma dama apertada em seus espartilhos

revisitando a cena dos seus bordados. Uma leve estante continha os

volumes in-duodecimo de uma literatura elegante encadernada em cou-

ro, completando a decoração.

"É mesmo," disse Mr. Brooke, "com umas forrações novas, uns so-

fás, esse tipo de coisa, daria um ótimo quarto. Agora está um pouco

pelado."
,., .

90 GEORGE ELIOT

"Não, titio," disse Dorothea com ardor. "Nem fale, por favor, em

mudar nada. Há tantas outras coisas no mundo que é preciso mudar -

Quero que as coisas fiquem assim como estão. E você gosta delas como

estão, não é?" acrescentou, olhando para Mr. Casaubon. "Talvez este

tenha sido o quarto de sua mâe quando jovem."

"Foi sim," disse ele, com sua lenta inclinação de cabeça.

" "E esta é sua mãe," disse Dorothea, que se virara para examinar o

grupo de miniaturas. "Parece-se com aquela bem pequenina que você

me levou; só que eu diria que o retrato é melhor. E esta aqui do outro

lado, quem é?"

"A irmã mais velha dela. Como você e sua irmã, foram os únicos

! filhos tidos pelos pais, que são estes que estão por cima."

"A írmã é boníta," disse Celia, dando a entender que era de opinião

menos favorável quanto à mãe de Mr. Casaubon. Um rumo novo se abria

à imaginação de Celia ao pensar que ele vinha de uma família onde

todos em seu tempo tinham sído jovens - e as damas sempre usavam

colares.

"É um rosto bem peculiar," disse Dorothea, olhando de perto. "Es-

tes olhos fundos, cinzentos, talvez um pouco juntos demais - e o nariz

delicado, irregular, com uma pequena ondulação - e todos estes cachos

! empoados caindo para trás. No todo, parece-me mais peculiar que boni-

to. Nem mesmo há uma parecença de família entre ela e a sua mãe."

"Não. E no destino também elas não foram iguais."

" "Você ainda não me falara dela," disse Dorothea.

"Minha tia teve um casamento infeliz. Eu nunca a vi."

t ..

Dorothea surpreendeu-se um pouco, mas sentiu que seria indeticado

perguntar ali mesmo por alguma informação que Mr. Casaubon se absti-

vera de dar e, a fim de admirar a vista, voltou-se para a janela. O sol


finalmente trespassara o cinza, e a alameda de tílias projetava sombras.

"Não podíamos agora ir passear no jardim?" disse Dorothea.

"Ah, e você gostaria de ver a igreja, sabe?" disse Mr. Brooke. "É uma

ígrejínha engraçada. E a aldeia. Cabe tudo numa concha. Aliás, para

você vem a calhar, Dorothea; porque as casas dos pobres são como uns

pavilhões de asilo - jardinzinhos, cravos-da-índia, esse tipo de coisa."

"Sim, por favor," disse Dorothea, olhando para Mr. Casaubon, "eu gos-

taria de ver tudo isto." Nada de mais explícito já conseguira extrair dele

sobre as casas dos pobres de Lowick á não ser que elas "não eram más."

Em breve estavam num caminho de cascalho que passava principal

mente por entre moitas de capim e grupos de árvores, sendo este o ca

minho mais curto para a igreja, como disse Mr. Casaubon. No portãozinhe

MIDDLEMARCH

91

que dava para o pátio da igreja houve uma pausa, enquanto Casaubon ia

ao presbitério, que era quase ao lado, apanhar uma chave. Celia, que se

deixara ficar um pouco atrás, aproximou-se presentemente dos outros,

ao ver que Mr. Casaubon se afastava, e disse em sua voz desenvolta de

staccato, que sempre parecia contradizer a suspeita de alguma intenção

maliciosa:

"Sabe, Dorothea, eu acabo de ver alguém muito jovem vindo por

um desses caminhos."

"E daí, Celia, que há de mais nisto?"

"Pode bem ser um jovem jardineiro - por que não?" disse Mr.

Brooke. "Eu mesmo disse ao Casaubon que ele devia mudar de jardi-

neiro."

"Não, não é um jardineiro," disse Celia; "um cavalheiro com um

caderno de desenho. Tinha o cabelo castanho-claro e cacheado. Só pude

vê-lo de costas. Mas era bem jovem."

"Talvez o filho do coadjutor," disse Mr. Brooke. `Ah, aí está o


Casaubon de volta, e o Tucker com ele. Uai apresentar o Tucker. Vocês

ainda não conhecem o Tucker."

Mr. Tucker era o coadjutor de meia-idade, gente do "clero infe-

rior", a quem em geral não faltam filhos. Feitas as apresentações, a

conversa porém não conduziu a nenhuma pergunta sobre a família dele,

e a surpresa daquela aparição de juventude foi esquecida por todos,

menos por Celia. Interiormente ela se negava a crer que aqueles ca-

chos castanhos e a esguia figura pudessem ter qualquer parentesco com

Mr. Tucker, que era exatamente tão velho e desenxabido quanto ela

esperaria que fosse o coadjutor de Mr. Casaubon; sem dúvida um bom

homem que iria para o céu (pois Celia não queria abrir mão de seus

princípios), mas os cantos da boca dele eram desagradáveis demais.

Algo desolada, Celia pensou no tempo que como dama de honor ela

teria de passar em Lowick, onde o coadjutor provavelmente não tinha

filhos bonitinhos de quem ela pudesse gostar, independentemente de

princípios.

Mr. Tucker foi fundamental ao passeio; e talvez que à cabeça de Mr

Casaubon não tenha faltado antevisão, pois o coadjutor foi capaz de

responder a todas as perguntas de Dorothea sobre os moradores da al-

deia e demais paroquianos. Todos, garantiu-lhe ele, viviam bem em

Lowick: não havia um morador dessas casinhas duplas de aluguel barato

que deixasse de criar o seu porco, e os canteiros de horta nos fundos

estavam sempre bem plantados. Os garotos usavam um cordurói exce-

lente, as meninas saíam como criadas bem arrumadas ou, ficando em

92 GEORGE ELIO"

casa, dedicavam-se aos trabalhos em palha: aqui não havia vultos, nãoc

havia Dissenso;" e, embora a disposição pública tendesse mais ao di

nheiro que em direção à espiritualidade, não havia muitos vícios. Eran

tão numerosas as galinhas pintadas, que Mr. Brooke observou: "Pelc

que estou vendo, em suas lavouras sempre sobra um pouco de cevad;


para as mulheres catarem. Aqui os pobres podem ter uma galinha ns

panela, como o bom rei de França desejava que seu povo todo tivesse

! Os franceses comem muita galinha - galinha magra, sabem."

í "Penso que este desejo dele era bem reles," disse Dorothea indigna

da. "Serão os reis tão monstruosos que um desejo como este deva se

reconhecido como virtude real?"

"Se o que ele desejava para o povo eram galinhas magras," diss

Celia, "não seria nada bom. Mas talvez o que quisesse para todos fos

i sem galinhas gordas."

"Sim, mas o termo ficou fora do texto, ou talvez subauditum; ou seja

presente no raciocínio do reí, mas não expresso," dísse Mr. Casaubon

sorrindo com uma inclinação de cabeça para Celia, que imediatamentc

recuou um pouco, pois não podia suportar que Mr. Casaubon piscass

os olhos diante dela.

No caminho de volta para casa, Dorothea mergulhou em silêncio

; Sentia-se um pouco desapontada, envergonhando-se entretanto disto

por não haver em Lowick nada para ela fazer; e nos poucos mínuto;

que se seguiram sua mente passou a vislumbrar a possibilidade, que

ela teria preferido, de que sua casa se achasse numa paróquia con

,;

maior parcela da miséria do mundo, para que aí ela pudesse ter obriga

ções mais ativas. Depois, voltando-se para o futuro que realmente es

tava à sua frente, imaginou-se na mais completa devoção aos objetivo

de Mr Casaubon, dos quais iria esperar novas obrigações. Muitas d

resto poderiam revelar-se ao conhecimento superior por ela ganho nest

convívio.

Mr. Tucker logo os deixou, tendo algum trabalho clerical a fazer qi

não lhe permitiria almoçar no solar; e, nisto que eles iam reingressanc

no jardim pelo portãozinho, Mr. Casaubon disse:

"Você parece um pouco triste, Dorothea. Espero que tenha gosta


do que viu."

"Estou sentindo uma coisa que é talvez descabida e errada," respe

deu Dorothea corn sua costumeira franqueza - "quase desejando q

as pessoas aqui carecessem de que se fizesse mais por elas. Tenho c

, :,

"No caso, a dissidência da Igreja estabelecida (a anglicana), que incluía

evangélicos e metodi

 i

MIDDLEMARCH

93

nhecido tão poucos modos de dar utilidade à minha vida! Mas é claro

que minhas noções de utilidade devem ser limitadas. Devo aprender

novos modos de ajudar as pessoas."

"Sem dúvida," disse Mr. Casaubon. "Todas as posições têm suas

obrigações correspondentes. Na sua, como senhora de Lowick, nenhu-

ma delas, tenho certeza, deixará de ser atendida."

"Esta é minha crença de fato," disse Dorothea resolutamente. "Não

fique pensando que estou triste."

"Está bem. Agora, se não estiver cansada, vamos voltar para casa

por um outro caminho, não por onde viemos."

Dorothea não estava nem um pingo cansada, e assim foi feito um

pequeno circuito até um teixo soberbo, a maior glória hereditária da

propriedade neste lado da casa. Quando se aproximaram, uma figura

p ,

atente contra um fundo escuro de folhagens, já se achava ali num ban-

co, desenhando a velha árvore. Mr. Brooke, que andava à frente com

Celia, virou a cabeça e disse:

"Quem é este jovem, Casaubon?"

Tinham chegado já bem perto quando Casaubon respondeu:

"É um jovem parente meu, um primo em segundo grau: na verdade


o neto," acrescentou, olhando para Dorothea, "da senhora cujo retrato

lhe despertou a atenção, minha tia Julia."

O rapaz, pondo de lado seu caderno de desenho, levantara-se. Seus

bastos cachos castanhos, tal como suajuvenilidade, identificavam-no de

imediato com o vulto visto por Celia.

"Dorothea, permita-me apresentar-lhe meu primo, Mr. Ladislaw Will,

esta é Miss Brooke."

O primo estava agora tão perto que, quando ergueu o chapéu,

Dorothea pôde ver os olhos cinzentos talvez um pouco juntos demais, o

nariz delicado, irregular, com uma espécie de pequena ondulação, e o

cabelo caindo para trás; a boca e o queixo eram porém de aspecto mais

proeminente e ameaçador que o associado ao tipo da miniatura da avó.

O jovem Ladislaw não se sentia obrigado a sorrir, como se esta apresen-

tação à futura prima e seus parentes lhe agradasse; assumiu, com efeito

um amuado ar de descontentamento.

"Pelo que vejo, é um artista," disse Mr. Brooke, apanhando o cader-

no de desenho e folheando-o sem fazer cerimônia, como de seu hábito.

"Não, apenas desenho um pouco. Aí não há nada que me -- -

visto," disse Ladislaw, corando talvez de irritação, não de mod

"Mas ora esta, bem que está interessante! Em certa época

bém fiz algo do gênero, sabe. Mas olhem só; eis aqui o que eu cc

94 GEORGE ELfOT

I.

i;

t.

um bom trabalho, feito com o que outrora chamávamos de brio." Mr.

Brooke estendeu para as duas moças um grande esboço colorido de um

lugar pedregoso e árvores, com um açude.

"Não tenho como julgar tais coisas," disse Dorothea, não com frie-

za, mas desaprovando com impaciência o apelo a ela dirigido. "Sabe,


meu tio, nunca vejo a beleza dessas obras pictóricas que o senhor diz

serem tão admiradas. São uma linguagem que eu não entendo. Suponho

que haja alguma relação entre natureza e pintura que eu sou ignorante

demais para sentir-assim como o senhor entende uma frase grega que

para mim nada quer dizer." Dorothea ergueu os olhos para Mr. Casau bon

que inclinou a cabeça para ela, enquanto Mr. Brooke, sorrindo, dízia

despreocupadamente:

"Meu Deus, como as pessoas são diferentes! Mas então você rece-

beu uma instrução mal orientada, sabe - pois isto é justamente o ideal

para moças - o esboço, as belas-artes etc. Você preferiu porém dese-

nhar plantas de casas; não compreende a morbidezza," e esse tipo de coi-

sa. Espero que venha à minha casa, e eu lhe mostrarei o que fiz no

gênero," prosseguiu ele, virando-se para o jovem Ladislaw, que teve de

ser interrompido na atenção com que observava Dorothea. Ladislaw já

havia concluído que a moça devia ser bem desagradável, posto que se ia

casar com Casaubon, e o que ela dissera de sua ignorância em pintura

confirmaria esta opinião, mesmo que ele tivesse acreditado. Com eFeito,

havia tomado as palavras dela por um julgamento dissimulado, e estava

certo de que detestara seu esboço. Fora grande a sagacidade presente na

explicação de Dorothea: a um só tempo ela zombara do seu tio e dele,

quando a deu. Porém que voz! Era como a voz de uma alma que tivesse

vivido antigamente numa harpa eólia. Tratar-se-ia decerto de uma da

incongruências da Natureza. Não podia haver nenhum tipo de paixão

numa moça que se casaria com Casaubon. Mas ele, desviando-se da

preocupação nela centrada, expressou seus agradecimentos ao convit

de Mr. Brooke.

"Veremos juntos minhas gravuras italianas," contínuou o bom ho

mem. "Tenho um sem-fim dessas coisas, que há anos deixei do lado

Aqui neste cantão do país nós nos enferrujamos um pouco, sahe? Mf

nos vocé, Casaubon; você se apega aos seus estudos; mas eu, minh
melhores idéias ficam soterradas - fora de uso, sabe. Vocês, due sã

jovens e inteligentes, devem-se proteger da indolência. Eu fui muito a

Esta palavra italiana, que quer dizer "macieza, delicadeza," esteve em voga na

crítica de arte

século XVIII para definir um estilo de pintura caracterízado pe(a extrema

suavídade.

MIDDLEMARCH 95

dolente, sabe: se não, em certa época teria conseguido alguma coisa."

"Eis aí uma admoestação oportuna," disse Mr. Brooke; "agora po-

rém vamos passar à casa, para que as moças não se cansem de estar

sempre de pé."

Com todos já de costas, Ladislaw sentou-se para continuar seus bos-

quejos, e ao fazê-lo seu rosto deu-se a uma expressão de regozijo que ia

aumentando enquanto ele desenhava, até que explodiu num riso alto,

jogando a cabeça para trás. Era em parte a repercussão de sua própria

produção artística o que o divertia; mas em parte também, a idéia de seu

sisudo primo na condição de amante daquela moça; e ainda em parte, a

definição de Mr. Brooke sobre o lugar que poderia ter atingido, não fos-

se o impedimento da indolência. O senso do ridículo, em Mr. Will

Ladislaw, avivava-lhe as feições de modo muito agradável: era o puro

desfrute da comicidade, sem nenhuma mistura de auto-exaltação e de

escárnio.

"Que vai fazer de si mesmo o seu sobrinho, Casaubon?" disse Mr

Brooke a caminho.

"Meu primo, você quer dizer - não meu sobrinho."

"Sim, sim, primo. Mas digo em termos de carreira, entende?"

`A resposta a esta pergunta é constrangedoramente incerta. Ao dei-

xar Rugby, ele declïnou de entrar numa universidade inglesa, onde de

bom grado eu o teria posto, e escolheu o que devo considerar a solução

anômala de estudar em Heidelberg. Agora quer ir para o estrangeiro de

novo, mas sem uma intenção definida, a não ser os vagos objetivos do
que chama de cultura, em preparo para o quê nem ele sabe. Tem declina-

do de escolher uma profissão."

"Suponho que não tenha outros meios senão os que você lhe fornece."

`Á ele e seus amigos sempre dei a entender que eu forneceria com

moderação o que fosse necessário para dar-lhe uma educação completa

e lançá-lo respeitavelmente na vida. Estou por conseguinte obrigado a

corresponder à expectativa assim surgida," disse Mr. Casaubon, situan-

do como mera retidão sua conduta: traço de delicadeza que Dorothea

notou com admiração.

"É um sedento de viagens; talvez acabe-se tornando um Bruce ou

um Mungo Park,"" disse Mr. Brooke. "Eu mesmo já fui um pouco assim

certa vez."

"Não, ele não tem o menor pendor para explorações, nem para o

alargamento de nossa geognose: isto seria uma intenção definida que eu

)ames Bruce (1730-1794) e Mungo Park (1771-1806), exploradores britânicos da

África.

GEORGE ELIOT

96

reconheceria com certa aprovação, muito ernbora sem felicitá-lo pela

carreira, que com tanta freqüência termina em morte prematura e vio-

lenta. Ele está tão longe de ter algum desejo de um conhecimento mais

acurado da superfície da Terra, que disse que preferia não conhecer as

, nascentes do Nilo, e que deveria haver algumas regiões desconhecidas

preservadas como áreas de caça para a imaginação poética."

"Bem, não deixa de ser interessante," disse Mr. Brooke, que certa

mente tinha um espírito imparcial.

"Temo que isto não seja nada mais que parte de sua inaptidão e

indisposição generalizadas para uma entrega profunda aalguma coisa, c

que seria um mau augúrio para ele em qualquer profissão, civil ou ecle
siástica, se porventura fosse suficientemente submisso à norma estabe

lecida para escolher uma."

"Talvez ele tenha escrúpulos de consciência baseados em sua pró

pria inadequação," disse Dorothea, que já se ia interessando por encon

trar uma explicação favorável. "Por que o direito e a medicina devem se

profissões muito difíceis de abraçar, não é mesmo? Delas dependem a

vida e a fortuna dos outros."

"Sem dúvida; temo porém que meu jovem parente Will Ladislav

seja determinado principalmente, em sua aversão por estas vocações

pelo desamor à constante aplicação e a este tipo de aquisição que c

i instrumentalmente necessária, se bem não seja encantadora nem dE

imediato apeteça ao gosto auto-indulgente. Já insisti com ele sobre c

que Aristóteles disse com admirável brevidade, que para a consecução

de qualquer obra considerada como um fim deve haver um prévio exer

cício de muitas energias ou meios adquiridos de uma ordem secundária

exigindo paciência. Apontei-lhe meus próprios volumes de manuscritos

que representam a lida de anos de preparo para uma obra ainda não

realizada. Mas em vão. Aos raciocínios prudentes desta espécie ele res

ponde intitulando-se Pégaso, assim como chama de `arreios" a qualque

forma de trabalho prescrito."

Celia riu. Era uma surpresa, para ela, constatar que Mr. Casaubo

podia dizer alguma coisa engraçada.

"Bem, sabe, ele pode acabar virando um Byron, um Chatterton, ur

Churchill - esse tipo de coisa - não há como saber," disse Mr. Brookf

"Com que então você o manda à Itália, ou aonde mais queira ir?"

"Pois é; concordei em conceder-lhe uma moderada ajuda por mai

ou menos um ano; não pede mais. Deixarei que se submeta ao teste d

liberdade."

I

"É muita bondade sua," disse Dorothea, olhando para Mr. Casaubo
MIDDLEMARCH

97

com um enorme prazer. "É um gesto nobre. Afinal, as pessoas realmente

podem ter uma vocação que a elas mesmas não se revela de todo, não é?

Podem parecer fracas e preguiçosas só porque estão crescendo. Temos

de ser muito pacientes uns com os outros, a meu modo de ver."

"Suponho que é por estar comprometida a casar-se que você passou

a pensar que ser paciente é bom," disse Celia, assim que ela e Dorothea,

na hora de desvestirem-se, encontraram-se a sós.

"Você quer dizer que eu sou muito impaciente, não é, Celia?"

"É; quando as pessoas não fazem e dizem o que você quer." Celia

passara a ter menos medo de "dizer coisas" para Dorothea desde seu

compromisso de casamento: o brilho da inteligência parecia-lhe mais

digno de pena que nunca.

CAPÍTULO X

"He had catched a great cold, had he had no other clothes

to wear than the skin of a bear not yet killed."

- FULLER.

("Teria pegado uma grande gripe, se não tivesse outras rou-

pas para usar, além da pele de um urso ainda não morto.")

- FULLER."

O JovElvl LAolsLAw não foi fazer a visita para a qual

Mr. Brooke o con

dara, e apenas transcorridos seis dias Mr. Casaubon

informou que o

paz seu parente já havia embarcado para o Continente,

dando a entE

der pela fria vaguidão que dispensava perguntas. Com

efeito, Will dec

nara de referir-se a qualquer destino mais preciso que


toda a área

Europa. O gênio, sustentava ele, necessariamente não

tolera os grilhõ

por um lado, tem de ter o máximo de expansão para sua

espontaneic

de; por outro, pode esperar com confiança pelas

mensagens do unive

que o convocam para uma obra específica, colocando-se

apenas nw

. I atitude de receptividade perante as chances sublimes.

As atitudes

receptividade são várias, e Will já experimentara

sinceramente mui

delas. Nem gostava tanto assim de vinho, mas excedeu-se

não pouc

vezes, simplesmente para realizar um experimento nesta

forma de êx

se; jájejuara até desmaiar, indo depois comer lagosta;

já se pusera doc

, ,,"".....J te de tantas doses de ópio. Nada de

grandemente original havia resul

do destas práticas; e os efeitos do ópio convenceram-no

de m

l,".  disparidade total existente entre sua

constituição e a de De Quinc

If

Thomas Fuller (1608-1661), clérigo anglicano e escritor

inglês.

tt

 "i
MIDDLEMARCH

99

Aquela circunstância a mais que induziria à evolução do gênio ainda não

tinha surgido; o universo ainda não fizera um chamado. Até a sorte de

César, antigamente, não foi senão um grande pressentimento. Sabemos

que todo desenvolvimento é uma mascarada, e que formas efetivas po-

dem estar sob disfarce em embriões indefesos. - O mundo, de fato, está

cheio de analogias esperançosas e de ovos lindos mas dúbios chamados

possibilidades. Will viu com suficiente clareza os lamentáveis exemplos

de uma longa incubação não geradora de prole e, não fosse sua gratidão,

teria rido de Casaubon, cuja aplicação diligente, cujas pilhas de cader-

nos e fracas luzes de teoria erudita para explorar a barafunda das ruínas

do mundo pareciam dar força a uma moral que encorajava de todo a

generosa confiança de Will nas intenções do universo a seu respeito.

Esta confiança, segundo ele, era uma marca de gênio; e certamente não

é marca que indique o contrário; pois não consiste o gênio em presunção

nem humildade, mas num poder de produzir ou fazer, não algo em geral,

mas alguma coisa em particular. Que ele então parta para o Continente,

sem que nos pronunciemos sobre seu futuro. Em meio a todas as formas

de erro, a profecia é a mais gratuita.

No momento esta cautela quanto a um julgamento muito apressado

interessa-me mais em relação a Mr. Casaubon que a seu jovem primo.

Se Mr. Casaubon foi para Dorothea a mera ocasião que ateou fogo ao

delicado material inflamável de suas ilusões juvenis, deve-se deduzir

que ele estivesse bem representado nas mentes dos personagens menos

apaixonados que até agora já manifestaram julgamentos a seu respeito?

Protesto contra qualquer conclusão absoluta, qualquer preconceito deri-

vado do desprezo de Mrs. Cadwallader pela alegada grandeza de alma

de um clérigo que era seu vizinho, ou da opinião negativa de Sir James

Chettam sobre as pernas do seu rival, - do fracasso de Mr. Brooke em

extrair as idéias de um confrade, ou das críticas de Celia à aparência


pessoal de um intelectual de meia-idade. Não tenho certeza de que o

maior homem de sua época, se jamais este solitário superlativo existiu,

pudesse escapar desses reílexos desfavoráveis de si em vários espelhinhos;

pois até Milton, contemplando numa colher seu retrato, teria de admitir

que tinha os ângulos faciais de um roceiro. Além do mais, se Mr. Casaubon

quando se manifesta, recorre a uma retórica frígida, não é conseqüente-

mente certo que nele não haja bons sentimentos, nem bons trabalhos.

Um físico imortal e decifrador de hieróglifos não escreveu versos detes-

táveis?" A teoria do sistema solar foi porventura elaborada por meio de

Alusão a Thomas Young (1773-1829), médico, fisico, egiptólogo e poeta inglês.

10O GEORGE Et.tO"

graciosas maneiras e tato na conversação? Suponha que nos voitemo

das apreciações externas de um homem para tentar saber, com o mai

agudo interesse, quais os informes de sua própria consciência sobre su;

capacidade e fazer: com que estorvos ele leva a cabo suas tarefas diárias

que dissipar-se de esperanças, ou que mais funda fixidez de auto-ilusão

os anos demarcam dentro dele; e com que espírito ele luta contra a pres

são universal que um dia lhe há de ser por demais pesada e levará se

coração à pausa final. Sem dúvida alguma sua sorte é importante a seu

próprios olhos; a principal razão para pensarmos que insta por um (uga

muito grande em nossa consideração deve ser nossa falta de espaço par;

ele, posto que o reportemos com perfeita confiança à proteção Divina; 

nem só, é tido mesmo por sublime que de lá nosso vizinho espere c

máximo, por pouco que de nós tenha podido obter. Mr. Casaubon, tam

bém, era o centro de seu próprio mundo; se corria o risco de pensar qm

os outros eram providencialmente feitos para ele, e especialmente d

considerá-los à luz de sua adequação para o autor de uma "Chave dE

Todas as Mitologias," tal traço não nos é de todo estranho e, como a;

demais esperanças mendicantes dos mortais, pede-nos um pouco de pie


dade.

Decerto este assunto de seu casamento com Miss Brooke o afetav

mais diretamente que a qualquer uma das pessoas que até agora tên

demonstrado que o desaprovavam, e no atual estado de coisas eu sintc

mais simpatia por sua sensação de triunfo do que pelo desapontamen

to do amável Sir James. Pois na verdade, ao aproximar-se o dia marca

do para o casamento, Mr. Casaubon não percebia elevação em seu âni

mo; nem a contemplação desse matrimonial cenário de jardim onde

como toda experiência mostrou, o caminho devia ser bordejado de flo

res, revelava-se persistentemente mais atraente para ele do que as costu

meiras abóbadas sob os quais andava com sua vela na mão. Não con

fessava a si mesmo, e menos ainda poderia ter sussurrado a outrerr

sua surpresa de conquistar o nobre coração de uma moça adorável ser

todavia ter conquistado o prazer - que ete também havia visto com

objeto a encontrar por busca. É bem verdade que sabia todas as passa

gens clássicas que dão a entender o contrário; mas saber passagen

clássicas, parece-nos, é uma forma de despender energia, o que explic

por que elas deixam tão pouca força suplementar para sua aplicaçã

pessoal.

O pobre Mr. Casaubon havia imaginado que sua longa vívência de celi

batário estudioso armazenara para ele um composto interesse de fru

ção, e que grandes exigências sobre suas afeições não deixariam de sf

MIDDLEMARCH

101

honradas; pois todos nós, sisudos ou não, temos nossos pensamentos

emaranhados em matáforas, e fatalmente agimos à força delas. E agora

ele se achava ante o risco de ser entristecido pela própria convicção de

que suas circunstâncias eram incomumente felizes: nada havia de ex-


terno que pudesse responsabilizar por certa vagueza de sensibilidade

que o dominava justamente quando sua alegria expectante deveria es-

tar mais viçosa, justamente quando ele trocava a monotonia rotineira

de sua biblioteca em Lowick pelas visitas à granja. Aqui estava uma

molesta experiência na qual ele era tão drasticamente condenado à

solidão quanto no desespero que o ameaçava às vezes enquanto no

atoleiro da autoria ele se afadigava sem nunca parecer mais perto do

fim. E era a pior das solidäes a dele, a que tende a retrair-se ante a

simpatia. Não podia senão desejar que Dorothea o julgasse não menos

feliz do que o mundo esperaria que seu bem sucedido pretendente

fosse; e em relação às suas ambiçäes de autor ele contava com a juvenil

confiança e veneração da moça, deleitando-se em instigar-lhe o inte-

resse fresco de ouvir como um meio de encorajamento a si mesmo: ao

falar para ela, apresentava toda sua atuação e tenção com a segurança

refletida do pedagogo, e nesta hora se livrava da audiência ideal e frígi-

da que atravancava suas horas laboriosas e iriférteis com a vaporosa

pressão das sombras tartáreas.

Para Dorothea, após a história mundial de brinquedo adaptada para

moçoilas que havia constituído a principal parte de sua educação, as

conversas de Mr. Casaubon sobre seu grande livro estavam cheias de

novos panoramas; e esse sentido de revelação, essa surpresa de uma

introdução mais fiel a estóicos e alexandrinos, como gente que tinha

idéias não de todo diferentes das dela, mantinha,por ora em suspensão

temporaria sua usual avidez de uma teoria unificadora que pudesse

levar sua própria vida e doutrina a uma estreita conexão com esse fa-

buloso passado e dar às fontes mais remotas de conhecimento alguma

influência sobre suas açäes. Este ensinamento mais completo haveria

de vir - Mr. Casaubon contar-lhe-ia tudo: ela aguardava uma iniciação

mais elevada às idéias como aguardava o casamento, mesclando suas

confusas concepçäes das duas coisas. Seria grande emo supor que

Dorothea se viesse a preocupar com qualquer participação nos conhe-


cimentos de Mr. Casaubon como mera proeza; pois, embora a opinião

dos vizinhos de Freshitt e Tipton a houvesse declarado inteligente, tal

epíteto não a teria descrito nos círculos em cujo vocabulário mais pre-

ciso inteligência dá a entender simples aptidão para saber e fazer, à

parte do caráter. Toda sua ansiedade de aquisição jazia no interior des-

102

GEORGE ELIOT

sa corrente repleta de motivos de simpatia na qual suas idéias e impul-

sos eram de hábito arrastadas. Ela não queria adornar-se de conheci-

mento - usá-lo desligado dos nervos e do sangue que a alimentavam

na ação; e, se tivesse escrito um livro, tê-lo-ia feito como Santa Teresa,

sob o comando de uma autoridade que lhe constringisse a consciência.

Mas ansiava por algo pelo qual sua vida pudesse ser preenchida de

ação a um só tempo racional e ardente; e, posto que ido o tempo das

visäes que guiavam e dos diretores espirituais, posto que a prece au-

mentava o anseio, mas não a instrução, que luz ainda havia senão a do

conhecimento? Todo o óleo restante era o que os eruditos mantinham;

e que homem mais erudito que Mr. Casaubon?

Assim nessas breves semanas a alegre e grata expectativa de Dorothea

não se alterou e, ainda que seu amado pudesse ocasionalmente

conscíentizar-se de monotonia, nunca poderia atríbuí-la ao menor arre-

fecer de seu afeiçoado interesse.

Era época de clima bem ameno para estimular o projeto de estender

até Roma a viagem de núpeias, o que deixava ansioso Mr. Casaubon,

porque era de seu desejo examinar no Vaticano alguns manuscritos.

"Continuo a lamentar que sua irmã não nos acompanhe," disse ele

certa manhã, pouco tempo depois de esclarecido que Celia se opunha a

ir e que Dorothea não a desejava levar. "Você há de ter muitas horas de


solidão, Dorothea, pois serei obrigado a aproveitar meu tempo ao máxi-

mo durante nossa estada em Roma, e eu me sentiria mais livre se você

tivesse companhia."

As palavras "eu me sentiria mais livre" deixaram Dorothea enfeza-

da. Pela primeira vez ela corou de irritação ao conversar com Mr.

Casaubon.

"Você deve ter-me entendido muito mal," disse ela, "se pensa que

eu não compreenderia o valor de seu tempo - se pensa que eu não

abriria mão, de bom grado, de qualquer coisa que lhe impedisse de usá-

lo para o melhor objetivo possível."

" muito gentil de sua parte, minha querida Dorothea," disse Mr,

Casaubon, não percebendo nem um pouco que ela estava ofendida; "mas,

se houvesse outra mulher a lhe fazer companhia, eu poderia confiar vocês

duas aos cuidados de um cicerone, e assim realizaríamos dois objetivos

no mesmo espaço de tempo."

"Peço-lhe que não se refira novamente a isto," disse Dorothea, não

sem soberba. Mas imediatamente ela temeu estar enganada e, voltan-

do-se para Mr. Casaubon, pôs a mão sobre a dele e acrescentou noutrc

tom: "Por favor, não se inquiete por minha causa. Terei tanto o qu(

"Yf w

MIDDLEMARCH

103

pensar, quando estiver sozinha! E Tantripp já será companhia bastante,

apenas para cuidar de mim. Eu não agüentaria a Celia comigo: ela ficaria

muito infeliz."

Estava na hora de se vestir. Haveria nesse dia um jantar, a última das

comemoraçäes feitas na granja como preliminares corretas para o casa-


mento, e Dorothea alegrou-se por ter uma razão para afastar-se logo

dali ao som do sino, como se necessitasse de mais preparativos então

que os de costume. Envergonhava-se da irritação provinda de alguma

causa que nem para si mesma era capaz de definir; pois, embora ela não

tivesse a intenção de ser falsa, sua resposta não tocara na verdadeira

ofensa em seu íntimo. As palavras de Mr. Casaubon haviam sido bem

razoáveis, provocando no entanto, de parte dela, uma instantânea e vaga

sensação de dístanciamento.

"Encontro-me decerto num estado de espírito estranharnente egoís-

ta e fraco," disse ela a si mesma. "Como posso ter um marido que está

tão acima de mim sem saber que ele precisa menos de mim que eu

dele?"

Tendo-se convencido de que Mr. Casaubon estava absolutamente

certo, ela recuperou sua equanimidade, e já era uma agradável imagem

de dignidade serena quando ingressou na sala de visitas em seu ves-

tido cinza-prateado - as linhas simples do cabelo castanho partidas

no alto da testa e enroladas para trás num só tufo, em concordância

com a total ausência, em seus modos e expressão, de qualquer busca

de efeito. Muitas vezes, quando Dorothea se achava em companhia

dos outros, o ar de tranqüilidade que a parecia envolver era tão com-

pleto como se ela fosse uma pintura de Santa Bárbara a olhar de sua

torre o céu claro; mas estes intervalos de quietude tornavam a energia

de sua fala e emoção mais notada quando algum apelo exterior a sen-

sibilizava.

Naturalmente ela foi alvo de muitas observaçäes essa noite, pois era

um grande jantar e, no tocante à presença masculina, algo mais hetero-

gêneo que qualquer outro já oferecido na granja desde que as sobrinhas

de Mr. Brooke residiam com ele, travando-se por conseguinte as conver-

sas em duos e trios mais ou menos desarmônicos. Lá estavam o prefeito

recém-eleito de Middemarch, que por sinal era um dono de fábrica; o

banqueiro filantropo, cunhado dele, que mandava tanto na cidade que


era chamado de metodista por uns e, por outros, de hipócrita, conforme

os recursos dos respectivos vocabulários; e homens de várias profissäes.

Com efeito, Mrs. Cadwallader disse que Brooke estava começando a

regalar a sociedade local e que ela preferia os agricultores no jantar do

104

GEORGE ELIOT

dízimo, os quais bebiam despretensiosamente à saúde dela e não ti-

nham vergonha da mobília dos seus próprios avós. Pois nesta região do

país, antes de a Reforma ter feito sua parte notável no desenvolvimento

da consciência política, havia uma distinção mais clara de classes e uma

distinção mais imprecisa de partidos; assim que os convites heterogê-

neos de Mr. Brooke pareciam ligar-se àquela frouxidão generalizada que

provinha de suas desordenadas viagens e do hábito de, em forma de

idéias, ele ter absorvido demais.

Tão logo Miss Brooke saiu da sala de jantar, encontraram-se oportu-

nidades para alguns "reparos" ínterjetivos.

"Bela mulher, Miss Brooke! mulher incomumente bela, por Deus!"

disse Mr. Standish, o velho advogado, que depois de tantos anos de

preocupação com a pequena nobreza e suas terras acabara também pro-

prietário, e que proferiu esta blasfêmia em voz grossa, como uma espé-

cie de divisa armorial, qualificando a fala de um homem que desfrutava

de uma boa situação.

A observação parecia dirigir-se ao banqueiro, Mr. BuIstrode, mas

este senhor se limitou a inclinar-se, avesso que era a grosserias e

profanidades. Foi tomada então por Mr. Chichely, um solteirão de meia-

idade e celebridade da caça, que tinha o corpo algo semelhante a um ovo

de Páscoa, alguns fios de cabelo cuidadosamente ajeitados e uma postu-

ra que denotava consciência de uma aparencia distinta.


", mas não é meu tip -: gosto da mulher que se exibe um pouco

mais para agradar a gente. E preciso que haja na mulher um pouco de

filigrana - alguma coisa da coquete. O homem gosta de uma espécie de

desafio. Quanto mais ela o deixar acuado, melhor."

"Há certa verdade nisto," disse Mr. Standish, disposto a ser cordial.

"E, por Deus, é geralmente por aí que elas vão. Suponho que isto

corresponda a alguns sábios fins: foi a Providência que as fez assim, não

é, Bulstrode?"

"Eu me inclinaria a vincular a coqueteria a outra fonte," disse Mr.

BuIstrode. "Antes, inclinar-me-ia a vinculá-la ao diabo."

,Ah, sem dúvida, numa mulher é preciso que haja um diabinho,"

disse Mr. Chichely, cujo estudo do belo sexo parecia ser feito em detri.

mento de sua teologia. "E eu gosto é das louras, com um bom passo e

um pescoço de cisne. Aqui entre nós, a filha do prefeito é muito mais a

meu gosto do que Miss Brooke ou Miss Celia. Se eu fosse homem por

me casar, antes de qualquer uma delas escolheria Miss Vincy."

"Pois decida-se, decida-se," disse Mr. Standish, fazendo graça; "os

homens de meia-idade, como você vê, estão na ordem do dia."

MIDDLEMARCH

105

Mr. Chichely balançou a cabeça de um modo bem expressivo: ele

não ia sujeitar-se à certeza de que viria a ser aceito pela mulher que

escolhesse.

Esta Miss Vincy que tinha a honra de ser o ideal de Mr. Chichely

naturalmente não estava presente; pois Mr. Brooke, sempre contrário a

ir-se longe demais, não gostaria de ver suas sobrinhas travando conheci-

mento com a filha de um dono de fábrica de Middemarch, a menos que

fosse numa ocasião pública. A parte feminina da companhia não incluía


ninguém a quem Lady Chettam ou Mrs. Cadwallader pudessem fazer

objeçäes; pois Mrs. Renfrew, a viúva do coronel, não só era inatacável

no tocante à origem, mas também interessante em virtude de seus acha-

ques, que intrigavam os doutores e pareciam claramente um caso onde a

inteireza do conhecimento profissional poderia necessitar de um suple-

mento de charlatanice. Lady Chettam, que atribuía sua própria saúde

extraordinária a beberagens caseiras aliadas a um constante atendimen-

to médico, acompanhou com grande esforço de imaginação os sintomas

descritos por Mrs. Renfrew, e soube da espantosa ineficácia, no caso

dela, de todos os remédios fortificantes.

"Mas e o poder desses remédios, para onde então é que vai, minha

querida?" disse a meiga mas pomposa matrona, virando-se pensativa-

mente para Mrs. Cadwallader, assim que Mrs. Renfrew teve a atenção

chamada alhures.

" um poder que fortalece a doença," disse a esposa do reitor, muito

bem nascida demais para não ser amadora em medicina. "Tudo depende

da constituição: uns produzem gordura, outros sangue, outros bílis - é

assim que eu vejo a questão; e qualquer coisa que as pessoas ingerem é

como uma batelada de grãos para o moinho."

"Pois então ela devia tomar remédios que atenuassem - que enfra-

quecessem a doença, sabe, se você, minha querida, está com a razão. E

acho o que diz muito sensato."

"Certamente é sensato. Pegue duas espécies de batatas, criadas no

mesmo solo. Uma delas cresce mais e fica mais aguada..."

"Ah! como a pobre Mrs. Renfrew - isto é o que eu penso. Hidropisia!

Por enquanto ainda não há inchação - é para dentro. Eu diria que ela

devia tomar remédios que secassem, você não acha? - ou então um

banho a seco de ar quente. Há muitas coisas a tentar, assim de um tipo

secante.PI

"Que tal ela tentar os panfletos de uma certa pessoa?" disse Mrs.

Cadwallader em voz baixa, vendo que os senhores entravam. "Ele não


precisa ficar mais seco."

106

GEORGE ELIOT

"Ele quem, querida?" disse Lady Chettam, mulher encantadora, que

não se apressaria para anular o prazer de uma explicação.

"O noivo - Casaubon. Decerto ele está secando mais rápido depois

do noivado: a chama da paixão, suponho."

"Tendo a crer que está longe de ter uma boa constituição," disse

Lady Chettam, num tom de voz ainda mais baixo. E depois os estudos

dele - tão áridos, como você diz."

"Realmente, ao lado de Sir James, ele até parece o próprio crânio da

morte coberto de pele para a cerimônia. Guarde minhas palavras: dentro

de um ano a contar de hoje esta menina vai odiá-lo. Atualmente ela o vê

como um oráculo, mas passará pouco a pouco para o outro extremo,

Tudo caprichos inconstantes!"

" muito triste! Acho que ela é mesmo uma cabeça-dura. Mas diga-

me - você sabe tudo sobre ele - há alguma coisa realmente má? Qual

é a verdade?"

"A verdade? ele é tão ruim quanto um remédio emado - ruim de se

tomar e, na certa, fazendo mal."

"Não podia haver nada pior do que isto," disse Lady Chettam, com

uma concepção tão vívida do tal remédio que parecia ter aprendido algo

bastante objetivo sobre as desvantagens de Mr. Casaubon. "No entanto,

Jarnes não dará ouvidos a nada contra Miss Brooke. Diz que ela é ainda

o espelho das mulheres."

"Um generoso fingimento da parte dele. Pode estar certa disto, ele

gosta mais da pequena Celia, e ela bem que o aprecia. Creio que da

minha pequena Celia a senhora gosta, pois não?"


"Decerto; não só ela é mais chegada aos gerânios, como também

parece mais meiga, embora sua figura não faça tanta vista. Mas, já

que estávamos falando de remédios, fale-me desse novo e jovem ci-

rurgião, Mr. Lydgate. Disseram-me que tem uma inteligência fantás-

tica: o que sem dúvida ele demontra na aparência - uma bela cabe-

ça, de fato."

" um cavalheiro. Ouvi-o conversando com Humphrey. Fala muito

bem."

". Diz Mr. Brooke que ele descende dos Lydgates da Northumberland,

é realmente bem aparentado. Não é isto o que se espera de um profis-

sional dessa classe. De minha parte, prefiro um médico mais em pé de

igualdade com os serviçais; os quais muitas vezes são para lá de inteligen-

tes. Garanto-lhe que eu julgava infalível o discernimento do pobre Hicks;

nunca soube que se enganasse. Ele era bruto e parecia um açougueiro,

mas conhecia minha constituição. Foi uma perda para mim que se fosse

MIDDLEMARCH

107

tão de repente. Mas, meu Deus, que conversa mais animada Miss Brooke

parece estar tendo com este Mr. Lydgate!"

"Está falando de casas populares e hospitais com ele," disse Mrs.

Cadwallader, cujos ouvidos e poder de interpretação eram apurados.

"Parece-me que ele é uma espécie de filantropo, e Brooke assim na certa

vai pegá-lo."

"James," disse Lady Chettam quando seu filho chegou perto, "cha-

me Mr. Lydgate e o apresente a mim. Quero testá-lo."

A afável viúva declarou-se encantada com a oportunidade de conhe-

cer Mr. Lydgate, já tendo ouvido falar do sucesso dele no uso de um

novo tratamento da febre.


Mr. Lydgate tinha o talento médico de parecer perfeitamente sério,

fosse qual fosse o absurdo que lhe diziam, e seus olhos escuros, firmes,

davam-lhe impressibilidade como ouvinte. Era tão pouco quanto possí-

vel como o lamentado Hicks, particularmente no tocante a um ligeiro e

refinado descuido nos seus modos de vestir e expressar-se. Não obstante,

Lady Chettam teve muita confiança nele, que lhe confirmou o ponto de

vista sobre sua própria condição como peculiar, ao admitir que todas as

constituiçäes podem ser consideradas peculiares, e sem negar que a dela

talvez fosse mais peculiar do que outras. Ele não aprovava os métodos

para abaixar a febre, como a aplicação impensada de ventosas, nem, por

outro lado, o uso incessante de vinho do Porto e cascas. Dizia "Penso

que sim" com um ar de tanta deferência a acompanhar a profundidade

de sua concordância, que ela formou sobre seus talentos a opinião mais

favorável.

"Seu protégé agradou-me em cheio," disse ela a Mr. Brooke antes de

ir-se embora.

ddmeu protégé? - Deus meu! - Quem é?" disse Mr. Brooke.

"Este jovem Lydgate, o novo médico. Parece-me que compreende

muitíssimo bem a profissão."

"Oh, Lydgate! ele não é meu protégé, sabe; eu apenas conhecia um

tio dele que me mandou uma carta recomendando-o. Contudo, acredito

que seja de primeira categoria - estudou em Paris, conheceu Broussais;

tem idéias, sabe - quer erguer a profissão."

"Lydgate tem um monte de idéias, totalmente novas, sobre ventila-

ção e dieta, esse tipo de coisa," retomou Mr. Brooke, após ter levado à

porta Lady Chettam e voltado para trocar gentilezas com um grupo de

concidadãos.

"Com a breca! acha que está mesmo correto isto? - alterar o velho

tratamento que fez dos ingleses o que eles são?" disse Mr. Standish.

108
GEORGE ELIOT

"O conhecimento médico está em maré baixa entre nós," disse Mr.

BuIstrode, que falou em tom dosado e tinha um ar bem doente. "Eu, de

minha parte, saúdo o advento de Mr. Lydgate. Espero encontrar boas

razäes para confiar à direção dele o novo hospital."

"Está tudo muito bem," replicou Mr. Standish, que não gostava de

Mr. Bulstrode; "se vocês o querem para fazer experiências com os paci-

entes do hospital, e por caridade matar algumas pessoas, não tenho ne-

nhuma objeção. Mas não sou eu que irei tirar dinheiro da algibeira para

que realizem experiências em mim. Prefiro um tratamento já um pouco

testado."

"Sabe de uma coisa, Standisli, cada dose que a gente toma é uma

experiência - uma experiência, sabe," disse Mr. Brooke, com um me-

neio de cabeça para o advogado.

"Oh, se você fala neste sentido!" disse Mr. Standish, com tanto des-

gosto ante estas evasivas não legais quanto é capaz de deixar transparecer

um homem em relação a um valioso cliente.

"Agradar-me-ia qualquer tratamento que me curasse sem me reduzir

a um esqueleto, como o pobre Grainger," disse Mr. Vincy, o prefeito, um

homem flórido, que poderia ter servido para um estudo da carne, em

marcante contraste com as cores franciscanas de Mr. BuIstrode. " coisa

incomumente arriscada ser deixado sem qualquer proteção contra os

golpes da doença, como já disse alguém, - expressão que eu mesmo

aliás considero muito feliz."

Mr. Lydgate, naturalmente, não estava ouvindo a conversa. Saíra cedo

da festa, e a teria julgado entediante de todo, não fosse a novidade de

algumas apresentaçäes, particularmente a apresentação a Miss Brooke,

cuja juventude em flor, com seu casamento à vista com aquele intelec-

tual fariado, e seu interesse pelas questäes socialmente úteis, davam-lhe


o grande encanto de uma combinação não costumeira.

" uma boa criatura - esta bela menina - mas um pouco séria

demais," pensou ele. " um problema conversar com tais mulheres. Es-

tão sempre procurando razäes, no entanto são muito ignorantes para

compreender os méritos de qualquer questão, e geralmente recorrem a

seu sentido moral para resolver as coisas de acordo com seu própric

gosto."

Evidentemente o tipo de mulher que Miss Brooke era não agradaw

a Mr. Lydgate mais do que a Mr. Chichely. Considerada, de fato, em.

relação ao último, que tinha o espírito amadurecido, ela era um emc

completo, e calculada para abalar sua confiança nas causas últimas, in.

cluída aí a adaptação de belas moças a intelectuais de cara empolada

MIDDLEMARCH

109

Mas Lydgate era menos maduro, e talvez pudesse ter experiências à frente

que viessem a modificar a opinião que ele tinha quanto às coisas funda-

mentais numa mulher.

Miss Brooke, entretanto, não voltou a ser vista por nenhum destes

cavalheiros com seu nome de solteira. Não muito depois desse jantar,

ela havia passado a ser Mrs. Casaubon, e já estava a caminho de Roma.

CAPíTULO XI

"But deeds and language such as men do use,

And persons such as comedy would choose,

When she would show an image of the times,

And sport with human follies, not with

crimes."
- BEN JONSON.

("Língua e açäes como as que os homens usam

E pessoas tais de que as comédias abusam,

Quando resolvem mostrar a imagem dos anos

E rir das loucuras, não dos crimes humanos.")

- BEN JONSON. 1

LYDGATE, DE FATO, já tinha consciência de estar sendo fascinado por uma

mulher notavelmente diferente de Miss Brooke: se nem sequer descon-

fiava de que perdera o equilíbrio e se apaixonara, havia porém dito da

mulher em questão: "Ela é a própria graça; é cheia de perfeiçäes, e

arrebatadora.  assim que uma mulher deve ser: deve causar o efeito de

uma música rara." As mulheres comuns ele encarava como os outros

fatos inexoráveis da vida, para serem vistas com filosofia e investigadas

pela ciência. Mas Rosamond Vincy pareceu-lhe ter o verdadeiro encanto

melódico; e quando um homem já viu a mulher que haveria de escolher,

se pretendesse casar-se rapidamente, em geral a hipótese de ele conti-

nuar solteiro vai depender mais da resolução dela que da dele. Lydgate

achava que deveria aguardar vários anos antes de se casar: não fazê-l(

Vo prólogo de Every - in His Humour (1598).

MIDDLEMARCH

111

senão já tendo andado por um bom e claro caminho aberto para si à

distância da estrada larga que estava toda pronta. Miss Vincy foi vista
em seu horizonte durante tempo quase igual ao que Mr. Casaubon le-

vou para noivar e contrair matrimônio: mas este letrado cavalheiro era

possuidor de fortuna; havia reunido suas volumosas notas e construído

aquele tipo de reputação que precede o desempenho - e que em geral é

a maior parte da fama de um homem. Arranjou uma esposa, como vi-

mos, para adornar o quadrante restante de seu percurso e ser uma lua

tão pequena que dificilmente causaria perturbação calculável. Mas Lydgate

era jovem, pobre, ambicioso. Tinha seu meio século à frente, não pelas

costas, e viera para Middemarch decidido a fazer muitas coisas que não

eram diretamente indicadas para garantir-lhe fortuna, nem mesmo uma

boa renda. Para um homem nestas circunstâncias, arranjar uma esposa é

algo mais que uma questão de ornamento, por maior valor que ele dê a

isto; e a predisposição de Lydgate era dar-lhe, entre as funçäes de uma

mulher, o primeiro posto. Para seu gosto, orientado por uma única con-

versa, era neste ponto que Miss Brooke se revelaria deficiente, não

obstante sua inegável beleza. Ela não via as coisas pelo correto ângulo

feminino. A companhia de tais mulheres era quase tão relaxante quanto,

ao sair do trabalho, você ainda ter de dar aulas para a segunda série, ao

invés de ir reclinar-se num paraíso, com doces risos à guisa de cantar de

pássaros e, à guisa de céu, olhos azuis.

Decerto nada atualmente poderia parecer muito menos importante

para Lydgate do que as voltas do espírito de Miss Brooke ou, para Miss

Brooke, do que as qualidades da mulher que havia atraído o jovem ci-

rurgião. Mas quem observa atentamente a furtiva convergência dos

fadários humanos vê uma lenta preparação de efeitos desde uma vida à

outra, que fala como calculada ironia da indiferença ou do frio semblan-

te com o qual olhamos para o vizinho que não nos foi apresentado. Por

sarcasmo, o destino mantém dobradas nas mãos nossas dramatis personae.

A velha sociedade provinciana tinha sua parcela deste movimento

sutil: tinha não só suas espantosas quedas, seus jovens e brilhantes dândis

profissionais que acabavam por manter um romance com uma prostituta


e seis filhos, mas também essas vicissitudes menos óbvias que constan-

temente modificam as fronteiras do intercâmbio social, e vão gerando

uma nova consciência de interdependência. Se alguns escorregavam para

baixo, outros tomavam pé para cima: os denegados, que a aspiram, con-

quistavam riqueza, e fastidiosos cavalheiros lançavam-se como candida-

tos nos burgos; uns se envolviam em correntes políticas, outros, em ecle-

siásticas, para talvez se encontrarem, em conseqüência, surpreendente-

112

GEORGE ELIOT

mente agrupados; enquanto isso uns poucos personagens ou famílias

que se mantinham com firmeza pétrea em meio a toda esta flutuação

iam lentamente apresentando novos aspectos, a despeito da solidez, e

alterando-se com a dupla mudança de espectador e ator, O centro muni-

cipal e a zona rural gradualmente criavam novos vínculos de conexão -

gradualmente, à medida que o velho pé de meia dava lugar à caixa-

econômica e que o culto do guinéu solar" se tornava extinto; à medida

que proprietários, baronetes e até lordes, tendo antes vivido inata-

cavelmente à distância da opinião pública, colhiam agora as imperfei-

çäes de um conhecimento mais íntimo. De distantes condados vinham

também forasteiros, uns com uma novidade alarmante em sua arte, ou-

tros com uma ofensiva vantagem na esperteza. Com efeito, processava-

se na velha Inglaterra muito da mesma espécie de movimento e mistura

que encontramos no ainda mais velho Heródoto, o qual também, ao

narrar o que havia acontecido, julgou por bem tomar por ponto de par-

tida o fado de uma mulher; embora lo, como jovem aparentemente

seduzida por atrativas mercancias, fosse o reverso de Miss Brooke, e a

este respeito guardasse talvez mais semelhança com Rosamond Vincy,

que tinha excelente gosto para se vestir, com seu porte de ninfa e lourice
pura dando-lhe a mais ampla gama de escolha quanto à cor e caimento

dos panos. Coisas que constituíam porém apenas parte do seu encanto.

Reconhecidamente ela era a flor da escola de Mrs. Lemon, onde a instru-

ção abrangia tudo o que era requerido da mulher bem formada - inclu-

indo noçäes extras, como subir e descer de uma carruagem. A própria

Mrs. Lemon sempre havia apresentado Miss Vincy como exemplo: ne-

nhuma aluna, dizia ela, ultrapassava em aptidão mental e propriedade

de expressão esta senhorita, cuja execução musical era totalmente

incomum. Não podemos evitar a maneira como falam de nós e, prova-

velmente, se Mrs. Lemon tivesse resolvido descrever Julieta ou Imogen,

estas heroínas não pareceriam poéticas. Mas a primeira visão de

Rosamond bastaria à maioria dos juízes para dissipar qualquer precon-

ceito despertado pelo elogio de Mrs. Lemon.

Lydgate não poderia ficar muito tempo em Middemarch sem ter

esta agradável visão, ou mesmo sem travar relaçäes com a família Vincy;

porque embora Mr. Peacock, para herdar cuja clientela ele pagara certa

quantia, não fosse o médico deles (o método debilitante que adotava

não agradava a Mrs. Víncy), tinha muitos pacientes entre seus conheci-

dos e parentes. Pois quem de certa distinção em Middemarch não era

"Moeda de ouro em uso até 18 13, quando foi substituída pelo soberano, moeda

de uma libra.

MIDDLEMARCH

113

aparentado ou pelo menos conhecido dos Vincys? Eles, velhos donos de

fábrica que eram, mantinham há três geraçäes uma boa casa, na qual

naturalmente se tornaram comuns os casamentos com vizinhos mais ou

menos decididamente finos. A irmã de Mr. Vincy havia feito um bom


negócio ao aceitar Mr. BuIstrode, que por seu turno, como homem não

nascido na cidade, e de origem totalmente obscura, agira na opinião

geral muito bem, unindo-se a uma verdadeira família de Middemarch;

por outro lado, Mr. Vincy havia decaído um pouco, tendo ficado com a

filha de um estalajadeiro. Mas deste lado também havia uma animosa

previsão de dinheiro; pois a irmã de Mrs. Vincy, que fora a segunda es-

posa do rico e velho Mr. Featherstone, tinha morrido anos atrás sem

filhos, podendo-se esperar desse modo que seus sobrinhos e sobrinhas

merecessem as afeiçäes do viúvo. E aconteceu que Mr. BuIstrode e Mr.

Featherstone, dois dos pacientes mais importantes de Peacock, tinham,

por diferentes causas, dado uma recepção particularmente boa ao seu

sucessor, homem que tanto suscitava adesäes quanto discussäes. Mr.

Wrench, o médico da família Vincy, bem cedo encontrou motivos para

pôr em dúvida a discrição profissional de Lydgate, e não havia informe

sobre ele que não fosse esmiuçado em casa dos Vincys, onde as visitas

eram freqüentes. Mr. Vincy inclinava-se mais a uma pacífica convivência

com todos que a tomar qualquer partido, mas não tinha por que precipi-

tar-se para fazer novos conhecidos. já Rosamond desejava em silêncio

que seu pai convidasse Mr. Lydgate à casa. Estava cansada das figuras e

faces às quais sempre se habituara - os vários perfis irregulares e os

modos de andar e falar que caracterizavam os rapazes de Middemarch

que ela conhecia desde meninos. Na escola, fora colega de moças de

posição mais alta, por cujos irmãos, tinha certeza, poderia interessar-se

mais do que pelos inevitáveis companheiros de Middemarch. Mas ela

não se decidia a mencionar sua vontade ao pai; e ele, por sua vez, não se

apressava sobre o assunto. Um vereador a ponto de ser prefeito deve de

quando em quando ampliar seus jantares, mas por ora já havia convida-

dos de sobra à sua mesa bem guarnecída.

Freqüentemente esta mesa permanecia coberta das migalhas do

desjejum familiar até muito depois de Mr. Vincy ter saído com seu se-

gundo filho para o depósito, e até Miss Morgan já estar bastante adian-
tada, no quarto de estudo, com as liçäes da manhã para as meninas mais

novas. Esperava pelo molengão da família, que achava qualquer tipo de

incômodo (aos outros) menos desagradável do que, quando o chama-

vam, levantar-se logo. Pois foi o caso, certa manhã daquele outubro em

que recentemente vimos Mr. Casaubon em visita à granja; a sala estava

114

GEORGE ELIOT

um pouco quente demais devido ao fogo, que expulsara para um canto

afastado o ofegante cachorro spaniel, mas Rosamond, por alguma razão,

continuava sentada com seu bordado mais tempo que de costume, to-

mada de quando em quando por ligeiro tremor e estendendo o trabalho

nos joelhos para contemplá-lo com ar de hesitante enfado. Sua mãe,

recém-chegada de uma incursão na cozinha, sentava-se ao outro lado da

pequena mesa de trabalho com ar mais cabal de placidez, até que, já de

novo anunciando o relógio que estava para dar as horas, ela ergueu os

olhos da renda cujo conserto lhe ocupava os dedos roliços e tocou a

sineta.

"Bata na porta de Mr. Fred de novo, Pritchard, e diga a ele que já são

dez e meia."

O que foi dito sem nenhuma mudança no radiante bom humor do

rosto de Mrs. Vincy, onde quarenta e cinco anos não haviam cavado

ângulos nem paralelas; e ela, puxando para trás os cordäes da touca cor

de rosa que usava, deixou pousado no seu colo o trabalho, enquanto

olhava com admiração para a filha.

"Mamãe," disse Rosamond, "quando o Fred descer, peço não con-

sentir que ele coma arenque defumado. Não agüento aquele cheiro por

toda a casa, logo a esta hora da manhã."

"Oh, minha querida, não seja tão impertinente com seus irmãos!  a
única falha que eu consigo ver em você. Seu temperamento é o mais

doce do mundo, no entanto você é chata com seus irmãos."

"Chata não, mamãe: a senhora nunca me ouve falar de maneira ina-

dequada a uma senhorita."

"Bem, mas você quer negar coisas a eles."

"Irmãos são muito desagradáveis."

"Oh, querida, você precisa saber compreender os rapazes. E dê gra-

ças, sempre que eles tenham bom coração. Uma mulher deve aprender

a não ligar para coisas de somenos. Algum dia você estará casada

"Não com alguém como o Fred."

"Não menospreze seu próprio irmão, minha filha. Poucos rapazes

têm menos contra si, apesar de ele não ter podido formar-se - por

razäes que estou certa de não captar, pois a mim parece muito inteli-

gente. Você mesma sabe que ele foi considerado igual ao que havia

de melhor na escola. Exigente como você é, minha filha, espanta-me

que não se alegre de ter um rapaz tão cavalheiresco assim por irmão.

Está sempre encontrando algum defeito no Bob porque ele não é o

Fred."

"Oh, não, mamãe, só porque ele é o Bob."

MIDDLEMARCH

115

"Bem, querida, você não há de encontrar um só rapaz de Middemarch

contra o qual não haja alguma coisa."

"Mas" - e o rosto de Rosamond abriu-se aqui num sorriso que

bruscamente revelou duas covas. Ela mesma avaliava em desfavor suas

covas, sorrindo pouco por isto em sociedade. "Mas não hei de me casar

com um rapaz de Middemarch."

"Parece que não, pois você já recusou a papa-fina daqui; e se há


coisa melhor para se ter, não há moça, estou certa, que a mereça mais

que você."

"Desculpe-me, mamãe - eu gostaria que a senhora não dissesse "a

papa-fina daqui"."

"Ué, mas então o que são eles?"

"Quero dizer, mamãe, que a expressão é meio vulgar."

"Muito provavelmente, minha filha; falar bem nunca foi mesmo o

meu forte. Como eu deveria dizer?"

"Os melhores daqui."

"Bem, mas isto também soa comum e banal. Se eu tivesse tido tem-

po para pensar, deveria ter dito "os rapazes mais superiores." Mas você,

com sua educação, deve saber."

"O que é que a Rosy deve saber, mãe?" disse Mr. Fred, que penetra-

ra pela porta entreaberta sem ser observado, enquanto as damas se man-

tinham curvadas sobre seus trabalhos, e que agora, indo até o fogo, lá se

punha de costas para ele a aquecer a sola dos chinelos.

"Se é correto dizer "rapazes superiores,` disse Mrs. Vincy, tocando a

sineta.

"Oh, há tantos chás e açúcares superiores agora, que superior já está

virando gíria de merceeiros."

"Você então já começa a não gostar mais de gíria?" disse Rosamond,

com moderada seriedade.

"Só do tipo emado. Toda escolha de palavras é gíria. Marca uma

classe."

"Mas existe o inglês correto: que não é gíria."

"Desculpe-me: o inglês correto é a gíria dos pedantes que escre-

vem história e ensaios. E a gíria mais forte de todas é a gíria dos poe-

tas. PI

"Você dirá qualquer coisa, Fred, só para ter razão."

"Bem, pois esclareça-me se é gíria ou poesia chamar um boi de um

cruzador de pernas."
Claro que, se quiser, você pode dizer que isto é poesia."

"Rá-rá, Miss Rosy, vê-se que não faz distinção entre Hornero e a

116

GEORGE ELIOT

gíria! Vou inventar então outra brincadeira; vou escrever fragmentos de

gíria e de poesia em papeizinhos que darei para você separar."

"Meu Deus, como é divertido ouvir conversa de gente moça!" disse

Mrs. Vincy, com festiva admiração.

"Não tem mais nada para o meu desjejum, Pritchard?" disse Fred ao

criado que chegava, trazendo-lhe café e torradas com manteiga; ao mes-

mo tempo ele contornava a mesa a examinar o presunto, a carne em

conserva e outras sobras frias, com um ar de silenciosa rejeição e polida

paciência como sinais de desgosto.

"O senhor quer uns ovos?"

"Ovos, não! Traga-me uma costeleta grelhada."

"Realmente, Fred," disse Rosamond, quando o criado já saíra da

sala, "para ter coisas quentes no café da manhã, seria bom que você

descesse mais cedo. Para ir caçar, é capaz de se levantar às seis horas;

não consigo compreender por que acha tão difícil, nas outras manhãs,

sair da cama."

" por falta de compreensão sua, Rosy. Sou capaz de me levantar

para ir caçar porque é uma coisa de que eu gosto."

"O que pensaria você de mim, se eu descesse duas horas depois de

todos e pedisse uma costeleta grelhada?"

"Pensaria que você, para uma senhorita, era incomumente rápida,"

disse Fred, comendo suas torradas na mais absoluta tranqüilidade.

"Não entendo por que os irmãos têm de ser desagradáveis, mais que

as irmãs."
"Eu não sou desagradável; é você quem me vê assim. Desagradável

é uma palavra que descreve os seus sentimentos, e não as minhas açäes."

"Descreve, a meu ver, o cheiro de costeleta na grelha."

"Não, não. Descreve uma sensação no seu narizinho, associada a

uma porção de bobagens que são os clássicos da escola de Mrs. Lemon.

Olhe só minha mãe: você não a vê com objeçäes a tudo, exceto ao que

ela mesma faz. Para mim é a própria imagem da mulher agradávelf

"Que Deus os abençoe, meus filhos, e chega de briga!" disse Mrs,

Vincy, com maternal cordialidade. "Vamos lá, Fred, fale-nos do now

doutor. Como é, seu tio está gostando dele?"

"Penso que sim, e muito. Faz perguntas de todo o tipo a Lydgate e

depois torce a cara enquanto ouve as respostas, como se lhe espremes.

sem um dedinho do pé.  o jeito dele. Ah, mas aí vem minha coste.

leta!"

"Como pôde ficar fora até tão tarde, meu filho? Você disse que só i,

à casa de seu tio."

MIDDLEMARCH

117

110h, fui jantar no Plymdale"s, e jogamos uíste. Lydgate também es-

tava lá."

"E o que acha dele?  um homem muito educado, suponho. Dizem

que é de excelente família - que seus parentes são gente bem aqui do

condado."

" verdade," disse Fred. "Houve um Lydgate no John"s1 que gastava

dinheiro a rodo. Este homem, parece-me, é primo dele em segundo grau.

Mas homens ricos podem ter pobres-diabos como primos distantes."

"Sempre faz uma diferença, entretanto, ser de boa família," disse

Rosamond, com um tom de decisão que mostrava que ela já havia pen-
sado sobre o tema. Rosamond achava que poderia ser mais feliz se não

tivesse nascido como filha de um dono de fábrica de Middemarch. E

não gostava de nada que lhe trouxesse à lembrança que o pai da mãe

dela havia sido estalajadeiro. Certamente alguém que lembrasse o fato

poderia pensar que Mrs. Vincy tinha o ar de uma taberneira bonita e

muito bem humorada, acostumada às mais caprichosas ordens dadas

por cavalheiros.

"Achei estranho que o nome dele fosse Tertius," disse a senhora de

rosto muito vivo, "mas naturalmente é um nome da família. Agora, diga-

nos exatamente que tipo de homem ele é."

"Oh, alto, moreno, inteligente - fala bem - meio pedante, acho."

"Nunca consigo descobrir o que é para você um pedante," disse

Rosamond.

"Um sujeito que quer mostrar que tem opiniäes."

"Ué, meu filho, os médicos têm de ter opiniäes," disse Mrs. Vincy.

"Não é por isto que estão lá?"

"Sim, mãe, as opiniäes pelas quais são pagos. Mas um pedante é o

sujeito que está sempre a nos fazer presente de suas opiniäes."

"Desconfio que Mary Garth admira Mr. Lydgate," disse Rosamond,

sem disfarçar de todo a insinuação.

"Não sei dizer realmente," disse Fred, que ao sair da mesa tinha o

rosto um pouco fechado e, apanhando um romance que trouxera consi-

go lá de cima, jogou-se numa poltrona. "Se está com ciúmes dela, vá

você mesma a Stone Court mais vezes e tente eclipsá-la."

"Seria ótimo se você não fosse tão vulgar, Fred. Se já acabou, por

favor, toque a sineta."

" porém verdade - o que seu irmão está dizendo, Rosamond,"

começou Mrs. Vincy, já tendo o criado tirado a mesa. " uma pena me-

10 Saint john"s College, Canibridge.


118

GEORGE ELIOT

donha você não ter paciência de ir visitar seu tio mais vezes, ele que

gosta tanto de você, e até quis que você morasse com ele. Não há como

calcular o que poderia ter feito por você, e também pelo Fred. Deus sabe

que eu gosto de ter vocês em casa comigo, mas para o bem dos meus

filhos eu me separo deles. E agora tudo indica que seu tio Featherstone

vai fazer alguma coisa por Mary Garth."

"Mary Garth agüenta ficar em Stone Court, porque prefere isto a ser

uma governanta," disse Rosamond, dobrando o trabalho que fazia. "Pre-

feriria que não me deixassem nada, se para ganhar alguma coisa eu ti-

vesse de suportar a tosse e os horrendos amigos do meu tio."

"Ele não ficará por muito neste mundo, filha; não queira eu apres -

sar-lhe o fim, mas com aquela asma e aquelas dores por dentro, espere-

mos que um outro lhe reserve coisa melhor. Em relação a Mary Garth,

não é que eu tenha má vontade, mas há que se pensar em justiça. A

primeira esposa de Mr. Featherstone não lhe levou dinheiro algum, como

fez minha irmã. As sobrinhas e sobrinhos dela não podem pois ter o

mesmo direito que os de minha irmã. E devo dizer que Mary Garth pare-

ce-me moça terrivelmente banal - mais adequada de fato para ser

governanta."

"Nem todos, mãe, concordariam nisto com a senhora," disse Fred,

demonstrando que era capaz de ler e ouvir ao mesmo tempo.

"Bem, querido," disse Mrs. Vincy, fazendo ágil volteio, "se ela tivesse

herdado alguma fortuna; - um homem se casa com os parentes da es-

posa, e os Garths são muito pobres, vivem da maneira mais simples.

Mas vou deixá-lo em seus estudos, meu filho; tenho de ir fazer umas

compras."

"Não são muito profundos os estudos do Fred," disse Rosamond,


levantando-se com sua mãe, "ele apenas está lendo um romance."

"Bem, bem, aos pouquinhos ele irá para o seu latim e essas coisas,"

disse Mrs. Vincy, alisando, apaziguadora, a cabeça do filho. "Este é o

propósito do lume que está na sala para fumantes.  a vontade de seu

pai - sabe, Fred, meu filho - e sempre estou dizendo a ele que você vai

ser bom, que irá de novo para a escola para tirar seu diploma."

Fred puxou a mão da mãe até seus lábios, mas não disse nada.

"Suponho que você hoje não vá andar a cavalo," disse Rosamond,

demorando-se ali depois da mãe ter saído.

"Não; por quê?"

"Papai disse que eu agora posso montar o castanho."

"Se você quiser, pode ir comigo amanhã. Só que estou indo a Stone

Court, não se esqueça."

MIDDLEMARCH

119

"Estou querendo tanto dar uma volta, que aonde vamos para mim é

indiferente." Na verdade era a Stone Court, mais que a qualquer outro

lugar, que Rosamond queria ir.

"Ob, Rosy," disse Fred, nisto que ela passava para sair da sala, "se

você for para o piano, posso ir também para tocarmos umas cançäes

juntos?"

"Mas não me peça esta manhã."

"Por que não esta manhã?,,

"Realmente, Fred, seria ótimo se você desistisse de tocar flauta. Um

homem tocando flauta fica muito esquisito. E além do mais você toca

desafinado."

"Da próxima vez que alguém lhe fizer a corte, Miss Rosamond, direi

a ele como você é gentil."


"Por que há de esperar que eu seja gentil com você, ouvindo-o tocar

sua flauta, mais do que haveria eu de esperar que fosse gentil comigo,

não tocando-a?"

"E por que haveria de esperar você que eu a levasse para uma volta

a cavalo?"

Esta pergunta conduziu a um acordo, pois Rosamond já estava deci-

dida a dar a volta em questão.

Fred viu-se assim gratificado com quase uma hora de prática de "As-

sim era o nosso costurneV "Oh margens, oh ribanceiras!" e outras can-

çäes favoritas do seu "Manual de Flauta"; um espetáculo ofegante, no

qual pôs uma ambição muito grande e uma esperança irrepressível.

Trn irlandês no original: "Ar hyd y nos.

CAPITULO XII

"He had more tow on his distaffe

Than Gerveis knew."

- CHAUCER.

€"Ele tinha mais fio em sua roca

Do que Gerveis sabia.")

- CHAUCER."

A CAVALGADA PARA Stone Court, que Fred e Rosamond empreenderam

na manhã seguinte, evoluía por aprazível trecho de paisagem dos conda-

dos centrais, quase tudo campinas e pastagens, com sebes ainda deixa-

das a crescer livremente em tufos de beleza e a estender para os pássaros

frutas de coral. Pequenos detalhes davam a cada campo uma fisionomia


particular, cara aos olhos que os tinham contemplado desde a infância: o

açude num recanto onde a relva se conservava molhada e árvores

rumorejantes pendiam; o grande carvalho que sombreava no meio da

campina um lugar desnudo; o terrapleno alto onde cresciam freixos; a

brusca subida do barreiro velho de marga, um fundo vermelho para os

pés de bardana; as medas e os telhados da quinta num amontoado con-

fuso, sem caminho perceptível de acesso; o cinza da porteira e das cercas

contra a profundidade da mata bordejante; e a desgarrada choupana,

seu velho, velho teto de palha cheio de musgosos morros e vales com

fantásticas modulaçäes de luz e sombra como as que mais tarde na vida

viajamos longe para ver, e vemos maiores, porém não mais belas. São

as que criam a gama da alegria na paisagem para as almas

MIDDLEMARCH

121

criadas nos condados centraís - coísas em meio às quais camínharam,

ou que aprenderam talvez a conhecer de cor, plantando-se entre os joe-

lhos do pai enquanto ele conduzia sem pressa.

Mas a estrada, como a estrada secundária, era excelente; pois Lowick,

como já vimos, não era uma paróquia de vielas lamacentas e rendeiros

pobres; e foi na paróquia de Lowick que Fred e Rosamond entraram

depois de uma boa légua a cavalo. Pouco mais de um quilômetro os

levaria agora a Stone Court, e ao término da primeira metade já se avis-

tava a casa, parecendo tolhida em seu crescimento para chegar a ser

mansão de pedra por uma inesperada brotação de anexos rurais, no flanco

esquerdo, que a havia impedido de se tornar algo mais que a moradia

sólida de um fazendeiro distinto. Nem por isto ele era menos agradável

como objeto na distância, com aqueles montes e pináculos de palha de

milho cuja aglomeração se equilibrava com o belo renque de nogueiras


pelo lado direito.

Presentemente era possível distinguir alguma coisa que poderia ser

um cabriolé na estradinha circular diante da porta de entrada.

"Deus meu," disse Rosamond, "espero que não estejam por aí os

horríveis amigos do meu tio."

"Pois estão sim. Aquilo lá é o cabriolé de Mrs. Waule - o último

dos cabriolés amarelos, diria eu. Quando vejo Mrs. Waule nele, compre-

endo que o amarelo já possa ter sido usado como expressão de luto.

Este cabriolé me parece mais macabro do que um coche fiméreo. E de-

pois, que história é esta, Rosy, de Mrs. Waule andar sempre de crepe

preto? Os amigos dela não podem estar morrendo sempre."

"Não sei de nada. E ela nem mesmo é evangélica," disse Rosamond,

pensativamente, como se este ponto de vista religioso pudesse dar ao

crepe perpétuo plena justificação. "E nem é pobre," acrescentou após

momentânea pausa.

"Deveras, não é mesmo não! São ricos como judeus, estes Waules e

Featherstones; quero dizer, para pessoas como eles, que não querem

gastar nada. E no entanto vivem rodeando meu tio como abutres, te-

mendo que uma bagatela qualquer possa sair do seu lado da família.

Mas ele, penso, odeia a todos."

A Mrs. Waule que estava tão longe de ser admirável aos olhos des-

ses parentes distantes por acaso havia dito nesta mesma manhã (e não

de um jeito desafiador, mas num tom baixo, abafado, neutro, como o de

uma voz ouvida através de um pano de algodão) que não desejava "des-

frutar de sua boa opinião." Estava sentada, como observou, em casa de

seu irmão, e por vinte e cinco anos antes de ser Jane Waule ela havia

GEORGE EuoT

sido Jane Featherstone, o que a intitulava a falar quando o próprio nome

do irmão era posto em jogo por gente que a ele não tinha direito algum.
"Aonde você está querendo chegar?" disse Mr. Featherstone, que

segurava sua bengala entre os joelhos e ajeitou a cabeleira postiça en-

quanto lhe dirigia uma olhada, passageira e penetrante, que pareceu

ricochetear sobre ele como uma corrente de ar frio e o fez tossir.

Mrs. Waule teve de adiar a resposta até que a calma se instalasse de

novo, até que Mary Garth lhe tivesse administrado um pouco mais de

xarope e ele passasse a esfregar o castão de ouro da bengala, olhando

desgostoso para o fogo. Era um fogo forte, que todavia não fazia diferen-

ça para os desmaiados matizes violáceos da face de Mrs. Watile, tão

neutra quanto sua voz; tendo umas simples frestas, à guisa de olhos, e

lábios que ao falar mal se moviam.

"Não há médico, mano, que domine esta tosse.  igualzinha à que

eu tenho; afinal sou sua irmã, na constituição e tudo. Mas, como eu ia

dizendo, é uma pena que a família de Mrs. Vincy não possa ser melhor

conduzida."

"Não, você não disse nada disto! Disse que alguém tinha posto o

meu nome em jogo."

"E não mais do que se pode provar, se é verdade o que todos dizem.

Meu irmão Solomon contou-me que em Middemarch não se fala de

outra coisa, que o jovem Vincy é um desregrado e que desde que voltou

para casa ele só quer saber do bilhar, da jogatina."

"Que bobagem! Que tem de mais jogar bilhar?  um jogo bom, ade-

quado a cavalheiros, e o jovem Vincy não é nenhum labrego. Se o seu

filho John se afeiçoasse ao bilhar, aí sim, na certa ele seria um desastre."

"Seu sobrinho John nunca se afeiçoou ao bilhar nem a nenhum ou-

tro jogo, meu irmão, e está longe de perder centenas de libras, que, se é

verdade o que todos dizem, têm de ser encontradas noutra fonte que

não os bolsos de Mr. Vincy pai. Pois dizem que há anos ele vem perden-

do dinheiro, embora ninguém fosse pensar as-sim, ao vê-lo indo caçar

como sempre e mantendo casa aberta como eles fazem. E ouvi dizer que

Mr. BuIstrode reprova Mrs. Vincy acima de tudo por ser muito volúvel, e
por estragar seus filhos tanto."

"Que tenho a ver com Bulstrode? Eu não tenho conta com ele."

"Bem, Mrs. Buistrode é irmã de Mr. Vincy, e o que se diz é que Mr.

Vincy faz uso principalmente do dinheiro do Banco; e você pode ver,

irmão, que uma mulher de mais de quarenta, quando anda com cordäes

cor de rosa esvoaçando sempre, e tem um jeito meio fútil de sorrir para

tudo, isto não condiz mesmo não. Mas ser complacente com as crianças

MIDDLEMARCH

123

é uma coisa, e outra é encontrar o dinheiro para pagar suas dívidas. Diz-

se abertamente que o jovem Vincy levantou dinheiro com base nas ex-

pectativas que tem. Não digo que expectativas são estas. Miss Garth

está-me ouvindo, e será bem-vinda se quiser contar de novo. Eu sei que

os jovens são coerentes."

"Não, muito obrigada, Mrs. Waule," disse Mary Garth. "Não gosto

nada de ouvir escândalos, para não querer repeti-los."

Mr. Featherstone esfregou o castão de sua bengala e fez um esboço

de riso, convulsivo e breve, que tinha muito da autenticidade do contido

esgar de um velho jogador de uíste ante uma má cartada. Ainda olhando

para o fogo, disse:

"E quem pretende negar as expectativas de Fred Vincy? Ele é tão

bom sujeito, e com tanta energia, que o mais provável é que as tenha."

Houve ligeira pausa antes de Mrs. Waule replicar e, quando ela o

fez, sua voz parecia molhada ligeiramente de lágrimas, embora seu rosto

ainda estivesse seco.

"Seja lá como for, mano, naturalmente é doloroso para mim e para o

irmão Solomon ouvir seu nome posto em jogo, sendo sua moléstia de
tal ordem que de uma hora para outra pode levá-lo desta, e saber que há

pessoas, que não são mais Featherstones que o buflão da feira, contando

abertamente com a hipótese de que seus bens fiquem para elas. E eu

sendo sua irmã, e o Solomon, seu irmão! Se é assim que vai ser, por que

então ocorreu ao Todo-Poderoso fazer famílias?" Aqui as lágrimas de

Mrs. Waule caíram, mas com moderação.

"Vamos, Jane, chega disto!" disse Mr. Featherstone, olhando para ela.

"Você quer dizer que Fred Vincy conseguiu que alguém lhe adiantasse

dinheiro com base no que ele diz saber sobre o meu testamento, não é?"

"Eu nunca disse isto, meu irmão" (A voz de Mrs. Waule tornara-se

de novo seca e firme). "Isto me foi dito por meu irmão Solomon ontem

à noite, quando ele passou lá em casa ao voltar do mercado para me

aconselhar sobre o trigo velho, sendo eu uma viúva e meu filho John

tendo apenas vinte e três anos, embora ajuizado além da conta. E ele

ouviu isto de fonte muito autorizada; não uma, mas várias."

"Bobagem, absurdo! Não acredito numa só palavra.  tudo história

inventada. Mas olhe à janela, menina; acho que eu ouvi um cavalo. Veja

se é o médico que vem chegando."

"Não inventada por mim, mano, nem também por Solomon que, à

parte o que no mais possa ser - e eu não nego que ele tem suas esqui-

sítices, - fez seu testamento e dividiu seus bens igualmente entre os

parentes com os quais mantém amizade; por mim, acho no entanto que

GEORGE ELIOT

há épocas em que alguns devem ser mais considerados que outros. Mas

Solomon não faz segredo do que pretende fazer."

"Pois é ainda mais tolo!" disse Mr. Featherstone, com alguma difi-

culdade; entrando num acesso tão profundo de tosse que foi preciso

Mary Garth ir ficar perto dele, de modo a não poder descobrir de quem

eram os cavalos que neste instante paravam batendo as patas no casca-


lho em frente da porta.

Rosamond entrou antes de a tosse de Mr. Featherstone ter passado,

envergando com muita graça seu traje de montaria. Curvou-se cerimonio-

samente para Mrs. Waule, que disse rígida: "Como vai, senhorita?% sor-

riu e em silêncio inclinou a cabeça para Mary e se manteve de pé até a

tosse cessar e permitir que seu tio a visse.

"Ora viva, menina," disse ele por fim, "que beleza de cor a sua!

Onde está o Fred?"

"A cuidar dos cavalos. Logo vem vindo aí."

"Sente-se, sente-se. Mrs. Waule, é melhor ir agora."

Nem mesmo aqueles vizinhos pelos quais Peter Featherstone era

chamado de uma velha raposa jamais o haviam acusado de ser

insinceramente polido, e sua irmã estava bem acostumada à peculiar

falta de cerimônia com a qual ele marcava sua maneira de entender o

parentesco sangüíneo. Estava acostumada também, com efeito, a pensar

que a total liberdade da necessidade de se comportar gentilmente in-

cluía-se nas intençäes do Todo-Poderoso sobre as famílias. Levantou-se

pois devagar, sem nenhum sinal de ressentimento, e disse em seu tom

de praxe, abafado e invariável: "Espero que o novo médico, mano, seja

capaz de fazer alguma coisa por você. Diz Solomon que andam falando

muito bem da inteligência dele. Estou certa, desejo que você seja pou-

pado. E ninguém mais disposto a cuidar de você do que sua irmã e as

sobrinhas, bastando que nos mande chamar. Pode contar com a Rebecca,

a Joanna e a Elizabeth, como sabe."

"Ai, ai, lembro-me sim! - Você há de ver que eu me lembrei delas;

- todas são morenas e feias, vão precisar de ter algum dinheiro, não é?

Nas mulheres da nossa família nunca houve beleza; mas dinheiro os

Featherstones sempre tiveram algum, e os Waules também. Waule tam-

bém tinha dinheiro. Bom sujeito, o Waulei Ai, ai, o dinheiro é que nem

um ovo; e se você dispäe de algum para deixar para trás, ponha-o num

ninho bem quente. Adeus, Mrs. Waule!"


No que então Mr. Featherstone puxou de ambos os lados sua cabe-

leira postiça, como se quisesse tampar os dois ouvidos, e sua irmã foi-se

embora, ruminando sobre a fala oracular que ele pronunciara. Apesar do

MIDDLEMARCH

125

ciúme que ela sentia pelos Vincys e por Mary Garth, mantinha-se como

o sedimento mais baixo de seus estratos mentais a convicção de que seu

irmão Peter Featherstone nunca poderia deixar que sua principal proprie-

dade escapasse das mãos dos seus parentes de sangue: - se não, por

que teria o Todo-Poderoso levado sem filhos suas duas esposas, depois

de ele ter ganho tanto com o manganês e outras coisas, dando o ar de

sua graça quando ninguém esperava? - e por que havia uma igreja pa-

roquial em Lowick, e os Waules e os Powderells sentando-se por gera-

çäes todos no mesmo banco, e o banco dos Featherstones depois do

deles, se, no domingo seguinte à morte de seu mano Peter, todos vies-

sem a saber que a propriedade tinha saído da família? Nunca em ne-

nhum período o espírito humano aceitou um caos moral; e um resultado

assim tão disparatado não era a rigor concebível. Alarmamo-nos porém

com muitas coisas que a rigor não são concebíveis.

Quando Fred entrou no quarto, o velho olhou para ele piscando de

um jeito especial, que o jovem muitas vezes já tivera razão de interpre-

tar como orgulho pelos satisfatórios detalhes de sua própria aparência.

"Vocês, meninas, podem ir-se," disse Mr. Featherstone. "Quero falar

com o Fred."

"Vamos até meu quarto, Rosamond, por pouco tempo você não se

importará com o frio," disse Mary. As duas moças, além de se conhece-

rem desde a infância, haviam estado juntas na mesma escola provincial

(Mary como aluna-aprendiz), tendo assim muitas memórias em comum,


e gostavam à beça de conversar entre elas. De fato, este tête-à-tête era um

dos objetivos de Rosamond na vinda a Stone Court.

O velho Featherstone não daria início ao diálogo enquanto a porta

não tivesse sido fechada. Continuava a olhar para Fred com as mesmas

piscadelas e com uma de suas habituais caretas, apertando e abrindo

alternadamente a boca; quando falou, foi num tom baixo, passível de ser

tomado pelo tom de um informante pronto a se livrar de algum chanta-

gista, mais que pelo de um idoso ofendido. Não era homem de sentir

grande indignação moral, ainda que por causa de ofensas a ele mesmo.

Era natural que outros quisessem levar vantagem sobre ele, a quem con-

tudo não faltava, para enfrentá-los, certo quê de esperteza.

"Com que então o senhor tem pagado dez por cento por dinheiro

que promete quitar penhorando minhas terras quando eu tiver morrido

e ido, não é? Päe minha vida a doze meses, digamos. Mas olhe que

ainda posso alterar meu testamento."

Fred corou. Não havia pegado dinheiro deste modo, e por excelen-

tes razäes. Mas estava consciente de haver falado com alguma confiança

126

GEORGE ELIOT

(talvez mais do que exatamente lembrava) sobre esta hipótese de recor-

rer às terras de Featherstone como um meio futuro de saldar dívidas

atuais.

"Não sei ao que o senhor se refere. Eu certamente nunca fiz nenhum

empréstimo com base em tal insegurança. Explique-me, por favor."

"Não, quem tem de se explicar é o senhor. Ainda posso alterar meu

testamento, não se esqueça. E estou em meu são juizo - sou capaz de

calcular juros compostos de cabeça e de lembrar-me dos nomes de todos

os palermas, tão bem como há vinte anos atrás. Que diacho, estou com
menos de oitenta! Digo que o senhor deve contradizer esta história."

"Já a contradisse, senhor," respondeu Fred, com um toque de impa-

ciência, não lembrando que seu tio não discriminava verbalmente entre

contradizer e refutar, se bem ningém estivesse mais longe de confundir

as duas idéias do que o velho Featherstone, que se espantava com fre-

qüência de que tantos palermas tomassem suas próprias assertivas por

provas. "Contradigo-a porém de novo. Esta história é pura mentira."

"Não pode ser! Só se você trouxer documentos, porque ela vem de

boa fonte."

"Pois dê o nome da fonte, e faça-a dar o nome do homem de quem

tomei dinheiro emprestado, e eu então poderei refutar a história."

" fonte boa mesmo, acho eu - um homem que sabe quase tudo o

que acontece em Middemarch. Bondoso, religioso, caridoso. Aquele seu

tio, ora esta!" E um tremor interno que lhe era peculiar, e significava

regozijo, apossou-se aqui de Mr. Featherstone.

"Mr. Bulstrode?"

"Quem podia ser, hem?"

"Então a história desenvolveu-se nesta mentira a partir de algumas

palavras de reprovação que ele pode ter deixado escapar a meu respeito.

Dizem também se ele deu o nome do homem que me emprestou o di-

nheiro?"

"Se este homem existe, creia que BuIstrode o conhece. Mas, supon-

do-se que você só tenha tentado, e não obtido, o empréstimo - BuIstrode

saberia também. Traga-me pois uma declaração de BuIstrode, onde ele

diga por escrito não acreditar que você fez promessas de pagar suas dívi-

das com minhas terras por lastro. Vamos lá!"

O rosto de Mr. Featherstone precisou de todo seu lastro de caretas

como descarga muscular para seu silencioso triunfo na sanidade de suas

condiçäes mentais.

Fred se sentia num desagradável dilema.

"O senhor deve estar brincando. Mr. BuIstrode, como os homens em


MIDDLEMARCH

127

geral, acredita numa série de coisas que não são verdade, e ele tem um

preconceito contra mim. Facilmente eu poderia convencê-lo a escrever

que desconhece fatos capazes de comprovar o relato de que o senhor

fala, embora isto talvez causasse dissabor. Difícil seria eu pedir-lhe para

escrever no que acredita ou deixa de acreditar sobre mim." Fred fez uma

pausa, depois acrescentou, num apelo político à vaidade de seu tio: "Não

é bem uma coisa para um cavalheiro pedir."

O resultado porém desapontou-o.

"Ali, entendo sua intenção. Prefere ofender a mim que a BuIstrode. E

o que ele é? - não tem por aqui nenhuma banda de terra de que eu

tenha ouvido falar. Um especulador, isto sim! Um dia ele pode despen-

car de repente, se o demônio não mais lhe der retaguarda. E é isto o que

diz a religião lá dele: ele quer que Deus Todo-Poderoso interfira.  um

absurdo! Há uma coisa que eu deixava muito claro quando ainda tinha o

hábito de ir à igreja - e é isto: Deus Todo-Poderoso não larga a terra.

Promete terra e dá terra e faz os camaradas ricos com milho e gado. Você

porém fica do outro lado. Gosta mais de BuIstrode e a especulação do

que de Featherstone e a terra."

"Desculpe-me," disse Fred levantando-se, dando as costas para o

fogo e batendo com seu chicote na bota. "Não gosto de BuIstrode nem

de especulação." Falou de um jeito meio zangado, sentindo que não

tinha saída.

"Ora muito bem, você pode prescindir de mim, isto está claro," disse

o velho Featherstone, descontente porém no fundo com a possibilidade

de Fred vir a mostrar-se independente mesmo. "Nem quer um pedaço

de terra, para tornar-se um gentil-homem e não um pastor à mingua,


nem uma ajuda eventual de cem libras. Para mim é tudo uma coisa só.

Posso fazer cinco codicilos, se eu quiser, e minhas notas de banco hei de

guardar para um ninho. Para mim é tudo uma coisa só."

Fred corou de novo. Raramente Featherstone lhe havia feito presen-

tes em dinheiro, e neste momento parecia quase mais difícil despedir-se

com a perspectiva imediata das notas de banco do que com a perspecti-

va mais remota de terras.

"Não sou ingrato. Nunca quis demonstrar descaso por quaisquer boas

intençäes que o senhor possa ter a meu respeito. Pelo contrário."

"Muito bem. Então prove-o. Traga-me uma carta do BuIstrode dizendo

que ele não acredita que você quebrou e prometeu pagar suas dívidas

com minhas terras, e aí então, se houver alguma enrascada em que você

se meteu, vamos ver se eu posso ajudá-lo um pouco. Vamos lá!  um

trato. E agora, dê-me seu braço. Vou tentar andar pelo quarto."

128

GEORGE ELIOT

Fred, a despeito de sua irritação, tinha bondade bastante para con-

doer-se do velho, não amado nem venerado, que, com suas pernas

hidrópicas, parecia ao andar mais digno de pena que nunca. Dando-lhe

o braço, pensou que não gostaria nada de ser ele mesmo um camarada

velho com a constituição aos pedaços; e esperou com toda a calma, pri-

meiro diante da janela para ouvir as observaçäes de costume sobre as

galinhas-d"angola e o cata-vento, depois diante das minguadas pratelei-

ras de livros, onde as grandes glórias em couro negro eram o Josefol,

Culpepper2 - o Messias de Klopstock 3 e vários volumes do Gentleman"s

Magazine.

"Leia os nomes dos livros para mim, vamos! Você é um homem de

estudos."
Fred lhe deu os títulos.

"Que queria a menina com mais livros?  preciso você viver trazen-

do mais livros para ela?"

"Os livros a distraem. Ela adora ler."

"Um pouco demais," disse Mr. Featherstone, capeiosamente. "Quan-

do ela ficava comigo, queria ler. Mas eu pus um fim nisto. Ela já tem o

jornal para ler em voz alta, o que eu diria que, para um dia, basta. Não

agüento vê-la lendo sozinha. Peço pois que não lhe traga mais livros,

está-me ouvindo?"

"Sim, senhor, estou ouvindo." Fred já havia recebido esta ordem

antes, e em segredo a desobedecera. Pretendia desobedecê-la de novo.

"Toque a sineta," disse Mr. Featherstone. "Quero que a menina desça."

Rosamond e Mary tinham conversado mais rápido que seus amigos

homens. Nem pensando em sentar-se, puseram-se ao toucador perto da

janela, enquanto Rosamond tirava o chapéu, ajeitava o véu e com as

pontas dos dedos dava pequenos retoques no cabelo - um cabelo de

infantil formosura, não se sabe se dourado ou louro. Mary Garth parecia

ainda mais simples, plantada num ângulo entre as duas ninfas - a que

estava no espelho e a que ficara de fora, mirando-se as duas com olhos

de um azul celestial, suficientemente profundos para conter as intençäes

mais raras que um observador engenhoso neles pudesse pôr, e suficien-

temente profundos para ocultar as intençäes de sua dona, se estas

porventura fossem menos raras. Ao lado de Rosamond, só umas poucas

crianças de Middemarch pareciam louras, e a figura esbelta exibida por

IFláviojosefo (c. 38-10O), historiador judeu, autor de uma história de seu

povo.

2Sir Thomas Culpepper (1578-1662) e seu filho do mesmo nome (1626-1697)

escreveram

ambos sobre o tema da usura.

Triedrich Cottlieb Klopstock (1724-1803), poeta alemão.


MIDDLEMARCH

129

seu traje de montar tinha ondulaçäes delicadas. De fato, para a maioria

dos homens de Middemarch, à exceção de seus irmãos, a melhor garota

do mundo era Miss Vincy, que alguns até chamavam de anjo. Mary Garth,

ao contrário, tinha o aspecto de uma pecadora comum: era morena; seu

cabelo escuro e crespo era áspero, intratável; baixa era sua estatura; e

não seria verdade declarar, como antítese satisfatória, que ela possuía

todas as virtudes. A simplicidade, quase tanto quanto a beleza, tem seus

vícios e tentaçäes peculiares; está sujeita a fingir amabilidade ou, não o

fazendo, a mostrar toda a repulsa do descontentamento: de qualquer

modo, chamá-la de coisa feia, em contraste com a adorável criatura que

lhe faz companhia, tende a produzir certo efeito além do senso de real

veracidade e adequação na frase. Aos vinte e dois anos de idade Mary

certamente não atingira o perfeito bom senso e os bons princípios que

geralmente são recomendados à moça pouco afortunada, como se fos -

sem para ser obtidos em quantidades já misturadas, com um sabor de

resignação tal qual se exige. Sua argúcia tinha um traço de amargor satí-

rico continuamente renovado e nunca removido completamente de cena,

a não ser por uma forte corrente de gratidão por aqueles que, ao invés de

lhe dizerem que ela devia ficar contente, faziam alguma coisa para

contentá -la. A avançada transformação em mulher havia temperado sua

simplicidade, que era de boa qualidade humana, como a das mães de

nossa raça, muito comumente exibida em todas as latitudes sob algo

mais ou menos de acordo que lhes cobre a cabeça. Rembrandt a teria

pintado com prazer, fazendo decerto com seus traços grosseiros saltas-

sem com inteligente honestidade da tela. Pois a honestidade, o desejo

de dizer a verdade, era a principal virtude de Mary: ela não se empenha-


va por criar ilusäes, nem tampouco as cultivava em proveito próprio, e

quando estava em bom ânimo tinha humor suficiente para rir de si mes-

ma. Quando as duas, ela e Rosamond, foram casualmente refletidas jun-

tas no espelho, Mary disse risonhamente:

"A seu lado, Rosy, puxa! que mancha escura que eu sou! Você é a

companhia que menos me convém."

"Oh não! Ninguém pensa em sua aparência, Mary, tão sensata e útil

você é. A beleza na realidade tem muito pouca importância," disse

Rosamond, virando a cabeça para Mary, mas desviando ao mesmo tem-

po os olhos para a nova visão de seu pescoço no espelho.

"Você quer dizer a minha beleza," disse Mary, algo sardônica.

Rosamond pensou: "Coitada da Mary, leva a mal as coisas mais gen-

tis." E disse em voz alta: "Que anda você fazendo ultimamente?"

"Eu? Oh, cuidando da casa - dando xarope - aparentando ser

130

GEORGE ELIOT

amável e estar contente - aprendendo a ter de todos uma opinião

negativa."

" uma vida horrível para você."

"Não," disse sucintamente Mary, erguendo a cabeça não sem orgu-

lho. "Creio que minha vida é mais agradável que a de sua Miss Morgan."

"Sim; mas Miss Morgan é muito desinteressante, e não é jovem."

" interessante para si mesma, suponho; e não tenho a menor certe-

za de que tudo fique mais fácil à medida que ficamos mais velhos."

"Não," disse Rosamond pensativamente; "e a gente se pergunta o

que, sem nenhuma perspectiva, tais pessoas fazem. Certamente há a

religião como um suporte. Mas," acrescentou, sorrindo com suas covas,

Ideom você é muito diferente, Mary. Você pode ter uma proposta."

"Alguém lhe falou que pretende fazer-me uma?"


"Claro que não. Eu é que digo que há um cavalheiro bem capaz de

se apaixonar por você, vendo-a quase todos os dias."

Uma certa mudança no rosto de Mary foi determinada principal-

mente pela resolução de não mostrar mudança alguma.

"E isto sempre faz as pessoas se apaixonarem?" respondeu ela

descuidosa; "parece-me que com a mesma freqüência é uma razão para

que se detestem."

"Não quando elas são interessantes e agradávies. Ouço dizer que

Mr. Lydgate é ambas as coisas."

"Oh, Mr. Lydgate!" disse Mary, com inequívoca entrega à indiferen-

ça. "Você quer saber alguma coisa sobre ele," acrescentou, disposta a

não condescender com a indireta de Rosamond.

"Apenas se você gosta dele."

"Não se trata por ora de gostar. Meu querer bem sempre carece de

alguma pequena gentileza para abrasá-lo. Não sou suficientemente

magnãonina para gostar de pessoas que falam comigo sem aparentemen-

te me ver."

"Ele é assim tão altivo?" disse Rosamond, com satisfação ainda maior.

"Você sabe que ele é de boa família?"

"Não sabia; pois ele não deu razão para tanto."

"Mary! garota mais estranha do que você não há. Mas que aparencia

ele tem? Descreva-o para mim como homem."

"Como é possível descrever um homem? Posso é dar-lhe um inven-

tário: sobrancelhas espessas, olhos escuros, nariz reto, basto cabelo es-

curo, mãos brancas, grandes, sólidas - e - deixe-me ver - oh, um

finíssimo lenço de cambraia no bolso! Mas você vai vê-lo. Você sabe que

está quase na hora das visitas dele."

MIDDLEMARCH

131
Rosamond enrubesceu um pouco, mas com ar pensativo disse: "Eu

até que gosto de um jeito altivo. Não agüento os rapazes muito conver-

sadores."

"Eu não lhe disse que Mr. Lydgate era altivo; mas ily en a pour tous les

goúts,1 como a pequena Mainselle costumava dizer, e se há moça capaz

de escolher o tipo particular de presunção de que gostaria, eu diria que é

você, Rosy."

"Altivez não é presunção; eu chamo o Fred de presunçoso."

"Espero que ninguém tenha dito coisa pior sobre ele. Ele aliás deve-

ria ter mais cuidado. Mrs. Waule andou dizendo para o tio que o Fred é

muito desregrado." Mary falou por um impulso adolescente imbuído do

melhor de seu discernimento. Mas houve um vago mal-estar causado

pela palavra "desregrado", que ela esperou que Rosamond, dizendo al-

guma coisa, pudesse dissipar. E propositadamente se absteve de mencio-

nar a insinuação mais especial de Mrs. Waule.

"Oh, o Fred é horrível!" disse Rosamond. Não se teria permitido tão

inadequada palavra com mais ninguém além de Mary.

"Horrível como?"

" muito preguiçoso, deixa o meu pai furioso e diz que não acata

ordens."

"Acho que o Fred está muito certo."

"Como pode dizer que ele está muito certo, Mary? Eu julgava que

sua compreensão da religião fosse melhor."

"Ele não tem vocação para o clero."

"Pois deveria ter."

"Bem, então ele não é o que deveria ser. Conheço outras pessoas

que estão no mesmo caso."

"Ninguém porém as aprova. Eu não gostaria de me casar com um

clérigo; mas é preciso que haja clérigos."

"Daí não decorre que o Fred deva ser um."


"Mas com todos os gastos que o meu pai tem feito para educá-lo

para isto! E você já pensou, se ninguém deixar uma herança para ele?"

"Posso imaginar muito bem," disse Mary secamente.

"Espanta-me por isto que você possa defender o Fred," disse

Rosamond, disposta a levar adiante este ponto.

"Eu não o defendo," disse Mary rindo; "defenderia sim qualquer

paróquia de tê -lo como seu titular."

"Ern francês no original: "há gosto para tudo."

132

pessoa."

GEORGE ELIOT

"Mas é claro que, se ele fosse um clérigo, seria forçosamente outra

"Sim, seria um grande hipócrita; o que por enquanto ainda não é."

"Não adianta dizer nada para você, Mary. Você sempre fica do lado

do Fred."

"E por que eu não ficaria do lado dele?" disse Mary esquentando.

"Também ele ficaria do meu.  a única pessoa a se dar a algum incômo-

do para me agradar."

"Você me deixa muita constrangida, Mary," disse Rosamond, com a

doçura mais grave. "Por nada deste mundo eu contaria à mamãe."

"Não contaria o quê?" disse Mary, zangada.

"Por favor, não se entregue à raiva, Mary," disse Rosamond, doce

como sempre.

"Se a sua mãe tem medo de que o Fred me faça uma proposta, diga

a ela que eu não me casaria com ele, se ele me pedisse. Não há porém de
fazê-lo, tenho certeza. E certamente nunca me pediu."

"Mary, você é sempre tão violenta."

"E você é sempre tão exasperante."

"Eu? Mas que máculas vê em mim?"

"Oh, as pessoas imaculadas são sempre as mais exasperantes. A sineta

está tocando - acho que devemos descer."

"Eu não queria brigar," disse Rosamond, pondo seu chapéu.

"Brigar? Mas que absurdo; nós não brigamos. De que vale sermos

amigas, se de vez em quando não houver uma desavença entre a gente?"

"Posso repetir o que você disse?"

"Como quiser. Eu nunca digo o que tenho medo de ser repetido.

Mas vamos descendo."

Mr. Lydgate estava um pouco atrasado esta manhã, mas as visitas

demoraram-se a tempo de vê-lo; pois Mr. Featherstone pediu que

Rosamond cantasse para ele, e ela foi tão gentil que até propôs uma

segunda canção das favoritas dele - "Flui, ó cintilante rio!" - após ter

cantado "Lar, doce lar" (que ela detestava). Este velho e obstinado

OverreachI aprovava a canção sentimental como ornamento apropriado

às moças, e também como fundamentalmente boa, sendo o sentimento

a coisa certa para uma canção.

Mr. Featherstone ainda estava aplaudindo o último número, e ga-

rantindo à cantora que sua voz era clara como o canto do melro, quando

o cavalo de Mr. Lydgate passou pela janela.

ISir Giles Overreach, o vilão de A New Way to Pay Old Debts (1633), de

Philip Massinger.

MIDDLEMARCH

133
Sua morna expectativa da habitual e desagradável rotina com um

paciente idoso - o qual dificilmente acredita que a medicina não pudes-

se Ievantá-lo" se o doutor fosse inteligente mesmo, - somada à sua

geral descrença nos encantos de Middemarch, constituíram um fundo

duplo e eficaz para esta visão de Rosamond, a quem o velho Featherstone

apressou-se ostentosamente a apresentar como sua sobrinha, quando

nunca lhe ocorrera que valesse a pena falar de Mary Garth nesta condi-

ção. Nada escapou a Lydgate no airoso comportamento de Rosamond:

quão delicadamente ela pôs de lado, com uma serena gravidade, a indi-

cação que a falta de gosto do velho lhe impusera, não mostrando suas

covinhas na hora emada, mas sim logo depois, ao falar para Mary, a

quem ela se dirigiu com uma atenção de tão boa natureza que Lydgate,

após examinar Mary mais completamente do que havia feito antes, viu

uma adorável bondade nos olhos de Rosamond. Mas Mary, por alguma

razão, parecia estar com muita raiva.

"Miss Rosy andou cantando uma canção para mim - o senhor não

tem nada contra, não é, doutor?" disse Mr. Featherstone. "Gosto mais

disto que dos seus remédios."

"E isto me fez esquecer de que o tempo estava passando," disse

Rosamond, levantando-se para apanhar seu chapéu, que antes de cantar

ela deixara à parte, a modo de sua cabeça semelhante a uma flor na

haste branca ter sido vista à perfeição sobre o traje de montar. "Fred,

realmente temos de ir."

"Está bem," disse Fred, que tinha suas próprias razäes para não es-

tar em seus melhores momentos e já queria partir.

"Miss Vincy é uma musicista?" disse Lydgate, seguindo-a com os

olhos. (Cada nervo e cada músculo de Rosamond ajustava-se à consci-

ência de que ela estava sendo olhada. Era, por natureza, uma atriz de

papéis que se encaixavam no seu physique: ela representava até mesmo

o próprio personagem, e tão bem, que nem o sabia ser precisamente

seu.)
"A melhor de Middemarch, garanto," disse Mr. Featherstone, "e que

a segunda seja quem ela queira. Não é, Fred? Fale por sua irmã."

"Temo não estar num tribunal, senhor. Meu testemunho não serviria

para nada."

"Middemarch não tem um padrão muito alto, meu tio," disse

Rosamond, com uma linda leveza, indo para apanhar seu chicote, que jazia

a certa distância.

134

GEORGE ELIOT

Lydgate porém se antecipou com presteza. Alcançou o chicote e vi-

rou-se para entregá-lo a ela, que se inclinou e o olhou: ele, é claro, tam-

bém olhava para ela, e seus olhos descobriram-se neste peculiar encon-

tro que nunca é atingido por esforço, mas parece uma súbita iluminação

divina do ofuscamento. Penso que Lydgate ficou mais pálido que de cos-

tume, enquanto Rosamond, sentindo um certo pasmo, corava muito.

Depois disto, a ansiedade de partir a dominou realmente, e ela já nem

sabia de que tipo de tolice seu tio estava falando quando foi despedir-se

dele com um aperto de mãos.

Entretanto era justamente com este resultado, que ela tomou por

ser uma impressão mútua, chamada sentir amor, que Rosamond ha-

via contado de antemão. Desde aquela nova e importante chegada a

Middiemarch ela inventara um pequenino futuro, do qual alguma coisa

como esta cena era o necessário começo. Os estranhos, quer naufra-

gados e se agarrando a uma tábua, quer devidamente escoltados e

conduzindo maletas, sempre têm exercido um fascínio circunstancial

sobre a mente virgem, contra o qual o mérito nativo deblatera em

vão. E um estranho era absolutamente necessário ao romance social

de Rosamond, que sempre girara em torno de um amado e noivo que


não era de Middemarch e não tinha parentes como os dela: ultima-

mente, com efeito, tal construção parecia requerer que ele estivesse

de alguma forma ligado a um baronete. Agora, tendo ocorrido o en-

contro entre o estranho e ela, a realidade se provava muito mais

comovente que a antecipação, e Rosamond não podia senão admitir

que esta era a grande época de sua vida. Julgava seus próprios sinto-

mas como os do amor nascente, e soava-lhe até mais natural que Mr.

Lydgate pudesse ter-se apaixonado por ela à primeira vista. Se essas

coisas aconteciam com tal freqüência nos bailes, por que não então à

luz da manhã, quando a aparência se mostrava mais propícia a elas?

Rosamond, embora não mais velha que Mary, já estava bem acostu-

mada a que se apaixonassem por ela; mas mantivera-se por seu lado

indiferente e fastidiosamente crítica tanto do pimpolho viçoso quan-

to do emurchecido solteirão. E aqui estava Mr. Lydgate corres-

pondendo bruscamente ao seu ideal, pois que era estranho de todo a

Middemarch, possuía certo ar de distinção condizente com uma boa

família e tinha ligaçäes que ofereciam vistas deste paraíso da classe

média, a posição; um homem de talento, também, a quem seria espe-

cialmente delicioso escravizar: de fato, um homem que havia tocado

sua natureza de modo totalmente novo e infundido à sua vida um

MIDDLEMARCH

135

interesse vibrante, melhor que qualquer imaginário "talvez" como os

que ela tinha o hábito de opor ao real.

Assim, cavalgando para casa, tanto o irmão quanto a irmã esta-

vam preocupados e tendentes a ficar em silêncio. Rosamond, cuja

estrutura tinha como base a habitual leveza airosa, era de imaginação

notavelmente detalhada e realista desde que pressuposta a fundação;


mal andaram um quilômetro e ela já estava longe nas apresentaçäes e

roupas de sua vida de casada, tendo determinado sua casa em Mid-

demarch e antevisto as visitas que haveria de fazer, viajando, aos

parentes aristocráticos de seu marido, de cujas maneiras requintadas

poderia apropriar-se tão bem como ela havia na escola feito seus de-

veres, preparando-se assim para as elevaçäes mais vagas que deve-

riam vir por último. Nada havia de financeiro, e ainda menos de sór-

dido, em suas previsäes: precupava-se com o que eram considerados

refinamentos, e não com o dinheiro a pagar por eles.

A mente de Fred, por outro lado, estava tomada por uma ansiedade

que nem mesmo sua pressurosa esperança podia aquietar de imediato.

Não via como escapar do estúpido pedido de Featherstone sem incorrer

em conseqüências que lhe agradavam ainda menos que a obrigação de

atendê-lo. Seu pai já estava aborrecido com ele e o ficaria ainda mais, se

fosse ele o motivo de alguma frieza adicional entre sua família e os

BuIstrodes. E ele odiava ter de ir falar com o tio BuIstrode, e quem sabe se

após uns copos de vinho ele tivesse dito muitas tolices sobre a proprieda-

de de Featherstone, exageradas depois pelos relatos. Fred sentia-se fazen-

do pobre figura como um sujeito que se havia gabado de expectativas

partidas de um velho avarento e esquisito como Featherstone e que, a

pedido dele, teve de ir solicitar certificados. Ah - mas estas expectativas!

Realmente ele as tinha, e não via alternativa agradável se abrisse mão

delas; além do mais, havia feito recentemente uma dívida que o atormen-

tava muito, e que o velho Featherstone quase propusera um acordo para

quitar. Todo o caso era terrivelmente pequeno: suas dívidas eram peque-

nas, e nem mesmo suas expectativas eram lá assim tão grandes. Fred co-

nhecia homens aos quais se envergonharia de confessar a pequenez dos

seus farrapos de papel. Estas ruminaçäes produziram naturalmente um

traço de amargura mísantropa. Ter nascido filho de um dono de fábrica de

Middemarch, e inevitavelmente herdeiro de nada em particular, enquan-

to homens como Mainwaring e Vyan - decerto a vida era um mau


negócio, quando um jovem tão fogoso, com um bom apetite para o me-

lhor de tudo, tinha perspectivas tão medíocres.

136

GEORGE ELIOT

Não ocorrera a Fred que a introdução do nome de Buistrode no as-

sunto era uma ficção do velho Featherstone; nem isto teria feito diferen-

ça para a situação em que estava. Ele via com bastante clareza que o

velho queria exercer seu poder atormentando-o um pouco, e também

provavelmente obter alguma satisfação por vê-lo em maus termos com

BuIstrode. Fred supunha ver até o fundo a alma de seu tio Featherstone,

mas na realidade em metade do que via não havia mais que o reflexo das

suas inclinaçäes. A difícil tarefa de conhecer outra alma não é para os

cavalheiros jovens, cuja consciência é constituída principalmente por seus

próprios desejos.

Se deveria contar ao pai, ou tentar resolver o caso sem o conheci-

mento deste, eis o ponto principal no debate de Fred consigo mesmo.

Era provavelmente Mrs. Waule quem andara falando dele; e se Mary

Garth tivesse repetido para Rosamond o relato de Mrs. Waule, era cer-

to que ele alcançasse seu pai, assim como era certo que o pai o questio-

nasse a respeito. Disse pois para Rosamond, quando diminuíam o pas-

so:

mim?"

"Rosy, a Mary lhe falou de Mrs. Waule ter dito alguma coisa sobre

"Falou sim."

440 quê?"
"Que você era muito desregrado."

"Só isto?"

"A meu ver já foi bastante, Fred."

"Tem certeza que ela não disse mais coisas?"

"A Mary não mencionou mais nada. Mas realmente, Fred, creio que

você deva estar envergonhado."

"Ora bolas, não me venha com sermäes! E o que foi que a Mary

disse?"

"Não sou obrigada a lhe contar. Você se importa muitíssimo com o

que a Mary diz, e comigo é tão grosseiro que nem me deixa falar."

"Claro que me importo com o que a Mary diz. Ela é a melhor garota

que eu conheço."

"Nunca eu a teria tomado por uma garota por quem cair de amor."

"Como é que você sabe por quem os homens caem de amor? Nunca

as garotas sabem."

"Pelo menos, Fred, deixe-me aconselhar que você não caia de amor

por ela, porque diz ela que não se casaria com você, caso a pedisse."

"Bem que ela poderia ter esperado até que eu o fizesse."

MIDDLEMARCH

137

"Eu sabia que isto ia magoá-lo, Fred."

"Nem um pouco. Ela não o teria dito, se você não a tivesse pro-

vocado."

Antes de chegarem em casa, Fred concluiu que da maneira mais sim-

ples possível contaria todo o caso a seu pai, que talvez pudes se tornar a

si a desagradável tarefa de ir falar com BuIstrode.

LIVRO 11
Velhos ejovens

CAPÍTULO XIII

Ist Gent. How class your man? - as better than most,

Or, seeming better, worse beneath that cloak?

As saint or knave, pilgrim or hypocrite?

2nd Gent. Nay, tell me how you class yotir wealth of books,

The drifted relics of all time. As well

Sort them at once by size and livery:

Vellum, tall copies, and the comirion calf

Will hardly cover more diversity

Than all your labels cunningly devised

To class yotir unread authors.

19 Sr. Como classificar seu homem? - melhor que tantos,

Ou, parecendo melhor, pior sob este manto?

Como santo ou guerreiro, peregrino ou hipócrita?

29 Sr. Não, classifique-me só sua riqueza em livros,

Esta pilha de relíquias dos tempos. E também

Separe-os sem demora por tamanho e beldade:

O velino, os impressos e encadernaçäes

Dificilmente cobrirão mais diversidade

Que as engenhosas etiquetas concebidas

Para classificar os seus autores não lidos.

Em CONSEQšÊNCIA Do que tinha ouvido de Fred, Mr. Vincy resolveu ir

falar com Mr. BuIstrode em seu gabinete no Banco à uma e meia, quan-

do em geral ele estava livre. Outro visitante chegara porém à uma hora,

e Mr. Buistrode tinha tanto a dizer-lhe que havia escassa possibilidade


de a entrevista terminar em meia hora. A fala do banqueiro era fluente,

mas também copiosa, e ele gastava apreciável quantidade de tempo em

breves pausas meditativas. Não imagine que seu aspecto doentio fosse

142

GEORGi: ELIOT

do tipo que, além de amarelado, tem o cabelo preto: ele tinha a pele

pálida, mas branca, o cabelo castanho e ralo com esparsas manchas gri-

salhas, os olhos acinzentados e uma grande testa. Homens que falavam

alto diziam que seu tom moderado era um subtom, dando a entender às

vezes que ele era incompatível com a sinceridade; embora não pareça

haver razão para que um homem que fale alto não seja dado ao encobri-

mento de qualquer coisa exceto sua voz, a não ser que possa ser de-

monstrado que a Sagrada Escritura colocou nos pulmäes a sede da fran-

queza. Mr. BuIstrode tinha também uma atitude de se curvar para ouvir

com deferência e, nos olhos, uma aparente fixidez de atenção que leva-

vam as pessoas que se consideravam dignas de ser ouvidas a inferirem

que ele estava em busca do mais completo aproveitamento dos seus

discursos. Outros, que não esperavam fazer bela figura, não gostavam

nada dessa espécie de lanterna moral virada para eles. Quem não se

orgulhar de sua adega, não sentirá um pingo de satisfação ao ver seu

convidado erguendo o copo de vinho à luz, com ar judicioso. Tais ale-

grias se reservam ao mérito consciente. Donde a atenção fixa de Mr.

BuIstrode não agradar aos taberneiros e pecadores de MiddIernarc11; uns

a atribuíam ao fato de ser ele um fariseu, outros, ao fato de ele ser evan-

gélico. Os que entre eles raciocinavam menos superficialmente queriam

saber quem tinham sido seu avô e seu pai, observando que há vinte e

cinco anos atrás ninguém jamais ouvia falar de um BuIstrode em Mid-

demarch. Para seu atual visitante, Lydgate, o olhar perscrutador era in-
diferente: ele simplesmente formou uma opinião desfavorável sobre a

constituição do banqueiro, concluindo que o mesmo levava uma vida de

ansiedade, com pouco desfrutar de coisas tangíveis.

"Hei de ficar-lhe imensamente grato se de vez em quando o senhor

passar por aqui para me ver, Mr. Lydgate," observou o banqueiro, após

breve pausa. "Se, como atrevo-me a esperar, eu tiver o privilégio de tê-

lo como um auxiliar valioso na momentosa questão da administração

hospitalar, haverá muitos problemas que precisaremos discutir entre nós.

Quanto ao novo hospital, que está quase concluído, vou pensar no que

disse sobre as vantagens de destiná-lo apenas às febres. A decisão cabe-

rá a mim, pois Lord Medicote, embora tenha dado o terreno e madeira

para a construção, não está em condiçäes de dar ao projeto sua atenção

pessoal."

"Há poucas coisas tão merecedoras de esforço numa cidade de pro-

víncia como esta," disse Lydgate. "Um bom hospital da febre somado à

velha enfermaria pode ser o núcleo de uma escola de medicina aqui,

desde que tenhamos conseguido nossas reformas médicas; e o que faria

MIDDLEMARCH

143

mais pela educação médica que a disseminação de tais escolas pelo pais?

Um homem nascido na província, que tenha um mínimo de espírito pú-

lico, bem como algumas idéias, deve fazer o que pode para resistir à

maré de coisas que estão um pouco melhor do que o comum lá para os

lados de Londres. Quaisquer objetivos profissionais válidos podem mui-

tas vezes encontrar nas províncias um campo mais livre, quando não

mais rico."

Um dos dons de Lydgate era uma voz habitualmente profunda e

sonora, capaz contudo de se tornar gentil e muito baixa no momento


certo. Em seu porte costumeiro havia um certo abandono, uma destemi-

da expectativa de sucesso, uma confiança em sua própria força e integri-

dade muito fortalecida pelo desdém por pequenos obstáculos ou sedu-

çäes dos quais ele não tinha tido experiência. Mas esta sua orgulhosa

franqueza era tornada amável por uma expressão de boa vontade não

afetada. Mr. Bultstrode talvez gostasse ainda mais dele pela diferença

entre os dois de timbre e modos; e certamente gostava ainda mais dele,

tal como Rosamond, por ser ele um estranho em Middemarch. Pode-se

começar tantas coisas com uma pessoa nova! - inclusive começar a ser

um homem melhor.

"Para mim será uma alegria dar ao seu entusiasmo as oportunidades

mais amplas," Mr. BuIstrode respondeu; "ou seja, confiar-lhe a superin-

tendência do meu novo hospital, caso um conhecimento mais maduro

favoreça esta solução, pois já decidi que um projeto tão grandioso não

há de ser estorvado por nossos dois facultativos. Com efeito, encorajo-

me a considerar seu advento a esta cidade como clemente indicação de

que uma bênção mais manifesta há de agora ser concedida aos meus

esforços, que até aqui encontraram muita resistência. Com relação à

enfermaria velha, já ganhamos a fase inicial - ou seja, sua eleição. E

agora espero que o senhor não se intimide se despertar certa quantidade

de antipatia e ciúme em seus colegas de profissão por apresentar-se como

um reformador."

"Não hei de ostentar bravura," disse Lydgate, sorrindo, "mas reco-

nheço que há muito de prazer na luta, e de minha profissão eu nem faria

caso, se não acreditasse que há melhores métodos a serem descobertos

e aplicados nela, como de resto por toda parte."

"O nível desta profissão anda baixo em Middemarch, meu caro se-

nhor," disse o banqueiro. "Baixo, quero dizer, em conhecimento e perícia;

não em posição social, pois em sua maioria nossos médicos são aparenta-

dos a respeitáveis pessoas do lugar. Minha própria saúde, que não é muito

boa, induziu-me a dar alguma atenção a esses recursos paliativos que a


144

GEORGE ELIOT

misericórdia divina colocou ao nosso alcance. Consultei na metrópole

homens eminentes, e tenho penosa consciência do atraso no qual se en-

contra o tratamento médico em nossos distritos provinciais."

" verdade; - com as normas e a educação em vigor na medicina, já

é uma satisfação hoje em dia encontrar de vez em quando um praticante

correto. Quanto a todas as questäes superiores que determinam o ponto

de partida de um diagnóstico - quanto à filosofia da evidência médica

- qualquer vislumbre delas só pode provir de uma cultura científica da

qual os praticantes do campo geralmente não têm mais noção que do

homem na lua."

Mr. BuIstrode, curvando-se e olhando atentamente, não achou que

a forma dada por Lydgate a esta concordância fosse de todo adequada à

sua compreensão. Em tais circunstâncias, um homem judicioso muda de

assunto e ingressa em terreno onde suas aptidäes possam ser mais úteis.

"Estou ciente," disse ele, "de que a competência médica tem pecu-

liar inclinação por meios materiais. Não obstante, Mr. Lydgate, espero

que nossos sentimentos não variem no tocante a uma medida na qual o

senhor não deverá estar ativamente envolvido, mas onde sua simpática

cooperação pode ser uma ajuda para mim. Suponho que reconheça, em

seus pacientes, a existência de interesses espirituais, pois não?"

"Certamente que sim. Mas estas palavras estão sujeitas a cobrir di-

ferentes significados em diferentes cabeças!"

"Exatamente. E em tais questäes a instrução emônea é tão fatal quan-

to instrução nenhuma. Há um ponto que eu me empenho a fundo por

garantir, qual seja, um novo regulamento para a assistência religiosa na

enfermaria velha. O prédio fica na paróquia de Mr. Farebrother. O se-


nhor conhece Mr. Farebrother?"

"já estive com ele. Ele me deu seu voto, devo ir visitá-lo para agra-

decer. Parece um su eitinho muito brilhante e agradável. E pelo que sei é

um naturalista."

"Mr. Farebrother, meu caro senhor, é um homem muito doloroso de

se contemplar. Suponho que não haja neste país um clérigo que tenha

maiores talentos." Mr. Buistrode fez uma pausa, como se meditasse.

"Ainda não me dei ao trabalho de encontrar em Middemarch qual-

quer talento excessivo," disse Mr. Lydgate, rudemente.

"O que eu desejo," Mr. BuIstrode continuou, ficando ainda mais sé-

rio, "é que a assistência de Mr. Farebrother no hospital seja substituída

pela indicação de um capelão - de Mr. Tyke, na verdade - e que ne-

nhuma outra ajuda espiritual deva ser solicitada."

"Como médico eu não poderia ter opinião sobre este ponto, a me-

MIMUMARCH

145

nos que conhecesse Mr. Tyke, e mesmo então eu pediria para conhecer

os casos a que ele estivesse dedicado." Lydgate sorriu, mas estava deci-

dido a ser circunspecto.

"Naturalmente o senhor não pode entrar completamente nos méri-

tos desta medida por ora. Mas" - e aqui Mr. BuIstrode começou a falar

com uma ênfase mais cinzelada - "à assunto será provavelmente leva-

do ao conselho médico da enfermaria, e o que eu confio poder pedir ao

senhor é que, em virtude da cooperação entre nós que daqui para a

frente já diviso, o senhor não será, no que lhe disser respeito, influencia-

do por meus oponentes nesta questão."

"Espero que eu nada tenha a ver com disputas clericais," disse

Lydgate. "O caminho que escolhi é trabalhar bem em minha própria


profissão."

"Minha responsabilidade, Mr. Lydgate, é de um tipo mais amplo.

Comigo, de fato, esta é uma questão de responsabilidade sagrada; ao

passo que, com meus oponentes, tenho boa razão para dizer que é uma

simples ocasião para gratificarem seu espírito de oposição mundana. Mas

nem por isto hei de abrir mão de um mínimo que seja de minhas convic-

çäes, ou deixar de identificar-me com a verdade que uma pérfida geração

odeia. Devotei-me a este projeto de melhorias hospitalares, mas ouso

confessar-lhe, Mr. Lydgate, que eu não me interessaria por hospitais se

eu acreditasse que nada mais estivesse aí previsto que não a cura das

doenças mortais. Tenho outro motivo de ação e, em face de perseguição,

não irei escondê-lo."

A voz de Mr. BuIstrode saiu como um cochicho agitado, e alto, quan-

do ele disse as últimas palavras.

"Nisto nós certamente divergimos," disse Mr. Lydgate. Mas não la-

mentou que a porta agora fosse aberta, e anunciassem Mr. Vincy. Este

flórido e sociável personagem tornara-se mais interessante para ele des -

de que tinha visto Rosamond. Não que, como ela, ele andasse a tecer

algum futuro no qual suas sortes estariam unidas; mas naturalmente um

homem se recorda com prazer de uma garota atraente, e de bom grado

vai jantar onde possa vê-la de novo. Antes de ele despedir-se, Mr. Vincy

havia feito este convite pelo qual "não se apressara nada," pois Rosamond

no café da manhã mencionara sua crença de que o tio Featherstone ha-

via tomado o novo médico em grande favor.

Mr. BuIstrode, sozinho com seu cunhado, serviu-se de um copo d"água

e abriu uma caixa de sanduíche.

"Não consigo persuadi-lo a adotar meu regime, não é, Vincy?"

"Não, não; não tenho opinião sobre este sistema. A vida precisa de

146
GEORGE ELIOT

um bom recheio," disse Mr. Vincy, incapaz de omitir sua teoria portátil.

"Contudo," prosseguiu, acentuando a palavra, como que para excluir

toda irrelevância, "o que aqui me trouxe para conversar foi um pequeno

caso do meu jovem e incorrigível Fred."

"Este é um assunto sobre o qual você e eu devemos ter enfoques tão

diferentes como sobre dietas, Vincy."

"Espero que não desta vez." (Mr. Vincy estava decidido a ser bem

humorado.) "Bem, trata-se de um capricho do velho Featherstone. Al-

guém andou inventando uma história, por despeito, e foi contá-la para o

velho, na tentativa de jogá-lo contra o Fred. Ele adora o Fred, e é prová-

vel que lhe deixe alguma coisa polpuda; de fato, chegou mesmo a dizer

ao Fred que pensa deixar suas terras para ele, e isto causa ciúme em

outras pessoas."

"Vincy, devo repetir que você não obterá nenhuma concordância de

minha parte no tocante ao rumo que tem seguido com seu filho mais

velho. Foi por pura vaidade mundana que você o destinou à Igreja: com

uma família de três filhos e quatro filhas, não estava autorizado a consa-

grar dinheiro a uma educação dispendiosa que não deu em nada, a não

ser conferir-lhe hábitos ociosos e extravagantes. Você agora está colhen-

do as conseqüências."

Apontar os erros alheios era um dever de que Mr. Bulstrode rara-

mente se eximia, mas Mr. Vincy não estava igualmente preparado para

ser paciente. Quando um homem tem a perspectiva imediata de ser pre-

feito, e está pronto, em defesa dos interesses do comércio, a assumir

uma atitude firme na política de modo geral, naturalmente ele também

tem noção de sua importância num contexto de coisas que parece rele-

gar a segundo plano as questäes de conduta privada. E esta reprovaçao

em particular irritou-o mais que qualquer outra. Era eminentemente

supérfluo, para ele, ser lembrado de que estava colhendo as consequen-


cias. Mas sentia seu pescoço sob o jugo de Bulstrode; e, embora normal-

mente gostasse de emoçäes fortes, estava ansioso para se privar desta.

"Quanto a isto, Bulstrode, não adianta voltar atrás. Não sou um dos

seus homens-modelo, nem pretendo ser. Eu não podia prever tudo no

ramo; não havia em Middemarch melhor negócio que o nosso, e o garo-

to era inteligente. Meu pobre irmão estava na Igreja, e iria sair-se bem

- já fora até promovido, mas aquela febre estomacal o levou: se não, a

essa altura poderia ser um deão. Creio estar justificado no que tentei

fazer pelo Fred. E, como você toca em religião, parece-me que um ho-

mem não deveria querer cortar de antemão seu mirrado naco de carne:

- é preciso confiar um pouco na Providência e ser generoso.  um bom

MIDDLEMARCH

147

sentimento britânico, este de fazer um esforço para tentar criar sua famí-

lia: na minha opinião, é dever de um pai dar a seus filhos uma boa opor-

tunidade."

"Não desejo agir a não ser como o seu melhor amigo, Vincy, quando

eu digo que tudo isto que você manifesta agora é uma só massa de

mundanidade e incoerente toleima."

"Muito bem," disse Mr. Vincy, numa forte emoção, a despeito das

resoluçäes, "nunca eu professo ser outra coisa, que não mundano; e o

que é mais, não vejo ninguém que não seja mundano. Suponho que

voce não faça seus negócios com base no que chama de princípios não

mundanos. A única diferença que eu vejo é que uma mundanidade é um

pouco mais honesta que a outra."

"Este é um tipo de discussão infrutífera, Vincy," disse Mr. BuIstrode,

que, acabado seu sanduíche, jogara-se outra vez em sua cadeira, a prote-

ger os olhos como que cansado. "Você tinha um assunto em particular."


"Pois é. Para encurtar a conversa, alguém disse ao velho Featherstone,

mencionando você como fonte, que o Fred pegou ou vem tentando pe-

gar dinheiro emprestado por conta das terras dele.  claro que você nun -

ca disse um tal absurdo. Mas o velho insiste que o Fred lhe leve um

desmentido de seu próprio punho; ou seja, apenas uma simples nota

dizendo que você não acredita numa palavra desta bobagem, nem que

ele pegou nem que tenha tentado pegar desta maneira, como um bobo.

Não creio que possa ter objeçäes a fazê-la."

"Desculpe-me. Eu tenho uma objeção. De modo algum estou certo

de que seu filho, em sua inquietude e ignorância, - não usarei palavras

mais severas - não tenha tentado levantar dinheiro apregoando suas

perspectivas futuras, ou mesmo de que alguém não possa ter sido sufici-

entemente tolo para abastecê-lo de fundos com base em presunção tão

vaga: há tantos empréstimos por aí assim à matroca como há outras

loucuras no mundo."

"Mas o Fred me deu sua palavra de honra de que nunca conseguiu

dinheiro emprestado com base em qualquer acerto sobre as terras do

tio. Ele não mente. Não que eu o queira fazer melhor do que é. já o

espremi bastante - ninguém pode dizer que eu feche os olhos para suas

açäes. Ele porém não é um mentiroso. E deveria ter-me ocorrido - mas

posso estar enganado - que não há religião que impeça um homem de

pensar o melhor sobre um rapaz, quando não se conhece o pior. Quer-

me parecer que seria uma pobre espécie de religião se você se recusasse

a dizer, pondo uma pedra em seu caminho, que não acredita em tal

desmando dele, posto que não tenha uma boa razão para acreditar."

148

GEORGE ELIOT

"Não estou de todo certo de que eu deva apoiar seu filho aplainan-
do-lhe o caminho para a futura posse da propriedade de Featherstone.

Não posso olhar a riqueza como uma bênção para aqueles que a usam

simplesmente como colheita para este mundo. Sei que não gosta de

ouvir essas coisas, Vincy, mas nesta ocasião sinto-me obrigado a dizer-

lhe que não tenho motivos para favorecer uma disposição da proprieda-

de como esta a que você se refere. Não me furto a afirmar que ela não vai

servir ao bem-estar eterno de seu filho nem à glória de Deus. Por que

então você espera que eu redija esta espécie de testemunho, que não

tem objetivo senão amparar uma louca parcialidade e garantir um louco

legado?"

"Se você quer impedir todo mundo de ter dinheiro, a não ser os

evangelistas e santos, deve abrir mão de algumas lucrativas parcerias, e

nada mais tenho a dizerf explodiu Mr. Vincy, com muita aspereza. "Pode

ser para a glória de Deus, mas não é para a glória do comércio de

Middemarch, que a casa de Plymdale usa aqueles corantes, o azul e o

verde que lhe são fornecidos pela manufatura de Brassing; corantes que

estragam a seda, por tudo que eu sei. Se outras pessoas soubessem tão

bem assim que o lucro vai para a glória de Deus, talvez pudessem ficar

mais satisfeitas. Eu porém não me importo muito com isto - eu que, se

quisesse, poderia causar uma gritaria."

Mr. Bulstrode fez uma pausa antes de responder. "Você me magoa

muito falando desta maneira, Vincy. Não espero que compreenda meus

motivos de ação - não é mesmo coisa fácil trilhar um caminho por

princípios em meio às complicaçäes do mundo - e ainda menos que se

ponha a clarear o caminho para os descuidados e os zombeteiros. Tenha

em mente, por favor, que estendi minha tolerância a você como irmão de

minha esposa, e que pouco lhe convém queixar-se de mim por recusar

ajuda material para garantir a posição social de sua família. Devo lembrá-

lo que não foi sua prudência nem seu discernimento que o capacitou a

manter o seu lugar nos negócios."

"Bem provável que não; mas você por enquanto nada perdeu com
meu negócio," disse Mr. Vincy, profundamente irritado (um efeito que

raramente era muito retardado por resoluçäes prévias). "Quando você

se casou com Harriet, não vejo como pudesse esperar que nossas famí-

lias não passassem a estar juntas em quaisquer circunstâncias. Caso te-

nha mudado de opinião, e queira que minha família desça na escala

social, é melhor que o diga. Eu por mim nunca mudei: sou hoje um

simples membro da Igreja, como aliás já o era, antes da aparição das

doutrinas. Aceito o mundo como o encontro, nos negócios e em tudo o

MIDDLEMARCH

149

mais. Estou contente de não ser pior que os vizinhos. Mas diga-me, se

você quer mesmo que nós caiamos na escala. Eu saberei melhor o que

fazer então."

"Não faz sentido esta conversa. Vocês vão descer na escala social se

não houver esta carta sobre o seu filho?"

"Bem, se vamos ou não, considero mesmo assim muito descortês de

sua parte a recusa. Tais coisas podem ser alinhadas com a religião, mas

por fora têm uma aparência malvada, de desmancha-prazeres. Você tam-

bém poderia difamar o Fred: já é quase fazê-lo, quando se recusa a dizer

que não originou a calúnia. E esse tipo de coisa - esse espírito tirânico,

querendo bancar o bispo e o banqueiro em toda parte - é esse tipo de

coisa que compromete o nome de um homem."

"Vincy, se você insistir em ficar brigando comigo, vai ser extrema-

mente doloroso para Harriet e para mim também," disse Mr. BuIstrode,

com um pouco mais de avidez e palidez que de praxe.

"Eu não quero brigar.  do meu interesse - e talvez também do seu

- que nós sejamos amigos. Não lhe tenho rancor; não penso mal de

você, mais que de outras pessoas. Um homem que chega a quase se


matar de fome, que se entrega de todo às oraçäes familiares, e assim por

diante, como você, acredita em sua religião seja o que for que aconteça:

nada lhe impediria de girar seu capital com a mesma rapidez blasfeman-

do e rogando pragas: - há muita gente que o faz. Você gosta de dar as

ordens, não há como negar; no céu, terá de estar na primeira classe, ou

então não ficará satisfeito. Mas você é o marido de minha irmã, e nós

temos de nos manter unidos; e, se eu conheço a Harriet, ela há de consi-

derar culpa sua, se brigamos porque você se apega a ninharias, recusan-

do-se a prestar ao Fred uma boa ajuda. E não posso dizer que eu tam-

bém vá receber isto bem. Considero-o uma descortesia."

Mr. Vincy levantou-se, começou a abotoar seu sobretudo e olhou

com firmeza para seu cunhado, querendo demonstrar que aguardava uma

resposta definitiva.

Não era a primeira vez que Mr. BuIstrode começava por admoestar

Mr. Vincy e acabava por ver um reflexo muito insatisfatório de si mesmo

no espelho grosseiro e nada lisonjeiro que a mente deste dono de fábrica

apresentava às luzes e sombras mais sutis de seus semelhantes; e talvez

sua experiência já o devesse pôr de sobreaviso agora quanto ao desfecho

da cena. Mas uma fonte bem provida há de ser generosa com suas águas

até mesmo na chuva, quando as águas são mais que inúteis; de igual

modo, uma boa fonte de admoestaçäes tende a ser incontível.

A aquiescência direta em consequencia de sugestäes incômodas não

150

GEORGE EIAOT

fazia parte da natureza de Mr. BuIstrode. Antes que mudasse de rumo,

era-lhe sempre necessário formular seus motivos e pô-los em consonãon-

cia com seu padrão habitual. Por fim ele disse:

"Vou refletir um pouco, Vincy. Vou conversar sobre este assunto com
Harriet. Provavelmente mando para você uma carta."

"Está bem. O mais rápido que puder, por favor. Espero que tudo

esteja resolvido antes de eu lhe ver amanhã."

CAPITULO XIV

"Follows here the strict receipt

For that sauce to dainty meat,

Named Ideness, which many eat

By preférence, and call it sweet:

First watch for morsels, like a hound,

Mix well with buffiéts, stir them round

With good thick oil of flatteries,

And froth with mean selHauding lies.

Serve warm: the vessels you must choose

To keep it in are dead men"s shoes. -

("Segue-se a receita correta

Para o molho dessa iguaria

Que chamam de ócio e delicia

A tantos que a têm por meta:

junte, como um cão, seus bocados,

Misture bem com os nãos! levados.

No óleo espesso da falsidade

Pbnha o tempero da vaidade.

E, ao servir quente, use um sapato

de defunto à guisa de prato.")

A CONSULTA DE MR. BULSTRODE a Harriet pareceu ter tido o efeito dese-

jado, pois cedo na manhã seguinte veio uma carta que Fred poderia

levar a Mr. Featherstone como o testemunho exigido.


O idoso senhor ainda estava na cama, devido ao frio que fazia, e,

como Mary Garth não pudesse ser vista na sala em baixo, Fred foi logo

subindo a escada e apresentou a carta a seu tio que, comodamente apoia-

do numa guarda do leito, era tão capaz como sempre de deleitar-se com

152

GEORGE ELIOT

a consciência da própria sabedoria para desconfiar da humanidade e

frustrá-la. Ele pôs os óculos para ler a carta, franzindo os lábios e esti-

cando os cantos da boca.

"Nestas circunstâncias não declinarei de afirmar minha convicção - bah!

que belas palavras o homem usa!  tão bom como um leiloeiro! - de que

seu filho Frederic não obteve nenhum adiantamento em dinheiro por conta de

doaçäes testamentárias prometidas por Mr. Featherstone - prometidas? quem

disse que eu prometi algum dia? não prometi nada - e farei codicilos

enquanto eu bem quiser - e de que, considerando a natureza de um tal pro-

cedimento, é um absurdo presumir que um rapaz sensato e de bom caráter o

pudesse tentar - ah, mas o cavalheiro não diz que você é um rapaz sensato

e de bom caráter, atenção a isto, meu senhor! - "quanto à minha própria

preocupação com qualquer relato desta natureza, claramente eu afirmo que

nunca

fiz declaração alguma alegando que seu filho houvesse obtido empréstimos por

conta de quaisquer bens que lhe venham a caber em direito por legado de Mr.

Featherstone"- valha-me Deus! "bens" - em direito - e por legado! O

advogado Standish não é ninguém perto dele. Não poderia falar melhor,

se quisesse ele um empréstimo. Bem," e aqui Mr. Featherstone olhou

por cima dos óculos para Fred, enquanto lhe devolvia a carta com um

gesto desdenhoso, "você não pensa que eu acredite numa linha que seja,

só porque o BuIstrode escreve bonito, não é?"


Fred corou. "Tê-la, senhor, foi de seu desejo. Tendo a tomar por

muito provável que a negativa de Mr. BuIstrode seja tão boa quanto a

fonte que lhe informou o que ele desdiz."

"Tintim por tintim. Eu nunca disse que acreditava numa ou noutra.

E agora, o que espera você?" disse Mr. Featherstone rispidamente, con-

servando os óculos mas recolhendo as mãos sob seus cobertores.

"Não espero nada, senhor." Com dificuldade Fred se dominava para

não dar vazão à irritação que sentia. "Vim trazer-lhe a carta. Se me per-

mite, farei minhas despedidas."

"Não, não, ainda não. Toque a sineta; quero que a menina suba."

Foi uma criada quem veio em resposta ao chamado.

"Diga à menina que suba!" disse Mr. Featherstone, impaciente.

"Que negócio foi este de ela ter de sair?" Quando Mary chegou, ele

falou no mesmo tom.

"Será que não podia ficar sentada quieta aqui até eu mandar você

embora? Vamos, quero meu colete. Eu sempre lhe disse para deixá-lo na

cama."

Os olhos de Mary pareciam meio vermelhos, como se ela tivesse

chorado. Nesta manhã, estava claro que Mr. Featherstone se achava num

MIDDLEMARCH

153

dos seus momentos de maior rabugice, e Fred, embora contasse agora

com a perspectiva de receber o tão necessitado presente em dinheiro,

teria preferido ser livre para atirar-se sobre o velho tirano e dizer-lhe

que

Mary Garth era boa demais para ficar à sua mercê. Fred se levantou

quando ela entrou no quarto, no entanto ela mal o havia notado, pois se

mostrava como se seus nervos tremessem na expectativa de que lhe fos-


sem jogar alguma coisa em cima. Nunca porém teve a temer nada pior

que palavras. Nisto que ela ia apanhar num cabide o tal colete, Fred

passou-lhe à frente e disse: "Permita-me."

"Deixe-a que o faça! Traga-o, menina, e coloque aqui," disse Mr.

Featherstone. "Agora vá-se embora de novo até que eu chame você,"

acrescentou quando o colete já estava posto a seu lado. Era comum que

ele temperasse seu prazer em demonstrar estima a uma pessoa sendo

particularmente desagradável com outra, e Mary se achava sempre à mão

para propiciar o condimento. Só quando os parentes dele vinham em

visita era tratada melhor. Lentamente ele pegou no bolso do colete um

molho de chaves e lentamente fez surgir uma caixinha que estava em-

baixo das cobertas da cama.

"Está esperando que eu lhe dê uma pequena fortuna, não é?" disse

ele, olhando bem por cima dos óculos e, no ato de abrir a tampa, paran-

do um pouco.

"De modo algum. O senhor já foi muito bom quando outro dia falou

em me fazer um presente, porque se não, é claro, eu nem teria pensado

nisto." A disposição de Fred era porém esperançosa, e já se lhe apresen-

tara a visão de uma soma suficientemente elevada para livrá-lo de certa

ansiedade. Quando Fred fazia uma dívida, parecia-lhe altamente prová-

vel que uma coisa ou outra - não era obrigatório que ele soubesse o

quê - acabaria acontecendo para habilitá-lo a pagar no devido tempo.

E agora que esta ocorrência providencial dava a impressão de estar tão

próxima, seria um absurdo completo pensar que o suprimento pudesse

não ficar à altura da necessidade: tão absurdo como a fé que acreditava

em meio milagre, por falta de força para acreditar num inteiro.

Manuseando várias notas de banco, uma após outra, as mãos de

veias muito grossas empenharam-se então por esticá-las de novo, en-

quanto Fred se reclinava com desdém na cadeira, para não demonstrar

avidez. Tomava-se no fundo por um cavalheiro, e não gostava nem um

pouco de cortejar um sujeito velho por seu dinheiro. Finalmente Mr.


Featherstone olhou-o mais uma vez por cima dos óculos e presenteou-o

com um macinho de notas; Fred pôde ver nitidamente que eram apenas

cinco, quando as bordas, menos significativas, abriram-se em sua dire-

154

GEORGE ELIOT

ção. Mas talvez cada uma, quem sabe, fosse de cinqüenta libras. Pegou-

as, dizendo:

"Fico muito agradecido ao senhor," e já as ia enrolando sem aparen-

temente pensar em seu valor. Mas isto não agradou a Mr. Featherstone,

que o observava na maior atenção.

"Não acha que vale a pena contá-las? Você pega dinheiro como um

lorde; será que o perde como um lorde também?"

"Eu julgava, senhor, que a cavalo dado não se olhassem os dentes.

Sentir-me-ei porém muito feliz em contá-las."

Fred porém não ficou lá tão feliz, depois que as contou de fato. Pois na

verdade elas representavam o absurdo de serem menos do que sua esperan-

ça havia decidido que deveriam ser. O que pode significar a correspondência

das coisas, senão sua correspondência às expectativas de um homem? Fa-

lhando isto, o absurdo e o ateísmo o ameaçam por trás. Foi grave o golpe

para Fred, quando ele descobriu não ter mais que cinco notas de vinte, e sua

parte da educação superior deste país não parecia ajudá-lo. Não obstante

disse, com rápidas mudanças em sua loura aparência:

" muito generoso de sua parte, senhor."

"Creio que sim," disse Mr. Featherstone, trancando seu cofre, pondo-o

outra vez onde estava, depois então tirando os óculos, de um modo bem

decidido, e por fim repetindo, como se a meditação em seu íntimo o hou-


vesse convencido mais profundamente: "Sim, eu diria que é generoso."

"Manco-lhe senhor, que estou muito gratof disse Fred, que já ti-

"Como aliás devia estar. Você pretende fazer boa figura no mundo, e

eu acredito que Peter Featherstone é a única pessoa em quem pode ter

confiança." Aqui os olhos do velho brilharam com uma satisfação curio-

samente mesclada, na consciência de que este rapaz esperto se fiava

nele, e de que este rapaz esperto, por fazê-lo, na verdade era um tolo.

"Sim, de fato: não nasci com oportunidades muito maravilhosas.

Poucos homens têm sido mais tolhidos que eu," disse Fred, com certa

sensação de surpresa ante sua própria virtude, considerando-se a dureza

com que era tratado. "Realmente não é nada agradável ter de ir à caça

num cavalo sem fôlego, e ver homens, que não sabem sequer pela meta-

dejul ar tão bem como a evente canazes de Jogar dinheiro fora compran-

"Bem, agora você pode comprar um bom cavalo de caça. Oitenta

libras dão para isto, creio - e assim ainda lhe sobram vinte para você se

safar de nualauer pequena enrascada," disse Mr. Featherstone, com uma

MIDDLEMARCH

155

"O senhor é muito bondoso," disse Fred, bastante consciente do

contraste entre seu sentimento e as palavras.

"Ah, talvez melhor como tio que o seu bom tio BuIstrode, de cujas

especulaçäes, penso, você não vai tirar muito. Aliás, pelo que ouvi dizer,

ele amarrou seu pai pelo pé, e com corda forte, não foi?"

"Meu pai nunca me fala nada sobre seus negócios."

"Bem, nisto demonstra algum juízo. Mas outras pessoas os desco-

brem, sem que ele fale. Ele nunca terá muito o que lhe deixar: tudo indi-
ca que há de morrer sem testamento - é o tipo do homem para tanto -

por mais que eles o queiram fazer prefeito de Middemarch. Você porém

não ganhará grande coisa se ele morrer sem testamento, apesar de ser o

filho mais velho."

Fred pensou que Mr. Featherstone nunca havia sido tão desagradá-

vel antes. Em verdade, nunca antes ele lhe havia dado, de uma só vez,

tanto dinheiro.

"O senhor acha que eu devo destruir esta carta de Mr. BuIstrode;`

disse Fred, levantando-se com a carta como se a fosse queimar.

"Ah, sim, não a quero mesmo! Para mim não vale dinheiro algum."

Fred levou a carta ao fogo, no qual passou o atiçador com grande

satisfação. Estava doído para sair dali, mas sentia-se um pouco envergo-

nhado, quer perante seu ser interior, quer perante o tio, de se afastar do

quarto às carreiras logo depois de meter no bolso o dinheiro. Neste ins-

tante, o capataz da fazenda apareceu para dizer alguma coisa ao patrão,

e Fred, para seu indizível alívio, foi dispensado com a injunção de apare-

cer de novo em breve.

Doido por ver-se livre do tio, ele também o havia estado para encon-

trar Mary Garth. Ela agora se achava em seu lugar costumeiro perto da

lareira, com uma costura nas mãos e um livro aberto na mesinha ao

lado. Suas pálpebras tinham perdido parte da vermelhidão agora, e ela

ostentava seu costumeiro ar de autocontrole.

" para eu subir?" disse ela, que já se erguia quando Fred entrou.

"Não; eu é que fui dispensado, porque o Simmons foi até lá."

Mary voltou a se sentar e retomou seu trabalho. Certamente o esta-

va tratando com mais indiferença que de costume: ela não sabia o quan-

to de indignação e afeição ele havia sentido a seu respeito lá em cima.

"Posso ficar aqui um pouco, Mary, ou será que a incomodo?"

"Por favor, sente-se," disse Mary; "não há você de ser um incômodo

tão grave quanto Mr. John Waule, que esteve aqui ontem, e sentou-se

sem me pedir permissão."


"Pobre coitado! Penso que está tomado de amor por você."

156

GEORGE EnOT

"Pois eu não sabia. E para mim é uma das coisas mais odiosas na

vida de uma moça, que sempre tenha de haver alguma suposição sobre a

existência de amor entre ela e qualquer homem que é gentil com ela, e a

quem ela é grata. Agradar-me-ia pensar que eu, ao menos, pudesse ficar

a salvo disto. Não tenho motivos para a vaidade insensata de imaginar

que estão tomados de amor todos os que acercam de mim."

Mary não queria revelar sentimentos, mas terminou de falar, a des-

peito de si, num trêmulo tom de irritação.

"Que diabos o levem, este John Waule! Eu não queria. deixar você

zangada. Nem sabia que tivesse razäes para lhe ser grata. Esquecia-me

de que grande serviço pensa que é, se é alguém acende para você uma

vela." Fred também tinha o seu orgulho, e não ia demonstrar que sabia

o que havia originado esta explosão de Mary.

"Oh, não estou zangada, a não ser com as maneiras em voga. Gosto que

se dirijam a mim como se eu tivesse bom senso. Realmente sinto com fre-

qüência que eu poderia entender um pouco mais do que sempre ouço até

mesmo de rapazes que estiveram na faculdade." Mary havia-se recuperado,

e falou numa rumorejante subeorrente de riso reprimido, gostoso de ouvir.

"Não me importo que esta manhã você ainda ria à minha custa," disse

Fred, "achei que parecia tão triste quando esteve lá em cima.  uma ver-

gonha que você tenha de ficar aqui para ser maltratada desse modo."

"Oh, eu levo uma boa vida - em comparação. Já tentei ser professora,

mas não dou para isto: tenho a mente por demais afeiçoada a vagar a seu

próprio modo. Penso que qualquer padecimento é melhor do que fingir

fazer aquilo por que nos pagam, nunca realmente o fazendo. Aqui posso
desincumbir-me de tudo tão bem como qualquer outra; talvez até melhor

do que algumas - Rosy, por exemplo. Muito embora ela seja justamente

esse tipo de bela criatura que, nos contos de fadas, é aprisionada com

ogres."

"Rosy!" gritou Fred, num tom de profundo ceticismo de irmão.

"Ora esta, Fred!" disse Mary enfaticamente; "você não tem o direito

de ser tão crítico."

"Refere-se a alguma coisa em particular - agora?"

"Não, refiro-me a uma coisa generalizada - sempre."

"Oh, que eu sou ocioso e extravagante! Bem, eu não dou para ser

pobre. E não teria sido um mau sujeito, se fosse rico."

"Teria feito o seu dever nesta condição de vida à qual não aprouve a

Deus chamá-lo," disse Mary rindo.

"Bem, eu não poderia fazer o meu dever como clérigo, como você

não faria o seu como governanta. Nisto você devia ter um pouco de

sentimento de companheirismo, Mary."

MIDDLEMARCH

157

"Eu nunca disse que você devia ser clérigo. Há outros tipos de traba-

lho. O que a mim parece horrível é não se decidir por um rumo e agir de

acordo com ele."

"Assim faria eu, se -" Fred interrompeu e, levantando-se, apoiou-

se contra a lareira.

"Se estivesse certo de que não receberia uma fortuna?"

.Não disse isto. Você está querendo brigar comigo.  uma lástima

que se deixe levar pelo que outros falam a meu respeito."

"Como posso querer brigar com você! Eu deveria estar brigando é com

meus livros novos," disse Mary, erguendo o volume que estava na mesa.
"Você, por pior que tenha sido para outras pessoas, para mim é born."

"Porque eu gosto mais de você que qualquer outro. Sei porém que

me despreza."

"Sim, desprezo - um pouco," disse Mary, sorrindo com uma incli-

nação de cabeça.

"Você deve admirar é um camarada estupendo, desses que possam

ter doutas opiniäes sobre tudo."

", eu deveria." Mary cosia com ligeireza e parecia provocantemen-

te senhora da situação. Quando a conversa toma um rumo que não nos

convém, limitamo-nos a descer cada vez mais fundo no pântano do aca-

nhamento. Era assim que se sentia Fred Vincy.

"Suponho que uma mulher nunca sinta amor por alguém que ela

sempre conhece - desde que se possa lembrar; como um homem mui-

"U

tas vezes sente. E sempre algum sujeito novo que impressiona uma moça."

"Deixe-me ver," disse Mary, com os cantos da boca repuxados em

arcos; "tenho de retroceder em minha experiência. Há Julieta - que

parece um exemplo do que você diz. Mas também Ofélia, que provavel-

mente conhecia há um bom tempo Hamlet; e Brenda Troil - ela conhe-

cia Mordaunt Merton desde que os dois eram crianças; mas no mais

tendo ele sido, ao que parece, um estimável rapaz; já Minna estava ain-

da mais apaixonada por Cleveland, que era um estranho. Waverley era

uma novidade para Flora Maclvor; mas nem por isto ela se apaixonou

por ele." E há Olivia e Sophia Primrose e Corinne - destas, pode-se

dizer que elas caíram de amor por homens novos .2 Minha experiência,

no todo, é uma misturada."

"Brenda e Minna Troil, Mordaunt Merton e Clement Cleveland são personagens

de The Pirate

(1822), de Walter Scott; Edward Waverley e Flora Maclvor estão em Waverly

(1814), também
de Scott.

10livia e Sophia Primrose sãopersonagens de The Vicar of -efield (1766), de

Oliver GoIdsmith;

Corirme é a heroína que dá título a um romance de Madame de Staêl (1807).

158

GEORGE ELIOT

Foi com certa malícia que Mary olhou para Fred, e este olhar tão

dela, para ele era muito caro, embora os olhos nada fossem além de

claras janelas onde a observação se punha aos risos. Ele decerto era um

tipo afetuoso e, nisto que de garoto crescera a tornar-se homem, cresceu

o amor que ele sentia pela antiga amiguinha, não obstante aquela parte

da educação superior do país que levara suas opiniäes sobre renda e

classe a exacerbarem-se.

"Quando um homem não é amado, de nada lhe adianta dizer que ele

podia ser uma pessoa melhor - que podia fazer fosse o que fosse - se

estivesse certo de estar sendo amado em troca."

"Nada de menos útil no mundo, para ele, do que dizer que podia ser

melhor. Poderia, podia, deveria - são auxiliares desprezíveis."

"Não vejo como um homem possa ser bom de fato, a menos que

tenha uma mulher para o amar com carinho."

"Pois eu creio que a bondade deveria vir antes de ele esperar por

isto."

"E você ainda sabe mais, Mary. Não é pela bondade dos homens que

as mulheres têm amor por eles."

"Talvez não. Mas, se acaso os amam, nunca pensam que eles são

maus."

"Não é muito justo dizer que eu seja mau."

"Eu não disse rigorosamente nada sobre você."


"Eu nunca serei bom para nada, Mary, se você não disser que me

ama - se não prometer casar-se comigo - isto é, quando eu estiver em

condiçäes de casar."

"Se eu lhe amasse, não iria querer casar com você: certamente não

prometeria casar-me com você algum dia."

"Penso que isto é uma crueldade, Mary. Se você me amasse, devia

prometer casar-se comigo."

"Pelo contrário, penso que cruel de minha parte seria eu me casar

com você, mesmo lhe amando."

"Você quer dizer, assim como eu sou, sem meios de manter uma

esposa.  claro: eu não tenho senão vinte e três anos."

"Neste último ponto você há de alterar-se. Mas não estou assim tão

segura de qualquer outra alteração. Diz meu pai que um homem ocioso

nem devia existir, quanto menos ser casado."

"Devo então estourar os miolos?"

"Não; pensando bem, creio que faria melhor se passasse em seus exa-

mes. Ouvi Mr. Farebrother dizendo que são assustadoramente fáceis."

qw

MIDDLEMARCH

159

", é tudo ótimo. Qualquer coisa para ele é fácil. E não que a inteli-

gência tenha alguma coisa a ver com isto. Sou dez vezes mais inteligente

que muitos homens que passam."

"Deus meu!" disse Mary, incapaz de reprimir seu sarcasmo. "Isto

cai bem em coadjutores como Mr. Crowse. Divida sua inteligência

por dez, e o quociente - meu Deus! - fica apto a colar grau. Mas

isto na verdade só mostra que você é dez vezes mais vadio que os
outros."

"Bem, se eu passasse, você não ia querer que eu fosse para a Igreja?"

"Não é esta a questão - o que eu quero que você faça. Você tem sua

própria consciência, suponho eu. Mas olhe lá! lá vem Mr. Lydgate. Te-

nho de ir comunicar ao meu tio."

"Mary," disse Fred, pegando sua mão enquanto ela se levantava; "se

você não me der algum estímulo, ao invés de melhor hei de ficar pior."

"Não lhe darei nenhum estímulo," disse Mary, ruborizando-se. "Nem

seus amigos nem os meus gostariam. Meu pai consideraria uma desgra-

ça para mim se eu aceitasse um homem que contraísse dívidas e não

quisesse trabalhar!"

Fred, atingido pela ferroada, soltou-lhe a mão. Ela andou até a

porta, mas ai se virou e disse: "Fred, você foi sempre tão bom, tão

generoso para mim. Não sou uma ingrata. Mas nunca me fale deste

modo de novo."

"Está bem," disse Fred amuado, pegando seu chapéu e o chicote. Sua

tez mostrava manchas, umas de um rosa desmaiado, outras de um branco

cadavérico. Como muitos jovens cavalheiros reprovados e ociosos, ele

estava profundamente apaixonado, e por uma garota simples que não

tinha dinheiro! Mas, contando com as terras de Mr. Featherstone por trás,

e persuadido de que, dissesse Mary o que dissesse, realmente ela se inte-

ressava por ele, Fred não se entregou ao desespero.

Ao chegar em casa, deu à sua mãe quatro das notas de vinte, pé-

dindo-lhe que as guardasse para ele. "Não quero gastar este dinheiro,

mãe. Quero-o para pagar uma dívida. Ponha-o pois a salvo dos meus

dedos."

"Que Deus o abençoe," disse Mrs. Vincy. Ela amava extremosa-

mente seu filho mais velho e a filhinha mais nova (uma menina de seis

anos), que outros consideravam seus dois piores rebentos. Nem sem-

pre os olhos da mãe, em sua parcialidade, se enganam: ela ao menos

pode julgar melhor, dentre suas crianças, qual a mais terna e de cora-
ção mais filial. Certamente Fred adorava sua mãe. E talvez fosse sua

160

GEORGE ELIOT

adoração simultânea por uma outra pessoa que o deixara particular-

mente ansioso para obter alguma segurança contra sua própria tendên-

cia a esbanjar as cem libras. Pois o credor a quem ele devia cento e

sessenta dispunha de uma segurança mais firme - em forma de uma

letra assinada pelo pai de Mary.

CAPITULO XV

"Black eyes you have left, you say,

Blue eyes fail to draw you;

Yet you seern more rapt to-day,

Than of old we saw you.

Oh 1 track the fairest fair

Through new haunts of pleasure;

Footprints here and echoes there

Guide me to my treasure:

Lo! she turns - immortal youth

Wrought to mortal stature,

Fresh as starlight"s aged truth -

Many-namŠd NatureP"

CDe olhos negros basta, dizes,

E aos azuis já não te entregas.


Mas teus ares mais felizes

Não lembram velhas refregas.

Procuro o belo mais belo

Noutros antros de prazer;

Ecos e pegadas que apelo

Guiam-me ao meu bem-querer.

Ei-la que gira! - é imortal

Na perecível beleza,

Velha e jovem, tão plural

Nos seus nomes - Natureza!")

162

GEORGE ELIOT

UM GRANDE HISTORLADOR, como insistia ele em chamar-se, que teve a

felicidade de morrer há cento e vinte anos atrás, e assim de ocupar seu

lugar entre os colossos sob cujas pernas imensas nossas mediocridades

viventes são observadas andando, ufana-se de seus copiosos comentá-

rios e digressäes como a parte menos imitável de sua obra, e especial-

mente dos capítulos iniciais dos sucessivos livros de sua história, onde

ele parece trazer sua cadeira ao proscénio e conversar conosco em toda a

exuberante fluência do seu casto inglês. Mas Fielding viveu quando os

dias eram mais longos (pois o tempo, como o dinheiro, é medido por

nossas necessidades), quando as tardes de verão eram espaçosas e o

relógio, nas noites de inverno, tiquetaqueava sem pressa. Nós, historia-

dores tardos, não devemos imitar seu exemplo; e, se o fizéssemos, é

bem provável que nossa conversa fosse superficial e exaltada, como se

endereçada de um banco de acampamento num viveiro de papagaios.


Eu pelo menos tenho tanto a fazer, desembaraçando alguns destinos

humanos e vendo como eles foram tecidos e entretecidos, que toda a luz

que posso conduzir deve estar concentrada nesta trama específica, e não

ser dispersada por este tentador espectro de relevâncias que é chamado

universo.

No presente momento tenho de tornar o recém-chegado Lydgate

melhor conhecido por quem nele tinha interesse do que talvez ele pudes-

se ser mesmo por aqueles que o viram com maior freqüência desde o

seu aparecimento em Middemarch. Pois seguramente todos hão de

admitir que um homem pode ser incensado e enaltecido, invejado, ri-

dicularizado, tido como instrumento à mão e tomado por objeto de

amor, ou pelo menos escolhido como futuro marido, e no entanto per-

manecer virtualmente desconhecido - conhecido apenas enquanto um

feixe de sinais para as falsas suposiçäes dos seus vizinhos. Prevalecia

contudo uma impressão de que Lydgate não era um médico provincia-

no assim tão comum, e uma tal impressão em Middemarch, nesta épo-

ca, dava a entender que grandes coisas se esperavam dele. Pois o dou-

tor de todas as famílias era extraordinariamente inteligente, admitin-

do-se que tinha imensa capacidade para atacar e dominar as doenças

mais rebeldes e perniciosas. A prova de sua inteligência era de ordem

altamente intuitiva, jazendo na inarredável convicção das suas clien-

tes, e inatacável por qualquer objeção, a não ser que às intuiçäes das

clientes opunham-se outras igualmente fortes; pois cada uma das se-

nhoras que via verdade médica em Wrench e no "tratamento de forta-

lecimento" considerava Toller e o "rnétodo debilitante" como a perdi-

MIDDLEMARCH

163

ção médica. Pois os tempos heróicos das copiosas sangrias e vesicatórios


não estavam findos ainda, muito menos os tempos da rematada teoria,

quando a doença em geral recebia um nome maligno e era por conse-

guinte tratada sem hesitação - como se, por exemplo, recebendo o

nome de insurreição, não devesse abrir fogo com cartuchos sem bala,

mas sim ter o sangue, de imediato, tirado. Fortalecistas e debilitantistas

eram todos homens "inteligentes" na opinião de alguém, o que na rea-

lidade é tudo o quanto pode ser dito sobre quaisquer talentos vivos.

Mas nenhuma imaginação fora tão longe a ponto de conjecturar que

Mr. Lydgate poderia ter conhecido até mesmo o Dr. Sprague e o Dr.

Minchin, os dois únicos facultativos capazes de oferecer esperança quan-

do havia extremo perigo, e quando a menor das esperanças já valia um

guinéti. Ainda assim, repito, prevalecia a impressão de que Lydgate era

um tanto quanto mais incomum do que qualquer clínico-geral de

Middemarch. E era verdade. Tinha apenas vinte e sete anos, idade em

que muitos homens não são muito comuns - em que esperam realizar

grandes coisas, são resolutos ao evitarem outras, pensando que

Maminoril nunca haverá de dar -lhes de comer na boca e montar a cava-

lo em suas costas, mas sim que Mammon, se tiverem de tratar de algu-

ma coisa com ele, há de puxar-lhes o carro triunfal.

Recém-saído de uma escola secundária ele ficara órfão. Seu pai, um

militar, fizera pouca provisão para três filhos, e quando o jovem Tertius

pediu para estudar medicina, seus tutores julgaram mais fácil atender

seu desejo, colocando-o como aprendiz de um clínico da roça, do que

fazer quaisquer objeçäes com fundamento na dignidade da família. Ele

foi um desses raros adolescentes que bem cedo seguem uma inclinação

decidida e compreendem que há uma coisa em particular na vida que

eles gostariam de fazer por amor, e não porque seus pais a fizeram. Qua-

se todos, nós que nos damos aos assuntos amados, lembramo-nos de

alguma hora matinal ou noturna em que subíamos num tamborete para

apanhar no alto um volume ainda não saboreado, ou em que boquiaber-

tos nos sentávamos para ouvir a nova conversa ou, pela própria falta de
livros, começávamos a ouvir vozes interiores, o primeiro começo

ídentificável do nosso amor. Algo do gênero aconteceu a Lydgate. Ele

era rápido em tudo e, quando cansava de brincar, largava-se num canto

e em cinco minutos afundava em qualquer tipo de livro no qual podia

pôr as mãos: se fossem o Rasselas ou o Gulliver, tanto melhor, mas o

Talavra de que Cristo se serviu para referir-se à riqueza injustamente

adquirida, e que a

personifica.

164

GEORGE ELIOT

Dicionário de Bailey1 também servia, ou a Bíblia com os Apócrifos. Al-

guma coisa ele tinha de ler, quando não estava montando o pônei, nem

em corridas e caçadas, nem ouvindo a conversa dos mais velhos. Tudo

isto com ele, em seus dez anos de vida, era verdade; já havia lido a essa

altura, na integra, "Chrysal, ou as Aventuras de um Guinéu,"I que não

era leite de infantes, nem uma branquicenta mistura prevista para passar

por leite, e já lhe havia ocorrido que os livros eram uma boa droga, e a

vida era uma bobagem. Seus estudos na escola não modificaram muito

esta opinião, pois, embora ele tivesse Mado" matemática e.os clássicos,

em nenhuma das duas áreas foi preeminente. Dele era dito que Lydgate

poderia fazer qualquer coisa que quisesse, mas que certamente ele não

tinha ainda querido fazer alguma coisa notável. Era um animal vigoroso

dotado de compreensão muito viva, sem que alguma centelha já hou-

vesse acendido nele porém uma paixão intelectual; o conhecimento pa-

recia-lhe um negócio muito superficial, facilmente dominado: julgando

pelas conversas dos mais velhos, aparentemente ele já acumulara mais

que o necessário para a vida de adulto.  bem provável que este não
fosse um produto raro da educação dispendiosa nesse período de casa-

cos curtos na cintura e outras modas que ainda não voltaram. Mas, nu-

mas férias, um dia chuvoso o levou à pequena biblioteca da casa para

procurar mais uma vez algum livro que pudesse ter novo interesse para

ele: em vão! a não ser, de fato, que ele apanhasse uma série de volumes

cobertos de poeira, de capa cinza e com etiquetas encardidas - os volu-

mes de uma velha Enciclopédia em que nunca havia tocado. Estavam na

prateleira mais alta, e ele subiu numa cadeira para alcançá-los. Abriu

depois o volume que por primeiro pegara: de algum modo, tendemos a

ler numa atitude improvisada, justamente onde talvez não pareça con-

veniente fazê-lo. A página em que abriu trazia o título Anatomia, e a

primeira passagem a atrair seus olhos era sobre as válvulas do coração.

Não tinha muita intimidade com válvulas de nenhum tipo, mas sabia

que valvae eram portas de dois batentes, e por esta greta veio uma súbita

luz que lhe imprimiu sua primeira vívida noção do mecanismo perfeita-

mente regulado do organismo humano. Uma educação liberal deixara-o

naturalmente livre para ler as passagens indecentes nos clássicos escola-

res mas, além de uma impressão geral de segredo e obscenidade em

relação à sua estrutura interna, deixara sua imaginação desprevenida, de

"Respectivamente, Rasselas (1759), de SamueIjohnson; GuIliver"s Travels

(1726), de jonathan

Swift; e Dictionary (1721), de Nathan Bailey.

2 Chrysal, or the Adventures of a Guinea (1760-1765), narrativa satírica de

Chartes Johnston,

"N

MIDDLEMARCH

165
modo que por tudo quanto sabia seu cérebro ficava em pequenas bolsas

nas têmporas, e ele não tinha mais idéia de como representar para si

mesmo a circulação de seu sangue do que como se utilizava papel ao

invés de ouro. Mas o momento da vocação surgira e, antes que descesse

lá da sua cadeira, o mundo se lhe fez novo por um pressentimento de

processos infindos a preencher os vastos espaços, barrados à sua visão

por aquela ignorância palavrosa que ele havia suposto ser conhecimen-

to. A partir desta hora Lydgate sentiu o crescimento de uma paixão inte-

lectual.

Não tememos contar e recontar como acontece a um homem apai-

xonar-se por uma mulher e se tornar seu marido, ou então separar-se

fatalmente dela.  devido a um excesso de poesia ou de estupidez que

nós nunca nos cansamos de descrever o que o Rei Jaime chamou de

Cecompostura e belezura" de uma mulher, nunca nos cansamos de ouvir

o tanger das cordas do velho Trovador, e somos comparativamente de-

sinteressados por esse outro tipo de "compostura e belezura" a cortejar

com pensamento industrioso e paciente renúncia a pequenos desejos?

Na história desta paixão, também, o desenvolvimento varia: algumas

vezes é o casamento glorioso, outras a decepção e a despedida final. E

não raro a catástrofe se liga à outra paixão, cantada pelos Trovadores.

Pois na multidão de homens de meia-idade que cumprem suas vocaçäes

numa rotina diária, a elas determinados de modo bem semelhante ao do

nó de suas gravatas, sempre há um bom número que pretendeu alguma

vez dar forma às suas açäes e alterar o mundo um pouco. Raramente é

contada, mesmo na consciência deles, a história de como receberam da

média sua forma, tornando-se próprios para serem empacotados em blo-

co; pois talvez seu ardor na lida generosa e não paga tenha esfriado tão

imperceptivelmente quanto o ardor de outros amores juvenis, até que

um dia seu mais primevo ser entrou como um fantasma na antiga casa e

tomou medonho o novo interior. Nada mais sutil no mundo do que o


processo de sua gradual mudança! No começo a inalaram sem saber:

você e eu podemos ter mandado para infectá-los um pouco do nosso

bafo, quando proferimos nossas falsidades conformantes ou tiramos

nossas conclusäes apressadas: ou talvez ela tenha vindo com as vibra-

çäes do olhar de uma mulher.

Lydgate não pretendia ser um destes fracassos, e havia grande espe-

rança para ele, porque seu interesse científico logo tomou a forma de um

entusiasmo profissional: tinha uma crença juvenil no trabalho como seu

ganha-pão, que não seria sufocada por aquela iniciação provisória, os

chamados dias de aprendiz; e ele levou para seus estudos em Londres,

"1

166

GEORGE ELIOT

Edimburgo e Paris a convicção de que a profissão médica, como devia

ser, era a melhor do mundo; apresentando o mais perfeito intercâmbio

da ciência com a arte; oferecendo a aliança mais direta entre a conquista

intelectual e o benefício social. A natureza de Lydgate demandava esta

combinação: era uma criatura emotiva, com um sentido muito humano

de solidariedade e convívio que se opunha a todas as abstraçäes do es-

tudo pormenorizado. Não se preocupava apenas com os "casos," mas

com o John e a Elizabeth, especialmente Elizabeth.

Havia outra atração nesta profissão: como ela carecesse de reformas,

dava a um homem a oportunidade de alguma decisão indignada para

rejeitar-lhe as decoraçäes venais e outros embustes, tornando-se assim

possuidor de qualificaçäes genuínas, embora não solicitadas. Ele foi es-

tudar em Paris com a determinação de que ao voltar para casa iria esta-

belecer-se como clínico-geral em alguma cidade de província, e resistir à


irracional separação entre o conhecimento médico e o cirúrgico, tanto

no interesse de suas próprias investigaçäes científicas quanto no do pro-

gresso em geral: manter-se-ia fora de alcance das intrigas, dos ciúmes,

das amabilidades sociais de Londres, e conquistaria celebridade, ainda

que lentamente, como havia feito JennerI, pelo valor independente de

seu trabalho. Pois deve ser lembrado que este era um período de trevas;

e, a despeito das veneráveis faculdades que envidavam grandes esforços

para garantir a pureza do conhecimento tornando-o escasso, e para ex-

cluir o emo por uma rígida exclusividade em relação a taxas e compro-

missos, aconteceu que jovens cavalheiros bem ignorantes foram promo-

vidos nas cidades, enquanto muitos outros obtinham o direito legal de

praticar em grandes áreas do país. Também, o alto padrão mantido pe-

rante a opinião pública pelo Colégio de Facultativos, que dava sua san-

ção particular à instrução médica cara e altamente rarefeita obtida pelos

graduados em Cambridge e Oxford, não impediu a charlatanice de atra-

vessar então excelente fase; pois, como a prática profissional consistia

principalmente em dar grande quantidade de drogas, o público inferiu

que poderia talvez ter mais melhoras com mais drogas ainda, desde que

elas fossem baratas, e passou em consequencia a engolir grandes dosa-

gens cúbicas de medicamentos prescritos por uma ignorância ines-

crupulosa e que não colara o seu grau. Considerando-se que a estatística

não houvesse efetuado ainda um cálculo do número de doutores igno-

rantes ou falsos que deveria certamente existir ante o caudal de todas as

IEdward Jenner (1749-1823), médico inglês que descobriu a primeira das

vacinas, a que

imunizava contra a varíola.

MIDDLEMARCH

167
mudanças, pareceu a Lydgate que uma mudança nas unidades era o

modo mais direto de mudar os números. Pretendia ele ser uma unida-

de que faria certa parcela de diferença para essa mudança em expansão

que de um modo apreciável haveria de impor-se um dia sobre as médi -

as, e que teria enquanto isso o prazer de fazer vantajosa diferença para

as vísceras dos seus pacientes. Mas ele não visava somente a um tipo

de prática mais genuína do que era comum. Ambicionava um efeito

mais amplo: abrasava-o a possibilidade de que ele viesse a elaborar a

prova de uma concepção anôtämica e colocar um elo na cadeia das

descobertas.

Parece-lhe acaso incongruente que um cirurgião de Middemarch pu-

desse sonhar consigo mesmo como um descobridor? A maioria de nós,

com efeito, pouco sabe dos grandes originadores até que eles tenham sido

alçados em meio às constelaçäes e já governem nossos destinos. Mas esse

Herschel,1 por exemplo, que "rompeu as barreiras do céu," - certa vez

não tocou ele num órgão de igreja de província, e não deu aulas de música

para pianistas ainda em seus balbúcios? Cada uma dessas Brilhantes

Sumidades tinha de se mover pela Terra entre vizinhos que talvez pensas-

sem muito mais no seu jeito de andar e suas roupas do que em qualquer

outra coisa que estivesse para intitulá-la à duradoura fama: cada um deles

tinha sua historinha pessoal e local salpicada de pequenas tentaçäes e

sórdidos cuidados, que fazia a fricção de retardo no seu trajeto para atin-

gir a companhia final dos imortais. Lydgate não era cego aos perigos desta

fricção, mas tinha plena confiança em sua resolução de evitá-la o mais

possível: estando com vinte e sete anos, sentia-se experiente. E não iria

ter suas vaidades provocadas pelo contato com os sucessos mundanos

exibidos na capital, mas sim viver entre pessoas que não poderiam rivali-

zar com essa realização de uma grande idéia que seria um objetivo parale-

lo à assídua prática de sua profissão. Havia um fascínio na esperança de

que os dois objetivos viessem a se aclarar mutuamente: a observação cui-


dadosa e a inferência que eram seu trabalho diário, o uso das lentes, em

casos especiais, para dar mais alcance a seu discemimento dar-lhe-iam

mais alcance também ao pensamento como instrumento de maiores pes-

quisas. Não era esta a típica superioridade de sua profissão? Ele seria um

bom doutor de Middemarch, e exatamente deste modo se manteria na

pista de amplas investigaçäes. Num ponto ele já podia muito bem preten-

der aprovação nesta etapa particular de sua carreira; não queria imitar o

modelo dos filantropos que se mantêm com os lucros extraídos de conser-

ISir William Herschel (1738-1822), astrônomo inglês nascido na Alemanha.

68

GEORGE ELIOT

vãs estragadas, ao mesmo tempo em que fazem denúncias de adulteração,

ou que são sócios de um antro de jogatina a fim de terem tempo livre para

representar a causa da moralidade pública. Planejava dar início, em seu

próprio caso, a algumas reformas particulares que estavam certamente a

seu alcance e constituíam problema bem menor que a demonstração de

uma concepção anatämica. Uma destas reformas era agir em estrita obe-

diência a uma recente decisão legal, apenas receitando mas não preparan-

do remédios, nem recebendo porcentagem dos boticários. Para alguém

que tinha resolvido adotar o estilo de um clínico-geral em cidade de pro-

víncia, isto era uma inovação, e seria sentido como crítica ofensiva por

seus confrades. Mas Lydgate queria inovar também no tratamento, e era

bastante sensato para ver que sua maior garantia de uma prática honesta

e consonante com sua crença era livrar-se das sistemáticas tentaçäes em

contrário.

Talvez fosse este um tempo de mais júbilo para observadores e teó-

ricos do que o presente; inclinamo-nos a pensar que a melhor época do


mundo foi quando a América começava a ser descoberta, quando um

audaz marinheiro, ainda que o vitimasse um naufrágio, podia aportar a

um novo reino; e por volta de 1829 os umbrosos territórios da Patologia

eram uma bela América para um intrépido e jovem aventureiro. A prin-

cipal ambição de Lydgate era contribuir para o alargamento das bases

racionais e científicas de sua profissão. Quanto mais ele se interessava

por aspectos especiais da doença, como a natureza da febre ou das fe-

bres, mais agudamente percebia a necessidade desse conhecimento fun-

damental da estrutura que justamente no começo do século havia sido

iluminado pela breve e gloriosa carreira de Bichat,1 o qual estava com

apenas trinta e um anos quando morreu mas deixou, como um novo

Alexandre, um reino suficientemente grande para muitos herdeiros. Foi

este eminente francês quem por primeiro formulou a concepção de que

os corpos vivos, considerados em sua essência, não são associaçäes de

órgãos que possam ser compreendidos quando, de início, são estudados

à parte e, depois, por assim dizer, em estado federativo; mas devem ser

vistos como constituídos de certas membranas primárias ou tecidos, de

cuja compactação formam-se os vários órgãos - cérebro, coração, pul-

mäes etc., - assim como as várias partes de uma casa são construídas

com variadas proporçäes de madeira, ferro, pedra, tijolo, zinco e o res-

tante, tendo cada material sua composição e proporção específicas. Não

há homem, vê-se, que possa entender e calcular toda a estrutura ou suas

"Xavier Bichat (1771-1802), anatornista e fisiologista francês.

MIDDLEMARCH

169

partes - o que são suas fraquezas e o que seus reparos, sem conhecer a

natureza dos materiais. E a concepção elaborada por Bichat, com seu


estudo detalhado dos diferentes tecidos, necessariamente repercutiu nas

discussäes médicas como a chegada dos lampiäes a gás repercutiria numa

rua escura iluminada a óleo, revelando novas ligaçäes e fatos até então

ocultos do organismo que devem ser levados em conta no exame dos

sintomas das doenças e da ação dos medicamentos. Resultados que de-

pendam da consciência e inteligência humanas atuam porém bem deva-

gar, e agora, no final de 1829, em sua maioria a prática médica ainda

vinha arrastando os pés, ou a pavonear-se pelos velhos caminhos, e res-

tava a fazer todo um trabalho científico que poderia ser encarado como

seqüência direta do de Bichat. Este grande visionário não fora além de

considerar os tecidos como evidências últimas na constituição do orga-

nismo, marcando o limite da análise anatämica; esperava-se agora que

outra mente dissesse: não têm tais estruturas alguma base comum da

qual partiram todas, como o tafetá, o tule, a gaze, o cetim e o veludo

procedem do algodão em bruto? Ter-se-ia aqui outra luz, como a do oxi-

hidrogênio, mostrando o próprio grão das coisas e revendo todas as ex-

plicaçäes anteriores. Lydgate se deixara apaixonar por esta seqüência da

obra de Bichat, que já ecoava em muitas correntes do espírito europeu;

aspirava demonstrar as relaçäes mais íntimas da estrutura viva e ajudar

a definir com exatidão maior, segundo a ordem verdadeira, o pensamen-

to do homem. Trabalho que ainda não fora feito, mas somente prepara-

do para aqueles que soubessem como usar a preparação. Qual foi o teci-

do primitivo? Deste modo Lydgate se colocava a questão - não propria-

mente do modo requerido pela expectante resposta; mas esta ausência

da palavra certa atinge a muitos pesquisadores. E ele contava com inter-

valos tranqüilos, a serem avidamente aproveitados, para unir os fios da

investigação, - com muitos vislumbres a serem tidos por uma aplicação

diligente, não só do escalpelo, mas também do microscópio, cujo uso a

ciência retomara com um confiante entusiasmo. Tal era o plano de Lydgate

para o seu futuro: fazer um bom e modesto trabalho por Middemarch, e

uma grande obra para o mundo.


Certamente neste tempo ele era um homem feliz: tinha vinte e sete

anos, sem nenhum vício arraigado, com uma resolução generosa de que

sua ação fosse beneficente, e com idéias na cabeça que tornavam a vida

interessante mesmo sem o cultus dos cavalos e outros ritos místicos de

observância custosa, os quais certamente não conseguiria manter por muito

tempo com as oitocentas libras de que ainda dispunha após a compra de

sua clientela. Ele estava naquele ponto de partida que faz de muitas car-

70

GEORGE UM

reiras um objeto digno de aposta, no caso de haver cavalheiros dados a

esta diversão que pudessem apreciar as complicadas probabilidades de

um árduo objetivo, com todas as adversidades e avanços das circunstân-

cias, todas as dificuldades do equilíbrio interior, por onde o homem vai

nadando e chega ao ponto que queria ou é então arrastado, e de ponta-

cabeça. O risco continuaria a existir, mesmo com um conhecimento mais

íntimo do caráter de Lydgate; pois o caráter também é um processo e um

desdobramento. O homem ainda estava sendo feito, da mesma forma que

o doutor de Middemarch e o descobridor imortal, e continha tanto virtu-

des quanto defeitos capazes de encolher ou de se expandir. Que o leitor

não perca seu interesse por ele, espero, em razão dos defeitos! Em meio

aos nossos estimados amigos, não há sempre um ou outro que é um pou-

co autoconfiante e desdenhoso demais; cujo espírito brilhante tem lá suas

manchas de vulgaridade; que ora se aflige, ora se mostra todo cheio de si

com seus preconceitos congênitos; ou cujas melhores energias estão sujei-

tas a escoar pelo canal emado sob a influência de solicitaçäes transitórias?

Todas estas coisas podem ser alegadas contra Lydgate, mas considere-se

que elas são as perífrases de um pregador polido, que fala de Adão, mas

não gostaria de mencionar nada de penoso aos paroquianos que pagam

por seus bancos na igreja. Os defeitos particulares dos quais são destila-
das estas generalidades diáfanas têm fisionomia, dicção e trejeitos

distinguíveis; os quais preenchem seus papéis em dramas bem variados.

Nossas vaidades diferem como os nossos narizes: nem toda presunção é a

mesma, pois a presunção varia de acordo com as minúcias da constituição

mental que nos torna, a cada um de nós, diferente do outro. A presunção

de Lydgate era do tipo arrogante, nunca dada a impertinências, nem nun-

ca se desmanchando em sorrisos, mas sólida em suas pretensäes e bene-

volentemente sobranceira. Muito faria pelos tolos, condoendo-se deles, e

sentindo-se bem certo de que não conseguiriam ter poder sobre ele: tinha

pensado em juntar-se aos saint-simonistas, quando esteve em Paris, pen-

sando apenas em voltá-los contra suas próprias doutrinas. Todos os seus

defeitos eram marcados por traços de família, e eram os de um homem

que tinha uma bela voz de barítono, cujas roupas caíam bem e que mes-

mo em seus gestos ordinários tinha um ar de inata distinção. Onde esta-

vam então as manchas de vulgaridade? diz uma jovem dama enamorada

de seu descuidoso encanto. Como poderia haver vulgaridade num homem

tão bem nascido, tão ambicioso de distinção social, tão generoso e incornum

em suas opiniäes sobre o dever social? Tão simplesmente como pode

haver burrice num homem de gênio, se o abordamos, desprevenido, sobre

assunto que não domina, ou como um homem que, como tantos, tem a

MIDDLEMARCH

171

maior boa vontade para apressar o milênio social pode ser mal inspirado

ao imaginar-lhe os mais suaves prazeres; incapaz de ir além da música de

Offéribach, ou dos brilhantes trocadilhos da última burleta. As manchas

de vulgaridade de Lydgate jaziam na complexão dos seus preconceitos,

metade dos quais, a despeito de nobres intençäes e simpatia, eram como

os encontrados nos homens comuns do mundo: aquela distinção de espí-


rito que integrava seu ardor intelectual não lhe embebia porém a sensibi-

lidade e o discemimento sobre o mobiliário, ou as mulheres, ou a conve-

niência de ser sabido (sem que ele mesmo contasse) que era mais bem

nascido que outros cirurgiäes da província. Não pretendia, por ora, pensar

em móveis; mas, quando acaso o fizesse, seria de se temer que nem a

biologia nem seus projetos de reforma conseguissem erguê-lo acima do

sentimento vulgar de que haveria uma incompatibilidade se os seus mó-

veis não fossem dos melhores,

No tocante às mulheres, uma vez ele já fora arrastado, e de ponta-

cabeça, por impetuosa loucura que esperava fosse a última, posto que o

casamento, nalgum período distante, naturalmente não seria impetuo-

so. Para quem queira conhecer Lydgate será bom saber que caso de lou-

cura impetuosa foi este, pois o mesmo pode ficar como exemplo de uma

inconstância na direção das paixäes a que ele estava sujeito, junto com a

cavalheiresca bondade que contribuía para torná-lo moralmente louvá-

vel. A história pode ser contada em poucas palavras. Aconteceu quando

estudava em Paris, e nutria época em que, somando-os às demais tare-

fas, ele se ocupava de uns experimentos galvânicos. Certa vez, cansado

de tantas tentativas e não sendo capaz de obter os dados de que neces-

sitava, ele deixou seus sapos e coelhos repousando um pouco dos testes

e da misteriosa aplicação de inexplicados choques, e foi terminar a noite

no teatro da Porte Saint-Martin, onde se representava um melodrama

que já tinha visto várias vezes; não atraído pelo engenhoso trabalho dos

co-autores da peça, mas por uma atriz cujo papel era esfaquear seu aman-

te, tomando-o erradamente pelo duque de más intençäes. Lydgate esta-

va apaixonado por essa atriz, como um homem se apaixona por uma

mulher à qual jamais espera falar. Era uma Provençale, de olhos negros,

perfil grego, formas roliças e majestosas, tendo esse tipo de beleza que

em plena juventude já traz a doce presença da mulher vivida, e sua voz

era um arrulho suave. Acabara de chegar a Paris e gozava de reputação

virtuosa; o marido contracenava com ela como o amante infeliz. Seu


desempenho é que "não era melhor do que devia ser," mas o público

estava satisfeito. A única distração de Lydgate agora era ir olhar esta

mulher. como se sob a brisa do ameno sul ele se jogasse por um momen-

172

GEORGE ELIOT

to num canteiro de violetas, sem prejuízo do seu galvanismo, ao qual

retornaria em seguida. Mas esta noite o velho drama teve uma nova

catástrofe. No momento em que a heroína deveria fingir o esfaqueamento

do amante, e este cair graciosamente, a mulher na verdade esfaqueou

seu marido, que tombou como mandava a morte. Um grito feroz atra-

vessou a sala e a Provençale desmaiou: um grito e um desmaio eram

pedidos na peça, mas desta vez a perda dos sentidos fora real também.

De um salto Lydgate subiu, e nem bem soube como, para o palco, e foi

ativo na ajuda, passando a conhecer sua heroína ao localizar-lhe uma

contusão na cabeça e erguê-la gentilmente em seus braços." Paris vibrou

com a história desta morte: - foi crime? Alguns dos mais calorosos

admiradores da atriz inclinavam-se a crer em sua culpa e admiravam-na

ainda mais por isto (tal era o gosto da época); mas Lydgate não era um

deles. Empenhou-se veementemente por sua inocência, e a remota pai-

xão impessoal que antes sentira pela sua beleza transformara-se agora

numa devoção pessoal, e em ternos pensamentos por sua sorte. A idéia

de crime era absurda; não havia motivo a descobrir, entendido que o

jovem casal se amava muito; e não era coisa sem precedentes que um

escorregão acidental com o pé pudesse causar tão graves conseqüências.

A investigação legal concluiu pelo livramento de Madame Laure. A essa

altura Lydgate havia tido várias entrevistas com ela, e achado-a cada vez

mais adorável. Ela falava pouco; o que era um charme adicional. Andava

melancólica e parecia estar grata; sua presença já bastava, como a da luz


no entardecer. Lydgate enlouquecia de ansiedade pela sua afeição, com

ciúmes de que algum outro homem a conquistasse e pudesse pedi-la em

casamento. Mas, ao invés de reabrir sua temporada na Porte Saint-Martin,

onde teria sido ainda mais popular pelo fatal episódio, ela deixou Paris

sem nada avisar, abandonando sua pequena corte de admiradores. Nin-

guém talvez a procurou muito longe, a não ser Lydgate, que sentia toda

a ciência entrando em imobilidade quando imaginava a infeliz Laure

golpeada por uma dor sempre emática, e ela mesma em emanças, sem

que encontrasse um fiel consolador. Atrizes ocultas, todavia, não são tão

difíceis de localizar como determinados fatos ocultos, e não se passou

muito tempo antes de Lydgate juntar indicaçäes de que Laure tinha to-

mado a estrada de Lyon. Encontrou-a por fim a representar com grande

sucesso em Avignon sob o mesmo nome, mostrando-se mais majestosa

que nunca como uma mulher abandonada que levava o filho nos braços.

Falou com ela depois da peça, foi recebido com a quietude usual, que

lhe parecia tão bela quanto o fundo da água clara, e obteve permissão

para no dia seguinte ir visitá-la; quando estava inclinado a dizer que a

MIDDLEMARCH

173

adorava e a pedir que ela se casasse com ele. Bem sabia que era como o

brusco impulso de um louco - incongruente até mesmo com suas habi-

tuais fraquezas. Não importava! Era a coisa que estava resolvido a fazer.

Ele aparentemente tinha em seu íntimo dois seres, os quais deviam apren-

der a se ajustar um ao outro e a suportar suas dificuldades recíprocas. 

estranho como alguns de nós, com visão rápida e alternada, vemos além

de nossas impressäes de paixão e, mesmo em pleno delírio nas alturas,

divisamos a planície aberta onde o ser persistente nos espera parado.

Abordar Laure com uma proposta que não fosse de terna reverência
teria sido simplesmente uma contradição com todos os sentimentos que

nutria por ela.

"Pois então veio desde Paris para encontrar-me?" disse-lhe ela no

dia seguinte, sentada diante dele com os braços cruzados, e olhando

para ele com olhos que pareciam espantar-se tanto como se espanta

ruminando um animal não domado. "Todos os ingleses são assim?"

"Vim porque não podia viver sem tentar vê-la. Você está só; amo-a;

quero que consinta em ser minha esposa: hei de esperar, mas quero que

prometa que vai casar-se comigo - e não com outro."

Laure olhou-o em silêncio, com uma radiância melancólica a lhe

emergir das grandes pálpebras, até ele se encher de uma arrebatada cer-

teza, e ajoelhar-se perto dos joelhos dela.

"Vou-lhe dizer uma coisa," disse ela ao seu jeito de arrulhos, man-

tendo os braços cruzados. "Meu pé realmente escorregou."

"Eu sei, eu sei," disse Lydgate, como se protestasse. "Foi um aci-

dente fatal - um golpe terrível, uma calamidade que me ligou ainda

mais a você."

Laure fez uma pausa e disse então bem devagar: "Eufiz depropósito."

Lydgate, homem forte como era, ficou pálido e trêmulo: momentos pa-

receram transcorrer antes de ele se levantar e parar a uma distância dela.

"Havia então um segredo," disse por fim, não sem veemência. "Ele

era bruto com você: e você o odiava."

"Não! ele me cansava; era apaixonado demais: queria viver em Paris

e não na minha terra; o que a mim não agradava."

"Oh, Senhor Deus!" disse Lydgate num gemido de horror. "E você

planejou assassiná-lo?"

"Não planejei: me veio assim, na peça - eu fiz de propósito."

Lydgate quedou mudo e, enquanto olhava para ela, foi inconsciente-

mente enfiando seu chapéu na cabeça. Via aquela mulher - a primeira a

quem consagrara sua adoração juvenil - em meio a turbas de crimino-

sos broncos.
174

GEORGE ELIOT

"Você é um bom rapaz," disse ela, "mas eu não gosto de maridos.

Nunca mais quero outro."

Três dias depois Lydgate já estava de volta ao galvanismo na sua

residência em Paris, acreditando que para ele as ilusäes tinham-se aca-

bado. Foi salvo de efeitos que o endurecessem pela excessiva bondade

de seu coração e a crença de que tornar a vida humana melhor era possí-

vel. Mas tinha mais razão do que nunca para confiar em seu discernimento,

já tão marcado pela experiência agora; passaria portanto a considerar a

mulher de um ponto de vista estritamente científico, não alimentando

expectativas a não ser aquelas que, de antemão, se justificassem.

E bem provável que ninguém em Middemarch tivesse uma idéia do

passado de Lydgate tal como aqui rapidamente esboçado; os respeitá-

veis moradores locais, com efeito, não se davam mais do que os mortais

em geral a tentativas ciosas de exatidão na representação mental de algo

que não entrasse diretamente em contato com seus sentidos. Não só as

jovens virgens da cidade, como também homens de barba grisalha, pre-

cipitavam-se não raro em conjecturas para saber como um novo conhe-

cido poderia ser envolvido em seus planos, contentes com um conheci-

mento muito vago do modo pelo qual a vida o estivera até então forjan-

do para esta instrumentalidade. Middemarch, de fato, contava com en-

golir Lydgate e assimilá-lo da maneira mais cômoda.

CAPÍTULO XVI

"All that in wornan is adored


In thy fair self 1 find -

For the whole sex can but afford

The handsome and the kind."

- SIR CHARLES SEDLEY

("Tudo na mulher a adorar

Em ti, tão pura, admito -

Pois o teu sexo só pode dar

O que é bom e bonito.")

- SIR CHARLES SEDLEY.)

A QUESTÇO DE SABER se Mr. Tyke deveria ser nomeado capelão do hospi-

tal, fazendo jus a um salário, era um tópico excitante para os moradores

de Middemarch; e Lydgate ouviu-o discutido de um modo que lançou

muita luz sobre o poder exercido na cidade por Mr. BuIstrode. O ban-

queiro sem dúvida era um mandatário, mas havia um partido de oposi-

ção e, mesmo dentre os que o apoiavam, alguns permitiam ver que seu

apoio era um compromisso, e expunham francamente sua impressão de

que o estado geral das coisas, e em particular as flutuaçäes do comércio,

tornavam obrigatório acender velas ao diabo.

O poder de Mr. BuIstrode não provinha somente da sua condição de

banqueiro na cidade, que sabia dos segredos financeiros da maioria dos

negociantes locais e estava em contacto com suas fontes de crédito; flor-

talecia-se tal poder graças à sua beneficência, que a um só tempo era

Vo poema "Not, Celia, that 1 juster am" (1672).

176
GEORGE ELIOT

apressada e severa - apressada para atribuir obrigaçäes, severa para

conferir resultados. Como homem industrioso sempre em seu posto, ele

fora guindado a um papel de relevo na administração das obras de cari-

dade pública, e suas caridades privadas eram tão minuciosas quanto

abundantes. Dar-se-ia a grandes sofrimentos em relação à aprendiza-

gem de Tegg, o filho do sapateiro, e não deixaria de fiscalizar sua ida à

igreja; ou defenderia Mrs. Strype, a lavadeira, contra uma injusta recla-

mação de Stubb sobre o lugar onde ela estendia roupa, e até iria esmiu-

çar em pessoa uma calúnia contra Mrs. Strype. Seus pequenos emprésti-

mos confidenciais eram numerosos mas sujeitos, tanto antes quanto

depois, a uma estrita indagação das circunstâncias. Um homem passa a

ter deste modo, além de certo domínio sobre a esperança e o medo dos

vizinhos, sua gratidão; e o poder se propaga, desde que atingida essa

região sutil, expandindo-se em total desproporção com seus meios ex-

ternos. Era um princípio de Mr. BuIstrode conquistar tanto poder quan-

to possível, para que ele pudesse usá-lo para a glória de Deus. Passava

por grandes conflitos espirituais e debatia muito em seu íntimo a fim de

determinar seus motivos e deixar para si mesmo bem claro o que a glória

de Deus queria. Mas seus motivos, como vimos, nem sempre eram de-

vidamente apreciados. Havia em Middemarch muitas dessas mentes

grosseiras cujas balanças reflexivas só podem pesar por atacado as coi-

sas; e que tinham forte suspeita, sendo Mr. BuIstrode incapaz de gozar a

vida à mesma moda que elas, por comer e beber assim tão pouco, sem-

pre se molestando com tudo, de que ele devia dar-se a uma espécie de

festim de vampiro com aquela idéia de dominação.

A indicação do capelão foi um assunto discutido à mesa de Mr. Vincy

quando Lydgate estava jantando lá, e os vínculos da família com Mr.

BuIstrode não impediram certa liberdade ao falar, como ele pôde perce-

ber, até mesmo por parte do dono da casa, cujas razäes contra a solução
proposta giravam exclusivamente em torno de sua objeção aos sermäes

de Mr. Tyke, que eram pura doutrina, e sua preferência pelos de Mr.

Farebrother, que estavam livres de tal vício. Agradava bastante a Mr.

Vincy a idéia de o capelão ter um salário, supondo-se que o atribuíssem

a Farebrother, que era um homem bonzinho como poucos havia e o

maior pregador daquelas bandas, além de bom companheiro.

"Mas então que posição você vai assumir?" disse Mr. Chichely, o

perito legista, grande companheiro de caça de Mr. Vincy.

"Oh, ainda bem que eu não sou mais Diretor! Vou votar para que o

assunto seja submetido à Diretoria e ao Conselho Médico. Deixarei par-

te de minha responsabilidade sobre os seus ombros, Doutor," disse Mr.

MIDDLEMARCH

177

Vincy, olhando primeiro para o Dr. Sprague, o mais antigo facultativo da

cidade, e depois para Lydgate, que se sentava do outro lado. "Os senho-

res médicos é que terão de consultar-se sobre o remédio amargoso que

hão de prescrever, não é, Mr. Lydgate?"

"Pouco conheço de um ou outro," disse Lydgate; "mas as nomea-

çäes, de modo geral, costumam muito ser feitas por uma questão de

gosto pessoal. O homem mais indicado para um cargo nem sempre é

uma boa pessoa ou uma companhia agradável. ·s vezes, para se impor

uma reforma, constata-se que o único jeito seria aposentar as boas pes-

soas de quem não há quem não goste, e deixá-las fora de questão."

O Dr. Sprague, que era considerado o médico de mais "peso," se

bem geralmente se dissesse que o Dr. Minchin tinha mais "penetração,"

despiu de toda expressão seu rosto grande, pesado, e olhou para o seu
copo de vinho enquanto Lydgate falava. Algo mais, além do que havia

de problemático e suspeito neste rapaz - por exemplo, um certo

exibicionismo quanto a idéias estrangeiras, e a intenção de discordar do

que já fora acordado e consagrado pelos mais velhos, - era positiva-

mente mal recebido por um médico cuja reputação se firmara trinta anos

antes com um tratado sobre Meningite, um exemplar do qual ao menos,

marcado "próprio," subsistia encadernado em couro. De minha parte,

tenho certa simpatia pelo Dr. Sprague: a satisfação consigo mesmo é um

bem de espécie não taxada que não e nada agradável ver depreciado.

A observação de Lydgate, contudo, não se harmonizou com a idéia

do grupo. Mr. Vincy disse que, se pudesse resolver à sua maneira, não

colocaria sujeitos desagradáveis em lugar nenhum.

"· breca com essas suas reformas!" disse Mr. Chichely. "Não há maior

embuste no mundo. Se ouvir falar de uma reforma, pode contar que há

uma manobra para encaixar outros homens. Espero que o senhor não

seja um dos adeptos do "Lancet,"1 Mr. Lydgate - querendo tirar das

mãos dos advogados o cargo de perito legista: suas palavras parecem

apontar neste sentido."

"Discordo de Wakley," interpôs o Dr. Sprague, "e de ninguém mais:

é um camarada mal intencionado, capaz de sacrificar a própria respeita-

bilidade da profissão, que como todos sabem depende das Faculdades

de Londres, só para obter alguma notoriedade. Há homens que não se

importam de entrar na lista negra, desde que se tornem falados. Mas

Wakley está certo às vezes," acrescentou judicioso o Doutor. "Eu pode-

Tamoso periódico de medicina, fundado por Thomas Wakley em Londres em 1823 e

muito

lido por George Eliot como fonte para o preparo destes capítulos.

178
GEORGE ELIOT

ria mencionar um ou dois pontos nos quais Wakley está com toda a

razão."

"Oh, está bem" disse Mr. Chichely, "não acuso ninguém por querer

defender seus interesses; mas, voltando à questão, eu gostaria de saber

como um perito legista há de julgar os depoimentos, se não tiver recebi-

do formação jurídica."

"Em minha opinião," disse Lydgate, "a formação jurídica apenas

torna

um homem mais incompetente em questäes que requerem conhecimento

de outro tipo. As pessoas falam de depoimentos como se essas " coisas real-

mente pudessem ser pesadas na balança por uma justiça cega. Não há ho-

mem capaz de julgar o que seja um bom depoimento sobre qualquer assun-

to específico, a não ser que conheça a fundo este assunto. Um advogado

não é nada melhor do que uma velha senhora para um exame post-mortem.

Como pode ele saber a ação de um veneno? Seria o mesmo que dizer que

contando versos alguém há de aprender a contar sacos de batatas."

"O senhor está ciente, suponho, de que a tarefa do perito legista não

é realizar o Post-mortem, mas apenas tomar o depoimento da testemunha

médica," disse Mr. Chichely, com algum desprezo.

"A qual muitas vezes é quase tão ignorante quanto o próprio legista,"

disse Lydgate. "As questäes de jurisprudência médica não deveriam ficar

submetidas à hipótese de existir numa testemunha médica algum co-

nhecimento, nem o perito legista deveria ser homem capaz de acreditar

que a estricnina destrói as túnicas do estômago, se um médico ignoran-

te, por acaso, lho dissesse."

Lydgate de fato perdera toda lembrança de que Mr. Chichely era

perito legista de Sua Majestade, e inocentemente terminou com a per-

gunta: "Não concorda comigo, Dr. Sprague?"

"Até certo ponto - no que concerne aos distritos populosos, e na


metrópole," disse o Doutor. "Mas espero que tão cedo esta região não

venha a perder os serviços do meu amigo Chichely, ainda que possa ter

o melhor homem de nossa profissão para sucedê-lo. Estou certo de que

oVincy há de concordar comigo."

"Sem dúvida, para mim o bom legista é o que é perito na caça,"

disse Mr. Vincy, jovialmente. "E com um advogado, na minha opinião,

sempre se fica mais seguro. Ninguém pode saber tudo. E quase tudo é

uma"visitação de Deus." Quanto aos envenenamentos, ora essa, o que é

preciso é que se conheça a lei. Mas, venham cá, que tal se nos fôssemos

juntar às damas?"

A opinião pessoal de Lydgate era que Mr. Chichely poderia muito

bem ser o perito legista a quem as túnicas do estômago não diziam

MIDDLEMARCH

179

nada, mas sua intenção não fora ser pessoal. Esta era uma das dificulda-

des do trânsito na boa sociedade de Middemarch: era um perigo insistir

no conhecimento como qualificação para qualquer cargo assalariado. Fred

Vincy havia chamado Lydgate de pedante, e agora Mr. Chichely já se

inclinava a chamá-lo de orelhudo; especialmente quando, na sala de vi-

sitas, tudo deu a entender que ele se desmanchava em amabilidades

com Rosamond, a quem monopolizara facilmente num tête-à-tête, uma

vez que a própria Mrs. Vincy presidia a mesa de chá. Nunca ela renuncia-

va a uma função doméstica para atribuí-la à filha; e o rosto desta mãe de

família, bondoso e viçoso, com seus cordäes cor de rosa flutuando muito

voláteis de um bonito pescoço, e a maneira alegre como ela tratava o

marido e os filhos, encontrava-se sem dúvida entre as grandes atraçäes

da casa dos Vincys - atraçäes que tornavam fundamentalmente mais

fácil se apaixonar pela filha. Uma nota de vulgaridade despretensiosa e


inofensiva em Mrs. Vincy fazia sobressair ainda mais o refinamento de

Rosamond, que estava além do que Lydgate havia esperado.

Pés pequenos e ombros bem torneados contribuem decerto para a

impressão de requinte nas maneiras, e a coisa certa que é dita torna-se

admiravelmente certa quando a acompanham curvas primorosas feitas

nos lábios e pálpebras. Rosamond podia dizer a coisa certa; pois era

inteligente, desse tipo de inteligência que, excetuado o humorístico, capta

todos os tons. Felizmente nunca tentava fazer graça, e esta era talvez a

marca mais decisiva de sua inteligência.

A conversa entre ela e Lydgate fluiu logo. Lamentou este que a não

tivesse ouvido cantar no outro dia em Stone Court. Ir ouvir música era

o único prazer que ele se permitia durante a última parte de sua estada

em Paris.

"Provavelmente estudou música?" disse Rosamond.

"Não, conheço as notas de muitos pássaros, e sei de ouvido muitas

melodias; mas a música que ignoro de todo de que não tenho a menor

noção, me delicia - comove-me. Grande tolice é a sociedade não fazer

uso mais freqüente de um tal prazer a seu alcance!"

"Pois é, e Middemarch há de lhe parecer muito desafinada. Não há

bons músicos por aqui. Conheço apenas dois senhores que cantam ra-

zoavelmente."

"Suponho que a moda seja cantar cançäes humorísticas de um modo

rítmico, deixando-nos imaginar a melodia - mais ou menos como se

ela fosse batida num tambor?"

"Ah, o senhor ouviu Mr. Bowyer," disse Rosamond, com um de seus

raros sorrisos. "Mas nós estamos falando muito mal dos vizinhos."

180

GEORGE ELIOT
Já quase Lydgate se esquecia de que era preciso sustentar a conver-

sa, pensando quão adorável era a criatura ela mesma, dir-se-ia que ves-

tida do mais pálido azul celestial, e tão imaculadamente loura como se

as pétalas de alguma flor gigantesca a tivessem revelado, mal acabando

de abrir-se; e que no entanto demonstrava, com esta lourice pueril, um

encanto maduro de quem era senhora de si. Desde que vivera sua me-

mória de Laure, Lydgate tinha perdido totalmente a atração pelo silên-

cio dos olhos muito grandes: não mais o atraía a vaca divina, tipo do

qual Rosamond era o perfeito contrário. Ele porém chamou-se às falas:

"Espero que ainda me faça ouvir alguma coisa esta noite."

"Far-lhe-ei ouvir, se para tanto tiver gosto, minhas tentativas," disse

Rosamond. "Papai certamente há de insistir para que eu cante. Mas ficarei

trêmula diante do senhor, que já ouviu em Paris mestres da voz. Eu mes-

ma ouvi pouca coisa: só estive uma vez em Londres. Mas o organista da

nossa igreja de St. Peter é um bom músico, e continuo a estudar com ele."

"Diga-me o que viu em Londres."

"Muito pouco." (Uma garota mais ingênua teria dito: "Oh, tudo!"

Mas Rosamond era esperta.) "Algumas dessas coisas muito comuns, a

que as moças provincianas incultas sempre são levadas."

"Você se acha uma moça provinciana inculta?" disse Lydgate, olhan-

do-a com involuntária ênfase na admiração, o que fez Rosamond

enrubescer de prazer. Ela porém se manteve séria, simplesmente virou

um pouco o pescoço e ergueu a mão para tocar nas suas tranças fantás-

ticas - gesto que lhe era tão habitual e gracioso como qualquer movi-

mento de uma gatinha com a pata. Não que Rosamond fosse uma gata;

não: era um sílfide pegada jovem e instruída na escola de Mrs. Lemon.

"Garanto-lhe que minha mente é inculta," disse ela imediatamente.

"Aqui em Middemarch ainda passo. Não temo conversar com nossos

velhos vizinhos. Mas o senhor realmente me dá medo."

"Uma mulher completa quase sempre sabe mais do que os homens,

embora o conhecimento dela seja diferente na espécie. A senhorita, es-


tou certo, teria mil coisas a ensinar-me - como uma ave rara teria o que

ensinar a um urso, se houvesse entre eles uma língua em comum. Feliz-

mente, há uma língua em comum entre mulheres e homens, e assim os

ursos podem ser ensinados."

"Ah, Fred já começou a martelar no piano! Tenho de ir até lá impedi-

lo, se não vai-lhe fazer mal aos nervos," disse Rosamond e moveu-se

para o outro lado da sala, onde Fred, tendo aberto o piano a pedido do

pai, para que Rosamond lhes apresentasse um pouco de música, ia

entrementes tocando "Cereja MaduraV" a uma só mão. Homens capa-

MIDDLEMARCH

181

zes, desses que passam nos exames, às vezes fazem tais coisas, não meno

que o reprovado Fred.

"Por favor, Fred, adie para amanhã seu exercício; você vai deixar M

Lydgate doente," disse Rosamond. "Ele é bom de ouvido."

Fred riu e prosseguiu até o fim com sua música.

Rosamond virou-se para Lydgate, sorrindo gentilmente, e disse

"Como vê, nem sempre os ursos querem ser ensinados."

"Agora sim, Rosy!" disse Fred, que pulou fora do banco e girou-o

para ficar mais alto para ela, em calorosa expectativa de fruição. "Primei

ro umas coisas que animem bem."

Rosamond tocou admiravelmente. Seu professor na escola de Mrs

Lemon (próxima à pequena cidade de memorável história que tinha

sua igreja e castelo para guardar as relíquias) era um desses músicos

excelentes que aqui e ali se encontram pelas nossas províncias, dignos

de comparação com muitos mestres de capela de um país que oferece à

celebridade musical condiçäes mais férteis. Rosamond, com o instinto

do executante, pegara-lhe a maneira de tocar e reproduzia com a preci-


são de um eco sua vigorosa interpretação da música nobre. Era quase

de assustar, ouvido pela primeira vez. Uma alma oculta parecia emanar

dos dedos de Rosamond; e assim o era de fato, já que vivem as almas

em perpétuos ecos, e a toda bela expressão corresponde nalgum ponto

outra atividade geradora, mesmo que seja esta a de um intérprete ape-

nas. Lydgate, totalmente tomado, começou por sua vez a tomá-la por

algo muito incomum. Afinal de contas, pensava, não há por que sur-

preender-se quando se encontram raras conjunçäes de natureza sob

circunstâncias aparentemente desfavoráveis: onde quer que elas ocor-

ram, sempre dependem de condiçäes que nunca estão evidentes. A

olhar para ela, ficara pois ali sentado, e nem sequer se levantou para

lhe fazer elogios: deixou a tarefa para outros, agora que sua admiração

se aprofundara de todo.

No canto, ela era menos exímia, mas igualmente bem treinada e

doce de ouvir como um repique de sinos quando em harmonia perfeita.

 bem verdade que cantou "Encontre-me ao Luar" e "Andei Vagando

por Aí;" pois os mortais têm de partilhar modas de sua época, e nin-

guém, a não ser os próprios antigos, pode o tempo todo ser clássico.

Mas Rosamond poderia cantar "Susan de Olhos Negros," sem fazer feio,

ou ainda as cançonetas de Haydn, ou "Voi, che sapete," ou "Batti, batti"

bastava-lhe somente saber o que a audiência queria.

Seu pai, deliciando-se com a admiração dos presentes, corria os

olhos pela sala. A mãe, sentada com a filha mais nova no colo, como

182

GEORGE ELIOT

uma Níobe antes de seus padecimentos, ia batendo com as mãozin as

da criança de leve, ao compasso da música. Fred, não obstante seu

ceticismo generalizado em relação a Rosy, ouviu o recital a lhe render


vassalagem, e desejoso de fazer, com sua flauta, algo igual. Foi a mais

agradável reunião de família a que Lydgate havia assistido desde sua

chegada a Middemarch. Eram inerentes aos Vincys a disponibilidade

para o prazer, a rejeição de toda ansiedade e a crença na vida como um

quinhão feliz, que tornavam excepeional uma casa na maioria das cida-

dezinhas interioranas da época, quando o evangelismo já lançara certa

suspeita, como grassam as suspeitas de epidemia, sobre as poucas di-

versäes a sobreviver nas províncias. Na casa dos Vincys sempre havia

uíste, e ainda agora as mesas de jogo estavam postas, fazendo com que

alguns dos presentes, em segredo, sentissem-se impacientes com a

música. Antes que esta terminasse, chegou Mr. Farebrother - homem

bonito, de peito largo, se bem que de pequena estatura, e com seus

quarenta anos, cujo hábito negro estava muito surrado: todo seu bri-

lho procedia dos olhos, cinzentos e cheios de vivacidade. E ele chegou

como há na luz uma mudança agradável, interceptando com patemais

graçolas a pequenina Louisa, quando Miss Morgan já ia a retirá-la da

sala, saudando a todos com uma palavra para cada um e parecendo

condensar mais conversa, em apenas dez minutos, do que toda a já

mantida no transcurso da noite. De Lydgate, cobrou o cumprimento da

promessa de ir visitá-lo algum dia. "Não posso desobrigá-lo, sabe, por-

que tenho uns besouros a lhe mostrar. Nós, os colecionadores,

interessarrio-nos por todo novo conhecido até que ele tenha visto tudo

o que temos a lhe mostrar."

Mas sem demora ele se dirigiu à mesa de uíste, esfregando as mãos

e dizendo: "Bem, vamos então passar ao sério! Mr. Lydgate? não joga?

Ah, o senhor ainda é muito jovem e ágil para esse tipo de coisa."

Lydgate disse a si mesmo que neste ambiente decerto não muito

culto o clérigo cuja capacidade causava tanta aflição a Mr. BuIstrode pa-

recia ter encontrado um lugar que era compatível com ele. E em parte

entendia isto: o bom humor, a boa aparência dos idosos e jovens, as mil

maneiras de passar o tempo sem nenhuma aplicação da inteligência po-


deriam tornar a casa atraente para pessoas que não tinham uso específi-

co a dar às horas de ócio.

Tudo ali parecia alegre e viçoso, exceto Miss Morgan, que era more-

na, insípida, resignada e, no todo, como dizia muitas vezes Mrs. Vincy, o

tipo de pessoa para ser governanta. Lydgate não tencionava fazer muitas

visitas assim. Eram um modo deplorável de desperdiçar suas noites; e

MIDDLEMARCH

183

agora, quando já havia conversado um pouco mais com Rosamond, ten-

cionava desculpar-se e partir.

"Não gostará de nós em Middemarch, estou certa;" disse ela, tão

logo instalados os jogadores de uíste. "Somos muito ignorantes, e o

senhor se acostumou a coisas bem diferentes."

"Tomo as cidades de província, todas elas, por muito parecidas,"

disse Lydgate. "Mas já notei que cada qual sempre acha que não existe

cidade mais ignorante que a sua. Quanto a mim, decidi aceitar Midde-

march como ela é, e muito grato hei de estar se a cidade aceitar-me do

mesmo modo. Aqui sem dúvida já encontrei alguns encantos que são

muito maiores do que eu havia previsto."

"Refere-se às cavalgadas até Tipton e Lowick, das quais todos gos-

tam tanto?" disse Rosamond com simplicidade.

"Não, refiro-me a algo que está muito mais perto de mim."

Rosamond levantou-se, alcançou um trabalho de agulha e disse:

"Dançar por acaso lhe desperta algum interesse? Não sei ao certo se os

homens inteligentes costumam dançar de vez em quando."

"Eu dançaria com a senhorita, se me desse a honra."

"Oh!" disse Rosamond, como que se desculpando com um ligeiro

sorriso. "Eu ia apenas dizer que às vezes organizamos uns bailes e que-
ria saber se se sentiria ofendido, caso fosse convidado a um deles."

Não com a condição que mencionei."

Após a boa conversa, Lydgate resolveu ir embora, mas passando pelas

mesas de uíste interessou-se por observar o jogo de Mr. Farebrother,

que era o de um ás, e também seu rosto, que era uma mistura chocante

de mansidão e astúcia. ·s dez horas o jantar foi servido (tais eram os

hábitos em Middemarch), e bebeu-se ponche; Mr. Farebrother no en-

tanto quis um copo d"água somente. Ele estava ganhando, mas nada

levava a crer que a retomada de partidas completas fosse terminar, e

Lydgate por fim fez suas despedidas.

Não tendo ainda dado as onze, preferiu ir a pé no vento fresco em

direção à torre de St. Botolph, a igreja de Mr. Farebrother, que à luz das

estrelas assomava escura, quadrada e sólida. Era a mais antiga igreja de

Middemarch; mas o benefício eclesiástico a que seu pastor fazia jus

resumia-me a quatrocentas libras por ano. Era o que Lydgate tinha ouvi-

do dizer, perguntando-se ele agora se o dinheiro ganho nas cartas não

teria importância para Mr. Farebrother; pensava: "Ele parece uma pes-

soa muito agradável, mas BuIstrode pode ter lá suas razäes." Muitas

coisas ficariam mais fáceis para Lydgate se Mr. BuIstrode lhe acabasse

por parecer justificável de maneira mais ampla. "Que me importa sua

184

GEORGE Ei,,iOT

doutrina religiosa, se ele a faz acompanhar de algumas boas idéias? 

com as cabeças que existem que a gente deve contar."

Tais foram na realidade as primeiras meditaçäes de Lydgate ao andar

distanciando-se da casa de Mr. Vincy, e temo eu que algumas damas,

com base nisto, custem a considerá-lo doravante digno de sua atenção.

Só em segundo lugar ele pensou em Rosamond e sua música; e embora,


quando chegou a vez dela, tenha-lhe retido a imagem pelo restante da

andança, não sentiu a menor agitação, não teve impressão concreta de

que houvesse irrompido em sua vida alguma nova corrente. Por ora ele

não podia casar-se; por muitos anos não queria casar-se; não estava por

conseguinte em condiçäes de alimentar idéias de paixão por uma jovem

que admirou por acaso. Era enorme a admiração que sentia por

Rosamond; mas aquela loucura que por causa de Laure se apossara dele,

tempos atrás, não deveria voltar a ocorrer a seu ver em relação a nenhu-

ma outra mulher. Decerto, se o caso fosse apaixonar-se, seria garantido

fazê-lo por uma criatura assim como Miss Vincy, que possuía justamente

aquele tipo de inteligência desejável numa mulher - polida, refinada,

dócil, tendente à perfeição mais completa em todas as delicadezas da

vida e abrigada num corpo que exprimia isto com uma força de demons-

tração que excluía a necessidade de outras evidências. Lydgate estava

certo de que, se jamais se casasse, sua esposa teria esse fulgor de mu-

lher, essa feminilidade distintiva que deve ser classificada com as flores e

a música, essa espécie de beleza que por sua própria natureza era virtuosa,

sendo moldada apenas para alegrias delicadas e puras.

Mas - como ele não pretendia casar-se nos próximos cinco anos

- sua obrigação mais premente era dar uma olhada no novo livro de

Louis sobre Febre," no qual estava especialmente interessado, porque

ele havia conhecido Louis em Paris, e assistido a muitas demonstra-

çäes anatämicas que visavam definir as diferenças específicas entre o

tifo e a febre tifóide. Foi para casa e leu até o raiar da aurora, abordan-

do este estudo patológico com uma visão de análise das relaçäes e

detalhes bem mais profunda do que jamais ele julgara necessário apli-

car às complexidades do casamento e do amor, temas sobre os quais se

sentia amplamente informado pela literatura e por essa sabedoria tra-

dicional que se transmite nas conversas cordiais entre os homens. já a

febre tinha conotaçäes mais obscuras e o incitava a esse prazeroso tra-

balho da imaginação que não é mera arbitrariedade, mas sim o exercí-


cio de uma força disciplinada - combinar e construir com a mais clara

lRecherches sur Ia FiŠvre Typhoide (1828), do médico francês Pierre Charles

Louis.

MIDDLEMARCH

185

atenção às probabilidades e a obediência mais completa ao conheci-

mento; e depois, em aliança ainda mais vigorosa com a imparcial Na-

tureza, manter-se de parte na invenção de testes pelos quais pôr à

prova o trabalho feito.

Muitos homens têm sido louvados como altamente imaginativos

com base em sua prodigalidade em desenhos mediocres ou narraçoes

ordinárias: - rumores de conversas paupérrimas mantidas em órbitas

distantes; ou retratos de Lúcifer baixando às suas torpes emâncias como

um homenzarrão horroroso com asas de morcego e esguichos de

fósforência; ou exageros de licenciosidade que parecem refletir a vida

num sonho enfermo. Mas estes tipos de inspiração, Lydgate os consi-

derava antes vinolentos e vulgares, comparados com a imaginação que

revela açäes sutis inacessíveis a qualquer espécie de lente, mas

rastreadas na escuridão lá fora através de longos caminhos de impres -

cindível seqüência por essa luz interior que é o refinamento terminal

da Energia, capaz de banhar até etéreos átomos em seu espaço ideal-

mente iluminado. De sua parte ele havia rejeitado todas as invençäes

ordinárias onde a ignorância age e se compraz à vontade: apaixonava-

o, esta sim, a própria árdua invenção que é o modo de ver que a pesquisa

emprega, enquadrando provisoriamente seu objeto e corrigindo-o por

uma exatidão de relaçäes cada vez maior; queria penetrar na obscuri-

dade desses diminutos processos que preparam a dor e a alegria huma-

nas, dessas vias de comunicação invisíveis que a angústia, a mania e o


crime tomam como seus primeiros esconderijos, desse equilíbrio e tran-

sição delicados que determinam o crescimento da consciência feliz ou

infeliz.

Ao largar seu livro, esticar as pernas para as brasas do fogo e cruzar

as mãos na nuca, nesse gostoso crepúsculo da excitação quando do exa-

me de um objeto específico o pensamento deriva para um sentimento

difuso de suas conexäes com todo o resto da existência - parece pôr-se

de costas após um nado exaustivo, por assim dizer, para boiar no repou-

so de uma força intacta, - Lydgate sentiu um triunfante deleite em seus

estudos, e algo assim como pena dos homens de menor sorte que não

pertenciam à sua profissão.

"Se eu não tives se tornado este destino quando ainda era garoto,"

pensava ele, "talvez fosse acabar puxando um cavalo, ou noutro traba-

lho bem reles, e vivendo sempre de antolhos. Nunca me sentiria feliz

numa profissão que não exigisse o máximo de esforço intelectual, man-

tendo-me entretanto em caloroso contacto com meus vizinhos. Não há

nada para isto como a medicina: pode-se ter a vida científica exclusiva

186

GEORGE ELIOT

que se reporta à distância e também prestar ajuda aos fósseis humanos

da paróquia. O que, para um clérigo, é talvez mais difícil: Farebrother

parece ser uma anomalia."

Este último pensamento trouxe de volta os Vincys e todas as ima-

gens da noite. Imagens que lhe flutuavam na mente de modo bem agra-

dável e, enquanto ele apanhava a vela de cabeceira, seus lábios desenha-

ram um incipiente sorriso, desses que costumam acompanhar as boas

lembranças. Era um homem ardoroso, mas no momento seu ardor se

absorvia no amor por seu trabalho e na ambição de tornar sua vida reco-
nhecida como um fator de progresso para a vida de toda a humanidade

- tal como outros heróis da ciência, que tinham começado do nada a

não ser sua obscura prática numa província qualquer.

Pobre Lydgate! ou talvez deva eu dizer: Pobre Rosamond! Vivia

cada um no seu mundo, do qual nada sabia o outro. Não havia ocorri-

do a Lydgate ser ele o tema de ardentes meditaçäes de Rosamond, que

nem dispunha de razäes para encarar seu casamento tão-só como pers-

pectiva remota, nem de estudos patológicos que lhe desviassem a mente

desse hábito ruminativo, dessa repetição para dentro de palavras, fra-

ses e olhares que são parte ponderável na vida de quase todas as mo-

ças. Ele não tinha pretendido olhar para ela, nem falar-lhe, com mais

que a dose inevitável de admiração e atenção que um homem há de

conceder a uma menina bonita; parecia-lhe de fato que sua fruição da

música dela tinha passado quase em silêncio, pois temera incorrer em

grosseria se expressasse grande surpresa por vê-la possuindo tais dons.

Rosarriond porém havia registrado cada olhar e palavra, e estimava-os

como incidentes de abertura de um romance preconcebido - inciden-

tes que extraem seu valor da própria antevisão do desenvolvimento e

do clímax. No romance de Rosamond não era necessário imaginar muita

coisa sobre a vida interior do herói, nem de seus graves afazeres no

mundo: sem dúvida ele tinha uma profissão e era inteligente, bem como

suficientemente bonito; mas o fato instigante sobre Lydgate era seu

bom nascimento, que o distinguia de todos os admiradores de

Middiemarch e apresentava-lhe o casamento como uma perspectiva de

ascender na sociedade e chegar um pouco mais perto desse estado

celestial em que ela não teria de relacionar-se com pessoas vulgares,

associando-se por fim talvez a parentes no mesmo nível dos aristocra-

tas rurais que olhavam de cima os habitantes de Middemarch. Era

parte da perspicácia de Rosamond distinguir de modo muito sutil o

mais fraco aroma de classe, e certa vez, vendo as sobrinhas de Mr.


Brooke a acompanhar seu tio na sessão do tribunal no condado, e sen-

MIDDLEMARCH

187

tadas entre a aristocracia, ela as tinha invejado, apesar da simplicidade

com que estavam vestidas.

Se você julga inverossímil que só pensar em Lydgate como um afor-

tunado de berço já pudesse causar tremores de satisfação relacionados

de algum modo à impressão de que ela estava apaixonada por ele,

pedir-lhe-ei que use com um pouco mais de rigor seu poder de compa-

ração e considere se dragonas e uniformes vermelhos não hão de ter

tido alguma vez influência análoga. Nossas paixäes não vivem em com-

partimentos estanques, mas, vestidas por seus modestos guarda-rou-

pas de idéias, trazem suas provisäes para uma mesa comum e comem

juntas em desordem, alimentando-se da reserva comum segundo seu

respectivo apetite.

Rosamond, de fato, estava absorvida de todo, não propriamente

com Tertius Lydgate como ele era em si mesmo, mas em sua relação

para com ela; e era perdoável, numa garota acostumada a ouvir que

todos os rapazes podiam, queriam, iriam apaixonar-se por ela, ou na

realidade já a estavam amando, acreditar de imediato que Lydgate não

seria exceção. Seus olhares e palavras significavam mais para ela que

os de outros homens, porque ela lhes dava mais atenção: neles pensa-

va diligentemente, como diligentemente dedicava-se àquela perfeição

de aparência, conduta, sentimentos e todas as demais elegâncias que

encontrariam em Lydgate um admirador mais adequado que qualquer

outro de que já estivera ciente.

Pois Rosamond, embora jamais fizesse qualquer coisa que achasse

desagradável, era industriosa; e agora mais do que nunca mantinha-se


ativa desenhando suas paisagens e carroças do mercado e retratos de

amigos, praticando sua música e da manhã à noite sendo ela mesma seu

próprio padrão de perfeita dama, tendo sempre na própria consciência

um público, com o acréscimo eventual e não indesejado de um público

externo mais variável nos numerosos freqüentadores da casa. E ela ain-

da encontrava tempo para ler os bons romances, e até mesmo os que

não eram tão bons, e sabia de cor muitos poemas. Seu favorito era "Lalla

Rookh."I

"A melhor garota do mundo! Feliz será o homem que a tiver!" era o

sentimento dos cavalheiros mais velhos que visitavam os Vincys; e os

jovens rejeitados pensavam em tentar outra vez, como é a moda nas

pequenas cidades onde o horizonte não se adensa com rivais à vista.

Mrs. Plymdale porém achava que a educação de Rosamond fora levada a

Toema de Thomas Moore, publicado em 1817 e muito popular na época da ação do

romance.

188

GEORGE ELIOT

extremos de ridículo, pois de que serviriam tantos dons que seriam pos-

tos de lado tão logo ela estivesse casada? Já sua tia BuIstrode, que era de

uma lealdade fraterna com a família do irmão, tinha dois sinceros dese-

jos para Rosamond - que ela viesse a mostrar um espírito com inclina-

çäes mais graves, e que pudesse encontrar um marido cuja riqueza

correspondesse aos seus hábitos.

CAPÍTULO XVII

The clerkly person smiled and said,


Promise was a pretty maid,

But being poor she died. unwed.

(Sorrindo disse uma pessoa matreira:

Era a Promessa moça faceira

Que, sendo pobre, morreu solteira.)

O REVERENDO CAMDEN FAREBROTHER, a quem Lydgate foi visitar na

noite seguinte, morava num antigo presbitério, construído em pedra e já

bastante venerando para corresponder à igreja com a qual se defrontava.

Todos os móveis da casa eram antigos também, mas de outro grau de

ancianidade - o do pai e do avô de Mr. Farebrother. Havia umas cadei-

ras brancas pintadas, com festäes e dourados, e alguns remanescentes

estofos de damasco vermelho, com grandes rasgos. Havia retratos a bu-

ril de Lordes Chanceleres e outros renonados juristas do século passa-

do; e havia, nos panos das paredes, velhos espelhos para refleti-los, bem

como as mesinhas de pau-cetim e os sofás semelhantes a uma sucessão

de duras poltronas, tudo posto em relevo contra o lambris escuro. Tal

era o aspecto da sala de visitas a que Lydgate foi conduzido; e a recebê-

lo havia três senhoras que eram também de outra época e de uma res-

peitabilidade já murcha, mas genuína: Mrs. Farebrother, a mãe do Pas-

tor, de cabelos brancos, engomada em seus babados e embiocada com

caprichoso asseio, rápida no olhar, aprumada e ainda com menos de

setenta anos; Miss Noble, a irmã dela, uma velhinha minúscula de apa-

rência mais meiga, cujos babados e bioco decididamente mais gastos já

continham remendos; e Miss Winifred Farebrother, a irmã mais velha do

Pastor, de bela aparência como ele, mas tolhida e reprimida como as

ft

190

GEORGE ELIOT
mulheres solteiras costumam ser quando passam suas vidas em inin-

terrupta sujeição à família. Lydgate não esperava encontrar um grupo

tão singular: sabendo apenas que Mr. Farebrother era solteiro, tinha

pensado que o iriam levar a um gabinete de trabalho, ocupado princi-

palmente por livros e coleçäes de objetos naturais. O próprio Pastor

parecia estar com um ar diferente, como acontece à maioria dos ho-

mens, quando conhecidos feitos alhures os vêem pela primeira vez em

suas casas; alguns de fato se mostrando como um ator de lhanos pa-

péis desvantajosamente escolhido para fazer o grosseirão numa nova

peça. Não era este o caso com Mr. Farebrother: ele apenas se mostrava

um pouco mais silencioso e dócil, sendo sua mãe quem mais falava, e

resumia-se a fazer aqui e ali uma observação bem humorada e modera-

dora. A velha senhora estava evidentemente acostumada a dizer aos

seus circunstantes o que eles deveriam pensar, e a não considerar as-

sunto algum bem seguro sem ela estar ao comando. Sobrava-lhe tem-

po para preencher tal função por ter todas suas pequenas necessidades

atendidas por Miss Winifred. A minúscula Miss Noble, por seu turno,

levava no braço uma cestinha, para a qual desviou um torrão de açúcar

que ela primeiro havia posto, como que por distração, em seu pires; e

depois olhando furtivamente ao redor para volver à sua chávena com

um barulhinho inocente, como o de um minúsculo e tímido quadrúpede,

Mas não pense mal de Miss Noble, por favor! A cesta só continha uns

bocados de sua própria comida mais portátil, destinados às crianças de

amigos pobres em meio aos quais ela perambulava nas manhãs de bom

tempo; afeiçoar-se às criaturas carentes e cuidar de nutri-las era-lhe

um tão espontâneo prazer que ela chegava até a vê-lo como um vício

gostoso do qual já não sabia abrir mão. Talvez estivesse consciente de

ser tentada a roubar dos que tinham muito para poder dar aos que

nada tinham, e levava na consciência a culpa deste reprimido desejo. 

preciso ser pobre para conhecer a volúpia em dar!


Mrs. Farebrother deu as boas-vindas ao hóspede com lépida forma-

lidade e precisão. Informava-o agora não ser muito freqüente, nesta casa,

que precisassem de ajuda médica. Pela criação, ela mesma havia acostu-

mado seus filhos a usar flanela e a não comer demais, hábito este, o

último, que considerava a principal razão de os doutores se tornarem

necessários a tantos. Lydgate pôs-se em defesa daqueles cujos pais e

mães tinham comido demais, mas Mrs. Farebrother tomou por perigoso

este seu modo de ver: a Natureza era mais justa; seria fácil para qualquer

condenado dizer que seus ancestrais é que deveriam ter sido mandados

em seu lugar à forca. Se os que tiveram maus pais e mães foram maus

1 MIDDLEMARCH

191

também, foram enforcados por isto. Não havia necessidade de se voltar

a algo que não havia mais como ver.

"Minha mãe é como o velho Jorge III," disse o Pastor, "faz objeçäes

à metafísica."

"Faço objeçäes ao que está errado, Carriden. Como eu digo, tendo-

se algumas simples verdades, com elas se päem as coisas em ordem.

Quando eu era moça, Mr. Lydgate, nunca se discutia sobre o certo e o

errado. Nós sabíamos nosso catecismo, e era o bastante; aprendíamos

nossa fé e deveres. Todos os membros respeitáveis da Igreja tinham as

mesmas opiniäes. Mas agora, ainda que se digam palavras do próprio

Livro de Oraçäes, corre-se risco de contestação."

"O que torna a época razoavelmente interessante para os que gos-

tam de manter seus próprios pontos de vista," disse Lydgate.

"Minha mãe sempre cede um pouco," disse irônico o Pastor.

"Não, não, Carnden, você não deve induzir Mr. Lydgate a um erro

sobre mim. Nunca demonstrarei tal desrespeito para com meus pais, re-
nunciando ao que eles me ensinaram. Qualquer um pode ver no que vão

dar as mudanças. Se você muda uma vez, por que não vinte?"

"Um homem pode ter bons argumentos para mudar uma vez, sem

que os tenha porém para mudar de novo," disse Lydgate, divertindo-se

com dama tão decidida.

"Quanto a isto me desculpe. Já que quer falar de argumentos, eles

nunca estão em falta, quando um homem não tem constância de espíri-

to. Meu pai nunca mudou e pregava sermäes de moral simples, sem

nenhum argumento, e era um bom homem - como há poucos melho-

res. Se o senhor me conseguir um bom homem feito de argumentos,

lendo-lhe o livro de receitas apenas já lhe consigo eu um bom jantar.

Esta é a minha opinião, e penso que os estômagos de todos hão de me

dar apoio."

"quanto ao jantar, mãe, nem há dúvida," disse Mr. Farebrother.

"15 a mesma coisa, o jantar ou o homem. Tenho quase setenta anos,

Mr. Lydgate, e me baseio na experiencia. Não há muita hipótese de que

eu venha a seguir novas idéias, das quais aliás estamos cheios, tanto

aqui como alhures. E, como eu digo, elas vieram junto com esses tecidos

mesclados, que não são bons para usar nem de lavar. Nos meus tempos

de jovem não era assim: um homem de igreja era um homem de igreja, e

um pastor, pode ter plena certeza, era, quando não mais, um cavalheiro.

Mas hoje em dia pode estar reduzido a ser tão-só um Dissidente e, sob

pretexto de doutrina, querer pôr o meu filho de banda. Seja quem for

que o queira pôr de banda, tenho porém um grande orgulho em dizer,

192

GEORGE ELIOT

Mr. Lydgate, que ele é comparável a qualquer pregador do reino, para

não falar desta cidade, cujo padrão é muito baixo para servir de parâmetro;
pelo menos é assim que eu penso, eu que nasci e fui criada em Exeter."

"As mães nunca são parciais," disse Mr. Farebrother sorrindo. "O

que acha que a mãe do Tyke diz sobre ele?"

"Ah, pobre criatura! mas o que é?" disse Mrs. Farebrother, sua

acuidade neutralizada um momento pela confiança que tinha nos julga-

mentos maternos. "A si mesma ela sempre diz a verdade, não duvide."

"E qual é a verdade?" disse Lydgate. "Estou querendo saber."

"Oh, não é nada mau," disse Mr. Farebrother. "Ele é um sujeito de-

dicado: nem muito instruído nem muito sensato, segundo eu penso -

porque eu não me entendo com ele."

"Ora essa, Camden!" disse Miss Winifred. "Hoje mesmo o Griffin e

sua esposa me contaram que Mr. Tyke disse que eles não iriam mais ter

carvão, se viessem ouvir você pregar."

Mrs. Farebrother interrompeu seu tricô, que ela havia retomado após

a módica porção de chá com torradas, e olhou para o seu filho como se

quisesse dizer: "Ouviu só?" Miss Noble exclamou: "Oh, coitados! coita-

dos!" referindo-se provavelmente à dupla perda em carvão e pregão.

Mas o Pastor respondeu serenamente:

" só porque não são meus paroquianos. E não creio que meus ser-

mäes valham tanto para eles quanto uma porção de carvão."

"Mr. Lydgate," disse Mrs. Farebrother, que não podia deixar a opor-

tunidade escapar, "o senhor não conhece meu filho: ele sempre se subes-

tima. E sempre lhe digo que está subestimando Deus, que o fez, e que o

fez um pregador excelente."

" bem provável, mãe, que isto seja uma insinuação para que eu

saia com Mr. Lydgate para o meu gabinete," disse, gracejando, o Pastor.

"Prometi mostrar-lhe minha coleção," acrescentou, virando-se para

Lydgate; "vamos até lá?"

As damas, todas três, protestaram. Mr. Lydgate. não deveria ser afas-

tado assim às carreiras, sem nem poder aceitar uma outra xícara de chá:

Miss Winifred ainda tinha chá em quantidade no pote, e do bom. Por


que Camden se apressava tanto para arrastar uma visita à sua toca?

Nada de mais havia lá, além de pragas em conserva, de gavetas cheias de

mariposas e moscas-varej eiras, e no chão sequer um tapete. Que Mr.

Lydgate, por sinal, desculpasse! Seria muito melhor jogar uma partida

de cartas. Em resumo, ficava claro que um pastor podia ser adorado

pelas mulheres de sua família como o rei dos homens e dos pregadores,

e no entanto ser mantido ao mesmo tempo por elas em grande necessi-

MIDDLEMARCH

193

dade de seu comando. Lydgate, com a costumeira superficialidade de

um rapaz solteiro, estranhava que Mr. Farebrother não as tivesse con-

trolado mais.

"Minha mãe não está habituada a que eu receba visitas que possam

ter interesse por minhas ocupaçäes prediletas," disse o Pastor, abrindo a

porta de seu gabinete, que era de fato tão desprovido de luxúrias para o

corpo como as senhoras haviam dado a entender, desde que excluídos

um cachimbo curto de porcelana e uma tabaqueira.

"Geralmente os homens da sua profissão não fumam," disse ele.

Lydgate sorriu e concordou com a cabeça. "A rigor, os da minha também

não, suponho. O senhor há de ouvir falar deste cachimbo, como argu-

mento contra mim, por BuIstrode e Companhia. Eles não sabem como o

diabo gostaria, se eu o largasse."

"Eu entendo. O senhor tem um temperamento excitável e precisa de

um sedativo. já a mim, que sou mais lento, o fumo tornaria indolente.

Eu mergulharia na indolência e ai ficaria estagnado, com todas as mi-

nhas forças."

"E a todas deve querer para o seu trabalho, pois não? Eu, que sou
uns dez ou doze anos mais velho que o senhor, já cheguei a um compro-

misso. Alimento uma ou duas fraquezas para que elas não se tornem

muito exigentes. Veja," continuou o Pastor, abrindo várias gavetinhas,

"ouso imaginar que eu tenha feito um exaustivo estudo da entomologia

deste distrito. Ocupo-me da fauria e da flora; e pelo menos com meus

insetos fui bem. Somos particularmente ricos em ortópteros: não sei se

- Ah! mas o senhor já pegou aí este frasco - e o olha mais do que nas

minhas gavetas. Não se interessa mesmo por tais coisas?"

"Não ao lado deste portentoso monstro anencéfalo. Nunca tive mui-

to tempo para me dedicar à história natural. Desde cedo o que mais me

interessou foi a estrutura do corpo, que é o que mais diretamente concerne

à minha profissão. Além disso, não me dou a passatempos. Tenho de ir

às braçadas pelo mar em fora."

"Ah! o senhor é um homem feliz," disse Mr. Farebrother, girando

nos calcanhares para começar a encher seu cachimbo. "Não conhece esta

necessidade do tabaco espiritual - as incômodas correçäes de textos

antigos, ou breves tópicos sobre uma variedade de Aphis brassicae, com a

bem conhecida assinatura de Philomicron, para a "Revista dos Tagare-

las""; ou um tratado erudito sobre a entomologia do Pentateuco, com-

preendendo todos os insetos não mencionados, mas provavelmente en-

"No original: "Twadders Magazine."

194

GEORGE ELIOT

contrados pelos israelitas em sua passagem através do deserto; com uma

moriografia sobre a Formiga, tal como analisada por Salornão, mostran-

do a harmonia do Livro dos Provérbios com os resultados das pesquisas

modernas. Mas não estarei a incomodá-lo com esta fumaceira?"


Lydgate surpreendia-se mais com a franqueza desta conversa do que

com seu sentido latente - qual seja, que o Pastor não se sentia de todo

em sua vocação verdadeira. As gavetas e prateleiras bem arrumadas e a

estante cheia de livros de História Natural, ilustrados e caros, fizeram-no

pensar novamente nos ganhos com o baralho e sua destinação. Mas ele

estava começando a desejar que a maior verdade de todas fosse a própria

e cuidada construção de tudo aquilo a que Mr. Farebrother se entregava.

A franqueza do Pastor não parecia ser do tipo repulsivo que provém da

má consciência procurando antecipar-se aos julgamentos alheios, mas sim-

plesmente o alívio de um desejo de proceder com o mínimo de fingimento

possível. Ao que tudo indicava, não lhe faltava uma noção de que esta sua

liberdade ao falar poderia soar como intempestiva, pois no momento ele

disse:

"Eu ainda não lhe disse, Mr. Lydgate, que tenho a vantagem de

conhecê-lo melhor do que o senhor a mim. Lembra-se do Trawley, com

quem por algum tempo dividiu seu apartamento em Paris? Eu me

correspondia com ele, que muito me falou a seu respeito. Não tinha

certeza, quando o senhor apareceu por aqui, que fosse a mesma pessoa.

Mas fiquei muito contente ao descobrir que era. Só não esqueço é que

não teve a meu respeito um semelhante intróito."

Lydgate adivinhou aqui certa delicadeza de sentimento, embora só a

entendesse em parte. "Por falar nisso," disse, "o que foi feito do Trawley?

Perdi-o completamente de vista. Ele era um fervoroso adepto dos siste-

mas sociais franceses, e falava de ir para o mato para fundar uma espécie

de comunidade pitagórica. Foi mesmo?"

"Qual nada! Está praticando num balneário alemão, e casou-se com

uma paciente rica."

"Minhas opiniäes então, por enquanto, estavam certas," disse

Lydgate, com um risinho desdenhoso. "No entender dele, a medicina

era um sistema inevitável de embuste. já eu dizia que o problema estava

nos homens - homens que se sujeitam às mentiras e asneiras. Ao invés


de pregar contra o embuste extramuros, talvez fosse melhor montar por

dentro um aparelho de desinfecção. Em suma - estou relatando minha

própria conversa - pode estar certo de que todo o bom senso se achava

do meu lado."

"Contudo, seu plano é bem mais difícil de pôr em prática do que a

MIDDLEMARCH

195

comunidade pitagórica. Não só o senhor tem contra si o velho Adão que

está em sua pessoa, como também todos os descendentes daquele Adão

original que constituem a sociedade à sua volta. Veja bem, eu já paguei

doze ou treze anos a mais do que o senhor por meu conhecimento das

dificuldades. Mas" - Mr. Farebrother interrompeu-se um momento e

acrescentou em seguida: "eis que o senhor se päe de novo a examinar

este frasco. Quer fazer uma troca? Pois não há de consegui-lo sem uma

boa barganha."

"Tenho alguns afroditas - belos espécimes de anelídeos - em ál-

cool. E a isto eu acrescentaria o novo trabalho de Robert Brown -"Ob-

servaçäes Microscópicas sobre o Pólen das Plantas" - caso ainda não o

tenha."

"Vendo como quer tanto o monstro, bem que eu poderia pedir um

preço mais alto. Que tal se eu lhe propusesse dar uma olhada nas gave-

tas para se pôr de acordo comigo em relação às minhas novas espécies?"

O Pastor, enquanto falava assim, ora movia-se alguns passos de cachim-

bo na boca, ora voltava, não sem orgulho, a se debruçar nas gavetas.

"Seria uma boa disciplina, sabe, para um médico jovem que em

Middemarch tem de agradar aos seus pacientes. O senhor vai ter de

aprender a entediar-se, não se esqueça. Entretanto, o monstro há de ser

seu, e nos termos que bem quisen"


"Não lhe parece que os homens sobrestimarn a necessidade de

comprazer-se com as tolices alheias, até que sejam desprezados por aque-

les próprios tolos com os quais antes se compraziam?" disse Lydgate,

movendo-se para o lado de Mn Farebrother e, meio distraído, olhando

para os insetos dispostos numa arrumação caprichosa, com seus nomes

subscritos numa letra impecável. "O melhor caminho é tornar seu valor

reconhecido, para que as pessoas se sintam na obrigação de aceitá-lo,

quer lhes faça ou não lisonjas."

"De bom grado o admito. Mas é preciso estar seguro sobre o próprio

valor e não deixar de manter-se independente. Pouquíssimos homens

são capazes disto. Ou bem a gente cai fora do serviço de vez, e se torna

um inútil, ou bem se enfia nos arreios e tenta ir agüentando o batente

por onde os companheiros de canga nos empurram. Mas olhe só estes

ortópteros, como são delicados!"

Lydgate afinal teve de dar um pouco de atenção a cada uma das gave-

tas, enquanto o Pastor ria de si mesmo, persistindo contudo na exibição.

Ucroscopic Observations on thePollen ofMants (1828), de Robert Brown (1773-

1858), um dos

mais conhecidos botânicos britânicos da época.

196

GEORGE ELIOT

"A propósito do que disse sobre o uso de arreios," começou Lydgate,

depois que eles já estavam sentados, "faz um bom tempo que decidi

esquivar-me deles ao máximo. Foi por isto que em Londres eu não quis

tentar nada, ao menos por uns bons anos. Não me agradou o que vi

quando estive estudando lá - muita empáfia vazia e muita velhacaria

obstrutiva. No campo, as pessoas têm menos pretensäes ao conheci-


mento e são menos sociáveis, mas por isto mesmo atingem menos o

amour-propre da gente: havendo menos desavenças, cada qual pode se-

guir seu próprio caminho mais tranqüilamente."

"Bem - de acordo - o senhor teve um bom começo; está na profis-

são certa, no trabalho para o qual se sente mais indicado. Há quem se

engana quanto a isto e se arrepende mais tarde. Mas não esteja assim

tão seguro de manter sua independência."

"O senhor quer dizer, dos vínculos familiares?"

"Não propriamente.  claro que eles tornam muitas coisas mais difí-

ceis. Mas uma boa esposa - uma boa mulher nada mundana - pode

ajudar um homem de fato, e mantê-lo mais independente. Há um paro-

quiano meu - uma ótima pessoa, mas que dificilmente teria aberto seu

caminho, como ele fez, sem sua esposa. O senhor conhece os Garths?

Não me parece que eles fossem clientes do Peacock."

"Não; mas há uma Miss Garth em casa do velho Featherstone, em

Lowick."

"Filha deles: moça excelente."

" tão calma - quase não cheguei a notá-la."

"Entretanto ela o notou, creia-me."

"Não entendo," disse Lydgate; dificilmente ele poderia dizer: " claro."

"Oh, não há quem lhe escape ao crivo. Preparei-a para sua confirma-

ção - e ela é uma favorita minha."

Não se interessando Lydgate por saber mais sobre os Garths, Mr.

Farebrother, por alguns momentos, deu baforadas em silêncio. Por fim o

Pastor largou seu cachimbo, esticou bem as pernas e virou para Lydgate

seus olhos muito brilhantes, dizendo com um sorriso:

"Nós aqui em Middemarch não somos tão inofensivos como o se-

nhor imagina. Temos nossas intrigas, nossos partidos. Eu por exemplo

sou um homem de partido, e BuIstrode é outro. O senhor fará uma ofen-

sa a BuIstrode, se me der o seu voto."

"Que é que há contra Bulstrode?" perguntou enfaticamente Lydgate.


"Eu não disse que houvesse alguma coisa contra ele, exceto isto. Se

o senhor votar contra ele, estará fazendo um inimigo."

"Não vejo por que eu me preocupar com estas coisas," disse Lydgate,

MIDDLEMARCH

197

com uma ponta de arrogância; "mas sobre hospitais ele parece ter boas

idéias, e gasta grandes sornas em projetos de utilidade pública. Poderia

ajudar-me muito na realização dos meus planos. Quanto às noçäes reli-

giosas dele - bem, como disse Voltaire, os encantamentos só destroem

um rebanho de ovelhas quando administrados com uma pequena dose

de arsênico. Quero saber do homem que há de trazer o arsêníco, e não

ligo para os seus sortilégios."

"Muito bem. Mas o senhor então não deve ofender o homem do

arsênico. A mim, sabe que não há de ofender," disse Mr. Farebrother,

sem nenhuma afetação. "Não coloco como obrigação dos outros cuidar

do que a mim convém. Oponho-me a BuIstrode sob vários aspectos.

Não gosto do grupo ao qual ele pertence: um grupo estreito, de ignoran-

tes que mais fazem para causar desconforto a seus vizinhos do que para

torná-los melhores. O sistema deles é uma espécie de doutrina de sua

claque mundano-espiritual: olham realmente para o resto da humanida-

de como uma só carcaça condenada a alimentá-los para o céu. Mas,"

acrescentou sorrindo, "não digo que o novo hospital do BuIstrode seja

uma coisa ruim; quanto a ele querer tirar-me do velho - bem, ele ape-

nas me retribui o cumprimento, se me acha uma pessoa nociva. Não sou

um modelo de clérigo - tão-só um paliativo aceitável."


Estaria o Pastor a denegrir-se? Lydgate não tinha lá tanta certeza.

Um modelo de clérigo, como um médico modelar, há de pensar que sua

profissão é a melhor do mundo, e considerar todo o conhecimento como

mera nutrição de sua patologia moral e terapêutica. Não disse pois se-

não isto: "Que razão BuIstrode dá para afastar o senhor?"

"Que eu não transmito as opiniäes dele - o que ele chama de sua

religião espiritual; e que eu não tenho tempo sobrando. Ambas as afir-

maçäes procedem. Mas, se fosse o caso, eu poderia arranjar tempo, e as

quarenta libras me fariam feliz. Esta é que é a grande verdade sobre o

caso. Mas vamos deixar isto de lado. Eu somente lhe queria dizer que,

se o senhor der seu voto para o seu homem do arsênico, não estará por

conseqüência magoando-me. Não posso prescindir de sua pessoa. O

senhor é uma espécie de circunavegador que veio a se estabelecer entre

nós e há de manter a minha fé nos antípodas. Agora, conte-me tudo

sobre eles lá em Paris."

CAPITULO XVIII

"Oh, sir, the loftiest hopes on earth

Draw lots with meaner hopes: heroic breasts,

Breathing bad air, run risk of pestilence;

Or, lacking lime-juice when they cross the Line,

May languish with the scurvy."

€"Os mais altos desejos, entre nós,

Misturam-se aos mais vis: peitos de heróis,

Respirando um mau ar, contraem peste;

Ou, cruzando o equador sem sucos cítricos,

Arriscam-se ao escorbuto que elanguesce.")

PASSARAM-SE ALGUMAS semanas antes de esta questão da capelania as-


sumir para Lydgate importância prática e, sem se dizer objetivamente a

razão, ele adiou a decisão para saber a qual dos lados deveria dar seu

voto. Ser-lhe-ia na realidade um assunto de indiferença total - ou seja,

teria ele tomado o lado mais conveniente, e votado pela nomeação de

Tyke sem nenhuma hesitação, - se do ponto de vista pessoal não tives-

se consideração por Mr. Farebrother.

Mas sua simpatia pelo Pastor de St. Botolph aumentara com o co-

nhecimento crescente. Que Mr. Farebrother, compreendendo a posição

de Lydgate como um recém-chegado que tinha seus próprios objetivos

profissionais a resguardar se empenhasse mais por afastar que por lhe

obter a atenção, eis uma demonstração de delicadeza e generosidade

incomuns, a que a natureza de Lydgate foi vivamente sensível. Jungia-se

ela a outros pontos da conduta de Mr. Farebrother que eram excepeio-

nalmente dignos e faziam com que seu caráter se assemelhasse ao des-

sas paisagens meridionais que parecem divididas entre a grandeza natu-

MIMUMARCH

199

ral e o desmazelo social. Pouquíssimos homens poderiam ter sido tão

filialmente cavalheirescos como ele era com sua mãe, tia e irmã, cuja

dependência de si lhe modelara a vida a vários modos que, para ele

mesmo, não eram lá muito cômodos; poucos homens que sentem a pres-

são das pequenas necessidades são tão nobremente resolutos a não

mascarar seus desejos de interesse inevitavelmente próprio sob pretexto

de melhores motivos. Ele estava consciente, no tocante a tais questäes,

de que sua vida suportaria a averiguação mais detida; e esta consciência

estimulava talvez certa desconfiança em relação à severidade crítica de


pessoas cujas intimidades celestiais não pareciam melhorá-las no com-

portamento em família, e cujos excelsos anseios não eram necessários

para lhes justificar as açäes. E depois, sua pregação era tão engenhosa e

incisiva como a pregação da Igreja Inglesa em sua época de grande pu-

jança e seus sermäes ele os proferia sem livro. Gente que não pertencia

à sua paróquia ia ouvi-lo; e, uma vez que encher a igreja de gente era

sempre a parte mais difícil das funçäes de um clérigo, aqui estava outra

razão para um descuidado sentimento de superioridade. Além disso ele

era um homem simpático: doce de temperamento, fino na sagacidade,

franco, sem risos falsos de amargura retida nem outros condimentos de

conversa que fazem da metade de nós, para os nossos amigos, uma afli-

ção. Lydgate gostava muito dele e desejava ter-lhe a amizade.

Dominado por este sentimento, continuava a pospor a questão da

capelania e a persuadir-se de que o assunto não só não lhe dizia respei-

to, como também provavelmente nunca chegaria a molestá-lo com um

pedido de voto. Lydgate, por solicitação de Mr. Bulstrode, já se achava a

traçar planos para as disposiçäes internas do novo hospital, e os dois se

viam em freqüentes consultas. O banqueiro estava sempre pressupondo

que poderia contar com Lydgate, de modo geral, como um auxiliar seu,

mas não fazia referências à vindoura decisão entre Tyke e Farebrother.

Quando o Conselho Geral da Enfermaria se reuniu, entretanto, e Lydgate

tomou ciência de que a questão da capelania fora repassada a uma co-

missão de diretores e médicos, a reunir-se na sexta -feira seguinte, teve

uma molesta impressão de que devia resolver-se de vez quanto a este

assunto banal de Middemarch. Não havia como ele não ouvir em seu

íntimo uma declaração peremptória de que Bulstrode era o primeiro-

ministro e, o caso Tyke, uma questão de poder ou não poder; e ele não

tinha também como impedir-se um desagrado igualmente forte em abrir

mão de uma perspectiva de poder. Pois suas observaçäes constantemen-

te confirmavam a certeza de Mr. Farebrother de que o banqueiro não

toleraria oposição. "Maldita seja esta politicagem deles!" foi um dos


20O

GEORGE ELIOT

seus pensamentos, por três manhãs, no meditativo processo de fazer a

barba, quando começou a sentir que lhe urgia realmente reunir sobre o

caso o próprio tribunal de sua consciência. Certamente havia coisas vá-

lidas a se dizer contra a eleição de Mr. Farebrother: ele já tinha muito em

mãos, considerando-se especialmente o grande tempo que gastava em

ocupaçäes não clericais. Ademais era um choque continuamente repeti-

do, a perturbar a estima de Lydgate, que o Pastor obviamente jogasse

por dinheiro, gostando do jogo sim, mas sem sombra de dúvida também

gostando dos fins a que seus ganhos serviam. Mr. Farebrother " sustenta-

va em teoria a conveniência de todos os jogos e dizia que, por falta

deles, a acuidade do espírito inglês se estagnava; mas Lydgate estava

certo de que ele jogaria bem menos, não fosse o dinheiro. Havia um

salão de bilhar no Green Dragon que algumas mães e esposas ansiosas

consideravam a pior tentação de Middemarch. O Pastor era um ás do

taco e, muito embora não freqüentasse o Green Dragon, havia rumores

de que algumas vezes ele andara por lá à luz do dia e teria ganho dinhei-

ro. Quanto ao cargo de capelão, não aparentava dar-lhe importância, a

não ser por causa das quarenta libras. Lydgate não era um puritano, mas

o jogo não lhe apetecia, e o dinheiro que nele se ganhava sempre lhe

soara como desprezível; além disso, tinha um ideal de vida que tornava

esta submissão da conduta à conquista de pequenas sornas totalmente

odiosa para ele. Até então em sua vida as necessidades haviam sido

supridas sem que as preocupaçäes o envolvessem, e seu primeiro impul-

so era sempre ser liberal com suas meias-coroas, bagatelas sem nenhu-

ma importância para um gentil-homem; nunca lhe ocorrera formular um

plano para amealhar tais moedas. De maneira genérica, tinha sempre


sabido que não era rico, porém nunca se sentira pobre, e carecia de todo

poder de imaginar o papel que a falta de dinheiro representa para deter-

minar os homens na ação. Para ele o dinheiro nunca fora um móvel.

Donde não ser propenso a conceber desculpas para essa caça deliberada

aos pequenos ganhos. Era-lhe ela totalmente repulsiva, a ele que nunca

se inquietara em calcular a relação entre a renda do Pastor e seus dispên-

dios mais ou menos necessários. Possivelmente em seu próprio caso ele

não teria feito tal cálculo.

E agora, quando se apresentava a questão da votação, esse fato re-

pulsivo depunha contra Mr. Farebrother ainda com mais força que antes,

A gente saberia bem melhor o que fazer se o caráter dos homens fosse

mais coerente e, especialmente, se os nossos amigos todos, de modo

invariável, estivessem sempre aptos para as funçäes que almejassem!

Lydgate estava convencido de que, não havendo objeçäes válidas a Mr,

MIDDLEMARCH

201

Farebrother, ele teria votado no seu nome, independentemente do que

BuIstrode pensasse sobre o assunto: ser um vassalo de BuIstrode não se

incluía em seus planos. Por outro lado, havia Tyke, homem que se dava

de todo à função clerical, que era apenas coadjutor numa capela da paró-

quia de St. Peter e dispunha de tempo para outras obrigações. Ninguém

tinha nada o que dizer contra Mr. Tyke, a não ser que agüentá-lo era

impossível e que havia suspeitas de ele ser um hipócrita. Com efeito

BuIstrode, do seu ponto de vista, estava plenamente justificado.

Fosse qual fosse o lado para o qual pendia Lydgate, havia porém

alguma coisa que o levava a claudicar; e ele, sendo homem cheio de

orgulho, por ser forçado a claudicar exasperava-se um pouco. Desagra-

dava-lhe frustrar-se em seus melhores propósitos, se não ficasse em bons


termos com Bulstrode; desagradava-lhe outrossim votar contra

Farebrother e ajudar a despojá-lo do cargo e dos vencimentos; e uma

questão se colocava, se aquelas quarenta libras a mais não poderiam

libertar o Pastor da ignóbil preocupação de ganhar no jogo. A coroar

tudo isto, não agradava a Lydgate a consciência de que votando em Tyke

ele estaria votando no partido que obviamente mais lhe convinha. Mas

sua própria conveniência haveria de ser de fato o fim? Não faltaria quem

dissesse que sim, alegando que ele procurava cair nas boas graças de

BuIstrode só para se tornar importante e garantir seu caminho. E daí?

De sua parte ele sabia que, se estivessem simplesmente em causa suas

perspectivas pessoais, não ligaria nem um pingo para a amizade ou ini-

mizade do banqueiro. O que realmente lhe importava era um meio para

o seu trabalho, um veículo para as suas idéias; e, afinal de contas, não se

impunha que ele preferisse por desígnio ter um bom hospital, onde pu-

desse demonstrar as distinções específicas da febre e testar resultados

terapêuticos, antes de qualquer outra coisa ligada à tal capelania? Pela

primeira vez Lydgate estava sentindo a filifórme e embaraçosa pressão

das pequenas contingências sociais, e sua complexidade frustradora. Ao

término deste debate em seu íntimo, quando ele saiu para o hospital,

sua esperança residia na hipótese de que as discussões pudessem de

algum modo dar à questão novo aspecto, fazendo com que a oscilação

da balança finalmente excluísse a necessidade do voto. Penso que ele

confiou também um pouco na energia engendrada pelas circunstâncias

- num sentimento que em caloroso fluir tomasse mais fácil sua decisão,

quando o debate a sangue-frio não a tomara senão mais dificultosa. Fos-

se como fosse, não se disse com clareza de que lado iria votar; e o tempo

todo ressentia-se interiormente da sujeição que lhe havia sido imposta.

Ter-se-la de antemão afigurado como um ridículo exemplo de imperfeita

202
GEORGE ELIOT

lógica que ele, com suas isentas resoluções de independência e sua in-

tenção seleta, acabasse por se achar, no desfecho, sob o jugo de alterna-

tivas mesquinhas e todas igualmente repugnantes a si. Era de modo

bem distinto que, em seu quarto dos tempos de estudante, ele havia

prefixado sua ação social.

Lydgate saiu portanto atrasado, mas o Dr. Sprague, os outros dois

cirurgiões e vários dos diretores haviam chegado cedo; Mr. Bulstrode,

tesoureiro e presidente, estava entre os ainda ausentes. Davam a en-

tender as conversas que o desfecho era problemático e que uma maioria

por Tyke não estava tão garantida como em geral se havia suposto.

Os dois facultativos, por milagre, demonstraram-se unãonimes, ou me-

lhor, embora de opiniões diferentes, concordaram na maneira de agir.

O Dr. Sprague, pesadão e desabrido, era, como todos previam, um

adepto de Mr. Farebrother. O Doutor era mais do que suspeito de

não ter religião, mas Middemarch dava um jeito de tolerar esta sua

deficiência como se fosse ele um Lorde Chanceler; é de fato provável

que seu peso profissional fosse o mais digno de crédito, consideran-

do-se que a associação da esperteza com o princípio do mal, tão ve-

lha quanto o mundo, era ainda bem forte até nas mentes das clientes

que tinham sobre os modos de sentir e os babados as mais estritas

idéias. Era quiçá essa negação no Doutor que movia os vizinhos a

chamá-lo de secarrão e cabeçudo; condições de contextura que eram

tidas também por favoráveis à armazenagem de julgamentos relaciona-

dos a remédios. Em todo caso, o certo é que se surgisse em Midde-

march algum médico com a reputação de ter opiniões religiosas mui-

to bem definidas, de ser dado à prece e a demonstrar de outras manei-

ras uma devoção ativa, haveria uma presunção comum contra sua

capacidade médica.

Sob este aspecto era (profissionalmente falando) uma felicidade para


o Dr. Minchin que suas simpatias religiosas fossem de um tipo bem ge-

nérico, e de tal ordem a dar uma distante sanção médica a todos os

modos sérios de sentir, quer da Igreja ou do Dissenso, mais do que qual-

quer adesão a dogmas particulares. Se Mr. Bulstrode insistia, como ti-

nha propensão a fazer, na doutrina luterana da justificação como aquela

pela qual se processa a permanência ou queda de uma Igreja, o Dr.

Minchin tinha plena certeza, em contrapartida, de que o homem não era

mera máquina nem uma fortuita conjunção de átomos; se era Mrs.

Wimple que insistia numa providência particular em relação a uma dor

de estômago, o Dr. Minchin propendia, por seu turno, a manter abertas

as janelas da mente, opondo-se aos limites prefixados; se o sectário unita-

MIDDLEMARCH

203

rista fazia algum gracejo sobre o Credo Atanasiano,1 o Dr. Minchin cita-

va o "Ensaio sobre o Homem" de Pope.2 Opunha-se ao estilo algo livre

da anedota no qual incorria o Dr. Sprague, preferindo as citações bem

abalizadas, e gostava de refinamentos de toda espécie: era sabido que

ele tinha certo grau de parentesco com um bispo e que às vezes, em suas

folgas, passava uns dias "em palácio."

Mãos finas, tez pálida e arredondado nas formas, o Dr. Minchin não

se distinguia na aparência de um clérigo amável: ao passo que o Dr.

Sprague era superfluamente alto; suas calças encolhidas nos joelhos

mostravam parte exagerada das botas, num tempo em que suas botas de

alças eram das tidas por indispensáveis à dignidade do porte; ouviam-no

chegando e partindo, e para cima e para baixo, como se tivesse vindo

para consertar o telhado. Em suma, ele tinha peso, sendo de se esperar

que tomasse a doença a peito e a esmagasse; quanto ao Dr. Minchin, o

previsível seria que a detectasse na espreita, para então vencer pela as-
túcia. Ambos desfrutavam era doses mais ou menos iguais do misterioso

privilégio da reputação médica, cada qual disfarçando com bastante eti-

queta o desprezo que sentia pela capacidade do outro. Considerando-se

a si mesmos como instituições de Middemarch, estavam prontos a ali-

ar-se contra todos os inovadores, e contra os não profissionais dados a

interferência. Com base nisto, eram ambos igual e intimamente avessos

a Mr. BuIstrode, embora o Dr. Minchin nunca tivesse entrado em hosti-

lidade aberta com ele, nem nunca divergisse dele sem uma elaborada

explicação a Mrs. BuIstrode, a qual já havia chegado à conclusão de que

só o Dr. Minchin entendia sua constituição. Um leigo que se intrometia

na conduta profissional dos médicos e estava sempre impondo suas re-

formas, - ainda que fosse menos diretamente um estorvo para os dois

facultativos que para os boticários-cirurgiões que atendiam aos indigen-

tes por contrato, era não obstante uma ofensa às narinas de profissio-

nais tão decentes; e o Dr. Minchin partilhava de todo da nova mágoa

contra BuIstrode, excitada por sua aparente determinação em patrocinar

Lydgate. Os práticos estabelecidos de há muito, Mr. Wrench e Mr. Toller,

achavam-se justamente agora em pé e à parte num amistoso colóquio,

no qual se punham de acordo falando sobre Lydgate, um camarada pe-

tulante, feito para servir às intenções de BuIstrode. Com amigos não

médicos já se haviam também posto de acordo nos elogios ao outro

"Enquanto os unitaristas mantinham a unidade de Deus, o credo atanasiano

reafirmava a

doutrina cristã da Santíssima Trindade.

"Essay on Man (1733), de Alexander Pope (1688-1744).

204

GEORGE ELIOT
jovem prático, que chegara à cidade após a aposentadoria de Mr. Peacock

sem outra recomendação além de seus próprios méritos e este argumen-

to que depunha por uma sólida formação profissional, o fato de ele apa-

rentemente não ter perdido tempo em outros ramos do conhecimento.

Claro estava que Lydgate, não dando remédios, pretendia lançar impu-

tações a seus pares, e também obscurecer o limite entre sua própria

posição como clínico-geral e a dos facultativos, os quais, no interesse da

profissão, sentiam-se obrigados a manter os vários graus da hierarquia.

Especialmente contra um homem que, não tendo estado em nenhuma

das duas universidades inglesas, gabava-se de lá não ter feito o acompa-

nhamento de cabeceira nem o estudo da anatomia, e ainda vinha com

uma pretensão injuriosa de experiência em Edimburgo e Paris, onde a

observação, de fato, poderia ser muita, mas era sempre algo suspeita.

Deu-se assim que nesta ocasião BuIstrode foi identificado com

Lydgate e Lydgate com Tyke; e, devido a esta diversidade de nomes

intercarribiáveis para a questão da capelania, várias mentes foram capa-

citadas a formular a respeito o mesmo julgamento.

O Dr. Sprague, ao entrar, disse sem maiores delongas ao grupo reu-

nido: "Eu estou com Farebrother. Um salário, sim, de muito bom grado.

Mas por que tirá-lo do Pastor?  quase nada o que a ele toca - ele que

tem de garantir sua vida, além de manter a casa e cumprir com suas

caridades. Ponham-lhe quarenta libras no bolso que não lhe estarão fa-

zendo mal.  um bom sujeito, o Farebrother, e que aliás não tem muito

de pastor, apenas o imprescindível para exercer sua prédica."

"Alto lá, Doutor!" disse o velho Mr. Powderell, um negociante do

ramo de ferragens, já aposentado mas não sem importância, - com uma

interjeição que ficava a meio-termo entre a discordância parlamentar e

uma gargalhada. "Deixá-lo falar é obrigação nossa. Mas o que temos de

considerar não são os rendimentos de alguém - são as almas das po-

bres pessoas adoentadas" - e nem à voz nem ao rosto de Mr. Powderell

faltaram aqui sinceros laivos patéticos. "Mr. Tyke é um verdadeiro pre-


gador do Evangelho. Eu votaria contra a minha consciência se votasse

contra Mr. Tyke - sem dúvida alguma."

"Os adversários de Mr. Tyke não pediram que ninguém votasse con-

tra a própria consciência, creio eu," disse Mr. Hackbutt, um rico dono de

curtume, fluente na fala, cujos óculos brilhantes e cabelo espetado volvi-

am-se com certa severidade para o inocente Mr. Powderell. "Mas a meu

modo de ver compete a nós, Diretores, saber se iremos julgar que todo o

nosso trabalho se reduz a executar propostas procedentes de uma única

fonte. Entre os membros da comissão, há alguém capaz de afirmar que

MIMUMARCH

205

teria alimentado a idéia de deslocar o homem que sempre exerceu aqui

as funções de capelão, se esta idéia não lhe fosse sugerida por outros,

cuja disposição é considerar todas as instituições desta cidade como sim-

ples mecanismos para a realização de seus planos? Não incrimino nin-

guém por seus motivos: estes, que fiquem entre a própria pessoa e um

Poder mais alto; digo porém que há influências em jogo, as quais são

incompatíveis com a autêntica independência, e que um servilismo

rastejante é ditado em geral por circunstâncias que os cavalheiros que

assim se conduzem não poderiam suportar moralmente, nem financeira-

mente honrar. De minha parte, sou um leigo, mas não é pouca a atenção

que eu tenho dado às divisões da Igreja e..."

"Oh, que se danem as divisões!" explodiu Mr. Frank Hawley, advo-

gado e secretário da Câmara Municipal, que raramente comparecia a

estas reuniões e agora, de rebenque na mão, parecia estar apressado.

"Não temos nada aqui a ver com elas. Farebrother vinha fazendo o tra-

balho - o que havia a ser feito - sem pagamento e, a se pagar alguma

coisa, o benefício deve ser para ele. Tirar a oportunidade de Farebrother


é a meu ver um golpe abominável."

"Penso eu que a cavalheiros ficaria muito bem não dar às suas obser-

vações uma entonaçao pessoal," disse Mr. Plymdale. "Vou votar pela

nomeação de Mr. Tyke, mas jamais teria sabido, não fosse a insinuação

de Mr. Hackbutt, que sou um Rastejante Servil."

"Repudio alusões a quem quer que seja. O que eu disse expressa-

mente, se me for permitido repetir, ou mesmo concluir o que eu estava

dizendo -"

"Ah, cá está o Minchin!" disse Mr. Frank Hawley; ao que todos des-

viaram a atenção de Mr. Hackbutt, deixando-o sentir a inutilidade de

dons superiores em Middemarch. "E então, Doutor, posso contar com o

senhor do lado certo, pois não?"

"Espero que sim," disse o Dr. Minchin, cumprimentando com a ca-

beça e trocando aqui e ali algum aperto de mãos. "Custe o que custar

aos meus sentimentos."

"Se há sentimentos em questão aqui, a meu ver é pelo homem que

estão querendo dispensar," disse Mr. Frank Hawley.

"Confesso que tenho sentimentos do outro lado também. Tenho uma

estima dividida," disse o Dr. Minchin, esfregando as mãos. "Considero

Mr. Tyke um homem exemplar - não mais nem menos - e acredito que

o nome dele é proposto por motivos não discutíveis. Bem que eu gosta-

ria de lhe poder dar meu voto. Mas sou forçado a um exame do caso que

toma preponderantes as pretensões de Mr. Farebrother. Este é um ho-

206

GEORGE ELIOT

mem gentil, um pregador competente, e já se encontra em nosso meio

há mais tempo."

Silencioso e triste, o velho Mr. Powderell olhou em tomo. Mr.


Plymdale, pouco à vontade, ajeitava a gravata.

"Espero que não me façam Farebrother passar por um modelo de

clérigo," disse Mr. Larcher, o ilustre dono da companhia de transportes,

que acabara de chegar. "Não tenho nenhuma má vontade para com ele,

mas acho que em relação a essas nomeações devemos alguma satisfação

à opinião pública, para não falar de coisas mais elevadas. Farebrother,

para um clérigo, em minha opinião é relaxado demais. Não desejo colo-

car nada em particular contra ele; mas qualquer servicinho aqui ele há de

esticar ao máximo para fazer render."

"Melhor, diabos, do que fazer além da conta," disse Mr. Hawley,

cuja linguagem grosseira era notória nesta parte do condado. "Gente

doente não agüenta muita oração e pregação. E essa espécie metodista

de religião faz mal ao ânimo - faz mal por dentro, não é?" acrescentou,

virando-se rapidamente para os quatro profissionais da medicina, que

estavam juntos.

Qualquer resposta foi tolhida porém pela entrada de três senhores,

com os quais houve uma troca de cumprimentos mais ou menos cordial.

Eram eles o Reverendo Edward Thesiger, Reitor de St. Peter, Mr. BuIstrode

e o nosso amigo de Tipton, Mr. Brooke, que ultimamente havia concor-

dado em ser feito membro da diretoria, mas que nunca assistira a uma

reunião antes, só comparecendo agora graças a insistentes apelos de Mr.

BuIstrode. A única pessoa ainda esperada era Lydgate.

Sob a presidência de Mr. BuIstrode, pálido e comedido como de cos-

tume, todos pois se sentaram. Mr. Thesiger, um evangélico moderado,

desejava a nomeação de seu amigo Mr. Tyke, homem capaz e zeloso

que, oficiando numa capela secundária, não era um cura de almas sobre-

carregado e assim dispunha de bastante tempo para as novas obriga-

ções. Seria desejável que as capelanias desse tipo fossem assumidas com

intenção fervorosa: pois com elas se criavam ocasiões bem propícias à

influência espiritual; e, conquanto fosse bom que se estipulasse um salá-

rio, maior era a necessidade de uma vigilância cuidadosa, para que o


cargo não viesse a ser pervertido, transformando -se em mera questão de

vencimentos. Foi tão serena e adequada a exposição de Mr. Thesiger,

que os que a ela se opunham não puderam senão guardar silêncio, fre-

mentes de indignação.

Mr. Brooke acreditava nas boas intenções de todo mundo. Pessoal-

mente ele não participara dos problemas da Enfermaria, muito embora

MIDDLEMARCH

207

tivesse grande interesse por tudo o que visava beneficiar Middemarch, e

sentia-se feliz por reunir-se com os cavalheiros presentes na discussão

de quaisquer questões de interesse público - "quaisquer questões de

interesse público, sabem," repetiu Mr. Brooke, com seu meneio de cabe-

ça tão típico, indicação do perfeito entendimento. "Vivo muito ocupado

como magistrado, e com minha coleta de provas documentais, mas con-

sidero meu tempo à disposição do público - e, em suma, meus amigos

convenceram-me de que um capelão com um salário - um salário, sa-

bem, - é uma coisa muito boa, e estou feliz de poder estar aqui e votar

pela nomeação de Mr. Tyke que, pelo que percebo, é um homem

inatacável, apostólico, eloqüente e tudo o mais que o seja - e eu seria o

último a lhe negar meu voto, sabem - nas atuais circunstâncias."

"Tenho a impressão de que lhe meteram na cabeça, e à força, somente

um lado da questão, Mr. Brooke," disse Mr. Frank Hawley, que não tinha

medo de ninguém, mas era um conservador receoso de manobras eleitoreiras.

"Parece até que o senhor não sabe que um dos homens mais dignos que nós

temos vem fazendo o trabalho de capelão aqui há anos, e sem pagamento,

e que a proposta em discussão é substituí-lo por Mr. Tyke."

"Desculpe-me, Mr. Hawley," disse Mr. BuIstrode, "rnas Mr. Brooke

foi devidamente informado do caráter e da situação de Mr. Farebrother."


"Pelos inimigos dele," disparou Mr. Hawley.

"Estou certo de que entre nós não há hostilidades pessoais em cau-

sa " disse Mr. Thesiger.

"Pois eu juro que há," retrucou Mr. Hawley.

"Senhores," disse Mr. BuIstrode, num tom contido, "os méritos da

questão podem ser expostos em poucas palavras e, se algum dos presen-

tes desconfiar de que há um cavalheiro que esteja a ponto de dar seu

voto sem ter sido devidamente informado, posso recapitular agora as

considerações que devem pesar de cada lado."

"Não vejo por quê," disse Mr. Hawley. "Acho que todos nós já sabe-

mos em quem vamos votar. Ninguém que queira fazer justiça espera até

o último minuto para ouvir os dois lados da questão. Eu, que não tenho

tempo a perder, proponho que a matéria seja posta logo em votação."

Seguiu-se breve mas ainda assim acalorada discussão antes de cada

qual escrever "Tyke" ou "Farebrother" num pedacinho de papel, para

depois depositá-lo numa jarra de vidro; entrementes, Mr. BuIstrode viu

Lydgate entrar.

-cPelo que eu vejo, os votos estão igualmente divididos por ora,"

disse Mr. BuIstrode, numa voz clara e penetrante. E aí, erguendo os

olhos para Lydgate:

208

GEORGE ELIOT

"Mas há um voto decisivo ainda a ser dado.  o do senhor, Mr.

Lydgate: quer ter a bondade de escrevê-lo?"

"Então a coisa está resolvida," disse Mr. Wrench, levantando-se.

"Todos nós sabemos como irá votar Mr. Lydgate."

"Parece que o senhor fala com alguma suposição em mente," disse

Lydgate, não sem um ar de desafio, mantendo o lápis suspenso.


"Eu simplesmente quis dizer que o esperado é que o senhor vote

com Mr. BuIstrode. Considera ofensiva esta suposição?"

"Pode ser ofensiva para outros. Mas nem por isto eu desistiria de

votar com ele."

E Lydgate imediatamente escreveu "Tyke."

Assim o Reverendo Walter Tyke tomou-se capelão da Enfermaria, e

Lydgate continuou a trabalhar com Mr. BuIstrode. Realmente ele ainda

se perguntava se Tyke não era o candidato mais indicado, não obstante

sua consciência dizer-lhe que teria votado em Mr. Farebrother, se esti-

vesse mesmo livre de influência indireta. A questão da capelania ficou

em sua memória como um ponto doloroso, como um caso no qual o

ambiente medíocre de Middiemarch, para ele, fora forte demais. Como

poderia um homem sentir-se satisfeito com uma decisão entre tais alter-

nativas e em tais circunstâncias? Não mais do que poderia sentir-se sa-

tisfeito com o seu chapéu, escolhido por ele entre os modelos que os

recursos do tempo lhe oferecem, e usado da melhor forma possível com

uma resignação que se apóia, principalmente, nas comparações.

Mr. Farebrother reencontrou-o porém com a mesma amizade já de-

monstrada. O cazzzráter do publicano e pecador nem sempre é praticamen-

te incompatível com o do Fariseu moderno, pois muito raro é a maioria

de nós ver as imperfeições de nossa conduta com mais clareza que as

imperfeições dos argumentos que usamos, ou a falta de brilho de nossos

próprios gracejos. Mas o Pastor de St. Botolph havia certamente escapa-

do à mais leve tintura de farisaísmo e, à força de admitir para si mesmo

que era por demais igual aos outros homens, tomara-se extraordinaria-

mente diferente por isto - por ser capaz de perdoar os outros, quando

pensavam mal dele, e de julgar-lhes imparcialmente a conduta, mesmo

quando voltada contra si.

"O mundo para mim foi muito forte, sei disso," disse ele um dia a

Lydgate. "E eu não tenho a mesma força - nunca serei um homem de


renome. A escolha de Hércules é uma bela fábula; mas Pródico facilita os

trabalhos do herói, como se as primeiras resoluções bastassem. Outra

VI,

MIDDLEMARCH

209

história diz que ele acabou por manejar a roca, e finalmente vestiu a

túnica de Nesso.1 Suponho que uma boa resolução possa manter um

homem certo, se a resolução de cada um dos demais o ajudar."

A conversa do Pastor nem sempre era muito inspiradora: ele escapa-

ra de ser um Fariseu, mas não havia escapado a essa baixa estimativa

das possibilidades a que chegamos meio às carreiras, como inferência de

nosso próprio fracasso. Lydgate pensou que havia uma lamentável do-

ença da vontade em Mr. Farebrother.

Tródico, sofista grego do século V a.C., é célebre por seu mito de Hércules

(Héracles) a

escolher entre a Virtude e o Vício. A túnica de Nesso, envenenada com o

sangue deste

centauro, causou a morte de Hércules, ao lhe ser erroneamente enviada por

sua esposa, que

tomara aquele sangue por um filtro de amor.

CAPÍTULO XIX

"Ealtra vedete ch"ha fatto alla guancia

Della sua palma, sospirando, letto."


- Purgatorio, vii.

€A outra, vede, havia feito da palma

da própria mão um leito, suspirando.")

- Purgatório, vii.

QUANDO JORGE IV AINDA reinava sobre as privacidades de Windsor, quan-

do o Duque de Wellington era Primeiro-Ministro, e Mr. Vincy era prefeito

da velha comarca de Middemarch, Mrs. Casaubon, nascida Dorothea

Brooke, empreendia em Roma sua viagem de núpeias. Nesse tempo, o

mundo em geral era mais ignorante sobre o bem e o mal, por quarenta

anos, do que hoje em dia. Nem sempre os viajantes levavam plena informa-

ção, fosse na cabeça ou no bolso, sobre a arte cristã; e até mesmo o mais

brilhante crítico inglês da época tomou a tumba florida da Virgem em ascen-

são por um vaso ornamental procedente da fantasia do pintor." O romantis-

mo, que ajudou a preencher algumas lacunas obscuras com conhecimento e

amor, ainda não havia misturado seu fermento na época, e assim se tornado

parte da alimentação para todos; efervescia ainda ele no entusiasmo clara-

mente vigoroso de alguns artistas alemães de basta cabeleira em Rorna," e

jovens de outras nações, que a seu redor trabalhavam ou flanavam, eram

muitas vezes engolfados no movimento em expansão.

"Alusão a um engano que William Hazlitt cometeu ao escrever sobre "A

coroação da Virgern%

de Rafael, no livro Notes of a journey through France and Italy (1826).

2AIusão aos pintores nazarenos, alemães que buscavam, como os pré-rafaelitas

ingleses da

mesma época, um retorno à pureza da arte medieval.

MIDDLEMARCH
211

Uma bela manhã, um jovem cujo cabelo não era desmedidamente

longo, mas sim abundante e cacheado, e que no mais, por sua indumentária,

era bem inglês, tinha acabado de dar as costas para o Torso do Belvedere,

no Vatícano, e estava olhando a magnífica vista das montanhas que se

descortina do arredondado vestíbulo adjacente. E estava tão completa-

mente absorto que nem notou a aproximação de um alemão animado, de

olhos escuros, que chegou junto dele e, colocando-lhe a mão no ombro,

disse com um forte sotaque: "Warnos, rápido! se não ela terá mudado de

pose."

Não se fez a rapidez de rogada, e logo as duas figuras passavam

lepidamente pelo Meléagro em direção à sala onde a Ariadne em re-

pouso, então chamada de Cleópatra, jaz na voluptuosidade marmórea

de sua beleza, envolta num panejamento que a cinge na mais suave

carícia, como que de pétala. Chegaram lá ainda a tempo de ver outra

figura, que, perto do mármore recumbente, apoiava-se num pedestal:

uma arfante menina em flor cujas formas, não ofuscadas pelas de

Ariadne, cobriam-se de um panejamento cinzento à moda quacre; sua

capa comprida, abotoada no pescoço, caía-lhe para trás dos braços, e

uma bonita mão sem luva amparava-lhe a face, tendo empurrado um

pouco para o alto o chapéu branco de castor que, em tomo do cabelo

castanho-escuro simplesmente preso com uma fita, fazia para o seu

rosto uma espécie de halo. Não só ela não olhava a escultura, como

provavelmente nem pensava nela: seus olhos grandes mantinham-se

sonhadoramente cravados numa réstia de sol que batia de través no

piso. Apercebeu-se porém dos dois estranhos, que pararam de repente

como que a fim de contemplar a Cleópatra, e sem olhar para eles vi-

rou-se de imediato para ir juntar-se a uma acompanhante e um guia

que flanavam pela sala a pequena distância.


"Que acha deste pedacinho de antítese?" disse o alemão, procuran-

do no rosto do amigo uma admiração como a sua, mas indo em frente

voluvelmente sem esperar qualquer resposta. "Lá repousa a beleza anti-

ga, que nem na morte é cadavérica, mas apreendida no contentamento

completo de sua perfeição sensual: e aqui se ergue a beleza viva, a que

respira, com a consciência dos séculos cristãos em seu âmago. Ela porém

deveria estar vestida de freira; acho-a bem parecida com o que vocês

chamam de quacre; em meu quadro eu a vestiria de freira. No entanto, é

casada; vi a aliança que tem na mão esquerda, tão linda, e teria até

pensado, não fosse isto, que o lívido Geisdicherl era o pai. Vi-o quando

"Em alemão no original: "clérigo."

212

GEORGE EiAOT

ainda há pouco se despediam, e agora acabo de encontrá-la nessa pose

fantástica. Quem sabe ele é rico, imagine só, e queira que pintem o re-

trato dela? Ah! não adianta mais procurar - lá se vai ela! Vamos segui-

Ia até em casa!"

"Não, não," disse seu companheiro, mostrando algum desagrado.

"Você é estranho, Ladislaw. Parece que ficou abalado. Por acaso sabe

quem é ela?"

"Sei que é casada com meu primo," disse Will Ladislaw, caminhan-

do devagar pela sala com um ar preocupado, enquanto seu amigo ale-

mão ia a seu lado e o observava atentamente.

"O quê, o Geisfficher? Parece mais ser um tio - grau de parentesco

aliás mais útil."

"Pois não é meu tio. Ele é meu primo em segundo grau," disse

Ladislaw, com certa irritação.


"Schon, schon.I Vamos, não fique zangado. Não se aborreça comigo

por achar que a Senhora Prima-em-Segundo é a mais jovem e perfeita

Madona que eu já vi!"

"Zangado? Absurdo! Eu antes só a tinha visto uma vez, por alguns

minutos, quando meu primo a apresentou a mim, pouco antes de eu sair

da Inglaterra. Eles ainda não estavam casados. Nem eu sabia que acaba-

riam vindo a Roma."

"Mas agora há de estar com eles - há de descobrir o endereço onde

estão -já que sabe o nome. Que tal se formos ao correio? E você pode-

ria falar sobre o retrato."

"Não me amole, Naumann! Não sei o que eu vou fazer. Não sou tão

atrevido como você."

"Bah! isto porque é um diletante, um amador. Se você fosse tim

artista, pensaria na Senhora Prima-em-Segundo como uma forma an ti ga

animada pelo sentimento cristão - uma espécie de Antígona cristã - a

força sensual controlada pela paixão espiritual."

"Sim, e que a razão central da existência dela era ser pintada por

você - a divindade passando a um completamento mais alto e por pou-

co não se exaurindo no ato de cobrir o seu pedaço de tela. Sou amador,

se você quiser: eu não penso que todo o universo se mova em direção à

obscura significação dos seus quadros."

"Mas ora se não, meu caro! - e na medida em que se move por

intermédio de mim, Adolf Naumann: que agüenta firme," disse o pintor

de bom gênio, pondo a mão no ombro de Ladislaw e nem um potico

Tru alemão no original: "Está bem, está bem."

MIDDLEMARCH

213
incomodado com a inexplicável nota de mau humor em seu tom. "Veja

bem! Minha existência pressupõe a existência de todo o universo - não

é? e minha função é pintar - e eu como pintor tenho uma concepção,

que é de todo genialisch, 1 de sua tia-avó ou de sua tataravó como tema de

uma pintura; por conseguinte, o universo se move em direção a tal pin-

tura por meio desse determinado gancho ou garra que cresceu em forma

de mim - não é verdade?"

"Mas e se outra garra, esta em forma de mim, também mover-se em

sentido contrário? - o caso então é um pouco menos simples."

"Nada disto: o resultado da luta é a mesma coisa - na pintura ou

fora dela - logicamente." Will não podia resistir a este temperamento

imperturbável, e a nuvem que lhe toldava o rosto se dissipou num riso

ensolarado.

"Vamos lá, amigo - será que você me ajuda?" disse Naumann, num

tom esperançoso.

"Não; é um absurdo, Naumann! As damas inglesas não se põem

como modelos a serviço de todos. E é muito o que com a sua pintura

você quer exprimir. Faria apenas um retrato, que poderia sair melhor ou

pior, com um fundo que por diferentes razões agradaria ou não aos en-

tendidos. E um retrato de mulher, o que é? Sua pintura e as Artes Plás-

ticas -2 em suma, pobre coisa elas são! Perturbam e obscurecem as con-

cepções, ao invés de elevá-las. Mais digna como meio é a linguagem."

", para quem não sabe pintar," disse Naumann. "Nisto você tem

toda a razão. Eu nunca lhe recomendei que pintasse, meu amigo."

O amável artista desprendeu seu veneno, mas Ladislaw não quis

mostrar que havia sentido a ferroada. Continuou como se não tivesse

escutado:

"A linguagem dá uma imagem mais completa, tanto melhor quanto

mais vaga. Afinal, a visão verdadeira está por dentro; e a pintura o que

faz é olhar-nos com uma imperfeição insistente. Sinto-o de um modo

todo especial com as representações de mulheres. Como se uma mulher


fosse apenas simples planos de cor! E o movimento e o tom que a gente

deve esperar? Até na respiração delas há uma diferença: as mulheres

mudam de momento a momento. - Esta mesma que você viu ainda há

pouco, por exemplo: como haveria de pintar-lhe a voz, hem? No entan-

to a voz dela é mais divina, muito mais, que tudo o que você pôde ver."

"Entendo, entendo. Você está é com ciúmes. Não há quem possa

"Em alemão no original: "genial, origina]."

"Em alemão no original: Plastik,

214

GEORGE ELIOT

presumir-se capaz de pintar o seu ideal.  sério, amigo! Sua tia-avó! "Der

Neffe als OnkeV num sentido trágico - ungelimerP" 1

"Nós vamos acabar brigando, Naumann, se você chamar esta senho-

ra de minha tia outra vez."

"Como devo então chamá-la?"

"Mrs. Casaubon."

"Está bem. Pois suponhamos que eu venha a conhecê-la, apesar de

você, e descubra que ela adoraria ser pintada?"

"Sim, suponhamosV" disse Ladislaw, num subtom desdenhoso, re-

solvido a encerrar o assunto. Tinha consciência de se deixar irritar por

causas de uma insignificância ridícula, que em grande parte eram de sua

criação. Por que fazia ele tanta confusão acerca de Mrs. Casaubon? Sen-

tia-se entretanto como se algo lhe tivesse acontecido em relação a ela.

Há personagens assim, constantemente criando para si tramas e encon-

tros em dramas que ninguém está preparado para representar com eles.

Suas susceptibilidades hão de se chocar com objetos que se mantêm

inocentemente tranqüilos.
"Em alemão no original: "O Sobrinho como Tio... monstruoso."

"1

CAPÍTULO XX

A child forsaken, waking suddenly,

Whose gaze afeard on all things round doth rove,

And seeth orily that ít carinot see

The meeting eyes of love.

Criança largada, que brusco desperta,

Pelas coisas que a cercam corre o olhar alarmado,

E vê que apenas não consegue ver

Olhos de amor ao lado.

DUAS HORAS MAIS tarde, Dorothea estava sentada na elegante sala íntí-

ma ou boudoir de um belo apartamento na Via Sistina.

Lamento acrescentar que se dava a desgostosos soluços, nesse aban-

dono para o alívio de um coração oprimido que uma mulher habitual-

mente controlada por orgulho de si e consideração com os outros há de

se permitir às vezes quando se sente seguramente sozinha. E era certo

que Mr. Casaubon ainda ficaria algum tempo fora, no Vaticano.

Entretanto Dorothea não tinha alguma dor definida, de nítida con-

formação, que ao menos pudesse revelar a si mesma; e em meio ao con-

fuso estado de seu pensamento e paixão, o ato mental que relutava em

passar à claridade era um grito de auto-acusação de que a culpa por

aquele desolado sentimento provinha da própria pobreza de seu espíri-

to. Casara-se com o homem de sua escolha, e com a vantagem, sobre a

maioria das moças, de haver contemplado o casamento, principalmente,


como o começo de novas obrigações: desde os primeiros dias, pensara

que Mr. Casaubon, tendo a mente tão acima da sua, muitas vezes teria

de ser solicitado por estudos que ela não poderia partilhar totalmente;

além disto, após a breve e acanhada experiência de sua meninice ela

216

GEORGE ELIOT

estava em face de Roma, a cidade da história visível, onde o passado de

todo um hemisfério parece mover-se em cortejo fúnebre com estranhas

imagens e troféus ancestrais vindos de longe.

Mas este fragmentarismo estupendo acentuava a estranheza de so-

nho da sua vida de recém-casada. Dorothea já estava em Roma há cinco

semanas e, nas manhãs amenas quando outono e inverno pareciam ir de

mãos dadas como um casal de velhos felizes, um dos quais se quedaria

para sobreviver atualmente no frio da solidão, ela a princípio percorrera

a cidade com Mr. Casaubon, fazendo-o mais ultimamente, contudo, com

Tantripp e seu tarimbado guia. Tinha sido levada aos melhores museus,

conduzida para apreciar as mais belas vistas, para ver as grandes ruínas

e as igrejas mais gloriosas, e na maioria das vezes terminava preferindo

sair para uma volta na Campagna, onde podia se sentir sozinha com a

terra e o céu, longe da opressiva mascarada dos tempos na qual sua

própria vida parecia tomar-se uma comédia também, com enigmáticos

costumes.

Para aqueles que contemplaram Roma com a força vivificante de um

conhecimento que insufla alma às formas históricas, e retraça as transi-

ções suprimidas que unem todos os contrastes, Roma ainda pode ser o

centro espiritual e a intérprete do mundo. Mas deixemo-los que conce-

bam mais um contraste histórico: as gigantescas e acidentadas revela-

ções desta cidade Imperial e Papal lançadas abruptamente sobre as no-


ções de uma moça criada no puritanismo inglês e suíço, nutrida de medío-

cres histórias protestantes e uma arte que em geral se resumia ao artesa-

nato de adornos; moça cuja natureza ardente transformava todo seu

pequeno quinhão de conhecimento em princípios, pelo molde dos quais

vazava suas ações, e cujas emoções muito intensas davam às coisas mais

abstratas uma qualidade de prazer ou de dor; moça que ultimamente se

transformara em esposa e que, por sua aceitação entusiasmada que um

dever que não conhecia, via-se mergulhada agora numa preocupação

tumultuosa com sua sorte, O peso da ininteligível Roma bem que podia

repousar com leveza sobre essas ninfas vivazes que a tomavam por um

fundo para os brilhantes piqueniques da sociedade anglo-estrangeira;

mas Dorothea não tinha tal defesa contra impressões profundas. Ruínas

e basílicas, palácios e colossos, postos no meio de um presente sórdido,

onde tudo o que existia de vivente e sangüíneo parecia estar imerso na

degradação de uma superstição divorciada da reverência; a vida titânica,

indistinta no entanto ávida, a espreitar e debater-se pelas paredes e te-

tos; as longas vistas de formas brancas em cujos olhos de mármore dir-

se-la retida a luz monótona de um mundo alheio a quem somos: todos

MIDDLEMARCH

217

esses vastos destroços dos ideais mais ambiciosos, sensuais e espiri-

tuais, confusamente misturados com as marcas do esquecimento e da

decadência em processo, atingiram-na a princípio como um choque elé-

trico, precipitando-se a seguir sobre ela com essa dor intrinseca a uma

indigestão de idéias confusas que impede o fluxo da emoção. Quer lívi-

das, quer fulgurantes, tais formas se apossaram de seus jovens sentidos


e fixavam-se em sua memória mesmo quando ela não pensava nelas,

preparando estranhas associações que permaneceriam pelos anos ulterio-

res. Nossos estados de espírito tendem a trazer-nos imagens que vão

passando em sucessão como as figuras de lanterna-mágica vistas num

cochilo; e em certos estados de sombrio desalento Dorothea continuou

por toda a vida a ver a vastidão de São Pedro, o imenso baldaquim de

bronze, a intenção exacerbada nas atitudes e vestes dos profetas e evange-

listas nos mosaicos acima e os panos vermelhos que estavam sendo pen-

durados para o Natal a desdobrarem-se por toda parte como uma doen-

ça da retina.

Não que este pasmo no íntimo de Dorothea fosse coisa das mais

excepeionais: muitas almas em sua jovem nudez são atiradas em meio a

incongruências e aí deixadas para "tomar pé," enquanto os mais velhos

vão-se ocupar dos seus negócios. Tampouco posso eu supor que, quan-

do Mrs. Casaubon é descoberta num ataque de choro seis semanas após

seu casamento, a situação haja de ser considerada trágica. Certo

desencorajamento, com o coração a retrair-se ante o futuro novo e real

que substitui o imaginário, não é incomum, e não esperamos que as

pessoas se comovam a fundo com o que não é incomum. Esse elemento

de tragédia que reside na própria idéia de freqüência ainda não se

entreteceu à emoção crua da humanidade; e talvez nosso arcabouço mal

o conseguisse suster. Se tivéssemos uma visão e uma percepção acuradas

de toda a vida humana ordinária, seria como ouvir o crescimento da

grama, ou as batidas de coração do esquilo, e morreríamos daquele fragor

que há no outro lado do silêncio. Tal como é, o mais rápido de nós vai a

chapinhar como pode, atolado na ignorância.

Contudo, Dorothea estava chorando e, se fosse instada a declarar a

causa, quando muito poderia fazê-lo com palavras tão vagas como as

que eu já usei: ser impelida a entrar em pormenores seria como tentar

empreender uma história que narrasse luzes e sombras; pois este futuro

novo e real que estava substituindo o imaginário ia buscar substância


nas infindas minúcias pelas quais suas opiniões sobre Mr. Casaubon e

sua relação conjugal, agora que era a esposa dele, mudavam gradual-

mente com os movimentos furtivos de um ponteiro de relógio, afastan-

218

GEORGE ELIOT

do-se do que haviam sido no seu sonho de moça. Ainda era muito

cedo para ela reconhecer plenamente ou pelo menos admitir a mudan-

ça, e ainda mais para que tivesse recomposto aquele devotamento, uma

parte tão necessária de sua vida mental que era quase certo que ela

acabaria por recuperá-la em dado momento. A rebelião permanente, a

desordem de uma vida sem uma resolução de amor reverente, não lhe

era possível; mas ela agora estava num intervalo em que a própria for-

ça de sua natureza aumentava sua confusão. Deste modo, os primeiros

meses de casamento são com freqüência tempos de tumulto crítico -

seja num lago raso ou em águas profundas - que depois se acomodam

no regozijo da paz.

Mas não era Mr. Casaubon tão erudito como antes? Tinham suas

formas de expressão se alterado, ou seus sentimentos se tornado menos

louváveis? Ah, os caprichos das mulheres! sua cronologia o traía, ou sua

capacidade de expor não só uma teoria, mas também os nomes dos que

a defendem; ou sua rapidez para fornecer a pedido os principais tópicos

de qualquer assunto? E não era Roma o lugar mais indicado do mundo

para dar a tanto talento expansão plena? Ademais, o entusiasmo de

Dorothea não havia residido particularmente na perspectiva de aliviar o

peso e quiçá a tristeza que as grandes tarefas jogam sobre os ombros de

quem tem de realizá-las? - E ainda estava mais claro do que antes que

este peso oprimia Mr. Casaubon.

Todas estas perguntas machucam muito; mas, seja o que for que
permanece o mesmo, a luz mudou, e não se pode encontrar ao meio-dia

o nácar do amanhecer.  inalterável o fato de que um pobre mortal com

cuja natureza você só toma contacto durante as breves entradas e saídas

de umas poucas semanas imaginativas chamadas de namoro possa, quan-

do visto na continuidade do companheirismo conjugal, revelar-se pior

ou melhor do que havia você preconcebido, mas certamente não há de

parecer mais o mesmo. E seria espantoso constatar em quanto tempo a

mudança é notada, se não tivéssemos mudanças análogas às quais

compará-la. Partilhar um recinto com um brilhante companheiro de mesa,

ou ver seu político favorito no Ministério, pode ocasionar mudanças na

mesma rapidez: nestes casos também começamos sabendo pouco e acre-

ditando muito, e às vezes terminamos invertendo as quantidades.

Contudo, tais comparações podem causar confusão, pois não havia

homem mais incapaz de ostentosos fingimentos do que Mr. Casaubon:

personagem tão autêntico quanto qualquer ruminante, ele nunca se

empenhara ativamente por criar ilusões a seu respeito. Como foi que

nas semanas de após o casamento Dorothea não notou nitidamente,

MIDDLEMARCH

219

porém sentiu numa depressão sufocante, que as amplas vistas e os no-

vos e vastos ventos que ela sonhara encontrar na mente do marido ha-

viam sido substituídos por ante-salas e corredores sinuosos que pare-

ciam levar a parte alguma? Suponho que porque no namoro tudo é visto

como preliminar e provisório, e a menor amostra de virtude ou prenda é

tomada como garantia de deliciosas reservas que o espaçoso lazer do

casamento há de revelar. Porém, uma vez cruzada a soleira do casamen-

to, a expectativa se concentra no presente. Tendo embarcado em sua

viagem marital, é impossível você não perceber que nunca consegue abrir
caminho e que o mar nem mesmo está à vista - que na realidade você

está explorando uma bacia fechada.

Em suas conversas de antes do casamento, muitas vezes Mr.

Casaubon se demorara nalguma explicação ou pormenor questionável

cujo sentido Dorothea não alcançava; mas esta coerência imperfeita pa-

recia devida à intermitência das suas relações e, amparada pela fé no seu

futuro em comum, ela havia escutado com paciência férvida uma recita-

ção dos possíveis argumentos a serem levantados contra a visão inteira-

mente nova que Mr. Casaubon tinha do deus filisteu Dagon e outros

deuses-peixes, pensando que doravante ela deveria ver este tema, que o

apaixonava tanto, quase a partir do elevado nível onde o mesmo se tor-

nara sem dúvida tão importante para ele. Por outo lado, o tom de impo-

sição e rejeição com que ele tratava o que eram para ela os pensamentos

mais excitantes podia ser facilmente atribuído àquele clima de pressa e

preocupação de que ela também participara durante o tempo de noiva-

do. Mas agora, desde que haviam chegado a Roma, com as profundezas

de sua emoção alçadas a uma atividade tumultuosa, e com a vida feita

um novo problema por novos elementos, cada vez mais ela passava a

perceber, não sem terror, que sua mente dava contínuas guinadas para

acessos calados de repulsa e raiva, quando não se entregava a uma lassi-

dão sem consolo. Até que ponto o judicioso Hooker ou qualquer outro

herói da erudição seria o mesmo no tempo de vida de Mr. Casaubon, ela

não tinha como saber, e ele portanto não podia ter a vantagem da com-

paração; mas o modo de seu marido comentar os objetos estranhamente

impressivos que os rodeavam havia começado a afetá-la com uma espé-

cie de arrepio mental: quiçá tinha ele a melhor das intenções de desem-

penhar condignamente seu papel, mas não mais que desempenhar. O

que era novo para ela, era, para ele, cediço; e aquela capacidade de pen-

sar e sentir, tal como outrora estimulada nele pela vida geral da humani-

dade, estava reduzida de há muito a uma espécie de preparado seco, um

inerme embalsamamento do saber.


220

GEORGF FLIOT

Quando ele dizia: "Está interessada, Dorothea? Vamos ficar mais

um pouco? Se você quiser, eu fico," - a ela parecia que partir ou ficar

era igualmente triste. Oti: "Quer ir até a Farnesina, Dorothea?  lá que

estão os célebres afrescos desenhados ou pintados por Rafael, que no

entender da maioria são dignos de uma visita."

"Mas pessoalmente você tem interesse?" perguntava como sempre

Dorothea.

"São tidos em alta estima, creio eu. Alguns deles representam a fá-

bula de Cupido e Psiquê, que provavelmente é a invenção romântica de

um período literário e não pode, penso, ser reconhecida como um pro-

duto mítico autêntico. Mas, se você gosta de pinturas murais, será fácil

nós darmos uma chegada lá; e haverá de então ter visto, creio eu, as

principais obras de Rafael, qualquer uma das quais seria uma pena dei-

xar de visitar em Roma. Ele é o pintor que foi tido por combinar o mais

completo encanto da forma com a sublimidade de expressão. Tal é ao

menos, pelo que infiro, a opinião dos conoscentU"

Este tipo de resposta em comedido tom oficial, como o de um pastor

lendo de acordo com os ritos, não contribuía para justificar as glórias da

Cidade Eterna, nem para dar a Dorothea a esperança de que, se acaso

soubesse mais sobre elas, o mundo se lhe tomaria repleto de alegria e

luz. Dificilmente pode haver contacto mais deprimente para uma criatu-

ra jovem e ardorosa do que o mantido com um espírito no qual os anos

preenchidos de conhecimento parecem ter desembocado numa ausência

impérvia de simpatia ou de interesse.

Sobre outros assuntos Mr. Casaubon mostrava graus de tenacidade

e envolvirriento como os que normalmente são tomados por efeitos do


entusiasmo, e Dorothea se abria à ânsia de seguir nesta direção espontâ-

nea de seus pensamentos, ao invés de ser levada a sentir que o afastava

dela. Mas gradualmente ela cessava de esperar com a confiança deleito-

sa de antes que ainda viesse a ver aonde o seguia uma abertura ampla

qualquer. O pobre do Mr. Casaubon estava por, sua vez perdido entre

minúsculos compartimentos e tortuosas escadas, e numa obscura agita-

ção sobre os Cabeiri, ou num desmascaramento dos paralelos mal con-

siderados de outros mitologistas, perdendo facilmente de vista todos os

objetivos que o haviam impulsionado ao labor. Com sua vela plantada

no nariz, já se esquecera da ausência de janelas e, em amargas notas

manuscritas quanto às noções de outros homens sobre as divindades

solares, tomara-se indiferente à luz do sol.

"Deuses da fertilidade, na Sarriotrácia.

MIMUMARCH

221

Estas características, fixas e imutáveis como o osso em Mr. Casaubon,

poderiam ter passado mais tempo despercebidas por Dorothea, houves -

se ela sido estimulada a dar vazão aos seus sentimentos de menina e

mulher - se ele lhe tivesse tornado as mãos entre as dele, para ouvir

com o prazer da ternura e da compreensão todas as pequenas histórias

de que sua experiência era feita, e a ela dado em retribuição uma intimi-

dade da mesma espécie, para que a vida anterior de cada um pudesse ser

incluída em seu mútuo conhecimento e afeição - ou se ela pudesse ter

nutrido sua própria afeição com essas carícias pueris para que todas as

mulheres carinhosas têm queda, desde que começam a cobrir de beijinhos

o quengo duro de sua descabelada boneca, criando-lhe com a riqueza de

seu amor, dentro do corpo de madeira, uma alma feliz. Para isto, Dorothea
tinha sua queda. Com toda aquela ânsia de saber o que estava a grande

distância e de ser benévola ao máximo, tinha porém suficiente ardor

para o que estava perto, para beijar a manga do casaco de Mr. Casaubon,

por exemplo, ou acariciar-lhe o cordão do sapato, caso ele tivesse dado

qualquer outro sinal de aceitação além de a declarar, com sua retidão

infalível, de natureza afetuosa ao extremo e verdadeiramente feminina,

indicando ao mesmo tempo, ao polidamente alcançar uma cadeira para

ela, que considerava tais manifestações algo primitivas e assustadoras.

Tendo feito sua toalete clerical com o devido cuidado pela manhã, ele só

estava preparado para aquelas amenidades da vida que correspondiam à

gravata apertada e engomada da época e a uma mente sobrecarregada

de matérias não publicadas.

E, por uma triste contradição, as idéias e resoluções de Dorothea

assemelhavam-se a um bloco de gelo que se fundia e perdia na torrente

quente da qual elas não tinham sido senão uma outra forma. Humilha-

va -a descobrir-se simples vítima dos sentimentos, como se nada ela pu-

desse saber a não ser por este meio: todo seu vigor se esvaía na agitação,

nas lutas, no abatimento que a acometiam em ondas, e então de novo

em visões da mais completa renúncia, transformando em dever todas as

duras condições. Pobre Dorothea! sem dúvida ela era um incômodo -

principalmente para si mesma; mas nesta manhã pela primeira vez ela

estava sendo um incômodo para Mr. Casaubon.

Havia começado, enquanto os dois tomavam café, pela determina-

ção de se livrar do que ela considerava seu egoísmo, e foi um semblante

cheio de alegre atenção que voltou para o marido quando ele disse: "Minha

querida Dorothea, devemos pensar agora em tudo o que ficou por fazer,

como preliminar à nossa partida. De bom grado eu teria regressado mais

cedo para que pudéssemos estar em Lowick para o Natal; mas minhas

222
GEORGE ELIOT

pesquisas prolongaram-se além do prazo previsto. Acredito contudo que

o tempo aqui passado não lhe foi desagradável. Entre as glórias da Eu-

ropa, Roma foi sempre tida como uma das mais impressionantes e, sob

certos aspectos, edificantes. Lembro-me bem que considerei uma gran-

de ocasião de minha vida, quando a visitei pela primeira vez; após a

queda de Napoleão, fato que abriu o Continente aos viajantes. Creio

com efeito que ela é uma dentre várias cidades às quais tem sido aplica-

da uma hipérbole exagerada -"Ver Roma e depois morrer:" mas em seu

caso eu proporia uma emenda e diria: Ver Roma como recém-casada e

depois viver como uma esposa feliz."

Mr. Casaubon pronunciou este pequeno discurso com a mais consci-

enciosa das intenções, piscando um pouco, abaixando e levantando a

cabeça, e concluindo com um sorriso. Não se lhe afigurara o casamento

um estado de muito enlevo, mas a idéia de poder ser outra coisa que não

um marido irrepreensível, capaz de dar a uma mulher encantadora e

jovem toda a felicidade que ela merecia, nunca lhe ocorrera também.

"Espero que você esteja plenamente satisfeito com nossa estada -

quero dizer, com o resultado obtido no tocante aos seus estudos," dis-

se Dorothea, tentando manter a mente fixa no que mais afetava seu

marido.

"Sim," disse Mr. Casaubon, naquele tom de voz peculiar que toma

a palavra uma meia negação. "Fui levado além do que eu havia antevis-

to, e apresentaram-se-me para anotação vários assuntos que, apesar

de eu não ter necessidade direta deles, não podia deixar de lado. A

tarefa, não obstante a ajuda do meu amanuense, foi algo estafante,

mas felizmente sua companhia salvou-me do que era a cilada da minha

vida solitária, o contínuo prolongamento do pensar além das horas de

estudo e trabalho."

"Que alegria saber que minha presença fez diferença para você," dis-
se Dorothea, com vívida memória das noites em que ela havia suposto

que o espírito de Mr. Casaubon fora fundo demais durante o dia para ser

capaz de voltar à superfície. Temo que houvesse em sua resposta um

certo quê de irritação. "Espero que, quando chegarmos a Lowick, eu

venha a ser mais útil para você, e capaz de participar um pouco mais dos

seus interesses."

"Sem dúvida, minha querida," disse Mr. Casaubon, com uma ligeira

curvatura. "As notas que eu tomei ainda têm de ser peneiradas, e você,

se quiser, pode passá-las a limpo sob minha direção."

"E todas as suas notas," disse Dorothea, cujo coraçao ja se ocupara

tanto deste assunto que no momento ela não tinha senão como botar

MIDDLEMARCH

223

para fora o que lhe ardia no íntimo. "Todas aquelas fileiras de volumes -

você agora não vai fazer com elas o que costumava dizer que ia? - não

vai decidir que partes há de usar, e começar a escrever o livro que tomará

seu vasto conhecimento útil para o mundo? Pois eu hei de escrever o que

você ditar, ou de extrair e copiar o que me mande fazer: não sirvo para

outra coisa." Da maneira mais inexplicável, obscura e feminina, Dorothea

terminou com alguns soluços e os olhos cheios de lágrimas.

Só a excessiva manifestação de sentimento já teria sido para Mr.

Casaubon muito perturbadora, mas havia outras razões para que as pa-

lavras de Dorothea lhe soassem como as mais ferinas e irritantes dentre

as que ela poderia ser compelida a empregar. Estava tão cega para os

problemas dele, de fato, como ele para os dela; ainda não tomara cons-

ciência dos conflitos internos de seu marido, que clamam por nossa com-

paixão. Ainda não escutara com paciência o coração bater-lhe, sentindo

apenas que o seu próprio batia violentamente. Aos ouvidos de Mr.


Casaubon, a voz de Dorothea deu alta e enfática iteração a certas suges-

tões abafadas da consciência que era possivel explicar como mera fanta-

sia, a ilusão de uma susceptibilidade exagerada: sempre que inequivoca-

mente repetidas desde fora, estas sugestões encontram resistência, sen-

do tomadas por cruéis e injustas. Se somos encolerizados até mesmo

pela plena aceitação de nossas confissões humilhantes - quanto mais

por ouvir dos lábios de um observador próximo, em sílabas duras e dis-

tintas, os murmúrios confusos que tentamos rotular de mórbidos e com-

bater com energia, como se fossem eles os primeiros sinais de algum

profundo torpor! E este cruel acusador externo ali estava em forma de

esposa - não, em forma de uma jovem recém-casada que, ao invés de

observar seus copiosos rabiscos e a amplidão de suas resmas com o te-

mor respeitoso e jamais crítico de um canário tendente à elegância de

espírito, parecia apresentar-se como espiã, tudo observando com um

maligno poder de inferência. Aqui, no tocante a este determinado ponto

do círculo, a susceptibilidade de Mr. Casaubon correspondia à de

Dorothea, como igual era sua rapidez para imaginar mais que o fato. A

capacidade de adoração que ela tinha pelo objeto correto já havia sido

observada por ele, antes, com aprovação; e ele agora antevia com súbito

terror que tal capacidade poderia ser substituída pela presunção, esta

adoração pela mais exasperante de todas as críticas - a que vagamente

distingue um grande número de belos objetivos e não tem a menor idéia

de quanto custa alcançá-los.

Pela primeira vez desde que Dorothea o conhecia, o rosto de Mr.

Casaubon foi tingido por um célere rubor de zanga.

224

GEORGE ELIOT

"Meu amor," disse ele, com sua irritação sofreada pelo comedimento,
você pode confiar em mim para saber o tempo e as estações mais ade-

quados às diferentes etapas de uma obra que não é para ser medida

pelas conjecturas singelas de ignorantes espectadores. Para mim teria

sido fácil causar um efeito temporário por meio de uma miragem de

opiniões sem fundamento; mas a provação do explorador escrupuloso é

sempre ser saudado pelo desprezo impaciente dos gárrulos que não ten-

tam senão as realizações mais insignificantes, já que de fato para outras

não estão preparados. E seria bom se todos eles pudessem ser exortados

a estabelecer distinção entre os julgamentos cujo verdadeiro objeto jaz

inteiramente fora de seu alcance e aqueles cujos elementos podem ser

apreendidos por um exame superficial e restrito."

Este discurso foi pronunciado por Mr. Casaubon com uma energia e

presteza que lhe eram bem incomuns. Com efeito, não chegava a ser um

improviso, mas tomara forma num colóquio interior, sendo expelido como

as sementes de um fruto cuja casca de repente é rachada pelo calor.

Dorothea não era somente sua esposa: era uma personificação desse

mundo insípido a circundar o autor que desanima ou é mal apreciado.

Dorothea por sua vez ficou indignada. Não havia ela reprimido tudo

em si mesma, exceto o desejo de participar de alguma forma dos princi-

pais interesses de seu marido?

"Meu julgamento foi muito superficial - tal como eu sou capaz de

fazer," respondeu ela, com um ressentimento imediato que prescindia

de ensaios. "Você me mostrou toda a série de cadernos de notas - sem-

pre me falou deles - sempre disse que ainda faltava digeri-los. Mas eu

nunca lhe ouvi falar da obra a ser publicada. Eis que eram fatos muito

simples, e meu julgamento jamais foi além disso. Eu apenas lhe pedi

que me deixasse ser de alguma utilidade a você."

Dorothea levantou-se para sair da mesa e Mr. Casaubon nada repli-

cou, apanhando uma carta que jazia a seu lado como que para fazer uma

releitura. Ambos estavam chocados com a situação na qual se viam -

que cada um houvesse demonstrado raiva do outro. Se fosse em casa,


com os dois instalados em Lowick na sua vida ordinária entre os vizi-

nhos, o confronto teria sido menos embaraçoso: mas numa viagem de

núpeias, cuja finalidade expressa é isolar duas pessoas com base na su-

posição de que cada uma é para a outra o mundo todo, a impressão de

desacordo é, para não dizer muito, algo que estultifica e confunde. Ter

mudado radicalmente de longitude, e se colocado numa solidão moral

só para ter pequenas explosões, para achar difícil conversar e passar sem

olhar um copo d"água, nem mesmo às mentes mais grosseiras pode pa-

MIDDLEMARCH

225

recer realmente uma consumação adequada. · inexperiente susceptibi-

lidade de Dorothea, pareceu uma catástrofe, mudando todas as perspec-

tivas; e para Mr. Casaubon foi uma nova dor, pois nunca ele havia estado

antes numa viagem de núpeias, nem se encontrado numa união assim

tão íntima que era uma sujeição maior do que pudera imaginar, já que

esta jovem esposa encantadora não só lhe impunha muita consideração

para com ela (o que assiduamente ele demonstrara), mas também se

revelava capaz de o inquietar cruelmente, logo onde ele mais precisava

ser apaziguado. Ao invés de conseguir uma cerca que o protegesse com

meiguice da audiência sombria, fria e sem aplausos de sua vida, não lhe

teria ele apenas dado uma presença mais substancial?

Nenhum dos dois sentia ser possível falar de novo por ora. Alterar

uma combinação prévia e recusar-se a sair teria sido uma demonstração

de raiva persistente a que a consciência de Dorothea se furtou, vendo que

ela mesma já começava a se sentir culpada. Por mais justa que sua índig-

nação pudesse ser, seu ideal não era pedir justiça, mas dar carinho. Assim,

quando chegou à porta a carruagem, ela foi com Mr. Casaubon para o

Vaticario, com ele andou pelas lajotas do caminho das inscrições e, após
despedir-se dele na entrada da Biblioteca, pôs-se a vagar pelo Museu,

totalmente indiferente a tudo o que a rodeava. Não tinha ânimo para

voltar e dar ordens de ser levada alhures. E foi quando Mr. Casaubon se

separava dela que Naumann a viu pela primeira vez, e ele havia entrado

na longa galeria de esculturas ao mesmo tempo que ela; mas Naumann

teve então de esperar por Ladislaw, com quem iria apostar uma garrafa de

champanhe a propósito de uma enigmática figura de aspecto medieval

que lá estava. Examinada esta figura, andaram eles a encerrar sua disputa

e se separaram depois, ficando Ladislaw para trás enquanto Naumann ia

para o Salão das Estátuas, onde ele viu Dorothea outra vez, e viu-a na-

quela abstração meditativa que lhe tomava extraordinária a pose. Ela na

realidade não via o raio de sol no piso mais do que via as estátuas: via,

olhando para dentro, a luz dos anos que estavam por vir em sua própria

casa e pelos campos e olmos e estradas margeadas por sebes da Inglater-

ra; e sentia que o modo de preenchê-los com um devotamento jubiloso já

não era tão claro para ela quanto havia sido. Na mente de Dorothea havia

contudo uma corrente na qual mais cedo ou mais tarde tendiam a fluir

todos os sentimentos e idéias - um avanço abrangente de toda a consci-

ência para a mais completa verdade, o bem menos parcial. Seguramente

havia algo melhor do que raiva e abatimento.

CAPITULO

"Hire facouríde eke full womanly and plain,

No contrefeted termes had she

To semen wise."

- CHAUCER.

("Sendo sua facúridia feminil e singela,

Termos afetados não tinha ela


Para dar impressão de sábia.")

- CHAUCER.1

AsSIM FOI QUE Dorothea se entregou aos soluços, tão logo estar segura-

mente sozinha. Mas uma batida na porta tirou-a do torpor neste instan-

te, fazendo-a enxugar os olhos às pressas antes de dizer: "Entre." Tantripp

trouxe-lhe um cartão e anunciou que havia um senhor à espera na entra-

da. O guia lhe informara que só Mrs. Casaubon estava em casa, mas ele

disse que era parente de Mr. Casaubon: iria ela recebê-lo?

"Sim," disse Dorothea, sem vacilar. "Mande-o entrar no salão." Suas

maiores impressões do jovem Ladislaw eram ter tomado ciência, quan-

do o viu em Lowick, da generosidade de Mr. Casaubon para com ele, e

ter-se interessado pela hesitação do rapaz quanto à sua própria carreira.

Ela era aberta a tudo que lhe dava uma oportunidade de simpatia ativa,

e no momento esta visita parecia ter vindo para arrancá-la daquela ab-

sorção em seu descontentamento - para lembrá-la da bondade do ma-

rido e fazê-la sentir que ela agora tinha o direito de ser sua companheira

em todas as ações caridosas. Esperou um minuto ou dois mas, quando

The Physician"s Tale, linhas 50-52.

MIDDLEMARCH

227

passou para a outra sala, os sinais de que estivera chorando eram sufici-

entes ainda para tomar-lhe o rosto franco mais juvenil e atraente que de

hábito. E foi com um desses raros sorrisos de boa vontade a que a vaida-

de não se mistura que ela encontrou Ladislaw, e estendeu-lhe a mão. Ele

era vários anos mais velho, mas pareceu neste instante bem mais moço
que ela, pois sua pele transparente avermelhou-se de súbito, e ele falou

com uma timidez que não lembrava a indiferença desenvolta com que se

dirigira ao seu companheiro, enquanto Dorothea ia sendo acalmada por

um desejo atônito de o colocar à vontade.

"Até hoje de manhã, quando a vi com Mr. Casaubon no Museu do

Vaticano, eu não sabia que estivessem em Roma," disse ele. "Logo a

reconheci - mas - quero dizer, deduzi que o endereço de Mr. Casaubon

poderia ser obtido na Poste Restante, e eu estava ansioso para render-

lhes homenagem a ambos o mais cedo possível."

"Sente-se, por favor. Ele não está, mas estou certa de que gostará de

saber notícias suas," disse Dorothea, sentando-se irrefletidamente entre

a lareira e a luz de uma alta janela e apontando uma cadeira oposta, com

a quietude de uma amável dona de casa. Os sinais de mágoa adolescente

em seu rosto ainda causavam espanto. "Mr. Casaubon anda cheio de

compromissos; mas pode deixar seu endereço - não é? - e ele há de

lhe escrever."

"Muita bondade de sua parte," disse Ladislaw, começando a perder

seu acanhamento pelo interesse com o qual observava os sinais de choro

que haviam alterado o rosto dela. "Meu endereço está no meu cartão.

Mas, caso me permita, eu voltarei aqui amanhã numa hora em que haja

possibilidade de Mr. Casaubon estar em casa."

"Todos os dias ele vai ler na Biblioteca do Vaticano e, a não ser que

marque com ele mesmo, vai ser dificil que consiga vê-lo. Sobretudo ago-

ra, Nossa partida de Roma é para breve, e ele está muito ocupado. Ge-

ralmente fica fora do café da manhã até o jantar. Mas estou certa de que

teria prazer em convidá-lo para jantar conosco. ""

Ladislaw quedou-se mudo por alguns momentos. Nunca gosta-

ra muito de Mr. Casaubon e, não fosse o que a gratidão lhe impunha,

ter-se-la rido dele como um Morcego da erudição. Mas a idéia desse

pedante árido, desse elaborador de pequenas explicações quase tão im-

portantes quanto o estoque excedente de antigüidades falsas no quarti-


nho dos fundos de um vendedor, primeiro tendo arranjado uma criatura

assim tão adorável para se casar, e depois indo passar longe dela a sua

lua-de-mel, pulando atrás de suas bolorentas futilidades (Will era dado

à hipérbole) - este quadro súbito fê-lo estremecer numa espécie de

228

GEORGE ELIOT

desgosto cômico: ele estava dividido entre o impulso de dar uma garga-

lhada e o impulso igualmente inoportuno de explodir em invectivas des-

denhosas. Sentiu por um instante que aquela luta ia movimentando seus

traços numa contorção muito estranha, mas com um bom esforço pôde

resolvê-la em nada mais ofensivo que um sorriso alegre.

Dorothea alarmou-se; mas o sorriso era irresistível, e refletiu-se no

seu rosto também. O sorriso de Will Ladislaw era um prazer, a não ser

que de antemão houvesse zanga com ele: era um jorro de luz interior

que iluminava a pele transparente, bem como os olhos, e brincalhão se

espargia por cada linha e curva, como se algum Ariel lhes infundisse

novo encanto e banisse para sempre do rosto todos os vestígios de amuo.

O reflexo de um tal sorriso não poderia senão conter também sua pe-

quena alegria, mesmo sob pálpebras tristes, e ainda úmidas, quando

Dorothea indagou: "Está achando alguma coisa engraçada?"

"Sim," disse Will, rápido em encontrar saídas. "Estou pensando na

cara que eu devo ter feito na primeira vez em que a vi, quando arrasou

com suas críticas um dos meus pobres esboços."

"Minhas críticas?" disse Dorothea, espantando-se ainda mais. "Não

pode ser. Sempre me senti muito ignorante em pintura."

"Eu supunha que entendesse muito, pois soube justamente dizer o

que tinha mais cabimento. Disse - ouso crer que não se lembre mais do

que eu - que a relação do meu esboço com a natureza lhe escapava de


todo. Pelo menos, foi o que deu a entender." Will podia agora gargalhar

ou sorrir.

"Por ignorância minha, realmente," disse Dorothea, admirando o

bom humor de Will. "Devo ter falado isto só porque nunca pude ver

beleza nos quadros dos quais meu tio me dizia que todos achavam mui-

to bons. E continuei mais ou menos na mesma ignorância em Roma. Há

relativamente poucas pinturas que eu realmente aprecie. A princípio

quando eu entro numa sala onde as paredes estão cobertas de afrescos,

ou de quadros raros, sinto uma espécie de temor respeitoso - como o

de uma criança presente a grandes cerimônias onde há trajes de gala e

paradas; sinto-me em presença de uma vida superior à minha. Mas, quan-

do começo a examinar os quadros um a um, a vida que havia neles se

esvai, ou então é algo violento e estranho que me acontece. Eu é que

devo ser obtusa. Estou vendo muita coisa de uma vez só, e não enten-

dendo a metade. Isto sempre faz com que a pessoa se sinta ignorante. 

horrível ouvir dizer que uma coisa é muito boa e simplesmente não po-

der sentir que ela é boa - mais ou menos como ser cego, quando os

outros falam do céu."

MIDDLEMARCH

229

"Oh, há muito o que aprender no tocante à sensibilidade para a arte,"

disse Will. (Era impossível pôr em dúvida agora o sentido direto da

confissão de Dorothea.) "A arte é uma velha linguagem, com muitos

estilos artificiais e afetados, e às vezes o maior prazer que se tem em

conhecê-los é a simples noção deste conhecimento. Aprecio aqui imen-

samente todos os tipos de arte; mas suponho que, se eu pudesse decom-

por minha apreciação, veria que ela é constituída por muitos e diferentes

fios.  preciso aventurar-se um pouco a fazer seus próprios borrões, para


se ter idéia do processo."

"Talvez então queira ser pintor?"disse Dorothea, com uma nova dire-

ção em seu interesse. "Talvez queira fazer da pintura sua profissão? Mr.

Casaubon há de gostar de saber que já tem uma profissão escolhida."

"Não, oh! não," disse Will, com alguma frieza. "Contra isto já tenho

uma decisão tomada.  uma vida muito estanque. Tenho estado

freqüentemente com artistas alemães aqui: viajei de Frankfurt com um

deles. Alguns são ótimos sujeitos, às vezes até brilhantes -mas não me

agradaria partilhar de seu modo de olhar o mundo unicamente do ponto

de vista de um estúdio."

"Sou capaz de entender isto," disse Dorothea, cordialmente. "E em

Roma parece haver bem mais coisas mais necessárias ao mundo do que

quadros. Mas, se tem talento para a pintura, não seria correto tomar isto

como indicação? Talvez possa fazer coisas melhores do que estas - ou

diferentes, para que assim não haja, num mesmo lugar, tantas pinturas

quase iguais."

Não havia como enganar-se com tal simplicidade, que corisquistou

Will para a franqueza. "Um homem tem de ter um talento muito raro

para fazer mudanças desse tipo. Temo que o meu não me conduza

sequer à altura de fazer bem o que já foi feito, pelo menos não tão bem

para que valha a pena fazê-lo. E eu nunca teria êxito em nada à força

de escravidão. Para mim ou as coisas vêm fáceis, ou nunca as tenho."

"Ouvi Mr. Casaubon dizer que ele lamenta sua falta de paciência,"

disse Dorothea, gentilmente. Ela estava um pouco chocada com esta

maneira de encarar a vida como um feriado.

"Sim, conheço a opinião de Mr. Casaubon. Ele e eu divergimos."

O leve traço de desdém em sua apressada resposta ofendeu Dorothea,

que foi ainda mais susceptível no tocante a Mr. Casaubon por causa de

seu problema pela manhã.

"Certamente que divergem," disse Dorothea, não sem orgulho. "Não

pensei em compará-los: a força da perseverança devotada ao trabalho


por Mr. Casaubon não é comum."

230

GEORGE ELIOT

notou que ela estava ofendida, mas isto apenas deu um impul-

so adicional à nova irritação de sua antipatia latente por Mr. Casaubon.

Era absolutamente intolerável que Dorothea estivesse idolatrando um

marido desses: tal fraqueza numa mulher nunca agrada a homem ne-

nhum, a não ser o marido em questão. Os mortais, facilmente tentados

a tirar a vida da propalada glória de seus vizinhos, pensam que um as-

sassínio assim não é crime.

"Não, de fato," respondeu ele prontamente. "E por conseguinte é

uma pena que tudo acabe sendo posto de lado, como é freqüente com a

erudição inglesa, por falta de conhecimento do que se faz no resto do

mundo. Se Mr. Casaubon lesse alemão, ele se pouparia muito trabalho."

"Não lhe entendo," disse Dorothea, sobressaltada e ansiosa.

"Quero apenas dizer," disse , sem fazer cerimônia, "que os ale-

mães tomaram a dianteira nas pesquisas históricas, e riem dos resulta-

dos obtidos em perambulações pelos bosques com uma bússola, en-

quanto eles constroem boas estradas. Quando estive com Mr. Casaubon,

vi que ele nem queria saber desta orientação: foi quase contra a própria

vontade que leu um tratado escrito por um alemão em latim. Lamentei

muito."

Will só tinha pensado em dar uma boa alfinetada para arrasar com a

apregoada dedicação ao trabalho, e foi incapaz de imaginar como

Dorothea se sentiria ofendida. O jovem Mr. Ladislaw também não era

nada versado nos autores alemães; mas muito pouca realização se re-

quer para lamentar-se o pouco que foi feito por outrem.

A pobre Dorothea sentiu uma grande dor, ao pensar que o trabalho


de toda a vida de seu marido poderia ser inútil, e nem teve mais energia

para indagar-se se este jovem parente que tanto lhe devia não teria feito

melhor se reprimisse a observação. Nem mesmo falou nada, apenas fi-

cou sentada olhando para as próprias mãos, absorta no lastimoso pen-

samento.

Will, contudo, tendo dado a alfinetada arrasadora, envergonhou-se

um pouco, imaginando pelo silêncio de Dorothea que a havia ofendido

ainda mais; e tendo também certa consciência de que estava a arrancar

as plumas de um benfeitor.

"Lamentei-o sobretudo," retomou ele, indo pelo caminho habitual

da detração ao elogio insincero, "devido à minha gratidão e ao respeito

pelo meu primo. Isto não significaria tanto num homem cujo talento e

caráter fossem menos notáveis."

Dorothea ergueu os olhos, mais brilhantes que de costume com a

excitação de seus sentimentos, e no recitativo mais triste disse:

"Como

MIDDLEMARCH

231

eu gostaria de ter aprendido alemão quando estive em Lausanne! Havia

lá muitos professores alemães. Mas agora não posso ser de utilidade."

Para Will, havia uma luz nova, mas ainda assim misteriosa, nas últi-

mas palavras de Dorothea. A questão de como ela viera a aceitar Mr.

Casaubon - que ele havia posto de lado quando a viu pela primeira

vez, dizendo-se que apesar das aparências ela devia ser bem desagradá-

vel - não podia ser respondida agora por método tão curto e fácil. Fos-

se lá o que ela fosse, desagradável não era. Nem era friamente sagaz e

indiretamente satírica, mas adoravelmente simples e cheia de sentimen-

to. Era um anjo iludido. Que prazer único seria se manter à espreita dos
melodiosos fragmentos em que sua alma e coração afluíam de modo tão

direto e ingênuo! A idéia da harpa eólia veio outra vez à mente dele.

Era provável que ela houvesse imaginado algum romance original

para si neste casamento. E se Mr. Casaubon fosse um dragão que a tives-

se arrastado para a toca só ao poder das próprias garras e sem proclamas

legais, que inevitável gesto de heroismo seria libertá-la e se lançar aos

seus pés! Mas ele era uma outra coisa, mais intratável ainda que um

dragão: era um benfeitor que trazia a sociedade nas costas e que estava

entrando neste instante na sala, em toda a inatacável correção de suas

maneiras, enquanto Dorothea olhava animada por um alarme e um la-

mento recém-despertos, e Will olhava animado por sua especulação

admirativa sobre os sentimentos dela.

Mr. Casaubon sentiu uma surpresa em nada mesclada de prazer, mas

não se desviou da polidez que sempre mantinha nas saudações, quando

Will se levantou para explicar-lhe sua presença. Não estando Mr.

Casaubon tão contente como de hábito, era isto o que o tomava talvez

ainda mais pálido e sombrio; um efeito que podia decorrer facilmente,

no entanto, do contraste com a aparência do seu jovem primo. A primei-

ra impressão quando se via Will era de um brilho solar a acentuar a

indefinição de seu mutável semblante. Até mesmo seus traços mudavam

seguramente de forma; a boca às vezes parecia grande, mas às vezes,

pequena; e a discreta ondulação no nariz era uma preparação à meta-

morfose. Quando ele virava muito depressa a cabeça, seu cabelo parecia

espargir luz, coruscação na qual certas pessoas julgavam ver indisputável

mostra de gênio. Mr. Casaubon, pelo contrário, nada irradiava.

Quando os olhos de Dorothea fixaram-se ansiosamente em seu ma-

rido, o contraste não há de a ter deixado insensível, mas isto apenas se

mesclou a outras causas para tomá-la mais consciente do novo alarme

que nele se manifestava, primeiro movimento de uma compadecida ter-

nura alimentada pelas realidades de seu próprio quinhão, e não pelos


232

GEORGE ELIOT

sonhos dela. Entretanto, a presença de Will foi para ela uma fonte de

maior liberdade; ele era igualmente jovem, o que muito a agradava, e

também talvez de espírito aberto. Ela sentia uma imensa necessidade de

alguém com quem falar, e nunca antes tinha visto ninguém tão perspicaz

e flexível assim, tão aparentemente capaz de entender tudo.

Mr. Casaubon desejou gravemente a Will que sua temporada em

Roma estivesse sendo proveitosa e agradável - havia pensado que a

intenção dele fosse ficar na Alemanha do Sul - mas pediu-lhe que vol-

tasse para jantar amanhã, quando poderia conversar mais tranqüilamen-

te: no momento ele estava um pouco cansado. Ladislaw compreendeu e,

aceitando de imediato o convite, fez suas despedidas.

Os olhos ansiosos de Dorothea foram seguindo seu marido, enquan-

to ele despencava exausto no fundo de um sofá e, com um cotovelo

encostado para apoiar a cabeça, punha-se a olhar para o chão. Um pou-

co corada, e os olhos brilhando muito, ela sentou-se a seu lado e disse:

"Perdoe-me a brusquidão com que hoje de manhã eu me dirigi a

você. Eu estava errada. Temo que lhe tenha magoado e tomado seu dia

ainda mais cansativo!"

"Que bom saber que você pensa assim, querida," disse Mr. Casaubon.

Falou com calma, arriando um pouco a cabeça, mas ainda havia uma

ponta de intranqüilidade em seus olhos quando os ergueu para ela.

"Mas você me perdoa?" disse Dorothea, com um breve soluço. Na

necessidade em que estava de alguma manifestação de sentimento ela

se predispunha a exagerar seu erro. Não reconheceria o amor de longe a

penitência em regresso, para atirar-se-lhe ao pescoço e beijá-la?

"Minha querida Dorothea -"quem não se contenta com o arrepen-

dimento, não é do céu nem da terra:" - não creio que me julgue digno
de ser banido por esta grave sentença," disse Mr. Casaubon, empenhan-

do-se por atingir um timbre solene, e também por esboçar um sorriso.

Dorothea ficou quieta, não obstante uma lágrima, que viera com o

soluço, insistisse em cair.

"Você está muito nervosa, querida. E eu também sinto algumas de-

sagradáveis conseqüências do excesso de agitação mental," disse Mr.

Casaubon. Na realidade, tinha pensado em dizer-lhe que ela não deve-

ria ter recebido o jovem Ladislaw em sua ausência; disto ele porém se

absteve, em parte pela impressão de que seria indelicado fazer uma nova

queixa num momento em que ela se confessava arrependida, em parte

"Citação de Two Gentlemen of Verona, de Shakespeare: "Who with repentance is

not satisfied, is not

of heaven nor earth" (Ato V, Cena 4, linha 79).

MIDDLEMARCH 233

porque queria evitar maior agitação para si mesmo falando, e em parte

ainda porque era muito orgulhoso para mostrar sua predisposição a um

ciúme que, não se esgotando ante seus confrades de erudição, ainda

sobrava para tomar outras direções. Há uma espécie de ciúme que ne-

cessita de muito pouco fogo: que, não sendo uma paixão, é uma simples

doença produzida no desânimo enevoado e úmido do egoísmo inquieto.

"Acho que é hora de nos vestirmos," acrescentou ele, olhando em

seu relógio. Ambos se levantaram, e nunca mais houve entre eles qual-

quer alusão ao que ocorreu neste dia.

Mas Dorothea guardou -o até o fim na lembrança, com essa clareza

com a qual nos recordamos das épocas de nossa experiência em que

uma grande esperança morre, ou um novo motivo nasce. Hoje ela come-

çara a ver que havia estado numa ilusão desmedida, esperando que Mr.

Casaubon correspondesse aos seus sentimentos, e sentira em gestação


um pressentimento, o de que na vida de seu marido poderia existir uma

consciente tristeza que fazia exigências igualmente grandes a ambos,

tanto a ele mesmo quanto a ela.

Todos nós nascemos na ignorância moral, tomando o mundo por um

ubre para nutrir nossos insignes seres: Dorothea começou ainda cedo a

emergir desta ignorância, apesar de lhe ter sido mais fácil conceber como

iria devotar -se a Mr. Casaubon, tomando-se ela mesma sábia e forte

com sua força e sapiência, do que imaginar com aquela nitidez que já

não é reflexo, mas sentimento - uma idéia que se entrelaça de volta

com o imediatismo da percepção, como a solidez dos objetos, - que ele

tinha um centro equivalente de existência própria, donde as luzes e as

sombras deviam sempre provir com alguma diferença.

CAPITULO XXII

"Nous causâmes longtemps; elle était simple et bonne.

Ne sachant pas le mal, elle faisait le bien;

Des richesses du coeur elle me fit l"aumône,

Et tout en écoutant corrime le coeur se dorme,

Sans oser y penser, je lui dormait le mien;

Elle emporta ma vie, et n"en sut jamais rien."

- ALFRED DE MUSSET

("Conversamos bastante; era simples e boa.

Não conhecendo o mal, fazia o bem aos seus;

Das riquezas do coração me fez esmola

E eu, escutando como o coração se doa,

Sem nisto ousar pensar, já lhe entregava o meu;

Ela levou-me a vida; e nada mais soube eu.")


- ALFRED DE MUSSEV

WILL LADIsLAw desmanchou-se em gentilezas no jantar do dia seguinte,

não dando a Mr. Casaubon uma oportunidade que fosse de manifestar

desagrado. A impressão de Dorothea, pelo contrário, foi que Will tinha

um modo muito hábil de puxar conversa com seu marido e de escutá-lo

com deferência, como ela antes nunca observara em ninguém. Com toda

a certeza, os ouvintes de Tipton não eram tão bem dotados assim! O

próprio Will falou bastante, mas lançava o que dizia com uma tal rapi-

dez, e com um ar tão desimportante de o dizer tão-só de passagem, que

era como se fosse um repique alegre e mais baixo vindo depois do sino

""Une Bonne Fortune," XXXIX (1834).

MIDDLEMARCH

235

principal. Se Will nem sempre era perfeito, sem dúvida estava num de

seus grandes dias. Descreveu cenas de incidentes entre os pobres de

Roma, visíveis apenas a quem pudesse circular livremente pela cidade;

pôs-se de acordo com Mr. Casaubon quanto às idéias inexatas de

Middeton 1 sobre as relações entre o judaísmo e o catolicismo; e passou

com facilidade a um quadro entre entusiástico e jocoso do prazer por ele

extraído da própria miscelânea de Roma, que tomava a mente flexível

com as constantes comparações, e nos livrava de olhar as eras do mundo

como uma série de compartimentos estanques sem conexão vital. Os

estudos de Mr. Casaubon, observou Will, sempre haviam sido de um

tipo muito abrangente para isto, nunca lhe permitindo talvez sentir tais

bruscos efeitos, mas quanto a si ele confessava que Roma lhe dera uma

nova compreensão da história como um todo; os fragmentos estimula-


vam sua imaginação e o tomavam construtivo. De quando em quando,

mas nunca em demasia, ele se endereçava a Dorothea e discutia o que

era dito por ela, como se o que ela achasse fosse um item a ser conside-

rado mesmo no julgamento final da Madona de Foligno e do Laocoonte.

Uma impressão de contribuir para formar a opinião do mundo toma a

conversa particularmente animada; e Mr. Casaubon também não deixa-

va de se sentir orgulhoso de sua jovem esposa, que falava melhor que a

maioria das mulheres, como de fato ele percebera ao escolhê-la.

Como as coisas estavam indo tão bem, a declaração de Mr. Casaubon

de que seu trabalho na Biblioteca seria interrompido por alguns dias, e

de que após uma breve retomada ele não teria mais motivos para conti-

nuar em Roma, encorajou Will a sugerir que Mrs. Casaubon não deveria

partir sem visitar um ou dois estúdios. Não gostaria Mr. Casaubon de

levá-la? Esse tipo de coisa não se podia perder: era algo muito especial:

era uma forma de vida que crescia como uma vegetação pequena e viço-

sa com sua população de insetos sobre imensos fósseis. Para Will seria

uma alegria guiá-los - e a nada de muito cansativo, tão-só uns poucos

exemplos.

Mr. Casaubon, vendo que Dorothea o olhava com ansiedade, não

teve senão como perguntar-lhe se ela estaria interessada nestas visitas:

ele agora ia ficar à sua disposição o dia todo; foi então combinado que

no dia seguinte Will voltaria para conduzi-los.

Will não podia deixar de fora Thorwaldsen -2uma celebridade viva

"Conyers Middeton (1683-1750), teólogo inglês.

2AIbert BerteIThorwaldsen (1770-1844), escultor dinamarquês ativo em Roma,

influenciado

pelo purismo dos pintores nazarenos e pré-rafaelitas.

236
GEORGE ELIOT

por quem até mesmo Mr. Casaubon perguntara, mas antes de o dia já

estar muito avançado ele os levou ao estúdio de seu amigo Adolf

Naumann, que mencionou como um dos principais renovadores da arte

cristã, um dos que não só tinham revivido mas também expandido essa

grande concepção dos eventos supremos como mistérios de que as eras

sucessivas eram espectadores, e em relação aos quais as grandes almas

de todos os períodos tomam-se por assim dizer contemporâneas. Will

acrescentou que ele mesmo se fizera discípulo de Naumann em virtude

disto.

"Tenho feito uns trabalhos a óleo orientado por ele," disse Will.

"Detesto copiar.  forçoso que eu sempre ponha algo de mim. Naumann

pintou os Santos puxando o Carro da Igreja, e eu ando fazendo um

esboço de Tamerlão Conduzindo em seu Carro os Reis Vencidos, de

Marlowe. Não sou tão eclesiástico quanto Naumann, e o critico às vezes

por seu excesso de significados. Mas desta vez pretendo ultrapassá-lo na

amplidão da intenção. Tomo Tamerlão em seu carro pela disparada fre-

nética da história física do mundo a açoitar as dinastias atreladas. Em

minha opinião, é uma boa interpretação míticaf Aqui Will olhou para

Mr. Casaubon, que recebeu de modo muito intranqüilo este improvisa-

do tratamento do simbolismo, e se curvou com um ar neutro.

"Deve ser um esboço muito grande, para exprimir tanta coisa," disse

Dorothea. "Eu precisaria de alguma explicação dos significados que atri-

bui. Porventura o seu Tamerlão representa os vulcões e terremotos?"

"Oh, sem dúvida," disse Will sorrindo, "e as migrações de raças e as

derrubadas de florestas - e a América e a máquina a vapor. Tudo que

puder imaginar!"

"Que espécie complicada de estenografia!" disse Dorothea, sorrindo

para o marido. "Seria preciso todo o seu conhecimento para se conse-

guir decifrá-la."
Mr. Casaubon piscou furtivamente para Will. Suspeitou que estives-

sem rindo dele. Mas não era possível incluir Dorothea na suspeita.

Encontraram Naumann pintando com todo o ardor, mas sem mo-

delo; seus quadros estavam muito bem dispostos e sua própria pessoa,

vivaz e simples, bem arrumada numa camisa cinza-chumbo e uma boi-

na de veludo marrom, de modo que tudo era tão propício como se ele

estivesse esperando a bela e jovem dama inglesa exatamente naquela

hora.

O pintor fez pequenas dissertações em seu inglês confiante sobre os

temas findos e infindos, parecendo observar Mr. Casaubon quase tanto

quanto a Dorothea. Will acudia aqui e ali com ardentes palavras de lou-

MIDDLEMARCH

237

vor, assinalando méritos particulares na obra de seu amigo; e Dorothea

sentia que estava a adquirir noções bem novas quanto à significação das

Madonas sentadas sob inexplicáveis baldaquins, com o campo simples

por fundo, e dos santos com modelos arquitetonicos na mão ou um pu-

nhal cravado acidentalmente no crânio. Certas coisas que lhe haviam

parecido monstruosas passavam a ter inteligibilidade e até mesmo um

significado natural; mas tudo indicava que este era um ramo do conheci-

mento pelo qual Mr. Casaubon nunca se interessara.

"Penso que eu tenderia mais a sentir que a pintura é bela do que a

ler como um enigma; mas eu aprenderia a entender esta pintura mais

cedo do que a sua, com significados muito amplos," disse Dorothea,

falando para Will.

"Não fale de minha pintura na frente do Naumann," disse Wil]. "Ele

há de dizer que é tudo pfuschereí," que é o maior opróbrio que usa!"

"Verdade?" dise Dorothea, volvendo seus olhos sinceros para


Naumann, que fez uma ligeira careta e disse:

"Oh, ele não leva a pintura a sério. Seu caminho deve ser as belles-

lettres. Isto sim é que é am-plo!"

A pronúncia da palavra por Naumann pareceu alongá-la de maneira

satírica. Will não gostou muito, mas deu um jeito de rir; e Mr. Casaubon,

malgrado sentisse algum desagrado pelo sotaque alemão do artista, co-

meçou a nutrir certo respeito por sua severidade judiciosa.

Respeito este que não diminuiu quando Naumann, após puxar Will

à parte por um momento e olhando, primeiro para uma grande tela,

depois para Mr. Casaubon, veio ao centro de novo e disse:

"Meu amigo Ladislaw acha que o senhor não me levará a mal se eu

lhe disser que um esboço de sua cabeça me seria valioso para o Santo

Tomás de Aquino que eu tenho aqui no meu quadro.  pedir muito, eu

sei; mas é muito raro que eu veja justamente o que quero - o ideal na

realidade."

"O senhor muito me espanta," disse Mr. Casaubon, sua aparência

aprimorada por um fulgor de prazer; "mas se minha pobre fisionomia,

que me habituei a considerar como das mais comuns, puder ser de

serventia para fornecer-lhe alguns traços para o seráfico doutor, sentir-

me-ei muito honrado. Quer dizer, desde que a operação não seja muito

demorada; e se Mrs. Casaubon não fizer objeções à demora."

No tocante a Dorothea, nada a teria deixado mais feliz, a menos que

fosse uma voz declarando ser Mr. Casaubon o mais sábio e o mais digno

"Em alemão no original: "trabalho mal feito."

238

GEORGE ELIOT

dentre os filhos do homem. Neste caso, sua fé vacilante tomar-se-la fir-


me de novo.

Todos os apetrechos de Naumann estavam perfeitamente à mão, e o

esboço foi logo sendo feito, enquanto se prolongava a conversa. Dorothea

sentou-se e imergiu num calmo silêncio, sentindo-se feliz como há tem-

pos não se sentia. Todos a seu redor lhe pareceram bons, e de si para si

disse que Roma, se ela ao menos não fosse tão ignorante, se teria reve-

lado cheia de beleza; à tristeza, ter-lhe-la a esperança dado asas. Não

havia natureza menos desconfiada que a dela: quando criança, acredita-

va na gratidão das vespas e na honorável susceptibilidade dos pardais,

indignando-se proporcionalmente quando sua baixeza se manifestava.

O desembaraçado artista ia fazendo perguntas sobre a política ingle-

sa a Mr. Casaubon, as quais geravam longas respostas, e Will entrementes

já se havia empoleirado nuns degraus ao fundo, de onde via tudo.

De repente Naumann disse: "Se eu pudesse parar agora por uma

meia hora e depois pegar de novo - venha ver, Ladislaw - acho que até

aqui está perfeitof

Will desdobrou-se nessas interjeições eloqüentes pelas quais se

extravaza uma admiração mais forte que a sintaxe; e Naumann disse,

num tom de quem lamenta a fundo:

"Ah - bem - se eu pelo menos pudesse ter tido mais - mas vocês

têm outros compromissos - eu não poderia pedir - nem mesmo para

voltarem amanhã."

"Vamos ficar um pouco mais!" disse Dorothea. "Não temos nada a

fazer hoje a não ser vagar por aí, não é?" perguntou ela, olhando

suplicantemente para Mr. Casaubon. "Seria uma pena não retratar a ca-

beça o melhor possível."

"Estou às suas ordens, meu senhor, quanto à questão," disse Mr.

Casaubon, com polida condescendência. "Tendo eu consagrado ao lazer

o interior de minha cabeça, é até melhor que o exterior possa trabalhar

deste modo."

"O senhor é indizivelmente bom - como estou contente!" disse


Naumann, que depois prosseguiu em alemão para Will, apontando aqui

e ali no esboço, como que a considerá-lo. Após deixá-lo por um momen-

to de lado, olhou ao redor de um modo vago, como se procurasse uma

ocupação para as visitas, e por fim virou-se para Mr. Casaubon e disse:

"Quem sabe sua bela esposa, dama de tanto encanto, não se oponha

a deixar-me aproveitar o tempo para tentar fazer um esboço dela -

claro que não para este quadro - apenas uma coisa ligeira, um estudo à

parte."

MIDDLEMARCH

239

Mr. Casaubon, inclinando-se, não duvidou de que Mrs. Casaubon

aquiescesse ao desejo, enquanto Dorothea dizia incontinente: "Onde

me devo pôr?"

Naumann se desmanchou em desculpas ao pedir que ela ficasse de

pé e lhe permitisse corrigir a postura, ao que ela se submeteu sem os

risos e ares afetados freqüentemente tidos por necessários em tais oca-

siões, quando o pintor disse: "Quero que pose como Santa Clara -

apoiando-se assim, com a mão no rosto, - assim, - e olhando para

este tamborete, por favor, assim mesmoM

Will se dividia entre a vontade de jogar-se aos pés da Santa, para

beijar-lhe as vestes, e a tentação de avançar contra Naumann, que ia

ajeitando o braço dela, para o jogar no chão. Tudo aquilo era profanação

e impudência, e arrependeu-se de a ter trazido.

O artista era diligente e Will recuperou seu controle, passando a se

mover pelo estúdio e a ocupar-se tão engenhosamente quanto podia de

Mr. Casaubon; mas por fim não impediu que o tempo soasse longo de-

mais a este senhor, como ficou patente quando ele expressou seu temor

de que Mrs. Casaubon já pudesse estar cansada. Naumann se valeu da


insinuação e disse:

"Bem, se o senhor me fizesse novamente o favor, eu liberaria sua

esposa."

A paciência de Mr. Casaubon agüentou assim mais um pouco e, quan-

do afinal se tornou claro que a cabeça de Santo Tomás de Aquino ficaria

mais perfeita com outra sessão de pose, a mesma foi marcada para o dia

seguinte. Dia em que a Santa Clara também foi retocada mais de uma

vez. O resultado de tudo esteve tão longe de desagradar a Mr. Casaubon,

que ele se dispôs a adquirir a pintura na qual Santo Tomás de Aquino se

sentava entre os doutores da Igreja numa controvérsia muito abstrata

para ser representada, mas seguida com atenção maior ou menor pela

audiência acima. Com a Santa Clara, da qual se falou depois, Naumann

declarou não estar satisfeito - não poderia, em sã consciência, compro-

meter-se a fazer dela um quadro que valesse a pena; e assim quanto à

Santa Clara a transação foi feita sob condições.

Não me atardarei nas graçolas de Naumann esta noite sobre Mr.

Casaubon, nem nos seus ditirambos aos encantos de Dorothea, contan-

do em tudo com a participação de Will, apesar de uma diferença. Basta-

va Naumann mencionar qualquer detalhe da beleza de Dorothea para

que sua presunção exasperasse Will: sua escolha das palavras mais ordi-

nárias era uma grosseria, e o que tinha ele de falar dos lábios dela? Não

era uma mulher de quem se falar, como outras havia. Will não conseguia

240

GEORGE ELIOT

dizer ao certo o que pensava, mas tomara-se irritável. Entretanto, quan-

do depois de certa resistência havia concordado em levar os Casaubons

ao estúdio de seu amigo, deixara-se seduzir pela gratificação de seu or-

gulho em ser ele a pessoa que podia dar a Naumann uma tal oportunida-
de de estudar a beleza dela - ou melhor, a divina perfeição, já que as

frases banais que possam ser aplicadas aos meros atrativos físicos não

lhe seriam condignas. (Certamente toda Tipton e seus arredores, bem

como a própria Dorothea, surpreender-se-lam com tal exaltação de sua

beleza. Nesta parte do mundo Miss Brooke fora tida somente por "Uma

moça bonita.")

"Vamos mudar de assunto, Naumann, por favor. Não convém ficar

falando de Mrs. Casaubon como se ela fosse um modelo," disse Wili.

"Schon! Pois então vou falar do meu Aquino. A cabeça, afinal de

contas, não é nada má. Ouso dizer que o próprio grande escolástico

ficaria lisonjeado, se solicitado a posar para um retrato. Não há vaidade

comparável a desses cerimoniosos doutores! Foi bem como eu pensei:

ele estava mais interessado no seu próprio retrato que no dela."

"Ele é um maldito de um pedante sem sangue e todo cheio de si,"

disse Will, com impetuoso ranger de dentes. Seu ouvinte não sabia das

dívidas de gratidão que ele tinha com Mr. Casaubon, mas o próprio Will

pensava nelas, desejoso de que pudesse com um cheque se livrar de

todas.

Naumann deu de ombros e disse: "Ainda bem que partirão dentro

em breve, porque eles estão tirando o seu bom humor."

Toda a esperança e capacidade inventiva de Will concentraram-se

então no seu desejo de estar a sós com Dorothea. Queria apenas deixar-

lhe uma impressão mais profunda; queria apenas ficar em sua lembrança

como algo mais especial do que até então se julgava capaz de ser.

Impacientava-o um pouco aquela boa vontade ardente e franca que ele

tomava pelo estado habitual de Dorothea. A adoração remota de uma

mulher entronizada fora de alcance desempenha papel preponderante

no dia-a-dia dos homens, mas na maioria dos casos o admirador anseia

por algum reconhecimento da rainha, algum sinal de aprovação pelo

qual a alma de sua soberana o possa rejubilar, sem ela descer do pedes-

tal. Era precisamente isto o que Will queria. Mas suas fantasiosas de-
mandas estavam cheias de contradições. Era bonito ver como os olhos

de Dorothea se viravam num nervosismo súplice de esposa para Mr.

Casaubon: parte de seu halo se teria perdido, caso ela não cultivasse

esta preocupação com o dever; no entanto no momento seguinte a are-

nosa absorção de um tal néctar pelo marido era-lhe intolerável também;

MEMARCH

241

e a tentação de sobre ele dizer coisas ofensivas não se tornava para Will

menor tormento devido às razões mais fortes que sentia para refreá-la.

Will não foi convidado para jantar no dia seguinte. Donde se ter

persuadido de que devia ir fazer uma visita, e de que a única hora acon-

selhável era pelo meio do dia, quando provavelmente Mr. Casaubon não

estaria em casa.

Dorothea, sem saber que a acolhida que antes dera a Will já havia

desagradado ao marido, não hesitou em recebê-lo, sobretudo porque

ele poderia ter vindo para dizer adeus. Estava a examinar uns carnaféus

que andara comprando para Celía quando ele entrou. Cumprimentou

W. como se sua visita fosse uma coisa muito natural e disse sem demo-

ra, tendo na mão um bracelete de carnaféu:

"Que bom que tenha aparecido! Talvez entenda de camaféus e possa

dizer se estes aqui são realmente bonitos. Bem que eu quis tê-lo conosco

para ajudar na escolha, mas Mr. Casaubon objetou: achou que não havia

tempo. Amanhã ele já acaba o trabalho, e em três dias nós estaremos

partindo. Ando muito preocupada com estes camaféus. Por favor, sente-

se e dê uma olhada neles."

"Não sou grande entendedor, mas com estas pequenas maravilhas

homéricas não há como errar: são de rara beleza. E a cor é linda: há de

lhe assentar muito bem."


"Oh, são para a minha irmã, cuja cor de pele é muito diferente. O

senhor a viu comigo em Lowick: ela é loura e muito bonita - pelo me-

nos eu acho. Nunca nos separamos antes por tanto tempo na vida. Ela é

um mimo, nunca foi dada a fazer maldades. Antes de eu viajar descobri

que ela queria que eu comprasse uns carnaféus para ela, e eu só teria a

lamentar se eles não fossem bonitos - no seu gênero." Dorothea acres-

centou com um sorriso as últimas palavras.

"A senhora mesma não parece ligar para camafeus," disse Will, sen-

tando-se a pequena distância e observando-a enquanto ela fechava as

caixinhas.

"Não, francamente, não creio que possam constituir um objetivo na

vida."

"Temo que seja uma herética em relação à arte em geral. Como é

possível? Minha expectativa seria de que fosse muito sensível ao belo

que está por toda parte."

"Há muitas coisas, suponho, que eu não consigo captar," disse

Dorothea com simplicidade. "Gostaria era de fazer bela a vida - quero

dizer, a vida de todo mundo. E todo esse dispêndio imenso da arte, que

de certa forma parece estar fora da vida e não a toma melhor para as

242

GEORGE ELIOT

pessoas, é doloroso. Meu prazer com o que eu vejo se esvai quando sou

levada a pensar que a maioria é mantida à margem dele."

" o que eu chamo de fanatismo da simpatia," disse Will num ím-

peto. "Da paisagem, da poesia, de todos os refinamentos a senhora

poderia dizer o mesmo. Se o levasse a extremos, tomar-se-la infeliz

em sua própria bondade, e por fim má, por não poder ter vantagem

sobre os outros. A melhor compaixão é sentir prazer - quando se


pode.  assim que se faz mais para preservar as qualidades da Terra

como um planeta agradável. E o prazer se irradia. Não adianta querer

tomar conta do mundo inteiro; porque isto já está sendofeito quando

nós sentimos prazer - na arte ou em qualquer outra coisa. Transfor-

maria a senhora toda a juventude do mundo num coro trágico, a lasti-

mar-se e fazer pregações sobre os sofrimentos humanos? Suspeito que

tenha alguma falsa crença nas virtudes do sofrimento, e queira fazer de

sua vida um martírio." Tendo ido mais longe do que imaginava, Will

então se controlou. Mas o pensamento de Dorothea não estava se-

guindo na mesma direção que o dele, e foi sem nenhuma emoção em

particular que ela respondeu:

"O senhor se engana a meu respeito. Não sou uma criatura triste,

melancólica. Nunca me sinto infeliz por muito tempo. Sou raivosa e

malvada - ao contrário de Celia: tenho uma grande explosão, depois

tudo me parece glorioso de novo. Não consigo deixar de acreditar, de

uma maneira quase cega, em coisas gloriosas. De bom grado eu desfru-

taria aqui do prazer da arte, mas há tanta coisa cuja razão me escapa -

tanta coisa que me parece mais uma consagração da feiúra que da bele-

za. A pintura e a escultura podem ser maravilhosas, mas com freqüência

o sentimento é brutal e baixo, e às vezes até ridículo. Só aqui e ali vejo

algo que me arrebata pela sua nobreza - algo que eu possa comparar

aos Montes Albanos ou ao pôr do sol sobre o Pincio; e que grande lásti-

ma é haver tão pouco do que há de melhor nessa maçaroca de coisas por

que os homens têm labutado tanto!"

"Claro que há sempre enormidades de trabalho medíocre: as coisas

raras só dão em solo raro também."

"Deus meu!" disse Dorothea, absorvendo esta última idéia na cor-

rente central de sua inquietude, "deve ser muito difícil mesmo, pelo que

vejo, fazer coisas de valor. Desde que estou em Roma tenho sentido que

em sua maioria nossas vidas pareceriam mais feias e mais mal acabadas

do que os quadros, se pudessem ser postas na parede."


Dorothea entreabriu os lábios ainda, como se fosse continuar falan-

do, mas mudou de idéia e calou-se.

MIDDLEMARCH

243

"A senhora é muito jovem - é um anacronismo de sua parte ter tais

idéias," disse Will com energia, sacudindo bruscamente a cabeça como

lhe era típico. "Fala como se nunca tivesse tido mocidade.  monstruoso

- como se tivesse tido na infância uma visão de Hades, tal qual o efebo

na mitologia. Sua educação se perfez sob alguns desses horríveis princi-

pios que escolhem as mulheres mais doces para devorar - como

Minotauros. E agora a senhora parte para se trancar naquela prisão de

pedra em Lowick: onde será enterrada viva. Só de pensar já me enfure-

ço! Preferiria nunca a ter visto a imaginá-la em tal perspectiva."

Will temeu outra vez ter ido longe demais; mas o sentido que damos

às palavras depende do que nós estamos sentindo, e seu tom de lamen-

to enraivecido trazia em si tanta ternura pelo coração de Dorothea, sem-

pre se dando com ardor e nunca recebendo muito dos seres vivos em

tomo, que ela teve uma nova impressão de gratidão e respondeu com

um sorriso gentil.

"Muita bondade sua, inquietar-se por minha causa. Mas é porque o

senhor mesmo não gostou de Lowick: tinha a alma voltada para outro

tipo de vida. Lowick porém é minha terra de escolha."

A última sentença foi dita numa cadência quase solene, e Will não

soube o que retrucar, pois de nada adiantaria ele abraçar-lhe as chinelas

e dizer que daria a vida por ela: estava claro que o que ela pedia não

eram coisas do gênero; e ambos ficaram em silêncio por um momento

ou dois, até que Dorothea retomou a conversa, como se finalmente dis-

sesse o que já tinha de antemão em mente.


"Queria fazer-lhe uma pergunta de novo sobre algo que o senhor

disse outro dia. Pode ter sido em parte pelo seu modo impetuoso de

falar: notei que gosta de enfatizar bem as coisas; eu mesma exagero às

vezes quando falo correndo."

"Que foi?" disse Will, observando que ela falara com uma timidez

que lhe era nova. "Eu tenho uma língua hiperbólica: que logo vai pegan-

do fogo. Ouso crer que terei de me desculpar."

"Refiro-me ao que disse sobre a necessidade de saber alemão -

quero dizer, para os assuntos aos quais Mr. Casaubon se dedica. Andei

pensando sobre isto; e entendi que para seus estudos Mr. Casaubon

deve ter à mão os mesmos materiais que os sábios alemães - não é

isto?" A timidez de Dorothea se devia a uma consciência indistinta de

ela estar na estranha situação de consultar uma terceira pessoa sobre o

valor da erudição de Mr. Casaubon.

"Não exatamente os mesmos materiais," disse Wil], pensando em

manter toda a reserva. Ele não é um orientalista, como a senhora sabe

MIDDLEMARCH

245

foi talvez um perigo para mim, e pretendo renunciar à liberdade que ela

me permitiu. Pretendo voltar para a Inglaterra em breve e abrir meu

próprio caminho - sem depender de ninguém senão de mim."

"Isto é ótimo - é uma posição que eu respeito," disse Dorothea,

retribuindo o tom gentil. "Mas Mr. Casaubon, estou certa, nunca pen-

sou em nada sobre o assunto que não fosse o mais propício para o seu

bem-estar."

"Não lhe faltam obstinação e orgulho, ao invés de amor, para dar,

agora que ela se casou com ele," disse Will para si mesmo. Em voz alta,

levantando-se, disse:
"Não voltarei a vê-la."

"Oh, fique até que Mr. Casaubon chegue," disse Dorothea, sincera-

mente. "Achei tão bom nos encontrarmos em Roma. Eu queria conhecê-

lo."

,,E eu a fiz zangar-se," disse Will. "Fi-la pensar mal de mim."

"Oh, não! Minha irmã já me disse que eu sempre fico zangada quan-

do as pessoas não dizem o que eu quero ouvir. Mas espero que eu não

chegue a pensar mal delas. Geralmente no fim sou obrigada a pensar mal

de mim mesma, por ser tão impaciente."

"Ainda assim eu sei que não lhe agrado; tomei-me para a senhora

uma idéia incômoda."

"De modo algum," disse Dorothea, com a mais franca simpatia. "Gos-

to muito do senhor."

Will não ficou muito contente, julgando mais provável que passasse

a ter mais importância se fosse alvo de antipatia, Não falou nada, mas

assumiu um ar sombrio, para não dizer emburrado.

" estou muito interessada em ver o que fará," disse Dorothea ale-

gremente. "Creio firmemente numa diferença natural de vocação. Se não

fosse esta crença, suponho que eu seria uma pessoa estreita demais -

pois há muitas coisas, além da pintura, em que a minha ignorância é

total. Mal há de acreditar o senhor quão pouco me enfronhei em música

e literatura, de que tanto sabe. Pergunto-me aliás qual há de se mostrar

sua vocação: será talvez um poeta?"

"Depende. Ser poeta é ter a alma tão rápida para discemir, que ne-

nhuma nuance de qualidade lhe escape, e tão rápida para sentir, que o

discernimento seja tão-só a mão que toca em variedade perfeitamente

ordenada as cordas da emoção - uma alma na qual o conhecimento

transforme-se instantaneamente em sentimento, e este brilhe de volta

como um novo órgão daquele. Só por instantes pode alguém viver tal

estado."
246

GEORGE ELIOT

"Esquece-se o senhor dos poemas," disse Dorothea. "Penso que eles

são necessários para completar o poeta. Entendo o que quer dizer sobre

a transformação do conhecimento em sentimento, pois parece-me ser o

que eu mesma experimento. Mas estou certa de que eu nunca poderia

produzir um poema."

"A senhora é um poema - e isto é ser a melhor parte do poeta - o

que constitui a consciência do poeta em seus melhores momentos," dis-

se Wíli, mostrando a mesma originalidade de que todos nós somos ca-

pazes com a manhã e a primavera e outras renovações perpétuas.

"Alegro-me de ouvi-lo," disse Dorothea, externando suas palavras

em risos numa modulação de pássaro, e olhando para Will com uma

alegre gratidão nos olhos. "Que coisas tão gentis o senhor me diz!"

"Desejaria sempre poder fazer alguma coisa que correspondesse ao

que chama de gentil - que eu sempre lhe pudesse prestar o menor ser-

viço que fosse. Mas temo que eu jamais venha a ter a ocasião." Will

falou com ardor.

"Oh, há de ter!" disse Dorothea cordialmente. "A ocasião há de sur-

gir; e hei de lembrar-me do bem que me deseja. Eu já queria muito que

ficássemos amigos desde que o vi pela primeira vez - devido ao seu

parentesco com Mr. Casaubon." Havia nos olhos dela certo brilho líqui-

do, e Will tinha consciência de que os seus já lá se iam umedecendo

também, obedecendo a uma lei da natureza. A alusão a Mr. Casaubon

teria estragado tudo, se alguma coisa pudesse estragar neste momento a

força dominadora, a doce dignidade de sua inexperiencia não suspeitosa

e nobre.

"E há uma coisa que já pode fazer por mim agora mesmo," disse

Dorothea, levantando-se para dar alguns passos sob a ação de um im-


pulso recorrente. "Trometa-me que não há de falar de novo com nin-

guém deste assunto - quero dizer, dos escritos de Mr. Casaubon -

nem, quero dizer, deste modo. Fui eu que levei a isto. Foi culpa minha.

Mas me prometa."

Voltando de seu deambular ela ficou de frente para Will, olhando

gravemente para ele.

"Claro que lhe prometo," disse WílI, corando contudo um pouco. Se

ele nunca dissesse uma palavra ofensiva sobre Mr. Casaubon de novo e

abrisse mão de seus favores, seria claramente permissível odiá-lo ainda

mais. O poeta deve saber odiar, diz Goethe; e para isto pelo menos o

talento de Will já se aprimorara. Disse ele que deveria ir-se agora sem

esperar por Mr. Casaubon, de quem viria despedir-se no último momen-

to. Dorothea estendeu-lhe a mão e eles trocaram um simples "Adeus."

MIDDLEMARCH

247

Mas ao sair pela porte cochŠrel ele encontrou Mr. Casaubon, e este,

expressando os melhores votos por seu primo, polidamente se furtou ao

prazer de quaisquer novas despedidas para o dia seguinte, que estaria

todo tomado com os preparativos para o embarque.

"Tenho uma coisa a lhe dizer do seu primo, Mr. Ladislaw, que acre-

dito há de melhorar sua opinião sobre ele," disse Dorothea ao marido

no decorrer da noite. Tão logo ele chegara ela lhe havia informado que

Will tinha acabado de sair, mas Mr. Casaubon disse por sua vez: "En-

contrei-o na saída, e acho que já nos dissemos adeus," falando isto com

o ar e a entonação pelos quais indicamos que qualquer assunto, seja ele

particular ou público, não nos interessa o bastante para que queiramos

novas observações a respeito. Assim Dorothea tinha esperado.

"O que é, meu amor?" disse Mr. Casaubon (ele sempre dizia "meu
amor," quando seu jeito era o mais frio).

"Ele resolveu interromper de imediato a vida errante que leva, e sair

da dependência de sua generosidade. Pretende voltar para a Inglaterra

em breve, e abrir seu próprio caminho. Pensei que tomaria isto por um

bom sinal," disse Dorothea, com um olhar interrogador para a face neu-

tra do marido.

"Por acaso ele mencionou o tipo preciso de ocupação ao qual iria

dedicar-se?"

"Não. Mas disse que percebia o perigo que havia para ele em sua

generosidade. Naturalmente há de lhe escrever sobre isto. Ele não cres-

ce em sua estima pela resolução que tomou?"

"Vou esperar que se comunique comigo sobre o assunto," disse Mr.

Casaubon.

"Falei-lhe da minha convicção de que era sempre o bem-estar dele o

que você mais considerava em tudo o que fazia por ele. Lembrei da sua

bondade no que disse sobre ele quando o vi pela primeira vez em

Lowick," disse Dorothea, pondo a mão na do marido.

"Eu tinha um dever para com ele," disse Mr. Casaubon, pousando

sua outra mão sobre a de Dorothea, em conscienciosa aceitação da carí-

cia, mas com uma olhada que ele não tinha como esconder que era

íntranqüila. "Este jovem, confesso, afora isto não é para mim objeto de

interesse, nem precisamos nós, creio, discutir o futuro dele, que não é

problema nosso determinar além dos limites que eu já indiquei com

clareza!"

Dorothea não voltou a mencionar o nome de Will.

"Em francês no original: "entrada para carruagens."

LivRo 111
A Espera a Morte

CAPÍTULO XxII

"Your horses of the Sun" he said,

"And first -rate whip Apollo,

Whate"er they be, 111 eat my head,

But I will beat them hollow."

€"Teus cavalos do Sol, Apolo,

E o valioso chicote,

Hei de os vencer a fundo, anote,

Nem que eu quebre a cabeça.")

FRED VINCY, COMO ViMOS, tinha uma dívida na cabeça e, se bem nenhum

peso assim tão incorpóreo pudesse deprimir por muitas horas seguidas

este jovem senhor de alma esfuziante, havia circunstâncias ligadas à tal

dívida que tomavam sua lembrança incomumente inoportuna. O credor

era Mr. Barribridge, um alquilador das vizinhanças, de companhia muito

procurada em Middemarch por jovens sabidamente "dados aos praze-

res." Durante as férias, Fred naturalmente quis ter mais distrações do

que lhe permitia o dinheiro que tinha, e Mr. Bambridge fora bastante

accessível, não só para confiar nele pelo aluguel de cavalos e o prejuízo

acidental de algum estrago a uma montaria de caça, mas também para

adiantar-lhe uma pequena soma que o poria em condições de atender às

suas perdas no bilhar. O montante da dívida era de cento e sessenta

libras. Bambridge não se inquietava por seu dinheiro, estando certo de

que o jovem Vincy tinha quem o amparasse; mas mesmo assim pedira

mostra disto, e Fred a princípio lhe dera uma promissória com sua pró-

pria assinatura. Três meses depois renovou-a com a assinatura de Caleb


Garth. Em ambas as ocasiões Fred estivera confiante de que honraria ele

mesmo o compromisso, posto que em sua própria esperança dispunha

252

GEORGE ELIOT

de amplos recursos. Sua confiança, ninguém há de pedir que ela estives-

se baseada na exterioridade dos fatos; como sabemos, esta confiança é

algo menos materialista e grosseiro: é uma disposição muito cômoda

que nos leva a esperar que a sabedoria da providência ou a loucura dos

nossos amigos, os mistérios da sorte ou o mistério ainda maior de nosso

grande valor individual no universo, hão de trazer desfechos agradáveis,

em perfeita consonãoncia com nosso bom gosto no trajar e nossa predile-

ção genérica pelo que há de melhor em tudo. Fred se sentia seguro de

que receberia um presente de seu tio, de que ainda daria um golpe de

sorte, de que a poder de "barganha" iria gradativamente metamorfosear

um cavalo de quarenta libras num outro que mais cedo ou mais tarde

valeria cem - já que o "critério" é sempre equivalente a uma quantia

não especificada em dinheiro. Em todo caso, mesmo supondo negações

que só uma mórbida desconfiança podia imaginar, Fred sempre tinha

(nesta época) o bolso de seu pai como um último recurso, de modo que

em tomo dos seus haveres de esperança pairava uma espécie de suntuo-

sa superfluidade. De qual poderia ser a capacidade do bolso de seu pai,

Fred não tinha a menor idéia: os negócios não eram sempre elásticos?

As perdas de um ano não seriam compensadas pelos ganhos de um ou-

tro? Os Vincys levavam uma vida profusamente folgada, não com qual-

quer nova ostentação, mas segundo os hábitos e tradições da família, e

os filhos não eram submetidos assim a um padrão de economia, en-

quanto os mais velhos retinham também parte de sua idéia infantil de

que o pai se quisesse poderia pagar tudo. O próprio Mr. Vincy cultivava
os hábitos dispendiosos de Middemarch - gastava muito com as caça-

das, com sua adega e para dar seus jantares, enquanto mamãe mantinha

com os comerciantes essas contas em aberto que dão a alegre impressão

de se poder ter tudo o que se quer sem nem pensar em pagamento. Mas

era da natureza dos pais, Fred o sabia, repreender quanto aos gastos:

sempre havia uma pequena tempestade sobre suas extravagâncias, se

ele tivesse de revelar uma dívida, e a Fred não agradava o mau tempo

em casa. Ele era muito filial para mostrar-se desrespeitoso com o pai, e

suportava as tormentas com a certeza de serem transitórias; mas en-

quanto elas duravam era desagradável ver sua mãe chorando, e também

ser obrigado a fazer cara de amuo, ao invés de se divertir; pois Fred tinha

um tal bom humor que, se parecesse acabrunhado ao ouvir uma

reprimenda, era principalmente para manter as aparências. A saída mais

fácil, claro estava, seria renovar a promissória com o aval de um amigo.

Por que não? Com as garantias supérfluas da esperança sob seu coman-

do, não havia razão que o obstasse de aumentar a seu bel-prazer os

MIDDLEMARCH

253

compromissos financeiros alheios, a não ser o fato de que os homens

cujos nomes tinham peso na praça eram em geral pessimistas, indispos-

tos a crer que a ordem universal das coisas seria necessariamente agra-

dável a um rapaz agradável.

Com um favor a pedir, nós revemos nossa lista de amigos, fazemos

justiça às suas características mais amáveis, perdoamos suas pequenas

ofensas e, no tocante a cada um deles em turno, tentamos chegar à con-

clusão de que todos ficarão ansiosos para nos prestar um favor, sendo a

ansiedade que temos por recebê-lo tão comunicável quanto qualquer

calor. Ainda assim, e até que outros tenham recusado, há sempre alguns
que dispensamos por não serem senão moderadamente ansiosos; e as-

sim foi que Fred eliminou seus amigos todos, à exceção de um, por jul-

gar que recorrer a eles iria ser desagradável; e estando implicitamente

convencido de que ele ao menos (não importando o que fosse mantido

sobre a humanidade em geral) tinha o direito de estar livre das coisas

desagradáveis. Que jamais caísse numa posição realmente incômoda -

usar calças encolhidas pela lavagem, comer costeletas frias, ter de ir a pé

por falta de um cavalo, ou de "abaixar a cabeça" de algum modo - era

um absurdo inconciliável com as alegres intuições nele implantadas pela

natureza. E Fred estremecia só de pensar em ser olhado de cima por

falta de fundos para pequenas dividas. Deu-se pois que o amigo a quem

ele resolveu recorrer era ao mesmo tempo o mais bondoso e o mais

pobre - qual seja, Caleb Garth.

Os Garths gostavam muito de Fred, sendo a recíproca verdadeira;

pois quando ele e Rosamond eram pequenos, e os Garths viviam bem

melhor, os vínculos entre as duas famílias pelo duplo casamento de Mr.

Featherstone (o primeiro com a irmã de Mr. Garth, o segundo com a de

Mrs. Vincy) conduziram a relações que se mantinham mais entre as cri-

anças que por seus pais: crianças que tomavam chá nos aparelhos de

mentirinha e passavam dias inteiros brincando juntas. Mary era danada

da breca, e Fred aos seis anos, quando a achava a menina mais bonita do

mundo, tomou-a sua esposa com um anel de latão por ele arrancado de

uma sombrinha. Ao longo de todas as etapas de sua criação, conservara

a amizade pelos Garths e o hábito de freqüentar-lhes a casa como um

segundo lar, apesar de as relações entre seus pais e eles já estarem há

muito interrompidas. Até mesmo quando Caleb Garth era próspero, os

Vincys o tratavam e à esposa em termos condescendentes, pois havia

nítidas distinções de posição social em Middernarch; e, embora os ve-

lhos proprietários de manufaturas não se pudessem ligar senão aos seus

iguais, tal qual os duques, tinham consciência de uma inerente superio-


254

GEORGE EuOT

ridade social que era definida com grande precisão na prática, se bern

que de difícil expressão em termos teóricos. Mr. Garth, desde que fracas-

sara no ramo da construção, que ele havia infelizmente acrescentado às

suas ocupações como agrimensor, avaliador e corretor de imóveis, por

um tempo desempenhara estas atividades em exclusivo benefício de seus

credores, e passara a viver muito apertado, esforçando-se ao máximo

para pagar tudo em dia, com os juros correspondentes. Agora que con-

seguira isto, e da parte daqueles que o não julgavam mau precedente,

seus horioráveis esforços lhe haviam granjeado a devida estima; mas não

há lugar no mundo onde as visitas distintas acorram só por estima, na

ausência de móveis adequados e de um aparelho de jantar completo.

Mrs. Vincy nunca se sentira à vontade com Mrs. Garth e freqüentemente

se referia a ela como uma mulher que tinha tido de trabalhar para ganhar

seu pão - querendo dizer com isto que Mrs. Garth fora professora antes

de se casar; neste caso, uma intimidade com Lindey Murray e as Ques-

tões de Mangria era algo como a capacidade de reconhecer marcas de

morim de um negociante de tecidos, ou a familiaridade de um guia com

países estrangeiros: uma mulher em boa situação não tinha necessidade

desse tipo de coisa. E, desde que Mary passara a tomar conta da casa de

Mr. Featherstone, a falta de interesse de Mrs. Vincy pelos Garths havía-

se convertido em algo mais positivo, no medo de que Fred viesse a com-

prometer-se com esta menina sem nada, cujos pais "viviam tão modes-

tamente." Fred, sabendo disto, nunca falava em casa de suas visitas a

Mrs. Garth, que ultimamente se haviam tomado mais freqüentes, já que

o ardor em crescendo de sua afeição por Mary o inclinava ainda mais

pelos de sua família.

Mr. Garth tinha um pequeno escritório na cidade, aonde Fred foi


com seu pedido. Conseguiu sem muita dificuldade o que queria, pois as

grandes dosagens de experiência penosa não bastaram para tomar Caleb

Garth cauteloso quanto a seus próprios negócios, nem desconfiado dos

seus semelhantes antes que se revelassem indignos de confiança; e ele

tinha as melhores opiniões sobre Fred, estava "claro que o garoto ia

sair-se bem - um sujeito aberto e afetuoso, com um caráter de base

sólida - com quem sempre se podia contar." Tal era a argumentação

psicológica de Caleb. Era um desses raros homens que, sendo rígidos

com eles mesmos, são indulgentes com os outros. Envergonhava-se um

pouco dos erros de seus vizinhos, e nunca de bom grado falava deles;

ILindIey Murray (1745-1826) e Mrs. Richmal Mangnall (1769-1820), autores de

livros didá-

ticos adotados na época na C rã-Bretanha.

MIDDLEMARCH

255

não era pois de se esperar que desviasse sua atenção do melhor método

de endurecer madeira e outros engenhosos procedimentos para precon-

ceber tais erros. Se tivesse de censurar alguém, era preciso ele arrumar

todos os papéis ao seu alcance, ou descrever com a bengala vários diagra-

mas, ou calcular o quanto tinha em moedas no bolso, antes de poder

começar; e preferiria fazer trabalho alheio a encontrar defeito no que os

outros faziam. Temo que fosse um mau chefe de disciplina.

Quando Fred expôs as circunstâncias de sua dívida, a vontade que

tinha de saldá-la sem incomodar seu pai e a certeza de que o dinheiro

viria em breve para não criar para ninguém uma situação embaraçosa,

Caleb puxou os óculos para cima, ouviu, fitou os olhos claros e jovens

de seu favorito e acreditou nele, não fazendo distinção entre a confiança


no futuro e a veracidade quanto ao passado; mas sentiu que a ocasião

era propícia a uma amistosa alusão à conduta, e que antes de dar seu

aval ele também devia dar uma descompostura. Por conseguinte, apa-

nhou o papel e abaixou os óculos, calculou o espaço de que dispunha,

alcançou a pena e examinou-a, mergulhou-a no tinteiro examinando-a

de novo e então arredou um pouco o papel, ergueu outra vez os óculos,

deixou à mostra no ângulo externo de suas grossas sobrancelhas uma

ligeira depressão que lhe imprimia à face peculiar brandura (perdoe-me

o leitor tais detalhes - passaria a apreciá-los melhor se tivesse conheci-

do Caleb Garth em pessoa) e finalmente disse num tom consolador:

"Que azar, hem, quebrar as pernas do cavalo? E depois essas trocas

não dão certo, quando se tem de lidar com gente astuta. Da próxima

vez, meu jovem, você há de ter mais juízo."

Dito o quê, Caleb abaixou os óculos e preparou-se para fazer sua

assinatura com o cuidado que sempre consagrava a este ritual; pois tudo

o que ele tinha de fazer, fazia bem. Contemplou as grandes letras bem

proporcionadas e o arabesco final, pondo por um instante a cabeça meio

de lado, devolveu o papel a Fred, disse "Adeus" e sem demora voltou à

sua absorção numa planta para novas construções na fazenda de Sirjames

Chettam.

Fosse porque seu interesse pelo trabalho lhe excluísse da lembrança

o incidente da assinatura, fosse por alguma outra razão de que Caleb

estivesse mais consciente, o fato é que Mrs. Garth permaneceu na igno-

râncía do assunto.

Pouco tempo depois, uma mudança nos horizontes de Fred veio a

alterar suas noções de distância, tendo sido a razão pela qual o presente

em dinheiro de seu tio Featherstone foi suficientemente importante para

fazer o sangue aflorar-lhe ao rosto e sumir, primeiro numa expectativa

256
GEORGE ELIOT

muito concreta, depois numa proporcional decepção. Seu fracasso nos

exames tomara o acúmulo de suas dívidas durante a escola ainda mais

imperdoável para o pai, e tinha havido em sua casa uma tormenta sem

precedentes. Mr. Vincy jurara que, se mais alguma coisa da espécie ainda

viesse a envolvê-lo, Fred seria posto porta afora, tendo de se sustentar

como bem pudesse; e até então ele não havia recuperado seu bom hu-

mor costumeiro ao falar com o filho, que o enraivecera particularmente

por dizer àquela altura das coisas que ele não queria ser clérigo e prefe-

ria "desistir daquilo." Fred sabia que seria tratado ainda com mais seve-

ridade, se sua família e ele mesmo não o vissem secretamente como

herdeiro de Mr. Featherstone; servindo o orgulho que o velho tinha dele,

e a aparente simpatia que lhe votava, para suprir sua falta de uma con-

duta mais exemplar - assim como, quando um rapaz da nobreza prati-

ca um roubo de jóias, falamos de um ato de cleptomania, abordamos o

assunto com um sorriso filosófico e não pensamos jamais em mandá-lo

para o reformatório como se ele fosse um qualquer, um menino maltra-

pilho que andasse roubando nabos. De fato, as expectativas tácitas do

que seria feito por ele pelo Tio Featherstone determinavam o ângulo

pelo qual a maioria das pessoas viam Fred Vincy em Middemarch; e, em

sua própria consciência, o que o Tio Featherstone poderia fazer por ele

numa emergência, ou simplesmente em termos de sorte incorporada,

sempre formava uma profundidade imensurável de perspectiva aérea.

Mas o presente feito em notas, tão logo feito, foi mensurável, e contra-

posto sem delongas ao montante da dívida acusou um déficit que resta-

va ser preenchido, quer pelo "critério" de Fred quer por outro tipo de

sorte. Pois o breve episódio do alegado empréstimo, no qual ele induzi-

ra seu pai a agir como intermediário para obter a declaração de BuIstrode,

era um novo motivo para não ir pedir dinheiro ao pai a fim de quitar sua

verdadeira dívida. Fred era bastante esperto para antever que a raiva
embaralharia as distinções, e que uma negativa sua de ter conseguido

um empréstimo dando por garantia o testamento do tio seria tomada

como falsidade. Ele já tinha ido falar com seu pai sobre um assunto

molesto, deixando um outro às ocultas: a revelação completa, nestes

casos, sempre causa uma impressão de duplicidade prévia. Por outro

lado, Fred se gabava de se furtar às mentiras e até a simples lorotas;

muitas vezes dava de ombros e fazia uma expressiva careta ao que ele

próprio chamava as lorotas de Rosamond (só mesmo um irmão para

associar tal idéia a uma garota adorável); a sofrer uma acusação de falsi-

dade, preferiria portanto até sofrer com alguma preocupação e auto-

controle. Foi sob forte pressão interior desta espécie que Fred dera o

MIDDLEMARCH

257

sensato passo de depositar com sua mãe as oitenta libras. E pena foi que

as não tivesse entregue a Mr. Garth logo; com mais sessenta ele queria

porém fazer a soma completa, e para tanto deixara vinte libras no bolso

como uma espécie de semente que, plantada pelo bom senso e aguada

pela sorte, poderia render mais de três vezes - um baixíssimo índice de

multiplicação quando o campo é o infinito fervor de um homem jovem,

com todos os números a seu comando.

Fred não era um jogador: não tinha esta doença específica na qual o

condicionamento de toda a energia nervosa a uma probabilidade ou ris-

co se torna tão necessário quanto o trago para o ébrio; tinha apenas

tendência a uma forma difusa do prazer nas apostas, a qual está despro-

vida de intensidade alcoólica, mas desenvolve-se com o sangue rico em

linfa e saudável, mantendo uma alegre atividade imaginativa que mode-

la os fatos pelo desejo e, livre de medo do seu próprio mau tempo, só vê

vantagens para outros que embarquem nela também. A esperança reple-


ta tem prazer em seus lances, faça-os de que tipo for, porque a perspec-

tiva de sucesso é certa; e um prazer ainda mais generoso se oferece, a

tantos quantos puder, participar das disputas. Fred gostava de jogar,

principalmente bilhar, como gostava de caçar ou de entrar numa corrida

de cavalos com obstáculos; e no fundo gostava mais ainda porque queria

dinheiro e esperava ganhar. A semente das suas vinte libras tinha sido

porém plantada em vão no sedutor campo verde - tudo ao menos que

restara de sua dispersão à beira da estrada - e Fred foi-se aproximando

do dia do vencimento sem outra quantia a seu dispor além das oitenta

libras que havia depositado com a mãe. O cavalo sem fôlego que ele

montava era um presente que seu tio Featherstone lhe fizera há um bom

tempo atrás: seu pai sempre lhe permitira ter um cavalo, já que os pró-

prios hábitos de Mr. Vincy forçavam-no a considerar razoável este requi-

sito, mesmo em se tratando de um filho que o exasperava bastante. O

cavalo, portanto, era um bem que pertencia a Fred, e em sua ansiedade

de fazer face ao pagamento iminente ele resolveu sacrificar um património

sem o qual com certeza a vida não valeria tanto a pena. Foi com uma

ponta de heroísmo que tomou tal decisão - um heroísmo que lhe im-

punham seu pavor de não manter a palavra com Mr. Garth, seu amor por

Mary e o medo dos julgamentos dela. Partiria ele para a feira de cavalos

de Houndsley, a ser realizada na manhã seguinte, e - simplesmente

venderia seu cavalo, trazendo o dinheiro de volta pela diligência? Bem,

era difícil que o cavalo desse mais de trinta libras, e não havia como

saber o que poderia acontecer: seria pura loucura descrer da sorte antes

da hora. Era probabilíssimo que uma boa chance surgisse em seu cami-

258

GEORGE EuoT

nho: quanto mais pensava nisto, menos lhe parecia possível que a não
tivesse, e menos razoável não se munir de pólvora e cartuchos para abatê-

Ia ao passar. Iria a Houndsley com Bambridge e Horrock, "o veteriná-

riof e sem nada lhes perguntar diretamente contaria na prática com as

opiniões que expressassem. Antes de partir, Fred apanhou com sua mãe

as oitenta libras.

Quase todos os que o viram saindo de Middiemarch a cavalo, em

companhia de Bambridge e Horrock, a caminho da feira de Houndsley,

naturalmente pensaram que o jovem Vincy andava em busca de prazer

como sempre; e ele próprio, não fosse a consciência infreqüente de graves

questões em mãos, ter-se-la sentido à dissipação de fato, fazendo o que

era de se esperar de um rapaz alegre. Considerando-se que Fred não era

nada grosseiro, que até olhava com desdém para as maneiras e a fala dos

rapazes que não haviam estado na universidade, e que ele já escrevera

estrofes tão pastoris e sem volúpia como o som da flauta em seus lábios,

sua atração por Bambridge e Horrock era um fato interessante que nem o

amor por cavalos explicaria de todo sem essa influência misteriosa dos

Nomes, que ao serem dados às coisas determinam grande parte da esco-

lha humana. Sob qualquer outro nome que não "prazer," decerto, o con-

vívio com Messieurs Bambridge e Horrock teria sido visto como monóto-

no; e chegar com eles a Houndsley na garoa da tarde, apear no Red Lion

numa rua negra de fuligem, jantar num recinto decorado por um imundo

mapaesmaltado do condado, um mau retrato de um anônimo cavalo numa

cocheira, Sua Majestade Jorge IV de botas e gravata, e ainda várias

escarradeiras de chumbo, teria parecido uma ocasião penosa, não fosse a

força de sustentação da nomenclatura, a qual determinava ser "alegre" a

procura das coisas deste tipo.

Em Mr. Horrock existia sem dúvida uma insondabilidade aparente

que dava tratos à imaginação. Seu traje, já num bater de olhos, eviden-

ciava-o em excitante associação com cavalos (basta mencionar a aba do

chapéu, que subia no menor ângulo possível, apenas para escapar à sus-

peita de se dobrar para baixo), e o rosto que a natureza lhe dera, por
força dos seus olhos mongóis e de um nariz, boca e queixo que pareciam

acompanhar o chapéu em moderada inclinação para cima, dava por seu

turno a impressão de um sorriso cético, imutável, contido, de todas as

expressões a mais tirânica para uma mente susceptível e, quando acom-

panhada de adequado silêncio, capaz de criar a reputação de um conhe-

cimento imbatível, de um infinito fundo de humor - seco demais para

fluir e provavelmente em estado de crosta permanente - e deuma ca-

pacidade de julgamento crítico que, tivesse você tido a felicidade de

MIDDLEMARCH

259

conhecê-la, seria o ponto final.  uma fisionomia vista em todas as voca-

ções, mas que talvez nunca tenha causado tanta impressão à juventude

inglesa quanto num conhecedor de cavalos.

Mr. Horrock, a uma pergunta de Fred sobre o boleto de sua montaria,

pôs-se de lado sobre a sela e acompanhou por três minutos o andar do

cavalo, depois virou-se para a frente, puxou as rédeas e permaneceu em

silêncio, com um perfil nem mais nem menos cético que anteriormente.

A parte assim representada em diálogo por Mr. Horrock foi de uma

eficácia terrível. Uma mistura de paixões excitou-se em Fred - um desejo

louco de arrancar à força a opinião de Horrock, contido pela ansiedade de

reter os benefícios de sua amizade. Sempre havia a possibilidade de que

Horrock dissesse alguma coisa valiosíssima no momento certo.

Mr. Bambridge era mais aberto em seus modos e, ao expressar suas

idéias, não economizava palavras. Espalhafatoso e robusto, dele às ve-

zes se dizia que era "dado a excessos" - principalmente ao beber, blas-

femar e bater na mulher. Certas pessoas já lesadas por ele chamavam-no

de degenerado; já o próprio porém considerava a compra e venda de

cavalos o melhor negócio do mundo, e bem que poderia sustentar de


modo plausível que a moralidade não entrava em causa no ramo. Inega-

velmente ele era um homem próspero, agüentava mais a bebida do que

outros agüentavam a própria moderação e, no todo, florescia como um

loureiro verde. Mas o alcance de sua conversação era limitado e, como a

velha e bela balada "Gotas de Conhaque," dava em pouco tempo a im-

pressão de retornar sobre si mesma a um modo capaz de deixar zonzas

as cabeças mais fracas. Notava-se contudo que uma ligeira infusão de

Mr. Bainbridge dava o tom e o espírito a vários círculos em Middemarch;

e ele era uma figura de proa no bar e no salão de bilhar do Green Dragon.

Sabia casos sobre os heróis do turfe, como sabia de muitos golpes esper-

tos de Marqueses e Viscondes, os quais aparentemente provavam que a

preeminência do sangue era afirmada até mesmo entre os trapaceiros;

mas a minuciosa capacidade de retenção de sua memória evidenciava-se

principalmente em relação aos cavalos que ele havia vendido e compra-

do; o número de léguas que podiam cobrir em pouco tempo sem perder

nem um pêlo ainda era, após um lapso de anos, um tema de afirmaçao

apaixonada com o qual ele alimentaria a imaginação de seus ouvintes,

jurando que jamais tinham visto nada igual. Mr. Bambridge, em suma,

homem dado ao prazer, era um companheiro animado.

Fred era sutil, e não havia falado a seus amigos que iria a Houndsley

com a intenção de pôr seu cavalo à venda: queria descobrir indiretamen-

te que verdadeira opinião eles tinham sobre seu valor, não sabendo que

260

GEORGE ELIOT

uma opinião verdadeira era a última coisa a poder ser extraída de tão

eminentes críticos. Desmanchar-se gratuitamente em louvores não era

uma fraqueza de Mr. Bambridge. E nunca lhe havia impressionado tanto

o fato de este infeliz cavalo baio ter um grau de ronqueira do qual só a


palavra mais perfeita para dizer condenação absoluta poder-lhe-la dar

uma idéia.

"Você deu um passo errado quando resolveu fazer negócio com ou-

tro e não comigo, Vincy! Porque nunca você teve entre as pernas um

cavalo mais completo do que aquele castanho, e foi trocá-lo por este

pangaré. Este, se a gente o põe a meio galope, sai logo bufando tanto

quanto uma turma de serradores no eito. Em toda a minha vida só ouvi

um cavalo mais roncador, e era um ruão: pertencia a Pegwell, o cerealista;

há uns sete anos atrás ele ainda o atrelava no seu cabriolé, e bem que

quis que eu ficasse com a raridade, mas eu disse: "Não, Peg, muito obri-

gado, não negocio com instrumentos de sopro." Pois é, foi o que eu

disse. E a chacota correu por toda a região. Mas o cavalo, que diacho!,

era uma trombeta de um tostão, comparado com este seu roncador."

"Ora esta, você acaba de dizer que o dele era pior do que o meu,"

disse Fred, mais irritadiço que de costume.

"Então eu disse uma mentira," disse Mr. Bambridge, enfaticamente.

"Não havia nem um tostão de diferença entre os dois."

Fred esporeou seu cavalo, e eles trotaram mais um pouco adiante.

Quando outra vez refrearam, Mr. Bambridge disse:

"Nada, a não ser que o tal ruão era melhor de trote que o seu."

"Pois sei é que estou muito satisfeito com o passo dele," disse Fred,

forçado a recorrer à plena consciência de achar-se em companhia anima-

da para suportá-lo; "ouso até dizer que seu trote é um dos mais regula-

res, não é, Horrock?"

Mr. Horrock olhou à frente com uma neutralidade tão completa como

se fosse um retrato por um grande mestre.

Fred desistiu da falaciosa esperança de obter uma opinião verdadei-

ra; mas ao refletir ele achou que tanto a depreciação de Bambridge quanto

o silêncio de Horrock eram ambos virtualmente encorajadores, indican-

do que eles davam mais valor ao cavalo do que resolviam dizer.

Nesta mesma noite, de fato, antes de iniciar-se a feira, Fred julgou


ter visto uma oportunidade favorável a um vantajoso negócio com seu

cavalo, a qual de resto fê-lo parabenizar-se por sua antevisão em trazer

consigo as oitenta libras. Um jovem fazendeiro, conhecido de Mr.

Bambridge, apareceu no Red Lion e logo puxou conversa sobre sua in-

tenção de desfazer-se de um cavalo de caça que ele apresentou como

MIDDLEMARCH

261

Diamond, dando a entender que era uma celebridade. Para si mesmo

não queria senão um bom matungo que, havendo necessidade, pudesse

ser atrelado; pois ele estava para se casar e desistir das caçadas. O cavalo

se achava perto dali, na cocheira de um amigo; e ainda havia tempo de

vê-lo antes do escuro, se os cavalheiros quisessem. A cocheira do amigo

teve de ser alcançada por uma rua nos fundos onde seria tão fácil alguém

se envenenar sem precisar tomar drogas como em qualquer ruela tene-

brosa desta época alheia às condições de higiene. Fred não saíra fortale-

cido pelo conhaque contra o nojo, como seus companheiros, mas a cren-

ça de afinal ter visto o cavalo que o habilitaria a ganhar dinheiro foi

suficientemente animadora para conduzi-lo pelo mesmo caminho, logo

que acordou de manhã. Estava certo de que, se não chegasse a fazer

negócio com o fazendeiro, Bambridge o faria; pois a força das circuns-

tâncias, Fred sentia, andava a aguçar-lhe a perspicácia, dotando-o do

poder construtivo da suspeita. Bambridge havia menosprezado Diamond

de um modo como nunca o teria feito (sendo de um amigo o cavalo), se

ao mesmo tempo não quisesse comprá-lo; todos que tinham visto o ani-

mal - até mesmo Horrock - impressionaram-se evidentemente com

seus méritos. Para obter plena vantagem da companhia de homens des-

ta espécie, é preciso saber extrair as próprias inferências, e não, como

um boboca, tomar tudo ao pé da letra. A cor do cavalo era um cinza


malhado, e Fred sabia que um homem de Lord Medicote andava justa-

mente à procura de um cavalo assim. Depois de tanto menosprezo,

Bambridge passou à sobrestima no decurso da noite, ausente agora o

fazendeiro, quando disse que cavalos piores ele já tinha visto vendidos

por oitenta libras. Claro está que se contradisse vinte vezes, mas, quan-

do se tem alguma idéia do que há de ser a verdade, podese pôr à prova

as afirmações de um homem. E Fred não podia senão reconhecer sua

própria capacidade de saber quanto valia um cavalo. O tempo que o

fazendeiro ficara diante do animal de Fred, respeitável malgrado o fôle-

go curto, tinha dado para mostrar que ele o julgava digno de considera-

ção, e parecia provável que se decidisse a aceitá-lo, com vinte e cinco

libras de quebra, numa troca pelo Diamond. Neste caso Fred, quando se

desfizesse do seu novo cavalo por pelo menos oitenta libras, e tendo

cinqüenta e cinco no bolso com a transação, ficaria com cento e trinta e

cinco libras para o pagamento da dívida; de modo que o saldo devedor

sob responsabilidade temporária de Mr. Garth seria no máximo de vinte

e cinco. Enquanto punha apressadamente sua roupa, pela manhã, viu

com tal clareza a importância de não perder esta chance rara que, se

Bambridge e Horrock quisessem dissuadi-lo, ele não se iludiria com uma

262

GEORGE EuoT

interpretação direta do objetivo deles: ter-se-la dado conta de que aque-

las mãos cavas não sopesavam propriamente os interesses de um jovem,

mas outra coisa. Em relação aos cavalos, sempre a desconfiança se im-

punha. Mas o ceticismo, como sabemos, nunca pode ser aplicado na

íntegra, pois senão a vida acabaria por ir à paralisação: fazer e acreditar

nalguma coisa é forçoso e, seja qual for o nome que se der a esta coisa,

virtualmente ela é o nosso próprio bom senso, mesmo quando pareça a


mais cativa confiança em outrem. Fred acreditava que a sua era uma

excelente barganha e, antes mesmo de a feira estar abertaJá ele entrara

na posse do malhado cinza, pelo valor de seu cavalo velho mais trinta

libras de quebra - apenas cinco a mais do que contava dar.

Sentia-se porém um pouco preocupado e cansado, talvez em decor-

rência do debate mental, e sem esperar pelos divertimentos ulteriores da

feira ele partiu sozinho para a viagem de mais de vinte quilômetros, dis-

posto a fazê-la com toda a calma e a manter seu cavalo em boa forma.

CAPÍTULO XXIV

"The offender"s sorrow brings but sinall relief

To him who wears the strong offénce"s cross."

- SHAKESPEARE: Sonnets.

€A dor do ofendedor traz pouco alívio

A quem carrega a cruz da ofensa feita.")

- SHAKESPEARE: Sonetos."

LAMENTO DIZER QUE logo no terceiro dia após os auspiciosos aconteci-

mentos em Houndsley, Fred Vincy já havia caído num abatimento pro-

fundo, pior que tudo que já conhecera na vida. Não que se decepeionas-

se quanto à possível venda de seu cavalo, mas sim que, antes de ser

fechado o negócio com o valete de Lord Medicote, o tal do Diamond,

no qual fora investida uma esperança de oitenta libras, sem dar sinal de

advertência tinha exibido na cocheira uma viciosa energia para escoicear,

por pouco tendo escapado de matar o palafreneiro para afinal ter-se gra-

vemente ferido ao ficar com a perna presa numa corda pendurada na

lateral da cocheira. E era irremediável a coisa, tal como após o casamen-


to a descoberta de que existe um mau gênio - do qual os velhos amigos

já sabiam decerto antes da cerimônia. Por esta ou por aquela razão, Fred

não teve sua habitual elasticidade diante do golpe de má sorte: simples-

mente estava advertido de que só tinha cinqüenta libras, de que não

havia hipótese de conseguir mais no momento e de que a conta no valor

de cento e sessenta lhe seria apresentada em cinco dias. Mesmo que

recorresse ao seu pai, pretextando que era imperioso salvaguardar Mr.

"Soneto 34.

264

GEORGE ELIOT

Garth de perdas, Fred sabia e até muitíssimo bem que o pai se recusaria

colérico a livrar Mr. Garth das conseqüências do que em suas próprias

palavras seria considerado um estímulo à extravagância e à fraude. Tão

deprimido estava ele que era incapaz de vislumbrar outra saída a não ser

ir diretamente a Mr. Garth e lhe contar a triste verdade, levando consigo

as cinqüenta libras e pelo menos tirando em segurança de suas mãos

esta soma. O pai, estando no armazém, ainda não sabia do acidente:

quando soubesse, ficaria uma fera com aquele monstro perverso em seu

estábulo; e Fred, antes de enfrentar este incômodo menor, queria despa-

char-se com toda a sua coragem para se haver com o maior. Pegou por-

tanto o cavalo do pai, tendo decidido que, após conversar com Mr. Garth,

iria até Stone Court para confessar tudo a Mary. De fato, não fosse a

existência de Mary e o amor que ele nutria por ela, é provável que a

consciência de Fred tivesse sido muito menos ativa, tanto em ficar repi-

sando no seu pensamento a dívida quanto a depois o impelir a não se

esquivar, como era seu hábito, pospondo sempre uma desagradável ta-

refa, mas sim a agir tão simples e diretamente quanto pudesse. Até mor-
tais muito mais fortes do que Fred Vincy mantinham sua retidão com o

pensamento voltado para o ser que eles mais amavam. "O teatro de

todas as minhas ações ruiu," disse um antigo personagem quando seu

melhor amigo morreu; e felizes são os que têm um teatro onde a audiên-

cia lhes pede o máximo. Certamente teria feito considerável diferença

para Fred na época se Mary Garth não dispusesse de noções bem claras

sobre o que havia a admirar no caráter.

Mr. Garth não estava no escritório, e Fred foi para a residência dele,

que ficava um pouco fora da cidade - uma casa bem simples com um

pomar na frente, uma velha e desordenada construção com vigas de

madeira aparentes, que antes da expansão da cidade havia sido uma

sede de fazenda, mas agora estava rodeada pelas hortas particulares dos

moradores do centro. Gostamos mais de nossas casas quando elas têm

fisionomia própria, como nossos amigos. A família Garth, que não era

nada pequena, pois Mary tinha quatro irmãos e uma irmã, adorava sua

velha casa, cujos melhores móveis de há muito haviam sido vendidos.

Fred também gostava dela e a conhecia de cor até o sótão, com um

cheiro delicioso de maçã e marmelo, e até hoje nunca fora ali sem agra-

dáveis expectativas; mas seu coração batia agora intranqüilo porque ele

talvez tivesse de fazer sua confissão diante de Mrs. Garth, que lhe inspi-

rava mais temor que o marido. Não que ela se inclinasse, como Mary, ao

sarcasmo e aos ditos impulsivos. Ao menos na sua idade atual, como

mãe de família, Mrs. Garth não se permitia jamais ser afobada ao falar;

MIDDLEMARCH

265

tendo estado no jugo na juventude, como dizia, e aprendido a se contro-

lar. Possuía ela esse sentido raro que discerne o que é inalterável e se

submete sem queixume. Adorando as virtudes do marido, muito cedo se


apercebera de sua incapacidade para cuidar dos seus próprios interesses,

e alegremente agüentara as conseqüências. Suficientemente magnãoni-

ma, renunciara a toda vaidade por coisas como bules de chá ou vestidinhos

de crianças, e nunca havia despejado confidências patéticas nos ouvidos

das vizinhas sobre a falta de prudência de Mr. Garth e as somas que ele

poderia ter ganho, se fosse como os outros homens. Donde as boas vizi-

nhas julgarem-na orgulhosa ou excêntrica, mencionando-a às vezes,

quando falavam dela com seus maridos, como "a tal da Mrs. Garth."

Esta não deixava de as criticar por seu turno, tendo tido instrução mais

completa que a maioria das matronas de Middemarch e - onde está a

mulher inatacável? - tendendo a ser um pouco severa com seu próprio

sexo, o qual na sua opinião estava constituído para subordinar-se de

todo. Por outro lado, mostrava-se desproporcionalmente indulgente com

as fraquezas dos homens, e ouviam-na dizer com freqüência que eram

naturais. Mas deve-se admitir também que Mrs. Garth abusava da ênfa-

se em sua resistência ao que sustentava serem loucuras: a passagem de

preceptora para dona de casa tinha ficado impressa muito a fundo em

sua consciência e raramente ela se esquecia de que, embora sua pronún-

cia e gramática estivessem acima da média na cidade, ela usava uma

simples touca, cozinhava para a família e cerzia todas as meias. Tivera

algumas vezes alunos a um modo peripatético, fazendo-os andar pela

cozinha atrás dela, com seu livro ou sua lousa. Julgava bom para eles

que vissem como ela podia fazer uma excelente espuma de sabão en-

quanto corrigia seus erros "sem olhar," - como uma mulher que arrega-

çava as mangas acima dos cotovelos podia saber tudo sobre o Modo

Subjuntivo ou a Zona Tórrida - como, em suma, ela podia ter "educa-

ção" e outras boas coisas terminadas em "ção", e que mereciam ser pro-

nunciadas com ênfase, sem ser uma boneca inútil. Ao fazer observações

com esta intenção edificante, franzia um pouco, mas com firmeza, as

sobrancelhas, o que não privava seu rosto do ar de benevolência, e as

palavras que lhe afluíam como em cascata eram pronunciadas numa voz
de contralto, agradável e férvida. Certamente a exemplar Mrs. Garth os-

tentava seus aspectos cômicos, mas o caráter lhe mantinha as bizarrices,

assim como um vinho muito bom mantém o sabor do odre.

Para com Fred seus sentimentos eram matemais, e ela estava sem-

pre disposta a perdoar-lhe os erros, embora provavelmente não perdoasse

Mary caso se comprometesse com ele, estando sua filha incluída na-

266

GEORGE ELIOT

quele julgamento rigoroso que ela aplicava a seu próprio sexo. Mas já o

fato de sua excepeional complacência em relação a ele tomava mais difí-

cil para Fred a possibilidade de ele agora inevitavelmente baixar no seu

conceito. E as circunstâncias desta visita revelaram-se ainda mais desa-

gradáveis do que havia esperado; pois Caleb Garth saíra cedo para visto-

riar umas obras, não muito longe. Mrs. Garth em certas horas estava

sempre na cozinha, e nesta manhã lá se livrava ela a várias ocupações ao

mesmo tempo - fazendo suas tortas na mesa de tábuas muito limpa a

um lado do cômodo tão bem arejado, vigiando por uma porta aberta os

movimentos de Sally a pôr a massa no forno, e ainda dando lições para

seu filho e a filha mais novos, ambos em pé do outro lado da mesa,

diante dos seus livros e lousas. No extremo oposto da cozinha, uma tina

e um varal indicavam que intermitentemente uma ou outra coisinha era

também lavada.

Mrs. Garth, com as mangas dobradas acima dos cotovelos, metendo

com jeito a mão na massa - a aplicar-lhe o rolo e a dar-lhe puxões

ornamentais enquanto expunha com fervor gramatical as regras certas

sobre a concordância de verbos e pronomes com "os nomes coletivos ou

que significam muitos," constituía deveras cena das mais interessantes.

Tinha o mesmo rosto anguloso e o cabelo cacheado de Mary, sendo po-


rém mais bonita, com feições mais delicadas, pele muito clara, sólida

compleição mulheril e, no olhar, uma firmeza notável. Em sua alva touca

de babados ela trazia à lembrança uma dessas deleitosas francesas que

todos já pudemos ver indo às compras, de cestinha no braço. Era de se

esperar, vendo-se a mãe, que a filha fosse ficar que nem ela, perspectiva

vantajosa e equivalente a um dote - já que no mais das vezes a mãe

avulta por detrás da filha como uma profecia maligna - "Tal como eu

sou, ela há de ser em breve."

"Agora vamos repetir outra vez," disse Mrs. Garth, preparando um

folheado de maçã que parecia distrair a atenção de Ben, um jovenzito

cheio de energia e de bastas sobrancelhas, e o não deixava acompanhar

devidamente a lição. ""Não sem levar em conta a importância da palavra

que transmite unidade ou pluralidade de idéia" - explique-me de novo

o que quer dizer isto, Ben."

(Mrs. Garth, à semelhança de educadores mais aplaudidos, tinha seus

velhos caminhos prediletos e, num naufrágio geral da sociedade, esfor-

çar-se-la por manter acima d"água o seu "Lindey Murray".)

"Oh - quer dizer - que a gente tem de pensar no que quer di-

zer," disse Ben, visivelmente enjoado. "Detesto gramática. Pra quê

que serve?"

MIDDLEMARCH

267

"Para lhe ensinar a falar e escrever corretamente, de modo a se fazer

compreender," disse Mrs. Garth, com uma severa precisão. "Você gosta-

ria de falar como o velho Job?"

"Gostaria sim," disse Ben, resoluto; "é mais gozado. Quando ele diz

"Ocê vai" - é o mesmo que "Você vai.`

", mas ele diz "Tem uma velha no jardim," ao invés de "uma ove-
lha,` disse Letty, com ar de superioridade. "A gente podia achar que era

uma velha de foraf

"Só não podia se voce não fosse enjoada," disse Ben. "Como que

uma velha de fora ia aparecer no jardim?"

"Tudo isto só se relaciona à pronúncia, que é a parte menos impor-

tante da gramática," disse Mrs. Garth. "Estas cascas de maçã, Ben, são

para os porcos; se você comê-las, terei de dar para eles o seu pedaço de

torta. O Job só precisa falar das coisas simples da vida. Mas você, como

acha que vai conseguir escrever ou falar sobre assuntos mais difíceis, se

não souber mais gramática que ele? Decerto vai usar palavras erradas,

ou dizê-las nos momentos errados, e as pessoas se afastarão de você

como de um tipo cansativo, ao invés de entendê-lo. E o que fará neste

caso?"

"Eu? Darei o fora sem ligar para nada," disse Ben, convencido de

que em relação à gramática até que seria uma saída agradável.

"Pelo que vejo, o cansaço já o deixou meio bobo, Ben," disse Mrs.

Garth, acostumada com os embaraçosos argumentos de seu pimpolho.

Terminadas as tortas, ela se aproximou do varal e disse: "Venham cá,

crianças, e contem-me aquela história que eu contei quarta-feira, sobre

Cincinato."I

"Eu sei! Ele era um fazendeirof disse Ben.

"Que isso, Ben, era um romano! - deixe que eu contof disse Letty,

a usar contenciosamente seu cotovelo.

"â sua enjoada, era um fazendeiro romano, e que estava arando a

terraf

"Sim, mas antes disto - não foi assim que começou - primeiro o

pessoal queria ele," disse Letty.

"Está bem, mas primeiro a gente tem de dizer que tipo de homem

que ele era," insistiu Ben. "Era um homem que sabia muito, como meu

pai, e por isto o povo queria seus conselhos. E era um homem valente,

não fugia da luta. Meu pai também não - não é, mãe?"


"Lúcio Quinto Cincinato, eleito cônsul em 458 a.C., posteriormente foi

chamado a Roma de

volta para se tornar ditador.

268

GEORGE ELIOT

"Peraí, Ben, deixe eu logo contar a história toda, como mamãe con-

tou pra gente," disse Letty, já fazendo cara feia. "Por favor, mãe, diga ao

Ben pra não falar."

"Você me envergonha, Letty," disse a mãe, torcendo toucas que tira-

va da tina. "Quando seu irmão começou, você deveria ter esperado para

ver se ele seria capaz de contar a história. Que grosseira você parece que

é, empurrando e fazendo cara feia como se quisesse vencer pelos cotove-

los! Estou certa de que Cincinato lamentaria muito, se visse a filha dele

se comportar assim." (Esta frase horrorosa foi dita por Mrs. Garth com

muito da imponência que há num enunciado, e Letty sentiu que entre a

loquacidade reprimida e a desestima de todos, inclusive a dos romanos,

a vida para ela já era coisa penosa.) "E então, Ben?"

"Bem - aí - bem - daí que houve uma brigalhada medonha, e eram

todos uns broncos, e - não, não sei contar como você contou - mas sei

que eles queriam um homem para ser comandante e rei e tudo -"

"Faltou ditador," disse Letty, com um olhar ofendido, e não sem

desejo de fazer sua mãe arrepender-se.

"Muito bem, ditador!" disse Ben, desdenhosamente. "Mas a palavra

não é boa: ele nunca mandou eles escreverem na lousa."

"Que isso, Ben, você não é tão ignorante assim," disse Mrs. Garth,

com cuidado para não sair do sério. "Mas ouçam, estão batendo na por-

ta! Corra, Letty, vá abrir."


A batida era de Fred; e quando Letty disse que seu pai ainda não

tinha voltado, mas a mãe estava na cozinha, Fred não teve alternativa.

Não poderia abster-se de seu hábito de ir cumprimentar Mrs. Garth onde

por acaso ela estivesse ao trabalho. Em silêncio ele passou o braço pelos

ombros de Letty e com ela foi para a cozinha, sem seus carinhos e brin-

cadeiras de praxe.

Mrs. Garth surpreendeu-se por ver Fred àquela hora, mas a surpresa

não era um sentimento que fosse dada a expressar, e ela apenas disse,

continuando a trabalhar calmamente:

"Você, Fred, já tão cedo assim? E está tão pálido. Aconteceu alguma

coisa?"

"Quero falar com Mr. Garth," disse Fred, ainda não preparado para

dizer mais - "e também com a senhora," acrescentou após breve pausa,

pois não tinha dúvida de que Mrs. Garth sabia tudo sobre a promissória,

e ele acabaria tendo de falar diante dela, se não só para ela.

"Caleb há de voltar dentro de poucos minutos," disse Mrs. Garth,

que imaginou algum problema entre Fred e o pai dele. " certo que não

se demore, porque há um trabalho em sua mesa que ainda tem de ser

MIDDITMARCH

269

feito esta manhã. Você se importa de ficar comigo, enquanto acabo aqui

meus afazares?"

"Mas não vamos ter de continuar com o Cincinato, vamos?" disse

Ben, que havia tomado da mão de Fred o chicote e o experimentava,

com eficiência, no gato.

"Não, agora vá para fora. Mas largue este chicote aí. Que maldade,

bater no coitado do Tortoise! Tome o chicote dele, Fred, por favor."

"Vamos, amigo, dê-me isto," disse Fred, estendendo a mão.


"Você me deixa andar no seu cavalo hoje?" disse Ben, entregando o

chicote com um ar de não estar sendo obrigado a fazê-lo.

"Hoje não - outro dia. O cavalo com que eu estou não é meu."

"Você vai ver a Mary hoje?"

"Acho que sim," disse Fred, sentindo uma desagradável pontada.

"Diz a ela pra vir aqui em casa logo, pra gente brincar e fazer um

jogo de prendas."

"Chega, Ben, chega! vá dar uma volta," disse Mrs. Garth, ao ver que

Fred estava incomodado.

"Letty e Ben são os seus únicos alunos agora, Mrs. Garth?" disse

Fred, tendo as crianças já saído e sendo então necessário dizer alguma

coisa para passar o tempo. Ele não tinha ainda certeza se deveria esperar

por Mr. Garth, ou valer-se de uma oportunidade que a conversa propicias-

se para fazer sua confissão à própria Mrs. Garth, entregar-lhe o dinheiro

e ir-se embora.

"Uma - só uma aluna. Fanny Hackbutt vem às onze e meia. Não

tenho feito muito dinheiro," disse Mrs. Garth, com um sorriso. "No to-

cante a alunos, a maré anda baixa. Mas consegui juntar minhas econo-

mias para a aprendizagem do Alfred: tenho noventa e duas libras. Ele

agora já pode começar com Mr. Harimer; está bem na idade."

Não, não era uma boa introdução à notícia de que Mr. Garth estava

à beira de perder mais do que tal quantia. Fred ficou calado. "Com os

rapazes que vão para o colégio o gasto é ainda maior," prosseguiu ino-

centemente Mrs. Garth, enquanto descosia o debrum de uma touca. "E

o Caleb acha que o Alfted vai acabar virando um grande engenheiro:

quer dar uma boa oportunidade ao garoto. Aliás, ele está chegando! Já

posso até ouvir seus passos. Vamos lá para a sala para encontrá-lo?"

Quando eles entraram na sala, Caleb, tendo tirado seu chapéu, já

estava sentado à escrivaninha.

"E então, meu jovem!" disse ele num tom de leve surpresa, manten-

do em suspenso a pena por molhar. "Chegou cedo mesmo, hem?" Mas,


como faltasse ao rosto de Fred a costumeira expressão de saudação

270

GEORGE ELIOT

efusiva, imediatamente ele acrescentou: "Há alguma coisa em sua casa

- que foi que houve?"

"Bem, Mr. Garth, vim para lhe dizer uma coisa que eu temo venha a

levá-lo, a não pensar bem de mim. Vim dizer ao senhor e a Mrs. Garth

que eu não posso manter a minha palavra. Não consigo arranjar dinhei-

ro para liqüidar a dívida. Não tive sorte; para pagar as cento e sessenta,

só disponho destas cinqüenta libras."

Enquanto ia falando, Fred foi tirando as notas e colocou-as diante

de Mr. Garth na escrivaninha. Após a explosão que o fizera ir diretamen-

te ao assunto, sentia-se uma criança infeliz e sem recursos verbais. Mrs.

Garth, em perplexo mutismo, olhou para seu marido à cata de explica-

ção. Caleb corou, esperou um pouco e disse:

"Pois é, eu não lhe havia dito nada, Susan: avalizei uma promissória

para o Fred; era de cento e sessenta libras. Ele me garantiu que ia poder

pagar."

Houve uma evidente mudança no rosto de Mrs. Garth, mas foi como

uma mudança embaixo d"água, mantendo-se a superfície tranqüila. Com

os olhos fixados em Fred, ela disse:

"Suponho que você tenha pedido o resto do dinheiro a seu pai, e ele

há de ter recusado!"

"Não," disse Fred, mordendo o lábio e falando com mais dificuldade

ainda; "mas sei que de nada adianta pedir a ele; e, mesmo que adiantas-

se, eu não gostaria de mencionar o nome de Mr. Garth em relação a este

assunto."

"Bem, aconteceu numa hora muito imprópria," disse Caleb, com sua
hesitação costumeira, baixando os olhos para as notas e tocando nervo-

samente no papel com os dedos. "O Natal já está às portas - e eu, no

momento, ando meio apertado. Tenho de ir cortando tudo com medidas

bem justas, como um alfaiate. Que podemos fazer, Susan? Vou ter de

raspar a conta no banco. São cento e dez libras, caramba!"

"Posso dar-lhe as noventa e duas que eu guardei para a aprendiza-

gem do Alfred," disse Mrs. Garth, decidida e grave, embora ouvidos apu-

rados pudessem ter discernido aqui e ali nas palavras um ligeiro tremor.

"E não duvido de que a Mary, a essa altura, já conte com vinte libras que

poupou do salário. Ela há de adiantá-las."

Mrs. Garth não voltara a olhar para Fred, mas não calculava nem um

pouco que palavras deveria empregar para deixá-lo sem graça. Mulher

excêntrica que era, ela agora se aborvia em pensar o que precisava ser

feito, e nem sequer imaginava que por meio de observações amargas ou

explosões fosse possível chegar ao fim mais depressa. Contudo, pela

MIDDLEMARCH

273

primeira vez ela fizera Fred sentir como o remorso dói. Curiosamente, a

dor que antes ele havia sentido em relação ao problema quase que se

resumia à idéia de ter de se mostrar desonroso, baixando no conceito

dos Garths: não se preocupara com os inconvenientes e o eventual dano

que sua falta de palavra poderia ocasionar para eles, pois este exercício

da imaginação sobre as necessidades alheias não é comum entre os ca-

valheiros jovens e ainda cheios de esperança. Com efeito, somos em

grande maioria criados pela noção de que o motivo mais nobre para não

cometer um erro é algo desvinculado dos seres que poderiam sofrer com

a nossa falta. Neste momento porém ele se viu subitamente como um

lamentável patife a extorquir de duas mulheres suas reservas feitas.


"E claro, Mrs. Garth, que eu irei pagar tudo - mais tarde," conse-

guiu gaguejar.

"Sim, mais tarde," disse Mrs. Garth, que, tendo particular aversão

por palavras bonitas em momentos de horror, não pôde agora reprimir

um epigrama. "Só que os rapazes mais tarde já não aprendem bem: de-

vem começar a aprender aos quinze anos." Nunca ela estivera tão pouco

inclinada a perdoá-lo.

"O erro maior foi meu, Susan," disse Caleb. "Fred garantiu que ia

arranjar o dinheiro. Mas eu não tinha por que botar as mãos nestas

notas. Suponho que você tenha andado por aí e tentado todos os meios

honestos," acrescentou, fixando em Fred seus olhos cinzentos e compa-

decidos. Caleb era delicado demais para especificar Mr. Featherstone.

"Sim, eu tentei tudo - realmente tentei. E era para eu ter cento e

trinta libras na mão, não fosse o azar que tive com um cavalo que já

estava quase vendendo. Meu tio me havia dado oitenta libras e eu, en-

trando com meu cavalo velho pelo valor de trinta, pude ficar com um

outro que iria vender por oitenta ou mais - só que agora ele mostrou

ser cheio de manhas e se machucou. Que bom se eu fosse carregado pelo

diabo, com os cavalos juntos, antes de lhe trazer este problema! Não há

ninguém que me importe tanto: o senhor e Mrs. Garth sempre foram

muito bons para mim. Mas dizer isto, eu sei, não adianta. Vocês agora

vão sempre me considerar um patife."

Fred virou-se e precipitou-se para fora da sala, consciente de estar-

se tornando algo efeminado, e sentindo de maneira confusa que de pou-

co valia para os Garths ele se desculpar. Puderam vê-lo montar e trans-

por rapidamente a porteira.

"Estou decepeionada com Fred Vincy," disse Mrs. Garth. "Nunca te-

ria acreditado que ele o fosse envolver em suas dívidas. Eu sabia que ele

era extravagante, mas não pensava que chegasse a ser tão indigno a

272
GEORGE ELIOT

ponto de se pendurar com seus riscos no mais velho amigo que tinha, e

o que menos se podia permitir prejuízos."

"Eu fui um tolo, Susan."

"Foi mesmo," disse a esposa, concordando com a cabeça e sorrin-

do. "Mas eu não iria proclamar isto em praça pública. Por que você

tem de esconder as coisas de mim?  tal e qual como com seus botões;

quando eles caem, não me diz nada, e depois sai por aí com os punhos

soltos. Se ao menos eu tivesse sabido, talvez pudesse encontrar uma

melhor solução."

"Foi um golpe, Susan, eu sei, e você está muito triste," disse Caleb,

olhando compadecidamente para ela. "E eu não me conformo que voce

perca o dinheiro que conseguiu juntar para o Alfred."

"Ainda bem que eu consegui juntá-lo; e quem tem a sofrer é você

mesmo, que é quem tem de ensinar ao garoto. Você precisa largar os

seus maus hábitos. Assim como há homens que dão para beber, você

deu para trabalhar de graça. Você devia ser um pouco menos condescen-

dente com isto. E agora deve dar um pulo na Mary e perguntar quanto

ela tem disponível."

Caleb tinha empurrado a cadeira para trás e se inclinava para a fren-

te, balançando lentamente a cabeça e com perfeita exatidão juntando as

pontas dos dedos.

"Pobre MaryV" disse ele. "Susan," prosseguiu em tom mais baixo,

tdeu desconfio que ela gosta do Fred."

"Oh, não! Ela está sempre rindo dele; e nada indica que ele pense

nela a não ser de um modo fraterno."

Caleb não replicou, mas abaixou os óculos, puxou a cadeira para a

mesa e disse: "Com os diabos a promissória - quem dera ela estivesse

em Hanover! Tais coisas são uma triste interrupção para o trabalho!"


A primeira parte desta fala compreendia toda sua reserva de expres-

são blasfernatória e foi pronunciada com uma ligeira rosnadela, fácil de

imaginar. Difícil seria transmitir, a quem nunca o ouviu pronunciar a

palavra "trabalho," o tom peculiar de férvida veneração, de respeito re-

ligioso, em que ele a envolvia, como um simbolo consagrado é envolto

no seu linho de franjas áureas.

Era freqüente que Caleb Garth balançasse a cabeça ao meditar sobre

o valor, a indispensável pujança desse afã com miríades de mãos e cabe-

ças pelo qual o corpo social é nutrido, vestido e posto sob um teto. Afã

que ainda na infância lhe havia tomado a imaginação. Os ecos do grande

malho onde uma quilha ou um telhado eram feitos, os gritos de sinaliza-

ção dos operários, o fragor da fornalha, o troar e o resfolegar da máquina

MIDDLEMARCH

273

eram para ele uma sublime música; o abate e transporte da madeira, e o

imenso tronco pela estrada a vibrar como estrela na distância, o guin-

daste em ação no cais, os produtos empilhados nos entrepostos, a preci-

são e variedade do esforço muscular por onde quer que um trabalho

exato devesse ser realizado - todas estas visões de sua juventude ti-

nham agido sobre ele como uma poesia sem a ajuda dos poetas, feito-

lhe uma filosofia sem a ajuda dos filósofos, uma religião sem ajuda da

teologia. Sua primeira ambição fora ter uma participação tão ativa quan-

to possível neste sublime afã que era particularmente dignificado por ele

sob o nome de "trabalho;" e, apesar do pouco tempo que passara com

um mestre, tendo aprendido mais por conta própria, ele entendia mais

de terra, mineração e construção que a maioria dos especialistas do con-

dado.
Sua classificação das ocupações humanas era um pouco primária e,

como as categorias de homens mais festejados, não seria aceitável em

nossa época de tantos avanços. Ele as dividia em "trabalho, política,

pregação, estudo e diversão." Nada tinha a dizer contra as quatro últi-

mas; considerava-as porém como um reverente pagão considerava ou-

tros deuses que não os seus. Da mesma forma, pensava muito bem de

todas as posições sociais, mas não gostaria para si de uma qualquer na

qual ele não tivesse com o "trabalho" esse contacto íntimo que tantas

vezes o decorava honrosamente com marcas de poeira e argamassa, o

borrifo das máquinas ou o solo doce das florestas e campos. Embora

nunca se tivesse considerado senão como um cristão ortodoxo, capaz de

sustentar uma discussão sobre a graça preveniente, caso lhe propuses-

sem o tema, eu acredito que suas divindades virtuais eram os bons pla-

nos práticos, a execução acurada e a fiel conclusão dos empreendimen-

tos: seu príncipe das trevas era o trabalhador negligente. Mas não havia

espírito de negação em Caleb, e o mundo lhe parecia tão maravilhoso

que ele estava pronto a aceitar quaisquer sistemas, como quaisquer

firmamentos, desde que obviamente eles não interferissem com a me-

lhor drenagem de terras, a construção mais sólida, as medições corretas

e as perfurações criteriosas (para o carvão de pedra). Sua alma reverenciosa

associava-se de fato a uma grande inteligência prática. O domínio das

finanças lhe escapava porém: ele tinha ciência dos valores, mas era des-

provido de imaginação sagaz para em termos de lucros e perdas calcular

resultados: e, tendo-se certificado disto por experiência própria, decidi-

ra-se a renunciar a todas as formas de seu amado "trabalho" que reque-

ressem tal talento. Dera-se por inteiro aos muitos tipos de atividade que

podia desempenhar sem empatar capital e era um dos homens precio-

274

GEORGE ELIOT
sos, nos limites de seu próprio distrito, a quem todos queriam dar traba-

lho, porque fazia tudo bem feito, cobrava muito pouco e às vezes mes-

mo nem chegava a cobrar. Não espanta portanto que os Garths fossem

pobres, e "vivessem modestamente." Eles contudo não se importavam

com isto.

CAPÍTULO XXV

"Love seeketh not itself to please,

Nor for itself hath any care,

But for another gives its ease,

And builds a heaven in hell"s despair.

Love seeketh only self to please,

To bind another to its delight,

Joys in another"s loss of ease,

And builds a hell in heavens"s despite."

- W BLAKE: Songs of Experience.

€"Não busca o amor se contentar,

Nem tem por si cuidados seus,

Mas seu sossego a outro quer dar

E faz do horror do inferno um céu.

Só busca o amor saciar o ego

E, unindo o outro ao seu prazer,

Gozar-lhe a perda do sossego

E, alheio ao céu, um inferno ter.")


- W BLAKE: Canções da experíência.1

FRED VINCY QUERIA chegar a Stone Court quando Mary não pudesse

estar a esperá-lo e seu tio não se encontrasse no térreo: era provável

neste caso que ela estivesse sozinha na sala revestida por lambris de

madeira. Deixou pois seu cavalo no terreiro, para evitar fazer barulho no

I"The Ciod and the Pebble. *

276

GEORGE EuoT

cascalho da frente, e entrou na sala sem nenhum outro aviso que não o

girar da maçaneta na porta. Mary se achava no seu canto de sempre,

divertindo-se muito com as lembranças de Johnson por Mrs. Piozzi,1 e

ergueu os olhos ainda com alegria no rosto. Uma alegria que porém se

dissipou pouco a pouco quando ela viu que Fred se aproximava sem

falar para se plantar diante dela com o cotovelo apoiado na lareira e um

ar dos mais infelizes. Ela também guardou silêncio, e apenas o olhava

indagadoramente:

"Mary," começou ele, "eu sou um mandrião e um canalha."

"Eu diria que um só destes epítetos de cada vez já bastava," disse

Mary, tentando sorrir mas se sentindo alarmada.

"Sei que você nunca mais há de pensar bem de mim. Vai-me achar

um mentiroso. Vai-me achar desonesto. Vai achar que não me importei

com você, nem com sua mãe e seu pai. Você sempre me torna pelo pior,

eu sei."

"Não posso negar que hei de pensar tudo isto a seu respeito, Fred,

se para tanto me der boas razões. Mas, por favor, diga-me logo o que foi

que você fez. Prefiro saber a dolorosa verdade a ter de imaginá-la."


"Eu devia um dinheiro - cento e sessenta libras. E pedi ao seu pai

para assinar uma promissória. Eu pensava que isto, para ele, não teria

conseqüências. Estava certo de que eu mesmo conseguiria pagar, e ten-

tei todo o possível. Mas agora, meu azar foi tanto - deu tudo errado

com um cavalo - que só posso pagar cinqüenta libras. Não adianta

pedir dinheiro ao meu pai: ele não me daria um tostão. E meu tio ainda

há pouco me deu cem. Que posso fazer então? Como seu pai agora não

dispõe da quantia, sua mãe terá de entrar com noventa e duas libras que

havia juntado, e diz ela que o que você guardou vai ser preciso também.

Veja só que -"

"Oh, coitada da minha mãe, coitado do pai!" disse Mary, com os

olhos a encherem-se de lágrimas e um ligeiro soluço que ela tentou re-

primir mal se formava. Olhava reto para a frente e sem ligar para Fred,

enquanto todas as conseqüências em casa se lhe faziam presentes. Ele,

mantendo-se calado por alguns momentos, sentia-se mais infeliz do que

nunca.

"Por nada no mundo, Mary, eu ia querer magoá-la tanto," disse por

fim. "Você nunca poderá perdoar-me."

"Que importância teria eu perdoá-lo?" disse Mary, muito exaltada.

lHester Lynch Piozzi, autora de Anecdotes of the Late Samuei Johnson, During

the Last Twenty

Years of his Life (1786).

MIMUMARCH

277

"Por acaso isto alteraria o fato de minha mãe perder o dinheiro que ela

ganhou dando aulas por quatro anos seguidos, a fim de colocar o Alfred

com Mr. Hanmer? Você acha que a situação se tornaria mais agradável,
se eu o perdoasse?"

"Diga o que quiser, Mary. Eu bem que mereço."

"Não tenho nada a dizer," disse Mary, já mais calma; "minha raiva é

de todo vã." E enxugou as lágrimas, pôs o livro de lado, levantou-se e

pegou sua costura.

Fred acompanhou-a com os olhos, na esperança de que eles encon-

trassem os dela e assim abrissem caminho para seu súplice arrependi-

mento. Mas não! Era fácil para Mary evitar olhar para cima.

"Preocupo-me muito com o dinheiro de sua mãe a ir-se embora,"

disse ele, quando de novo já sentada ela cosia rápido. "E queria pergun-

tar-lhe, Mary - você não acha que Mr. Featherstone - se você dissesse

a ele - se lhe falasse, quero dizer, da aprendizagem do Alfred - pode-

ria adiantar o dinheiro?"

"Minha família não é dada a esmolar, Fred. Preferimos trabalhar por

nosso dinheiro. Além disso, você acaba de dizer que Mr. Featherstone

lhe deu recentemente cem libras.  muito raro que ele faça presentes; a

nós nunca fez. Tenho certeza de que meu pai não vai pedir nada a ele; e,

mesmo que eu concordasse em pedir, não adiantaria nada."

"Minha infelicidade não tem fim, Mary - se você soubesse como eu

estou infeliz, teria pena de mim."

"Há outras coisas de que se ter mais pena. Mas as pessoas egoístas

sempre acham que seu desconforto é mais importante que tudo mais no

mundo: dia a dia eu vejo isto."

"Não é justo me chamar de egoísta. Se você soubesse das coisas que

outros rapazes fazem, veria que eu não sou dos piores."

"O que eu sei é que quem gasta muito consigo mesmo, sem saber

como irá pagar, deve ser egoísta. As pessoas assim estão sempre pensan-

do no que podem conseguir para si, e não no que os outros podem per-

der."

. Qualquer homem pode dar um azar, Mary, e ver-se em condições

de não poder pagar, quando esta era a intenção que tinha. Não há no
mundo homem melhor que seu pai, e no entanto ele se viu em apuros."

"Como ousa fazer comparação entre meu pai e você, Fred?," disse

Mary, em profundo tom de indignação. "Ele nunca se viu em apuros por

pensar em seus próprios prazeres ociosos, mas porque estava sempre

pensando no trabalho que fazia para outras pessoas. Agüentou muita

coisa e trabalhou duro para evitar que outros perdessem."

278

GEORGE ELIOT

"E você acha que eu nunca vou tentar evitar nada, Mary. Não é gene-

roso pensar o pior de um homem. Quando se tem algum poder sobre

ele, creio que se deva tentar usá-lo para o tornar melhor; mas isto é o

que você nunca faz. Pois bem, então vou-me embora," concluiu Fred,

languidamente. "Nunca vou-lhe falar de novo sobre nada. Sinto muitís-

simo todo o problema que causei - e isto é tudo."

Mary deixara a costura cair de suas mãos e ergueu os olhos. Mesmo

no amor de uma garota há com freqüência algo maternal, e a dura expe-

riência de Mary forjara-lhe a natureza para uma impressibilidade muito

distinta dessa coisa impiedosa e fútil que julgamos ser uma garota. Corri

as últimas palavras de Fred ela sentiu uma pontada instantânea, algo

como o que sente a mãe ao imaginar os gritos e soluços de um filho

travesso e gazeteiro, capaz de se perder e se machucar. Quando seus

olhos, ao se erguerem, deram assim com os dele, baços, desesperados, a

pena que ela sentiu de Fred se sobrepôs à raiva e a todas as suas preocu-

pações.

"Oh, Fred, você parece estar sofrendo! Sente-se um pouco. Não se

vá tão cedo. Deixe-me avisar ao tio que você está aqui. Ele já estranhava

não o ter visto por toda uma semana." Mary falou correndo, dizendo as

palavras que por primeiro lhe vinham, sem saber muito bem quais elas
eram, mas dizendo-as num tom para acalmá-lo, e ao mesmo tempo de

rogo, enquanto se levantava como se fosse avisar Mr. Featherstone. Na-

turalmente, para Fred, foi como se as nuvens se dissipassem e surgisse

um clarão: ele deu alguns passos e barrou-lhe o caminho.

"Diga uma palavra, Mary, que eu faço não importa o quê. Diga que

não vai pensar mal de mim - que não me abandonará."

"Como se eu pudesse ter prazer em pensar mal de você," disse Mary,

num tom pesaroso. "Como se já não fosse muito penoso para mim vê-lo

como pessoa ociosa e frívola. Não sei como agüenta ser tão desprezível,

quando outros trabalham, se esforçam tanto, e há tantas coisas por fazer

- como agüenta não estar dando para nada que seja útil na vida? Com

tudo o que há de bom em você, Fred, - você poderia ser de grande valia."

"Tentarei ser o que você quiser, Mary, qualquer coisa, se disser que

me ama."

"Eu teria vergonha de dizer que amava um homem que vive depen-

dendo dos outros e contando com o que fariam por ele. Que será você

aos quarenta? Como Mr. Bowyer, suponho - um vadio que nem ele,

vivendo na saleta de Mrs. Beck - gordo e esmolambado, esperando que

alguém lhe convide para jantar - passando a manhã aprendendo uma

canção cômica - oh não! aprendendo uma toada na flauta."

MIDDLEMARCH

279

Os lábios de Mary haviam começado a se repuxar num sorriso, tão

logo ela colocara a questão sobre o futuro de Fred (as almas jovens são

volúveis), e antes de ela parar de falar seu rosto já estava iluminado pela

alegria mais plena. Para ele foi como a cessação de uma dor que Mary

ainda pudesse rir dele e, com uma espécie passiva de sorriso, tentou

pegar na mão dela; mas ela se escapuliu para a porta, e disse: "Vou
avisar o tio. Você deve falar com ele um pouquinho."

Fred sentiu secretamente que seu futuro estava garantido contra a

realização das sarcásticas profecias de Mary, à parte daquela "qualquer

coisa" que estava pronto a fazer se ela definisse o que era. Nunca ele

ousava na presença de Mary abordar o tema das expectativas que tinha

em relação a Mr. Featherstone, e ela sempre as ignorava, como se tudo

dependesse só dele mesmo. Mas se realmente ele viesse a entrar em

posse da herança, ela teria de reconhecer a mudança em sua posição.

Tudo isto lhe veio frouxamente à cabeça antes de ele subir para ver seu

tio. Lá não se demorou quase nada, desculpando-se por estar resfriado;

e Mary não reapareceu antes de ele partir. No caminho para casa, Fred

começou a notar que era mais doente do que melancólico que ele se

sentia.

Quando Caleb Garth chegou a Stone Court logo depois de escurecer,

Mary não se espantou, embora ele raramente tivesse tempo de visitá-la,

e não gostasse nem um pouco de conversar com Mr. Featherstone. O

velho, por sua vez, não se sentia muito à vontade com um cunhado que

ele não podia atormentar, que não se importava de ser considerado po-

bre, não tinha nada a pedir-lhe e entendia de todas as questões de agri-

cultura e mineração mais do que ele. Mary tinha certeza de que seus pais

iam querer vê-la e. se seu pai não tivesse vindo, haveria de conseguir

uma folga para passar uma ou duas horas no dia seguinte em sua casa.

Após uma discussão sobre preços, durante o chá com Mr. Featherstone,

Caleb levantou-se para despedir-se e disse: "Quero falar com você, Mary."

Ela foi com uma vela para um outro salão que o fogo não aclarava e,

pousando a fraca luz na escura mesa de mogno, e passando-lhe os bra-

ços no pescoço, beijou-o com beijos infantis que o deliciaram, - ado-

çando-se a expressão de suas grandes sobrancelhas como se adoça a

expressão de um grande e belo cachorro quando o acariciam. Mary era

sua filha predileta e, pouco importando o que dissesse Susan, e certa

como ela estava em tudo o mais, Caleb achava natural que Fred ou qual-
quer outro pudesse achar Mary mais gostável do que outras moças.

"Tenho uma coisa a lhe dizer, minha filha," disse Caleb a seu modo

hesitante. "Não é notícia muito boa; mas bem que podia ser pior."

280

GEORGE ELIOT

" sobre dinheiro, papai? Acho que eu sei o que é."

"Ah, como pode ser? Pois então é isto, fui meio tolo outra vez e pus

meu nome numa promissória, e o jeito agora é pagar; e sua mãe resolveu

entrar com as economias dela, e o pior é isto, e nem mesmo assim vai

dar para chegar à quantia. Precisamos de cento e dez libras: sua mãe tem

noventa e duas, e eu, nada disponível no banco; e ela pensa que você

teria alguma reserva."

"Oh, tenho sim; tenho mais de vinte e quatro libras. Eu achei que

você viria, pai, e até pus tudo na bolsa. Veja! belas notas novas e moedas

de ouro."

Mary tirou o dinheiro da sua bolsinha de crochê e o pôs na mão de

seu pai.

"Bem, mas como - só precisamos de dezoito - aqui, guarde o res-

to de novo, minha filha - mas como você sabia disto?" disse Caleb que,

com sua invencível indiferença por dinheiro, começava a se preocupar

sobretudo com a relação que este assunto poderia ter com os sentimen-

tos de Mary.

"O Fred me contou de manhã."

"Ah! Veio aqui para isto?"

"Sim, acho que sim. Estava muito abatido."

"Temo que o Fred não seja digno de confiança, Mary," disse o pai,

com hesitante ternura. " melhor nas intenções que nos atos, talvez.

Mas penso eu que seria uma lástima para a felicidade de alguém se en-
volver com ele, e o mesmo pensa sua mãe."

"E eu também, papai," disse Mary, não erguendo os olhos, mas pon-

do o dorso da mão do pai contra a própria face.

"Não quero ser indiscreto, minha filha. Mas eu temia que pudesse

haver alguma coisa entre você e o Fred, e queria preveni-la. Veja bem,

Mary" - e aqui a voz de Caleb se tornou mais suave; andara a empurrar

o seu chapéu sobre a mesa e a olhar para ele, mas finalmente virou os

olhos para sua filha - "uma mulher, por melhor que possa ser, tem de

agüentar a vida que o marido lhe dá. Sua mãe tem tido de agüentar

muito por minha causa.

Mary levou o dorso da mão do pai a seus lábios e sorriu para ele.

"Bem, bem, ninguém é perfeito, mas" - aqui Mr. Garth balançou a

cabeça como que para compensar a inadequação das palavras - "o que

estou pensando é - bem, o que deve ser para uma esposa quando ela

nunca tem confiança no marido, quando não há um princípio nele que o

faça mais temeroso de não andar junto de outros na linha que de levar

uma pisada no pé. Em resumo isto é tudo, Mary. Dois jovens podem

MIDDLEMARCH

281

encantar-se um pelo outro, antes de saberem o que é a vida, e pensar

que ela é um feriado sem fim, se ao menos conseguem ficar bem juntos;

mas logo a vida vira dia de trabalho, querida. Você no entanto tem mais

bom senso que a maioria e não foi criada em berço de seda: talvez não

seja a ocasião para eu dizer isto, mas um pai se inquieta por sua filha, e

você aqui vive entregue a você mesma."

"Não tema por mim, papai," disse Mary, olhando-o séria nos olhos;

O Fred foi sempre muito bom comigo; é bom de coração e afetuoso, e

não é falso, acredito, malgrado sua auto-lndulgência. Mas nunca me com-


prometerei com alguém que não tem a independência de um homem, e

que vive por aí a esperdiçar seu tempo, na esperança de que outros se

ocupem dele. Você e minha mãe me ensinaram muito orgulho para isto."

"Correto - correto. Agora então estou tranqüilo," disse Mr. Garth,

apanhando seu chapéu. "Mas é duro evadir-me com seus ganhos, filha."

"Papai!" disse Mary, em seu tom mais profundo de protesto. "Leve

além disto para todos lá em casa o bolso cheio de amor" foi sua última

frase, antes de ele sair e fechar a porta de fora.

"Seu pai queria o seu dinheiro, suponho," disse o velho Mr. Fea-

therstone, com seu usual poder de conjecturas grosseiras, quando Mary

voltou para junto dele. "Ele vive passando apertos, eu sei. E você agora

já está na idade; deve juntar um pouco para você mesma."

"Considero meu pai e minha mãe como a melhor parte de mim,

senhor meu tio," disse Mary com frieza.

Mr. Featherstone grunhiu: não podia negar que de uma moça assim

tão comum era de se esperar que fosse útil, e pensou pois noutra ques-

tão, suficientemente desagradável para vir a calhar. "Se o Fred Vincy

voltar aqui amanhã, não o retenha com suas conversinhas: mande ele

subir para cá."

CAPÍTULO XXVI

"He beats me and 1 rail at him: O worthy satisfaction! would

it were otherwise - that 1 could beat him while he railed

at me."

- Troílus and Cressída.

("Ele me bate e eu ralho com ele: Oh satisfação condigna!

se pudesse ser de outro modo - ele a ralhar comigo e eu

batendo nele.")
- Troilo e Créssida.1

NO DIA SEGUINTE Fred Vincy não foi porém a Stone Court, por razões

que eram peremptórias. De suas incursões pelas ruelas insalubres de

Houndsley à procura do Diamond ele voltara não só com este cavalo,

que havia sido um mau negócio, mas também com a desgraça adicional

de uma doença que por um ou dois dias pareceu ser simples desânimo e

dor de cabeça, mas que piorou tanto quando ele retornou da visita a

Stone Court que, atirando-se num sofá logo depois de entrar na sala,

disse em resposta a uma intranqüila pergunta de sua mãe: "Estou muito

mal: acho que você deve mandar chamar o Wrench."

Wrench veio mas não descobriu nada de grave, falou de uma "ligeira

indisposição" sem falar de voltar no dia seguinte. Tinha a devida consi-

deração pela família Vincy, mas a rotina costuma embotar até os homens

mais ponderados que, em manhãs de azáfama, às vezes livram-se às

suas ocupações com o mesmo entusiasmo diário com que o sineiro

bimbalha. Mr. Wrench era um homem baixo, limpo, bilioso, com uma

"Ato II, Cena 3, linhas 3-4.

MIDDLEMARCH

283

bem posta cabeleira postiça: tinha uma prática laboriosa, um tempera-

mento irascível, uma mulher linfática e sete filhos; e já estava um pouco

atrasado para ir fazer os mais de seis quilômetros que o levariam ao

encontro do Dr. Minchin no outro extremo de Tipton, já que com a

morte de Hicks, o clínico da zona rural, a clientela dos profissionais de

Middemarch se expandira naquela direção. Se os grandes estadistas er-


ram, por que não os pequenos médicos? Mr. Wrench não se esqueceu de

mandar os papelotes brancos de praxe, cujo conteúdo, desta vez, era

negro e drástico. Seu efeito não trouxe alívio algum ao pobre Fred, que

no entanto, não querendo acreditar como disse que estava "atacado de

doença mesmo," levantou-se à hora de sempre na manhã seguinte e

desceu para tomar seu café, mas não conseguiu senão sentar-se à beira

do fogo, tremendo muito. Mr. Wrench, chamado de novo, já partira em

sua rotina, e Mrs. Vincy, vendo a aparência tão mudada e o estado de

sofrimento do filho, começou a chorar e disse que ia mandar chamar o

Dr. Sprague.

"Bobagem, mãe! Não é nada," disse Fred, estendendo-lhe a mão

ardente e seca, "vou ficar bom logo. Devo ter-me resfriado quando eu

vinha a cavalo, porque a umidade era terrível."

"Mamãe!" disse Rosamond, que estava sentada perto da janela (as

janelas da sala de jantar davam para a rua altamente respeitável chama-

da Lowick Gate), Iá vai Mr. Lydgate, parando para falar com alguém. Se

eu fosse você, mandava chamá-lo. Ele curou a Ellen BuIstrode. Dizem

que cura todo mundo."

Mrs. Vincy se precipitou à janela e abriu-a num instante, pensando

apenas em Fred e não em etiqueta médica. Lydgate estava a menos de

dois metros, do outro lado de uma paliçada de ferro, e ao brusco barulho

da janela virou-se antes mesmo de ser chamado. Em dois minutos ele

estava na sala, de onde Rosamond saiu após esperar só o bastante para

mostrar uma preocupação graciosa, conflitante com o que sabia ser o

certo a fazer.

Lydgate teve de ouvir uma narrativa na qual a mente de Mrs. Vinci

insistiu com extraordinário instinto em todos os pontos de menor im-

portância, e principalmente no Mr. Wrench havia dito e não dito sobre

vir outra vez. Lydgate percebeu logo que poderia surgir algum problema

com Wrench; mas o caso era bem sério para levá-lo a afastar tal conside-

ração: ele estava convencido de que Fred se achava na fase de incubação


da febre tifóide e havia tomado o remédio errado. Tinha de ir para a

cama logo, de ter uma enfermeira constante, e impunham-se várias pre-

cauções e cuidados, quanto aos quais Lydgate era exigentíssimo. O ter-

284

GEORGE ELIOT

ror da pobre Mrs. Vincy ante estas indicações de perigo expressou-se nas

palavras que lhe ocorreram mais facilmente. Ela achou que era "muito

má prática da parte de Mr. Wrench, por tantos anos o médico da casa em

preferência a Mr. Peacock, se bem que Mr. Peacock fosse igualmente um

amigo. Como podia Mr. Wrench se esquecer mais de seus filhos que de

outros, por nada nessa vida ela conseguia entender. Não se esquecera

dos de Mrs. Larcher, quando eles tiveram sarampo, nem iria Mrs. Vincy

querer que ele os tivesse esquecido. E se acontecesse alguma coisa..."

Aqui o espírito de Mrs. Vincy se desmontou de vez, e seu pescoço de

Niobe e o rosto bem humorado foram tomados por triste convulsão.

Estavam na saleta e longe dos ouvidos de Fred, mas Rosamond tinha

aberto a porta da sala de visitas, pela qual avançava intranqüilamente.

Lydgate desculpava Mr. Wrench, dizia que os sintomas na véspera pode-

riam ainda estar latentes e que este tipo de febre era muito enganador a

princípio: ele iria imediatamente ao boticário e mandaria aviar uma re-

ceita para não perder tempo, mas escreveria a Mr. Wrench e dir-lhe-la o

que havia sido feito.

"Mas o senhor deve voltar - deve continuar a atender o Fred. Não

posso deixar meu filho entregue a alguém que ora pode, ora não pode vir,

Não quero mal a ninguém, graças a Deus, e Mr. Wrench me salvou de uma

pleurisia, mas teria sido melhor que me deixasse morrer - se - se -"

"Virei então encontrar-me com Mr. Wrench aqui, está bem?" disse

Lydgate, realmente acreditando que Wrench não estava bem preparado


para enfrentar um caso desta espécie.

"Combine, por favor, este encontro, Mr. Lydgate," disse Rosamond,

vindo em ajuda da mãe e amparando-a pelo braço para a levar para

dentro.

Mr. Vincy ao chegar em casa ficou furioso com Wrench, pouco ligan-

do se ele nunca mais voltasse a vir ali. Lydgate agora,- gostasse ou não

Wrench, devia tocar a coisa. Não era uma brincadeira ter febre em casa.

Desde já ter-se-la de avisar todo mundo para não, vir jantar terça-feira. E

Pritchard não precisava trazer vinho da adega: a melhor coisa contra

infecção era o conhaque, "Vou tomar um conhaque," acrescentou Mr,

Vincy enfaticamente - com a ênfase de quem diria que a ocasião não

era para atirar sem munição. "Ele é um garoto incomumente azarado, o

Fred. Vai precisar de um pouco de sorte de vez em quando para compen-

sar tudo isto - senão, quem vai querer um primogênito assim eu não

sei."

.Não diga isto, Vincy," disse a mãe com os lábios trêmulos, "se não

quer que ele me seja levado."

MIMUMARCH

285

"Você há de se afligir até a morte, Lucy; já estou vendo tudo," disse

Mr. Vincy, mais suavemente. "No entanto, Wrench saberá o que eu pen-

so desta questão." (O que Mr. Vincy confusamente pensava era que a

febre poderia ter sido impedida de algum modo se Wrench houvesse

demonstrado a solicitude adequada à sua - à do Prefeito - família.)

"Eu seria o último a aderir a essa grita sobre novos médicos ou novos

pastores - sejam ou não homens do BuIstrode. Mas o Wrench há de

saber o que eu penso, receba-o como quiser."

Wrench não recebeu nada bem. Lydgate foi tão polido quanto podia
à sua moda pouco cerimoniosa, mas a polidez num homem que nos

coloca em desvantagem é apenas um exaspero a mais, sobretudo se ele

já era de antemão objeto de antipatia. Os clínicos de província consti-

tuíam normalmente uma espécie muito irritável, susceptível até o ponto

de honra; e dentre eles Mr. Wrench era um dos mais irritáveis. Não se

recusou a encontrar-se com Lydgate à noitinha, sendo seu controle na

ocasião posto à prova. Teve de ouvir Mrs. Vincy dizer.

"Oh, Mr. Wrench, que foi que eu fiz para tratar-me assim? - Ir-se

embora e nem voltar! E meu garoto que agora poderia ser um defunto!"

Mr. Vincy, que mantivera um fogo cerrado contra o inimigo Infecção,

e em conseqüência estava um pouco esquentado, começou quando ou-

viu Wrench chegando, e foi para a saleta de entrada para fazê-lo saber o

que pensava.

"Tois bem, Wrench, digo-lhe que é mais que uma brincadeira," dis-

se o Prefeito, que ultimamente tinha de admoestar infratores com um ar

oficial, e que agora se alargava com os polegares postos sob as axilas. -

"Deixar a febre se instalar assim numa casa, sem se dar conta. Há certas

coisas que deviam ser objeto de ação, e que não são - eis o que eu

penso."

Mas a reprimenda irracional foi mais fácil de engolir que a impressão

de ser instruído, ou melhor, a impressão de que um homem mais moço,

como Lydgate, considerava-o necessitado de instrução, pois "a grande

verdade," disse mais tarde Mr. Wrench, é que Lydgate alardeava passa-

geiras noções vindas de fora que não iriam pegar. No momento ele en-

goliu a raiva, mas depois escreveu para declinar de continuar acompa-

nhando o caso. Boa podia ser a casa, mas Mr. Wrench não se iria humi-

lhar ante ninguém numa questão profissional. Refletiu, com grande pro -

babilidade de acerto, que pouco a pouco Lydgate viria a ser surpreendi-

do em erro também, e que sua tentativa nada cavalheiresca de desacre-

ditar a venda de remédios pelos colegas de profissão iria pouco a pouco

voltar-se contra ele mesmo. Lançou acerbos diatribes contra as artima-


286

GEORGE ELIOT

nhas de Lydgate, que eram dignas de um charlatão em busca da reputa-

ção fáctível junto a pessoas crédulas. Aquela bela cantilena sobre curas

nunca era entoada por profissionais respeitáveis.

Era um ponto que atingia Lydgate tão a fundo quanto Wrench podia

desejar. Ser acusado de ignorância era não só humilhante, mas também

perigoso, e não mais invejável que a reputação do previsor do tempo.

Impacientavam-no as loucas expectativas em meio às quais todo o tra-

balho teria de ser feito, e era bem provável que ele se causasse algum

dano, tal como queria Mr. Wrench, por usar de muita franqueza, coisa

que na profissão não se usava.

Entretanto, Lydgate foi admitido como o médico oficial dos V-lncys,

fato que em Middemarch deu muito assunto de conversa. Alguns di-

ziam que o comportamento dos Vincys havia sido escandaloso, que Mr.

Vincy ameaçara Wrench e que Mrs. Vincy o acusara de estar envenenan-

do seu filho. já outros tendiam a opinar que a passagem de Lydgate por

lá fora providencial, que ele era de fato uma sumidade em febres e que

BuIstrode estava certo quando lhe dava um empurrão na vida. Muitos

acreditavam que a própria vinda de Lydgate para a cidade era devida na

realidade a Bulstrode; e Mrs. Taft, que estava sempre a contar os pontos

das malhas e recolhia sua informação em fragmentos confusos que apreen-

dia enquanto ia tricotando, tinha posto na cabeça que Mr. Lydgate era

filho bastardo de BuIstrode, o que parecia justificar suas suspeitas sobre

os leigos evangélicos.

Um dia ela comunicou esta grande novidade a Mrs. Farebrother, que

não deixou de a transmitir a seu filho, observando:

"Da parte de BuIstrode, nada me espantaria, mas pensar isto de Mr.


Lydgate me deixaria triste."

"Ora esta, mamãe," disse Mr. Farebrother, após uma gargalhada ex-

plosiva, "você sabe muito bem que Lydgate é de uma boa família do

Norte. Ele nunca tinha ouvido falar de BuIstrode antes de vir para cá."

"No tocante a Mr. Lydgate, Camden, isto me satisfaz," disse a velha

senhora, com ar de precisão. "Mas quanto ao BuIstrode - vai ver que o

rumor procede, só que o filho é outro."

CAPÍTULO XXVII

"Let the high Muse chant loves Olympian:

We are but mortals, and must sing of man."

("Cante a alta Musa olímpicos amores:

a nós mortais cabe cantar o homem.")

UM EMINENTE FILóSOFO dentre os meus amigos, capaz de dignificar até

mesmo um móvel feio em sua casa, quando o eleva à serena luz da ciên-

cia, mostrou-me este fato simples, contudo instrutivo. Seu espelho, ou

esta grande superfície de aço polido que é feita para uma criada limpar,

será minuciosa e abundantemente esfregado em todas as direções; mas se

você puser contra ele, como centro de iluminação, uma vela acesa, todas

as marcas logo passarão a ser vistas como se se dispusessem numa bela

série de círculos concêntricos em tomo deste pequeno sol.  demonstrável

que as marcas partem inintencionalmente nas direções mais diversas, e

que só a vela produz a lisonjeira ilusão de uma disposição concêntrica,

propagando-se sua luz com uma exclusiva seleção óptica. Tais coisas são

uma parábola. As marcas das esfregadelas são fatos e a vela é o egoísmo

de alguma pessoa agora ausente - de Miss Vincy, por exemplo. Rosamond

tinha uma Providência só dela, que bondosamente a fizera mais sedutora

que outras moças e parecia haver determinado a doença de Fred e o erro


de Mr. Wrench com a finalidade de a pôr com Lydgate em proximidade

efetiva. Teria sido transgredir estas determinações se Rosamond houvesse

concordado em isolar-se em Stone Court ou alhures, como seus pais ti-

nham querido, e principalmente porque Mr. Lydgate julgara a precaução

inútil. Assim, enquanto Miss Morgan e as crianças foram mandadas para

uma fazenda na manhã seguinte à doença de Fred se manifestar, Rosamond

ficou com papai e mamãe, recusando-se a deixá-los.

288

GEORGE ELIOT

A pobre mãe, para qualquer criatura nascida de um ventre de mu-

lher, era de fato digna de pena; e Mr. Vincy, que adorava a esposa, alar-

mava-se mais por sua causa que pelo estado de Fred. Não fosse a insis-

tência dele, jamais ela teria tido descanso: todo seu brilho se toldara;

indiferente às suas roupas, antes sempre tão alegres e limpas, ela era

agora uma ave enferma com a plumagem desgrenhada e olhos lângui-

dos, com os sentidos bloqueados para os sons e visões que mais lhe

despertavam de habitual o interesse. O delírio de Fred, no qual ele pare-

cia vagar fora do alcance dela, lacerava-lhe o coração. Apó.s sua primeira

explosão com Mr. Wrench, ela passara a se mover em silêncio: seu rogo

contínuo a Lydgate era expressado em voz baixa. Ela o seguia para fora

do quarto e, pondo-lhe a mão no ombro, sussurrava: "Salve meu filho."

Um dia implorou: "Ele sempre foi tão bom para mim, Mr. Lydgate: nun-

ca disse nada grosseiro para sua mãe," - como se o sofrimento do po-

bre Fred fosse uma acusação contra ele. Todas as fibras mais profundas

da memória da mãe eram tangidas, e o jovem, cuja voz assumia um tom

mais brando quando se dirigia a ela, formava um só com o bebê que ela

havia amado, com um amor que lhe era novo, antes de ele nascer.

"Tenho multa esperança, Mrs. Vincy," Lydgate dizia. "Desça comigo


para falarmos da alimentação." Deste modo ele a conduzia até a sala de

visitas onde Rosamond já estava e a distraía um pouco, fazendo-a tomar

de surpresa um caldo ou um chá preparados expressamente para ela.

Havia um entendimento constante entre Rosamond e ele quanto a estas

questões. Quase sempre ele a via antes de entrar no quarto do doente, e

ela o consultava sobre alguma coisa que pudesse fazer por sua mãe.

Eram admiráveis a presença de espírito e o desembaraço com que a moça

executava o que ele sugeria, e não espanta que a idéia de estar com

Rosamond começasse a se mesclar a seu interesse no caso. Especial-

mente quando, tendo passado a fase crítica, ele se encheu de confiança

na melhora de Fred. Nas horas mais duvidosas, aconselhara a chamar o

Dr. Sprague (o qual, se pudesse, preferiria manter-se neutro por causa

de Wrench); mas depois de duas consultas a condução do caso fora en-

tregue a Lydgate, dando-lhe todas as razões para ser assíduo. De manhã

e à noite ele ia à casa de Mr. Vincy e pouco a pouco as visitas se tornaram

mais prazerosas, à medida que Fred se tornava simplesmente fraco e

jazia não só carente mas também cônscio dos mais extremos agrados:

Mrs. Vincy pôde sentir assim que a doença, ao fim e ao cabo, tinha sido

um festival para o seu carinho.

Tanto o pai quanto a mãe tiveram uma razão a mais para alegrar-se

quando o velho Featherstone mandou por Lydgate um recado, dizendo

MIDDLEMARCH

289

que Fred devia ficar bom bem depressa porque ele, Peter Featherstone,

não prescindia de sua companhia e já sentia a falta das visitas. O velho,

por seu turno, ficava cada vez mais preso à cama. Mrs. Vincy deu o reca-

do quando Fred estava podendo ouvir, e ele virou para ela seu delicado

rosto macilento, com todo o espesso cabelo louro cortado, e onde os


olhos pareciam ter ficado maiores, ansiando por alguma palavra sobre

Mary - pensando no que ela sentiria sobre sua doença. Não lhe saiu

uma palavra da boca; mas "ouvir com os olhos faz parte da finura do

amor,"" e a mãe, na inteireza de seu coração, não só adivinhou qual o

desejo de Fred, como também se sentiu pronta a qualquer sacrifício para

satisfazê-lo.

"Se ao menos eu puder ver meu filho forte de novo," disse ela, em

sua louca adoração; "e, quem sabe? - talvez senhor de Stone Court! e

podendo então se casar com quem quiser."

"Não se não me aceitarem, mamãe," disse Fred. A doença o deixara

meio infantil, e foi com lágrimas nos olhos que ele falou.

"Oh, coma um pouco de geléia, meu filho," disse Mrs. Vincy,

secretamente incrédula de uma tal recusa.

Ela nunca saía da cabeceira de Fred quando o marido não estava em

casa, e assim Rosamond se via na situação incomurn de ficar muito sozi-

nha. Naturalmente Lydgate nunca pensou em permanecer com ela por

mais tempo, não obstante parecesse que as breves e impessoais conver-

sas pelos dois mantidas estivessem criando essa peculiar intimidade que

se constitui de recato. Quando se falavam, eram forçadQs a olhar um

para o outro, e de algum modo este olhar não podia ser sustentado

como a coisa natural que realmente era. A consciência do que estava

ocorrendo começou a ser desagradável para Lydgate, que um dia olhou

para baixo, ou para qualquer lugar, como uma marionete mal manobra-

da. E o resultado foi pior: no dia seguinte, quem olhou para baixo foi

Rosamond, e em conseqüência, quando seus olhos se encontraram de

novo, ambos estavam mais conscientes que antes. Nisto a ciência não

podia ajudar e, como Lydgate não queria flertar, nem a loucura parecia

poder. Foi por conseguinte um alívio quando a vizinhança não mais con-

siderou a casa em quarentena, pois reduziram-se em muito desde então

as chances de estar com Rosamond a sós.

Mas a intimidade do embaraço mútuo, na qual um sente que o outro


está sentindo alguma coisa, uma vez tendo existido não cessa em seus

efeitos. Falar do tempo e de outros temas polidos costuma soar como

"No original: "To hear with eyes belongs to love"s fine wit" (Shakespeare,

Soneto 23).

290

GEORGE ELIOT

saída vã, e dificilmente o comportamento pode tomar-se espontâneo

sem reconhecer com franqueza um mútuo fascínio - que não significa

necessariamente, é claro, alguma coisa séria ou profunda. Foi deste modo

que Rosamond e Lydgate deslizaram graciosamente para a espontanei-

dade, dando vida outra vez aos seus encontros. Como de hábito as visi-

tas vinham e iam-se, voltou a haver música no salão e toda a hospitali-

dade extra de prefeito de Mr. Vincys reinstalou-se na casa. Lydgate, sem-

pre que podia, tomava assento ao lado de Rosamond, abandonava-se a

ouvir sua música e se declarava cativo - mas não dando a entender que

quisesse ser seu escravo. A idéia absurda de que de imediato ele pudes-

se criar uma situação satisfatória como homem casado era uma boa ga-

rantia contra o perigo. já fazer-se de um pouco enamorado era uma brin-

cadeira gostosa, que não interfiria com objetivos mais graves. O flerte,

afinal de contas, não era necessariamente um processo de combustão.

Rosamond, por sua vez, nunca antes na vida se deleitara tanto com seus

dias: tinha certeza de ser admirada por alguém que valia a pena cativar,

e não distinguia o amor do flerte, fosse no outro ou em si mesma. Pare-

cia vogar com um vento favorável até o mais longe que pudesse ir, e seus

pensamentos ocupavam-se muito de uma casa em Lowick Gate, uma

bela casa que ela esperava ia vagar em breve. Estava firmemente decidi-
da, quando se casasse, a se livrar de todas as visitas que em casa de seu

pai não lhe causavam agrado; e imaginava a sala da casa de seus sonhos,

com móveis de estilos variados.

 claro que seus pensamentos também se ocupavam muito do pró-

prio Lydgate; ele lhe parecia quase perfeito: se entendesse um pouco de

música, para que o encantamento que o possuía ao ouvi-la não lembras-

se tanto o de um emotivo elefante, e se fosse capaz de reparar melhor os

requintes do gosto dela ao vestir-se, dificilmente poderia apontar uma

deficiência nele. Como era diferente do jovem Plymdale ou de Mr. Caius

Larcher! Rapazes estes que não tinham a menor noção de francês, não

podiam falar de nada com conhecimento de causa, a não ser talvez os

ramos de tinturaria e transportes, os quais naturalmente eles se enver-

gonhavam de mencionar; eram gente da alta em Middemarch, exultantes

com seus rebenques de castão de prata, suas gravatas de cetim, mas

embaraçados nos modos e timidamente engraçados: até o Fred estava

acima deles, tendo pelo menos a pronúncia e os hábitos de um universi-

tário. Ao passo que Lydgate era sempre ouvido, portava-se com a poli-

dez negligente da superioridade cônscia de si e parecia estar com as

roupas certas por uma espécie de afinidade natural, sem jamais ter de

pensar nelas. Rosamond se enchia de orgulho quando ele entrava no

MIDDLEMARCH

291

salão e, quando se aproximava dela, tinha a impressão deliciosa de que

era o objeto de invejáveis louvores. Se Lydgate houvesse sabido de todo

o orgulho que excitava em peito tão delicado, ter-se-la gratificado muito

como qualquer outro homem, mesmo os mais crassamente ignorantes

da patologia humoral ou dos tecidos fibrosos: era a seu ver uma das

mais belas atitudes do espírito feminino adorar a preeminência do ho-


mem sem um conhecimento preciso daquilo em que consistia.

Mas Rosamond não era uma moçoila indefesa, dessas que involun-

tariamente se traem e cujo comportamento é canhestramente ditado por

seus impulsos, ao invés de ser governado pelo prudente encanto e o deco-

ro. Imagina você que aquela rápida antecipação e ruminação que a fez

pensar nos móveis da casa e nas companhias alguma vez se tornou per-

ceptivel nas conversas que tinha, mesmo com sua mãe? Pelo contrário, ela

expressaria a mais viva das surpresas e a maior desaprovação se ouvisse

falar de uma outra moça entregue a cogitações tão imodestas e prematu-

ras - e provavelmente se negaria até mesmo a crer na possibilidade. Pois

Rosamond nunca demonstrava nenhum conhecimento inadequado e era

sempre aquela combinação de sentimentos corretos, música, dança, dese-

nho, caligrafia elegante, álbum íntimo para coleta de versos e perfeita e

loura beleza que constituía a mulher irresistivel para a sina dos homens

desta época. Mas não pense injustamente mal dela, por favor: não era

dada a complôs maliciosos, a nada de mercenário ou de sórdido; com

efeito, nunca pensava em dinheiro a não ser como uma coisa necessária

que outras pessoas sempre providenciariam. Não tinha o hábito de inven-

tar falsidades e, se suas declarações não iam diretamente ao ponto, ora,

não era também sob esta luz que elas eram pensadas - estavam entre

suas realizações elegantes, pensadas para agradar. A natureza havia inspi-

rado muitas artes no acabamento da aluna favorita de Mrs. Lemon, que

por consenso geral (à exceção de Fred) era uma rara mistura de beleza,

inteligência e amabilidade.

Lydgate achou cada vez mais gostoso estar com ela, e não havia

agora coerção alguma, havia uma deliciosa troca de influência em seus

olhos, e o que diziam tinha para eles essa superfluidade de sentido que

é observável como se fosse simples platitude por uma terceira pessoa; se

bem que não tivessem encontros nem conversas à parte, de que uma

terceira pessoa precisasse ser excluída. Na verdade, flertavam; e Lydgate

sentia-se seguro na crença de que mais do que isto eles não faziam. Se
um homem não podia amar e ser prudente, certamente poderia sê-lo e

flertar ao mesmo tempo? Na realidade, os homens de Middemarch,

exceto Mr. Farebrother, eram uns grandes maçantes, e Lydgate não se

292

GEORGE ELIOT

interessava por política comercial nem por cartas: que faria então para

relaxar? Freqüentemente convidavam-no à casa dos Bulstrodes; mas lá

as meninas mal tinham saído da idade escolar; e a maneira naive como

Mrs. BuIstrode conciliava a devoção religiosa e a mundanidade, o nada

desta vida e o desejo de cristais bem talhados, a consciência simultânea

de trapos imundos e do melhor damasco, não era um suficiente alívio

para o peso da seriedade invariável do seu marido. A casa dos Vincys,

com todos os seus defeitos, era por contraste a mais agradável; além

disso, nela vicejava Rosamond - doce de olhar como uma rosa entrea-

berta, e adornada de dons voltados para o divertimento refinado de um

homem.

Contudo ele fez alguns inimigos, além dos da área médica, por seu

sucesso com Miss Vincy - Uma noite chegou um pouco tarde, quando

várias visitas já se achavam na sala. Com os mais velhos atraídos pela

mesa de jogo, Mr. Ned Plymdale (um dos bons partidos de Middemarch,

embora não uma de suas boas cabeças) estava em tête-à-tête com

Rosamond. Trouxera o último "Keepsake," magnífica e lustrosa publica-

ção que marcava na época o progresso moderno; e considerava-se muito

afortunado por poder ser o primeiro a folheá-lo com ela, detendo-se nos

cavalheiros e damas com brilhantes bochechas e brilhanteis sorrisos de

gravura em cobre, e a apontar versos cômicos como fundamentais, e

histórias sentimentais como interessantes. Rosamond se mostrava gen-

til e Mr. Ned satisfeito de ter o que havia de melhor em literatura e arte
para "render homenagens" - a coisa certa para agradar a uma garota

bonita. E tinha também razões, mais profundas que ostensivas, para

estar satisfeito com sua própria aparência. A observadores superficiais

seu queixo se mostrava algo evanescente, dando a impressão de ter sido

gradualmente reabsorvido. O que de fato lhe causava certa dificuldade

para encaixar a gravata de cetim muito alta, finalidade à qual os queixos

eram úteis na época.

"Acho que a Honorável Mrs. S. se parece um pouco com você," disse

Mr. Ned. Mantendo o livro aberto no cativante retrato, ele o olhava não

sem langor.

"Saiu com as costas muito grandes; parece até que ela posou de

costas," disse Rosamond, não com intenção de sátira, mas pensando em

como as mãos do jovem Plymdale eram vermelhas e perguntando-se por

que Lydgate ainda não tinha chegado. Enquanto isto, prosseguia com a

renda que ela estava fazendo.

"Eu não disse que era tão bonita como você," disse Mr. Ned, que se

aventurou a olhar do retrato para a rival.

MIMUMARCH

293

"Sua habilidade na lisonja parece ser desenvolta," disse Rosamond,

certa de que teria de rejeitar o jovem cavalheiro uma segunda vez.

Mas Lydgate entrou neste instante; o livro foi fechado antes de ele

chegar ao canto dela e, quando todo confiante de si tomou assento do

outro lado de Rosamond, o queixo do jovem Plymdale caiu como um

barômetro para o lado sem graça da mudança. Rosamond deleitou-se

não só com a presença de Lydgate, mas também com seu efeito: ela

gostava de provocar ciúme.

"Que retardatário é o senhor!" disse ela, nisto que se apertavam as


mãos. "Mamãe ainda há pouco já nem contava mais que viesse. Como

está o Fred?"

"Como sempre; indo bem, mas devagar. Quero que ele vá para fora -

para Stone Court, por exemplo. Mas sua mãe parece fazer certa objeção."

"Coitado dele!" disse Rosamond com todo seu donaire. "Há de achar

o Fred tão mudado," acrescentou, virando-se para o outro admirador;

(ícontamos com Mr. Lydgate como nosso anjo da guarda durante sua

doença."

Mr. Ned sorriu nervosamente, enquanto Lydgate, puxando para si o

"Keepsake" e abrindo-o, deu uma breve risada de desdém e ergueu o

queixo, como que assombrado ante a loucura humana.

"Por que a risada tão profana?" disse Rosamond, com meiga neutra-

lidade.

"Eu me pergunto o que seria mais tolo - se as gravuras ou o que

aqui vem escrito," disse Lydgate, em sua entonação mais convicta, en-

quanto passava rapidamente as páginas, parecendo ver de uma só vez

todo o livro e, como pensou Rosamond, mostrando de modo bem van-

tajoso suas grandes mãos brancas. "Olhe só este noivo que vai saindo da

igreja: porventura já viu "invenção mais açucarada" - como diziam os

elisabetanos? Jamais um dono de armarinho assumiu ar mais presumi-

do? Garanto no entanto que a história o toma um dos mais finos cava-

lheiros de sua terra."

"O senhor é tão rigoroso, chega a assustar-me," disse Rosamond,

moderando-se para não demonstrar que se divertia com aquilo. O pobre

do jovem Plymdale detivera-se com admiração sobre a mesma gravura, e

seu espírito agitou-se.

"Há muita gente de renome firmado, seja como for, que escreve no

"Keepsake," disse ele, entre ofendido e tímido. " a primeira vez que o

ouço dado por tolo."

"Acho que me voltarei contra o senhor e o acusarei de vândalo,"

disse Rosamond, olhando para Lydgate com um sorriso. "Desconfio que


-ql

294

GEORGE ELIOT

nada saiba sobre Lady Blessington e L.E.U"I A própria Rosamond tinha

lá o seu fraco por estas escritoras, mas não se dava irrefletidamente à

admiração, e estava sempre muito atenta a qualquer insinuação de que

alguma coisa não era, segundo Lydgate, do gosto mais apurado.

"Sir Walter Scott porém - suponho que Mr. Lydgate conheça," dis-

se o jovem Plymdale, um pouco animado pela vantagem.

"Oh, não leio mais literatura," disse Lydgate, fechando o livro e o

afastando de si. "Li tanto quando era garoto, que acho que já tenho para

o resto da vida. Eu sabia de cor os poemas de Scott."

"Eu gostaria de saber quando foi que parou," disse Rosamond, "por-

que assim posso conhecer alguma coisa que o senhor não conheça."

"mr. Lydgate diria que não valia a pena conhecer," disse Mr. Ned,

intencionalmente cáustico.

"Pelo contrário," disse Lydgate, não se mostrando ofendido, mas

sorrindo com exasperante confiança para Rosamond. "Valeria a pena

conhecer pelo fato de ser Miss Vincy quem me falaria a respeito."

O jovem Plymdale sem demora foi olhar o jogo de uíste, pensando

que Lydgate era um dos sujeitos mais presunçosos e desagradáveis que

ele já tinha tido a má sorte de encontrar.

"Quanta imprudência a sua!" disse Rosamond, por dentro muito

contente. "Não percebe que o deixou magoado?"

"O quê - o livro era de Mr. Plymdale? Peço desculpas. Eu nem pen-

sei nisto."

"Vou acabar admitindo o que o senhor disse de si mesmo quando


veio aqui pela primeira vez - que é um urso, e necessita ser ensinado

por pássaros."

"Bem, há um pássaro que me pode ensinar o que bem quiser. Não o

escuto sempre com a maior atenção?"

Para Rosamond era como se Lydgate e ela já estivessem até compro-

metidos. Que algum dia fossem estar comprometidos era uma idéia de

há muito em sua mente; e as idéias, como sabemos, tendem a uma espé-

cie de existência mais sólida quando os materiais necessários estão à

mão.  verdade que Lydgate tinha a contra-ldéia de não assumir com-

promisso; mas esta era um mero negativo, uma sombra lançada por ou-

tras resoluções capazes de por sua vez se alterarem. As circunstâncias,

era quase certo, pendiam para o lado da idéia de Rosamond, que tinha

uma atividade formadora e se projetava por atentos olhos azuis, ao pas-

"MargueritePower, condessade Blessington (1789-1849), eLetitiaE]izabeth

Landon (1803-

1838), romancistas populares das décadas de 1820 e 1830.

MIDDLEMARCH

295

so que os de Lydgate jaziam cegos e indiferentes como uma água-viva

que já vai a desfazer-se sem se dar conta.

Esta noite, ao voltar para casa, foi com inabalado interesse que ele

examinou seus frascos para ver como estava indo um processo de

maceração; e escreveu suas notas diárias com a mesma exatidão de

costume. Os devaneios dos quais tinha dificuldade em se distanciar

eram construções ideais de alguma coisa que não as virtudes de

Rosamond, e em grande parte o tecido primitivo ainda lhe escapava.

Além disso, ele estava começando a tomar gosto por sua rixa crescente
mas disfarçada com os outros médicos locais, que provavelmente se

tomaria mais manifesta, agora que o método de BuIstrode para a ad-

ministração do novo hospital estava para ser divulgado; e havia vários

sinais indicadores de que a não aceitação dele por alguns dos pacientes

de Peacock poderia ser contrabalançada pela impressão que ele havia

causado noutras partes. Apenas poucos dias depois, quando casual-

mente se encontrou com Rosamond na estrada de Lowick e apeou do

cavalo para andar ao lado dela até a ter protegido de um rebanho que

passava, ele foi abordado por um serviçal a cavalo com um recado que

o chamava a uma casa de relativa importância e que Peacock nunca

havia atendido; já era o segundo caso do tipo. O serviçal era de Sir

James Chettam: a casa, Lowick Manor.

CAPÍTULO XXVIII

Ist Gent. All times are good to seek your wedded home

Bringing a mutual delight.

2nd Gent. Why, true.

The calendar hath not an evil day

For souls made one by love, and even death

Were sweetness, if it carne like rolling waves

While they two clasped each other, and foresaw

No life apart.

11 Sr.  sempre tempo de buscar um lar casado

Para o deleite mútuo.

2- Sr. Sim, correto.

O calendário não tem maus dias para

Almas que o amor fez uma, e até a morte

Far-se-la doçura, se viesse rolando como ondas

Enquanto um estreita o outro, sem jamais antever


Uma vida à parte.

MR. E MRS. CASAUBON, regressando da viagem de núpeias, chegaram a

Lowick Manor em meados de janeiro. Caía uma leve neve quando de-

sembarcaram à porta e, pela manhã, quando Dorothea passou do seu

quarto de vestir para o boudoir verde e azul que conhecemos, viu a longa

alameda de tílias a erguer da terra branca seus troncos e a abrir os galhos

brancos contra o céu cinzento e imóvel. A distante planície encolhia-se

numa brancura uniforme, sob a baixa uniformidade das nuvens. E até o

mobiliário do quarto parecia ter encolhido desde que ela o vira pela

última vez: o cervo da tapeçaria dava agora a impressão de um ser

fantasmal em seu mundo verde-azulado de fantasma; na estante, os vo-

lumes de literatura elegante pareciam mais imitações inamovíveis de

MIDDLEMARCH

297

livros. O fogo intenso de ramos secos de carvalho a arder sobre os ferros

da lareira parecia uma incongruente renovação de vida e fulgor - como

a própria figura de Dorothea quando ela entrou com os estojos de couro

avermelhado que continham os camaféus para Celía.

Ela estava fulgurante em sua toalete matinal, como somente fulgura

a juventude sadia; havia um brilho de pedra preciosa em seu cabelo

enrolado e nos olhos cor de avelã; havia nos seus lábios a vida quente e

vermelha; a garganta tinha uma arfante brancura por cima do diferente

branco da peliça que parecia enroscar-se em seu pescoço e descer para

aninhar-se na capa cinza-azulada com uma ternura arrancada dela mes-

ma, uma inocência mesclada e senciente que mantinha sua beleza con-

tra a pureza cristalina da neve. Ao pôr os estojos dos carnaféus na mesa

junto da janela em torrinha, inconscientemente ela conservou as mãos


sobre eles, absorvendo-se de imediato em olhar os limites brancos e

imóveis do seu mundo visível.

Mr. Casaubon, que se levantara cedo queixando-se de palpitações,

estava reunido na biblioteca com seu coadjutor, Mr. Tucker. Dentro em

breve Celia viria em sua dupla condição de dama de honor e irmã, e nas

semanas seguintes haveria visitas de casamento a receber e fazer; tudo

em prosseguimento daquela vida de transição tomada por corresponder

à excitação da felicidade conjugal, e em tudo a impressão de uma atare-

fada ineficácia, como a de um sonho do qual o sonhador começa a sus-

peitar- As obrigações de sua vida de casada, antevistas como tão gran-

des, pareciam encolher junto com os móveis e a paisagem murada em

branca névoa. As claras alturas por onde esperara andar em comunhão

plena haviamse tornado dificeis de ver mesmo em sua imaginação; o

delicioso repouso de uma alma em outra, superior e completa, converte-

ra-se abalado em esforço incômodo, e se alarmava com pressentimentos

sombrios. Quando começariam os dias daquela ativa devoção de esposa

que deveria revigorar a vida de seu marido e exaltar-lhe a própria? Nun-

ca talvez, tal como os preconcebera; mas de algum modo - de algum

modo ainda. Nesta união de sua vida em juramento solene, o dever se

apresentaria numa nova forma de inspiração e ainda daria um novo sen-

tido ao amor de mulher.

Enquanto isto havia a neve e a arcada baixa e densa de bruma -

havia a sufocante opressão daquele mundo de senhora distinta, onde

faziam tudo para ela e ninguém pedia sua ajuda - onde o sentido de

ligação com uma existência multifária e fecunda tinha de ser penosa-

mente mantido como visão interior, ao invés de vir de fora em exigências

que pudessem dar forma às suas energias. - "O que vou fazer?" "O que

298

GEORGE ELIOT
bem quiser, querida:" esta era a sua breve história desde que ela havia

desistido das lições matinais e da prática de melodias bobocas no odia-

do piano. O casamento, que deveria trazer orientação para ocupações

imperiosas e dignas, ainda não a livrara de sua opressiva liberdade de

senhora distinta: nem mesmo lhe preenchera o tempo livre com a alegria

natural de uma ternura não reprimida. Sua juventude cheia de viço e

florescente estava ali num aprisionamento moral que se tornava uma

coisa só com a paisagem fria, comprimida, incolor, com os móveis enco-

lhidos, os livros nunca lidos e o cervo fantasmal de um mundo esmaecido

e fantástico que parecia fugir da luz do dia.

Nos primeiros minutos em que olhou para fora, Dorothea nada sen-

tiu além da lúgubre opressão; veio-lhe a seguir uma lembrança pungen-

te e, saindo da janela, ela andou em volta do quarto. As idéias e espe-

ranças que viviam em sua mente quando ela viu pela primeira vez este

quarto quase três meses antes só se faziam presentes agora como me-

mórias: ela as julgava como julgamos nós as coisas fugazes que já se

foram. Toda a existência parecia pulsar num ritmo mais lento que o dela,

e sua fé religiosa era um grito solitário, a luta para sair de um pesadelo

no qual um a um os objetos iam minguando, encolhendo, distanciando-

se dela. Cada coisa lembrada ali no quarto era desencantada, morta como

uma transparência sem luz, até que seu olhar pervagante deu com o

grupo de miniaturas, onde por fim ela viu alguma coisa que fazia sentido

e era um sopro novo: a miniatura da tia Julia de Mr. Casaubon, a que

tinha feito um casamento infeliz - a avó de Will Ladislaw. I)orothea foi

capaz de a imaginar como viva agora - o delicado rosto de mulher que

no entanto tinha um olhar decidido, peculiaridade difícil de interpretar.

Seriam só os amigos dela que achavam seu casamento infeliz? ou teria

ela mesma descoberto que havia sido um engano, e provado o amargo

sal de suas lágrimas no silêncio piedoso da noite? Que extensão de ex-

periência Dorothea parecia já ter ultrapassado desde que por primeiro


olhara esta miniatura! Sentiu uma nova impressão de companheirismo

com ela, como se ela lhe prestasse atenção e pudesse ver como a estava

olhando. Ali estava uma mulher que tinha conhecido alguma dificuldade

no casamento. Porém de brusco as cores se avivaram, os lábios e o quei-

xo pareceram crescer, o cabelo e os olhos pareceram espargir luz, o rosto

era masculino e cintilou sobre ela com esse olhar direto que diz àquela

em quem bate que ela é muito interessante para que o mais leve movi-

mento de suas pálpebras passe despercebido e livre de interpretação. A

vívida apresentação surgiu a Dorothea como um fulgor agradável: ela

sentiu que sorria e, afastando-se da miniatura, sentou-se e olhou para

MIDDLEMARCH

299

cima como se estivesse de novo conversando com uma figura em frente

Mas o sorriso desapareceu, nisto que ela foi meditando e por fim diss(

em voz alta:

"Oh, foi cruel falar assim! Foi triste - foi terrível!"

Levantou-se às pressas e saiu do quarto e correu pelo corredor com

o impulso irresistível de ir ver seu marido e perguntar se podia fazer

alguma coisa por ele. Talvez Mr. Tucker já tivesse ido embora e Mr.

Casaubon se achasse sozinho na biblioteca. Ela sentia que toda a sua

tristeza da manhã desapareceria, se visse o marido contente com a sua

presença.

Mas, quando alcançou o topo da escura escada de carvalho, Celia

vinha subindo, e embaixo estava Mr. Brooke, a trocar cumprimentos

com Mr. Casaubon e dando-lhe as boas-vindas.

"Dodo!" disse Celia, em seu tranqüilo staccato; depois beijou a irmã,

que a recebeu em seus braços, e não disse mais nada. Penso que todas

duas choraram um pouquinho de maneira furtiva, enquanto Dorothea


corria escada abaixo para estar com seu tio.

"Nem preciso perguntar como vai, querida," disse Mr. Brooke após

beijá-la na testa. "Vejo que Roma lhe fez bem - a felicidade, os afrescos,

o antigo - esse tipo de coisa. Mas que ótimo tê-la por aqui novamente,

e agora você entende tudo de arte, não é? O Casaubon é que anda um

pouco pálido, eu disse a ele - um pouco pálido, sabe. Trabalhar durante

as férias já é um certo exagero. Eu mesmo fiz esta imprudência uma

vez"- Mr. Brooke conservava a mão de Dorothea na sua mas virara o

rosto para Mr. Casaubon - "estudando a topografia, ruínas, templos -

pensei até ter uma pista, mas vi que ela me levaria longe demais, e tal-

vez fosse dar em nada. Nesse tipo de coisa, sabe, a gente às vezes se

aprofunda, e não dá em nada mesmo."

Os olhos de Dorothea estavam postos também no rosto de seu ma-

rido, inquietos com a idéia de que quem o via de novo após a ausência

fosse capaz de perceber sinais que ela não tinha notado.

"Nada para alarmá-la, querida," disse Mr. Brooke, observando-lhe

a expressão. "Logo a carne de carneiro e a carne de boi inglesas hão de

fazer diferença. Para posar para o retrato do Aquino, a palidez até que

convinha - sua carta, sabe, nos chegou a tempo. Mas o Aquino hoje

- ele era um pouco sutil demais, concorda? E alguém lê o Aquino

hoje?"

"Realmente ele não é um autor adequado a espíritos superficiais,"

disse Mr. Casaubon, suportando as intempestivas questões com a paciên-

cia mais digna.

30O

GEORGE ELIOT

"Gostaria de um café no seu quarto, tio?" disse Dorothea, vindo em

sua ajuda.
"Sim; e você deve ir falar com Celia: ela tem grandes novidades para

você, sabe? Vou deixar que conte tudo."

O boudoir verde-azulado tomava um ar muito mais alegre com Celia

sentada ali numa capa exatamente igual à da irmã, a examinar os carriaféus

com plácida satisfação enquanto a conversa ia passando para outros as-

suntos.

"Você acha que Roma é bom mesmo para uma lua-de-mel?" disse

Celia, com aquele brusco e delicado rubor a que Dorothea estava acos-

tumada nas menores ocasiões.

"Não para todo mundo - não para você, por exemplo," disse cal-

mamente Dorothea. Ninguém jamais saberia o que ela achava de uma

lua-de-mel em Roma.

"Mrs. Cadwallader diz que é uma bobagem, as pessoas fazerem,

quando se casam, uma viagem muito longa. Diz que elas se cansam

mortalmente uma da outra e não podem brigar à vontade, como quando

estão em casa. Lady Chettam diz que foi a Bath." A cor de Celia ia

mudando sempre - parecia

"Ir e vir com as novas do coração,

Como se fosse um mensageiro a correr.""

Deveria significar mais do que os rubores habituais de Celia.

"Celia! aconteceu alguma coisa?" disse Dorothea, num tom cheio

de sentimento fraterno. "Você realmente tem uma grande notícia para

me dar?"

"Foi só porque você viajou, Dodo. Porque assim não havia ninguém

a não ser eu com quem Sir James conversar," disse Celia, não sem um

pouco de malícia nos olhos.

"Entendo. Foi como eu sempre acreditei e esperei," disse Dorothea,

tomando entre suas mãos o rosto da irmã, e olhando-a com certa ansie-

dade. O casamento de Celia parecia ser mais a sério que antes.


"Foi apenas há três dias atrás," disse Celia. "E Lady Chettam é mui-

to boa."

"E você, muito feliz?"

", estou. Mas o casamento vai demorar, porque ainda falta prepa-

"No original: "To come and go with tidings fro, n the heart, / As à a

running messenger had been.

(Edrnund Spenser [1552-1599], The Facrie Queene, Canto IX, 51, 6-7).

MIDDLEMARCH

301

rar tudo. E eu não quero casar-me logo, porque acho muito bom ficar

noiva. Toda a vida depois vamos ser casados, não é?"

"Acredito que você não poderia se casar melhor, Kitty. Sir james é

um homem bom e honrado," disse Dorothea, com entusiasmo.

"Ele deu andamento às casas, Dodo. Há de lhe falar sobre elas, quando

vier. Você gostaria de estar com ele?"

"Claro que sim! Nem faz sentido perguntar."

"Eu só temia que você estivesse ficando muito sabida," disse Celia,

considerando a sabedoria de Mr. Casaubon como uma espécie de vapor

capaz, em devido tempo, de saturar o corpo de um vizinho.

CAPÍTULO XXIX

1 fourid that no genius in another could please me. My

unfortunate paradoxes had entirely dried up that source of

comfort."

- GOLDSMITH.
("Constatei que o gênio alheio jamais podia agradar-me.

Meus infelizes paradoxos haviam secado inteiramente esta

fonte de consolo.")

- GOLDSMITH.

UMA MANHÃ, ALGUMAS semanas depois de sua chegada a Lowick,

Dorothea - mas por que sempre Dorothea? Porventura o ponto de vis-

ta dela era o único possível em relação a este casamento? Protesto con-

tra todo o nosso interesse, todo o nosso esforço de compreensão ser

dirigido apenas para pessoas jovens que parecem sempre em flor,

malgrado suas preocupações; pois elas também hão de murchar, hão de

conhecer os padecimentos mais corrosivos da idade, que estamos aju-

dando a esquecer. A despeito de piscar muito os olhos e de suas man-

chas na pele, coisas a que Celia fazia objeção, e de uma falta de curvas

musculares que era realmente penosa para Sir James, Mr. Casaubon ti-

nha em seu íntimo uma consciência intensa, e era tão sedento de

espiritualidade como o restante de nós. Nada fizera de excepeional ao

casar-se - nada a não ser o que a sociedade autoriza e considera uma

ocasião para buquês e grinaldas. Ocorrendo-lhe que não deveria adiar

por mais tempo sua intenção de matrimônio, ele havia refletido que, no

tocante a esposa, cabia a um homem de boa posição esperar e cuidado-

samente escolher moça na flor da idade - quanto mais nova melhor,

MIDDLEMARCH

303

porque mais submissa e educável - que fosse da mesma classe que a

sua, de princípios religiosos, disposição virtuosa e bom nível de compre-


ensão. A tal moça ele garantiria os mais distintos cuidados, e não se

esqueceria de nada para fazê-la feliz: em troca, receberia os prazeres da

família e deixaria para trás o exemplar de si que parecia tão necessário a

um homem - para os sonetistas do século XVI que o reclamavam. Mas

os tempos mudaram desde então, e nenhum sonetista já havia insistido

com Mr. Casaubon para que ele deixasse um exemplar de si mesmo;

ademais, nem chegara ele a imprimir os exemplares de sua chave mito-

lógica; a questão do casamento, porém, sempre tinha querido resolver, e

a impressão de estar deixando os anos para trás muito rápido, de que o

mundo escurecia e a solidão aumentava, foi razão para ele não perder

tempo em alcançar os prazeres domésticos antes de eles também serem

deixados para trás pelos anos.

Quando viu Dorothea, acreditou ter encontrado até mais do que es-

perava: ela realmente poderia ser uma companheira tão boa que o dis-

pensaria inclusive de contratar uma secretária, auxiliar de que Mr. Casau-

bon tinha um temor suspeitoso e a que nunca dera emprego. (Mr. Ca-

saubon tinha também uma consciência irritável de ser expectativa alheia

que ele manifestasse um poderoso espírito.) A Providência, na sua bon-

dade, enviou-lhe a mulher de que necessitava. Uma esposa, uma jovem

modesta, com as qualidades de seu sexo, que são de pura apreciação,

nunca de ambição, certamente há de tomar por poderoso o espírito de

seu marido. Já se a Providência havia tido com Miss Brooke o mesmo

cuidado, ao enviar-lhe Mr. Casaubon, era uma idéia que dificilmente

ocorreria a ele. A sociedade nunca impôs a absurda exigência de que um

homem deva pensar em suas próprias qualificações para fazer feliz uma

encantadora jovem tanto quanto pensa nas dela para fazer feliz a ele

mesmo. Como se um homem pudesse escolher não só sua esposa, mas

também o marido de sua esposa! Ou como se ele fosse obrigado a pro-

videnciar encantos para sua posteridade em sua própria pessoa! - Quan-

do Dorothea o aceitou com efusão, pareceu-lhe muito normal; e Mr.

Casaubon acreditou que sua felicidade ia começar.


Não chegara a provar muita felicidade em sua vida prévia. Para se

conhecer a alegria intensa sem uma sólida estrutura corpórea, é preciso

possuir alma entusiástica. Mr. Casaubon nunca teve sólida estrutura

corpórea; e sua alma era sensível, porém não entusiástica: lânguida de-

mais para arrojar-se da consciência de si ao apaixonado deleite, ela ade-

java no solo pantanoso onde fora incubada, pensando em suas asas e

nunca alçando vôo. Sua prática de vida era de um tipo digno de pena

304

GEORGE ELIOT

mas que se esquiva à compaixão e teme sobretudo dar-se a conhecer:

era essa susceptibilidade orgulhosa e estreita que não dispõe da massa

necessária para a transformação em simpatia, e treme como fios em pe-

quenas correntes de preocupação consigo mesmo ou, na melhor das hi-

póteses, de uma escrupulosidade egoísta. E Mr. Casaubon tinha muitos

escrúpulos: era capaz de um severo autocontrole; resoluto em ser um

homem de bem segundo os códigos; inatacável pelos padrões de opi-

nião admitidos. Em sua conduta estes objetivos haviam sido atingidos;

mas a dificuldade de tomar a Chave de Todas as Mitologias inatacável

pesava como chumbo em sua mente; e os panfletos - ou "Parerga,"

como os chamava - com os quais ele testava o seu público e depositava

pequenos marcos monumentais de seu percurso, estavam longe de ter

sido vistos em toda a sua significação. Mr. Casaubon desconfiava que o

Arquidiácono nem os tivesse lido; tinha uma dúvida atroz sobre o que

realmente pensavam deles as melhores cabeças de Brasenose,1 e a amar-

ga convicção de que seu velho conhecido Carp havia sido o autor daque-

la resenha depreciativa que estava trancada numa gavetinha da sua mesa

de trabalho, como também num compartimento escuro de sua memória

verbal. Impressões muito fortes, contra as quais era preciso lutar, e que
causavam essa amargura melancólica que é conseqüência de todas as

pretensões excessivas: até sua fé religiosa vacilava com a vacilante confi-

ança em sua realização como autor, e os consolos da esperança cristã na

imortalidade pareciam depender da imortalidade da Chave de Todas as

Mitologias, ainda por escrever. De minha parte lamento muito por ele.

Na melhor das hipóteses é uma sina incômoda ser o que nós considera-

mos altamente letrado e disto porém não desfrutar: estar presente ao

grande espetáculo da vida e nunca se libertar de um eu pequeno, trêmu-

lo, faminto - nunca ser totalmente possuído pela glória avistada, nunca

ter a consciência arrebatadoramente transformada no fulgor de um pen-

samento, no ardor de uma paixão, na energia de uma ação, mas sempre

ser desinspirado e livresco, ambicioso e tímido, escrupuloso e curto de

visão. Tornar-se deão ou mesmo bispo faria pouca diferença, temo, para

os incômodos de Mr. Casaubon. Algum grego antigo observou sem dú-

vida que por trás da grande máscara e do megafone hão de sempre estar

os nossos pobres olhinhos como sempre espiando e nossos lábios

timoratos mais ou menos sob ansioso controle.

A este estado mental planejado um quartel de século antes, e à sen-

sibilidade assim resguardada, Mr. Casaubon tinha pensado em anexar a

Vma das faculdades de Oxford.

MIDDLEMARCH

305

felicidade com uma mulher bonita e jovem; mas mesmo antes do casa-

mento, como já vimos, caiu numa nova depressão ao constatar que a

nova ventura não era venturosa para ele. Sua inclinação mais legítima

ansiava pelos velhos e mais cômodos hábitos. E quanto mais se afunda-

va na dornesticidade, mais a impressão de estar cumprindo um dever e


agindo com correção se sobrepunha a qualquer satisfação. O casamento,

como a religião e a erudição, como até a condição de autor, estava fada-

do a ser uma exigência externa, e Edward Casaubon tendia a atender

inatacavelmente a todas as exigências. Mesmo utilizar Dorothea em seu

trabalho, conforme sua própria intenção antes do casamento, era um

esforço que ele era sempre tentado a adiar, e que talvez nunca tivesse

tido início, não fosse a suplicante insistência dela. Mas ela logrou ter

como coisa acertada que ocuparia seu lugar bem cedo na biblioteca para

ler em voz alta ou copiar o que lhe fosse pedido. O trabalho foi fácil de

definir porque Mr. Casaubon tinha tomado uma decisão imediata: have-

ria um novo Parergon, uma pequena monografia sobre recentes indica-

ções concementes aos mistérios egípeios segundo as quais certas

assertivas de Warburton1 poderiam ser comgidas. As referências eram

extensas mesmo aqui, mas não ilimitadas; e as sentenças deveriam ser

redigidas em forma a ser vasculhada por Brasenose e uma posteridade

menos temível. Estas monumentais produções menores sempre deixa-

vam Mr. Casaubon agitado: sua digestão se tornava difícil pela interfe-

rência das citações, ou pela rivalidade das frases dialéticas que soavam

uma contra a outra em seu cérebro. E desde o início havia uma dedicató-

ria em latim sobre a qual tudo era incerto, a não ser que ela não era para

ter sido feita a Carp: era um amargo arrependimento de Mr. Casaubon

que certa vez ele tivesse feito uma dedicatória a Carp na qual incluíra

este membro do mundo animal entre os viros nuflo aevo perituros um erro

que infalivelmente iria expor o dedicador ao ridículo, nas próximas eras,

e poderia até ser motivo de chacota, no presente, para qualquer um.

Assim Mr. Casaubon estava numa de suas épocas mais atarefadas e,

como eu ia começando a dizer há pouco, Dorothea foi encontrá-lo ainda

cedo na biblioteca, onde ele tomara sozinho o seu café. Celia fazia então

uma segunda visita a Lowick, provavelmente a última antes de seu casa-

mento, e achava-se na sala de visitas à espera de Sir Jarnes.

Dorothea já sabia interpretar os sinais do estado de espírito de seu


marido, e viu que a manhã ali havia-se enevoado mais durante a última

"Provavelmente o bispo William Warburton (1698-1779), autor de obras

teológicas.

2"Homens que nunca hão de perecer."

306

GEORGE ELIOT

hora. Ia ela indo em silêncio para sua mesa quando ele disse, num tom

distante e indicador de que ele apenas se livrava de um desagradável

dever:

"Dorothea, há uma carta para você, que veio anexa a uma endereçada

a mim."

Era uma carta de duas páginas, e imediatamente ela olhou a assina-

tura.

"Mr. Ladislaw! Que pode ter a me dizer?" exclamou em tom de agra-

dável surpresa. "Mas," acrescentou, olhando para Mr. Casaubon, "pos-

so imaginar sobre o que ele lhe escreveu."

"Se quiser, pode ler a carta," disse Mr. Casaubon, que gravemente a

apontou com sua pena de escrever, sem olhar para a esposa. "Mas posso

também dizer de antemão que devo declinar da proposta nela contida

de uma visita à nossa casa. Acredito que eu possa ser desculpado por

desejar um intervalo de liberdade completa, livre das distrações que até

hoje têm sido inevitáveis e especialmente de visitas cuja vivacidade

dessultória torna sua presença uma fadiga."

Não tinha havido um só atrito entre Dorothea e seu marido desde

a pequena explosão em Roma, a qual deixara em sua mente vestígios

tão fortes que desde então lhe era mais cômodo dominar a emoção do

que arcar com as conseqüências de a extravasar. Mas esta pressuposi-


ção rabugenta de que ela pudesse desejar visitas que seriam desagra-

dáveis ao marido, esta defesa gratuita dele mesmo contra uma queixa

egoísta da parte dela, era uma alfinetada violenta demais para que após

ser sentida fosse objeto de reflexão ainda. Dorothea até já pensara que

poderia ter sido paciente com John Milton, mas nunca o imaginara se

comportando desta maneira; e por um momento Mr. Casaubon pare-

ceu-lhe estupidamente cego e odiosamente injusto. A piedade, essa

44criança recém-nascida" que pouco a pouco iria dominar muitas tor-

mentas em seu íntimo, não emitiu na ocasião nem "um simples so-

pro."" Com suas primeiras palavras, pronunciadas numa entonação que

o abalou, ela forçou Mr. Casaubon a olhar surpreso para ela e a encon-

trar o brilho de seus olhos.

"Por que me atribuir este desejo de algo que para você seria um

aborrecimento? Fala-me como se eu fosse uma coisa com a qual tinha de

entrar em contenda. Espere ao menos que eu demonstre só tomar em

consideração meu prazer, independentemente do seu."

"No original: "newborn babe" e -stride the blast" - alusão a uma passagem do

Macbeth de

Shakespeare (Ato 1, Cena 7, linhas 21-23).

MIDDLEMARCH

307

"Você é muito precipitada, Dorotheaf respondeu Mr. Casaubon ner-

voso.

Decididamente esta mulher era muito jovem para estar no nível de

uma esposa ideal - para tanto teria de ser pálida, ter o rosto inexpressivo

e aceitar tudo sem discutir.


"Creio que o primeiro a ser precipitado foi você, com suas falsas

suposições sobre os meus sentimentos," disse Dorothea do mesmo modo.

O fogo ainda não se dissipara e ela julgava ignóbil de seu marido não lhe

pedir desculpas.

"Por favor Dorothea, não falemos mais neste assunto. Não tenho

tempo nem energia para este tipo de discussão."

Aqui Mr. Casaubon mergulhou a pena no tinteiro e fez como se

fosse retornar à escrita, embora sua mão tremesse tanto que as pala-

vras pareciam grafar-se em caracteres desconhecidos. Há respostas que,

desviando a cólera, apenas a enviam para o outro extremo da sala, e ter

uma discussão cortada secamente, quando a pessoa sente que a justiça

está toda do seu lado, é ainda mais exasperador no casamento que em

filosofia.

Dorothea deixou as duas cartas de Ladislaw sem ler sobre a escriva-

ninha de seu marido e foi para seu lugar, rejeitando a leitura de tais

cartas com a indignação e o desprezo que levava por dentro, tal como

repelimos qualquer escória que nos pareça ter feito suspeitos de reles

cupidez por ela. Nem de leve adivinhava as sutis fontes do mau humor

de seu marido sobre estas cartas; sabia apenas que elas o haviam moti-

vado a ofendê-la. Lançou-se de imediato ao trabalho, e sua mão não

tremia; pelo contrário, ao transcrever as citações de que havia sido en-

carregada na véspera, sentiu que ia formando suas letras com grande

apuro, e pareceu-lhe perceber a construção do latim que copiava, e que

ela estava começando a entender, mais claramente que de hábito. Havia

em sua indignação um sentimento de superioridade, que porém se ex-

travasava por ora na firmeza dos traços, e não se comprimia numa voz

articulada por dentro para declarar o outrora "afável arcanjo" uma infe-

liz criatura.

A aparente calma durou uma meia hora e Dorothea ainda não havia

erguido os olhos de sua mesa quando ouviu o barulho forte de um livro

que caía no chão e, virando-se rapidamente, viu Mr. Casaubon que se


dobrava para a frente na escadinha da biblioteca, como se estivesse pas-

sando mal. Num instante ela correu para ele, que manifestava grande

dificuldade em respirar. Pulando sobre um escabelo, ficou na altura dos

seus braços e disse, com a alma derretida em terno alarme:

308

GEORGE ELIOT

"Pode apoiar-se em mim, querido?"

Ele ficou parado por dois ou três minutos, que a ela pareciam não ter

fim, tomando fôlego e incapaz de falar ou se mexer. Quando finalmente

desceu os três degraus e afundou na poltrona que Dorothea pusera ao

pé da escada, já nem mais ofegava, mas parecia sem forças e a ponto de

desmaiar. Dorothea tocou em desespero a sineta, e Mr. Casaubon já era

agora ajudado a se espichar no sofá: não desmaiou, e pouco a pouco ia

melhorando quando Sir James Chettam chegou, após ter sido recebido

no vestíbulo com a notícia de que Mr. Casaubon "tinha tido um ataque

na biblioteca."

"Meu Deus! era justamente o que se podia esperar," foi seu pensa-

mento imediato. Se sua alma profética houvesse sido instada a parti-

cularizar, parecia-lhe que "ataque" teria sido a expressão definitiva en-

contrada. Perguntou a seu informante, o mordomo, se o doutor já ti-

nha sido chamado. O mordomo nunca soubera que seu patrão preci-

sasse de um doutor antes; mas o bom não seria mandar chamar um

facultativo?

Quando Sir James entrou na biblioteca, contudo, Mr. Casaubon pôde

dar alguns sinais de sua polidez costumeira, e Dorothea, que em reação

a seu terror do início mantinha-se ajoelhada e soluçante a seu lado, er-

gueu-se então e propôs que alguém partisse a cavalo para chamar um

médico.
"Recomendo chamar o Lydgate," disse Sir James. "Minha mãe o cha-

mou e achou-o fora do comum. Desde a morte do meu pai que ela tinha

os médicos em baixa estima."

Dorothea consultou seu marido, que fez um gesto mudo de aprova-

ção. Foram pois em busca de Mr. Lydgate e ele veio na maior presteza,

pois o mensageiro, que o conhecia, era o empregado de Sir James Chettam

que o encontrara puxando seu cavalo pela estrada de Lowick e dando o

braço a Miss Vincy.

Celia, na sala de visitas, não soube nada do que se passava até Sir

James contar-lhe. Após a descrição de Dorothea, ele já não considerava

a indisposição um ataque, mas ainda assim algo "desta natureza."

"Coitada da Dodo - que horror!" disse Celia, sentíndo-se tão pe-

nalizada quanto sua própria felicidade perfeita o permitia. Suas mãos,

pequenas, estavam juntas e envolvidas pelas de Sir James como um bo-

tão de flor é cingido por seu grande cálice. " mesmo um horror que Mr.

Casaubon esteja doente; mas eu nunca gostei dele. E penso que ele não

gosta nem a metade de Dorothea; e deveria gostar, pois estou certa de

que ninguém mais ia querê-lo - você não acha?"

MIMUMARCH

309

"Sempre achei um horrível sacrifício de sua irmã," disse Sir James.

"Pois é. Mas a coitada da Dodo nunca fez o que os outros fazem, e

acho que nunca há de fazer."

"E uma nobre criatura," disse o bondoso e sincero Sir james. Ele

acabara de ter tido uma impressão desta espécie quando viu Dorothea

esticando o braço com ternura pelo pescoço de seu marido e olhando

para ele com indizível dor. Mas quanto de arrependimento havia nesta

dor ele não sabia.


"Sim," disse Celia, pensando que ficava bem para Sir james dizer

isto, mas que ele não ficaria bem com Dodo. "Devo ir falar com ela? Você

acha que eu poderia ajudá-la?"

"Acho que seria bom você apenas ir vê-la antes de Lydgate chegar,"

disse Sir james, condescendentemente. "Só não fique muito tempo."

Com a saída de Celia, pôs-se ele a dar passadas a esmo, lembrando-

se do que havia originalmente sentido sobre o noivado de Dorothea e

sentindo renascer seu desgosto pela indiferença de Mr. Brooke. Se

Cadwallader - se todo mundo tivesse encarado a questão como ele, Sir

James, havia feito, o casamento poderia ter sido evitado. Era uma lásti-

ma deixar menina ainda tão nova decidir cegamente seu destino assim

deste modo, sem nenhum esforço para salvá-la. Sir james de há muito

cessara de ter qualquer remorso: seu coração estava muito contente com

o compromisso com Celia. Tinha contudo uma natureza cavaleiresca.

(pôr-se desinteressadamente a serviço de uma mulher não era uma das

glórias ideais da antiga cavalaria?): seu amor desconsiderado não se trans-

formou em amargura; deixara ao morrer doces fragrâncias - flutuantes

memórias que aderiam com um efeito de consagração a Dorothea. Ele

poderia manter-se como seu amigo fraterno, interpretando-lhe com ge-

nerosa confiança as ações.

CAPÖTULO =

"Qu! veut délasser hors de propos, lasse."

- PASCAL.

€"Quem quer descansar sem ter razão, cansa.")

- PASCAL.
MR. CASAUBON NÃO teve um segundo ataque de gravidade igual à do

primeiro, e em poucos dias começou a voltar às condições de costume.

Mas o caso, no entender de Lydgate, merecia muita atenção. Não só ele

usou o estetoscópio (que ainda não se tornara na época de emprego

generalizado), como também se manteve ao lado do paciente a observá-

lo em silêncio. ·s perguntas de Mr. Casaubon sobre seu estado, respon-

deu que a causa da doença era o erro comum dos intelectuais - uma

aplicação muito diligente e monótona: o remédio era satisfazer-se com

moderação no trabalho e procurar relaxar de vários modos. Mr. Brooke

que se sentava por perto na ocasião, sugeriu que Mr. Casaubon deveria

ir pescar, como Cadwallader, e ter uma oficina com torno, fazer brinque-

dos, pernas de mesas, esse tipo de coisa.

"Recomenda-me em suma que eu antecipe o advento de minha se-

gunda infância," disse o pobre Mr. Casaubon, com algum azedume. "Tais

coisas seriam tão relaxantes para mim," acrescentou, olhando para

Lydgate, "quanto o preparo de fibras para cordas para os prisioneiros de

uma casa de correção."

"Confesso," disse Lyd -gte sorrindo, "que a distração é uma receita que

não satisfaz plenamente. E mais ou menos como recomendar às pessoas

que se mantenham contentes. Talvez seja melhor lhe dizer que mais con-

vém o senhor submeter-se a um certo tédio que continuar trabalhando."

MIDDLEMARCH

311

"Sim, sim," disse Mr. Brooke. "Ponha a Dorothea para jogar gamão

com você à noite. E também peteca - não há nada melhor do que pete-

ca para jogar durante o dia. Lembro-me de quando era moda.  bem

verdade que os seus olhos talvez não agüentassem, Casaubon. Mas você

tem de espairecer, homem. Talvez dedicar-se, quem sabe, a um estudo


leve: a concologia, por exemplo: eu sempre a julgo um estudo leve. Ou

então mandar que a Dorothea leia para você coisas leves, Smollett - o

"Roderick Randorn," o "Humphrey Clinker:"1 são um pouco fortes, mas

ela agora, não é?, sendo casada pode ler qualquer coisa. Lembro-me que

me fizeram rir além da conta - há uma hilariante passagem sobre as

calças de um postilhão. Agora não temos tal humor. São coisas pelas

quais eu já passei, mas que para você ainda podem ser novas."

"Tão novas como comer cardos" teria sido uma resposta para repre-

sentar o que Mr. Casaubon sentia. Mas ele apenas se inclinou resignada-

mente, com o devido respeito pelo tio da esposa, e observou que sem

dúvida as obras mencionadas por este tinham "servido como um recurso

a uma certa classe de espíritos."

"Veja só," disse o hábil magistrado a Lydgate, quando já estavam

fora do quarto, "o Casaubon é limitado demais: fica meio perdido quan-

do o senhor o proíbe de tocar seu trabalho de especialista, que creio ser

profundo mesmo - coisa na linha das pesquisas, sabe? Eu nunca passa-

ria por isto; sempre fui versátil. Mas um clérigo é assim, vive todo amar-

rado. Agora, se eles o fizessem bispo! - ele escreveu um panfleto muito

bom por Peel. Sua vida teria mais movimento, mais animação; talvez até

ele engordasse. Mas aconselho-o a conversar com Mrs. Casaubon. Ela é

muito esperta para tudo, minha sobrinha. Diga a ela que seu marido

precisa de diversão, de vida: sugira-lho táticas de distração."

Mesmo sem o conselho de Mr. Brooke, Lydgate já havia decidido ir

falar com Dorothea. Quando seu tio enumerara aquelas sugestões agra-

dáveis sobre os modos possíveis de alegrar a vida em Lowíck, ela não se

achava presente, mas em geral estava ao lado do marido, e os sinais

inalterados de ansiedade intensa em sua face e na voz, sobre tudo o que

dizia respeito à disposição e à saúde dele, constituíam um drama que

Lydgate era levado a observar. Dizía-se ele que apenas cumpria seu de-

ver comunicando-lhe a verdade sobre o futuro provável de seu marido,

mas certamente também pensava que seria interessante conversar confi-


dencialmente com ela. Um médico é dado a fazer observações psicológi-

cas e às vezes, ao empreender tais estudos, facilmente é tentado a profé-

livros de Tobias Smollett, o primeiro de 1748 e o segundo de 1771.

312

GEORGE ELIOT

cias momentâneas que a vida e a morte facilmente desprezam. Lydgate

satirizara não raro esta predição gratuita, e agora queria resguardar-se.

Perguntou por Mrs. Casaubon e, ac saber que ela saíra para dar uma

volta, já se ia afastando quando apareceram Dorothea e Celia, ambas

refulgentes da luta contra o vento de março. Mal Lydgate pediu para

falar a sós com ela, Dorothea abriu a porta da biblioteca, por acaso a

mais próxima, sem pensar em nada no momento a não ser o que ele

poderia ter a dizer sobre Mr. Casaubon. Era a primeira vez que entrava

ali desde a doença do marido, e a criada tinha resolvido não abrir as

cortinas. Mas a luz que entrava pelas estreitas vidraças acima das janelas

dava para ler.

"Não estranhe a pouca luz," disse Dorothea, postada ao meio da

sala. "Desde que o senhor proibiu os livros, a biblioteca está fora de

questão. Mas espero que Mr. Casaubon em breve volte a estar aqui. Ele

está melhorando, não é?"

"Sim, uma melhora muito mais rápida do que eu esperava a princí-

pio. Na verdade ele já está quase em seu estado normal."

"O senhor não teme uma recaída?" disse Dorothea, cujo ouvido apu-

rado parecia ter percebido algum sentido especial na entonação de

Lydg -te.

"E particularmente difícil pronunciar-se sobre tais casos," disse

Lydgate. "O único ponto sobre o qual posso ter certeza é que será dese-
jável vigiar muito bem Mr. Casaubon, para impedi-lo de submeter a ten-

sões o seu sistema nervoso."

"Peço-lhe falar claramente," disse Dorothea, em tom de imploração.

"Não agüento pensar que possa haver alguma coisa que eu não sabia e

que, se tivesse sabido, me teria feito agir de outro modo." Escaparam-

lhe as palavras como um grito: era evidente que estavam dando voz a

uma experiência mental nada remota.

"Sente-se," acrescentou ela, acomodando-se na cadeira mais próxi-

ma e tirando afobada o chapéu e as luvas, com um esquecimento instin-

tivo da formalidade, já que uma grande questão do destino estava em

causa.

"O que a senhora diz justifica meu próprio ponto de vista," disse

Lydgate. "Penso que impedir remorsos desta espécie, na medida do pos-

sível, é uma das funções do médico. Peço-lhe observar porém que o caso

de Mr. Casaubon é precisamente do tipo em que o desfecho é mais difícil

de prever. Pode ser que ele viva uns quinze anos ou mais, sem que seja

sua saúde pior do que a teve até hoje."

Dorothea havia ficado muito pálida e, quando Lydgate fez uma pau-

MIMUMARCH

313

sa, ela disse em voz baixa: "O senhor quer dizer, se tornarmos muito

cuidado."

9sto mesmo - cuidado contra todos os tipos de agitação mental, e

contra a aplicação excessiva."

"Seria uma infelicidade para ele, se tivesse de renunciar ao traba-

lho," disse Dorothea, com uma rápida antevisão da desgraça.

"Sei disto. O único jeito é tentar por todos os meios, diretos e indi-

retos, moderar e variar suas ocupações. Com uma feliz conjunção de


circunstâncias, não há perigo imediato, como eu lhe dizia, apresentado

pela afecção cardíaca que creio ter sido a causa de seu ataque recente.

Mas, por outro lado, é possível que a doença se desenvolva mais rápido:

é um dos casos em que às vezes ocorre morte súbita. Para afastar esta

ameaça, não se pode esquecer de nada."

Houve uns momentos de silêncio. Dorothea sentava-se como que

transformada em mármore, embora a vida em seu íntimo fosse tão in-

tensa que nunca antes sua mente tinha abarcado em tão breve tempo

um igual repertório de motivos e cenas.

"Ajude-ine, por favor," disse ela enfim, na mesma voz baixa de an-

tes. "Diga-me o que eu posso fazer."

"Que pensa de uma viagem pelo exterior? Vocês estiveram recente-

mente em Roma, não foi?"

As memórias que tornavam este recurso definitivamente impensável

foram uma nova corrente a sacudir Dorothea, tirando-a da pálida imobi-

lidade.

"Oh, não daria certo - isto seria pior que tudo," disse ela num de-

sespero mais infantil, enquanto as lágrimas rolavam. "Nada de que ele

não goste vai adiantar."

"Desejaria poder ter-lhe evitado esta dor," disse Lydgate, profunda-

mente comovido, não obstante a pensar no casamento dela. Mulheres

como Dorothea não haviam entrado ainda em suas tradições.

"O senhor fez bem em contar-me. Agradeço-lhe por me dizer a ver-

dade."

"Espero que entenda que ao próprio Mr. Casaubon não direi nada

para esclarecê-lo. O desejável para ele, a meu ver, é que apenas saiba

que não deve trabalhar em excesso e que tem de obedecer certas regras.

Nada lhe seria tão desfavorável quanto a ansiedade, de qualquer tipo

que fosse."

Lydgate se levantou, e mecanicamente Dorothea se levantou ao

mesmo tempo, desabotoando e tirando sua capa como se esta a sufo-


casse. Inclinando-se, ele se despedia, quando um impulso que se teria

314

GEORGE ELIOT

convertido em prece, se ela estivesse sozinha, fê-la dizer com um solu-

ço na voz:

"Oh, o senhor é um homem sábio. Sabe tudo sobre a vida e a morte.

Aconselhe-me. Pense no que eu poderia fazer. Ele tem trabalhado a vida

inteira, sempre olhando em frente. Não liga para mais nada. E eu tam-

bém não

Anos depois Lydgate se lembraria ainda da impressão nele causada

por este apelo involuntário - este grito de alma a alma, sem outra cons-

ciência que não o próprio mover-se de duas naturezas idênticas no mes-

mo meio confuso, na mesma vida turbulenta e de iluminação tão instá-

vel. Mas o que poderia ele dizer agora, a não ser que voltaria amanhã

para ver Mr. Casatibon de novo?

Quando ele se foi, as lágrimas de Dorothea rolaram, aliviando-lhe a

asfixiante opressão. Depois ela enxugou os olhos, lembrando-se de que

seu sofrimento não devia transparecer ao marido; e olhou em volta da

sala, pensando que devia dar ordens para que a arrumassem como de

costume, já que agora Mr. Casaubon poderia querer vir ali a qualquer

momento. Sobre sua escrivaninha havia cartas que tinham ficado sem

tocar desde a manhã em que ele caíra doente, e entre elas, como Dorothea

bem se lembrava, estavam as do jovem Ladislaw, com a carta que lhe era

endereçada ainda por abrir. As associações destas cartas eram mais pe-

nosas ainda devido ao súbito ataque que a seu ver a agitação causada

por sua raiva poderia ter ajudado a provocar: haveria tempo de as ler,

quando lhe fossem novamente entregues, e o impulso de vir à biblioteca

buscá-las nunca lhe ocorrera. Ocorria-lhe porém agora que era bom sub-
traí-las à visão do marido: fossem quais fossem as origens de seu aborre-

cimento com elas, ele não devia, se possível, aborrecer-se de novo; e

primeiro ela passou os olhos pela carta endereçada a ele, para verificar

se seria necessário responder ou não a fim de desembaraçar-se da ofen-

siva visita.

Will escrevia de Roma, e começava dizendo que os favores que de-

via a Mr. Casaubon eram tão grandes que nem os maiores agradecimen-

tos pareceriam impróprios. Claro que ele, se não estivesse cheio de gra-

tidão, deveria ser o mais ordinário dos velhacos a jamais ter encontrado

um generoso amigo. Alongar-se em palavras de reconhecimento seria

como dizer: "Eu sou honesto." Mas Will tinha passado a perceber que

seus defeitos - defeitos que o próprio Mr. Casaubon freqüentemente

apontara - necessitavam para sua correção de uma situação mais dura,

que a generosidade de seu parente havia até então impedido de ser ine-

vitável. Confiava em dar o melhor retorno, se retorno fosse possível,

MIDDLEMARCH

315

demonstrando a eficácia da educação que lhe fora custeada e deixando

de necessitar no futuro de qualquer desvio para ele de fundos a que

outros talvez tinham mais direito. Estava vindo para a Inglaterra para

tentar sua sorte, como eram obrigados a fazer tantos outros jovens cujo

único capital era o próprio cérebro. E seu amigo Naumann manifestara o

desejo de que ele se incumbisse da "Disputa" - o quadro pintado para

Mr. Casaubon, com cuja permissão, e a de Mrs. Casaubon, Will o levaria

pessoalmente a Lowick. Uma carta enviada para a Poste Restante em

Paris nas duas próximas semanas evitaria, se necessário, que ele chegas-

se em hora inconveniente, Em anexo, mandava uma carta para Mrs.

Casaubon, na qual prosseguia uma discussão sobre arte, iniciada com


ela em Roma.

Abrindo sua própria carta, Dorothea viu que se tratava de uma exu-

berante continuação das objeções feitas por ele à sua simpatia fanática e

à sua falta de um prazer neutro e inflexível nas coisas como elas são -

um transbordamento da vivacidade do jovem que era impossível ler nes-

te momento. Ela tinha de pensar imediatamente no que precisava ser

feito em relação à outra carta: talvez ainda houvesse tempo de impedir

que Will viesse a Lowick. Dorothea acabou por entregar a carta a seu

tio, que ainda estava na casa e a quem pediu para comunicar a Will que

Mr. Casaubon havia estado doente e que as visitas lhe estavam proibi-

das por questão de saúde.

Ninguém mais disposto a escrever uma carta do que Mr. Brooke: sua

única dificuldade era escrevê-la curta, tendo suas idéias se expandido,

neste caso, por três páginas grandes e ainda as dobras internas. Simples-

mente ele disse a Dorothea:

"Claro que escrevo, minha filha.  um jovem muito brilhante - este

Ladislaw - ouso d