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DOI: 10.1590/1413-81232015202.

10172014 607

A sociedade de risco midiatizada,

temas livres free themes


o movimento antivacinação e o risco do autismo

The media-driven risk society, the anti-vaccination movement


and risk of autismo

Paulo Roberto Vasconcellos-Silva 1


Luis David Castiel 1
Rosane Härter Griep 1

Abstract Marked changes have been seen in Resumo Observam-se modificações epidemio-
the epidemiological profile of infectious diseas- lógicas de doenças infecciosas entre famílias de
es among middle-class families in industrialized classe média de países industrializados por força
countries due to beliefs related to the risks of de crenças ligadas aos riscos da vacinação. Estas se
vaccination. These beliefs are proliferating glob- expandem globalmente por conta de redes de sites,
ally due to internet sites, blogs and the influence blogs e celebridades de ampla influência. Em vista
of celebrities in the mass communication media. da complexidade de tal fenômeno cultural, em sua
Due to the complexity of a cultural phenomenon analítica são articulados conceitos contemporâne-
of this nature, contemporary concepts aligned to os alinhados à ideia de reflexividade na sociedade
the idea of reflexivity in the risk society are an- de risco, assim como o da sociedade midiatizada
alyzed. The concept of a receptive media-driven receptora de enunciações de perigos e proteções em
society in which the announcement of danger and mútua referência e contradição. Discute-se a fre-
protection in mutual reference and contradiction quente emergência de tensões derivadas de ciclos
are also assessed. The frequent emergence of ten- de enunciações e incompletudes constituídas como
sions derived from cycles of utterances and base- “biovalores” simbólicos. Enfatiza-se o efeito persis-
less comments construed as symbolic “biovalues” tente de enunciações ameaçadoras e fraudulentas
are discussed. The persistent effect of threatening a abastecer redes sociais virtuais que, há quase três
biotechnological and fraudulent utterances has décadas, ampliam o debate acerca da ligação do
influenced virtual networks for almost three de- autismo com as vacinas. Conclui-se que os proces-
cades, supporting the debate about the connection sos de produção de sentidos interligam-se em di-
between autism and vaccines. The conclusion versos níveis nos quais circulam representações que
reached is that the processes of production of sig- sustentam a comunicação e a identidade dos gru-
nificance interconnect at various levels in which pos com base em referenciais histórico-culturais.
representations circulate that support communi- Palavras-chave Comunicação em saúde, Socieda-
1
Laboratório de Inovações cation and group identity based on historical and de de risco, Sociedade midiatizada, Programas de
Terapêuticas, Ensino
e Bioprodutos, Escola
cultural references. vacinação, Mídias e saúde
Nacional de Saúde Pública, Key words Health communication, Risk society,
Fiocruz. R. Leopoldo Media-driven society, Vaccination programs, Me-
Bulhões 1480, Manguinhos.
21041-210 Rio de Janeiro
dia and health
RJ Brasil. bioeticaunirio@
yahoo.com.br
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Vasconcellos-Silva PR et al.

Introdução pouca ou nenhuma influência sobre as decisões


familiares nesse campo. Sabe-se que, entre as
Observa-se recentemente que as atenções das mí- 17.000 crianças não vacinadas anualmente, uma
dias e do imaginário popular dos países indus- significativa maioria reside em estados america-
trializados modificaram seus focos para novas nos que não obrigam os pais à vacinação desde
ameaças. Na medida em que os riscos oferecidos que estes aleguem “motivos filosóficos”4.
por doenças controladas pela imunização cole- É inegável que o impacto emocional que in-
tiva, como a coqueluche, o sarampo e a difteria cide sobre pais responsáveis por crianças porta-
desapareceram de seus horizontes (supostamen- doras de autismo não é desprezível. Tal desgaste
te confinadas às populações do terceiro mundo), torna parentes e conhecidos próximos especial-
voltam-se agora aos potenciais efeitos deletérios mente vulneráveis a qualquer tipo de discurso
associados a novos riscos e males1. Quase sem- que atribua sentido de causalidade ao autismo
pre mal compreendidos pelo senso comum e, – condição ainda mal esclarecida perante o ima-
não raro, mal esclarecidos em suas origens pela ginário social. Nesse ponto a proximidade física
ciência, há novos perigos nos horizontes contem- entre os solidários aliada ao sentido de causali-
porâneos. dade das vacinas em relação ao autismo passa a
Os inquéritos nacionais americanos descre- configurar situações de riscos secundários sob o
vem algumas modificações no que se refere à re- olhar epidemiológico. A distribuição geoeconô-
cente e crescente desconfiança ligada a supostos mica dessas famílias usualmente se configura em
efeitos colaterais advindos dos processos de imu- clusters de vizinhanças próximas – o que tenderia
nização. As estatísticas oficiais têm identificado e a potencializar a contaminação e a transmissão,
descrito um padrão inaudito – pais que não va- tanto para os subimunizados como para os não
cinam seus filhos por conta das chamadas “cren- vacinados4,5, objeto de discussão que não será de-
ças filosóficas” ligadas à associação de vacinas ao senvolvido no presente texto.
autismo2. Gust et al.3 identificaram tais atitudes Não obstante à percepção de tantos riscos,
e crenças em 14,8% dos pais de crianças não uma objeção atávica à vacinação está historica-
adequadamente imunizadas, o que contribuiria mente registrada em frequentes momentos de
significativamente, segundo o autor, para uma embate entre intervenções públicas imunizadoras
peculiar condição de vulnerabilidade de natureza e discursos de evocação às liberdades individuais.
cultural a criar nichos de incubação. Na Inglaterra de 1853, a vacinação obrigatória
Em nível de detalhamento mais profundo, por força de um ato governamental – compulsory
Smith et al.4 examinaram os registros de 151.720 vaccination act6 suscitou enfáticas manifestações
crianças à procura de padrões que distinguissem de desaprovação da classe média alta. Tido como
os que não imunizaram plenamente seus filhos, atitude de força inadmissível em um estado li-
ou “subimunizadores”, dos “não imunizadores” beral, pais ingleses se organizaram em defesa da
que rejeitam qualquer tipo de intervenção com- liberdade de arbitrar sobre o estado imunológico
pulsória dessa natureza por força de sua crença de seus filhos, do que decorreu alta mortalidade
em riscos (principalmente àqueles ligados ao au- por infecções não observadas nos territórios que
tismo). aderiram à vacinação.
Segundo tais padrões, as crianças subimuni- Desde então, tanto na Europa quanto nas
zadas vivem sob condições sócio-econômico-e- Américas (exceção ao episódio da “revolta da va-
ducacionais adversas: filhos de mães mais jovens cina” no Rio de Janeiro do início do século XX), a
e solteiras com baixa escolaridade e residentes em intervenção do poder público justifica-se plena-
vizinhanças pobres de grandes centros. Em con- mente sob perspectivas ético-sanitárias7-9 funda-
traste, as crianças absolutamente não imunizadas mentadas por princípios epidemiológicos. Estes
eram filhos (o sexo masculino predomina, por consideram que a dinâmica das infecções se apoia
motivos explicitados adiante) de mães casadas, na expansão de clusters de infectados, mesmo os
com alto nível de escolaridade, que residem em situados em regiões nos quais tais doenças já te-
vizinhanças com renda acima da média nacional nham sido consideradas erradicadas10. As condi-
e contam com amplo acesso aos meios de comu- ções de propagação de um surto, assim como a
nicação de massa. Grande parte dos casais “não velocidade de sua transmissão, estão vinculadas
vacinadores” expressou enfáticas preocupações à aglutinação desses clusters em uma massa crí-
acerca dos efeitos ocultos das vacinas, sobretudo tica de suscetíveis e contaminados que, quando
concernentes à condição neurológica do autismo. alcançada, cria grandes obstáculos à plena imu-
Também admitiram que seus pediatras exerciam nização coletiva. Em termos epidemiológicos,
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os não imunizados estarão mais seguros em um inacessibilidade de outros, organizaria novas ra-
ambiente de vacinados do que o contrário – os cionalidades? No caso das redes virtuais de pais
imunizados são mais vulneráveis nos bolsões nos reflexivos, o estatuto científico deveria dar lugar
quais não houve cobertura vacinal suficiente10. à força das narrativas e teorizações paralelas?
Nos Estados Unidos, embora as leis de obriga- Tais subsistemas virtuais como novas matrizes
toriedade de imunização escolar tenham desem- de racionalidades produtoras e organizadoras de
penhado papel decisivo no controle de doenças11, sentido se prestariam à base racionalizadora para
há exclusões de ilicitude que liberam as crenças as decisões, mesmo sem sentidos de suficiente
religiosas em 47 estados, assim também como concretude para opções inequívocas? Teriam os
abstenções admitidas como “filosóficas” (em 15 novos patamares de simetria e proximidade entre
estados). Contando todas as exclusões, há menos emissores e receptores viabilizada pela Internet
de 1% de crianças em idade escolar não cober- elevado as narrativas comuns à altura das ver-
tas na maioria dos estados11, o que é considerada dades científicas? Estas narrativas devidamente
uma faixa epidemiológica segura. Não obstante, enunciadas em sua incompletude e autorreferên-
há um número crescente de crianças em idade cia pelas mídias estariam a abastecer as redes de
pré-escolar, usualmente na faixa dos 2 anos de blogs e websites em suas teorias de causalidade
idade, cujos pais se mostram insensíveis aos pro- dúbia, mas que mesmo assim ofertam sentidos
gramas educativos de vacinação e inalcançáveis organizadores, como modelos para ação? Des-
pelas leis de imunização escolar5. Essas famílias creve-se um processo de desencantamento e li-
não poderiam ser classificadas como injustamen- bertação de certezas tradicionais (embora não no
te excluídas do sistema americano de saúde – não sentido weberiano, que aponta para a sociedade
há iniquidades a desafiar o Estado nesse caso, industrial), sobretudo no que concerne à Ciência,
nem injustiças sanitárias a confrontar. O presente para as turbulências da sociedade de risco, na qual
texto se ocupa de um recente fenômeno cultural, deve-se conviver com ameaças globais e pessoais,
materializado por famílias que deliberadamente emergentes e recorrentes, de crescente variedade,
se excluíram das campanhas de vacinação por embora, não raro, contraditórias.
força de assumidas crenças “filosóficas”5 de natu-
reza e meio de reprodução peculiares. Vacinação e autismo nas mídias
O fenômeno das redes antivacinação – inal-
cançável pelas campanhas de esclarecimento e Há quase três décadas já se percebem desta-
de difícil contenção pelas intervenções sanitárias ques na mídia sobre eventos adversos12 ligados à
– parece ser produto da “sociedade de risco” em imunização contra a Difteria/tétano/coqueluche,
confluência ampliada pelos ciclos de enunciação a hepatite B13,14 e, principalmente, a vacina trí-
autorreferenciadora da “sociedade midiatizada” plice (MMR em países de língua inglesa)15, que
contemporânea. Os discursos acerca dos perigos talvez tenham influenciado a “aversão filosófica”
da vacinação, enunciados e reproduzidos pelas dos pais que aderiram ao movimento antivaci-
mídias de maior influência cultural, não serão nação. Talvez o tema mais polêmico e de maior
aqui tratados como assertivas de poder ilocucio- repercussão16, embora suficientemente estudado
nário próprio, pontual, mas como fenômenos há mais de uma década17, envolva a associação
culturais nascidos e reproduzidos em tessitura entre a vacina tríplice contra sarampo, caxumba
social especialmente afeita às mensagens desse e rubéola (MMR) e o autismo12.
feitio. Sua energia de plausibilidade e força de ex- Desde os trabalhos pioneiros de Kanner e
pansão parecem se nuclear em terrenos contem- Eisenberg18 publicados há mais de meio século,
porâneos de conformação complexa e, por isso as manifestações relacionadas à síndrome cres-
mesmo, dignos de serem devidamente estudados cem em prevalência, graças aos instrumentos
e analisados à luz do caso que se apresenta. Enfa- de diagnóstico e identificação precoce. Os sinais
tiza-se a compreensão da centralidade estratégica usualmente aparecem no primeiro ano de vida e
das mídias, sobretudo a internet2, quando arti- sempre antes dos três anos, época na qual é admi-
culada a outras práticas sociais, cujas dinâmicas nistrada a maioria das vacinas. A condição é duas
instalam e estruturam os contextos e a tempora- a quatro vezes mais prevalente em meninos18, o
lidade de instituições e indivíduos7. que explicaria a já referida insuficiente imuniza-
Nesse cenário, pergunta-se, a “analítica” des- ção destes, assim como a teoria que suporta os
ses novos espaços virtuais deveria incluir sua inibidores da testosterona4. Sua etiogênese es-
observação como dispositivos de leitura e orga- pecífica está ainda por ser determinada, embora
nização de novos sentidos? Estes, nas lacunas ou alguns estudos indiquem fatores genéticos19. In-
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Vasconcellos-Silva PR et al.

dícios mais incisivos foram publicados no Lan- de risco e na transição da “sociedade dos meios”
cet (periódico médico inglês), em 1998, pelo Dr. para a “sociedade midiatizada” a antiga função
Andrew Wakefield et al.20, que descreveram uma representacional do fato jornalístico, ligada à
condição inflamatória intestinal que exporia ideia de verdade, passou a enunciar e a traduzir
crianças vacinadas às toxinas mercuriais causa- aos consumidores reflexivos conceitos de com-
doras do autismo. Seu artigo originou reações plexidade tão crescente quanto irrefreável e es-
enfáticas em vista das excessivas extrapolações e sencial à experiência da vida cotidiana42.
a questionável metodologia empregada21-23. Como observara Giddens, bem antes da era
O General Medical Council inglês, após minu- das redes virtuais, à época das prensas mecaniza-
ciosa análise do trabalho, publicou um relatório das, as mídias se nos apresentam como “portas de
de 143 páginas no qual afirmava que os autores acesso” a fornecer condições de consolidação de
agiram de forma irresponsável e antiética21. Wa- vínculos simbólicos com sistemas abstratos que
kefield teve seu registro profissional cassado na tendem a se expandir e complexificar. Desde cedo
Inglaterra – também por conta de evidências as primeiras “tecnologias de comunicação meca-
do conflito de interesses na sua associação com nizadas” influenciaram dramaticamente todos os
advogados que incitavam as famílias às indeni- aspectos da globalização, configurando-se como
zações e da descoberta de uma patente de vacina elemento essencial da reflexividade e das descon-
antissarampo supostamente mais segura regis- tinuidades que compeliram à ruptura com o tra-
trada em seu nome22, além de procedimentos dicional43.
invasivos, lesivos e desnecessários impostos às Ironicamente, algumas das doenças típicas
crianças examinadas. As evidências de quebra dos bolsões de miséria e ausência de intervenções
de decoro ético levaram o Lancet a publicar uma sanitárias, agora se expandem entre os consumi-
retratação23. Apesar de todas as evidências refuta- dores com maior acesso às fontes de informações
doras24,25, dúvidas ainda se alimentam nos ciclos sobre saúde dos países industrializados. Para
de atenção gerados por debates frequentemente uma parcela crescente desses consumidores, a
divulgados pelas mídias americanas e, sobretudo, opção parece suficientemente clara: por um lado,
por websites em mútua referência a fóruns de o risco de doenças infecciosas que acreditam ads-
comunidades virtuais26-30. As redes virtuais anti- tritas aos trópicos de países subdesenvolidos. Por
vacinação têm ampliado seus espaços, sobretudo outro, o risco de autismo – uma condição neu-
pela força das celebridades que abraçaram a cau- rológica incurável, emocionalmente desestrutu-
sa em debates veiculadas pela TV28,31, o que pare- rante entre as famílias e que parece se expandir
ce ter comprometido a cobertura dos programas aceleradamente nas últimas décadas por impulso
de imunização ingleses e americanos32-35, apesar de fatores ainda obscuros. A cacofonia de desin-
das evidências epidemiológicas que se opuseram formações cresce no ritmo da expansão do rol de
às teses anti MMR36-38. prescrições e proscrições nos sites dedicados à
polêmica. Um website de “contagem de corpos”
A transição para a sociedade midiatizada recebeu o nome de uma das mais influentes e
e o autismo ativas opositoras à vacinação – a modelo e atriz
americana Jennifer McCarthy44 (“Jenny McCar-
A posição de autoridade que a ciência um thy Body Count”).
dia desfrutou só perduraria na persistência de Ao início de 2013 o sítio contabilizava mais
um isolante dividindo a especialização científica de 112.000 casos de doenças evitáveis pela imu-
das diversas formas de possibilidade de conheci- nização das quais decorreram 1094 mortes (e ne-
mento leigo, o que só se verifica nos campos nas nhum caso de autismo comprovadamente ligado
quais aquela ainda consegue demarcar pela posse à MMR). A mensagem pública de McCarthy é
de algum conhecimento esotérico, no sentido fle- sempre clara e direta: “a MMR está relacionada
ckiano39,40. É plausível imaginar que a debilidade ao aumento dos casos de autismo”, demonstran-
desses sentidos esotéricos (assim como a emer- do como evidência áurea o caso do próprio filho.
gência e a popularização de outros, interpreta- Em geral, os ativistas antiMMR também se valem
dos, traduzidos e enunciados pelas mídias) na de retórica confessional e denunciam os riscos
perspectiva histórica das mutações dos processos aos quais são expostos sob a “sobrecarga tóxica”
midiáticos a partir da segunda metade do século de elementos venenosos combinados a com-
XX, tenha criado condições para a amplificação ponentes subreptícios nas imunizações excessi-
de novos riscos, medos e ameaças nas dinâmicas vas45 preconizadas pelo CDC americano46. Esse
simbólicas sociais41. No contexto da sociedade é o caso de Barbara Loe Fisher (presidente do
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National Vaccine Information Center)28 e Curt acenando com a segurança provisória pela via
Lindman – apresentador de programa de rádio de suas operações de redução de complexidades
de expressiva audiência – em seu site “autismto- e riscos56,57. No entanto, a persistente incerteza
dayonline.com”. No cenário político americano, quanto às origens perante o pleno reconheci-
o dogma republicano “criacionista” parece ter seu mento das temíveis consequências do autismo
equivalente no terreno dos democratas na defesa pelo intermédio desses processos também com-
da tese da antivacinação47. pelem à busca do apoio das redes de suporte so-
O democrata Robert F. Kennedy Jr, também cial que vicejam na Internet. Nessas redes de su-
se valendo da rede antivacinação, publicou em porte, muitos outros rostos e relatos se misturam
2005 o texto “Deadly Immunity”48 para dar su- a novas enunciações e incompletudes a ampliar o
porte às suas causas49, o que lhe custou muitas abrigo-tormento das certezas provisórias58,59.
retificações em virtude de informações incorre- Uma vez estabelecidos os vínculos de fiabili-
tas28. Kennedy Jr. denunciara elevadas concentra- dade de pais-consumidores reflexivos com redes
ções de thimerosal (um conservante usado desde de websites e comunidades virtuais tão amplas,
1930) como fator de exposição ao risco do autis- alguns questionamentos se colocariam. Tal dinâ-
mo, apesar de já se saber que este não se acumula mica de construção, alimentação e validação dos
no organismo, ao contrário de sua forma nociva sentidos anti-imunização estaria se tornando,
– o metil mercúrio. O Thimerosal havia sido re- no interior desses espaços, um círculo autossu-
tirado das preparações em 2001 e, apesar disso, a ficiente de abrigo/tormenta simbólica? No que
identificação de novos casos de autismo se man- se refere à sociedade de risco em sua confluên-
teve em crescimento50. cia com a sociedade midiatizada que ora se ex-
pressa na Internet (sobretudo no que concerne a
Os efeitos de sentido e seu efeito regulatório tais círculos de atenção e referência), percebe-se
que a expansão de amplitude e relevância desses
Na contemporaneidade as tecnologias de sítios assume uma nova centralidade na análise
comunicação e seus protocolos circunscrevem a cultural – não mais em função de sua natureza
experiência, o que confere a esses meios de aces- representacional, transportadora de sentidos,
so uma função definidora, não raro de emprego mas como “marca, modelo, matriz, racionalidade
regulatório51. O texto enunciador de Kennedy produtora e organizadora de sentido”60.
Jr., assim como os debates incitados pelas cele- Sob tais perspectivas, a “analítica” desses no-
bridades antivacinação investem em “efeitos de vos espaços implicaria sua observação como dis-
sentido” empregados, como se refere Flahault, positivo de leitura e organização de sentidos que,
na “complementação simbólica do sujeito”52. A nas lacunas ou inacessibilidade de outros, orga-
fiabilidade nas instituições são permeadas, ou nizaria racionalidades. No caso das redes virtuais
mediadas, por essas operações organizadoras tec- de pais reflexivos, o primado das evidências ce-
no-simbólicas a gerar inúmeros novos elementos deria lugar à força das experiências e narrativas.
de risco assim como seus produtos vicários: o A base racional para decisões – que precisam ser
autismo; o thimerosal; os inibidores da testoste- certeiras ao tratar do futuro da prole – por vezes
rona; a deficiência de vitaminas na gestação; e as sem sentidos de suficiente concretude para deci-
condições inflamatórias intestinais . sões inequívocas pautam-se nesses subsistemas
Uma relação de dependência de acesso a tais virtuais, que se configuram como as novas matri-
complexidades se nutriu de inumeráveis proble- zes de racionalidades produtoras e organizadoras
máticas derivadas a demandar novas operações de sentido60. A internet possibilita patamares de
de enunciação-tradução. Tais mediações têm se simetria inauditos entre emissores e receptores
prestado à dupla função de “abrigo e tormenta de conteúdos61 da qual deriva a publicização de
simbólica”, na medida em que enunciam novos narrativas comuns em convivência estreita com
transtornos tão prolíferos nos noticiários atuais aquelas potencializadas pelos casos mais visto-
como as novas doenças genéticas, a ameaça da sos. Todos se ligam às redes de websites enfatica-
“doença da vaca louca”53 e a recente pandemia mente assertivos acerca das vacinas e seus efeitos
midiática de influenza54,55. Partindo de seus ciclos colaterais de causalidade dúbia, mas que ofertam
expansivos de enunciação de riscos, autorrefe- sentidos, de alguma forma, organizadores como
rencialidade de função tradutora e incompletude modelos. Muitos consumidores de saúde tam-
(inerente ao formato, processo e ritmo de pro- bém frequentam o mercado livre das terapias
dução de novidades) os meios de comunicação complementares, assim como das panaceias mo-
de massa consolidam sua posição e influência dernas, erigido a partir da incompletude de sen-
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Vasconcellos-Silva PR et al.

tidos e resíduos de fatos científicos reorganizados cidindo no exercício de tal condição sob as pro-
em novos sentidos58-62. Neste, proliferam as dietas liferações imaginárias disponíveis que lhe incide
sem glúten63,64, as megadoses de vitamina D65, o nos formatos simbólicos mais aceitáveis ou me-
tratamento em câmaras hiperbáricas66, o neuro- nos insuportáveis. No âmbito da saúde, os dis-
feedback67, os enemas68, as saunas de infraverme- cursos formais diluem seu antigo e indefectível
lho e os bloqueadores da síntese da testosterona69. vigor na polifonia de mensagens, abrindo terre-
nos espaçosos e férteis às redes de expertise como
Medos atávicos, risco e vacinação a aqui descrita. Novas tensões vicárias, perante
riscos mal identificados, embora vividamente
A ampliação dos espaços de veiculação e pressentidos, geram buscas por informações na
consumo de informações em saúde, no contexto proporção da relevância atribuída ao tema nos
de autorreferencialidades impulsionadas pelos círculos de sua autorreferencialidade. Perde-se,
tantos vetores acima descritos, pode colocar de- assim, o sentido e o propósito da linearidade,
safios inadiáveis ao indivíduo, não raro situado da univocidade e da unidirecionalidade de con-
em uma encruzilhada de versões conflituosas de ceitos clássicos no campo da comunicação. Esta,
muitas realidades a lhe exigir com urgência as assim formatada, tenderia a situar todo o peso
decisões certeiras. A popularização da internet das verdades sobre os ombros dos emissores qua-
e das redes sociais virtuais como fonte de con- lificados, que lutam por direcioná-las como pa-
sumo de informações sobre saúde, segue em cotes de evidências àqueles receptores que, em-
paralelo à sua expansão como recurso para pu- bora sempre alertas, mostram-se mais sensíveis
blicação de discursos e verdades de múltiplas e, à segurança dos rostos conhecidos e seus relatos
não raro, dissonantes versões e origens. Para uma pungentes.
sociedade culturalmente estruturada sob a som- Talvez as opções reflexivas radicadas na infor-
bra de riscos que se multiplicam, sobretudo pela mação, como aqui descrito, não nos esclareçam
exposição dos canais midiáticos, a exigência por suficientemente sobre a origem de algumas das
decisões reflexivas de todos a todo momento e buscas e interesses. Talvez as narrativas de cele-
acerca de todos os pormenores da vida cotidiana bridades gerem impulso às novas buscas, por sua
se dá sob condições nas quais descrédito e crença vez radicadas em medos atávicos que acabam por
se alternam ao sabor dos apelos mais enfáticos, conduzir a fontes mais assertivas (ou plausíveis)
reflexivos ou não. Sob a ameaça da vitalidade de que outras. As biociências são limitadas na iden-
seus entes queridos, alguns pais são pressionados tificação de novos malefícios de toxinas no com-
constantemente pela ansiedade que se expressa portamento de seres humanos por suas óbvias
na busca incessante por informações e protetores implicações éticas.
contra males que se multiplicam ubiquamente. Por outro lado, o impacto de casos reais de
Tal grau de ansiedade favorece a construção autismo que se aproximam pela TV ou pela in-
de uma realidade que passa a se construir sob o ternet são mais eloquentes como evidência de
peso da administração do cotidiano e pelo anseio qualquer coisa que se queira a eles associar. Apro-
por certezas racionalizadas que reduzam ou eli- fundando o caminho analítico que aqui se apre-
minem a complexidade do decidir. A partir da senta, as opções dos consumidores de vitalidade
consagração cultural de um risco, cuja notorie- em seus subsistemas de referência podem se nor-
dade se amplia pela força do drama real de pais tear não apenas por informações, mas também
célebres, mesmo entre grupos inicialmente redu- por representações da realidade que, por força
zidos, origina-se um biovalor que passa a impul- de vetores que não caberia analisar em detalhe
sionar também um mercado não simbólico de no presente formato de exposição, aparentam
artefatos terapêuticos alternativos, tão vincula- maior fiabilidade que outras74. De forma geral,
dos à “economia da vitalidade”70 como as dietas transcendendo ao caso em tela, há assertividades
de emagrecimento, os suplementos energéticos e ocultas nos textos midiáticos que nos conduzem
os produtos anticelulite. a tais valorações à medida que também por elas
Segundo Beck71, Estado, Ciência e Economia se deixam influenciar na dialética de sentidos a
– pilares da segurança perante riscos globais – qual os semiólogos se referem como “marcadores
desgastaram-se, por vezes apresentando-se como de modalidade”75.
uma espécie de irresponsabilidade organizada e Sobre as atitudes que o produtor de um dis-
intitucionalizada. Daí o “cidadão consciente de curso adota, incidem elementos coincidentes ou
si” se torna, solitariamente, seu próprio expert72,73 não com uma determinada realidade descrita.
selecionando informações (ou suas versões) e de- Esta conquistará força de plausibilidade, con-
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fiabilidade, credibilidade, precisão e factualida- Conclusão
de dentro de um sistema de representações que
orienta, seleciona e estratifica as informações que A ênfase latente nos discursos leigos, socioló-
definem os panoramas reconhecíveis. gicos e políticos refere-se a uma nova forma de
Em síntese, o artigo do Dr. Wakefield não foi relacionamento com os profissionais da saúde.
a irresistível força geradora do movimento anti- O novo consumidor, instruído por uma reflexivi-
vacinação, mas potencializou crenças pré-exis- dade ligada a valores radicados no consumerism,
tentes há mais de um século que se apoiaram em presume, no caso, a perspectiva de única opção
um periódico técnico de renome no meio biomé- racional frente às alternativas de um “mercado
dico e agora contam com redes virtuais para es- dilemático” – que é ao mesmo tempo saudável
clarecimento e mútua interlocução. A partir daí, e letal. As consequências das opções irreversí-
tal representação passou a ser percebida como veis nesse campo podem se converter em culpa
mais tangível e perigosamente contígua na medi- insuportável quando se conta com pleno acesso
da do envolvimento emocional, da empatia com às informações do PubMed e do Google. Resta-
casos próximos de conhecidos (ou célebres) e da riam poucos atenuantes para absolver decisões
interligação no mundo virtual dos consumidores incogitadas dos pais reflexivos. As ações racionais
em saúde. do consumidor em saúde se dão em condições
Em síntese, Wakefield, entre outros, deu for- de crescente credibilidade da internet nas ques-
ma factual e verídica a representações pré-exis- tões de proteção e manutenção da vida saudável
tentes que impulsionaram (mas não originaram) perante novas e inúmeras bioameaças que se
reproduções de uma representação sobre a qual apresentam. Na perspectiva de consumidores de
se constituiu e se ampliou em subsistemas de informação em saúde, no vácuo das certezas, é
sentidos uma realidade cientificamente validada. mais prudente se unir aos rostos célebres e bio-
Na perspectiva fleckiana, um “sistema de referên- grafias que soam familiares do que, ao contrário,
cia” se presta a apoiar esse pseudofato científico se orientar às médias das estatísticas oficiais, in-
através do qual múltiplas “conexões passivas” e determinadoras e intangíveis por natureza.
“conexões ativas” passaram a se equilibrar e a se O retrato que se deseja descrever se refere à
desenvolver gerando um tipo de conhecimento colonização das mídias por fontes de sentidos
(e subprodutos derivados) emergente da ativi- que se autovalidam, não raro sobre biovalores – o
dade cultural humana em suas interações com o que é um seu atributo comunicacional lacunar.
social e o natural39. As microfonias dos ruídos e rumores de riscos
Os sentidos enunciados, autorreferentes e amplificados pelo “efeito celebridade” não raro
incompletos nesse mercado têm a oferecer ex- promovem debates, gerando um ciclo de enun-
pectativas de salvação ou solução de problemas, ciações, autorreferencialidades e incompletudes
o que lhes garante impacto cultural (além de su- que elegem conteúdos que ocuparão os espaços
cesso comercial) entre os desesperançados76. O reservados às verdades de mais vigoroso apelo. A
movimento antivacinação passou a se ancorar na título de exemplificação, este foi o caminho per-
biotecnologia77, ganhando um sentido concreto corrido pelo ciclo de enunciações que envolveu
e um biovalor essencial que, na contínua produ- a doença de Kreutzfeld-Jacob, inicialmente um
ção de “realidades”, constituiu-se como mais uma circuito de informações de exclusivo interesse de
peça de um universo complexo de representações especialistas.
que transcende ao universo da reflexividade – Convertida em “Mal da vaca louca” pela
mais um subsistema desse “todo” cultural78. Per- enunciação jornalística de periódicos leigos,
cebe-se, portanto, que os processos de produção ascendeu aos ciclos viciosos dos conteúdos au-
de sentidos, de modo diverso à lógica frankfur- torreferentes em paralelo à epidemia cuja reper-
tiana primordial, interligam-se a diversos níveis cussão econômica e política de alcance mundial
nos quais circulam as ideias, as representações ainda é relembrada. No caso específico da imuni-
que sustentam a comunicação e a identidade dos zação coletiva, esses círculos de atenção parecem
grupos, o nível histórico cultural do imaginário se ampliar no tempo e no espaço – desde suas
como produção cumulativa das ideias que cir- origens no século XIX até o cenário atual globa-
culam como referenciais sempre susceptíveis de lizado. Transcendendo ao conceito de sociedade
ressignificação79. da informação, na perspectiva da sociedade mi-
diatizada e da sociedade de risco, conclui-se que a
ameaça ligada à saúde ou à integridade física das
crianças sobrecarrega de dúvidas os pais que não
614
Vasconcellos-Silva PR et al.

mais se permitem tê-las. Estes, reflexivamente, Colaboradores


não se permitem errar perante as indetermina-
ções que os conduzem aos recursos de informa- PR Vasconcellos-Silva, LD Castiel e RH Griep
ção amplamente acessíveis, plurais e, por vezes, participaram igualmente de todas as etapas de
mutuamente dissonantes. Urgem as decisões sob elaboração do artigo.
o imperativo autoimposto das certezas unívocas
e categóricas entre opções que, talvez conduzam
à tomada de posições aceitáveis e responsáveis Agradecimentos
frente a riscos iminentes, ou a outras que talvez
ocasionem consequências irreversíveis. Ao CNPq pelo suporte material a projeto sub-
vencionado.

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