Vous êtes sur la page 1sur 12

Abastecimento e gestão privada dos serviços de água potável: o

caso da empresa The Campos Syndicate Limited

Teresa de Jesus PEIXOTO FARIA


UENF - EHESS
teresapf@uenf.br
55, Bd Jourdan
CIUP-MPF Std 331
75014 – Paris - France

RESUMO
O trabalho apresenta o desenvolvimento da instalação e gestão dos primeiros serviços de
abastecimento de água potável no Brasil, a partir de meados do século XIX e do início
século XX. Para tanto optamos como estudo de caso a cidade de Campos dos Goytacazes,
na região Norte do Estado do Rio de Janeiro. As intervenções no espaço urbano para
instalação desses serviços foram tratadas, no plano institucional, como uma ação de saúde,
para combater os sintomas mórbidos e a mortalidade causados pelas doenças infecto
contagiosas. O engenheiro sanitarista Saturnino de Brito, a partir desta concepção, entendia
que os interesses da saúde pública eram opostos à gestão privada dos serviços de
saneamento. Na cidade de Campos do Goytacazes, as obras de instalação da rede de
abastecimento de água e de drenagem de esgotos e águas pluviais foram realizadas no
início da década de 1890, pela empresa inglesa The Campos Syndicate Limited. Para
realização do trabalho, optamos como procedimento metodológico a pesqu isa histórica
documental. O principal objetivo do artigo é revelar os conflitos os benefícios e os problemas
relacionados à instalação e a gestão dos serviços de água e esgoto pela empresa privada
The Campos Syndicate, identificando nos discursos do poder público, dos especialistas e da
população, as concepções sobre a relação entre a qualidade da água e saúde.

Palavras-Chave: Abastecimento e gestão da água– Saturnino de Brito – Campos Syndicate


Limited – Campos dos Goytacazes

Introdução

As discussões da instalação dos serviços de abastecimento de água e de esgoto, no


Brasil, eram calcadas na questão de higiene e saúde públicas. A maior parte desses
serviços foi realizada a partir da segunda metade do século XIX, após a Abolição da
Escravidão e instauração da República, momento em que se “construía o Brasil moderno”
(Herschmann et al., 1994).

É importante lembrar que a modernização da sociedade e da economia brasileira se


centrava na economia do complexo agro exportador, fundamental para a estruturação das
relações capitalistas no Brasil, impondo a implantação de um projeto modernizador para as
cidades e da infraestrutura para o transporte, sobretudo os portos como Rio de Janeiro e
Santos. As cidades portos mereceram maior atenção, ainda, pois estes eram considerados
a porta de entrada de doenças infecto contagiosas.

Assim, a cidade tornava-se um espaço de intervenções e de controle mais


sistemáticos sobre a população e seus hábitos. Tudo o que se referia à higiene e à saúde
públicas transformaram-se em discursos, na maioria das vezes, elaborados por médicos e
engenheiros sanitaristas (Faria et al., 2005) .

Nessa conjuntura, as ações destes profissionais eram mais que meramente


técnicas, na medida em que as campanhas e demais ações de cunho higienista,
empreendidas no âmbito da política pública de saneamento, tinham claros impactos na
produção do espaço urbano.

As intervenções médicas no espaço urbano passavam pelos ensinamentos das


regras de higiene com o corpo, com a alimentação e com a moradia, influenciando o
tratamento das doenças, como também nos novos padrões de conduta da sociedade. Aos
engenheiros, foi atribuída a tarefa de reformar o espaço urbano e as precárias condições de
moradia.

O engenheiro se constituiu como um profissional atuante na remodelação do espaço


urbano. A tarefa do engenheiro civil na virada do século XIX para o século XX era de um
profissional que atuaria em áreas diversificadas da engenharia, que segundo Andrade
(1994) implicava em um amplo leque de projetos, de ferrovias, portos, obras de
saneamento, reformas ou planejamento de cidades.

O engenheiro Sanitarista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito 1 se destaca e


realizando entre o final do século XIX e inicio do século XX, vários projetos para as
principais cidades brasileiras, como Santos, Recife, inclusive Campos dos Goytacazes. E no
que se refere ao saneamento das cidades, em seus projetos ele critica os serviços
existentes dirigindo suas criticas, principalmente, à qualidade da água e sua relação com a
saúde 2.

O motivo que levou Saturnino de Brito a desenvolver estudos e


projetos de saneamento e melhoramento para as cidades
brasileiras foi à preocupação com: “as condições ambientais
que propiciavam a ocorrência de surtos epidêmicos, com
efeitos nefastos sobre a economia, a população, e também,
sobre os valores morais dos moradores.

1
Saturnino de Brito nasceu em Campos dos Goytacazes, em 1864. Em 1898, formou-se em engenheiro civil,
pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro.
2
Ver projeto Saneamento de Campos (1943); Os trabalhos de Saneamento de Santos (1913) e Costa (2000)
Segundo Damásio (1998), Saturnino de Brito se inseriu perfeitamente no discurso de
sua época apresentando a questão da urbanização como sinônimo de higienização e
embelezamento.

A instalação dos primeiros serviços de abastecimento de água no Brasil: seu


caráter privado e exclusivo.

O primeiro serviço de abastecimento de água no Brasil data de 1723, quando foi


construído o Aqueduto do Carioca que captava água das nascentes do Corcovado no Alto
de Santa Tereza até ao local hoje conhecido com Arcos da Lapa, no centro do Rio de
Janeiro, onde havia um chafariz e uma bica 3.

Os serviços de esgoto foram instalados por João Frederico Russel e Joaquim


Francisco de Lima Junior que, em 25 de abril de 1857, celebrou contrato com o imperador 4.
Até então, este serviço também era realizado por escravos chamados “tigres” que
transportavam as imundices à noite pelas ruas da cidade até as “valas” abertas para este
fim, ou em lugares ermos. Em 1863, o dito contrato foi transferido para a empresa de capital
inglês, The Rio de Janeiro City Improvements Company Limited, ficando conhecida como
City.

Em Recife, foi contratada a Companhia do Beberibe, em 1838, para o fornecimento


de água potável. O projeto foi elaborado pelos engenheiros Conrado Niemeyer e Luiz
Bellegarde, que escolhem como manancial o Riacho da Prata. O Projeto do Prata previa
uma adutora com extensão de 10 km. O reservatório estava localizado na Boa Vista e a
rede distribuidora fornecia água para 13 chafarizes nos bairros da Boa Vista, Santo Antonio
e Recife (Costa, 2000).

Porém, o abastecimento de água da cidade do Recife só ocorreu em 01 de maio de


1848, quando entra em vigor o prazo de concessão do serviço (O Recife concede à
Companhia do Beberibe o direito de exploração dos serviços de abastecimento de água por

3
Outras formas de abastecimento: poços, cisternas, para recolher as águas das chuvas (como a contruída no
Convento de Santo Antonio, no século XVII)). Havia também o comércio de água explorado pelos senhores de
escravos. A venda era feita pelos “aguadeiros” (escravos índios ou africanos), abastecendo, assim as
residências daqueles que não dispunham de escravos para buscarem água no chafariz. Durante o século XVIII,
novos mananciais são explorados na direção do Rio Comprido, Andaraí e Tijuca, Gávea e Botafogo. No início de
século XIX, acompanhando a expansão da cidade, novos mananciais são explorados e os serviços se ampliam
para novos bairros. Também surgem empreendedores que aperfeiçoando os serviços de venda de água em
domicílio pelos escravos, vendendo água em carroças.
4
O projeto do sistema contratado foi elaborado por Eduardo Gotto, membro do Instituto de Engenheiros Civis de
Londres. Este também teve como missão desenvolver intensa atividade para organizar e constituir uma empresa
de capital inglês, a The Rio de Janeiro City Improvements Company Limited. Gostaria de ressaltar que Gotto é o
mesmo engenheiro que realizou o projeto para a empresa de capital ingles, The Campos Syndicate Limite, da
qual falarei mais adiante.
35 anos, em caráter exclusivo). O fornecimento de água se daria através de 134 chafarizes
públicos (Costa, 2000).

Em 1873, foi criada a Recife Drainage Company Limited para prestar serviços de
esgotamento sanitário à cidade e, tendo em vista a má qualidade dos serviços e
incapacidade da mesma de aperfeiçoá-los, em 1893 o contrato é rescindido.

Desse modo, em 1910, criou-se a Comissão de Saneamento dirigida pelo por


Saturnino de Brito, que implantou os sistemas de abastecimento de água e de esgotamento
sanitário na cidade. O manancial de Gurjaú somado ao do Prata atendiam a quase toda a
cidade (86 mil hab.) O sistema de esgotamento sanitário era dotado de uma rede coletora
de 115km, nove estações elevatórias que recalcavam os esgotos para a usina terminal,
situada no Cabanga atendia toda a parte central da planície do Recife (1.182km), onde
residia a maioria da população da cidade. Em 1912 0s serviços foram encampados pela
Repartição de Saneamento do Estado de Pernambuco.

Em São Paulo, foi em 1892, que o governo encampou as redes antigas de esgotos e
mandou proceder a estudos em várias administrações para realizar reformas. As águas que
abasteciam a cidade vinham das colinas e, em 1898, renovou o contrato de abastecimento
de água com a empresa inglesa City of Santos. Em 1905, foi crida a Comissão de
Saneamento, várias obras foram realizadas por vários engenheiros renomados, como
Rebouças, mas é e, em 1912, que as obras realizadas por Saturnino de Brito a partir do
projeto Planta Geral de Melhoramentos foram inauguradas 5.

5
Ver Inauguração dos trabalhos de saneamanto de Santos Estado de São Paulo (Brasil), publicado pela
Typographia Brasil de Rothschild e Co. São Paulo, 1913.
As imagens: à esquerda representa um “tigre” (escravo que
transportava as excrescências); no alto à direita o aqueduto da
cidade do Rio de Janeiro (no atual bairro da Lapa). Fonte:
www.cedae.com.br

No que se refere à cidade de Campos dos Goytacazes, esses serviços foram concedidos
para serem comercilizados em caráter exclusivo, inicialmente, pela empresa do senhor
Alberto Rocha Miranda, em 1882, que deveria além do esgoto, instalar um serviço de água
potável filtrada efetuado por chafarizes distribuídos de 400 em 400 m .

O DECRETO N. 9529 – de 12 de dezembro de 1885 – concede á Companhia «The Campos


Syndicate Limited» autorização para funcionar no Império, transferindo para esta o contrato
firmado com Alberto Rocha Miranda 6.

Os fins para os quais se estabelece a companhia são:

(A) Adquirir os beneficios completos de um contrato ou concessão feita a Alberto da Rocha Miranda pelo
Governo Provincial do Rio de Janeiro no dia 12 de Maio de 1882, de conformidade com o Decreto que baixou
sob a data de 6 de Maio de 1882, para o abastecimento d'agua potavel filtrada á cidade de Campos e par a a
construcção de um serviço de esgoto que tenha por fim remover das casas as materias fecaes e as aguas
pluviaes da dita cidade de Campos e logares adjacentes, nos termos e condições estipulados na referida
concessão, ou de conformidade com a extensão e modificações que puderem ser obtidas no futuro.
(B) Executar e levar a effeito todos os actos e cousas especificadas no contrato celebrado entre o dito
Alberto da Rocha Miranda e o referido Governo Provincial, conformemente a mencionada concessão.
(C) Requerer ou adquirir do precitado Governo qualquer outra concessão addicional ou supplementar
para a construcção, conservação, concerto e operação do systema de quaesquer trabalhos necessarios aos fins
acima expostos.
(D) Executar trabalhos para fornecer á cidade de Campos e logares adjacentes, com agua e com serviço
de esgoto, e construir todas as obras que forem necessarios para esse fim, celebrar contratos, fazer e concluir
todas as obras e cousas que forem incidentes e necessarias aos mesmos trabalhos.

6
Ver Legislação informatizada, disponível em http://www2.camara.gov.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-
9529-12-dezembro-1885-543992-publicacaooriginal-54789-pe.html (consulta: 01 de fevereiro 2012.
(E) Tratar e dispor das materias fecaes por qualquer fórma que se julgar expediente.
(F) Comprar, adquirir e conservar a posse ou tornar a vender ou fazer negocio com qualquer terreno ou
edificios, e estabelecer escriptorios, e construir quaesquer obras para os objectos da companhia.
(G) Promover, prestar serviços e tomar acções em qualquer companhia ou empreza publica, que offereça
facilidades para os fins da companhia, ou que de qualquer maneira tendam a facilitar os negocios da companhia.
(H) Dispor ou fazer tirar vantagem de toda ou qualquer propriedade da companhia, por meio de venda,
hypotheca, arrendamentos, licenças ou de qualquer outro modo, e nos termos que pareçam convenientes á
companhia, e receber e possuir acções em qualquer companhia e negocial-as, e abrir creditos ou contrahir
emprestimos de capitaes sobre os valores e cauções da companhia ou sobre as obrigações da companhia.
(I) Adquirir os negocios, traspasso e propriedade de qualquer parte dos negocios, - traspasso e
propriedade de qualquer companhia, cujos fins sejam identicos a quaesquer dos objectos desta companhia em
termos de amalgamação ou outros, e assumir as responsabilidades ou qualquer parte das responsabilidades da
dita companhia, em termos semelhantes.
(J) Executar todos ou quaesquer dos objectos acima, no Imperio do Brazil, e para esse fim estabelecer
dentro do dito Imperio e conservar alli um representante responsavel da companhia, mas tanto quanto os
mesmos objectos dizem respeito á gerencia ou administração geral dos negocios da c ompanhia na Inglaterra ou
em outra qualquer parte do mundo, e no tocante e qualquer dos ditos objectos, quer de per si, quer em
conjuncção ou sociedade com qualquer pessoa, companhia ou empreza, e quer como principaes ou agentes, e,
quanto ás operações no estrangeiro, obrar de conformidade com o costume de paizes estrangeiros.
(K) Adquirir a compra, ou alcançar de outro modo, hypothecar ou vender qualquer acção ou quaesquer
acções da companhia no tempo, do modo, e nos termos em que e si os seus directores o julgarem conveniente.
(L) Fazer tudo o que fôr incidente ou conducente aos fins mencionados acima.

Em 25 de junho de 1890, o contrato com a The Campos Syndicate foi renovado, os


serviços de esgoto foram logo instalados, entretanto e os serviços de fornecimento
domiciliar de água só foram inaugurados em 1992, permanecendo a companhia, com o
monopólio do fornecimento de água.

Em 1901, o médico Benedito Pereira Nunes apresenta seu programa administrativo,


cujo principal objetivo era o de resolver os problemas de saneamento, que, no seu entender,
decorriam das condições naturais do espaço urbano campista e da situação precária dos
velhos casarões, que nele existiam. E solicitou ao engenheiro sanitarista Saturnino de Brito,
um projeto de saneamento para a cidade de Campos dos Goytacazes 7.

O projeto logo na introdução anuncia seu propósito: ”Precupa-nos, digamo-lo desde


já, chamar a atenção para a necessidade de educar as populações nos bons princípios da
higiene”. Ao descrever a cidade de Campos traçou um quadro desolador traçado das ruas,
mas ao mesmo tempo demonstrava o cuidado com o estado das habitações: “Vemos aqui
generalizada a antiga e detestável construção colonial, tanto para o miserável casebre,
como para as habitações comuns e para os próprios casarões com pretensões a palacetes:
sempre a falta de ar e de iluminação no interior...” (BRITO,1943:76)

7
O relatório do projeto intitulado Saneamento de Campos constitui o volume VI de suas Obras Completas
(1943). Este estudo é considerado uma obra que inaugura uma nova leitura sobre a cidade enquanto organismo
em crescimento e como meio em relação ao qual o engenheiro deverá intervir, redefinindo suas condições de
salubridade.
O plano de saneamento elaborado para Campos foi constituído em três partes: Na
primeira parte, Brito discute a respeito do levantamento da planta topográfica comentando
as plantas já existentes, apontando seus defeitos e incorreções, como no caso da elaborada
pelo Engenheiro Pralon, que não apresentou o estudo topográfico dos terrenos por onde
deveriam correr os arruamentos projetados.

Na segunda parte, examina primeiramente as condições ambientais do Município e


da cidade, fazendo um diagnóstico do estado dos rios, lagoas, pântanos e analisa as
condições climáticas. Examina também a situação das estradas, das ruas, das praças,
fazendo um diagnóstico detalhado a partir do qual ele indicava as soluções.

A terceira parte é dedicada à questão da moradia. Quando Brito fala do domicílio, ele
faz a relação entre integridade higiênica e moral que devem estar ligadas; ressalta a
prioridade da higiene do domicílio sobre todos os outros fatores de salubridade das cidades,
reafirmando que é necessário preservar a vida privada da casa. Brito explica como as casas
devem ser construídas seguindo as regras de higiene, com instruções técnicas, como o
apoio de plantas e desenhos de diferentes modelos, incluindo as habitações das classes
pobres e de operários que devem ser salubres e econômicas.

Água e saúde

Em meados do século XIX, o cólera era tão comum nas metrópoles, como Londres,
assim como nas cidades brasileiras. E isto se devia, sobretudo, às péssimas condições de
salubridade das cidades e de vida dos citadinos. Como vimos, nessa época a água era
vendida em recipientes de madeira pelos escravos, ou em carroças ou coletada diretamente
nas bicas e chafarizes instaladas por companhias privadas, sem tratamento adequado. As
taxas de mortalidade superavam a natalidade, as precárias condições higiênicas e os surtos
epidêmicos eram apontados como conseqüência direta da carência dos serviços de
saneamento.

Desse modo, fazia-se a associação (o que hoje já está comprovado), entre água e
doença – não apenas o cólera, como também a peste bubônica, impaludismo. Acreditava-se
que não se podia promover saúde pública sem um saneamento adequado e controle da
qualidade da água de abastecimento.

A o origem da engenharia sanitária é normalmente atribuída ao ano de 1847, às


medidas mais severas e coercitivas tomadas pela rainha Vitória no período em que a cidade
de Londres foi flagelada pelo cólera. Estas medidas culminaram na elaboração, em 1848, de
um código sanitário, o “Public Health Act” imposto a todo o reino. Nos últimos 50 anos se viu
nascer a legislação sanitária moderna.

A engenharia sanitária tem por missão resolver no terreno técnico-construtivo todos os


problemas que lhe apresenta a Higiene atendendo os princípios que ela sustenta. Para
aplicá-la o engenheiro deve estar familiarizado com os elementos da Higiene e conhecer
as linhas diretivas da Medicina curativa e preventiva. Só assim poderá expor suas
soluções. (...) A higiene (...) como ciência analisa todas as causas perturbadoras da saúde
individual e coletiva dentro do ambiente em que se desenvolvem todas as funções da vida.
Como arte nos ensina a Profilaxia, que ajuda na prevenção de doenças e a melhor
maneira de conservar atitudes saudáveis e dotar nosso de aptidões naturais de defesa
(Sollovitz, 1944, p.24).

Mas, no Brasil as primeiras intervenções do governo federal, no setor de


saneamento, foram iniciadas com a edição do Código das Águas, em 1934, com o intuito de
controlar os recursos hídricos no país. O Código das Águas, apesar de sua ótica para uma
política de produção de hidroeletricidade, foi de fundamental importância para a gestão
pública do setor de saneamento urbano, pois estabeleceu os primeiros instrumentos de
controle do uso dos recursos hídricos. (Jorge, 1987)

Principais doenças transmitidas diretamente da água

Doenças Agente causador Sintomas

Cólera Víbrio cholera 01 Diarréia abundante, vômitos


ocasionais, rápida desidratação,
acidose,câimbras musculares
colapso cardio-respiratório

Amebíase Entamoeba Disenteria aguda,com febre


histolytica calafrios e diarréia sanguinolenta

Gastrenterite
viral Rotavírus Diarréia, vômitos, levando
a desidratação grave

Hepatite Vírus da hepatite A Febre, mal-estar geral,


falta de apetite,icterícia
Desinteria bacilar bactéria Shigella Febre com sangue e pus,
vômitos e cólicas

Outras causadas por água não adequada


• Poliomielite-[ já erradicada no Brasil- desde 1989 e na Região das Américas]
• Ascaridíase
• Febre tifóide
• Febre paratifóide
• Doenças respiratórias- por vírus
• Esquistossomose
• E. coli- perturbações gastrintestinais e diarréias
• Leptospirose
• Intoxicações por agrotóxicos
• Fluorose
• Saturnismo
• Intoxicações por metais pesados[cadmio, e outros]
• Intoxicações por mercúrio
• Doenças onde a água é criadouro p/ vetores : dengue, malária,febre amarela e outras

Saturnino de Brito X The Campos Syndicate Limited

Brito sempre se posicionou contrariamente a privatização dos serviços de


saneamento. E suas críticas aparecem tanto no projeto de campos como nos de Santos e
de Recife. Para ele, os interesses da saúde pública eram opostos à gestão privada dos
serviços de saneamento.

No Livro, O Saneamento de Campos, Brito dedica um capítulo intitulado O


abastecimento dágua”, cujo primeiro ítem Distribuição dágua pela empreza de “The Campos
Syndicate Limited8, apresenta sua análise do fornecimento de água pela empresa na cidade
e propões soluções. (BRITO, 1943, p.p. 211-245)

Brito critica o contrato, os valores e o serviços que são prestados, segundo ele “a
apenas 2.760 prédios” (BRITO, 1943, p.215) 9, pela referida empresa, tomando como
referência sua própria inspeção e os Relatórios da Secretaria de Obras Públicas de 1899 a
1902.

A primeira crítica é referente à renovação do contrato realizada pelo Governo do


estado, sem a concordância do Presidente da Câmara Municipal de Campos, o médico
Benedito Pereira Nunes, o qual não estava satisfeito nem com os valore e nem com a
qualidade dos serviços prestados.

8
Brito também critica os serviços de esgoto, mas não vamos discutir aqui esta parte do livro.
9
No próprio livro, p. 226. Brito afirma que a cidade tem 4.000 prédios com uma média de 28.000 habitantes.
A segunda crítica é sobre a captação e purificação. A água é captada do rio Paraíba
do Sul, de um lugar chamado Coroinha, situado à jusante do cemitério, de um importante
curtume e de várias casas ribeirinhas. Brito relata: A mais elementar inspeção mostra que a
sua corrente marginal fará a coleta de todas as impurezas nele lançadas [...] (Brito, p. 216).
Ele sugere que a captação deve ser feita, então, mais ao norte, à montante do cemitério, na
Ilha chamada de Ilha do Estado.

Ressalta que cada dia se torna mais grave a situação das cidades que se abastecem
em rios nas condições do Paraíba, povoados da foz à cabeceira. Logo as águas não devem
ser fornecidas sem um tratamento depurador. E denuncia que a Syndicate não realiza este
serviços e que os moradores de Campos bebem água impura.

Brito segue com mais algumas linhas sobre a questão da qualidade da água: “A
companhia é ou não obrigada a fornecer água potável, água pura? Como sabe o poder
fiscal (guarda da nossa saúde) se a companhia cumpre ou não esta cláusula? (brito, 1943:
p. 221).

Mais adiante expõe claramente: “Abandonemos de vez o contrato da Campos


Syndicate e das suas novações, ambos feitos pelo capricho ou pela bonomia dos governos
de 1890 e 1891, sem o apoio higiotécnico”, e passa a detalhar uma proposta e detalhes
técnicos para o fornecimento de uma água verdadeiramente potável.

Interessa notar que Brito não se limitou ao seu relatório de circulação, restrita.
Escreveu vários artigos no jornal O Monitor Campista acirrando a polêmica entre este Diário
Oficial e o jornal Diário do Comércio que defendia a Campos Syndicate. Estes artigos estão
publicados nos anexos do relatório.

Também anexou a opinião do O Monitor Campista (Diário Oficial) com o título


“Opinião da imprensa sobre a novação do contrato com a Campos Syndicate”, da qual
extraio um pequeno texto:

A atual reunião da Assembléia Fluminense oferece uma oportunidade para


discutirmos o assunto que acima estas linhas, incontestavelmente um dos que
mais deve interessar a população de Campos, por entender-se com o progresso,
senão com a própria desta cidade [..] A tabela que publicamos hoje dessas taxas
reduzidas a ouro, de acordo com a novação, deixa patente que a propriedade
urbana terá necessariamente de desvalorizar-se e que cessará por completo a
edificação na cidade, provindo deste fato prejuízo para o próprio município com o
decrescimento do imposto da décima urbana.
Como vê, a novação é condenável sob todos os pontos de vista e deve ser
considerada como a maior das calamidades para a pobre e infeliz cidade de
Campos.

As criticas à Campos Syndicate, sobretudo no que se referia à qualidade da água e


sua relação com a saúde suscitou várias outras manifestações. Cito como exemplo, a Tese
do médico campista Severino Lessa 10, intitulada A água potável e o saneamento de
Campos 11. A tese compreende duas partes, uma geral da água e outra da análise da água
de Campos. Na página 57, começa por dissertar sobre o atraso da Campos Syndicate na
instalação dos serviços da abastecimento de água: [..] Durante mais de um anno, pois,
houve em Campos esgoto sem água! [...] Instalados à la diable por um pessoal
incompetente, mal aceitos pelo povo, começaram afinal a funcionar água e esgoto. [...] Logo
aos primeiros dias protestos surgiram de toda a parte e até hoje tem echoado na imprensa,
nas praças públicas e nos parlamentos, o reclamo univoco de uma população
pessimamente servida (LESSA, 1909, p. 57)

Considerações finais

A partir deste breve histórico da instalação dos serviços de saneamento, nas


principais cidades brasileiras, no final do século XIX, e para as quais, o engenheiro
Saturnino de Brito atuou diretamente, pudemos observar a presença dos ingleses foi muito
marcante na instalação dos serviços privados de esgoto e abastecimento de água no Brasil.
Isto se deveu ao fato do imperador D. Pedro II ter contratado os ingleses para elaborarem e
implantarem sistemas de esgotamento para o Rio de Janeiro e São Paulo, na época, as
principais cidades brasileiras.

Porém, com o crescimento das cidades e a incapacidade de tais empresas de


manterem ou modernizarem seus serviços – talvez pelas realidades peculiares e diferentes
das encontradas na Europa, principalmente as condições climáticas (clima tropical, com
chuvas muito mais intensas) e a urbanização (lotes grandes e ruas largas) – e com a
intervenção cada vez maior do Estado no controle do espaço urbano – traduzida no projeto
republicano de forte cunho higienista, de modernizar o Brasil, e eliminar definitivamente aos
traços coloniais, novas medidas são tomadas. Com a consolidação do saber técnico, em
particular dos médicos e engenheiros, estes vão se tornar os principais agentes
“saneadores” e “planejadores” do espaço urbano.

As críticas proferidas pelo engenheiro sanitarista Saturnino de Brito e pelo médico


Severino Lessa, profissionais que gozavam de plena credibilidade e autoridade sobre o
assunto, demonstram que o processo de instalação e a gestão dos serviços de água e
esgoto pela empresa privada The Campos Syndicate em Campos, envolvendo inclusive o
poder público, foi permeado mais por conflitos. Os benefícios ficaram longe de serem

10
Inclusive nome da rua onde resido em Campos dos Goytacazes, indicando o prestígio do referido médico.
11
These apresentada à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 15 de abril de 1909 e defendida em 20 de
abril de 1909, a fim de obter o grau de doutor em medicina. Typographia da revista dos Tribunaes, Rua general
Câmara, 195. 1909
alcançados, pois a qualidade da água era o que mais questionava-se, apontando desde
então a relação entre a qualidade da água e doença, assim como a incompatibilidade entre
os serviços privados de abastecimento de água e saúde.

Referências bibliográficas

Andrade, C. R. M. de. Projetos e Estudos Urbanísticos do Eng. Saturnino de Brito para


algumas cidades fluminenses na virada do século. A Emergência de um novo saber sobre a
cidade- Anais do 3º Seminário de História da Cidade e do Urbanismo – USP/São Carlos/SP
– 7 a 10 de setembro, 1994, p.50
Brito, F. S. R. de. 1943. Projetos e Relatórios. O Saneamento de Campos. Obras Completas
de Saturnino de Brito. Vol. VI. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional.
Costa, A. M. A saúde como determinante das ações de saneamento: a intervenção sanitária
de Saturnino de Brito em Recife. Anais do XXVII Congresso Interamericano de Engenharia
Sanitária e Ambiental.João Pessoa, 2000.
Damásio, C., Souza,C. 1988 Os primórdios do urbanismo moderno. In.PADILHA, N. (org)
Cidade e Urbanismo:história, teorias e práticas. Salvador, Ed.UFBA, pp.203-225
Faria, T. de J. P. 2005. O papel de médicos e engenheiros na modernização da área central
da cidade de Campos dos Goytacazes, no início do século XX. Anais do XXIII ENANPUH,
Londrina.
Herschmann, M. P., Pereira, C. A. M. (org).1994 A invenção do Brasil Moderno - medicina,
engenharia e educação nos anos 20/30. Rio de Janeiro: Ed.Rocco,
Jorge, W.E. 1993 A Política nacional de saneamento pós-64. São Paulo;1987. [Tese de
Doutorado FAU/USP].
Sollovitz, M. 1944. Tratado de engeniería sanitaria.4. ed Buenos Aires. Librería y editorial el
Atenco.