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Editorial*
A Revista Serviço Social & Sociedade traz neste número relevantes contri‑
buições para o desvendamento crítico dos processos de trabalho e das respostas
públicas no âmbito da crise do capital.
São apresentados três importantes artigos — dos professores José Paulo
Netto, Josiane Soares Santos e Marcelo Braz — expostos na mesa de abertura do
5º Seminário Anual de Serviço Social: Crise do capital, particularidades da ques‑
tão social no Brasil e a organização dos trabalhadores em seu estágio atual,
promovido pela Cortez Editora, em comemoração ao dia do assistente social.
Esses artigos destacam o complexo e contraditório cenário do capitalismo con‑
temporâneo e suas crises, as particularidades da formação social brasileira e o
modo como se expressa a “questão social” no Brasil, bem como as polêmicas para
compreender as lutas de classes contemporâneas.
Esses temas, a partir de distintas abordagens, são também tratados em outros
seis artigos, nos quais são discutidas particularidades da questão social e as contra‑
dições expressas pelas respostas do Estado a questões como: acolhimento familiar
e as leis protetivas; política de emprego no Brasil no contexto da flexibilização de
direitos e relações de trabalho; desemprego, precarização e informalidade do tra‑
balho dos negros no Brasil; relações de gênero no trabalho da agroindústria; a ju‑
dicialização do benefício de prestação continuada da política de assistência social
e o campo de trabalho profissional nos governos municipais.
Nesse mesmo contexto da crise, considerando os questionamentos ao modelo
de desenvolvimento e as novas demandas da sociedade civil organizada, apresen‑
tamos também um artigo que problematiza a produção de indicadores sociais alter‑
nativos e as exigências de novas formas de quantificação diante do aprofundamen‑
to das desigualdades sociais em dimensão global.
Completa este número a resenha do livro de Marcelo Braz, Partido e Revo‑
lução — 1848‑1989, destacando‑se a contribuição do autor para “a revitalização
teórica e política da possibilidade de revolução como emancipação humana”.

* Por ocasião do fechamento deste número, recebemos a notícia do falecimento do professor Aloísio
Teixeira, a quem prestamos nossa homenagem por meio do texto do professor José Paulo Netto. (N.E.)

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Finalizando este editorial, prestamos homenagem à assistente social Egli
Muniz, que faleceu dia 23/6/2012, vítima de um aneurisma cerebral. Egli era pro‑
fessora titular da Instituição Toledo de Ensino (Bauru) e foi Secretária Municipal
de Assistência Social da Prefeitura de Bauru na gestão 2005‑2008. A Cortez Edi‑
tora publicou sua tese de doutorado, com o título Serviços de Proteção Social: um
estudo comparado Brasil‑Portugal. Atuou também como consultora especialista da
Secretaria Nacional de Assistência Social do Ministério de Desenvolvimento Social
e Combate à Fome‑MDS. Comprometida com a formação e o exercício profissional,
Egli foi uma pessoa com grande capacidade de trabalho, elegante e gentil em suas
relações pessoais e profissionais, que nos deixa saudades.

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ARTIGOS

Crise do capital e consequências societárias* 2

Crisis of the capital and consequences for the society

José Paulo Netto** 3

Resumo: A palestra aqui transcrita, retomando e ampliando ante‑


riores formulações do autor, considera a série recente de crises da
economia capitalista como o prólogo de uma terceira crise sistêmica
que afeta o conjunto da ordem do capital. Sumaria as transformações
societárias que a sinalizam desde os finais dos anos 1970 e caracteriza
a nova barbárie que se anuncia, sublinhando a relação entre a milita‑
rização da vida social e o minimalismo das políticas assistencialistas.
Palavras‑chave: Crise sistêmica do capitalismo. Transformações so‑
cietárias e nova barbárie.

Abstract: In the lecture that is transcribed here and that resumes and enlarges the author’s former
ideas, the recent series of crises of the capitalist economics is considered a prologue of a third system
crisis that affects the whole of the order of the capital. This article written from the lecture summarizes
the transformations that have signaled such a crisis from the end of the 1970s in society, and it charac‑
terizes the new barbarism that is arising, stressing the relation between the militarization of the social
life and the minimalism of the assistance policies.
Keywords: System Crisis of the Capitalism. Transformations in Society and New Barbarism.

* Palestra proferida na mesa de abertura (“Crise do capital, particularidades da questão social no Brasil
e a organização dos trabalhadores em seu estágio atual”) do 5º Seminário Anual de Serviço Social: Crise do
capital, particularidades da questão social no Brasil e a organização dos trabalhadores em seu estágio atual
(São Paulo, maio de 2012). Foram palestrantes, além do prof. dr. José Paulo Netto, a profa. dra. Josiane
Soares Santos e o prof. dr. Marcelo Braz; coordenou a mesa o prof. dr. Alfredo Batista.
** Professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Brasil. E‑mail: jpnetto@
ess.ufrj.br.

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S
audando os assistentes sociais presentes a este 5º Seminário Anual e
agradecendo aos seus organizadores o convite para participar desta mesa
de abertura, que certamente será bem coordenada pelo nosso caro prof.
Alfredo Batista, quero advertir, logo à partida, que a minha intervenção
resume parte dos meus estudos nos últimos anos — e, por isto mesmo, retomará
algumas reflexões que já formulei em alguns textos e em outros encontros acadê‑
micos ou de natureza política.
Por outro lado, em função do limitado tempo de que dispomos todos os com‑
ponentes desta mesa, serei obrigado a omitir aqui as sempre necessárias referências
à bibliografia e à documentação de que tenho me socorrido — mas desde já reco‑
nheço e sublinho a enorme dívida que tenho para com um largo elenco de intelec‑
tuais e pesquisadores, brasileiros e estrangeiros (e que sempre consigno cuidado‑
samente nos meus textos). E também não me referirei às questões que certamente
serão tematizadas pelos meus interlocutores, os queridos companheiros Josiane
Santos e Marcelo Braz — tratarei de respeitar a nossa “divisão de trabalho” e,
portanto, ater‑me‑ei somente ao tema que me foi expressamente atribuído.

Uma crise sistêmica


Passemos rapidamente os olhos sobre o carro‑chefe da economia capitalista,
os Estados Unidos. Não consideremos o fato, nada desprezível, de que ali existem,
reconhecidos oficialmente, mais de 50 milhões de pobres; também deixemos de
lado (dentre muitos outros indicadores sociais expressivos) a inexistência de um
efetivo serviço público de saúde — o programa mínimo, muito mínimo, apresen‑
tado neste sentido pelo presidente Obama quase foi inviabilizado, entre outros ar‑
gumentos, pela falta de recursos para implementá‑lo.
Do ponto de vista estritamente econômico, o país de mais peso no cenário
mundial — ainda não ameaçado pela arrancada chinesa — tem um déficit público
que já ronda os 10% do seu PIB. Há trinta anos, os Estados Unidos também acumu‑
lam déficits na balança comercial (até 1980, eram os maiores exportadores no co‑
mércio mundial; hoje, são os maiores importadores). A economia norte‑americana,
nos últimos trinta anos, cresceu a passos de cágado (com exceção da indústria béli‑
ca e da indústria da segurança privada). Mas o peso do país no cenário mundial é
indiscutível e se explica: eles têm 560 (repito: 560) bases militares no exterior; o
orçamento militar norte‑americano consome 4,8% do PIB do país e é maior do que
os dezessete maiores orçamentos militares do mundo.

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Exercendo desde o fim da Guerra Fria o papel de gendarme universal, vê‑se
que a destinação de recursos para a saúde pública nos Estados Unidos não é nenhu‑
ma prioridade, ao contrário da “saúde bancária”: na crise financeira de 2008‑09, o
Estado (que, segundo a retórica neoliberal, não deve “intervir no mercado”) pôs
nas mãos dos banqueiros somas monetárias fabulosas. Aliás, naqueles anos, o so‑
corro do conjunto dos Estados capitalistas aos seus banqueiros parece ter alcança‑
do a astronômica cifra de 8,9 bilhões de dólares.
Voltemos o olhar para o segundo núcleo vital do mundo capitalista, hoje na
mídia a “bola da vez” nos seus elos mais débeis (Irlanda, Portugal, Grécia, agora
já a Espanha e amanhã, quem sabe...): a Europa, sobretudo a do ocidente, parte
essencial da agora dita União Europeia. Também com um crescimento econômico
medíocre (ou, nalguns casos, estagnação) há pelo menos duas décadas, com a úni‑
ca exceção da Alemanha — cujo grande capital, aliás, subordina o conjunto da
Europa Unida —, naquele espaço a dívida pública média já está beirando 100% do
PIB, no marco agora de uma depressão econômica generalizada. O desemprego é
superior a 10% da população economicamente ativa (em alguns países, ultrapassa
20%). E em 2011‑12, enquanto várias centenas de milhões de euros são disponibi‑
lizados para banqueiros, assiste‑se a cortes escandalosos — é a única palavra que
encontro para caracterizá‑los — nos gastos sociais, com ônus exclusivamente para
os trabalhadores. Não é um acaso, pois, que nos últimos quatro anos, ali onze go‑
vernos tenham sido apeados mediante processos eleitorais (e, nalguns casos, subs‑
tituídos por outros absolutamente iguais...).
Na verdade, desde os anos 1990, em todos os continentes registraram‑se cri‑
ses financeiras, expressões localizadas da dinâmica necessariamente contraditória
do sistema capitalista. E crises, não só as financeiras, fazem, também necessaria‑
mente, parte da dinâmica capitalista — não existe capitalismo sem crise. São próprias
deste sistema as crises cíclicas que, desde a segunda década do século XIX, ele
vem experimentando regularmente. E que, seja dito de passagem, não conduzem o
capitalismo a seu fim: sem a intervenção de massas de milhões de homens e mu‑
lheres organizados e dirigida para a sua destruição, do capitalismo, mesmo em
crise, deixado a si mesmo só resulta... mais capitalismo.
Entretanto, há um tipo de crise que o capitalismo experimentou integralmente,
até hoje, por apenas duas vezes: a chamada crise sistêmica, que não é uma mera
crise que se manifesta quando a acumulação capitalista se vê obstaculizada ou impe‑
dida. A crise sistêmica se manifesta envolvendo toda a estrutura da ordem do capital.
A primeira destas crises emergiu em 1873, tendo como cenário principal a
Europa e se prolongou cerca de 23 anos; marcada por uma depressão de mais de

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duas décadas, ela só se encerrou em 1896. A segunda crise sistêmica que o capita‑
lismo experimentou explodiu em 1929 e, como todo mundo sabe, foi catastrófica;
não teve por espaço apenas uma região geopolítica determinada: ela envolveu o
globo; durou em torno de dezesseis anos e só foi ultrapassada no segundo ­pós‑guerra.
Pois bem: todas as indicações mais sólidas apontam que estamos experimen‑
tando, neste momento, uma crise que é de natureza sistêmica. Seus primeiros sinais
sobrevieram na crise da Bolsa de Nova York, em 1987 — com a sequência, a partir
dela, de efeitos em cascata expressos nos vários episódios de crises localizadas.
Tais crises, a que os chamados “comentaristas” ou “jornalistas econômicos” da
grande imprensa conveniente e ignorantemente consideram de forma isolada (a
crise dos “Tigres Asiáticos”, a “crise da Bolsa Nasdaq”, a “crise da bolha imobiliá‑
ria” e, agora, a “crise do euro”) são os indicadores mais visíveis de uma só crise:
são indicadores da emergência de uma nova crise sistêmica do sistema capitalista
e que apresenta traços inéditos em relação às duas anteriores. Aqueles que não
compreenderem estas particularidades da crise contemporânea provavelmente vão
considerar que há remédios para ela nas terapias (ainda e sobretudo de raiz keyne‑
siana) adotadas no século XX. Estas terapias não estão funcionando e não vão
funcionar.
Uma abordagem mais abrangente desta crise deve tomar em conta as trans‑
formações sofridas pelo capitalismo desde a década de 1970 — uma aproximação
desse tipo é a que resumirei a seguir, centrando‑me nas suas expressões macrosso‑
cietárias. Tal abordagem, nos termos em que será feita aqui, não dá conta da natu‑
reza específica da crise contemporânea, mas oferece, creio, elementos de interesse
para a sua compreensão e, em especial, para muitas das problemáticas que hoje se
colocam como objeto de intervenção do Serviço Social.

As principais transformações societárias


Foram as profundas transformações societárias emergentes desde a década de
1970 que redesenharam amplamente o perfil do capitalismo contemporâneo — está
claro que, planetarizado, esse capitalismo apresenta traços novos e processos iné‑
ditos. Estas transformações estão vinculadas às formidáveis mudanças que ocorre‑
ram no chamado “mundo do trabalho” e que chegaram a produzir as equivocadas
teses do “fim da sociedade do trabalho” e do “desaparecimento” do proletariado
como classe, mudanças que certamente se conectam aos impactos causados nos
circuitos produtivos pela revolução científica e técnica em curso desde meados do

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século XX (potenciada em seus desdobramentos, por exemplo, pela “revolução
informacional” e pelos avanços da microeletrônica, da biologia, da física e da quí‑
mica). Mas são transformações que desbordam amplamente os circuitos produtivos:
elas envolvem a totalidade social, configurando a sociedade tardo‑burguesa que
emerge da restauração do capital operada desde fins dos anos 1970.
No que toca às exigências imediatas do grande capital, o projeto neoliberal
restaurador viu‑se resumido no tríplice mote da “flexibilização” (da produção, das
relações de trabalho), da “desregulamentação” (das relações comerciais e dos cir‑
cuitos financeiros) e da “privatização” (do patrimônio estatal). Se esta última
transferiu ao grande capital parcelas expressivas de riquezas públicas, especial mas
não exclusivamente nos países periféricos, a “desregulamentação” liquidou as
proteções comercial‑alfandegárias dos Estados mais débeis e ofereceu ao capital
financeiro a mais radical liberdade de movimento, propiciando, entre outras con‑
sequências, os ataques especulativos contra economias nacionais. Quanto à “flexi‑
bilização”, embora dirigida principalmente para liquidar direitos laborais conquis‑
tados a duras penas pelos vendedores da força de trabalho, ela também afetou
padrões de produção consolidados na vigência do taylorismo fordista.
É inquestionável que a “desregulamentação” que o grande capital vem im‑
plementando hipertrofia as atividades de natureza financeira (seja resultado da
superacumulação, seja da especulação desenfreada), cada vez mais autonomizadas
de controles estatal‑nacionais e dotadas, graças às tecnologias da comunicação, de
extraordinária mobilidade espaço‑temporal. Simultaneamente, a produção segmen‑
tada, horizontalizada e descentralizada — a “fábrica difusa” —, que é fomentada
em vários ramos, propicia uma “mobilidade” (ou “desterritorialização”) dos polos
produtivos, encadeados agora em lábeis redes supranacionais, passíveis de rápida
reconversão. Ao mesmo tempo, os novos processos produtivos têm implicado uma
extraordinária economia de trabalho vivo, elevando brutalmente a composição
orgânica do capital; resultado direto na sociedade capitalista: o crescimento expo‑
nencial da força de trabalho excedentária em face dos interesses do capital — com
os economistas burgueses (que se recusam a admitir que se trata do exército in­
dustrial de reserva próprio do tardo‑capitalismo) descobrindo... o “desemprego
estrutural”! De fato, o chamado “mercado de trabalho” vem sendo radicalmente
reestruturado — e todas as “inovações” levam à precarização das condições de
vida da massa dos vendedores de força de trabalho: a ordem do capital é hoje,
reconhecidamente, a ordem do desemprego e da “informalidade”.
A tão celebrada “globalização econômica” vincula‑se, não por acaso, a esta
“financeirização” do capitalismo e à articulação supranacional das grandes corpo‑

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rações, mesmo que não se reduza a ambas — e vem acentuando o padrão de com‑
petitividade intermonopolista e redesenhando o mapa político‑econômico do
mundo: as grandes corporações imperialistas têm conduzido processos supranacio‑
nais de integração (os megablocos) que, até agora, não se mostram como espaços
livres de problemas para a concertação dos interesses do grande capital (como as
recentes fricções na Europa dita comunitária o estão provando). Grande capital que,
levando ao limite os históricos processos de concentração e centralização, dispõe
de um potencial de poder superior ao de boa parte dos Estados nacionais e opera o
controle estratégico dos recursos necessários à produção de ponta.
Como assinalei, as transformações em curso envolvem a totalidade social. No
que toca à estratificação social, verifica‑se que a estrutura de classes da sociedade
burguesa vem se modificando sensivelmente, inclusive com a desaparição de anti‑
gas classes e camadas sociais. Ocorrem alterações profundas, quer no plano eco‑
nômico‑objetivo da produção/reprodução das classes e suas relações, quer no
plano ideosubjetivo do reconhecimento da pertença de classe (e sabe‑se da unidade
de ambos os planos na prática social). No conjunto dos que vivem da venda da sua
força de trabalho, está claro que a classe operária que fixou a sua identidade clas‑
sista (sindical e político‑partidária) enfrentando o capitalismo monopolista experi‑
menta mudanças significativas, afetada que é por diferenciações, divisões, cortes e
recomposições — refratando as novas clivagens postas por alterações na divisão
social e técnica do trabalho. Também se modificam as hierarquias e as articulações
de camadas médias, “tradicionais” (como a pequena burguesia urbana) ou não.
Aquele conjunto, hoje mais que nunca, é bastante heteróclito. E também há modi‑
ficações nas suas camadas situadas no que se poderia chamar de rés do chão da
ordem tardo‑burguesa, cuja existência vem sendo degradada progressivamente pelo
capitalismo contemporâneo: a miríade de segmentos desprotegidos, que não podem
ser sumariamente identificados ao lumpem “clássico”. Tais segmentos compreendem
universos heterogêneos, desde aposentados com pensões miseráveis, crianças e
adolescentes sem qualquer cobertura social, migrantes e refugiados, doentes estig‑
matizados (recordem‑se os aidéticos pobres) até trabalhadores expulsos do merca‑
do de trabalho (formal e informal).
Menos estudadas — por motivos facilmente conhecidos — são as classes e
franjas de classes que estão no topo da pirâmide da estratificação: os grandes capi‑
talistas e o grande patronato, seus estrategistas e executivos transnacionais, seus
grandes intelectuais. De qualquer modo, é legítimo afirmar que, independentemen‑
te de modificações e diferenciações internas (com novos conflitos e novas vias de
ingresso em seus círculos — de que o “caso Bill Gates” é exemplar), os portadores

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do grande capital veem estruturando uma oligarquia financeira global, concentra‑
dora de um enorme poderio econômico e político. De fato, trata‑se de um micros‑
cópico universo pessoal, que controla o conjunto das riquezas sociais e exerce uma
determinante ação planetária que inclusive ladeia as instâncias democrático‑formais
consagradas no Estado de direito — controle e ação que, como o demonstra a ex‑
periência dos últimos anos, têm introduzido na cena pública um componente cor‑
ruptor outrora impensável.
Tais mudanças, no quadro da estratificação da sociedade burguesa contempo‑
rânea, acompanham‑se de alterações no perfil demográfico das populações, no
processo de urbanização, no crescimento das atividades de serviço, na difusão da
educação formal e nos circuitos da comunicação social (conduzindo ao ápice a
indústria cultural analisada pela Escola de Frankfurt). Rebatendo na estrutura da
família, tudo isso convulsiona os padrões da sociabilidade, para o que contribui,
ainda, a emersão de dois “agentes sociais independentes” (Hobsbawm): as mulhe‑
res e os jovens. As peculiares problemáticas femininas (nem sempre inteiramente
recuperadas pelos movimentos feministas), indo da opressão no espaço doméstico
aos mais variados tipos de subalternidade/exploração no espaço público, irrompe‑
ram pesadamente nos últimos cinco lustros. Graças em especial aos empenhos das
vanguardas feministas, as demandas femininas ganharam um apelo emancipatório
que, independentemente do alcance efetivo das suas conquistas, atravessam as
práticas sociais como questões que já não podem ser ladeadas. Quanto à juventude,
que esteve na base da “revolução de costumes” dos anos 1960, ela passou — na
escala em que as relações geracionais foram também grandemente redimensionadas
— a constituir uma categoria social que adquiriu amplitude internacional, gerando
inovações valorativas e rupturas com padrões de comportamento, frequentemente
incorporadas (quando não induzidas) pela ordem do capital.
A dinâmica cultural do capitalismo contemporâneo, o tardo‑capitalismo, é
parametrada por dois vetores, de natureza econômico‑política e técnica: a transla‑
ção da lógica do capital para todos os processos do espaço cultural (criação/pro‑
dução, divulgação, fruição/consumo) e o desenvolvimento de formas culturais
socializáveis pelos meios eletrônicos (a televisão, o vídeo, a multimídia). Essa
cultura incorpora as características próprias da mercadoria no tardo‑capitalismo:
sua obsolescência programada, sua fungibilidade, sua imediaticidade reificante.
Embora à sociedade burguesa contemporânea não caiba legitimamente a identifi‑
cação como uma “sociedade de consumo”, a cultura que nela hoje se afirma é uma
cultura de consumo: ela cria a “sensibilidade consumidora” que se abre à devoração
indiscriminada e equalizadora de bens materiais e ideais — e, nela, a própria dis‑

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tinção entre realidade e representações é esfumada: promove‑se uma semiologiza‑
ção do real, em que os significantes se autonomizam em face dos referentes mate‑
riais e, no limite, se entificam.
A imediaticidade da vida social planetariamente mercantilizada é proposta
como a realidade — e, não por acaso, a distinção epistemológica clássica entre
aparência e essência é desqualificada. A realidade, na complexidade ontológica
dos seus vários níveis, é apreendida no efêmero, no molecular, no descontínuo, no
fragmentário, que se tornam a pedra de toque da nova “sensibilidade”: o dado, na
sua singularidade empírica, desloca a totalidade e a universalidade, suspeitas de
“totalitarismo”.
Sabe‑se a que me refiro: à tese segundo a qual, depois de meados do século
XX, pelo menos, exauriu‑se o programa de Modernidade, fundado no capítulo
iluminista do projeto ilustrado, configurando‑se uma mutação sociocultural estru‑
tural, que implicaria a anacronização dos padrões de análise (e das suas categorias
teóricas) dos objetos socioculturais e dos projetos sociais modernos. Vale dizer: de
uma parte, teríamos uma “crise de paradigmas”, com a urgência da superação das
“metanarrativas” e das abordagens teóricas calçadas na categoria de totalidade; de
outra estaria colocada a alternativa de só pensar a micropolítica ou de encontrar
novos referenciais para a ação sociopolítica.
O que se pode designar como movimento pós‑moderno constitui um campo
ídeo‑teórico muito heterogêneo e, especialmente no terreno das suas inclinações
políticas, pode‑se mesmo distinguir uma teorização pós‑moderna de capitulação e
outra de oposição. Do ponto de vista dos seus fundamentos teórico‑epistemológicos,
porém, o movimento é funcional à lógica cultural do tardo‑capitalismo: é o tanto ao
caucionar acriticamente as expressões imediatas da ordem burguesa contemporânea
quanto ao romper com os vetores críticos da Modernidade (cuja racionalidade os
pós‑modernos reduzem, abstrata e arbitrariamente, à dimensão instrumental, abrin‑
do a via aos mais diversos irracionalismos). Mas, por esta mesma funcionalidade, a
retórica pós‑moderna não é uma intencional mistificação elaborada por moedeiros
falsos da academia e publicitada pela mídia a serviço do capital. Antes, é um sinto‑
ma das transformações em curso na sociedade tardo burguesa, tomadas na sua epi‑
dérmica imediaticidade — como Terry Eagleton observou, o que os pós‑modernos
assumem como tarefa “criadora” (ou, segundo outros, “desconstrutora”) correspon‑
de à própria estruturação fetichista da mercadoria e do tardo‑capitalismo.
Essa funcionalidade está em maré montante nos anos correntes porque a dis‑
solução de antigas identidades sociais (classistas), a atomização e a pulverização
imediatas da vida social, as novas “sensibilidades” produzidas pelas tecnologias da

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comunicação — tudo isso, mais as transformações já sinalizadas, erodiu os sistemas
constituídos de vinculação e inserção sociais. Não é um acidente, pois, que grupos,
categorias e segmentos sociais se empenhem na construção de “novas identidades”
culturais, nem que busquem, dramaticamente, estruturar suas “comunidades”. A
“cultura global” se movimenta entre a produção/divulgação/consumo mercantili‑
zados de “artefatos globais” e a incorporação/consagração de expressões particu‑
laristas — movimenta‑se entre o cosmopolitismo e o localismo/singularismo, entre
a indiferenciação abstrata de “valores globais” e particularismos fundamentalistas.
Quer no cosmopolitismo, quer no localismo/singularismo, há uma nítida desquali‑
ficação da esfera pública universalizadora: no primeiro, o privilégio é conferido a
um individualismo de caráter possessivo; no segundo, o “direito à diferença” se
impõe abstrata e arbitrariamente. Nessa cultura, parece vigorar a máxima segundo
a qual “não há sociedade, só indivíduos” (a frase, como se sabe, é da sra. Tatcher).
É por isto que não se afigura exagerado observar, como o fez o prof. Hobsbawm,
que “a revolução cultural de fins do século XX pode assim ser mais bem entendida
como o triunfo do indivíduo sobre a sociedade, ou melhor, o rompimento dos fios
que antes ligavam os seres humanos em texturas sociais”.
As transformações ocorrentes no plano político são igualmente notáveis e
portadoras de novas problemáticas. Impactados pelas novas dinâmicas econômicas
e socioculturais, sociedade civil e Estado da ordem tardo-burguesa modificam‑se
nas suas esferas próprias e nas suas relações.
Na sociedade civil, enquanto a oligarquia financeira global se movimenta de
maneira crescentemente articulada, encontrando e forjando canais e instituições
para dar forma a seus projetos, as tradicionais expressões e representações das
classes e camadas subalternas experimentam crises visíveis (pense‑se na dessindi‑
calização e nos impasses dos partidos políticos democrático‑populares e/ou operá‑
rios), ao mesmo tempo em que emergem no seu espaço “novos sujeitos coletivos”,
de que os chamados novos movimentos sociais são o sinal mais significativo. Tais
movimentos, demandando novos direitos e aspirando a ampliações do estatuto de
cidadania — que Marshall não imaginava coexistindo sem tensões com a estrutu‑
ra de classes —, vêm vitalizando a sociedade civil e renovando pulsões democrá‑
ticas. Contudo, na medida em que a esses movimentos, até agora, não se imbricaram
instâncias políticas capazes de articular e universalizar a pluralidade de interesses
e motivações que os enfibram, seu potencial emancipatório vê‑se frequentemente
comprometido (inclusive com a recidiva de corporativismos).
Também o Estado burguês, mantendo o seu caráter de classe, experimenta um
considerável redimensionamento. A mudança mais imediata é a diminuição da sua

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ação reguladora, especialmente o encolhimento de suas “funções legitimadoras”
(O’Connor): quando o grande capital rompe o “pacto” que suportava o Welfare
State, começa a ocorrer a retirada das coberturas sociais públicas e tem‑se o corte
nos direitos sociais — programa tatcherista que corporifica a estratégia do grande
capital de “redução do Estado”, num processo de “ajuste” que visa diminuir o ônus
do capital no esquema geral da reprodução da força de trabalho. Entretanto, aque‑
la redução, bem definida nas palavras de ordem que já assinalei e na sua prática
— “flexibilização”, “desregulamentação” e “privatização” —, decorre do próprio
movimento da “globalização”. De uma parte, a magnitude das atividades planetárias
das corporações monopolistas extrapola largamente os controles estatais, fundados
na circunscrição nacional do Estado; de outra, dada a articulação privada daquelas
atividades, torna‑se limitada a intervenção estatal no nível macroeconômico. É
evidente que o tardo-capitalismo não liquidou com o Estado nacional, mas é também
claro que vem operando no sentido de erodir a sua soberania — porém, cumpre
assinalar a diferencialidade dessa erosão, que atinge diversamente Estados centrais
e Estados periféricos (ou mais débeis).
A desqualificação do Estado tem sido, como é notório, a pedra de toque do
privatismo da ideologia neoliberal: a defesa do “Estado mínimo” pretende, funda‑
mentalmente, “o Estado máximo para o capital”; nas palavras de Przeworski,
constitui um “projeto histórico da Direita”, dirigido para “liberar a acumulação
[capitalista] de todas as cadeias impostas pela democracia”. Independentemente da
viabilidade política de longo prazo desse projeto, há que constatar que ele conquis‑
tou, enquanto satanização do Estado, uma ponderável hegemonia: desenvolveu‑se,
a partir dele, uma “cultura política” antiestatal — e ela não tem sido estranha às
relações contemporâneas entre Estado e sociedade civil nem a certas formulações
políticas que, renovando velhos equívocos anarquistas, pretendem‑se “de esquerda”.
As corporações imperialistas, o grande capital, implementam a erosão das
regulações estatais visando claramente à liquidação de direitos sociais, ao assalto ao
patrimônio e ao fundo público, com a “desregulamentação” sendo apresentada como
“modernização” que valoriza a “sociedade civil”, liberando‑a da tutela do “Estado
protetor” — e há lugar, nessa construção ideológica, para a defesa da “liberdade”,
da “cidadania” e da “democracia”. E, com frequência, forças imediatamente oposi‑
tivas ao grande capital têm incorporado o antiestatismo como priorização da socie‑
dade civil e, também, como demanda democrática, do que decorrem dois fenômenos:
1) a transferência, para a sociedade civil, a título de “iniciativa autônoma”, de res‑
ponsabilidades antes alocadas à ação estatal (aqui, a multiplicação assombrosa de
ONGs é emblemática); 2) a minimização das lutas democráticas dirigidas a afetar

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as instituições estatais. As implicações da incorporação desse antiestatismo pelas
forças opositivas pode significar não uma politização de novos espaços sociais (ou
a repolitização de espaços abandonados), mas a despolitização de demandas demo‑
cráticas, numa quadra em que — precisamente pelas características das práticas
neoliberais — as lutas pela democracia se revestem de maior importância.
Em pinceladas muito largas, este é o perfil com que a sociedade tardo-burgue‑
sa se apresenta na abertura do século XXI. As transformações societárias aqui assi‑
naladas configuram uma série de inequívocas vitórias do grande capital. Com efeito,
do ponto de vista político, medidas de “ajuste” e “flexibilização/desregulamentação/
privatização”, em muitos casos, foram chanceladas por mecanismos eleitorais dota‑
dos de legitimidade formal. Do ponto de vista ideocultural, contando com a maré
montante pós‑moderna, os ganhos do capital não foram desprezíveis — contribuíram
para conter e reverter os avanços dos anos 1960 e inícios da década de 1970, confi‑
gurando o período aberto pelos anos 1980 como o de “um conservadorismo cada
vez mais beligerante” (no dizer do falecido prof. Agustín Cueva); a proposta socia‑
lista revolucionária foi acantonada, posta no bivaque das velharias da Modernidade.
Tais vitórias, contudo, nada aportaram de favorável ou positivo — nem po‑
deriam fazê‑lo, ou não estaríamos mais no quadro do tardo‑capitalismo — à massa
dos vendedores de força de trabalho. Além de não eliminarem o ciclo crítico da
dinâmica capitalista (manifestado nas sucessivas crises abertas por aquela da Bol‑
sa de Nova York, em 1987, até as mais recentes, de 2008 e 2011‑12) e de não re‑
verterem a curva própria da “onda longa recessiva” mencionada por Mandel (nos
países da OCDE, as taxas de crescimento permanecem medíocres desde 1980,
ainda que, desde então, a lucratividade das grandes corporações tenha sido recupe‑
rada), tais vitórias do capital penalizaram fortemente os trabalhadores. Custa‑
ram‑lhes, em primeiro lugar, seus postos de trabalho — o desemprego, tomadas as
cifras mundiais, vem crescendo desde os anos 1980. Custaram‑lhes, em segundo
lugar, mediante o aumento da exploração, compressões sobre os salários daqueles
que conseguiram manter seus empregos, derivando em ponderável aviltamento do
padrão de vida. Custaram‑lhes, em terceiro lugar, um forte ataque aos sistemas
públicos de seguridade social. E tais custos só podem ser devidamente contabiliza‑
dos se se faz um balanço abrangente de quase três décadas de “flexibilização” do
tardo-capitalismo — e aqui o que se constata é que a pauperização absoluta e a
relativa, conjugadas ou não, cresceram, mesmo que diferencialmente, para a ­maioria
esmagadora da população do planeta (constatações verificáveis até nos ­documentos
do Banco Mundial a partir de 1991 e nos vários relatórios do PNUD, em especial
a partir de 2005).

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 413-429, jul./set. 2012 423
Os trabalhadores, como o demonstra uma experiência histórica bissecular, não
caminham bovinamente para o matadouro. Acuados e postos na defensiva por uma
complexa conjugação de processos de que não tiveram o controle (desde as transfor‑
mações societárias referidas ao colapso do “socialismo real”), encontraram forças para
uma resistência pontuada por ações de natureza dominantemente molecular, mas com
episódios massivos — esta não é oportunidade para sequer registrar essa resistência;
cabe, aqui, tão somente pontuar que as lutas sociais, ainda que defensivas, marcaram
e marcam a presença dos trabalhadores na contracorrente política do período em tela
(e mais: são indicadoras da permanência, nesta quadra histórica, das lutas de classes,
que, ao contrário do que pensam certos acadêmicos — como, por exemplo, o pres‑
tigiado prof. Boaventura Santos — não estão “de volta” nas disrupções gregas de
2011). E por uma razão claríssima: a “flexibilização” do tardo‑capitalismo, levando a
massa dos trabalhadores à defensiva e penalizando duramente a esmagadora maioria
da população mundial, não resolveu nenhum dos problemas fundamentais postos
pela ordem do capital. Mais ainda: diante da magnitude hoje alcançada por estes
problemas — e expressa em três ordens de fenômenos: “o crescente alargamento da
distância entre o mundo rico e o pobre [...]; a ascensão do racismo e da xenofobia;
e a crise ecológica, que nos afetará a todos” (Hosbawm) —, todas as indicações
sugerem que o tardo‑capitalismo oferecerá respostas dominantemente regressivas,
operando na direção de um novo barbarismo, de que as formas contemporâneas de
apartheid social são já suficientemente nítidas. Tais respostas, todavia, retroagem
sobre a “ordem da reprodução sociometabólica do capital”, afetando a viabilidade
da reprodução do próprio tardo‑capitalismo e trazem à superfície “a ativação dos
limites absolutos do capital” — nas felizes palavras do prof. Mészáros.

Resultante: a barbárie do capitalismo contemporâneo


Em síntese, nos últimos trinta anos anos, o modo de produção capitalista
experimentou transformações de monta, que se refrataram distintamente nas diver‑
sas formações econômico‑sociais em que se concretiza e que exigem instrumentos
analíticos e heurísticos mais refinados. Ainda que se registrem polêmicas acerca da
natureza e das complexas implicações dessas transformações, bem como do ritmo
em que levam o modo de produção capitalista a aproximar‑se dos seus limites es‑
truturais, duas inferências parecem‑me inquestionáveis:
1ª) nenhuma dessas transformações modificou a essência exploradora da re‑
lação capital/trabalho; pelo contrário, tal essência, conclusivamente planetarizada
e universalizada, exponencia‑se a cada dia;

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2ª) a ordem do capital esgotou completamente as suas potencialidades pro‑
gressistas, constituindo‑se, contemporaneamente, em vetor de travagem e reversão
de todas as conquistas civilizatórias.
A primeira inferência revela‑se mediante vários indicadores: as jornadas de
trabalho prolongadas para aqueles que conservam seus empregos (extensão que
envolve todos os setores de atividades econômicas — para retomar a superficial e
conhecida tipologia dos “setores econômicos” de Colin Clark: o “primário”, o
“secundário” e o “terciário”), a intensificação do trabalho (também nos três “seto‑
res”), a enorme defasagem entre o crescimento das rendas capitalistas e o cresci‑
mento da massa salarial etc., resultando na extração articulada de mais‑valia
absoluta e relativa e na recuperação de formas de trabalho típicas dos primeiros
momentos da instauração do capitalismo (trabalho em domicílio) e, mesmo, em
formas de trabalho forçado e, em casos extremos, mas não tão excepcionais, escra‑
vo. A constatação mais óbvia desse incremento da exploração aparece, em todos os
quadrantes do mundo, nos mal chamados fenômenos de “exclusão social”. Mas é
a segunda inferência que me interessa aqui, posto que expressão da barbárie tar‑
do‑capitalista.
As concretas possibilidades civilizatórias da ordem do capital sempre estiveram
presentes nas análises de Marx (e de Engels) — e a explícita determinação de tais
possibilidades aparece com nitidez ao longo de toda a sua obra, dos Manuscritos
econômico‑filosóficos de 1884, passando pela Miséria da filosofia e pelo Discurso
sobre o problema do livre‑câmbio, aos últimos textos autógrafos. A gigantesca
transformação do mundo operada pela burguesia revolucionária é objeto de um
trato em tom quase elegíaco no Manifesto do Partido Comunista — a emersão do
capitalismo abre um extraordinário horizonte de desenvolvimento das forças produ‑
tivas, que permite a otimização da relação sociedade/natureza; a criação do mercado
mundial instaura a alternativa do gênero humano tomar consciência da sua unidade;
viabiliza‑se uma literatura universal; realiza‑se a emancipação política dos homens
e a ordem burguesa engendra a sua negação, isto é, a possibilidade concreta da sua
superação, da superação da pré‑história da humanidade, mediante o protagonismo
de uma de suas criações — o proletariado — na revolução que abre o passo à socie‑
dade fundada “na livre associação de livres produtores”, “onde o livre desenvolvi‑
mento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”.
Mas as possibilidades civilizatórias da ordem do capital — como é próprio
destas possibilidades em toda organização societária embasada na existência de
classes sociais — foram apreendidas por Marx na sua contraditoriedade dialética:
a “missão civilizatória” da burguesia realizou‑se, ela mesma, por meios bárbaros.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 413-429, jul./set. 2012 425
A análise da acumulação primitiva está longe de ser a mais exemplar das elabora‑
ções de Marx sobre a inextrincável dialética civilização/barbárie que se processa
no marco da ordem do capital — basta evocar outras passagens d’O capital ou dos
célebres manuscritos de 1857‑58, os Gründrisse..., para documentar que, na visão
marxiana, desenvolvimento capitalista é avanço civilizatório fundado na barbárie,
verificável inclusive no tocante à destruição da natureza. E se o otimismo revolu‑
cionário de Marx — nada utópico, antes embasado na sua apaixonada convicção
teórico‑política do êxito do protagonismo revolucionário do proletariado — levou‑o
sempre a apostar na solução positiva que a humanidade encontraria na ultrapassa‑
gem da sociedade burguesa, nem por isto ele descarta absolutamente a possibilida‑
de da vitória da barbárie.
Ora, o que a mim me parece é que o último terço do século XX e a abertura
do século XXI assinalam — juntamente com os indicativos da emergência da crise
sistêmica — o exaurimento das possibilidades civilizatórias da ordem do capital.
Em todos os níveis da vida social, a ordem tardia do capital não tem mais condições
de propiciar quaisquer alternativas progressistas para a massa dos trabalhadores e
mesmo para a humanidade. O fundamento último dessa verdadeira mutação na
dinâmica do capital reside no que o prof. Mészáros vem caracterizando como a
especificidade do tardo-capitalismo: a produção destrutiva, que presentifica a crise
estrutural do capital. Todos os fenômenos e processos em curso na ordem do ca‑
pital nos últimos 25/30 anos, através de complexas redes e sistemas de mediação
— que exigem investigações determinadas e concretas para a sua identificação e a
compreensão da sua complicada articulação —, estão vinculados a essa transfor‑
mação substantiva. Eles afetam a totalidade das instâncias constitutivas da vida
social em escala planetária.
Consequentemente, é largo o leque de fenômenos contemporâneos que indicam
o exaurimento das possibilidades civilizatórias da ordem tardia do capital — ou,
para dizê‑lo de outro modo, para atestar que esta ordem só tem a oferecer, contem‑
poraneamente, soluções barbarizantes para a vida social. Poder‑se‑iam arrolar vários
desses fenômenos, da financeirização especulativa e parasitária do tardo‑capitalis‑
mo e sua economia do desperdício e da obsolescência programada, passando pelas
tentativas de centralização monopolista da biodiversidade e pelos crimes ambientais
e alcançando a esfera da cultura — aqui, jamais a decadência ideológica estudada
por G. Lukács atingiu tal grau de profundidade e a manipulação das consciências
pela mídia atingiu tal magnitude (com todas as suas consequências no plano políti‑
co imediato). Limitar‑me‑ei a duas alusões, que nos remetem à forma do enfrenta‑
mento contemporâneo da (velha e das suas novas expressões) “questão social”.

426 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 413-429, jul./set. 2012
Sabe‑se que a guerra foi, ao longo de todo o século XX, uma resposta autor‑
reprodutiva do capitalismo. Além de a guerra operar como uma saída provisória
para as suas crises, mediante a destruição massiva de forças produtivas, as ativida‑
des econômicas ligadas à guerra — a indústria bélica — sempre constituíram um
elemento dinamizador da economia capitalista (como o demonstraram, a seu tem‑
po, inúmeros estudiosos marxistas, como V. Perlo e P. A. Baran e P. M. Sweezy),
sem o qual as taxas de ociosidade industrial seriam insuportáveis e o desemprego
alcançaria cifras altíssimas. No tardo‑capitalismo (ou, para usar da excelente me‑
táfora de Samir Amin, no “capitalismo senil”), essa funcionalidade não só se man‑
tém, mas se acentua, inclusive porque, na verificação de Chossudovski, “a guerra
e a globalização caminham juntas”. Entretanto, se a guerra, como tal, apresentou‑se
no século XX como um fenômeno que excedeu completamente o teatro e o âmbito
dos combates, envolvendo muito mais para além deles, o que agora se verifica é
que o belicismo passa a incluir as políticas de segurança pública em períodos de
paz formal e se estende como negócio capitalista privado à vida na paz e na guer‑
ra, configurando a emergência da militarização da vida social.
É que, no marco do que L. Wacquant caracterizou como sendo a substituição
do “Estado de Bem‑Estar Social” pelo “Estado penal”, a repressão estatal se gene‑
raliza sobre as “classes perigosas”, ao mesmo tempo em que avulta a utilização das
“empresas de segurança” e de “vigilância” privadas — assim como a produção
industrial, de alta tecnologia, vinculada a esses “novos negócios” (e não se esque‑
ça do processo de privatização dos estabelecimentos penais). Tais empresas crescem
300% ao ano, desde 2001 — a maioria delas nos Estados Unidos. A repressão
deixou de ser uma excepcionalidade — vem se tornando um estado de guerra per‑
manente, dirigido aos pobres, aos “desempregados estruturais”, aos “trabalhadores
informais”, estado de guerra que se instala progressivamente nos países centrais e
nos países periféricos: na lista dos países que atualmente possuem, em termos re‑
lativos, a maior quantidade de encarcerados no mundo, os quatro primeiros são os
Estados Unidos, a China, a Rússia e o Brasil. Trata‑se de um estado de guerra
permanente, cuja natureza se exprime menos no encarceramento massivo que no
extermínio executado ou não em nome da lei — no Brasil, por exemplo, entre 1979
e 2008, morreram violentamente quase 1 milhão de pessoas, número que pode ser
comparado ao de países expressamente em guerra, como Angola, que demorou 27
anos para chegar a cifra semelhante, como recentemente informou o pesquisador
Felipe Melo da Silva Brito. Em poucas palavras: crescentemente, parece que só a
hipertrofia da dimensão/ação repressiva do Estado burguês pode dar conta da po‑
pulação excedentária em face das necessidades do capital. Mas esta é apenas uma
aparência.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 413-429, jul./set. 2012 427
De fato, à hipertrofia da dimensão/ação repressiva do Estado burguês conju‑
ga‑se outra dimensão, coesiva e legitimadora: o novo assistencialismo, a nova fi‑
lantropia que satura as várias iniciativas — estatais, privadas e estatal/privadas,
mediante as chamadas “parcerias público‑privado” — que configuram as políticas
sociais implementadas desde os anos 1980‑90 para enfrentar o quadro da pauperi‑
zação contemporânea, isto é, da “questão social”, “velha” e/ou “nova”. Já não se
está diante da tradicional filantropia (de base confessional e/ou laica) que marcou
os modelos de assistência social que emergiram no século XIX nem, muito menos,
diante dos programas protetores ou de promoção social que vieram a instituciona‑
lizar‑se a partir do Estado de Bem‑Estar Social.
A política social dirigida aos agora qualificados como excluídos se perfila,
reivindicando‑se como inscrita no domínio dos direitos, enquanto específica do
tardo‑capitalismo: não tem nem mesmo a formal pretensão de erradicar a pobreza,
mas de enfrentar apenas a penúria mais extrema, a indigência — conforme seu
próprio discurso, pretende confrontar‑se com a pobreza absoluta (vale dizer, a
miséria extrema). O minimalismo dessa proposição — gritante se comparado aos
objetivos, aliás nunca alcançados, dos programas de proteção/promoção social
elaborados e implementados no período das “três décadas gloriosas” do capitalismo
— pode ser apreciado na “Declaração do Milênio” (2000), consensuada na Orga‑
nização das Nações Unidas: por meio dos “objetivos de desenvolvimento do milê‑
nio”, há a proposta/promessa de “libertar os nossos semelhantes, homens, mulheres
e crianças, das condições abjetas e desumanas da extrema pobreza” (itálicos meus);
mais precisamente, a proposta é, em 15 anos (ou seja, até 2015), reduzir a extrema
pobreza pela metade — este é o primeiro dos “objetivos de desenvolvimento do
milênio”: reduzir pela metade a percentagem de pessoas que vivem com menos de
um dólar e vinte e cinco centavos por dia. Apesar desse espantoso minimalismo
frente a uma “questão social” maximizada, os vários relatórios sobre o “desenvol‑
vimento humano”, regularmente preparados pelo PNUD, ainda que enfatizem
“ganhos” deste programa, deixam claro que seus objetivos — reitere‑se: minima‑
listas — não serão alcançados.
Pois é precisamente esse minimalismo que tem factualmente caracterizado os
vários programas que, por via de transferências de renda — “programas de rendas
mínimas” —, têm sido implementados em alguns países capitalistas centrais e em
muitos países periféricos. A experiência de mais de uma década, especialmente na
América Latina, é muito pouco promissora: na medida em que não se conjugam
efetivamente com transformações estruturais (e esta é uma das condições políticas

428 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 413-429, jul./set. 2012
para que o tardo‑capitalismo os suporte), eles acabam por cronificar‑se como pro‑
gramas emergenciais e basicamente assistencialistas.
A articulação orgânica de repressão às “classes perigosas” e assistencialização
minimalista das políticas sociais dirigidas ao enfrentamento da “questão social”
constitui uma das faces contemporâneas mais evidentes da barbárie atual. E é no
seu marco que, majoritariamente, operam, enquanto profissionais, os assistentes
sociais.

Recebido em: 25/6/2012  ■   Aprovado em: 26/6/2012

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 413-429, jul./set. 2012 429
Particularidades da “questão social” no Brasil:
mediações para seu debate na “era” Lula da Silva
Circumstances of the “social issue” in Brazil:
interventions for their discussion in the Lula da Silva’s “Era”

Josiane Soares Santos*

Resumo: Este artigo é uma versão, com pequenas complementações,


da palestra proferida no 5º Seminário Anual de Serviço Social da
Cortez Editora. Sua preocupação central é tangenciar algumas das
características que particularizam a “questão social” no Brasil, consi‑
derando‑se os determinantes dessa formação social. A partir delas,
sustenta‑se a hipótese de que estejam sendo atualizadas em meio à
crise contemporânea, com base na ideologia “neodesenvolvimentista”
dos governos da “era” Lula da Silva.
Palavras‑chave: “Questão social”. Neodesenvolvimentismo. Trabalho.

Abstract: This article is a version, with minor additions, the lecture given at the 5th Annual Semi‑
nar of Social Work Cortez publishing house. His main concern is tangential some of the features that
distinguish the “social question” in Brazil, considering the determinants of social formation. From
them, supports the hypothesis that they are being updated through the contemporary crisis, based on
ideology “neodevelopmentist” at the government “age” Lula da Silva.
Keywords: “Social question”. Neodevelopmentist. Work.

* Mestre e doutora em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Graduada em
Serviço Social pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Professora Adjunta do curso de graduação e da
pós‑graduação em Serviço Social da UFS/São Cristovão/SE, Brasil. E‑mail: josisoares@hotmail.com.

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Introdução

É
praticamente um consenso, mesmo entre analistas de diferentes perspec‑
tivas ideopolíticas, que vivemos atualmente uma profunda crise econô‑
mica. Dificilmente algum pensador sério pode se furtar a admitir suas
expressões, o que já não acontece, por exemplo, com a admissão de suas
consequências. Sem pretender tratar da crise capitalista de modo sistemático, a
reflexão aqui exposta a tem como um suposto imprescindível, já que seu objetivo
é pensar a chamada “questão social”. Nesse andamento, portanto, as configurações
contemporâneas da “questão social” devem ser vistas como consequências da crise.
Isso, por sua vez, já elucida de que ponto de vista está se tomando a crise, pois
se não são óbvias suas consequências, isso se deve, de alguma maneira, ao modo
como são postos os seus fundamentos. As consequências são de determinada ordem
quando considerada enquanto uma “crise do sistema financeiro” ocasionada pelo
“mau comportamento” de “especuladores gananciosos” — explicação mais difun‑
dida nos meios de comunicação de massa — e são de ordem inteiramente diversa
se a consideramos como a mais recente reedição das contradições imanentes do
capitalismo.
Aqui suas determinações estão referidas à segunda das perspectivas supra‑
mencionadas, radicada na crítica da economia política marxiana. Entendo que
desde o final dos anos 1960 o capitalismo experimenta mais uma de suas “ondas
longas recessivas” (Mandel, 1990) em função do que tem comprometidas suas
taxas de lucratividade. O conjunto de “saídas” da crise implementado na ótica do
capital demonstra, para autores como Netto (2010), o esgotamento de suas possi‑
bilidades civilizatórias incidindo seriamente sobre a chamada “questão social” e
delineando o quadro de barbarização da vida social tão naturalizado pela ideologia
dominante.
Além das mediações que constituem a crise capitalista contemporânea, outro
suposto deste artigo é a definição acerca da “questão social”, que se tornou uma
espécie de “patrimônio intelectual” dos assistentes sociais. Embora possa ser con‑
siderada espinha dorsal deste texto o significativo volume de reflexões a esse res‑
peito na área do Serviço Social,1 me autoriza a tomar esse debate como consolida‑
do e, por esta razão, me eximo de tratá‑lo amiúde neste momento.

1. Ver, entre outros, o conjunto de textos publicado nas revistas Temporalis, n. 3; Ser Social, n. 6; Praia
Vermelha, n. 10; na coletânea organizada por Bógus, Yazbek, Belfiore‑Wanderley (2000) e o livro de Pasto‑
rini. (2004).

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É preciso dizer, no entanto, que esse conceito possui, entre nós, determinada
abordagem que não se reproduz em outras áreas do conhecimento. Nela a “questão
social” é entendida como um fenômeno necessariamente hipotecado ao capitalismo.
De um lado designa o crescimento da pobreza (absoluta e relativa) que, nesse modo
de produção, adquire determinações singulares, já que vem acompanhado do de‑
senvolvimento sem precedentes das forças produtivas; de outro, designa a proble‑
matização dessa situação pelas lutas de classe protagonizadas pelo movimento
operário desde o século XIX.
Assim é que a explicação para a pauperização acentuada que dá o mote para
as lutas sociais reside na relação entre capital e trabalho regida segundo a lei geral
da acumulação, em que a população de trabalhadores “livres” é sempre superior às
necessidades médias de expansão do capital (Marx, 2001).
Explicitados os supostos da análise resta dizer, ainda à guisa de introdução,
que as reflexões que seguem estão organizadas em dois momentos diferenciados,
além das considerações finais. No primeiro deles tratarei de recuperar alguns ele‑
mentos do que venho chamando de particularidades da “questão social” no Brasil,
com foco nos processos de superexploração do trabalho pelo capital e de passiviza‑
ção das lutas sociais. Em seguida transitarei para algumas mediações mais contem‑
porâneas do debate, situando a continuidade e o aprofundamento dessas caracterís‑
ticas — quais sejam, da superexploração do trabalho e da passivização das lutas
sociais — como uma reposição, em novos patamares, desde o governo Lula, de
particularidades históricas da “questão social” na formação social brasileira.
A hipótese sustentada aqui é de que na “era” Lula da Silva — que, obviamen‑
te, compreende o atual governo — o chamado neodesenvolvimentismo opera
atualizando essas características da “questão social” e sua funcionalidade no pro‑
cesso de modernização conservadora do Brasil. A manutenção desse direcionamen‑
to por parte do Estado demonstra o caráter ideológico do neodesenvolvimentismo
e algumas das mistificações existentes em torno das avaliações otimistas sobre o
crescimento recente do país e seu “êxito” no enfrentamento da desigualdade social.

Particularidades da “questão social” no capitalismo brasileiro


O movimento por meio do qual o debate da “questão social” se consolidou
entre os assistentes sociais aponta o essencial dessa conceituação, ou seja, o fato
de a “questão social” resultar das relações de exploração do trabalho pelo capital.
Entretanto, por ser a variável que provoca as respostas da classe dominante no

432 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 430-449, jul./set. 2012
contexto do capitalismo dos monopólios, pela via das políticas sociais, fica clara a
necessidade de ampliar a compreensão em torno da “questão social” considerando‑a
também em suas dimensões histórico‑concretas.
Isso implica ultrapassar o nível universal do debate, referido ao modo de
produção e suas categorias centrais (capital e trabalho), e apanhar as mediações
próprias da formação social. Ou seja, para explicar a “questão social” no Brasil,
não basta identificar as categorias centrais ao modo de produção capitalista — a
relação antagônica entre capital e trabalho, por exemplo — que compõem o nível
da universalidade. Há que acrescentar a esse nível a singularidade dos ­componentes
dessa sociedade enquanto formação social concreta, para que se tenha condições
de dimensionar suas particularidades enquanto mediações centrais das expressões
da “questão social”.
Quanto à importância dessa premissa, sem dúvida há acordo entre os vários
autores do Serviço Social. Em Pastorini (2004, p. 113) temos que

afirmar que esses traços essenciais continuam vigentes não significa que a “questão
social” no capitalismo é única e que se expressa de forma idêntica em todas as socie‑
dades capitalistas e todos os momentos históricos. Pelo contrário, como já foi dito
aqui, a “questão social” assume expressões particulares dependendo das peculiarida‑
des específicas de cada formação social (nível de socialização da política, caracterís‑
ticas históricas, formação econômica, estágios e estratégias do capitalismo) e da
forma de inserção de cada país na ordem capitalista mundial.

Também Netto (2001, p. 48‑49) aponta essa necessidade, considerando que

o problema teórico consiste em determinar concretamente a relação entre as expressões


emergentes e as modalidades imperantes de exploração.
Esta determinação, se não pode desconsiderar a forma contemporânea da “lei geral
da acumulação capitalista”, precisa levar em conta a complexa totalidade dos sistemas
de mediações em que ela se realiza. Sistemas nos quais, mesmo dado o caráter uni‑
versal e mundializado daquela “lei geral”, objetivam‑se particularidades culturais,
geopolíticas e nacionais que, igualmente, requerem determinação concreta. [...] Em
poucas palavras: a caracterização da “questão social”, em suas manifestações já co‑
nhecidas e em suas expressões novas, tem de considerar as particularidades históri‑
co‑culturais e nacionais.

Daí a necessidade de particularizar o debate quando se pensa na relação ca‑


pital/trabalho, considerando os elementos históricos singulares de cada país, aliados

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 430-449, jul./set. 2012 433
às determinações mais gerais do capitalismo quanto à propriedade e às relações de
produção. Segundo Marx e Engels (1996, p. 35)

indivíduos determinados, que como produtores atuam de um modo também determi‑


nado, estabelecem entre si relações sociais e políticas determinadas. É preciso que,
em cada caso particular, a observação empírica coloque necessariamente em relevo
— empiricamente e sem qualquer especulação ou mistificação — a conexão entre a
estrutura social e política e a produção.

Entendo que nessa citação Marx está chamando a atenção para a dimensão
histórico‑concreta do modo de produção, portanto, para o nível da formação social
e colocando em questão as mediações que impossibilitam a existência da categoria
“modo de produção” num “estado puro”.
Por essa razão tenho desenvolvido uma hipótese que se contrapõe, em alguns
aspectos, à maioria das análises efetuadas em torno da “questão social” contempo‑
rânea no Serviço Social. Em se tratando das modalidades de exploração do trabalho
— novamente sublinhando: eixo da “questão social” —, quase sempre os analistas
chamam a atenção para a sua “flexibilização”/precarização enquanto um fenômeno
associado ao estágio da acumulação flexível do capital e sua crise mais recente, que
data dos anos 1970.
Penso que no caso brasileiro é preciso mediatizar essa análise, já que a “fle‑
xibilização/precariedade” do trabalho entre nós não pode ser creditada à crise re‑
cente do capitalismo. Muito embora estejam mais visivelmente presentes no atual
contexto da acumulação flexível, essas características fazem parte da nossa “mo‑
dalidade imperante” de exploração do trabalho há bastante tempo: afirmam‑se, de
modo proeminente, no período em que nos países capitalistas desenvolvidos havia
estabilidade, pleno emprego e Welfare State. Elas são, a meu ver, particularidades
da “questão social” no Brasil (Santos, 2008).
Isso significa dizer que ao contrário do que ocorria nos países cêntricos — cujo
padrão de proteção social reforçava a estabilidade dos empregos como condição
para as excepcionais taxas de lucro do período fordista —, a flexibilidade/precarie‑
dade é erigida, no Brasil, como princípio estruturante dos postos de trabalho antes
e durante o período fordista do capitalismo brasileiro.
Vejamos o que estou designando como flexibilidade/precariedade do trabalho:
inexpressividade e, em vários casos, ausência de regulação do trabalho; alta rota‑
tividade nos postos de trabalho; subemprego; informalidade... Isso tudo está pre‑
sente no Brasil ao longo da formação de seu mercado de trabalho (desde o final da

434 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 430-449, jul./set. 2012
escravidão), acentuando‑se com a regulação do trabalho estabelecida por Vargas a
partir dos anos 1930 e, especialmente, no momento da ditadura militar.
Pochmann (2006) considera que a formação do mercado de trabalho no Bra‑
sil possui, especialmente entre os anos de 1930 e 1970, algumas características sem
as quais não se pode entender o

padrão de sociedade salarial incompleto, com traços marcantes de subdesenvolvimen‑


to, [a exemplo da] distinção entre assalariamento formal e informal [que] constituiu a
mais simples identificação da desregulação, assim como a ampla presença de baixos
salários e de grande quantidade de trabalhadores autônomos (não assalariados). (p. 25)

Salienta ainda, entre os determinantes dessas características, o intenso pro‑


cesso migratório campo‑cidade, que responde por boa parte dos traços desse padrão
de exploração da força de trabalho, assim como pela formação do excedente de mão
de obra que fica fora do usufruto dos resultados do crescimento econômico, muito
embora tenha sido essencial para o seu processamento.
Nessa mesma linha, Dedecca e Baltar enfatizam a importância dos anos
1930‑56, conhecido como “industrialização restringida”, para a formação do mer‑
cado de trabalho no Brasil. De acordo com eles,

nesse período [...] se inicia a constituição da base de trabalho assalariado necessária


para a estruturação do movimento sindical. [...] é a partir do momento que ganha
expressão o processo de industrialização é que vai se formando um mercado de tra‑
balho urbano‑industrial que abre perspectivas para a estruturação de um movimento
sindical [em] nível nacional. A industrialização ao avançar vai delineando um merca‑
do nacional de bens, serviços e trabalho com uma dinâmica cada vez mais determi‑
nada pela indústria de transformação, bem como por uma crescente concentração das
atividades no meio urbano. (1992, p. 5)

A “industrialização restringida” é, portanto, fundamental para consolidar o


sistema de relações de trabalho no Brasil, estabelecido sob as bases corporativistas
instituídas a partir da década de 1930, que atraem parcela dos trabalhadores rurais
para os centros urbanos em formação. Entretanto, é imperioso registrar que

[...] quando paralelamente ao início da industrialização se consolida a legislação tra‑


balhista/corporativista, os trabalhadores organizados e protegidos por estas leis e pelo
salário mínimo eram relativamente poucos, ainda localizados em algumas capitais e
em meio a uma imensa maioria de trabalhadores do campo e de marginalizados das

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 430-449, jul./set. 2012 435
cidades sem quaisquer direitos sociais. Embora os sindicatos tenham surgido no
início do século, a ausência de bases sociais mais amplas e sólidas impediu que exer‑
cessem uma ação política mais independente, eficaz e generalizada na sociedade.
(Mattoso, 1995, p.122; grifos meus)

Esse foi o padrão de cidadania que Santos (1987) designou por meio do já
clássico conceito de “cidadania regulada”. Sua existência explicita a ausência de
regulação do trabalho no meio rural, que contrasta, de modo flagrante, com a im‑
portância econômica e o volume dessa força de trabalho no país até os anos 1950.
Quanto a isso não se deve esquecer, de um lado, o caráter primário‑exportador da
economia brasileira e, de outro, o poder político dos latifundiários, fatores que
explicam, de modo conjugado, o retardo das medidas de regulação do trabalho no
campo.
Se fica, portanto, evidente que a restrita regulação do trabalho no Brasil sem‑
pre colaborou para manter baixo o valor da força de trabalho — consolidando,
assim, uma relação entre capital e trabalho pautada na superexploração —, no
contexto da ditadura militar e sua reforma trabalhista essa superexploração do
trabalho se acentuou. Foram dois os expedientes centrais para entender as particula­
ridades de nossa modalidade de exploração do trabalho nesse período: a instituição
do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) e a repressão político‑institu‑
cional ao movimento sindical.
O FGTS funciona por meio de um desconto em folha que arrecada previamen‑
te, como garantia, uma espécie de “poupança forçada” devida ao trabalhador demi‑
tido sem justa causa (e com menos de dez anos no emprego) sob forma de indeni‑
zação equivalente ao salário de um mês de serviço para cada ano no emprego.
A instituição do FGTS substituiu a estabilidade — legalmente assegurada no
setor privado para quem obtivesse dez anos de serviço prestado no mesmo posto
de trabalho — e aumentou a já elevada rotatividade nas ocupações. Isso porque o
custo de um empregado com estabilidade é consideravelmente maior com o passar
dos anos, pela dificuldade em demiti‑lo e pelos direitos processualmente adquiridos
na carreira; já quando lança mão da rotatividade, o empregador pode manter sem‑
pre baixo o patamar salarial de seus empregados, que são dispensados a baixo
custo antes de se tornarem “caros” para o processo de acumulação.
A manutenção de um fluxo permanente de demissões e contratações, ou seja,
de uma política de substituição dos trabalhadores, que, assim, não conseguem, na
sua maioria, ultrapassar os anos iniciais da carreira além de reduzir, conforme já
dito acima, os custos do passivo trabalhista, reduz também os custos de seleção

436 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 430-449, jul./set. 2012
prévia à contratação, dada a facilidade de dispensa no período de experiência.
Desse modo, apesar do custo da indenização de dispensa sem justa causa, as de‑
missões atuaram como um mecanismo para o rebaixamento dos salários. Por esta
razão é que tivemos no fordismo brasileiro flexibilidade e precariedade ao contrá‑
rio da estabilidade dos países centrais de fordismo clássico.
Quanto ao sindicalismo, também ao contrário do que aconteceu no fordismo
clássico, a ausência de democracia no caso brasileiro inviabilizou o seu reconheci‑
mento como interlocutor das relações capital/trabalho. Aqui esse agente fundamen‑
tal nas conquistas trabalhistas do fordismo clássico não teve possibilidades de orga‑
nização autônoma durante boa parte de sua existência nos períodos de democracia,
em decorrência do corporativismo que estruturou a legislação trabalhista desde os
anos 1930. No período da ditadura militar o sindicalismo, como todo e qualquer
movimento social, foi duramente reprimido e decretado ilegal, o que, por sua vez,
facilitou o aumento da exploração do trabalho e da extração dos elevados percentuais
de mais‑valia que responderam pelo chamado “milagre econômico”.
Por isso é que entre as particularidades da “questão social” no Brasil aponto
uma perversa associação: de um lado a superexploração do trabalho, cujo valor
sempre precisou ser mantido bem abaixo dos padrões vigentes em outros países,
notadamente os de capitalismo desenvolvido, para que o país continuasse atrativo
aos seus investimentos produtivos; de outro, uma passivização das lutas sociais que
historicamente foram mantidas sob controle do Estado e das classes dominantes.
Nesse último aspecto, devo fazer referência não só ao corporativismo sindical
e à sua repressão no contexto do regime militar. Em verdade, essas características
se atualizam ao longo do nosso processo sócio‑histórico por meio dos inúmeros
processos de “revolução passiva” (Gramsci, apud Coutinho, 1999) registrados no
Brasil. Isso significa dizer que na base da parcialidade das mudanças ocorridas no
processo de modernização capitalista brasileiro — que apresenta um caráter neces‑
sariamente conservador, segundo vários estudiosos da formação social brasileira2
— está uma estratégia recorrente de antecipação das classes dominantes aos movi‑
mentos reais ou potenciais das classes subalternas. Essa antecipação, a depen-.
der da situação concreta, pode ter um caráter progressista e/ou restaurador e ocor‑
re, em geral, pela via do “transformismo” como “assimilação, pelo bloco no poder,
das frações rivais [mas, fundamentalmente,] de setores das classes subalternas”
(Idem, p. 205).

2. Sobre isso consultar Prado Júnior (2004); Fernandes (2006); Albuquerque (1981). Uma bela síntese
das convergências e divergências entre esses clássicos pode ser encontrada em Behring (2003).

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 430-449, jul./set. 2012 437
Ademais, cabe sublinhar o papel central que a ação do Estado teve na consti‑
tuição de todas as medidas que deram corpo ao capitalismo brasileiro, tanto consi‑
derando‑se os processos de modernização conservadora quando os de revolução
passiva (Netto, 1996). Por meio de sua atuação e, consequentemente de sua “cap‑
tura” pelos setores dominantes, foram facilitados os inúmeros dispositivos que
instituíram a superexploração do trabalho e a passivização das lutas sociais no
Brasil.
É por isso que a análise genérica da crise capitalista atual não pode ser efe‑
tuada sem contextualizar que a flexibilidade/desregulamentação significam, no
panorama brasileiro, algo inteiramente diverso do que significam no contexto de
países capitalistas desenvolvidos. No nosso caso se implementam de modo muito
mais grave e encontram menos resistência aos retrocessos civilizatórios implicados
na ausência de proteção ao trabalho.
Há certa “naturalização” de relações de trabalho precárias e, há algumas ge‑
rações, a referência de um emprego com proteção social já não existe para várias
famílias de trabalhadores brasileiros. Algo inteiramente diferente do que ocorre
quando as tendências de desregulamentação tentam avançar em países capitalistas
desenvolvidos, haja vista os inúmeros protestos noticiados em países como a Itália,
Inglaterra, Espanha e Grécia, onde a população tem se insurgido contra medidas
que implicam cortes públicos no padrão de proteção social vigente.
No Brasil, assistimos esses mesmos meios de comunicação exaltarem a rota‑
tividade nos empregos como algo positivo para os trabalhadores a partir da misti‑
ficação do crescimento dos seus índices de formalização.3 De acordo com o IBGE,
em 2010 mais de 60% das pessoas empregadas no país tinham carteira assinada, e
essa oferta maior quanto à formalização dos vínculos teria aumentado o poder de
barganha dos trabalhadores, que podem, segundo o noticiário, “escolher” as me‑
lhores ofertas e, por isso, não se sentem estimulados a permanecer muito tempo na
mesma ocupação.
O que estaria acontecendo, então? Estaríamos nós, pela primeira vez na his‑
tória, em melhores condições econômicas que os países desenvolvidos? Quais as
explicações para essa aparente “imunidade” que estaria fazendo o Brasil andar na
contramão da crise que assola os países europeus e repercute fortemente no aumen‑
to do desemprego enquanto as taxas de desemprego no Brasil apresentam tendência
à queda?

3. Conferir algumas reportagens sobre emprego disponíveis em: <http://g1.globo.com/jornal‑nacional/


videos>.

438 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 430-449, jul./set. 2012
A “era” Lula da Silva e a reposição de particularidades históricas da “questão
social” no Brasil
Neste momento passarei então a tratar o segundo aspecto do presente texto:
a continuidade e o aprofundamento da superexploração do trabalho e da passiviza‑
ção das lutas sociais na “era” Lula da Silva.
Numa análise do período recente, Mota (2010) e outros autores têm chamado
a atenção para o protagonismo do governo Lula na apologia ao chamado “novo
desenvolvimentismo” ou “neodesenvolvimentismo” enquanto ideologia de Estado
de vários países latino‑americanos. Este reedita a combinação discursiva de cres‑
cimento econômico e desenvolvimento social a partir da

ampliação e formalização do emprego, intervenção do Estado, entre outros aspectos


que, pelo menos em tese, rechaçam medidas neoliberais. [...]. Podemos afirmar, [assim]
que a era Lula é palco da conciliação de iniciativas aparentemente contraditórias: as
diretrizes do receituário liberal e a pauta desenvolvimentista. Note‑se que na primei‑
ra etapa de seu mandato foram realizadas as contrarreformas da previdência e da
educação, concomitante ao aumento das taxas de juros; enquanto que no mesmo pe‑
ríodo era expandida a assistência social, o crédito ao consumidor, os empréstimos
populares e os aumentos do salário mínimo. (Mota, 2010, p. 19‑21)

Entretanto, não pode haver dúvida de que essa intervenção foi hegemonizada
pelo capital financeiro, pois se é verdade que em 2010 o governo gastou R$ 13,1
bilhões com o Programa Bolsa Família, no mesmo ano R$ 380 bilhões foram des‑
tinados ao pagamento dos títulos públicos (Mota, 2010). Nessa direção, o novo
desenvolvimentismo opera como uma ideologia que refreia os impactos mais orto‑
doxos do neoliberalismo, fazendo o Banco Mundial incorporar na sua agenda de
proposições, elementos de natureza política e social para além dos econômicos
(PNUD, 2009 apud Mota, Amaral e Peruzzo, 2010).
É claro que esse conjunto de novas premissas governamentais se diferencia,
portanto, do neoliberalismo da “era” FHC e, em função disso, gera uma série de
mistificações que, se descoladas de suas causalidades macroeconômicas, podem
induzir às análises mencionadas ao final do item precedente. Ampliando o debate
sobre esses mitos a serem desmistificados, vou me deter aqui essencialmente na
questão do crescimento do emprego formal no contraponto ao decréscimo do de‑
semprego. Esse “sintoma” me permitirá discutir a atualidade das características que
marcaram historicamente a “questão social” no país. A ideia é mostrar que esse

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 430-449, jul./set. 2012 439
quadro não altera em nada a essência das modalidades de exploração do trabalho
no Brasil porque não altera suas particularidades: ao contrário, aprofunda a preca‑
rização do padrão de proteção social — por meio da centralidade da assistência
social focalista — e a “passivização” dos trabalhadores e movimentos sociais — por
meio da cooptação de lideranças do movimento social incorporadas à dinâmica
governamental petista.
No Brasil contemporâneo, onde as taxas de desemprego caíram em todas as
pesquisas sobre o tema (permanecem em torno de 6% de acordo com o IBGE e
10%, segundo o Dieese) e a economia foi alçada ao sexto lugar no ranking dos
países capitalistas, são recorrentes as análises cada vez mais otimistas sobre a
“queda” da desigualdade social medida por meio da redução do número de famílias
em situação de extrema pobreza.
Isso seria notado no aumento da mobilidade social e do consumo nas faixas
de renda mais baixas, que, por sua vez, seria uma combinação resultante de três
fatores: da elevação real do salário mínimo; do crescimento do trabalho com car‑
teira assinada, que torna mais efetiva a recuperação do piso legal; e da expansão
dos programas de transferência de renda. Quadros, professor do Instituto de Eco‑
nomia da Unicamp em texto de 2009, chama a atenção para a necessidade de rela‑
tivizar essas análises já que

a evolução do desemprego na estrutura social revela, como era de se esperar, que as


taxas de desocupação crescem quando se caminha do topo para a base da pirâmide.
Isto é, as famílias mais pobres são as que mais sofrem com este problema. [...] Desta
forma, verifica‑se que a forte redução na proporção de miseráveis foi acompanhada
de uma certa expansão do desemprego entre as famílias que permaneceram nesta si‑
tuação. (2009, p. 6)

O que está em discussão, portanto, é que a queda nas taxas de desemprego


não significa necessariamente queda nos níveis de desigualdade. Isto porque o
desemprego continua alto entre as pessoas de baixa renda, reforçando, por sua vez,
a concentração de renda que em 2010 continuava apontando que 1% dos brasileiros
mais ricos detém uma renda próxima à dos 50% mais pobres.
Dessa forma, mesmo decrescendo o desemprego aumenta o processo de pau‑
perização que tem sido enfrentado, como todos sabemos, predominantemente com
políticas de assistência social e, em seu interior, com o Programa Bolsa Família
enquanto principal componente orçamentário dessa política. Essa flagrante “expan‑
são de políticas de exceção, de ingressos, em substituição ao direito do trabalho”

440 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 430-449, jul./set. 2012
(Mota, Amaral e Peruzzo, 2010, p. 50), dá corpo ao que tem sido chamado de
“assistencialização da seguridade social” (Rodrigues, 2007). Isso significa dizer
que a “questão social” passa a ser enxergada, predominantemente, como sinônimo
de “exclusão social” e reduzida à pobreza. Esta redução estratégica das políticas
sociais ao combate da pobreza é mais uma ferramenta de “desmonte” do que se
pretende afirmar como proteção social de cunho universalizante.

Estas políticas compensatórias e focalizadas, conceituadas como de enfrentamento à


pobreza, são apoiadas, em geral, pelas elites. Note‑se que as políticas sociais mais es‑
truturadoras, como a saúde, as aposentadorias, a educação, dentre outras que os gover‑
nos neoliberais transformaram em serviços mercantis, são objeto de uma forte reação
da direita continental, historicamente patrimonialista, oligárquica e antirreformista,
frente a qualquer iniciativa de universalização. (Mota, Amaral e Peruzzo, 2010, p. 54)

Para Mota (2010) há, nessa estratégia, uma “naturalização” quanto aos limites
do enfrentamento da pobreza que ficam circunscritos à “esfera distributiva”, como
se isso fosse tudo que pode ser feito. Desse modo, o Programa Bolsa família per‑
sonifica as orientações dos organismos internacionais quanto à focalização no
combate à pobreza e é reproduzido em inúmeros outros países da América Latina
e Caribe depois do ano 2000, sendo que o mais antigo deles é o da Venezuela,
criado em 1989.
Não obstante sua insuficiência quando se considera a “questão social” de modo
mais amplo, sem dúvida esse programa de transferência de renda é uma medida
extremamente popular, que responde por boa parte dos níveis de aprovação dos
governos Lula transferidos para a atual presidente4.
Por outro lado, o crescimento dos empregos formais, em face do processo de
desindustrialização e reprimarização da economia5 (Gonçalves, 2008) é ancorado,

4. A imprensa noticiou neste primeiro semestre de 2012 índices de popularidade e aprovação do gover‑
no Dilma em torno de 50%. Disponível em: <http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,EMI232
968‑16418,00‑POPULARIDADE+DE+DILMA+DEVE+RESISTIR+A+INFLACAO+EM+ALTA.html>.
Acesso em: 11 jun. 2012.
5. Este conceito (reprimarização da economia brasileira) pretende sublinhar o reforço, na atualidade, à
produção e exportação de produtos primários, tradicionalmente importantes na dinâmica capitalista brasilei‑
ra. Essa característica da nossa balança comercial havia sido parcialmente diminuída com o crescimento
industrial dos anos 1950‑70, mas a crise do desenvolvimentismo e a abertura comercial de cunho neoliberal
da entrada dos anos 1990 reduziram significativamente o parque industrial brasileiro, recolocando a expor‑
tação de produtos primários em lugar central.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 430-449, jul./set. 2012 441
predominantemente, no setor terciário. Disso decorre que a sua qualidade é cada
vez mais precária e sua rotatividade é altíssima, fato conhecido entre nós, assisten‑
tes sociais que mantemos contato cotidiano com trabalhadores que, estando sob
esse tipo de relação trabalhista, as aceitam com base no raciocínio de que “isso é
melhor que nada”. Ou seja, são trabalhadores mal remunerados, expostos a riscos
no trabalho sem a devida proteção social e, sobretudo, desorganizados, sem iden‑
tidade sindical.
É fato que se aumenta o grau de precarização e flexibilidade do trabalho au‑
menta, na mesma proporção, sua exploração. Sabe‑se da funcionalidade que os
processos de terceirização possuem como fonte de “barateamento” do valor trabalho
e como sua utilização tem sido cada vez mais recorrente em diversos setores da
economia. Do mesmo modo a incorporação do trabalho informal no interior da di‑
nâmica produtiva é também crescente como aponta Tavares (2004), indicando novos
arranjos entre as já preexistentes formas de superexploração do trabalho no país.
Nessa direção, cabe destacar, entre os inúmeros modos de incorporação do
trabalho informal à economia “formal”, o estímulo ao “empreendedorismo” junto
a segmentos pauperizados valorizando o discurso do “trabalho por conta própria”
e formas de desassalariamento que disfarçam situações de subemprego. De acordo
com Alencar (2008, p. 117‑118),

Se na década de 1970, o horizonte que se delineava na atuação sobre o setor informal


era sua incorporação em direção do assalariamento, dada a perspectiva de homoge‑
neização da estrutura ocupacional como decorrência do desenvolvimento econômico
e na superação do subdesenvolvimento, [a partir da] década de 1990 os propósitos são
outros. [...]
A inserção produtiva e social do excedente da força de trabalho e dos trabalhadores
urbanos pobres passa a ser a prerrogativa da proposição que vislumbra o apoio e o
incentivo aos pequenos empreendimentos como meio mais eficaz de garantir renda
ou ocupação (não necessariamente emprego assalariado). [...] Estas políticas de em‑
prego restritas a uma atuação sobre o mercado de trabalho caracterizam‑se mais pelo
seu caráter compensatório e focalizado do que pelas suas reais possibilidades de criar
empregos, dado que estão desvinculadas de um projeto de desenvolvimento econô‑
mico nacional, atuam particularmente sobre o mercado de trabalho e focando sua
intervenção sobre determinados segmentos sociais.

É importante clarificar que esse tipo de ocupação tem um grande impacto no


mascaramento dos índices de desemprego no país, já que especialmente na meto‑
dologia de mensuração do IBGE essa precariedade não é levada em conta. Nesta

442 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 430-449, jul./set. 2012
pesquisa os níveis de ocupação detectados consideram apenas o desemprego aber‑
to, que embora seja de fato a situação mais extrema, não reflete fidedignamente a
realidade do desemprego, já que

tecnicamente a definição de desemprego aberto é [...] bastante estrita: corresponde às


pessoas que, não estando ocupadas, estão procurando ativamente trabalho. Neste
conjunto encontramos os trabalhadores que perderam seus empregos e os novos inte‑
grantes da população ativa, ou seja, os que procuram trabalho pela primeira vez.
Neste sentido, a taxa de desemprego é um conceito bastante ineficiente e impreciso
como medição da situação ocupacional, tendendo a não representar fidedignamente a
gravidade do problema do emprego. Assim, por exemplo, os trabalhadores que perdem
seu emprego ou desejariam empregar‑se, mas que não procuram outro emprego, pois
acreditam ser difícil encontrá‑lo, não são considerados tecnicamente desempregados
— são “inativos”. Da mesma forma, um desempregado que encontra um “bico”, por
mais precário que seja, passa a ser “ocupado”, ainda que se trate obviamente de um
subemprego. (Souza, 1998, p. 164)

Sem a consideração do desemprego por desalento e do subemprego, mesmo


os trabalhadores que só eventualmente possuam alguma renda são considerados no
contingente de “ocupados” pelo IBGE6. É precisamente considerando os altos ín‑
dices de rotatividade nas ocupações e o subemprego que não posso nominar de
outro modo senão de mitificação essa comemoração em torno da queda da taxa de
desemprego no Brasil.
É fato que ela diminuiu quando comparada aos índices mensurados nos anos
1990, durante a ortodoxia neoliberal. Entretanto, além de “disfarçada” no caso da
metodologia do IBGE, não se pode desconsiderar a precariedade dos empregos
gerados nesse contexto, que, por sua vez, incidem na reprodução ampliada da de‑
sigualdade social que continua altíssima no país, ao contrário do que afirmam os
“otimistas de plantão”.
Esse quadro precisa ser completado ainda com a observação de Braga (2010,
apud Mota, 2010), reforçada por vários outros analistas, quanto à atualização da
“revolução passiva” como parte das estratégias do neodesenvolvimentismo. Para

6. No instrumento de pesquisa do Dieese existe a categoria chamada de “desemprego oculto”, que


corresponde à “parcela da PEA [população economicamente ativa] que está sem trabalho ou com trabalho
precário e que, por isso, deseja trabalhar, e, por conseguinte, pressiona o mercado de trabalho através da
procura efetiva de emprego ou negócio, ou com procura potencial de trabalho” (Costa, 2002, p. 81). Por esta
razão os índices dessa pesquisa são, geralmente, maiores que os encontrados pela pesquisa do IBGE.

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ele “o governo Lula [...] conseguiu desmobilizar os movimentos sociais ao inte‑
grá‑los à gestão burocrática do aparato de Estado em nome da aparente realização
das bandeiras históricas desses movimentos” (Idem, p. 21).
A cooptação de lideranças do movimento social, historicamente ligadas à
trajetória do Partido dos Trabalhadores, possibilitou ao governo Lula efetuar as
contrarreformas neoliberais inconclusas da “era FHC”, como a previdenciária e a
da educação. A desmobilização resultante desse movimento praticamente “calou”
as oposições ao governo e conferiu‑lhe um “ar de consenso” que é próprio dos
vários episódios brasileiros de “revolução passiva”.
Se é óbvio que as “revoluções passivas” retardaram historicamente o ­processo
de constituição da identidade de classe dos trabalhadores brasileiros, como parti‑
cularidade de nossa formação social (cf. Item 1), após mais de vinte anos de regime
democrático vemos que continuam sendo utilizadas para reforçar essa “passivização”.
Veja‑se, por exemplo, como o acesso à renda (por meio das políticas de transferên‑
cia de renda) e ao consumo (por meio de medidas como a redução do IPI) ao mesmo
tempo em que atendem parcialmente a interesses dos trabalhadores, da classe média
e do “lupem”, alimentam o “velho” clientelismo que ronda o Estado brasileiro.
Este, por sua vez, assegurou, além da popularidade e recondução do projeto
petista no poder, o atendimento de interesses das classes dominantes, pois essas
medidas repercutem também do ponto de vista macroeconômico, retroalimentando
a produção e a atração de capital estrangeiro ao país.
Desse modo, vislumbra‑se como o “neodesenvolvimentismo” opera, pela via
do “transformismo”, a atualização de uma das mais antigas obsessões do capitalis‑
mo: “diluir” ideologicamente (e, por isso, de forma aparente) os antagonismos
entre as classes sociais. O que é mais grave atualmente é que essa tentativa ocorre
num momento de extrema complexidade ontológica da classe trabalhadora, ou seja,
complexidade de suas “formas de ser”, dada a diversificação de suas inserções no
mundo do trabalho, conforme aponta Alves (2005, p. 252):

o poder sindical da classe operária organizada é debilitado [...] em sua dimensão ob‑
jetiva, com a “implosão” do mundo do trabalho. [...] Surgiu, a partir daí, uma nova
classe operária mais diversificada e mais segmentada, recalcitrante às práticas sindicais
convencionais.

Pochmann, enquanto presidente do Ipea e porta‑voz recente desse posiciona‑


mento, afirmou essa “convergência” em entrevista concedida à revista Caros Ami‑
gos em 2010. Diz ele que:

444 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 430-449, jul./set. 2012
No meu modo de ver há sinais para uma nova convergência política. Aqueles segmen‑
tos que eram partícipes da macroeconomia financeira [...] estão cedendo gradualmen‑
te para o investimento produtivo e variado. Os pobres estão vivendo melhor, mas os
ricos estão extremamente bem e não têm do que reclamar. [...] e é compatível nesse
sistema você fazer esta mudança, sem expropriação, sem radicalismo. Você faz esta
negociação, uma frente que une os mais diferentes lados. (p. 15)

Parece‑me claro, portanto, que uma análise das particularidades da “questão


social” no capitalismo brasileiro contemporâneo aponta para a reposição de alguns
de seus traços históricos: a superexploração do trabalho (pela via da precariedade
das ocupações) e a passivização das lutas sociais (pela via do “transformismo”).
Captar essas determinações na análise da atual conjuntura pode facilitar a constru‑
ção de estratégias profissionais e políticas que evitem a “armadilha”, tão presente
nas instituições, de uma “assistencialização” da nossa intervenção, conforme deli‑
neado a seguir, à guisa de conclusão.

Considerações finais
Para finalizar este texto gostaria de pontuar, ainda que brevemente, alguns
nexos entre as análises levantadas aqui e os desafios colocados ao trabalho dos
assistentes sociais no Brasil contemporâneo.
Se o que se disse precedentemente faz algum sentido, evidencia‑se como mais
uma mistificação da “era” Lula da Silva o fato de o Brasil ocupar hoje a sexta po‑
sição no ranking da economia mundial. O crescimento econômico conseguido com
as medidas ortodoxas de combate à inflação e manutenção da estabilidade da moe‑
da — base da política macroeconômica herdada de FHC e mantida na “era” Lula
da Silva — não se traduziu, até o momento, em redução da desigualdade social.
Conforme exposto anteriormente, apesar da redução das taxas de desemprego
e de uma “pretensa” mobilidade social ascendente, não houve nenhuma regressão
estrutural na modalidade de exploração do trabalho imperante no país. Prova disso
é que o relatório do 20º Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
(PNUD, 2010) ao criar um novo indicador, o Índice de Desenvolvimento Humano
Ajustado à Desigualdade (IDH‑D), aponta que o Brasil obteve o índice de 0,629;
ou seja, continuamos com mais desigualdade que desenvolvimento humano, já que
o índice só melhora ao atingir valores superiores a 0,8.
O que explica essa contradição é, sem dúvida, a conjugação entre a superex‑
ploração do trabalho (acentuada com o processo crescente de desassalariamento) e

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das dificuldades de enfrentamento desse quadro pelos sujeitos políticos organizados
— cuja “passivização” ocorre seja pelo assistencialismo dos programas de transfe‑
rência de renda, seja pela cooptação. Por essa razão é que se torna evidente a reatu‑
alização dessas particularidades da “questão social” intimamente relacionadas com
as características que o capitalismo assume em nossa formação sócio‑histórica.
Tendo presentes esses elementos, gostaria de sublinhar a grande contribuição
que o trabalho cotidiano dos assistentes sociais com os mais diversos segmentos
populacionais pode dar para desentranhar as mediações necessárias ao processo
contínuo de particularização da “questão social” no Brasil. Na setorialidade do
mercado de trabalho que nos absorve o aspecto fundante da “questão social”, o
trabalho e suas modalidades de exploração, tende a ficar obscurecido. Nas palavras
de Netto,

Tomar a “questão social” como problemática configuradora de uma totalidade pro‑


cessual específica é remetê‑la concretamente à relação capital/trabalho — o que sig‑
nifica liminarmente, colocar em xeque a ordem burguesa. Enquanto intervenção do
Estado burguês no capitalismo monopolista, a política social deve necessariamente
constituir‑se em políticas sociais: as sequelas da “questão social” são recortadas co-
mo problemáticas particulares (o desemprego, a fome, a carência habitacional, o
acidente de trabalho, a falta de escolas, a incapacidade física etc.) e assim enfrentadas.
(1992, p. 28)

Embora a setorialidade, assim entendida, tenha um componente estrutural que


não se supera apenas pela ação de um agente profissional, é absolutamente factível
recuperar essa perspectiva de totalidade no plano do conhecimento que define as
estratégias de nossos projetos de trabalho.
Cabe‑nos articular a compreensão de como se plasmam as diferentes formas
do trabalho e do não trabalho no Brasil contemporâneo, já que essa mediação é,
sem dúvida, determinante na vivência das demais expressões da “questão social”
enfrentadas institucionalmente. Nesse sentido, é preciso forçar, também institucio‑
nalmente, as interfaces entre assistência e trabalho, estando atentos para não refor‑
çar ideologicamente a contramão do projeto ético‑político que seria subscrever a
focalização em detrimento da universalidade, já que isso implica uma concepção
igualmente reduzida da “questão social”. Quanto a isso Netto (2007, p. 38‑39)
adverte que

O elenco de objetivos do Serviço Social tem sido intencional e acintosamente mini‑


mizado mediante a centralização das suas funções no plano assistencial. Esta centra‑

446 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 430-449, jul./set. 2012
lização [...] opera a efetiva redução do Serviço Social à “profissão da assistência”. [...]
É evidente que esta redução só é possível porque encontra sólidos suportes no corpo
profissional.

Esses suportes à “assistencialização” referidos pelo autor, que subscrevem a


perspectiva focalizada de enfrentamento da “questão social”, são constituídos por
setores da categoria profissional que se diferenciam no interior do projeto ético‑po‑
lítico. Logo, é preciso estar atento para as disputas a ser travadas fora da profissão,
mas também em seu interior.
Nesse sentido, nunca é demais sublinhar que essa diversidade, apesar de
legítima, precisa ser identificada e discutida, uma vez que aponta para estratégias
que reduzem parte dos princípios defendidos a certo possibilismo prático (Idem).
O principal risco aí envolvido é o de cairmos na “armadilha” do “transformismo”,
tal qual os demais setores de oposição neutralizados na “era” Lula da Silva e, com
isso, termos obscurecida nossa capacidade crítica ante esse contexto de tantas
mistificações.

Recebido em 13/6/2012  ■   Aprovado em 19/6/2012

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O negro no contexto das novas
estratégias do capital:
desemprego, precarização e informalidade
Black people in the context of the new strategies of the capital:
unemployment, precariousness and informality

Tereza Cristina Santos Martins*

Resumo: O presente artigo parte do entendimento de que apesar da


crise e das transformações operadas no mundo do trabalho atingirem
de modo geral a “classe‑que‑vive‑do‑trabalho”,1 as novas estratégias
de produção e subordinação do trabalho ao capital não afetam igual‑
mente brancos e negros. Nesse sentido, o seu objetivo é debater a
condição de desigualdade do negro no contexto das novas estratégias
de produção e subordinação do trabalho ao capital. Trata‑se de identi‑
ficar, por meio dos indicadores das desigualdades raciais, a desigual‑
dade do trabalhador negro no mercado de trabalho brasileiro.
Palavras‑chave: Desigualdade racial. Desemprego. Trabalho precário
e informal.

Abstract: This paper Takes the view that despite the crisis and the transformations wrought in the
work world in general reach the “class‑who‑livres‑of‑work”, the new production strategies and subor‑
dination of labor to capital is not equally affect and blacks. In this sense, the goal is to discuss the
condition of inequality in the black in the context of new production strategies an subordination of
labor to capital. It is identified by the indicators of racial inequality, the inequality of black work.
Keywords: Racial inequality. Unemployment. Precarious employment, informal employment, the labor
market.

* Doutora em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambuco/Recife, Brasil; membro do


Grupo de Pesquisa Trabalho, Questão Social e Gênero da UFS. E‑mail: trzamartins@gmail.com.
1. Antunes (1997).

450 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 450-467, jul./set. 2012
Apresentação

M
esmo considerando o caráter estrutural da crise capitalista e, conse‑
quentemente, os problemas estruturais por ela gestados, e, ainda,
tendo presente que o desemprego nesse contexto — como um dos
mais importantes problemas contemporâneos — independe de re‑
quisitos como qualificação e escolarização da força de trabalho, ainda assim obser‑
va‑se que o desemprego, as ocupações precárias e informais têm afetado mais os
trabalhadores negros do que os brancos. Desta forma, dar conta do debate, o pre‑
sente artigo está dividido em três seções. A primeira analisa, em traços largos, a
crise do capitalismo e as mudanças ocorridas na sociedade do trabalho. Na segun‑
da seção busca‑se, a partir de elementos históricos da formação social do Brasil,
compreender a discriminação racial como uma marca impressa na constituição do
capitalismo brasileiro, compreendendo, ainda, a discriminação racial associada às
determinações econômicas da lógica capitalista. Nesse sentido, busca‑se levantar,
na gênese do capitalismo brasileiro, os elementos que ajudam a pensar o desem‑
prego, bem como as inserções da força de trabalho negra nas ocupações precárias
e informais. Finalmente, a terceira seção traz a análise percentual de desemprego
da população negra (preta e parda) em relação à população branca, bem como as
suas inserções nas ocupações precárias e informais desencadeadas pelas antigas e
novas estratégias de produção e valorização do capital.

Crise e mudança na sociedade do trabalho


A crise do sistema capitalista e as mudanças no mundo do trabalho nunca, na
história do desenvolvimento capitalista, afetaram tão profundamente a sociedade e
a “classe‑que‑vive‑do‑trabalho” (Antunes, 1997) quanto no período recente. A rigor,
as transformações no mundo do trabalho estão relacionadas à crise instaurada no
capitalismo mundial. A fase expansionista do capitalismo maduro (Mandel, 1982)
começa a dar sinais de esgotamento em fins dos anos 1960. Na verdade, do ponto
de vista econômico, a situação excepcional envolvendo a economia de guerra e a
ascensão do fascismo esteve na base dessa terceira onda de expansão da história
do capital (os anos de ouro). Por outro lado, os fatores políticos vinculados ao
contexto da Guerra Fria e o recente Estado socialista possibilitaram a valorização
do Welfare State. Contudo, o capitalismo “maduro” cumprindo uma tendência
inerente a sua lógica, inicia uma de suas crises nos anos 1970.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 450-467, jul./set. 2012 451
É preciso observar, no entanto, que já nos fins da década de 1960 a busca
contínua de extração da mais‑valia conduziu a um deslocamento do trabalho vivo
pelo trabalho morto. A automação intensificou ainda mais as contradições, a exem‑
plo da “socialização crescente do trabalho agregado à redução do emprego e à
apropriação privada; da produção de valores de uso e a realização de valores de
troca; o processo de trabalho e o de valorização” (Mandel, 1982, p. 138‑139).
Diante da incapacidade do sistema de manter a reprodução da mais‑valia e de con‑
ter as contradições que lhes são inerentes, tornou urgente instaurar um processo
heurístico de reconversão da ordem do capital em nível internacional, ou seja,
instaurar a acumulação flexível (Harvey, 1996).
O que se colocou na base da crise clássica de superprodução dos anos de 1970
foi o desemprego, provocado pela adoção de técnica de produção intensiva e eco‑
nomizadora de mão de obra; a isso se somam a alta dos preços de matéria‑prima,
a queda do volume do comércio mundial e um poder de organização da classe
trabalhadora. Todos esses elementos contribuíram para a queda da taxa média de
lucro. Além disso, a inflação provocou a busca de valores‑refúgio pela via da espe‑
culação financeira. Por sua vez, a expansão do crédito em meio a um processo in‑
flacionário resultou na aceleração dos processos de endividamento, tanto dos seto‑
res privados quanto dos públicos (Mandel, 1990, p. 39).
Para fazer frente à crise que se instaura, nos anos 1980, a reação burguesa à
corrida tecnológica em busca do diferencial de produtividade do trabalho, como
fonte de superlucros (Mandel, 1982), acaba gerando o desemprego. Desemprego
que, diferentemente do fenômeno vivenciado nas fases anteriores do desenvolvi‑
mento capitalista, de acordo com Mészáros (2006), diz respeito a um problema de
ordem estrutural e mesmo nos países chamados de “capitalismo avançado”, a
exemplo do Japão, a deterioração das condições de trabalho não permite que nem
a falsa ideia de “flexibilidade” como saída redentora oculte as sérias implicações
decorrentes da expansão e da acumulação do capital. É diante da essência desse
fenômeno que o autor atribui o significado de trabalho temporário como precariza‑
ção, embora se pretenda empregar‑lhe o termo “emprego flexível”.
Portanto, estamos diante de um fenômeno que surgiu como característica
essencialmente necessária e já deteriorada dessa crise estrutural, cujos desdobra‑
mentos sob as condições de desemprego se apresenta em um

problema que não se restringe [...] [aos] trabalhadores não qualificados, mas atinge
também ...[os] altamente qualificados. [...] Da mesma forma, a tendência da amputação
“racionalizadora” não está mais limitada aos “ramos periférico de uma indústria obso‑

452 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 450-467, jul./set. 2012
leta”, mas [os] mais desenvolvidos e modernizados setores da produção. Portanto, não
estamos mais diante dos subprodutos “normais” e voluntariamente aceitos do “cresci‑
mento e do desenvolvimento”, mas de um movimento em direção a um colapso; nem
tampouco diante de problemas periféricos dos “bolsões de subdesenvolvimento”, mas
diante de uma contradição fundamental do modo de produção capitalista como um
todo, que transforma até mesmo as últimas conquistas do “desenvolvimento”, da “ra‑
cionalização” e da “modernização” em fardos paralizantes de subdesenvolvimento
crônico. E o mais importante de tudo é que quem sofre todas as consequências dessa
situação não é mais a multidão socialmente impotente, apática e fragmentada das
pessoas “desprivilegiadas”, mas todas as categorias de trabalhadores qualificados e não
qualificados: ou seja, [...] a totalidade da força de trabalho da sociedade. (Mészáros,
2009, p. 1005)

Nesse sentido, o desemprego estrutural se coloca como característica domi‑


nante dessa fase do desenvolvimento histórico do capitalismo. Essa afirmação se
sustenta no fato de que existem mais de 40 milhões de desempregados nos países
industrialmente mais desenvolvidos. A Europa possui um contingente com mais de
20 milhões, a Alemanha ultrapassou a marca dos 5 milhões. A Índia encontra‑se
com não menos do que 336 milhões de pessoas desempregadas. A intervenção do
FMI aprofunda ainda mais as condições dos desempregados. Nos antigos países
pós‑capitalistas, da Rússia à Hungria o desemprego é maciço. Na Hungria existem
cerca de 500 mil desempregados. Na Federação Russa a situação é igualmente ruim.
O Vietnã e mesmo a China não se colocam como exceções. Embora com uma
economia seja especial e politicamente controlada, estima‑se que existam 268
milhões de desempregados (Mészáros, 2006).
Não por acaso, a configuração dessa fase de desenvolvimento faz com que o
sistema capitalista se constitua de uma rede fechada de inter‑relações e de interde‑
terminações por meio da qual não é possível vislumbrar saídas paliativas e parciais
ao desemprego. Ao contrário, a “globalização”, como uma falsa ideia de expansão
e da integração do capital, como um fenômeno supostamente novo e destinado a
responder a todos os problemas, não passa de um “modo antagônico pelo qual o
avanço produtivo e o controle do metabolismo social lançam parcela crescente da
humanidade na categoria de trabalho supérfluo” (Idem, p. 31)
Nessa direção, o desenvolvimento do mais dinâmico sistema produtivo da
história acaba por criar um número cada vez maior de pessoas supérfluas, sem com
isso torná‑las supérfluas como consumidores. O que há de novo no fenômeno ­atual
de desemprego do sistema globalmente integrado, segundo Mészáros (2006), “é
que as contradições ocorridas em qualquer uma de suas partes específicas compli‑

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 450-467, jul./set. 2012 453
cam e agravam os problemas de outras partes e, consequentemente, de sua totali‑
dade” (p. 32). Assim, a mesma necessidade de diminuir custos significa a mesma
necessidade de produzir desemprego e vice‑versa. Essa se constitui em “imperati‑
vos antagônicos do capital, da busca de lucro e da acumulação, aos quais [o capital]
não pode renunciar e, [muito menos] pode se restringir segundo princípios racional
e humanamente gratificantes” (Idem).
O complexo processo sinalizado até agora não rebateu apenas no plano eco‑
nômico e político. Repercutiu e serviu de base de sustentação, no plano ideocultu‑
ral, o debate acerca do pretenso fim da história e do capitalismo. Nesse sentido,
cabe, ao menos sinteticamente, lançar alguns elementos que contribuam na desmis‑
tificação dessa afirmação, enquanto detentora do caldo ideocultural pós‑moderno.
Segundo Teixeira (1996), a ideia de que a humanidade teria atingido o topo
do processo histórico, associada a uma consciência de que a modernidade teria
envelhecido, levou teóricos a afirmar o desaparecimento das determinações que
sustentam a forma capitalista, tanto de organização da produção quanto da distri‑
buição da riqueza social produzida.
De fato, os princípios padronizados, especializados, sincronizados, centrali‑
zados e maximizados, que sustentaram e organizaram a produção e a distribuição
da riqueza — influenciando as diversas dimensões da vida — sofreram profundas
transformações (Teixeira, 1996). No entanto, Teixeira (1996) afirma que a ideia do
fim do capitalismo parte da “consciência imediata da práxis utilitária para construir
seus conceitos e juízos sobre a realidade”. Na verdade, segundo o autor, é preciso
avançar para além dessa consciência, retomando o resultado das análises, no sen‑
tido de investigar para perguntar se as transformações ocorridas no sistema produ‑
tivo significam o fim do capitalismo como “sistema articulador e definidor da
produção, do consumo, da circulação (da troca) e da distribuição” (Idem, p. 28).
Aqui se impõe a necessidade de compreender as formas de produção que emergiram
na história do capitalismo, como exigência a valorização do capital.
É com a grande indústria que o capitalismo superou as barreiras que o impe‑
diam de dominar o trabalho. De fato, segundo Teixeira (1996), a partir da grande
indústria, as máquinas passam a empregar o trabalhador. O trabalho virtuoso foi
destruído e, assim, o trabalho abstrato ganhou realidade “tecnicamente tangível”,
ou seja, a nivelação geral das operações possibilitou deslocar os trabalhadores de
uma máquina para outra, sem que com isso demandasse treinamento especial.
Ademais, a produção de máquinas, equipamentos e instalações etc. possibilitou a
substituição do trabalho vivo pelo trabalho morto, dando‑lhe, consequentemente,
condições para controlar o nível e o movimento dos salários.

454 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 450-467, jul./set. 2012
A despeito dessa superação, “não permite ao capital se afirmar como sujeito
absoluto” (Idem, p. 68). Mesmo porque, para dominar, o capital desenvolve as
forças produtivas, e uma vez realizado tal feito, “nega as bases de sua própria va‑
lorização: o trabalho vivo como criador de valor” (p. 68). Nesse sentido, as trans‑
formações operadas na sociedade do trabalho, ao contrário de uma indicação do
fim do capitalismo, como quer Habermas e Giannoti, dizem respeito nada mais que
à busca de novas formas de produção de mercadorias, sem as quais o sistema não
tem como sair de sua crise estrutural.
É nesse contexto que o desemprego, enquanto necessidade impressa pela
busca de “diminuição dos custos” e da acumulação, se coloca como necessidade
do capital, ou seja, a rigor

Ou o capital mantém seu inexorável impulso em direção aos objetivos de autoexpan‑


são, não importa quão devastadoras sejam as consequências, ou se torna incapaz de
controlar o metabolismo social da reprodução. [...] as soluções parciais não serão
capazes de prestar sequer a mais superficial atenção aos sofrimentos humanos, até
porque é a primeira vez na história que a dinâmica [...] do controle social metabólico
autoexpansivo [que o] sistema expele [...] uma maioria esmagadora de seres humanos
do processo de trabalho. Este é o sentido profundamente perturbador da “globalização”.
(Mészáros, 2006, p. 32)

A breve reflexão acerca dos elementos que se colocam no debate da crise e


das transformações desencadeadas a partir da necessidade de valorização do capi‑
tal levanta algumas questões fundamentais para pensar os fenômenos advindos
desse processo na realidade das sociedades. A primeira diz respeito à necessidade
de compreendê‑los a partir das particularidades e dos processos sócio‑históricos
das sociedades. No caso brasileiro, entendê‑los a partir das particularidades presen‑
tes desde a formação social do país. O segundo diz respeito aos impactos relativa‑
mente desiguais desses fenômenos na sociedade como um todo e, particularmente,
nas classes sócias e no interior destas. No caso em análise, como esses fenômenos
atingem desigualmente a classe trabalhadora negra e branca.
Nesses termos, antes de avançarmos na análise acerca dos fenômenos que
emergem com as novas estratégias de produção e subordinação do trabalho ao
capital, convém realizar uma análise sobre o processo de formação social brasilei‑
ro, priorizando a constituição do capitalismo no país, sem a qual é impossível en‑
tender o porquê de, nessa fase de desenvolvimento do sistema capitalista, ser a
força de trabalho negra a mais atingida pelos fenômenos: desemprego, trabalho
precário e informal.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 450-467, jul./set. 2012 455
O mercado de trabalho em formação: a construção do “lugar” do negro
Com o fim do trabalho escravo e da proclamação da República, o monopólio
do poder, o controle sobre o Estado e o domínio político passam a ser exercidos
pelos grandes proprietários. Diante dos seus interesses econômicos e políticos, o
índio, o negro e mesmo o branco nacional eram questões que a nascente burguesia
remetia a último plano. Isso porque as pretensões de redefinição social e cultural
do trabalho conduziam‑se no sentido de uma política de valorização do imigrante,
num processo em que o negro ao entrar nas novas condições e relação de produção
vê‑se profundamente bloqueado pela ideia de trabalho assalariado associado a uma
força de trabalho estrangeira e branca. Nesse sentido,

o “estrangeiro” aparecia, aí, como a grande esperança nacional de progresso por


saltos. Nos demais setores, imperavam as conveniências e as possibilidades, escolhi‑
das segundo um senso de barganha que convertia qualquer decisão em “ato puramen‑
te econômico”. Desse ângulo, onde o “imigrante” aparecesse, eliminava fatalmente o
pretendente “negro” ou “mulato”, pois entendia‑se que ele era o agente natural do
trabalho. (Fernandes, 1978, p. 27)

Numa conjuntura em que o processo de constituição capitalista se efetivava,


o trabalho assalariado se coloca numa direção essencialmente deformada e exclu‑
dente, de valorização do trabalhador branco (o imigrante europeu) como símbolo
da redefinição social e cultural do trabalho no país. Daí porque a constituição do
capitalismo no país, ao imprimir a exploração como condição fundamental da ló‑
gica capitalista, imprimiu nessa lógica a discriminação racial como insígnia do
modo de produção baseado no trabalho livre. Sem dúvida, o que estava em jogo,
segundo Ianni (1991), era “redefinir o trabalhador para redefinir a força de trabalho”
(p. 25). Tanto assim que o arianismo que pautava o processo de revolução burgue‑
sa partia da tese da luxúria e da preguiça do negro, do índio e até mesmo do branco
nacional. O que está posto nesse processo é a busca, por parte da burguesia emer‑
gente, das melhores e diferenciadas condições para a produção e a ampliação do
lucro. Tanto que

o período subsequente de domínio republicano teve consequências catastróficas para


a população negra, que, particularmente no estado de São Paulo, sofreu uma exclusão
tripla das camadas dominantes da vida nacional. As práticas formais e informais da
República negaram a participação política a praticamente toda população. O esforço
para refazer o Brasil à imagem da Europa, e a doutrina do branqueamento, excluíam

456 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 450-467, jul./set. 2012
intencionalmente os afro‑brasileiros desta nova sociedade republicana que estava se
estabelecendo. E as políticas trabalhistas do governo do estado de São Paulo barraram
a participação dos afro‑brasileiros na economia que rapidamente se desenvolvia.
(Andrews, 1998, p. 365‑366)

Os efeitos desse processo de impressão da discriminação racial na lógica


capitalista vão ser evidenciados no período anterior à industrialização e urbanização
no país (décadas de 1940 e 1950), quando a abundância de força de trabalho se faz
notar no contexto brasileiro. Esse exército de desocupados se vincula ao processo
de transição do escravo ao trabalho livre, período em que grande parte da população
de ex‑escravos e seus descendentes passaram a se constituir em excedente para as
necessidades médias do capital agrário (Pochmann, 2008).
Essa aproximação chama a atenção para o fato de que o preconceito racial no
Brasil acabou definindo “o lugar” do negro no mercado de trabalho, ou seja, o
negro passa a ser visto preponderantemente na desocupação, na informalidade e
nas ocupações com precárias relações de trabalho. Assim, fazendo‑se evidentes no
cenário brasileiro após a constituição do trabalho livre, a desocupação e o trabalho
precário, com que o negro se depara, se constituem expressões das estratégias de
produção e subordinação do trabalho ao capital daquela fase histórica do capitalis‑
mo. Enquanto possuidor da mercadoria força de trabalho, os negros, a partir da
transformação da ordem social, começam a competir com a força de trabalho imi‑
grante. Por sinal, situação decorrente da política desenvolvida pela elite e pelo
Estado com a finalidade de integração econômica, mediante a qual se volta para o
“branqueamento da população brasileira”, resultando, como observa Pochmann
(2008), na “marginalização do negro” no mercado de trabalho emergente.
Fernandes (2007) observa que somente a partir da década de 1930, com o
desenvolvimento urbano e a expansão agrícola, o negro passa a se inserir no mer‑
cado de trabalho, embora essa inserção esteja associada às atividades mais degra‑
dantes e, obviamente, às ocupações rejeitadas pelo trabalhador branco. Nesse
contexto, a transição capitalista no Brasil se constituiu em um processo de ­profundas
transformações. Iniciada na década de 1930, a industrialização, que se caracteriza
inicialmente por ela restringida (1933‑55), passa a um novo padrão de acumulação
(industrialização pesada) somente a partir de 1956 (Draibe, 1985). A despeito ­dessas
transformações operadas, o lugar do negro será mantido predominantemente no
“exército dos desocupados” e/ou nas ocupações irregulares e degradantes (Martins,
2012). Portanto, o “lugar” dos negros passa a ser aquele relegado pelos não discri‑
minados racialmente.

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Daí porque as desigualdades sociais e raciais devem ser buscadas na lógica
capitalista, nas relações de produção, na estrutura de classes e, consequentemente,
na forma de organização do poder no interior da formação social brasileira. É ine‑
rente ao modo de produção capitalista a produção e reprodução das desigualdades.
É intrínseco também a esse modo de produção produzir desigualdade no interior
das desigualdades. Daí porque as relações capitalistas não diminuem a distância
entre todos os trabalhadores, mesmo como “cidadãos” da mesma classe. As relações
de produção reproduzem as desigualdades, tanto as que propiciam a alienação do
produto do trabalho e do trabalhador, quanto aquelas que no interior dessas relações
fomentam e constroem a discriminação racial (Ianni, 1988). Não por outro motivo,
as mediações entre determinações do racismo e determinações da sociedade de
classes são fundamentais para dar conta das sequelas que a articulação dessas de‑
terminações deixaram na classe trabalhadora negra no país.
Parece‑me evidente, portanto, que as desigualdades do negro no mercado de
trabalho brasileiro estão correlacionadas com as crescentes estratégias de produção
e subordinação do trabalho ao capital, ou seja, com a busca cada vez mais intensa
de valorização do capital e extração de mais‑valia. Contudo, se entrelaçam os ele‑
mentos raciais que, a partir da dinâmica das relações sociais do capitalismo brasi‑
leiro, vão evidenciando os mecanismos que constroem e reconstroem — embora
de forma velada e sob a égide da democracia racial — os elementos constitutivos
da discriminação e da desigualdade racial no Brasil.

O negro no mercado de trabalho brasileiro: desemprego,


trabalho precário e informal
No Brasil, a reestruturação produtiva tem início nos anos 1980, com a retração
de custo, mediante a redução da força de trabalho, via organização da produção,
redução do número de trabalhadores, intensificação da jornada de trabalho, círculos
de controle de qualidade total (CCQs) e dos sistemas de produção just‑in‑time e
Kanbam. No entanto, é na década de 1990 que esse processo se intensifica median‑
te a intensificação da lean production, dos sistemas just‑in‑time e Kanban, do pro‑
cesso de qualidade total, das formas de subcontratação e terceirização da força de
trabalho, da transferência de plantas e unidades produtivas (Antunes, 2006, p. 18).
Além dessas transformações, evidencia‑se um processo de descentralização
produtiva, no qual indústrias, a exemplo da têxtil, deflagram um movimento de

458 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 450-467, jul./set. 2012
mudança geográfica, procurando níveis mais rebaixados de remuneração da força
de trabalho e incentivos fiscais advindos do Estado (Idem).
As sequelas desse processo de acumulação capitalista se evidenciam no de‑
semprego estrutural, a partir do qual observa‑se um grande enxugamento da força
de trabalho que, combinado às mutações sociotécnicas no processo produtivo e à
organização do controle social do trabalho, tem acarretado a flexibilização e a
desregulamentação dos direitos sociais, principalmente via terceirização.
Esses complexos processos se somam ao contexto de desregulamentação do
comércio mundial, que, no país, desencadeou, sobretudo na indústria automobilís‑
tica, uma reestruturação produtiva via inovação tecnológica, introdução de mudan‑
ças organizacionais, acompanhado de relativa desverticalização, forte subcontrata‑
ção e novas fábricas de tamanho reduzido, estruturas com base em células
produtivas, além da ampliação de redes de empresas fornecedoras.
No mesmo processo, no setor financeiro os trabalhadores foram atingidos
pelas mudanças nos processos e rotinas de trabalho, impulsionadas pela tecnologia
de base microeletrônica e pelas mutações organizacionais. As políticas gerenciais
são viabilizadas por meio de programas de “qualidade total” e “remuneração va‑
riável”. Assim, as práticas flexíveis de contratação da força de trabalho nos bancos
— mediante a ampliação significativa da terceirização, da contratação de trabalha‑
dores por tarefas ou em tempo parcial, da introdução dos call centers — imprimiram
maior precarização dos empregos e redução dos salários, aumentando o processo
de desregulamentação do trabalho e da redução dos direitos sociais para os empre‑
gados em geral e, de modo mais intenso, para os terceirizados (Antunes, 2006).
Nesse contexto de desemprego estrutural e crescentes formas precárias de
contratação, muitos trabalhadores dos diversos setores foram compelidos a desen‑
volver uma polivalência, além de terem aumentado de forma extenuante a jornada
de trabalho.
A terceirização, por sua vez, ao atingir fortemente alguns setores da produção,
desencadeou uma ampliação do trabalho em domicílios, nas pequenas unidades
produtivas. Esse processo, além de alterar o espaço familiar e as condições de vi‑
vência, vem provocando uma degradação dos direitos sociais dos trabalhadores, a
exemplo do descanso semanal e remunerado, férias, 13º salário, aposentadoria.
Ademais, evidencia‑se uma ampliação do trabalho infantil, o que para Mészáros
(2006) constitui um retorno da mais‑valia absoluta.
Nesse sentido, Mészáros (2006) observa que a precarização do trabalho, ex‑
pressa no mito da flexibilidade, está geralmente ligada à autoritária legislação an‑
titrabalho, que estabelece lei tendencial da equalização descendente da taxa de

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 450-467, jul./set. 2012 459
exploração diferencial. Para o autor, trata‑se da circunstância necessária à existên‑
cia da globalização nas relações de produção e de distribuição. A equalização
descendente das taxas de exploração diferenciais afeta cada um dos países capita‑
listas avançados, mesmo os mais ricos. O que torna a situação grave é que a preca‑
rização e a insegurança avançam pelos quatro cantos do mundo.

[...] o trabalho sem garantias mal pago está se alastrando como uma mancha de óleo,
ao passo que mesmo o trabalho mais estável está sofrendo uma pressão em direção à
intensificação sem precedente à plena disponibilidade para uma submissão aos mais
diversificados horários de trabalho. (Trentacinque ore della mostra vita, Il manifesto,
13/2/1998, p. 5, apud Mészáros, 2006, p. 37)

Em se tratando das novas formas de trabalho, Vasapollo (2006) observa que


o trabalho atípico e a precarização se colocam como elementos estratégicos domi‑
nantes do capital no paradigma pós‑fordista. Nesse sentido, a flexibilização, em vez
de aumentar os índices de ocupação, impõe a aceitação de salários reais mais baixos
e em piores condições. Nesse contexto de reforço às novas formas de ofertas de
trabalho difunde‑se o trabalho irregular, precário e sem garantias.
Apesar da mundialização do desemprego e das formas precárias de trabalho
é preciso observar que, embora a flexibilidade, o desemprego e a precarização sejam
frequentemente associados à fase da acumulação flexível do capital, no Brasil,

tal questão aparece com traços específicos que lhe dão complexidade ainda maior. [...]
É importante lembrar que em nosso país a dualidade e a heterogeneidade do merca‑
do de trabalho são problemas histórico‑estruturais, que já estavam presentes antes
mesmo da crise que atingiu a economia mundial como um todo.
Assim, os problemas da “modernidade”, decorrentes do novo paradigma tecnológico,
da abertura dos mercados e da globalização financeira, se superpõem aos problemas
do atraso (alto grau de informalização e de precariedade das relações de trabalho,
desigualdade social, deficiências do sistema de proteção social, baixíssimo nível de
escolaridade da força de trabalho). [...]
Esses fatores, num quadro de profundo atraso nas relações entre capital e trabalho,
ajudam a entender o fato do país nunca ter tido, no passado, políticas públicas de
emprego. Na verdade, o próprio conceito de política social tem existência recente em
nosso país, pois durante décadas acreditou‑se que a melhoria das condições de vida
da população e do perfil de distribuição de renda seria uma consequência direta e
inevitável do crescimento econômico. [...]
Destaca‑se o grau de complexidade dos problemas associados ao mercado de trabalho
no Brasil e, sobretudo, a dependência do enfrentamento desta questão ao equaciona‑

460 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 450-467, jul./set. 2012
mento de inúmeros problemas no plano macroeconômico. (Azeredo, 1998, p.125‑126;
grifos meus)

Nesse sentido, a crise capitalista e a reação burguesa só intensificaram um


processo já presente no regime de trabalho brasileiro — evidentemente resguardan‑
do as devidas especificidades. Contudo, é preciso sinalizar que embora esse pro‑
cesso tenha desencadeado efeitos sobre a classe trabalhadora, as novas estratégias
de produção e subordinação do trabalho ao capital não atingem igualmente traba‑
lhadores brancos e negros. Ao contrário, a histórica condição de precarização e
informalidade do trabalho são reforçadas como o processo de crise e reestruturação
produtiva. Nesse sentido, as “novas” formas de enfrentamento da crise, pelo capi‑
tal, só fortaleceram e aprofundaram o desemprego da população negra, bem como
a sua inserção no trabalho precário e informal.
Em 1998, as taxas de desemprego dos negros em seis regiões metropolitanas
do Brasil foram superiores às dos(as) brancos(as). Além disso, entre o total de
desempregados(as), igualmente a proporção relativa dos afrodescendentes era
maior que a sua taxa de participação na PEA, chegando‑se à situação extrema em
Salvador, onde os negros, 79,9% da PEA, correspondiam a 86,4% do total de
desempregados.
Nota‑se que quando os(as) racialmente discriminados não estão compondo as
taxas de desocupação/desemprego, a sua ocupação e/ou emprego, nos distintos
ramos de atividades, está relacionada a uma maior concentração nas funções de
menor prestígio social e econômico. Por exemplo, em 1998, na região metropoli‑
tana de São Paulo, a inserção dos(as) ocupados(as) negros(as) nos diferentes seto‑
res e ramos de atividades econômicas foi relativamente maior “nos serviços domés‑
ticos, na construção civil, na indústria têxtil, nos serviços de limpeza, reformas e
transportes, e menor [...] [na] indústria química, serviços especializados, creditícios,
educação, saúde, administração e utilidade pública” (Paixão, 2003, p. 107).
Esse quadro, mesmo quando se avalia considerando aquela “expulsão de
massas de trabalhadores dos segmentos industriais e não industriais urbanos mais
estruturados” a que se referem Baltar, Dedecca e Henrique (1996, p. 106) no âm‑
bito das mudanças estruturais do pós‑1990, observar‑se‑á que em 1998, “entre os
afrodescendentes, a proporção de negros em funções precárias, em cinco das seis
regiões metropolitanas cobertas pela PED, era superior à casa dos 40%, sendo in‑
variavelmente superior à proporção de brancos na mesma situação” (Paixão, 2003,
p. 108). Portanto, isto confirma que a despeito de a flexibilidade estrutural do regi‑
me de trabalho ter se aprofundado e se expandido na conjuntura que demarca o

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 450-467, jul./set. 2012 461
pós‑1990, esse fato não altera a determinação da raça nos processos que conformam
as relações capitalistas no Brasil.
Exemplo nesse sentido pode ser tomado pela proporção de trabalhadores(as)
racialmente discriminados(as) nas ocupações informais e precárias, consideradas
na PED (Dieese/Inspir, 1999) — analisada por Paixão (2003) —, como postos de
trabalhos vulneráveis.2 Assim, a referida pesquisa deu conta de que a proporção de
ocupados em postos de trabalho mais vulneráveis, segundo cor/raça, em seis regiões
metropolitanas do Brasil, em 1998, é assim representada: em São Paulo 42,2% dos
ocupados nesses postos de trabalho são afrodescendentes (negros e pardos) e 32,2%
são da cor/raça branca e amarela; em Salvador, enquanto 27,3% são da cor/raça
branca e amarela, 46,2% são afrodescendentes; no Recife 44,7% são afrodescen‑
dentes e 36,8% são branca e amarela; no Distrito Federal essa proporção para os
afros chega a 35,4% e 25,2% para a branca e amarela; em Belo Horizonte 40,3%
são afrodescendentes e 31,1%, branca e amarela; em Porto Alegre, enquanto 32,4%
são da cor branca e amarela, 43,3% são afrodescendentes.
Outro exemplo está na histórica inserção das mulheres negras brasileiras no
emprego doméstico. Em 1998, nas seis regiões metropolitanas do país, as negras
continuaram a se concentrar nessa ocupação. Em São Paulo, enquanto 5,9% da PEA
branca está no emprego doméstico, 14,3% nesse emprego é da negra. Em Salvador
são 12,1% da PEA negra e 3,7% da branca. No Recife, 11,5% da PEA negra está
inserida no emprego doméstico, enquanto apenas 6,6% pertencem à PEA branca.
No Distrito Federal o percentual chega a 14,7% da negra e 7,3% da branca. Em
Belo Horizonte, enquanto 13,6% da PEA negra ocupa esse emprego, da branca é
ocupado por 6,5%. Em Porto Alegre, ao contrário da participação de 6,5% da PEA
branca, a negra participa com 16,4% (Dieese/Inspir, 1999, apud Paixão, 2003). Esse
quadro não se alterou. Em 2009, no Brasil, “pretos e pardos são, em maior propor‑
ção, empregados sem carteira [assinada] e representam a maioria dos empregados
domésticos” (IBGE/ PNAD, 2010, p. 230).
Dessa situação de trabalho resulta uma condição de vida diferenciada, seja pelo
rendimento do trabalho abaixo do rendimento dos(as) demais trabalhadores(as)
brancos(as), seja pela não participação no produto do trabalho social. Em 2008,
“entre os 10,0% mais pobres, 25,4% se declararam brancos, enquanto 73,7% eram
pretos e pardos. Essa relação se converte entre o 1,0% mais rico: 82,7% eram pessoas
brancas e apenas 15,0% eram de cor preta e parda” (IBGE/PNAD, 2009, p. 187).

2. A PED toma como postos de trabalho vulneráveis os assalariados que não possuem carteira assinada,
os autônomos que trabalham para o público, os trabalhadores familiares não remunerados e os empregados
domésticos.

462 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 450-467, jul./set. 2012
Paixão e Carvano (2008), ao analisarem o desemprego, no período de 1995 e
2006, tomando como referência a cor ou a raça e o sexo, constataram que do total
de desocupados no país, 60,4% são pretos e pardos, dos quais 22,2% são homens
e 40,2% são mulheres. Na PEA branca, os desocupados chegam a 38,3%, sendo
9,8% de homens e 28,5% de mulheres.
Considerando o fato de que a reação burguesa à crise, no Brasil, fora intensi‑
ficada na década de 1990, observa‑se que enquanto em 1995,3 os pretos e pardos
correspondiam a 48,6% do total dos desocupados, sendo 25,3% homens e 23,3%
mulheres, em 2006,4 54,1% do total de desocupados eram pretos e pardos, dos quais
23,9% eram homens e 30,8%, mulheres. Assim sendo, em onze anos houve um
aumento da população preta e parda desocupada. O quadro de desemprego da po‑
pulação preta e parda se confirma quando observada também por regiões do país.
Nesse sentido, verifica‑se a maior taxa de desocupação no Sudeste (11,3% para
homens e 15,1% para mulheres). No Norte, observa‑se a menor taxa de desocupa‑
ção para os homens (7,3%), e no Sul, para as mulheres (10,4%). Apesar dessas
diferenças, em 2006 as taxas de desempregados da PEA preta e parda foram supe‑
riores à branca.
Se essa fase de desenvolvimento histórico do capitalismo traz como condição
fundamental o desemprego, as novas estratégias de produção e subordinação do
trabalho ao capital desencadeiam ainda uma realidade de precarização e informa‑
lidade que atinge toda a “classe‑que‑vive‑do‑trabalho”. Nesse contexto, embora os
trabalhadores de modo geral sejam afetados, são os grupos que historicamente se
encontravam em desvantagem social que se inserem, em maior proporção, nas
ocupações/trabalhos precários e informais. Daí porque (entre 1995 a 2006) na
condição assalariada com carteira assinada havia uma presença maior dos trabalha‑
dores brancos (36,8%) do que entre pretos e pardos (28,5%); entre os homens
brancos (39,8%) do que os pretos e pardos (33%); e entre as brancas (33%) do que
entre as pretas e pardas (22%). Da mesma maneira, as formas precárias de contra‑
tação são evidenciadas a partir dos indicadores trazidos por Paixão e Carvano (2008),
ou seja, “o emprego assalariado sem carteira assinada era frequente aos homens
pretos e pardos (25,2%) do que aos brancos (17,2%). Entre as mulheres, o percen‑
tual de pretas e pardas era ligeiramente superior (p. 94).
Em se tratando dos trabalhos que garantiam “maior estabilidade” e maior
proteção social, a exemplo do emprego público, observa‑se que este “era pouco

3. Primeiro ano do período considerado pela pesquisa.


4. Último ano do período considerado na pesquisa.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 450-467, jul./set. 2012 463
mais frequente às mulheres brancas (9,9%) do que às pretas e pardas (7,5%) e aos
homens brancos (5,9%) do que aos pretos e pardos (4,6%)” (Idem, p. 94). Em
contrapartida, nas ocupações com maior instabilidade e com menor proteção social,
a exemplo do trabalho doméstico, das pretas e pardas, uma em cada cinco era do‑
méstica (21,8%). Já a probabilidade de encontrar uma mulher branca no trabalho
doméstico era 8,9 pontos percentuais inferior ao de pretas e pardas (Idem).
Nesse sentido, quando observamos os indicadores, o peso relativo do empre‑
go sem a carteira assinada na PEA ocupada assalariada, tanto no setor privado
quanto no público, no período em estudo, era de 25% para a PEA branca, sendo
que nesse grupo de cor era de 27,3% para a masculina e de 23,9% para a feminina.
Inserida nesses mesmos setores, a PEA preta e parda assalariada detém o peso re‑
lativo de 37,6% dos empregados sem carteira assinada. Ao decompor esse grupo
de cor ou raça por sexo, verifica‑se que a PEA masculina corresponde a 40,1%,
enquanto a feminina é de 32,5%. Diante desses dados, quando analisado tomando
como referência a cor ou raça, evidencia‑se que enquanto os pretos e pardos (55,5%)
ocupam, em maior proporção, os trabalhos informais, sem carteira assinada, a
presença relativa de trabalhadores brancos nos empregos privados com carteira
assinada corresponde a 57,1% e no serviço público, nessa mesma condição, equi‑
vale a 57,8% (Paixão e Carvano, 2008).
A análise do trabalho doméstico, como outra modalidade informal de ocupa‑
ção, dá conta de que entre os pretos e pardos chega‑se ao percentual de 75,8% sem
carteira assinada.5 Dentro desse grupo de cor ou raça identifica‑se que 76,1% das
mulheres e 63,6% dos homens encontram‑se na mesma situação, ou seja, não pos‑
suem carteira assinada e, portanto, não possuem os seus direitos trabalhistas garan‑
tidos. Entre os brancos, 68,9% estavam inseridos no trabalho doméstico. Desse
percentual, 57,1% eram homens e 69,8% eram mulheres. Ao observar, dentro do
trabalho doméstico, os(as) trabalhadores(as) que possuíam carteira assinada, 53,8%
eram pretos e pardos, sendo que do total de empregados sem carteira assinada, o
peso dos homens pretos e pardos correspondia a 3,3%, e o das mulheres desse
grupo, a 58,2%.
No que se refere ao trabalho autônomo, observa‑se o fato de que 10,1% dos
brancos possuíam nível superior6 e apenas 1,9% dos pretos e pardos possuía esse

5. Para Paixão e Carvano (2008), “independentemente das clássicas definições da OIT e considerando
as características do mercado de trabalho brasileiro, não parece razoável ocultar situações diferenciadas como
a existência ou não de carteira assinada, no caso do emprego doméstico” (p. 96).
6. Da mesma forma, Paixão e Carvano (2008) observam que “independentemente das clássicas defini‑
ções da OIT e considerando as características do mercado de trabalho brasileiro, não parece razoável ocultar

464 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 450-467, jul./set. 2012
grau de escolaridade. Assim, dos trabalhadores por conta própria 80,7% dos bran‑
cos tinham ensino superior completo, enquanto entre os sem ensino superior com‑
pleto, 52,3% eram pretos e pardos.
A análise dos indicadores que apontam para as ocupações informais permite
concluir que em 2006 a informalidade atingiu relativamente mais a população
preta e parda. Melhor dizendo, enquanto 53,3% da PEA branca estava inserida em
ocupações informais, esse percentual chegou a 65% da PEA preta e parda. Fazendo
o recorte de cor ou raça e de gênero, verifica‑se que 51,1% da PEA branca era
masculina, enquanto 54,1% era feminina. Da PEA preta e parda inserida na infor‑
malidade, 61,5% eram homens e quase 75% eram mulheres.
Os dados acima permitem afirmar que, mesmo considerando o contexto das
novas estratégias de produção e subordinação do trabalho ao capital, os trabalha‑
dores brancos concentram‑se nas ocupações/emprego com registro em carteira de
trabalho, no serviço público e militar, nas atividades por conta própria com ensino
superior concluído e na condição de empregadores. Em relação aos trabalhadores
negros (pretos e pardos), estes ocupam postos do mercado de trabalho sem carteira
assinada, com predominante inserção no emprego doméstico, no trabalho por con‑
ta própria sem ensino superior completo, na construção para benefício próprio, de
produção para o próprio consumo e não remunerado. Aqui se evidencia a condição
de inserção dos trabalhadores negros no mercado de trabalho: com vínculos infor‑
mais e com relações de trabalho extremamente precárias.

Considerações finais
A tentativa de entender os impactos das novas estratégias de produção e su‑
bordinação do trabalho ao capital parece evidenciar que a reação burguesa à crise
estrutural do capital vem afetando em dimensão maior a parcela da classe trabalha‑
dora negra. Essa constatação indica que embora o caráter estrutural das transfor‑
mações no mundo do trabalho ocorra independentemente de fronteira societária,
ele não isenta a possibilidade de impressão das marcas particulares de cada contex‑
to social. No caso do Brasil, o racismo, ao se associar às “novas” relações, tem

situações diferenciadas como [...] a posse ou não do diploma de nível superior, no caso das ocupações autô‑
nomas” (p. 96). Para os autores, “ainda que o diploma não garanta atuação profissional na respectiva forma‑
ção, não deixa de ser um indicativo sobre as diferentes probabilidades de vínculo com o mercado de trabalho
como autônomo profissionais liberais” (p. 98).

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 450-467, jul./set. 2012 465
influenciado efetivamente para a concentração da classe trabalhadora negra no
desemprego e/ou nas ocupações/empregos informais, com precárias relações de
trabalho.

Recebido em: 27/4/2012  ■  Aprovado em: 6/6/2012

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Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 450-467, jul./set. 2012 467
Capitalismo, crise e lutas de classes contemporâneas:
questões e polêmicas*
Capitalism, crisis and contemporary class struggle: issues and controversies

Marcelo Braz**

Resumo: O texto apresenta questões e polêmicas relacionadas ao


momento atual do desenvolvimento capitalista. Divido a exposição em
quatro partes que se relacionam entre elas. Uma primeira discute o
capitalismo contemporâneo e as condições de sua crise. A segunda
mostra os dados reais que condensam o desenvolvimento contraditório
capitalista em dois níveis: barbárie e restauração. A terceira parte le‑
vanta algumas questões práticas e teóricas para refletir sobre as con‑
dições atuais das lutas de classes. Por último, um breve balanço que
sugere alguns caminhos.
Palavras‑chave: Capitalismo contemporâneo. Crise contemporânea.
Lutas de classes. Partido político. Movimentos sociais.

Abstract: The text presents issues and controversies related to the present moment of capitalist
development. Divided the exhibition into four parts that relate to them. The first discusses the conditions
of contemporary capitalism and its crisis. The second shows the actual data that condense the contra‑
dictory development of capitalism in two levels: barbarism and restoration. The third part raises some
practical and theoretical questions to reflect on the current conditions of class struggle. Finally, a brief
assessment suggests that some paths.
Keywords: Contemporary capitalism. Contemporary crisis. Class struggles. Political party. Social
movements.

* Este texto foi preparado a partir da palestra que realizei por ocasião do evento comemorativo do Dia
do Assistente Social, promovido pela Cortez Editora com o apoio do Cress‑SP, da Abepss e da Enesso,
ocorrido no dia 14 de maio de 2012. Sua argumentação central foi originalmente preparada para a exposição
da palestra.
** Doutor em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro/RJ, Brasil; professor adjun‑
to III da Escola de Serviço Social da UFRJ. Professor e colaborador da ENFF (Escola Nacional Florestan
Fernandes). E‑mail: reis.braz@ig.com.br.

468 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 468-492, jul./set. 2012
I
Capitalismo contemporâneo: crise e consequências sociais

A
partir das falas que me antecederam, procurarei desenvolver minha
intervenção seguindo três pressupostos que pretendem dialogar com
o que trouxeram os companheiros que me antecederam na mesa.
São eles:
i. vivemos a plena madurez do modo de produção capitalista (MPC), o que
significa que vivemos a plena barbarização da vida social que se expressa
nos indicadores sociais, no padrão destrutivo do desenvolvimento das for‑
ças produtivas e na financeirização do capital, como procurou demonstrar
José P. Netto;1
ii. a natureza tardo‑periférica do Brasil não coloca nenhum óbice ao desen‑
volvimento dos traços deletérios do MPC entre nós; antes os potencializa,
pois que se combinam com as heranças arcaicas que persistem no país,
como apontou Josiane S. Santos;2
iii. vivemos uma quadra contrarrevolucionária que se expressa na dificulda‑
de de construção de um projeto societário alternativo, ainda que estejamos
adentrando uma curva ascendente das lutas de classes nos centro do ca‑
pitalismo com reflexos no Brasil, como procurarei problematizar.

Do primeiro pressuposto retomarei algumas questões da contribuição de


Netto, procurando realçar aquelas que incidirão sobre a temática que me cabe na
mesa. Especificamente, partilho de suas análise e corroboro os números apontados,
mas adicionaria outros mais à frente que, creio, ajudarão a reafirmar o caráter ­atual
da crise do capital. Passemos a tratar exatamente dela.

Capitalismo: mais‑valia, mais crise e mais barbárie


A crise capitalista atual não nos conduzirá à superação da ordem burguesa. O
capitalismo, por si só, sempre dará em mais capitalismo. A natureza da crise do

1. Netto tratou na mesa exatamente do capitalismo contemporâneo, discutindo os elementos que poten‑
cializam a crise e indicando os traços que conformam a barbárie que caracteriza os desdobramentos sociais
da ordem do capital.
2. Josiane S. Santos discutiu a formação social brasileira procurando relacioná‑la à dinâmica do capi‑
talismo contemporâneo e modo como se expressa a “questão social” no Brasil.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 468-492, jul./set. 2012 469
capital que se aprofundou a partir de 2008 não é diferente, em sua essência, das
crises que abateram o sistema em tantas outras vezes, tipificadas pelos traços cons‑
titutivos do estágio imperialista3 que se estruturou justamente a partir de outra
grande e grave crise, a de 1873. Ela é movida pela natureza contraditótia do desen‑
volvimento capitalista que, ao potencializar seu processo de reprodução ampliada
(sua própria acumulação de capital), reproduz os fatores que exponenciam suas
contradições e acionam crises que, desde as últimas décadas do século XX, têm
maior duração e se exprimem em períodos menos espaçados (e sem ondas longas
expansivas), alternando períodos (espasmódicos) de crescimento, auge, crise, re‑
cessão/depressão, retomada...
A contradição central (a produção social e a apropriação privada) e o caráter
anárquico da produção potencializam e assentam o desdobramento das crises capi‑
talistas que podem se expressar na tendência de queda da taxa média de lucro e/ou
na combinação superprodução de mercadorias/subconsumo das massas trabalha‑
doras. E é o aumento da população sobrante (do exército industrial de reserva) e a
massa de capitais excedentes que encontra dificuldades para se valorizar (a supe‑
racumulação) que têm tornado o metabolismo social do capital ainda mais sedento
e voraz na busca de novos espaços de acumulação e de valorização do valor. A
análise de Mandel é formidável porque é a que melhor aponta esses elementos como
aqueles que comandam o capitalismo tardio, indicando as questões centrais para
pensar o capitalismo contemporâneo, especialmente duas: o aumento da composi‑
ção orgânica do capital e o problema da crescente prevalência do capital constante
sobre o variável e, decorrente daí, a tendência de redução do trabalho vivo e o
problema da relação criação/realização da mais‑valia.
Além desses fatores macroestruturais, a especificidade da crise atual, analisa‑
da com rigor por Mészáros, está assentada em duas características intrísecas e que
também se expressam na dinâmica estrutural do MPC contemporâneo: ela acentua
o caráter destrutivo da produção capitalista, de modo que o metabolismo social
comandado pelas forças do capital faz predominar, de maneira incomparável, ten‑
dências altamente destruidoras da exploração da natureza que concorrem até mes‑
mo para criar sérios obstáculos à própria reprodução da vida social; por outro lado,

3. Tais traços são aqueles trabalhados por Lenin, no seu clássico Imperialismo — fase superior do ca‑
pitalismo: a exportação de capitais, a formação de monopólios industriais e bancários e a tendência progres‑
siva de associação/fusão entre eles originando o capital financeiro, a formação e o controle de um moderno
sistema de crédito, a centralização financeira do capital que faz surgir uma oligarquia financeira controlado‑
ra de uma massa de capitais monumental; em decorrência, estrutura‑se uma verdadeira partilha econômica
(entre os grandes grupos monopolistas) e territorial (entre os países imperialistas sedes dos monopólios).

470 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 468-492, jul./set. 2012
e correlatamente, esgotaram‑se os mecanismos estruturais (posto que os paliativos
sempre hão de existir) de autorregulação do sistema sociometabólico do capital,
uma vez que o caráter permanente da crise sobressai em detrimento da sua forma
cíclica de se expressar, prevalente até os anos 1970. Mészáros caracteriza muito
bem a crise adjetivando‑a, corretamente a meu ver, como uma rastejante.
Aqui, quero salientar duas observações: a primeira diz respeito à predomi‑
nância de análises catastrofistas sobre a crise contemporânea. A sua forma a‑his‑
tórica de apreender a realidade só conduzirá a “saídas” igualmente a‑históricas que
podem se expressar em promessas voluntaristas, como as que pululam nos países
centrais tocadas pela “juventude indignada” dos setores pequeno‑burgueses das
grandes cidades e pelos ecoambientalistas de todo tipo; ou em “soluções” fatalistas
que podem dar tanto nas promessas que promovem a (improvável) ruptura abrupta
com a ordem burguesa baseada em prognoses fantásticas sobre o futuro (e, eviden‑
temente, numa equivocada análise do presente) ou, ao contrário, podem resultar no
mais absoluto niilismo, inofensivo e inepto.
Mesmo que não possamos debitar à teoria o rumo de algumas das expressões
das lutas sociais, é certo que ela representa parte do esforço de autores que, ainda
que não possam ser responsabilizados por seus rumos, mantêm notória influência
nesse campo. São vários os exemplos que podemos colecionar, mesmo que partam
de perspecivas teóricas diversas, que podem nos levar a caminhos diferentes: des‑
de Kurz nos anos 1990, passando por Negri/Hardt na década de 2000 e pelos di‑
versos estudos que colocam o acento na questão ambiental (que é de fato uma
questão relevante, mas não a central) como o que se faz notar dos textos de Boa‑
ventura Sousa Santos.
A segunda observação diz respeito às correntes que não entendem a natureza
da crise contemporânea e que acabam compreendendo‑a como mais uma crise do
capital, passível de solução, regulação ou medidas anticíclicas. Aqui aposta‑se na
administração de uma dinâmica que é cada vez mais incontrolável e que já não mais
comporta formas de autorregulação. Pior: aposta‑se no controle e na administração
das consequências sociais do inadministrável sistema do capital. Vê‑se tal equívo‑
co nas correntes que apostam numa terceira via tardia, nas saídas ditas neokeyne‑
sianas (que no Brasil têm atendido pelo nome de neodesenvolvimentismo que se
expressa, na verdade, como um arremedo do modelo desenvolvimentista) ou até
mesmo no sonho de uma reedição saudosa de um novo Welfare State.
O suposto neodesenvolvimentismo, quando comparado aos traços gerais das
políticas desenvolvimentistas — que, de modo muito problemático e diferenciado,
conhecemos ao longo do período 1930 e 1980 no Brasil através de algumas expe‑

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 468-492, jul./set. 2012 471
riências implementadas —, está muito longe do modelo original. Segundo especia‑
listas, quando comparado ao paradigma desenvolvimentista que se conheceu no
século passado, a hipótese neodesenvolvimentista “se desmancha no ar”, e as razões
são claríssimas, seja porque: “a) apresenta taxas de crescimento bem mais modestas;4
b) confere importância menor ao mercado interno, isto é, ao consumo das massas
trabalhadoras; c) dispõe de menor capacidade de distribuir renda5; d) aceita a ­antiga
divisão internacional do trabalho, promovendo uma reativação, em condições his‑
tóricas novas, da função primário‑exportadora do capitalismo brasileiro;6 e) é diri‑
gida politicamente por uma fração burguesa, a qual denominamos burguesia ­interna,
que perdeu toda a veleidade de agir como força antiimperialista”.7
Para além das muitas polêmicas que o tema suscita, uma definição emprega‑
da para explicar o que chamo de hipótese desenvolvimentista é esclarecedora: “[...]
o neodesenvolvimentismo é o desenvolvimento possível dentro do modelo capita‑
lista neoliberal [...]”.8 Ora, sabemos que o neoliberalismo se caracteriza justamen‑
te por políticas e medidas que obstam o desenvolvimento e o crescimento econô‑
mico, tornando muito difícil sustentar tal afirmação.
Ainda sobre a segunda observação: o entendimento do capitalismo contem‑
prâneo parece ser levado para um beco sem saída, justamente porque mostram‑se
inúteis as saídas de administrá‑la. Namora‑se o capital, imperando o possibilismo
que procura agir nos espaços cada vez mais estreitos e restritos e que atua nas su‑
postas brechas por dentro do Estado capitalista. O trabalho torna‑se parceiro do
capital e seus representantes, os representantes do capitalismo nos governos.

4. Lembre‑se que um dos pilares do desenvolvimentismo é justamente a robustez do crescimento eco‑


nômico.
5. Mercado interno forte e amplo, dinamizado por políticas de distribuição de renda que, entre outras
funções, ajudam a potencializar o consumo das massas: eis aí dois pilares do modelo original que não se
sustentam na hipótese neodesenvolvimentista.
6. Aceitação absolutamente inaceitável no modelo “clássico”!
7. O tão desejado caráter progressista da burguesia nacional se esfumaçou em 1964 e, hoje, ela está
perfeitamente integrada, associada e dependente aos circuitos comandados pelo grande capital operante no
país. As citações às quais recorri se referem a uma parte da entrevista de Armando Boito Jr. ao Jornal Brasil
de Fato (5 a 11/4/2012). É importante salientar que o autor tem conclusões diferentes das minhas em relação
ao alcance do que chamo de hipótese neodesenvolvimentista (deve‑se considerar aqui os limites que uma
entrevista coloca para uma argumentação mais sólida). Para ele, apesar dos óbices e dos limites atuais, tão
bem apontados no trecho reproduzido acima, é possível sustentar o neodesenvolvimentismo que inclusive
aponta, politicamente, para a formação de uma “frente política neodesenvolvimentista” formada em torno de
grupos sociais muito heterogêneos que disputam o governo Dilma Roussef e que se unem pela oposição aos
grupos (predominantemente ligados ao PSDB e ao DEM) neoliberais ortodoxos.
8. Brasil de Fato (Idem).

472 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 468-492, jul./set. 2012
Busca‑se a hegemonia em comunhão com os interesses maiores do capital que faz
do Estado e dos governos de plantão seus prepostos, consolidando aquilo que
Franscisco de Oliveira (2007) denominou de “hegemonia às avessas”, pela qual a
esquerda exerce o poder para realizar o projeto do capital, por intermédio de meios
políticos que rebaixam sobremaneira seus horizontes. Ela (a “hegemonia às avessas”)
é recente entre nós e começou em 2003, mas é velha conhecida dos europeus cujos
governos tocados por partidos socialistas desde os anos 1980 são os melhores
exemplos. Recorde‑se dos casos francês (com Mitterrand), espanhol (com Gonza‑
les) e português (com Soares).

II
Crise do capitalismo: barbárie e restauração
Diferentemente do que disseram os apologetas do capital, o pleno desenvol‑
vimento da ordem burguesa não produziu igualdade. Pelo contrário, gerou mais
desigualdades, tanto entre os países centrais e os da periferia, quanto no interior de
cada nação em que as assimetrias sociais foram aumentadas. Na relação entre os
países, tal fato é verificável por dados insofismáveis que atestam que 80% da po‑
pulação que vive no Hemisfério Sul dispõe de 20% da riqueza mundial, ao mesmo
tempo em que a outra parte, menos de 20% da população que vive no Hemisfério
Norte, desfruta de 80% da riqueza.
Os países de alta renda, onde vive 16% da população, concentram 55% da
produção mundial. Por outro lado, os países de renda baixa e média, que abrigam
84% da população mundial, respondem por 45% da produção global. Os dados
relativos à renda são sempre insuficientes para dar conta da realidade social que
caracteriza a relação produção/distribuição da riqueza no mundo capitalista. Mesmo
assim, veja‑se os seguintes números:
• considerando‑se os cerca de 47 mil dólares que expressam a renda dos
mais ricos e os 2.300 dólares que cabem aos mais pobres, a renda per
capita destes corresponde a apenas 5% da dos mais ricos;
• a renda per capita dos Estados Unidos é 4,2 vezes maior do que a ren‑
da média mundial e 21 vezes maior do que a renda média da África
Subsaariana;

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 468-492, jul./set. 2012 473
Para além da renda, vejamos outros dados:
• 1/6 da humanidade passa fome (e entre estes, 852 milhões sofrem fome
crônica) enquanto, segundo dados da FAO (Fundo para Agricultura e
Alimentação — ONU), a produção de alimentos atual é capaz de alimen‑
tar 11 bilhões de pessoas, quase duas vezes a população mundial. Note‑se
que do 1 bilhão dos famintos, 75% deles estão no campo. É digno de nota
também que o problema da sociedade do capital não se resume aos aspec‑
tos quantitativos, pois que há problemas qualitativos graves: há hoje no
mundo capitalista cerca 1 bilhão de obesos.
• A subnutrição acomete uma entre três crianças no mundo. Em números
absolutos, a subnutrição e a fome crônica afetam aproximadamente 250
milhões de pessoas na Índia; mais de 220 milhões na África; 40 milhões
em Bangladesh; 22 milhões no Brasil, 15 milhões no Afeganistão. Morrem
cerca de 9 milhões de pessoas por ano devido a complicações relacionadas
à fome ou aproximadamente 25 mil mortes por dia.
• De acordo com a FAO, entre 1950 e 2000, a produção mundial de grãos
mais que triplicou, passando de cerca de 590 milhões para mais de 2 trilhões
de toneladas métricas ao ano. Menos da metade dos grãos hoje é destina‑
da à alimentação, enquanto a maior parte serve para fabricar rações animais,
biocombustíveis e outros produtos industriais. O desperdício na produção
de alimentos beira cifras injustificáveis de 30% a 40% da produção de
grãos.
• Segundo a mesma FAO, praticamente a metade da população vive abaixo
da faixa de pobreza e, nesse universo, 1 bilhão de pessoas vivem com
menos de um dólar diário.
• Mas não é um mal apenas dos países menos desenvolvidos do continente.
Nos Estados Unidos, o nível de pobreza chegou o ano passado a 14,3%.
Em nível mundial, de acordo com a ONU, há sete países que somam dois
terços da pobreza e fome do mundo: Bangladesh, China, Índia, Indonésia,
Paquistão, Congo, e Etiópia. Na Europa, segundo a agência estatística
europeia, há 84 milhões de pobres, 17% da população.
• 30% da população vive problemas crônicos com o consumo da água, e a
ONU admite que até 2050 cerca de 60% terá graves dificuldades de aces‑
so à água.
• Segundo estudos da Royal Society, uma criança de um país rico consome
de 30 a 50 vezes mais água do que uma criança de um país pobre.

474 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 468-492, jul./set. 2012
• Na América Latina, segundo dados da ONU, 168 milhões vivem abaixo
da faixa de pobreza, e os que vivem na pobreza extrema, aqueles com
renda inferior a dois dólares diários, são hoje cerca de 85 milhões de lati‑
no‑americanos.
• No Brasil, segundo dados de Pochmann et al. (2005, p. 11), identificou‑se
no contingente de 5 mil famílias (aproximadamente 0,01% da população
brasileira), a conformação de um volume patrimonial equivalente a 42%
de todo o PIB brasileiro.

O desenvolvimento atual das forças produtivas não tem parâmetros. Em mea‑


dos do século XIX Marx e Engels afirmavam que o modo de produção capitalista
já havia produzido riquezas num volume de excedentes maior que todas as outras
épocas juntas. A “imensa coleção de mercadorias” do mundo capitalista contem‑
porâneo demanda um grau muito acentuado de exploração da natureza que requer
grande mobilização das forças sociais do trabalho num patamar de desenvolvimen‑
to sem par na história, tornando o debate do fim do trabalho e da sua centralidade
um exercício ilógico de metafísica. Alguns dados ilustram:
• Hoje aumentou extraordinariamente a extração mineral da natureza. Além
da extração cada vez maior do petróleo e do minério de ferro, bases fun‑
damentais das matérias‑primas que servem às mercadorias capitalistas,
registre‑se o aumento considerável da extração de minerais voltados para
as mercadorias tecnológicas: a extração de lítio (que o diga a Bolívia), de
tântalo e a de nióbio aumentou extraordinariamente. No caso do nióbio,
ente 1960 e 2007, a produção aumentou 77 vezes. No mesmo período,
quadruplicou a de cobre e de chumbo (Royal Society).
• Segundo especialistas, se continuarmos nesse ritmo para atender aos pa‑
drões de consumo atuais, e se a massa populacional da China, da Índia, do
Brasil e de alguns países africanos (como a África do Sul) consumir em
proporções mais ou menos semelhantes à dos países centrais, precisaremos
de pelo menos mais dois planetas Terra para suprir essa demanda.

Por outro lado, a financeirização do capital resulta numa massa de valores


excedentes que torna a superacumulação um fenômeno sistêmico e não acidental
no atual período do imperialismo. Tal massa de valores tem encontrado, fundamen‑
talmente, quatro formas de se valorizar:
a) migrando para áreas ainda inexploradas que podem fornecer novos es‑
paços de acumulação de capital, especialmente para os segmentos, ainda

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 468-492, jul./set. 2012 475
não explorados do setor de serviços (saúde, educação e previdência), em
geral a cargo do Estado, nos quais o montante de mais‑valia extraída do
trabalho vivo se valoriza através de meios que mercantilizam os diversos
níveis da vida social, ao mesmo tempo em que podem ser espaços fecun‑
dos para, segundo os termos de Mandel, transformar serviços (sociais,
culturais) em mercadorias, industrializando‑os. O setor de segurança pri‑
vada também se destaca aqui como espaço promissor de valorização do
capital, enquadrando‑se nas esferas vinculadas à produção bélica, como
veremos adiante;
b) avançando sobre a natureza, no sentido de industrializar e mercantilizar
os recursos naturais — não é à toa que a Nestlé e a Coca‑Cola tentam no
âmbito da OIT tornar a água um bem energético que a torne commodity;
e não é à toa que estamos assistindo, em pleno século XXI, à pilhagem
contemporânea de terras e recursos naturais dos países periféricos por
parte de grandes grupos do capital financeiro. Na América Latina, isto
avança sobretudo na rica região amazônica, mas não apenas nela. No
Uruguai, por exemplo, toda a superfície florestal é propriedade de apenas
três empresas (Brasil de Fato, maio/2012). Outro dado importante: em
2011, 57% dos investimentos estrangeiros recebidos pela América do Sul
(sem contar o Brasil) foram dirigidos ao setor de recursos naturais (Idem);9
c) investindo nos setores rentistas, preferencialmente nos segmentos de ren‑
da fixa que melhor remuneram o capital, como os títulos das dívidas pú‑
blicas de países como o Brasil onde quase metade do orçamento federal
está comprometida com o pagamento dos serviços da dívida (juros e amor‑
tizações);
d) ou, ainda, investindo na produção de artefatos bélicos, o que supõe a
criação de conflitos e guerras que possam animar a indústria bélica e que
possam ser espaços de destruição de forças produtivas. Aqui, reitere‑se o
papel da segurança privada, profícuo para a potenciação de armamentos e
acessórios sofisticados voltados para o uso civil e para a prestação de
serviços de segurança. As mercadorias que daí decorrem são diversas: vão

9. Esses são apenas alguns números referentes a essa àrea cuja expansão do capital tem sido avassalado‑
ra, como mostram os dados. As preocupações ambientais, para além das mais catastrofistas, são absolutamen‑
te pertinentes, uma vez que se a produção destrutiva capitalista continuar avançando pelas próximas décadas
na mesma toada com que se desenvolveu na segunda metade do século XX até nossos dias, é bem provável
que teremos seriíssimas dificuldades de manutenção das condições da vida humana para o século XXII.

476 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 468-492, jul./set. 2012
desde automóveis blindados, circuitos de segurança doméstica e empre‑
sarial, aumento da produção de armas para uso pessoal, fornecimento de
equipamentos desenvolvidos por Forças Armadas nacionais (a de Israel,
principalmente), cuja tecnologia é transladada para as forças policiais (as
do Rio de Janeiro e as de São Paulo têm sido compradores regulares) que
as adquirem como mercadorias voltadas para funções repressivas contra
seus próprios cidadãos. Registre‑se ainda o universo não contabilizado
oficialmente pelo tráfico de armas feito por pessoas ligadas a grandes
empresas e a governos; ou, ainda, as diversas e crescentes forças parami‑
litares que atuam como milícias privadas a serviço da burguesia e de seus
governos, presentes em países que vivem/viveram recentemente golpes/
invasões das forças imperialistas, como são os casos do Iraque, da Líbia
e, ao que tudo indica, da Síria. De modo diverso é o que se vê também no
Estado protofascista colombiano, em alguns países africanos, ricos em
recursos minerais, que vivem zonas de conflito potencializadas pelas nações
imperialistas. Registre‑se, também, o que ocorre em grandes cidades con‑
flagradas por milícias ligadas a grandes grupos traficantes de drogas en‑
raizados nas estruturas de poder, como são os casos, entre tantos, de algu‑
mas regiões da Itália, do Japão, dos EUA, do México e do Brasil.

Diante de tal quadro, que apenas esboçei aqui em seus traços gerais de crise
e suas consequências, quais seriam as possilidades concretas para o reverso dessa
realidade sombria? Num contexto em que ainda parece predominar uma tendência
contrarrevolucionária é possível cogitar a construção de um projeto societário
alternativo?

III
Por onde andam as lutas de classes?
O século XXI trouxe consigo a expectativa, entre os segmentos da esquerda
mundial, de superação da curva descendente das lutas de classes. De fato, o desfe‑
cho do século foi o pior possível. A ideologia neoliberal ainda gozava de relativa
força no mundo. Os movimentos socialista e comunista apenas começavam a se
reerguer da avalanche que desmoronou sobre eles com a queda do Muro e com o
fim da experiência soviética.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 468-492, jul./set. 2012 477
Para além dos exemplos de resistência à agenda regressiva do neoliberalismo
— como foram os casos das lutas antiglobalização e das lutas nacionais contra as
políticas neoliberais: recorde‑se da emblemática experiência do Partido dos Traba‑
lhadores no Brasil —, foram as lutas em torno do movimento bolivariano (Vene‑
zuela, Bolívia e Equador) que retomaram a ofensiva dos trabalhadores, iniciando
um movimento de deslocamento da curva descendente das lutas de classes. Passou‑se
a imaginar que elas seriam portadoras de conteúdos para se pensar num “socialismo
do século XXI”, como discute Atílio Borón (2010).
Ao mesmo tempo, adentramos a atual década sob os efeitos da crise que ir‑
rompeu em 2008 levando consigo empregos, salários, direitos e trilhões de dólares.
Seus desdobramentos ainda estão por se apurar, mas já há dados que mostram que,
sob todos os ângulos, as consequências sociais acometem brutalmente os trabalha‑
dores em todo o mundo, mesmo sabendo que o epicentro da crise esteja nos países
centrais (primeiro, em 2008‑2009, nos EUA; e, a partir de 2011, na Europa). Há
protestos em todo o mundo. Greves aparecem em todo canto. A classe trabalhado‑
ra, enfim, se rearticula para uma luta que até aqui é defensiva. Entretanto, entre
todas as mobilizações às quais assistimos desde 2008, aquelas que mais se desta‑
caram, que gozaram de maior repercussão e que envolveram um número maior de
sujeitos foram as que culminaram na ocupação de espaços públicos próximos aos
centros financeiros, como em Wall Street. Logo chamado de Occupy, suas lideran‑
ças autodenominaram‑se “indignados”, abdicando de hierarquias entre os líderes,
abrindo mão de métodos considerados “arcaicos” de fazer política e apontando para
horizontes que não vislumbram a ruptura com o capitalismo (ainda que o condenem)
e nem a perpectiva de construção de uma outra sociedade.
Este sucinto quadro caracteriza o momento atual das lutas de classes. Ele
nos indica que não há no seu horizonte a articulação de um projeto societário
alternativo ao do capital, ainda que este seja repudiado tanto entre as lutas defen‑
sivas e de resistência dos trabalhadores quanto entre as mobilizações dos chama‑
dos “indignados”. O difuso “socialismo do século XXI” expressa‑se mais como
um conjunto de princípios10 (que devem ser considerados!) que podem, no máxi‑
mo, nortear agendas de lutas contra o capital em favor do trabalho, apontando para
uma articulação anti‑imperialista, o que, deve‑se esclarecer já é um grande passo.
Para avançarmos, comecemos por demarcar uma distinção que é essencial: a
ausência de projeto societário alternativo não significa a ausência de lutas de
classes. A questão é saber qual o patamar atual das lutas de classes para saber o que

10. Uma leitura do livro preparado pelo intelectual militante Atílio Borón (2010) nos dá essa clara noção.

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elas podem produzir. O que podemos dizer, com toda a certeza, é que o que todos
os analistas concordam: a partir dos anos 1990 as lutas de classes esmoreceram
junto com a crise em que mergulharam as esquerdas.
E isso não foi à toa! A dissolução das experiências socialistas lançou‑nos numa
profunda crise e abriu as vias para a hegemonia incomparável das forças do capital,
estabelecendo uma onda longa contrarrevolucionária que passamos a viver.
Vivemos um tempo histórico que abriu as portas para uma onda conservado‑
ra na qual navegam duas formas de conservadorismo: um conservadorismo de di‑
reita e um conservadorismo de esquerda, ambos resultantes de uma cultura própria
do capitalismo contemporâneo que se coaduna na ideologia pós‑moderna.
O primeiro, o de direita, afirma o fim da história. E o segundo, o de esquerda,
afunda no possibilismo pragmático que namora o capital, apontado anteriormente.
A tarefa (individual e coletiva) de superar esse tempo histórico — que Agus‑
tín Cueva chamou de tempos conservadores — pela teoria, se reafirma pela clareza
de que “sem teoria revolucionária não há movimento revolucinário” (Lênin). En‑
tretanto, tal tarefa teórica não poderia sucumbir a três riscos altíssimos: o primeiro
seria o de se limitar a uma tácita aceitação dos limites do nosso tempo, caracteri‑
zando um claro conformismo; o segundo, aquele cujo resultado estaria aquém do
seu próprio tempo, incorrendo em tentativas saudosistas de reeditar formas preté‑
ritas que, de forma anacrônica, procuram apenas voltar ao passado (é a “poesia do
passado” de que falava Marx no 18 Brumário de Luís Bonaparte); e o terceiro,
aquele no qual o resultado seria uma vã tentativa de ir além do seu tempo (recor‑
demos Hegel: “ninguém é maior que seu tempo. É possível apenas ser melhor que
seu tempo”), incorrendo em elaborações fantasiosas, que se sustentam na prognose
de um futuro mágico.
Aqui, o risco seria o de construir uma teoria e um projeto em que a frase se
apresenta maior que o conteúdo, bem como refletiu Marx no 18 Brumário acerca
das ilusões utópicas: “A revolução do século XIX tem que deixar os mortos enter‑
rarem seus mortos, para chegar ao seu próprio conteúdo”. Ou seja, a superação de
que fala Marx se exprime na necessidade de uma teoria revolucionária que, como
escrevera antes com Engels, na Sagrada Família, só “se tornará força material se
se apoderar das massas”, como expressão de suas necessidades sociais históricas.
Ou seja, a revolução do século XXI também “tem que deixar os mortos enterrarem
seus mortos para chegar ao seu próprio conteúdo”.
Tem toda a razão José Paulo Netto quando diz que o problema das esquerdas
está no plano da organização política, o que nos lega um verdadeiro “deficit orga‑

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nizacional” que só pode ser superado se conseguirmos encontrar meios de luta
adequados aos nossos tempos. Entretanto, precisamos continuar avançando na
compreensão (teórica) do momento histórico para acertar na prática política,
atentando‑se para a observação de Togliatti acerca do peso dos acertos (e dos erros)
na análise e na ação, citada parágrafos atrás.
Nesse sentido, ainda é insuficiente o conhecimento sobre a morfologia atual
do proletariado (especialmente a análise de até onde vai a ampliação do “traba‑
lhador coletivo” da grande indústria, questão decisiva para pensar o sujeito da
revolução), como também ainda não há acúmulo suficiente para entender as formas
de lutas atuais que têm produzido inúmeros novos sujeitos coletivos.
O fato incontestável que temos de analisar é que desde os anos 1970, com mais
intensidade a partir dos anos 1990, produziram‑se lutas sociais que diversificaram
enormemente o universo que se conhecia até então. De lá pra cá, colecionamos mais
derrotas que vitórias, mas o universo se ampliou consideravelmente, envolvendo
desde lutas fabris até as mais variadas lutas, passando por questões culturais, étnicas
e ambientais. De Seatle ao Ocuppy W. Street, dos zapatistas à luta dos sem‑terra no
Brasil, passando pelos piqueteiros da Argentina, por Oaxaca no México e pelas lutas
altermundistas (antiglobalização) nos países centrais até os recentíssimos mal cha‑
mados “movimento dos indignados”, colecionamos não só derrotas, mas também
exemplos concretos do perfil das lutas de classes contemporâneas.
Aqui reside um “problema” que devemos enfrentar, ou pelo menos situá‑lo.
Ele aparece como problema teórico‑conceitual que tem a ver com a busca em dar
nomes aos “exemplos concretos do perfil das lutas de classes”. Até que ponto os
conceitos criados por pesquisadores das ciências sociais especializadas (sociólogos,
cientistas políticos e antropólogos), filiados às mais diferentes perspectivas teóricas,
explicam a realidade? E até que ponto os mesmos conceitos podem servir para
ocultar ou até mesmo mistificar a mesma realidade que pretensamente dizem ex‑
plicar? Cada nova conjuntura origina um novo conceito para designar um novo
sujeito coletivo surgido das lutas de classes... Essa busca por conceituar a sempre
mutante luta de classes não nos parece uma tormenta sem fim?

Para onde vão as lutas de classes? O tormento de Sísifo das Ciências Sociais
Se nos voltarmos para o debate que as Ciências Sociais vêm desenvolvendo
desde a década de 1960, veremos que os diversos estudiosos das chamadas “lutas

480 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 468-492, jul./set. 2012
sociais” se esmeraram por denominá‑las e classificá‑las usando conceitos diversos
que variaram ao gosto dos analistas. A cada nova mudança na conjuntura, um novo
conceito surgia para designar o “novo sujeito” que entrava em cena, o “novo palco”
das lutas, as “novas especificidades” que as moviam.
Sem dúvida que esse é o papel dos cientistas sociais e que as “lutas sociais”,
os “novos sujeitos” etc. são parte da “matéria‑prima” das obras que criam com suas
pesquisas. Entretanto, o que mais chama a atenção aqui é o fato de que quanto mais
se esforçavam para entender o novo que lhes reluzia os olhos, mais se afastavam
da possibilidade de revelar a estrutura que ele esconde. Quanto mais se empenhavam
por criar novos conceitos, mais estes serviam como véu que encobre a essência,
acabando por reforçar sua “aparência enganadora”. À medida que criavam um novo
conceito, surgia um novo sujeito em uma nova conjuntura que demandava outro
conceito, reproduzindo assim um tormento que lembra o de Sísifo.11
A tormenta se renova a cada época. Basta uma nova onda conjuntural de
crises capitalistas (que aparece muitas vezes desgarrada de sua crise que é, em
si, estrutural), que sempre produzem contestações pelos quatro cantos do mundo,
para que uma nova onda de conceituações surja anunciando a novíssima cena
contemporânea. A mais nova vem de 2008‑2009, e o esmero está em entender o
que significam as lutas que pipocaram nos países centrais, como as que se deram
na Espanha e as que se desenrolaram na ocupação de Wall Street. Em todos os
casos, é a luta de classes, essa velhíssima senhora que dá as caras com fisiono-.
mias que lhe dão a aparência de nova. Muitas das análises se esforçam, com
notável empenho, para identificar o caráter dos movimentos de protesto recentes
que vêm sendo denominado de Occupy. Para além dos relatos puramente des‑
critivos que predominam nas redes sociais em muitos dos escritos eletrônicos
que circulam, importa anotar que já há a formação de uma incipiente massa
crítica que tem envolvido teóricos renomados, reunidos em publicação recente
(Harvey at al., 2012).
Não há capitalismo sem lutas de classes. Enquanto as forças do capital pre‑
dominarem no comando da produção social, as forças do trabalho se insurgirão, de
algum modo, para lutar contra a apropriação privada que está na base das relações
sociais de produção capitalistas. Ao mesmo tempo em que é a sua contraface inde‑
sejada, as lutas de classes funcionam como dínamo que impulsiona as forças do
capital para inovações que se voltam contra o trabalho. Capitalismo é luta de clas‑
ses. Enquanto aquele existir, esta persistirá.

11. Aprofundei esse “problema” em texto recentemente publicado. Cf. Braz, 2012.

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Desde quando emergiu a moderna luta de classes que o jovem Marx já iden‑
tificava na Miséria da filosofia entre 1846 e 1847 e que surgia como a mola propul‑
sora das contradições da ordem burguesa tal como se lê no Manifesto do Partido
Comunista — que sai à luz justamente quando, em 1848, os trabalhadores assumem
um nível de consciência de classe inédito —, ela não mais saiu de cena por mais
que teimem em não enxergá‑la na “nova cena”. A burguesia e o proletariado são os
seus protagonistas, acompanhados de outros personagens que atuam em circuns‑
tâncias específicas, historicamente marcadas. Entre aqueles que se voltam para
entender as “lutas sociais” — ou por debilidade teórica ou por interesses meramen‑
te ideológicos — predominam os que se atêm nos “atores” coadjuvantes, pouco
contribuindo para ir além do limbo que embaça a superfície dos fenômenos. Mes‑
mo que subjetivamente imbuídos em estudar a realidade para conhecê‑la melhor,
o resultado não é muito mais que a descrição dos fatos, quando não se descamba
até mesmo para a mistificação. Para se ter uma ideia, o debate brasileiro em torno
dos chamados “novos movimentos sociais” foi capaz de criar, entre o final dos anos
1970 e o início da década de 1990 (ou seja, em pouco mais de dez anos) cerca de
duas dezenas de novos conceitos para designar as mobilizações que surgiram para
além do espaço fabril no período.12
Este “problema” é mais presente nos meios acadêmicos, embora compareça
nas organizações políticas da esquerda brasileira. Muito embora estas, sobretudo
os partidos políticos mais consequentes, se caracterizem por formular suas próprias
análises acerca das lutas de classes — para as quais partem de determinadas ma‑
neiras de entender o capitalismo contemporâneo e suas formas de ser no Brasil,
bem como a estrutura de classes decorrente —, me parece justo admitir que a forma
turva pela qual boa parte dos cientistas sociais se volta para as “lutas sociais” aca‑
ba por turvar também parte das análises que se desenvolvem nas organizações
políticas. Refiro‑me, especialmente ao debate sobre o sujeito revolucionário, tema
tão caro a elas, que é nada menos que um aspecto central para a formulação de
estratégias e táticas de ação. Voltarei a isso mais adiante.

Alguns problemas teóricos para pensar as lutas de classes contemporâneas


Há uma intensa polêmica nas Ciências Sociais, que vem desde os anos 1960 e
1970, acerca das possibilidades políticas de organização e, portanto, de realização de

12. Ana Maria Doimo foi a pesquisadora que nos indicou esse dado em seu importante estudo citado
em Braz (2012). Mas suas conclusões acerca do fenômeno são bem diferentes das minhas.

482 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 468-492, jul./set. 2012
mediações entre as lutas particulares e a luta política mais ampla. Tal polêmica se
desenvolveu ao compasso das metamorfoses sofridas pelo ser das classes trabalha‑
doras, verificadas a partir das mutações sociais estabelecidas por inúmeras transfor‑
mações societárias engendradas no âmbito das próprias crises capitalistas, conduzin‑
do‑as a um processo geral do que Ruy Braga chamou de restauração do capital.13
Tal debate no âmbito das Ciências Sociais contemporâneas opôs o proletaria‑
do organizado como movimento operário àqueles movimentos (logo chamados de
“novos sujeitos”) oriundos de fora do espaço fabril, atinentes às várias instâncias
do mundo da reprodução social.14
Autores bastante diferenciados como A. Touraine, A. Gorz, A. Bihr, J. Petras,
B. S. Santos, D. Bensaid, A. Borón, S Zizek e o brasileiro R. Antunes, apesar de
fornecerem interpretações divergentes em muitos aspectos — vejam que, entre eles,
há aqueles claramente vinculados à tradição marxista e outros já distantes do/ou
contra o marxismo —, apresentam algumas convergências sobre este processo,
quais sejam:
a) o consenso em torno da constatação do declínio do movimento operário
tradicional em todo o mundo e, em particular, na Europa Ocidental (obser‑
vado por meio de vários indicadores, como diminuição de greves, das
taxas de sindicalização etc.);
b) consequentemente a essa constatação, o consenso em torno da ineficiência
dos métodos e dos modelos de organização política adotados até então por
tal movimento;
c) a ideia de que as lutas sociais têm crescentemente extrapolado a esfera
produtiva stricto sensu, configurando um relativo deslocamento das lutas
sociais para a esfera da reprodução social;
d) a noção de que temos, desde os anos 1970, um crescimento indiscutível
de “novos sujeitos” portadores de inúmeros interesses, configurando uma
verdadeira explosão de novas particularidades sociais.

Por outro lado, a despeito dessas constatações semelhantes, tem se chegado a


conclusões e saídas as mais diversas, que se polarizam, basicamente, pela questão

13. A partir deste parágrafo até o primeiro parágrafo da página 17 reproduzo, com alterações, conteúdos
que publiquei em Partido e Revolução — 1848‑1989 e em Mudanças no perfil das lutas de classes e modis‑
mos conceituais: o tormento de Sísifo das ciências sociais (in Bravo, M. I. e Menezes, J. S. B. de [orgs.]
Saúde, Serviço Social, Movimentos Sociais e Conselhos. São Paulo: Cortez, 2012).
14. A partir do parágrafo referente a essa nota até o último da página 486 reproduzo, com poucas mo‑
dificações, os conteúdos presentes em Braz, 2011.

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da centralidade do trabalho como elemento de análise que orienta as reflexões
teóricas. A partir desta questão afirma‑se, por um lado — aquele que nega a cen‑
tralidade do trabalho e/ou da classe operária como sujeito político revolucionário
(são os casos de Touraine, Gorz e Souza Santos, é o caso também de J. Holloway)
—, a impossibilidade da mediação universal (o que significa a inviabilidade do
partido como instrumento de mediação universal). Junto a isso, difunde‑se uma
espécie de supervalorização das particularidades ao mesmo tempo em que se
sustenta a inexistência de um elemento universalizante (a classe, especificamente).
Cogita‑se, no máximo, a existência de uma universalidade humana, assentada,
talvez, num humanismo do tipo abstrato. Nesta perspectiva teórica, além da inad‑
missibilidade da forma partido como o mediador universal, advoga‑se certa impos‑
sibilidade de unidade ideológica.
Por outro lado — aquele em que a centralidade do trabalho é o ponto de par‑
tida, ainda que não necessariamente seja a classe operária o sujeito revolucionário
(nesse ponto é que variam as posições de Bihr, Petras, Bensaid, Borón, Antunes e,
de modo muito problemático, de Zizek) —, reconhece‑se a existência de diversas
e complexas particularidades que expressam as inúmeras potencialidades humanas
que não inviabilizam a mediação universal, antes a complexifica. Nesta perspecti‑
va, trabalha‑se com a centralidade da classe como universalizante dos seres sociais
na sociedade capitalista, mesmo diante de sua imensa fragmentação contemporânea.
Aqui, parte‑se da ideia de que a dissolução da centralidade do trabalho (e da
classe) é analítica, e não ontológica.
O desafio consistiria na criação de novas formas de organização política que
atuem como elementos de mediação que concorram no universo das várias par­
ticularidades no sentido de desfragmentá‑las, buscando a síntese fundamental que
se dá na mediação universal. Ou seja, o desafio se concentra no problema organ‑
ziacional, como sugere Netto.
O espectro do debate é bastante amplo e comporta posições que são aparen‑
temente divergentes. Elas confluem em dois aspectos que têm sido aqueles que mais
animam (e dividem) as esquerdas contemporâneas. O primeiro deles refere‑se à
questão do sujeito revolucionário. O segundo aspecto, cujo debate decorre direta‑
mente do primeiro, diz respeito ao problema do modelo de organismo político
universalizador: o partido revolucionário.
O brasileiro Sérgio Lessa levanta a polêmica em torno do chamado “adeus ao
proletariado”. Sustenta que foram dois os “adeuses ao proletariado”: um primeiro
ocorrido “sob o impacto da ascensão e crise do Estado de Bem‑Estar e do ‘fordismo’
[...] e um segundo adeus ao proletariado virá à tona nos anos 1990, agora sob o

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impacto da reestruturação produtiva, do neoliberalismo, do pós‑modernismo e do
fim do bloco soviético (PAG)”.
O debate que sugere o sepultamento do proletariado gira em torno de um
desenvolvimento de novo tipo das forças produtivas que passariam a ser impulsio‑
nadas por modificações técnicas que aprofundam e diversificam as formas de tra‑
balho intelectual (e até mesmo de “trabalho imaterial”) operadas pelo capital em
seus processos produtivos, provocando, consequentemente, um deslocamento da
centralidade das lutas de classes para além do espaço fabril, abrangendo as diversas
instâncias da vida cotidiana atinentes à esfera da reprodução social. Esse quadro
tornaria a classe operária um segmento condenado ao encolhimento crescente, o
que levaria, consequentemente, à perda de sua centralidade política frente a outros
estratos de trabalhadores.
Subjacente a esse debate está a questão da ampliação do trabalhador coletivo
e, por sua vez, a problemática em torno do trabalho produtivo e do trabalho im‑
produtivo. Lessa sugere que devemos enfrentar um problema teórico que está na
necessária distinção entre trabalho produtivo e trabalho e entre trabalho manual e
intelectual. A centralidade não está nas relações técnicas de produção, e sim na
função social do trabalho (produzir ou não mais‑valia).
Segundo Lessa,

um amplo leque de teorias se apoiaram, implícita ou explicitamente, na tese de que o


desenvolvimento tecnológico seria o momento determinante das forças produtivas e,
portanto, das relações de produção e das classes sociais. Em mais de um momento as
hipóteses de que a classe operária estaria extinta ou em extinção, ou então de que
estaria se fundindo com o conjunto dos assalariados, têm por fundamento a tese se‑
gundo a qual a introdução de novas tecnologias, como a automatização ou a informa‑
tização, alteraria o fundamento da relação entre as classes sociais. (2007, p. 39‑40)

A consequência mais abrangente desta combinação de fatores — práticos e


teóricos — foi a progressiva crise da forma partido como organização política
revolucionária precisamente porque se exauriam (também progressivamente) as
possibilidades objetivas de revolução e com elas as condições subjetivas que exigiam
o protagonismo político do partido. Ademais, somam‑se a esse quadro, sintomati‑
camente contrarrevolucionário, os problemas teóricos no interior dos setores pro‑
gressistas do pensamento social, conforme mostramos sinopticamente.
A crise que as esquerdas vivem hoje é, sobretudo, uma crise de suas expressões
mais avançadas: os movimentos socialista e comunista. Se as suas causas são as

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 468-492, jul./set. 2012 485
mais diversas e as mais profundas, suas consequências são (ainda que também
profundas) mais evidentes e mais explícitas: veem‑se na vitória ideológica do in‑
dividualismo burguês, na desmobilização social e política das grandes massas
trabalhadoras, no desinteresse pelas formas coletivas de participação política e no
enfraquecimento das organizações políticas de classe. A crise é maior exatamente
nas organizações políticas mais importantes para a emancipação dos trabalhadores,
ou seja, nos partidos políticos revolucionários.
O debate atual tem sinalizado uma profunda descrença no partido como instru‑
mento político‑organizativo de classe. Esta descrença tem sido convertida em algo
mais grave que se expressa em três fenômenos, que guardam diferenças entre eles,
mas que estão perfeitamente imbricados: por um lado, na afirmação pura e simples
— veiculada pela ideologia dominante e corroborada por uma alegre intelectualidade
pós‑moderna e por desavisados segmentos de esquerda — da falência (irremediável)
do partido como instrumento coletivo de transformação; um segundo fenômeno, que
“pega carona” no primeiro e que se espraia também entre a festiva intelectualidade e
a desavisada esquerda, parte da constatação da aludida falência e acaba enxergando
no fragmento e nas suas formas moleculares de mobilização social a alternativa à
crise, ou, pelo menos, uma de suas saídas; por fim, um outro fenômeno se sobrepõe
aos outros, tem maior fôlego, goza de maior representatividade e, o que é mais
importante, cumpre uma especial funcionalidade política na reprodução da ordem
burguesa: trata‑se do crescimento de partidos reformistas de todo tipo nas últimas
décadas, sejam eles de trabalhadores, trabalhistas, socialistas, social‑democratas ou
mesmo os de corte operário e, nalguns poucos casos, os próprios partidos comunistas.
A lista é vastíssima e variada; os exemplos são igualmente diversificados.
Cumpre asseverar que tanto mais se afirmava a crise dos movimentos socia‑
lista e comunista mais se intensificaram os fenômenos supracitados e, com eles,
mais se afundavam os partidos revolucionários numa crise que é, simultaneamen‑
te, de legitimidade, de base social, de definição de objetivos estratégicos, em suma,
uma crise de projeto societário.
A crise expressou o desmoronamento das experiências revolucionárias edifi‑
cadas ao longo do século XX. Junto com o fim da União Soviética esgotaram‑se
também as experiências dos países do Leste Europeu que constituíam o chamado
“bloco socialista”, restando apenas, fora daquele continente, a resistência da Revo‑
lução Cubana, para não mencionar o exemplo problemático da Coreia do Norte e
da já capitalista China. Por outro lado, como já apontei, ocorreu um processo de
ascensão de formatos partidários reformistas de todo tipo que levou de roldão o que
restou de partidos comunistas.

486 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 468-492, jul./set. 2012
Este cenário requer repensar a questão do partido a partir de duas questões
fundamentais que compõem o núcleo central da argumentação. Primeiro, a ideia
de que todas as revoluções proletárias desenvolvidas ao longo do século XX se
caracterizaram por dois aspectos determinantes: ou tiveram os partidos políticos
(socialistas ou comunistas) como um dos seus principais protagonistas desde a
preparação do processo revolucionário, passando pelo seu desenlace decisivo e se
prolongando pela sua afirmação e consolidação; ou as revoluções acabaram por
engendrá‑los ulteriormente, como seu desdobramento político, tendo‑os como um
dos seus principais condutores. Segundo, a constatação de que a partir das próprias
revoluções se consolidou, no quadro da tradição marxista, toda uma tradição te‑
órico‑política voltada para o debate em torno da concepção de revolução e da
noção de partido revolucionário; tal tradição deu continuidade — aprofundando,
inovando, revisando ou deformando — aos debates que se iniciaram na segunda
metade do século XIX.
E essa exigência de repensar o partido não deve atender a nenhuma dogmáti‑
ca. Ela deve atender, sim, a duas condições. Primeiro, a de afirmar o papel funda‑
mental da teoria, da sua atualização frente aos desafios atuais. Segundo, a de que
se deve afirmar no interior de qualquer organização política que se pretenda revo‑
lucionária, os princípios fundamentais que estão postos no Manifesto do Partido
Comunista, quais sejam: o combate permanente à propriedade privada dos meios
de produção fundamentais; a unidade das forças políticas de esquerda e progressis‑
tas; a propaganda e formação políticas voltadas para o desenvolvimento da cons‑
ciência de classe; o internacionalismo proletário que envolva as mediações dos
aspectos nacionais das lutas de classes.
Sem pretensões de fornecer respostas definitivas a esse debate, prefiro concluir
com o seguinte raciocínio de Marx quando criticou as formas de socialismo de seu
tempo. Para ele, as fragilidades das proposições socialistas se deviam às próprias
debilidades do proletariado que se formava. Disseram ele e Engels no Manifesto: “a
importância do socialismo utópico é inversamente proporcional ao desenvolvimen‑
to histórico do proletariado”. Ou seja, a importância de todo tipo de negação do
partido em nome de um utópico movimentismo que conhecemos na atualidade é
inversamente proporcional ao amadurecimento histórico do processo revolucionário.
É certo que devemos atuar pela superação de nosso deficit organizacional,
mas sem incorrer no equívoco de criar modelos preestabelecidos para ser encaixa‑
dos na realidade. Talvez o melhor caminho seja o que sugere Lukács, para quem “a
questão da organização de um partido revolucionário só se pode desenvolver a
partir de uma teoria da própria revolução. Só quando a revolução entra na ordem

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 468-492, jul./set. 2012 487
do dia é que a questão da organização revolucionária irrompe com imperiosa ne‑
cessidade nas consciências das massas e dos seus porta‑vozes teóricos” (Lukács,
1974, p. 305).

IV
A necessidade de superar as ilusões (e as condições) do nosso tempo
O amadurecimento histórico do proletariado não cairá dos céus e nem se dará
pela ação natural do tempo. Ele precisa ser acelerado pelos segmentos mais cons‑
cientes que lutam ao lado dos trabalhadores e que se encontram preponderante‑
mente nos partidos ligados ao prolateriado, tanto os de corte socialista quanto os
efetivamente comunistas. Todavia, é necessário que se tenha a absoluta clareza de
que a reafirmação do partido como a organização política primordial da transfor‑
mação social em pleno século XXI se inscreve num caldo ideocultural muito
adverso a ele. E parece claro também que sua reafirmação é uma atitude explícita
de confronto contra o pensamento dominante — de esquerda e de direita — jus‑
tamente por se tratar de uma defesa que navega na contracorrente. Mas, infeliz‑
mente, não é só isso! Para as gerações atuais, tal tarefa se expressa como um
enorme desafio teórico! Ela exige de nós um esforço de superação das debilidades
da nossa própria formação sociocultural, que são, na verdade, debilidades de toda
uma geração.
Tais debilidades dizem respeito não às fragilidades e lacunas teóricas que
todos temos, em menor ou maior grau. Dizem respeito, principalmente, aos limites
culturais de uma época, aos acidentes históricos de um tempo que foi legado a nós
e a nossa geração — os “tempos conservadores” de Agustín Cueva. Esse legado
histórico se coloca a nós não como um “pesadelo das gerações mortas a atormentar
o cérebro dos vivos”, mas como a necessidade de despertar de um sono tão profun‑
do que, mesmo depois de acordados, ainda turva nossos olhos. Falo de um tempo
histórico do “presentismo” (Hobsbawm), que quer arrancar de nós a história, que
nega até mesmo a razão. Para o gênero humano esse é o pior cenário, e já sabemos
aonde ele nos leva. Goya foi certeiro quando disse: “El sueño de la razón produce
monstruos”.
As circunstâncias que encontramos para “fazer história” embaçam a “poesia
do futuro” que, como tal, não pode ser simplesmente a reposição da poesia do
passado e não pode se limitar ao imediato presentismo, que é algo muito aquém da

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centralidade ontológica do presente que há na teoria social marxiana. Tanto o pre‑
sentismo quanto a nostalgia do passado são formas a‑históricas que conduzem ou
ao messianismo ou à inação. No caso dessa “perspectiva nostálgica”, como obser‑
vou um importante marxista, “pretende‑se criticar o evolucionismo, mas a crítica
atinge também a própria dialética: o vir‑a‑ser e a bela imagem do tempo como
espiral, como ‘círculo de círculos’, são substituídos pelo deixar‑de‑ser e pela espe‑
rança messiânica da redenção que retira suas forças dos sonhos (portanto: apenas
da esfera subjetiva) que o passado sepultou” (Frederico, 2005, p. 17).
O pensamento social atual está prenhe de perspectivas que negam o caráter
progressivo do desenvolvimento material da humanidade. Tal negação se expres‑
sa numa crítica ao progresso, a qual se confunde com a crítica generalizada
àquele desenvolvimento que é, antes de tudo, expressão dos avanços contraditó‑
rios da humanidade que, à medida que realiza mudanças, muitas vezes impercep‑
tíveis, provocadas pela busca incessante por satisfazer suas necessidades sociais
históricas, acaba por acumular saltos qualitativos. Tais saltos não se dão numa
linearidade. A história não é linear e nem opera seguindo nenhum padrão evolu‑
cionista que paire acima dela. Mas a história se expressa na ininterrupta superação
dos obstáculos naturais que se colocam diante da existência social dos homens,
permitida pelo constante revolucionamento das forças produtivas que estão pres‑
sionando permanentemente as relações sociais de produção, num choque inadiá‑
vel, mas controlado, pois que não pode derruir as formas jurídicas nas quais se
assentam aquelas relações. A observação de um conhecido estudioso do método
de Marx é precisa: “sem progressão, a história torna‑se um tempo saturado de
‘agoras’” (Idem).
Contudo, essa mesma época e tempo históricos — que julguei, junto a tantos
outros analistas, contrarrevolucionários e conservadores — nos permitem hoje,
graças à limitada democracia conquistada pela luta de tantos brasileiros, estar aqui
tratando abertamente de temas como partido e revolução. Por outro lado, esse
mesmo tempo histórico quer nos conduzir à capitulação, convida‑nos ao desencan‑
to, deseja nos seduzir com o facilitismo e com o possibilismo (variávies do opor‑
tunismo), apresenta‑nos o “canto da sereia” da vida acadêmica, oferece‑nos a
prostituição do dinheiro e, finalmente, quer nos fazer crer no fim das ideologias,
das lutas de classes, do partido e da própria revolução. Não basta apenas dizer‑nos
não a esse estado de coisas! Não basta apenas resistir, ainda que seja preciso. É
necessário superar o simples não e ir além da resistência. É preciso que encontremos
os caminhos para suplantar de uma só vez as ilusões de nossos tempos. Antes dis‑
so, devemos buscar superar as condições que as criam, num sentido tão claro como

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o que aparece nas palavras de Marx para quem “a necessidade de abandonar uma
ilusão acerca de determinada condição é, antes de tudo, a necessidade de abandonar
uma condição que necessita de ilusões”.

Recebido em 14/6/2012  ■   Aprovado em 19/6/2012

Referências bibliográficas
ANTUNES, R. Adeus ao trabalho? São Paulo: Cortez, 1995.
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492 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 468-492, jul./set. 2012
A política de emprego no Brasil:
O caminho da flexinsegurança*
Employment policy in Brazil: the pathy of flexinsecurity

Ednéia Alves de Oliveira**

Resumo: Este artigo discute a política de emprego implementada


no Brasil nos últimos vinte anos como resposta ao aumento do desem‑
prego provocado pela crise estrutural e pela reestruturação produtiva,
fruto do atual estágio de acumulação capitalista. No entanto, tais po‑
líticas têm apenas reforçado a precarização das condições de vida e de
trabalho da classe trabalhadora ao flexibilizar direitos e contratos
trabalhistas e criar programas de geração de renda que primam pelo
assistencialismo ao promover renda aos comprovadamente pobres,
distanciando‑se da perspectiva de (re) inserção no mercado de trabalho.
Palavras‑chave: Desemprego. Políticas de emprego. Assistencialismo.

Abstract: This article discusses the employment policy implemented in Brazil in the last 20 years
as a response to rising unemployment caused by structural crisis and the restructuring of production,
due to the current stage of capitalist accumulation. However, such policies have only reinforced the
precarious conditions of life and work of the working class rights and flexible labor contracts and
create income‑generating programs that strive to promote the welfarism income to the poor proved to
distancing themselves from the perspective of (re) integration into the labor market.
Keywords: Unemployment. Employment policies. Welfarism.

* Este artigo é referente a parte do capítulo 3 da pesquisa de doutorado sanduíche defendida em feve‑
reiro de 2010 intitulada “A política pública de emprego: entre a precarização desprotegida e a precarização
desprotegida. Um estudo comparativo entre Brasil e Itália”, pelo programa de pós‑graduação em Serviço
Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade de Bolonha.
** Professora Adjunto da Universidade Federal de Ouro Preto/MG, Brasil, lotada no Departamento de
Comunicação Social e Serviço Social (DECSO). E‑mail: oliveiraedneia@ig.com.br.

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1. Introdução

O
desemprego se constitui um dos maiores problemas sociais da huma‑
nidade. A crise iniciada nos países centrais a partir do final dos anos
1960 evidenciou o esgotamento do padrão de acumulação fordista
keynesiano, alterando a relação entre Estado e sociedade. Essa crise
foi atribuída, entre outros fatores, à necessidade de retomada da competividade
industrial e das taxas de lucro. Para garantir esse novo estágio foi desenvolvida uma
nova engenharia produtiva que, associada às inovações tecnológicas, provocaram
a expulsão de milhares de trabahadores do mercado formal de trabalho em todo o
mundo. Estima‑se, segundo relatório da Organização Internacinal do Trabalho
(OIT), que o número de desempregados no mundo atingiu, em 2009, a casa dos 210
milhões de trabalhadores. Esses dados podem ser ainda maiores se for contabiliza‑
do o desemprego oculto e o trabalho informal. Os maiores afetados, segundo a
agência, são os jovens e as mulheres dos países periféricos. Para reverter a crise do
desemprego, as agências multilateriais têm preconizado a implementação de pro‑
gramas e políticas de geração de emprego e renda para esses países, ao mesmo
tempo que defendem a criação de formas mais flexíveis de contratos de trabalho e
a desregulamentação das leis trabalhistas, além, é claro, do empreendedorismo e
da informalidade, acreditando ser o caminho mais eficaz para estimular os índices
de empregabilidade.

2. 1930‑90: As primeiras medidas de regulamentação do trabalho


No caso do Brasil, a política de emprego está intrinsecamente relacionada à
frágil concepção de Welfare State e à posição ocupada pelo país na divisão inter‑
nacional do trabalho, reforçando um crescimento subordinado e dependente do
capital estrangeiro, com uma política inflacionária e de alto endividamento externo
e interno. O legado histórico do trabalho negro e escravo no país, associado à per‑
seguição política de lideranças de esquerda pelos governos ditatoriais, impediu o
fortalecimento de uma organização sindical autônoma e representativa dos interes‑
ses da classe trabalhadora, resultando no favorecimento da exploração do trabalho
e nos baixos salários pagos ao trabalhador. Além da influência fascista da legislação
trabalhista, o Brasil conviveu com longos períodos ditatoriais, subordinando a
política social ao desempenho econômico. O consenso era obtido, em grande parte,
mediante a repressão e contenção das manifestações populares ou por meio da

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concessão de políticas sociais corporativas somente para determinados ramos da
produção.
Resulta daí a ausência histórica de uma política social de proteção ao traba‑
lhador, principalmente dos desempregados, e apenas um conjunto de leis que regu‑
lamentava o mercado de trabalho, primando pela necessidade de harmonizar os
conflitos entre capital e trabalho. Um exemplo paradigmático foi o avanço das
greves e a resposta do Estado em 1919, com a lei sobre acidentes de trabalho, res‑
ponsabilizando empregadores e os vários níveis de governo pela indenização.
Outra medida importante na tentativa de regulamentar as relações de trabalho nes‑
se período foi a criação do aviso prévio de oito dias para as demissões, a proibição
do pagamento de salários atrasados e de compensação de horas extras por outras
formas que não a salarial, estabilidade no emprego para portuários e ferroviários e
a proibição do trabalho para menores de catorze anos de idade.
Posteriormente, foi criada a Caixa de Aposentadoria e Pensão dos Ferroviários
(CAPs). A criação da CAPs pode ser considerada uma das primeiras medidas de
proteção social aos trabalhadores, apesar de seu caráter corporativo e limitado.
Somente a partir da década de 1930 é que o Estado brasileiro vai exercer uma in‑
tervenção mais sistemática na proteção do trabalhador. De acordo com Fausto
(1995), essa intervenção do Estado no sistema de proteção social foi resultado da
própria necessidade de obter maior consenso entre os trabalhadores, de forma a
promover a industrialização do país. Data desse período a criação do Ministério do
Trabalho, Comércio e Indústria e o estabelecimento da jornada de oito horas diárias,
além da proibição do trabalho infantil noturno. A política ditatorial de Vargas apos‑
tava na conciliação de classes para promover o processo de acumulação capitalista
no país, e para garantir esse estágio foi promulgada, em 1943, a Consolidação das
Leis Trabalhistas (CLT), inspirada na Carta del Lavoro, promulgada por Mussolini
na Itália com a ênfase na cooperação entre capital e trabalho e no fim do sindica‑
lismo autônomo. Essa concepção burocrática e subordinada será mantida por todo
o período do governo Vargas, e somente a partir de 1945 é que haverá um recru‑
descimento das lutas operárias. Esse período de silêncio foi importante para o ca‑
pital consolidar o seu processo de acumulação e garantir as bases de um mercado
de trabalho, já naquele período, bastante flexível e móvel (Oliveira, 2010).
Diante do exposto, pode‑se notar que as principais medidas de proteção ao
trabalhador no Brasil foram no sentido de controlar a força de trabalho com a in‑
serção de marcos regulatórios corporativos e restritos a pequenos grupos. A inexis‑
tência de uma política passiva de proteção aos trabalhadores ampliou a pobreza e
criou um mercado de subsistência fora do núcleo formal da economia e dos direitos

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sociais, formando um excedente de força de trabalho e ampliando o quadro de
exclusão social no país. Paralelo à ausência de uma política de emprego passiva de
proteção ao trabalhador desempregado, pode‑se dizer que foram implementadas,
nesse período, as primeiras medidas de uma política ativa de emprego. A criação
de escolas de formação e qualificação da força de trabalho jovem do país, em 1940,
por meio do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), do Serviço
Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e das Escolas Técnicas Federais,
permitiu a formação de um mercado de trabalho qualificado e excedente para aten‑
der o setor urbano industrial em expansão e financiadas com recursos públicos para
qualificação de adolescentes e jovens para o mercado de trabalho, oferecendo cur‑
sos de baixo custo nas áreas de maior demanda.
Nos anos sucessivos, a política de emprego continuou subordinada ao cresci‑
mento econômico, com investimentos em infraestrutura e com incentivo à entrada
de empresas estrangeiras. Os investimentos em obras de infraestrutura favoreceram
a ampliação do mercado de trabalho, principalmente no setor de construção civil.
A entrada de empresas estrangeiras na produção de bens duráveis também permitiu
a ampliação de um mercado de trabalho urbano, principalmente nas grandes me‑
trópoles. Nessas cidades formaram‑se nichos operários, atraídos pela promessa de
trabalho, fomentando o êxodo rural, revelando a precariedade das condições de vida
da população. A falta de saneamento básico, de uma política habitacional, a perma‑
nência de um sistema de saúde excludente e da educação apenas para o mercado e
para poucos eram evidências da opção pelo crescimento econômico em detrimento
de uma política social voltada para atender a classe trabalhadora em expansão. Ou
seja, mais uma vez apostava‑se na política macroeconômica de crescimento para
promoção de emprego e da renda, conjugando as políticas de acumulação com as
políticas de desigualdade.
No início de 1960 as reformas sociais entram na pauta do governo. O clima
de luta e contestação popular associado às propostas de reformas de base não agra‑
dou a elite nacional, principalmente aquela ligada aos interesses do capital estran‑
geiro. Para eles, a perspectiva de uma reforma mais ampla colidia com o processo
de acumulação capitalista em curso no país. Dessa forma, criaram mecanismos para
impedir a consolidação do projeto reformista e deter o avanço das lutas populares.
Mas se durante o período de 1945 a 1964 houve poucas iniciativas na implemen‑
tação de uma política social e trabalhista, os anos de 1964 em diante serão marca‑
dos por algumas mudanças que incidirão na política de emprego brasileira. A ne‑
cessidade do governo militar em promover a maior produtividade do trabalho em
face da expansão industrial e tecnológica redundou em medidas coercitivas. A

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primeira delas foi a proibição do direito de greve, com a Lei Antigreve em 1964
sendo seguida da política de contenção salarial, como exemplifica a Lei n. 4.725,
de 1965. Paralelamente às medidas coercitivas, o governo buscou garantir sua le‑
gitimidade por meio de medidas que compensassem a ausência de liberdade e de
expressão, criando algumas políticas que beneficiaram, de certo modo, os trabalha‑
dores, ampliando alguns direitos e estendendo os benefícios para categorias profis‑
sionais historicamente excluídas da política trabalhista. A primeira delas foi a
unificação e a centralização da Previdência Social no Instituto Nacional de Previ‑
dência Social (INPS), em 1966, e posteriormente a inclusão dos acidentes de tra‑
balho também sob gestão do INPS (Behring e Boschetti, 2008). Desta forma,
unificou todos os institutos, com exceção do Ipase, e uniformizou os serviços e
benefícios. Ainda nesse período destaca‑se a criação do Fundo de Garantia por
Tempo de Serviço (FGTS), que na prática substitui o capítulo da estabilidade, as‑
segurada na CLT, pela poupança compulsória.
Em 1970, o governo criou o Programa de Integração Social (PIS), benefician‑
do os trabalhadores urbanos e da iniciativa privada. Para compensar, criou ainda o
Programa de Formação do Patrimônio do Servidor (Pasep) para os funcionários
públicos. Outra medida criada pelos militares foi o Prorural, em 1971, programa a
ser executado pelo Funrural. Essa foi a primeira legislação para a criação de um
sistema previdenciário que beneficiasse os trabalhadores rurais, benefício ampliado
às empregadas domésticas e, em 1973, aos trabalhadores autônomos. Essa inclusão
tardia dos trabalhadores rurais, domésticos e autônomos evidencia a política traba‑
lhista corporativa e excludente do Brasil e denota a ausência de um sistema de
garantias sociais para o conjunto da classe trabalhadora e dos trabalhadores fora do
mercado de trabalho.
A criação do Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS) em 1974
e a incorporação de algumas entidades assistenciais foi uma tentativa de promover
políticas de assistência aos trabalhadores excluídos do mercado formal de trabalho.
Na prática, contudo, prevaleceu a legislação favorável àqueles já inseridos no
mercado de trabalho, como exemplifica a Lei n. 6.136, incluindo o salário‑mater‑
nidade nos benefícios a serem pagos aos trabalhadores. Somente a Lei n. 6.179
pode ser considerada uma política mais abrangente, pois definia um auxílio pre‑
videnciário, pensões e assistência médica aos idosos pobres com mais de setenta
anos e aos inválidos, desde que houvessem contribuído por pelo menos doze me‑
ses para o INPS, e a extensão do seguro acidente de trabalho para a área rural com
a Lei n. 6.195. Portanto, é somente a partir de 1970 que o governo brasileiro co‑
meça a implementar algumas políticas passivas de emprego, mas que em virtude

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dos valores pagos e dos critérios de elegibilidade não conseguiam garantir mini‑
mamente a sobrevivência do trabalhador fora do mercado de trabalho.
No que se refere à política ativa, foi instituído em 1974, por meio da Lei
n. 6.019, o regime de trabalho temporário para atender às necessidades do empre‑
sariado na contratação de força de trabalho para substituição de pessoal ou para
contratação de trabalho extra (Marconsin, 2009). Em 1975 foi criado o Sistema
Público de Emprego (SPE), marcado pela criação do Sistema Nacional de Empre‑
go (Sine), por meio da Portaria n. 76.403, sob a supervisão e coordenação do Mi‑
nistério do Trabalho. As linhas de ação eram voltadas para informar sobre o mer‑
cado de trabalho, implantar serviços e agências de emprego em todo o país,
estabelecer o perfil do trabalhador brasileiro, informar às empresas sobre a força
de trabalho disponível e a formação e qualificação da força de trabalho. Contudo,
tais ações se revelaram inócuas, não abarcando os objetivos propostos.
Somente na década de 1980 é que a política social vai ser alvo de mudanças
mais profundas. O esgotamento do regime militar e a crise econômica que se
instaurou no país revelaram a precariedade das condições de vida da população
brasileira e reacendeu o debate por melhores serviços de infraestrutura e de inclu‑
são nos programas sociais, possibilitando a emergência de movimentos sociais
urbanos que clamavam por direitos sociais e pela redemocratização no país. Nes‑
se período destaca‑se a criação, em 1986, do seguro‑desemprego e a redução da
jornada de trabalho de 48 para 44 horas. Essas foram as duas políticas ativas de
emprego mais importantes dos anos de 1980 para a classe trabalhadora, segundo
Pochmann (2008). A primeira porque passa a atender os desempregados do mer‑
cado formal, e a segunda por permitir maior ampliação do número de vagas no
mercado de trabalho.
Outras medidas de regulamentação das relações trabalhistas foram criadas na
década de 1980: a jornada de trabalho de seis horas para os regimes de turno, am‑
pliação da licença‑maternidade para 120 dias, regulamentação da licença‑paterni‑
dade em cinco dias, adicional de férias de 1/3 e o estabelecimento da hora extra em
50%. Nota‑se, porém, que não havia uma preocupação sistemática em criar políti‑
cas passivas para atender aos desempregados, mas apenas marcos regulatórios para
o trabalhador formal. Ou seja, as medidas não abarcavam a classe trabalhadora
como um todo, mas se voltavam mais uma vez para os trabalhadores inseridos no
mercado formal de trabalho. Diante do aumento do desemprego, acenavam com
benefícios limitados que atendiam parcialmente aos trabalhadores demitidos. Quan‑
to à regulamentação da jornada de trabalho em 44 horas, tal medida se revelou
insignificante, tendo em vista que o mercado de trabalho sempre foi muito despro‑

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tegido, revelando o acúmulo de horas trabalhadas sem contrapartida por parte dos
empregadores

3. 1990: a consolidação do projeto neoliberal e da lógica da flexinsegurança


Os anos de 1990 foram um divisor de águas na política social brasileira, prin‑
cipalmente aquelas referentes ao mundo do trabalho. Como já analisado, o país
sempre conjugou políticas macroeconômicas com políticas assistencialistas, limi‑
tando‑se apenas a introduzir marcos regulatórios para algumas categorias profis‑
sionais, sem, contudo se debruçar na construção de uma política de emprego pas‑
siva ou ativa que contemplasse a subsistência ou a (re)inserção dos trabalhadores
expulsos do mercado de trabalho. Acresce‑se a esse fator as medidas impostas
pelas agências multilaterais para reduzir os gastos públicos. Portanto, os anos 1990
serão marcados por tendências paradoxais. Primeiro porque pela primeira vez o
país promulga a Carta Constitucional em 1988, com princípios universalistas, es‑
tabelecendo uma ruptura com a concepção minimalista de cidadania imposta até
então pelos governos populistas e antidemocráticos. De inspiração explicitamente
liberal, a Constituição de 1988 estabelece o trabalho como um direito inalienável
e que deve ser garantido pelo Estado, assim como as demais políticas sociais. Mas
se tal direito aparece como um dos pilares de sustentação da ordem social, ele vem
assegurado no momento de transformação do mercado de trabalho.
Ou seja, as mudanças no padrão de organização do trabalho em consonância
com as políticas macroeconômicas de estabilização econômica impostas pelo FMI
e demais organismos multilaterais delimitaram a intervenção do Estado, provocan‑
do um acirramento da questão social em suas variadas expressões. É sob esta
perspectiva que as políticas de emprego passam a ser implementadas no governo
FHC. Ou seja, políticas que possam combater a crise do emprego e, consequente‑
mente, a fome e a miséria, mas com recursos reduzidos e com ênfase na individua‑
lização do problema, reforçando a histórica intervenção residual do Estado brasi‑
leiro na questão social.
Um exemplo paradigmático foi criação do seguro‑desemprego, considerado
um dos maiores programas de atenção ao trabalhador brasileiro. Por meio da Lei
n. 7.998, de 1990, foi definida também a concessão do abono salarial e a criação
do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), financiado com os recursos do PIS/
Pasep e com a criação do Conselho Deliberativo do FAT, o Codefat. A criação do
FAT foi um marco importante, pois definiu os recursos para a execução do seguro‑.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 493-508, jul./set. 2012 499
-desemprego, permitindo finalmente sua efetivação. Em 1994, o seguro‑desempre‑
go sofreu modificações e teve sua base ampliada, aumentando também o tempo de
indenização. Nesse período, o desemprego apresentava números elevados, chegan‑
do a atingir, de acordo com o IBGE, em torno de 17% da PEA. A renda média do
trabalhador apresentou queda pelo sexto ano consecutivo, atingindo em 2003 uma
redução de 12,9%.
A implementação de contratos atípicos também foi uma justificativa para re‑
duzir os custos de contratação e gerar mais empregos. De acordo com as justificati‑
vas do capital, os custos do trabalho impediam as empresas de contratar mais em‑
pregados, portanto competia ao Estado promover “reformas” flexibilizando a
legislação para estimular as taxas de ocupação. Por outro lado, havia uma preocupa‑
ção em romper com a rigidez do período fordista (embora no Brasil tal rigidez não
tenha acontecido) e permitir maior liberdade aos empregadores na contratação e
demissão de pessoal. O discurso da retomada da competitividade foi uma estratégia
importante para garantir, política e ideologicamente, a extração dos superlucros,
possível apenas por meio da queda dos custos dos fatores de produção. Nesse sen‑
tido, os custos do trabalho passam a ser atacados, mesmo nos países onde jamais
foram significativos, como foi o caso do Brasil. Ou seja, mais uma vez, a saída da
crise aparece nos discursos políticos como uma questão de ordem natural e que
depende de medidas em conjunto para sua superação. Portanto, a flexibilização e a
desregulamentação da legislação trabalhista, assim como o enfraquecimento das
organizações representativas dos trabalhadores, foram estratégias importantes na
consolidação da contrarreforma trabalhista. Ao Estado competia a tarefa de criar os
mecanismos para implementar as mudanças, mas abstendo‑se da responsabilidade
de criar políticas de proteção social aos trabalhadores e, fundamentalmente, elimi‑
nando as barreiras para tornar o trabalho menos oneroso para os empregadores com
a redução dos encargos sociais.
É neste sentido que o Estado brasileiro estabelece a criação dos contratos por
tempo determinado, o contrato parcial, temporário, as cooperativas de trabalho, o
trabalho‑estágio, a suspensão do contrato e posteriormente a economia solidária no
governo Lula. Essas mudanças nas leis foram apresentadas pelo governo como
medidas de políticas de emprego que, associadas aos programas de geração de
renda, minimizariam os efeitos dessa flexibilização. Paralelo aos contratos atípicos,
o governo também investiu em programas de geração de emprego e renda, como
ilustra a criação do Plano Nacional de Formação Profissional (Planfor), extinto no
início do governo Lula, que em seu lugar criou o Programa Jovem e o Primeiro
Emprego, ambos voltados para jovens da periferia com baixo poder aquisitivo, o
que na prática não alterou a estrutura e os objetivos do programa anterior.

500 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 493-508, jul./set. 2012
Na mesma linha de atuação foi criado em 1995 o Programa de Geração de
Emprego e Renda (Proger), “com o objetivo de atender e beneficiar pequenos e
microempreendedores, microempresas, microempreendimentos formais ou infor‑
mais, cooperativas e formas associativas de produção, assim como a promoção da
agricultura familiar” (Cardoso, 2002, p. 21). Os recursos provenientes do FAT se
inscreviam na base dos programas de combate à pobreza tanto no campo quanto na
cidade, por meio do incremento da lógica empreendedora. No campo estavam
vinculados à proposta do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf),
criado em 1995. Assim como o Planfor, este tinha uma perspectiva democrática, ao
permitir a participação e a representação das partes sociais. O governo criou ainda,
em 1996, o Programa de Expansão do Emprego e Melhoria da Qualidade de Vida
do Trabalhador (Proemprego). Este programa foi financiado também com recursos
do FAT e do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES). Para melhorar
sua eficácia, o programa foi sofrendo alterações nos anos seguintes e, em 2002, por
meio da Resolução n. 289, o Proemprego III estabelecia, como objetivo primordial,
“preservar e expandir oportunidades de trabalho, incrementar a renda do trabalha‑
dor, proporcionar a melhoria da qualidade de vida da população, em especial das
camadas de baixa renda, e proporcionar a redução dos custos de produção no con‑
texto internacional”. Como se pode perceber, essas foram as principais medidas de
uma política ativa de emprego no Brasil na gestão de FHC. Ou seja, a criação de
contratos atípicos e de programas voltados para atender a população de baixa ren‑
da e que envolviam atividades tanto na zona rural quanto nas cidades. Porém, de
acordo com Pochmann (2008), tais iniciativas foram muito tímidas, pois enquanto
o desemprego crescia em proporções elevadas, os gastos com as políticas ativas,
no período de 1995 a 2000 não chegaram a 1% do PIB. Ou seja, em 1995, para um
total de 4,5 milhões de desempregados, o governo investiu apenas 0,62%. Em 2000,
quando o número de desempregados chegava a 11,5 milhões, os investimentos em
políticas de emprego foram de apenas 0,89%. Como se pode perceber, os programas
destinados a gerar empregos não obtiveram os êxitos esperados, e durante toda a
década de 1990 o número de desempregados continuou a crescer.
Com relação à política passiva, a implementação do seguro‑desemprego foi
uma conquista importante, mas, devido a sua cobertura restrita, ele não abarcava
os trabalhadores informais e domésticos, limitando‑se apenas a prover a renda aos
trabalhadores formais expulsos do mercado de trabalho e por um curto período de
tempo. Portanto, os anos 1990 no Brasil foram marcados pelo aumento da flexibi‑
lização e da desregulamentação das relações trabalhistas e também pela expansão
do quadro de pobreza da população, resultado do desemprego, do avanço do traba‑
lho informal e da queda do poder aquisitivo da classe trabalhadora.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 493-508, jul./set. 2012 501
Tendo em vista os escassos investimentos e os resultados ineficazes das polí‑
ticas de emprego, o governo se volta para a adoção de programas de transferência
de renda. Ainda no início de 1990, o discurso da implementação de um programa
de transferência de renda de alcance nacional começou a ser discutido no governo.
O marco inicial foi a aprovação da Lei n. 80/1991, do senador Suplicy. Nos anos
subsequentes, os programas de transferência de renda passaram a ganhar espaço na
arena política, e sua proposta passou a ser vinculada à questão da escolaridade. Ou
seja, para garantir o acesso aos programas, as famílias deveriam retirar seus filhos
da rua e inseri‑los e mantê‑los na escola. É nesse contexto que o programa Bol‑
sa‑Escola ganha espaço na cena política, transformando‑se posteriormente no
carro‑chefe da política de assistência social do governo Lula, sob a denominação
de Bolsa‑Família, programa que unificou o Bolsa‑Escola com outros programas
menores de transferência de renda.
Com relação à política de emprego, o governo intitulado democrático‑popular
conjuga retirada de direitos com vistas a ampliar o número de vagas no mercado
de trabalho com políticas assistencialistas para os mais pobres. Tal fato pode ser
comprovado pelas alterações previdenciárias, o cerceamento do direito de greve,
ao definir a competência do Ministério Público do Trabalho na defnição dos casos
de legitimidade de uma ação grevista em setores considerados essenciais à presta‑
ção de serviços. Inseriu ainda o termo “de comum acordo”, flexibilizando a ação
da Justiça do Trabalho ao estabelecer que os dissídios só poderão ser decididos na
Justiça do Trabalho quando estiverem acordados entre trabalhadores e empregado‑
res, significando perda para os trabalhadores e enfraquecendo o poder dos sindica‑
tos. Outra medida de precarização das relações de trabalho é a redução do tempo
de repouso e alimentação para os trabalhadores, aumentando a produtividade do
trabalho. Ainda nessa mesma perspectiva foi criada a lei que estabelece o contrato
temporário no setor rural, sem a assinatura da carteira, sendo regido apenas por um
contrato. E por fim temos a extensão dos contratos temporários para as empresas
terceirizadas, reduzindo ou excluindo o trabalhador de qualquer direito trabalhista,
com salário inferior, embora com jornada diária de trabalho de oito horas.
Portanto, as medidas adotadas para combater o desemprego no governo Lula
foram no sentido de reformular aquelas já existentes ou ainda criar algumas inicia‑
tivas inovadoras para atingir o público‑alvo definido como prioridade pelas agências
multilaterais. Desta forma, destacam‑se: I) o Programa de Aprendizagem Profissio‑
nal regulamentado em 2005. Embora fosse já previsto pela CLT em 1943, ele sofre
reformulações que alteram o decreto‑lei anterior e estabelece que os contratos
atuais terão registro em CTPS, férias anuais em consonância com as férias escola‑
res, 13º salário, FGTS (alíquota reduzida para 2%) e jornada de seis horas diárias,

502 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 493-508, jul./set. 2012
além da frequência na escola e inscrição em programas de aprendizagem desenvol‑
vidos sob a orientação de entidade qualificada em formação técnico‑profissional.
Em 2005 ampliou‑se a idade do jovem aprendiz para 24 anos, por meio do Decre‑
to n. 5.598. Em 2007 foi criado o Cadastro Nacional de Aprendizagem para viabi‑
lizar o registro de entidades de formação técnico‑profissionais responsáveis pela
qualificação de jovens. Essas entidades são representadas pelo Sistema S tradicio‑
nal e o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop), além, é
claro, das escolas técnicas de educação. A carga horária deve ser dividida entre o
trabalho na empresa e curso de aprendizagem. Compete ao Ministério do Trabalho
e do Emprego (MTE) impedir que as vagas dos trabalhadores adultos sejam subs‑
tituídas pelos aprendizes.
Em 2003 foi criado o Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego
(PNPE). Esse programa objetivava gerar empregos para os jovens entre 16 e 24
anos com ênfase no empreendedorismo, responsabilidade social e aprendizagem
(MTE, 2008). Aqueles que não são inseridos imediatamente no mercado formal de
trabalho ou possuem espírito empreendedor são estimulados a criar cooperativas
de trabalho. O público‑alvo desse programa são jovens sem qualificação profissio‑
nal, com renda per capita de meio salário mínimo e em situação de risco social.
Para estimular a maior contratação de jovens, o governo alterou o programa em
2004, aumentando o valor dos incentivos pagos às empresas que aderiam ao PNPE.
Criou também novas facilidades operacionais, como o Sigo, um sistema de infor‑
mações que trabalha em parceria com os Consórcios Sociais da Juventude e com o
Sine. A preocupação do governo é reduzir o emprego juvenil, pois, como afirma o
documento, 45% dos desempregados no país é composto por jovens e mulheres.
Incentivar as empresas significa desenvolver o espírito de responsabilidade social,
em que a empresa abre mão da subvenção econômica de R$ 250,00 por jovem
contratado e contrata diretamente, evitando burocracias. De acordo com os dados
do MTE, cerca de 208 mil jovens estão em processo de qualificação e 47 mil já
foram inseridos no mercado de trabalho. Este programa foi extinto em 2006, devi‑
do à sua ineficácia, pois apenas 3.936 jovens foram inseridos no mercado de traba‑
lho, contrariando as expectativas, que eram de gerar 260 mil vagas por ano. Ainda
em 2003 foi criado o Programa Economia Solidária em Desenvolvimento conside‑
rado um instrumento importante no combate à pobreza e na promoção da “inclusão
social”. “O trabalhador é organizado de forma coletiva, gerindo seu próprio traba‑
lho e lutando pela emancipação”.1 Para dar viabilidade ao programa foi criada a
Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), incorporada ao MTE. Por

1. Disponível em: <http//www.mte.economiasolidaria.org>. Acesso em: 15 ago. 2010.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 493-508, jul./set. 2012 503
meio de iniciativas de Organizações não Governamentais (ONGs), tem suas ações
voltadas para a construção de projetos produtivos coletivos e empreendimentos
populares solidários, empresas recuperadas por trabalhadores e com propostas de
autogestão, cooperativas de agricultura familiar, de prestação de serviços, entre
outras. O programa de economia solidária busca criar uma articulação com todas
as instâncias produtivas do governo federal, como secretarias de pesca e agricultu‑
ra, do desenvolvimento territorial e de promoção da igualdade e da cidadania. Ar‑
ticula‑se às políticas de assistência social, como o Bolsa‑Família e o Fome Zero.
Ou seja, é um programa integrado aos vários setores governamentais e se insere na
política de geração de emprego e renda com vistas a promover um desenvolvimen‑
to mais justo e solidário.
Para Barbosa (2007), a proposta de economia solidária no governo Lula é a
de regulação social do cooperatvismo. Um novo tipo de regulação por meio do
autoemprego, em substituição ao anterior, baseado na inserção no mercado formal
de trabalho. Aqui se fala porém de um “novo” cooperativismo, baseado na partici‑
pação e nas ações democráticas. Para o governo Lula, é primordial investir nas
pequenas unidades produtivas como forma de reverter as altas taxas de desempre‑
go no país e possibiltar o aumento da renda e acesso aos bens públicos. O lema é
cooperar e produzir, enfatizando o dinamismo econômico e a eficiência produtiva.
Neste sentido, percebe‑se que a economia solidária não se distingue dos outros
programas de geração de emprego e renda quando aposta no empreendedorismo e
no cooperativismo, reforçando a capacidade humana e a autonomia dos indivíduos.
Ou seja, a economia solidária caminha na direção dos programas defendidos pelas
agências multilaterais para os paises em desenvolvimento. Desregulamentar e fle‑
xibilizar, mas ao mesmo tempo promover políticas que apostem na capacidade
individual dos sujeitos e no incremento do autoemprego, principalmente nas regiões
mais pobres do campo e da cidade.
Não é por acaso que as recomendações da OIT com relação às políticas de
emprego são no sentido de fomentar o empreendedorismo e o cooperativismo. Para
a OIT, o empreendedorismo e o cooperativismo são soluções para reverter as ma‑
zelas provocadas pelos ajustes estruturais no mundo. Neste sentido a OIT, em
parceria com a Aliança Cooperativista Internacional (ACI), desenvolve convênios
de atividades e fomento à promoção do cooperativismo no mundo. Neste contexto
cabe o desenvolvimento das potencialidades individuais para gerar oportunidades
de emprego com a criação de pequenas empresas, principalmente nas áreas mais
pobres. Ou seja, a recomendação é investir no trabalho informal, sem proteção e
precário (Oliveira, 2010).

504 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 493-508, jul./set. 2012
Dentro dessa lógica foi criado, em 2005, o Programa Nacional de Microcré‑
dito Produtivo Orientado (PNMPO). Esse programa visa incentivar a geração de
trabalho e renda entre os microempreendedores populares, disponibilizar recursos
para o microcrédito e oferecer apoio técnico às instituições de microcrédito produ‑
tivo. Para facilitar a expansão do empreendedorismo, o governo tem procurado criar
mecanismos para reduzir os impostos de forma a desonerar as pequenas e médias
empresas, como demonstra a criação do Super Simples Nacional, em 2006. Para
Marconsin (2009), esse novo imposto foi uma estratégia para simplificar as relações
de trabalho sob a justificativa de diminuir a taxação sobre as pequenas e médias
empresas. Sob a defesa de reduzir os encargos fiscais que normalmente dificultam
a sobrevivência dessas empresas no país, o governo Lula abriu um precedente para
precarizar as condições de trabalho, pois as isentam de anotar sobre férias e fixação
de quadro de horários de trabalho dos respectivos funcionários. Prevê ainda a dis‑
pensa dessas empresas de matricular os seus aprendizes em cursos dos Serviços
Nacionais de Aprendizagem.
Outro exemplo dessa tendência de transferência de renda e de individualização
do problema do desemprego é a criação do Programa Nacional de Inclusão de Jovens
(ProJovem). Voltado para a população jovem, como o próprio nome indica, esse
programa está integrado às modalidades do Juventude Cidadã e dos Consórcios
Sociais da Juventude. Seu objetivo é reintegrar o jovem ao processo educacional,
qualificando profissionalmente e proporcionando seu desenvolvimento humano.
Também visa gerar renda aos jovens inseridos nos programas. Para beneficiar maior
número de pessoas, o programa foi dividido em quatro frentes: o ProJovem Ado‑
lescente, para aqueles entre 15 a 17 anos, egressos do Programa de Erradicação do
Trabalho Infantil (Peti), dos programas de combate ao abuso e exploração sexual,
de medidas socioeducativas e de proteção e integrantes de famílias beneficiadas
pelo Programa Bolsa Família. O ProJovem Trabalhador também contempla os jovens
com auxílio de até seis prestações; o ProJovem Campo, com até 12 auxílios finan‑
ceiros, e o ProJovem Urbano, com até 20 benefícios. Estes últimos são destinados
a uma faixa etária de 18 a 29 anos, e a concesssão do benefício está condicionada
aos critérios de renda familiar. Ou seja, os jovens devem pertencer a famílias que
possuam renda per capita de até meio salário mínimo. Como o objetivo é elevar a
escolaridade, qualificar profissionalmente e gerar ocupações alternativas para pro‑
mover renda, o jovem deve ter um bom rendimento escolar e comportamental.
Ainda dentro dos programas de inserção dos jovens, existe o incentivo à responsa‑
bilidade social por parte das empresas. Estas recebem um selo de “Parceiros da
Juventude” por se dedicarem a qualificar, formar e inserir os adolescentes e jovens
no mercado de trabalho.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 493-508, jul./set. 2012 505
Diante do exposto, pode‑se constatar que os dois últimos programas criados
pelo governo Lula tem uma ênfase muito grande na difusão do empreendedorismo
e da renda. São programas afinados com as diretrizes internacionais, configurando‑se
como medidas de geração de renda sem qualquer vinculação com a promoção do
emprego. Isto pode ser comprovado pelos objetivos definidos pelos programas, qual
seja: gerar renda e estimular o desenvolvimento de pequenas empresas. Como todos
esses programas se inserem no programa maior, que é o combate à fome e a misé‑
ria, podemos afirmar que representam apenas medidas paliativas para os jovens
pobres da periferia, jogando sobre seus ombros a responsabilidade de manutenção
da família, exigindo em contrapartida o bom desemprenho escolar e comportamen‑
tal. Um nítido viés de culpabilização e responsabilização dos mais pobres, em que
o fracasso ou sucesso dependerá exclusivamente da sua capacidade de aproveitar
as “oportunidades” oferecidas.
A ineficácia de tais programas está expressa na permanência das taxas de
desemprego, que continuam inalteradas e atingem, principalmente, jovens, mulhe‑
res ou trabalhadores com baixa qualificação. Para estes o desemprego continua
atingindo cerca de 40% da PEA, e os números apontam que não há uma tendência
a alterações. Grande parte desse contingente, ou seja, jovens e trabalhadores de
baixa qualificação, encontra‑se excluídas das estatísticas do desemprego pela in‑
serção nos programas de geração de renda, pelo desemprego por desalento e ocul‑
to e pela inserção no mercado informal. Estes não são contabilizados pelos orga‑
nismos responsáveis pela divulgação das taxas de desemprego, o que tem levado o
governo Lula a comemorar os “bons” números da empregabilidade no Brasil, que
apenas mascaram a atual realidade, pois ignoram a informalidade, considerada nos
dias atuais como atividade empreeendedora, reforçando o individualismo e as saí‑
das alternativas para a crise do emprego, desonerando o Estado e permitindo ao
capital seguir seu processo de acumulação capitalista.

Conclusão
As políticas de emprego implementadas nos últimos anos seguem a tendência
das políticas sociais dentro da ordem do capital. São utilizadas como mecanismo
de contenção dos conflitos e de manutenção da ordem, servindo como instrumento
para minimizar os impactos das mudanças em curso. Não eliminam o caráter con‑
traditório das relações sociais de produção capitalistas, mas acentuam o progresso
da acumulação. Outra tendência das políticas de emprego é o fomento da coopera‑

506 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 493-508, jul./set. 2012
ção solidária ou de ações empreendedoras que reforçam ainda mais o quadro de
precariedade do trabalho. Esta lógica do empreendedorismo e do cooperativismo
visa, sobretudo, estimular o trabalhador a ser independente e patrão de si mesmo,
desonerando o Estado da responsabilidade de investimento em programas e políti‑
cas sociais, repassando tal responsabilidade para o indivíduo ou para a sociedade
civil, revelando‑se como uma flexinsegurança, pois retira ou flexibiliza direitos
conquistados, além de não garantir a (re)inserção do trabalhador no mercado formal
de trabalho. Se o objetivo fosse a geração de emprego, bastaria a redução da jorna‑
da de trabalho, a redução da idade de aposentadoria, a permanência dos jovens na
escola, a reorganização do trabalho, o que, de acordo com Marx (1988, p. 739),
tornaria a população trabalhadora existente insuficiente para prosseguir com a
produção na sua escala atual, representando o fim da exploração do trabalho e da
extração da taxa de mais‑valia, permitindo o resgate da concepção do trabalho como
elemento de libertação e emancipação humana.

Recebido em: 23/2/2012  ■   Aprovado em: 6/6/2012

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508 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 493-508, jul./set. 2012
A divisão sexual do trabalho no sistema
de integração agroindustrial*
The sexual division o f labor in the agribusiness system of integration

Claudia Mazzei Nogueira**

Resumo: Neste texto mostramos algumas das transformações nas


relações de trabalho no setor da agroindústria, ocorridas nas pequenas
propriedades familiares rurais, localizadas no oeste catarinense e que
são vinculadas ao sistema de integração da Sadia. Analisa particular‑
mente a manutenção da desigual divisão sexual do trabalho na peque‑
na unidade produtiva familiar avícola. Destacamos ainda alguns ele‑
mentos presentes na divisão sociossexual nesse setor e concluímos
indicando alguns desafios para o Serviço Social.
Palavras‑chave: Sistema de integração. Divisão sexual do trabalho.
Precarização. Trabalho. Serviço Social.

Abstract: In this text we show some of the tranformatios in the labour relations in the agroindustry
sector that ocurred in the small rural family properties, located in the west of Santa Catarina’s State
and that are vinculated to Sadia’s sistem of integration. Analise in particular the maintenance of the
unequal sexual division of labour in the small poultry familiar productive unity. We underline yet some
elements in the social‑sexual division of labour in this sector and indicate some challenges for the
social service.
Keywords: Integration system. Sexual division of labour. Precarization. Labour. Social Service.

* Este texto é fruto de pesquisa realizada com recursos provenientes da Bolsa Produtividade, bem como
da Bolsa de Pós‑Doutorado (ambas do CNPq), esta última sendo realizada no PPGSS da PUC‑SP sob super‑
visão da profa. dra. Maria Carmelita Yazbek.
** Professora doutora em Serviço Social da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp‑SP), Brasil.
Professora colaboradora do programa de pós‑graduação em Serviço Social da UFSC, bem como coordena‑
dora do Núcleo de Estudos do Trabalho e Gênero (NETeG). E‑mail: mazzeinogueira@uol.com.br.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012 509
Introdução

O
Serviço Social brasileiro, após sua ruptura com o viés conservador,
passa a ter um embasamento teórico e metodológico consistente, pos‑
sibilitando uma análise que supera a aparência do capitalismo, buscan‑
do as suas determinações fundamentais, proporcionando ao assistente
social elementos para refletir criticamente a sociedade e a sua atuação.
Sendo a questão social o objeto de trabalho do Serviço Social, é imprescindí‑
vel a ampliação de conhecimento da realidade em que estão inseridas as suas
múltiplas expressões, prioritariamente no que tange ao mundo do trabalho, apreen‑
dendo o máximo de elementos possíveis e possibilitando, em grande medida, o
enfrentamento dessa realidade por meio de seu caráter interventor.
Para tanto, o nosso texto analisa o sistema de integração da Sadia/BrasilFoods1
no segmento avícola, no oeste catarinense, trazendo alguns elementos e reflexões
relativos às condições de trabalho, bem como à vida cotidiana das mulheres e homens
que compõem esse setor.2

A Sadia de 1990 até os dias de hoje: a construção de um monopólio


A empresa foi formalmente constituída no dia 7 de junho de 1944, quando 27
acionistas, assinaram a ata de fundação da Sadia Concórdia S. A. Com um quadro
de funcionários que não passava de cinquenta pessoas, pôs em funcionamento seu
primeiro frigorífico de suínos no dia 20 de novembro de 1944, abatendo trinta
animais por dia. Além de abater suínos, a outra atividade inicial da Sadia era um
moinho de trigo. Em 1990 apresentava um patrimônio de “22 empresas e 31 mil
empregados, além dos 18 mil integrados do fomento agropecuário” (Costa, 2005,
p. 10, e Fontana, 1980, p. 127).

1. A empresa Brasil Foods é o resultado da fusão entre a Sadia S/A e a Perdigão S/A ocorrida em 2009,
tornando‑se uma das maiores produtoras e exportadoras mundiais de carne de frango. No entanto, estaremos
neste texto sempre nos referindo à Sadia, pois embora já tenha sido aprovada a fusão pelo Cade, no ano de
2010, elas se mantêm em espaços independentes, e esta pesquisa refere‑se exclusivamente ao Sistema de
Integração da Sadia, no campo da avicultura.
2. Todos os depoimentos que são utilizados neste texto foram coletados pela pesquisadora Mailiz Lusa,
investigadora integrante desse projeto. Fazem também parte desse projeto de Bolsa Produtividade as pesqui‑
sadoras Edivane de Jesus e Maria Aparecida dos Santos, do qual o pós‑doutorado é uma etapa.

510 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012
A política neoliberal, iniciada em meados de 1990, por Collor e depois desen‑
volvida por Fernando Henrique Cardoso, abre as fronteiras e dá lugar ao mercado
aberto da concorrência internacional. Com isso, novos elementos entram em cena,
como as privatizações, o incentivo patronal pela busca da “competência”, da “com‑
petitividade” e das “parcerias” com os trabalhadores.
Os países se unem em bloco para competir por meio do que Chesnais (1996,
p. 24) denomina como mundialização do capital, em que as organizações empre‑
sariais aderem à reestruturação produtiva, impingindo aos seus trabalhadores, entre
outras consequências, metas de produtividade, além de frequentemente ampliarem
a substituição de trabalho vivo por trabalho morto (Marx, 1988, p. 165).
A Sadia, nessa década, opta pela estratégia de intensificar sua reestruturação
produtiva e inserção na nova divisão internacional do trabalho, criando e oferecen‑
do ao consumidor produtos de conveniência e de maior valor agregado, implantan‑
do novos métodos gerenciais, programas de qualidade total e novos processos
produtivos, além de realizar uma significativa expansão internacional em clara
sintonia com elementos próprios da produção originária do Toyotismo, ainda que
adaptados às particularidades desse ramo de atividade agroindustrial. Foi por isso
que, segundo a fala patronal, essa década se destacou por grandes transformações
na companhia.3
Ocorre, por exemplo, em 1991, a complementação da atividade no setor aví‑
cola da Sadia no Paraná, ao adquirir o complexo de Francisco Beltrão, da Chapecó
Avícola. “A empresa iniciou seus abates em 1983, com um total de 7.915.133 ca‑
beças/ano, 6,6% do total do estado” (Costa, 2005, p. 11)
Entre 1991 e 1992, como parte de sua internacionalização, a empresa implan‑
ta filiais comerciais em Tóquio, Milão e Buenos Aires. Em 1994, com o objetivo
de estabelecer um posto de observação no promissor mercado chinês, inaugura a
Churrascaria Beijing Brasil, em Pequim, associada com a empresa chinesa Sky
Dragon.
Dos cerca de 60 funcionários de 1944, ano da fundação, a empresa emprega‑
va, 50 anos depois, cerca de 32 mil pessoas diretamente, ainda segundo o site oficial
da Sadia. Nesse mesmo ano, sempre segundo o discurso patronal, tem início um
processo deliberado de sucessivas incorporações, dentro de um projeto de raciona‑
lização e reestruturação societária para obtenção de economia de escala, redução
de custos administrativos e tributários, elementos esses pertencentes à lógica da
forma de produção toyotista.

3. Todos os dados referentes à empresa foram extraídos do site: <www.sadia.com.br>.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012 511
Em 1996, com grande interesse no Mercosul, a Sadia inaugura uma central
de armazenagem e distribuição em Garin, na Grande Buenos Aires, como também
é implantado o segundo abatedouro de perus da Sadia na unidade produtora de
Francisco Beltrão (PR). Esse processo desencadeia, em 1998, a formação de só uma
empresa, a Sadia S. A., ou seja, uma única companhia aberta para todas as ativida‑
des operacionais da organização.
A Sadia chega ao final do século XX com um parque fabril composto por doze
unidades. Com a economia nacional mais estabilizada e seguindo a “filosofia da
empresa” de melhor ocupação do território nacional, inicia‑se a produção da Gran‑
ja Rezende, tradicional empresa agroindustrial mineira, com um abatedouro de
frangos e perus, além de ativar uma fábrica de produtos industrializados de carnes
em Uberlândia (MG), ampliando, conforme a fala patronal, sua competitividade no
mercado interno. Nesse mesmo ano, para intensificar sua atuação no mercado ex‑
terno, cria filiais na Argentina, no Uruguai e no Chile, escritórios comerciais na
Itália, na Inglaterra e nos Emirados Árabes, e escritórios de representação no Japão,
no Paraguai e na Bolívia.
Com a intensificação da avicultura no oeste e no sudoeste do Paraná, somada
à dos demais polos criadores de Santa Catarina, São Paulo, Mato Grosso, Minas
Gerais e Distrito Federal, a Sadia dá um salto de quantidade na produção e venda
de frangos inteiros e processados. A marca anual de 1 milhão de cabeças atingida
pela primeira vez em 1968 tem apenas valor simbólico, quando comparada aos mais
de 323 milhões de aves abatidas em 1995 e os 450 milhões de frangos e 19 milhões
de perus em 2004.
Em 2005, a Sadia decide retomar o abate de bovinos, em seu frigorífico de
Várzea Grande, que estava arrendado ao grupo Friboi. Com isso, a empresa passou
a produzir cortes bovinos com as marcas Sadia (cortes nobres) e Sadilar no merca‑
do interno, bem como reforçou sua exportação com produtos bovinos.
Em 2006, seguindo a lógica patronal, a Sadia investiu fortemente na moder‑
nização da gestão da companhia, promovendo diversas mudanças e renovações em
sua equipe de gestores. Além de promover alterações na estrutura organizacional
da área comercial, na área de marketing e a criação de uma diretoria de relações
internacionais.
A nova diretoria da Sadia deu andamento ao projeto de instalação de uma
fábrica de processamento de carne, em Kaliningrado, na Rússia, em parceria com
uma distribuidora local, sendo as matérias‑primas provenientes do Brasil. A fábri‑
ca atenderia o mercado russo e também as nações que compunham a antiga União

512 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012
Soviética, como os países bálticos e do Cáucaso, além de fornecer parte da produ‑
ção ao abastecimento da rede McDonald’s na Rússia. A empresa seria fornecedora
exclusiva de produtos processados de frangos e, em um segundo momento, também
deveria fabricar pratos prontos.
Outro fato importante foi a obra de ampliação e modernização de seu armazém
frigorificado no porto de Paranaguá, em 2007. Instalado na área de embarque, o
novo armazém aumentou sua capacidade de 3,1 mil toneladas para 8,5 mil tonela‑
das, o que representa um crescimento de 170%. Com investimento de R$ 19 milhões,
o projeto é responsável, até hoje, pelo armazenamento de grande parte dos produtos
exportados pela empresa para mais de sessenta países da América Latina, Europa,
Ásia e Oriente Médio.
Já, em 2008, segundo o relatório anual da empresa, a Sadia era considerada
líder brasileira de alimentos industrializados e a sexta maior exportadora do país.
Contava nesse ano com mais de 60.580 mil funcionários diretos, sendo 22.796
mulheres, das quais 20,11% ocupavam cargo de chefia. Tinham também 10 mil
produtores rurais integrados entre pequenos, médios e grande porte. Por meio de
fomento agropecuário, mantinha acordos com granjas integradas de criação de aves
e suínos, o que lhe garantia o fornecimento de matéria‑prima.
Até 2008, a Sadia produziu cerca de setecentos itens, distribuídos em mais de
trezentos pontos de venda no território nacional e outros mil foram exportados para
mais de cem países. No final desse ano, já mantinha dezessete unidades industriais
próprias em oito estados brasileiros e uma em Kaliningrado, na Rússia, além de
doze grandes centros de distribuição no Brasil, mantendo sua sede principal em
Concórdia (SC). No exterior, a Sadia mantinha escritórios comerciais em catorze
países: Alemanha, Argentina, Áustria, Chile, China, Emirados Árabes, Holanda,
Inglaterra, Japão, Portugal, Rússia, Turquia, Uruguai e Venezuela.
No entanto, apesar do contínuo crescimento da Sadia, em 2009 ocorre sua
fusão, já mencionada, que parece assumir, pelas informações preliminares existen‑
tes, a forma de uma incorporação da Sadia S. A. pela concorrente Perdigão S. A.
Esse fato é resultado das perdas significativas decorrentes de investimentos espe‑
culativos realizados pela primeira. Com a fusão originou‑se a criação da Brasil
Foods, conglomerado que se converteu numa das maiores produtoras e exportado‑
ras mundiais de carne de frango, exportando para mais de cem países no mundo.
Após essa digressão, indicando o perfil monopolista da empresa em questão,
nos perguntamos no decorrer da pesquisa do pós‑doutoramento: como vem se or‑
ganizando o trabalho na pequena propriedade avícula familiar no interior do siste‑
ma de integração da Sadia?

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012 513
O sistema de integração e a divisão sexual do trabalho na pequena
propriedade rural familiar
O sistema de integração é um “esquema normativo de parceria entre o peque‑
no produtor rural e a empresa, na qual o primeiro produz para a indústria e esta se
compromete com o fornecimento de assistência técnica e de insumos para a produ‑
ção (animais novos, vacinas, ração e outros)” (Reche, 2008, s/p.).
Essa parceria é baseada na utilização de força de trabalho familiar e em pe‑
quenas extensões de terra e propriedades diversificadas. Ao pequeno produtor e sua
família cabe a função de “acompanhar o avanço tecnológico da empresa para atin‑
gir o padrão de aceite do produto pela indústria para exportação”, ou seja, a ideia
básica do sistema de integração é que as agroindústrias forneçam toda a tecnologia
aos pequenos produtores, que possuem a tarefa de engordar os animais (Idem, s/p.).
No caso do frango, as indústrias fornecem os pintinhos com padrão genético
definido, ração especial, remédios e assistência técnica, enquanto os integrados
cuidam das aves até a hora do abate. Assim, a agroindústria não necessita gerar os
espaços de criação e de produção da matéria‑prima, mas conserva um monopólio
de exploração e de controle sobre os trabalhadores familiares (Idem, s/d.).
Com a parceria concretizada, a atividade dos pequenos produtores familiares
se torna relativamente assemelhada à produção fabril, prioritariamente na avicul‑
tura, que é central para a integração, onde identificamos que o papel do produtor
limita‑se a engordar o “pintainho” de um dia — o qual não é seu — até se transfor‑
mar em frango. Ou seja, o trabalho no “sistema de integração” pode tanto preservar
uma modalidade típica de produção familiar, quanto basear‑se numa forma especí‑
fica de subordinação desse trabalho ao capital, de que é exemplo o “salário por
peça” (Marx, 1988, p. 133), claramente distinto da atividade laborativa típica da
pequena propriedade voltada para a subsistência.
Ao contrário, segundo Marx (1988, p. 133),

O salário por peça nada mais é que uma forma metamorfoseada do salário por tempo,
do mesmo modo que o salário por tempo é a forma metamorfoseada do valor ou
preço da força de trabalho. O trabalho por peça parece, à primeira vista, como se o
valor de uso vendido pelo trabalhador não fosse função de sua força de trabalho,
trabalho vivo, mas trabalho já objetivado no produto, como se o preço desse trabalho
não fosse determinado, como o do salário por tempo, pela fração do valor diário da
força de trabalho/jornada de trabalho de dado número de horas, mas pela capacidade
de produção do produtor, organizado de exploração e opressão.

514 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012
Cabe lembrar que, conforme Jesus (2010, p. 35):

Na mesma direção Mota e Amaral (1998) abordam o processo de externalização da


produção que se caracteriza como um dos princípios do modelo de acumulação
flexível. Isto é, trata‑se de uma nova forma de estruturar a produção, onde atividades
que não se caracterizem como processo‑fim da empresa deixam de fazer parte de
sua estrutura interna. De acordo com as autoras, este processo é extremamente
funcional ao capital, uma vez que transforma custos fixos em variáveis, delegando
por meio da terceirização a outras empresas ou trabalhadores, funções agora pagas
por peça, pelo produto. Defeitos em produtos, absenteísmo, ociosidade, custos
trabalhistas deixam de ser preocupações da empresa. Tais mecanismos estimulam a
existência de trabalhadores autônomos, trabalho à domicílio e pequenas empresas
prestadoras de serviços.

Assim, os pequenos avicultores familiares desprovidos dos direitos trabalhis‑


tas, “fisicamente distanciados do controle e da exploração direta deles — trabalha‑
dores proprietários, que se pensam livres”, e parceiros das agroindústrias “possuem
na sua autoexploração, na exploração de sua família e de outros trabalhadores, uma
clara fonte de produção de valor”. Isso se configura como um resgate de “formas
antigas de produção e exploração”, inseridas nos “novos processos produtivos”,
tornando‑se, por essa razão, “funcionais ao capital”, conforme afirma Jesus (2010,
p. 36), referindo‑se ao estudo de Mota e Amaral (1998).
Desse modo, o “sistema de integração”, baseado nos mecanismos da autoex‑
ploração do trabalho, “é um dos elementos do acordo de ‘parceria’ que tem dupla
face para o trabalhador, pois, não podendo ele vender sua produção no mercado
livre para outra agroindústria a não ser aquela com quem firmou a parceria, fica
sujeito ao preço definido pela agroindústria...” que o contratou (Lusa, 2008, p. 61).
O fato de a agroindústria determinar, como um verdadeiro “monopólio, o
‘preço’ a ser pago pelo produto do avicultor” faz com que haja uma instabilidade
constante, acarretando insegurança quanto aos valores que eles receberão por cada
lote produzido (Lusa, 2008, p. 61). Essa situação de subordinação e dependência é
uma importante dimensão não só do sistema de integração, mas também da própria
lógica da reestruturação produtiva. E sua produção está assentada numa modalida‑
de de divisão sexual do trabalho, como veremos a seguir (Idem, p. 61).
Nas pequenas propriedades avícolas familiares é possível encontrar uma
clara divisão de tarefas para os homens e as mulheres. “Os homens são os chefes
da família e os ‘primeiros’ proprietários dos bens familiares, são eles que comandam
e decidem o tipo de atividades a serem desenvolvidas na propriedade, o trabalho a

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012 515
ser desempenhado pelos membros, a administração financeira dos recursos e a
decisão de novos investimentos” (Idem, p. 76).
Já “as mulheres são acima de tudo ‘mães’, mulheres atenciosas, disponíveis,
e tendem a ser menos repressoras que os homens. A elas cabe a administração do
lar” e os cuidados cotidianos familiares, como “a preparação da comida; o contro‑
le dos alimentos e outros produtos necessários para a família; a atenção ao vestuá‑
rio, desde a compra até a lavação; além da limpeza e organização da casa”, como
podemos constatar na fala da entrevistada4 (Idem, p. 76):

eu acordo às 6h da manhã, já. Faço fogo, arrumo o café, depois se eu tenho que fazê
o pão naquele dia, daí eu já amasso. Depois eu faço o chimarrão, daí a gente toma
umas cuia de chimarrão com a nona, daí vou já pra luta. Começo lá com as vaca. Tiro
o leite, arrumo tudo lá, venho pra dentro, como um pedaço de pão e daí já vou ajei‑
tando pro almoço e roupa e faxina [...] e continuo até de meio‑dia, né? Daí neste
meio‑tempo, eu vou no aviário ou fazê as outras coisas lá fora se precisa, né? Daí
almoçamo, depois faço as coisas, lavo a louça, limpo aí um pouco e depois se eu
posso, eu vou me deitar um pouquinho, descansá assim uma meia hora. Depois ajeito
mais um pouco as coisas pros nonos e depois tomo um chimarrão com eles, porque
se não eles ficam sozinhos e então alguém tem que conversar e dar atenção pra eles.
Depois já saio lá pra fora e é lenha, é roupa, ou se tem alguma coisa pra plantá que é
época, como amendoim, por exemplo, né [...] ou então se é época de limpá ou de
colhê alguma coisa que se produz de muideza, tem a horta também que tenho que me
dedicá, porque sou só eu, né. Depois já vou começá atrás das vaca e continuo. Aí pela
18h eu começo a tirá o leite e vou até que termino, faço tudo lá, ajeito e deixo certo
pro outro dia. Depois eu entro, assim, agora eu tô entrando aí pelas 21h, mas dá pra
dizer que normalmente é mais ou menos umas 20h. Daí já arrumo a janta, daí a gente
janta e eu lavo a louça. Depois se tem que passar roupa eu passo, se precisá ensaboar
umas roupas e também encaminhar o almoço pro outro dia, e assim, né [...] depois eu
vou dormir aí pelas 23h. (Mulher, Família 16)

Esse depoimento é emblemático e mostra que a divisão sexual do trabalho


pode ser facilmente observada na organização do trabalho e que ela se expressa por
meio das tarefas femininas vinculadas ao espaço da reprodução, explicitando a
presença de uma acentuada hierarquia, em que em geral a responsabilidade de

4. Conforme indicamos anteriormente, todas as entrevistas que se seguem foram realizadas pela pes‑
quisadora Mailiz Lusa, para o desenvolvimento de seu TCC, com o título Trabalho no contexto rural:
quando a divisão sexual do trabalho conforma as tramas da identidade de mulheres e homens da agricultu‑
ra familiar no oeste catarinense (2008), com a orientação da profa. Teresa Kleba (vide bibliografia).

516 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012
subsistência fica a cargo do sexo masculino (Hirata et al., 2000; Maruani, 2000 e
2002; Nogueira, 2009; Lusa, 2008)
No relato abaixo, referente à percepção do homem em relação ao trabalho da
sua mulher e ao seu próprio, podemos perceber um pouco da hierarquia e da divisão
sexual do trabalho presente na família do pequeno produtor rural,

Ela levanta às 6 horas, até antes que eu. [...] faz fogo, e arruma o café, apronta a mesa,
faz um chimarrão e toma com a nona e depois vai pra estrebaria e daí ela só volta pra
cá umas 9h30 ou 10h. Daí come um pedaço de pão e fica aqui e faz limpeza e outras
coisas aqui dentro de casa, que eu nem sei o que faz, porque eu sumo, e não vejo nada.
De vez em quando ela passa no aviário, assim, umas duas vezes por manhã. Daí ter‑
mina o almoço, eu entro e nós almoçamo. Se é no verão ela faz o serviço e depois
descansa um pouco e se é o inverno, não tem descansá, né, continua direto. Mas as
coisas dela, assim do serviço de depois do almoço, eu não sei, porque eu não vou
muito atrás [...], mas seria a louça e limpeza da cozinha, né? Depois toma um pouco
de chimarrão com os nonos, que é a única que segura a barra aí com eles, que ajuda
a tomá com eles, porque eu não pego a cuia e não paro pra dá atenção pra eles, e a
gente sabe que precisaria, né, porque eles já tem certa idade, o nono já não escuta
quase nada, tu vê, quase não fala e também se esquece das coisa e não reconhece as
pessoa e a nona, já ainda é bem consciente, né? Só não tá boa de saúde física, né? Daí
eles já ficam sozinhos praticamente o dia inteiro então tem que ter alguém que con‑
versa com eles um pouco em algum momento do dia, né? Então, é ela que faz isso,
que segura a barra, porque pra mim não dá! Tá, depois disto ela passa no aviário de
novo e daí já começa a prepará as coisa pras vaca, as cocheiras, as coisa alí, o trato
[...] aí começa tirar o leite e vai até aquela hora de novo! (risos) Vai até 21h ou 22h
da noite quando entra. [...] daí de novo é a mesma história, daí prepara a janta, jante‑
mo, lava a louça e daí tem ferro, tem roupa pra passar [...] Ah! E eu nem te falei que
durante o dia tem roupa pra lavá, né, mais de manhã que ela lava. Daí depois sempre
tem coisa que ela fica fazendo e se não vamo pra cama. (Homem, Família 16)

Já em relação ao seu próprio trabalho, o pequeno agricultor integrado contou:

Acordo, depende né?, quando tem os pinto pequeno é diferente, mas dá mais ou me‑
nos umas 6h ou 6h15. Daí vou pro aviário, dou uma olhada lá. Daí vai pro chiqueiro
e trata os porco, limpa o chiqueiro. Volta ajudá a esposa a tirar o leite na estrevaria.
Daí vem pra cá, toma café mais ou menos 8h30 ou 9h, mais ou menos [...] e vai no
aviário novamente. Se precisa eu vou pra roça neste horário também. E de tarde tam‑
bém eu vou fazendo o que tem no dia a dia.
Aí por 11h45 ou 12h daí se entra, eu tomo banho e já tá com o almoço na mesa. Então
almoçamo e eu boto o chapéu e vou no aviário. Depois volto e se dá pra descansá um

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pouquinho eu fico. Se não seguro o chapéu e vou novamente, [...] aí tu começa na roça
e coisa assim. Olha, é assim: no verão descansa um pouco, porque é muito quente e
os dias são mais longo então dá pra ficá mais tempo à noite. Só que no inverno não
para, porque não tem tempo, se não se termina muito tarde a noite e é frio, né? Tá,
então digamos que fui pra roça, daí eu volto aí pelas 17h ou 18h, mas se tiver que
terminar algum pedaço, daí tenho que ficá lá até as 20h, por exemplo. [...] eu venho
pro aviário, dou mais uma olhada, tomo banho, vou pra janta e depois saio novamen‑
te aí pelas 22h30 no inverno, só que no verão eu entro só às 22h mais ou menos, aí
saio no final mais tarde ainda, aí por 23h ou 23h30. É, é um puxado, olha a minha
aparência, a minha estatura, por exemplo, é bem de agricultor. (Homem, Família 16)

Sabemos que a divisão sexual do trabalho é um fenômeno histórico e social,


pois se transforma e se reestrutura de acordo com os interesses da sociedade da qual
faz parte em determinado período. “Por conseguinte, ela torna‑se um fenômeno
dinâmico que expressa e reforça a perpetuação da subordinação das mulheres”, que
na sociedade capitalista tem como objetivo central a acumulação de capital, como
o exemplo acima reforça (Gamba, 2007, p. 100, in Lusa, 2008, p. 96).
Neste sentido, compreendemos então que a divisão sexual do trabalho na
família dos pequenos avicultores “é permeada pela tradicional e cultural dominação
masculina”, só que de forma ainda mais intensa que na maioria das famílias urbanas,
resultando em “uma desigualdade” mais acentuada, “tanto nas relações de trabalho
quanto nas relações” familiares (Lusa, 2008, p. 98).
Assim, “a divisão sexual do trabalho é clara na agricultura familiar, cabendo
ao homem as tarefas destinadas à geração de renda”, entre elas “o cultivo dos cam‑
pos, inclusive no corte”, [...] “a preservação das matas, a construção de cercas, as
relações comerciais de vendas de produtos, compra de insumos, maquinários, a
aquisição de bens ou financiamentos etc.” (Idem, p. 99).
Já para a mulher caberiam as tarefas relacionadas ao âmbito do espaço repro‑
dutivo, o qual também se estende aos arredores da casa. “É neste espaço que a
mulher realiza as tarefas destinadas à reprodução familiar, como os cuidados com
a casa, com a comida, com a educação dos filhos, com o cultivo da horta e cuidados
com o jardim, as pequenas criações de gado, aves e suínos etc.” (Idem, p. 99).
Dessa maneira, a divisão sexual do trabalho nas pequenas propriedades fami‑
liares rurais se apoia, em grande medida, na dominação presente na hierarquia fa‑
miliar, como, por exemplo, nas relações “de herança e propriedade, nos arranjos
matrimoniais etc.”, indicando que esse segmento rural está também muito distante
da “igualdade substantiva” de gênero (Idem, p. 99).

518 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012
Segundo Mészáros (2002, p. 277‑278),

a estrutura de comando do capital sempre foi — e para sempre será — totalmente


incompatível com a ideia de conceder a qualquer pessoa igualdade substantiva na
tomada de decisões, até mesmo às “personificações do capital” que devem operar
rigorosamente sob seus ditames materiais. Neste sentido, quer as mulheres tenham
quer deixem de ter o direito de votar, elas devem ser excluídas do verdadeiro poder
de decisão por causa de seu papel decisivo na reprodução da família, que terá de se
alinhar com os imperativos absolutos e os ditames autoritários do capital. E isto deve
acontecer porque a família, por sua vez, ocupa uma posição de importância essencial
na reprodução do próprio sistema do capital: ela é seu “microcosmo” insubstituível
de reprodução e consumo.

Dessa forma, a manutenção da desigual divisão sexual do trabalho e as relações


de opressão do homem sobre a mulher são propícias para a lógica capitalista, entre
as quais se destaca a garantia da reprodução social por parte da mulher e seu in‑
gresso no espaço produtivo (Nogueira, 2006, p. 116).
Esta situação, embora pareça remeter‑se somente ao trabalho urbano,5 também
pode ser observada no meio rural, como já indicado e como poderemos perceber
na continuidade da nossa reflexão sobre a divisão sexual do trabalho nas pequenas
propriedades de avicultura familiar vinculadas ao “sistema de integração”.
Após a reestruturação produtiva, os pequenos avicultores familiares indicaram
que as relações de trabalho no sistema integrado da Sadia foram intensamente al‑
teradas, principalmente em relação ao aumento da exigência de “atenção direta”,6
ao “aumento do padrão tecnológico”, na “diminuição da lucratividade” e “aumen‑
to dos custos de produção”, ao “aumento das exigências de qualidade e produtivi‑
dade”, ao “aumento do trabalho — quantidade e intensidade e diminuição do
tempo médio de alojamento” dos frangos (Lusa, 2008, p. 47).
Assim, vejamos o depoimento de um avicultor integrado:

[...] mudou muito, mudou mesmo. Mudou desde o tempo pra produzir o frango. Nós
levava mais tempo pra produzir o frango, você produzia no início em 120 dias de

5. Ver os livros A feminização no mundo do trabalho (Nogueira, 2004) e O trabalho duplicado (No‑
gueira, 2006).
6. Atenção direta é o tempo necessário dispensado para o cuidado com o aviário. Quanto menor for a
implantação e o padrão de equipamentos tecnológicos no aviário, maior é o dispêndio de tempo no manejo
das aves (Lusa, 2008, p. 47).

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012 519
idade, hoje você produz ele em 30, 39, 38 dias, 33, 40, 49 no máximo. Só que naque‑
le tempo era diferente porque hoje tu produz em menos tempo e com mais peso. De
equipamentos então, ah! Tá sempre gastando, né? [...] começou com um tipo de co‑
medouro, um tipo de bebedouro, mudou pra outro, depois veio mais outro e assim foi
indo, né? Campânula é a mesma coisa: tu tá sempre investindo. Hoje por exemplo ele
querem tela fina, arco pra desinfecção e mais cerca ao redor, porque não pode ter
acesso a propriedade. (Homem, família 16)

E complementa,

[...] a mão de obra antes era a mãe, o pai e eu, antigamente quando começamo. E tinha
mais alguém às vezes que ajudava diariamente ou por mês e depois fui ficando quase
sozinho, porque hoje tu não pode mais pega um empregado. E mesmo de serviço
mudou também, sim, mudou. Antigamente tu não tirava muita casca assim, então
aumentou porque agora tu tem que segurá mais [...] tá mais em cima, né? Porque hoje
em dia tu tem menos tempo e aquela época lá parece que o tempo era mais longo,
porque tu tinha menos detalhe pra fazê, tinha que tirar menos cascão, tanta coisa.
Então hoje não, não sobre tempo porque a cada dois dia tu tem que passa muitas horas
lá dentro só pra tirar o cascão de dentro. (Homem, família 16)

No que tange à questão da chamada “atenção direta”, com certeza ela está
mais acentuada e precária nas pequenas propriedades avicultoras familiares, pois
a intensificação no cuidado manual com as aves obviamente atinge aquelas pro‑
priedades com menos capacidade de empregar equipamentos com alta tecnologia.
Além da dificuldade de disponibilidade de tempo livre para a aprendizagem do
manuseio das máquinas que estão em constante modificação (Lusa, 2008, p. 47‑50).
Portanto, este trabalhador, para se manter no “sistema integrado”, segundo
Lusa (2008, p. 48‑49), “passa a se inserir de forma ‘obrigatória’ no quadro de uti‑
lização de inovações tecnológicas, o que teoricamente poderia ser positivo”, uma
vez que “diminuiria a quantidade e a intensidade da força de trabalho necessária
para desenvolvimento das atividades, mas na prática é compensada negativamente
pelo surgimento de outras atividades necessárias ao manejo”, sendo um significa‑
tivo exemplo, “o surgimento da ‘casca’7 que é um dos efeitos das inovações alimen‑
tares. A partir do relato do avicultor pode‑se compreender o que o aumento da
‘casca’ representa em relação às exigências de manejo”:

7. “É a parte molhada, o resíduo úmido de urina, de fezes, ou de outro tipo de umidade” que fica no
aviário, conforme depoimento, citado em Lusa (2008, p. 48).

520 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012
[...] a casca que começou a dar bem mais [...] que nem eu falei, o problema da ração
vegetal que eles estercam mais mole, daí com a ração vegetal não tinha horário [...] a
gente ficava, praticamente dia a noite dentro do aviário. Que chego num conclusão de
que nós tinha que para, porque o piá [...] ele tinha 12 pra 13 anos, nós nunca botava
ele pra puxar uma casca, [...] mas daí ele teve que começar levantar às cinco horas da
manhã junto com nós e até ele tava puxando casca. E nós não aguentava mais, nem
eu, nem ela [...] nós tava tudo arrebentado e não se vencia, até ele tava puxando [...]
daí se é pra acabá com os filho, daí também não adianta, né, então é melhor pará.
Trabalhá como? (Homem, Família 5)

Ainda tratando da questão da desigual divisão sexual do trabalho no setor


rural, seguimos apresentando o depoimento de uma das mulheres pertencente à
família de um pequeno avicultor, vinculado ao sistema de integração, no que diz
respeito a uma das suas obrigações diárias de trabalho, após as novas alterações
exigidas pela Sadia, no cuidado com o aviário:

Tem que levantá à noite. Eu levanto umas 3 ou 4 vezes à noite, isso é garantido. E como
tem que levantar, eu já não tenho sono [...], mas nem que eu tivesse, não ia adiantá, tem
que ir fazer fogo o mesmo, né? Você passa de dia e de noite sempre em ação, porque
daí de dia tu puxa lenha e arruma tudo e de noite tem que levantar umas 3 vezes pra
fazer fogo, aí se põe o relógio pra despertar que é pra garantir, porque das vezes posso
dormir, né? [Pesquisadora: cada vez que a senhora levanta quanto tempo demora?] Ah!
eu levo uma meia hora. Porque daí eu ponho a lenha nas campânulas, ai eu vou mexer
eles, vou ponhá ração nos tubolar, arrumar os guardanapos nas bandejas e no fim se
tiver ração no chão, porque eles esparramam na maravalha, aí até que tu limpa tudo...
demora! E geralmente eu vou sozinha, porque eu não chamo eles, porque uma pessoa
passando sono chega, né? Então eu vou trabalho e deixo tudo limpo. Depois preciso
mais uma meia hora ou 40 minuto também, porque daí até se lavar e pegar no sono de
novo, [...] daí o relógio já tá despertando de novo. (Mulher, Família 12)

Ao presenciarmos por meio dos depoimentos, uma expressiva desigualdade


na divisão sociossexual do trabalho no “sistema de integração”, podemos afirmar
que as relações sociais capitalistas acabam legitimando uma relação de submissão
das mulheres em relação aos homens, imprimindo uma conotação considerada
“natural” à mulher, dada, em grande medida, pela sua subordinação de todas as
funções reprodutivas sociais, como as relações de gênero familiares à produção
material e cultural (Nogueira, 2006, p. 23, e Mészáros, 2002, p. 213).
O peso imposto pelo “sistema do capital” sobre as mulheres para que haja a
manutenção das especificidades “naturais” e a situação delas no espaço do trabalho

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012 521
assalariado é profundamente injusto. Em vez de se verem aliviadas “como preten‑
deria a retórica da oportunidade” de direitos iguais “para as mulheres e da elimina‑
ção de qualquer discriminação de gênero”, o que elas presenciam de fato é, ainda,
uma acentuada precarização da sua força de trabalho (Mészáros, 2002, p. 302‑303).
O capitalismo, “ao mesmo tempo em que cria condições para a ‘emancipação’
feminina, acentua a sua exploração ao estabelecer uma relação aparentemente
‘harmônica’ entre precarização e mulher, criando formas diferenciadas de extração
do trabalho excedente”. Sabe‑se que quando “se toma o trabalho em seu sentido
mais profundo, pode‑se ver que ele possibilita um salto efetivo no longo processo
da ‘emancipação’ feminina. E, na medida em que a mulher se insere no trabalho
produtivo, ela tem também a possibilidade de lutar pela conquista da sua ‘emanci‑
pação’, pois se torna parte integrante do conjunto da classe trabalhadora” (Noguei‑
ra, 2004, p. 89).
O depoimento abaixo pode ilustrar bem essa realidade,

[...] Até eu comento com as gurias na sala de aula que eu inseminava porca, desma‑
mava leitão, castrava leitão, fazia tudo, sabe? Tem gente que não acredita. Agora eu
comento com elas que eu vacino porco, que limpo chiqueiro, que eu seguro porco, daí
elas não acreditam! [...] eu ajudava ele em tudo. Na lavoura quando precisava ajudar
eu ajudava, dirigia trator e caminhão, que nós tinha na época. O que precisava fazer
eu fazia. Também na parte administrativa. Que eu falo com várias pessoas e tem
mulher que não sabe quanto dinheiro tem no banco, não sabe quanta dívida tem,
quando vence os financiamento [...] a mulher não sabe. Eu era bem ao contrário, eu
sabia tudo, porque era mais eu que controlava esta parte do que ele.

E complementa,

Eu sempre penso assim, que você tem que ir atrás e buscar coisas, que você nunca
pode ficar parada, porque se você pensar: “Ah! Você é uma mulher, então você deve‑
ria parar, não deveria trabalhar tanto, poderia sossegar mais, [...] daí não dá! [...]”. Pra
mim não serve essas conversas porque eu penso o contrário. (Mulher, Família 2)

Nesse aspecto, é significativo lembrar que sendo a luta das mulheres centrada
na questão da igualdade substantiva (Mészáros, 2002), tanto no espaço da repro‑
dução como na esfera da produção, seja no âmbito da produção rural ou urbana, “o
sistema do capital indiscutivelmente não pode ser mais do que a perpetuação da
injustiça fundamental”, uma vez que a própria natureza do relacionamento entre
capital, trabalho e reprodução “é a manifestação tangível da hierarquia estrutural

522 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012
insuperável e da desigualdade substantiva”, o que claramente limita a conquista de
sua “emancipação” (Idem, p. 306).
Ou seja, a crítica da mulher trabalhadora (bem como a do trabalhador) à so‑
ciedade capitalista não deve ater‑se exclusivamente à análise das relações de ex‑
ploração e precarização existentes no mundo produtivo (por mais importante que
ela seja), mas deve compreender também toda a opressão presente na hierarquiza‑
ção patriarcal instituída no espaço da reprodução (Nogueira, 2006, p. 195).
Assim, a partir das indicações preliminares que oferecemos em nossa pesqui‑
sa sobre o trabalho feminino no sistema de integração da agroindústria, a rica e
complexa articulação das categorias trabalho e reprodução permite que se eviden‑
cie, uma vez mais, o aspecto dialético da positividade e negatividade que se encon‑
tra nessa dinâmica contraditória.
A feminização no mundo do trabalho, tanto no segmento rural quanto no ur‑
bano, com certeza é positiva como mais um passo para sua “emancipação”, ainda
que parcial, porém não vem reduzindo significativamente a desigual divisão sexual
do trabalho; ao contrário, vem reproduzindo e por vezes intensificando essa reali‑
dade, explicitando a dimensão negativa (Nogueira, 2004, p.119).
De certa forma, essa situação se traduz em uma acentuada exploração femi‑
nina no mundo do trabalho e uma profunda opressão masculina sobre a mulher
no espaço da reprodução. E, no caso estudado, a trabalhadora rural, da avicultu‑
ra, é claramente subordinada ao mando masculino e frequentemente não remu‑
nerada, pois o pagamento acaba sendo recebido pelo homem, uma vez que na
grande maioria das vezes o contrato do sistema de integração é assinado somen‑
te por ele.

À guisa de conclusão
A realidade acima apresentada nos remete também à reflexão sobre a impor‑
tância para o Serviço Social de conhecer as situações vivenciadas pelas famílias
integradas no segmento da agroindústria. Pois o Serviço Social é uma profissão
eminentemente interventora e contempla em seu projeto profissional o processo de
construção de uma nova ordem societária, sem dominação/exploração de classe,
etnia e gênero.8

8. Ver o Código de Ética do/a Assistente Social e a Lei n. 8.662/93.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012 523
A realidade da avicultura familiar vinculada ao sistema de integração, no
oeste catarinense, demonstra também que esse setor sofreu uma importante inten‑
sificação do processo de trabalho, de que é exemplo o fato de que no Brasil, no
início dos anos 1970, um frango era abatido com 60 dias de vida; nos anos 1990
esse tempo diminuiu para 42 até 45 dias, sendo que atualmente pode‑se abater um
frango com aproximadamente 30 dias de vida (Belik, 1994, p. 67).
Sabemos que essa intensificação do processo de trabalho, que atinge a agroin‑
dústria da avicultura, acumula também, como esta investigação parcial procurou
indicar, uma acentuada dimensão de gênero articulada com a exploração do traba‑
lho. Essas formas de exploração do trabalho atingem tanto os homens quanto as
mulheres, embora a força de trabalho feminina seja mais intensamente afetada, o
que acaba por configurar uma maior precarização das suas condições de vida, mar‑
cadas pela ampliação das carências e necessidades básicas.
É justamente com o intuito de compreender e, na medida do possível, intervir,
que a proteção social se faz necessária, uma vez que a ausência de políticas públi‑
cas nesse segmente transforma essas carências e necessidades em questão social.
E sendo a questão social um pressuposto vital para o trabalho do Serviço
Social, é imprescindível a ampliação de conhecimento da realidade onde estão
inseridas as suas múltiplas expressões, fornecendo o máximo de elementos possíveis
para a pesquisa e, ao mesmo tempo, produzindo o enfrentamento dessa realidade,
por meio de seu arcabouço teórico metodológico. Segundo Iamamoto (2000, p. 62),
ao se referir à questão social:

[...] É ela em suas múltiplas expressões, que provoca a necessidade de ação profissio‑
nal [...]. Essas expressões da questão social são a matéria‑prima ou objeto de trabalho
profissional. Pesquisar e conhecer a realidade é conhecer o próprio objeto de trabalho,
junto ao qual se pretende induzir ou impulsionar um processo de mudanças. Nesta
perspectiva, o conhecimento da realidade deixa de ser um mero pano de fundo para o
exercício profissional, tornando‑se condição do mesmo, do conhecimento do objeto
junto ao qual incide a ação transformadora ou esse trabalho.9

Portanto, o Serviço Social deve partir da posição de que o seu significado


social é desvendado enquanto partícipe da sociedade, inserido no processo de pro‑
dução e reprodução das relações sociais. Ou seja, “é preciso ultrapassar a análise
do Serviço Social em si mesmo para situá‑lo no contexto de relações mais amplas

9. Ver também Netto (1996, p. 89).

524 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012
que constituem a sociedade capitalista, particularmente no âmbito das respostas
que esta sociedade e o Estado constroem, frente à questão social10 e às suas mani‑
festações” (Yazbek, 2009, p. 2), sendo que no caso referem‑se às respostas (ou
ausência delas) à realidade das famílias avicultoras vinculadas ao sistema de inte‑
gração no oeste catarinense.
O que nos obriga a indicar como o capitalismo, também na unidade produtiva
vinculada ao sistema de integração, tem enorme interesse em preservar e mesmo
intensificar a desigual divisão sexual do trabalho. Isso porque uma relação de
“igualdade substantiva” no espaço reprodutivo, como no espaço produtivo, seja no
campo ou na cidade, não é do interesse e não faz parte da lógica do capital, que no
máximo “permite” uma relação de igualdade apenas formal. Isso evidencia que o
capital necessita, para a preservação do seu sistema de dominação, do trabalho
feminino, tanto no espaço produtivo como no reprodutivo, preservando, em ambos
os casos, os mecanismos estruturais que geram a subordinação da mulher ­(Mészáros,
2002, p. 306).
Vale recordar aqui a antecipação dessa complexa relação entre os gêneros,
feita por Marx (1983, p. 166‑167):

[...] na relação com a mulher como a presa e a criada da luxúria comunitária está
exprimida a degradação infinita em que o ser humano existe para si mesmo, pois o
segredo desta relação tem a sua expressão inequívoca, decidida, manifesta, desvelada,
na relação do homem com a mulher e no modo como é tomada a relação natural,
imediata do gênero.

Portanto, é possível afirmar que a lógica da divisão sociossexual do trabalho


existe tanto no mundo produtivo como na família patriarcal, uma vez que ela se
baseia na articulação entre a esfera da geração do valor e a esfera da reprodução.
E isso acontece, segundo Mészáros, “não apenas porque as mulheres têm de
aceitar uma parcela desproporcional das ocupações mais inseguras, mais mal pagas”
que existem no mundo do trabalho e “estejam na péssima situação de representar
70% dos pobres do mundo”, mas em virtude de seu papel decisivo na família pa‑
triarcal, porque “as exigências que são (e continuarão a ser) jogadas em cima das
mulheres são cada vez mais difíceis de satisfazer no cenário social mais amplo,

10. “A questão social é expressão das desigualdades sociais constitutivas do capitalismo. Suas diversas
manifestações são indissociáveis das relações entre as classes sociais que estruturam esse sistema e nesse
sentido a questão social se expressa também na resistência e na disputa política” (Yazbek, 2009, p. 2).

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012 525
contribuindo para quaisquer ‘disfunções sociais’ associadas à crescente instabili‑
dade da família” (Mészáros, 2002, p. 304‑305).
Portanto, quanto mais profundas forem essas “disfunções sociais”, maior será
o peso e as exigências impostas às mulheres como eixo dessa família; quanto mais
acentuada for essa carga, além da exploração do trabalho rural produtivo, mais
intensa fica a condição de opressão feminina no espaço reprodutivo patriarcal.
Em outras palavras, a nossa crítica à sociedade capitalista não pode limitar‑se
à análise da exploração e da precarização existentes no mundo do trabalho rural
produtivo, mas deve abranger também todos os profundos e multifacetados aspec‑
tos negativos dessa lógica, entre eles a compreensão da opressão que se encontra
presente na estrutura da família patriarcal rural, que impõe uma desigual divisão
do trabalho para a mulher.
Em suma, uma nova divisão sociossexual do trabalho é profundamente ne‑
cessária. Mas não é do interesse do capital uma metamorfose nessa divisão, prin‑
cipalmente se esta transformação for direcionada a uma “igualdade substantiva”
(Mészáros, 2002, p. 272 e Nogueira, 2006, 196‑197).
Assim, como pudemos constatar, o ingresso da mulher no mundo do trabalho
tem se efetivado nos espaços produtivos, como o da agroindústria (em particular
no sistema integrado), pela precarização, intensificação e ampliação das formas e
modalidades de exploração do trabalho, além, é claro, da manutenção da dupla (às
vezes tripla) jornada laboral.
E por ser o trabalho na avicultura familiar, neste caso dos pequenos produto‑
res familiares rurais inseridos no sistema de integração, também “um sacrifício de
sua vida” (Marx e Engels, [1977]), a atenção em relação aos direitos sociais deve
ser intensa. E esse, vale dizer, é um dos papéis fundamentais do Serviço Social,
pois essa realidade está diretamente vinculada não só à produção, mas também à
reprodução social. A reprodução das relações sociais deve ser aqui entendida como
a reprodução da totalidade da vida social, o que engloba não só a reprodução da
vida material e do modo de produção, mas também a reprodução da própria socie‑
dade capitalista e das formas de consciência social através das quais o homem se
posiciona diante da vida (Yazbek, 2009, p. 3‑4).
Segundo a autora,

a reprodução das relações sociais é a reprodução de determinado modo de vida, do


cotidiano, de valores, de práticas culturais e políticas e do modo como se produzem
as ideias nessa sociedade. Ideias que se expressam em práticas sociais, políticas,
culturais, padrões de comportamento e que acabam por permear toda a trama de rela‑

526 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012
ções da sociedade. O processo de reprodução da totalidade das relações sociais na
sociedade é um processo complexo, que contém a possibilidade do novo, do diverso,
do contraditório, da mudança. Trata‑se, pois, de uma totalidade em permanente ree‑
laboração, na qual o mesmo movimento que cria as condições para a reprodução da
sociedade de classes, cria e recria os conflitos resultantes dessa relação e as possibi‑
lidades de sua superação. (Idem, 2009, p. 2)

E essa totalidade, no que concerne aos trabalhadores e trabalhadoras da agroin‑


dústria, como indicado anteriormente, tem aproximações claras com o mecanismo
de exploração do trabalho baseado no que Marx definiu como “salário por peça”,
isto é uma modalidade particular de subordinação do trabalho ao capital (Marx,
1988, p. 133‑135), claramente distinto da atividade laborativa típica da pequena
propriedade. Foi por isso que Marx afirmou que o sistema de “salário por peça” se
“constitui, a base tanto do moderno trabalho domiciliar [...] como de um sistema
hierarquicamente organizado de exploração e opressão” (1988, p. 135).
As precárias condições das relações de trabalho, proporcionadas pela reestru‑
turação produtiva na agroindústria, intensificam as desigualdades da divisão sexual
do trabalho, aumentando a exploração/opressão nas pequenas propriedades rurais
vinculadas ao “sistema de integração”. É por isso que o sistema integrado de fato
integra desintegrando.

Recebido em: 28/5/2012  ■   Aprovado em: 6/6/2012

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Site consultado e citado


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528 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 509-528, jul./set. 2012
O debate sobre a produção de
indicadores sociais alternativos:*
demandas por novas formas de quantificação
Discussion about the production of alternative social indicators:
demands for new forms of quantification

Carola C. Arregui**

Resumo: O artigo apresenta, de forma geral, o debate sobre indi‑


cadores sociais alternativos, situando‑o em torno de duas grandes
questões: a emergência de vozes que questionam o modelo de desen‑
volvimento, no contexto da crise financeira e ecológica global, e as
demandas que surgem na sociedade civil organizada, por novas formas
de quantificação.
Palavras‑chaves: Indicadores sociais alternativos. Novas formas de
quantificação. Convenção social. Desenvolvimento.

Abstract: The article presents, in general, the debate on alternative social indicators, placing it,
around two main issues: the emergence of voices that question the development model, in the context
of financial and ecological global crisis, and several demands that arise in civil society, for new forms
of quantification.
Keywords: Alternative social indicators. New forms of quantification. Social convention. Development.

* Esta reflexão é fruto da realização do Pós‑Doutorado financiado pela Capes, no Centro de Pesquisa
em Economia de Grenoble (CREG) na Universidade Pierre Mendès‑France (UPMF), sob a orientação da
professora Claudine Offredi.
** Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo/SP, Brasil; pes‑
quisadora da Coordenadoria de Estudos e Desenvolvimento de Projetos Especiais da PUC/SP. E‑mail:
carolaarregui@gmail.com.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 529-554, jul./set. 2012 529
Crônica de uma concentração anunciada

E
nquanto na Grécia centenas de pessoas são reprimidas nas praças públi‑
cas ao manifestar seu desacordo com o agravamento das medidas de
austeridade fiscal e na Espanha os jovens passam a ser alvo da filantropia
diante uma taxa de desemprego de 43%1; a revista norte‑americana For‑
bes lança seu ranking anual de 2011 anunciando o apogeu no crescimento das
grandes fortunas no mundo: “A listagem deste ano quebrou recorde em número
(1.210 bilionários) e em patrimônio líquido total ($4.5 trilhões)!” (Forbes, 2011)2.
Três anos após a crise de 2008, os ricos não só haviam concentrado mais
renda e patrimônio, como também cresceram em número. Não é por acaso que o
último dossiê do Le Monde de 2011, no auge da crise na Europa, fechasse o ano
perguntando: “A que servem os ricos?” apresentando a análise sobre o aumento da
concentração da riqueza no mundo (Le Monde, 2011, p. 2). Os dados da lista pu‑
blicada pela Forbes permitem verificar que a histórica relação entre o Norte e o Sul
predomina na distribuição das grandes fortunas, embora seja possível verificar o
crescimento progressivo dos bilionários nos países chamados emergentes. Dos 1.210
bilionários, 413 são norte‑americanos, embora o maior patrimônio líquido perten‑
ça ao mexicano Carlos Slim Helu da área das Telecomunicações. De fato, as tele‑
comunicações, as atividades financeiras e as de investimentos concentram um
terço das grandes fortunas do mundo, sendo que a maior concentração de bilionários
nas áreas de telecomunicações e investimentos está nos EUA e do sistema finan‑
ceiro no Brasil (Forbes, 2011).
O documentário Inside Job, de Charles Ferguson, escandalizou o mundo não
apenas porque revelou a desproporção e desconexão dos ganhos dos meninos de
ouro, com relação às remunerações do cidadão comum, mas também porque des‑
mascarou a relação incestuosa entre sistema político, acadêmico e as finanças.
Deixava‑se em evidência a lógica voraz de um sistema “onde o vencedor levava
tudo”3. Prova disso, foram os sucessivos escândalos publicados nos jornais e nos

1. A taxa de desemprego nos jovens na Espanha chegou a 43,5% em janeiro de 2011, diante da média
de 20,4% na Europa. Fonte: Eurostat, 2012.
2. Forbes é uma revista norte‑americana de economia e finanças, que desde 1987 publica todo ano a
lista dos bilionários do mundo. Disponível em: <http://www.forbes.com/wealth/billionaries>. Acesso em:
2 fev. 2012.
3. Os economistas norte‑americanos Robert H. Frank e Philip J. Cook cunham esta expressão no seu
livro The Winner‑Take‑All Society, Free Press, 1995, ao analisar a forma de funcionamento do sistema finan‑
ceiro global.

530 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 529-554, jul./set. 2012
blogs do mundo: no momento que a crise estourava nos EUA e milhares de pessoas
eram despejadas por inadimplência, a imprensa informava que os altos dirigentes
que levaram às empresas de hipotecas à falência, Daniel H. Mudd e Richard F.
Syron, recebiam, cada um, um salário de 70 milhões de dólares (Carta Maior, 2009).
É justamente a disparidade entre os salários e entre as lógicas do mundo das
finanças e do cidadão comum que é analisada por Philippe Steiner (2011) na sua
publicação Les rémunérations obscénes. Na sua obra, qualificada como a “caixa
preta das desigualdades de salários e rendas”, o pesquisador analisa a ruptura entre
as altas esferas do capitalismo financeiro e a ordem econômica que rege a vida do
cidadão comum. As disparidades de salários são de tal magnitude que o autor che‑
ga a falar de níveis estratosféricos de remuneração, inspirando o título da publica‑
ção. Como aceitar publicamente as disparidades de destinos quando a remuneração
mensal de alguns, segundo os cálculos de Steiner, representa oitenta anos de ativi‑
dade de um salário médio francês? Para o sociólogo francês, a crise financeira
deflagra uma ordem econômica que corrói as bases da sociedade. Diz Steiner (2011,
p. 12): “Les rémunerations obscènes sont une forme de pollution qui ruine la valeur
travail, pourrit les relations sociales et mine la politique. La disproportion entre
revenus est telle que l’opinion publique ne parvient plus à croire à une égalité
symbolique entres des individus”.4
De fato, não é novidade que após a implantação das políticas neoliberais, a
partir da década de 1970, a florescente saúde financeira dos mais ricos foi acompa‑
nhada pelo aumento progressivo das desigualdades sociais. Entretanto, tradicional‑
mente os estudos sobre as desigualdades têm sido focalizados nas análises e ques‑
tões relativas à pobreza, sendo ainda raras e relativamente recentes as pesquisas
sobre a riqueza e o comportamento da renda e o patrimônio dos ricos.
Na França, Thomas Picketty realiza, em 2001, um estudo pioneiro comparan‑
do a situação da desigualdade de renda no país entre o início e final do século XX.
Segundo o economista francês, as características do imposto progressivo na Fran‑
ça permitiram uma histórica redução e estabilidade na condição de desigualdade:
enquanto o poder de compra dos salários se multiplicou por cinco, a hierarquia
entre as remunerações sofreu pouca alteração. Entretanto, a análise da década de
1990 permitia apontar para um comportamento diferente na apropriação e cresci‑
mento dos rendimentos, em favor dos segmentos mais ricos.

4. As remunerações obscenas são uma forma de poluição que derrui o valor trabalho, deteriora as rela‑
ções sociais e mina a política. A desproporção entre rendas é tal que a opinião pública deixa de acreditar na
igualdade simbólica entre os indivíduos.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 529-554, jul./set. 2012 531
Anos mais tarde, Camille Landais, ao replicar a metodologia proposta por
Picketty para analisar o período entre os anos 1998 e 2006, aponta para o aprofun‑
damento da forte divergência de destinos entre as famílias no topo da distribuição
de renda e o resto da população. O estudo revelou que o aumento das desigualdades
na França estava diretamente vinculado à explosão da renda dos ricos, em especial
dos muito ricos. Nesse período, se a renda de 90% dos menos ricos cresceu 5%, a
dos 5% mais ricos aumentou 11%. E acrescenta: mas, para os 0,1% mais ricos o
aumento foi de 32% e para os 0,01% mais ricos o crescimento foi de 43%! Mesmo
durante o período de crescimento do PIB entre 2002 e 2005, os rendimentos médios
das atividades assalariadas cresceram mediocremente em detrimento do aumento
espetacular das rendas oriundas da especulação financeira, em especial as imobi‑
liárias. Os únicos setores que vivenciaram um crescimento acelerado dos salários
seriam aqueles vinculados com os altos cargos nas grandes empresas, na indústria
do divertimento e, sobretudo, no setor financeiro. A explosão dos altos salários, diz
Landais, rompe com a tradição de trinta anos de estabilidade na distribuição salarial
e deixa uma França, no final dos anos 2000, muito próxima das disparidades sala‑
riais que os países anglo‑saxões conheceram uma década antes. E alerta para os
aspectos metodológicos do estudo, pois foi justamente o maior grau de desagrega‑
ção dos estratos de renda que permitiu capturar o imenso hiato entre os extremos,
e que não é apontado pelas medidas tradicionais de desigualdade de renda (Landais,
2007, p. 5). Para os autores europeus que estudam a questão das desigualdades é
necessário repensar as medidas pelas quais as distâncias de renda são capturadas,
pois as metodologias tradicionais não são mais suficientes para apontar as dispari‑
dades que se processam atualmente. É necessário levar em consideração o estudo
das rendas dos muito, muito ricos, pois são eles os grandes beneficiários das trans‑
formações do capitalismo desde os anos 1980. O que implicaria, inclusive, repensar
como quantificar e medir a questão do patrimônio e dos benefícios fiscais dos ricos,
que, ao não ser declarados, subestimam as distâncias reais.
A mesma perspectiva analítica das disparidades de renda deixa os EUA como
nação de maior concentração de renda entre os países desenvolvidos. O 1% dos
mais ricos que possuíam 9% da renda nacional nos anos 1970 passou a possuir
23,5% da renda total em 2009, o mesmo percentual verificado no início da Gran-.
de Depressão. Enquanto isso, o salário médio do trabalhador (ajustado à inflação)
naquele país é mais baixo hoje do que há trinta anos (Weinberg, 2011). Não
surpreende, então, que o Índice de Saúde Social5 que monitora o bem‑estar da

5. O Índice de Saúde Social (Index of Social Health) é um indicador social sintético que objetiva uma
quantificação diferenciada do PIB, ao avaliar o progresso e bem‑estar da sociedade norte‑americana. Foi

532 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 529-554, jul./set. 2012
sociedade norte‑americana mostrara, em 2009, o pior resultado nos últimos treze
anos e uma queda progressiva de 20 pontos percentuais desde a década de 1970
(IISP, 2011).
O mundo fecha a primeira década do século XXI com uma realidade nada
alentadora. Na edição do 20º aniversário da criação do IDH, o Programa das Nações
Unidas lança o seu relatório anual de 2010, “A verdadeira riqueza das nações”,
revelando que, nos últimos quarenta anos o crescimento econômico não se des-.
dobrou, necessariamente, em desenvolvimento humano, e que nos últimos trinta
anos, para cada país onde a desigualdade diminuiu, aumentou em mais de dois
(PNUD, 2010).
Na sua última publicação, La société des égaux, Rosanvallon (2011) aponta
que o crescimento das desigualdades evidenciadas nas últimas décadas (e expressas,
segundo as suas palavras, nas escandalosas disparidades de renda) é sinalizador da
crise na própria noção de igualdade que moldou a sociedade ocidental no último
século e uma lima que corrói as suas bases democráticas. A crise da noção de igual‑
dade se expressa na ruptura não só da tradição secular de redução das desigualdades,
mas dos valores que fizeram parte do ideário democrático, cunhados nas revoluções
francesa e americana, onde não se separava a democracia como regime soberano
do povo e democracia como forma de uma sociedade entre iguais. De fato, o brutal
aumento da renda dos muito ricos, num contexto de perdas catastróficas do ponto
de vista econômico e social, questiona a própria concepção de justiça social, que
fundou os mecanismos redistributivos de outrora.
Alerta para o fato de que o debate público sobre as desigualdades se processa
num contexto de impotência prática, revelando uma crise societária com relação à
noção de igualdade. Embora os estudos internacionais (Forsé e Galland, 2011)
revelem que as pessoas se sentem vivendo em sociedades injustas, com cresci-.
mento progressivo das desigualdades, para Rosanvallon esse sentimento vem
acompanhado do que denomina como “aceitação não formulada” de suas múltiplas
expressões e uma “surda resistência” a corrigi‑as praticamente. Denominará esse
fenômeno como paradoxo de Bossuet6 para mostrar que o mal‑estar majoritário
contra as desigualdades convive com a aceitação dos mecanismos que as produzem
e com a passividade prática frente ao sistema que as gera.

criado em 1987 pelo Fordham Institute for Innovation in Social Policy, de Nova York e ganhou reputação
internacional a partir da metade da década de 1990. O seu cálculo é feito a partir de dezesseis variáveis or‑
ganizadas por ciclo de vida/categorias de idade.
6. Bossuet foi um bispo absolutista francês que cunhou a frase “Deus ri dos homens que se queixam
das consequências, enquanto apreciam o que as causam”.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 529-554, jul./set. 2012 533
Para a socióloga brasileira Vera Telles (2004), com a chamada crise da socie‑
dade do trabalho, assistimos à desestabilização das referências que definiam a
gramática política e traçavam o horizonte de expectativas da igualdade. Desta
forma, perde vigência a proposição dos direitos como parâmetro crítico de proble‑
matização da sociedade, como linguagem política dos atores coletivos e como
elemento comum das regras de sociabilidade. Ao se encolher ou neutralizar as
mediações da questão social com os direitos, também se neutraliza a potência crí‑
tica e simbólica da igualdade como referência pela qual as demandas e disputas
ganham visibilidade e legitimidade na cena pública.
Neutralização ou banalização do conceito de igualdade, como se refere Ro‑
sanvallon (2011), ao remarcar a restrição da sua noção a uma palavra vazia nos
discursos e programas, a uma “encantação negativa” da redução das desigualdades
e à ideia restrita de luta contra a pobreza. Problematiza, assim, o abandono do
sentido radical e real da igualdade, a perda da sua dimensão de universalidade e a
desvinculação com a noção de liberdade. Por isso, para ele não há nada mais ur‑
gente que refundar a sua noção, como relação, como uma forma de viver em socie‑
dade, de produzir e vivenciar o coletivo. A noção de igualdade pressupõe uma
qualidade democrática, e não apenas uma medida de distribuição de riquezas. O
desafio é ressignificá‑la num contexto que coloca no centro da cena o indivíduo
(para não falar consumidor), e não mais uma sociedade compreendida como um
corpo, onde as instituições de solidariedade eram entendidas como uma prolonga‑
ção natural de uma visão orgânica do social.
O dilema talvez, como afirma Telles (2004), é reativar o sentido político e
crítico dos direitos e da igualdade, de modo que as diferenças e assimetrias possam
ser formuladas como questões pertinentes ao destino de uma coletividade num con‑
texto que afirma apenas protocolarmente a ética da cidadania; que confunde direitos
e política com bons sentimentos e/ou filantropia; e onde a análise e descrição da
realidade social se apresenta como hiperfragmentada, quando não contraditória.

Crise de confiança nas medidas: entre a herança das ciências naturais e a


demanda por novas formas de quantificação
As profundas transformações em curso, aliadas ao contexto das crises econô‑
mica, ecológica e da globalização também se expressam numa aparente crise de
confiança nas medidas. A produção crescente de dados quantitativos não tem ga‑

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rantido que o melhor conhecimento da realidade resulte nos impactos esperados
em termos das políticas sociais. Paulo Januzzi (2011) fala do paradoxo da “escassez
na abundância” para denominar o processo crescente, e por vezes desconexo, da
produção de informações no âmbito da gestão. Embora se tenha crescido em termos
de densidade de banco de dados e na construção de sistemas de informação sobre
as condições de vida da população e o desempenho das políticas públicas, os resul‑
tados apresentados acabam por traduzir realidades relativamente opacas. Por outro
lado, o excesso de informação e ênfase quantitativa na produção das medidas sociais
deriva no que Vincent de Gauléjac (2005) denomina como quantifrenia, para pro‑
blematizar o predomínio de uma lógica instrumental que exige a produção cada vez
mais crescente de dados quantitativos, abandonando a interrogação anterior de para
que servem esses dados. Desta forma, diz Gauléjac, em vez de construir uma inte‑
ligência política, temos exatamente o seu contrário.
Concomitantemente, emergem um conjunto de críticas que clamam por uma
nova quantificação, argumentando que “o que não é contado, não conta” (Gadrey
e Jany‑Catrice 2005). Neste contexto, a demanda da produção de novas medidas
tem na base uma forte crítica à lógica econômica na produção das estatísticas e dos
indicadores sociais, pois, ao desconsiderar aspectos vitais das condições de vida
em sociedade e as suas dinâmicas, não revelam nem traduzem a complexidade das
questões sociais emergentes e as especificidades que desenham nos contextos po‑
pulacionais e territoriais (Koga, 2003).
Com isto se explicita, cada vez mais, a necessidade de recuperar uma postura
crítica quanto ao processo de quantificação, em que se torna essencial a interroga‑
ção de o que medir e para que medir. Nessa perspectiva, Anne Le Roy, Claudine
Offredi e Fiona Ottaviani, da Universidade de Grenoble (2012, p. 2), debatem sobre
a fragilidade do dado quantitativo quando ele engessa o processo de reflexão; seja
porque abandona a necessária interrogação sobre a pertinência dos fenômenos es‑
tudados e dos próprios indicadores, seja, quando utiliza automaticamente os indi‑
cadores para a decisão, esquecendo que eles possuem uma natureza provisória,
contextual e, portanto, evolutiva.
Conforme aponta Desrosières (2011) o questionamento sobre os dados esta‑
tísticos é natural nos contextos de crise porque é justamente nesses momentos que
se produzem profundas mudanças no mapa cognitivo da realidade social e, conse‑
quentemente, na paisagem dos indicadores. As crises pressupõem não só profundos
debates sobre o papel do Estado na regulação e direção da economia, como também
representam o surgimento de novas formas de representação da realidade e novos
modelos de ação, que envolvem novas variáveis e novos sistemas de observação.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 529-554, jul./set. 2012 535
Destaca, via exemplos na história econômica e política francesa, como, nas
épocas de crises, é possível distinguir uma associação entre a forma de pensar a
sociedade, as maneiras de agir sobre ela e a produção da estatística face à emergên‑
cia do novo. Assim, na crise dos anos 1870‑80, a partir das brutais consequências
de desemprego e de pobreza, surge a grande estatística sobre o trabalho e sobre o
emprego; na crise de 1929, que deu origem às políticas macroeconômicas keyne‑
sianas, consolida‑se a contabilidade nacional (centrada nas noções de renda nacio‑
nal, Produto Interno Bruto, consumo dos lares, inversão e financiamento); e na
crise dos anos 1970, pensada a partir das categorias neoliberais, surge e se multi‑
plicam, no contexto do New Public Managment, o uso de indicadores quantitativos
e de performance para a avaliação das políticas públicas. Não surpreenderia, diz
Desrosières, que as duas crises, ecológica e depois financeira, dos anos 2000, deem
origem a modos radicalmente novos de pensar e quantificar a questão social e a
ação pública.
Mas a desconfiança sobre os dados e as estatísticas não se explicam apenas a
partir das críticas suscitadas nos momentos de crise. Há sempre uma dúvida acerca
da capacidade de a estatística explicar as questões sociais, o que, segundo o eco‑
nomista Philippe Moati (2010), deve ser entendido a partir das tensões que se
processam entre as diferentes óticas de percepção da realidade, da relação micro‑
macro na produção do dado estatístico e do aumento da desconfiança na contem‑
poraneidade. Para ele, após o momento de produção, a sociedade tende a questionar
a validade do dado, pois as pessoas possuem lentes diferentes daquelas utilizadas
pelos estatísticos; enquanto a estatística trabalha numa perspectiva macro e global,
as pessoas se pensam de forma individual. Completa‑se o círculo do questionamen‑
to da fidedignidade dos dados face ao aumento da desconfiança na sociedade de
tudo que vem “de cima” e que se apresenta como “abstrato”, abrindo possibilidade
para a manipulação.
Para Desrosières (2001) o constante questionamento sobre a capacidade das
estatísticas de refletir fielmente a realidade representa um “atalho enganoso”, con‑
taminado pelo realismo metrológico das ciências naturais. O fato é que, diferente‑
mente dos eventos da natureza, as questões sociais demandam outro campo epis‑
temológico, ao pressupor um conjunto de discussões e convenções que negociam
o conteúdo do que passará a ser medido posteriormente.
Entretanto, o uso desproporcionado do termo mensurar, nas ciências sociais
e na avaliação das políticas públicas, tem induzido a erro, deixando na sombra as
convenções da quantificação. Esta substituição revela uma espécie de ruptura entre
o momento da produção do dado e as fases posteriores de difusão e apropriação
social. A partir daí, esquecem se as convenções iniciais que fundamentam a quan‑

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tificação, o dado passa a tornar‑se a “realidade”, e o uso do termo medir vem me‑
canicamente associado. Isto permanece verdadeiro, diz Desrosières (2008a, p. 12),
até que, por ocasião de controvérsias, “as caixas pretas” são abertas.
Para recuperar a dimensão das convenções sociais inerentes ao processo de
quantificação, insiste na distinção entre o ato de mensurar e o de quantificar. Men‑
surar, inspirado na epistemologia das ciências naturais, implica que alguma coisa
existe sobre uma forma plausível de ser medida a partir da metrologia realista (como
a altura de uma criança, a distância entre duas cidades etc.). Já quantificar, no seu
sentido mais amplo, significa expressar e dar existência sobre uma forma numérica
àquilo que antes estava expresso pelas palavras, mas não ainda pelos números.
Dessa forma, quantificar significa primeiro estabelecer uma convenção (que impli‑
ca comparações, negociações, compromissos e traduções), que permitirá posterior‑
mente a sua mensuração. Enquanto convenção a construção do dado não pode
desconsiderar o estudo dos seus usos sociais e as retóricas de interpretação da rea‑
lidade. O processo de quantificação pressupõe explicitar: quem vai ler o dado; a
partir de que noções a priori dos objetos serão definidas as medidas e para fazer
o que (argumentar, contestar, decidir)?
Com esta distinção, chama a atenção para a dimensão social do ato de quan‑
tificar, um ato que é técnico, mas também político, afirmando que:

La quantification ne fournit pas seulement un reflet du monde (point de vue usuel),


mais elle crée une nouvelle façon de penser, de représenter, d’exprimer le monde et
d’agir sur lui. Postuler et construire un espace d’équivalence permettant la quantifi‑
cation, et donc la mesure, est un acte tout à la fois politique et technique. Il est politi‑
que en ce qu’il change le monde: comparer les roturiers et les nobles préfigure la nuit
du 4 août, comparer les noirs et les blancs appelle l’abolition de l’esclavage, compa‑
rer les femmes et les hommes appelle le suffrage vraiment universel incluant les
femmes. (Desrosières, 2008a, p. 13)7

Este processo social e político é o que para Telles representa o caráter norma‑
tivo da construção das medidas sociais, pois longe de ser uma questão amparada

7. A quantificação não fornece apenas um reflexo do mundo (ponto de vista usual), mas cria uma nova
forma de pensar, de representar, de expressar o mundo e de agir sobre ele. Postular e construir um espaço de
equivalência permitindo a quantificação, e, portanto, a medida, é um ato ao mesmo tempo político e técnico.
É político na medida em que muda o mundo: comparar os plebeus e os nobres prefigura a noite do 4 de
agosto, comparar os negros e os brancos convoca a abolição da escravatura, comparar as mulheres e os homens
convoca o sufrágio verdadeiramente universal incluindo as mulheres. (Desrosières, 2008a, p. 13)

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apenas em critérios científicos, envolve necessariamente disputas, no campo práti‑
co e político da ação e da intervenção pública, para a definição dos valores, con‑
cepções e as convenções que as fundam. Este campo de referências, que se tornam
parâmetros para conhecer, descrever, medir e avaliar a vida social e seus descom‑
passos, é também o jogo de referências da crítica social pela qual se compreende e
problematiza a realidade. “Sem o prisma ou a cifra pela qual o mundo social ganha
zonas de relevância, pertinência, importância, o pensamento termina por se esvaziar
de sua potência crítica para se ater à constatação de fatos, coisas, índices, informa‑
ções que podem se acumular ao infinito sem chegar ao discernimento das linhas de
força tramadas no tecido social” (Telles, 2004, p. 2).
Assim, mais que uma crise de confiança nas medidas ou a desconfiança no
rigor das estatísticas, o que está em debate é o próprio sentido da quantificação.
Como alerta Patrick Viveret (2009), não se trata somente de uma simples
discussão de instrumentos técnicos (econômicos e estatísticos), mas a articula-.
ção entre a elaboração de indicadores e as escolhas da sociedade. O debate, diz
Viveret, não pode ficar restrito aos aspectos técnicos, pois corre‑se o risco de es‑
quecer que por trás das contas há “contos”, no sentido dos grandes relatos e esco‑
lhas sociais que fixam os rumos das sociedades. É preciso interrogar o quadro
conceitual e normativo, para verificar não apenas as medidas, mas as bases que as
fundamentaram.
E é esse quadro que precisa ser evocado quando se debatem as concepções
que dominam as medidas hoje, mas também as concepções e os instrumentos que
veem emergindo nos últimos anos. Como Carla Bronzo (2005) afirma, por trás de
uma proposta de mensuração há uma concepção que lança luz para alguns aspectos
da realidade, mas também deixa na sombra outros. E acrescenta que as concepções
levam a diferentes formas de mensuração e igualmente a diferentes respostas quan‑
to à formulação e implementação da ação pública.
Conforme apontam Anne Le Roy e Claudine Offredi (2011), estamos diante
de um momento em que é necessário revistar e redefinir tanto os conteúdos dos
dados quantitativos como dos métodos para a sua elaboração. A exigência da reno‑
vação dos dados estatísticos cresceu junto com a evolução de novas demandas, da
exigência de novos sistemas de valores e da necessidade de uma nova hierarquia
entre os elementos que os fundamentam.
É a partir dessa perspectiva que precisam ser entendidos os questionamentos
e as novas demandas de quantificação, pois elas carregam a possibilidade de cons‑
truir novos parâmetros para descrever a realidade e expressam os campos de força
que se mobilizam na definição das grandes escolhas.

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Reconstituindo os fios do debate sobre os novos indicadores sociais
O debate sobre os novos indicadores sociais teve origem, nas décadas de 1960
e 1970, quando emergem um conjunto de questionamentos sobre o sentido e a di‑
reção dos grandes indicadores macroeconômicos e as primeiras propostas alterna‑
tivas ao PIB. Dois trabalhos serão referência dessa época. Os limites do crescimen‑
to, de 1972, encomendado pelo Club de Roma, e também conhecido como relatório
Meadows, em referência aos autores, que projetava os possíveis impactos sociais
e ambientais, caso se mantivesse o modelo de crescimento econômico dominante.
O relatório Meadows, acusado na época de catastrófico, apresentaria de forma
pioneira um conjunto de proposições de indicadores sociais e ambientais que ser‑
viriam de referência para interrogar o tipo de crescimento econômico e comple‑
mentar a medida clássica da contabilidade nacional e internacional, o PIB. Um ano
mais tarde, no artigo “Is Growth Obsolete”?”, William Nordhaus e James Tobi
propõem a Medida do Bem‑estar Econômico (em inglês Measure of Economic
Welfare), como indicador alternativo ao PIB, introduzindo variações do valor mo‑
netário de certos estoques de riquezas econômicas, humanas e naturais, que deveriam
ser referência para medir o bem‑estar econômico, e não apenas o crescimento.8
Na França, nessa época, constituía‑se o chamado “movimento dos indicadores
sociais”, com uma natureza diferente, pois como afirma Bernard Perret (2002), a
preocupação não era o de criar um indicador alternativo ao PIB, mas constituir in‑
dicadores sociais com status similares à da contabilidade nacional, que pudessem se
tornar referência para a tomada de decisões do mundo político e da gestão pública.9
Contudo, o contexto das crises do petróleo, em 1974 e 1979, incide no aban‑
dono de parte dessas tentativas teóricas, pois a ênfase na retomada do crescimento,
na década de 1980, reafirmará o PIB como principal indicador para medir a rique‑
za e o progresso dos países.10 A frente defensiva contra a possibilidade de colocar

8. Datam dessa época também a tentativa do Conselho Econômico japonês de construção do indicador
Net National Welfare, em 1973; a proposição das Nações Unidas de indicadores de bem‑estar, em 1976, sob
influência de R. Stone. As publicações de André Vanoli, bem como a de Jean Gadrey e Florence Jany‑Catri‑
ce (2005), são referências para a análise da trajetória histórica da constituição dos indicadores sociais.
9. Conforme Perret (2002) analisa, o “movimento dos indicadores sociais” na França estava inscrito
nas tentativas de outorgar racionalidade à gestão governamental e no contexto nacional de racionalização das
escolhas orçamentárias, colocando no centro do debate a necessidade de contrabalancear a influência da
quantificação econômica sobre a decisão política mediante a construção de indicadores sociais.
10. Embora, conforme aponta Vanoli (2002), o PIB não tenha sido concebido para tal fim, pois nasce
no contexto das políticas keynesianas, como agregado da contabilidade nacional e medida de fluxo de pro‑
dução econômica.

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outros indicadores no lugar do PIB exprime para Dominique Méda (2010) não só
o predomínio de uma lógica economicista em que as questões de quantidade pri‑
maram sobre as de qualidade, mas sobretudo o tabu que representava a mera ideia
de interrogar a relação entre crescimento econômico e progresso.
A retomada do debate sobre indicadores sociais ganha um novo impulso com
a construção e constituição do Índice de Desenvolvimento Humano, pelo Programa
das Nações Unidas, em 1990. A legitimidade adquirida a partir da incorporação
progressiva como referência internacional, aliada ao sucesso midiático dos realiza‑
dores, fez com que o IDH, mesmo com as suas limitações, emergisse como o pri‑
meiro indicador sintético, alternativo aos grandes indicadores macroeconômicos e,
principalmente, ao PIB, construído na perspectiva de que o desenvolvimento hu‑
mano envolve outras dimensões além do crescimento econômico. A possibilidade
dessa construção foi motivada pelo acúmulo das décadas anteriores e motivou, ao
mesmo tempo, novos debates e a constituição de novas tentativas de construção de
índices sociais a partir das realidades nacionais.
Apesar da indiferença do mundo político, mediático e estatístico, o final dos
anos 1990 marca o crescimento paulatino de experiências de produção de indica‑
dores sociais que apresentam uma alternativa à lógica monetarista e econômica dos
indicadores tradicionais e predominantes do crescimento econômico e do consumo,
ao incorporar na equação as dimensões sociais, humanas e/ou ambientais.
A crise econômica mundial dos anos 2000 não deixaria espaço para dúvidas.
O sentimento generalizado das distâncias entre as cifras oficiais e a realidade vi‑
venciada pela população ficava evidente também via as análises que revelavam o
divórcio entre a situação econômica e a social. Precariedade, aumento das desigual‑
dades e da pobreza e degradação ambiental eram marcas constantes, mesmo nos
períodos de queda do desemprego, aumento do crescimento da economia de mer‑
cado e euforia especulativa. Desta forma, o debate sobre as consequências das
crises, econômica e ambiental, viria acompanhado do questionamento de todo o
sistema de medidas e de representação da realidade social, profundamente impreg‑
nado pelos critérios financeiros e monetários.
Os trabalhos teóricos se inscreviam nessa perspectiva de renovação, adotando
vozes diferentes. Na França, ganham relevância as discussões pioneiras de Domi‑
nique Méda sobre “O que é a riqueza?”, de 1999 e o relatório de Patrick Viveret
sobre os “Os novos fatores da riqueza”, de 2002,11 em que questionam a definição

11. O relatório foi solicitado por Guy Hascoet, na época secretário de Estado para Economia Solidária.
A versão revisada de tal relatório foi publicada no livro Reconsidérer la richesse.

540 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 529-554, jul./set. 2012
de riqueza e de progresso a partir da lente inequívoca do crescimento e da produção
econômica, criticam o modelo dominante de desenvolvimento e debatem os efeitos
perversos da representação da riqueza.
Desta forma, os autores passam a problematizar a concepção de riqueza e a
representação de progresso das sociedades modernas reduzidas aos aspectos de
troca de bens e serviços meramente mercantis e os indicadores que medem o
bem‑estar econômico e as riquezas das nações sem integrar na equação as dimensões
sociais e ambientais. A crítica central é que a representação que se tornou pivô na
discussão do crescimento econômico nada diz sobre as disparidades e desigualda‑
des sociais; não considera nas contas as atividades não monetárias, que são com‑
ponentes essenciais das formas em que a sociedade protege e exerce seus vínculos;
nem contempla nos resultados os efeitos da degradação do meio ambiente, que
resulta da atividade humana. Desta forma, argumentam que a bússola que orienta
as grandes decisões é incapaz de alertar sobre a degradação social e ambiental, nem
de sinalizar os riscos presentes na sociedade (Méda, 2000; Viveret, 2002).
Paralelamente, em 2002, Bernard Perret realiza o Relatório “Indicateurs so‑
ciaux, état des lieux et perspectives (2002)12 no qual apresenta um levantamento
nacional e internacional dos indicadores sociais implementados para representar,
comparar e avaliar o estado da arte das sociedades, bem como a análise dos refe‑
renciais teóricos subjacentes. No seu balanço, chama a atenção para o fato de que
a retomada do debate dos indicadores sociais, embora com uma natureza comple‑
tamente diferente daquele vivenciado nas décadas de 1960 e 1970, mantém como
motor do processo de construção a reativação da crítica contra o domínio da taxa
de crescimento e a preocupação sobre a ausência de indicadores sociais que se
equiparassem em status aos indicadores econômicos e financeiros e, portanto, ca‑
pazes de incidir na tomada de decisões dos sistemas econômico e político.13 A

12. O relatório “Indicateurs sociaux, état des lieux et perspectives”, sob encomenda do Conselho de
Emprego, Rendas e Coesão Social, teve como objeto mapear os indicadores produzidos, analisar as concep‑
ções teóricas subjacentes e realizar proposições em vista à produção de um dispositivo francês de indicado‑
res sociais (Perret, 2002).
13. Para Perret (2002, p. 6) mesmo que existissem diversas estatísticas sociais (sobre pobreza, desigual‑
dade, desemprego, dados demográficos, de saúde, educação, criminalidade etc.) e mesmo tendo uma inci‑
dência forte nos debates públicos e na mídia, não havia nenhum indicador social com o status dos indicado‑
res econômicos e financeiros para os “decisores”. “Dans le domaine social, aucune information ne présente
le même caractère de bilan global d’une situation que le taux de croissance du PNB” [No campo social,
nenhuma informação apresenta o mesmo caráter de resumo global de uma situação como a taxa de cresci‑
mento PIB].

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 529-554, jul./set. 2012 541
análise dos indicadores sociais levantados revelava que os conceitos de desigual‑
dades, bem‑estar social, qualidade de vida e capital social passaram a ser centrais
em tais construções,14 mas que em contraposição às estatísticas contáveis e finan‑
ceiras, em que há um projeto relativamente unificado em torno do modelo macro‑
econômico, de uma representação teórica e de uma forma de descrever e analisar
empiricamente os resultados, nos indicadores sociais não é possível identificar um
universo teórico estável e universal. Para Perret a dificuldade da quantificação e da
unificação no campo social está vinculada à construção das convenções sobre as
quais não existe consenso. Fundar politicamente um sistema de indicadores sociais
envolve necessariamente um olhar e um questionamento particular sobre o estado
da sociedade, em que a existência do fundamento normativo exige formular um
questionamento socialmente relevante.
Poucos anos mais tarde, quando Jean Gadrey e Florence Jany‑Catrice publicam
Les nouveaux indicateurs de richesse15 (2005), não só destacam o rápido crescimen‑
to da produção dos indicadores sociais e a sua capilaridade no debate público, como
também imprimem uma nova denominação ao destacá‑los como indicadores alter‑
nativos ou novos indicadores de riqueza. Trata‑se assim de reforçar o seu caráter
alternativo frente à lógica monetarista e econômica dos indicadores tradicionais, ao
propor novas equações que agregam às dimensões econômica, social, humana e/ou
ambientais. É partindo dessa perspectiva que os mesmos autores criticam posterior‑
mente as proposições de complementar o PIB com indicadores satélites que incor‑
porem as dimensões social e ambiental, pois o cerne do debate não é apenas de
mudanças ou incorporação de novos indicadores, mas da transformação da lógica
pela qual se representa, e posteriormente se quantifica, a noção de desenvolvimento
e riqueza que seja projetável e sustentável para o futuro da humanidade.
Entretanto, já em 2005, apontavam que a maior presença dos indicadores
alternativos no debate público não tinha derivado necessariamente na sua incorpo‑
ração nas contas nacionais, o que revelava ao mesmo tempo as resistências dos
mundos econômico, político e estatístico frente à proposição de uma nova lógica

14. A produção nasce das mais variadas organizações (organismos internacionais e multilaterais, ins‑
tâncias públicas nacionais, regionais e locais, centros de pesquisa e universidades, bem como organizações
não governamentais, fundações privadas) com proposições de foco de análise diversa (indicadores para
comparação internacional, regional, nacional, inter‑regional e local) e de representação diferenciada dos
indicadores (ora indicadores sintéticos, ora quadros de indicadores múltiplos).
15. Esta obra é a reprodução do relatório apresentado à Direção de Animação de Pesquisa, Estudos e
Estatísticas, em 2003. O Dares é o órgão público francês responsável pela produção de estatísticas de traba‑
lho e emprego.

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para avaliar o crescimento e o progresso social e, de outro, também fragilidades
científicas, metodológicas e de produção de sentido das proposições. Nesse sentido,
apresentam as diversas proposições, iluminando o processo de construção metodo‑
lógico (que tiveram como base as noções de bem‑estar, riqueza, desenvolvimento,
progresso social e qualidade de vida), analisando as possibilidades e limites de cada
uma delas. Mas, independemente de possibilidades e limites, os autores destacam
que a baixa aceitação dessas proposições nos sistemas estatísticos nacionais tem
relação com a dimensão política do processo de construção, já que a constituição
dos sistemas nacionais contáveis não é apenas uma “gênese intelectual”, mas uma
“genealogia política”, em que ficam representadas as escolhas políticas de cada
época. Gadrey e Jany‑Catrice (2005, p. 143) lembram que “os constantes desdo‑
bramentos e avanços na contabilidade nacional não são fruto de debates internos
de uma disciplina intelectual imune às tensões do mundo social, tampouco reflexo
passivo de concepções políticas globais. Eles também fazem parte, com outros
elementos do nosso ambiente informacional, daquilo que organiza nossas molduras
cognitivas, nossa visão de mundo, nossos valores, nossos julgamentos”.
Desta forma, no decorrer dos anos 2000, fica claro que o debate sobre indica‑
dores sociais gera e é gerado pela expressão e multiplicação de discussões e expe‑
riências vivenciadas por inúmeros pesquisadores, militantes de associações e de
movimentos sociais, bem como pela progressiva incorporação de laboratórios de
pesquisa de diversas universidades, ganhando densidade a partir da análise dos
resultados e das metodologias construídas e aplicadas. Multiplicam‑se as experiên‑
cias que desenvolvem diversas formas de participação, promovendo um espaço no
qual a sociedade intervém na definição do que deve contar na construção dos indi‑
cadores, sem que isto signifique um detrimento dos aspectos técnicos da sua cons‑
trução; bem como a produção crescente de indicadores sociais territorializados,
diante da necessidade da gestão pública local de informações mais finas sobre as
condições de vida da população e seus territórios.16

16. Destacam‑se entre elas as experiências do Nord‑Pas‑de Calais, no Norte da França, com a consti‑
tuição dos novos indicadores infrarregionais de desenvolvimento humano (promovido pelo Conselho Regio‑
nal Nord‑Pas‑de Calais, sob coordenação de Florence Jany‑Catrice); de Ilê de France, com a construção do
Índice da Situação Social Regional (encomendado pelo Conselho Regional de Île‑de‑France, sob a coorde‑
nação de Luli Nascimento e Florence Sabbah‑Perrin); do Pays‑de‑la‑Loire com a participação dos habitantes,
por meio de equipes locais, que, sob a consigna “Que voulons nous‑être?”, debatem os valores comuns e os
temas vitais para a construção de indicadores de bem‑estar (promovido pelo Conselho Regional des Pays de
la Loire, com apoio do observatório da Decisão Pública e a École des Mines de Nantes); da aglomeração de
Grenoble, com o desenvolvimento de um estudo empírico para a construção participativa de indicadores de

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 529-554, jul./set. 2012 543
Assim, o que aparecia nas origens dos debates como produções localizadas e
nem sempre articuladas entre si, passa a encontrar terreno fértil a partir do contex‑
to do aprofundamento das crises econômicas, sociais e ecológicas, mas também da
articulação nacional e repercussão internacional fortalecida pelo avanço das redes
sociais e da internet.
Ao mesmo tempo em que o debate vai ganhando relevância no cenário inter-.
nacional,17 a falência do modelo econômico dominante e o crescimento do “mal‑
-estar social” interpelam o mundo político. Não é por acaso que em fevereiro de
2008, sob mandato do presidente francês Nicolás Sarkozy, são convidados Joseph
Stiglitz, Amartya Sen e Jean‑Paul Fitoussi para formar uma comissão internacional,18
com o propósito de determinar os limites do PIB como indicador das performances
econômicas e do progresso social, identificar informações complementares que
possam ser base de referência para a construção de indicadores mais pertinentes do
progresso social e avaliar novos instrumentos de medição (Stiglitz, Sem e Fitoussi,
2009).
Se de um lado as análises produzidas legitimaram, em nível nacional e inter‑
nacional, as críticas históricas contra o PIB, de outro as proposições e a forma em
que se deram os trabalhos abriram a caixa de pandora sobre o processo sociopolí‑
tico de legitimação e construção das convenções sociais subjacentes aos indicado‑
res e às formas de medição propostas.
Assim, na sequência em que a Comissão foi construída se constitui o Fórum
por outros indicadores de riqueza (Fair), integrado por militantes de associações e
sindicatos, atores territoriais e pesquisadores de diversas disciplinas, com destaca‑

territorialidade e sustentabilidade do bem‑estar (financiada pela região Rhônes‑Alpes e a comunidade da


aglomeração Alpes‑Métrople, sob a coordenação de Claudine Offredi da Université Pierre Mendès‑France);
bem como o programa Spiral (Social Progress Indicators and Responsabilities for All), lançado pelo Conse‑
lho da Europa, em 2005, propondo uma metodologia participativa para a elaboração de indicadores de
bem‑estar.
17. A discussão de indicadores alternativos se introduz progressivamente nas conferências interna­
cionais, notadamente nas de meio ambiente, bem como nos organismos supranacionais: em 2007, o OCDE
organiza o fórum mundial sobre “Como medir e favorecer o progresso das sociedades”, e a Comissão ­Europeia,
a conferência internacional: “Para além do PIB: medir o progresso, a riqueza autêntica e o bem‑estar das
nações”.
18. A Comissão Medida das Performances Econômicas e do Progresso Social, posteriormente conhe‑
cida como Comissão Stiglitz, foi constituída com a participação de renomados pesquisadores (na sua maio‑
ria economistas) de larga trajetória no cenário internacional, mas com baixíssima representação dos pesqui‑
sadores franceses envolvidos no debate sobre os novos indicadores sociais. Note‑se que apenas Jean Gadrey
foi convidado para integrar o grupo.

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da participação de Viveret, Méda, Gadrey e Jany‑Catrice, que se aglutinam como
movimento a partir de três questões centrais. Uma de ordem conceitual e ética, pois,
sob a consigna “para além do PIB”, enfatiza a necessidade de ultrapassar os valores
que estão na base dos indicadores monetários que dão apenas prioridade à economia
de mercado. A segunda diz respeito à dimensão de cooperação e de aprendizagem,
pois o debate integrará a reflexão elaborada pelas experiências concretas de cons‑
trução e aplicação de novos indicadores. E, por fim, a dimensão política do proces‑
so de elaboração de indicadores, que pressupõe abrir o debate público sobre “quais
são os fins a serem considerados e como deverão ser levados em conta”, rompendo
com o confinamento em grupos de especialistas. Nesse sentido, o Fair passará a ter
um papel de “colaboração vigilante” em relação à comissão, aos seus trabalhos e
às suas proposições (Fair, 2008a).
Sem desmerecer o extenso trabalho realizado pela comissão, a proposição de
indicadores e procedimentos de medidas em torno do conceito de qualidade de vida,
associado à percepção subjetiva do bem‑estar gerou profundas polêmicas. Revela‑
vam‑se divergências que nascem de tradições completamente diferentes e que estão
presentes nos processo de quantificação, pois os indicadores não só refletem uma
visão de sociedade, como fixam a direção das escolhas que a sociedade deseja e
condiciona as decisões dos poderes públicos.
A polêmica que pode ser acompanhada na produção do coletivo Fair e na
discussão dos seus integrantes, com larga trajetória na discussão dos indicadores
sociais alternativos, reflete a divergência da vertente anglo‑saxônica, especial‑
mente dos Estados Unidos e do Canadá, que considera qualidade de vida uma
representação construída principalmente na perspectiva individual e subjetiva, da
tradição republicana francesa, em que a noção de bem‑estar coletivo é construída
com um forte senso de responsabilidade pública e da preservação do bem comum.
Para Jany‑Catrice e Méda (2011), a noção de bem‑estar, do ponto de vista cole‑
tivo, não se reduz à soma dos bem‑estar individuais, mas recupera a noção de um
patrimônio comum (natural e social), no sentido de bem comum e coletivo, que
precisa ser inventariado e acompanhado na sua evolução. Entretanto, as proposi‑
ções para medir a qualidade de vida se centraram em torno da ênfase na percep‑
ção subjetiva do bem‑estar, das capacidades e da equidade nas dotações, deixan‑
do na sombra a dimensão coletiva e pública do bem‑estar, bem como aspectos
vitais, como as desigualdades sociais e as exigências vinculadas à governança e
à democracia.
Mas o que preocupa é que a concepção proposta e as proposições recorrentes
respondem muito mais à trajetória das pesquisas e proposições individuais dos

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diferentes integrantes da Comissão,19 que ao resultado de um debate que possibili‑
te a construção dos indicadores sociais enquanto convenções sociais (Jany‑Catrice
e Meda, 2011).
O processo de construção e legitimação dos referenciais e, por conseguinte,
dos indicadores, depende da definição das formas pelas quais serão discutidas as
novas convenções sociais e quem participará desse processo. Esta questão é um
aspecto importante levantado hoje no debate francês, pois o que está em jogo não
são apenas os aspectos e os objetivos em termos de métodos de quantificação, mas,
sobretudo, as condições sociopolíticas da elaboração dos indicadores e da legitimi‑
dade dos atores.
Para o coletivo Fair, a adoção de novas perspectivas, bem como de novos
indicadores, não pode ficar reduzido a um assunto de economistas, pois é necessá‑
rio a pluridisciplinaridade dos aportes para mudar o olhar construído até agora; nem
apenas a um trabalho de especialistas, pois é imprescindível interrogar e construir
socialmente o que é importante de ser medido e as finalidades da vida em socieda‑
de. Assim, alertam para a necessidade do estabelecimento da convenção social
antes da medição. “Avant d’élaborer des indicateurs, il faut permettre à la société
de délibérer sur ce qu’elle considère être ses richesses, ses biens communs. Cette
étape est primordiale: il faut qualifier avant de quantifier, en se méfiant des excès
de la culture du chiffre. Et il faut y associer les citoyens ou les “parties prenantes”:
c’est la grande condition d’appropriation collective et de légitimation” (Fair, 2011).20
É por isso que as experiências de construção ganham uma dimensão sociopo‑
lítica. É a partir delas que se está construindo socialmente um olhar sobre a socie‑
dade, as suas riquezas e patrimônios. O percurso permite vislumbrar um mosaico

19. Vale a citação das autoras: “On pense, bien‑sûr, aux théories d’A.Sen et aux travaux de M. Fleurbay
pour les approches conceptuelles reposant sur les capacités et les allocations équitables et, pour les méthodes
reposant sur le recueil de données subjectives, à la présence de Kah­neman et de Kruger, promoteurs et ­adeptes
de la méthode U, à celle d’Oswald pour les travaux reposant sur la mobilisation de données sub­jectives et la
mise en évidence de corrélations entre satisfaction et autres variables” (Jany‑Catrice e Meda, 2011, p. 4).
[Pensamos, sobretudo, nas teorias do A. Sen e nos trabalhos de M. Fleurbay cujas perspectivas conceituais
se baseiam nas capacidades e nas alocações justas e cujos métodos se baseiam na coleta de dados subjetivos;
na presencia de Kah­neman et de Kruger, promotores e adeptos do método U, no Oswald cujos trabalhos se
baseiam na mobilização de dados subjetivos e na identificação de correlações entre satisfação e outras variá‑
veis (Jany‑Catrice e Meda, 2011, p. 4).
20. Antes de elaborar os indicadores, deve ser permitido à sociedade deliberar sobre o que ela conside‑
ra como as suas riquezas e seus bens comuns. Esta etapa é primordial: é preciso qualificar antes de quantifi‑
car, sendo cauteloso com números. E deve envolver os cidadãos ou as ‘partes interessadas’: esta é a grande
condição de apropriação coletiva e de legitimidade (Fair, 2011).

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de aspectos que, no geral, permanecem ocultos para as contas econômicas nacionais:
ora porque são capazes de revelar as desigualdades, inseguridades e precariedades,
ora porque integram nas análises o papel e o tempo das atividades de cuidado, da
solidariedade, do lazer e das atividades domésticas, ora porque analisam o papel e
a importância dos vínculos sociais, do pertencimento e das redes de proximidade,
bem como os aspectos relativos ao patrimônio natural e cultural.
Iluminar essas realidades e quantificar o que é possível de ser quantificado,
compondo novos indicadores e relações de análise, representa para Gadrey e Mada
(2011) um processo vital, em que diferentes atores participam da construção de um
debate público sobre as riquezas da sociedade. É a forma de recuperar a visibilida‑
de e as forças em tensão de uma realidade social que tem sido sistematicamente
deixada de lado. E ao mesmo tempo é a possibilidade de construir outra perspecti‑
va, que quebre com a lógica do cidadão de segunda classe, avaliado apenas como
patrimônio negativo, como se não existissem capacidades de expressão e criação
social, econômicas e culturais, nem vínculos de solidariedade, resistência e de
protesto, que devem fazer parte das identidades reivindicadas e assumidas. O que
Jany‑Catrice (2009) recupera como processo necessário de quantificação, no qual
as relações de desigualdades e pobreza devem ser entendidas de forma indissociá‑
vel do projeto da sociedade, e não como aspecto isolado e independente. Reconsi‑
derar a riqueza é também a possibilidade de reconsiderar as desigualdades sociais
e as exclusões e vice‑versa.
E é justamente a partir da dimensão social e política da produção dos dados
que precisam ser entendidas parte das demandas e críticas que estão emergindo do
mundo acadêmico e da sociedade. Conforme Anne le Roy e Claudine Offredi (2011,
p. 197), a necessidade crescente de informações deve ser vinculada à necessidade
de renovação das suas formas de produção. A complexificação da sociedade outor‑
ga à observação social um papel estratégico para a construção de um novo conhe‑
cimento de referência para as políticas públicas e para a sociedade. Com ela abre‑se
a possibilidade de construção de uma nova forma de aproximação à realidade com
o intuito de elaborar outras medidas sociais capazes de “enriquecer os diagnósticos
existentes e adensar a sua consistência à luz dos aspectos mais originais da dimen‑
são social, reconhecendo que o que se conta é, de certa forma, o que conta”. Mas
essa forma de construção, dizem Offredi e Le Roy, possui uma dimensão política
estratégica, pois a mudança no olhar e a possibilidade de promover dinâmicas di‑
ferentes pressupõem a construção de um sistema pluralista de olhares sobre a rea‑
lidade que mobilize o mundo acadêmico, político e os cidadãos. O desafio demo‑
crático na construção dos novos indicadores repousa na capacidade de construir um

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 529-554, jul./set. 2012 547
acordo sobre o que conta verdadeiramente na discussão, combinando esses olhares.
É esta a condição de legitimidade do processo. Do contrário, como afirma Gadrey
(2008, p. 15), a riqueza de todo esse processo de construção ficará reduzida ao
impasse entre as lógicas do mundo dos especialistas e as do mundo dos cidadãos.

Conclusões
Após os colapsos de 2007 e 2008, não há dúvida da profundidade da crise do
sistema, que vem se gestando desde os anos 1970, gerando nas décadas seguintes
um conturbado período de reestruturação econômica e de reajuste social e político.
A partir daí, a matriz liberal e conservadora é transformada em programa político
que vai se difundir pelo mundo e alcançar nível planetário a partir da queda do muro
de Berlin, em 1989. A aplicação das fórmulas neoliberais de desregulamentação de
todos os mercados, aumento da regressividade fiscal, flexibilização dos direitos
sociais e trabalhistas e desmonte dos Estados de Bem‑Estar fez da tendência à
concentração do capital o eixo central da nova ordem mundial. É nesse sentido que
David Harvey (2011, p. 217), na sua última obra, em que analisa em detalhe a
configuração do poder do capital, alerta que a continuidade e a imposição de polí‑
ticas de austeridade como solução às crises financeiras levará a economia à direção
oposta, pois as dificuldades econômicas serão aprofundadas. Para Harvey, a insis‑
tência nas fórmulas de austeridade fiscal responde muito mais a uma razão política
que a uma necessidade econômica, em que predomina a lógica de desresponsabi‑
lização dos custos da reprodução social e o assalto ao bem‑estar social das massas
deriva na incessante acumulação da riqueza.
O atual debate, portanto, não é apenas sobre a mudança do sistema de medidas
e de representação da realidade social, mas, sobretudo, uma indagação profunda do
atual modo de produção e da própria noção de desenvolvimento, que se assenta
numa perspectiva de crescimento econômico insustentável para o planeta e para a
humanidade. Conforme afirma Viveret (2009, p. 5), a atual crise mundial é apenas
a ponta de um gigantesco iceberg que emerge e revela a experiência de uma gran‑
de fratura histórica, o fim de um ciclo que está se produzindo. Assim, para Viveret,
as questões vitais serão aquelas que permitirão responder sobre como sair desse
grande período histórico, levando junto o melhor da modernidade (a emancipação,
a liberdade da consciência e a dúvida metodológica) e deixando para trás o que teve
de pior, como a coisificação sobre todas suas formas, na qual a mercantilização
integral é uma das suas grandes características.

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Nesse contexto, precisa ser entendida a mobilização em torno da Conferência
das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável Rio + 20 porque o que está
em disputa é o modelo de desenvolvimento e as opções de sustentabilidade para o
planeta. A Cúpula dos Povos (evento das organizações não governamentais que será
realizado no Aterro do Flamengo paralelamente à Rio + 20) concretiza uma crítica
frontal à mercantilização e financeirização da vida e expressa diferentes vozes que
propõem uma nova agenda ambiental, econômica e social para o século XXI. Nes‑
se sentido, critica especialmente o papel dado ao setor privado “como principal
gestor de um novo paradigma econômico e ambiental” e a retirada de “tudo aquilo
que se refere e se afirma pelos parâmetros dos direitos humanos dentro dos direitos
econômicos, sociais e culturais”. Como a antropóloga e ambientalista Iara Pietri‑
covsky afirma: “Reconhecemos a necessidade de um setor produtivo, mas que setor
produtivo nós queremos? Que estado nós queremos?. Como nós vamos nos mover
para de fato fazer uma agenda futura que responda aos direitos, necessidades, qua‑
lidade de vida, e justiça ambiental, social e econômica que as populações têm?”
(Carta Maior, 2012).
A partir da discussão dessas novas pautas, tem emergido uma multidão de
indicadores alternativos, sob novas concepções de desenvolvimento humano, de‑
senvolvimento sustentável, bem‑estar social e/ou qualidade de vida, ora represen‑
tados em sistemas de indicadores, ora em indicadores sintéticos, com mais ou
menos ênfase nas dimensões sociais, humanas e ambientais, ou ainda com mais ou
menos incidência dos indicadores monetários; mas todos reafirmam o questiona‑
mento da concepção de riqueza erguida pós Segunda Guerra Mundial e pretendem
se apresentar como alternativa ao sistema de medidas e de representação da reali‑
dade social, profundamente impregnado pelos critérios financeiros.
Mas como afirma Jean‑Marie Harribey (2005), reconsiderar a riqueza exige,
para além de revisar os indicadores, questionar a organização econômica a partir
da qual se ergueram os instrumentos de medidas concebidos para promover uma
faceta restritiva da riqueza, reafirmando que as novas construções devem refletir as
mudanças que se operam nos campos políticos, sociais e ideológicos, pois: “Un
indicateur n’est jamais que le reflet d’une organisation sociale. Il serait paradoxal
que nous disposions d’un ‘bon’ indicateur de bien‑être ou qualité de société, pendant
que l’exploitation de la force de travail et de la nature perdure et que l’accumulation
financière s’épanouit” (Harribey, 2005, p. 16).21

21. Um indicador nada mais é que um reflexo de uma organização social. Seria um paradoxo se tivés‑
semos um ‘bom’ indicador de bem‑estar ou de qualidade de vida, enquanto a exploração da força de trabalho
e da natureza permanece e floresce a acumulação financeira (Harribey, 2005, p. 16).

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 529-554, jul./set. 2012 549
Por isso a importância de aprofundar o debate sobre o que está subjacente às
noções que servem como parâmetros da construção dos novos indicadores. Como
vimos, essas escolhas não são neutras; e estão fundadas em preferências políticas
(nacionais e internacionais) em juízos normativos, que, para além dos aspectos
técnicos e teóricos, envolvem campos de disputa e de negociação das convenções
sociopolíticas. Do contrário, como afirmam Isabelle Cassiers e Geraldine Thiry
(2009, p. 2):

La discussion risque de déraper prématurément ou exclusivement de ses enjeux fon‑


damentaux vers sa technicité, laissant aux spécialistes du chiffre la mainmise sur le
choix de nouvelles mesures du “progrès”, donc, implicitement, sur sa redéfinition.
Réinventer la mesure du progrès (ou du bien‑être, de la qualité de vie ou du dévelo‑
ppement), c’est, implicitement, le redéfinir. Les indicateurs participent donc activement
à la définition‑même de leur objet, par les dimensions qu’ils prennent en compte et
par leur mode de quantification.22

Nesse sentido, especial atenção terá que ser dada nesse debate à emergência
dos aspectos culturais e relacionais, sem que isto signifique o abandono dos aspec‑
tos distributivos e de justiça social, pois, conforme alerta Nancy Fraser (2002, p.
3) “em vez de chegarmos ao paradigma mais amplo e rico, estaremos a trocar um
paradigma truncado por outro: um economicismo truncado por um culturalismo
igualmente truncado”. Nessa mesma perspectiva, igualmente importante será aden‑
sar o debate sobre as implicações da escolha do foco no individual e da ênfase
subjetiva em detrimento do coletivo, social e comum, presente no embate entre as
noções de qualidade de vida e de bem‑estar.
Não há dúvida que a produção crescente de indicadores alternativos represen‑
ta a perspectiva de construir socialmente os novos olhares sobre a realidade social.
Mas também o desafio da escolha das dimensões do real que serão priorizadas, da
construção das convenções e medidas com sentido e pertinência tanto para o co‑
nhecimento da realidade como para a ação pública, bem como do avanço das inda‑
gações sobre como construir e fundar esses indicadores, para que servirão e que
consequências resultarão dos seus usos.

22. Corre‑se o risco de desviar prematuramente ou exclusivamente a discussão dos desafios funda‑
mentais para os aspectos técnicos, deixando aos especialistas dos dados, o controle de escolha das novas
medidas de ‘progresso’, e portanto, implicitamente, a sua redefinição. Os indicadores, portanto, participam
ativamente na definição do seu próprio objeto, pelas dimensões que levam em conta e pelos seus modos de
quantificar.

550 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 529-554, jul./set. 2012
Por fim, também não há dúvida que a crise está exigindo o reposicionamento
de reflexões e estratégias alternativas. Mas, como lembra Jean Gadrey (2008), o
risco, como já aconteceu na década dos anos 1980, é que prime a resposta conser‑
vadora e a retomada do crescimento via consumo, o que derivaria não só na conti‑
nuidade da lógica perversa do sistema como num novo impasse na discussão dos
modos pelos quais se representa a realidade e se tomam as grandes decisões.

Recebido em 12/6/2012  ■   Aprovado em 19/6/2012

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A judicialização do Benefício de Prestação
Continuada da Assistência Social*
The Judicialization of the Continued Benefit Payments
(BPC) from provision of social assistance

Naiane Louback da Silva**

Resumo: Artigo referente à judicialização do Benefício de Presta‑


ção Continuada (BPC), desenvolvido através de análise empírica em
banco de dados sobre o benefício. O estudo analisou a relevância do
Judiciário na garantia dos direitos constitucionais e o importante papel
exercido no decurso do BPC. No entanto, identificou o reforço da
desigualdade por parte do Judiciário, por meio do acesso desigual as
suas instâncias nas grandes regiões brasileiras e pontuou a necessida‑
de de aprimoramento das funções do Judiciário em prol de ações
voltadas para o aprofundamento da cidadania e da concretização dos
direitos sociais.
Palavras‑chave: BPC. Judicialização. Desigualdade.

Abstract: This article is based on the legalization of the Continued Benefit Payments (BPC), de‑
veloped through an empirical analysis in a database about the benefit. The study examined the rele‑
vance of the judiciary in ensuring the constitutional rights, and the important role played during the
BPC, however,  it identified the strengthening of inequality by judiciary,  unequal access through
to their bodies in large Brazilian regions and pointed out the need for enhancement of the judiciary
functions in favor of actions for the strengthening of citizenship and the realization of social rights.
Keywords: BPC. Judicialization. Inequality.

* Artigo desenvolvido através de monografia apresentada ao Departamento de Ciência Política da Fa‑


culdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, para obtenção do título
de especialista em Políticas Públicas. Aprovada em dezembro de 2011.
** Assistente social graduada pela PUC‑Minas (MG), Brasil. Especialista em Políticas Públicas pelo
Departamento de Ciências Políticas da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG. E‑mail:
naylouback@yahoo.com.br.

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Introdução

A
judicialização das políticas públicas no Brasil ganhou espaço no de‑
bate das Ciências Políticas nas últimas décadas. Dada a relevância e
expressividade do fenômeno, de modo geral pode ser considerado
como a atuação por parte do Poder Judiciário por meio de ações que
interferem no curso das políticas públicas, o que em tese seriam atribuições próprias
dos poderes Legislativo e Executivo.
Em um sistema democrático, o direito torna‑se trunfo do cidadão perante o
Estado como forma de assegurar a igualdade. Assim, a partir da Constituição Fe‑
deral de 1988, consolidou‑se na tripartição de poderes, o papel fundamental do
Poder Judiciário ao ampliar seus mecanismos de proteção. A esse poder passou‑se
a requerer definição em situações controversas que envolvam o Estado e seus ci‑
dadãos. O Poder Judiciário seria, portanto, o defensor dos direitos, garantindo sua
inviolabilidade.
Outro importante avanço empreendido pela Carta de 1988 foi a ampliação dos
direitos sociais, ao estabelecer um sistema de seguridade social público, constituí‑
do de um tripé formado pelas políticas de previdência social, saúde e assistência
social. Essa ampliação de direitos tornou a prestação dessas políticas um dever do
Estado. Como parte integrante desse sistema, e já definido na própria Carta de 1988,
tem‑se o Benefício de Prestação Continuada da assistência social (BPC), que asse‑
gura ao deficiente e ao idoso a partir dos 65 anos de idade, que não tenha condições
mínimas de sobrevivência, o rendimento mensal de um salário mínimo.
Sem contrariar a tendência de judicialização das políticas públicas, o BPC
também tem sido alvo de diversas lides judiciais, e antes mesmo de sua regulamen‑
tação, já era matéria do Poder Judiciário, tendo suas normas questionadas. A iden‑
tificação dessa realidade constituiu o problema analisado nesta pesquisa, que tem
como objeto de estudo o fenômeno da judicialização das políticas públicas no
Brasil, materializado na concessão do BPC por via judicial e pela influência exer‑
cida pelo Judiciário por meio das ações civis públicas (ACP) e outros instrumentos
processuais no decurso deste benefício.
Dentre os 3.553.2621 BPC mantidos, quase 6% dos beneficiários só tiveram
reconhecido seu direito em virtude de determinação judicial. Em números absolu‑
tos são 199.863 pessoas beneficiadas, quantidade ainda mais expressiva se consi‑

1. Dados de setembro de 2011.

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deradas as famílias abrangidas indiretamente e os gastos públicos empreendidos
para a manutenção desses benefícios.
Ressalta‑se que a judicialização também é revelada em uma quantidade não
contabilizada de benefícios, aos quais os requerentes só tiveram seu direito alcan‑
çado em virtude de determinações das ações judiciais coletivas.
A pesquisa se pautou em dados empíricos obtidos em banco de dados dispo‑
nibilizado no Sistema Único de Informações de Benefícios (Suibe)2 do Instituto
Nacional do Seguro Social (INSS), responsável por operacionalizar esse benefício.
A análise utilizou‑se do total de BPCs mantidos no Brasil e daqueles com
despacho judicial. Em seguida analisou‑se BPC concedidos judicialmente no pe‑
ríodo compreendido entre 1º de junho de 2010 e 30 de junho de 2011, e sua relação
com os deferidos administrativamente. Tratou‑se, assim, de análise quantitativa
com cruzamento de dados obtidos por meio do Suibe, do estudo da população
realizado pelo IBGE no Censo 2010, e pesquisas realizadas pelo Ipea.
O estudo reafirma a importância do Judiciário na garantia dos direitos cons‑
titucionais, sem desconsiderar a necessidade de aprimoramento dos instrumentos
de controle judicial e da interface entre os três poderes para ações em prol da con‑
cretização dos direitos sociais. Pontua‑se a necessidade de repensar o papel desse
poder, do contrário, além de o Judiciário não contribuir para o aumento da justiça
social e para a diminuição da desigualdade brasileira, acaba por constituir‑se como
mais uma forma de aprofundamento da exclusão social.

Judicialização de políticas públicas


Após um longo período de ditadura militar, o Brasil vivenciou um movimen‑
to de redemocratização do país, impulsionado pela grande insatisfação popular,
aliado ao reaparecimento da oposição política e ao anseio por uma sociedade de‑
mocrática. A Constituição Federal foi promulgada em 1988 e pode ser considerada
o cume da consolidação deste projeto. Dentre muitas inovações, a Carta Magna
trouxe uma revolução no papel do Judiciário brasileiro, que teve seu escopo am‑
pliado. Esse entendimento é trazido por Vianna (1999), ao considerar que é após
aquele ano, com a ampliação dos instrumentos de proteção judicial, que o país
passou a vivenciar um processo de judicialização da política.

2. Sistema informatizado desenvolvido pela Dataprev (empresa de tecnologia e informações da Previ‑


dência Social) para geração de relatórios com informações dos benefícios operacionalizados pelo INSS.

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A expansão e a ampliação das funções do Poder Judiciário trouxeram mudan‑
ças significativas no campo dos direitos, seja pelos novos atributos exigidos de seus
operacionalizadores, aos quais passou‑se a requisitar sensibilização ante as mani‑
festações da questão social, ou ainda pelo significado diferenciado atribuído a esse
poder pela sociedade, que começou a notar e a utilizar esse mecanismo como um
mediador estratégico junto aos poderes Executivo e Legislativo, na resolução de
assuntos controversos.
Autores brasileiros,3 com base nos precursores dos estudos sobre o tema,
resgataram as categorias desenvolvidas na literatura internacional que propiciariam
o desenvolvimento da judicialização em determinado país. Os elementos analisados
foram: a democracia, a separação de poderes, os direitos políticos, o uso dos tribu‑
nais pelos grupos, o uso de tribunais pelos partidos políticos e a inefetividade das
instituições majoritárias (Carvalho, 2004). Concluiu‑se que tais categorias estão
quase que completamente presentes no caso brasileiro. Arantes (2007, p. 107‑108)
discorre:

Quando observamos o caso brasileiro, parece‑nos que todas essas condições estiveram
presentes nos últimos anos, em maior ou menor medida, o que nos tornaria um impor‑
tante exemplo de judicialização da política: a democracia restabelecida nos anos 80,
seguida de uma Constituição pródiga em direitos em 1988, com um número cada vez
maior de grupos de interesses organizados demandando solução de conflitos coletivos,
contrastando com um sistema político pouco majoritário, de coalizões e partidos frágeis
para sustentar o governo, enquanto os de oposição utilizam o Judiciário para contê‑lo,
além de um modelo constitucional que delegou à Justiça a proteção de interesses em
diversas áreas, refletindo até mesmo o alto grau de legitimidade do Judiciário e do
Ministério Público como instituições capazes de receber essa delegação.

Embora considere‑se que o fenômeno passou a ser vivenciado no Brasil após


1988, a expressão foi cunhada para tratar do assunto somente a partir de 1996, com
a obra de Tate e Valinder (1995), na literatura internacional. De acordo com Maciel
e Koerner (2002, p. 114), o termo ganha então, o seguinte significado:

Judicializar a política, segundo esses autores, é valer‑se dos métodos típicos da decisão
judicial na resolução de disputas e demandas nas arenas políticas em dois contextos.
O primeiro resultaria da ampliação das áreas da atuação dos tribunais pela via do poder
de revisão judicial de ações legislativas e executivas, baseado na constitucionalização

3. Carvalho, 2004 e Arantes, 2007.

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de direitos e dos mecanismos de checks and balances. O segundo contexto, mais difu‑
so, seria constituído pela introdução ou expansão de staff judicial ou de procedimentos
judiciais no Executivo (como nos casos de tribunais e/ou juízes administrativos) e no
Legislativo (como é o caso das Comissões Parlamentares de Inquérito).

Ao longo dos anos, a expressão “judicialização de políticas” tem ganhado


diversos outros significados.4 Aqui o sentido da judicialização é atribuído à in‑
fluência — própria dos sistemas democráticos — exercida pelo Poder Judiciário
ao interferir em funções que em tese seriam atribuições dos poderes Executivo e
Legislativo.
Muitas são as discussões em torno do tema sob a ótica de substituição e/ou
complementação das políticas públicas. Por um lado ela é considerada positiva,5
entendida como possibilidade de ampliação do provimento das políticas públicas,
de se fazer justiça social ao incluir parcelas da população que são negligenciadas
no acesso aos seus direitos sociais, devido ao crivo cada vez menor adotado pelas
políticas públicas.
Em vertente distinta, esse fenômeno é percebido negativamente.6 Ao se con‑
siderar as questões orçamentárias em que está submetido o desenvolvimento das
políticas públicas, tem‑se argumentado que este é finito e que muitas vezes, por
meio de determinações judiciais, é gasto muito dinheiro público a favor de poucos,
o que pode ser considerado uma atuação injusta. Outro ponto debatido refere‑se ao
acesso ainda restrito à justiça, já que parcela significativa da população, com pou‑
ca informação e/ou sem condições financeiras para arcar com custas advocatícias,
acabam por não conseguir acionar essa instância decisória. Há ainda estudos que
questionam o poder dos juízes em decisões políticas, já que esses não seriam legi‑
timados pelo povo. O argumento é sustentado sob a defesa de que essa seria uma
“justiça injusta”.
Silva (2008, p. 587) chama a atenção para a necessidade de enfrentar a dico‑
tomia envolvida nesse processo, já que:

De um lado, a previsão de direitos sociais na Constituição brasileira (ou em qualquer


outra constituição) não pode ser encarada como simples “lírica constitucional”, ou
seja, não é possível que não haja nenhuma consequência jurídica concreta para essa

4. Para significados de judicialização consultar, Maciel e Koerner (2002).


5. Ventura et al. (2010).
6. Silva (2008) e Aguinsky e Alencastro (2006).

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previsão. De outro lado, não é possível, [...] que direitos sociais sejam tratados como
se tivessem a mesma estrutura que têm os chamados direitos individuais (civis e po‑
líticos), ou seja, juízes não podem ignorar as políticas públicas já existentes nessas
áreas, concedendo, de forma irracional e individualista, medicamentos, tratamentos
de saúde ou vagas em salas de aula a todo aquele que recorrer ao Judiciário.

Cabe ressaltar a particularidade da judicialização no âmbito da Assistência


Social, pois esta política que começou a se concretizar, a partir da Carta de 1988,
com a instituição de um Sistema de Seguridade Social, nunca teve seu público bem
definido como a Saúde e a Previdência Social. Ainda hoje o público da Assistência
pode ser considerado amorfo, já que a legislação define como todo aquele que
necessitar de assistência, e de acordo com cada programa e/ou serviço define‑se os
critérios de elegibilidade, o que acaba por gerar controvérsias na sua prestação e
consequentes lides judiciais.
Aliado a todo esse cenário, logo após a conquista dos direitos sociais da dé‑
cada de 1980, vivenciou‑se no Brasil a adoção de um novo receituário econômico,
em que as políticas de corte neoliberal passaram a imperar. Essa ideologia propõe
a diminuição do Estado na provisão de serviços sociais. Para Netto e Braz (2009,
p. 227),

o Estado foi demonizado pelos neoliberais e apresentado como um trambolho anacrô‑


nico que deveria ser reformado — e, pela primeira vez na história do capitalismo, a
palavra reforma perdeu o seu sentido tradicional de conjunto de mudanças para ampliar
direitos; a partir dos anos oitenta do século XX, sob o rótulo de reforma(s) o que vem
sendo conduzido pelo grande capital é um gigantesco processo de contrarreforma(s),
destinado a supressão ou redução de direitos e garantias sociais.

Em uma conjuntura de excessiva desigualdade, escasso provimento de servi‑


ços públicos e incentivo à busca individual, o Poder Judiciário tornou‑se instância
privilegiada para a busca dos direitos. Pelo que se conclui que o cenário brasileiro
é altamente propício ao desenvolvimento da judicialização da política de assistên‑
cia social.
De acordo com Vianna, Burgos e Salles (2007, p. 41)

A invasão do direito sobre o social avança na regulação dos setores mais vulneráveis,
em um claro processo de substituição do Estado e dos recursos institucionais classi‑
camente republicanos pelo Judiciário, visando a dar cobertura a criança e ao adoles‑
cente, ao idoso e aos portadores de deficiência física. O juiz torna‑se protagonista
direto da questão social.

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O BPC
A Assistência Social prevista na Constituição de 1988 e regulamentada pela
Lei Orgânica de Assistência Social (Loas) inaugurou no país uma nova maneira de
ver a pobreza, os deficientes e os idosos. Eles deixam de ser alvo exclusivo de
caridade, voluntarismo, paternalismo e clientelismo políticos para tornar‑se dever
do Estado. Embora já houvesse algumas ações estatais fragmentadas, é nesse mo‑
mento que eles passam a ser matéria de políticas públicas. Evidentemente a publi‑
cação de uma lei não garante a ruptura com os antigos modelos. Contudo, sua
previsão legal foi fundamental para o reconhecimento de que a situação de vulne‑
rabilidade pessoal e social não são frutos da incompetência individual ou do azar,
mas consequência da dinâmica da sociedade.
Essa política tem como uma de suas principais prestações o BPC, destinado
a deficientes e idosos pobres, que em setembro de 2011 atendia diretamente um
total de 3.535.262 pessoas.7
O BPC é preceito constitucional, que garante em seu artigo 203, inciso V, aos
deficientes e aos idosos a partir dos 65 anos de idade, que não tenham condições
de prover sua subsistência e nem tê‑la provida por sua família, um rendimento no
valor de um salário mínimo para sua sobrevivência (Brasil, 1988).
Embora tenha sido assegurado na Constituição de 1988, foi regulamentado
somente em dezembro de 1993, com edição da Lei n. 8.742, que definiu seus cri‑
térios de elegibilidade. Contudo, passou a ser efetivamente operacionalizado, em
janeiro de 1996. O BPC é gerido pelo Ministério de Desenvolvimento Social e
Combate a Fome (MDS), e operacionalizado pelo Instituto Nacional do Seguro
Social (INSS), autarquia federal vinculada à Previdência Social.
Desde sua regulamentação o BPC é objeto de muitas discussões e passou por
diversas alterações em seus critérios, sendo ainda alvo de muitos questionamentos
por não abranger parcela significativa de deficientes e idosos pobres. Um dos pon‑
tos mais controversos é a renda adotada, estipulada no valor de um quarto do salá‑
rio mínimo por pessoa. Esse critério tem sido questionado desde a edição da lei, já
que a adoção de um limite de renda tão exígua acaba por impossibilitar que impor‑
tante parcela da população privada de recursos tenha direito ao benefício. Contudo,
até o momento o critério de renda permanece inalterado.

7. Dados retirados do Suibe.

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Atualmente, para elegibilidade ao benefício, são analisados: o grupo familiar,
composto “pelo requerente, o cônjuge ou companheiro, os pais e, na ausência de
um deles, a madrasta ou o padrasto, os irmãos solteiros, os filhos e enteados soltei‑
ros e os menores tutelados, desde que vivam sob o mesmo teto” (Brasil, 2011a); a
idade de 65 anos ou mais (para benefícios de idoso), a renda per capita bruta infe‑
rior a um quarto do salário mínimo, e nos casos de benefícios para deficientes, o
critério de impedimentos de longo prazo, ou seja, aqueles cuja doença/deficiência
incapacitam a pessoa para a vida independente e para o trabalho por no mínimo
dois anos.
Para avaliação do benefício são realizadas avaliações sociais e médicas, pelos
assistentes sociais e peritos médicos do INSS. Caso o requerente tenha seu benefí‑
cio indeferido inicialmente, tem a possibilidade de interpor recurso administrativo
para avaliações de profissionais distintos aos do requerimento inicial, tendo alter‑
nativa antes de recorrer à justiça.

Histórico da judicialização do BPC


O primeiro litígio judicial referente ao BPC ocorreu em novembro de 1993.
Diante da morosidade em publicar lei normatizando o benefício, “foi impetrado o
Mandado de Injunção n. 448/RS perante o STF, no qual se requeria a regulamen‑
tação do inciso V do artigo 203 da Constituição Federal, dispositivo que instituiu
o benefício assistencial (Rio Grande do Sul, 1997)” (Penalva, Diniz e Medeiros,
2010, p. 54). Seu julgamento ocorreu após a publicação da Loas (Idem).
Em seguida, 1995, foi interposto ADIn n. 1.232, questionando o corte de
renda utilizado para eleger os beneficiários. A alegação da Procuradoria‑Geral da
República era que utilizar tal critério violaria o preceito constitucional, por restrin‑
gir o acesso ao direito. Contudo, julgada em agosto de 1998, foi considerada im‑
procedente (Penalva, Diniz, Medeiros, 2010, p. 54).
Ainda assim, diversas ações individuais continuaram sendo julgadas na Jus‑
tiça Federal. “Após a decisão do STF, os juízes [...] continuaram a se pronunciar
pela insuficiência do critério de pobreza de um quarto, deixando em cada caso a
possibilidade de levar outros fatores para determinar a elegibilidade da pessoa ao
BPC” (Santos, 2009, p. 72).
Eis que em 2004 o assunto volta à pauta do STF, devido a Reclamação n. 2.303
interposta pelo INSS diante dos julgamentos favoráveis ao recebimento do benefí‑
cio, sob a justificativa que a decisão da ADIn n. 1.232 não estava sendo ­considerada.

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Contudo o julgamento da reclamação não significou o fim dos questionamentos
quanto a renda, e o benefício continua a ser concedido individualmente, agora
respaldado em legislações posteriores da política de assistência social (Penalva,
Diniz e Medeiros, 2010).
Encontra‑se em andamento no STF o Recurso Extraordinário n. 567.985, ao
qual foi reconhecida a repercussão geral8 da possibilidade de se adotar critério
distinto do de renda estabelecido em lei (Penalva, Diniz, Medeiros, 2010).
Outro assunto tratado judicialmente diz respeito ao proposto na ACP
n. 2730000002040/AC, de 11 de abril de 2007. A partir dela, a incapacidade para
prover a sua subsistência ou de ser provido pelos familiares é o suficiente para
caracterizar a incapacidade para a vida independente.
Em 2009, de acordo com Santos (2009), “chega ao STF o mais recente ins‑
trumento de controle de constitucionalidade proposto sobre os critérios do BPC: a
Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF)9 n. 182”. Tal ins‑
trumento aguarda julgamento e propõe a adoção da Convenção dos Direitos da
Pessoa com Deficiência, para fins de concessão do benefício, sob a alegação que o
conceito utilizado pela Loas exclui importante parcela de pessoas com deficiência”
(Santos, 2009, p. 87).
Recentemente, publicou‑se decisão proferida na ACP n. 00000036120104047111/
RS, que trata da desconsideração de outro BPC e de benefício previdenciário de
valor mínimo na análise da renda per capita familiar, com efeitos apenas para
treze cidades do estado do Rio Grande do Sul. Em outubro de 2011, decisão nesse
mesmo sentido foi publicada, proferida na ACP n. 2001.72.05.007738‑6, determi‑
nando que o INSS modifique a forma objetiva de auferir renda para exclusão do
direito ao benefício. Com validade em 44 municípios de Santa Catarina, a determi‑
nação é que em casos de indeferimento por renda, o assistente social do INSS
realize um estudo social e emita um parecer social conclusivo revendo ou corrobo‑
rando o indeferimento.
Observa‑se que os principais assuntos aos quais o Judiciário é chamado a se
manifestar em ações coletivas dizem respeito ao critério de renda e ao conceito de
deficiência adotado pela política, tendência repetida quando analisados os processos

8. “O julgamento de um processo com repercussão geral tem o condão de uniformizar a interpretação


constitucional, irradiando a decisão para todos os processos idênticos que seriam julgados pela corte” (Pe‑
nalva, Diniz e Medeiros, 2010, p. 67).
9. A ADPF “é utilizada quando algum preceito constitucional está ameaçado ou não está sendo cumpri‑
do” (Santos, 2009, p. 88).

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individualmente. Assim, em recente pesquisa que analisou processos judiciais que
obtiveram resultado favorável ao impetrante, foram verificadas

três tendências principais de correção judicial: 1. atuação judicial em razão de erro


administrativo provocado no momento da execução do BPC nas agências do INSS,
2. o questionamento do conceito legal de deficiência do BPC e 3. o questionamento
do critério de pobreza estabelecido na Loas. (Santos, 2009, p. 73)

Esse entendimento foi ratificado em apresentação elaborada pelo MDS ex‑


posta em novembro de 2010, no Seminário Internacional do BPC, que demonstrou,
por meio de dados fornecidos pela Procuradoria Federal Especializada do INSS
(PFE) que a maior incidência de ações judiciais com relação ao benefício para
deficientes referem‑se ao conceito adotado para determinar a deficiência, equiva‑
lendo a 71% das questões enfrentadas, seguido de condição socioeconômica, re‑
presentando 21%. Já nos casos de BPC ao idoso, as lides devido a critério de po‑
breza são percentualmente ainda maiores, representando 95%, seguido de 3%
referente a acumulação indevida com outros benefícios (Brasil, 2010c).

O BPC e a judicialização
Atualmente são mantidos no Brasil 3.535.262 BPCs, sendo 1.867.928 desti‑
nados a pessoas com deficiência e 1.667.334 ao idoso.
A expressividade desse benefício e o orçamento público investido fazem com
que o BPC se torne um importante instrumento de diminuição da pobreza extrema
no país, causando um positivo impacto social, ao atuar diretamente na desigualdade.
Parte expressiva do orçamento da Seguridade Social destinado à política de
assistência social é gasto com o benefício. Somente em 2010, segundo dados do
Ipea, foi despendido um total de R$ 1.731.646.001,26 para pagamento do BPC
(Ipea, 2011).
No período analisado, foram requeridos 704.702 BPC, sendo 68% benefícios
para deficientes e os demais para pessoas idosas. Desses benefícios 382.073 foram
concedidos, o que representa pouco mais da metade dos requerimentos. Dentre os
indeferidos no mesmo período, o maior número de indeferimentos, em requerimen‑
tos de deficientes, foi em virtude do não reconhecimento de incapacidade para vida
independente, seguido de renda per capita superior a um quarto do salário mínimo.
Esses dados traduzem a demanda que está sendo apresentada à justiça, já que con‑

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forme apresentação do MDS (2010c), os principais motivos que concorrem para a
busca do benefício judicialmente coincidem com aos indeferimentos supracitados.
Sobre o questionamento da análise da incapacidade na justiça, Santos (2006, p. 5)
sugere que:

o conceito de deficiência utilizado pelos juízes federais para conceder o BPC ultra‑
passa a ideia do modelo médico que relaciona a deficiência somente as restrições
corporais experimentadas pelas pessoas, e passa a levar em consideração o ambiente
social como aquele que pode determinar a gravidade das deficiências e a opressão
sofrida pela pessoa.

Essa análise aponta para um importante aspecto na judicialização do BPC, a


identificação de lacunas das políticas públicas, por meio do diagnóstico propiciado
pela observação das diversas ações individuais, nesse caso, a ineficiência do mo‑
delo de perícia médica que era utilizada para avaliação do benefício. Santos (2009,
p. 20), afirma que

a atuação do Judiciário em julgamento de casos de omissão ou inadequação da ­execução


política não apenas cumpre o seu papel na manutenção dos princípios democráticos
que regem a sociedade, mas pode ser capaz de interferir no desenho, funcionamento
e no próprio escopo do BPC. Ao indiciar resoluções por análises de casos concretos,
os operadores do direito, como os juízes e procuradores, acabam por redirecionar as
diretrizes gerais que garantem o funcionamento das políticas públicas.

Embora muitos considerem que a atuação em casos individuais por parte do


Judiciário é simplesmente tradução de um direito subjetivo, não se pode desconsi‑
derar o efeito secundário dessas ações, que, quando compiladas e traduzidas, acabam
por identificar demandas coletivas, expressas no direito subjetivo. Ainda que se
reconheça que esse movimento não seja proveniente do próprio Judiciário, e mes‑
mo que de forma indireta, e aliado a outros fatores, possivelmente o grande núme‑
ro de lides judiciais envolvendo o tema pode ter influenciado na alteração da legis‑
lação que ocorreu em 2008, trazendo um novo conceito, mais abrangente, para
avaliação da deficiência e da incapacidade, com a adoção da Classificação Interna‑
cional de Funcionalidades (CIF). Em manual elaborado pelo Grupo de Trabalho
Interministerial (GTI) constituído para esse fim, reconheceu‑se a necessidade de
alteração do modelo.

O modelo vigente de avaliação da deficiência e da incapacidade para fins de acesso


ao BPC mostra‑se inadequado e com insuficiente grau de uniformização. [...] Esse

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novo modelo incorpora uma abordagem multidimensional da funcionalidade, da in‑
capacidade e da saúde. Considera, além das deficiências nas funções e estruturas do
corpo, os fatores contextuais (ambientais e pessoais), a acessibilidade e a participação
da pessoa com deficiência na sociedade, em consonância com a tendência mundial de
atentar para os fatores biopsicossociais. A saúde é compreendida sob uma perspectiva
biológica, individual e social. (Brasil, 2007b, p. 7‑8)

Os resultados dessa adoção já puderam ser constatados com a diminuição do


número de indeferimentos. Em nota técnica publicada pela Secretaria Nacional de
Assistência Social (SNAS), em outubro de 2010, verificou‑se que após a inclusão
da avaliação social houve um aumento de quase 10% no número de requerimentos
e de 27% nas concessões, e consequente diminuição de 12% nos indeferimentos
(Brasil, 2010b). Contudo, vale ressaltar que embora a adoção da CIF seja um im‑
portante passo para expansão do programa, não elimina as lacunas do benefício,
dando margem à existência de litígios judiciais.
Nos requerimentos de BPC para idosos, o motivo de indeferimento mais re‑
corrente é devido ao critério de pobreza, seguido de nacionalidade estrangeira.
Esses também correspondem à demanda judicial.
Outro ponto observado no mesmo período diz respeito à cessação de 144.436
benefícios, tendo como principal motivo o óbito do titular, tanto para o deficiente
quanto para idoso, representando 73% e 70% respectivamente. Um número mínimo
foi cessado pela revisão bienal prevista em lei,10 contudo, não se pode considerar
que não houve alteração na vida desses deficientes e idosos, já que a última revisão
ocorreu no ano de 2005 e contemplou os benefícios iniciados até 30 de julho de
2003. A partir de então as revisões dos benefícios encontram‑se sobrestadas, aguar‑
dando normatização. Esse é um indicativo de falha no monitoramento do benefício.
Assim, de acordo com o relatório de auditoria realizada pelo Tribunal de Contas da
União (TCU) em 2008, “chegou à necessidade de 5,7 milhões de revisões, entre
1998 e 2007, caso fosse atendido o critério estabelecido na legislação de se realizar
revisões a cada dois anos. Neste período, foram iniciadas 1,8 milhões de revisões,
equivalentes a 31,5% da necessidade estimada”. (Brasil, 2008, p. 28‑29)
Verifica‑se que o número de concedidos no período é maior que o de cessados,
apontando para a tendência de ampliação no número de benefícios ao longo dos
anos.

10. De acordo com a Lei n. 8.742/93, o BPC será revisto a cada dois anos, com intuito de verificar se
houve superação das condições que deram direito ao benefício.

566 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 555-575, jul./set. 2012
Judicialização do BPC nas grandes regiões brasileiras
De acordo com os dados dos resultados preliminares da amostra do Censo
2010, no Brasil são 45.623.910 pessoas com algum tipo de deficiência. Dessas, 41%
estão na região Sudeste, 31% na Nordeste, 14% no Sul, 8% no Norte e apenas 7%
no Centro‑Oeste. Contudo, se comparados com a população total de cada região, a
que tem maior número de deficientes em relação a sua população é a Nordeste, com
27%, seguida do Norte, com 23%, e a última, Centro‑Oeste, com 22%. Das pessoas
que declaram algum tipo de deficiência, 35% possuem deficiência grave ou total.
Ao todo, são 15.791.945 pessoas, que em tese, pelo critério de deficiência, seriam
elegíveis ao BPC. Ressalta‑se que o benefício também tem como público‑alvo
pessoas com determinados tipos de doenças crônicas.
Já a população idosa identificada no Censo 2010 representa 11% da população,
totalizando 20.550.599, estando a maioria na região Sudeste 46%, seguido da Nor‑
deste (27%), Sul (16%), Centro‑Oeste (6%) e Norte (5%). Porém, se for analisada
em relação à população habitante, a que tem maior proporção de idoso é a região
Sul, e a menor, a Norte. Portanto, em média, a população da região Norte morre
mais cedo que a do Sul do país.
Esses números comparados com os BPC mantidos representam uma co‑
bertura de 12% da população com deficiência (excluídos deficiências leves e
doenças crônicas), e 12% da população idosa brasileira (excluídos os menores
de 65 anos).
Do universo de benefícios assistenciais mantidos no Brasil, 199.863 foram
concedidos judicialmente, o que representa, em termos percentuais, 6%. Com re‑
lação às espécies, 83% são mantidos para pessoas com deficiência e 17% para
idosos.
Desses benefícios, 33% estão na região Nordeste, 31% na Sudeste, 21% na
Sul, 9% na Centro‑Oeste, e apenas 6% na região Norte. Portanto, considerando o
universo de benefícios judiciais mantidos, a região Nordeste é a que tem mais be‑
nefícios nessa modalidade. No entanto, excluídos os benefícios judiciais e consi‑
derando apenas os concedidos em âmbito administrativo, observa‑se que a região
Norte mantém percentualmente mais benefícios do que a Sul e a Centro‑Oeste,
apontando a tendência de menor concessão judicial na região.
Quando analisadas as regiões separadamente, a que apresenta maior nú-.
mero de benefícios mantidos por determinação judicial em relação aos mantidos
por concessão administrativa, é a região Sul, já que quase 11% de seus BPCs

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 555-575, jul./set. 2012 567
mantidos são judiciais, ultrapassando a média nacional de concessões judiciais.
Portanto, embora em termos absolutos essa região mantenha menos benefícios
que as demais, quando comparadas as variáveis mantidos por deferimento admi‑
nistrativo mantidos por concessão judicial, é a região Sul que tem sido mais be‑
neficiada pela utilização do Poder Judiciário. A região que mantém menor núme‑
ro de benefícios judiciais em relação a suas concessões gerais é ainda a região
Norte.
Nas concessões do período analisado (junho de 2010 a junho de 2011), veri‑
ficou‑se que 42.762, ou seja, quase 11% dos concedidos, foram por cumprimento
de determinação judicial. Desses, 80% foram destinados a pessoas com deficiência,
seguindo a tendência dos mantidos por ação judicial.
Se observadas a grande prevalência de BPCs para deficientes concedidos
judicialmente, identifica‑se uma especificidade das concessões judiciais, já que nos
deferimentos realizados pelo INSS, o número de BPCs para deficientes é pouco
maior do que os destinados ao idoso. Esse dado sugere que a legislação do BPC
para pessoas com deficiência apresenta maior discricionariedade que a do idoso,
dando margem a diferentes interpretações, o que acaba por acarretar maior número
de lides judiciais.
Um importante aspecto observado que merece destaque é a identificação de
498 benefícios para idosos que tinham pensões alimentícias debitadas de seu valor,
o que legalmente não é previsto. A legislação dispõe que o benefício é individual
e intransferível. No entanto, embora o benefício seja destinado exclusivamente ao
requerente, os juízes têm interpretado de forma distinta e considerado que o BPC
deve prover os dependentes do beneficiário. Essa postura traduz a tendência dos
magistrados em pautar‑se nos preceitos da Carta Magna, ainda que a legislação que
subsidie a política pública seja mais restritiva.
Se comparados os dados de extrema pobreza do país em 2010, disponibili‑
zada pelo Censo, e o número de benefícios por região naquele mesmo ano, a região
Nordeste apresenta o menor índice de abrangência do benefício a população ex‑
tremamente pobre.11 A região Norte, segunda no ranking percentual de extrema
pobreza, superando inclusive os números nacionais, também apresenta baixo ín‑
dice de recebimento de BPC em relação a sua população em situação de extrema
pobreza.

11. Para identificação fidedigna da cobertura do BPC ao seu público‑alvo seria necessário considerar
os dados de extrema pobreza da população deficiente e idosa. Contudo, em virtude da indisponibilidade de
tais dados, foram considerados a população total em extrema pobreza como subsídio para análise.

568 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 555-575, jul./set. 2012
De acordo com os dados Ipeadata sobre o número de pessoas extremamente
pobres por região geográfica, o país apresenta taxa de 7% da população total. A
região Nordeste, 15%; Norte, 9%; Centro‑Oeste, 3%; Sul, 3%; e Sudeste, 3%. Vale
ressaltar, que para cálculo de extrema pobreza o Ipea utiliza metodologia diferente
da legislação do BPC.
O estudo dos domicílios brasileiros realizado pelo Censo 2010 indicou que
13% dos domicílios têm renda per capita até um quarto do salário mínimo, sendo
4% sem qualquer rendimento. Essa situação é ainda mais preocupante nos municí‑
pios das regiões Nordeste e Norte, que apresentam respectivamente 26% e 24% de
domicílios em situação de extrema pobreza.
Essas profundas diferenças que marcam as grandes regiões geográficas bra‑
sileiras e sua influência no acesso a justiça serão analisadas no próximo item.

A Justiça Federal e as desigualdades regionais


De acordo com a Carta de 1988, a Justiça Federal atua em lides que envolvam
a União e seus órgãos, sejam como réu ou impetrante. É prioritariamente a essa
esfera que o cidadão recorre quando sente que foi lesado de seu direito ao BPC.
A Justiça Federal brasileira é dividida em cinco regiões,12 que não coincidem
com as grandes regiões, esse motivo pelo qual a análise foi realizada com base
nas unidades da federação para identificação de sua correspondência nas regiões
brasileiras.
Em termos absolutos, a região da justiça com maior número de BPCs mantidos
é a 5ª, que, somados todos os benefícios mantidos judicialmente nos estados que a
compõem, totaliza 53.993 benefícios, e a região com menor número é a 2ª. No en‑
tanto, fazendo uma média pelo número de estados que compõe cada região, o pri‑
meiro lugar é assumido pela 3ª região, mérito que pode ser atribuído ao estado de
São Paulo, e a que apresenta a menor média é novamente a 2ª região. Se considera‑
dos dados populacionais, o baixo desempenho da 2ª região se justifica pelo menor
número de pessoas abrangidas, já que a soma da população dos estados que a com‑
põem apontam que eles têm menor população que as demais regiões da justiça.

12. 1ª região — Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima, Pará, Amapá, Tocantins, Maranhão, Piauí, Bahia,
Mato Grosso, Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais; 2ª região — Rio de Janeiro, Espírito Santo; 3ª região
— São Paulo, Mato Grosso do Sul; 4ª região — Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul; 5ª região —
Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe, Alagoas, Pernambuco.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 555-575, jul./set. 2012 569
A Justiça Federal brasileira divulgou o quantitativo de carência de varas fe‑
derais (ICVJ).13 Segundo pesquisa realizada em 2010, a região Nordeste é a que
apresentou maior carência e necessitava de mais 393 varas, seguida da região Nor‑
te aguardando um total de 229, Sudeste, 121; Centro‑Oeste, 103; e Sul, 37. Identi‑
fica‑se que a Justiça Federal brasileira ainda está muito aquém do ideal e que as
regiões mais pobres são as mais prejudicadas.
Conforme documento publicado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ),
em março de 2011 o INSS é o primeiro no ranking dos cem maiores litigantes do
país. Representando seus litígios 22% se considerados os diversos ramos da justiça,
e 43% ao considerar somente a Justiça Federal.
No ano de 2010, de acordo com Aeps, tramitou na PFE do INSS um total de
2.719.091 ações referentes a benefícios previdenciários e assistenciais, excluídos
as ações referentes aos servidores do INSS. Desses, 49% são da região Sudeste;
23% da Sul; 17% do Nordeste; 7% do Centro‑Oeste; e 4% da Norte. Observa‑se
que as regiões que apresentam o maior percentual de lides judiciais, não traduzem
os dados populacionais do país, já que a Nordeste é mais populosa que a região Sul
e, no entanto, apresenta menor percentual de busca à justiça.
Analisados os dados do Censo 2010 de extrema pobreza, em comparação com
os benefícios mantidos por determinação judicial, observa‑se que não há corres‑
pondência entre as variáveis, já que a região com menor taxa de domicílios em
situação de extrema pobreza é a que teve mais benefícios concedidos pela justiça.
Em contrapartida, as duas regiões com maior número de extrema pobreza são as
que obtiveram menos êxito judicial. Assim, o que se observa é uma inversão, ou
seja, as regiões onde existem mais pessoas extremamente pobres são as regiões que
menos concedem benefícios judiciais.
De acordo com os dados analisados anteriormente, a região Sul é a que man‑
tém o maior número de benefícios determinados pela justiça, reafirmando as desi‑
gualdades existentes entre as regiões no acesso à justiça, já que sua população é a
terceira no país.
Conforme visto, ao analisar a relação entre o número da população, percen‑
tuais de extrema pobreza, carência de varas federais e o número de litígios por

13. O ICVJF é um número indicativo da necessidade de varas federais. É um índice comparativo, não
absoluto, da necessidade de criação de varas federais numa localidade [...] depende do número de processos
em tramitação e julgados por vara federal, do PIB (Produto Interno Bruto) e da população da localidade [...]
(Brasil, 2011c).

570 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 555-575, jul./set. 2012
região no âmbito do INSS, pode‑se concluir que, de fato, ainda hoje no Brasil a
falta de acesso à justiça está intrinsecamente ligada à pobreza, já que as regiões
mais pobres apresentam maior carência de varas e menor número de busca pela
justiça. Essa reflexão é corroborada pela afirmação de Aguinsky e Alencastro
(2006), ao sugerir que o “acesso à justiça se dá, via de regra, de forma individual
e por um segmento seletivo de sujeitos — os que conhecem ou conseguem aces‑
sar este canal jurídico” (p. 19). Se a identificação dessa realidade é gravíssima
em qualquer pleito judicial, quando se refere ao BPC ela é ainda mais preocupan‑
te, uma vez que o público desse benefício é justamente a população mais pobre
da sociedade.
É interessante notar que embora a região Nordeste seja a que mais concedeu
o benefício judicialmente no período, em termos de cobertura a sua população em
situação de extrema pobreza apresentou o pior índice, conforme ficou comprovado
acima.
Diante da desigualdade apresentada, urge soluções para acesso equitativo à
justiça. Assim, de acordo com Pinto,

quando se almeja equacionar as dificuldades do acesso à Justiça, não se pode perder


de vista que uma grande parcela da população passa ao largo da proteção jurídica, em
função da situação particular em que vive, causada notadamente pela gritante diferen‑
ça na distribuição da renda, criando camadas e subcamadas populacionais que vivem
à margem da sociedade. [...] Em geral, é a camada menos favorecida da população
quem sofre com as consequências mais desastrosas da dificuldade do acesso à Justiça.
A falta de acesso ao Judiciário constitui um dos problemas que mais afligem a socie‑
dade brasileira moderna. (Pinto, 2008)

Os benefícios judiciais analisados apresentaram um tempo médio de re‑


solutividade, de acordo com o Suibe, de pouco mais de dois anos. A morosida‑
de da justiça é motivo de preocupação quando se estuda a judicialização da
política, já que, se considerados que o tempo médio de espera para concessão
do BPC administrativamente é de pouco mais de trinta dias, e ainda que em
geral esses requerentes são pessoas em extrema pobreza, a espera média de dois
anos é tempo demais para quem tem urgência em ter suas necessidades básicas
providas.
Resta constatada que as desigualdades regionais se repetem no Judiciário.
Assim, o Poder Judiciário recai nos problemas regionais enfrentados pelas políticas
públicas.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 555-575, jul./set. 2012 571
Considerações finais
É inegável a importância da atuação do Poder Judiciário para a concretização
do BPC como direito social. Em muitos momentos, ao longo desses dezoito anos
de regulamentação do benefício, a justiça brasileira protagonizou a busca pelo
aprimoramento do BPC, especialmente ao atuar em ações coletivas. Contudo, é
importante refletir se os objetivos propostos pelo relator constitucional ao instituir
um benefício público monetário a pessoas com deficiência e em idade avançada,
sem condições de provimento de necessidades básicas, têm sido alcançados. Ora,
um benefício com esse cunho só pode objetivar a diminuição da pobreza e da de‑
sigualdade social. Contudo, considerando o estudo empreendido e as desigualdades
regionais do Brasil, o Poder Judiciário conforme está estabelecido não pode ser
considerado como plena possibilidade de justiça social, já que por muitas vezes ele
acaba por reforçar a desigualdade, quando se trata da judicialização do BPC.
A observação dos dados apresentados aponta que o Poder Judiciário não só
não auxilia na redução da desigualdade, como ainda a reforça, tendo em vista que
seu acesso também se efetiva de forma desigual e a justiça está mais ativa nas regiões
mais ricas do Brasil. As desigualdades também são reforçadas quando as ACP (Ação
Civil Pública) passam a ter validade para grupos de municípios. É inconcebível
encontrar em uma mesma unidade da federação diferenciação nos critérios para
elegibilidade ao benefício, o que representa explícita contraposição ao princípio da
igualdade.
Vale ressaltar que se o acesso à justiça é dificultado a população pobre, vê‑se
que o público do BPC dificilmente será alcançável, já que se trata da população em
situação de extrema pobreza, que tem ainda aliada a sua carência material e a falta
de acesso aos bens públicos, suas limitações físicas e/ou mentais, muitas vezes
desconhecendo seus direitos e principalmente os mecanismos para buscá‑los. Ao
entender essa lógica, torna‑se fundamental afirmar que, para além da demanda
identificada pela pesquisa existe um público que sequer tem “direito a ter direitos”
e está completamente alijado da justiça e da sociedade.
Não se trata de negar a ação do Judiciário na resolução de conflitos do BPC,
pois, conforme constatado, este pode acarretar importantes melhorias no benefício
e de certa forma é a única instância capaz de transpor barreiras legais e rever equí‑
vocos administrativos, mas é fundamental repensar seu papel, o que indica a ne‑
cessidade de superação da divisão de poderes de forma desarticulada, como vem
ocorrendo, em prol de uma atuação integrada com o Legislativo e o Executivo,

572 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 555-575, jul./set. 2012
apontando, por meio das demandas que lhes são apresentadas, as lacunas e as pos‑
sibilidades de alteração das políticas públicas.
Por fim, é fundamental reafirmar que a justiça brasileira precisa superar as
desigualdades regionais para constituir‑se como instância garantidora dos direitos
sociais e se concretizar como um instrumento efetivo para a consolidação da cida‑
dania e de reforço da democracia.

Recebido em: 18/4/2012  ■   Aprovado em: 6/6/2012

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Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 555-575, jul./set. 2012 575
Acolhimento familiar:
validando e atribuindo sentido às leis protetivas
Foster care: validating and giving sense to the protective laws

Jane Valente*

Resumo: No contexto da atual legislação brasileira, no que se re‑


fere às crianças e aos adolescentes em situação de vulnerabilidade e
risco, vamos encontrar um novo serviço dentre as medidas protetivas
previstas: o serviço de acolhimento em família acolhedora. Dado o
ineditismo desse serviço como política pública, este artigo tem por
objetivo contribuir para a reflexão sobre a sua execução no território
nacional.
Palavras‑chave: Acolhimento familiar. Criança e adolescente. Família
acolhedora. Política pública.

Abstract: In the context of the current Brazilian legislation, which refers to children and adolescents
in situations of vulnerability and risk, we will find a new service among the protective measures ­provided:
host service in welcoming family. Given the unprecedented of this service as a public policy, this article
aims to contribute to reflection about its execution in the country.
Keywords: Foster care. Child and adolescent. Foster family. Public policy.

* Assistente social, assessora da Proteção Social Especial da Secretaria Municipal de Cidadania, Assis‑
tência e Inclusão Social da Prefeitura Municipal de Campinas (São Paulo), Brasil; especialista em violência
doméstica contra a criança e o adolescente, terapeuta familiar, mestre e doutoranda em Serviço Social. mem‑
bro do Grupo de Trabalho Nacional Pró‑Convivência Familiar e Comunitária, consultora da Relaf — Rede
Latino Americana de Acolhimento Familiar. E‑mail: janevalente@gmail.com.

576 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 576-598, jul./set. 2012
Acolhimento familiar:1 validando e atribuindo sentido às leis protetivas

E
ste artigo tem por objetivo contribuir para a reflexão sobre a proposta de
acolhimento familiar no contexto da legislação brasileira, trocando em
miúdos a sua execução. Sua realização se apoia no estudo de trajetórias
realizadas por diferentes profissionais que atuaram ou atuam em serviços
existentes e em outros já extintos, no Sul e Sudeste do país.2 Pretende também
propor o enfrentamento de algumas necessidades para a sua operacionalização como
política pública nacional.
O Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora está inserido na Política
Nacional de Assistência Social (PNAS, 2004), no Plano Nacional de Promoção,
Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar
e Comunitária3 (PNCFC, 2006) e no Estatuto da Criança e Adolescente (ECA),
alterado pela Lei n. 12.010/094. Sua operacionalização está descrita nos documen‑
tos: Orientações Técnicas: Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes
(MDS, 2009) e Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais (MDS, 2009).
Algumas questões são norteadoras desta reflexão: será o serviço de acolhi‑
mento em família acolhedora inovador? Guarda princípios de estrutura e de orga‑
nização relacionados aos serviços já existentes ou que foram vigentes em outros
momentos históricos do país?
De início, pode‑se adiantar que existem no Brasil serviços de acolhimento em
famílias acolhedoras de crianças e adolescentes que apresentam objetivos, meto‑

1. Este artigo está baseado no capítulo da dissertação de mestrado da autora com o tema O acolhimen‑
to familiar como garantia do direito à convivência familiar e comunitária, PUCSP 2008, já atualizado de
acordo com à Lei n. 12.010/2009, que altera o Estatuto da Criança e do Adolescente.
2. Estas reflexões foram sendo construídas no cotidiano do Sapeca e também a partir das apresentações no
GT Nacional Pró‑Convivência Familiar e Comunitária, dos seguintes profissionais: Cláudia Cabral, Isabel L.
F. Bittencourt, Alice Bittencourt, Edinalva Severo, Janete Valente, Richard P. Pae Kim e Leila Machado Costa.
Outros estudos sobre o tema podem ser encontrados em Silvia Arend (2005), e Nina Rosa R. A. ­Costa (2009).
3. No PNCFC (2006) este serviço ainda era tratado como “programa”. A partir da Tipificação Nacional
de Serviços Socioassistenciais (MDS, 2009), é apresentado como “serviço”, parte integrante da PNAS (2004).
4. Lei n. 12.010, de 3 de agosto de 2009, que dispõe sobre adoção; altera as Leis ns. 8.069, de 13 de julho
de 1990 — Estatuto da Criança e do Adolescente, 8.560, de 29 de dezembro de 1992; revoga dispositivos da
Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002 — Código Civil, e da Consolidação das Leis do Trabalho — CLT,
aprovada pelo Decreto‑Lei n. 5.452, de 1º de maio de 1943; e dá outras providências. Esta lei dispõe sobre o
aperfeiçoamento da sistemática prevista para garantia do direito à convivência familiar a todas as crianças e
adolescentes, na forma prevista pela Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990, Estatuto da Criança e do Adolescente. 

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dologias e nomenclaturas diversas, de maneira que não conseguem, por mera refe‑
rência a “famílias acolhedoras”, retratar a ação desenvolvida e acabam por gerar
confusões e interpretações muitas vezes diferenciadas da proposta na política na‑
cional. Quando se fala em acolhimento familiar, a que tipo de ação está se referin‑
do? Seria a mesma coisa que a circulação de crianças? Serão as famílias acolhedo‑
ras iguais às famílias conhecidas como “de criação”? As crianças envolvidas nesses
programas possuem laços afetivos ou familiares anteriores com as famílias que as
acolhem? A acolhida se faz naturalmente, da família de origem para a família aco‑
lhedora, ou nesse processo há a mediação do Estado?

Aspectos peculiares ao acolhimento familiar: a nomenclatura e


sua influência na formação de uma cultura de acolhimento
A antropóloga Cláudia Fonseca, em seus estudos acerca da circulação de
crianças5 em seu livro intitulado Caminhos da adoção (2002, p. 33), lança mão do
termo em inglês fosterage6 para explicar o atendimento provisório de crianças e
adolescentes afastados de sua família de origem por proteção.
Fonseca chama a atenção para o fato de ser amplamente reconhecido que, no
Brasil, efetivam‑se relações entre “pais, filhos e famílias ‘de criação’”..., mas não
se lembra de ter visto esse termo sendo usado em documentos jurídicos oficiais, a
não ser para uma crítica a esse tipo de vínculo. Complementa (2004, p. 88) que,
“no Brasil, existem hoje iniciativas esporádicas de Programas de Famílias Aco‑
lhedoras em certos municípios, mas seu número não se compara com o volume de
foster families existentes na América do Norte”.7
Será que os atuais serviços de acolhimento em família acolhedora previstos
na Política Nacional da Assistência Social conseguiriam ser a tradução do fostera‑
ge? Seria possível expressar essa ação sem precisar lançar mão de termos como

5. Crianças que passam parte da infância ou juventude em casas que não a de seus genitores (2002:14)
6. Fosterage: palavra usada em inglês para designar a transferência temporária e parcial de direitos e
deveres paternos entre um adulto e outro. Segundo Cláudia Fonseca, essa noção faz contraste com a adoção
legal que implica a transferência total e permanente destes direitos. Por falta de um vocabulário específico
em português, essa autora se propôs a empregar o termo “adoção” (sem adjetivo) para designar transações
de fosterage, e “adoção legal” ou “adoção formal” para designar a transferência permanente e total de
crianças que aparece na legislação contemporânea.
7. Cláudia Fonseca afirma que cerca de 75% das crianças norte‑americanas sob a responsabilidade do
Estado vivem em família de acolhimento (foster family).

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“adoção” contraposto ao termo “adoção formal e permanente” — para as adoções
em si, como a autora precisou fazer para expor suas ideias alguns anos atrás, na
tentativa de diferenciar as concepções?
É importante ter presente que esta reflexão se encontra no livro citado, cuja
primeira edição saiu em 1995 e, até o momento, esta terminologia ainda não está
suficientemente construída. Mesmo agora, apesar de o serviço de acolhimento em
família acolhedora ser considerado política pública de alta complexidade dentro do
Sistema Único da Assistência Social (PNAS, 2004), o serviço “família acolhedora”
não consegue, por si só, expressar a sua ação e é, na maioria das vezes, confundido
com “adoção”, ou mesmo com situações de guarda judicial na família extensa. A
partir da promulgação da Lei n. 12.010/2009, que alterou o Estatuto da Criança e
do Adolescente, o acolhimento familiar passou a compor os programas8 do arti-
go 90, devendo ser utilizado como um programa de proteção, anterior ao acolhi‑
mento institucional.9
Porém, apesar das explicações e depoimentos acerca da ação do serviço de
acolhimento em família acolhedora, ainda há muita dificuldade na compreensão da
proposta de um serviço dessa natureza. Por uma ausência de discussões e referen‑
ciais estabelecidos, verifica‑se não existir um acúmulo de informações suficientes
para gerar a clareza necessária para a diferenciação das ações de acolhimento, de
adoção, de circulação de crianças, de acolhimento familiar informal ou mesmo de
guarda na família extensa ou na rede social significativa.
Estudos nas áreas da demografia, da antropologia e de outras de âmbito social,10
mostram a existência de uma cultura muito antiga de ajuda mútua entre famílias
brasileiras, traduzida no cuidado familiar de crianças e adolescentes assumidos por
uma família que não é a delas ou por alguém pertencente à família extensa, como
“filhos de criação”. Esses cuidados são também estudados como um fenômeno de
circulação de crianças, que se realiza naturalmente, na grande maioria das vezes
sem chegar a uma regularização formal de guarda, de tutela ou de adoção. Hoje
essas ações estão sendo nomeadas também de acolhimento familiar informal e

8. Neste caso, o termo programa está relacionado aos programas do artigo 90 do ECA, que devem ser
inscritos no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente no município de sua execução.
9. Acolhimento institucional foi uma nomenclatura proposta pela Política Nacional de Assistência Social
(PNAS 2004) e regulamentada no Estatuto da Criança e do Adolescente, a partir da Lei n. 12.010/2009,
entendida como, casa de passagem, abrigo, casa lar e república.
10. No Brasil pode‑se citar, como referência, diversos autores: Cláudia Cabral, Cláudia Fonseca, Érica
Brasil, Eunice Fávero, Irene Rizzini, Isabel Lúzia Fuck Bittencourt, Márcia Maria Pivatto Serra, Pilar ­Uriarte,
Renato Pinto Venâncio, Nina Rosa do Amaral, citados na bibliografia do presente trabalho.

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supõem a existência de vínculos (sejam eles biológicos ou de relacionamentos
significativos) entre essas famílias e essas crianças ou adolescentes.
O estudo mostra que, no Brasil, essa cultura aparece em todas as classes sociais,
mas principalmente entre as famílias empobrecidas, as quais acabam por lançar
mão dessa ajuda para a resolução de problemas enfrentados nos seus diferentes
ciclos de vida. Esse tipo de relação torna‑se mais necessária na medida em que não
existam políticas suficientes e eficazes para atender às questões colocadas por de‑
terminadas situações: famílias jovens, famílias empobrecidas, famílias que enfren‑
tam separações, recasamentos, e que veem, na solidariedade familiar de sua rede
de apoio, meios para minimizar sérios problemas de subsistência e de sobrecarga
no cuidado de sua prole.
Em 2003, por ocasião da realização da Conferência Internacional da IFCO
(Internacional Foster Care Organization), realizada em La Plata, na Argentina, foi
lançado um estudo internacional comparativo denominado Apostando no acolhi‑
mento familiar. Este estudo demonstrava que havia poucas informações sobre a
realidade brasileira, principalmente no que diz respeito à cultura de circulação de
crianças.
Shanti (2003, p. 57) afirma que observou que a maior parte dos países em
vias de desenvolvimento trata o acolhimento familiar de uma forma que parece
continuar com o enfoque colonial de não intervenção. Cita alguns países como
Guatemala, Filipinas, Venezuela, Brasil e outros que aparentemente têm pouca ou
nenhuma legislação sobre o acolhimento familiar. Relata, porém, a utilização do
instituto da guarda na transferência de crianças para outras famílias e afirma que,
para a adoção, esses países possuem leis mais claras. Reforça a questão de o aco‑
lhimento familiar Formal não ter status de política — com leis e aparato estatal
— em nenhum desses países, de forma a organizar e valorizar uma intervenção
dessa natureza.11
Com a aprovação da Política Nacional de Assistência Social (PNAS, 2004) e
a incorporação do Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora, no Estatuto da
Criança e do Adolescente através da Lei n. 12.010/2009 há que se fazer referência
ao movimento existente no Brasil, principalmente após a pesquisa do Ipea (Silva,
2004), que levou à aprovação o Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defe-.
sa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária

11. Esta situação, em termos de Brasil, vem sendo superada, com a aprovação da PNAS (2004) e da Lei
n. 12.010/09, restando agora o desenvolvimento de esforços no sentido de sua implementação.

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(­ PNCFC/2005), bem como do trabalho realizado pelo Grupo de Trabalho Nacional
Pró‑Convivência Familiar e Comunitária.12

O acolhimento familiar formal e o Serviço de Acolhimento em


Família Acolhedora
O acolhimento familiar formal é uma “prática mediada por profissionais, com
plano de intervenção definido, administrado por um serviço, conforme política
pública estabelecida. Não é uma atitude voluntária dos pais e sim uma determinação
judicial com vistas à proteção da criança” (Cabral 2004, p. 11).
A Política Nacional de Assistência Social (PNAS, 2004) determina dentro da
Proteção Social Especial de Alta Complexidade — “serviços que garantam proteção
integral [...] para famílias e indivíduos que se encontram sem referência e, ou, em
situação de ameaça, necessitando ser retirados de seu núcleo familiar e, ou comu‑
nitário”. Essa determinação norteou a implantação, a qualificação e o reordenamen‑
to de serviços, entre eles o Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora.
O Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças e
Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária (PNCFC, 2006) enfatizava
essa ação e o denominava como “Programa Família Acolhedora”, o que hoje já se
encontra atualizado e legitimado como política pública nacional, tendo como regu‑
lador o já citado documento Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais
(MDS, 2009).13 Salienta também que esse serviço deve atuar em contínua articula‑
ção com os demais serviços que compõem as políticas públicas, inclusive com a
Justiça da Infância e da Juventude, no sentido de oferecer proteção integral às
crianças e adolescentes e o retorno mais breve possível à família de origem.
A partir da promulgação da Lei n. 12.010/2010, o acolhimento familiar si-.
tua‑se como um serviço que deve ser acessado anteriormente ao acolhimento ins‑
titucional, como medida de proteção. A adoção deve ser tomada como medida
excepcional, cuja realização apenas deve ocorrer quando esgotadas as ­possibilidades

12. O GT Nacional iniciou suas atividades em 2005, por ocasião da realização do II Colóquio Interna‑
cional sobre Famílias Acolhedoras em Campinas/SP. A sua coordenação é realizada pela Associação Brasi‑
leira Terra dos Homens, com o apoio do Unicef, SEDH e MDS. Maiores informações podem ser obtidas no
site: <www.abth.org.br>.
13. O documento Orientações Técnicas: serviços de acolhimento para crianças e adolescentes (MDS
2009), também descreve essas ações em âmbito nacional.

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de retorno à família de origem ou extensa ou mesmo à rede significativa da criança
e do adolescente.
O Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora

é aquele que organiza o acolhimento de crianças e adolescentes, afastados da família


por medida de proteção, em residência de famílias acolhedoras cadastradas. É previs‑
to até que seja possível o retorno à família de origem ou, na sua impossibilidade, o
encaminhamento para adoção. O serviço é o responsável por selecionar, capacitar,
cadastrar e acompanhar as famílias acolhedoras, bem como realizar o acompanhamen‑
to da criança e/ou adolescente acolhido e sua família de origem. (Tipificação de
Serviços socioassistenciais, 2009)

Como uma medida de proteção, o Serviço deve realizar um trabalho psicos‑


social levando sempre em consideração o caráter excepcional e provisório do
acolhimento. Deve assumir como necessidade fundamental e prioritária a prepara‑
ção da reintegração familiar de forma protegida. Para isso, torna‑se imprescindível
o acompanhamento à família de origem/extensa — em corresponsabilidade com a
rede de proteção e a Vara da Infância e da Juventude — para que, com qualidade,
as ações possam ocorrer de maneira ágil, como o próprio momento da criança e do
adolescente exige. Na impossibilidade de retorno à família de origem/extensa, deve
ser realizado o trabalho de encaminhamento para uma família substituta, garantin‑
do assim o direito à convivência familiar e comunitária.
Entende‑se aqui por família acolhedora aquela que voluntariamente tem a fun‑
ção de acolher em seu espaço familiar, pelo tempo que for necessário, a criança e/ou
o adolescente que, para ser protegido, foi retirado de sua família, respeitando sua
identidade e sua história, oferecendo‑lhe todos os cuidados básicos mais afeto, amor,
orientação, favorecendo seu desenvolvimento integral e sua inserção familiar, asse‑
gurando‑lhe a convivência familiar e comunitária (Valente, in Rizzini 2006, p. 61).

Acolhimento familiar: acolher ou não na própria família?


Tomando como objeto de reflexão o conceito de família, encontrar‑se‑á no
art. 226 § 4º da Constituição Federal de 1988 — “Entende‑se, também, como en‑
tidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”
e na Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990, na Seção II — Da Família Natural — o
art. 25: “Entende‑se por família natural a comunidade formada pelos pais ou qual‑
quer deles e seus descendentes”.

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Já o Plano (PNCFC, 2006) chama a atenção para a necessidade de desmisti‑
ficar a idealização de uma dada estrutura familiar como sendo a “natural”, abrindo‑se
caminho para o reconhecimento da diversidade das organizações familiares no
contexto histórico, social e cultural.
Esse Plano reconhece a necessidade do conhecimento das leis citadas,14 mas
considera imprescindível compreender também a complexidade e riqueza dos vín‑
culos familiares e comunitários que podem ser mobilizados nas diversas frentes de
defesa dos direitos das crianças e adolescentes, enfatizando a importância de se
trabalhar com uma definição mais ampla de “família”, de base socioantropológica:
“A família pode ser pensada como um grupo de pessoas que são unidas por laços
de consanguinidade,15 de aliança,16 e de afinidade”17 (op.cit., p. 27).
Ressalta ainda a necessidade de reconhecer outros tipos de vínculos que pres‑
supõem obrigações mútuas, mas não de caráter legal, e sim de caráter simbólico e
afetivo — relações de vizinhança, apadrinhamento, amizade —, que não raro se
revelam mais fortes e importantes para a sobrevivência cotidiana do que muitas
relações de parentesco. Ao mesmo tempo em que amplia o conceito de família e
reconhece os vínculos para além da consanguinidade, chama a atenção para que,
uma vez utilizado qualquer desses recursos como possibilidade, torna‑se necessária
a sua regulamentação legal.
Com a aprovação da Lei n. 12.010/2009 o conceito de família se amplia, to‑
mando por base conceitual a mesma estrutura proposta no Plano Nacional, reco‑
nhecendo e legitimando as relações de vínculos.

Artigo 25 — Parágrafo único. Entende‑se por família extensa ou ampliada aquela que
se estende para além da unidade pais e filhos ou da unidade do casal, formada por
parentes próximos com os quais a criança ou adolescente convive e mantém vínculos
de afinidade e afetividade.

14. Constituição da República Federativa do Brasil (1988) e Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990‑ECA.
15. A definição pelas relações consaguíneas de quem é “parente” varia entre as sociedades podendo ou
não incluir tios, tias, primos de variados graus etc. Isto faz com que a relação de consanguinidade, em vez de
“natural”, tenha sempre de ser interpretada em seu referencial simbólico e cultural. Plano Nacional de Promo‑
ção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária (2006).
16. Vínculos contraídos a partir de contratos, como a união conjugal. Plano Nacional de Promoção,
Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária (2006).
17. Vínculos “adquiridos” com os parentes do cônjuge a partir das relações de aliança. Plano Nacional
de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comuni‑
tária (2006).

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Passa‑se, com isso, a valorizar mais as diversas formas de viver em família,
próprias da cultura familiar brasileira, e nem por isso desestruturada, mas com
estruturas diferenciadas que precisam ser respeitadas, desde que representem cui‑
dado e proteção às crianças e adolescentes que com elas convivem.
É importante observar que na alteração assegurada pela Lei n. 12.010/2009,
a rede social significativa é aquela “representada pela família extensa ou ampliada,
que se estende para além da unidade pais e filhos ou da unidade do casal”. Esta
família ampliada, por essa lei, é formada por parentes próximos com os quais a
criança ou o adolescente convive e mantém vínculos de afinidade e afetividade.
No entanto, se analisarmos o PNCFC, 2006, pode‑se observar que o mesmo
inclui também, no contexto da família ampliada, padrinhos, madrinhas ou qualquer
outra pessoa do convívio estreito da criança e do adolescente que represente espa‑
ços de garantia de relações de cuidado e proteção. Este fato — por essa inclusão
não estar ainda referenciada em lei — vai exigir que, para a efetivação dessa polí‑
tica e para que a tradição ampliada de cuidados da sociedade brasileira seja respei‑
tada, seja realizado um qualificado estudo social, circunstanciado, em relatório
social detalhado, para que possa configurar e assegurar o vínculo preexistente que,
após ser avaliado pelo Ministério Público e pela Vara da Infância e da Juventude,
subsidiará a decisão final.
Desta forma, a família de origem, a família extensa ou ampliada e as famílias
fora da rede de parentesco formal — porém participantes da rede significativa da
criança e do adolescente, quando as acolhem, não são entendidas como famílias
acolhedoras, mas sim como importante recurso a ser utilizado no processo de
reintegração familiar que já se inicia com a entrada da criança/adolescente no
serviço de proteção.18
A necessidade de precisão conceitual em relação aos serviços de acolhimento
em famílias acolhedoras evidencia‑se principalmente em razão do custo econômi‑
co e de tempo necessários para a preparação e cadastramento de famílias acolhe‑
doras para atendimento de crianças que necessitam desse serviço: uma mesma fa‑
mília acolhedora é preparada para acolhimentos sequenciais. O acolhimento na
própria família não se enquadra nessa proposta, pois acolhe por tempo indetermi‑
nado a uma mesma e específica criança/adolescente. Essa alternativa merece aten‑
ção especial, por ser inerente à cultura brasileira — cultura esta estudada sob a

18. Nessa particularidade, caso seja necessária cobertura econômica para viabilizar o atendimento, esta
cobertura se caracterizaria como subsídio familiar e deveria estar sendo operacionalizado por meio de um
programa de guarda subsidiada, atendendo o artigo 36 do ECA.

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perspectiva da “circulação de crianças” —, a qual será tratada mais a frente, como
parte da proposta de um programa de guarda subsidiada.

A natureza jurídica do acolhimento familiar — Serviço de acolhimento em


família acolhedora e a interface com o abrigo e a adoção
O Suas — Sistema Único de Assistência Social prevê, nos Serviços de Prote‑
ção Especial de Alta Complexidade de crianças e adolescentes, as modalidades:
Atendimento Integral Institucional, Casa Lar, Família Acolhedora,19 República e
Casa de Passagem. O documento Orientações Técnicas para os Serviços de Aco‑
lhimento para Crianças e Adolescentes (2009), bem como a Tipificação Nacional
de Serviços Socioassistenciais (2009), esclarecem, ainda, a necessidade do reorde‑
namento dos serviços de acolhimento, oferecendo, dentro do acolhimento institu‑
cional, os serviços de Abrigo, Casa Lar e República, considerando ainda que cada
município, em função das necessidades locais, pode criar serviços de Casa de Pas‑
sagem. Todos esses serviços precisam ser oferecidos conforme a necessidade de
cada criança e de cada adolescente.
Tanto o acolhimento institucional quanto o acolhimento familiar são modali‑
dades de atendimento integral de Proteção Social Especial de Alta Complexidade
do Suas. Cumprem a finalidade de acolher e oferecer proteção integral a crianças
e adolescentes quando necessitam ser afastados temporariamente do convívio fa‑
miliar de origem ou quando já não contam mais com a proteção e os cuidados de
suas famílias. No entanto, diferem quanto à metodologia e a natureza jurídica.
Com a alteração da Lei n. 12.010/2009 o acolhimento familiar não só passa a
ser previsto na legislação nacional, como é dada ênfase à sua prioridade no mo‑
mento da aplicação da medida de proteção da criança e do adolescente, como
descrito no art. 34 do ECA: “§ 1º A inclusão da criança ou adolescente em progra‑
mas de acolhimento familiar terá preferência a seu acolhimento institucional,
observado, em qualquer caso, o caráter temporário e excepcional da medida, nos
termos desta Lei”.
As crianças atendidas nos serviços de acolhimento em família acolhedora não
possuem laços afetivos ou familiares anteriores com as famílias que as acolhem. A

19. É a primeira vez que o Programa Famílias Acolhedoras é contemplado em uma política de âmbito
nacional (PNAS, 2004). Na atualidade, como consequência da conquista de status de política pública é
considerado serviço continuado, sob responsabilidade da gestão estatal.

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família acolhedora é cadastrada e previamente preparada para participar da vida
das crianças e adolescentes, em um serviço continuado, e é vinculada a esse servi‑
ço, podendo receber continuadamente diversas crianças dentro de um processo
planejado.
No Estatuto da Criança e do Adolescente tanto o acolhimento familiar como o
institucional estão descritos no artigo 90 como programas de proteção e socioedu‑
cativos destinados a crianças e adolescentes em regime de colocação familiar e de
acolhimento institucional.
Ambos os programas20 precisam ser inscritos no Conselho Municipal dos
Direitos da Criança e do Adolescente, conforme o previsto no ECA, no art. 90,
Parágrafo Único:

As entidades governamentais e não governamentais deverão proceder à inscrição de


seus programas, especificando os regimes de atendimento, na forma definida neste
artigo, junto ao Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, o qual
manterá registro das inscrições e de suas alterações, do que fará comunicação ao
Conselho Tutelar e à autoridade judiciária.

No parágrafo 3º, III: “Em se tratando de programas de acolhimento institu‑


cional ou familiar, serão considerados os índices de sucesso na reintegração fami‑
liar ou de adaptação à família substituta, conforme o caso”.
Reafirmando que toda política de atendimento deve dar ênfase ao direito à
convivência familiar de crianças e adolescentes, a reforma ampliou o artigo 92
do ECA, que trata dos princípios que devem ser seguidos pelas entidades de
acolhimento:

Art. 92. As entidades que desenvolvam programas de acolhimento familiar ou insti‑


tucional deverão adotar os seguintes princípios:
I — preservação dos vínculos familiares e promoção da reintegração familiar;
Inclui‑se a reintegração familiar como um dos objetivos das entidades que acolhem
crianças e adolescentes.
II — integração em família substituta, quando esgotados os recursos de manutenção
na família natural ou extensa;
Incluiu a família extensa como uma das possibilidades de encaminhamento da crian‑
ça ou adolescente.

20. Neste caso, o uso da palavra “programa” está compatível, pois se refere aos programas inscritos no
CMDCA, artigo 90, para obtenção da inscrição de funcionamento municipal.

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§ 1º O dirigente de entidade que desenvolve programa de acolhimento institucional é
equiparado ao guardião, para todos os efeitos de direito.
§ 2º Os dirigentes de entidades que desenvolvem programas de acolhimento familiar
ou institucional remeterão à autoridade judiciária, no máximo a cada 6 (seis) meses,
relatório circunstanciado acerca da situação de cada criança ou adolescente acolhido
e sua família, para fins da reavaliação prevista no § 1º do art. 19 desta Lei.
§ 3º Os entes federados, por intermédio dos Poderes Executivo e Judiciário, promo‑
verão conjuntamente a permanente qualificação dos profissionais que atuam direta ou
indiretamente em programas de acolhimento institucional e destinados à colocação
familiar de crianças e adolescentes, incluindo membros do Poder Judiciário, Ministé‑
rio Público e Conselho Tutelar.
§ 4º Salvo determinação em contrário da autoridade judiciária competente, as entida‑
des que desenvolvem programas de acolhimento familiar ou institucional, se neces‑
sário com o auxílio do Conselho Tutelar e dos órgãos de assistência social, estimula‑
rão o contato da criança ou adolescente com seus pais e parentes, em cumprimento ao
disposto nos incisos I e VIII do caput deste artigo.
§ 5º As entidades que desenvolvem programas de acolhimento familiar ou institucio‑
nal somente poderão receber recursos públicos se comprovado o atendimento dos
princípios, exigências e finalidades desta Lei.
§ 6º O descumprimento das disposições desta Lei pelo dirigente de entidade que de‑
senvolva programas de acolhimento familiar ou institucional é causa de sua destitui‑
ção, sem prejuízo da apuração de sua responsabilidade administrativa, civil e criminal.

Na sutileza das ações cotidianas de um serviço de acolhimento em família


acolhedora aparecem necessidades que não são ainda atendidas no detalhamento
legal. Uma das importantes questões defendidas é a criação, para melhor amparo às
decisões legais, de um instituto jurídico de guarda compartilhada (família acolhedo‑
ra e o serviço que o realiza) e o reconhecimento da natureza dos vínculos criados: a
criança mantém vínculos com as duas famílias (a acolhedora e a de origem) duran‑
te todo o processo, e isso precisa ser considerado na hora de qualquer decisão.
Tanto os programas de acolhimento familiar como os de acolhimento institu‑
cional deverão ser implantados ou reordenados cumprindo as Orientações técnicas:
serviços de acolhimento de crianças e adolescentes (Brasil, 2009a).21
Ambos estão sujeitos à fiscalização prevista no art. 95 do ECA: “As entidades
governamentais e não governamentais referidas no art. 90 serão fiscalizadas pelo
Judiciário, pelo Ministério Público e pelos Conselhos Tutelares”.

21. As orientações técnicas foram formuladas com grande participação do Grupo de Trabalho Nacional Pró
convivência familiar e comunitária. Para maiores informações acesse: www.abth.org.br.

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Da mesma forma, o acolhimento institucional e o acolhimento familiar devem
ser financiados pelo Poder Executivo, conforme o artigo 90, § 2º, como segue:

§ 2º Os recursos destinados à implementação e manutenção e dos programas relacio‑


nados neste artigo serão previstos nas dotações orçamentárias dos órgãos públicos
encarregados das áreas de Educação, Saúde e Assistência Social, dentre outros, ob‑
servando‑se o princípio da prioridade absoluta à criança e ao adolescente preconizado
pelo caput do art. 227 da Constituição Federal e pelo caput e parágrafo único do art.
4º desta Lei.

Deve ainda, receber outros aportes, conforme determina o art. 260 do ECA,
§ 5º, como segue:

§ 5º A destinação de recursos provenientes dos fundos mencionados neste artigo não


desobriga os Entes Federados à previsão, no orçamento dos respectivos órgãos encar‑
regados da execução das políticas públicas de assistência social, educação e saúde,
dos recursos necessários à implementação das ações, serviços e programas de atendi‑
mento a crianças, adolescentes e famílias, em respeito ao princípio da prioridade
absoluta estabelecido pelo caput do art. 227 da Constituição Federal e pelo caput e
parágrafo único do art. 4º desta Lei.

Ambos os programas devem atentar ao inciso 1º e 2º do art. 101 do ECA como


seguem:

§ 1º O acolhimento institucional e o acolhimento familiar são medidas provisórias e


excepcionais, utilizáveis como forma de transição para reintegração familiar ou, não
sendo esta possível, para colocação em família substituta, não implicando privação
de liberdade.
§ 2º Sem prejuízo da tomada de medidas emergenciais para proteção de vítimas de
violência ou abuso sexual e das providências a que alude o art. 130 desta Lei, o afas‑
tamento da criança ou adolescente do convívio familiar é de competência exclusiva
da autoridade judiciária e importará na deflagração, a pedido do Ministério Público
ou de quem tenha legítimo interesse, de procedimento judicial contencioso, no qual
se garanta aos pais ou ao responsável legal o exercício do contraditório e da ampla
defesa.

Partindo do princípio de que a Proteção Social Especial de Alta Complexida‑


de (PNAS: SUAS) tem que organizar “serviços que garantam proteção integral [...]
para famílias e indivíduos que se encontram sem referência e/ou em situação de

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ameaça, necessitando ser retirados de seu núcleo familiar e/ou comunitário” —, o
acolhimento familiar e o institucional devem realizar essa proteção, respeitando ao
máximo os pressupostos legais. No caso do acolhimento familiar, realizado em
espaço físico privativo de uma família, as crianças e os adolescentes acolhidos
recebem cuidados e convivem com as regras próprias da dinâmica familiar, tendo
garantido o seu direito à convivência familiar e comunitária.
O acolhimento familiar tem importantes diferenças legais em relação à adoção.
Embora ambos ofereçam a proteção integral em ambiente familiar e comunitário,
na adoção a transferência dos direitos parentais é total e irrevogável: a criança as‑
sume a condição de filho; há a substituição dos direitos, das obrigações, e mesmo
a identidade legal pode ser alterada. No acolhimento familiar a transferência dos
deveres e direitos da família de origem para outro adulto ou família é temporária.
Não há substituição da família; há parceria e colaboração, e são preservados a
identidade, os vínculos e a história da criança.
Existe uma importante interface na relação das ações do serviço de acolhi‑
mento em família acolhedora e a efetivação de um processo de adoção. O serviço,
ao indicar a destituição do poder familiar, por meio de relatório fundamentado no
trabalho em rede, aguardará os trâmites legais do Ministério Público e da Vara da
Infância e da Juventude (VIJ). Uma vez indicada a família adotante pelos profis‑
sionais da VIJ, a família acolhedora deve participar em conjunto com os profissio‑
nais do Serviço de Acolhimento, contribuindo na transição da criança para uma
família substituta. Esta tem se mostrado uma estratégia importante para minimizar
os efeitos decorrentes dessas mudanças.
O respaldo legal para essa ação é encontrado no art. 28 do ECA

§ 5º A colocação da criança ou adolescente em família substituta será precedida de


sua preparação gradativa e acompanhamento posterior, realizados pela equipe inter‑
profissional a serviço da Justiça da Infância e da Juventude, preferencialmente com o
apoio dos técnicos responsáveis pela execução da política municipal de garantia do
direito à convivência familiar,

como também no art. 46

§ 4º O estágio de convivência será acompanhado pela equipe interprofissional a


serviço da Justiça da Infância e da Juventude, preferencialmente com apoio dos
técnicos responsáveis pela execução da política de garantia do direito à convivência
familiar, que apresentarão relatório minucioso acerca da conveniência do deferimen‑
to da medida.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 576-598, jul./set. 2012 589
Ainda no art. 50 se estabelece que:

§ 4º Sempre que possível e recomendável, a preparação referida no § 3º deste artigo


incluirá o contato com crianças e adolescentes em acolhimento familiar ou institucio‑
nal em condições de serem adotados, a ser realizado sob a orientação, supervisão e
avaliação da equipe técnica da Justiça da Infância e da Juventude, com apoio dos
técnicos responsáveis pelo programa de acolhimento e pela execução da política
municipal de garantia do direito à convivência familiar.

Acolhimento institucional, acolhimento familiar e guarda subsidiada:


medidas protetivas com especificidades próprias
No acolhimento institucional, a regularização da situação legal em relação à
criança e ao adolescente se dá a partir do art. 92, Parágrafo único: “O dirigente de
entidade de abrigo é equiparado ao guardião, para todos os efeitos de direito (não
há necessidade do termo de guarda e responsabilidade, a responsabilidade já esta
implicita)”.
O acolhimento familiar é contemplado por vários dispositivos, mas a transfe‑
rência da responsabilidade jurídica sobre a criança e o adolescente é feita por meio
do Termo de Guarda e Responsabilidade, previsto no art. 33, § 2º: “Excepcional‑
mente, deferir‑se‑á a guarda, fora dos casos de tutela e adoção, para atender a si‑
tuações peculiares ou suprir a falta eventual dos pais ou responsável, podendo ser
deferido o direito de representação para a prática de atos determinados”.
A prática cotidiana tem mostrado que muitas famílias de baixa renda têm se
responsabilizado pela guarda de crianças e de adolescentes no processo de reinte‑
gração familiar, a partir de iniciativas do acolhimento institucional e do acolhimen‑
to familiar. Há, no entanto, necessidade de maior atenção no desenvolvimento
dessas práticas, para que a responsabilidade do Estado não seja, uma vez mais,
transferida para as famílias pobres.
Profissionais dos serviços que atendem crianças e adolescentes em situação
de rua relatam existir um grande número deles que, antes de alcançarem as ruas, já
residiram com outras pessoas (tios, avós, madrinhas, entre outras). Este fato pode
indicar que um programa de guarda subsidiada poderia ampliar as possibilidades
de permanência desse tipo de acolhida, viabilizando o seu caráter preventivo e
garantindo às crianças/adolescentes e seus familiares o direito indiscutível de pro‑
teção do Estado. Este tipo de programa ou serviço poderia também se responsabi‑

590 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 576-598, jul./set. 2012
lizar por um trabalho de orientação e de apoio sociofamiliar, tão necessário em
situações de acúmulo de responsabilidades no cuidado de crianças e adolescentes.
Um programa ou serviço de guarda subsidiada poderia também atender àque‑
las crianças que, tendo seus vínculos rompidos com sua família — de origem e
extensa —, não são alcançadas pelos programas de adoção. A guarda subsidiada
poderia, nesses casos, ser uma forma de garantir‑lhes o direito à convivência fami‑
liar e comunitária.
Enfim, a grande diferença desses serviços pode ser entendida como: as famí‑
lias acolhedoras acolhem várias crianças (sai uma, entra outra, como resultado de
uma avaliação institucional), enquanto a guarda na própria família ou rede social
significativa acontece com o acolhimento de uma ou mais crianças e pressupõe
vínculos já existentes e, na maioria das vezes, em situações de longa permanência.
No art. 19 do ECA é indicado que:

§ 3º A manutenção ou reintegração de criança ou adolescente à sua família terá pre‑


ferência em relação a qualquer outra providência, caso em que será esta incluída em
programas de orientação e auxílio, nos termos do parágrafo único do art. 23, dos in‑
cisos I e IV do caput do art. 101 e dos incisos I a IV do caput do art. 129 desta Lei.

No art. 34 do ECA encontra‑se o apoio jurídico necessário para um programa


dessa natureza: “O poder público estimulará, por meio de assistência jurídica, in‑
centivos fiscais e subsídios, o acolhimento, sob a forma de guarda, de criança ou
adolescente afastado do convívio familiar”. É em resposta a esse artigo que poderão
ser criados programas que subsidiem as famílias extensas e as pessoas significativas
de crianças e adolescentes.

O acolhimento familiar e sua implementação


O Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora pode ser implantado tanto
em cidades de grande, médio e pequeno porte, quanto em metrópoles, coexistindo
com instituições de acolhimento institucional. Em cidades de pequeno porte, pode
ser implantada como a única modalidade de acolhimento. As experiências diferem
de uma cidade para outra, atendendo às necessidades e características locais e re‑
gionais, de acordo com os mecanismos facilitadores e/ou dificultadores existentes.
O Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora — trabalhando dentro do
Sistema de Garantia de Direitos — deve ser operacionalização sob a responsabili‑
dade do Poder Executivo na interface de ações com o Poder Judiciário.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 576-598, jul./set. 2012 591
Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora: tradição ou inovação?
Brasil (2004), no artigo intitulado “O conceito de Acolhimento Familiar na
ótica de diversos atores estratégicos”,22 entre outras questões, chama a atenção para
o fato de que, ao iniciar sua pesquisa, “ficou surpresa ao notar que quase todos os
programas de acolhimento familiar estavam sendo apresentados como uma prática
recente em nossa cultura, uma nova alternativa que possibilitará finalmente fechar
todos os abrigos”.
Pode‑se afirmar que a proposta atual do Serviço de Acolhimento em Família
Acolhedora, apesar de encontrar ações similares aos programas de colocação fami‑
liar já existentes no Brasil, retrata hoje fortes características inovadoras23 e o fiel
compromisso no trabalho intersetorial com a família de origem, no sentido do re‑
torno da criança e do adolescente ao seu meio.
Essa inovação também pode ser verificada na ampliação do conceito de famí‑
lia, tão bem proposto no PNCFC. Quando no marco conceitual do PNCFC se en‑
fatiza a necessidade de uma consideração socioantropológica da família e se amplia
o conceito de família para além do proposto na Constituição da República Federa‑
tiva do Brasil e no ECA, somente alertando para a necessidade da regulamentação
legal, passa a indicar e reconhecer a tão almejada consideração das redes familiares
— não só de famílias pobres, mas tão próprias dessas famílias que retratam fron‑
teiras muito ampliadas — no trabalho social e no desenho das políticas públicas a
elas destinadas.
Constata‑se hoje, por meio das ações cotidianas de muitos serviços de Aco‑
lhimento em Família Acolhedora, que as discussões e as ações assumem o lugar de
entendimento de que esses serviços não estão com a pretensão de fechar os abrigos
e nem de oferecer discussões que desmereçam suas ações, até mesmo porque o
ECA já propõe para os serviços de abrigamento,24 há mais de vinte anos, um aten‑
dimento diferenciado dentro de uma rede de proteção. O que deve se esperar é um

22. Érica Dantas Brasil apresenta esse artigo no livro Acolhimento familiar: experiências e perspectivas,
organizado por Cláudia Cabral, que é o resultado do I Colóquio Internacional sobre Acolhimento Familiar,
realizado pela Associação Brasileira Terra dos Homens no Rio de Janeiro em 2003.
23. A partir da promulgação da Constituição Federal (1988) é desencadeada no Brasil uma legislação
específica para a proteção integral da infância e da adolescência e a criação de um sistema de garantia de
direitos, que passa a direcionar a criação de novos programas que atendam essa proteção.
24. Hoje esses programas são chamados de serviços de acolhimento para crianças e adolescentes. São
entendidos como acolhimento familiar: Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora e como acolhimento

592 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 576-598, jul./set. 2012
maior empenho no reordenamento de ações, no sentido de que as ofertas de servi‑
ços sejam compatíveis com a proposta atual de acolhimento institucional.
Esses serviços precisam ser criados na lógica do atendimento às necessidades
específicas das crianças e dos adolescentes, razão pela qual a indicação da política
(PNAS) e do ECA propõem serviços diferenciados, como abrigos, casas lares,
casas de passagem e repúblicas e ainda que o trabalho com as famílias de origem
seja garantido, objetivando o retorno mais breve da criança/adolescente ao seu meio.

São casos complexos de situações muitas vezes crônicas de pobreza e conflitos fami‑
liares, acrescidos dos problemas vivenciados pelas próprias entidades, como os de
superlotação, altorrotatividade dos abrigados, falta de continuidade no atendimento,
e perspectiva de ajuda às crianças e aos adolescentes, uma vez que o abrigamento
pouco parece ajudar no sentido de melhoria da vida das crianças e de suas famílias
[...] é preciso rever esta prática, estimulando‑se a elaboração e implementação de
políticas públicas que deem conta de apoiar a família e a comunidade na manutenção
e cuidado de seus filhos. (Rizzini, 2004, p. 60)

É nítida a necessidade de maior investimento na Proteção Social Especial de


Alta Complexidade, entendendo que a partir da aprovação da Política Nacional de
Assistência Social (PNAS, 2004) o gestor dessa política é o Estado brasileiro, que
na composição de ações intersetoriais deve garantir com absoluta prioridade a vida
de crianças e adolescentes em família e na comunidade, preferencialmente com a
sua família de origem.
Essa proteção — para garantir a responsabilidade que lhe compete — neces‑
sita obrigatoriamente atuar na intersecção com as demais proteções (básica e espe‑
cial de média complexidade) dentro da política (PNAS) e desta para com as demais
políticas que compõem a proteção integral de crianças e adolescentes. Os programas
de acolhimento institucional e familiar necessitam, ainda, de maior investimento
em formação continuada e garantias salariais que permitam a contratação de pro‑
fissionais com maior experiência no trabalho com família, pois isso está intima‑
mente ligado à necessidade do cumprimento do prazo estabelecido em lei, confor‑
me o art. 19

§ 1º Toda criança ou adolescente que estiver inserido em programa de acolhimento


familiar ou institucional terá sua situação reavaliada, no máximo, a cada 6 (seis)

institucional: Serviço de Acolhimento Institucional, compreendidos como casa de passagem, abrigo, casa lar
e república.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 576-598, jul./set. 2012 593
meses, devendo a autoridade judiciária competente, com base em relatório elaborado
por equipe interprofissional ou multidisciplinar, decidir de forma fundamentada pela
possibilidade de reintegração familiar ou colocação em família substituta, em quaisquer
das modalidades previstas no art. 28 desta Lei.
§ 2º A permanência da criança e do adolescente em programa de acolhimento institu‑
cional não se prolongará por mais de 2 (dois) anos, salvo comprovada necessidade que
atenda ao seu superior interesse, devidamente fundamentada pela autoridade judiciária.

Tendo a clareza de que se está vivendo um momento ímpar no Estado brasi‑


leiro na última década, no sentido de elucidar a situação das crianças e adolescen‑
tes atendidas nos serviços de acolhimento, desde a pesquisa realizada pelo Ipea, já
citada anteriormente, bem como pelo compromisso no desencadeamento de ações
para o enfrentamento da realidade encontrada, há que se considerar a necessidade
da continuidade de investimentos em política nacional, com aportes de recursos
financeiros em âmbito nacional, estadual e municipal. Com isso, espera‑se que a
cada dia, consiga‑se diminuir a distância entre o país legal e o país real e ver cum‑
prido no cotidiano o que é determinado na Constituição Cidadã, em seu art. 226:
“A família, base da sociedade, tem direito à especial proteção do Estado”.

Sugestões para a implementação municipal do serviço de


acolhimento em família acolhedora
Deverá ser operacionalizado incluindo o conjunto das ações do Sistema de Garantia de Direitos:
promoção, defesa e controle

Promoção: Responsabilidade do Poder Executivo


Iniciativa da Secretaria Municipal de Assistência Social, como gestora da
Política Municipal de Assistência Social, atendendo a implantação da proteção
social especial de alta complexidade do Sistema Único da Assistência Social (Suas).
Atender aos documentos vinculados à política: Norma Operacional Básica — Suas
(MDS, 2010) Orientações Técnicas: Serviços de Acolhimento para crianças e ado‑
lescentes, Conanda/MDS 2009 e Tipificação Nacional de Serviços Socioassisten‑
ciais, CNAS/MDS 2009.
Incluir a previsão dessa ação com metas anuais no Plano Plurianual (PPA),
no Plano Municipal de Assistência Social, no Plano Municipal de Promoção, Pro‑
teção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e

594 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 576-598, jul./set. 2012
Comunitária, e a previsão orçamentária na LOA — Lei Orçamentária Anual de cada
ano, sintonizada com a LDO — Lei de Diretrizes Orçamentárias e o PPA.
Propor ao Poder Legislativo uma lei municipal instituindo o Serviço de Aco‑
lhimento em Família Acolhedora, garantindo o repasse de auxílio financeiro às
famílias acolhedoras.
Garantir uma equipe mínima para a execução do programa, prevista nas
Orientações Técnicas: Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes —
MDS e demais legislações e normas brasileiras já citadas.
Capacitação da equipe técnica que será responsável pelo serviço, conforme
citado no art. 92 do ECA, § 3º.
Deverá atender aos dispositivos do ECA, alterado pela Lei n. 12.010/09 e
planejar a composição orçamentária na corresponsabilidade com a educação e a
saúde, atendendo o § 2º do art. 90 do ECA.

Defesa: Vara da Infância e da Juventude, Ministério Público, Defensoria Pública e Conselho Tutelar
Deverão estar incluídos desde o início das discussões para a implementação
do programa, representantes da Vara da Infância e da Juventude, Ministério Públi‑
co, Defensoria Pública e Conselho Tutelar. Poderá ser composto um grupo gestor
para construir e avaliar as etapas de implementação.
Além das obrigações pertinentes à medida, devem se responsabilizar dentro
das especificidades pela emissão do Termo de Guarda e Responsabilidade à Família
Acolhedora, pela manutenção de uma relação estreita com os serviços de acolhi‑
mento, verificando o desenrolar do plano individual de atendimento, exigir a peri‑
diocidade no envio dos relatórios de acompanhamento e demais atribuições propos‑
tas pelas legislações brasileiras. Deve‑se estar atento aos artigos 88 e 92 do ECA:

Artigo 88
VI — integração operacional de órgãos do Judiciário, Ministério Público, Defensoria,
Conselho Tutelar e encarregados da execução das políticas sociais básicas e de assis‑
tência social, para efeito de agilização do atendimento de crianças e de adolescentes
inseridos em programas de acolhimento familiar ou institucional, com vista na sua
rápida reintegração à família de origem ou, se tal solução se mostrar comprovadamen‑
te inviável, sua colocação em família substituta, em quaisquer das modalidades pre‑
vistas no art. 28 desta Lei;

Artigo 92
§ 3º Os entes federados, por intermédio dos Poderes Executivo e Judiciário, promo‑
verão conjuntamente a permanente qualificação dos profissionais que atuam direta ou

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 576-598, jul./set. 2012 595
indiretamente em programas de acolhimento institucional e destinados à colocação
familiar de crianças e adolescentes, incluindo membros do Poder Judiciário, Ministé‑
rio Público e Conselho Tutelar.

Controle: Conselhos Setoriais e de Políticas (principalmente CMDCA e CMAS)


O Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, além de
atender os dispositivos próprios do ECA, principalmente no registro das entidades
executoras e da inscrição de seus programas, deverá atentar para o art. 260 do ECA:

§ 1º Na definição das prioridades a serem atendidas com os recursos captados pelos


Fundos Nacional, Estaduais e Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente,
serão consideradas as disposições do Plano Nacional25 de Promoção, Proteção e Defe‑
sa dos Direitos de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar, bem como as regras
e princípios relativos à garantia do direito à convivência familiar previstos nesta Lei.
§ 5º A destinação de recursos provenientes dos fundos mencionados neste artigo não
desobriga os Entes Federados à previsão, no orçamento dos respectivos órgãos encar‑
regados da execução das políticas públicas de assistência social, educação e saúde,
dos recursos necessários à implementação das ações, serviços e programas de atendi‑
mento a crianças, adolescentes e famílias, em respeito ao princípio da prioridade
absoluta estabelecido pelo caput do art. 227 da Constituição Federal e pelo caput e
parágrafo único do art. 4º desta Lei. (NR)

Recebido em 7/2/2012  ■  Aprovado em 6/6/2012

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25. A elaboração do Plano municipal de promoção, proteção e defesa do direito de crianças e adoles‑
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598 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 576-598, jul./set. 2012

RESENHA

Partido e Revolução — bilidade de revolução como emancipa‑


ção humana, plenamente consciente de

1848‑1989* que atingir esse objetivo “requer uma


renovação teórica que procure realizar
uma articulação entre as fontes clássicas
Parties and Revolution da tradição marxista e as contribuições
da tradição teórico‑política que delas se
derivaram e a elas se associaram no curso
Ronaldo Coutinho** da trajetória do movimento socialista e
comunista” e que essa articulação “ deve
se dar em função e a partir dos enormes
Após o fim do chamado “socialismo desafios postos pela contemporaneidade
real”, em 1989, com o início da “longa noi‑ das lutas de classe”. O resultado: um livro
te” do movimento operário instaurou‑se essencial.
uma época contrarrevolucionária que Nele conjugam‑se a pesquisa extre‑
perdura até os dias atuais e é interpretada mamente cuidadosa, o pleno domínio da
como o definitivo triunfo do projeto capi‑ bibliografia, o conhecimento dos proces‑
talista e da democracia ocidental burguesa sos históricos analisados, a fundamentação
sobre as demais formas societárias até segura na teoria marxiana e um profundo
então conhecidas. Com a disseminação conhecimento das questões exploradas
ideológica da ideia de “fim da história”, ao longo de todo o texto. Além disso,
das ideologias, das lutas de classe, da vale sublinhar a maneira densa e ousada
impossibilidade de novos movimentos com que são analisadas e interpretadas
revolucionários etc., vive‑se, como assi‑ questões como o saldo teórico‑político
nala o próprio autor, “uma vaga histórica do stalinismo, a questão nacional, o
pouco propícia para se reconstruir uma “socialismo num só país” tendo sido, ao
projeção societária assentada em valores mesmo tempo, obra teórica de Stálin e
radicalmente antagônicos aos burgueses”. demanda real das contradições internas
E é precisamente nesse quadro histórico na Rússia e do fracasso da revolução no
desalentador que Marcelo Braz resolveu Ocidente, a ideia de um Estado socialista,
enfrentar o desafio de contribuir para a do tipo proletário, assentado numa unida‑
revitalização teórica e política da possi‑ de operário‑camponesa, com uma forma
específica — predominantemente estatal
— de controle social da produção como a
* Braz, Marcelo. Editora Expressão Popular: mais apropriada para identificar o governo
2011.
bolchevique, entre outras.
** Livre‑docente/doutor em Sociologia; profes‑
sor da Universidade Federal Fluminense‑Niterói/RJ, O exame crítico das contribuições de
Brasil e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro Togliatti e Trotski, a avaliação do euroco‑
— aposentado. E‑mail: coutinholenin@uol.com.br. munismo, as pertinentes ressalvas às aná‑

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 111, p. 599-601, jul./set. 2012 599
lises de Mandel e Claudin, as observações que integram o Terceiro Setor. O livro
sobre os equívocos de interpretação da alicerça‑se na vertical investigação das
Internacional Comunista sobre o fascismo revoluções proletárias desenvolvidas ao
como possível forma final do capitalismo, longo do século XX, que se caracteriza‑
o problema da dificuldade que a unidade ram por dois aspectos determinantes: ou
de ação em torno das frentes antifascistas tiveram os partidos políticos (socialistas
provocou nas forças do campo revolu‑ ou comunistas) como seus principais
cionário constituem sólida contribuição protagonistas desde a preparação do
para uma reavaliação de interpretações processo revolucionário, passando pelo
históricas ainda predominantes. desenlace decisivo e se prolongando pela
Retomo o ponto de partida de Mar‑ sua afirmação e consolidação posteriores,
ou os engendraram ulteriormente como
celo Braz para destacar, uma vez mais,
desdobramento político e os tiveram como
a relevância e a profundidade de sua
principais condutores.Também se orienta
contribuição teórico‑política: 1 a crise
pela constatação de que a partir das pró‑
que as esquerdas vivem hoje é, acima de
prias revoluções se consolidou, no âmbito
tudo, uma crise de suas expressões mais
da tradição marxista, toda uma tradição
avançadas (os movimentos socialista e
teórico‑política voltada para o debate em
comunista), ou seja, nos partidos polí‑
torno da concepção de revolução e da
ticos revolucionários. Logo, estudá‑los
noção de partido revolucionário, tradição
“é estudar as próprias possibilidades de
que deu continuidade — aprofundando,
transformação social; discutir a falência inovando, revisando ou deformando —
de algumas de suas formas históricas aos debates que se iniciaram na segunda
é imprescindível para problematizar as metade do século XIX, daí a análise das
alternativas possíveis à superação da cri‑ obras de Kautsky, Lênin, Rosa Luxem‑
se; realizar uma viagem de volta às mais burgo, Bernstein, Trotski e Stálin. Estudo
importantes experiências revolucionárias empreendido, conforme adverte (e realiza)
que existiram efetivamente é decisivo para o autor, com uma impecável contextuali‑
lançar luzes sobre o debate atual” (p. 22). zação histórica.
Debate, aliás, marcado por uma convicção Registre‑se a leitura crítica das noções
da definitiva superação do partido como de partido e de revolução inauguradas
instrumento político e organizador da pelo Manifesto do Partido Comunista
classe proletária e, ao mesmo tempo, por desenvolvida no Capítulo 1 (p. 29‑45) e
uma fetichizada concepção dos “novos” na conclusão (p. 305‑9) e, sobretudo, a
movimentos sociais e das organizações refinada análise da importância política
e do legado teórico de Lênin que ilumina
substancialmente o texto e permite ao au‑
1. Afinal, o livro ora resenhado não é um texto
meramente acadêmico, mas sobretudo um texto de tor observar, quando estuda a relação entre
combate. o programa do partido e a prática política

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concreta que “processo revolucionário ser lido com a maior atenção, especialmen‑
impõe ao partido um permanente acompa‑ te porque evidencia, com argumentação
nhamento dos fatos e uma contínua análise sólida, consistente e com suporte histórico,
da conjuntura na qual se inserem as classes que as experiências revolucionárias por
sociais em disputas com seus projetos e ele estudadas possibilitam afirmar que até
seus interesses. Ainda que o partido não hoje “o partido foi a organização política
necessite abandonar suas teses centrais, do proletariado que, como instrumento
nas quais, em geral, se vislumbram hori‑ de mediação universal, tornou possível
zontes macrossocietários de maior lapso historicamente a realização da síntese
temporal, não implica que elas não possam fundamental das diversas lutas numa luta
ser subordinadas, estrategicamente, às política — ou, noutros termos, tornou pos‑
necessidades político‑conjunturais mais sível a própria revolução como emancipa‑
prementes” (p. 109) ção humana” (p. 308); [grifos do autor].
O livro de Marcelo Braz, escrito de
forma elegante, clara e muito expressiva,
Recebido em 25/5/2012
enriquecido por notas de rodapé sempre
oportunas, elucidativas e com referências ■

indispensáveis, revela‑se essencial e deve Aprovado em 6/6/2012

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homenagem

Adeus a Aloísio Teixeira nicípio do Rio de Janeiro. Já então sem


vinculações partidárias, continuou sempre a
professar abertamente o marxismo e o ideá­rio
Farewell to Aloísio Teixeira socialista — num posicionamento cuja coerên‑
cia sempre lhe custou caro: em 1998, quando
pela primeira vez candidatou-se à reitoria da
Faleceu no Rio de Janeiro, a 23 de julho, aos UFRJ, obtendo votação majoritária, teve o
67 anos de idade, vítima de um ataque cardíaco seu nome vetado pelo ocupante do Ministério
fulminante, o economista Aloísio Teixeira, da Educação (figura que tanto se apequenou
que, por dois mandatos — com os votos de que nem deve ser lembrada) do governo de
toda a chamada comunidade acadêmica (pro‑ Fernando Henrique Cardoso.
fessores, servidores técnicos-administrativos e Intelectual culto e sofisticado, Aloísio pu‑
estudantes), entre 2003 e 2011 — foi reitor da blicou dezenas de artigos técnico-científicos.
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), É autor de um livro de leitura indispensável
depois de dirigir o seu Instituto de Economia. O ajuste impossível: um estudo sobre a de‑
Filho do brigadeiro Francisco Teixeira, sestruturação da ordem econômica mundial
uma das primeiras vítimas da ditadura ins‑ e seu impacto no Brasil. Rio de Janeiro: Ed.
taurada em abril de 1964, Aloísio, à diferença UFRJ, 1994; e organizador de um excelente
da maioria dos gestores acadêmicos, não foi volume sobre os precursores do pensamento
um homem da universidade: foi um (grande) social da nossa época: Utópicos, heréticos e
homem na universidade, na qual, aliás, só in‑ malditos. Rio de Janeiro: Record, 2002. Mas a
gressou na década de 1980. Formou-se, muito sua obra maior foi a sua vida: na luta política,
jovem, nas memoráveis lutas políticas dos anos na administração pública e na universidade, foi
1960. Militante do Partido Comunista Brasilei‑ um educador extraordinário que, como poucos,
ro (PCB), fez, na clandestinidade (quando seus serviu aos trabalhadores brasileiros. Não será
camaradas o conheciam sob o pseudônimo de esquecido.
Samuca), a resistência ao regime ditatorial, foi
Em tempo: como reitor, Aloísio contribuiu
preso e torturado nos anos 1970.
para (e prestigiou) a formação acadêmica dos
Com a derrota da ditadura, emergiu para assistentes sociais; foi, inclusive, docente e
a vida pública e ocupou importantes cargos
orientador de teses no Programa de Pós-Gra‑
executivos. Foram vários os postos em que
duação da Escola de Serviço Social da UFRJ.
se destacou pelo seu trabalho eficiente e pela
Também aí deixou a marca duradoura da sua
sua rigorosa probidade: responsável pela
competência e da sua generosidade pessoal.
Superintendência Nacional de Abastecimento
(Sunab), dirigente do Conselho Ministerial José Paulo Netto
de Preços e da Secretaria Especial de Preços
Julho, 2012
e Abastecimento do Ministério da Fazenda,
diretor de planejamento da Financiadora
de Estudos e Projetos (Finep), diretor de Recebido em 24/7/2012
administração da Embratel, secretário-geral

do Ministério da Previdência e Assistência
Social e secretário de planejamento do mu­-. Aprovado em 25/7/2012

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