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Para meu pai, de quem herdei a insônia e o mau humor, ingredientes


fundamentais deste livro.

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SUMÁRIO
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Parte 1
“E os mortos...
A noite tremia
Do diário de Miguel Ramírez
O universo era
[No saloon]
Juan sabe que
Algo falta
Cabeça na viga
Não caiu, mas
A sala da casa
“Que droga!”
Thornton cavalgava por
“O que o senhor...
E sucedeu então
“Por que está sorrindo...
Como não temer
Desde seu retorno
O problema de beber
Solilóquio interior do xerife Thornton
Miguel Ramírez se alvoroçou
O plano de Miguel Ramírez

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O som do interfone

Parte 2
“Filho!”
Feia Mavrak não é
Castiçais rústicos, aberrações
Juan/Samuel
Juan saltou do cavalo
Digam o que quiserem
O duelo chegaria
Thornton nunca pareceu
Qualquer ser consciente
Retornar de baixo
O assombro.
É noite.
“Aonde você vai, tio?”
Inevitabilidade
Não posso acreditar
Montada no cavalo

Agradecimentos

Créditos

O Autor

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Every gun makes its own tune.
Três homens em conflito

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“E OS MORTOS voltarão à vida!”, exclamou o xamã na noite, e seu grito
ecoou e foi ouvido. O céu estava colorido de tons arroxeados com nuvens
esparsas e finas fatiando a lua.
E havia o medo. Havia o medo em todos os cantos. Hoje em dia, os
homens temem bobagens; outrora, temiam a noite e a morte. Não importava
a arma no coldre.
A declaração do xamã arrepiava todo e qualquer pelo. Arrepiava espíritos.
O jovem pediu detalhes ao feiticeiro; ele os deu de forma vaga e misteriosa.
Isso tudo foi há muito tempo em um universo que parece distinto. Agora,
a história é lenda. É mito. E os detalhes distorcem, e a precisão se perde.
Pessoas como eu preenchem lacunas com auxílio da imaginação. Inventamos
fatos. Inventamos pensamento. Mistificamos um pouquinho com o
conhecimento que temos do cinema. A brincadeira dá um certo sabor, tira
um pouco do peso. Por bem ou por mal. Pois o que relato é a história de
meus antepassados, as tensões que aumentaram pouco a pouco e culminariam
no retorno dos mortos. Não. Minto. É sobre uma cidade, um povoado onde
meus antepassados viveram, onde os Ramírez e os Marlowes existiram e
deixaram de existir. Do povoado pouco restou. Busque em algum mapa ou
atlas; nada encontrará.
Sempre que o sol penetra as cortinas, anunciando a aguardada ressurreição
do dia, me levanto e assisto ao mundo pôr-se em agito, carros rasgando as
avenidas, pessoas correndo atrasadas para o trabalho. Mentalizo que os
tempos de meus antepassados eram piores. Repito trechos da história em
minha cabeça. Vivemos em um mundo melhor. A morte, agora, não vive em
cada sopro de ar. Ou grão de areia.
Acredite em mim. Estou mais próximo do fim do que do início. Rugas
pesam abaixo dos meus olhos e meu cabelo, já grisalho, começa a rarear. Eu
acompanho o processo todo dia em frente ao espelho. Se há algum assunto
que me interessa é a morte. Não consigo pensar, portanto, em nenhum sujeito

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mais adequado do que eu para relatar a história daquele povoado.
Entretanto, a cargo da emoção, comecei a narrativa no ponto errado.
Voltarei cerca de uma semana, um mês. Na época em que Martín Ramírez
ainda vivia e respirava, muito antes que o xamã gritasse qualquer coisa.
Reiniciarei a trama a partir da areia, o eterno piso de Mavrak. Não. A partir
da noite, pois esta vive em todas as partes do mundo e chega, inevitável, com
o falecer do dia, para todos os homens.

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A NOITE TREMIA em prenúncio de tormenta. O casarão dos Marlowes
era rígido e imponente, um desafio ao mundo e à vida. Líquidos borbulhavam
no estômago de Martín, que vagava, todo fantasma sob o poncho escuro,
pelas ruas do povoado de Mavrak. Seu rosto, alumiado de quando em quando
por um relâmpago distante, era uma paisagem montanhosa. Seus olhos
escondiam qualquer sinal de dúvida. Acariciar a pistola no coldre lhe fornecia
uma dose extra de coragem, injetada na veia, que se punha a percorrer todo o
seu organismo.
Martín Ramírez sabia seu dever.
Sentia uma presença na escuridão, vigiando-o, conferindo se ele realmente
iria em frente com a missão. Martín tentava convencer-se de que seu objetivo
era claro e simples. Mas “claro” não poderia de fato ser, pois quem ordenou a
invasão não deixara transparentes os motivos. A outra abordagem de
pensamento era se imaginar um contratado, um mercenário. Exceto que não
ganharia uma moeda de ouro por isso. O melhor, que diabos, era não pensar
sobre a missão. Apenas executá-la.
Quão difícil seria penetrar no escuro por aquela janela da casa dos
Marlowes e chegar ao porão? Ele averiguara que Samuel e Leon Marlowe
estavam no saloon do McCoy, e o estoque de uísque recém tinha sido
renovado. A matriarca, por sua vez, estava em seu quarto, no segundo andar,
denunciada pela luz acesa.
Por que sua mão esquerda tremia então? Por que ficar nervoso? Quais
eram as chances de ser pego em flagrante na invasão? Somente se a sra.
Marlowe escutasse algum ruído e decidisse descer, pistola em mãos, para
descobrir a fonte do barulho. Martín, porém, não tinha o que temer. Ele fora
treinado desde criança pelo seu pai para ser sutil como a brisa. Miguel
Ramírez, muito amigado que era com os índios, deixou seu filho Martín por
meses junto a uma pequena tribo. Tal tribo jaz no passado, esqueletos abaixo
da areia, dizimados por um grupo de pistoleiros brancos. Porém, o legado

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permaneceu na mente de Martín. O treinamento do silêncio.
Um toque de mão em seu ombro. Martín engoliu o grito de pavor e, ao se
virar, já estava mais consciente de quem era a única pessoa que poderia ter
chegado por trás despercebido.
“Pai. Droga. Você quer me matar do coração?”
“Chega de circular a casa, filho.”
“Já vou entrar, pai.”
“O tempo é escasso.”
Seu pai escarrou no chão e retirou um cigarro de palha do bolso.
Prosseguiu, com uma voz mais seca:
“Você viu o seu irmão Juan?”
“Não. Onde ele está? Em casa?”
“Acho que no saloon. Escute. Por favor, tente não comentar nada com
ele.”
“Esse pensamento nunca cruzou minha cabeça.”
“Veja se você toma cuidado.”
“Eu sou um Ramírez, pai.”
“Isso não diz muito hoje em dia, filho.”
Martín pensou em argumentar, porém os lábios não se moveram. Seu pai
se afastou, e outra vez Martín se viu solitário na noite de Mavrak. Ao se
aproximar da janela do casarão, analisou o pouco que via do reflexo de seu
rosto. Sua pele, que era de um amarelo pardo e marcante, estava esmaecida,
quase pálida. Olheiras consideráveis eram o suporte dos olhos pretos.
A casa dos Marlowes respirava tranquila. A barra de metal que Martín
colocou na fresta da janela não trouxe perturbação alguma. Ele esgueirou-se
para dentro, tocando suavemente o assoalho de madeira da sala. A escuridão
era completa, e os relâmpagos haviam cessado. Martín aguardou, inerte,
inspirando e expirando da forma mais controlada possível até que suas pupilas
dilatassem e as trevas se convertessem em algo menos intimidador. Ainda que
conhecesse, de dias passados, a geografia daquela sala, seria uma tarefa árdua
chegar até a escadaria no outro canto sem esbarrar em nenhum dos móveis. As

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silhuetas dos objetos estavam borradas. Avançou tateando o chão com
cuidado. Em um repente, decidiu ousar: acendeu um fósforo entre as palmas
das mãos. A estratégia provou-se inteligente. Não fosse pela mínima
iluminação do fósforo, haveria derrubado um lampião que estava no piso.
Quando a chama aproximou-se da base do fósforo, Martín o apagou em um
sopro tímido e escondeu a evidência na bota.
O piso rangeu, audível apenas para Martín. Em dois minutos, percorreu a
pequena distância até a porta do porão. Tentou abrir a maçaneta gelada, mas
a porta não cedeu. Martín nunca pensou que seria fácil, em todo caso.
Retirou uma pequena ferramenta de destrancar fechaduras e trabalhou no
escuro, tendo o tato e os mínimos ruídos metálicos como aliados. Ouviu o
clique definitivo da fechadura. Testou a maçaneta. A porta abriu em um
rangido esganiçado. A escuridão era completa. Tudo que Martín enxergava
era o primeiro degrau de uma escadaria. Avançou um pouco e acendeu outro
fósforo. Uma decepção: no final dela, havia outra porta. Praguejou
mentalmente e desceu.
Martín Ramírez teve a clara impressão de ouvir, vindo de trás da porta,
uma conversa abafada e, depois, silêncio. Colou o ouvido contra ela para
escutar melhor. Nada.
E, então, quase ficou surdo.
Um tiro perfurou a porta e o silêncio, abrindo um buraco que, por
centímetros, não atingiu o cérebro de Martín. Lascas de madeira caíram em
seu cabelo, e Martín esqueceu qualquer tranquilidade, correndo para a janela
de origem sem sutileza alguma, os passos fortes e barulhentos.
Quando viu, já estava sobre a areia de Mavrak, deixando pegadas por todo
o caminho. Ao perceber isso, parou de correr e voltou a pisar com suavidade.
Recobrou o raciocínio lógico: não podia deixar que o seguissem. Dobrou à
direita; à esquerda. Fez trajetos improváveis e circulares, plantando pistas
falsas e confusas. Por fim, tirou os sapatos e foi para casa.
Sentou-se na varanda. Acendeu um cigarro, uma insignificante chama na
noite. Nosso Senhor eviscerou a barriga arroxeada do céu e uma furiosa

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tempestade foi despejada sobre o povoado. “Não me seguiram”, pensou. “A
chuva vai apagar qualquer traço.”
Na manhã seguinte, Martín Ramírez foi encontrado morto.

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Do diário de Miguel Ramírez, pai de Martín (sem data):

ACORDEI.
Pensei que não tinha pregado o olho momento algum na noite até acordar com
a claridade da janela. O povoado de Mavrak despertara amarelado & faceiro, o
que me deixou ainda mais irritado. Fiz um café mais forte que o normal no dia.
Fechei os olhos enquanto despejava o pó. Minha mulher perguntou: você viu o
açúcar? Eu disse que não era para ser tomado com açúcar. Ele devia ser aceito
como era.
No balcão de bebidas, tinha um espaço vazio. A mulher havia escondido o
meu uísque. Não ia brigar por isso, não naquela hora.
A xícara tremia em meus dedos engrossados pela idade. Isso não é certo,
mulher. Pai não deve enterrar filho, nunca.
Ela apenas mirou a janela. “Eu acho que o Tuco fez um ótimo trabalho, você
não concorda?” Eu perguntei quem diabos era o Tuco.
“O coveiro. Foi ele que fez o caixão. Acho que esse jovem daria um ótimo
carpinteiro.”
“E o que diabos o caixão tem de tão especial?”
“Ele é bem trabalhado, sabe. O Tuco era amigo do Martín.” Ela prosseguiu:
“Eu acho importante.” Ah, sim. O lugar onde o corpo dele vai passar o resto da
eternidade tem que ser uma beleza. Precisa uma frase engraçadinha entalhada,
um “Bem-vindos, vermes!”, “Bom apetite!”, &c. Não?
Ela disse que eu estava mais insuportável do que o normal.
Eu quase perguntei se ela esperava algo diferente.
Não havia muitas pessoas lá. Nunca imaginei que os amigos que Martín
fizera fora de Mavrak viajassem até o nosso fim de mundo para dizer umas
palavrinhas. Eles nem devem ter ficado sabendo. Três quartos dos presentes
elogiaram a cerimônia. A primeira vez que tentei contestar com um “que
diferença faz a qualidade da cerimônia?”, minha mulher me cutucou. Decidi dar

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uma trégua.
Uma bela cerimônia. O reverendo William morrera mês passado. Não havia
tempo para aguardar um novo padre. Jonas, por ter sido um seminarista, disse
que não havia problema em ele mesmo encarregar-se das pendências religiosas do
ritual. Assim foi. Se esperássemos um padre de verdade, Martín começaria a feder.
Para ser sincero, seu odor já estava nauseante. Um tiro atravessara seus
intestinos. Estrebuchara com sangue & fezes no chão.
Se sua morte não foi gloriosa, por que seu enterro deveria ser?
Teria sido o tiro nos intestinos o primeiro? Espero que não. Torço para que
tenha sido o último, ou então que tenha sido disparado após a morte, do tipo dado
para garantir que aquele corpo não iria mais se levantar. Torço. Porque não existe
imagem pior em minha mente do que meu filho morrendo &, em sua última
respiração, sentindo o cheiro de sua própria merda.
Há grandes chances de essa imagem ser verídica. Com poucas diferenças. Em
minha mente, o assassinato não foi executado no escuro. Há luzes de velas que
iluminam o rosto de um Marlowe, com revólver Colt de seis balas na mão. Qual
Marlowe está indefinido. Pode ser qualquer um deles. Até possuem feições
similares.
Deus, eu rezo para que meu filho não tenha visto o rosto do assassino. Nem
sentido o fedor de...
Vou morrer um dia sentado na poltrona. Deitado na cama. Será lento &
tranquilo. Ninguém se presta a matar um velho. Morrerei como um homem de
respeito. De vida insossa. O maior momento da vida, a morte. A minha será
insignificante. E ainda assim, será melhor que a de meu filho.
Após o enterro, minha mulher deitou-se na cama ao meu lado, acariciou-me o
peito & disse que eu tenho que ter pensamentos mais animados. Deveria me
concentrar em imagens alegres e felizes. Aguardar com antecipação os maravilhosos
dias que compartilharei com meu outro filho, Juan, & com meu netinho Sergio.
Recordar com amor & nostalgia os bons momentos, & somente esses.
Eu perguntei a ela se o médico da cidade grande ainda faz aquele negócio,
qual era o nome? Loboto... Aquele com um martelo & um prego na cabeça da

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gente.

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O UNIVERSO ERA Mavrak e ele saía da inércia matinal para dar início à
vida. Os olhos inchados de Miguel Ramírez tudo sentiam por trás da janela.
Viu cavalos a beber água. Viu um Marlowe. Viu por ali seu outro filho, Juan,
cabelos oleosos e escorridos voando ao redor do pescoço mesmo com o
chapéu. Seu neto Sergio, distante. Viu Vienna lavando roupa. Viu feno
voando com o vento. Viu Maria, esposa do McCoy, mulher rara de se
encontrar de dia – era mais famosa por suas atividades noturnas.
Todas as pessoas se encontrando, se cumprimentando, sendo simpáticas e
gentis umas com as outras, ou ao menos cordiais, educadas. Como? Se ele
saísse à rua, se esconderia em suas vestes e não daria um só “bom-dia”.
Havia sol na rua, sol! Como se o mundo fosse indiferente ao luto, à morte
de seu filho. Na cabeça de Miguel, nuvens tinham que cobrir o céu. Era dever
do clima se ajustar à sua percepção.
Pensando melhor, nem mesmo Juan vestia preto. Que desrespeito. Tudo
bem, tudo bem, repetiu para si Miguel. Juan nunca pareceu fazer parte desse
mundo, de qualquer jeito.

***

O pequeno Sergio, sentado nos degraus em frente ao saloon, atirava uma


moeda enferrujada para cima e a conferia logo em seguida. Das sessenta e
duas vezes que fez isso, a moeda deu coroa em trinta e nove; cara em vinte e
três. À sua frente, surgiu um vulto, e ele conjurava uma sombra que preenchia
o corpo de um metro e pouco de Sergio, assim interrompendo o lançamento
que preparava.
“Concentrado, Sergio?”, perguntou Juan Ramírez.
“Sim, tio. Eu estava pensando se praticando muito existe um jeito de dar
sempre coroa.”
Juan olhou com ternura para Sergio como resposta.

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“Você está arruinando meu treino, tio.”
“Por quê?”
“A sombra. O senhor é alto demais.”
“Isso me cheira a inveja”, disse Juan, alargando os lábios com um sorriso
generoso.
“Tio, você é tão engraçado.”
E Sergio soltou um rá-rá-rá exagerado. Juan passou a mão nos cabelos de
Sergio e perguntou:
“Onde está o seu chapéu?”
“Esqueci em casa.”
“Ora, então vá buscá-lo. O sol está inclemente, filho.”
Sergio levantou-se rápido e começou a correr. Juan o interrompeu:
“Ei, filho, você não viu o vô por acaso, viu?”
“Eu vi no enterro, tio. Foi a última vez.”
Juan espremeu os olhos e agradeceu com um movimento de cabeça.
Ajeitou o seu próprio chapéu, apertou as curvas da borda. Sentia-se culpado
de trazer o assunto do enterro à tona. Era o segundo do pequeno Sergio
Ramírez. Primeiro, seus avós paternos, mortos em um incêndio de causas
nunca completamente esclarecidas. Agora, seu tio Martín. Isso sem contar sua
mãe, que morreu no parto e foi posta abaixo da terra quando Sergio contava
apenas um dia de vida.
Órfão de mãe, abandonado pelo pai, um bêbado andarilho, vivendo em
Mavrak, quase sem amigos de sua idade... Juan buscava racionalizar como era
possível que Sergio não se tornara um aprendiz de pistoleiro, um embrião de
mercenário que não conhece honra ou lei. Com o passar dos anos, Sergio
parecia até mais normal. Parecia até – não ousava verbalizar tal pensamento –
uma criança com potencial. Potencial de sair daquele povoado, de ter um
bom emprego, talvez ser o tipo de homem que porta gravatas e que instala as
tão faladas ferrovias, unindo cantos distantes do planeta...
Se o mundo não acabasse antes.
Ele também podia resultar em um Juan da vida, um tipo raro, uma

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exceção, homem que viu o resto da terra e regressou. Fora estudar nas cidades
grandes, nas universidades do Norte, o Norte que pregava liberdade aos
escravos durante a guerra. Entretanto, desejos obscuros o trouxeram de volta à
poeirenta Mavrak, a Mavrak inerte, tão ao sul, tão distante dos conceitos
arrojados de justiça que lhe ensinaram. Juan Ramírez aprendeu todas as
matérias que podem transformar um ser humano com sentimentos em um
homem de ciência dotado de lógica e razão, mas não se deixou convencer por
elas. Subvertendo todo pensamento coerente, rendeu-se à intuição que
possuía sobre seu Destino de estar em seu povoado natal, à sua crença de que
sua família, os Ramírez, necessitava dele. E, quando deu por si, estava
montado em seu corcel, cavalgando em direção a Mavrak, deslumbrado com
as coisas ínfimas como o pôr do sol no deserto e os esqueletos de bois e outros
animais enormes soterrados pela poeira.
Na viagem de volta, Juan notou um fato alarmante: a areia ficava cada vez
mais áspera e avermelhada ao passo que se aproximava de Mavrak e, embora
tal fato não possuísse relevância alguma para o resto dos seres humanos, a
mudança da cor e da textura da areia afetava diretamente o tecido de
sentimentos de Juan.

***

As pedras fritavam no sol. Juan acreditava que o deserto de Mavrak só era


habitável para pedras e lagartos. Ele chutou pequenas rochas alaranjadas no
piso e acreditou ver fumaça emergindo delas. Logo retornaria Sergio para
continuar sua brincadeira, dessa vez de chapéu na cabeça. Que coragem de
ficar na rua, na temperatura escaldante. Juan jogou a cabeça para cima e
deparou-se com o inconfundível semblante de Vienna, a distância, moça que
sonhara em desposar um dia e, então, ajustando o foco de sua visão, percebeu
que seu pai estava a caminhar rumo ao saloon do McCoy. Miguel Ramírez
transitava logo à frente de Juan com o máximo de velocidade que podia obter
de suas pernas fracas e varizentas e de sua refinada bengala de cedro. Juan,

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incrédulo, de pronto se esqueceu da visão de Vienna e perguntou a Miguel:
“Pai... o que você está fazendo por aqui?”
“Aquela sua mãe, que o diabo a carregue, escondeu o vinho, o uísque, só
não me tirou o tabaco. E está que é uma espora nos colhões, dizendo para eu
pensar em coisas alegres e só nelas. Não dá para aguentar.”
Juan, então, acompanhou seu pai, cedendo o ombro esquerdo para que ele
se apoiasse. Miguel e Juan pisavam no degrau que levava à entrada do saloon
quando um homem do lado de dentro foi arremessado para fora pela janela,
estilhaçando os vidros e caindo estatelado contra o chão. A queda do sujeito,
mais gordo que uma vaca leiteira, produziu um baque surdo que transcendeu
até o ruído do vidro. Um outro homem pulou pela janela quebrada e,
montado em cima do gorducho, o segurou pelo colarinho da camisa e
disparou tiro após tiro no seu rosto até que este se tornasse um emaranhado
de carne, sangue e dentes. Juan observou espantado a cena. Não pôde evitar,
em sua mente, a associação entre a imagem do rosto destroçado e os
pavorosos ensopados servidos no saloon. O assassino virou-se para ele, e Juan
levantou os braços. Miguel, franzindo o cenho, resmungou:
“Baixe esses braços filho, você parece um palhaço.”
O pistoleiro fitou alucinado Juan, apontou para o cadáver desfigurado no
chão, e explicou:
“Estava roubando no pôquer.”
Juan fez um “Ah...”, e o assassino puxou um ás da manga da camisa do
morto como prova. Ele estendeu o braço para entregar a carta suja de sangue
para Juan, que a recusou.
“Já entendi, já entendi...”
O pistoleiro ofereceu um sorriso banguela e regressou para dentro do
saloon para continuar o jogo. Usou a porta dessa vez, não a janela. O cadáver
ficou ali, esquecido em seu silêncio de morte, e provavelmente assim ficaria
por horas, pois nem um dente de ouro tinha o morto para se roubar. Juan
estava paralisado, quase catatônico, até que seu pai o sacudiu pelo ombro e
propôs:

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“Sim, que tal se nós tomássemos um belo trago, não? Ponho na minha
conta.”
Juan, relutante a princípio, cedeu e abriu a porta de vaivém.
O interior do saloon proporcionou uma escuridão que trazia um alívio
súbito demais da claridade do dia.

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[No saloon]

McCOY:
Se não é uma visão e tanto essa. Pai e filho juntos. O
que os traz aqui? Não me digam. Mulheres? Querem que eu
chame a Maria para que ela lhes apresente as moças?

MIGUEL RAMÍREZ:
Uísque.

McCOY:
Certo. Dois uísques saindo!

MIGUEL RAMÍREZ:
Duplo.

McCOY:
Dois duplos saindo!

MIGUEL RAMÍREZ:
Quer saber, deixe a garrafa aqui e dois copos.

[McCoy concorda e entrega o pedido. Miguel serve ambos


e começa a beber em silêncio. Maria desce as
escadarias, trajando um sóbrio vestido preto.]

MIGUEL RAMÍREZ:
Viu, filho? Isso é maneira de portar-se. Vestindo
preto, de luto.

[Juan Ramírez examina suas próprias roupas.]

MARIA McCOY:
Os Ramírez. Pai e filho! Cena rara. Ah, Juanito, você
tem os olhos do seu irmão.

[Maria suspira teatralmente.]

McCOY:
Maria, ofereça uma das meninas para animar essa
família.

MIGUEL RAMÍREZ:
Só uísque hoje, McCoy. Obrigado Maria, e obrigado pelo
seu respeito com a morte. Está cada vez mais difícil
encontrar pessoas que respeitem os mortos.

McCOY:
Ah, você conhece a Maria, Miguel. Ela sempre gostou
muito de seu filho Martín.

[McCoy força um sorriso amarelo. Maria, incomodada,


sobe as escadarias de volta.]

McCOY:
Eu também lamento muito a sua perda. Não estou vestindo
preto porque minha roupa escura está para lavar. E
também porque, apesar do nome, sou um mexicano como
vocês. E nós vemos os mortos de um outro jeito, sabe?

[Miguel Ramírez ignora McCoy.]

McCOY:
E então, viram que briga emocionante essa que aconteceu
agora há pouco? Ah, que nada, vocês estavam do lado de
fora, de lá era impossível entender o que aconteceu. O
sujeito que estava roubando no pôquer não estava
desarmado, não. Não foi tiroteio covarde. Além de um ás
na manga, ele tinha uma faca escondida na bota, caso
alguém descobrisse os seus truques. Além de ladrão no
jogo, é ladrão ruim. Não sabe roubar nem usar uma faca.
Logo o outro tirou a faca dele e jogou...

MIGUEL RAMÍREZ:
O senhor McCoy pode nos deixar em paz por uns
instantes?

[McCoy faz uma careta de desgosto. Sai para a pia, onde


lava copos.]

JUAN RAMÍREZ:
Então, pai, o senhor quer conversar sobre o que
aconteceu?

MIGUEL RAMÍREZ:
Sobre o sujeito que roubou no pôquer?

JUAN RAMÍREZ:
Não! Sobre o Martín, pai!
MIGUEL RAMÍREZ:
Não. Nenhum interesse.

JUAN RAMÍREZ (cochichando):


O senhor não está planejando nenhuma vingança, né?

[Miguel permanece calado, sorvendo o uísque. Eles


terminam um copo. Miguel serve outro.]

JUAN RAMÍREZ:
Pai, pai, o senhor continua forte feito um touro. Eu já
me sinto tonto no segundo copo.

MIGUEL RAMÍREZ:
Você sempre foi ruim de copo. Isso tem que mudar,
filho. Muitas coisas têm que mudar.

JUAN RAMÍREZ:
Escute, pai, eu estou triste como o senhor com a perda
do meu irmão. E ainda...

MIGUEL RAMÍREZ:
Não.

JUAN RAMÍREZ:
Eu ainda estou vivo, pai. E o Sergio também. Eu não me
envolvo em problemas. Sou uma pessoa de bem, você sabe.
E nós vamos criar o Sergio para que ele não se envolva
tampouco.

MIGUEL RAMÍREZ:
Sua irmã não se enfiava em problemas e, ainda assim,
está a sete pés debaixo da terra. E seu irmão Martín
estava apenas fazendo o que devia quando...

[Entram Leon e Samuel Marlowe no saloon.]

SAMUEL MARLOWE:
Ora, ora, se não são os Ramírez.

MIGUEL RAMÍREZ:
Dois dos restantes.

LEON MARLOWE:
Foi bom que os encontramos; eu e meu irmãozinho aqui
queremos deixar claro uma coisa, sem rodeios.
[Silêncio tenso.]

LEON MARLOWE:
Nada tivemos com a morte de Martín.

MIGUEL RAMÍREZ (quase se engasgando com a bebida):


Ah, acha que somos mais crentes do que padres? Nós bem
sabemos que vocês querem o terreno onde ele morava. Nós
bem sabemos também, não é, filho, que vocês não
perderiam uma oportunidade de matar um Ramírez.

SAMUEL MARLOWE:
Sim, é verdade, não perderíamos uma oportunidade. Mas
nós não tivemos oportunidade. Não somos, valha-me Deus,
assassinos.

LEON MARLOWE:
Se você continuar falando assim, eles nunca acreditarão
em nós, irmãozinho. O fato é que não fomos nós.

JUAN RAMÍREZ [embriagado]:


O gue voi que ele disse?

McCOY:
Ele está só tagarelando, garoto.

SAMUEL MARLOWE:
Ei, McCoy, você está do lado deles?

LEON MARLOWE (ignorando seu irmão):


E, se o senhor acha que fomos nós, deveria ter ido até
nossa casa e conversado, em vez de...

SAMUEL MARLOWE:
Em vez de chamar um homem de fora para resolver! Porque
vocês não são homens o bastante!

JUAN RAMÍREZ:
Do gue ele esshhtá falando, bai?

MIGUEL RAMÍREZ:
Agora, filho, nem eu faço ideia.

SAMUEL MARLOWE:
Sim, sim, sim, vocês chamaram o senhor xerife do
município! Nós recebemos a notícia. O homem que vai
trazer paz a Mavrak está chegando a qualquer momento!

MIGUEL RAMÍREZ:
Eu não estou bêbado como meu filho e ainda assim não
estou entendendo merda alguma do que vocês dois estão
me dizendo.

LEON MARLOWE:
Querem me dizer que não foram vocês que chamaram o
xerife Thornton?

MIGUEL RAMÍREZ:
O único Thornton que conheço é o vira-casaca do Deke
Thornton, que abandonou o grupo do Pike.

SAMUEL MARLOWE:
Que diabos? Vocês não estão se fingindo de ingênuos?
Porque se não foram vocês... agora mesmo que não
entendo nada.

LEON MARLOWE:
Parece que estamos com problemas de comunicação.

MIGUEL RAMÍREZ:
Acho que nossas famílias sempre tiveram esse tipo de
problema.

LEON MARLOWE:
Nós vamos investigar melhor o assunto. Se descobrirmos
que vocês estão mentindo...

MIGUEL RAMÍREZ:
E se eu descobrir, ou melhor, quando eu descobrir que
vocês mentem sobre aquilo que eu acho que vocês
mentem... eu acho que vocês não dormirão tranquilos por
um longo tempo.

[Samuel Marlowe cospe no chão. Ele e Leon saem do


saloon. Miguel bebe mais um gole.]

MIGUEL RAMÍREZ:
Essa cidade podia ser boa. Com esses dois respirando e
cuspindo por aí fica difícil.

[Juan vai ao banheiro vomitar.]


JUAN SABE QUE está sonhando. Todo o álcool no seu sangue não
impediu que a lucidez chegasse a esse mundinho onírico. O evento ocorria
com certa frequência, uma vez por mês ou duas. Podia ser um pesadelo, sim,
podia ser o tipo de sonho que não é dotado de pé ou cabeça, mas lá estava ele,
protagonista, ciente de que, em algum lugar, seu corpo de verdade dormia, de
que seu novo corpo era apenas uma projeção, um personagem, geralmente o
solitário explorador de um universo paralelo quase tão real quanto o “real”.
O problema é que, no último ano, seus sonhos passaram a se situar em um
lugar deveras preciso no espaço geográfico: o meio do nada que era o povoado
de Mavrak. Mas não era só isso. Havia o medo de encontrar nos sonhos
conscientes pequenos sinais escondidos aqui e acolá de coisas ainda por vir.
Um caso recente o atormentava: o incêndio que tomou conta da igreja e
causou a morte do reverendo William. Juan, em um sonho que teve certo
tempo atrás, precisou retirar seu crucifixo do pescoço, porque o calor que
emanava da cruz era insuportável. E, no enterro do reverendo, estava Juan,
quieto, sentado em um canto, abismado com aquilo que torcia para que fosse
somente uma coincidência. Se de fato houvesse uma ligação entre sonho e
realidade, ela ocorria em um nível que Juan não estava disposto a visitar. Só a
ideia de possuir um poder de tal dimensão dentro de si enviava calafrios por
todo o seu corpo.
Juan sabe que está sonhando. Está assustado e tem seus sentidos
aguçadíssimos. Qualquer evento fora do comum pode ser um sinal. O
problema é que, no universo dos sonhos, nenhum evento pode ser
categorizado como normal. E como interpretá-los? A cruz quente era óbvia,
mas seu inconsciente sempre poderia armar uma cilada e ser sutil. Juan tem
todo o direito do mundo de estar apavorado.
Mavrak. Mais poeirenta do que de costume. A areia integrando nuvens
que vagavam na altura dos humanos como pessoas perambulando pelas ruas
do povoado. Deserta, a Mavrak sonhada.

27
A única coisa que impede a Mavrak verdadeira de ser uma cidade fantasma
é o fato de que é habitada. Mas ela carrega o fantasmagórico na sua essência,
no seu sangue.
Sombras de cavalos e pessoas cavalgam e caminham nas casas de madeira
clara. Os ouvidos de Juan escutam somente o vento e a areia. Ele nada
pressente. O sol do meio-dia está eclipsado por uma nuvem cinza. Agacha-se e
põe a cabeça contra o solo. Não há passos ou movimento em um raio de
quilômetros. Levanta-se. Sua orelha ficou cheia de areia por fora e por dentro.
Uma esfera de poeira se aproxima. Abre a boca e sente pequenos grãos de
areia se grudarem nas frestas de seus dentes, a sensação mais desagradável que
conhece. Tenta cuspir parte da areia, mas, ao abrir a boca para isso, tudo que
consegue é absorver outro punhado de grãos. Fecha a boca em desistência. Ele
aguarda, ele caminha, ele olha, ele espera.
É a primeira vez em que nada ocorre em seu sonho. Sente o desejo de
correr por Mavrak atrás de alguém, algo, um evento, um sinal. Grande ou
pequeno, tanto faz, desde que significativo. A cidade parece não permitir que
a calmaria desça do trono.
O aumento gradual da luminosidade indica que Juan despertará em
instantes. O ideal será não recordar do sonho. Há algo mais assustador que o
nada?
A claridade faz da cidade um paraíso esbranquiçado. Pode sentir o
universo ao seu redor se desintegrando aos poucos, junto com seu corpo.
Qualquer esforço para resistir será em vão.

28
ALGO FALTA. Não farei com que Juan Ramírez acorde de seu sonho
justo agora na história. Não farei com que o xerife Thornton chegue. Não
farei nada.
Apenas irei ao bar.
Longe da máquina de escrever todo aquele mundo ficará em suspenso. Os
personagens congelados, a bola de feno paralisada no ar.
Pego o telefone e disco o número de meu amigo Carlos. Depois de tantas
horas escrevendo algo que se passa mais de cem anos atrás parece estranho
usar um aparato como o telefone.
O chato só atende o celular no quinto toque.
“Carlos?”
“Juan? Cabrón! Que horas são essas para você me ligar?”
“Eu não sei, eu passei o dia todo ocupado, enfurnado no gabinete,
escrevendo e escrevendo.”
“Escrevendo, Juan! Mas que coisa besta! O que diabos você está
escrevendo?”
“A história dos meus antepassados. Coisa besta não é.”
“Tá legal, tá legal, e que porra eu tenho a ver com isso, cabrón?”
“Me encontre em algum bar.”
Sei que “algum” não tiraria Carlos de casa, então começo a pensar em
todas as espeluncas que há perto da casa dele. Definimos um localizado na
esquina da rua onde ele mora.
Ele me recebe de mau humor e não faz o menor esforço para disfarçar.
“Lugar feio, esse”, comento sobre o bar.
“Não se lembra da época em que eu trabalhei aqui? Era barman. Sempre
emocionante o lugar, cheio de brigas e até troca de tiros. Parecia um saloon.”
“É, tem razão. Tinha esquecido. O lugar se amontoava de prostitutas.
Cada par de pernas. A sua mulher na época que agenciava as meninas, não?”
Carlos pigarreia. O assunto não é agradável, então ele corta direto para o

29
relevante.
“Juanito, Juanito, que queres de mim?”, ele diz, acomodando-se na
cadeira.
“Eu decidi que não dá mais. Eu quero contar a história dos meus
antepassados. Quero contar sobre Mavrak. Sobre os Ramírez e os Marlowes.”
“Juanito, Juanito. De onde surgiu isso? Você não leva jeito de escritor.”
“Quem disse? Só porque eu nunca escrevi nada além de cartas?”
“Vai parecer diário, você vai ver. Vai começar a colocar coisa de você e
coisa de você e vai parecer uma porra de um diário, é nisso que vai acabar essa
sua história, Juanito! Aposto que já deve até ter colocado um personagem
chamado Juan.”
“É, pra falar a verdade...”
“Viu só?”
“Mas meu nome, ãh... Me batizaram em homenagem a ele...”
“Certo. Certo. Você está num péssimo estado. É minha impressão ou você
perdeu um pouco mais de cabelo?”
“Pois é, quem diria. Eu achava que não ia ficar careca.”
Silêncio.
“E esse Juan, seu antepassado aí, me deixe adivinhar, ele é o herói da
história.”
“Não, Carlito, estou tentando fazer algo mais interessante, algo sem heróis
ou bandidos.”
“Certo, não vou tentar impedi-lo mais de escrever essa porqueira. Faça o
que você bem entender. A grande pergunta é por que você me chamou aqui?”
“Uma dúvida terrível me atacou.”
“...”
“Carlitos, qual é o melhor faroeste, Era uma vez no oeste ou Meu ódio será
sua herança?”
“O que isso tem a ver?”
“Isso tem tudo a ver. Eu não sei qual filme prefiro. Eu quero saber se sou
um homem de reflexão ou um homem de ação, compreende? Porque vou

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passar isso para o meu relato. Quero saber se, em Mavrak, as coisas eram, e
agora cito o mestre italiano, ‘como uma dança da morte’, ou se... ou se...”
“Se pessoas morriam em câmera lenta o tempo todo? Merda, Juan. Escute,
é tarde. Não é hora de discutir cinema. Que diferença faz? Você está contando
a história do seu Juan, não de um Clint Eastwood.”
“Mas tem tanta coisa que eu não sei, Carlos.”
“Então, por que você quer contar essa história, em primeiro lugar?”
Eu penso em dizer: “Você tem razão de pensar que todos têm motivos que
os levam a contar uma história ou qualquer outra coisa. Eu que ainda não
descobri quais são minhas motivações. Talvez durante a escrita eu descubra.”
Não digo, porém. Preciso pensar em alguma resposta melhor.
Aquele copo de tequila já estava na mesa? Não me lembro de ter pedido.
Entorno. Eu quero contar aquela história porque eu sou o descendente deles,
porque é minha origem. Não. Que mentira. Eu quero contar a história
porque preciso me convencer de que algum mundo, alguma época, era pior
que o nosso. Será? Não.
“Porque eu não tenho mais nada pra fazer, Carlos, é por isso que estou
escrevendo.”
“Nada?”
“Aposentadoria chega, torro minha grana em bebida, mando uma ajuda de
vez em quando pro filho... eu passo tempo demais em casa, Carlos. Não
tenho mais mulher. Contratar uma companhia? Não gosto de puta barata,
sou exigente. Passo muito tempo sozinho. Daí, quando eu saio de casa, parece
que todo o mundo, o planeta Terra, todo ele tá indo pra algum lugar. Menos
eu. Eu não estou indo pra lugar nenhum.”
“O mundo tá indo pro inferno, isso sim.”
Eu olho o relógio. Tenho a impressão de que havia passado mais de um
dia trancado, pensando e escrevendo, pensando e escrevendo. Eu preciso
descansar. Dormir.
“Tá escrevendo onde, Juan?”
“Oi?”

31
“Computador?”
“Que nada. Máquina de escrever. Se é para ser antiquado...”
“O quê? Seu louco!”
Carlos começa a gesticular com ambas as mãos, desenfreado, tentando
comunicar algo. Pergunto, abismado:
“Por quê?”
“Imagine se você perde essa sua história toda! Toda essa trabalheira,
desperdiçada...”
E fica por aí a conversa. Um sorriso escapa de mim. Carlos discursa e
argumenta, mas no fim, ah, no fim despertei seu interesse. Quer que eu
escreva num computador. Está preocupado. Eu sei que ele é como eu. É um
faroeste. Ele quer saber no que vai dar. Seu entusiasmo é perceptível.
Com ânimo revigorado, voltarei para casa e passarei tudo que fiz para o
computador. Mas antes. Ah, antes. Antes preciso dormir. Como o meu Juan
está dormindo agora no texto. Nesse universo que é meu relato, no mundo à
parte que é Mavrak. Quero acordar junto com Juan, não este Juan velho e
cansado, mas Juan Ramírez, jovem herói com o futuro em branco nas páginas
a serem escritas.
Peço mais uma dose de tequila e logo me despeço, sem muitas palavras, de
Carlos. Não posso evitar, porém, de dar um abraço afetuoso no amigo e
sussurrar um inaudível “obrigado”.

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CABEÇA NA VIGA. Juan despertou sem saber onde estava. Levantou de
supetão, em um pulo. E atingiu em cheio a viga de madeira do teto. Onde ele
estava? Por que uma viga tão baixa? A definição chegou aos poucos. Seu
estômago, um vulcão prestes a entrar em erupção, de fato entrou. O vômito
era ácido e arranhava a garganta na rota de saída. Juan mirou o chão. Acertou
em parte o corpo e a cama.
Vozes existiam do lado de fora do quarto e eram tão embaralhadas quanto
a consciência de Juan. A porta abriu. Ou não. Seu pai e sua mãe se
aproximaram. Mas talvez ele não tivesse acordado ainda. Então, Juan afundou
sua cabeça outra vez no travesseiro e se sentiu mergulhar dentro da cama, o
quarto cada vez mais distante. Ele enxergou, ao longe, o rifle na parede e se
lembrou de onde estava: na casa dos pais. E voltou em um salto ao universo.
Recobrou a capacidade de assimilar frases. A primeira que compreendeu: “Eu
falei que o menino era ruim de copo.” A segunda: “Amador.” Terceira:
“Deixe o rapaz, Miguel.”
Juan recordou de um sonho vago e confuso. Mas não era momento de
vasculhar na memória. Sua cabeça doía como se tivesse recebido uma
coronhada, e de fato ele sofreu um impacto físico contra a viga de madeira.
Tanto fazia. A cabeça de Juan estaria explodindo de qualquer forma. Ele disse:
“Eu acho que vou vomitar mais um pouco.” E o fez. O futuro é o presente
que é o passado.
Dessa vez, acertou o chão com um líquido mais esverdeado. Juan sentiu
seu cabelo sendo acariciado pela sua mãe.
“Filho, filho, você tem que entender que seu pai é mais experiente que
você. Não dá para você sair e encher a cara com ele.”
“O que esse menino fazia na universidade? Pensei que servia para aprender
alguma coisa sobre a vida. Pelo jeito, não aprendeu muito. Os pensadores
estão lá no Norte. Os homens de verdade estão aqui no Oeste.”
A força da regurgitação inundou os olhos de Juan com aquela água salgada

33
que convém chamar de lágrimas, e Juan nada mais era que um animalzinho
indefeso, derrotado na batalha contra seu próprio corpo. Como o jumento
cinza que o acompanhara quando criança, que nos seus últimos dias padeceu
de uma doença que parecia vir de nenhum outro lugar além de dentro de seu
delgado corpinho equino.
Com uma visão caleidoscópica das pálpebras úmidas, vislumbrou o olhar
do pai. Miguel Ramírez, homem de verdade, Ramírez de verdade. Ele dizia
tantas coisas com aquele par de olhos. No momento, Juan pôde depreender:
a) frustração
b) vergonha
c) raiva
E Juan arriscava uma letra: d) medo. Mas medo do quê?
Necessitava dormir mais. Não seria capaz de se levantar. O cheiro
pavoroso não estava apenas no vômito exteriorizado, também habitava suas
narinas. Nem sabia que horas eram. Podia ser dia ou noite. Inferno. No
fechar dos olhos, uma ardência avermelhada, e imagens do sonho retornavam.
Mavrak e o nada. Poeira e poeira.
Areia.

***

“Mas que diabos está acontecendo?”


Miguel Ramírez abriu a janela e viu que todos os outros cidadãos
decidiram pela mesma atitude.
Uma trilha de poeira. Uma diligência puxada por dois cavalos musculosos
e determinados. A lona branca estava limpa, ou melhor, o mais limpo que um
tecido pode ficar depois de atravessar o deserto. O homem que dirigia a
carroça tinha o rosto coberto pela sombra de seu chapéu. Com elegância,
frearam os cavalos, diminuindo gradualmente de velocidade até parar por
completo, sem um solavanco. Com o canto do olho, Miguel pôde observar
um sujeito a distância com um rifle nas mãos, os punhos tremendo de

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preocupação com o que poderia sair da diligência. Os mavrakianos,
emudecidos, aguardavam em expectativa transbordante. As únicas novidades
que Mavrak conhecia eram pistoleiros solitários que paravam no povoado
apenas para uma noite de descanso no meio de uma viagem maior. Cavalos
robustos de sela reluzente e diligências com bancos forrados de veludo não
eram itens ordinários.
A primeira coisa que saiu da carroça foi um maço balançante de folhas de
papel. Então, Miguel viu a mão que as segurava. E, logo a seguir, lá estava ele.
Todo ele. Sujeito alto, pele clara e cabelos pretos, um bigode espesso e bem
aparado, dois chumaços de pelos como sobrancelhas, vestindo uma espécie de
uniforme que Miguel e todos os outros trinta ou quarenta presentes nunca
tinham visto antes.
O homem olhava ao redor, analisando cada canto do povoado. Ergueu a
mão direita, gesticulando para a cidadezinha, e perguntou em um brado: “Isto
é Maverick?”
Ninguém respondeu.
Ao fundo, uma placa presa por correntes batia contra uma parede.
“Perdão, perdão. Mavrak?”
Escutou-se uma prostituta, ao longe, comentar: “O que você acha, meu
lindo?” Uma pessoa cochichou para outra que o nome da cidade havia sido
mesmo Maverick, uns duzentos anos antes, mas a placa com o nome teve
algumas letras comidas com o passar do tempo, e um bom cidadão, por
questão de sonoridade, adicionou a letra “a” no meio.
O homem, nada intimidado pela recepção árida, começou um discurso
que parecia ensaiado. “Meu nome é xerife Thornton. Fui designado pelo
governo para trabalhar nesta cidade. Eu preciso de uma habitação provisória
até o momento em que terei um local de vivência e trabalho adequado.” Ele
pausou, pigarreou, olhou suas folhas de papel, procurando com a ponta do
dedo o que mais deveria anunciar.
Leon Marlowe se aproximou, com Samuel atrás, como uma sombra. Leon
falou no tom mais grave e solene que sua boca e seus pulmões eram capazes de

35
produzir:
“Senhor Thornton.”
“Xerife Thornton, senhor...”
“Marlowe. Leon Marlowe.”
Leon cuspiu no chão. Samuel imitou.
“Então, xerife, por que o senhor veio até nossa pacífica cidade?”
“Como eu disse, senhor Marlowe, fui designado pelo governo...”
Leon o interrompeu:
“Sim, sim, todos nós escutamos o senhor grasnar isso. Mas quem entrou
em contato com o governo?”
“Eu fui informado que vocês não possuem figura alguma de autoridade
aqui nesta cidade. E isso é sinceramente inaceitável.”
“Porém, as coisas funcionam bem aqui, xerife. Não precisamos de nenhum
sujeito de estrela prateada no peito para manter Mavrak na linha.”
Thornton fitou a estrela no próprio peito. Ela brilhava com o queimar do
sol.
“Também fui informado de que houve um assassinato nesta cidade. Um
assassinato sem motivos claros. Sem culpado a se apresentar.”
Foi a vez do xerife cuspir no chão, quase acertando as botas de Leon. Seu
escarro era transparente, ainda que denso. Leon bufou e estalou os dedos da
forma mais sonora possível.
“O senhor Leon não saberia me informar nada sobre esse assassinato,
saberia?”
Samuel Marlowe, esquecido atrás de Leon, passou a primeiro plano já
ruidoso:
“Então, foi aquele desgraçado do Ramírez que o chamou. Eu sabia!”
Nenhum dos Marlowes havia percebido, porém, que Miguel Ramírez já
havia saído de sua casa e estava parado na varanda, a observar a cena. Sua voz
rouca foi ouvida:
“Eu não chamei xerife algum. Os Ramírez sempre souberam resolver as
coisas por conta própria.”

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Não havia mais o que se dizer. Pássaros cantaram no céu e cessaram.
Ouviu-se o vento. E ele também cessou. Mavrak foi dominada pelo silêncio
por segundos ou minutos, engolida na areia movediça do tempo.
A voz de Thornton quebrou o encanto:
“Não faz diferença quem pediu minha presença. Agora, é exigência do
governo, e os habitantes de Mavrak deverão acatar. Digam-me, então, onde
posso comer um bom ensopado.”
Os habitantes de Mavrak trocaram olhares, e todos, como sincronizados,
apontaram com a cabeça para o saloon do McCoy.

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NÃO CAIU, MAS sim despencou, a noite. Mavrak, uma cidade
camaleônica. O saloon do McCoy, que naquele dia hospedava um grupo de
mariachis viajantes com sombreros brancos, transbordava energia. Havia vida
em tudo, nos cochichos trocados pelas cortesãs de meias e ligas rendadas
acerca da beleza e virilidade do novo xerife, na fumaça dançarina dos charutos
e cigarros, na música acelerada dos violões, no jogo de pôquer entre quatro
bêbados, nas corridas dos ratos de uma toca à outra. Maria, esposa de McCoy,
empregadora das “filhas” no bordel que funcionava no segundo andar do
saloon, tinha olhos reluzentes. E esse par negro de olhos focava com ambígua
frequência a figura solitária de Thornton. Ele estava sentado no bar,
embebido de silêncio, portando uma roupa mais casual que o seu uniforme da
tarde. O homem da lei comeu ensopado quando chegou e, agora na noite,
devorava outro prato fundo de cheiro acolhedor com o bigode molhado do
caldo. McCoy ofereceu um copo de cerveja cheio até a borda. “Cortesia da
casa”, disse.
“O ensopado de carneiro está uma delícia, senhor, mas devo recusar a
bebida. Aceitaria, de bom grado, outro copo d’água, no entanto.”
Antes de servi-lo, McCoy franziu as sobrancelhas, intrigado.
“O senhor parou de beber, senhor Thornton?”
“Nunca fui muito do álcool, meu jovem.”
McCoy achou a expressão “meu jovem” muito curiosa, pois Thornton
talvez tivesse menos anos nas costas que ele. Sua postura rígida, seu rosto...
seria falta de educação perguntar a idade do xerife? Ah, melhor deixar para
outro dia. Pelo jeito, o xerife viera para ficar. E o pagamento? Até o momento
foi bondoso na gorjeta ao pagar a comida e a água, porém não mencionou se
esperava uma hospedagem gratuita no hotel. A sorte de McCoy é que nada
tinha a ver com as finanças do hotel, cujo dono era seu primo. E as garotas,
que pareciam tão assanhadas. Será que McCoy, ou melhor, Maria deveria
oferecer uma àquele homem que rejeitaria até mesmo um copo de uísque? O

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ideal era dar um basta a todas essas dúvidas e distrair-se com outra coisa.
Qualquer coisa. McCoy levantou a mão e gritou:
“Eh, mariachis, toquem uma rancheira.”
O líder deles parou de cantar e retrucou:
“Se o amigo McCoy nos der uma garrafa de tequila, comporemos uma
rancheira e um bolero em sua homenagem!”
A resposta era sem malícia. O mexicano sorriu com seus poucos dentes e
recomeçou a cantar a canção, dotado de maior alegria e entusiasmo.

***

“O senhor observou como as estrelas estão brilhando lá fora?”, ela disse


com a mão sobre a coxa do xerife, pressionando os dedos de forma que suas
unhas raspassem na calça.
“De fato, é uma bela noite, senhora...?”
“Maria.”
“Maria McCoy, correto? Esposa do...”
“Não vamos nos ater a formalidades, vamos, xerife?”
Para pronunciar “xerife”, ela estalou a língua contra o céu da boca e olhou
risonha para Thornton.
“Ó céus. Meu copo está vazio. Como isso ocorreu?”
McCoy, que estava a servir uns clientes, retornou para perto do xerife.
Maria não tirou a mão da coxa de Thornton, apenas moveu seu corpo de
modo a encobri-la. McCoy nada disse, apenas fez um sinal com a cabeça que
o casal já havia determinado como significante de “Ofereça uma menina!”.
Maria, então, aproximou os lábios vermelhos da orelha de Thornton e
sussurrou em uma voz cada vez mais aguda e feminina:
“Quer uma menina para a noite? Ou prefere alguém mais experiente,
alguém que esteja à altura de um homem como o senhor...?”
E escorregou a língua na orelha de Thornton, num prolongamento da
palavra “senhor”.

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A face do xerife corou inteira. Não ficou claro se por vergonha ou raiva.
Ele se levantou, jogando a mão de Maria para o lado, e parado ficou, como
para dizer algo, mas nada disse. Tentou exibir o maior desprezo que era
possível apenas com o olhar, pois homem vivido era Thornton.
Ele sabia que naquela terra, que naqueles tempos, o que importava era o
que os olhos diziam. Palavras não tinham significado para as pessoas. Eram
mal utilizadas. Eram confusas. Eram pervertidas e profanadas por monstros
que não sabiam o que fazer com a linguagem. O relevante estava na curvatura
da sobrancelha, na tensão dos músculos da face, nas rugas que se formavam
na testa. Na paisagem do rosto. Cada rosto era uma montanha
ou uma floresta
ou uma planície
ou um litoral
ou uma costa
ou um cânion
ou um deserto
como o que cercava Mavrak.
E Thornton disse tudo com o olhar. Houve uma pequena comoção no
saloon. Por mais silencioso que o ato tenha sido, a maioria se virou em direção
ao xerife, Maria e McCoy. Ele saiu do bar e se juntou à mesa de pôquer.
Gesticulou que não jogaria, apenas sentaria ali. Os jogadores não tinham o
hábito de permitir um estranho sentar-se junto a eles, porém quem
discordaria do homem da estrela de prata no peito? Um símbolo brilhante
daqueles carrega consigo resíduos de valor e peso, não interessa quão perdida
seja a cidade. Aliado a um homem sóbrio – sabe-se lá quão bom ele é na
pontaria, perto dos embriagados do pôquer –, estava aí uma pessoa que
ninguém se atreveria a importunar.
Thornton abaixou o chapéu e escondeu o rosto na escuridão. Há quem
diga que ele adormeceu no instante, um sonho tranquilo disponível apenas
àqueles que não arrastam fantasmas na consciência.

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A SALA DA CASA de Miguel Ramírez fora invadida por feixes de luz de
uma tarde pavorosa de tão tranquila. Pai e filho estavam sentados à mesa,
esquivando-se do sol, escondidos nas sombras. Comentou, então, Miguel:
“Você sabe que uísque no café fica uma delícia?”
“Acho que chega de uísque, não, pai?”
Miguel riu.
“Só umas gotas, Juanito. Para enfrentar o dia.”
Juan sorriu, porém não seguiu o conselho do pai e continuou bebendo seu
café puro. Achou esquisito que não fora necessário adicionar uma dose graúda
de açúcar na xícara.
“Até que esse café não está tão forte. Considerando a sua média.”
Miguel nada replicou, apenas fitou seu filho de modo estranhamente
sereno; uma árvore na floresta de galhos gordos que não se moviam nem com
tempestade.
“Sobreviveu àquela ressaca então?”
“Sim, pelo amor de Deus. Não pretendo beber tanto assim de novo por
um belo tempo.”
“Nunca vi alguém ficar tão mal. Por tanto tempo. Por Dios.”
Juan deixou cair a cabeça para trás, sobre o encosto da cadeira, e ficou
observando o teto. Com as mãos, tateou os bolsos atrás de um cigarro.
Quando baixou outra vez a cabeça, viu que seu pai lhe havia arremessado um
através da mesa. Colocou o cigarro na boca, e seu pai se debruçou sobre a
mesa com um fósforo já riscado. Juan levantou as sobrancelhas e comentou:
“Que eficiência...”
Contudo, ao olhar outra vez para o pai, a serenidade havia desaparecido.
Mais próximo da mesa, agora, Miguel era atingido por uns teimosos raios de
sol que revelavam uma expressão enrijecida e grave. Miguel tossiu.
“Eu não sei por quanto tempo mais poderei adiar essa conversa, filho.”
“Que conversa?”, replicou Juan, ainda não desprendido da inocência e

41
calma na voz.
“A que a gente vai ter agora.”
Miguel abriu a boca para falar, e então diss ØØØØ ØØ ØØØ
ØØØØØØ ØØ ØØØØØ ØØ ØØØ ØØ ØØØ ØØ ØØØ ØØ ØØØ
ØØØØØ ØØØØØ ØØØ ØØØØØØ ØØØØØØ ØØØØ ØØØØØ
ØØØØ ØØØØØØ ØØØ ØØØØØØ ØØØØØØØØ ØØØØ ØØ
ØØØØ ØØØØ ØØØ ØØ ØØØØ ØØØ ØØØØ ØØØ
ØØØ ØØ ØØ ØØØØØ ØØØ ØØ ØØØ ØØØØ ØØØØØØØ
ØØØØØ ØØØ ØØØ ØØØØØØ ØØØØØØ ØØØØØØ ØØØØ
ØØØ ØØØØ ØØØØ ØØ ØØ ØØØ ØØØØ ØØØØ ØØØ ØØØØ
ØØØØØ ØØØØØ ØØØ ØØØ ØØØ ØØØ ØØØØØ ØØØØØ
ØØØØØ ØØØØØ ØØ ØØØ ØØØØØ ØØØØØØ ØØØØ ØØØØ
ØØØ ØØØ ØØ ØØ ØØØ ØØØØ ØØØ ØØØ ØØ ØØØØ
ØØØØØØ ØØ
ØØØØ ØØØØ ØØØØ ØØ ØØ ØØØ ØØØØ ØØØØØ ØØ ØØØ
ØØØØØØ ØØØØØØØ ØØØØ Ø ØØØØØ ØØØØØ ØØØØ
ØØØØØ ØØ ØØØ ØØØØ ØØØØ ØØØØ ØØ ØØØØØ ØØØ
ØØØØØ ØØØØØ ØØØ ØØØØØ ØØØ ØØ ØØ ØØØ ØØØØ ØØ
ØØØØ ØØØ ØØØ ØØØØ ØØØØ ØØØØ ØØØØ ØØØØØ
ØØØØØØØ ØØØØØ ØØØ ØØØ Ø ØØØØ ØØØØØØ ØØØ
ØØØØ ØØØ ØØ ØØØ ØØ ØØ
ØØØØ ØØØØ ØØØØØØØ ØØØØØØ ØØØØ ØØØØ ØØ
ØØØØØØ ØØØØ ØØØ ØØØØ ØØØØ ØØ ØØ ØØØ ØØØØ
ØØØØ ØØØ ØØØØ ØØØØØ ØØØØØ ØØØ ØØØ ØØØ ØØØ
ØØØØØ ØØØØØ ØØØØØ ØØØØØ ØØ ØØØ ØØØØØ
ØØØØ ØØØØØ ØØ ØØØ ØØØØ ØØØØ ØØØØ ØØ ØØØØØ
ØØØ ØØØØØ ØØØØØ ØØØ ØØØØØ ØØØ ØØ ØØ ØØØ ØØØØ
ØØ ØØØØ ØØØ ØØØ ØØØØ ØØØØ ØØØØ ØØØØ
ØØØ ØØ ØØØ ØØ ØØØ ØØØØØ ØØØØØ ØØØ ØØØØØØ
ØØØØØØ ØØØØ ØØØØØ ØØØØ

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“QUE DROGA!”, eu exclamo sozinho em casa. O problema é grande
mesmo. Pelo jeito, não foi uma boa ideia passar a história para o computador.
Olhe isso! Devo ter pegado algum vírus na internet ou algo similar. Só pode.
Um dos trechos mais importantes dessa parte do relato desapareceu!
Transformou-se em um punhado de... que caractere é esse? Conjunto vazio?
Computadores, os malditos computadores. Essas máquinas parecem
alienígenas. Não sei lidar com elas. Sempre suspeitei que foram criadas apenas
para rodar o jogo de paciência. E agora? Vou ter que voltar para a máquina de
escrever?
Eu me pergunto se a culpa não é dos nachos. Deixei cair uns pedacinhos
nas frestas do teclado. Ah, que nada, não foi o teclado que estragou, foi essa
tranqueira do processador de texto.
Pego o telefone, mais enfurecido que o belzebu, e disco para o meu filho.
Fico impressionado com o fato de que ainda sei de cor o número dele. Seria
capaz de discar de olhos fechados. O telefone toca uma vez e eu desligo.
O que eu tô fazendo? Faz um tempão que eu não converso com meu filho
e decido ligar pra ele só porque o computador aqui deu problema, só porque
tive que interromper minha historinha? Não, isso não é certo.
Que incrível, esses conjuntos vazios são inapagáveis! Não consigo excluí-
los de forma alguma. Será que um daqueles tais de hackers invadiu meu
computador e tá de brincadeira comigo? Não adianta, eu não conheço técnico
nenhum, não quero gastar dinheiro com aqueles sujeitos nada confiáveis que
riem dos mais velhos porque não nascemos com um cabo de computador
encaixado no cérebro. Não quando meu próprio filho pode consertar com a
maior facilidade.
Vou ligar para ele.
Vou dizer que o computador é apenas uma desculpa para a gente se reunir,
botar o assunto em dia, essas coisas.
Um pretexto.

43
Disco outra vez.
Na terceira ele atende, uma voz sonolenta. Será que é noite ou dia? Estou
fechado há tempo demais nesse gabinete.
“Alô”, diz ele.
“Filho!”
“Quem é?”
“Como quem é? Porra, quem mais o chamaria de filho?”
“Juan?”
“Você pode me chamar de pai, sabia?”
Eu explico a situação. Ele diz que virá, porém não marca uma hora
específica. Por mim, tudo bem, meu relógio biológico já foi para os ares.
Até a chegada dele, decido prosseguir com o relato. Mas o trecho que eu
escrevi e foi cortado pelo vírus estava tão bonito, tão articulado. Não quero
reescrevê-lo. Vou continuar de onde eu parei, acho que talvez não cause
muito prejuízo ao entendimento da história. Se meu filho conseguir recuperar
o que foi perdido, tudo bem. Senão...

44
THORNTON CAVALGAVA POR uma das duas ruas de Mavrak
rabiscando anotações mentais. Ele passou por McCoy, que estava parado em
pé em frente ao seu saloon, apoiado em uma tora de madeira que servia de
sustentação para a sacada do segundo andar. McCoy levantou a aba de seu
chapéu claro para o xerife. Thornton comentou, sacudindo a cabeça:
“Eu ainda não consigo crer que vocês não tenham uma prisão, por mais
rudimentar que seja.”
“Por que precisaríamos de uma prisão?”, McCoy disse e, após escarrar na
areia, apontou para o lado e falou: “Nós temos uma bela forca.”
O poste de madeira e a corda que nele estava amarrada jaziam em tímida
quietude ao vento, estranhamente imóveis, como se sentissem as duas figuras
a observá-los.

***

A construção da casa do xerife iniciou da noite para o dia. Ele havia, de


fato, recebido uma bela soma do governo. Isso, ou então era rico de família e,
por questões de humildade, não o dizia. O fato é que madeira começou a ser
pregada, e o ruído de batidas de martelos dominou o povoado. O som, na
memória dos habitantes de Mavrak, sempre ligado à fabricação de caixões,
demorou a ser associado a outro projeto menos mórbido. Thornton
patrulhava o terreno onde estava sendo construída a casa, supervisionando os
trabalhadores que, ironicamente, incluía o coveiro Tuco. E, ao longe, alguém
observava Thornton intrigado.
Era Juan Ramírez.
Depois da conversa com o pai, passou a questionar se não havia sido ele,
Miguel Ramírez, quem convocara o xerife. Quem sabe seu pai já previa a
covardia do filho? Um filho que não sabe nem beber. Não pode ser homem
de verdade. Em especial, numa cidade onde, de acordo com Miguel, “a

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sobriedade é insensatez”. Com Martín, o legítimo Ramírez, a sete pés debaixo
da terra, todo o peso caía nos ombros de Juan. Ele fora escolhido para ser o
herói da família. Porém, não era capaz. Seu pai sabia disso. Até Juan sabia
disso. Então, talvez, Miguel tivesse enviado uma carta ao governo solicitando
a presença desse novo xerife. Por quais motivos? Para não deixar Mavrak
entrar em uma guerra que seria ganha, ao certo, pelos Marlowes? Para que
Thornton extraísse uma vingança pela morte de Martín? As hipóteses eram
muitas. Entretanto, Miguel negaria todas. Ele fingiu nada saber sobre a vinda
de Thornton ao povoado. Fingiu. Juan sentia culpa ao pensar nos termos de
“fingimento”. E se Miguel Ramírez não soubesse de nada? Se não tivesse sido
ele quem remeteu a carta ao governo? As hipóteses eram muitas. Talvez os
próprios Marlowes tivessem chamado o xerife, sabe-se lá o motivo, e a
discussão na chegada não passasse de um teatrinho ensaiado.
A figura de Thornton gerava fascínio em Juan. Um extraterrestre em
Mavrak. Nem mesmo seus colegas e professores da universidade pareciam
assim. Talvez porque eles passassem longe de povoados como o de Mavrak,
optando por frequentar apenas ambientes que se adequavam aos seus
intelectos privilegiados.
O sol caudaloso extenuava Thornton, o vento dava a impressão de
amplificar o calor, e gotas de suor cristalizavam-se em sua testa. Por isso, ele
retirou-se para um local mais isolado, na sombra, de onde ainda podia
monitorar as atividades dos construtores. O lugar era estratégico. Thornton se
tornou quase um fantasma, olhos na sombra a observar em silêncio.
Juan cogitou caminhar até lá e ter uma conversa reservada com o xerife. A
ideia soava tão estúpida! O que diria para ele? Em primeiro lugar, por que
queria falar com ele? O fato é que Thornton externava uma imagem de sábio,
de uma pessoa capaz de aconselhar. Juan batalhava com a indecisão e, quando
suas pernas tomaram coragem e ousaram um primeiro passo, Juan enxergou
outra figura se aproximar de Thornton. Uma figura de vestido marfim e com
uma sombrinha aberta para proteger-se do sol.
Era Maria.

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“Ora, ora, se não é o bravo xerife de Mavrak.”
“Se meus olhos não enganam, quem vem lá é a esposa do senhor McCoy.”
Ela piscou as pálpebras entupidas de sombra rosa.
“Meus amigos me chamam apenas de Maria.”
Thornton tirou o chapéu em gesto de cavalheirismo e, então, corou devido
ao seu ato.
“Construindo uma casinha pro senhor ter onde dormir?”
Ele aquiesceu.
“Se o senhor precisar de um lugar para dormir... se cansar daquelas camas
infestadas de pulgas do hotel...”
“O seu marido me disponibilizará um quarto que esteja vago no andar de
cima do saloon?”
Maria aproximou sua mão, coberta com uma luva de veludo roxo, do
rosto de Thornton, e fez com que ele virasse em sua direção. Fitou-o por
alguns segundos, segundos muito dolorosos para Thornton.
“O senhor xerife é figura das mais raras e esquisitas. Não entendo o
senhor.”
“Eu peço desculpas, senhora.”
“Maria.”
“Isso quer dizer que somos amigos?”
“Podemos nos tornar.”
Thornton respirou fundo. Mordendo o lábio inferior, tomado de
escuridão, falou em murmúrio irregular:
“Escute, minha senhora, Maria, eu sou um homem temente a Deus e,
sendo assim, eu desaprovo as atividades conduzidas no segundo andar do
saloon de seu esposo. Desaprovo, também, a atitude, a maneira de se portar,
de uma mulher casada como a senhora. Se meu principal dever fosse o de
botar Mavrak de volta nos eixos, com certeza já haveria fechado as portas
daquele prostíbulo hediondo. Mas não é essa minha função aqui.”
Maria o contemplou, ainda sorrindo, ainda alegre, ignorando quase tudo
que ele tinha dito. Sussurrou, então:

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“Nota-se que o senhor não é daqui. Se quiser saber como Mavrak
funciona, e o senhor vai precisar saber isso, pode sempre me consultar. O
senhor sabe onde me encontrar. Estarei esperando.”
Ela caminhou para longe da sombra. O relógio bateu três horas da tarde.
Os cabelos dela reluziam na claridade do dia, e qualquer traço de idade
desapareceu, como se ela tivesse sido congelada aos dezesseis anos. Ela piscou
e o mundo de Thornton chegou ao fim, para sempre devastado pela imagem
de Maria contra o sol, irradiando.

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“O QUE O SENHOR fará quando tiver pronta a sua casa e... escritório,
xerife?”
“Ora, interrogarei as pessoas. Parece a melhor maneira de investigar, dadas
as circunstâncias.”
“O senhor precisa construir um lugar para isso, para fazer perguntas às
pessoas?”
“Não.”
“Então, por que não começa a interrogá-las, xerife?”
“Quem disse que eu já não estou fazendo isso, McCoy?”

***

“Até que esse xerife anda se integrando ao pessoal, você não acha,
Sammy?”
“Que nada, Leon. Ninguém respeita homem que não bebe.”
“É. Tem razão.”
“É claro que eu tenho razão.”
“Seja como for... evite falar com ele, sim?”
“Se um dia eu conversar com ele, vai ser em tiros, não em palavras.
Promessa, irmão, promessa.”

***

“Esse xerife, Juanito.”


“O que tem ele, pai?”
“Ele não é homem de bem.”
“Ele parece de confiança, pai. Meio esquisito, mas...”
“Confiável para quê? Para manter o domínio dos Marlowes na cidade?
Para isso?”

49
“Vá preparar mais café, pai, não incomode.”

50
E SUCEDEU ENTÃO que, na noite, encontraram-se Juan Ramírez e o
xerife no saloon. Juan tomara uma dose de tequila responsável por remover a
inibição que o impedia de sentar-se ao lado de Thornton no balcão do bar. Já
acomodado na cadeira, Juan pediu para McCoy outra dose e ficou a girar o
copo, observando o líquido dançar, arquitetando uma primeira fala, um início
de diálogo descontraído, que rompesse o gelo.
“Não tem feito muitos amigos por aqui, hein, xerife?”
Juan se odiaria para sempre por essa frase. Thornton virou para ele, olhos
faiscantes, e perguntou:
“Como?”
Juan tartamudeou. Era preciso consertar aquilo:
“Não quis ofendê-lo... Ãh... Posso oferecer um copo...”, e Juan notou o
que Thornton bebia, “de água ao senhor?”
“Ah, mais um mavrakiano que acha engraçado encontrar um homem que
não bebe, é?”
“Não, não, de modo algum, senhor, eu mesmo não sou muito da bebida”,
disse Juan, afastando o copo de tequila.
“Acho melhor sentar-se ao lado de outro.”
“Não, não, senhor, por favor, começamos no pé errado. Deixe que eu me
apresente. Sou Juan Ramírez, acredito que o senhor xerife conheceu meu pai,
Miguel, e parte do motivo que o trouxe aqui foi a morte de meu irmão,
Martín.”
Ao ouvir o nome do falecido, Thornton desarmou sua expressão. Puxou
um cigarro de palha do bolso e o acendeu com lentidão.
“Diga-me, Juan Ramírez, o que você pode me contar a respeito da morte
de seu irmão?”
“Bom...”
“Aceita uma outra dose de seja lá o que senhor esteja bebendo?”
“Pensei que o xerife se incomodaria em bancar a bebida dos outros.”

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Thornton puxou a manga da camisa de Juan e disse em voz baixa e rouca:
“Todos são mudos aqui em Mavrak. Algum sacrifício é necessário da
minha parte, ainda que de cunho moral.”
Juan engoliu em seco e concordou com um breve gesto. Entornou o
pequeno copo de tequila e pediu, discretamente, outra dose. Já sentia sutis
indícios de embriaguez, tendões a relaxar, as amarras do mundo e da realidade
afrouxando, um peso sendo suspenso.
“Certo, o meu irmão, ele foi encontrado morto na sua própria casa, depois
de uma noite de tempestade.”
“Sim, sim, isso já dizia na carta enviada ao governo.”
“O meu pai está crente de que foram os Marlowes. Não sabe qual, pode
ter sido Samuel ou Leon. Ou ambos.”
“Eu já pude perceber certa rivalidade, sim, porém o senhor está me
dizendo o trivial, Juan, eu quero o que ninguém sabe!”, disse Thornton,
batendo o punho contra o balcão.
Juan se encolheu e olhou ao redor, intimidado.
“Xerife, o senhor há de me desculpar, mas pouco sei sobre o assassinato.
Até a carta que meu pai escreveu deve conter mais informação.”
“Foi seu pai, Miguel, quem escreveu aquela carta?”
“Eu pensei que o senhor soubesse quem a escreveu, não?”
“Não, ela não foi assinada.”
“Hum.”
Os dois ficaram pensativos. Thornton olhou de soslaio o copo de Juan e
desejou, por alguns momentos, também beber um pouco, introduzir uma
substância inédita em seu corpo e em sua mente. Uma substância capaz de
sacudir as coisas, de apresentar um novo ponto de vista, um novo olhar sobre
uma situação que era pura obscuridade e mistério, um caso de assassinato cuja
única solução soava óbvia demais para ser verídica. Beber um pouco para não
afugentar os outros mavrakianos, para que eles pudessem também sentar ao
seu lado e compartilhar informações úteis ou conversa pequena. Beber para
aprisionar a sua timidez e seu senso moral, mesmo que por poucas horas, para

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que um novo Thornton emergisse daquele corpo, como um personagem em
uma ficção, e tomasse Maria pela mão, conduzindo-a até a alcova.
“Posso lhe fazer uma pergunta, xerife?”
Thornton deu de ombros.
“Claro.”
“O senhor acha que foi meu pai quem pediu a sua presença aqui nessa
cidade?”
“Não.”
“Por quê?”
“Pela maneira como ele olhou, ao responder a essa acusação, no dia em
que cheguei. Pela sua surpresa.”
Juan concordou. Seu pai era capaz dos gestos mais sinceros. Apoiou-se
sobre a mesa, afundando cada vez mais sobre seus próprios cotovelos. O
crucifixo de prata que pendia no pescoço de Thornton reluzia em igual
intensidade à sua estrela de xerife.
“É homem religioso, xerife?”
Thornton guardou o crucifixo dentro da camisa.
“Sim. Algo de errado?”, ele perguntou, tranquilo, sem ameaça.
“Eu só não entendo o que o senhor veio fazer aqui.”
A voz de Juan adquiriu tons lamuriosos e sofridos. A conversa descendia a
poços subterrâneos de sussurros, e a expressão de Thornton tornara-se
melancólica e ausente.
“Foi o que Deus quis”, e riu sem rir, prosseguindo: “Deus e o governo.”
“Então, é isso. Deram-lhe uma missão e o senhor obedeceu.”
“Sim.”
“Porque acredita no governo.”
“E porque acredito em mim. Porque sou um filho de Deus e um homem
de paz, e vim trazer paz a uma cidade que claramente está em falta dela.”
Juan contemplou a figura de Thornton. O saloon pareceu um lugar
estático e calmo, os ouvidos de Juan sequer se davam ao trabalho de processar
o barulho de copos sendo batidos contra as mesas, de gargalhadas histéricas

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das mulheres da vida ou da narração exaltada que um pistoleiro fazia de um
causo.
“O senhor acha que a paz pode ser alcançada de modos diversos, xerife?”
“Como assim?”
“Não há só uma maneira de chegar à paz. Há quem diga que a guerra é
um meio.”
“Bom, há a maneira de Deus, e essa me parece a melhor a seguir.”
“Porém, o senhor, digo, qualquer homem a desconhece.”
“Você tem razão ao afirmar que não temos como saber o que Deus pensa,
de fato. Só nos resta agir da melhor maneira possível com as oportunidades
que nos são dadas.”
Thornton pigarreou. Foi sua vez de perguntar:
“Você quer a paz em Mavrak?”
“Sim.”
“Sabe como buscá-la?”
“Talvez. Acho que meu pai sabe melhor. Ele sempre soube liderar os
Ramírez.”
O rosto de Juan reluzia com uma súbita agitação.
“Fico contente. Então, poderemos trabalhar juntos para...”
Thornton interrompeu sua fala graças aos movimentos de Juan. O jovem
Ramírez ajeitou a camisa e o chapéu, levantou-se de repente. Afirmou, como
se discursasse para uma grande plateia:
“Eu acredito em mim.”
“Como?”
“E eu acredito no meu pai.”
“Do que o senhor está... senhor Juan, já vai?”
E Juan Ramírez já estava no meio do saloon, rumo à porta de vaivém, em
passos ansiosos, tremendo de entusiasmo.

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“POR QUE ESTÁ SORRINDO desse jeito, filho?”, inquiriu Miguel.
“Pai, pai. Se eu soubesse.”
“Soubesse o quê?”
“Que não foi você quem chamou o Thornton!”
Miguel riu do fundo da garganta, uma risada que desandou em tosse.
Uma tosse que retornou à risada de origem, encerrando o ciclo.
“É claro que eu não chamei o xerife. Ele até dificultou as coisas.”
“Que coisas?”
“Aquilo que eu lhe pedi na outra tarde.”
“Ah. A missão. O plano de invadir o casarão outra vez. Repetir a estratégia
de Martín.”
A imagem de Martín entrando pela janela da casa dos Marlowes
relampejou na mente de Juan. Já na cabeça do pai, emergiu a imagem de
Martín em uma poça de sangue.
“Alguém há de fazê-la, não? Porém, a chegada do xerife põe mais riscos em
algo que já não era muito seguro.”
“Sim, de acordo.”
Juan encarou seu pai ao erguer o pescoço e estufar o peito em busca de um
visual heroico que fosse adequado ao que estava prestes a pronunciar.
“Pai... Eu estou pronto. Quer dizer. Eu aceito. Fazer o que for necessário.
Eu acredito no senhor. Sei que o senhor busca o melhor para todos nós.”
Para sua completa decepção, Miguel mal lhe deu atenção; seguiu em seus
próprios pensamentos como se estivesse em um profundo monólogo em sua
mente que não poderia ser interrompido.
“O plano, o plano há de mudar. A chegada do xerife... E os riscos.
Imagine você também em uma poça de sangue.”
A garganta de Juan enroscou-se ao redor de si. Ele mordeu a língua e
rangeu os dentes, deixando a cabeça pender para baixo.
“Isso não importaria tanto para você, não é, pai?”

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As pálpebras de Miguel pressionavam e relaxavam, as rugas arranhando a
pele, indício de um esforço mental além da sua capacidade ordinária. Pensar
não era uma atividade muito comum para o patriarca.
“Falou algo, filho?”
“Não, nada.”
Juan sacudiu a gola da camisa com a mão para entrar ar, pois a sala parecia
abafada. A sensação apenas piorou, até Juan considerar a sala um ambiente
esmagador, como se o teto tivesse baixado quase um metro, a ponto de
converter a peça em um enorme caixão. Juan sabia que era necessário escapar
dali, então foi à cozinha buscar um copo d’água. Bebeu o líquido purificador
em goles generosos. Afastou a chaleira do fogão a lenha para interromper seu
chiado.
Cortinas claras cobriam uma pequena janela de vidro. Juan as afastou e
pôs-se a analisar as sombras das pedras e das casas. Recordou-se de que não
sabia as horas. Se o tempo fosse como a areia (e ele, com frequência, sentia
que era), os últimos dias tinham sido como uma ventania no deserto. Areia no
ar. Névoa de areia. Nuvem de areia. Confusão temporal. As noites haviam
sido esquecidas ou separadas dos dias, como se paralelas; o ontem se tornava o
hoje em naturalidade assombrosa, encaixado um ao outro em uma corrente de
metal. Ou de areia. Sim, uma corrente de areia, grãos tão pequenos que não
revelavam jamais o espaço, a separação. Uma fluidez desconcertante,
granulada somente para os observadores mais atentos.
Resmungos incompreensíveis vinham da sala. Juan voltou para averiguar.
Seu pai estava a praguejar, coçando a cabeça, e, ao ver Juan parado na porta,
disse:
“Sabe de uma coisa? Acho que os Marlowes é que chamaram esse xerife.
Para que ninguém tentasse outra vez descobrir o que eles estão fazendo no
porão.”
Com a mão apoiada no queixo, Juan refletiu:
“É... uma boa teoria...”
“Filho, você viu o mundo, conheceu dezenas de ianques. Diga-me: o que

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eles podem estar tramando em um porão?”
“Eu não faço ideia, pai. Podem ser muitas coisas. Talvez, eles tenham
sequestrado um homem de ciência e o colocado a trabalhar lá.”
Juan olhou a mesa. Havia uma coisinha se mexendo nela.
Aproximou a cabeça. Fez um “ah!” de susto e se afastou.
“Pai, tem um... tem um verme ou algo assim em cima da mesa.”
“Ah, você parece uma mulherzinha, Juan, é só um bicho qualquer.”
“Sim, mas esse tipo de verme não costuma andar junto com outros, em
magotes, sei lá? Ele parece aqueles que comem cadáver.”
Juan lembrou-se que, há pouco, estava percebendo a sala como um grande
caixão. O verme corroborava de forma inusitada a sensação. Miguel admirou
o solitário serzinho.
“Que nada! Asneira. Esse é que nem os gusanitos que vivem nas plantas de
agave”, disse Miguel.
Tocou-o com o dedo e observou como ele se contorcia, cabeça e rabo
indistintos, pois não passava de um bastonete uniforme. Por fim, Miguel
esmagou-o com a palma da mão.
“Vermes... Mortos...”, balbuciou Miguel.
Havia repulsa em cada músculo da face de Juan.
“Temer o que os Marlowes fazem no porão é natural, filho. Perfeitamente
natural.”
Juan aguardava, estarrecido ainda com a cena, a continuação do discurso
do pai. Ele conhecia Miguel, e quando Miguel tecia uma expressão de louco,
cuspindo palavras de delírio, era o início de uma longa fala.
“Porque... como não temer o futuro? O que eles trabalham é com o
futuro, filho. E, até agora, tudo que vimos do futuro é nocivo, perigoso.”
“Pai, o senhor não sabe o bem que fizeram os trilhos de trem lá pra cima
do mapa.”
“Trilhos de trem. Massacram povos para colocar ferro em cima da terra.
Eles privilegiam o ferro, filho. Os metais vão ganhar a batalha contra os
humanos. E você pensa que não é uma guerra. Ah! O que você sabe sobre

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guerras?”
“Quando eu visitei as cidades grandes, poucos anos haviam se passado da
grande guerra entre Norte e Sul.”
“Você tem razão, filho. Os humanos guerreiam entre si. Mas, enquanto
eles trocam tiros de canhão, uma guerra maior acontece, por baixo de todos os
panos. E quase homem algum enxerga.”
“Metais.”
“As máquinas, Juan. As máquinas. Ouvi notícias de uma geringonça...
com o poder de umas vinte pistolas. Não, mais, pois disparam em sequência.
A chamam de... de...”
“Gatling gun.”
“Bueno, nós aqui temos um nome para isso, um pouco mais ‘nosso’.
Chamamos de metralhadora.”
Juan suspirou, encurralado na monotonia inescapável que sentia ao
conversar sobre os avanços da tecnologia com seu pai.
“E se for nisso que os Marlowes trabalham? E se for nisso, Juan?”
“O que eles fariam com uma metralhadora, pai?”
“Que ingenuidade! Acabariam conosco, filho. Com os Ramírez. A terra
seria toda daqueles idiotas.”
“Você está exagerando”, retrucou Juan.
“Uma guerra. É o que eles querem. Com sorte, é o que terão. Porque nós
também temos o nosso segredo no porão.”
Juan não entendeu o que Miguel quis dizer com o “porão deles”, portanto
ignorou.
“Eu não acho que eles vão acabar com os Ramírez, pai.”
“Imagine. Imagine. Não haveria mais tequila nessa terra, só uísque.”
Os dois riram.
“Se bem que um uísque tem me caído melhor”, disse Miguel.
E agora Miguel riu a todo o vapor, com os dentes faltantes e os outros
tortos e amarelados, sem vergonha alguma. Juan o acompanhava e desse riso
se tornava cúmplice. O assunto era passível de brincadeira sem perder a

58
seriedade, que logo retornaria para lembrar Juan de que ele era o filho de
quem se esperava uma resolução. A gargalhada era a forma de selar um acordo
implícito, definidor de Juan como o Ramírez capaz de tomar atitudes e
realizar ações, de reorganizar Mavrak. Pois sobrara apenas ele no núcleo
familiar com uma idade adequada para assumir tal missão. Juan era a última
alternativa para uma família que farejava no odor de pólvora o cheiro da
extinção iminente.

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COMO NÃO TEMER a tecnologia? Eu disco e disco para meu filho, mas
agora o celular cai na caixa de mensagens. Essas geringonças tendem a estragar
sozinhas. Por onde ele anda? Quanto tempo faz que liguei para ele?
A história está ficando tão nervosa que acabei me contagiando. Logo virão
os tiros e, com eles, o alívio.
Aquele trecho continua ilegível. Culpa dessa era moderna. Computadores.
Computadores. Vírus. Parece gente. Como não temer a tecnologia? Miguel
Ramírez está cem por cento correto. Ele lembra, em certas instâncias, o meu
pai. Ele sempre delirara com o dia em que as máquinas viriam e nos
dominariam a todos, como nos romances de H. G. Wells. Mas quando eu,
Juan, tinha a idade de Juan Ramírez, o herói da história, também achava um
pé no saco essas conversas. E tentava mostrar para meu pai que o rádio
portátil não era obra do demônio.
Pesemos prós e contras. O que a tecnologia nos trouxe de bom? Se, por
um lado, posso rever meus faroestes favoritos em alta resolução no aparelho
de DVD, por outro, mísseis modernos atravessam o céu lá no Oriente Médio.
Exemplos estapafúrdios, eu sei. Como quantificar? Seria possível concluir algo
quantificando? Existe algum paralelo entre avanço tecnológico e progresso
moral?
Eu falava do passado agora há pouco, do Velho Oeste. Onde a morte vivia
em cada canto. Nada que ver com minha vida pacata nesse apartamento no
centro do D.F., a grande aranha urbana do México. Vidros isolantes de som,
o ruído atordoante das infinitas formigas que se atropelam pela rua não
alcança meus ouvidos. A morte vivia em cada canto do Velho Oeste.
Comecei a primeira linha da história de Mavrak com o objetivo de
mostrar (para quem? Para mim?) que aquela época era pior. E em muitos
sentidos eu estava certo. Na primeira vez que apareceu uma dama, por
exemplo. Eu sabia que naquela época não poderia fazer dela uma heroína, que
ela não seria poderosa.

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Agora tenho tantas outras dúvidas. E se eu estiver reproduzindo minha
relação com minha ex-mulher nessas linhas? E se não for só precisão histórica
o que eu busco ao caracterizar as mulheres dessa forma? Se for culpa da minha
mentalidade, quase tão arcaica quanto a daqueles pistoleiros? Ninguém
deveria escrever nada nunca, não há glamour ou prazer, só tormento.
Por onde andará meu filho? Será que está seguro?
Preciso me distrair.
Continuar escrevendo, aconteça o que acontecer. Não entendo por que
parei. Sempre que me afasto do mundo das palavras, é como se alguém tivesse
apertado o botão de pause e congelado o rosto dos Ramírez na expressão facial
mais ridícula.
Sinto-me um pouco travado. Talvez devesse imitar Baudelaire (ou seria
Rimbaud ou Musset?) que escrevia bebendo absinto, com uma prostituta nua
no quarto para aquecer a inspiração. Todos esses personagens – digo, meus
antepassados –, eles bebem sem parar. É natural que me sinta contagiado pela
bebedeira deles.
Ocorre-me, por um momento, que, ao focar tanto no hábito deles de se
alcoolizar durante a narrativa, eu tenha emprestado a eles um desejo meu.
Pois, ao contar uma história, se faz um recorte do que mostrar ou esconder. E
nenhum recorte é imparcial. Preciso continuar escrevendo e tentar ser mais
consciente de cada palavra. Não há inocência na escrita, e Deus bem sabe que
eu estou afogado em hábitos nada virtuosos.
Enfim.
Por onde andará meu filho?
Vou ao balcão de bebidas; só tem tequila. Añeja, envelhecida. Como eu.
De acordo, parece adequado para dar prosseguimento à trama. A mulher nua
por enquanto haverá de existir apenas na minha imaginação. Talvez eu possa
evocá-la nas palavras.

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DESDE SEU RETORNO ao povoado de Mavrak, uns meses atrás,
poucas vezes Juan Ramírez se deparou com a jovem Vienna, agora já saída da
juventude plena. Sua idade era próxima à de Juan: pouco mais de vinte anos.
Nesse dia, o calor estava fora do ordinário, como se o planeta Terra fosse
um pernil a girar em torno de uma grande fogueira, o Sol. Até os cactos
pareciam sofrer com a temperatura. E Juan, de tédio, vagava por Mavrak,
chutando pedrinhas com a mente flutuando, até ser arremessado de volta ao
mundo real com a visão de Vienna Marlowe a lavar roupas em uma volumosa
tina de madeira escura. Impressionou-o, em primeiro lugar, a cor de sua pele,
terrivelmente clara, mesmo morando nessa cidade tão tostada. Vienna
deleitava-se com o contato abundante com a água, com os braços molhados
até a ponta dos ombros magros, entretida com o ofício de modo que nem
notou a aproximação de Juan. Ele tirou o chapéu, em gesto de cortesia, e
curvou-se em polida reverência.
“Senhorita.”
“Juanito, nossa! Quase deixo cair tudo de susto!”, disse Vienna em
sobressalto.
“Perdão, não foi meu propósito.”
Ela piscou, amigável.
“Faz algumas décadas que não conversamos direito”, disse Juan.
“Eu achava que os Ramírez não falassem com os Marlowes.”
“Vienna, você sabe que eu sempre a chamei de Julieta, não?”
“Isso era há muito; antes de você viajar para enfiar a cabeça nos livros.”
Palavras saíam da boca de Vienna cada vez em maior número, e Juan,
mesmerizado pela figura da moça, deixando-se levar pela inundação de
memórias de um Juan e uma Vienna com uns dezesseis anos, a descobrir a
maneira que seus corpos funcionavam em cantos escondidos da cidade de
Mavrak, como a parte de trás da igreja.
Eles estavam mais velhos agora e, ainda assim, palavras foram descartadas.

62
Eram desnecessárias para sinalizar o desejo: tudo se encaminhava com
naturalidade.
A intensidade borbulhante das emoções fez com que trechos do tempo
evaporassem. Em um momento, havia os olhos nostálgicos de Vienna e seus
braços encharcados de água hipnotizando Juan. Em outro, o contato de lábios
em fricção nervosa. E, então, ela estava deitada sobre um monte de feno no
estábulo próximo, e Juan intrigava-se com o complexo de fitas e botões que
prendiam o vestido de Vienna ao corpo dela. Ele cedeu, cedo ou tarde, e as
portas se abriram. Juan estava dentro da moça, os dois suados, dominados
pelos instintos e por uma libido descomunal, e, se não for arriscar demais,
perdidamente apaixonados um pelo outro, como se o hiato dos anos que Juan
passou fora houvesse sido apagado da memória e, por que não, do próprio
tempo em si; como se aquele momento, ali, em cima do feno, fosse a extensão
natural e fluida de um grande contínuo que havia sido o relacionamento dos
dois.

***

Juan agora jazia resfolegante ao lado de Vienna. Ele virou o rosto na


direção dela e acariciou seus cabelos úmidos. Olhou fixo para ela, em busca de
uma ponte entre a Vienna que conhecera antes da viagem e aquela mulher ao
seu lado.
“Está tudo bem?”, ela perguntou.
“Sim”, murmurou Juan, com uma pontada de secura.
Ela beijou-o na bochecha direita.
“O que você está pensando?”, ela inquiriu.
“Bobagens.”
“Sim. Mas que bobagens?”, ela disse rindo, passando o indicador sobre o
nariz de Juan.
“Eu me lembro de você ser mais... silenciosa.”
“Silenciosa? Como? Na hora de...?”

63
Juan assentiu.
“Ah, você sabe como as coisas são, Juan, agora não sou mais uma
garotinha inexperiente...”
Juan desviou o olhar, perturbado. Ele se lembrou que as companhias
femininas e modelos de personalidade para Vienna, esses anos todos,
deveriam ter sido as prostitutas. Afinal, boa parte das mulheres em Mavrak
levava tal vida. As conversas que provavelmente travavam! O linguajar!
“O que, Juan, você não esperava que eu ficasse solitária todo esse tempo
que você esteve viajando?”
“Não, claro que não.”
“Então”, arrematou Vienna, e deu por encerrada a conversa.
Ela riu. Ele seguiu na quietude.
“O que foi, Juan? Não vai me dizer que você não se amigou com umas
dezenas de garotas lá pelo norte?”
“Bom, uma que outra, casos passageiros.”
“Viu? Santo você também não é.”
“Mas elas não significaram nada para mim.”
Vienna respondeu com um: “E o que o faz pensar que meus casos também
não foram insignificantes?”
E Juan pensou que sim, era uma boa resposta. Porém, incomodou-o em
particular o fato de que talvez ele fosse outro caso insignificante. Não mais
sentia aquele estábulo em chamas, e os barulhos dos cavalos eram esquisitos
demais para ficar à vontade. Juan rolou outra vez por cima de Vienna e tocou
seu queixo.
“Quantos foram?”
Ela riu, incrédula.
“Como?”
“Quantos. Quantos homens.”
“Ah, Juan, não me dei ao trabalho de contar.”
“Mais de cinco? Hein?”
“Sim, acho que sim, mais de cinco.”

64
“Não com meu irmão, né?”
“Claro que não, você sabe tão bem quanto eu que ele era o brinquedinho
favorito da sra. Maria McCoy.”
“Hum”, e suspirou. “Algum Marlowe?”
“Que diferença faz, Juanito?”, ela disse, estendendo o “o” final.
“Eu acho importante, você não acha?”
“Eu sou uma Marlowe, Juan, não se lembra disso? Esquisito seria se eu
fosse para a alcova só com Ramírez. Sou sua Julieta, esqueceu?”
Juan tentou sorrir, sem sucesso.
“Com Leon. Seu primo.”
“Relaxe, Juan, não fiz nada com o Leon, não.”
“Samuel.”
Ela silenciou.
“Eu não acredito que você fez... isso... com Samuel.”
Ela engoliu em seco.
“O que tem de errado, Juan, eu era uma moça sozinha e solteira.”
Agora, Juan estava de pé, a vestir as calças, com o rosto avermelhado.
“Samuel Marlowe. Ele é um. Um ogro. Não, pior. É um covarde metido a
valentão. Ele é um...”
“Eu sei, Juan, eu sei.”
Com a mão no peito, Juan respirava difícil, como se recém tivesse sido
atingido por um disparo de revólver.
“Não estou me sentindo muito bem...”
“Juan, faz tempo, faz tempo.”
“Quanto?”
“Por que esse interrogatório? Eu não preciso responder nada para você!
Não sou a sua maldita esposa!”, disse Vienna, em voz alta o bastante para ser
ouvida por alguém lá fora.
Juan deu uma pausa e repetiu: “Quanto tempo?”
“Um ano, talvez um pouco menos.”
Ele tateou as paredes, com a mão apertando a própria carne.

65
Estrebuchava a cargo do tiro invisível que recebeu e, então, cuspiu um
princípio de vômito no chão de areia.
“Você... você gostou?”
“Juan, isso é desnecessário.”
“Foi bom? O negócio dele é maior que o meu? Ele sabe fazê-la gemer
mais? Ahn?”
Vienna rumou para onde Juan estava, sem roupa alguma contra a pele, e
empurrou-o. Ele a segurou pelos braços.
“Sim. Foi bom. O negócio dele é maior que o seu mesmo. Porém, nada
disso importa, bastard. Você não vê que eu gosto mesmo é de você? Que
diferença faz com quem eu já me deitei? Droga!”
“Calma, não grite, Vienna.”
Lágrimas já escorriam desordenadas pelo canto dos olhos dela, enquanto
desferia uma sequência de tapas afobados contra Juan. Ele desviou o olhar e
acreditou, por uns instantes, ter visto Samuel Marlowe na janela. Quase disse
para Vienna, porém ela argumentaria que era alucinação, fruto do seu ciúme
patético. Mas e se Samuel estivesse mesmo do lado de fora, observando e
tramando? Conspirando... Sim, “abusar” de sua prima seria motivo forte o
suficiente para os Marlowes justificarem outro assassinato – como eles devem
ter assassinado seu irmão Martín. Juan parou, surpreso por raciocinar como
seu pai. Não havia provas de que qualquer Marlowe fosse culpado, mas,
naquele instante, Juan era capaz de pôr uma bala no meio da cabeça de
Samuel. Não. Por que a pressa? Primeiro, Juan miraria um tiro na virilha de
Samuel. Depois, arrancaria seus colhões com uma faca. E então, um tiro nos
intestinos, como o que Martín sofreu, para que sentisse o cheiro de sua
merda. E não, nada de tiro na cabeça. Nada de alívio para Samuel. Que ele
agonizasse até a morte. Talvez o pisoteasse um pouco. E, quando morto, Juan
abaixaria as calças e mijaria em seu cadáver. E chamaria Vienna para ver. “Ó,
seu primo recebeu o que merecia.”
No mundo real, onde não era possível que todos os desejos sádicos de Juan
se concretizassem, Vienna o abraçou por trás.

66
“Que diferença faz? Eu nem penso mais no Samuel. Foi uma coisa do
momento. Você estava distante, talvez com outra mulher em sua cama no
mesmo instante. Aposto que, de agora em diante, você vai pensar mais em
mim com o Samuel do que eu mesma penso. E isso, querido, é bobagem. O
que importa é o presente.”
Nada era tão simples assim para Juan, em especial o tempo. O seu desejo
fora apaziguado, e ressurgiu a capacidade de raciocínio. O hiato de anos de
separação entre Juan e Vienna nunca poderia ser esquecido por mais de alguns
minutos. Ao menos para ele, cuja memória sempre demonstrara ser
implacável.
Juan sentia o tempo como a areia. Por mais que desejasse voltar atrás e
reconstruir o passado para alcançar um presente ideal, sem erros ou desvios,
seria necessário que cada grão de areia retornasse à sua posição original de três,
quatro anos atrás. Porém, os grãos são tantos! Coisinhas minúsculas que
quando juntas parecem formar o infinito. É impossível que cada um volte ao
lugar correto. Paisagens de areia são irrecuperáveis. O tempo é irrecuperável.
A missão era (foi, e continuaria sendo) aceitar o atual estado da areia, com
plena consciência de que o vento ainda a arrastaria muito, desorganizando
cada vez mais os grãos, de modo que atingissem posições inéditas e
inesperadas. O vento carrega a areia, e a areia carrega tudo, e um dia Juan
também estaria embaixo da areia, levado para sempre pelo tempo, esquecido.
Perturbadora mesmo era a tranquilidade infundida em Juan nesses flertes
mentais com a própria morte, com o mergulho final na areia.

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O PROBLEMA DE BEBER é que fico demasiado poeta. Não “poético”,
isso envolveria um dom para a coisa. Demasiado poeta, o estereótipo clássico,
sujeito chato que acha tudo belo, entedia os amigos na mesa de bar e declama
versos nos momentos mais inoportunos.
Dou por mim, estou a chafurdar num resmungue sobre a areia e o tempo.
E pensar que comecei o capítulo transformando um episódio de drama
enciumado que um amigo viveu em matéria cômica. Como fui parar naquela
última linha tão suicida?
Ah.
É uma tequila deliciosa. Como rejeitar mais um copo? Porque, ah, é
necessário admitir. Há beleza em tudo. Sou um panteísta que não saiu do
armário.
Talvez eu só critique os poetas porque seja um poeta frustrado.
Vamos com calma. Eu, poeta frustrado. Não me diga. Será que já cheguei
ao ponto da bebedeira em que fico deprimido?
Rá!
Não. Ainda estou me divertindo demais com o negócio. Acho que estou
no ponto ideal. Só preciso mantê-lo. Então, mais um copo. Uff. Respiro
fundo e estalo os dedos. Noite bonita. Olho a pilha de páginas que já digitei,
dá um certo ânimo. Onde anda meu filho? Cansa digitar em uma máquina de
escrever antiga, ter que esmurrar as teclas, cansa. Tudo bem, tudo bem. Está
ficando divertido.

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Solilóquio interior do xerife Thornton (um trecho)

OH, E QUANDO estiver pronto o meu pequeno quartel será preciso transferir
todos os cartazes de PROCURA-SE, no momento espraiados pela cidade, pregados
ou colados em qualquer casa, não me surpreenderia se houvesse um na igreja (se
houvesse, em primeiro lugar, uma igreja inteira!), de um estuprador, herege, nada
mais me surpreende nessa Mavrak, para falar a verdade, poderia muito bem o
Nosso Senhor cavar um espacinho no céu e descer uma luz aqui, uma luz
avassaladora que limparia para sempre a cidade, queimando todos os habitantes,
talvez, menos eu, claro, porque eu não sou daqui, não, eu vim de longe. Porém,
Nosso Senhor nunca viria aqui, ah, o desejo é o seguinte, o desejo é de colar um
cartaz de PROCURA-SE VIVO OU MORTO NOSSO SENHOR, pois Ele não
se mostra nunca por aqui, nessa terra alheia de Deus, ah, o desejo é desenhar isso
na areia, no meio da cidade. Eu bem que poderia fazer um PROCURA-SE para
o assassino de Martín Ramírez, sim, e, na hora de colocar o desenho, deixaria um
branco, uma imagem em branco e, abaixo, o valor da recompensa. Isso não cairia
bem, só Deus sabe o que os Ramírez iam interpretar disso, vai que julgassem
motivo para iniciar uma vendeta desvairada, e quando vejo lá estão pai e filho,
Miguel e Juan, com duas cabeças de Marlowes na soleira da minha porta,
dizendo: “Oh, pegamos o assassino invisível.” Arriscado demais, e gente doida é o
que não falta nesse povoadinho arenoso.
E olhe ali, olhe ali, quem está a caminhar, se não é Miguel Ramírez, pensava
nele agora mesmo: “Olá, senhor Miguel”, “Buenos”, “Conversei com seu filho
noite dessas”, “É?”, “É. Garoto esperto, quiçá sensível”, “Infelizmente, não há
espaço para gente sensível aqui no Oeste, como o senhor bem sabe, xerife.” E
Miguel escarrou no chão, catarro verde, denso, viscoso, asqueroso, repugnante,
como se cuspisse a podridão de uma alma obscurecida, e acho que é por isso talvez
que todos os mavrakianos (nunca vou entender o nome dessa maldita cidade)
cuspam com tanta frequência. Siga o caminho, Miguel, isso, silencioso como você

69
é, um fantasma andarilho, e olhe lá quem vejo lá, se não é o filhote Juan, garoto
simpático, eu realmente gostei da nossa conversa noite passada no saloon, percebe-
se a quilômetros que o jovem estudou lá no Norte, onde até escravidão é assunto do
passado, lugar civilizado, Deus está do lado dos ianques, mas, pensando bem,
também está do lado dos mexicanos, povoados lindos que conheci mais para baixo
do mapa, ah, talvez seja isso, talvez Deus não goste dos entrelugares, talvez estar
entre uma coisa e outra seja por demais desagradável ao Nosso Senhor. E para
onde vai o Juan, Juan, Juanito? Olhe só, caminha rumo ao Sergio, criança
bonita, guapa, eles diriam, e o que Sergio tem na mão, o que, que porcaria é essa,
que inferno, Sergio está segurando um revólver ou é impressão minha?, Deus do
céu, Juan está com cara preocupada, eu preciso ir lá, eu preciso ir lá, que idade
tem esse Sergio? Calma. Isso, vamos averiguar a situação. Calma, com calma, não
demonstrar nervosismo nunca, você é a autoridade aqui nessa terra sem Deus, é
mister passar uma boa imagem, você é um representante de Deus na sua ausência,
rígido, porém bondoso, você exala boas intenções e transmite segurança: “Mas o
que está ocorrendo aqui?”, “Senhor xerife, eu mesmo dizia para o Sergio que não
se brinca com armas de fogo”, “Eu não tô brincando tio, eu sou um pistoleiro,
muchacho!”, “Garoto, entregue a arma para seu tio, ele tem razão, quando mais
velho ele o ensinará a atirar.” “Não, não, não, quero aprender agora, enchi o saco
de atirar moeda para cima, quero dar tiros, quero ser um caubói corajoso, senão
vou crescer e ficar covarde que nem o tio Juan”, “E isso são modos de falar de
mim? Não tem mais respeito, menino?”, “Calma, Juan, calma”, “Escutei o vô
falando, falando que tinha medo que você fosse um covarde, então eu pensei que
eu não poderia ser um covarde também, eu quero ser o pistoleiro mais rápido do
Oeste para poder proteger toda a minha família.”
A cena deve ser excruciante para o Juan. Acho que o revólver não está
carregado. Vou deixá-los em paz; é assunto menor.
Às vezes, o sol bate de jeito esquisito sobre a terra, e a areia ganha uns tons
curiosos. O que será que Juan estudava lá por cima? Tão interessante seria se fosse
geologia, o jovem explicaria essas coisas. O moço a discutir com Sergio. As feições
fatigadas de tanta pressão e humilhação.

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Um dia, Juan vai vomitar areia.

71
MIGUEL RAMÍREZ SE ALVOROÇOU em busca do filho Juan na
fatídica tarde. Era preciso chamá-lo no instante para o canto de Mavrak para
que o jovem de formação acadêmica averiguasse marcas suspeitas cravejadas
contra a parede do estábulo. Então, lá foi Miguel, no seu tropeço atrapalhado
atrás do filho e, quando por fim o levou até o local almejado, ficou a olhá-lo,
a boca salivando de antecipação, a silhueta em sacudidelas devido ao silêncio
forçado.
“E então? Ãh? Ãh?”, inquiriu Miguel.
“São marcas de tiro...?”
“Sim, sim, em sequência, você percebe?”
“Posso não ser a pessoa mais brava do Oeste, mas cego não sou.”
“E o que significa isso, essa sequência, hein?”
Juan encarou o pai, os olhos ainda mortos da cochilada da qual Miguel o
acordara.
“Aonde você quer chegar com isso?”
“Hijo mio. Do que falamos ontem? Ou anteontem, sei lá?”
“Ah. Gatling gun.”
“Metralhadora.”
“Sei não, pai. Esses furos parecem feitos por um revólver normal, calibre
tipo do seu. E estão em sequência, mas uma sequência meio organizada
demais, você entende?”
“Filho! Está louco? Isso é prova clara de que os Marlowes estão com uma
metralhadora pronta e já estão fazendo testes!”
Juan acariciou os furos na madeira com os dedos. Teve o polegar espetado
por uma lasca. “Curioso terem disparado contra o estábulo”, pensou. “Foi
sobre aquele monte de feno que eu e Vienna... ãh...” Um minúsculo fio de
sangue escorria de seu polegar. “E eu tive a distinta impressão de que Samuel
Marlowe nos pegou em flagrante e observava desde a janela. Porém, eu estava
meio alterado na hora.”

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“Juan?”
“Pai?”
“Por que você está tão quieto?”
Expirou com força um ar tão quente quanto o de Mavrak à tarde.
“Essas marcas. Elas não constituem prova de nada. Sinto muito, pai.”
Agora, Miguel circundava a figura de Juan, de olhos arregalados, a
gesticular.
“Como, como, como? Eu tenho cer-certeza absoluta, filho, é uma
metralhadora, eles vão dominar a cidade, vão dizimar os Ramírez como
fizeram com os índios.”
“Que porra os Marlowes têm a ver com os índios?”
“Ianques, filho. Podem ter acabado com a escravidão lá no Norte, mas a
alma é a mesma.”
“Sinto muito, pai. Não podemos acusá-los de nada apenas com essas
marcas na parede.”
Miguel latiu no ar e mordeu os lábios.
“Você não acredita no seu pai?”
Os dois trocaram olhares. Entretanto, aqueles dois círculos negros de
Miguel eram poderosos e experientes em demasia. Uma batalha injusta, de
vencedor certo. Para cada pontada de dúvida que Juan tinha da história do
pai, surgia um sentimento opressor de culpa com o triplo da força em seu
coração. Como ele duvidaria do próprio pai? E, de fato, as marcas poderiam
sim ser de uma metralhadora. E se não fossem? Poderiam ser um aviso
deixado por ninguém menos que Samuel Marlowe, que simbolizava: “Você
dormiu com minha prima, seus dias estão contados, Ramírez desgraçado.” E,
pelo jeito, haviam sim sido os Marlowes os assassinos de seu irmão. Provas,
nenhuma. A intuição e o bom-senso esperneavam, no entanto.
Derrotado, só restou a Juan perguntar ao pai:
“Certo. Marcas de metralhadora. Ou, no mínimo, coisa de Marlowes. O
que você propõe fazer?”
Miguel desenhou um sorriso diferente de todos que Juan já vira em sua

73
vida. Se fosse confiar em sua interpretação das expressões do pai, apostaria que
o sorriso era de malícia, recheado de uma sinistra empolgação que remetia à
imagem de Sergio brincando com o revólver.

74
O plano de Miguel Ramírez

VOCÊ PERCORRERÁ UM BOCADO de deserto, filho, engolirá areia e


areia. Cruzará o desfiladeiro – você sabe de qual desfiladeiro falo. El Valle de
los Muertos. Para a tarefa, lhe empresto meu cavalo. É animal forte e estável,
não é um pangaré qualquer, mas tampouco é xucro, até porque sei que você
não aguentaria um bicho selvagem. Porque você não é selvagem, filho, mas
você vai aprender um par de cousas na viagem. E antes de partir também, pois
vou lhe dar uma lição básica de tiro. Vi o jeito que você segura o revólver.
Desengonçado. Pura vergonha. Não é o jeito Ramírez de segurar uma arma.
Saque a sua. Do coldre. Isso.
Viu? Desastre. O que há de errado? Como assim? Perceba o tempo que
demorou! Você é o pistoleiro mais lento do Oeste! Uma droga de uma lesma
coberta com um poncho! Uma tartaruga de esporas! Não venha com essa de
que não é pistoleiro. Agora você é. Decidi assim.
E há índios pelo caminho, com suas flechas e seus machadinhos. Se você
se encontra com um só sujeito dessa raça, está ferrado se não souber usar uma
arma.
Como eu ia dizendo, atravessará o desfiladeiro, passará por onde um dia
foi o povoado dos Czhezchelueq e, de lá, avistará, no topo de um pequeno
morro pedregoso, uma casinha pequena. É, um casebre. Lá vive o antigo xamã
do povoado. Homem velho. Quiçá tenha morrido já, não ouço notícia dele
faz anos. Se bem que homens como ele não têm o hábito de se entregarem
para a morte assim no mais. Enganam e enganam a coitada da morte, pois
conhecem todos os seus truques e artimanhas.
E você falará com esse feiticeiro. Ele fala pouco castelhano e quase nada de
inglês. Por isso, você entregará esta carta que está na minha mão. Está selada;
prefiro que você não leia o conteúdo dela. Se a curiosidade o forçar a algo,
não há problema. Você sequer entenderia, pois está escrita na quase extinta

75
língua dos índios da região, que aprendi há muito. Já lhe contei por que o
xamã aceitarrrrrá a tarefa? É uma dívida que ele possui comigo. Sallllllvei o
pobre índio quando seu vilarejo estava sob ataqqqqqque. Mil flechas
disparrrrrravam os inndíos, só que eles eram vinte ou trinta perto dos cem
soldddddados brancos com suas pistolas.
Vá. Logo.

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O SOM DO INTERFONE me tira do mundo do Velho Oeste e me traz
de volta para onde de fato estou. É quando lembro que aguardava meu filho e
que deve ser ele no interfone.

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78
Criar é viver duas vezes.
Albert Camus – O mito de Sísifo

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“FILHO!”
“Oi, Juan.”
“Qual é, filho? Pode me chamar de pai. Ou você gostaria que eu o
chamasse de Martín?”
“Você está horrível, pai. Não tem dormido muito?”
“Pouco, pouco, mas tenho.”
Percebo, com a visão periférica, que meu filho vê a garrafa de tequila pela
metade. Ele funga e sente meu hálito alcoólico. Faço um gesto para que ele
entre.
“Então, o computador estragou... e você passou a usar uma máquina de
escrever, é isso?”
“É, computadores são umas porcarias. Por isso chamei você, é a missão
que tenho para lhe dar. Consertar o computador. Mesmo ele sendo uma
porcaria.”
“Hum.”
“É que a máquina de escrever cansa os dedos.”
Com o canto dos olhos, vejo a última página que escrevi. Várias palavras
com letras repetidas, tudo errado. Não sei se ponho a culpa na bebedeira ou
na máquina de escrever.
“Que tanto você escreve? Faz uma dúzia de anos que você se aposentou.”
“Ah, Martín. Decidi contar a história dos meus antepassados. Sabe como
é, plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. E todo pássaro canta
melhor na sua árvore genealógica.”
Meu filho me olha com sua expressão característica de “Você está louco,
mas tudo bem, o que vai se fazer?”.
“Antepassados?”
“Sim! Os habitantes da cidade de Mavrak. Juan Ramírez. Martín Ramírez.
De onde eu tirei seu nome.”
“Eu sempre pensei que meu nome era do pai da minha mãe.”

80
“Isso foi o que ela disse! Rá!”
Ele sentou-se junto ao computador. Eu deixara tudo ligado na tela do
processador de textos. Ele analisou, pensativo, os símbolos de conjunto vazio.
“Isso é um vírus besta, fácil de remover. Deve ter pego abrindo piadinha
por e-mail.”
“Grande alívio isso que você me diz, filho.”
Aproximo-me dele e acaricio seu cabelo. Talvez eu esteja muito bêbado
ainda. Martín vai para a primeira página e começa a ler tudo que escrevi. O
prólogo. A morte de Martín Ramírez. O diário de Miguel.
“Mortos-vivos no Velho Oeste?”
“Sim, eu sei, foi o que aconteceu, filho. Não posso provar, restou apenas o
que me foi contado. Cabe a mim transcrever a história dos Ramírez.”
“Interessante.”
“Você achou mesmo?”
“Sim. Li sobre um jovem escritor que também escreveu um faroeste com
zumbis.”
“Sério? Acho que os mortos-vivos de fato habitavam o Velho Oeste com
alguma frequência naquele fim de século.”
“Mas a história dele é diferente da sua. Ele escreve sobre um homem velho
escrevendo um faroeste com mortos-vivos.”
“Que ideia péssima! Por que alguém escreveria sobre alguém escrevendo?”
“Nem fale. Eu também acho horrível. Teve um crítico que resumiu
exatamente o que eu sinto. Ele disse ‘metalinguagem é uma doença juvenil’.
Enfim.”
Essas abstrações intelectualoides ele deve ter aprendido na faculdade.
Algumas coisas que ele me ensinou nessa vida eu até gosto, mas tudo tem
limite. Para mim, o último grande livro foi Moby Dick. Digo isso a ele, pois
sei que Martín também é fã, então é um ponto seguro de conversa.
“E o último grande filme?”, ele me pergunta.
“Os imperdoáveis. Claro. Quando se pensava que era impossível fazer um
novo grande faroeste, chega o Clint e mostra que todos nós estávamos

81
errados. Porém, agora é definitivo. O faroeste morreu mesmo. É um gênero
defunto, e só velhos como eu continuam a apreciar.”
Meu filho se levanta e me abraça para minha surpresa. Na sua regata
branca, sinto o cheiro de maconha. Isso explica seus olhos vermelhos. De
qualquer forma, não é hora de dar sermão. Ainda mais bêbado e com uma
tequila na mesa.
“E os seus mortos-vivos? Serão lentos ou velozes?”
“Sabe que eu nunca pensei nisso? Acho que lentos. Eles sempre são lentos,
ora.”
“Sim, mas como eram nas histórias dos seus antepassados?”
Eu sorrio. Despertei a atenção de outro. Depois de Carlos, meu filho,
Martín! Um orgulho que não sentia havia anos inundou meu peito.

***

Ele conserta meu computador. Preparo um guacamole enquanto ele


trabalha. Conversamos um pouco mais: bobagens, coisas passageiras, como ia
a vida dele depois da graduação em filosofia, essas coisas. Descubro que está
solteiro e desempregado. O relógio indica onze da noite. Ele precisa partir
(não sei ao certo o motivo), e sou forçado a deixá-lo ir, quando o desejo era de
oferecer o sofá da sala para que ali dormisse e, em uma semana mágica e
incrível, talvez eu alterasse todo um passado ruim que tivemos. Brigas e mais
brigas, até sua alienação total de minha vida.
Muito condenei sua escolha. Curso de filosofia! Não obstante, banquei
seus estudos lá para o norte. Financiei uma faculdade de primeira nos Estados
Unidos. É uma estupidez tentar ganhar a vida com masturbação intelectual.
Eu fui esperto. Segui carreira de funcionário público e, assim, pude me
sustentar e até pagar essa faculdade besta do Martín. Se fosse outro dia, diria
para ele: “Desempregado? O que foi que eu lhe disse?” Só que hoje é um dia
especial, e nada falo. Mas tampouco o convido para dormir aqui. Abro a
porta, pois nada mais me resta. Abro a porta e deixo meu filho voltar para a

82
noite.
Morro de medo por ele sozinho na noite. Morro de medo da noite, a
desgraçada que levou minha mulher, quando Martín tinha poucos anos.
Gostaria que ele me ligasse ao chegar a sua casa, mas meu garoto não está
mais em idade para isso.
Ele desaparece no corredor do prédio, avança sem acender a luz. Não
podendo regressar no tempo, só me resta abanar a mão em despedida.

83
FEIA MAVRAK NÃO É, a distância. Foi o que pensou Juan Ramírez,
algo aliviado de cavalgar para longe do povoado, junto com o pôr do sol,
ciente de que chegaria ao casebre do feiticeiro por volta da meia-noite.
Quando alcançou o desfiladeiro, a escuridão não era total graças à lua
ainda plena e ao céu roxo que alumiava o trajeto arenoso. Na entrada da
passagem, Juan contemplou todos os pontos cegos que tinha o caminho, a
suscetibilidade a um ataque indígena no escuro. Se alguém decidisse roubá-lo
ou pior, o faria sem dificuldade. E, ainda assim, deveria atravessar o
desfiladeiro. O cavalo estava sereno e tranquilo se comparado à pilha de
nervos que era Juan. Nas primeiras troteadas, o morro à sua direita obscurecia
a lua, e Juan esfregou os olhos em um ato incoerente na esperança de que suas
pupilas se adaptassem de forma milagrosa à ausência de luz. De nada servia,
ele não era gato ou morcego.
Logo, a escuridão tornou-se sobrepujante, um grande nada por todos os
lados. É sabido que não há nada mais assustador que o nada. Pois o nada cede
seu trono à imaginação. A imaginação de Juan, no caso, especialmente fértil
para arquitetar horrores incríveis e, às vezes, estapafúrdios. Ele estudara física.
Matemática. Monstros não existem. História: o Iluminismo; Idade da Razão.
Nem em Deus acreditava. Contudo, a noite detém poderes inegáveis. Ela
carrega em sua sombra o sobrenatural. É lógico o temor que a noite causa aos
homens, ao fazê-los encarar de perto o avassalador nada e preenchê-lo com os
recantos mais escuros de suas próprias almas. O homem criou a cidade para
afastar a noite. Uns cem anos depois, a cidade, com seus neons, postes de luz
a cada esquina e lanchonetes 24 horas, armou uma conspiração que cria o
simulacro do dia. Tudo para nos fazer esquecer que existe a noite.
Enquanto Juan assomava ao desfiladeiro, Miguel observava as estrelas na
cadeira de balanço da varanda. O xamã entoará seus mantras. Preparará
poções. Talvez dance um pouco, danças esquisitas e sem ritmo. E os mortos
voltarão à vida.

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Será que eles, os que já foram, serão capazes de impedir a chacina
engendrada pelos Marlowes? O misticismo venceria, afinal, a tecnologia? O
plano de Miguel não era original. Ele o formulou naquela tarde em que
esmagou o verme porque o bichinho o fez relembrar uma história asteca
antiga, passada oralmente de geração em geração, sendo traduzida, inclusive,
de náuatle para o castelhano. Trata do movimento que uma pequena cidade
do império asteca realizou em uma tentativa fracassada de impedir a
dominação pelos conquistadores espanhóis. Os europeus vieram com seus
enormes navios e sabres afiados, e o resultado, como se sabe, foi violento.
Porém, um povoado asteca buscou a resistência. Um feiticeiro sacrificou
cinquenta crianças do vilarejo, além de outras dezenas de animais, tudo em
oferta a um Deus cuja existência poucos sacerdotes conheciam. Desse modo,
trouxe de volta à vida todo um cemitério asteca. E, para surpresa de todos,
ressuscitou as crianças sacrificadas. Mas elas não retornaram puras e doces
como eram, e sim sedentas de sangue e carne humana.
A lenda, dizem, é uma segunda tentativa de algo tentado ainda antes, pelos
maias, que, por sua vez, queriam se defender dos astecas. O império asteca
assentou-se sobre o território maia e absorveu a prática. A dominação
espanhola fez com que, na época dos Ramírez e dos Marlowes, raríssimas
pessoas nessa área fronteiriça ainda conhecessem a lenda. Miguel Ramírez era
uma delas. E o xamã, isolado em seu casebre, era poderoso o suficiente para
invocar os mortos, ainda que em uma escala bastante menor.
Entretanto, as outras tentativas de impedir a dominação fracassaram. Por
que a dos Ramírez seria bem-sucedida? Miguel cuspiu na areia. “Ora, é como
um duelo”, refletiu. “É questão de quem saca primeiro a arma. O feiticeiro ou
o cientista.”

***

Ao passo que Juan temia a frente, e apenas a frente, faltou-lhe olhar para
trás, o caminho já percorrido. Se porventura fosse um sujeito experiente, teria

85
percebido Samuel Marlowe em seus calcanhares. Como isso não aconteceu,
Samuel foi conduzido até o casebre do feiticeiro, onde ficou do lado de fora,
buscando compreender o que o jovem Ramírez fora tratar em lugar tão
esquisito. Afinal, Samuel só estava seguindo cada movimento de Juan porque
o havia flagrado rolando no feno com sua prima Vienna.

86
CASTIÇAIS RÚSTICOS, ABERRAÇÕES em potes de vidro nas
prateleiras, toda sorte de ervas e plantas espalhadas ao redor de camadas de
cera de vela em uma mesinha, um chão sujo de terra e estranhos rastros
vermelhos. Uma ratazana caída, morta, consumida por vermes de diversos
tamanhos. Isso foi apenas o que Juan Ramírez percebeu ao entrar no casebre
do xamã. O feiticeiro o deixou entrar sem questionamentos. Juan buscou as
palavras: “Eu sou o filho do...”, porém não havia necessidade, pois o xamã o
reconhecera, sabe-se lá como, quase cego que era.
O xamã vestia uma capa de couro cru remendada com peles de vários
animais. Uma fauna ilustrada em uma roupa. Torceu a boca em seu rosto
imberbe e amarronzado e arregalou os olhos, um deles totalmente branco e
vazio. Um iguana passou entre suas pernas. O petrificado Juan fez um esforço
sobre-humano para movimentar o braço direito e entregar a carta. O feiticeiro
a tomou das mãos, libertou um riso aprisionado em suas narinas e abriu a
carta com uma faca sem fio. Aproximou o que Miguel escrevera a menos de
cinco centímetros do olho esquerdo, que ainda retinha um pouco de visão. O
globo ocular dançava de um polo ao outro em frenesi, enquanto o xamã
emitia ruídos ou de riso ou de engasgue.
Ele perambulou pelo casebre, lendo a carta, tateando os objetos atrás de
seu cajado polido. Alcançando-o, bateu-o sem força no chão, uma, duas, três
vezes. E exclamou em um castelhano falhado e turvo:
“E os mortos voltarão à vida!” Seu grito ecoou na noite e foi ouvido. Não
só por Juan Ramírez, mas também por Samuel Marlowe, que se escondera
atrás da janela.
“Como assim?”, Juan demonstrou surpresa. A carta de seu pai, o que ela
continha, confirmava seus piores medos. Juan estava dividido – por fora, o
Juanito inocente, estupefato com o tenebroso plano; por dentro, alguém que
conhecia os riscos e a crueldade do pai, e que levou adiante a empreitada de
toda forma. Como um profissional, como seu irmão Martín, como o filho

87
que Miguel queria que ele fosse.
Apoiado em sua bengala, o feiticeiro sentou no chão e fechou os olhos
como a meditar. Gesticulando com a bengala, explanou como se daria o
retorno dos mortos, parte em castelhano, parte em uma língua indígena
esquecida.
“Os mortos mais recentes, eles que primeiro virão... czhah czhah uru nekk
ditz ayle ayle der nid Mavrak... talvez não fácil ser controlar eles... urhh
nitpak qwer... e os mordidos, os com pernas ainda andantes irkh nihl uru uru
nitpak czhequitz... raivosos estar eles... ainda mais os czhah há muito
esquecidos... yurt uru pakk!”
E levantou-se no calor das exclamações. O desejo de Juan era ir para longe
daquele casebre, não regressar sequer para Mavrak, esquecer-se da loucura em
que estava envolvido, do provável derramamento de sangue futuro. O xamã
sapateava no chão e, com a bengala, esmigalhou a cabeça de seu iguana.
Recolheu seu corpo e colocou-o dentro de um pote de vidro, onde vivia a
criatura mais estranha que Juan já vira; talvez fosse um dos famosos ajolotes, os
anfíbios tão falados do México. Com vigor advindo sabe-se lá de onde, o
feiticeiro sacudiu o pote de vidro, o pobre ajolote indo de um lado para outro
junto com o cadáver ensanguentado do iguana.
“Você precisa de alguma ajuda?”, perguntou Juan para o xamã, antes que
ele entrasse em um transe do qual não voltaria tão cedo.
“Nihl. Nihl. Não.”
“Ah... ótimo... então, se o senhor me dá licença, eu vou indo.”
O xamã pareceu nem ter ouvido o que lhe foi dito. Juan foi em direção à
porta e sentiu a mão enrugada do xamã a tocar seu ombro.
“O que foi?”
O feiticeiro picou-o com uma pequena adaga de cobre enferrujado de
modo certeiro no pulso. Um pequeno círculo de sangue pulou da pele,
seguido de um esguicho quente, e o xamã coletou-o num potinho. Ofereceu o
sorriso desdentado de um lunático e deu as costas a Juan para retornar aos
seus afazeres.

88
Juan, com o corpo todo formigante, a boca aberta de espanto, saiu
cambaleando do casebre. E, mesmo em seu estupor, pôde perceber na noite
que um homem partia em disparada em um cavalo. Um corcel forte e alto.
Digno de um Marlowe.
“Droga”, ainda pôde resmungar antes de iniciar a perseguição.

89
JUAN SAMUEL

Será o Samuel ou o Leon aquele Cacete, não acredito que o Juan


que cavalga à minha frente? me viu.

Pelo menos peguei esse cavalo. Não Pelo menos meu cavalo é um puro-
é maravilhoso, mas farei dele meu sangue, não é um mexicano
Rocinante. Será que o Marlowe qualquer. Deus do céu, o que foi
escutou tudo? aquela conversa que escutei?

Preciso chegar a Mavrak antes que Preciso chegar a Mavrak antes que
ele conte a todos o plano. o Juan e alertar a todos.

O que meu pai vai dizer quando Isso só pode ser plano do pai dele.
souber que eu fracassei? O jovem é tolo demais para
arquitetar uma loucura.

E se o Marlowe decidir me matar, Ele está atrás de mim. E se eu parar


aqui e agora? O Leon sei que não o o cavalo, virar e acertar em cheio o
faria, é racional demais, mas o seu Juanito com a espingarda?
irmão insano, ah, dele não duvido
nada.

E se ele decidir duelar comigo? Eu Não tomarei atitudes bruscas,


sou um péssimo pistoleiro, mesmo senão o Leon vai me incomodar até
com as aulas do meu pai. Virarei o túmulo com essa história. Se
alimento para os peixes. Viraria, se houver violência, farei tudo aos
houvesse um lago próximo a olhos de outro, em um duelo
Mavrak. tradicional.

Estamos chegando àquele Estamos nos aproximando do

90
desfiladeiro escuro e assustador. desfiladeiro. Juan continua quase
Aqui todas as minhas certezas me na mesma distância. Talvez seja
abandonam. necessário tomar uma atitude.
Atingir o cavalo dele.

Por Deus, é minha impressão ou Vou sacar a pistola.


Samuel está sacando a pistola?

Ele vai atirar, não acredito! Isso, agora é só mirar direito no


cavalo, não na cabeça, em alguma
das patas, isso...

Deus do céu! BLAM. Errei, não acredito. É


difícil de enxergar qualquer coisa
nesse desfiladeiro.

Vou me afastar um pouco, parar de Ele está se afastando atrás de mim,


galopar tão rápido. o desgraçado. Nessa escuridão,
pode até desaparecer.

O que é isso que vejo no topo da É um índio ali em cima?


montanha ao leste?

Por que o cavalo do Marlowe está Não acredito! Ele deu uma
andando mais lento? flechada que atingiu de raspão meu
cavalo! Filho da puta, desgraçado
desse índio! Deve estar treinando
pontaria!

Não acredito, vou ultrapassá-lo Juan maldito, filho da puta, vai me


logo e chegarei pouco antes a ultrapassar? Devo disparar nele por

91
Mavrak! Sim, a sorte me deu uma trás? Talvez, mas não, não. Meu
chance. irmão me condenaria para sempre.

Imagine! Um Ramírez morto pelas


costas, por minha mão. Uma
guerra se iniciaria em poucos
minutos. Vou persegui-lo e avisar a
todos. Não chegarei muito depois
de Juan.

92
JUAN SALTOU DO CAVALO assim que passou o tosco arco que serve
de portão para Mavrak. O sol alumiava apenas as bordas do horizonte; galos
ainda dormiam. Correu em direção à casa do pai e socou a porta até ele
descer.
“Filho, nossa, o que houve? Como foi com o xamã?”
“Me seguiram, pai, um Marlowe me seguiu, acredito que o Samuel, mas
ele foi atingido no caminho, então está atrasado, mas daqui a pouco vai
chegar, eu sei!”
“E o que ele viu?”
“Acho que ele viu tudo, pai, toda a porcaria macabra que você
encomendou, me usando de mensageiro! Porra, eu não tenho tempo para
brigas, me diga, o que eu faço?”
Miguel Ramírez ponderou com a mão sob o queixo. Sua mente não era do
tipo matutino, e o sono embriagava o raciocínio lógico. Até concluir que só
havia uma saída, apertar com força o ombro do filho e dizer tudo com o
olhar. Juan teria que confrontar Samuel. Juan o aguardaria na entrada de
Mavrak e proporia um duelo antes que ele pudesse alertar sobre os mortos-
vivos. Samuel era do tipo nervoso; ao certo aceitaria o duelo. Seria sua chance
de matar um Ramírez em jogo limpo e depois, então, contar a todos a
conspiração. O problema do plano de Miguel? As chances de Samuel de fato
matar Juan eram muito altas, pois Juan era uma desgraça absoluta como
pistoleiro.
Era a vez de provar a que veio neste mundo. Juan não tinha escolha. Se
aquele fosse seu último dia sobre a Terra, morreria com honra, sendo o que
seu pai Miguel sempre quis que ele fosse.

93
DIGAM O QUE QUISEREM, mas cresce em mim uma suspeita de que
a história que escrevo é sobre um pai e um filho. Todo o resto é mentira. Não
é um faroeste. É tão faroeste quanto Apocalypse Now é sobre a guerra.
Não tenho dormido. E, com as persianas baixas, fica difícil saber quando é
dia e quando é noite. Desregulei todos os meus relógios. Não quero saber a
hora correta. Nem quando é dia. Muito menos quando é noite.
Quando meu corpo não aguenta e se ajoelha perante o sono, sofro de
pesadelos. O mais marcante foi, sem dúvida, aquele em que recebo um
telefonema dizendo que meu filho foi baleado e está no hospital.
Muitas vezes, penso que isso de fato aconteceu; que o telefonema não foi
um sonho.
Meu filho Martín.
Pergunto ao policial o que houve.
Pergunto se ele foi baleado nos intestinos.
Imagine, morrer sentindo o cheiro da própria...
Pelo menos, sua morte seria gloriosa. Ao contrário da minha, que vai ser
de velhice ou de câncer em algum órgão esquisito do corpo, que eu nunca tive
consciência de possuir até descobrir a doença.
Ou talvez sua morte não tenha sido interessante. Afinal, foi baleado por
quê?
Talvez briga com traficante. Aqueles olhinhos vermelhos não me
enganam. Mas maconha? Não matam mais por maconha. Porém, do que
adianta especular? Foi um pesadelo, apenas um pesadelo.
A noite em que meu filho veio aqui consertar o computador parece
longínqua e onírica. Não sei ao certo se ela ocorreu.
Certas vezes, meus sonhos entram na escrita. Outras, sonho que escrevo.
E, então, acordado, eu olho para o computador e vejo que não contei nada
daquilo que supunha ter contado.
Cresce em mim a suspeita de que narro a história de um pai e um filho.

94
Nada mais.

95
O DUELO CHEGARIA e tudo que Juan pensava era de onde ele tinha
vindo. Quem criou tal tradição, as regras, o bater do relógio ou os dez passos?
Pois era inadmissível imaginar um velho barbudo, sentado atrás de uma mesa
abarrotada de papéis, escrevendo em bela caligrafia as regras de um duelo.
Tampouco provável era que dois pistoleiros sujos e desdentados as tivessem
criado. E a existência do duelo? Sim, o duelo em si, o ritual. Teria surgido a
partir de uma necessidade de provar a honra? Porque a intuição de Juan dizia
que o duelo estava ali e sempre estivera ali. Era tão antigo quanto a criação do
mundo. Peixes duelavam no fundo do oceano, criaturas gigantescas que
habitaram a Terra há milhares de anos.
Numa inspiração profunda, lhe veio também um presságio do futuro. De
que cenas como a que sucederia, disputadas há anos entre dois homens,
seriam imortalizadas de alguma forma, registradas de um modo inédito e com
uma precisão maior que as palavras. Afinal, por mais culto que fosse Juan,
muitas vezes ele se encontrava em falta de palavras, sozinho em sua mente
com um punhado de imagens. E, ao pensar em duelos, a imagem que via era
de um par de olhos espremendo-se, uma mão em aproximação lenta do
coldre... e...
Melhor não seguir pensando. A vida real traria um duelo logo, logo. E os
resultados não tinham como ser positivos. Enfrentaria um Marlowe
ensandecido. Por mais que a fúria seja traiçoeira de vez em quando, Samuel
ainda estava em vantagem perante a inexperiência de Juan. Pobre Juan, com o
coração já na garganta, pronto para escorregar pela boca e abandonar seu
corpo. Logo acalmaria, pensava. O pior é a espera. Uma trilha de poeira a
distância. De longe, Samuel pôde ver naquele caubói parado, apoiado no arco
de entrada de Mavrak, sinal do que estava por vir. Por que palavras? Tempo
de sobra teria para contar tudo ao irmão, logo que se livrasse em luta limpa de
um Ramírez.

96
***

“Nós temos a mesma altura”, observaram os dois quando suas costas se


tocaram, prontos para dar os dez passos, cada um para um lado. De
espectadores havia Miguel Ramírez em alguma fresta. McCoy, que passara a
noite insone, viu a cena e, incrédulo, chamou Maria e algumas moças para
assistir. Juan acreditou ter visto Sergio na janela do segundo andar da casa do
pai, embora preferisse que o menino não presenciasse a morte iminente do
tio.
O vento convidava a areia para dançar uma valsa. Ela bailou pelo ar com
elegância, e grãos assentaram-se nas frestas dos dentes de Juan. Areia nos
dentes. A pior sensação que conhecia. Era sentir o tempo no corpo, senti-lo
tão perto e tão irrefutável. Tomar consciência de que um dia, talvez muito em
breve, ele, Juan, estaria abaixo da areia, enterrado por toda a eternidade.
Esquecido.

***

Um passo.
O sol já havia nascido.
Dois passos.
Alguns galos ainda cantavam.
Três passos.
Um lagarto se escondeu atrás de uma pedra.
Quatro passos.
Roubariam o dente de ouro que Juan ostentava?
Cinco passos.
Juan estalou os dedos da mão direita.
Seis.
Samuel, os da mão esquerda.
Sete.

97
E se Juan se virasse antes e disparasse?
Oito.
Seria covardia, mas melhor do que morrer.
Nove.
Ou não?
Tanto faz.
Dez.
Juan se vira. Samuel também.
Juan esmaga os olhos de tão nervoso. Puxa a arma afobado.
O corpo de Samuel é todo composto de raiva posta em fervura, e ela entra
em ebulição na altura do seu rosto. Ele se move para sacar a arma.
Juan dispara.
O chapéu de Samuel voa longe.
Samuel dispara.
Juan vai ao chão, atingido no ombro.
Apoiado em um joelho, já sem equilíbrio, Juan sente o solo e a areia que o
puxam, convidativos. A areia quer que ele se entregue. Juan seria recebido de
braços abertos por ela, pelo tempo, pelo esquecimento. Então, dispara outra
vez, com a visão turva, sem saber onde acerta.
A impressão que tem é de atirar em direção ao céu.
Quando Samuel cai desfalecido no chão, surge um labirinto vermelho que
encharca a camisa do Marlowe na altura do peito. Em pouco tempo, não se
mexe mais, sequer agoniza. Morto.
Juan nada compreende e se deixa desmaiar contra o chão, tomado de suor
e surpresa.

***

É impossível para os espectadores entenderem o que acabaram de


presenciar. A ninguém ocorreu olhar para cima, para a janela da casa dos
Ramírez, onde um menino de baixa estatura brincava com um revólver Smith

98
& Wesson do pai.

***

Do chão, Juan percebeu um grupo de habitantes despertados pelo ruído


dos tiros, correndo feito urubus para roubar o que fosse possível do cadáver de
Samuel. Um chute atingiu o lado esquerdo de Juan. Ele rolou para o lado e
distinguiu o rosto de Leon coberto em sombra. Se não fosse a posição do sol,
perceberia que Leon chorava. Outro chute. Voou terra no rosto de Juan, nos
olhos, no nariz, na boca.
Miguel segurou o Marlowe por trás. “Foi um duelo justo, Leon!” Porém,
ele desvencilhou-se dos braços de Miguel e desferiu um último chute contra o
rosto de Juan.
Um dente flutuou em um oceano de sangue e saliva dentro da boca de
Juan. Após cuspi-lo, Juan levantou o braço esquerdo e gritou um desespero
que soou como “desculpa”. Leon mal escutou isso, pois vociferava com o
grupo que se reuniu para segurá-lo.

99
THORNTON NUNCA PARECEU tão sério. Foi ter com Miguel
Ramírez, já que Juan estava inacessível, deitado na cama, tendo o ferimento
de bala tratado pela mãe.
“O senhor pode me explicar o que se passou aqui?”, inquiriu Thornton.
“Um duelo. Nunca viu um antes?”, retrucou Miguel, mau humor típico.
“A cargo de quê?”
A discussão ocorria à porta da frente da casa dos Ramírez, Miguel dentro,
Thornton fora. O cadáver de Samuel Marlowe repousava a poucos metros, e
Vienna se aproximava de seu corpo. Com lágrimas nos olhos e culpa na
consciência, ela acreditava ser a razão da troca de tiros.
“Honra”, disse Miguel.
“Honra?”
O velho Ramírez gesticulou com a cabeça para a figura de Vienna. O
xerife tentou processar a informação.
“Quando há mulher na história, as cousas se tornam perigosas...”, suspirou
Thornton, com Maria McCoy em sua mente.
“De fato.”
“O senhor me diga: acha que não devo investigar o caso? Não há nada por
trás, foi apenas isso, disputa por mulher? Honra?”
“Eu acho uma coisa, senhor Thornton.”
“Humm.”
“Eu acho que o senhor deveria investigar no que os Marlowes tanto
trabalham no porão daquela casa deles.”
“Como?”
“No porão”, repetiu Miguel, forçando um ar de mistério para atiçar a
curiosidade do xerife.
Fechou a porta na cara de Thornton, sem sequer dizer um “até mais”.

***

100
Por motivos que Thornton preferia não trazer para o plano do consciente,
foi ter com Maria McCoy, perguntar-lhe sobre o assunto. Como desculpa, o
xerife oferecia para si o fato de que ela era a pessoa mais próxima de “neutra”
em Mavrak, uma das poucas cidadãs sem parentesco, ainda que tênue, com os
Ramírez ou os Marlowes. Abordou-a no balcão do saloon, onde ela lavava
copos. Maria perguntou-lhe se ele não queria levar a conversa para o quarto
de cima. Ele negou. Como o saloon estava entregue às moscas àquela manhã,
apenas chegou mais perto e alterou o nível do diálogo para meros sussurros:
“Você sabe se os Marlowes estão tramando algo?”
“Como assim?”
“No porão.”
Ela arregalou os olhos.
“Nem ideia!”
“Que diabos!”
“Para falar a verdade...”
“Sim?”
Maria estendeu a mão direita, e tocou os lábios do xerife. Acercou-se do
ouvido e disse:
“Você promete me visitar alguma noite dessas, quando tudo estiver
acabado?”
Thornton engoliu em seco e nada respondeu. Ela prosseguiu:
“Vi os dois deles, os Marlowes, levando dois estranhos para dentro de sua
casa, em uma noite dessas, há mais de mês. E nunca mais vi esses estranhos.
Acho que nunca saíram de lá. Pensei que os houvessem assassinado. Mas,
agora que o senhor me fala de tramar algo no porão, fico na dúvida.”
O xerife coçou a recém-cultivada barba.
“Por que eles sequestrariam pessoas? O que estarão planejando lá embaixo?
Seria essa a razão do duelo?”
Um ruído estalou na escadaria, e Maria retornou a distância socialmente
aceita. Não trocaram mais palavras até o xerife sair do saloon sem conclusão
alguma em sua mente. Contudo, a imaginação de Maria florescia. Ela sonhava

101
com projetos esquisitos, grandes cúpulas de ferro, arredondadas, com uma
porta de vidro fosco. Uma máquina onde um indivíduo entrava e a
ampulheta do tempo se invertia (a areia é dotada de memória em seus grãos),
permitindo um regresso a outra época. Um artefato como era descrito em
muitos dos livros fantasiosos que McCoy lia e lhe contava sobre. Uma chance
de modificar o passado e, por conseguinte, o presente. Nas mãos dos
Marlowes, talvez fosse algo perigoso. Se estivesse nas mãos dela, não. Ela
entraria e mudaria um par de coisas. Não se casaria com McCoy, o ciumento
dos diabos que a obrigava a trabalhar naquele antro em troca de um
matrimônio. Impediria a morte inicial (qual foi, mesmo?) que desencadeou a
rivalidade entre as duas famílias em Mavrak. Afinal, se não fosse pela guerra, o
seu Martín estaria vivo. Porém, Martín já estava quase esquecido, enquanto
Maria desejava com ardor os braços do xerife. Visitaria o passado dele, na
máquina do tempo, descobriria seus segredos e o que o impedia de se render
aos seus encantos.
Os planos eram tantos. Tudo seria diferente. Mas a areia lá fora seguia
estática, e não havia prova da existência de máquina do tempo alguma em
qualquer canto do mundo.

102
QUALQUER SER CONSCIENTE sonha com a máquina do tempo.
Neste século XXI, neste apartamento abarrotado de coisas e lembranças, nesta
cidade maior que o universo que é o D.F., eu sonho com uma máquina do
tempo.
Em primeiro lugar, eu teria feito tudo diferente com meu filho Martín.
Me pego desenvolvendo conversas imaginárias com ele. Martín diz: “Então
você está escrevendo um livro, hein?”, todo sarcástico. E eu respondo: “Sim,
mas ele vem de dentro, não é essas fabricações vazias da ditadura da razão que
lhe ensinaram na universidade.” O ridículo é que nem em diálogos
imaginários deixo de discutir com ele. Estou condenado a ser um velho
ranzinza, talvez. E, que curioso, sempre me vi como uma pessoa tão cheia de
aceitação... Foi agora, escrevendo sobre os Ramírez, que concluí que fui um
pai intolerante. E ainda assim.
Não seria preciso escrever uma história de faroeste para tentar compensar
meus erros. Digo, contar a história dos meus antepassados. Caso eu fosse
dotado do poder da ficção, alteraria sem piedade os acontecimentos. Porque
Miguel, de certa forma, repete tudo que eu fiz. Ou melhor, eu, mais de cem
anos depois, repito todos os desastres dele. Sou a prova definitiva de como a
história é cíclica.
Os mortos-vivos chegarão agora à cidade de Mavrak.
Eu sei como eles se aproximam. É possível escutá-los se acercando.
É tipo:

103
104
RETORNAR DE BAIXO da terra é a maior violação possível à natureza.
É um estupro à lógica. Os cadáveres, cansados do esquecimento, retornam
raivosos. Alguns em melhor estado, apenas com umas dezenas de vermes
comendo suas carnes. Todos com algo em comum: a frieza. Costuma-se dizer
que algumas pessoas têm sangue-frio. Metáforas. Por dentro são quentinhas.
Só quem já testemunhou a morte caminhando pode falar em frieza.
O cemitério localizava-se em uma colina não muito elevada ao sul de
Mavrak. Fileiras de cruzes de madeira com datas entalhadas à faca. As
articulações carcomidas e putrefatas dos mortos não dificultavam suas
descidas do morro do cemitério. Os mortos tampouco penavam com a
escuridão da noite. Assim foi com o primeiro, Martín Ramírez, com um
buraco do tamanho de dez moedas de ouro na altura dos intestinos. E com o
segundo, que saiu da terra meia hora depois, o reverendo William, com o
corpo todo chamuscado graças à morte no incêndio que acometeu a igreja.
No porão dos Marlowes, o cadáver de Samuel despertava preso dentro de
um caixão com dobradiças pesadas de ferro. O enterro só se daria no dia
seguinte, e nenhum familiar velava o caixão, uma vez que estavam todos,
inclusive a matriarca, a embriagar-se no saloon.
Os corpos caminhantes penetraram na quietude da noite de Mavrak com
apenas um desejo: mastigar humanos. Braços, pernas, ossos a se roer, cérebros,
tanto fazia. Atravessaram a rua em passo arrastado e avistaram Leon Marlowe,
sentado nos degraus do saloon, sozinho, olhando o céu. Leon, em particular
inocência, ingênuo, refletia sobre a alma de seu irmão, que ascenderia ao céu e
lá se tornaria estrela. O ruído dos mortos-vivos foi abafado pela barulheira
caótica que escapava do saloon. Ao abaixar a cabeça, Leon notou uma figura
que se aproximava. Ela caminhava torta, como cambaleante. “Um bêbado”,
pensou Leon, que era incapaz de distinguir feições.
“Quer uma ajuda?”, gritou. O corpo respondeu apenas com gemidos.
Quando o morto-vivo alcançou a parte iluminada, Leon entendeu que era

105
alguém gravemente ferido. “Quer uma ajuda?”, repetiu. E, então, viu um
verme cair da narina direita do cadáver. Sequer conseguiu gritar de espanto.
Leon botou um pé atrás e depois o outro, mas não voltava em direção ao
saloon. Caminhava desnorteado, sequestrado pelo pavor, impossibilitado
inclusive de correr. Leon avançou até metade da rua. De lá, viu, próximo ao
arco, outra silhueta cambaleante. Era Martín atrás e o reverendo na frente.
Sacou a pistola. Primeiro, virou-se e disparou contra Martín. Atingiu o
peito com duas balas. O morto parou por instantes. Sequer olhou as
perfurações no corpo e prosseguiu caminhando, dessa vez com uma
determinação ainda maior. Leon decidiu avançar outros passos. O reverendo
William já estava muito mais próximo. Leon atirou em sua direção. Errou
uma bala, e a outra atingiu o braço do morto, o que não pareceu surtir efeito.
Quando conseguiu perceber as queimaduras naquele cadáver ambulante, não
lhe sobraram dúvidas de que era o reverendo que estava ali. “Milagre!”,
pensou Leon. “Pesadelo.” Levantou o revólver outra vez. Sua mão
chacoalhava tanto que tentou acalmá-la com a outra. Sentiu-se estranho por
disparar contra um homem de Deus. Nada que o tenha impedido de fazê-lo.
Acertou o joelho de William. Ele foi ao chão apenas para se levantar com
facilidade por meio de um esquisito empurrão efetuado com o corpo todo.
“Merda”, disse Leon. Olhou para o lado.
A casa de Miguel Ramírez.
“Merda”, disse outra vez.
E bateu na porta. Uma vez com força. Notou os mortos se aproximando.
Socou a porta uma, duas, três, dez vezes.
A porta se abriu. Leon não viu ninguém lá dentro, a escuridão completa.
Cogitou que talvez a casa dos Ramírez também tivesse sido dominada por
estas horrendas criaturas. Miguel falou com sua voz rouca. Leon tranquilizou-
se por ser um humano, mas logo compreendeu o que o velho lhe dizia:
“Meu filho Martín está com fome. E acho que só vai saciá-la quando ele se
vingar dos Marlowes que o assassinaram.”
Leon lançou o olhar mais desesperado de súplica que conhecia.

106
“Por favor, senhor Miguel, acredite em mim, nem eu nem meu irmão
matamos Ramírez algum. Pelo menos Martín não foi morto por nossa mão,
isso eu posso lhe garantir!”
Miguel riu e bateu a porta.
Cada morto estava a cerca de cinco metros de Leon. Ele ainda tinha duas
balas no seu revólver. Acertou o coração do reverendo, mas de nada adiantou,
pois seu coração não parecia bater. Acertou o pescoço de Martín. Nenhum
efeito. O desespero tomou conta dele. Miguel provavelmente ria lá dentro,
em segurança.
Ajoelhou-se no chão com o revólver descarregado solto no braço mole.
Esperava a morte e desejava que ela fosse breve, já que indolor não seria.
“Eu posso provar que não matei seu filho”, ele ganiu.
A porta se abriu outra vez, e o braço de Miguel emergiu do escuro e puxou
Leon para dentro da casa. O velho Ramírez trancou a porta.

***

Os mortos-vivos golpeavam a porta. O barulho ritmado se ouvia em toda


a casa. Entre cada sequência de batidas, Miguel e Leon escutavam os cadáveres
gemendo.
“Prove que não matou meu filho.”
“Não é tão simples assim. Precisamos de segurança antes.”
“Você sequer cogitaria me enganar, não é Leon? Eu jogo você para o lado
de fora em questão de instantes.”
“De modo algum. Tem mais alguém aqui?”, perguntou Leon.
“Por quê? Você planeja matar esse velho aqui?”
Leon ignorou as ideias tresloucadas de Miguel. “Não, para saber se alguém
pode nos ajudar a conter esses... monstros!”, esclareceu.
“Juan foi pra casa dele, mesmo com o ferimento. A mãe dele o
acompanhou, está lá cuidando do garoto. Sergio faz companhia para os dois.”
Eles foram desbravando a casa no escuro.

107
“O que você tem de munição?”
“Eles não morrem.”
“Como assim?”
“Já estão mortos, como eles vão morrer outra vez?”
Estavam os dois na cozinha. Haviam trancado todas as portas até lá e
construído uma espécie de barricada com cadeiras e com a mesa.
“Você tem munição, sim ou não?”
“Uns dez cartuchos de espingarda. E umas doze balas de revólver. Mais as
seis que estão aqui na arma do meu coldre.”
“Bom, pegue a munição, então!”
“Tudo, cartuchos, balas, está tudo no andar de cima!”
Os dois homens olharam para a série de obstáculos que haviam colocado.
“Isso não foi muito esperto”, comentou Leon.
“Definitivamente, não.”
“Com medo, se faz cada coisa.”
Miguel olhou inexpressivamente para Leon. O Marlowe ficou ofendido
com a calma de Miguel. Talvez, a cargo da idade, a ideia da morte não
assustasse tanto Miguel. Não lhe ocorreu que os mortos-vivos fossem
esperados pelo Ramírez.
“Tiramos as cadeiras e vamos rumo à munição?”
“O que vocês Marlowes estavam fazendo no porão?”, cortou Miguel.
“Você viu que tem uma janela aqui atrás?”, perguntou Leon, ignorando o
interrogatório de Miguel.
“É pequena a janela, eles não entram.”
O ruído de madeira partindo.
“Acho que eles entraram na casa, Don Miguel.”
“Se formos em busca da munição, vamos ter que passar por eles.”
“Ou podemos sair pela janela.”
Leon pegou uma garrafa de uísque e partiu o vidro.
“Seu desgraçado, não com meu uísque!”
Com a cabeça enfiada na janela partida, Leon viu que os mortos foram

108
inteligentes, e lá estava o reverendo William, aguardando a saída deles pela
janela, com os olhos famintos e os dentes expostos.
“Maldição!”, gritou Leon, e voltou para dentro da cozinha.
“Não podemos ficar aqui!”
Miguel Ramírez sacou a pistola. Apontou para a cabeça de Leon.
“Que diabos?”
“Primeiro você prova que não foi um Marlowe o responsável pelo
assassinato do meu filho Martín.”
“Porra, Miguel, não fui eu! Nem meu falecido irmão, que, por sua vez,
morreu por tiro de seu filho Juan!”
“Quem foi então?”
“E eu vou saber? O senhor não acha que pode ter sido o McCoy?”
“O dono do saloon? Esse McCoy?”
“Sim! O Martín não andava com a mulher dele?”
“Que inferno! Não pode ser!”
Miguel arremessou uma cadeira para o lado, espatifando uma das pernas
dela no chão. Leon se prontificou a ajudá-lo a tirar os obstáculos.
“Não quer me passar o revólver? Eu tenho uma mira melhor.”
“Nem em sonhos eu entregaria meu revólver para um Marlowe.”
“Nós vamos ter que passar pelo cadáver do seu filho. O senhor vai ter
coragem de disparar contra ele?”
“Você tem certeza que foi o McCoy?”
“A única certeza que tenho é que não sou o culpado. Nem o Samuel.”
Miguel parou de tirar os objetos. Expirou com força. Leon jurou ter visto
lágrimas ao redor de seus olhos. Miguel lhe passou o revólver.
“Não vá me aprontar gracinhas, viu?”
Leon assentiu.
Com a porta livre, escutaram uma batida. O cadáver de Martín estava do
lado de fora.
Leon chutou a porta com vigor. Ela voou para trás, empurrando Martín.
Miguel não pôde evitar um soluço triste ao ver seu filho com a pele toda

109
esverdeada e malcheirosa. Leon atirou em uma perna e depois na outra.
Martín caiu de joelhos no chão. Leon avançou e chutou a cabeça de Martín.
O morto-vivo estava deitado agora.
“Passe, passe!”, gritou Leon para Miguel.
Miguel Ramírez foi adiante, rumo à porta de entrada.
Leon foi segui-lo, quando sentiu um puxão na sua perna. Era Martín.
Leon foi ao chão, seu revólver caiu e deslizou até o pé de Miguel. Martín
mordeu a perna de Leon, arrancando um naco enorme de carne. Leon uivou
de dor. O morto-vivo seguiu na comilança voraz. Miguel se abaixou para
pegar o revólver e, com a arma na mão, apontou para a cabeça de Martín.
Disse: “Filho”, e ele não emitiu resposta. Só continuou a mastigar e roer.
Miguel fechou os olhos. Não teria coragem de fazê-lo de forma diferente.
Puxou o gatilho e o cérebro do filho se espalhou no chão.
Miguel deu o braço para Leon. “Vamos. Você ainda precisa responder a
uma série de perguntas.”
O reverendo William entrava na casa no seu cambalear furioso. Miguel
gastou as três balas restantes, acertando apenas uma no peito do morto-vivo.
Eles caminharam o mais rápido possível, Miguel incapacitado pela idade;
Leon, pelo ferimento na perna. Miguel arrastou Leon pela escadaria. Um
degrau de cada vez. O reverendo estava no primeiro degrau, perto deles. Leon
arrancou um pedaço de pau do corrimão e arremessou contra o morto-vivo.
Acertou seu rosto, perfurando-o. O reverendo deixou escapar um gemido
agudo, como o guincho de um morcego. Leon fez um sinal da cruz.
Conseguiram subir até o quarto de Miguel. Trancaram a porta.
O reverendo espancava a madeira.
Miguel preparou a espingarda. Abriu a porta, encostou a calibre 12 no
peito do reverendo e puxou o gatilho. A força do tiro fez com que ele voasse
escada abaixo. Miguel desceu um degrau e disparou outra vez, agora na
cabeça. Pouco sobrou de sólido do cadáver do reverendo.
Miguel retornou ofegante. Exercitou o ombro, para cima, para baixo. Ele
doía do tranco da espingarda. Leon sentou-se no chão e arregalou os olhos

110
para Miguel, assombrado com a frieza do velho.
“Padres. Não deixam de incomodar nem depois de mortos”, disse Miguel,
e cuspiu no chão do seu próprio quarto. Leon fez outro sinal da cruz.

***

Miguel Ramírez sentou ao lado de Leon no piso. Escorado na parede,


Ramírez procurou um cigarro. Marlowe encontrou um no bolso de sua
camisa. Pegou-o com a mão que não estava suja de sangue e passou para o
velho.
“Amigos?”, perguntou Leon.
Miguel riu. Acendeu o cigarro. Depois da primeira baforada de fumaça,
passou para Leon.
“Meu filho tinha uns dentes bem fortes, não?”, comentou Ramírez,
sinalizando o grotesco machucado na perna de Leon.
“Que engraçado, nem estou sentindo dor.”
Tragou.
“Foi muito difícil para o senhor disparar contra seu filho?”, inquiriu Leon.
O velho ficou em silêncio.
“Quer dizer, eu sei que ele já estava morto. Mas”, remendou Leon. Com a
quietude do Ramírez, decidiu abandonar o assunto.
“O que vocês tramam no porão?”
“Desculpa?”
“No porão. Meu filho Martín morreu na mesma noite em que tentou
descobrir o que havia no porão da casa da sua família. Se foi coincidência ou
não, isso não muda o fato de que vocês tramam algo no porão. O que é?”
Leon expulsou uma nuvem de fumaça cinza. Tocou no machucado da
perna. O osso estava visível. A gravidade do ferimento o deixou tonto,
desnorteado. Apagou.
“Ei! Acorde, garoto!”
Miguel o sacudiu. Empurrou seu ombro. Leon caiu no chão como um

111
peso morto.
“Ei, garoto, garoto!”
O velho deitou-o melhor, deu uns tapas no seu rosto desacordado. “Não
ouse morrer sem responder o que vocês aprontavam, garoto!” Ficou de
cócoras sobre ele e, com a ponta dos dedos, forçou uma abertura dos olhos de
Leon para ver suas pupilas. A impressão que teve foi de que o Marlowe não
tinha mais íris, tão perfeitamente negro era aquele círculo no centro do globo
ocular.
“Joder!”, exclamou Miguel. Tirou o cigarro que continuava aceso na mão
do garoto e colocou-o entre os dentes. Suspirou.
Um gemido doloroso saiu do corpo inerte. Uma espécie de “ããã” pesado e
gutural. Primeiro, Miguel achou que era um som que vinha da rua.
“Garoto?”
“Ããã.”
Miguel aproximou o ouvido para garantir que o ruído não havia sido
alucinação.
Em uma só mordida, Leon arrancou a jugular de Miguel Ramírez. Sentiu
um prazer inigualável mastigando carne humana.

112
O ASSOMBRO.
O caos orquestrado era regido pela Noite, o supremo maestro do medo.
Os habitantes de Mavrak se mastigavam pelas ruas.
Tiros e mais tiros. Para o alto. Para o corpo. Mas não adiantava destruir o
corpo. Era necessário aniquilar a cabeça.
Marcas de sangue tingiam a areia.
O saloon já havia visto de tudo. Porém, nunca isso. Não, isso não. McCoy
nunca testemunhou um cliente lhe comer parte do braço. Tampouco
imaginou que logo ele estaria avançando voraz rumo a um mariachi
embriagado. E quem estava sóbrio naquela noite? Havia algo de alucinatório e
onírico, uma sensação coletiva de que todos beberam demais, de que pessoas
não se mastigam por aí, não engolem tripas humanas com deleite. Teve um
sujeito que nem resistiu; o morto-vivo se aproximava cada vez mais e ele só ria
e ria e gargalhava. Achou que fosse um delírio, que passara do ponto no
uísque. Quando teve parte do cérebro arrancado era tarde demais para
questionar a veracidade do que presenciava.
A descrença ocupava todas as mentes do saloon. Exceto, talvez, a de Maria,
que subiu correndo pelas escadas. Desviou de uma prostituta de olhos
arregalados e fome descontrolada e se trancou no quarto. Pegou o revólver
que mantinha escondido embaixo do colchão e se jogou pela janela,
rompendo vidro e madeira e caindo na areia áspera e áspera e áspera de
Mavrak. Com grãos nos dentes, ela notou como infligia dor aquele piso
infinito da cidade. Uma costela possivelmente quebrada. O chão a chamava.
Não se renderia. Levantou-se. Desvairada, saiu pela rua de Mavrak, escorada
em cantos, testemunhando o que olhos sonhadores jamais deviam
testemunhar, a vitória do Inevitável.
Tiros e mais tiros.
Os mortos-vivos pareciam regozijar-se em especial com os cérebros
humanos. Iguarias. Um banquete a céu aberto. O inferno dos vivos era o

113
paraíso dos mortos. A lua, as estrelas e alguns pares de olhos assistindo.
Como os de Juan e Sergio, na janela do segundo andar na casa de Juan. O
lugar todo trancado. As janelas de baixo cobertas por tábuas pregadas. Juan
teve a impressão de identificar seu pai em meio à multidão, alumiado por um
disparo de revólver. Sua mãe, sentada na cama, chorava em agonia. Ela se
encolheu na cama cada vez mais. Juan puxou o cobertor para cobri-la. Ela
segurou a ponta do agasalho e se cobriu por inteiro. O lampião na cabeceira
permitia que Juan contemplasse a forma de sua mãe por baixo das cobertas e
do lençol se curvando até alcançar a posição de um feto.
Sergio se aproximou cada vez mais do tio, colado nele. Não falava nada;
sequer ousava perguntar o que estava passando com a cidade, por que tantos
gritos, urros e tiros. “Ainda bem que não perguntou nada”, pensou Juan.
Porque ele sabia a resposta. Ele sabia por que os mortos haviam voltado à
vida. Porque ele, Juan, a salvação dos Ramírez, pediu ao xamã para que eles
voltassem. Ele riu, como quem compreende a inevitabilidade das coisas.
Desde a morte de Martín, tudo se encaminhava rumo àquela noite.
E, pela janela, pôde enxergar Vienna, assustada e indefesa, o vestido
amarelo sujo de sangue.

114
É NOITE.
Aqui no D.F. de 2007.
Meu corpo todo está formigando. Meus dedos tremem, e isso me impede
de digitar mais. A sensação é que o ar chegou ao fim em meu quarto. Abro a
janela e tento respirar. É inútil, porque os sopros de vento são contidos e
tímidos.
Ligo pro meu amigo Carlos, digo para ele me encontrar na praça aqui
perto de casa.
Saio trôpego de casa. Tento sorver o máximo de ar que meus pulmões
suportam. Eles se enchem, mas a sensação ainda é ruim, como se não
houvesse oxigênio suficiente. E talvez não haja, nessa cidade de milhões de
carros, todos a vomitar poluição.
Eu corro mais rápido que a noite. Aposto corrida com a luz dos postes.
Minha sombra atravessa o espaço iluminado. É preciso respirar.
Eu chego à praça, absorvendo o ar em grandes goles, crente que talvez ali
nas árvores haja mais pureza.
Mas não há pureza.
Não enquanto existir a noite.
Muito tempo eu tentei entender a noite. Depois de fracassos repetidos,
desisti.
A noite levou meu filho.
Achei que poderia encontrá-lo na praça. Trouxe-o aqui umas vezes para
andar de balanço. Faz uns anos, eu sei.
Um homem se aproxima.
“Carlos!”, eu grito.
Ele me abraça e pergunta por que eu estou chorando tanto.
“A noite me separou do meu filho, meu filho morreu faz tempo, eu estou
tão sozinho.”
Ele diz que eu estou louco. Que meu filho está vivo. Apenas não fala

115
comigo há um bom tempo.
Eu não sei se acredito ou não.
Meu processo de inspirar e expirar normaliza.
A noite foi a culpada de tudo.
A noite. Eu me perdi nela. De tequila embaixo do braço, perdi meu filho e
minha esposa.
Quando foi que me perdi na noite? No passado, um passado tão
desgastado pelo tempo e pelo esquecimento quanto a época dos Ramírez e dos
Marlowes em Mavrak.
O maior problema da velhice é o câncer na memória. Uma raiz de
desorganização cronológica que se expande na mente e chega a um tamanho
tal que faz com que nós confundamos o passado e o presente ao mesmo
tempo que sonhamos em alterar o futuro.
Meu filho, Martín. Minha esposa, Maria. Não sei por onde eles andam, se
há como reavê-los. Se estão vivos ou mortos. Enquanto eu fico nessa dúvida,
não estão vivos nem mortos. São mortos-vivos. Andando em passo arrastado
pelas ruas arenosas da minha memória.

***

Carlos me acompanha de volta para casa.


Ele vê as garrafas vazias, os nachos espalhados pelo piso, sujeira de
guacamole na cozinha. Encontra trechos impressos e datilografados do meu
relato.
“Então, como vai o faroeste?”
“Quase no fim.”
Ele corre o dedo indicador pelas minhas frases.
“Aconteceram, de fato, as coisas que você conta aqui?”
“Que diferença faz?”, eu pergunto.
E Carlos não responde. Não há o que responder.

116
“AONDE VOCÊ VAI, TIO?”, perguntou Sergio.
“Entre aqui no armário, Sergio.”
“Mas, tio...”
Juan olhou o corpo de sua mãe. Ela havia parado de se contorcer de
nervosismo. Parecia até que caíra no sono.
Fechou o sobrinho no esconderijo e, esfregando os dedos na madeira, disse
em um sussurro audível que voltaria para buscá-los. Após tomar uma caixa
adicional de munição na gaveta e recolher o rifle pendurado na parede, desceu
as escadas e penetrou no ar frio da noite de Mavrak.
A morte por todo o lado gelava corpos e corações. Juan se cobriu melhor
com o poncho negro. Na sombra da varanda, tinha uma visibilidade
excelente. De lá, enxergava, à esquerda de sua casa, um morto-vivo se
acercando de Vienna. A moça gritava a plenos pulmões. Juan sacou o rifle,
estendeu o braço e mirou. Prendeu a respiração para tremer menos a mão.
Puxou o gatilho. O estouro, a luz, o tranco da arma o impediram de ver se
havia acertado o alvo. Então, o morto-vivo que ameaçava Vienna despencou
de joelhos no chão. Sim, Juan atingira a cabeça dele por sorte ou graças
àqueles raros momentos de claridade que chegam durante o desespero.
Vienna, em choque perante o corpo outra vez morto, novamente um
cadáver, libertou um grito aprisionado do fundo da alma, estridente a ponto
de machucar ouvidos próximos. Com as mãos, mexeu nervosa nos cabelos
para tirar os nacos de cérebro que ficaram presos entre os fios. Olhou ao
redor, em busca da fonte do disparo. Juan saiu de baixo das sombras e
acenou. Ela correu em sua direção. Quando chegou perto dele, deu um tapa
em seu peito, rangendo:
“Seu louco, você poderia ter me acertado, eu sei que você não é bom de
mira, seu filho da...”
“Calma, Vienna, eu tinha uma boa visão, ele estava distante, e...”
“Como você está tão calmo? Como? Metade de Mavrak já morreu, e parte

117
dessa metade voltou à vida e está tentando engolir os que vivem!”
“Porque alguém precisa estar calmo nesse mundo”, ele disse. E pensou:
“Porque, se não, é melhor eu apenas me juntar a eles, sair aí tentando comer o
cérebro de alguém.”
O rosto dela em chamas, os dentes à mostra. Ele apenas a fitou e encolheu
as sobrancelhas.
“Vamos”, ele disse.
Ela aproximou sua cabeça do peito de Juan e pôde escutar o coração dele
galopando mais veloz que um puro-sangue. “Humano, apesar de tudo”,
pensou Vienna, e sentiu o pânico se atenuar.
Ele abriu o poncho no ar e o estendeu até o ombro esquerdo de Vienna.
“O frio do deserto pode ser fatal.”
Ela assentiu. Juan guardou o rifle nas costas e sacou o revólver do coldre.
Sacudiu-o pelo ar, como se pronto para enfrentar qualquer ser vivo ou morto.
Os dois escutaram o relincho de cavalos. Thornton subia em um deles e
cavalgava selvagem, tacando as esporas no pobre animal. Ele passava de raspão
por cadáveres semoventes que, em vão, tentavam derrubá-lo.
Juan foi até o meio da rua e fez um sinal para Thornton. Ele veio em sua
direção.
“O que é isso, garoto, o que está acontecendo?”
“Não agora, xerife.”
O xerife apontou-lhe a arma.
“Os mortos voltaram à vida, xerife, porra, que diferença faz?”
“Quem foi o responsável?”
“Eu, xerife. Meu pai. Eu assumo a culpa por nós dois.”
Thornton puxou o cão da arma, e Juan aguardou imóvel a bala que
encerraria tudo.
“Que diferença faz agora?”, suspirou o xerife e guardou o revólver.
Escutou-se um grito feminino a distância.
“Cadê a Maria?”
“Não sei! No saloon, talvez?”

118
“O saloon está infestado desses monstros. Não tem como entrar.”
A distância, Juan viu que uma das pessoas que disparava tiros na noite
usava um vestido branco consumido de terra.
“Xerife, calma. Tem uma mulher atirando sem parar. Só pode ser a
Maria.”
“Onde?”, exclamou o xerife.
Juan apontou e Thornton partiu em direção a ela.
“Não conseguiremos sair da cidade a pé”, Juan disse a Vienna.
“Eu sei. O deserto nos engoliria.”
“Precisamos ir até o estábulo e pegar dois cavalos. Buscaremos Sergio e
minha mãe.”
“E o seu pai?”

119
INEVITABILIDADE. Essa era a única palavra que morava na cabeça de
Juan aquela noite.
A poucos metros do portão de entrada do estábulo, Juan se deparou com
uma figura conhecida.
“Pai?”, perguntou.
“Venha, Juan”, disse Vienna, e o puxou pelo braço.
Juan fincou os pés no chão.
“Espere um pouco”, respondeu.
“Vamos, Juan!”
A pessoa chegava cada vez mais perto dos dois. Juan notou o pescoço
dilacerado. Miguel Ramírez deixava escorrer um filete viscoso de saliva na
areia. Seus olhos ignoravam Juan e pareciam mais interessados em Vienna.
“Juan, vamos logo!”
“Espere, é o meu pai!”
“Sim, o seu pai está louco para me fazer em pedaços!”
“Meu pai não a mataria.”
“Sim, ele me mataria, mesmo se estivesse vivo, eu sou uma Marlowe,
droga!”
Vienna puxou Juan com ainda mais força. Ele estancou na posição como
uma estátua. Juan a empurrou com o cotovelo e ela caiu no chão.
“Levante essa arma, Juan!”
“Eu não vou matar meu pai, Vienna!”, ele gritou.
O odor putrefato de Miguel Ramírez já podia ser captado pelas narinas de
Juan.
“Ele já está morto, você não percebe?”
Juan retornou um passo. Levantou a arma.
A presença de seu pai era forte demais, ainda. Ele era capaz de ver naqueles
círculos negros o olhar de repreensão. E abrindo dentes ameaçadores, com
parte do pescoço em frangalhos, o rosto enegrecido por sangue seco, seu pai o

120
dominava ainda mais. Sua expressão parecia demonstrar um desprezo em
estado puro, quase sobre-humano.
“Você tem que atirar nele, Juan!”, ganiu Vienna.
O cadáver de Miguel Ramírez estendeu os braços e mudou de rumo, indo
em direção a Vienna.
“Ele vai me matar, maldição!”
O longo cano prateado do revólver de Juan apontava para a cabeça de seu
pai. Vienna pegava punhados de terra com a mão e jogava no rosto de
Miguel.
“Atire nele logo, droga! Ele vai me comer viva!”
“Eu sinto muito, Vienna”, disse Juan.
Ela notou que a face de seu amante estava empapada de lágrimas. A falsa
calma de Juan sumira. E, então, Vienna observou o cano do revólver de Juan
se deslocar para a cabeça dela.
“Eu sinto muito”, ele repetiu.
Ela ficou em silêncio. Ele abaixou a arma e atirou em seu peito. Uma, duas
vezes.
O corpo dela desabou no chão e parecia ficar ainda mais belo com a
palidez da morte.

121
NÃO POSSO ACREDITAR que escrevi isso.
Nem aqui! Nem no papel!
Carlos está dormindo no meu sofá. Fico feliz de ter alguém com quem
compartilhar minha agonia.
“Carlos!”, eu urro.
Ele abre os olhos ainda mergulhados na mais pesada sonolência.
“Nem na ficção, Carlos!”
“Do que você está...?”
“Nem na minha ficção o filho conseguiu matar o pai!”
Ele deixa cair a cabeça para trás. Aposto que está pensando que eu pirei de
vez e que vai ter que me levar na primeira hora da manhã para o hospício.
“Não consegui mudar a história.”
“Sim, é baseada em fatos reais dos seus antepassados, você não pode mudá-
la.”
“Que antepassados, Carlos? Você sabe tão bem quanto eu que meus
antepassados eram um bando de mexicanos pobres e insossos.”
“Eu sempre suspeitei pelo menos.” Ele se senta. “Tá bom, então você viu
muitos faroestes no cinema e quis escrever a sua historinha, o que tem de
errado? Ponha o que você quiser nela, Juanito.”
“Só que eu posso escrever até sangrar os dedos que não vai mudar a minha
história, Carlos, a minha porra de história! Eu, o meu filho Martín. Como eu
fui com ele. O desfecho. A noite.”
“Calma, você não quer beber uma água?”
Eu regurgito ar e espanco a mesa. Tento encher os pulmões e esvaziá-los
por completo. Dizem que ajuda.
“Eu sempre pensei que escrever era uma forma de matar o pai.”
Ele me olha com cara de quem não entende. Para falar a verdade, eu
também não entendi o que quis dizer com isso.
Mudo de assunto:

122
“Meu filho me contou de um jovem que escreveu uma história sobre um
mexicano velho escrevendo um faroeste. Onde aparecem mortos-vivos.”
“E...?”
“Nada, Carlos. Nada.”
Ele volta a fechar os olhos. Escuto seu ronco menos de um minuto depois.
Que inveja das pessoas que conseguem dormir quando bem entendem.
Daqueles que não passam a noite se revirando em pensamentos. Podem
simplesmente... desligar.
E daí que um rapaz escreveu isso? E daí que às vezes eu acho que é ele
quem escreveu a minha história? E que, talvez, se eu mandasse uma carta,
telefonasse para ele, de repente, ele fosse capaz de mudar a minha história.
Porém, vendo que nem no meu faroeste fui capaz de ajeitar as coisas, acho
difícil que esse jovenzinho consiga alterar algo.
Eu sonho. Ah, eu sonho.
A história dos mavrakianos está ali, no meu computador.
Na mira da tecla backspace, pronta para apagar as letras e as frases como se
fosse a tarefa mais ordinária.
A história pode ser reconstruída para se adequar a um final alegre e
otimista.
Porém, ah.
Eu me sentiria um traidor. Nunca me perdoaria.
É preciso ir até o fim, até as últimas consequências.
Estou condenado a repetir a minha história pessoal nas minhas linhas de
ficção. E torcer para que ninguém perceba que sou um péssimo mentiroso.
Implorar para que leiam como um faroeste, não uma autobiografia. Ou
melhor, uma tentativa de consertar uma autobiografia, uma tentativa
fracassada. Todo romance é a história de um fracasso. Não adianta, o texto
literário não é composto dos mesmos caracteres que o texto da vida, o texto
do mundo.
Então, que eu encerre agora este relato arenoso. Do jeito que a história
merece ser finalizada.

123
MONTADA NO CAVALO, junto com Thornton, Maria assistiu a uma
cena que lhe arderia na memória até o túmulo. Viu Juan Ramírez disparar
contra Vienna, guardar o revólver e abraçar seu pai. Abraçar aquele monstro.
Porém, seu pai não mais reconhecia o filho. Via-o apenas como um jantar
delicioso. E, assim, transformou Juan em um monstro como ele. Já mais
longe dos dois, concluiu triste que, pelo menos, agora estavam juntos, pai e
filho. Unidos pelo mesmo desejo cego de carne fresca.
“Atire, Maria!”, bradou Thornton.
Maria, distraída, não sabia em quem disparar. Eles se encontravam no
centro da cidade, no olho do fim do mundo. Então, viu uma moça com o
corpo em um estado avançado de deterioração à beira do cavalo. Era a mãe de
Sergio, que morreu no parto que deu vida ao pequeno Ramírez. Sentiu
vontade de comentar: “Quanto tempo, amiga!” Porém, quanto da pessoa
permanece quando ela é apenas um cadáver ambulante? Seu corpo putrefato
atuava como aquele tipo de objeto que se encontra no fundo de uma gaveta e
invoca tantas lembranças. Sorte que Maria nunca foi o tipo de pessoa que
guardava tralhas. Não hesitou, portanto, em atirar na testa da mãe de Sergio.
O cavalo seguiu caminho, trotando pelos cantos para desviar dos mortos-
vivos.
“Pare!”, gritou Maria. “Ali!” Apontou para uma figura diminuta que
caminhava assustada.
“Quem disse que ele não virou um, também?”
“Eu garanto que não, olhe o jeito como ele anda!”
“Não dá, o cavalo não aguenta mais um”, retrucou Thornton.
“Seu desgraçado, ou ele vai junto ou eu também não vou. O que
aconteceu, você parecia tão justo e bondoso e agora não quer salvar uma
criança?”
Thornton se virou para ela com os olhos faiscantes.
“Você tem razão. Pegue o garoto e vamos fugir de vez dessa cidade dos

124
demônios.”
Passaram perto de Sergio, e ela o pegou em um puxão e o posicionou entre
os dois. O cavalo atravessou o portão de Mavrak, e Maria e Sergio voltaram
seus rostos para trás, de onde podiam observar a cidade galopando ao seu final
óbvio. A morte de todos os que ali habitavam. Os mortos-vivos não sairiam
de Mavrak. Não conseguiriam atravessar as milhas e milhas de deserto no seu
passo lento, mesmo sendo mortos-vivos. Pelo menos, era no que ela
acreditava. Afinal, nenhum feitiço dura para sempre.

***

Acamparam na noite seguinte. Thornton fez uma luminosa fogueira, que


despiu o medo do trio. Sergio não havia pronunciado uma palavra desde que
saíra do povoado. O garoto dormia recostado em uma pedra.
“Então, o senhor sabe o que os Marlowes estavam planejando no porão?”,
perguntou Maria.
Ele limpou a garganta.
“Nem ideia. Talvez não fosse nada de mais. No sentido de ser uma arma,
como Miguel acreditava. Se fosse, eles a teriam buscado correndo, assim que
aparecesse o primeiro morto-vivo.”
“Então, nunca saberemos o que era?”
“Creio que não.”
“Humm.”
Thornton pensou que seria reconfortante saber que havia uma arma no
porão dos Marlowes. Porque, para ele, Mavrak acabaria, fosse destruída pelos
mortos-vivos ou pelas máquinas, não fazia diferença. Então, se houvesse uma
arma, Thornton não precisaria carregar a culpa de não ter evitado a volta dos
mortos.
Já Maria pensava que era bom não saber o que os Marlowes maquinavam
no porão. O que não se sabe a imaginação preenche. O nada se transforma no
infinito das possibilidades. Poderia ser uma arma, sim. Entretanto, também

125
poderia ser uma máquina do tempo. E ninguém dissuadiria Maria de sonhar
que era justamente isso que fabricavam no porão. Ah, teria sido tão
maravilhoso. Corrigir tudo.
“Fui eu que chamei o senhor, sabia?”
“Como?”
“Eu temia que a morte de Martín fosse desencadear uma guerra. Como, de
fato, desencadeou. E eu achava, ainda que não possuísse provas, que havia
sido meu marido, digo, o falecido McCoy, o responsável pelo assassinato do
Martín. Por ciúme.”
Thornton cuspiu.
“Um ciúme que trouxe o apocalipse.”
“Homens... sabem como iniciar um conflito”, comentou Maria. E
conseguiu sorrir pela primeira vez desde o incidente.
“Eles trazem a guerra dentro de si.”
“Você fala como se não fosse um.”
Thornton respondeu-lhe em pensamentos, onde confessava que era sim,
pois trazia tudo isso dentro de si, o medo, o desejo sobrepujante de
sobrevivência, como demonstrou ao hesitar no resgate de Sergio. Trazia o
desejo e o pecado, pois foi Maria a quem ele buscou quando o povoado
inteiro era consumido pela morte.
Tirou a estrela do peito e guardou-a no bolso. Ele se sentia ordinário
demais para usá-la. Um homem como qualquer outro. Até aquele dia, nunca
conhecera alguém que de fato merecesse usar a autoridade marcada na roupa.
Talvez somente Deus. Porém, depois do genocídio, Thornton olhava para o
céu em busca Dele e parecia que não estava mais lá. O trono ausente. Rezaria
antes de dormir na esperança de uma resposta. Porém, sua razão já lhe dizia
que não haveria resposta, apenas silêncio. Deus havia sido sepultado para
Thornton. Quiçá em seguida, Deus se tornaria como um morto-vivo para o
ex-xerife, um tormento que reapareceria do nada, em espasmos, e o recordaria
de uma época de idealismo que nunca regressará.

126
***

“Vamos”, disse Thornton, ao testemunhar a cerimônia de ressurreição do


sol.
Foram. Até se tornarem uma trilha de poeira no deserto. Até de longe
tudo parecer, sem distinções, um grande bloco formado por grãos e grãos de
areia. A cidade de Mavrak abandonada, deixada às sombras e aos fantasmas,
como no sonho profético que Juan teve após aquela noite de bebedeira.
Thornton, Maria e Sergio formarão uma nova família. Lutarão para
esquecer o que a noite lhes trouxe. Conhecerão as grandes cidades lá para o
norte. Haverá a sensação tranquilizadora de que Mavrak estava, sim,
condenada. Se não fossem os mortos, o povoado seria soterrado por prédios e
mais prédios. Edifícios e arranha-céus iluminadíssimos, todos cumprindo o
mesmo serviço: o de disfarçar a areia que permeia o solo e a escuridão
noturna. Thornton será acometido por uma nostalgia involuntária e
indesejada, pois sabia racionalmente que o Oeste era sinônimo de ódio e
tensão. Ainda era melhor que aquilo. Que o presente. Que o futuro. Que o
sentimento de que só há um caminho a ser seguido, e é rumo ao pior.
Sergio crescerá. Irá se casar com uma bela dama em Nova York. Depois, se
divorciará. Bastante velho, conhecerá outra moça no México e terá um filho
chamado Miguel. Meu pai. Que, por ironia, veio ao mundo no Día de los
Muertos.
Das poucas coisas que lembro de meu avô Sergio Ramírez, destaco o fato
de que ele tinha uma enorme dificuldade em dormir. Porém, essa dificuldade
era peculiar, pois seu sono desaparecia mesmo durante a noite. Suspeitei que
meu avô temesse a noite. E assim eu também passei a temê-la desde criança
sem motivos lógicos. E, hoje em dia, arrisco a dizer que conheço seus poderes
muito bem.
Ele conseguia pegar no sono, sim, meu avô, às vezes tarde da madrugada.
Porém, com frequência despertava sobressaltado aos gritos. Eu corria até seu
quarto, e ele dizia, com um cafuné nos meus cabelos, que eram os mortos, os

127
mortos.
Eles nunca estiveram tão vivos.

128
129
AGRADECIMENTOS

A Thomas Pynchon e Cormac McCarthy. Foi a leitura de seus respectivos


Against the day e Onde os velhos não têm vez que me trouxe a ideia de escrever
este romance.
A Sergio Leone, Sam Peckinpah e Clint Eastwood. A Dario Argento,
George Romero e Takashi Miike. Por tudo.
A meu irmão Pedro e a Jean Cocteau, pois roubei uma frase de ambos.
A meus pais, por motivos óbvios.
A Mariana Dutra.
A Daniel Galera, Carmen Xerxenesky, Milton Colonetti e Samir Machado
pelas sugestões de como melhorar o texto.
A Rodrigo Rosp, meu primeiro revisor, que leu sete vezes este livro e
contribuiu incrivelmente para o resultado final.

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RODRIGO OCTÁVIO CARDOSO

Edição Digital: setembro 2014

131
CIP-Brasil. Catalogação na Publicação.
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

X28a
Xerxenesky, Antônio, 1984-
Areia nos dentes [recurso eletrônico] / Antônio Xerxenesky. - 1. ed. - Rio de
Janeiro : Rocco Digital, 2014.
recurso digital

ISBN 978-85-8122-457-2 (recurso eletrônico)

1. Ficção brasileira. 2. Livros eletrônicos. I. Título.

14-14911 CDD: 869.93

CDU: 821.134.3(81)-3

132
O AUTOR

Antônio Xerxenesky é um porto-alegrense nascido em 1984. Fundou, em


2007, ao lado de cinco amigos, a Não Editora. Teve textos publicados em
diversos jornais e revistas, como The New York Times, Newsweek, Folha de
S. Paulo, O Estado de S. Paulo, entre outros. Alguns de seus contos foram
traduzidos para o inglês, o espanhol e o alemão. Em 2012, foi eleito pela
revista Granta um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros.
Atualmente, vive em São Paulo. Areia nos dentes, publicado originalmente em
2008 e finalista do Prêmio Açorianos de Narrativa Longa, é seu primeiro
romance.

133
Índice
Folha de Rosto 2
Dedicatória 3
Sumário 4
Parte 1 6
“E os mortos... 8
A noite tremia 10
Do diário de Miguel Ramírez 14
O universo era 17
[No saloon] 22
Juan sabe que 27
Algo falta 29
Cabeça na viga 33
Não caiu, mas 38
A sala da casa 41
“Que droga!” 43
Thornton cavalgava por 45
“O que o senhor... 49
E sucedeu então 51
“Por que está sorrindo... 55
Como não temer 60
Desde seu retorno 62
O problema de beber 68
Solilóquio interior do xerife Thornton 69
Miguel Ramírez se alvoroçou 72
O plano de Miguel Ramírez 75
O som do interfone 77
Parte 2 78
“Filho!” 80
Feia Mavrak não é 84
Castiçais rústicos, aberrações 87
Juan/Samuel 90

134
Juan saltou do cavalo 93
Digam o que quiserem 94
O duelo chegaria 96
Thornton nunca pareceu 100
Qualquer ser consciente 103
Retornar de baixo 105
O assombro. 113
É noite. 115
“Aonde você vai, tio?” 117
Inevitabilidade 120
Não posso acreditar 122
Montada no cavalo 124
Agradecimentos 130
Créditos 131
O Autor 133

135

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