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Argumentum

E-ISSN: 2176-9575
revistaargumentum@yahoo.com.br
Universidade Federal do Espírito Santo
Brasil

AMIN, Samir
A China é capitalista ou socialista?
Argumentum, vol. 6, núm. 1, enero-junio, 2014, pp. 283-297
Universidade Federal do Espírito Santo
Vitória, Brasil

Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=475547142020

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ENSAIO

A China é capitalista ou socialista?


China: capitalist or socialist?

1
Samir AMIN

Revolução Chinesa. A terra (agrícola) dis-

E
sta pergunta, na verdade, é mal co-
locada, demasiadamente geral e tribuída não foi privatizada; permaneceu
abstrata para qualquer resposta que como propriedade da nação representada
faça sentido em termos de alternativa abso- pelas aldeias e comunas e apenas o uso das
luta. De fato, a China tem realmente se- mesmas foi concedido às famílias rurais.
guido um caminho original desde 1950, e
talvez mesmo desde a Revolução de Tai- Na medida em que se repete constante-
ping, no século XIX. Tentarei aqui esclare- mente ao redor do mundo que os campo-
cer a natureza deste caminho original e neses anseiam ardentemente somente pela
cada uma das etapas de seu desenvolvi- propriedade da terra. Por que razão a im-
mento, de 1950 até hoje, 2013. plementação do princípio de que as terras
agrícolas não são mercadorias foi possível
A questão Agrária na China (e no Vietnã)? Se tal fosse o caso
na China, a decisão de nacionalizar a terra
Mao descreve a natureza da revolução rea- teria levado a uma guerra de camponeses
lizada na China, por seu Partido Comu- sem fim, como foi o caso quando Stalin co-
nista, como uma revolução anti-imperia- meçou a coletivização forçada na União So-
lista/antifeudal com o olhar em direção ao viética.
socialismo. Mao nunca assumiu que, de-
pois de ter lidado com o imperialismo e o A atitude dos camponeses da China e do
feudalismo, a população chinesa tenha Vietnã (e em nenhum outro lugar) não
“construído” uma sociedade socialista. Ele pode ser explicada por uma suposta “tradi-
sempre caracterizou esta construção como ção” na qual eles desconheciam a proprie-
a primeira fase do longo caminho ao socia- dade. Foi o produto de uma linha política
lismo. inteligente e excepcional implementada
pelos partidos comunistas desses dois paí-
Devo enfatizar bastante a natureza especi- ses.
fica da resposta dada à questão agrária pela

11
Economista egípcio, presidente do Fórum Mundial de Alternativas e diretor do Fórum do Terceiro Mundo,
em Dakar, Senegal. Publicado originalmente em Monthly Review vol. 64, num.10 (março 2013). Tradução e
adaptação para o Português por Adriana Ilha da Silva e Paulo Nakatami.

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Argumentum, Vitória (ES), v. 6, n.2, p. 259-294, jul./dez. 2014.
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A Segunda Internacional tinha como certo tação bem sucedida têm suas raízes históri-
a aspiração inevitável dos camponeses pela cas na Revolução de Taiping no século XIX.
propriedade, real o suficiente na Europa do Mao, portanto, teve êxito onde o Partido
século XIX. Os socialistas da Segunda In- bolchevique falhou: na consagração de
ternacional aceitaram este fato consumado uma sólida aliança com a maioria rural.
da "revolução burguesa", mesmo lamen-
tando-o. Eles também achavam que pe- Esta "especificidade chinesa" – cujas conse-
quena propriedade camponesa não tinha quências são da maior importância – nos
futuro, que este pertencia à grande em- impede de caracterizar a China contempo-
presa agrícola mecanizada. Eles achavam rânea (mesmo em 2013) como "capitalista",
que o desenvolvimento capitalista, por si porque a via capitalista se baseia na trans-
só levaria a tal concentração da proprie- formação da terra em mercadoria.
dade e para as formas mais eficazes de sua
exploração. A história provou que eles es- Presente e futuro da pequena
tavam errados. A agricultura camponesa produção
deu lugar à agricultura familiar capitalista
em um duplo sentido; aquele que produz No entanto, uma vez que esse princípio
para o mercado (consumo de fazenda que seja aceito, as formas de usar esse bem co-
se tornou insignificante) e que faz uso de mum (a terra das comunidades rurais)
modernos equipamentos, insumos indus- pode ser bastante diversificada. Para en-
triais e de crédito bancário. tender isso, devemos ser capazes de distin-
guir pequena produção de pequena propri-
Mao extraiu as lições dessa história e de- edade.
senvolveu uma linha de ação política com-
pletamente diferente. No princípio da dé- A pequena produção – camponesa e arte-
cada de 1930, na China meridional, durante sanal – dominou a produção em todas as
a longa guerra civil de libertação, Mao fun- sociedades no passado. Ela manteve um lu-
damentou-se na crescente presença do Par- gar importante no capitalismo moderno,
tido Comunista e numa sólida aliança com agora ligada à pequena propriedade, na
os pobres e os camponeses sem terra (a agricultura, serviços e até mesmo certos
maioria), manteve relações amigáveis com segmentos da indústria. Certamente está
os camponeses médios e isolou os campo- retrocedendo na tríade dominante do
neses ricos de todos os estágios da guerra, mundo contemporâneo (Estados Unidos,
sem necessariamente hostilizá-los. O su- Europa e Japão). Um exemplo disso é o de-
cesso desta linha preparou a grande maio- saparecimento de pequenas empresas e sua
ria dos habitantes das zonas rurais para substituição por grandes operações comer-
considerar e aceitar uma solução para os ciais. No entanto, isso não quer dizer que
seus problemas, que não exigisse a propri- essa mudança é "progresso", mesmo em
edade privada das terras distribuídas. Eu termos de eficiência, e tanto mais se as di-
acho que as ideias de Mao e sua implemen- mensões sociais, culturais e civilizacionais
são levadas em conta. Na verdade, este é

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um exemplo da distorção produzida pela destinados ao mercado e sobre a oferta de


dominação de rent-seeking, monopólios crédito e insumos, todos com base em pre-
generalizados. Por isso, talvez, em um so- ços planejados (decididos pelo centro).
cialismo futuro a pequena produção será
chamada para retomar o seu lugar e a sua A experiência das comunas após a criação
importância. das cooperativas de produção, nos anos de
1970, está cheia de lições. A questão não era
Na China contemporânea, em qualquer necessariamente passar da pequena produ-
caso, a pequena produção – que não é ne- ção para grandes fazendas, mesmo que a
cessariamente ligada à pequena proprie- ideia da superioridade destas tenha inspi-
dade – mantém um lugar importante na rado alguns de seus partidários. O essen-
produção nacional, não só na agricultura, cial desta iniciativa teve origem na aspira-
mas também em grandes segmentos da ção de construção socialista descentrali-
vida urbana. A China tem experimentado zada. As comunas não só tinham a respon-
diversas e até contrastantes formas de uso sabilidade de gerir a produção agrícola de
da terra como um bem comum. Precisamos uma grande aldeia ou um coletivo de vilas
discutir, por um lado, a eficiência (volume e aldeias (essa organização, ela própria era
de produção de um hectare por trabalha- uma mistura de formas de pequena produ-
dor/ano) e, por outro, a dinâmica das trans- ção familiar e produção especializada mais
formações postas em movimento. Estes for- ambiciosa), elas também forneciam uma
mulários podem fortalecer as tendências estrutura maior: (1) criando atividades in-
para o desenvolvimento capitalista, que dustriais que empregavam camponeses
acabaria por pôr em causa o estatuto de não disponíveis em determinadas épocas do
mercadoria da terra, ou pode ser parte do ano, (2) articulando atividades produtivas
desenvolvimento em uma direção socia- econômicas, juntamente com a gestão dos
lista. Estas perguntas podem ser respondi- serviços sociais (educação, saúde, habita-
das apenas através de uma análise concreta ção), e (3) começando a descentralização da
das formas em questão, uma vez que foram administração política da sociedade.
implementadas em momentos sucessivos
do desenvolvimento chinês, de 1950 até o Sem dúvida, as comunas nem sempre fun-
presente. cionaram sem problemas em muitos aspec-
tos. No entanto, os resultados registrados
No início, em 1950, a forma adotada foi a estão longe de terem sido desastrosos,
pequena produção familiar combinada como a direita nos quer fazer crer. A Co-
com formas simples de cooperação para a muna na região de Pequim, que resistiu à
gestão de irrigação, trabalho que requer co- ordem para dissolver o sistema, continua a
ordenação, bem como a utilização de certos registrar excelentes resultados econômicos
tipos de equipamento. Isto foi associado à relacionados com a persistência de debates
inserção dessa pequena produção familiar políticos de alta qualidade, que desapare-
na economia de Estado que manteve o mo- ceram em outros lugares. Os projetos atu-
nopólio sobre as compras dos produtos ais de "reconstrução rural", implementado

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por comunidades rurais em várias regiões ainda é dominante em outras partes do ter-
da China, parecem estar inspirados na ex- ceiro mundo capitalista. Estruturas perma-
periência das Comunas. nentes bem equipadas e confortáveis for-
mam um contraste marcante, não só com a
A decisão tomada por Deng Xiaoping de antiga China da fome e da pobreza ex-
dissolver as comunas em 1980 fortaleceu a trema, mas também com as formas extre-
pequena produção familiar, que permane- mas de pobreza que ainda dominam a pai-
ceu como a forma dominante durante as sagem da Índia ou da África.
três décadas seguintes à esta decisão. No
entanto, a variedade de direitos dos usuá- Os princípios e as políticas implementadas
rios (por Comunas das aldeias e unidades (terrenos mantidos em comum, o apoio à
familiares) ampliou-se consideravelmente. pequena produção sem pequena proprie-
Tornou-se possível aos titulares, caso fos- dade) são responsáveis por estes resulta-
sem residir fora, o "aluguel" (mas nunca a dos inigualáveis. Eles tornaram possível
"venda") de seus direitos do uso da terra, uma migração rural-urbana relativamente
seja para outros pequenos produtores ou às controlada. Compare isso com a via capita-
empresas que organizam uma fazenda lista no Brasil, por exemplo. A propriedade
muito maior e modernizada (nunca um la- privada da terra agrícola esvaziou o inte-
tifúndio, que não existe na China, mas, no rior do Brasil, hoje com apenas 11% da po-
entanto, consideravelmente maior do que a pulação do país. Mas, pelo menos 50% dos
agricultura familiar). residentes urbanos vivem em favelas e so-
brevivem apenas graças à "economia infor-
Em minha opinião, “aprovar” ou “rejeitar” mal" (inclusive o crime organizado). Não
essa diversidade de formas de exploração há nada semelhante na China, onde a po-
das terras, à priori, não faz sentido. O fato pulação urbana como um todo está ade-
é que essa inventiva diversidade de formas quadamente empregada e alojada, mesmo
de uso comumente realizada levou a resul- em comparação com muitos "países desen-
tados fenomenais. Em primeiro lugar, em volvidos", mesmo sem mencionar aqueles
termos de eficiência econômica, embora a em que o PIB per capita está no nível do
população urbana crescesse de 20 para 50 chinês.
% da população total, a China conseguiu
aumentar a produção agrícola para manter A transferência da população da densa-
o ritmo das necessidades gigantescas de mente povoada zona rural chinesa (so-
urbanização. Ela preservou e fortaleceu sua mente o Vietnã, Bangladesh e o Egito são
soberania alimentar: sua agricultura ali- semelhantes) foi essencial. Melhorou as
menta 22% da população do mundo razoa- condições para a pequena produção rural,
velmente bem posto que ela tenha apenas tornando mais terras disponíveis. Esta
6% das terras aráveis do mundo. Além transferência, embora relativamente con-
disso, em termos da forma (e nível) de vida trolada, é, talvez, uma ameaça caso torne-
das populações rurais, as aldeias chinesas se demasiadamente rápida. Isso está sendo
não têm mais nada em comum com o que discutido na China.

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O capitalismo de Estado Chinês O capitalismo de Estado foi construído na


China para atingir três objetivos: a) cons-
O primeiro rótulo que vem à mente para truir um sistema industrial moderno, inte-
descrever a realidade chinesa é o capita- grado e soberano; b) gerir a relação desse
lismo de Estado. Muito bem, mas este ró- sistema com pequena produção rural, e; c)
tulo permanece vago e superficial en- controlar a integração da China no sistema
quanto seu conteúdo específico não é ana- mundial, dominado por monopólios gene-
lisado. ralizados da tríade imperialista (Estados
Unidos, Europa, Japão). A busca desses
É de fato capitalismo no sentido de que a três objetivos prioritários é inevitável.
relação a que os trabalhadores são subme- Como resultado, ela permite um possível
tidos pelas autoridades que organizam a avanço no longo caminho para o socia-
produção é semelhante ao que caracteriza lismo, mas, ao mesmo tempo em que re-
o capitalismo: o trabalho submisso e alie- força a tendência a abandonar essa possibi-
nado, a extração do trabalho excedente. lidade em favor de perseguir o desenvolvi-
Existem na China formas brutais de ex- mento capitalista puro e simples. Deve-se
trema exploração dos trabalhadores, por aceitar que este conflito é inevitável e está
exemplo, nas minas de carvão ou no ritmo sempre presente. A questão então é: as es-
alucinante das oficinas que empregam mu- colhas concretas da China favorecem qual
lheres. Isso é escandaloso para um país que dos dois caminhos?
afirma querer seguir em frente no caminho
para o socialismo. No entanto, o estabeleci- Em sua primeira fase (1954-1980), o capita-
mento de um regime capitalista de Estado lismo de Estado chinês requereu a naciona-
é inevitável e permanecerá assim em todos lização de todas as empresas, grandes e pe-
os lugares. Os próprios países capitalistas quenas, (combinada com a nacionalização
desenvolvidos não serão capazes de entrar das terras agrícolas). Seguiu-se uma aber-
em um caminho socialista (que não está vi- tura para a iniciativa privada, nacional
sível na agenda hoje em dia), sem passar e/ou estrangeira e liberalização da pequena
por esta primeira etapa. É a fase preliminar produção rural e urbana (pequenas empre-
no compromisso potencial de qualquer so- sas, comércio, serviços). No entanto, as
ciedade de libertar-se do capitalismo histó- grandes indústrias de base e do sistema de
rico no longo caminho para o socia- crédito constituídas durante o período ma-
lismo/comunismo. Socialização e reorgani- oista não foram desnacionalizadas, mesmo
zação do sistema econômico em todos os que as formas de organização da sua inte-
níveis, da empresa (a unidade elementar) gração em uma economia de "mercado" fo-
para a nação e para o mundo, necessitam ram modificadas. Esta escolha foi em con-
de uma prolongada luta durante um perí- junto com o estabelecimento de meios de
odo de tempo histórico que não pode ser controle sobre a iniciativa privada e poten-
encurtado. cial parceria com o capital estrangeiro. Ele
continua até o ponto que estes meios são
vistos de modo a cumprir suas funções ou,

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pelo contrário, eles se tornariam cascas va- todos os efeitos negativos dessa coincidên-
zias, conspirando com o capital privado cia – em minha opinião, a escolha de um
(através de "corrupção" da administração). "socialismo de mercado", ou melhor, um
Ainda assim, o que o capitalismo de Estado "socialismo com o mercado", é em grande
chinês tem obtido entre 1950 e 2012 é sim- parte justificada como fundamental para
plesmente incrível. Ele construiu, de fato, esta segunda fase de desenvolvimento ace-
um sistema produtivo moderno, soberano lerado.
e integrado à escala de um país gigante,
que só pode ser comparada com a dos Es-
tados Unidos. Ele conseguiu deixar para Os resultados desta escolha são, mais uma
trás a estreita dependência tecnológica de vez, simplesmente incríveis. Em poucas
suas origens (importação dos soviéticos e, décadas, a China construiu uma urbaniza-
em seguida, dos modelos ocidentais) atra- ção produtiva e industrial que reúne 600
vés do desenvolvimento de sua própria ca- milhões de seres humanos (quase igual à
pacidade para produzir invenções tecnoló- população da Europa!), dois terços dos
gicas. No entanto, ele não tem (ainda?) ini- quais foram urbanizados ao longo das
ciado a reorganização do trabalho a partir duas últimas décadas. Isto é devido à Pla-
da perspectiva da socialização da gestão nificação e não ao mercado. A China tem
econômica. A Planificação – e não a "aber- agora um sistema produtivo verdadeira-
tura" – manteve-se como meio central para mente soberano. Nenhum outro país no Sul
implementar essa construção sistemática. (com exceção de Coréia e Taiwan) conse-
guiu fazer isso. Na Índia e no Brasil há ape-
No período maoista, o Plano permaneceu nas alguns elementos díspares de um pro-
imperativo em todos os detalhes: a natu- jeto soberano do mesmo tipo, nada mais.
reza e a localização dos novos estabeleci-
mentos, os objetivos de produção e os pre- A Planificação continua a ser imperativa
ços. Nesse estágio, nenhuma alternativa ra- para os grandes investimentos de infraes-
zoável era possível. Vou citar aqui o inte- trutura necessários para o projeto: para
ressante debate sobre a natureza da lei do abrigar 400 milhões de novos habitantes
valor que sustentou o planejamento neste urbanos em condições adequadas e para
período. O próprio sucesso, e não o fra- construir uma rede incomparável de auto-
casso, desta primeira fase exigiu uma alte- estradas, estradas, ferrovias, barragens e
ração dos vias para a continuidade desse usinas de energia elétrica, para abrir todo
projeto de desenvolvimento acelerado. A ou quase todo o interior da China, e de
"abertura" para a iniciativa privada, inici- transferir o centro de gravidade do desen-
ada em 1980, mas, acima de tudo, de 1990 – volvimento das regiões costeiras para o
era necessária a fim de evitar a estagnação oeste continental. O Plano também perma-
que foi fatal para a URSS. Apesar do fato nece imperativo, pelo menos em parte,
de que esta abertura coincidiu com o para os objetivos e os recursos financeiros
triunfo globalizado do neoliberalismo, com das empresas públicas (estatais, provinci-
ais, municipais). Quanto ao resto, ele

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aponta para possíveis e prováveis objetivos do PIB. O triunfo do neoliberalismo favore-


para a expansão da pequena produção ceu o sucesso desta escolha por quinze
mercantil urbana, bem como atividades anos (de 1990 a 2005). A insistência nesta
privadas industriais e outros. Estes objeti- escolha é questionável, não só por causa de
vos são levados a sério e os recursos polí- seus efeitos políticos e sociais, mas também
tico-econômicos necessários para a sua re- porque ela é ameaçada pela implosão do
alização são especificados. No conjunto, os capitalismo globalizado neoliberal, que co-
resultados não são muito diferentes das meçou em 2007. O governo chinês parece
previsões "planejadas". estar ciente disso e começou a tentar uma
correção, dando maior importância para o
O capitalismo de Estado chinês tem inte- mercado interno e para o desenvolvimento
grado no seu projeto de desenvolvimento do oeste da China.
dimensões sociais (não estou a dizer "soci-
alista") visíveis. Estes objetivos já estavam Dizer, como se ouve ad nauseam, que o su-
presentes na era maoista: erradicação do cesso da China deve ser atribuído ao aban-
analfabetismo, cuidados básicos de saúde dono do maoismo (cujo "fracasso" era ób-
para todos, etc. Na primeira parte da fase vio), à abertura para o exterior, bem como
pós-maoista (década de 1990), a tendência à entrada de capital estrangeiro é simples-
foi, sem dúvida, negligenciar a busca des- mente uma idiotice. A construção maoista
tes esforços. No entanto, deve-se notar que pôs em prática as bases sem as quais a aber-
a dimensão social do projeto, desde então, tura não teria obtido o sucesso conhecido.
ganhou de volta o seu lugar e, em resposta Uma comparação com a Índia, que não fez
a movimentos sociais ativos e poderosos, uma revolução comparável, demonstra
deve apresentar mais progressos. A nova isso. Para dizer que o sucesso da China é
urbanização não tem paralelo em qualquer principalmente (ou até "completamente")
outro país do Sul. Há certamente bairros atribuível às iniciativas de capital estran-
"chiques" e outros que não são de todo opu- geiro não é menos idiota. Não é o capital
lentos, mas não há favelas, que continua- multinacional que erigiu o sistema indus-
ram a expandir-se nas cidades do terceiro trial chinês e atingiu os objetivos de urba-
mundo. nização e construção de infraestrutura. O
sucesso é atribuível ao projeto chinês sobe-
A integração da China na rano em 90%. Certamente, a abertura ao ca-
globalização capitalista pital estrangeiro tem cumprido funções
úteis: aumentou a importação de tecnolo-
A China entrou na globalização nos anos gias modernas. No entanto, devido aos
1990 através do desenvolvimento acele- seus métodos de parceria, a China absor-
rado das exportações de manufaturados veu essas tecnologias e agora domina o seu
possíveis para seu sistema produtivo, com desenvolvimento. Não há nada de seme-
prioridade às exportações cujas taxas de lhante em outro lugar, mesmo na Índia ou
crescimento superaram as do crescimento no Brasil, a fortiori, na Tailândia, Malásia,
África do Sul e outros lugares.

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Além disso, a integração da China na glo- aproveitar-se dos benefícios do treina-


balização tem-se mantido parcial e contro- mento e da integração de unidades deslo-
lada (ou pelo menos controlável). A China calizadas, não relacionadas sistemas pro-
manteve-se fora da globalização financeira. dutivos nacionais inexistentes (como no
O sistema bancário é totalmente nacional e Marrocos e Tunísia); sem nenhuma trans-
focado no mercado de crédito interno do ferência de tecnologia; e nem mesmo para
país. A gestão do Yuan ainda é uma ques- realizar um ataque financeiro e permitir
tão de soberania e de decisão da China. O que os bancos imperialistas desapropriem
Yuan não está sujeito aos caprichos das bol- as economias nacionais como no México,
sas flexíveis que a globalização financeira Argentina e no Sudeste Asiático. Na China,
impõe. Pequim pode dizer a Washington por outro lado, os investimentos estrangei-
“o Yuan é o nosso dinheiro e seu pro- ros podem certamente aproveitar-se de
blema", assim como Washington disse aos baixos salários e obter bons lucros, com a
europeus em 1971, “o dólar é nosso di- condição de que seus planos se encaixem
nheiro e seu problema". Além disso, a na China e permitam a transferência de tec-
China mantém uma grande reserva para nologia. Em suma, estes são os lucros "nor-
colocação em seu sistema público de cré- mais", mas muito mais pode ser obtido se
dito. A dívida pública é insignificante em conspirarem com a permissão das autori-
comparação com as taxas de endivida- dades chinesas.
mento (considerado intolerável) nos Esta-
dos Unidos, Europa, Japão e muitos dos China: Potência Emergente
países do Sul. A China pode, assim, au-
mentar a expansão de seus gastos públicos, Não há dúvidas de que a China é uma po-
sem grave perigo de inflação. tência emergente. Uma ideia atual é que a
China está tentando recuperar apenas o lu-
O sucesso de seu projeto não foi devido à gar que tinha ocupado durante séculos e o
atração de capital estrangeiro para a China, perdeu no século XIX. No entanto, esta
a partir do qual se beneficiou. Pelo contrá- ideia – certamente correta, e lisonjeira – não
rio, é o sucesso do seu projeto que tem feito nos auxilia muito a compreender a natu-
os investimentos na China serem atraentes reza dessa emergência e suas perspectivas
para as multinacionais ocidentais. Os paí- reais no mundo contemporâneo. Aliás,
ses do Sul, que abriram suas portas de ma- aqueles que propagam essa ideia comum e
neira muito mais ampla do que a China, vaga não têm interesse em considerar se a
aceitando incondicionalmente sua submis- China vai emergir para unir-se aos princí-
são à globalização financeira, não se torna- pios gerais do capitalismo (que eles acham
ram atraentes na mesma medida. O capital que é provavelmente necessário) ou se vai
transnacional não é atraído para a China levar a sério o seu projeto de "socialismo
para saquear os recursos naturais do país, com características chinesas". Da minha
nem para terceirizar e se favorecer de bai- parte, defendo que, se a China é de fato
xos salários pagos ao trabalho, nem para uma potência emergente, é precisamente

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porque não escolheu o caminho de desen- Sen e o Kuomintang, já tinham planejado


volvimento capitalista puro e simples, e uma ressurreição chinesa em resposta ao
que, como consequência, se ela decidisse desafio do Ocidente. No entanto, eles ima-
seguir essa via capitalista, o projeto e sua ginavam que havia outro caminho que não
própria emergência estariam em grave pe- o capitalismo, mas não tinham os meios in-
rigo de fracassar. telectuais para entender o que o capita-
lismo realmente é, e por que este caminho
A tese que eu apoio implica em rejeitar a foi fechado à China, e para todas as perife-
ideia de que os povos não podem saltar a rias do sistema capitalista mundial. Mao,
sequência de etapas necessárias e conside- um espírito marxista independente, apre-
radas à questão de um possível futuro so- endeu isso. Mais do que isso, Mao entendia
cialista, e que a China deve passar, previa- que esta batalha não foi vencida antecipa-
mente, por um desenvolvimento capita- damente – da vitória em 1949 – e que o con-
lista. O debate sobre este tema entre as di- flito entre o comprometimento com o longo
ferentes correntes do marxismo histórico caminho para o socialismo, condição para
nunca foi concluído. Marx permaneceu he- o renascimento da China, e o retorno ao re-
sitante sobre esta questão. Sabemos que dil capitalista iria ocupar a totalidade do
logo após os primeiros ataques europeus futuro real.
(as Guerras do Ópio), ele escreveu: da pró-
xima vez que você enviar seus exércitos à Pessoalmente, eu sempre compartilhei da
China será recebido com uma faixa, "Aten- análise de Mao e eu voltarei a este tópico
ção, você está nas fronteiras da República em alguns dos meus pensamentos sobre o
burguesa da China". Esta é uma magnífica papel da Revolução Taiping (que eu consi-
intuição e mostra confiança na capacidade dero ser a origem distante do maoismo), a
do povo chinês para responder ao desafio, revolução de 1911 na China e outras revo-
mas ao mesmo tempo um erro porque, de luções no Sul, no início do século XX. E
fato, a faixa dizia: "Você está nas fronteiras também nos debates no início do período
da República Popular da China". No en- de Bandung e na análise dos impasses em
tanto, sabemos que, em relação à Rússia, que os chamados países emergentes do Sul
Marx não rejeitou a ideia de pular a fase ca- comprometidos com o caminho capitalista
pitalista (ver sua correspondência com estão emperrados. Todas estas considera-
Vera Zasulich). Hoje, pode-se acreditar que ções são corolários da minha tese central
o primeiro Marx estava certo e que a China sobre a polarização (ou seja, a construção
está de fato na rota do desenvolvimento ca- do contraste centro/periferia) imanente ao
pitalista. desenvolvimento mundial do capitalismo
histórico. Esta polarização elimina a possi-
Mao compreendeu – melhor que Lênin – bilidade de um país da periferia "acompa-
que o caminho capitalista levaria a nada e nhar" a conjuntura do capitalismo. Assim,
que a ressurreição da China só poderia ser temos que chegar à conclusão de que: se
obra de comunistas. Os imperadores Qing,
no final do século XIX, seguido por Sun Yat

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"recuperar o atraso" com os países opulen- talismo de Estado. Todos aceitaram a sub-
tos é impossível, algo deve ser feito, ele é missão à globalização contemporânea em
chamado a seguir o caminho socialista. todas as suas dimensões, incluindo a finan-
ceira. Rússia e Índia são exceções parciais a
A China não tem seguido um caminho es- este último ponto, mas não o Brasil e a
pecífico apenas a partir de 1980, mas desde África do Sul, entre outros. Às vezes, há
1950, embora este caminho passasse por fa- partes de uma "política da indústria nacio-
ses que são diferentes em muitos aspectos. nal", mas nada comparável com o sistemá-
A China tem desenvolvido um projeto coe- tico projeto chinês de construção de um sis-
rente, soberano que é apropriado para suas tema industrial completo, integrado e so-
próprias necessidades. Isto certamente não berano (nomeadamente na área de especi-
é o capitalismo, cuja lógica exige que as ter- alização tecnológica).
ras agrícolas sejam tratadas como uma
mercadoria. Este projeto continua sobe- Por estas razões todos esses outros países,
rano na medida em que a China permanece rapidamente caracterizados como emer-
fora da globalização financeira contempo- gentes, continuam vulneráveis em graus
rânea. variados, mas sempre muito mais do que a
China. Por estas razões, os aspectos de
O fato de que o projeto chinês não é capita- emergência – taxas respeitáveis de cresci-
lista, não significa que ele "é" socialista, mento, capacidade de exportar produtos
apenas que torna possível avançar mais no manufaturados – estão sempre ligados com
longo caminho para o socialismo. No en- os processos de pauperização que afetam a
tanto, ainda está ameaçado por um desvio maioria das suas populações, o que não é o
que o mova fora dessa estrada e acabe com caso da China. Certamente, o crescimento
uma troca, pura e simples, ao capitalismo. da desigualdade é evidente em toda parte,
incluindo a China, mas esta observação
A emergência do sucesso da China é o re- permanece superficial e enganadora. Uma
sultado de seu projeto soberano. Nesse sen- coisa é a desigualdade na distribuição dos
tido, a China é o único país autêntico emer- benefícios do crescimento que não exclui
gente (junto com a Coreia e Taiwan). Ne- ninguém (e ainda é acompanhado de uma
nhum dos muitos outros países para os redução nos bolsões de pobreza – este é o
quais o Banco Mundial concedeu um certi- caso da China), outra coisa é a desigual-
ficado de emergência é realmente emer- dade relacionada com um crescimento que
gente, porque nenhum desses países perse- beneficia apenas uma minoria (de 5% a
gue persistentemente um projeto soberano 30% da população, segundo o caso), en-
coerente. quanto que o destino dos outros perma-
nece desesperador. Aqueles que criticam
Todos subscrevem os princípios funda- ou denigrem a China desconhecem – ou
mentais do capitalismo puro e simples, fingem desconhecer – esta diferença deci-
mesmo em setores potenciais do seu capi- siva. A desigualdade que resulta da exis-
tência de bairros com moradias de luxo,

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por um lado, e bairros com habitação con- ranos dos povos de escolherem a sua pró-
fortável para as classes média e de traba- pria política e sistema econômico. Cada um
lhadores, por outro lado, não é o mesmo destes fins entra em conflito direto com os
que a desigualdade perceptível a partir da objetivos estabelecidos pela tríade imperia-
justaposição de bairros ricos, habitação de lista.
classe média, e as favelas para a maioria.
Os coeficientes de Gini são valiosos para O objetivo da estratégia política dos EUA é
mensurar as mudanças de um ano para o o controle militar do planeta, a única ma-
outro em um sistema com uma estrutura neira que Washington pode reter as vanta-
fixa. No entanto, em comparações interna- gens que lhe dão hegemonia. Este objetivo
cionais entre sistemas com diferentes estru- está sendo perseguido através das guerras
turas, eles perdem seu significado, como preventivas no Oriente Médio, e, nesse sen-
todas as outras medidas de magnitudes tido, essas guerras são as preliminares para
macroeconômicas nas estimativas nacio- a guerra preventiva (nuclear) contra a
nais. Os países emergentes (exceto China) China, a sangue-frio previsto pelo esta-
são de fato "mercados emergentes", abertos blishment norte-americano como possivel-
à entrada dos monopólios da tríade impe- mente necessária "antes de seja tarde de-
rialista. Estes mercados permitem a estes mais”. E fomentar a hostilidade à China é
últimos extrair, em seu benefício, uma indissociável dessa estratégia global, que
parte considerável da mais-valia produ- se manifesta no apoio demonstrado aos
zida no país em questão. A China é dife- proprietários de escravos do Tibete e Sin-
rente: é uma nação emergente em que o sis- kiang, no reforço da presença naval dos
tema possibilita a retenção da maior parte EUA no Mar da China, e o incentivo irres-
da mais-valia produzida ali. trito ao Japão para construir as suas forças
militares.
Grandes sucessos, novos desafios
Ao mesmo tempo, Washington se dedica a
Para compreender a natureza dos desafios manipular a situação para apaziguar as
que a China de hoje enfrenta é essencial en- possíveis ambições da China e dos países
tender que o conflito entre o projeto sobe- ditos emergentes, através da criação do G-
rano da China e o do imperialismo norte- 20, que se destina a dar a estes países a ilu-
americano, e seus subalternos aliados euro- são de que sua adesão à globalização libe-
peus e japoneses, vai aumentar em intensi- ral iria servir os seus interesses. O G2 (Es-
dade à medida que avança o sucesso da tados Unidos/China) é, neste sentido, uma
China. Existem várias áreas de conflito: o armadilha que torna a China o cúmplice
comando das tecnologias modernas, o das aventuras imperialistas dos Estados
acesso a recursos do planeta, o reforço das Unidos, podendo causar a perda de toda a
capacidades militares da China, e a realiza- credibilidade da política externa pacífica
ção da intenção de reconstruir uma política de Pequim.
internacional em função dos direitos sobe-

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A única resposta eficaz possível a esta es- Então, a outra parte do desafio diz respeito
tratégia deve proceder em dois níveis: (I) à questão da democratização da gestão po-
fortalecer as forças militares da China e lítica e social do país. Neste sentido, Mao
equipá-las potencialmente para uma res- formulou e implementou um princípio ge-
posta intimidadora, e (II) prosseguir tenaz- ral para a gestão política da nova China
mente no objetivo de reconstruir um sis- que ele resumiu nos seguintes termos: 1)
tema político internacional policêntrico, unir a esquerda; 2) neutralizar (eu acres-
que respeite todas as soberanias nacionais, cento: e não eliminar) a direita; e, 3) gover-
e, para esse efeito, agir no sentido de reabi- nar a partir do centro para a esquerda.
litar as Nações Unidas marginalizadas pela Desta forma, Mao deu um conteúdo posi-
OTAN. Enfatizo a importância decisiva tivo para o conceito de democratização da
deste último objetivo, o que implica a prio- sociedade combinada com o progresso so-
ridade de reconstruir uma "frente do Sul" cial no longo caminho para o socialismo.
(Bandung 2?) capaz de sustentar as inicia- Ele formulou o método para efetivar o se-
tivas independentes dos povos e dos Esta- guinte: "a linha de massas" (descer para as
dos do Sul. Isso implica, por sua vez, que a massas, aprender suas lutas, voltar para as
China se torne consciente de que ela não cúpulas do poder).
tem os meios para a possibilidade absurda
de se alinhar com as práticas predatórias A questão da democratização conectada
do imperialismo (saqueando os recursos com o progresso social, em contraposição à
naturais do planeta), uma vez que carece "democracia" desconectada do progresso
de um poder militar semelhante ao dos Es- social (e mesmo frequentemente ligada à
tados Unidos, que em última instância é a regressão social) – não diz respeito só à
garantia de sucesso para projetos imperia- China, mas a todos os povos do mundo. Os
listas. A China, ao contrário, tem muito a métodos que devem ser executados para o
ganhar, desenvolvendo a sua oferta de sucesso não podem ser resumidos em uma
apoio à industrialização dos países do Sul, única fórmula, válida em todos os tempos
que o clube de "doadores" imperialistas e lugares. Em qualquer caso, a fórmula ofe-
está tentando tornar impossível. recida pela mídia ocidental – com vários
A linguagem utilizada pelas autoridades partidos e eleições – deve pura e simples-
chinesas sobre questões internacionais, mente ser rejeitada. Além disso, esse tipo
contida ao extremo (o que é compreensí- de "democracia" se transforma em farsa,
vel), faz com que seja difícil saber até que mesmo no Ocidente, ainda mais em outro
ponto os líderes do país estão conscientes lugar. A "linha de massas" foi o meio para
dos desafios analisados acima. Mais seria- a produção de um consenso sucessivo aos
mente, esta escolha de palavras reforça ilu- objetivos estratégicos e em constante pro-
sões ingênuas e despolitização na opinião gresso. Isto é o contrário do "consenso" ob-
pública. tido nos países ocidentais através da mani-
pulação da mídia e da farsa eleitoral, que
nada mais é do que se alinhar às exigências
do capital.

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implementando a expansão da seguridade


No entanto, como a China deveria começar social em três dimensões: saúde, habitação
a reconstruir o equivalente a uma nova li- e previdência. A política de habitação po-
nha de massas em novas condições sociais? pular da China, difamada pela oposição da
Não vai ser fácil, porque a liderança do direita e da esquerda europeia, seria inve-
Partido Comunista, que na sua maioria jada, não só na Índia ou no Brasil, mas tam-
mudou para a direita, baseia a estabilidade bém nas áreas carentes de Paris, Londres
da sua gestão na despolitização e nas ilu- ou Chicago.
sões ingênuas que a acompanha. O sucesso
das políticas de desenvolvimento fortalece O sistema de seguridade social e de previ-
a tendência espontânea para essa direção. dência já cobrem 50% da população urbana
Acredita-se amplamente na China, que a (que tem aumentado, atingindo de 200 a
estrada real para recuperar o atraso com o 600 milhões de habitantes!) e a Planificação
modo de vida nos países opulentos está (ainda realizada na China) prevê o au-
aberto, livre de obstáculos, acredita-se que mento da cobertura para 85% população
a Tríade (Estados Unidos, Europa, Japão) nos próximos anos. Deixe que os jornalistas
não se opõem a isto, os métodos dos EUA que criticam, denigrem e até criminalizam
são admirados sem questionamento. Isto é a China nos dêem exemplos comparáveis
particularmente verdadeiro para as classes nos "países que enveredaram pelo caminho
médias urbanas, que estão se expandindo democrático", os quais eles continuam lou-
rapidamente e cujas condições de vida fo- vando. No entanto, o debate permanece
ram incrivelmente melhoradas. A lavagem aberto sobre os métodos de efetivação do
cerebral a que os estudantes chineses estão regime. A esquerda defende o sistema fran-
sujeitos nos Estados Unidos, especialmente cês de distribuição baseada no princípio da
nas ciências sociais, aliada a uma rejeição solidariedade entre estes trabalhadores e as
ao ensino oficial sem imaginação e sem o diferentes gerações – que se preparam para
marxismo, têm contribuído para diminuir o socialismo – enquanto a direita, obvia-
os espaços para debates críticos radicais. mente, prefere o sistema odioso dos EUA,
dos fundos de pensão, que divide os traba-
O governo da China não é insensível à lhadores e transfere o risco do capital para
questão social, não só devido à tradição de o trabalho.
um discurso fundado no marxismo, mas
também porque o povo chinês, que apren- No entanto, a aquisição de benefícios soci-
deu a lutar e continua a fazê-lo, força o go- ais é insuficiente se não for combinada com
verno. Se, na década de 1990, esta dimen- a democratização da gestão política da so-
são social tinha diminuído frente às priori- ciedade, com a sua re-politização por mé-
dades imediatas de acelerar o crescimento, todos que fortaleçam a invenção de formas
hoje a tendência é inversa. No momento em criativas para o futuro socialista/comu-
que as conquistas das socialdemocracias nista.
em seguridade social estão sendo erodidas Os objetivos da re-politização e a criação de
no opulento Ocidente, a pobre China está condições favoráveis à invenção de novas

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respostas só podem ser obtidos através de


lutas sociais, políticas e ideológicas. Isso AMIN, Samir. The Paris Commune and
implica o reconhecimento preliminar da le- the Taiping Revolution. International
gitimidade dessas lutas e de uma legislação Critical Thought, forthcoming in 2013.
baseada nos direitos coletivos de expres-
são, de organização, e de proposição de ini- AMIN, Samir. The 1911 Revolution in a
ciativas legislativas. Isso implica, por sua world historical perspective: a compari-
vez, que o próprio partido está envolvido son with the Meiji Restoration and the
nessas lutas, em suma, reinventar a fór- Revolutions in Mexico, Turkey and Egypt.
mula maoista da linha de massas. A re-po- published in Chinese in 1990.
litização não faz sentido se não for combi-
nada com procedimentos que favoreçam a AMIN, Samir. Ending the crisis of Capi-
conquista gradual de responsabilidade por talism or ending Capitalism? Oxford:
parte dos trabalhadores na gestão da sua Pambazuka Press, 2011. Chapter 5: The
sociedade em todos os níveis da empresa, agrarian question.
local e nacional. Um programa deste tipo
não exclui o reconhecimento dos direitos AMIN, Samir. A Life Looking Forward:
da pessoa individual. Pelo contrário, supõe memoirs of an independent Marxist. Lon-
sua institucionalização. Sua implementa- don: Zed Books, 2006. Chapter 7: Deploy-
ção tornaria possível reinventar novos ca- ment and Erosion of the Bandung Project.
minhos usando as eleições para escolha de
seus líderes. AMIN, Samir. The law of worldwide
value. Monthly Review Press, New York,
Agradecimentos: Este trabalho deve muito 2010. Initiatives from the South, 121ff, sec-
aos debates organizados na China (novem- tion 4.
bro-dezembro 2012) por Lau Kin Chi (Uni-
versidade de Lingnan, Hong Kong), em as- AMIN, Samir. The implosion of contem-
sociação com a South West Universidade porary capitalism. Monthly Review Press,
de Chongqing (Wen Tiejun), Renmin e Xi- New York, 2013. Chapter 2: The South:
nhua, Universidades de Beijing (Dai Ji- emergence and lumpendevelopment.
nhua, Wang Hui), o CASS (Huang Ping) e
reuniões com grupos de ativistas do movi- AMIN, Samir. Beyond US Hegemony.
mento rural nas províncias de Shanxi, Sha- London: Zed Books, 2006. Chapters: The
anxi, Hubei, Hunan e Chongqing. Dirijo a Project of the American Ruling Class;
todos eles meus agradecimentos e espero China, Market Socialism?; Russia, Out of
que este trabalho seja útil para as discus- the Tunnel?; India, A Great Power? and
sões em curso. Ele também deve muito a Multipolarity in the 20th Century.
minha leitura dos escritos de Wen Tiejun e
Wang Hui. AMIN, Samir. Obsolescent capitalism.
London: Zed Books, 2003. Chapter 5: The
Referências

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A China é capitalista ou socialista

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