Vous êtes sur la page 1sur 119

KAXINAW,~: àe seringueir•o 1

c abo clo '


a peão 11
a creano ;1

Dissertação de rn2stra clo apre s ent da a.o Cur'


so de P6s-Graduaç~o em Antropol og i a d a. Uni
versidade de Brasília

Terri Valle de Aqui n o


Pla no do Traba lho

-_....?fTULO I - A pesquis a de Campo ent r e os Ka.x inawâ

II - As Proposiç~es Te 6ricas th. ~


() ".2.,.
-

III ,.. O Apogeu e a Decadê ncia da Empre s a Seringal :i.sta ~ r


3~

IV= As Agrop e cuárias ©

;; V - i\s Ide ntidades Étnicas tl 2


VI - A Orga niza ção Social dos Kax inawá

-- _;S I DE RAÇÕES FINAIS {!)


J .../
J " ,. t, . ..

; -" ', ,. ,.
1 ' 1 : '·' ,. • ,_,, ,"":. ; •,,· \o>

. .' .
-1-

~ S QUISA DE Cf\J1PO ENTRE OS KAXINAWÁ •

O princip al objetivo deste capítulo 6 a descriç~o do s


- e ssos de obtenção de dados e das circunstâncias gera~LS em
ós, enquanto pesquisadores, fomos introduzidos na áriea on
~ tualmente vi vem os Kaxinawá. Procuramos então 5 apresentar/um
---~~o das nossas viagens , das relações estabelecidas com os
-- - ipais informantes, do tempo de permanência, das condiçõcc~
das circunstância em que as informaç;Õcis foram obti-
3.l.é:m de ur::1 mapeamento minucioso da distribuição a.tual da p:?._
~ 3 ~0 Kaxinaw~. Trat3 - se, portanto, de colocar ~nfa s e nas du
r. · ne nsões do trabalho de campo. A primeira diz rpspeito a
- - da dos foram coletados e a segunda? às intermedia ções de
_e valeu o pesquisador para obtê-lo s.
A p e squisa de campo ent r e os Kaxinawá foi realizada cm
~ tapas bastante distintas. N:?, pr:::.meira nao se tinha ainda
de pesquisa claramente de finido , No ss o objetivo era
uni ~u_rye_y_ preliminar abrange ndo a. região em que vivia e
a populaç~o Kaxinaw~, com vistas a fornecer • um levan
à Divisão de Estuéio s e Pesquis a s da F'u!2
_ aciona l do fndio ( FUNAI) ~ fi n.::, nciado ra desta primeira e
• _. s se Ôrg20 nunca havia atuado na região e mesmo fü::sconhe
mais atl.1ais da situação dciS populações indígenas dos
s rios Purus e Ju.ruá. Não existia. uma Única r e serva e
posto indígena foi insta.la. d o durante quase um século
entre os diversos grupos Pa no e Aru~k e a sociedade

Estes grupos indígenas tiveram um tipo de integração


dos Órgiios protetores: o S.P,I. no passado
1968. Apenas a p a rtir de 1 9 76 é que a FUN.lU
uma Aj udâ.ncia em Rio Branco~ capital do Acre, cuja a-
_ t u.:::.ç ã o limitava-se tão_ somente ao vale do Purus. Os Ka.
s empr e desco nheceram e ainda desconhecem uma ê, tuaçao d .::i..
::::.-=. bacia. do Ta rauacá ~ área em que s e loca.liza:ret .
In icia.mos o trabalhQ de car!l.po toma nào 2 cidade d..:: rs.:.
-2-

.,.., .
!!iO base de nosso deslocamento atra vés do rio J:Jn,,ira º Via
dc- Rio Branco para l!:_<: ijó em um táxi a.é:t:ieo ~ Ún ica v i a. de
=.:::sporte então existente , travamos conhecimento com o Prefei
~o c al que gentilme nte ofereceu·.. nos hospeda ger:1 em sua ca$a. Lo
_ _ ssamos a. ser c o nhecidos na cidade como ; ,3. ge nte da FUNAI 11
:federal ' 7 e 11
a.migo do Prefeito 11
Foram co m estas • apresent~
- ·=.S sociais que tra vamos o primeiro contato com os agrupame_!2
--= "ndÍgenas da periferia daquel a cidade, No mesmo dia o Pr e
=-· + fez questão de acompanhar-nos e m visita. à localida de de
Nova, onde vivia um grupo de Índios KatukÍna.
Morada Nova mais parece um b -3 .irro da perifE~ria d2 cida.
.
que propriamern.e ,_ uma ma.Loca
- . d .. p . ,
i rL 1gena, _ assamos -co aa a t a r

: â e logo perceb (imos que havia, e ntre e 1es e o Prefeito~ in


políticos cm jogo. Este, buscav2 transformar todos os
_:to s do g rupo~ h0mens e mulheres maio1,,e s de 18 anos~ em futu
_ = e l eitor e s da Arena. Havia UI!'ta escola a o l a do da 11 rua dc s <: a
profe s sor do Mobral, posto ~ disposiç~o pela prefei
local , ensinava a esse grupo K2tukÍna o. ,: d(c:senhar 1 o nome.
O prefeito apresentou-nos con o 11
um homem da FUNAI '' que
vindo de Brasília, com ordem do Governo , para melhorar a
2-

:~~ç~o dos grupos indígenas do município . Disse que a estadia


~ ea. era inicia tiva de sua administração , que havia alertado
2 t or1• Gac
, ::l
e s estaGua• •
is ,,.
e apropria •
FUNAI pa ra a exist~ncia da
. __, . ., .
_ ro bl ema J_ne1ig;rc.:.: na no mun1c1p10 d e Feij6. Os Katukína tinh2m
_ :-::-e feit o e G grand2 estima pois, d i ziam eles ; lhes havia v1.s~-
..
e m Mora da Nova e prometido profe ssor pa ra er.s :Lnar as cria n
-: e a os adultos do grupo , luz el&trica p a ra o bairro e um ti
futeb o l, c o nquanto el e s votass e m na Arena nas e leições p .:1
· e readore s a s e r r e alizadas em 197 6 .
Apé;s este primeiro conta to 5 apren dc:c mcs uma. lição: nos
· ·entificr1.çãô com o prefeito poderia criar' urna falsa expe ct~
do gr•upo e m relação ao nos se, tro::i balho. E c o mo a categoria
- S'? uisa é desconhecida regionalme nte, lo r.:;o perceb emos os peri-
-- - de uma manipul a ção política que nos envolvesse s e m que no s
semos c o nt a , Pa r a evitar mu ic:,r e s complic:içÕ ·.: :, s 1 pa ssamos a rc
==-5r em Mora da No va enqu,: 1nto ul timé.'. v a mos os prepara tivos p 2r a
_r o Envira e fazíamo 13 o levanta rnen-to das conC:.ições do 'fLd.',
-~ -
- 3--·

::: _ g lomerados Kaxinawâ dispersos pelas p1..,oximid:~~tles da ci Cl.a.de"


Dura nte o censo das c a s as de Mor ada No va" fomos b a sta ~
:~e stionados a c e rca do significa do da n o ss a pre s e nça 1~ e s~
que tinh a.mo s para oferecer-lhss º Pr ocur.:ivamo s mostn1r que
p2t s s c::;:va.mo s d e estudantes de Bre. sÍ1:ia cujo obje tivo era
o recen s eamen:to como o IBGE o fazi a par a saber quant o s
~

-~ -o s viviam naquele município. E f o i muito dif ícil convencei --


~
~
ue que n a- o tin
., h amo s o minimo
., . -
pod.e1'"' de . .,- .
interrerir n a re a 1 lua
· -"

que viv iam. Ap e nas prometíamos escrever u m r e l a t6ri o so


_ situação mis e r áve l que eles viviam e sobre a necessidade
::.ema rcaçã o de suas terras, Ao tentarmo s f ,::,, zer um l e v2rntamc n
- 5 neolÔgico 5 f omos questiona dos sob1"e o valor de s e lembrar
:- 1!.rent e s q uo j ,5. rrtorrex,am há mui t o t emp o , enquanto el e s oue
J.

- -...= ;; vi ", j_an1 não dispt1nharr1 de terça.do s , ;na.c11adcJs 5 enxa.détS e +'-- ,-,
'-- .
e ssa p ri meir a fase da pesqui.s c: de ca.mpo estas ques
7 - 2s
. ...
f oram suscita das pelos agrupame ntos indig(:ma.s da area -
O recenseamento de Morada No va apontava p a r a e x istên
de 92 pessoas vi vendo e m 19 casas, tr3s da s qua is estavam va
-- ""s porque s eu s respectivos ocupantes tinham rr.igr ado p a r a. a
Calif6rnia , loc a lizada no alto Rio Enviaa e de proprie-
--::e do gr•up o At al la-Coperçúcar. Por oc u. s iã.o da contra.taçií.o das
_e itada. s p a.ra r ea liza,r os pr im,~iros desmata.mento s du.quela f~.
-=-- -ª ~ um hon1em Ka t11}{: Ína ~ filho do velho Tt1xa.1.1e.. do gruJ?O 5 t .;:1:rn
-
.: - - s e o f e rec eu corno um dos ernprei t eiros º Sendo aceit o p elo a.d
- -::.str ador, p ass o u a contrata r dentre seus parentes aqueJ.es qu,:;
-ispunham a. traba lhar como peõe s dura nte os meses de verct0
=: ó ~ junho , julho , agos:t o e setemhro). Ap e n as este
.
Ka.tukina. J
- ;:re i te iro~ mantinha li ga ç ões c om a a.dmin is tração ô.a Faz,.:·nda F:

= eu n ome eram de spachadas t odas as me1°cadoria. s necessâ1"ia.s pa


a sobrevivé~ncia do grupo 9 inclusiv(:: os a limentos, Deste~ modo~
Fa.zenda só ma nt inha rel :1.ção com o s chefe s d,2
- =-re itadas, deixando os problemas e principa],mcnte as de spesas
_ c ontado s e~pr e iteiros.
O f i r!l da empreitada. não trouxe grandes vantagens ao
apenas conseguiram comprar mudas d.e roupa para si r:2 para
-== ' 1 i· a_; a 1~guns ainaa
• • rE:tornaram a.penas c oP1 uma e 1 e-t ro 1 a ou u m
-4 -

coisas que eles reputam - sim


como ' 1 de valor 11 r,,orque sao
...
C:e status e de identifica ã9__ Qo_m _o_s hábitos uPb,anos e re
Alegaram os Katukina que já tinham retor·nado da fazen
_,
de Cr$ 20,00 (vinte cruzeiros) paga aos peoes
baixa, uma vez que eles tinham que se abaste
todos os gêneros alimentícios nos 2rmazéns da Fazenda.
- eram os que tinham retornado cor,-1 saldo., Funcionando a ma -
aviamento, característica essencial da em
s e ringalista) a administração da Fazenda pagava aos ernpret
vales próprios e ganhava tanto nos altos tabe
para as mercadcrias como no baixo preço pago à diária dos
daquele
,s:!'e·+
• .
i ... eiro K.a t uKina,
, " que teve que passar uma temporada bem ma
?arª poder saldar as suas dívidas coro. nos paulistas ,· , ,como
1amados -t odos os administradores e funcionarios das nova.s
---º-· das que estavam sendo implantadas no Envira w
Ao fazer o censo de um dos grupos domésticos de Morada. :; - '
~ conhecemos um homem de aproximadamente 40 anas de nom8
5

-ito Cataiana. Tratava-se de um Kaxinawá que mora va anterior


-1:::::: em um serins;al do rio Murú, localizado próximo :; a -
.: '.!ade de Tar.éiuacá. Tinha migrado porque o s~ringal fo r a vendi
- ·
;>2.ra a A gropecuaria e·inco Estrelas § ~"':).,
~
, ;·_
.ct~i-) proprie
· d a ae da
f:.ç 3.o aérea Cruzr:;iro do Sul~ e os novos donos do seringal n&o
_- _citiram que ele continuasse cultivando a terra, explorando
~ -s duas estradas de seringa se m vínculo com os an-tigos p:::1tr'Ôc.:s
cr iando seus animais domésticos.
Carli to, em uma longa entrevista~ contou toda a sua his
-ôria de vida e os acontecimentos qué tinham precedido a su..::t vin
para o Envira. Por t e r1-se recusado 5 no p rimeiro Bomento, a
7endcr as benfeitorias de sua \;colocação;; ( colocação é a unida
::.e de produção do seringal ~ local onde esüí situada a barraca
=~seringueiro numa pequena clare~ra aberta na mata) c 0.2 rcada
_ r 2 a 6 estradas de seringa) ele foi intimado pelo Del egado
,__~ Polícia de Taraua([;.á e passou alguns dias na prisão até ou2
::-e solvesse a aceitar os Cr$ 400,00
- (quatro
- c1.;ont'os cruzeiros) ofe
'

~cidos pela administração do grupo Cinco Estrel:3-s. que estava


_r eocupada com possíveis reivindicaç~es de posse por parte dos
-5-

mrranqueiros. Sabedor dos graves conflitos existentGs e:ntre os po~_


1
seiros ' acreanos H ( ex-seringueiI'OS que já tinha~ p c~rdido os vín
ulos com seus antigos patrões e que e xploravam ainda a borracha.,
-:iue vendiam livre mente a regatões ou a comercia.ntE-:s das cidade s
_róximas~ cultivam seus roçados e tinham na criação doméstica
e patos, galinhas, porcos e algumas poucas cabe ças de gado 1
~~-

urd1 uma forte alternativa :)ara a alimentação e pe_ra vende, nos


=omentos de crise) e os novos donos dos seringais conhecidos r~
1
~ionalmente como ' paulistas n, a administração daquele grupo ec'.:;)_
__ômico tinha atuado rapidamente e expulsado todos os que poderii:
=...m alegar dir i.:: ito d e posse dentro da área de 37 .600 hectares da
_ova f:1zenda..
Carli to, como outros Kaxinawâ que lá permanccerarr: em
~uas colocações, t e ve que buscar novas alt2rnativas. Ele e sua
.:amÍlia haviaI". decidido viver e m Morada Nova 5 porque sua filha
_e criação, filha apenas de sua atual mulher, era c a sada com um
homem Katukína que lá vivia. Ficamos impressiona d os pela facili
à ade com que se expressava em portu g uôs, e pelo modo como conhe
ia os problemas locais e os in~mero s sering ais ond e vivia d is
_ersa a populaçâo Kaxinawá. Ele era capaz de enumerar todos os
seringais do Murú, Tàrauacá e Jordão , onde se localizavam os Ka
>
x inawá. Por ter tido já uma longa exp eri~ncia de vida nos serin
gais dos altos-rios e por estar hi mais de 10 anos vive ndo -
r,ro
.,,,
x imo â. cidade de 'Tarauacâ , Carli to ,mostrava ·· s e um excelente cri
t ico do sistema de seringal _ e da dominação dos p atrões. Atra.
, és d e suas observações, tivemos uma idéia geral das receni:l.:,S
transformações por que vinha passando a r e gião, a instalaçjodas
agropecuárias e a decadência das empresas s e ringalistas. Ca rli
to marcará pr>ofundamente nosso primeiro conta.to com os Ka x inaw5
d a re g ião, Por ser um conhecedor exímio da. áre a , u m indivíduo ex
tr'emamente de s inibido para se comunicar com os outros ; inclus i
veem lid a r co!D. os regionais, o convidan os para ser nosso guia
durante o desl o c a me nto na área. Ele prontame nte aceitou, pois
vivia trabalhando, na diiria, para os p equ e nos faze n deiro s eco
. . ,,. ' .,,,
merciantes lo c ais) quando estes requ1s1tav2.::n os l'.atUJ(lna ele Mo
rada Nova para bater campo para o g 2.do pé ---duro ou '1 abrir roça
do 11
, · como ele p ró p rio dizia 5 referindo ·- se e specifica mente à bro
~to rasteiro e; derrubada das ~rvore s gr a ndes .
Combinamos as condições de remuneraçao E'.! 0; le concordou
eber o valor correspondente à diári a paga na cidade~ mas
pe d iu- me dinhe iro adiantado para. d,üxar c om seu ge rr o . Era
iagem longa 5 de praticamente três meses:, e e l e não poderia
::.xar a sua f amília p as sando privações, Todos estes de talh e sre
am os la ç os empregatícios que nos uniam. Ele procura v a e~
r e at ent· o a nossos r:unimos g-2. stos e quan d o andavamos nas
-4" • ~

das cida des de Feij6 e Tara ua c~, c aminhava um pouco atr~s


atitude típic a a marcar social ment e a dist~ncia entre o em
e o patrão. Dia nte dos outros Kaxinawá esforçava-se ai~
paria real çar esta ligação patrã.o-empregado. Ele, como
s os Ka xinaw~, nâo concebia um mundo onde nâo existiss e p~
_:!. • Apesar de todo nosso esforço em tr ..,_ t á-lo· corro wn amigo qua nos

.,.--~,v-,.duzia numa região de sconhecida~ e l e Sl_:mpre nos co n si de r a v a


s e u patrão, Um dia, quando ·tomávamos ;-cipo ' 1 (Aiu:3.sca) ~ q u e
a pelidaraY.', de " d ...r1errn de caboclo ·1 , ou
comentar c om outro Kaxinawá que devía n os '' ganhar mui to di
naquela região ' 1 e que no patrão de Bras ília
=-~ muito poseroso 1
' , Outras vezes dizia que éramos env iados De
_ e sidente, que tínhanos vindo ouvir da própria boca dos 11 cab~
_o s Kaxi H a situação em que eles viviam e ave ntur>ava: ;;Pode f a
::..a r , home. Fale sem medo , q ue esse Txai aí vai contar o movimlm
que os patrão f az i cum nós a o u i 11
• Os l<axinawá sempre n o s r,,
_e b iam bem em suas c a s a s , mas dada R personalidade de Carlito
-:: da s as atrações vol t aram-· se para el e , Conversava horas s e gui:
~2.s na sua própria língua e sentíamos marginalizados, colocado s
::e lado , p ois desconhecíamos totalme nte a lín gua falada pe los
.
_ xinawa. -
À exceçao do rio Envira, Carlito conh<
:::c ia pessoalmente
u já ·tinha o u vido f a lar da maioria do s Kaxinawá que vivü~m no
.:urú, H..umai t éi ~ Iboi a çú, Tarauacâ e ,Jordão, Quando fazíamo s uma
:ergunta sobre a vida nos s e ringais , Ca rlito q uase n~o deixava
s entre vistado s f a larem. Fa.z i a inúmeras netáforas e comentá --
i os sobre a si t u.J .ção nos seringais a tuais, Às vezes é ramos obri
6ados a chan1,=:1r - l l1e a atenção para que dej_y_asse os t(.3.x inaivá i.:~rr
revist ados responde rem por eles pr6prios ~ s pe r guntas coloça -
-7 -

--s. Apesar das dificuldades de control~r Carlit8 5 que chamava


3 atenção sobre si mesmo, sentíamos inteiramente dependentes d:::
e. Acreditamos que sem sua companhia não t e ríamos podido conh~
er toda a área nesta primeira etapa de campo. Um episódio a es
te -
respeito e muito significativo. Quando chegamos a Foz do
6 o LTordão 3 o patrão qu.e dominava todo aquele rio criou uma sé
_1.e de dificuldades à nossa subida. Não emprestou a canoa que
d imos e proibiu que os seus empregados também as emprestass2n1.
s so barco não podia subir o Jordão oor causa do período seco
a__ que se achava o rio. Por inteira iniciativa de Carlito dis
_ n samos o b a PC0 5 que retornou à cida de de Tarauacá, enquanto
seguiamos a pé pelo rio. Ele tinha dito que o Jordão ª- ra um rio
u e tinha Hmuitos caboclosº e que nós não podíamos deixar de su
..,i- lo. Era a pr imeira vez que deixávamos o leito de um rio pri~
_ipal, como o Envira, o Murú e o Ta.raua cá -; para nos internarmo s
e.::i plena mata, seguindo algumas estradas de seringa~ surpreenden-
b os seringueiros Kaxinawá em sua atividades de coleta do lei
~e da seringueira, defumando o leite em pequenas barracas de pa
::.a ou mesmo chegando de uma caçada ou dos roçados,
Foi a nossa mais interessante experiência de campo.
:'ravamos conhecimento com muitos seringueiros regionais que nos
_ cebiam com extrema amabilidade e s empre nos ofere;ia:m comida ,
:: rigo e boas conversas. Para os regionais, que também desconhc
ci2.m a categoria pesquisa, eu era visto como um fiscal do gove~
que tinha vindo observar in loco o quanto o sering ueiro era
exp lora do. Essa versão foi reforçada pela noticia (que tinha s e
_s palhado entre eles) de que vínhamos subindo a pé este rio,ire~
contra a vontade do patrão que tudo tinha feito para impedi·-
:..c , Para mui tos seringueiros regionais com os quais tivemos 01:or
-::un idade d e conversar, procurávamos nos apresentar como r ece n
_.:..adores de " caboclo n. Sentíamos a decepção quando eles nos ou
- ·am explicar quem éramos. Muitos di z iam) às vezes como p1 ovoca 1

que se fossemos 1
um fiscal de verdade': el e s nos 11
contariam
--oda a verdade 11
- a verdade da sujeição que o patrão lhes impõ 2
· !3.belando as mercadorias a preços altíssimos e pagando u:r:1 preço
_ i to baixo p or quilo de bor1"acha,
Nesta época o ,Jordão atravessava uma forte epidemia de
~8-

=ialária. A maioria d.a população Kaxinawá estava com esta doença,


11
conhecida regionalmente como impa.ludismo 1i . O que ,3.gravava ain
da mais a total subordinação ao patrão, aumentando suas dívidas.
Passamos a rri.aior parte de noss2, estadia de um mês no rio Jordão,
no pequeno seringal Fortaleza, cujo patrão era mn Kaxinawá de
n me Alfredo Sueiro. Durante o surto da e pidemia o patrão -·
nao
di spunha de remédios, de forma que Carli to, anteriormente ~já co
hecido como um ·1Pajé do cipói , ou seja, um curador que toma ai
uasca para diagnosticar as doenças de seus pacientes, foi extre
:Ja.mente requisitado. Isso constituiu-se para nós uma estranha
surpresa. Atê então ele nunca havia se referido a esta sua qua
idade. Cada vez que vinham convidâ·-lo para atende r a um doente~
ele apenas recomendava que se preparasse o '' cipó',·, e nunca cobra
a coisa alguma em troca das sessões XE-i ma nísticas que executava,
__ gravação de uma dessa.s curas custou-·nos todas as pilhas de que
"i spÚnhamos. Todos queriam ouvir aque la mâ.quina que gravava um
. ., . _,.,,
isco na giria dos caboclos 11 • Vinham Kaxinawa das colocações
oais distantes para ouvir a pajelança. de Ca.rli to. Ele sentia·- se
extremamente feliz e v a idoso . Um dia ouvimos que ele dizia a o~
tro Kaxina.wá que ganharíamos muito dinheiro mostrando a canto
ria dele para as pe ssoas de Brasília. Para provar o contrário
he oferecemos a fita gravada com suas canções do cipó para dei
xar bem claro que não estávamos inter,:::ssados em ganhar dinhe iro
às suas custas. Ele se desculpou e não quis receber a fita. Ap_~
:1as pediu- nos que deixá ssemos todo s os Kaxinawá ouvirem a grav~
çã.o, Esse modo de ser desinibido e fr1lante de Carli to contrasta
a com os dos demais Kaxinawá que conhecemos .
O recense amento da população Kaxinaw,~ nesta primeii'"'a
e tapa àe campo caracterizou- se como um tipo de 1
'antropologia de
1
b arra nco ·: . t'\ dispe1..,são deste grupo indírena e sua maneira de vi
v er isolados em 2 e 3 grupos domésticos por colocação de serin
gal, impedia.-nos uma. observação sistemática ao nível de comuni
da de, aldeia ou maloca. Não podíamos passar mais de uma semana
e;, cada colocação; a média de permanência era de 2 a 3 dias. Du
rante essa fase, dormíamos sempre nas salas das casas Kaxinawá ~
e sentíamos sem condições de percorres áreas não familiares a
um visitante 5 do qual se espera respeito. Pudemos observar que
-- 9-·

cgada de uma pessoa a uma casa Ka xinawá era C'2rr-: a da de ri


- ::.zaç ões º Ao chegar-se em uma c a s t:: t? ·todos s e nt a.vam na sala ~ ,
_ -rando o étlimento que as mulheres prepa ravam ou improvisavam. /
/
- ~ .orávamos mais de 5 dias numa colocação 5 Carlito sempre
.2. p ara caçar com o chefe do grupo do;Jstico que nos hosped~

O Jord~o : por ser um rio de maior concentraç~o da popu


-º Kaxinawá e por o havemos subido a pé em nossos deslocarnen
=~ raodificou bastante nossa relação com os Kaxinawá. Agora
t ínhamos pressa e passavamos a travar relações de amizade
o utros Ka xinawá. Um deles foi o velho Alfredo Sueiro, i:·P§:
11
caboclo do pequeno Seringal de Fortaleza , A sua
~-a à margem do Jor•dão, que os demais Kaxinawá chamam de
_:ão :; , é uma das mais frenquentadas; ; o ponto de convergência
- t odos os q ue vivem naquele :rio. A su,:i. posição proeminente f~
a os outros Kaxi foi devida à apropriaç ã o do Seringal F0rtale
=. Sua família s e diz dona do seringal, e mbora e ste seja conh?_
_::.do como ;; dos caboclos F . É por esta raz ão que Sue iro pode bar
=-.nhar maior e s quantidades de mercado rias junto ao patrão do
·e um seringueiro Kaxinawá. Durante a nossa permanência pud~
s observar q ue ele também não dis p unha de mercadorias e a.s
-:_:.e conseguia eram quase que exclusivamente para o' seu - .
proprio
ti'Uj)O doméstico. Sue iro nos explicou que o atual pa-trao do Jor
~=o , CoF., não lhe fornecia mais mercadorias porque não dispu
-::. a nem para abastecer os seus :1Gerente s Aviados v, ~ do s di verisos
eringais que controlava . Isso era sintomático da grande cris e
_a produção da borracha da re gião, reforç a da agora pela compra
1
maioria dos seringais pelos ' gr2.ndes g·"'upos econômicos do
1 do país n, conhe cidos como 11
paulistas 1' .
Se nos rios Envira, Tarauacâ ~ Murú, Gregório) Acurau a
- Riozinho da Liberdade tinham sido vendidos muitos seringais ,
o Jordão ainda contin'Li.a va um rio marcado pela presença da empre
sa seringalista, A crise refletia-·se mais intensamente no p eque
no Seringal de Sue iro . Os seus ;: fregueses 1' só eram obrigados a
i:egar a renda pela parelha.de estrada que OCllp:lvam e como não havia mer
cadoria para ' a via P " ou fornecer aos seringueiros, estes podi a m
vender a borra.cha para um dos dois grandes seringalistas estabe
-10·-

idos na foz do Jordão com o Tarauacâ. Sueiro ;c_:::>stra.va-nos o


:.. velho livro de contas onde estavam debitadas todas as merca
� ias que seus f1�egueses compravam, Também foi u:r:1 informante�
- ante para o conhecimento dos outros seringais do Jordão ) A_!
a rauaca e Breu. Ele n�o s6 se interessava em falar da vida
5 seringais, como também de certos aspectos mais ligados a
_àiçã.o do grupo. Nesse sentido, Sueiro foi o Único informante
=tlnawá que fazia comentários sobre esta vida que todos par.:::,
=· negar, num esforço supremo de se identificarem com os mes
hábitos e costumes dos seringueiros regionais. Através de
sas longas conversas pudemos perceber que ainda existe entre
��s um par de metades, com designações diferentes para cada se
; a !".letade A onde os homens são classificados de ;:dua l? e as
1
heres banu' '.l e a metade B em que os homens são denominados
11

�u í1 e as :mulheres ninani 11 • Sue iro chamav<1. a metade A de "dua


- ,- . . -
. . 1 egiancto
eb u ' e a B, cL: 'inuh..... aKe
A' , bu- ,-·· 9 privi as s1n a parte mascu
-;na dos seus membros. A. pertinência a uma dessas metades e /
- !
a nsmitida em linha materna, ou seja 9 os filhos pertencem a me'
_ e de seu pai. Se ele é 1·1 inu 1 :, seus filhos são da metade "in� 1
ebú i :; se é 11 dua.;; 5 seus filhos serão da metade 11
cluabakebÚ i 1 •
iro nos dizia que, no passado ou "nos mandamentos ,dos anti
s ·, este par de metades regulava o casamento, de tal modo que
1

indivíduo de uma metade só podia casar·-se com mulheres da ou


a metade e vice-versa. Falando sobre o presente dizia que ti
"' mudado e 5 que a maiorJ_a dos Kaxinaw.cí procurava seguir um
:.:: .. ilo de vida semelhante ao dos regionais. Alerta.do por Sueiro,
_ �·zemos todo o censo do Jordão, acrescentando a que metade
--rtencia cada um dos rnembPos do grupo doméstico, Nas poucas f!:.!=.
_ealogias feitas durante esta etapa e nos dados do censo, pud�
s perceber que as informações eram cor>rr.:::tas. De fato havia um
_;;,ercentual muito alto de casamentos recenseados que negava. a e
ogamia de metades. Indagado sobre isso,Sueiro ainda explicou
-:..le no Jordão morriam poucos homens 11 cilua ?' em comparação com 11 h�
::;ens i;inu/l e que tal fato devia-se a. que os Kaxina.wá amanse_dc;s
_ r Felizardo Cerqueira, que ainda constituem a maioria da pop�
�ação Kaxina.wá do Jordão� pertenciam qu2.se todos à metade ''dua
kebú n . Embora os Kaxin2.wá reconheçam a existência das metades,,
-11~,

;.~-::.::.s já não mais regulam o casamento entr,2 eles. Além da e xo


:::ia das metades :i segundo os 11
mandamentos dos anti gos i o c a sa
ideal era com a. prima cruzada. e os noivo s c.kw iam residir
- - ilocalments após o casamento. i\. este respeito 5 assim se ex
ssava Sueiro: ' ' De primeiro nós casava com a filha da nossa
= (a filh a do irmão da :m.ãe ou a filha da ii...,mã do pai) . Bem
meu filho Getúlio se casou com a filha de minha irmã Aná
--· O filho dela era pra casar com a minha filha. Maioria dos
elo aqui do L.Tordão não c a sa mais pelos mandamentos dos anti
=· De primeiro casava e ia ajudar o pai da mulher' dentro de
e. Tenho três filhas casadas mas só o Sávio mora na minha
=~a, o resto debandou por aí. Os caboclos agora só quer tira r
por cariu n.
J~ havíamos convivido dois meses com Carlito e nunca
__ . crsáramos sobre estes assuntos mais ligados à tradiç ~o de
g rupo . Ele sempre respondia eva sivamente e dizia que estes
ctos não eram lá muito imuortantes uar2 caracterizar o Kaxi
·'· J.:

3. de hoje. Com o velho Sueiro, b a stou uma semana. de convivên


-== para que assuntos como estes fossem comentados , Alfredo Su
parecia ser mais um 11
inteJ.ectual ,? do s e u pró p rio grupo do
apenas um bom infor>mante. Ele. se preocupava cm ,;reconstituir
...,.,.:!s sado, manipulando a memória social do g rupo ; e esforçava -
--e por reconstruir os elemen-tos de uma. :; tradição ' Kaxinawâ. E
"' a tuação como u m. dos mais prósperos Kaxina.wâ do Jordão ·- e le
consideraya proprietário do pequeno s e rin gal Fo 1"tale za ~ c a.
~~te riza-o como alguém pre o cupado com urn projeto de ascenção
p róprio grupo . Pudemos compreender isso com mais clareza por
~sião de nossa segunda via g em ao Jordão.
Em suma, dur'ante a primei1..,.:i. etapa e graças à a ju da de
e Sue iro ~ pudemos fazer> um m2,pea mento minucioso dos
_ _ c s e n que h-3.bitavam e trabalhav<1m todos os Kaxi nawá da bacia.
Tarauaci. Segue aba ixo um quadro da distribuiç~o da p opula -
::o Kaxinawá, feito durante os meses de outubro u dezembro de
5:
-12-

Kaxinawá população casas

periferia urbana
( Feijõ e Tarauacá) 250 (21 ; 18%) 42

rio Muru,Iboiaçu
E HtL.TTJ.anitá (4 serin
·s) 26

rio Tarauacá ( 4
Tingais) 132 (11,18%) 17

rio Jordão (6 se
390 (33,05%) 48

( igara
seri..'1gal) 80 ( 6,78i) l '2

(1 se
10 ( 0,83 9:, ) 1

( 6
164 (13 ~8 9%) 26
- -~-i

da população
recens e a
1.180 ( 100%) 172

Fora da bacia do Tarauacá encontram-se cerca de 400 · Kaxi


-
nawa residindo em pequenas aldeias nos rios Curanja e Al
to Purus, em território Peruano.

Percebe-se ~ pel3 leitura deste quadro~ que a maioria


pulação Kaxinawá ainda continuava engajada como forç a de
,
no contexto da empresa seringalista, destacando - se ai
como o rio que apresentava a maior concentração da po
\\
Aqui também, a maioria dos seringueiros ~ e
borracha era constituída de Kaxinawâ. Ao re
área tínhamos selecionado este rio como locus de uma
mais intensiva.
Ao iniciar a segunda etapa de campo pensavamos - .
fazer
-13-

: "tn ografia sobre o seringal, baseado na mão-àe-obra l(axi


osso p1"incipal interesse passou a ser o levantamento de
referentes à prática econômica do grupo) na em
seringalista. Do ponto de vista teórico, a realidade em
.:·i a o grupo Kaxinawá parecia apontar _para um estudo siste
d as frentes de expansão que incorporavam a força. de tr~
A situação atual era marcada pela transição
já decadente frente extrativista da borracha
- progressiva substituição pela moderna frente agropecua- -
Essa segunda etapa abrange um período de tempo que se
em setembro até fins de dezembro de 1976, Ao retornarmos
equipe de alunos da Universidade Federal do
:, financiadora desta etapa da pesquisa~ encontramos um gru
Kaxinawá do Jordão que tinha vindo pa1..,ticipar do alegre
padroeiro da c idade . Sueiro lá estava, preoc~pado
l.J. velhos Kaxinawá º Jun-tos, conseguimos finalmente
pelo Funrural. Nenhum deles possuía documentotl a
notas de mercadorias fornecidas pelos
Como não havia jui z de direito em Tarauacá, tivemos
~ cidade de Feij5 cons eguir suas certid5es . de nasc~men-
d uas cidades, nesta ocasião, já se encontrava rr1 ligadas
dovia ~ ,facilitando a comunicação ·t 12 rrestre entre e l-:=ts .
Tivemos oportunidad e de rever Carlito, que ainda vi.via
famíli a. em Morada Novaº Convidamo-lo novamente para
embora já tivéssemos em Sueiro um guia garanti_
- -= desejado . Viajar em companhia de Carlito significava s e g~
.e:! e tranquilidade. Ele era um homem de iniciativa. e sabia
detalhes. Com ele e Sueiro subimos l entamente
Tarauacá já que, ao contrário da prime i ra etapa, procura -
agora entrevistar os patrões , os seringueiros o u barquei
regionaisº Sue iro sempre nos acompanhava nessas ocasiões ·5
atenção a todos os detalhes das r ,~spostas dos entre
muitos dos quais ele conhecia pessoalmente, Novamente
_es dois ;;Txai '' Kaxinawâ introduziram-nos' agora no mundo dos
e s eringueiro s regionais das margens do Tarauacâ. Acre
-3.IDOs que as entrevistas gravadas com estes novos pers'onagens,
_:iam feito Sueiro pensar em movimentar novamente o seriugal
-14-

rtaleza. A sua primeira iniciativa foi trocar àe patrão. E


ra tal pedia nosso apoio. Fomos juntos falar co:-n o novo pa
-o, que estava temeroso em fornecer as mercadorias necessá
·as à produção da safra de borracha. A mudança de patrão era
estratégia que ele percebia corno a Única possível para rea
r o seu seringal
1
Fortaleza. Sueiro tinha wn jeito todo espe
1 de nos envolver, o que nos obri gava a tornar posições con
tas. Assim, é que um dia, sugeriu-nos que levasse para ven
r em Rio Branco urna coleção de artefato s da cultura material
o dineheiro conseguido, pretendia comprar as mer
baratas e assim poder 1
'aviar 11
, por preço mais a
poucos fregueses, também seringueiros Kaxinawâ.
reaç~o, inclusive alertados por Carlito, foi a
recusar fortalecer urna diferenciação interna no grupo Kaxi
2. do rio Jor dão. Sueiro question-3. va a postura clássica do an
1

_ Ólogo que estava ali apenas para observar ., com promessas de


-ICl"ever um livro contando a história direito, a partir elo Pº!2
do grupo. Ele tornou-se nosso mais paciente e di
ico introdutor n a. situação de exploraç21.o dos Kaxinawá do
aa'.N'la- o~ mas tentava convencer-nos de que se leváss e mos os tais
1
·etos, que ele mesmo cha:mava de :; besteiras do caboclo ' , ele
· a comprar terçado, macha.do, enxada, faca de seringa, tig_'.::.
, baldes , tecidos , sal~ munição, açúcar, querosene,sabão etc,
baratos e revender 5 também nem conta ' 1 , aos outros Ka

Para mostrar toda a sua boa vontade e a sua nova condu


outros Kaxinawá, ele aboliu a r e nda das estradas
Até então , à maneira. de todos os patrões da r egião ?
70 kg de borracha pela ocupação de duas est:radas de
inga. Esse . f a to foi bastante aprovado no Jor&io~ inclusive ,
~ seringueiros regionais} que também concordavam com a abo-
eram obrigados a pagar ao patrão só por ocu
es-trada º Combinamos vender os tais objetos
a Universidade Federal do Acre, que assim podia iniciar um
eu da cultura material dos dive rsos grupos indígenas exis
Sueiro conseguiu mobilizar toda a popula
Kaxinawâ do Jor-dão para fabricar peças que eles próprios já
·- 15-

esquecido. Apenas as mulheres mais velhas sabiam fazer


- - cicas, pinturas, desenhos~ másca~eas para ri tu.a is, reàes etc:
_ _:::...:.ro fez-nos observar que esta era a primeira ve z que os mais
.:
en s estavam procurando aprender a fabricar i: as b8steiras de
___,o clo 11 • •
11
Em meio a preparaç.ao do rnuseu Kaxinauwá 1' iniciarros nossa
!Ilda e't:apa ele carrpo. Passanos a rrorar na casa de farinha de Sueiro por'
assim sentÍaln'.)Si rrais a vontade, para conversar., com os outros
como base a sede do Fortaleza , percorremos t~
as colocaçõe s dos seringais: onde vi viam os Kaxina.wâ do Jordão .
-~emos um exaustivo levantamen-to geneolÓgico de cada uma des
-- colocações e levantamos muitos dados referentes à prática
..ô mica do grupo integrado como força de trabalho na empresa
- _ .:..n galista. Enquanto percorríamos est::: s colocações contávamos
camente com Carlito. Muitas vezes ele aproveitava a ausência
pm.'.'a dizer que no velho 11 não i r ia dar n a da em troca
- .:::irtesanatos Kaxinawá que eles estavam fazendo . Uma vez o sur
__ e ndemos comppando aqueles objetos fabricêtdos p e las mulheres
e dizendo que Sueiro não iria dar nada em troca ma.s
- iria vender as mercadorias comp1'"'adas com a v21J d.a daquele ar

Carli to procurava sempre mostr•ar que ' 1patr2.o caboclo,:


11
=-a trão caPiu ic ele considerava•-os iguais um pelo outro · e
1
ladrão '. Sabedor das críticas que lhe vinha dirigindo Car
Sueiro oferece-lhe em casamento a sua Única filha soltei
. Ca.rlito permanece.u em dúvida quanto a ficar no seringal ou
a viver em Morada Nova, perto da cidade e 11
liberto 11 ,

ele dizia , do jugo dos patrões. Recusando a filha de Suei


consequentemente a viver nos se::::•ingais ~ Carli to barganhou
Sue iro sua ida a Rio Br2mco 3 que ele que ria tanto rever. Já
· a estado anteriormente nesta cidade 5 por ocasião de sua
deputado estadual com base eleitor•al n2, muni
-Tarauacá . que o levou para sua fazenda de gado locali:
arredores de. capital . Durante a permanência de Carlito
_ eiro em Rio Branco, morávamos juntos numa mesma casa, Passa
o dia ajudando a catalogar os nomes e a funç~o de cada peça
cul .tura material que fazia parte daquela coleção.
-16-

A Universidade do Acre pagou a Sueiro Cr$ 20 .0 00 5 00 p~


e leção de objetos levados por ele. De posse do dinheiro Su
pediu~nos para comprar as mercadorias mais necessárias p~
_ue e le pude sse movimentar o Forta leza. Ele sabia exatamente
_:s as mercadorias mais necessárias 5 mas contava com noss2. a
-~ apenas para descobrir os comerciante s que vendessem mais
-,,.=.to . Sueiro sempre pareceu-nos uma pessoa com um proflmdo
r;__ec imento das transações comerciais com os patrões dos serin
11
- · ele próprio era uma espécie de Gerente Aviado" do Serin
Fortaleza. Com esta mercadoria~ Sueiro passou a mobilizar a
de trabalho dos Kaxinawá de todos os seringais do Jordão~
daqueles que nã.o moravam no ser•inga l Fortaleza.
Vende ndo as mercadorias obtidas a preço s mais baratos 5

comprar as npelas,1 ou bolas de borracha dos demais se


- - ;:> eiros Kaxinawá, Por ocasião de nossi:l t erceira viagem ao
_ ~o , pudem0 ~ constatar es sas diferenças de preço 5 porque Su
sempre noo facilitou o acesso a.o seu : livro n de ncontas cor
-17-

m rcadoria preço em Rio preço no Se preço dos


..
Branco ou Ta
rauaca
ring2l For
taleza.
outros pa
trões do
(unidade) (unidade ) Jordão
(unidade)

700,00 950500 1.500,00


30,00 60,00 150;00
128 30,00 60,00 150,00
- da 25,00 50,00 130 ,oo
150,00 180,00 250,00
seringa 15?00 30,00 60,00
25,00 50,00 70,00
i+O ~ºº 60,00 90,00
25,00 50,005 70500
20,00 1+0 s Ü 0 60~00
ca de seringa 20,00 35,00 60,00
de serJ_nga 1300 2,00 3,00
3,50 7,00 9,00
o 7,00 10,00 15,00
7,00 12500 17,00
0,50 1,00 2,00
12,00 20,00 25,00
7,00 15,00 20,00
leta 0,50 1,00 2 , 00
25,00 30,00 60,00
1,00 2,00 3,00
etacil 20}00 35,00
(livro) 1~00 2,00 3500
150,00 250500 350~00
lena 1,00 2,00 3,00
a 10 , 00 15,00 25 ;)ºº
-18-

Sueiro procurava sempre vender mais barato suas merca


do que os demais r: Gerentes Aviados " do s s e ringais do Jor
os pre ços por ele tabela los va riavam entre 50% e
11
dos outros Gerentes Aviados" v a riavam de 100% a 150% mais
~-·e os preços pagos pelos mesmos produtos n a cidade mais pr~ -
,--=-e.- Sueiro passou a representar para os demais Kaxinawá do
cão o papel de regatão, ao qual não era permitido subii~ este
, p elo vipatrã o-chefe " estabelecido na sua foz º Era a altern~
de que Sueir>o dispunha para fazer' face à concorrência com
· ma.is ,;Gerentes Aviados ; e assim conseguir alguns fre g uêses
o seu pr6prio seringal e desviar a produção da borrach a das
dos patrões regionais.
A compra da borracha dos s~ringueiros Kaxinawá subo1~di
outros p a tr5es e a tentativa de Sueiro em ocupar 15 co
~ -=...,.,'-'es que anteriormente p e rtenciam ao Fo rtale.za 3 provocou o
confronto direto entre ele e os ,;G', e rentes Aviados :• dos
Sueiro saiu p a rcialmente vitorioso , poPque
as 7 colocações do pequeno sering al Soroca
e era antigamente li g J.do ao Fortalezaº
Em meio a e ste conflito iniciamos nossa. terceira via
>
J ordão '., durante os meses de abril-maio de 19 77 3 com a
- ia.-~: de. de de delimitar as reservas indígenas da bacia do Tara u
- En contramos Sueiro novamente n a cidade 3 tentando agora re
aposentadoria do Funrural para aqueles velhos Kaxinawá
tinha conseguido aposentar durante o início da segunda
de pesquisa . Nessa ocasião int e grávamos uma equipe forma
_ um ·topógrafo do Incra e um funcionário da Funa.i , de Bra
Ao chega rmos a.o Forta.leza, Sue iro convocou toda a pop2:1_
Kaxina wá do Jordão para dois encontPcs que decidirart, ; os
reserva deste rio. Ele pr6prio fez o esboço da
..arca
a pedido do top6grafo, que desconhecia a região. Su
_ a ssou a liderar entre os seringueiros K:1.xinawâ o di.r,::!i t o
s os 7 seringais do Jordãoº
Durante nossa Última estadia no rio J o rdão , Sueiro con
reunir:1 em 15 dias, 1 , 200 kg de bori-'acha e 80 kg de ser
? ara vender diretamente na cidade de TarauacẠEra a pr~
ve z em toda a história do Jordão que se conseguia vender
-19 -

~retamente 5 burlando assim os dois maion.;s patrões seringali_§_


s que dominam o alto curso do Tarauacá e seus afluentes. En
nto o patrão do Jordão 1'pagava 1 , no sistema d 0 1'troco'; o qu_~
da borracha 5 a Cr$ 11,00~ Sueiro conseguiu ve nde r, na cidade
Tarauacá 5 o quilo da borracha a Cr$ 20,00 e a dinheiro. Com
ve nda da borra cha. arrecadou Cr$ _24.000'.IOO , comprando as se
·ntes mercadorias;

nercadoria quantidade preço unitário total


s al 10 sacos 90 , 00 900,00
sabão 5 caixas 140,00 700,00
pólvora 30 kg 120 500 3.600 , 00
c..1-i umbo 60 kcr
.,...., 60,00 3 , 600~00
e spoleta 2 caixas 55 5 oo 110,00
cartucho 8caixas 180 90 0 1.440 ,; 00
s olda 5 latas 20JOO 100,0 0
fósforo 6 pacotes 50 ) 00 300,00
pedra de
. .
isqueiro 5 discos 20,00 100,00
papelim 11 20 rniTheiros 7,50 150,00
:Ílula de vida 10 caixas 17,00 170 , 00
tecicb (àiversos) 70 metros 25,00 1.750,00
remédios div. 3 . 000 900
tigela de seringa 10 caixas 100~ºº 1.000 ~00
faca de seringa 15 unid. 20· , OO 300~00
r
o la de avianento unid
;) 380,00 1.900,0 0
balde de serjng3. 10 unid 20,00 200,00
~erçado 5 unid 60 , 00 300 ,o o
:::iachc.do 5 unid 70 " 00 3 50500
e~2.so l- ina 10 lai:as 200 , 00 2.000500
espingarda 2 unid 1.000,00 2.000)00

":'otal 23.950 , 00
-2 0 -·

Estas compras foram feitas por Sue iro com mu:i.-ta caute
estava temeroso de que a borra cha fosse apreendida na
Depois de consultar vários comercian-tes l o cais para sa
o s preços que pagavam pelo quilo da b o rracha e os preços
mercadorias que deveria. adquirir para continuar
Kaxinawá do Jordão 5 é que efetuou a transação
,h- • , - -
re acompan11avarn.os, discutiamos as questoes, mostravamo~ as
Última palavra. Ele decidia,
fazer, mas precisava de nosso apoio para enfrentar o s p~
regionais do rio Jordão.
Os outros Kaxinawá nos viam as sim, como aliados de Su
que nao os impedia de tecer inúmeros comentários críti
=.cerca de sua posição de clas se, dife renc iando internamente
- -prio gpupo. Sueiro era uma espécie de \'Gerente Aviado" do
_· _gal Fortaleza, e os demais Ka x inawã percebiam nele um ' 1 p~
caboclo l i , que tendo mercadorias, é igual upatrão cariu11 , é""'um pelo

Todo esse envolvimento com Sueiro conduziu a.


ssas conversas com os seringue iros Kaxinawá no sentido de
lli!'l!I'!'a er a suas representações sobre a prática econômica na em
a diferenciação interna (~ xis·t ente dentro do
grupo, as relações interétnicas no contexto do serin
funcionamen to do aviamento na sociedade Kaxinawá. Nas
timas etapa s de campo~ Sueiro constituiu-.se no principal
_.....:-..=1nte e companheiro de via gem pelos rios e seringais onde
os Kaxinawá. Mas através da postura crítica de Ca.rlito,
os dados obtidos nas longas conversas com Su
· ele se mp re duvidou da pre o cupação de St~e iro com um pro j e
próprio grupo. Car lito iden tificava essa preo
de Sueiro em mobiliza r os demais Kaxinawâ do Jordão, pa
de r apenas as seus pr6prios intere sses.
Quando de nossa Última viagem à região; para delimitar
reservas Ka.xinawá da bacia do Ta.rauacá) Carli to j ,3. nao
junto ao grupo Katukína de Morada Nova. Trab-:1lhava
orno :i peão t' nos des matamentos que a agropecuária da Para=
.A . realizava. próximo à cidade de Tarauacá 5 visando a
~ação de uma gr2nde fazenda de gado. Ele tinha abandonado
-21-

-:lê família em Morada Nova 9 porque teve que fugir às pre ssas
=.;u em 11
desgraça 11 ~ acusado que foi de prática d2 feitiça,ria
nosso ~ltimo encontro pudemos perceber que ele j& n~o s ra o
_em falant e, alegre e desinibido de outrora. Sentia-se injus
- · çado? amargurado e profundamente humilhado com o que havia
-~ ;_ ass c1 do em Morada Jl!ova. Narrou- me com profunda tristeza os
tecimentos sucedidos junto ao grupo Katukína. Tinha tar.tb ém
· gra do para Morada Nova uma outra família Kaxinaw,J'. do Ta:raua -
- expulsa do seringal adquirido pela agropecuária Cinco Estre
- ~ S .A. Ao chegar em Morada Nova~ o chefe desta família foi
- -=~cado por um mal s Úbi to que nem os médicos de Fe ij Ó e Rio Br3:!2
- , onde veio a falecer, souberam diagnosticar. Consultado um
:=-·é da localida de de Paroá, também Kaxinawá, a. s suspeitas re
-= ..,ram sobre CarlitoJ que logo passou a ser marginalizado em
_ra da Nova. Ele havia sido forma lme n-te ac usado d e ter feito
71
_éê:rviço nas fezes da vítima, porque era invejoso e queria a
ssar- se de um pequeno batelão que aquela famíli a ·tinha recen ·--
-- e nte adquirido no Envira º O filho daquele Ka xinawá f a lecido
os KatukÍna e aplic cn"am uma humilhante sur
em Carlito. Para nao ser morto 5 Carlito jo g ou-se no
de Feijó 1 e daí viajou .em seguida para
uacá 5 onde se sentia mais protegido ,
Novameni:,2 o convidamos para ser z.uia em nosso desloca
-~"'""·r,...~ nos rios Muru, Ta rauacá e Jordào. Ele recusou-se, dizen
a ndanças conosco so lhe haviam trazido desgraç as
aquela que a c abav a de narrar. Pretendia matar o Ka x inawá
h avia colocado contra ele toda a popula ção KatukÍna de Mora
. ova, Terminado o serviço de :, empreitada ·' p a ra o grupo " p a.~
planejava conseguir um pedaço de terra e
um roçado, para depois cha.:mar sua mulher e filhos que
em Mo rada Nova.
Ca rlito Cataiano e Alfredo Sueiro for a m os ami go s que
profundamente o s quase nove mes e s àe deslocamento na
vive m atualmente os Kaxinaw&, do lado brasileiro
um ;'pajê do cipc.S ;· ~ com u ma áre a de atuação limitada
. O segundo um nintelectual · do grupo~ aquele que
_ reoc u pava sirnul·taneament c com a memória. social e com um pr:::_
-22-

jeto ascendente do próprio grupo Kaxinawá. Enquanto <.) primeiro


procurava. uma solução para. o scrn problema individua.l ~ (onde mo
rar depois do término da empreitada para os "paulis·tas : da Pa
r a nacre 5 onde conseguir com os patrões locais um p,2cb..ço de ter\ra.
para colocar o roçado, vingar as humilhações recebidas), o se
gundo emergia corno um líder do grupo do Jordão" que reivindica -·
-
va a d emarcaçao d as reservas in
. d.. . ~
J.genas prometic.a.s pela Funai.
Em outubro de 1977, Sueiro que estava em Rio Branco en
tregando as peças que ainda faltavam ao'museu Kaxinawá 01 da Uni
•ersidade :Federal do Acre 5 denunci2 na Aj udância da Funai
~a prelazia do Acre e Alto Purus e nos jornais locais a luta
ue eles travavam com os patrões do LTordão pela posse dos s e;
,..ingais dentro da area delimitada. como reserva. Dizia Sueiro,
esta ocasi~o, que depois da delimitação da s reservas os pa

~oes passaram a expulsar das colocações de S8US seringais os


-3.Xinawá que lá viviam. Ele continuava. .3 .guardando que as
ervas prometidas fossem realmente demarcadas. Sueiro, no seu
· nguajar s _imples de homem experimentado à vida dos seringais ,
autoridades mencionadas que a Única alterna.tiva de
servaçao dos Kaxinawá como grupo '.• depois do estabelecimento
agropecuárias na região:) era a demélrcaçio de sua
-23~

SIÇÕES TEÓRICAS

O objetivo do presente trabalho 6 apreender as


e as ideologias ~tnicas engendradas pelas frentes
que atingiram e incorporaram o grupo indíge na Ka xi

<.
A pesquisa de campo entre os Kaxinawi revelou a --
nao
de uma unidade destE~ g rupo étnico, não só geogr•a fic~
também em termos · econômicos, sociais e ideológicos
._-era.mos hoje os Kax.inawá vivendo 2, maneira de seringueiros
decadente frente extrativista da borracha e
parte do grupo v cmde sua força de tr2..b ;:-ü ho a·~
frente agropc-;cu5ria que se instalou como emprendimerrto e
-----~· coa part ir do início da d6cada de 1 9 70. N~o se pode~ po~
~ ~ --~ , pensar nos Kaxinaw~ enquanto um grupo isolado do contex
~-g ional, nacional e internacional. Entender o processo de
a:isão da sociedade bJ:-iasileira 1 a superposição elas duas fren
__ feridas e ver como os Kaxinawé. nelas se integ;ram, tor
- e o pr•oblcma de nossa investir,ação. O estudo ,.:;J.a temática
de expansão da e sociedade brasileira se constituiu
em um guia teórico possível de explicar o caso Ka x inawá .
e ste concei·to já vem sendo trabalhado nas ciências so
-- - ~ tenta.remos apresentar uma lei tu1"a. que parta das prime~
=o r mulaç,Ses teóricas elaboradas I_"Jclos geôgrafos às mais re
-_s contribuiç5es de antro~Ólogos e sociólogos brasileiros
~ ss:1.dos no estudo da. fronteira.
A primej_ra dificuldade encontrada es t ava na seleção
-=e xtos que) do nosso Donto de vista~ melhor colocassem o pro
.~ .L - ~- -

teórico do conce.i to de fr ente de expansão ou a sua expli -·


num estudo sobre uma deter~inada região brasileira. Se
o crit6rio de uma ordem crono l 6gica na publicaçâo dos ar
e /ou livros) f oi que selecionamos os t extos que m.elhor co
primeiro de les , e o mais citado p~
.:, QO t
~t·U.Q,•lOSOS - :;
1 ;1.,,,t;cr ri,·, - ,-r-,-,::if"
ema, e O ·-~ ~ 0 0 v.,., geo 6 .L e •. O Leo Waibel:
: emas Pioneiras do Brasil:, (Waibel 3 195 5). Escolhemos como
-24-

texto o artigo de Darcy Ri.bei1"0 '?Culturas e Línguas In


·genas do Brasil;; (Ribeiro, 1957) e o seu livro Os fndios e a
·vilização (Ribeiro, 1970), onde esse autor tece algumas consi
1
meramente explanatôrias sobre as diversas ' facesi '
II 1
também frentes ') com que a sociedade nacional se apr.'.::.
ta aos diferentes grupos indígenas que vivem em territ6rio
sileiro. Como terceiro e quarto texto, temos os artigos de
Cardoso de Oliveira .; Problemas e Hipóteses Relativos à
Interétnica ' 1 (Oliveira, 1977) e i;Um Conceito AntropplÓ-
Identidadei; publicado como capítulo II do seu recen
Identidade, Etnia e Estrutura Social (Oliveiras 197G)
no Mundo dos Brancos (Oliveira, 1972). O quarto e o
11
compoem- se de tr,abalhos de Otávio Velho; Análise
,.
uma Frente de Expansão da. Sociedade Brasileira
e a sua dissertação de mestra do publicada em for
de livro Frente de E~pansFio e Estrutura Agr,3'. ria (Vel.rio, 1972).
, finalmente ; como Último texto , o artigo de José de Souza
ins: ''Frente Pioneira: Contribuição para uma Ca racterização
iológica n publicado como terceiro capítulo de seu livro Cap.3:
e Tradicionalismo (Martins, 1975).
A seguir apresentaremos as principais contribuições dos
selecionados para compor o quadro t e órico desse traba

As Orientações TeÓrica.s no Estudo das Frentes de Expa2_'!;


são e/ou Pioneira.s da Sociedade Brasileira..

artigo acima citado, estava interessado no estu


comparativo das diversas zonas pioneiras no Brasil, colocan···
se portanto, numa abordagem muito próxima e cara à tradição
Para a realização desse estudo é necessárioj se
dar uma resposta satisfatória a três questões
:,escli.::n.,ecer suficientemente o conceito de zona
neira'' que não estava ainda deline a do. Em s egundo lugar '· co
marcha da expansão do povoamento no país: · . E por fim
concepção clara das condições geográficas existentes
diferentes zonas pioneiras" (Waibel~ 1955 : 390).
-25 -

Assim respo nde o autor à pr1me 11"'2, que st5.o: " o conceito
•:ne1ro 5 para mim, signific a mais do que o conceito de 'fro n -
man 1 , isto é, do indivíduo que vive numa fronteira e s pa
• O pione iro procura não só expandir o n o vo a mento espaci 2.l-
t a mbém inte nsificá-lo e cria s novos e mais elevado s
• ~oe~s cte vida. Sim, emprega mos o conceito de pio neiro, tam
p2.ra in d ica r a introdução de me lhoramentos no campo da t êc
meio de vida espiritua l " (Wa ibe l, 1955 : 391).
Dentre os crit~rios utiliza dos pelo autor para d e fi
conceito de Hzona pioneira 11 o mais importa nte seria 11
um
es pa cial •. . que é uma pre missa fundame ntal para a
uma zona pioneira 11 (Waibel, 1955 : 39 3 ) . Vê-se aí co
se conceito e stá pres o à idéia geográ fica . Os o utros cri
atua lizam-· s e: quando " a expan são da a gricul tu.ra se a ce
" quando u ma es pécie de febre toma a populaç ão das ime di_~
próxima e se ini cia o fluxo de uma forte
nte humana"; ; e H . º. qua ndo a a gricultura e ·::, povoame nto pn__?_
. . . um 1
bo o m' ou 1
rush1t 11 (Waibel , 195 5:3 92). As c o nsequê~
da impla nta ção de uma zona pioneira ser-iam visíveis .J. qual_
11
o bservador: 0s preços das terra s e l e vam-s e vertiginosarneT:_
·a s ma tas s ã o derrubadas 1: ~ 11
cas a s e ruas sao cb ns-truÍdas ic ,
_aàos e cida de s saltam da terra q ua se da n o ite p a ra o dia n
e spíri i.:: o de arro jo e otimismo invade t o du a populaç ão '·
1 ~ 1955 :3 92).
Uma d istinção importante n e ste t e xte de We.ibel e ,3- q_ue
11 1
fro nteira e conômica ' e '' front e ira de mográfica
,., '' . Esta
· a o s e rtão com a mata virgem pa ra oeste 17 e a p rime ira " s e
o sertã o a leste da re g ião eco no micame nte mais adia.nta da ;,
1 , 19 5 5 :3 91). Ressalta a. inda que , no Br a sil, a ··· front e ira
e steve aqué m da Ff r onte ira demográfic a' :
. eiºt a es t a d'is t·
F ·1nç a- o e:~ f a~~il
__ vis u aliza r
l o c a li zar uma zona p ioneira ,: ( ZP) . O es que f:la a b a i
i lus·trativo deste arg umento de Wa ibe l :
-25-

Assim responde o autor à primeira questão: "o conceito


o neiro, para mim, significa mais do que o conceito de 'fron -
·ersman 1 , isto é, do indivíduo que vive numa fronteira esp~
· ~ • O pioneiro procura não s6 expandir o povoamento espaçial-
taw~ém intensificá-lo e crias novos e mais elevados
vida. Sim, empregamos o conceito de pioneiro, tam
para indicar a introdução de melhoramentos no campo da téc
meio de vida espiritualº (Waibel, 1955:391).
Dentre os critérios utilizados pelo autor para defi
11 11
conceito de zona pioneira" o ma.is importante seria um
- ~~gamento espacial ... que é uma premissa fundanental para a
urna zona pioneira" (Waibel, 1955:393). Vê-se aí co
esse conceito está preso à idéia geográfica. Os outros cri
atualizam-se: quando " a expansão da agricultura se ace
\' quando uma espécie de febre toma a população das imedi_~
s mais ou menos próxima e se inicia o fluxo de uma forte
rrente humana; ;- ; e íY • • • q ua.ndo a agricultura e o povoamento p~
am ... um 1
boom' ou 'rush1t 11 (Waibel , 1955 : 392). As consequê~
da implantação de uma zona pioneira serian visíveis a qua1:_
11
observador: 0s preços das terras elevam-se vertiginosamen
, as matas são derrubadas " ~ ''casas e ruas são ' construídas 1' ~
11

voados e cidades saltam da terra quase da noite para o dia"


1
um espírito de arrojo e otimismo invade toda a população
ibel, 1955:392).
Uma distinção importante neste t e xte de Waibel e a qu~
11 1 7
fronteira econômica ' e ' fronteira demogrâficc. '' . Est2.
1imi ta o sertão com a mata virgem r,ara oeste 11 e a primeira " s~
--r>a o sertão a leste da região economicamente mais adia.ntada"
aibel, 1955:391). Ressalta ainda que, no Brasil, a '' fronteira
esteve aquém da n fronteira demográfica ·;,
Feita esta distinçAo ~ fácil visualizar
pode se localizar uma zona pioneira 1: (ZP). O esquer1a abai
ilus·trativo deste argumento de Waibel :
-26 -·

-
e ilustrati vo deste argumento de Waibel :

DESAB ITADA1: r;sertão 1! ''HABITADA "'


!Jata virgem1: ··· terra civilizada '·
11
MENOS DESENVOLVIDA"' HMAIS DESENVOLVIDA ' 1

(ZP) (ZP)

OESTE LESTE

A.s suas :izonas pioneiras ; (ZP) sao encontra.das no ser


::. , ou seja) entre a fronteira econômica (FE) e a fronteira de
( FD) e também nas áreas por ele denominadas como ' 1 de
o u de 1'mata virgem 1~ . Neste caso ve - se que o a.utor não
va em consideração a s populações indígena s que aí viviam há
tempo~ antes da região transformar-se '': zona pioneira ;, .
Outras críticas podem ser formuladas a Waibel . Primei
seu conceito àe "zona pioneira '·, não é abrangente ,restrin-~
...
a agricultura como modificadora de paisagem"' deixande de
frentes extrativistas. Note-se assim que o a utor d ~ nre
julgamento de valorj à agricultura, por est.J.r
_cupado c om a compa ração do caso americano: :i somente e sta s
pionc. iras dinâmicas são o assunto do nosso traba. lho e? so
eleas podem ser comparadas com as zonas pioneiras do :mid
_ wes t' dos Estados Unidos H ( Waibel, 1955:392). Para Waibel o
das zonas pioneiras 11din3.mic a s ' 1 não é fato novo na his
desenvolvimento econômico do Brasil. As primeiras de
datam do século XVIII Todavia deixa de considerar como
frente do ouro e no período Colonial , exclui as
no nordeste do século XVI e em período mais re
t e, deixa também de l ado as frentes extrat ivista s da borra
- e ·da castanha.
Este t exto de Waibel nao avança muito nos conceitos de
_nte de expansão e/ou pioneira "~ deixando de l.ado uma ques
fundament a l ~ só retomada mais a diante pelos estudiosos d.o
nto, qual seja, a de responder quais s~o as relaç6es soei
f - ........ ..
· :;;:..:ide .Je 8ri1stl11

0 1. :5 ·;J I oTE<:A. . O 1 O1
·-2 7-

:d.s que tornam singular o sistema social na zona pioneira.


. .
Uma leitura epistemológica dessG texto nos levaria -a.s
c o nclus6es de Jos& de Souza Martins (Martins , 1975) a
~pe ito da concepção dualista subjacente à dicotomia zona pi~
_ira/zona antiga. Diz Martins que ::E ss a concepção dualista
· =>ndo transpos ta para a sociologia. , pode sem dúvida 9 encontrar
11
_ io t eôrico na dicotomia Moderno/Tradicional'' e no plano do
~ru~e cime nto tanto a concepção dualista da geografia como da
iologia estão ligada s por um modelo evolucionista d.e inter
:retação da realidade social'' (Martins , 1975 : 44).
) Darcy Ribeiro,nos textos apontado s acima, foi sem dúvida o
imeiro antropólogo a colocar em discussão a questão da. sobr•e
· ~ncia dos grupos indíeenas existentes em território bras i l ei
na primeira metade do século XX. Ribeiro teve acess o a mui
informações existentes sobre os grupos indígenas no período
1900 a 1957º Comparando os dados do in íc io e do fi m d e sse
H
, --Ío do chegou a conclu são de que . , . quase meta.de d as trib os
_..::~ defrontavam com nossa civilização desa.pareceram menos d e 50
:- s depois e às vezes muito depressa. 11 (Ribeiro , 1957:20) .
" Ribeiro propôs que se estudasse ·também os s egme ntos da.
lação regional que entravam em contato com o s diversos gr~
- s indígenas, por jul gar que somente a compreensão do funcion~
"to da sociedade nacional poderia explic a.r o porque d e~ t an t o
r mínio e a dizimação dos grupos indígenas. Diz ele a esse
s pe i to : i.O determinante fundamenta l do destino das tribos in
'genas da c o nservação ou perda de sua s líng uas e cultura~ é a
nacio nal e até mesmo a Economia Internacional ,, ( 195 7:
o autor, a sociedade n-::i..cional ;:n ão é uma constante
7 : 4G), mas apresenta - se aos Índios com várias -: fac e s i: , ou
- · frentes de expansão. Vê-se aí que Ribeiro trouxe p~
e ntro da Antropologia Brasileira a. importância do es t udo dro
expansão para melhor co mp re ensõ.o do contat o int e r,é t -
e dos resulta dos dessa si·ta.uç ão J do ponto de vista ind Í g e -
• Distingue três tip os de frente de expansão~ que is o l a dos ou
· inados~ atingiram os grupos ind!genas brasileiros. Para Ri
sociedade nacional se apresenta ~o.
.,. .
li1Gl0
,
através das
de econo mia extrativa. 1
~ 1
' frentes de economia p as toril ''.
-28-

...
frentes de expansão · agrícola i ; , sendo que " cada UI"la delas e
.
av ida por interesses diversos na exploraç ã o do ambient e , org~.
·za-se segundo princípios estruturais próprios s impõe compul:_
s diferentes aos grupos tribais com que se defronta n ( 195 7 :
). Mesmo não tecendo nenhum comentário de cará ter teórico so
~ o conceito de frente de expansão, diz o autor que 11
est.::s
~te goria s (extra tiva, pastoril e ar;rícola) não são puras varian
s econômicas, mas, também etapas sucessivas de penetra ç ão ci-
ili zado ra e ••. corresponde m a gra us diversos de internü dade da
• t eração ... frentes extrativas são fre quentemente explorató
- se recentes que se seguirão a uma o cupação definitiva ele ba
a grícola 1 (1957 : 24).
-
Uma proposição do 2.utor e a construção de uma tipo l o -~
~ do contato: 11
isola do 1 , intermitente" e '. 1 integrados 11 • Ess o.s
~tegorias, segundo o autor, repres e ntam ' 1 • •• as eta pas sucessi
~ e nece s s á rias do processo de integração dos grupos tribais
s0cie dade nacional '? (1957:14), Essa tipo l ogia ainda é muito
dos grupos indí gena s brasileiros, embora o au
pre cise teoricamente os critérios utilizados para com

A outra, 6 o seu conceito de Índio, cons~ruÍdo bem


e utilizando como critério fund amental a ilid0 ntidade
autor, ,·o Índio é todo indivíduo r e conhe cido
membro por uma c omunidade de origem pré-colombiana. , que
identifica como étnicanente diversa da nacional e é c onside -
_a indíge na pela população brasile ira com que está em conta
11
(1 9 57 : 35) e a definição se aplica , i g ualmente , a g ruposnos
diversos graus de aculturaç~o, inclui tanto tribos isola -
jamais se defrontaram com um agente da socie dade na
conservam t oda a cultura tra dicional, como g rupo s des
lizados . , . qw~, t anto linguísticamente quanto nos modo s
pouco ou nada dife rem dos agrupamentos sertanejos vi
apena s são indígena s por se c onside rarem e s e r e m t i dos
tal ': (1957: 36). '/
Ribeiro nã o de fine o que ente nde por frente de e xpa~
~ ernbor'a avance em relação ao te x to anterior 5 propondo que
de economia extrativa de ixa das de lado por
-~~----~-
-2 9 ~

Waibel. Seus trabalhos, aqui analisados, f o rne c c n boa sp istas


que foram retoma da s pelos antropólogos pre ocupados com a ;: fric-·
çao inter~tnica 11 ; estes , dispondo de um r e finament o teórico e
metodológico mais apurado.
( e) Rob e rto Cardoso de Oliveira 5 partindo das me sma.s preocup a --
ç oe s e questõ e s colocadas por Da.rcy Ribe iro 5 é um dentre os an
tropÓlogos brasile iros mais preocupados em elaborar modelos pa
ra descrever, compreender e prever o proc e sso de integração do
~dio n2. s o cieda de n a cional. Elabora duas noções, a de FRI CÇÃO
nERt:TNICA e a de POTENCIAL DE INTEGRAÇÃO que, a seu ver ~- são
:>âsicas p a ra a constPução do modelo do sistema interétnico ( 1' ) .

-~as as noções implicam e m que o ana list a a b andone, enquanto


_ro c e dimento meto do lógico, os chamados 17
es tudos de comuni dades 1;
ropo ndo sua substituição pe l o s \/ e studo s Pegiona is ,: , ou s e ja ,
=.q_ue les em que o ana lista estuda as frent es de expansão da. so
~e dade bra sileira q_ue entra m e rn contato dire to e / ou indireto
- m o Índio . Diz a e sse respeito Oliveira, concluindo esse seu
:T1t igo de 1967:
17
Do mesmo modo que o s grupos in dígen as devem ser obj~--
de estudos monográficos, como pre limina r do estudo do conta

, l'"'- noção de fric ção inte rêtnic a significa q ue ,:- ..


º a soci,:::d-J.
de tribal mantém com a. sociedade envolvente (Nacional ou Co
lonial) relações de oposição his tórica estrutura lmente ele::
monstrávcüs ... não se trata de re l a ções entre entidads s con
tráriils ~ simplesmente diferentes ou exóticas, umas em rela
ção a outra ~ mas contr árias, isto . ê, q ue a existênciil de·
1

uma tende a neg2 r a de o uty,a. E não foi p o r ou-t r~a r a z ã o que


nos v a lemo s do termo fric ção inte r é t nica p apa e nfatiz2r 2.
característi cd biisica da situação de contato 1 ( Olive ira ~
1972: 30 ). Pa r a este a ut o r~ e ss a noç i~.o de FRICÇÃO INTE RÉTNI-
CA é fecunda na f' DESCRIÇÃO e COMPR'EEHSli.0 ' do fenômeno do cm
tato inte rétni co . Esse conc e ito é um equivalente ló gico ele
luta de classes. Já a noção de POTEN CI AL DE INTEGRAÇJí..O t em
a capaci da de de ?REVER ··aquelas caracterís·ticas que~ presen
tes na situação ele c o ntato ~ poderã.o s er• t omados como aqu e
les elementos respons~veis pela integraç~o (Olive ira, 1 977,
p. 46) . Para se a va liar esse processo de integraç~o do Í~
d io n a sociedade n a cional & n eces s ~rio captar os mec a nis mo s
de inte graç~o segundo os tr~s d i f e rentes níveis: o econ6mi-
co, o social e o p o lític o ; com una maior de terminânc i a do
n íve l econômico p ois 1\i. n e le que tem lugar os fen ôrr1enos ma
i s determinantes do sistema interétnico ': (Oliveira , 196 7 ~p .45)~-
-30-

to interétnico, as frentes de expansao da socied.:1.de nacional me


recem um tratamento do mesmo tipo, isto é, devem ser estudada s
ào ponto de vista de sua. estrutura inte rna e de suc.:c dinâmica. E
eu quero crer que essa modalidade d e estudo fornecerá também
um conhecimento peculiar da sociedade nacio,.1 nl, porquanto obti
11
do media nte a descrição e aná lise de s eus segmentos regiona is
(Oliveira, 19 6 7 : 83).
Este autor é um dos p1"imeiros a d istinguir as ;i zonas
ioneiras 11
de Waibel daquilo que denomina de ''frentes de
expa~
são 1: . Enquanto conco rda com Waibel a respeito do papel ;• al ta -
nte progesssista 11 e " desenvolvimentista 1' d.o pioneirismo '., mo s
tra que as cha madas •1 frentes de expansão :!, ' nem sempre civili z a
ras 11 , é 11
a responsável pela destruição das populações indí g5;_
-sem território brasileiro 11 (Oliveir a, 1967 : 80)º Sua àefini-
çao do conceito de frente de expansão é ap e nas operacional:
,!A noção de 'frente t , acrescida à de v expansão' , indi
ca claramen-te a característica dinâmic a do fenôme no
que se quer investi gar . f a sociedade nacional , atra
-
ves de s eus segmentos regionais, que s e expan de sobr-e
&rease r eg i6es cujos ~nicas habitantes s ão as popula-
ções indÍg~nas e esse processo de e xpans ão não é
conduzido ao acaso; ma s conduzido por inte r e ss e s eco-
nômi.cos5 motivando as populaçõe s nele envolvidas '
(Oliveira~ 19 6 7 : 56).
Retoma a distinção de Waibel entre "fronteira demogri-1 -
e ti fronteira eco nômica ': , para concluir q u e 1
' a f a ixa si
entre essas duas fronteiras? o sertão, é que deverá ser a
a onde tem lugar - preferente e não exclusivamente - a fri c
interétnica F ( 1967 : 57) e ainda entre zona pioneira. e fr en
de expansão, para. mo strar que a noção d,'::! c o lonialismo inter
11
melhor s e confi gura em zonas não pionc, iras , a sabernaqu~:
zonas em que a expansão do povo,'lmento não é acompanhado de
1
· ç ã.o de novos e mais elevados padrões de vida' , para nos re
armos à de finição de Waibe l acima citada 1' (1967 ; 57).
O i mportante aqui é ressaltar q ue em sua definiç20 op~
do conc e ito de frente de expa nsão; o autor chama t->. aten
a s relações sociais que tornam singular o sistem?-. in
·· 31-

~rétnico. Tomando como fulcro de sua anâlisc as relações que


-=~ lugar entre as populações ou so2iedade:s em c ausa - a triba l
:. a nacional - entende que !las relações entre as r,oi)ulações si_g
- · fica m rnais do que urna mera c oop er1ação, uma c o nt padiç ão , entre:
_s sistemas societários em interação que , entreta.nto 3 pass am e,
stituir subsistemas de um mais inclusivo que s e pode ch2.ma.:ri
sistema interétnico 11
(1967 : 43) . .A noss o ver~ o autor é um
::_s primeiros a nos mo strar sistematica:men·te que o fato funda
__ta l e significativo é dE)scobrir quais a s relações sociais que
-~rnam singul,:11 o sistema social nas áreas de frentes de expan
1

, socJ_e
ua . (l ac..e
~ .D1 asileira.
. .1 A c ornpree ns ao
- -·
disso ;.;- cs senciê'.l
. p~
o estudo do c o nta t o intcrêtnico. Esse procedimento como o
=- --;>rio Oli v e ir-a. r·essal t a, lies tâ si t,,_-:1.do ::1 meio caminho c\1 Et no
: _gia e d c:t Sociologiü: 1
(19 6 7 :83 ).
Uma. contribuição importa ntr,) deste autor ê o r'ompiment o
-_ o s e studo s de aculturaçâo (Linton, Beal , Re d fi e ld, etc.)C ª ),
sven dando-· lhes a vis ão atomista e não operativa~ na.s quais o s
::-i.Ômenos c ultura is são clcsta_cados da o rgan izc1.ção sócio~·ec onômi
~ • • (AA)
: e pol it1ca d a sociedade . ºº .
A crítica a.os estudos acultura tivos l e vou o autor a
str a r a importância das frentes de e;cpansão para a a né'.lis e do
~tato interêtnic8;
l) 1
:Q u a. lqu;3 r estudo s o bre o s Índio s e bra ncos no Bra
:
q ue objetiwo r'evelar a sua verdade ira situação n ão p o derá
_ixar de fo ca liz:1r o caráter c'!as frentes de sbravadoras que os
- ,._ançam~ hoje -~ nos seus mais dista_ntes redutos ~, ( 19 7 2: 35) f:;

2) .:·o papel v a.riado '., de s empenh a.d;::; por essas frent es ele
nsao da sociedade n a cional ... t orn~ relevante qua isquer d2

) i-A -
' cul turia. ç ao ~ -~
conpree nde aqueles r<2.nGmeno s que o correm quan
do frup os de pe sso2s de dife re ntes cul tur as entrem cn cor-=·1

tato direto e contínuo, o ri g in"tndc·-·se dFtÍ modifica.çõss nos


padi1Ões culturais de um de les, o u de ambos os grupos:,
(Redfield et a l.? 1 936 : 149).
~) Esta ci1Ítica. sistemática aos estu dos de aculturac~o & apre
sentada -por Oliveira na introduç~o de O fn <.1.-"1__ 1._)~ l:.~'" o~ r1u-n
- ,<o ·d <....,1.,.
... \_l_ ,-;;-
Brancos {197 2) , onde o autor r c; s a lta ~ f1 aque za
1 tGÕi·i c::i.
· daqueles estudo .
dos que permitam traç a r um perfil compreensivo das formas de o
cupaçao civilizada e das mr:, dalidades de exploraçê:o do tx,abalho
'
. d.,
in -
igena e nao . d~
in .
igen~ regiona; l l' (1972 :35 ).

Suma riando as principa is c ontribuiçõe s te6ricas desseau


tor, podemos d izer que numa situaç ão de fricção interé tnica , o~
de um g rupo étnico sofre um process o de incorpora ção à s o cie da
de n a cio nal, DrODÕ e -se s empre a exis ·t ê ncia de interesses contra
dit6rios, cujo car~ter antag5nico a presenta certa ana logia com
a situaç~o de classe s sociais; e a lin g u agem que expre ssa tais
relaç õe s serÉÍ uma ideol o gia étnica, cujo significado so e c ap tií
vela partir do momento e m que ela é reintegrada à s con dições
, .•. )
que a ~e1;ararn.\" . _
(d) Otavio Velho e, s e m d~vida , o antrop6logo brn sileiro que
::ia. is se preocupou com o estudo sistenk1tic 0 das frantes de expa~
são da sociedade brasileira. A refer3ncia inicial de seus tra ba
l hos parte das questões levantadas pe l o estudiosos da fricção
interêtnica.
Como Oliveira (1967), ele também propõe urna r up tura.
1
com a perspectiva rnetodol6gica adota da pelos ' e studos de comuni
11
dade , muito c omum entre os antropÓlosos que estuda v am associe
d ade s tribais. Deste modo, assim colo c a Ve lho:
no caso da an~lisa de segmentos da socieda
de brasileirél , que o obse rva dor s e coloque num níve l r egiona l
que o ajude a. captdr uma '!totalidad e r e lativa. ;, ( Velho 3 1967 : 28 ).
Propõ e uma definição prelirr..ina:r. e operacional de u ma

( * ) Cardoso ele Oliveira, em artigos mais rece ntes, tem c hamado


a atenção pa.ra as repre sentações e ideologias engendradas p_~':.
l a s rclaçõc::s interétnicas, most1, ando que estas ' 1 • • • s ome nte
...., • 4' • n,,.. •.ç:-
- • .. "
serao 1ni:eleg 2..ve1s :3. con d içao de sere m r e ..:eriaas ao sistema
de r Plaç õcs s ociais que lhes dera m o ri g em . Nis s o talv8 :z. es
t e j a a pE:culiaridade de um conceito antropo lógico d.e identT
d.ade " (Oliveira, 1976:50-51). Pc.riti.n do da d c fini'i ãõ de Ba_rrt:11;
de grupo étnico 5 cuj o a specto cruci.-=ü é L a. caracteri s tic& de
auto-atribuiç~o e atribuiç~o por o u t ros 11 , este auto r p r op6e
a noçãõ ele identidade c o ntrastiv2. como c o nstit u in do a e ssen
eia da identi dade étnica: •;quando uma pes soa ou um grupo dÊi
pessoas s12 afirmam e nquanto tai s, o f azern. como meio de di
ferenciação cm relação a alguma pes soa ou grupo c o m que s:::
d(~ frontam . f umc. identidade que surge como opo~ição. El'3. n2.o
se afirma is o l adament e . No cas o da i clc.:;nticlade e tnica e la se
-3 3 ..

1
~nte de expansao regional, (o que e.1..e 'l •
aenornina de a r,defini
;;o do antropólogo ) :
11

11
Segment os extremos da socieda de brasileira q_ue se in
- c rnavam em áPeas antes não exploradrt s '.• e apena.s ocupadas pelas
. d ao.es in
s o cie . d.igcna.s
~.,. '·1 (1972:l3). \lelho con-trapõe essa clefiniç'i=lc,
- de frente pioneira~ tal como a consirl.era W2dbel no text-'.) ana
_isado. As frente s pioneiras de Waibel, segundo Velho, se encon
11
riam nas á r.eas que. , . gra.ças a determinadas condições, con
5cguem assegurar em grau maior ou menor a manutenção do s e u crBs
imento . . . continuam a absorver grandes c o ntingentes populaci9_
1
~is ' (1972:13) . Note-se que essa definição de frent e pioneira
=..iI1da e stá m11i to presa à caracteriza.çã c) geogrf~fica de ,·:zona I)lO
eira 11 de Leo H. Waibel.
Tanto no seu artigo de 196 7 co 1D em seu livro de 1972,
_ aut o r procura analisar o inter-relacionamento entre as diver
-as frentes que ocoi- reram historica.menü:: e aindEt continuarr,
1
.:1 o
-~rrer na micro re i iã.o de Marabá e estudar a fr ente de expansão 1

~-:,ropec u ári.a que hoje a lc a nç a aquel2 região da Amazôn i a Orien


_l . Seu e studo é apre senta.do sob a f o1°ma de história ~ cu ja pe
• ...=! . ....,. _,, - • ..ç: i
:.o tiza çao e ma.reada pe la atuaçao de deterrm.nada.s .1.rente s , e ex
=-nsão. Para ele ;;Essas frentes de expans~o serã,~ ca.ractc~riz,J. ··
==.s 2 distinguicbs de acordo 1 basicamente, com as relações fun
-:;mentais que estabelecem co m a natur~:;z,-=i. e conforme as r e l a çõe s
p r odução e d ,::., trabalhos prevalesc e ntes " ( 19 72 : 1 5).
Tendo esses critério s em mente 5 Velho analisa a frente
=s toril baiana do s~culo XIX , as frentes extrativistas da bor
_=.cha e da castanha) no início do séculoXX 5 a f1"ente minera dora
...
~ .
r te-goiana e as duas fr e:1.tes mais recente - a pecuaria. inten
~ a e a frente agrícola ·- que ating iram a r'2gLio da Amazônia
_ iental, ár.::::a de sua pesquisa de campo . Este autor também nos
_:_2.!P. ét a a tenção para o fato de que "O c o nta. to interétnico ê sem
.:__vida o efeito mais importante de uma f rs:~nte de expansao - do
to de vista das j)Opul a.ções indÍgsnas 11 (Velho~ 1967:29L

afirma II nega.ndo ;, a outra identidade i;étnocentricament~=:( ,,per


ela v isua. lizada' 1 (Oliveira~ 197 ê:5-6),
-34···

(e ) José de Souza Martins', partindo da crítica à concepçao dua


1
-ista. implícita no conceito de i:zcna pioneira.·' tal como vinha
sendo utilizada pelos geógrafos, nos mostra que p é.lt'a a sociolo
:na o importante é descobrir as relações sociais 1
' que tornamsin
lar o sistemc2. social da zona pioneira': (Martins, 1975:44).Da_~
ênfase 3-S rele.ções sociais, logo se perceberia de que 1ro rn9.
', que é uma das dimensões do conceito de zona pioneira, é n-9.
apenas na ocupação do espaço geográfico e não na estruturaso
·a1 11 (1975:45).
Neste texto o autor propõe urna distinção e ntre os con
_ itos de Frente de Expansão e Frente Pioneira. Na base dessa
.:..:s tinção esta1"iam dois tipos de economia: " economia do exceden
_ n (:'q e
..... '
"economia de mercado 1í ( " " 1
,
• A primeira frente encontra-
_e na faixa compreendida entre a fronte::.ra ecomômica e a fron
te ira demográfica, apresentando " peculiaridades ec::mômicas, so
.1.a i s e culturaisi1 (1975:46):1 enquanto a segunda !•se apresenta
1
mo fronteira econômicaH (1975:4-S)(~hH:). Na primeira~ '0 em
1 1
endimento capitalista s e situa fora dos comp o nentes da es
tura social' 1 (1975:46-47)(*** * ), ao passo que a segunda~ um
sultado do ';desenvolvimento do capitalismo no Bras.il, basica
ite caracterizado pela interiorização das funções metropolita

Para o auto1" 1 a 11 economia de exce dente • caracteriza-s e como


aquela '• c,_ljos participantes declicarr.-S f.! principalmente à pr~?._
pria subsistência e secundariament e à troca do produto qus
pode ser obtido com os fatores que exce dem ~s suas necessi-
dades n (1975:45).
¾) ;, A frent e p ionei1"a v· , diz Martins l 11 ex7)rime um movime:c-1to so
cial cuj o resultado imediato~ a inc~rporaç~o de novas re
giões pela eco nomia de mercado :. ( 19 75 : 4 5 ) .
· *) Waibel ( 1955: 391) já nos chama v -::t él atenção para o fato de
que no Br i.'t sil, a fronteira ec onômica não coincidia com a
front ei ra demográfica · ( via de regra aquela es
tá aouérn desta).
*** ) A frente de expansão acha ·- se integY a da à formaç ã.o social
1

capital is.ta de dois modos ;


a) "pE,la absorção do excedente demográfico que não pode
ser contido dentro da fronteira ec onômica 17 e;
1

b) ·.:T.)E:la producão de excedentes aue se realizam cono mer


cadoria na e coi;_omia de merca do " {1 9 75 : 46 ).
-35-·

-
nas~ isto e, pelo colonialismo interno ?' (1975 :48 ) , Na frente dE.!

expansao ~ as r elaçõe s s o ciais


1 11
não são de terminadas pela proclu
ç~o de me rcadoria s, pois , a ap ro p ri ~ção das c o n diç6e s de traba
lho, isto é~ da terra, não se faz c omo e mpreendimento econômi
co ·· (1 9 75 : 1+6) e ·e. a s tensões que marcam a fren·te de expans0Ío são
t e nsõ e s entre a sociedade capitalista que se faz present e na
front e ira e c onômic a e a sociedade tribal 2. qual se disputa medi
ante do empenho dos que estão situa do s na frente de expansão, a
te1"ra n e cess ária à p reservaçã o dess a frent e 11 ;' (1975:47) ; j ,; na
fr ente p ioneira, a s relações sociais 11
não esgotam . ma is no âmbi
to do conta to pessoa l. O funcionamento do me rcado~ que pas sa a
ser o regula dor da riqu e za e ela. pobreza ;? (1975 : 47) e ?i as rel a
ç ões sociais na frente p ioneira não são ape nas tensas mas t e:m
mesmo se mani fes t ado de forma. conflituosa:; (1975 : 49)Uq. Para o
a utor, o colo nialismo a.tua dif<~l"'ente mcn:te nas duas frentes. Diz
ele: v, o colo nia lismo que era o estrutu1,..,adoi"' das relações de tro
ca entre a fr ente de expansão e a economia de mercado 3 se ins J.
nua diretamc~nte n a frente pioneira. es t ruturando as relaç <3 es so
cia is ~ de fi n indo tensões e antagonismo de classe 11 (1975 :50 ) ,
A frent {~ pioneira 3 tal c ome a concebe o autor de que
e stamos trê1tan do 5 tem s empre se apresentado '. ,c omo ~xp ress ão li
_ ite do capitalismo no campo e~ a o mesmo tempo ~ tem-se apoiado
em relaç õ e s s oc iais fun damen t a is não-·tipicamente c ap italistas
scr.:.1vatura~ colonato, a rrendamento em espécie. Na v e rdade~ o
~ ·e caracteriza. a pene·tração do capital ismo no campo não ê ai.ris
~auração de relações sociais de produção típicas formuladas em
2rmos de c omp r a. e venda de força dE, trabalho por dinheiro. O
ue cara cteri za é a ins ·tauração da propriedade privada da terra)
isto é, a med iação da r enda capitalizada entre o produt o r e a
s c i sda de " (1975:49-50).
Este Último texto suscita alguns problemas na c ompre·..
:asão da frent e extrativista da borra cha que incorporou :li.stori

*) Martins c o l oca que a t err a 5 enqu::mt o ·:renda capi ta li zada ge


ra t amb ém um foco d ire t o de tensões na frente pioneira.: t: en
s õe s de e lass e :i ( 19 7 5 : 4 8 ) .
-36-

camente os Kaxinawá acs segmentos da sociedade n::i.ciona.l.


A frente extrativista da borracha n~o pode ser c o nside
rada uma frente de expansão nem tão pouco uma frent e pioneii...,a
ta l como a conceitua Martins a partir àa dicotor..'lia ' 1 economia do
e xcedenteª/" 2conomia de !nercaclo d . O modelo construido p e lo au
tor está implicitamente a.centado em termos de pro duçã_o, en1 que
a. terra se transforma no componente funda.mental. Na primeJ_ra,
e. terra nnão assume a equivalência de mercadoria 11
(1975:4-E-) en
11
uanto na se g unda, p .::i.ssa a ser equivalente de caDital 11 (1975 :
7) .
Os participa.ntc~s da. frente extrativista dedicam~-se pri!]_
cipalmente à pro duçâo de borracha e secundariamente ao cultivo
,~ produtos i : dito s de subsis-tência n :i portanto não pode ser con
siderada uma : econ8mia. de excedente n, CJT'.b o ra ao nível da
1
come r
.._ia lização se aproxime mais de uma neconomie, de mercado n . Não
de ser considerada uma frente pioneira 5 na medida em que a t er
- ~
~a. nao e considerada como um equivalente de me rcadoria. No sé
_ingal, o que impopta não é a terra ern. si 5 mas as árvores de se
_.1.nga, que existem sobr,.:; ela. Um seringal scr,ií: tanto nais valo
_ .,_ze_do quanto mai o r for o número destas árvore s dentre de seus
/
~imites.
Em suma; no modelo proposto p or Ma.rtins para concci tu ··
...., frente de expansão/ frente pione ira. c a be ~ portanto, a frc~ n te
êxtrativista da borracha.. Esta. Última. t e riê:1; então 5 uma especi f :i:
_: da.d,:! própria.~ dada ao ca.ráter de matéria .. prima de seu Drinci
l produto, a b o rracha, o que supõe um mercado industrial.
No (:kcorrer deste trabalho utilizamos o conceito de
frente de expa nsão tal como formulado por Cardoso de Oliveira
967) e Otávio Ve lho (1969-1972) para nos referirmos à frent e
~ b orracha e r e t emos de Martins o q ue ele denomina de f rent e
:-i o nei1--.a ~ para c2:r.acterizar as modernas 21 gropecuária.s que S P-

.:I1stalaram na r or-
.__, iã.o em aue
- vivem os Kaxi n:i.wá no decorrer da dé
- d a de 70.
Da ótica deste trabalho o i wportante é q u e os autores
~ ui apresen-J:,3.dos tenham chamado s isteEv:i.ticaI!:e. nte a a tenç 2.o p0:_
__ que o fundamental no conceito de fr,ente de expansão e frent e
ioneira., ê enfatizar as relações sociais, relações de produç 2.o
-37-

e relaç~es de trabalho prevalescentes.


O caso Kaxinawá sugere que a frente extra tivista da
b o rracha e a moderna frente agropecuária não só ge raram tais re
lações, mas que delas também emergem identidades étnicas e so
ciais, que são utilizadas para classificar ideologicamente os
seus participantes.
- 38-

0 !TULO III

- APOGEU E A DECADÊNCIA DA EMPRESA SERINGALi f: TA

Nosso principal objetivo neste capítulo i a descriç~o


explicação do processo hist6rico pelo qual passaram os Kaxina
--5. em suas relações com a sociedade brasileira. Trata·-se, po~
--::3.nto de dar mais ênfase aos novos tipos de exis-t(~ncia dos Ka.xi
_ wá do que de tentar resgatai, o 11
0:eiginal ;, ou o II
essencialmen
-:-E Kaxinawá" De nenhuma maneira este g rupo indígena pode ser
::.sto coP.10 um elemento isola.do da socieda de regional: tal vez o
- do particular desta articulação seja o fator responsável por
s ta aparente exterioridade que não é senão uma forma de ma.rgi-
-~lizaçio s6cio-po1Ítica e cultural . A situaç~o dos Kaxinawi s5
e rá entendida dentro dos projetos e re a lizações da sociedade
~g ional, que primeiro s e apropriou de seu antigo terri tÓ1;'io 0

::_pois de sua força de trabalho .


Os da.dos sobre a si tuaçã_o pré- contato são mui to e scas-·
:>s e caracterizam-- se pelo caráter fragmE!ntéírio e conjectural .
--: ue se pod,2 dizer com segurança é que os Kaxinaw,.i foram alca~
~ dos, a partir do terceiro quarto do s5culo XIX, por' duas fr,2n
'
- Es extrativistas; uma itinerante e de pouca ouraçe,o
"'
1 cor:~p o sta_
r caucheiros peruanos ; a outra sedentária e estável , f o r mad,::i.
r seringueiros nordestinos (CUNHA? 1976:234 -·36) , Forat i~ pois,
c aucho e a seringa os dois principais produtos determinante s
-~
povoamento da extensa região do Juruá e Purus, habit a t tr>adi
_..:..o nal dos Kaxinawá e inúmeros outros grupo s indígenas Pâno e
Este processe realizou~·se em ternpo relativamente curto,

---
fre nte caucheira deslocou-se principa lmmrte nos vales do Alto-
ia 1 i e do Al to·-Madre de Dios
~
~ pas s a.n do por ' 1varadouro s 11 abe r
s n.a ma ta a·té as cab e ceiras do Purus e Juruá ( ~rOCANTINS, 19 61 : · ,~
_ 6 ). A sua curta duração na área de ixou marcas profunda s no
( .,. 1
~

Kaxinawá '.) notada.mente as viole ntas i : correrias 11


" que ei::-

•) CORRERIAn é um termo re g ional utiliza. elo para cara8terizar


11

ma+anças organizadas dos diversos g rupos indígenas p e l o s pr_~


·- 39·-

?reenderam na região. Já a segunda frente extra~~vista, a da se


.ga, foi fruto de sucessivos sustos migra.tórios que saíram do
nordestino para os seringais que esta vam s ·2 formando na
do Pupus, Juruá e Madeira. A história da ocupação desses
o s sugere que a história da Amazônia Ocidental é um processo
conquista de novas terras atrav~s da s frent e s de expansão da
iedade nacional, que penetraram em regiões anteriormente ap~
habitadas pelos grupos indígenas, de há muito aí estabeleci
s. Essa segunda frente é de pr•ofunda significação para o gr~
Kaxinawá, até mesmo nos dias ele hoje.
..
A ida de contingentes nordestinos das areas rurais p~
o s seringais do Jurui e do Purus ocorre, principalmente, du

n do teve
--------~
o período que se estende das secas de 1877-79 até 1920
início o primeiro mome nto de crise da extração da
região. Da leitura de Souza (1960) depreende-se que
es !!trabalhadores 11 nordestinos que misraram para os serin
·s do Juruâ eram oriundos sobretudo das áreas rurais do Cea
, ligados às fazen das 17 mistas 11 que conjugavam a criação de g~
com o plantio _de algodão ( :!: ) • No auge das secas o recrutamen
Gessa mão -· de-obra era facilitado devido a sua concentração
>

cidades litorâneas, principalmente Fortaleza e Camocim, o


levou, apenas neste p1"imeiro momento J as autoridades Imp~
• is e provinciais a tomarem medidas que possibilitassem a imi
çao das populações vitimadas para a Amazônia:
11
A clespeza ds alimentação por espaço de al
guns meses, de ferramentas, de tra nsportes e
de outros auxiliares prestado s aos emigrantes
tem ocorrido e continua a ocorrer pela verba-
~ Socorros Públicos do Ministério do Império 11

:etários dos seringais recentem2nte abertos, com a justific~


va de garantir a segurança dos seringueiros.
Wagner (ms. · ) coloca quG essa designação genérica ·;; Trabalh~
àores'"utilizado por Souza (1960) no contexto de recrutamcn
to de mão .. de-obra pelos seringalistas np ode estar referida
simultaneame nte a ªmoradores'' e 'pequenos proprietírios '.
( nota 14 de p~ de p~gina ).
-40 ·,

( Falla do Presidente da Província a :\.ssem


blea Legislativa Provincial do Amazonas,1878:
47 ).
Esse fluxo mi g ratório , segundo da dos do s Re latórios
Presidentes da. Província do Amazonas, era nos pr1:o.e1ros a
da seca de aproximadamente 5.000 ( cinco mil) pessoas ao
...
, c o ntinuando initerruptanente durante todo o período aureo
borra cha. Paul Le Cointe, diretor do Museu Comercial do Pa
: , estima que entre os anos de 1890 e 1913 a população da Ama
tenha ~ t a c b para r!B.is de 600 .000 ( seicentos mil ) habi tan
Cointe, 1922 :380 ). De ste total, c e rca de 40.000 ( quare~
mi l ) nordestinos ocuparam a regiao banhada pelo Juruá e
( s e ssenta mi l ) nordestinos fixaram-se no Purus e seus
- em um per:t.o-....o
ue nt E; S, tambem .., n mui. t o curto ce tempo. Eucli. de s
Cunha, que percorre u o vale do Purus n o início do século ,
povoamento de ste rio como 11
uma das mais enérgicas
já da nossa terra senão de toda. a América Latina 11 ( Cunha,
A o cupaç~o de n o v a s ~rea s exigia, portanto, um flu
de rn.ão-de-·obra, agora por inteira iniciativa dos s e
proprietários, que engendraram um siste ma de r e cru
intermédio de agenciadores que percorriam todo o
_ ão c eare nse . Lo que ' se depreende da l e itura Souza (19 60 )
11
, , • proprietá1,ios de seringais que de baten
to-se com a defi c iência ele b1•aços ~
. ,
vinr1am pe
rio dica.rnente ao sertao, ostentando uma prosp~
,-• +; .
ri dade quase sempre :ricc.icia. , corri o intuit o
de recrutarem novos trabalh adorea para a ex
tração d e serin ga., Outra s vozes'.! mandavam p1"'~
posto :J arrebanhar novos magote s sob pro messas
e contratos sedutores~ ne1n s e mpre c u!npridos.
O Esta.do chegou a lançar un impost o sobre as
atividades desse s agenrn:ado1°ea, t ão ,: rnr.1ero s os
eram eles ·;. ( p. 4-3 )
Ainda se gundo ,;;s t e autor, os ''' trabalhadores 1·; recruta
s embarcavam para a ,:\mazônia freque n tement e sozinhos e me s mo
_ ca s ados n.3.o se faziam adc or11-oanhar po:o n1ulh e res e filhos º Re
.:.Stra-.. se também os vínculos econômicos exi s tente s entre os
-41-

3.ndes propriétarios de f az enda de gado do sert2.o C(;arensc e


seringalistas ela Amazónia. Souza chega inclusive a a pontar
aos de i; fazendeir os de Quixadá que se torr;a.r.:.m
1
seringálistas
=- região co Juruá e Purus 11
(p.70). O Juruã ~ por exemploJ era
um rio habitado exclusivamente por
. .
serJ_ngue..:::
cearenses. ,
Tal contingente de populaç~o brasileira~ um dado b~s
significativo p a ra caracterizar a violência do conta.tp com
• l.,
inc.iger.as, pa::>:-iticularmentc=: o Kaxin awá ~ tido corno um
grupos mais numerosos na região do ,Juru.:Í (BRANCO, 19 50 : 2 8) ,
se visava inicialmente a incu rporação ela
empreendimentos da empresa seringalis·ta, c om.o parece t e r
os grupos indígenas de outras ~reas da Anazônia.,
~ exemplo, os Tuk1Ína do Al to ·- SoliDÕes ( OLIVEIRA FILHO) 19 7 7) .
- após o '1t:e1apo das c::>rrerias' 5 no dizer• dos informantes Kaxinâ
fDram e nga jados como mão-·dc-0Jn a nos seringais da 1
re

D8 f .J .to, t a nto o caucheiro peru,?. no como o


. .
s e rin g ueJ.ro
caracte r izavam-se pela vio l~ncia extrema c om qu,é: ex
e expulsavam os grupos indígenas de seus antigos ha
Cunha, . t e stemunhando a realidade. dos ' e,o-runcs . ~.

em 19 O5. checçra a oualifi.car o ca.ucheiro mais


J ::J ....

um 11 guerr2iro ;; e um ,,· conqu:i_sta.


• '
c~ or 1'· ele

pcpu 1 açoes
-· . .., ..
1n,_,i7.ena.s
que como um trabalhador da fabricaç ão do Caucho (CUNHA~l97 G:
-== ) , Um dos r.1.étc dos mais difundidos e: utiliza.jos pelos c auch E'. i
s consistia em escravizai" um bom número de Ínclios e Í.7.d.ias a. in
.ovo s, el i mina ndo os indivíduos maduros e a nci~os que nâo se
à nova situa.ção e que eI'am tidos como elementos per
Afastá-los depois de seu lugar nativo era dispor de
...
~ força de trabalho resignada e tranquila, trabalha ndo ati a
o seu patrão . No Peru, um sistema de aprisionamen~-
~ 3. mão-d2.-obra indígena. se tor nou famoso1
1 o cha1;1ado ;. método
_ itzcarrald:1 ~ um dos mais notáveis cauchcir,os peruanos que
e utilizar com muita eficácia as rivalidades tradicionaisen
o s v~rios grupos tribais:
se entrE:gava winchester aos Cunibo que
tem que pagar com escravo Campa, dGpois s e en
-4-2 ·-

tregavam winchester aos Campa e estes tinham.


que pagar com escravos Cunibo ou Amuest.a ~ e
assim sucessivamente numa cadeia de correrias
tr~gicas em quase quarenta anos de história
da selva peruana e cujas consequências s e s en
tem até hoje 11 (Varese, 1973:24-6).
O padre fanc~s Tastevin, da Congregaç~o do Espírito
Santo, com sede na cidade de Teféj no Solimões, que percorreu o
Juruá e seus principais afluentes como o Tarauacá, o Muru e o
Riozinho da Liberdade no decorrer da décad~ de 1920, tarr~ém fa z
registro de inúmeras 11
correrias \1 oi-,ganizadas pelos caucheiros
e pelos proprietários de seringais. Diz ele:
11
Os civilizadosj caucheiros pePuanos e seriri -
gueiros brasile iros·; -extermina.rar:l grande nú
mero nas expedições ou correrias sem perdão.
Chegava-se a lançar crianças Índias para o ar
e aparava- se na ponta do punhal. Este foi um
caso completamente excepcional que s e fala
ainda com horror. Mas tinha.--· se o Índio como
um animal malfazejo, incapaz de civiliza~ão ,
e esta idéia praticada por homens influentes
deveria produzir este trist e resultado: o ex
termínio de uma raça de excelentes agriculto
res 11 (Tastevin, 1928 : 211).
Coloca a inda o autor que, a p artir de 18 90, os serin
gueii- os nordestinos começaram a. inva dir o Tarauacá, o Envira
1
e
o 1'' 1.uru, h a b 1. tat tra d· 1c1ona
. . 1 d o K axinawa,
. - K u..:..ina
, ..,
.1.
,r t u k._,ina
e ha .., e
q ue logo depois come çaram os massacres deste s grupos indí g enas,
11
descrevendo as sim a organ ização das correrias H :

11
Reuniam- se de 30 a 50 homens '.j armados de ri
fles de repetição e munidos cada um de uma
c e ntena de b a l a s ; e, de noite, c e rcava-se a
Única cabana, em forma de casas de abelha~ on
de todo o clan dormia em p az . Na c:mrora, a ho
ra em que os Índios se l evantavam para fazer
seus primeiros repastos e seus preparativos
para caç a, um sinal convencionado era feito e
- 1+3-

os assa:1."b.antern faziam fogo todos juntos e a


vontadeº Bem poucos conseguiam escapar , poup~
vam- se as mulheres e a s crian ça s que conse
guis sem escapar vivos, mas não poupavan ne
nhum dos homens, os quais, aliás, s e mostra
.,
vam sem mêdo e indomáveis ººº para el e s o in
dio nao era sena o um irracional que S ,:,
,_ podia.
ffiatar como se matava um macaco n { Tastevin,
1925:4-19 ).
f fato sabido, at é nos dias de hoje, que muitos pro
prietários de seringais sustentavam e pagavam a ''rna teiros ' pro
fissionais cuja função principal era me nos a de 11
abriJ: "e stradas
de seringa 11 do que a de ma tad_o r e assassino de 11
Ín dios brabos 11 •

Ainda vive no Alto-Envira um indivíduo por no me Pedro Bil6 que


se tornou famoso em toda a região do Jui"uá ~ como um dos ma is cé
lebres matadores profissionais de Índios. A população re g ional
o tem em grande e stima e até mesmo lhe atribui p ropr i edades má
gicas. Dizem que ele se torna invisíve l no mato, podendo garan
tir até me s mo cloz·e pessoas sob sua guarda sem que nada lhes a
conteça. É o que se depreende do discurso de u m seringueiro do

nPedro BilÓ nao amansava. caboclo nao. Pedro


BilÓ matava era muito caboclo. Dizi que el e
tem oraç ão fo rte º Ele andava no mato e nao
deixava v es tige. Entrava no cupichaua dos ca
boclo prabo e cortava as corda toda dos arco
e caboclo nem dava fé. Depois ele c hamava os
homi e cercavu o capicha ua e aí fazia fogo
Pedro BilÓ é um homem cheio de oração. Diz i
que ele tinha uma sina de ma t á caboclo porque
o s caboclo mataru a mãe dêle 3 a gente dele .
Ele é u m homi de corage . Pedro BilÓ vive lá
pras banda da Faze nda Ca lifornia , . , . a Funai
(a) levou ele preso p ra Rio Branco e dizi qui
-
ele desamarrava as corre nte com oraçao dele.
Dizi o povo por aqui que e le ganhou foi orde
nado do governo por ter ajuda d o os seringuei
-44-

ro contra os caboclo brabo que roubavu as


barraca dos seringueiro. ,:
Os Kaxinawá do rio Jordão disting uem dois tipos de
o rrerias v, organizadas pelos proprietiír,ios de s e ringa. is: a - a
. . • .. . . d .;,
; -, 1 as qoo visavam exclus1.varrente o externunio dos g rupos i n ,ige nas
b - aquelas que visavam incorporá ·- los como força de trabalho
- s seringais da região.foque se pode d e pree nder do discurso
::e um seringueiro Kaxinawá , quando ele opõe dois personagens or
=.;:; nizadores de 11
correrias 11 na região:
" Pedro BilÓ não amansava caboclo. Pedro BilÓ
matava caboclo. Pedro BilÓ só amansou Mane l
Papavô porque deu um tiro n1. mãe dele e el e
era bem novinho. A bala a inda marcou o bra ç o
del e. Felizardo Cerqueira ama nsava cabo
elo, dava mercadoria pra nó s cabo clo. Agrad~
va o velho, o menino. Felizardo e Angelo Fe r
reira a mansava caboclo pra trabaiá pra ele .
Nós tudo aqui trab a iemo co m Felizardo. Ele di
zia que tinna pra mais de 80 filho com as ca
bocla, Eu mesmo ele me ajudou a fazer. Fe li
-,
zardo a mansava caboclo e depois botava a mar
ca (F º C.) pra saber que e r a dele, que foi ele
,-, ~
que amanso u . O Nicolau, O .Keg.LTIO ~ o Chico Cu
rumim, o Romão ~ esses caboclo mais ve lho tu do
ainda car1°ega essa marca no s braço . Picava o
braç o cum quatro agulha e passava a tinta que
~ genipapo misturado com polvora e tisna pr~
11
ta de sernambi.
As notícias primeiras sobre os Kaxinaw& aparec e ram em
- 0 5 no relatório do Prefeito do Al to-LTuruá, GregÓ1°io Taumatur
de Az evedo , ao ent~o Ministro do Interior do Brasil. Nesse
__ _a tório foram mencionadé1s aldeias de Kaxina wâ no s rios Acu
_::ua , Alto Taracauá , Muru, Iboiaçu, Humaitá 1 Jordão e sobretudo
Alto - Envira (cit. in Branco, 1950:15). Viviam da caça , pesca
e ram tidos como excelen-tes agricultores, Sua vida e conomica ,
.- .
:::o a de quase todas a s tribos da re gião , estava voltada p a ra
:.::. n ecessidade s de subsistência e->, só eventualmente para a forma
-·45-

ç~o do excedente necessário~ realização de rituais indispensá


veis à vida social dos indivíduos (iniciação, fertilidade 5 co
lheita etc.)
Após inúmeras "correrias n ~ parte da população Kaxinawâ
passou a se vincular como mão-de-obra aos seringais que se for
mavam na região e parte deslocou-se para as cabeceiras do rio
Curanja effi território peruano, numa área onde não havia reser
vas de caucho, mantendo-se, portanto, afastada tanto dos cauche
ros como dos seringueiros. O que leva Kensinger a afirmar que
os Kaxinawá do lado peruano 11 representa a parte mais cultural
mente tradicional da tribo, cujos antepassados migraram para o
Peru há mais de sessenta anos, a fim de evitar os extratoresbra
sileiros de borracha' 1 (Kensinger, 1969:29).
No entanto, a maioria da população Kaxina.wá do lado
brasileiro engajava-se como mão-de··obra na empresa seringali~
ta, participando dessa nova maneira de organizar a produção e
3tualizando as novas relações sociais aí engendradas.
Durante o apogeu da borracha , a maioria dos seringãis
que utilizavam mão-de-obra nordestina dedicavam·-se exclusivamen
te às atividades extrativas. Os próprios patrões seringalistas
proibiam o cultivo de roçados ditos de subsistência e quaisquer
outras atividades que não a extração da seringa, Intere ssava-
-lhes apenas um fluxo contínuo de mão-~de-obra que se substituis
se periodicamente na produção da borracha. Hão se cogita. \ra dE;

fixar o homem à terra. Dispor de uma força de trabalho unicamen


te voltada~ produção da borracha, lhes era duplamente vantaj~
so: aumentava a capacidade produtiva de seu seringal e criava-
-se um nmercadov' para venda de todas as mercadorias necessárias
â subsistência de seus seringueiros.
O mesmo processo não ocorreu com os grupos ind ígenas
"
ue foram engajados posteriormente na empresa seringalista, se
os patrões que trabalhavam com seringueiros Índios e
como aventureiros que não dispunham de r:tuitos recur
sos e eram obrigados a tolerar o Índio e seu modo de vida 3 ain
da que produzindo menos borracha ( já que não podia substituí-
-lo por nordestinos ), seja porque as relações do patrão com
s seringueiros Índios contava sempre com a mediação dos chefes
-46-

os grupos, Os dois casos parecem ter ocorrido com os Kaxinawá.


Para a devida compreensão da empr•esa seringa.lista } é
cessã:rio que se entenda uma instituição básica Clue lhe é mode
~as e específica. Trata-se do aviamento.to produtor direto, ~
seringueiro 3 recebe de seu patrão tudo aquilo que necessita p~
-ª 1
empreender a produção de ' pelas ele borracha i; 1 desde os ins
_ umentos de -trabalho ( facas de seringa 5 baldes~ tigelas 3 ba
ia, o terçado 3 o machado etc) 5 até roupas, 11
estivas 1•
o sal, o querosene, o sab a munição etc) 3 alimentos e ar
s. O fornecimento destas manufaturas é feito através do empe
ho compulsório da totalidade da. p1-.odução ao seringalista , Novo
fornecimento se faz e assim o processo continua, sem que haja
a mínima circulação de dinheiro. É o Único instrumento de cr,2cli
_o e de valor, de transporte e de comunicação existente nos se
1
ringais da região . tEs t e processo abrange d e sde o nível local às
inculações internacionais, do plano das relações comerciais ao
e.a s relações sociais de produção. Oper•aciona-se por uma sé·rie

e relações de aviamento:

casa casa
seringueiro~_.-.:,,. patrão ~
e.e--" ~<:
---.,.._ aviador'a ~ ""
,.... Exportadora
\_____ ______--v-- - - - - - - - - ~ --/
produtores não produtore s
( Seringueiros nor
estinos e serin
uueiros Índios)-:-

Sob um mesmo nome, o sistema de financiamento antecip~


~o dos custos da produção opera de maneira muito distinta e com
diferentes consequências econômicas e sociais. Assim podemos
firmar que a relação entre o patrão e a casa aviadora e entre
esta e a casa exportadora s~o relações de dependência, mas de
finidas em termos de um quadro de direitos e deveres totalmente
rlive1"SO daquele que vigora nas rel a ções entre o se1"ingueiro e o
atrão.
A consideração das relações entre os não produtores ~
importante, na medida em que descreve os mecanismos de articula
ção da região do Juruá do Purus com os níveis nacional e inter
-LI- 7-

nacional, e indica como as alterações produzidas nestes níveis


se refletirão na estrutura de produção local. Já a relação en
...
tre o produtor~ o seringueiro:, e o nã.o-produtor, o patrão:, e
na.reada pela exploração vio~enta do primeiro pelo s egundo. E
de sta forma que o patrão corisegue manter imobilizada a força de
trabalho do seringueiro pela dívida. É aí que, por sua vezintervem
p grupo. indÍgena Kaxinawá f a este nível que o sistema de avi a
nento revela a expoliação de sua força de trabalho.
Podemos assim observai, que o seringueiro Kaxinawâ e o
seringueiro nordestino são duplament e explorados: através do$
preços cobrados sobre as mercadorias e dos baixos preços
pela produção dê\. borracha. Agravando ainda. maJ.s a situa
este sistema permite que sejam efetuados r egistros
. ...
inveri
cicos e irreais 3 dívidas fictícias; mantenào a for ça de traba
o totalmente subordinada à empresa seringa.lista. O seringu e1:
raramente deixa de ser um devedor e de ve pautar a sua condu
pelos "regulamentos dos seringa1:s :' estabelecidos pelo p~
ão. Tais 11
regulamentos 11 , descri ·tos por Euclides da Cunha
podem ser assim resumidos : primeiro, o seringueiro é o
a vender toda a produção ao patrão; segundo , ele só P9-.
comprar no armazém do barracão do patrão; e , terceiro '.) o se
pode abandonar o seringa l sem antes l iquidar a
1
dívida. Euclides da Cunha aponta inclusive um na cordo ' ou
1
' aliança 11 existentes entre os patrões qm~ vivi am no tcrri tô
do Acre . Diz ele:
"Há entre os patrões acordo de nao aceitarem ,
uns os empregados de outros~ antes de salda
das as dívidas, e ainda há pouco tel'.'lpo houve
no Acre numerosa reunião para sistematizar- se
essa aliança~ criando-se pesadas multas aos
patrões recalei trantes ,, . · (Cunha, 19 76: 111).
Este 11
acordo 11 até hoje vigora nos seringais da r'egião ~
' a 1 gumas mo ct·f·
ae i -
:-Lcaçoes. .,.:: o que se d epreenüe
1:, ~ '
ao d iscur
dos maiores seringalistas do rio Tarauacá :
i:só coloco un freguês vindo de outro seringal
s ' eu pag~ as conta dele com o outro patrao .
Isso é lei aqui. f convençao nos a a 3 porque se
- '+ 8-·

nao o freguês leva a vida pulando de um s,:: rin


gal para o outro. Então) já sabe: colocou o
freguês, é responsável pelas conta .
(já faz tempo que tem essa convenção entre os
- ?'
patroes.;
Jâ faz tempo. Essa eonvençao já vem de muito
-tempo. Rapaz, seringueiro sem procuzir 7 mor
re. Seringueiro tem que ser trabalhador. Ag~
ra ca.rrego corn.o cap1..,icho, tirou sa.ldo eu pago
na hora ' '.
1
Nos ·tempos áureos da borracha ' a Única produção digna
de nota era a _da seringa. E em sua extraçã.o estava engajada a
.:iaioria dos se1-.ingueiros-nordestinos. Até a farinha era import~
da pelo patrão para que o trabalhador se de dicasse exclusivamen
~e a esta atividade extra-tivista. O patrão chegava a proibir em
s ua prop1"iedade que qualquer seringueiro ,:colocasse roçado " .
Ferreira de Castro, em um romance intitulado A 8el1J a ~ uma exce
. acente etnog:r>afia da vida de um seringal do rio Madeira 5 r e lata
1
c ~sos em que o patrão mandava seus ' capangas n destruirem os pe
uenos roçados cultivados às escondidas. Os mais velhos serin
sUeiros da região falam desta época como de um tenpo , de total
suj e ição 1' ao patrão . Tudo era comprado no armazém do barracão ,
~ clusive o alinento.
Já os seringueiros Kaxinawá nunca. deixaram de manter
t!ma atividade econômica mista em s e u engajamento como :m.ão·-de - o
na empresa seringalista. Sempre conjugaram o trabalho na ex
da se1°.inga com o trabalho no pequeno roçado '. ;da fa mí
Euclides da. Cunha ( 19 76) , e m sua via_gem ao rJ_o Purus em
nar,ra a existência destes pequenos roçados só entre os
_up os indí ge nas da região. Os Kaxinawá 5 ao contrário da maio
nordestinos, tinham família e não podiam
o que n e cessitavam, no arrnaz~m do p atr~o . Essa i uma ,-
marcante entre os seringueiros Kaxinawá e nordestino,
ec:nbora amb os estivesse D. já participando das me s mas relações so
engendradas pelo sistema de aviamento. Tra b a lhar' no ;·;cor
da seringar. e/ou para o patrão do seringal era o Único meio
que dispunham os Kaxinawá para adquirir os bens manu fatura
~os, dos quais já necessitavam e nao mais po d iam prcscindiP.
Do ponto de vista do seringueiro nordestino, a efilpresa
seringalista da região era 9 duran.'te o u.pog2u da borracha 9 um e~
? reendimento tipo monocultura, cujo centro de de cisão situava-
- se fora da região . Em tal situação, a quase totalidade da pro
ução não se destinava ao mercado regional da mesma forma que
grande parte dos produtos consumidos eram produzidos no estran
geiro ou em áreas ao nordeste e sul do país.
As relações estabelecidas entre o seringueiro e o pa
trão, durante ess.e período do apogeu da bor1:1acha ~ foram descri
tas por Eucli de s da CUnha ~ que compara o primeiro a 1
'um servo
e o segundo ao 1: possuidor dos latifúndios das terras 11 , r e trat:an
e.o a exploração a que era.m submetidos os s<2ringueiros, comq sen
do o traço marcante de suas relaçõ es com os patrões:
;iA propriedade mal distribuída~ ao mesmo pa~
soque se dilata nos latifúndios das terras
.~
que so se limitam de um lado pela.s beiras do
rio, reduz-se econoT!licamente nas mãos de um
núr.r1ero restrito de possuidores. O rude serin
guelra é dui•amen te e:-cp loraâo:, vi vendo despe a
do do pe daç o das terras em que pisa longos 5
nos - e ex igindo~ pela sua -
situaçao - .
pre caria
e instável~ urgentes priovidências l egisla.-ti
vas que lhe ga.ran-tam melhores resultados a
tão grandes esforços. O afastamento em q ue
jaz, agravado pela carência de comunicação,r~
àu·-lo nos pontos mais remotos, o. um quase ser
vo, à mercê do impér-Z:o di sc r-Z:aion.ário dos pa.
t1•Õ es . A justiça é naturalmente s e rôdia ou nu
la . 1• (Cunha~ 1976:261).
A partir da década de vinte~ a empresa seringa lista. da
região passa por um prolongado mo:inento de crise. O preço da bor
racha vinha caindo v2rtiginosament.s desde 191 2 e o pai:rao
não podia importar todos os produtos necess,:Írios ao aba stecimen
to dos seringueiros~ che gando mesmo a incentivar' o desenvolvi
mento de uma pequena agricultura cujos produtos~ notadamente a
farinha ~ o tabaco e o gramixô ( UEl. açúcar preto fabricado cm pe
- 50 -

quenos engenhos), eram adquiridos para abastecer o seringal


e/ou para serem revendidos nas cidades de Feij5 ! Tarauaci e Cru
zeiro do Sul. Atê os próprios patrões passaram a manter grandes
roçados. Nos seringais onde viviam, os Kaxina.wá foram imediata
mente requisitados para os trabalhos agrícolas. Data desta êp~
ca o abandono dos seringa is por inGmeros seringue iros nordesti
nos que retornavam à sua terra de origem ou se fixavam nétB vi
las e cidades que surgiram no Vale do Juruá e Purus. O rio Mu
ru, habitat tradicional dos Kaxinawá, é bem um exemplo dess2
saída de seringueiros nordestinos. Diz Tastevin acerca desta re
tirada de seringueiros:
1
·Graças a queda da borracha, os brasileiros e~
t~o eles mesmo em via de diminuiçio : perde ram
a e sperança de fazer fortuna, muitos retorna
rama sua terra de origem .. . o recenseamento
de 1920 acusava 4.000 habitantes no Muru e já
em 1923 s6 acusa a metade dessa cifra. Em tr~s
anos o Muru tinha derdido mais de 50% de sua
população~ e o êxodo ainda continua " ( Taste·-
vin, 1925 : 419).
O principal fator responsivel por este i xodo rural -
e
a quebra no sistema d e aviamento. Os patrões seringalistas já
não recebem das casas aviadoras, as mercadorias necessári a s p~
ra a produção da safra d e borracha e n e m dispõ e m de recursos
p r6prios para abastecerem os seringais. Muitos deles ficara m en
dividados com as casas aviadoras, p e r>de ndo seus seringais par a
liquidarem suas dívidas. Os que pe1..,rnaneccram tiveram que se
adaptar à nova situação. Os patrõe s também passaram a d 0,:s e mpe
1u'l.ar outras atividades econômicas, como a ,i e :r>o9ado e a c r iação
d omést ·i ca de galinhas~ porcos e de al g umas cabeças de gado · nê
duro' ~. Tastc vin? que percorreu esta r eg ião durante os mo mentos
de crise da empresa seringalista, d e screve assim a situação dos
atrões que perE:.aneceram no rio Muru :
" Os pro prietários vivem nos seus seringais
de seu comércio com os seringueiros , de um
pouco àe a gricultura e de üriação dom é stica -
gado, porcos, carneiro, galinhas que vivem to
-- ~ . . .--~ ~ ~~- - -- . . . . .=-

-51-·

dos misturados em seus campos artificiais , Os


impostos absorvem em geral a totalidade de
sua renda. Ele é impedido de sonhar c o m o .eDro
-

gresso e a educação de seus filhos, e nqua nto


dura r 0 e stado de coisa atual " ( Tas·tevin,
1925 : 422 ) .
Nesses momentos de crise intensifica va.m··s e as atividõ:J.
1
'e s dos ' regatõ es 11 ou 11
ma.rreteiros 1' , que 0 ram a.via dos pelos co
~erciantes elas cidades próximas. Mora va m p raticamente dentro
::los batelões, subindo e descendo os rios ,'l;:,
V -~
r,;::,ai·
• -e, ~o ~- ? trocé.ndo
.:a s mercadorias n por borracha. e cmtros produtos oriundos da a
gricultura e da criação doméstica dos seringueiros. Taste vin ,
_ue realizou um levantamento exa.ustivo dos s e ringais do Murp em
:_9 2 1+? T!lOStra que os seringueiros tiveram t :1mb(; m que dese mpenhar
' .a atividade econômica mista, conjugando as atividades de ex
~ração da seringa com as dos peque nos roça dos de subsistê ncia e
- criação dom~stica de a nimais; isto porque os patr3es n~o ti
__l-iam mais condições de i mporta r farinh a. e outros ma ntimentos n e
_c ssários à alimentação de seus tra balhado res:
no seringueiro, se ele que r co me r de v e - se
.transformar· em caçador e pescador; se ele -
D é'l.O

quE=r comprar do patrão a farinha de man dioca~


o arroz, o feij ã o, o açúcar de que el e neces
sita e que absorver~o todo o valor de sua bor
racha , e le deve se tr->ans:forma.r e m ,'-" c·y,, cul
~ t_.; - ..J.. -- ·· -

tor . º , desmatar a floresta" semear' o q_ue


planta, cuidar das suas pla ntaç6 e s , transfo1~
mar 2.. sua mandioca em farinha , encaixotar o
s e u arro z e en g arrafar o s e u feijão : junte -se
a isto o cuidado com seus vest i mentos e C OEt

os seus móveis rudimentares, e se p e rceberá a


s o ma de en e rgia q_u1::; deve empre gar' o seringuei_
ro para sustenta.ri uma existência miserável
Feliz quando a doença não o vem abater' na sua
solid~o e obri g ~-lo a ffilll

to c a ros, o ma gro resulta.do das suas e c o no


mias. Também não devemos nos a dmirar ao vê - l o
·-5 2-

-
·-3.0 na epoca qu.::::.ndo a
abandonar a luta e a regi,
baixa da borracha permite-lhe dificilTfa:::n-te
adquirir as mercadorias indispens.:3'.veis que
ele mesmo não pode fabricar: tecido para se
o .. , f
vestir, utens1~1os em .erro-branco par~ a co
..

lheita da borracha, fer!."'amentas para a agri


cultura 9 armas para caça~ remédios contra as
doenças, sal, fÓs foros etc ... ,·, ( Tastevin,
1925:422 ).
Para os grupos indígenas da região, e aqui particu.la!'.
- ~ nte os Kaxinawá, esses momentos de. crise nã.o significavam o
simples retorno às suas atividades econômicas tradicionais, uma
ve z que, tanto as relações sociais como o modo de vida engendr~
tlo s pela empresa seringa.lista persistiam e a.inda persistem até
3.0S dias de hoje. Na região do Juruá e Purus 5 a borracha conti
uou sendo produzida apesar da queda bnrnca e contínua do preço
no mercado internacional. E mesmo outras produções como a madei
ra , peles de animais e uma incipiente agricultura passaram a
s er realizadas em total subordinação ã_ empresa seringalista
ntendo-·se então o mesmo sistema empregado na extração da bor
racha.
De 1940 a 1950, principalmente no período dà segunda
grande guerra, a produção da borracha toma u m novo impulso na
re gião. Em 1942 é criado o Banco de Crédito da Amazônia p o r in
dicaçã.o e conveniência dos Es·tados Unidos, com objetivo especf
fico de realizar financiamento aos proprietários de seringais
a elevação da produção ; cabendo-lhe também o monopólio
Banco passa a ser um intermediário que
m substituir tanto as casas aviadoras como as casas exportad2
primeira fase da borrach~. Toda a produção da safra dos
seringalistas era comprada e vendida p~ra as indústrias
ricanas~ através do porto de Nova York. Novos seringais fo
m reabertos e o crédito foi facilitado pelo banco, através de

réstimos concedidos. Além disso, o Governo Federal passava ,


• clusive, a direcionar novos contingentes nordestinos, particu
rmente para a região do Juruá ~ Purus e !fodeir•a.. Os compone.!::
s dessa frente são ainda hoje conhecidos na :re gião como os
-53-

soldados da borracha 1' . A maioria destes novos seringueiros nor


~estinos passou a dedicar-se exclusiva.mente ,3. extr:J.çãc da seri_!::
a . Os patrões seringa.listas dispunha.E, de f a rtos financiamentos
- ncedidos pelo Banco de Crédito da Amazônia~ p o dendo fornecer
o das as merc,3.dorias necessárias para os seringueiros trabalha-
se preocupar com a subsistência.
- - ·-oora KaxinmJá é requis i.i:ada
Nesta ~poca, toda a mao-cte ~

ra o trabalho de extração da borracha. Tratava -se, agora , de


indígena totalmente ambientada com a vi.da. dos
de custo ma.is barato que a mão - de~-obra nordestinaº
ponto de vista Kaxinawá, esta nova reax ticul=1.ção dos
1
s ,e ru1
não levava ao abandono de suas atividades econômicas m1s
ú=.S, combinando as atividades propriamente extra-ti v::1.s com as
~~ividades agrícolas, Mesmo porque esta nova especialização da
-?resa seringalista em torno da produç~o da borracha , ocorre
. . .
urr1 perioao mui to curto 5 apenas durante os a.nos da segunda
Guerra Mundial, desté.tc&ndo-se os USA. corno mercado compra
praticamente toda a produção da região. No discurso de
velho seringalista do rio Tarauacá sobre esta época 3 els dis
!lgue a estratégia dos seringueiros nordestinos~ que vinham
:m a intenção de ' fazer fortuna ; para reg1.,r_:;ssar à , sua terra de
1 1

rigem 5 daquela dos seringueiros K2.xinawá que se dedicavam ta.n


extraçâo da seringa quanto is ativida des agrícolas:
1
' Faz é tempo qui caboclo corta seringa, ma.s
eles nunca deíxaru de botar roçado~ Os cariu
não,ma.ioria deles só trabalhava mes-:no na se
ringa. SÓ botava roçado quando patrão na.o +. c.l

nha a mercadoria 5 o elemento como se diz aqui.


Caboclo não. Caboclo sempre foru bom pra agr~
cultura e serviço pesado. Quando precisava ã~
les eu ia lá e dizia: olhe eu vim buscá fula
no~ fulano e fulano. Porque caboclo eu tinha
que dizer assim. Se perguntava se podia ir di
zia: 1 Ah num posso, vou botê3r roçado" vou ca
çar? minhét mulher té: doente') filho tá doente.
Por isso que tinha qui chegar e dizer fulano 5
fulano e fulano. Assim tava bom. E eles tudo
-54-

obedecia. . e o E cortava seringa ta.rnberr1., f·ías ca.


boclo sempri teve essa mania. de roçc::tdo , ;' ,
Na ri ea lida de as é1tividades na se :i:·inga. e no roçado na.o
e ram e xcludente s p a ra. os Kaxinav1á , Enquant o um ou out ro membro
da __-fami,#1 l. êl 5 ge1,aJ.r.1ent
, e os 'h omens ~ ' . 2va-se a- extn1ça.o
decic - d3. se
r inga, outros de clicavam-se às ativida des propd.'3.mente de s ubsis
tê nc ia c omo o r o,;;ado, a caç a e /ou s e rviç os para os patrõe s se
r ingalista s.
1' A partiri elo início da década de 50 , a c mp:r'es,3. sering~
lista da região passa por um outro grande momento d e crise. E
_o vame nte o seringa l deixa de s e r uma empres a es p e cializa da ap~
__as na produção da borracha. Os novos aumentos de preço da bor
ra cha não a companham os aumento s nos preços das merc a doria 9 . Em
--onsequência disso, dir:tinuiu o poder de crt~dito dos pa.trõe s S '"i

:-ingalistas j un-to às casas comerciais de B<2 lém e M2.na u.s , redu


z indo-se drasticamente o fornecimen-to destas mercadorias aos se
!"ing ueiro s. M·.ê.~ smo o Ba n co de Crédito da Am3. zÔnia, criado
par~ reativar os seringai s n a tivos e exe rc er o monopólio
d3. come rcialização da borracha, passa agora a s eguir uma no va
r ienta ç ao , dificultando a r ea lização de financiamentos para a
_ rodução da. safra da borracha. Os próprios patrões
.
::as r e conhe ciam. que seria . ossJ_ve
imp ... 1 a sobrevivê nci2. do SJ_s
. +
L.ema
.=e a viamento s em os financiamentos que esta insti tui ç~o bancá
_ia proporciona va.
f ne s te conte x to que surge um no v o personagem social ,
qua.l passa a desempenhar um p apel econômico b as t::1nt:e i mp oritan
-:2. Trato ·· se do s ''bariranq_ueiros i' ~ um pequeno camp ;~s inato emer
-e nte ) r e sultante da s constani:(~s cris es da. e mpre sa. seri11_ga 1·1~
.
~

::a. A maioria delGs fi xou-,s e próxirüo a s cida de s da reg ião, v i v e~


:.o basicamente do roçado, da criação dom2 stica e da. venda de
rtes dess e s produtos ;: ditos de sub sistência. :' tant o para. os
_ róp rics patrões de seringais como p a ra os r ·ega.tÕ<c:!S ou. até mes
v ende ndo p a rtes de sua produção rvrn cidack~s , Como não tinham
.,. reito
. a~ terra e m que vivia . . m, apenas a- sua b e nr,.. e iºt oria . ~ o pa
__ a o s e ringa 1.._ i s ,_a poaia man d a- 1 o s e muo
- o o .C.. , • l-. A , que oc::~ 1n d enizas
r a d.es ae o o

_ • A não existência de terras livre s condicionava a subordina


~o das a tividades dos barranqueiros aos de sígnios da - .
p ropria
-55-

empre sa seringalista.
O 11 barranque iro 11 define-se em funç; ã.o de sua prática e
conômica, co:rno um morador- da •ºmargem'·, ou dos i;barrD.rico s ,: dos
rios, mais como um tra b a lha dor de a gricultura. do q u e como um
e xtrator> de S8ringa, embora. não seja raro q ue u m ou mais me m.
b ros de sua f ami~1·ia d e d'iquem-s -2 ao tra b a lh .
_ o na seringa:
11
Barr·a nqueiro é quem mora n o b a rra nco , mo r a
na margem, trabalha na agricultura. Vive do
roçado e da criação . A vida de b a rranqueiro
que o povo chama é fazendo uma farinha, pla n
tando bana na 1 arroz, feijão ? t a baco , faz e n do
carvão e criando porco , galin.~a e alguma s ca
be ça de gado. 11
Pa rtes desses produto s os b a rranqu(:: . iro s s a o o b rigado s
a vender outros que n Gcessita m e que n a- o pode m
e xecuta m~ f e ito com a força de
de sua família ; apenas r a r iJ.mente utili zam mão-de- o bra
tranha à sua unidade doméstica e q uando o fazem é através de
dia ;: ou :s adjutório 11 com outros barranqueiros da s viz i
anças:
1
íCom os vizinhos nós troca o dia de serviço ••
quando um tá aperriado ele f a. z ad j utÓ-x•i o.
vida os vizinho naquele dia e dá o quebra
j u1::1 e almoço . • . Aqui , faz adjunto ~ é
n a broca e derriba da da ma ta prá botá r oç~
do. ,;
O barranqueiro evita comprar no a r me.Z<3ffi do b arr a cão
patrão para não ficar endivida do e ter assim mais auto nomia
- comercializ a ção do s pro dutos de seu roçado e da criação do
- stica de animais . A sua vinvulaçã o com ·:> b arracão do patrã o ,
ma ioria da s vezes, dá- se através de memb ros de sua família,
filhos meno res, que dedicam-· se à ex-tra ç ã o da s e rin

·· eu s o u barranqueiro a qui ness e s e ringa.l . Mas


tenho do is filhos que c o rta seringa lá no cen
tro . Ele tra balha p ra mim p o rque s ão a inda sol
teiro r; .
-56 -

O b2rranqueiro define a. sua_ prática econômica em :rela


ç ão à do seringueiro 5 principalmente na relação em que ambos es /
t :1belece m com o patrão~ Considera - se ~; libe1..,to ·' enquanto o serin
g ueiro é visto como um :1 cativo '' e sempre sujeito ; aos patrões.
Tal oposição reflete tanto o nível da produção corno o da comer
cializaç~o dos produtos. No caso dos barranqueiros, o patrao
não interfere em nenhum dos dois aspectos 5 ao passo que nos pr'.?._
dutos oriundos da seringa, intervém tanto no nível da prodµçã •::)
p ropriamente dita corno no da comercializaç~o. Ele dré! tém o mono
t>Ólio da co mercialização da borracha., L e, que se depreende do
d iscurso de um barranqueiro do rio Taraua.cé:
nA se1"ingaé um trabalho sujeito., cati·vo. Os
seringueiro abre a colocação quitava no bru
to 0 roça as estrada, faz barraca , defumador
e acaba os patrão manda eles dividir bem a. ma
dei1 2, 5 tem qui contá naqueles riscado
1

qui os patrão dizi que


pra nao maltratá a seringueiraº Ele diz p ro
f1-.eguês : seu fulano o senhor corte mais raso
um pouco, tá cortando muito fundo! Que r dizer
ele mandou espi~ o trabalho do seringueiro
do freguês. Bem se ve que este trab~lho -
nao
ta sendo mandado pelo seringue iro . O serin
gueir 0 bota aquele roçaclim qui é pro sustento
1

da f amÍlia ~ nao pod.i cor,1.p 1·a. tudo no patrão .


Não corta todos os dias. Passa dois, tr~s dia
sem ir cortá aí patrão diz : s e u fulano tá cum
três dia qui o senhor não v a i cort5:: AÍ o fre
gues va.i comprar um quilo de sal e o patrão
só vendi meio. Vai comprá uma barra de sabão
e ele só vendi meia barra. Si ele sonega mer
-5 7 -·

cadoria pro fregu~s porque ele se atrasou na


produç~o. A borracha ele paga do jeito que
ele quer. A mercadoria. ele vendi qui é um hor
ror de caro ... Agora se eu boto um ro,;:ado a
qu -; na ma.,..,ge~1 po.,,., co
- J. Jl e Hl:a
.1.
. h=>u. ]rn:;
' ffilH ., .-,s
,:,ffiQ' Ü :,+v,-
pc LJ. à.O

vai ver como eu br'oco? Não. Ele vai ver como


eu derribo? N~o. Pois esse 6 o trabalho manda
do por mim qui sou barranqueiro, Na agricul
tura o patrão pergunta Ya quanto é qui o se
nhor vendi o seu milho':' A como é qui vendi o
arroz~ o feijão l a criaçãoT O patrão tJ'. pe!_'.
gunta.ndo a como é quitá vendendoc Por isso é
qui falo que na agricultura o trabalho é ...,.,_
l ..;

berto~ nao -
- e sujeito aos patr~o- como na serin
ga " .
Data dessa époc2. de crise da empresa seringa.lista, a
chegada para as pi.,oximidades das p1°inci.pais cidades da. .-
1,.,f; giao

de parcelas significativas da população Kaxina.w,:.Í: 5 vivendo à mo


da. dos bar-ranqueiros. Estes barranqueiros Kaxinav-ÚÍ tamb,2rn for mu 1

.
1am e.m. suas repre;sentaçõe.s da.s atividüdes economica.s uma. d.is - 5

tinçâo entre o trabalho na seringa. e o trabalho na. a.gricultur:i,


• •
O primeJ.ro e... \11° s Tr:;
_,._ como um trabalho exclusivamente
trões 11
e o segundo como uma atividade independente da
çã.oi; dos patrões. r'. o que ta.mbém se depreende dos discurssos de
um barranqueiro Kaxinawá que vive nas proximidades da cidade de
Tar...auacâ:
;·,f melhor viver de serviço de ro,;;ado, na a.gr_:1::_
cultura, dand.o dia de serviço pra um e pra ou
tro do que trabalhá na seringa. T1,,aba.lhá na.
seringa é trabalhá pros patrão. O freguês e -
sujeito~ vive devendo pros patrãoº Na agricu):_
tura nào. Vive liberto. Vendi pria quem qu~_
zer. Na seringa não,~ tudo sujeito 5 tudo no
cabresto~ devendo pros patrão. Eu vivo bem
aqui nesse barranco gr aças a Deus. Quer dizer
1

.
eu não tenho nada. Mas não devo pra ninguem. -
TÔ liberto. Tudo qui nós planta é pra nossa
=58-

.,.
família. Agora trabalho na seringa é so mesmo
pro patrão, patrão roubou muito aqui. Mc rca.cl~
ria vendi caro. Borracha ele paga poucb. Ain
ó.a tira a tara, a renda. Nés aqui ni:10 r3ab c. d<2.
nada, Tudo é de acordo cum ele. Trabalho na
seringa 5 um trabalho pro patr~o. Seringueiro
aqui é tudo devendo. "
O trabalho na seringa e-· representado , portanto,co mo u m
traba lho para o patrão enquanto :; o se1°viç o :, na agricuJ. tura
visto como trabalho para a família. A própria categoria tra.ba
lho é repre senta.da localmente pelos divers os personagens so
ciais c omo exclusivamente li g.:i.d2, à extração da seringa. Da í Pº.!:'.
q ue os baI'ranqueiros e/ou s e ringueiros Kaxinawã re pre sent a.m a
categoria trab a lho como um trabal- ho para o patrão, na medidil em
que o pa trão é o Único que sai lucrando ce,r:1 a pro dução d.::i. safra
d"' b orr a cha.
no contexto de sua repres ent a ção da cate
g01.>i a trabalho e da distinção que operam entre ,-tr abalh o na se
11
r1.'.nga '' e se 1,.viço na. agricultura"~ que o observador pode vislum
brar um "modelo nativo H de in-terpretação da exploração de sua
força de trabalho na e mpresa seringa.l i sta . É através dessas rie
presentações que os Kaxinawá~ sej am eles barranqueiros ou s2rin
gueiros ~ percebem e nroubo 11 q ue lh e s i mpõem os patrões sering~
listas. Pa rtindo disso , po de o observador r e construir as regras
do prÓpri o ~sistema de avi a me nto .

1 , O patrão :'. ro u b a'' n o preç o das mercado ria_ s

Geralmente o preço d a s mercadorias forneci da s a.o serin


g ueiro va ria de 100% a 150% a mais do que n a s cidades de
Tara.uacá e Cruzeiro do Sul.

Liquidam a produção da safra de seringa c om os seri n


gueiros a p reço s bem infe rio r e s que aqueles pelo s q uais ven dem
nara as usinas de lava.g2m Gm Belém e/o u Mana. use Em maio de 1977
o preço por quilo de borracha pago ao seringueiro era de Cr$
11,00 no sistema de "trocon, enquanto o mesmo preço nas- cidade$
próximas era de Cr$ 20~00 a dinheiro,

3, O patrao '' rouba '' na renda das estradas de serinr;,:a


. ----·--·--·--·--,~~-

O seringueiro & obrigado a pagar ao patr~o 70 k g de


borracha por cada parelha de estrada de seringa que ele ocupa
no seri.nga.l. Como a maioria. dos seringueiros trabalha ern pelo
menos três d0stas estrada.s de seringa par:3. produzir urna
de 400 kg de borracha,~ obrigado a pagar 105 kg ao ano para o
patrão, Iste rep:r2senta mais de 25% da produção a.nua.1 de um
se::..,.,inguei.ro, v-nliºnam
.e., .c.J: '-.., . os
. Ka.Y_i11a~1a·
• . que vivem no contexto dos se
ringais que, no passado, o patrão cobrava a renda.; porque era
e le quem mandava ab1~ir essas estrad..1.s , 3.brir raB.ais o u varadou
r c s que liga.varil a.s colocações c1os ser•ingueiros ao barracào ,qu·:,m
Banda va a Inercadoria na porta. do seringue:i.ro etc, Atu2-J.rr1ente es
te serviço é feito pelo próprio seringueiro , embora os patrões
a. inda exijam o pagamento da renda,

4- º O pa·trão 1
·roub3. 1 ' no peso da bor1"acha

DeDl tanto pesos :f icticios


' o o ., •
~ que so 1·111es f avor'ece ,
J
nas
'c o ntas correntes " dos
. .
seringue iros,

S , O Da.trão '' rouba ,; n e. 11


tara n ou :auebra. 11 da borracha

Tira. uma percentagem de 10 9s no peso ôa · bor1°ache. po~


. ue, segundo ele, a borracha diminui de peso quando seca,

6 . O patrão rouba · i:ra.ns-oo?:1te da borr><':.1.ch2.


·- -~--

O transporte do " centr0 1• ~ onde vive o seringueiro 9 p~


r =t a ,; mnrgem ''• 9 onde está localizado o bar11c:1.cão, e daí até as c:J_
. .
... u,.
"" rl""S
.__ _,._.. )r·o-~Xl"'i';>S
1.t .,--.1~ .. -- - debita.do na conta do sering1J~e1.r•c) º
-60-

Se a partir das representações dos seringue iros e/ou


barranqueiros Kaxinawá pode-se depreende-r' ess3.s rc.:. gr ,:1s do ;; rou
bo '' , da ótica dos patrões todas elas se justifica.m, isto devi
do tanto à distância em que se encontram dos centros urbanos ma
... " --
is proxim.os, como as taxas de juros que pagam pelo fianciamento
adquirido no Banco da Amazônia. O patrão vive a sua dominação
1
cor!l.o natural. A admissão do ' roubo ·· só ocorre em determinados
contextos em que o patrão se julga passado para trás<*).
Durante eses momentos de crise, a emp1"esa seringalista
tem aumentado ainda mais a cadeia dos não produtores. Raro sao
os ;eroprietários que movimentam seus próprios seringais. Como
geralmente são propriedades de muitos herdeiros, preferem ar
rendar seus seringais e terceiros, mediant e o p agamento de! urniJ.
quantidade determinada de borracha., segundo o número das estra.
das de seringa realmente trabalhadas p e lo seringueiro. Algurn:;
proprietários arrendam seus serinp,ais exigindo apenas a renda
que os seringueiros pagam por estra<lus ocupadas. É nesse contex
to que surge o personagem do P.rrendário ~ taJTtbém conhecido cor:10
"patrão-·chefe 1; , Como geralmente possui um número grande de se
ringais, este ';patrão-chefe 'j possibilita o aparecimento de ou
personagem: o do 11
gerente-aviado 1' º A ampliação , na c a deia dos
produtores leva, conseqüentemente, a uma ampliação do núme
ro de intermediário e daí a uma maio1" exploração da força de tra

SÓ encontrei um caso no discurso do patrão em que o ·. roubo "


era adniticlo º T1.,atava-se de um seringuoi ro que tinha recla
mado que o patrão não havia computado o peso correspondente
a dua s 11 pelas de borra. cha ' 1 • O p.:ltr~o, para evitar possível
confli·to com o freguês e não qur~renclo ser considerado u:w.
"mau patrão '' pelos demais, admite que se enganou mas depois
faz o desconto na conta corrente do seringueiroº Tal caso
funciona como uma situação limite já que ã regra do jo go é
desvendada p<2lo pr6pria Ótica dos -patrões:
11
Tive aqui no meu seringal um freguês muito 2xigente. Um
dia ele criou questão comigo, que eu nào tinha d,'3bi-'cado ,_
')

pelas de borr2.cha, na conta deleº Eu disse que tinha~ Ele cri


ou questão. AÍ eu disse que tá bom, eu debitei na conta de
le. Mas depois eu descontei devagazinho no '; 1 preço das merc a
doria e clfc: nem criou questão. ,;
-61 -

balho d.o seringueiro. O 11


gerente=·aviado" ganha tant o no preço
das mercadorias como no preço da borracha , mas tem que dividir
partes de seus lucro s com os a rrenda tário s ou 'pa.tr-Ões-chefe': ,
Estes, sao os ~nicos que t~m acesso ao financiament o concedido
p elo Banco da Amazônia, po.ssibilitando ass im a organização da. f
produção da safra da borracha. No discurso de um '' ge rent e . ·avi_:;
do 11 do sering3. l A., no rio Tarauacá, perce be-se o contexto em
q ue o 11 roubo 1' pode variar no nível do não-·trabalhador:
11
0 sistema aqui é assim. Eu r e cebo um ordena -.-
do de 2 mil cruzeiros do Seu R.M. qui e -
ar
rendatário desse seringal A . Has eu tenho co
missão na mercadoria.
(Me explique melhor este sis t ema. )
f: a ssim: se o Seu R.M. comp1'.'a uma
mercadoria por Cr$ 5,00, ele quer
ganhá mai s c1,$ 5, 00 de lucro. Já
são Cr$ 10,00. Ele bota mais 25%
no tJ.:,ansporte inté a rua . Bota de
po is ma is 15% até o seringa l, AlÍ
a mercadoria chega na minhu mão.AÍ
eu b o to a.. minha comissão de l O%p11'1
vender e ssa mercadoria pro serin
gueiro. Eu preciso ganhá tarnbém~ t_'.:':
nho a responsabilidade do seringa l.
O seu R.M . s6 fica 1~ na rua, ti
ran do dinheiro do b a nco pra ma.ndâ
mercado ria pro seringa l. "
,,,. .
Os .r,axina
-
. no
wa.,. que d esempen.h am a sua p rática economJ_ca.
contt:xto do se x")ingal c o rij u ga1n as at j_vidades de e x·traç ão dél G(::
ringa com aquelas ligadas ao r o ç a do ·aa f amília 01 • De sua Ótica ~
trabalho na extração da seringa é visto como um trabalho para
patrão, mas um trabalho q ue lhes pe rmite:o adquirir os prod.1.:!:_
o s que não prr)duzem e que so o patr3.o e o regatão têm para o
fe rec e r. É um tr aba lho pa.ra o pat1"ão porque eles sabem que rar::?;_
nte deixarào de ser eternos devedores e portanto 9 "s uj eit os 11
patrão .
-"Aqui ness e seringal nós c orta s eringa , mas
-62-

nós bota ~çado também. Nós n.ao poài compra t_~~


do no patrão.º. O roçado, os legume é pr.:-2 -
nos
"'1 ia.
comer cum nossa ..1..amJ_
.r: · A. seringa
. e- pra -
nos
arranjá a muniçã~~ o sal, o a çucar~ o sabão 3

~ ~da d~ Toupa. Na sering~ nós fica deven-


do pro patrão. No roçado não, os legumes é tu
do nosso. Se nós não bota roçado como -
<2 qui
nós dá de comer pra nossa família.. Não botando
roçado não come, né? A seringa nós vai arranja~
do a munição , o sal, o que rosene. Aqui Til.:::·sse
alto, nessas fronteira nós não vendi le gume
porque inté os patrão tem r o çado. Nós aqui dá
dia de serviço pra um e pra o utro patrão . . . Nós
tem uma criaçãozinha de porco, de galinha qui
nós vendi pros regatão pra compra coisa de va
lor p ra dentro de nossa cas-'3.. Vivc:: r só de se
ringa não dá pra viver por a qui nesses alto. n
Embora esses Kaxirawá afirnem que não vendem os prDdutos de seus
roçados aos patrões, percebe-se na leitura de suas iicontas cor
rentest' o registro de vend2,s de 11
tantos paneiros de farinha '\ 11 t~
tas mãos de milho'', ntantos quilos de amendoim ·· 'J
1
;tantos quilos
... >
de carne de caça 17 etc. A ocultação da. venda e decorr'ente do mo
do como eles representam o trabalho; o tra b a lho na sering,"J. c omo
tun trabalho pa.ra o patrão, mas ao mesmo tempo como alterna tiva
para adquirü., os pr. odutos necessários a sua subsistência e
1
que
eles nao produzem ; e o trabalho no roç a do, q ue é vist o como um
trabalho pan~ a própria família, A c r iaçã o doméstica de anima.is
entra aqui n e ssa categoria. Através da venda desta criação, o
l<:1xina.wá podt; adquirir uma espingarc~a ) um r emé dio, maa elei:rola,
panelas etc. , cois a s que eles reputam como ;, de valor!I 9 porque
não são condideradas de consumo imediato.
Uma conclusão parcial é a Q(c} que os Kaxinawá nao cons
tituem uma 11
unidade 11 , não apenas geograficamente mas principal
nte em termos sociais e econômicos. No c o ntexto do seringal ~
nos altos rios distantes das cidades, enco,1tramo-·los vivendo co
seringueiros , mas seringueiros que; conjugam as a tividades e x
com a do roça do 11
da família i ; . Fora deste contexto en
-63 =

~ .
ontramo····los vivendo à moda dos barranqueiros, resi dindo prox_~
o às cidades como pequenos produtores subordinado s a o s propri~
tários de seringal ~ e mais recentemente; vendendo a. sua força de
t rabalho nos desmatami:-:. ntos d.os projetes a.gropecu.-S:rios, embora~
como nêl seringa, não de ixem de cultivar s e us p equeno s roça dos
de subsistência. Quaisquer que seJam as suas ativida de s de tra
balho~ o roçado é uma constante invariável de sua prática econ.§_
mica. As recentes transformações por que vem passando a região
t êm ameaçado e ssa atividade, já que os agropecuaristas, adqui
rindo os antigos s e ringais decadentes proibe rr.-t,,,. na suas propried~
des.
-64-

CAPfTULO IV

AS AGROPECUÁRIAS

A partir do início da década de 70, urna nova frente de


e xpansao atinge a região em que vivem os Kaxinawá. Trata·· se de
- ma frente agropecuária que inicialmente se instalou como empr~
endimento econômico, através da compra de inúmeros seringais vi
sanda a criação de um mercado de terras.
A vanguarda des·ta frente era c ompo sta sobre tudo de in
v estidore.s, especuladores e grileiros de terras os quais s e des
locavam do sul de Mato Grosso, passando por Rondônia, até
.....
<1LlD

gir todo o Estado do Acre. Compravam os seringais de antigos p~


r rietá rios totalmente endividddos com o Banco da Amazônia, ten
do a. K1aioria deles, inclusive, abandonado os seringa is nas maos
de seringueiros e barranqueiro s que lá permaneceraI'l entre g ues à
~6pria sorte. A n~o exist~ncia de vinculas com os antigos p~
troes transfo rmaram tais personagens em autênticos pos seiro s.
Uma vez comprados os seringa is 5 a grande preocupaçao
rlestes 11
compradoT'es de terras n ou '"paulistas 11
e ra dE, ;1 limpar a.
~nea ;' , procurando retirar pela persua são ~ oferecendo irris óri a s
in denizações ou :, na maioria das vez c,s , u sando de métodos violen
.... _ .
~os para com R S f ami Lias que lá tinh,:a.m pe r ·manecido apesar> do já
_ongo processo de de cadência da emp1:es a. s2ringalista da r egião .
:)e fat o, a ven da dos seringais não l e vou em conta a existênc :i..r:1
·
:!aqueles posseiros, ... a·
1n · · 1 • za dos ~ o riginan
r 1os e civi~i · • d o daí urna s r:-; -
r ie de conflitos~ que se tr•aduzia em qu":;ima de barracos~ p1..,~
s3es, ameaça s de morte, etc .. Os ncvo s dono s do s seringais dis
punham de pisto leiros profissicnais e cont ::1 vam com o apoio da
oo lícia loc a l para tornar mais eficie nte as suas açõe s de e xpul
ão destas famílias" Um barranqueiro Ka.xin :-1wâ do Rio Muru, n ar
ra assim os primeiro s te mpos éia che gada dos ,·; paulistas P:
'' ... os paulista chcgaru aqui aç o itando todo mundo,
queimando barra ca, j udia.ndo de ca.boclo, judiando de
cari-,í, mal tratando os pobre tudim de sse rio, toman··
do conta de -tudo. Eu sei qu2 foi pau.lista tirando
acreano.
-65-

(Os paulista s6 tiravam os cari~, os a cr0 ano s?)


Eles tiravu era tudim. Era caboclo, e ra c .1.riú ,esses po
bres daqui, os acre ano como eles dizi. E l r:J s chegaru
queimando tudo, Tem mui tos a.Í qus num t em mais tE~rra
pra pla ntar . Os paulista chegaru aqui foi forte~(*)
O baixo preço das terras é uma característica. destap1~!
• • • •
meira fase da frente agro pecuária. Os pr1me1.ro s s e ringais :ie. o ram
vendidos a preços que oscilavam entre Cr$ 5,00 (cinco cruzeiros)
e Cr$ 12,00 ( doze cruzeiros) o hectare'j que depois eram rE;:'.ven-
didos a pre ço superior a Cr$ 300,00 cruzeiros (tr2zentos cruzei
ros) aos grandes grupos econômicos do centro-sul) h a vendo uma
valorização da terra em mais de 2.500%. Este f e nômeno se expli
ca, em decorrência do significado da terra tanto na frente ex
trativa da b orracha como na nova frente a ~-gropecuária.
- .... Na. _._n rimei
-
ra, a terra em si n~o possuía valo r e sim a exist~ncia abundan-
te das seringueiras. A medida n~io e ra o hecta:r.ie mé'.S a r· estrada
de s eringa !l . Um seringal er•,::1 tanto m2tis valorizado quanto maior
fosse o número destas 11
estriadas 11 • Até mesmo a partilha de um se
ri:.igal entre herdeiros era feita na ba .: :, de tantas ' 1 estradas de
seringa 11 para cada um deles. (id;)
Embora os títulos definitivos de posse dos
.
seringais ,
.
.,,
expedidos pela Província do Amazonas até 1898, iimitassem a a
rea. de cada um deles a 10 º 000 hectares, tal medida 0!::'.'a de sconh.§:_
cida regionalmente. A mai o ria dos propriet á rios ampliaram consi:_
deravalmente a área de seus seringa.is) principalmente dur2mte o

(*) Al~m do a spe cto violento ressaltado no discurso deste bar


ranqueiro l<axinawá, ele próprio ví tima dessas violências,pcr
cebe-se o novo par de identldade s 6 tnicas engendradas pel~
nova frente: i'paulista · / ªa crea nc, '·, qu(.= se sobrepõe ao par
11
·c ariú 11 /ncaboclo ;; no contexto da fr,ent e da borracha. Iss o
ser~ estudado en outro capítulo.
( **) Euclides da Cunha diz a resp eito dos se ringais do ri o Pu
rus, que. o _v~lor próprio ~12.~ ter>T'él 1_;é re lcf~ado a_ um mfnimõ-
0

extraordinario ante a valia exclusivél da a r'vo1°e ' . 0(;ndo


que :i a unidade não é o metro - é a seringueiria.; e cor,1c e n.
ieral c e m ~rvores, desigualmente intervaladas, constituem
uma estrada, compreende ·· se para logo todas as proprie dades
de forma e dimensão do singularíssimo padrão que é~ não ob.§_
tante o Único afeiçoado à natureza do s trabalhos 1• ( Cunh. ~,
j

1976:279).
...------------~- --- --- - - . -

-66-

auge da borrach3. 5 em que se fazia necessário a.umentar a capaci


dade produtiva dos mesmos. Os próprios seringalistas, sabedores
disto~ venderam imensas áreas de te1..,ras a preço extremamente bai
xo 5 porque a imensidão de suas propriedades compensava a área
que era r'ealmente titulada pelas escrituras públicas. lS'o baixo
pr'eço das terras estavam também inclui.dos os riscos de futuras
desapropriações pelo Estado e o conflito com os homens que lá
tinham permanecido.
Já, na nova frente, a terra passa a ter valor em si
mesm::t ~ transformando-se em mercadoria. A terra é comprada e nao
simplesmente ocupa.da, como foi nos primeiros tempos de ocupação
da riegião. Ela s ,::: transforma numa renda capitalizada e avaliada
segundo o seu tamanho em hectares.
Esse processo de venda de seringais iniciou-se p e lar~
gião do Purus, devido à proximidade da capital (Rio Branco ) q u e
já se encontra va ligada a outras regiões a partir do final da.
construçâo da rodovia Brasília-Acre, em fins da d~cada de 60. No
vale do Juruá este processo 1~ mais recente. Nesta área, a co:mu
nicaçr:í.o com outras regiões do país c1inda ele pende basicamente dos
rios, o que a torna extremamente difícil e morosa, condiciona da.
que est.3'. ao período das cheias nas épocas J e inverno. Mas m""osrr.o
>

aí, :ios paulistas :• já compraram inúmero s s e ringais dos grandes


seringalistas da r e giâo.
Na. bacia do Tarauacá, principa l afluente do rio Jupuá,
onde vivem os Kaxinawá, a instalação desta frente agropecuária
q.presenta certas particularidades. Durante o d2 correr da segu_~
da grande crise da produção da borracha~ muitos proprietária_:; f~
ram vendendo seus seriingais para dois grandes seringalist a s li
gados a casas aviadoras. Dentre eles destaca-se o atual senador
da Arena, A.L. ~ personagem que consolidou a. ligação entre os do
is momentos do processo: a desintegração d cl empresa. seringa.li_§_
ta e a nova frente agropecuária. Além de ter recebido ele heran
ç a inúmeros seringais, passou a comprar pratica.mente todos os
que foram venôidos na região no decorrer da década de 60, Tor
nau-se dono de rios inteiros , tais como o Gregório, o Acurauo.,
o Riozinho da Liberdade, mais da metade dos rios Muru e Taraua
~~. Este foi o Gltirr~ grande seringalista da ~rea em que vive~
-67-

os Kaxinawá. A partir de 1972, foi forçado a vender prati oamen


te todos os seus seringais para o s grandes grupos econômicos do
sul, a fim de evitar que o Banco da Amazônia S.Aº ficasse com
su s proprie dades como pagame nto das vultuos as dívi da s contrai
das com aquela instituição bancária e acumu ladas durante a cri
se de produção da borracha. Ele 1)rÓprio personifica o decadente
próprietário de seringal, o especulador e grileiro de terras
desta primeira fase, a de iT!lplantação da nova frente agropecu~
ria. Numa longa e ntrevista~ este personagem responsabiliza a no
va orientação monetaris·ta do Banco da Amazônia coP-10 responsável
pelas recentes transformações ocorridas n a regi-~o:
1
. ~ .
·A t ran sformação dessa região do Tarauacá em pecuaria
e possível agricultura não e ra nosso pensamento e sim
c ontinuar a exploração exclusiva da borracha. Mas acon
teceu que desde 19G4, com a n ova sistem~tica usada p~
lo Banco da Amazônia de r~estringir o crédito, de a ch,"'iJ'."'
e pregar o seringalista de passado limpo em homens ées!!
creditados, trouxe o desanimo total no problema da b ar
racha. Pois bem, o Banco f oi restringindo ainda mais o
crédito. E decidiu receber todo o dinheiro que es tava
empatado na mão do seringalista, mal sabendo o Banco
da Arnazônia, que ele i a dar a maior errada 5 como hoj e
ele é reconhecedor d o assunto . O seringalista, por sua
vez, sem obter o capital pra trabalha r é claro que ele
não tem margem de continuidade n o 13 seus negóço d,2 pro
dução, como ninguém tem, Ac o ntecendo tudo isso nos en
tram.c) S na tal transformação do P1cre º º" Iss<.J eu fulo rle
cadeira po1,..,que eu fui o maior produtor: d e borracha do
Brasil. Eu fui o seringalista de ma ior crédito no Ba n
co da Amazônia. O crédito c a iu de uma hora pa.ra outra~
a p~-:io dução caiu de uma hora para outra. 5 ,:3 eu deixei de
ser o maior produtor de borracha do Bra sil:i de u1:1.a. hc
ra para outra. Eu tinha cer.1 seringais. Eu tinha 1..u!1a ma
l e ta que tinha quilos de escritura . Ia comprando seri~
ga.l e deixando lá no meu escritóro. Eu compre i as tra
dição que o C. tinha 3 que o A.F. tinha. Eu comprei por
que ninguén1 acreditava. O sL1j,~i to chega\ra e dizia ~ tsc:1-1
-68-

A.L . eu que ro vender meu seringal; Eu ai . : 'qua nt o ? 1


. ~:.ia "

r setenta conto 1 ; ttá bom eu c o mp r o . Eu t e d o u cinco


conto hoj e e tu me dá prazo de cin co anos no restd.Orn ,
eu pensava , daqui cJ.nco ano s ess e di=:tb o num vale maia,
eu vou p aga r como se tive ss e comp rando u::n.a garrafa de.
cacha ç a . Comprei foi muito serinz al assim. O sujeito
que ria e r a liquidá a dívida de l e com o Ba nco.
pois chego u a minha vez . O Banco fe~ intervenção nus
minhas d ívida s. AÍ eu pens e i : e u v o u ve nde r meus serin
gais pros paulista e v o u entrar também nesse n égo cio
de p ecuária também. Ma s eu nã o vou ven de r para e ss E.: s
-
aventureiros que s o querem e s p ec u lar com a terra, '::~1

vou vende r é logo pros gra nde " .


E assim esse personagem passa a des e mpe nhar localmente
o papel do s espe culado res de terra~ da primeira fase da frente
agropecuária. Expulsando os sering ueiro s e barranqueiro s, Índ i
s e civiliza dos de seus seringa is, para vend~-los já livre de
_ro blema s com eventuais posseiros e a p reços ma.is altos e c om
p ensadores par•a os grandes grupos econômicos do sul do p a ís.
Inicia-se a partir de 1974 ~ c o nsiderado o ano au fe da
especulação das terras, a atuação n a regL=io deste s grandes gr!:_1; I(
?() S econômicos: At<;1:~la-Coperçúcar J c om uma área de 600.000 hec
tares ; Bradesco e Atl5 ntic a Boa-Vista com 500.0 0 0 hectares de
Condomíni o Ta r a uac~. com 1, 2 milhõe s de h e ctare s de t e r•r a;
Aérea Cruzeiro do Sul c o m 38 , 000 h c: ctares ; Para na cre c om
300.000 he c tare s etc.
f a partir desse segundo momento da frent e a gropecuf
q ue se iniciam 0 s grandes p r o j e t o s de dc sma t ame ntos, par a 2. /

·-mplantação de mo dernas faz e n da s de ga ào e a cont1,..,atação de for


de tra b a lho local para t a is empr ee ndime nto s.
1

A maioria desses grupo s receb e ram, o u e stão e m via de ,


vultos o s fina nciamento s do go v e rno f cde ral, via SUD/',H . 1
de sta é p oca a transformação de inúmer os barranque iros Kaxi:,
e:ra p eões ou trab alhado res braçai s no s mui tos desma tame nt o s,
e estão se ndo feitos n a região. (i')

Da do s revelados p e l e s aero f o to g r ama s do Pro j e to Rondon indi


-69-

Os desma tamentos sao feit o s sobr>etudo ncs :-:iese s de ma


io ~ junho, julho, agosto e setem.tro ~ épo c a d<::'! verão onde a s chu
vas sao me nos frequentes. G recrutamento de rniío-dc- ··-:) b r a l oca l é
feit o através de empreiteii. . os, não h a vendo ligações t,~mp regatíc}:.
as entre o s peões e a administração da s faz endas . O sistema de
rel aç6c s s ociais entre os diversos pe r so n agens '-'es-ca nova ri ' f r>e_12 .,/\
\/
te pioneira é hi~ ~a rquiz ado e caracterizado por rel aç 6es irn
pessoais e ntre a administ raç~o e a força de trabalho c o ntratad~
Assim temos:

------t
Grupos Econ.Ômic 0 s j

EmpreiteiroG
1

[ Peões

Os dois pri mc iPo s personagens sac conhecidos r cg i o n a_l:_


11
mente como o s paulistas" ? e: a.be ndo ao segundo a c ont r a taçã.o de
::e mpreiteiros ,;, gera lmente h omens de confiérnça e profundos co ~/
nh e c e dor e s da r egião . São estes Últimos que c o nt1. . atam ''os peões'!
?ara as tare fas de des ma tamento. O número de peões contrat ados
va ria. conforme a extensão da.s emp1"ei tadas :, podendo alca.nçar a t é
' 00 hoE1ens.
Em alp umas âr'eas de deE,mata.rnent o, nrinc:i.,:,alrn.ent:.;
(:;.i - -- --
a.que
las mais distantes das cidades, o pagamento de ·' empre iteiros "' e
-·peões l'1, t ambém de nominados "acreanos \? , é feit o através de va

cam que C P.. 1 9 7Lr foram de sma ta das 1% do t o t a l das flor e sta s
acreanas ; em 197 5 ess e percentua l ~ d e 1,8% e em 1976 , at i n
ge j~ 3,t % do t o tal das-florestas (cit . in Silveira, ms)~
les que só têm valor nos armazens da Fazen da. Como as
rias 11 são geralmente tabeladas pela própria administração a pr~
ços equivalentes a dos seringais da região, mantém- se o funcio
amento do já antig) sistema de aviamento, comprovadamente lu
crativo, utilizado n e. empresa seringa.lista, Tal sistema é empr_~
ga r1,:.o, por exemp 1 o, na F
. azenda 0...,alifornia
.. - ·
9 de propriedade
· da em
:pre sa multinacional Coperçúcar, no alto rio Envira. Daí ser cor
reta a afirmação de José de Souza Martins a prÓposito da pen_:::
tração destas empresas capitalistas no campo, a poiadas em rela
ções sociais não--tipicamente capitalistas, como é o caso do a.vi_
amento: 1:na verdade n, diz Martins, ':o que caracteriza a penetr~
ç ão do capitalismo no campo não & a instauração de relações so
i
c iais de produção típicas formuladas em termos de compra e ve:n i

da de força de trabalho por dinheiro. O que a caracteriza é ,,1


instaun3.çã_o da pr'opried2.de privada da terr a, isto é 5 a mediaçã.o
da terra capi t1lizada entre o produtor e a sociedade H (M,3.rtins,
19 75 : 49-50),
_- · i"'
P. ,-:ira
o s grupos 1nc1genas que res1· d em proxim,
- ' o a.. ar~
- e"' em
ue estão sendo realizados os desmatamentos -~ só propÕ,2 --se uma
saída.: ou se transformam em peoes ou procura.m migrar para aqu~_
'\.--,.,
_e s seringais que ainda n~o foram vendidos. Parte tia força de / '
·rabalho Kaxinawá'. existente nos arrEdores das fazendas pr·ocu:r:'<,'t
adaptar-se ~s novas situaç3es. Mudam-se para os seringais ainda
não vendidos e durante o verão, trabdlham nos desma.-t.:J.ment os co
go peões. Apenas os homens e filhos mi:l. is velhos buscam este trrt

- a lho~ ficando as mulheres 3 crianças e velhos cuidando dos r0,]3.


OS o

- .
Estas nov a s transfo rmações econo;:ncas e soc:La.1.s ter1
~eaçado seriamente os Ka_xinawá e demais g1..,upof::: indígenas ô a re
gi ão :i UFta vez que os novos propriet,:Írios 1 ao contréirio dos Da-· /
troes seringa.listas, tend";m a deslig5 - lcs de quaisquer vínculos
c o m a terra, impedindo que cultivem os seus pequenos roça dos de
subs istência, Um barr'anqueiro Ka.xinawã ~ expulso de um seringal
vendido para a Agropecu~ria Cinco Estre las S.A., no rio 1'1uru,
a ssim expressa esta nova .:l.meaça ~
-
" Os paulista só queri é nos trabai a ndo na b roca e der
ribada pra botari o roçad~o deles de capim. Eles -
nao
,-71-

-
queri qui nos planti roça na terra qui eles compraru.
SÓ queri mesmo é esse trabalho. Desse jeito não sei co
mo é qui vou sustentar minha família. Ago ra tem qui tra
baia para e les inté pra comprá a farinha. Nós c aboclo
tamu acostumado em botar roçado uoraue nós não Do d i com
•• . .. · '" j,. -

pra tudo na cidade. Agora o jeito quitem é trabaia ,


trabaia pra eles. Eles pagu Cr$ 25,00 na di~ria. Isso
é pouco para comprá tudo lá com e les. Por isso é qui
tou pensando em procurar oui:r>o s,2ringal. Aqui nesse s e
ringal da Cinco Estrela não dá pra viver não. Tou pen
san ao em i r pra relJO cum rninna r:1m1 1 ia
'"l • ..,., •• - • , .
.·'1
,.... .,
-72-·

CAP:ÍTULO V

AS IDENTIDADES t:TNICAS

Ao estud~rmos as identidades engendradas tanto no con


texto da frente extrativista da borracha como no contexto da no
va frente agropec 1.1ária, baseamo-nos no conceito de IDENTIDADE
CONTRASTIVA desenvolvido, sobretudo, por Cardoso de Oliveira
(1976) que o definiu como a pr6pria ess~ncia da identidade ~t
nica, a. saber :J ,; quando uma pessoa ou um grupo se afirmam como
tais, o fazem como meio de diferenciação en relação à alguma
outra pessoa ou grupo com que se defrontam;~ uma identidade que
-
surge por opo siç~o, implicando a afirmaç~o do nos diante dos
outros, jamais se afirmando isoladamente. Um indivíduo ou gr~
po indígena afirma sua etnia contrastanto-se com uma etni a. de
refer~ncia, temha ela um caráter tribal ou .nacional. O certc)
é que um membro de um grupo indígena não invoc a a sua pertinên-
cia tribal a não ser quando posto err.. confronto com membros de
uma outra etnia. Em isolamento, o grupo tribal nao tem necessi-
dade de qualquer designaç~o especifica · (Car doso de Oliveira ~
1976:36). Com base ness e conceito nos foi possí~el mapear to das
as categorias étnicas manipuladas pelos dive rs o s p e rsonagens s o
ciais componentes ·das duas frentes de expansão da sociedade na
cional que atingiram a região em que viver'.! o~ Kaxin;-,á :

7
,, C t - ~
,,
\

Uma vez mapeadas as c a tegorias ~tnicas, passamos a


letar os dado s na pesquisa de campo, levando-se em conta come
... .
propria. Nos
cada · uma representava a outra e por contraste a Sl
so interesse era o de relacionar os diversos contexto s nos dis
cursos das categorias implicadas, principalmente co n o o c a riu
representava o " caboclo 1'; e vice-·vers a , no contexto d o serJ_n
11
gal ; e como o paulista n representava o 11
acreano v: e vice-versa,
no contexto das a g ~opecuárias.
Enquanto esses dois pares d e identidades ~tnicas apr~
sentavam-se extremamente ricos de ima gem para uma analise e xaus
tiva, o par brasileiro/peruano era muito pobre, devido a ~ouca
interaç~o eKist e nt e entre eles na área de nossa pesquisa de
c a mpo. Os dados de que dispomos só nos penn.i te distingui-los em
relação à suas atividades econômicas: o 11
brasileii..,o '' , sendo de
finido corno aquel<:~ indivíduo que tra.balha na extração da serin
71
ga, enquanto o peruano 11 , como aquele que trabalha no caucho e
no com5rcio (ilegal, do lado brasileiro) das pe l e s de fanta
sia(*). Dificilmente um 11 brasil e iro 11 por nós e ntrevistado e mi
. um J. uizo
t ia ... ue va 1 or que d iscriminasse
..:i . . . nega t ivamen
. t e um 10
p e ru.0_
noi' . Quanxo algum comentário era feito, p a recia indicar o e s ta -
belecimento de uma ideologia igualitária e ntre ambos. A respos-
11
ta padrão , quando se perguntava o que pensava sobre o p (~ ruano ';
era a de que: " peruano é gente boa, trabalho no ca.ucho e faz
17 7
contrabando de peles , ou então 'peruano vive lá nà terra d eles
e nóis v1:~vemos na . nossa 11 • Isso talvez se explique, d a.do as po~
cas relações face-a-face estabelecidas entre ambos, pelo menos
com relaç~o ~s personagens entrevistadas, da bacia do Tarauac~.
Já as categorias ,:caboclo''. e 11
cariu '. i são marca d c.s por
uma forte ideologia étnica 5 que discrimina radicalmente o pri
me iro em detrimento do segundo.
1
A identidade do ·cariu ;' s o e definida. e m contrapa.rtida
à idu 1.tidade do vi caboclo 11 • São termos complemen-t a res que se im
p l i,ca.m mutuamente para que poss a m adquirir significado º O ter
mo " cariu n é a identidade de todos os brasileiros da ái,.,ea que
mantenham vinculação com a extração da borracha e o termo ,. c a

As neles d e animais da região são classificad as como S E: -·


cas ~. e de Hfantasia'; . Na primeira classificação incluem- s ,"
as peles de veado, porquinho 1 que ixada etc e na segunda. , a s
peles de onç a ; gato, maracaja e -te.
-74-

- elo i : é usado para designar, indiscriminaàame nte J todos os re


- anescentes e descendentes dos dive rs o s grupo s ind í e;en a s d.a re
;1.ao : ·' Falou cariu já sab e, quer dizer os bras il e iro s que vi
- em por esses s e ringa is todinho. Se f a l ou c abo clo a í pode ser
s ses Kaxinawá, es ses campa, esses culina ...
H~ uma s&rie de estere6tipos e pre co nc e ito s no discur -
1
so d o 'cariu n q ue qualifica negativamente o •"caboclo ': , e nos
- ua is se acha implícita a idéia de que os atributos nega tivos
~ cabo clo são , de maneira invertida , as qualificaç~es posit i -
-c s atribuídas aos ncariu 1: .

Apresentamos a bai xo o inventário das qua lificações ne


a tivas atribuídas ao caboclo:

- ;íp_Teguiçoso : : :1 caboclo não corta mui ta s eringa porque


- tudo p~0eguiçoso '' ( patrão d o seringa. l A.~ ri o Tarauacii).
- " cabo clo não prospera, não vai p r2, frente porque n ao
e dedica só .3. seringa 11 ( gerente do seringal T. ~ rio Jordão) .
-
11
eu nunca vi um c a boclo rico~ caboc l o só quer saber -
E:

~ comer 1
' (gerente do seringa l R. 5 rio J o r dão) ,


1
' va gabundo 11 : '' c a b o clo é tudo vaga bundo, , não queri tra
lhá, só ve ve de arriba.da e d e viageT'l·,, ( gere nt e do Seringa l
-~º Tarauacá)
-
1
' nunca vi cabo cl o produzir 500 kg de borrach a, c aboc la
_ tudo preguiçoso 1' ( patrão do seringa l S , , rio Envir a ),
••
11
irresponsável. 71 ;
11
aqui no meu seringal eu não tra.balho
m caboclo porque é tu do irres po nsáv el ~ compra me;rca dori a e
_ o produz borracha '' ( p a trão do s e :ringa l C. , rio Envira) .
- '
1
cabo cl o não tem hora de s erv i ço, é tudo irresponsável '.
s e ringueiro do rio Tarauac ~ ).
- ::se m ambição •' : nc a bo clo não t em ambição de subir de
_da como os cariu, produz pouca borracha', ( gerente do seringal
. , rio Envira) .
-
1 -
' ca.boclo ê u ma naçao que so vive pra coITier;- -
80 vive
- _o fogão , não t em a:rrJ)iç20 de progredir na vida ·, ( seringue iro
rio Muru - seringa l C.) .
-
1
' c aboc l o não t em ambição de melhora de vida , c a b o clo
-75=

se contenta com garrafa de cachaça' 1 (seringueiro a o rio Taraua


ca- - ~eringal B.P.).
- i1 inconstante i ; : -
na.o tem
1
, aradeiro certo,~ inconstante pro trabalho na seringa ' (serin-
g ueiro do Pio Bur:1ai tá - ser,ingal B. v.) .
·~ ;, caboclo é inconstante, não produz borracha pra tirar
saldo porque não dedica no corte de seringa (gerente de serin
gal A., rio Tarauacá).
17 11
- ociosov;: esses caboclo É tudo ocioso, só trabalhames
mo pra comer e ficam tudo na boa vida 1' (patrão do seringal M.
rio Envira) .
:,tudo qui é caboclo é ladre.o . Eles tem o mi

cróbio do I'oubo no sangue" (barranqueiro do rio Tarauacá).


- '' caboclo é tudo ladrião, compram rnercadoriia do ser,in
0
al e df;pois r;1ar1.,etam o p rincípio de borracha. com os re ga.tão
( g erente aviado do seringal B.J., rio Jord âo).
'
1
caboclo é um bicho sem futuro. El e s
nao pensa no f'J.turo :i não corta mui ta seringa '' ( ex-seringu,:;iro d ,o
cidade de Tara.uacá ) .
- ';c aboclo é urn bicho que nao pens a em mEühorá, t Emclo a
ma.c axeira
• e_,_es
1 _f ica
. . ~ . to·'' ( gere nt e .d o s e 1°J_ng~
sa.t1sre1 . 1 UT . ? ri c1 Ta.
raua.cá ).
11
tra içoeiro n : 11
caboclo é um ladrão traiçoeiro . Mat a r ·2m
um ourive lá no rio Humaitá quando c. le esta va dormindo ' 1 ( b.?..r
ranqueirc do rio Muru).
- " caboclo é tudo traiçoeiro, não se pode cinfiar c~ m ca
hoclo (seringueiro do rio Envira).
- ;'vir.ip:ativo l' : 11
caboclo é um bicho v ingativo 3 pers egu e~
o s cariu 1: ( s e rin g ueiro do rio Ta1°aua. cá),
-
1
' c a.boclo 6 um bicho safado e vinr;ativo ( seringuei..ro do
_ 10 Muru ) .
- i• cabocl,J tem uma natureza vinga.tiva ; é preciso tra tá ,: ,;
les com cuida.do 1' (s e ringueiro do rio Jor dão) .
11
desconfia.do:: : 77
caboc l o é bicho desconfiado 5 caboclo nun ·V:
c a amansa, ac o stuma í·i ( ;;colonheiro ;· de Feijó.
- -,
1
caboclo é bicho cismado~ desconfiado VI ( seringueiro do
rio Tarauacá) .
-76-

~ i·,selva.gemn; ~;caboclo é um bicho do mato, teY-t aquele


instinto selvagemF ( colonheiro 11 11
de .1-ara uaca 1
rT1 -,

- " caboclo é quí nem jumento, deixa de ser bra.b.) mas


não amansa direi to :; ( seringueiro do rio Envir2_).
11
- e u conheço caboclo que viveu 10 anos no meio de ca
riu e ficou brabc º Cab oclo não amansa, tem aque le instinto do
mato n (regatão do rio Ta.rauacá).
- "eu nunca ví um caboclo se p0.:rder no meio do mato. Ca
boclo é meio brabo e meio manso 11 (regatão do rio Envira).
-
1
' infantil n ; " caboclo é uma criança, s ó q ueri é saber
11
de agrado. Deu agrado, eles tão sati~feito (gerente do serin
gal B., rio Envira).
~- nfeiticeiro !! : ºcaboclo é mitido a. feiticeiro ~ quando
1
eles fica com raiva põe porqueira 5 bruxaria, durí, gra.vata:r;1a '

11
( colonheiron da cidade ele Feijó.
- ;,caboc lo bota feitiço ;ele se dá ssim com a gent e mas
por trás é peri~os o . Bota feitiço, 6 um besouro, é um
11
de cabelo. . . ( seringueiro do rio Envira) .
••
11
cachacé:iro' 1 : 17
caboclo é tudo c :1 chaceiro. Se te m ·tr,:_:t
balho é só dar cachaça qui eles vão ·trabalhar- 11 ( seringuei ro de
rio Jordão),
-
11
anima.1 :; : (' caboclo é que nem jumento, não amansa,aco~_
tuma ' 1 (esposa do gerente do seringal S ,R . , ric Envira).
- "caboclo é parecido com cariu 5 como o macaco é par_~
cido com o homem 11 (gerente do serinzal A. , rio Ta.rauacá).
- nca.boclo é quinem um bicho, um animal qui não tem
mentaliãade ;: ( seringue iro do rio Humai t.:'.í) •
- ;;caboclo é que nem queixada, so vive de arribadt;. p1..,a
cima e pra b a ixo ' 1 ( seringueiro ncariu:' do rio Jordão) .

Po demos dividir em duas series . , para efeito


. de análi -
.
se, os estereotipas -
e / ou ima gens fals as atribuí das à identicl~cle
do ncaboclo ;; , Na primeira, temos os estereótipos qu,~ di s crimi
nam o 11
caboclo 11 em relação à categoria traba.lho, tal como ela é
conceituada na frente extrativista, uma atividade funda.mental-
raente ligada à produção da bo:r'racha, O 11
caboclo ,: é qualificado
como 'i ' PREGUIÇOSO '' , 1
'. V1\ GABUNDO '' 5 í' QCIOS0 1
; ~ 11
IRRESPONSÁVEL " ~ '" NA
,..77 _

ÇÃO SEM AMBIÇÃO", "INCONSTANTE", 'NAÇÃO SD,;f FUTURO " etc, porque
1

11
não se dedica exclusivamente ao cort2 da. seringa. Nenhum cabo
clo 1
i é considerado um 11
bom seringueiro'' , a saber , aquele traba
lhador que mais produz borracha e não vende a produção para 11
Ilk7.r
11
reteiros ou regatões. As outras atividades a que se dedioim, c~
mo o roçado s outros serviços para "' os patrões 11 de seringais,
são consideradas cor.lo um não trabalho. Embora,hoje em dia, s e ja
11
ral'.'o um seringueiro cariú 11 dedicar-se exclusiva.mente ao traba
lho na seringa, e stas qualificações são atribuidas principal -
n ente ao ncaboclo :, . Também é mui to difícil que um , seringueiro
ncariú 1Y tire saldo com o patrão, mas essa. possibilida.de não lh e
é negada, desde que ele se dedique exclusivamente a produzir
borracha. Ao caboclo esta possibili dade é negada até mesmo a 2s
1

se nível 5 já que ele, ao contrário do cariú, não tem a na.mbição


de subir na vida 11 , ou seja) nunca se dedicou exclusivamcn-te a.o
trabalho de ;, corte da seringa 11
,

A outra série de estereótipos como: 1


;traiçoeiros :: , \/ s~
bosos n 5
11
vingativos 11
, n feiticeiros ", '' desconfiados n, v; pareci d.o
com anim3.is :i etc. , remetem para a natureza ambigua em que é ·elas.
si ficado o ncaboclo 11 • Há todo um etnocentrismo que qualifica o
ºcaboclo ,: pel2, negação de uma humanidade. O ;;caboclo '' não é ne
nhum Índio, · nem um civilizado. Para o I
cariú ;: , es~-3.s qualific 5~
ç6es, sedimentadas pela tradiç~o e pe lo costume, remeteriam o
11
caboclo " para um acumulo de forças instintivamente maléficas e
incontJ:-ioláveis ccmo certos fenômenos da n a tureza~ pois a.grcss~
vas e per,igo sas, Esta Última série teria corn.o função reforçar
a inda mais a exploração da força de trab -,::. lho dos diversos gr::i:_
po s
. .
indigenas
.
engaJados
na empresa seringalistêi e nomeados
. .
in
d istintamente de ncaboclo ,, .
°j\_vê-se 3 portanto, que a linh a étnica, sobrepondo-se a
linh-:1. de classe, d ividindo os indivíduos entrG as c a tegorias '"e~
riÚ '. e ncaboclo " , procura escamotear a ve1"'cladeira contr.J.dição e
xistente entre os nâo-produtores e os produtores, a saber 5 en
tre patr6es seringalistas de um lado e seringueiros ) de ori gem
nordestina ou indígena, de outro. A persist~ncia da linha 5tni
ca mantén, portanto, a. função latente de justificar a sobre·-ex-
p loração da força de trabalho indígena da regiâo. f nesse senti
-78-

.
-~ que se pode dizer que nao se é cabo clo irnpun,2111.2!1t:e na regiao -
_o Alto-Juruá e, provavelmente, e:rn. t oda a Am3. zÔnia. brasileira.
Os Ka.xinawâ manipulam, por sua vez 5 essa ideologia ét
1
nica tentando desesperadamente assemelha:.r.'t;nsse ao ' ca.riÚ "', atri
buindo estas mesmas qualificações a outros grupos indígenas que
e les conhecem ou de que ouviram falar, na regiãc:
11
Tem muitas nação de caboclo. Cariú pensa que é uma n -:1.
çao só. Tem os Campa, os Culina , os Papavô, os Katukí
na. Eles é que são culpado dos cariú fal~r mal dos ca
boclo, porque pensa que tu do é uma nação só. Eles -
C!

que não c orta seringa, é que são p reguiçoso e perigoso.


Eles só v1verr1 do roubo~ não tem l egume~ não tem canto
certo, só vi.w~ de arribada qui nem que i xada . Ele s (S
qui bota feitiço. Eles é qui s~o os caboclo malfazejo.
N-Ós, caboclo Kaxinawâ tiramo t udo pela moda dos cariú. 1'
Os kaxi.nawéí ~ apesar de procurarem negar a si me smo s
tais séries d2 qualificações negativas manifestas nestas ci-ic,s

tas de estereót ip,) s ou imagens falsas, não conseguem fu g ir ao


fenômeno do cab o clismo como nos fal a c~rdoso de Oliveira (1972),
esta 11
consciência infeliz 11 que se vê a si propria com os
-~ . olhos
11
dos carüísn, negando qualquer referência às tr adiçõe s de 1
seus
antepa.ss :ctdo s. Não encontr1 amos em nenhum contexto de seus di sc 1.n°
.
~os~ a manipu 1 açao
- d e s u.::: ascen d~encJ_a
. . d...J_gcna para
in .
Jus ...... f.
Ll i ca.r

qual pr~tica . Este fato é bastante coerente com a inexis


tência ~ na região, de reservas indíg e nas ou mesmo da presença de
funcionái~ios da FUNl\I na área em que atua l men te vivem os Kaxi.na.

As ~nicas qualificações positiv~s at ribuída s ao c abo


regiâo, oco rrem quando ele se enquadra na c 2 teg0ria de
'cruzado !ô ou 'misturado", ou seja, quando o pai ou a
1 - e-
mae elas
como -n cariÚ '. ' :
1
'Ele - um
~ caboclo com mentalidade ) o p a i C3.

riÚ '; .

Jord~o. Aque le g um caboclo qu inem cari~, faz conta,


faz negóc io certo, não é mentiroso n em la drão corno os
outrc,s, O paJ_ del e era o Felizardo Cerqueira 5 cabra co
- 79 -·

rajos o que amansou foi mui to cabo clo ·: ,


Manipular a identidade étnica , procu,."ando inserir um
11
cariúii em sua genealogia, é um procedimento comum utilizado por
quase todos os Kaxinawá quando em contato com os i;c ivilizados ' 1 •

O outro procedimento é dizer que não falam mais a i; gíria;;, como


é qualificada a língua dos diversos grupos indígenas da área. U~)
A identidade do c aboclo n 1
é a identidade do cidadão de
segunda categoria da empresa seringalista.
Um novo par de identi dade s ,3tnicas emeTgiu 5 a pa::~tir do
a vanço da fren-te a.gropecuária pelos vales dos rios Purus e Ju
ruá, no início da década atual. Tal como a::_; j dentidades 11
ca
riuº / í; caboclo ': da fr ente anterior, as nova.s identi dade s í' pauli_§_
1

ta i\ / " acreanon opõem-se e excluem··-· se reciprocamente, porque r0


pre sentam interesses divergentes e antag3nicos. Estas identida-
d2s definem uma em relação a outra. Uma só existe em funçã o da
o utra e vic2-versa_, As identidades do 11
pauJ.ista i. e do "a.creano ';
manifestam-se numa ide o logia~ cuj o c o nt•.::: Údo marca a superiorid~
de dos primeiros como contrapartida à inferioridade dos segun =

àos.
Da Ôtica dos npaulistas 11 , e les se representam com a.s
imagens dos "novos colonizadores da região " , como ,"pioneiros 11
principalmente como "o s novos proprie·târios do Acre 11 º Consid·2 ·-
r am-s e como os agent<-')S do 11 progre sso 11 , que tra zem 11 inovações
tecnolÓg ica.s ;' 5 11 muito dinheiron ~ Ho progresson, a !! jus tiça so
cial ,·; ~ no direito li etc. Lançam mão dos mesmos estere6tipos com
11 11
q ue o ca.riu 1
\ d iscrimina o ' caboclo 1 '
1
9 c omo ' preguiçoso
1 11
, ma.la.!]_
dr o 11 '' v agabundo !( ,
, ngente sem mentalidaden, ºsem pensar no f ~:.
turo 71 ~ H..::'. tras a do :, ~ nnão sabe m trab a lhar c o m a f ,::.) ice ·,, , 11 mão -.. de-~
b ra de baixa produtividade!!, 11
invasores de terras 11 e- te. Tais
e 'tereótipos são raciolanizações justificador a.s do do míni o e da
1
espo liação da força de trabalho dos ' a cre anos'' . Estes, s ão de fi

Há certos esti;:; reótipos que dizem: 11 c .1.b·.:)c lo não f<:tla, c a.boc l o


......" . ~
cor t a ~i1~ia
1
ua"i porque o s K .
axina.wa- nunca. falam em sua pr§_
1
pria lin gua na frente de um c ariú : •
11
-80-

niàos como o ' 1 resul tado do cruzamento do Índio com o cearense e


com o peruano 1' , resultando dessa 11
mistura ,; , a. tentativa de Jus ~-
tificar a exploração da força de trabalho ,_ sem refe.rência à
classificação étnica da frente ante rio r - investida nos desmata
rnentos realizados pelos 11
paulistas 11 na re g ião,
Al ~~m disso, os 1a creanos 11 são vistos pelos iopaulista s "
c omo fi os invasores de propriedade" ou como ,; peões ;, , ou seja~ a
queles indi vÍduos que dispõe"'apenas de sua própria força de tr.,,_
balhc-, Tais classificações são manipul a das idr~ologica.me nto com
o objetivo de descaracterizar possÍ"'eis r e ivindicações por pa:r,
11 1
te dos acreanos ' , que em se apre>se1J1ta ndo c omo posseiros teriam
direito à terra,
Todos estes estereótipos sã.o manipulados para j ustifi -
car, a priori, o baixo sal.3'.rio pago à :força de trabalh o do" a-
creano H, De fato, o pagamento da v1diária 11 durante o ano de
1976 e ra de Cr$ 30,00, enquanto o quil o de carne custava Cr$
20,00 e uma lata de leite para crianças r e cém nascidas Cr$
2 2, 00 , Os npaulistas ' 1 5 em associaçõe s patrona is, estabelecem de
c-:>mum acordo o preço mínimo que deve rão pagar à mão -, de-obra tão
carregada de qualificações negativas. Por tr,3'.s eles ses estereó ti
pos, os ' 1 p aulistas ' 1 justificam a exploração da forç2: d e tra ba
11 11
lho dos acreanos •

Entr'e os patrões se-


seringa_listas q ue ,:1.prendarar:-, os
ringais (ou q ue ainda continuam explo rando aq uel e s que nio fo
ram vendidos) e entre os comerciantes loc a. is, os "p aulistasnsão
q ualificados p ositivamente como aqueles que trazem ;;o pro g resso
l oca l 11 , que pens 1m iia longo prazo ' 1 e 1' no futuro:r, que querem
0

traz e r 11 pr0speridade para a região'' e encaram o :'acreanoH, inclu


indo - se entre eles c om a mesma ótica elos ":p aulistas ; i , reforça~
5

ào assim suas representaç õe s nega.tiva s sob re o :,acre a no ii ,


Os na creano s 21 , principalmente se ,2le é barranqueiro o u
seringueiro autônomo e sem vínculos c om os antigos pat rões, ae
finem- se como i; p o ss e ir•o::3 1' e não como II
invaso res de terras n cc
mo são qualificados pe los ·paulistas 11
1
, De sua ótica o "paulista;
é definido em relação à a tividade econômic3. que d.esempnha., a pe
cuária. 3 em detrimento da. s ering3.,
A resposta chave na qualificaç~o do ': paulista 11 , da -
e
-81 ~·

tica dos 11
acreanosi1 é: 11
0s paulista n a o querem s::1b cr de borra.
cha 5 de seringa. Eles só quer·em saber é ela p e: cuâriz.:/ 1
• Além dis
to são qua.lificados como v;os novos donos dos seririgais ;' que os
impedem de cultivar a terra e explorar as est:ca dêlS de seringa
p ara vender aos regatões ou marrete iros. Os 11
paulistas1' -
sao
considerados como os responsáveis por seu desli g amento através
da intimidação e d a violência, como a queima de lavouras 5 pri
sões ) mortes etc. Através da Ótica do " ::1creano' ~ é possível de-· 1

te ctar os conflitos sociais subjacentes em suas relaçõ e s com


11
os p a ulistas 17

A emergência destes conflitos levam os ;;acreanos :i a


c ompararem a implantação dos projet)s agro pecuários l"epresenta·-
do s pelos 11
paulistas n, com o 1
' tempo do cativeiro '' d o perío do a u -
re o da borracha , quando os prepostos do p a trã o seringalista ' 1 2.
~c itavam o s fr.eguêses 11 '!) am.~n. r<:tvam-n0s em. '·t:conco s de taxi ';
1
e
_andavam matar' aaqueles seringueiros que tinham saldo e quer1 -
2.m abandonar os sering aisº Lançam mão, porta nto, ele si tua.ções 9_
corridas no passado para explicar os c o nflitos surgidos em t or
no da questão da tepra ; em decorrência do avanço de frente agr9..
~ecuá:r~ia, Podemos dizer que as identida-:les 1;p a ulista'ili ' 1acre ano :'
s a o expressões de relações de classe , mais do que ,étnicas . Es-
tas Últimas esva ziam-se para. dar lugar a essa nova classifica -
'3ao social, e xpre ssando um conteúdo nota d a ment2 classista , D2
:llil 0s novos pro prietários ' 1 , " os inves t idores 11 5 " os
lado, têm···s e 11

gentes do pro g:r.0 ess o e do fut-uro 11 • • • De o utro? ·:,o s T)eÕes i: , n os .• . J

11 11
; o ss e iros 3 " os explorados " º º Os orga.nizo.ck)res da nova. fren --
-e - 11
0s paulista. s 11 - e a forç a. de tr>abalho n e cessária à. - , .
r ea..L J. ··
.
zaçao aos .
proJetos . ,,•
e 1mpreenG1mento .
s agropecuarios - "·os -
-- s ç~ o

Se nas identidades 11
cariu '' / · caboclo", do ponto de vis
do l<axinawC:í , o ·2le mento ,~tnico persistia como jus tific -:l tiva
sobre-exp lora ç ão de sua f o rç a de tr>abalho ) nas novas identi-·
1
~ de s ·paulista ·: ; nacre anon o elemen.-to étnico não i n tervil:o para.
=r g inalizá-·los como cidadãos de se g un da categoria , diferente s
s ;; cariu;i, Na nova frente 1 o eleme nto étnico p e rde a sua. efi .. -
s o cial C()Iao un1 Para os
, tanto f a z que sua força de traba lh o s eja indí g ena o u nâo .
- 8 2-

Todos sao caracterizados como nacreanosn e porte,nto, 11


peões :, em
potencial pa_r>a o -trabalho nos desmatamentos.
.... . o • -
.A nova f rente agropecua.r>J.a pernn te a netrtralizaçao da.
11 11
oposição cariu surgida na frente dnterior e disso se
/
11
caboclo 11

0
V • .... º
- .
º - º • ~
bener1ciam os .i,axinat·Ja que Jª nao sao maJ_s qualificados d(c ' 'ca -
.-. •

boclos ;i . Mas, por outro lado, 11 os paulistas II têm ameaçado seri~~


mente a sua existência'} uma vez que os afastam da terra, n .--~.O
.
de ixando que desenvolvam seus roçados familiares. Frente. a es
sa nova ameaça de transformá-los naqueles personagens que ven-
dem a força de seu trabalho para se reproduzir, os Kaxinaw~ t~m
conseguido ma nter a sua atividade eco nômica mista muda.ndo --se pa.
ra os seringais que ainda não foram vendi do s 2 empregando-seco
mo mão-de-obra. apE.nas três ou quatro meses por ano nos desrnata-
mentos.
Perce,b e -se · 1 +Ll. d a.eles
pois, que as iaen - ,,' pau 1 is
. _,La
__ r· / ,, acre_~
3

no 1' sao expressões de tensões e de conflitos sociais. No contex


t o da nova frente pioneira fica caracterizada a situação de
. . ,.,,
classe dos K2.xinawá e d emais grupos inaigenas da re g ião. !\
linguagem que expressa as novas relações s o ciais enzendradas ~ ~

fren-te agropecuária. desvanece a linha étnica e possibilita a


- . .
emergencia de uma linha de classe, de uma ormaf marcada so
cialmente.
-8 3--

CAPfTULO VI

A ORGANIZ.ACÃO SOCIAL DOS KAXINAWÁ

Os Kaxinawá ocupam atualmente uma extensa área formada


pelo·s rios Tarauacá, Envira, Muru e ,Jordão, no Estado do Acre
e ao longo dcs rios Curanja e Alto-Purus) Província de Coro
nel Portillo 5 no sudeste do Peru. São ao todo quase 1.600 habi
tantes, que se distribuem em inúmeras localidades. Do lado bra
sileiro, como vimos no capítulo I, vivem aproximada.mente 1.200
pessoas dispersas em inúmeros seringélis, engajados majoritaria·-
mente como força de trabalho na empresa seringalista da regiãoº
No lado Peruano, a população Kaxinawá é de aproximadamente 400
indivíduos, que se distribuem em 7 pequenas aldeias, variando
cada uma delas de 22 a 98 pessoas. Estes Últimos foram estuda-
dos m.ais intensivamente, através das pesquisas realizadas por
Kenneth Kensinger', durante várias etapas 5 no períocb compreendi-
do entre os anos de 1955 a 1968. Os trabalhos escr•itos por este
autor possibili tou·unos conhecer os aspectos mais significativos
da cultura t1 adicion2l deste grupo indígena. De f a-to, os Kaxina.
1

wá que atualmente vivem em território peruano constituem a paI.1_


te da tribo ,·q,~ optQu por mmter um estilo de vida ~ais profurn:iarm?!:.
tt~ ligado à sua,. êmtiga socieda .:1e, localizando-se~ portanto 5 fo
ra do contexto das frentes extrativistas fo1'"'madas por seringuei_
ros brasileiros e c'.:l.ucheiros peruanos,
Neste capítulo apresentaremos uma leitura dos tra ba
lhos de Kensinger (Kcnsinger 1969~ 1975 5 ms. 1~ ms. 2)
c~m o objetivo de explicitar a estrutura da sociedade Kaxinaw~
e como ela se ·transformou a partir de sua total incorporação a-
empresa seringalista.
- ori uncl.os d o
Os Kaxinaw~ apresentados por Kensing er sao
rio Envira ~ que se refugi2.rarn. nas cabeceiras de Tara_ya 5 um afl~
ente do al_to rio Curanja 1 quando do avanço das frentes extra ti~
vistas que ocuparam seu antigo habitat em fins do s~culo passa
do.
Os primeiros contatos deste grupo com a sociedade re
gional datam de meados da década de 1940. Alguns de seus me m
-84-

bros descem o Curanja em busca de ferramentas, principalmente


ter~ados e machados. Logo depois, um regatão brasileir 0 1
mantém
com eles um rápido contato, tentando trocar ess e s instrumentos
de trabalho por madeira e caucho. Em 1951, p o r ocasião da visi
ta de Schultz e Chiara (1955 : 197), estes Kaxinawá estavam viven
do em 8 aldeias, com uma população estima.d::i em 450 a 500 ha.bi -
tantes. Após esta visita, uma epidemi a. dizimou~ segundo estima -
tiva de Kensin ger , quase 7J% dos :membros adultos do grupo. Es
te fato contribuiu para que parte considerável do s sobreviventffi
retornassem ao Envira e lá estabelecessem por al gum tempo~ ju~
to a outros grupos Kaxinaw~ integrado s na vida dos seringais
Enquanto uma parte deste grupo permaneceu no Envira até fins de.
década de 1950 , a outra parte retornou logo a o Cura nja, 3. ]? 0 8 a -
cumular um boP.1 suprimento de terçados, macha do s e algumas espi~
gardas. Qua ndo Kensinger iniciou o seu tra balho d e campo no Cu
r::1nja em 195.5, ele eria então um missionário do Summer Institute
o f Linguistcs desejoso de aprender a língua do grupo. Ha via
- aí 96 pessoas, distribuí das em apen3. s duct s aldeias. O fluxo mi
grat6rio continuou em direç~o a o Cura nja a partir da década de
60 ~ em de corrência. do pro cesso de desagregação da empresa seri~
galista, de forma que, em fins desta. década, os Kaxinawá do la
elo -peruano contavê.un. com aproximaclame.nt e u,QO indivíduos distri -
1
buÍdos em 7 aldeias ( ~). Este processo mi gratório foi conduzido
por fatores socio-econ~micos e políticos. Mi g ravam, n~o indivi -
dualmente, mas em grupos de famílias, principalmente aqu'3las
que mantinh a m relações de parentesco com os que viviam nas al

(*) Dificilmente os Kaxinaw~ do Curanja p a ssariam de 96, em


1955, a LiOO , em 1968 5 corno assina la. o auto r e m oues-'cã_'.) (Ke n
singer, 1975:11), sem que uma p a rte consider&vei de Índios
do lado . tn,a.sileiro, seringueiros ,:;/ou
. barrang
- uEiro
. s,
.,. }
p a ssa~_
.
sem a vi ve r entre e l e s. Logo , terJ_am ,:, sses 1<:2_x1na wa ,)1-ia.s J_ · -
leiros passa.do a viver taITLoém se gundo a.s regras tracJicio ~-
nais '? O aut o r nã o responde a est:=:1. q ue s tão, mo tivado t a lve z
pelo seu interesse em resgatar o s traços principais da a.nti_
·ga soci e dade Kaxina wá, de ixando cl.f; l ado, portanto, uma ex
plicação das possíveis mudanças o co~rida.s a Pê;rtir' do c onta
to deste grupo com s e gmentos da s o cie d ade regional.
-85-

deias do Curanja e Alto-Purus. Os Kaxinawá que vivem no rio J o r


dão falam do tempo em que viveram entre eles muitos de seus 11 p 2
-
tricios 11 do lado peruano e que retornaram as suas aldeias no Al
to-Purus porque se recusaram à ,isujeição " ao s patrões seringa -
listas. Deste~ r:rupo, apenas a. família dos Macário permaneceu n o
Jordão, devido ao casamento de um de s e us membros com ur;i Kaxina
wE do Seringal Fortaleza. Eram os ~nicos que não entendiam mui
t o bem o portueuês, por ocasiã.o de minha pesquisa. de campo, Em
19 75 , um novo grupo de f amÍlia s Kaxina·wá do Seringal Nova Olin-
da rri~rou para as aldeias do Purus.
Estes da do s são importantes paria mostrar que os Kaxin_~
wá elo l a.do peruano também mantiveram con:tato com segmentos da
população regional, mu.i tos deles chegando inclusiv<:::, a :· , c o rtar
seringa 11 9 vinculando-se assim; vida dos seringais 5 mas que
preferiram retornar~ regi~o do Curanja e Purus mais rica em ca
ç a s (urna vez que havia poucos regionais vivendo anaquela ~rea),
mantendo-se assim mais pró ximos de um estilo de vida tra dicio -
n::il, O fato de continuarem vivendo em alde ias, ao co ntrário dos
quC:! permanec ~~ ram do lado brasileiro, c o ntribuiu para que eles
preservassem muito de sua antiga estrutura social.

1 . Aldeia.

Os Kaxinawá do lado p e ruano vive m a inda en: alde i a s, c5:1:.


da uma mantendo a sua própria autonomia política, s o cial e eco
nômica face às outras, eP.bor a todos partilhem a mesma identida-
de tribal~ HU~JI HUIN, que significa ctproxima damente 1ios homens
verdadeiros i; . Cada al deia., segundo Kensinger, consiste d e duas
famíli ê!.s extensas, che fiadas por dois h omens que idealmente tro
ca irmãs no casamento. Cada família extensa ocupa sua própria
casa ou aglomerados de casas e consiste de um homem~ sua espo
sa; suas filhas casa.das e os respectivos maridos (seus genros),
as filhas de, suas filhas e respectivos maridos (estes Ú.lt:Lmo s
sendo h omens de sua própria metade e seçã.o de casamento).
Ca.da aldeia. Kaxinawi.Í contém, segundo Ke:.nsinger, t o dos
os e lementos soci~is necess5rios ~ sua auto-reproduç~o biológi-
ca, sócio-econômica e pol.Ítica~ mantendo pouco contato entre
-86-

si. Esse autor chega mesmo a afirmar que os habit~ntes de ou


tras aldeias são tratado s com o mesmo temor e d escon fianç a re
servaàos a todos os estranhos, As 2ttivicJ.acl.3s ecc,:nô r.nicas s ão rea·
liz~das df ntro de cada uma delas; seus membros cooperam entre
si em t odas as tarefa s de subsistência como a caç a 5 o roçado
as pescarias c o letivas e a coleta de alguns frutos silvestre s ,
ovos de tarta ruga etc ~ Pode-s e então dizer que as famílias ex -
tensas que compõem as aldeias formam um grupo social, uma vez
que seus componentes cooperam entre si em todas as atividades de
trabalho e reprodução social.

2 . As Metades e a s Sec~es

Todos os indivíduos Kaxinawá estão divididos em d uas


metade s patrilineares, cada u ma com dois n ome s, um para os ho
mens e outro p a ra as mulhere s. Assim~ teríamos a metade INUBA
KEBU, em que os homens são denominados UJU e as mulheres INANI ~-
e a metade DUABAKEBU, onde os homens sã.o chamados DUA e a s mu
lheres Bi',.NU º Segue abaixo o esquema ilustra tivo das duas meta
des Kaxinawá

Cada metade patrilinear se subdivide em duas seções


o u , como quer Kens inge r, em grupos de gera ç'.Õe s alte rna das ( 11 the
a l t e rnating generation name-sake gr,oups 11 ) , uma vez que cada se
ção inclui membro s de g er,a ç õe s alternadas da mesma meta.de, Um
homem pertence à mesma seção de seu a v ô pate rno e uma mulher -
e
um membro da mesma seção da irmã do avô paterno. As seçõe s da
metade INUBAKE BU sã.o denominadas AWABAKEBU e KANABAKEBU e as
s eçoes. da metade DUABAKE BU são chama.das YAWABAKEBU e DUNUBAKE-
BU, Os - Kaxina wá d.9 la.do peruano rec onhecem assim a existência de
-8 7-·

4 seçoes, enquanto os do rio LTordão guardam na lembranç a. apenas


dua s YAWABAKEBU e K/1.NABAKEBU;i que eles traduzem por nnação de
porco·' I e i'l naçao
- d e arara •·1 , resoec t 1vamen
º t e . íl_s nomes pessoais
º

são transmitidos dentro de cada seção~ ou seja 5 existe um reper


tório de nomes pessoais que o indiví duo r ecebe no decorrer de
sua vida. Pelo n ome pessoal, um Kaxinawá é capaz de reconhecer
a metade e a seção correspondente de uma pessoa de que até en
t2io desconhecia a conexao genealógica.
Tanto as metades como as seções são categorias que per
meiam a tribo inteira . Trata-se, portanto 5 de uma c a r acta rísti-
ca comum a todas as aldeias Kaxinawá dos rio s Curanja e Alto-P~
rus, operando na área ritual e dete rminando o casamento , ma.s
nunca funcionando em termos de grupos sociais.

3. Regras de Casamento e Organização Social

Tanto as metades como as seçoes sao exo~ânicas , a sa


b e r, um homem de uma seção de uma me ta.de só poàe casar-se con
mulheres de uma das seções da metade oposta . Um homem AWABAKE
BU dá mulheres e recebe mulheres de YAWABAKEBU, ao pass o que um
homem KAl~ABAKEBU dá e recebe mulheres de DU:NTJBAKEBU . Um home m
não pode casar- se dentro da própri a. met a.de e S ~ça-:-o
...... 5 .n·"·m
-'-- • tan
pouco com mulheres da. mesma seção de sua màe.
O autor~ do qual estamos aqui sumariando as pr i ncJ. -·
p a.1.s contribuições, enumera ainda outras quatro ref,ru.s que c om.
porJ_am o mo d e 1 o 1' d ea l__ .d a an1_1ga.
,_. socJ...c d..,
aue Kaxina
. · *' r-i.SS
wa. "
J•.m e..., que
e xiste uma clara_ preferência p elo casamento endogâ.mico 1 com re
fer~ncia ~aldeia.Somente em casos de n~o haver esposas dispo-
níveis em sua aldeia um homem considera a possibilidade de i r vi
ver em outra aldeia para a rran jar urna esposa. Mesmo assimj há
fo rt es pressões s ol) re ele pa.1°a casa.r.,·se com uma mulher do seu
p1'Ópr•io grupo local, Os Kaxinaw,J'. também c ombinari2..m a pat1,,ilin~.
ar idade das metades com a matrilocalidade ou uxorilocali.dade dêB
regras de residência. Um homem., nor malmenté:, após o casamento
1

pa ssa. a r esidir no grupo doméstico dos pais de sua espos a 5 ha


vendo eles te modo ., uma m,udança. n o lo c us dl3 autoridade., daquela
d e s eu pai para a de s eu so gro. Ele passa a ter obrigaç~o de
-88-

cooperar e ajudar econoJ11icamente o seu sogro'; demonstrar-lhe d~


fer~ncia, respeito e apoio político. Somente se o pai da noiva
for falecido~ que h~ uma s6rie de alternativas, que variam de~
de mora:r junto com os próprios pais do marido:; ou sua irmã mais
velhas~ a té e stabe l ecer-·se num grupo doméstico independente pró
ximo aos parentes ce ambos os cônjuges.
O casamento Kaxinawi, segundo Kensinger , seria prescri
tivo c om a prima cruzada patrilateral ou matrilateral, que peE
tença. à categoria "AINBUAIBU n de um ego ma sculino, Esta categ0
ria inclui todas as suas primas cruzadas de primeiro grau que
sao membros da metade oposta e de urna seção de casamento apro-
priada. Mas o casamento idea.l ou preferenci,J .l dos Kaxinawá é a
quele realizado com a prima cruzada bilateral. Assim~ dois ho
men s pertencentes a metades opostas e seções de casamento espe·-
cíficas ~ trocam irmãs e o mesmo processo ocorre co:r:i seus resp eE:_
tivos filhos , filhos dos filhos etc, em gera ções sucess ives.
O esquema abaixo resume a.s principais regras enumera -
das por Kens inger: a troca de irmãs entre dois homens que habi-
tam o mesmo grupo local; o casamento ideal entre primos cruza -~
dos, especialmente os bilaterais; a exogamia das metades e se -
çoes de casamento:

Ó Jú V\ \,L t- '°--- i<. e ~


).;-c3 ...... u..
-89-·

A terminologia de parentesco Kaxinawá ~ C .) TilO a de quase


todos os grupos P~no, segue um padr~0 do tipo iroqu~s cl~ssico,
conforme visualizamos no esquema. abaixo ~
- - ~ - - - - --
o
- - - ~ - - - - -- - --
~
- --

l.

'f

:í 1
4

6
no 6
1

5 1 3 b ,-
l. RUTI ( se mais velho do que ego : mais novo ch;:1.ma pelo t ermo
c o rresponde nt e a metade; se ego for da metade DUAB.AKCBU chama
s eu irm~fo mais novo de DUA) ;
2. TIPI ou ITXU; 3, TXAI; L~. XANU) S. EPA; 6, EWA ; 7. 1"'.TI :i
8. KUKA; 9. TITI.

Uma das características que lo go chama a a tenç ~o 5 a


r epe tiç ão dos t ermos em geraçoes alternad~s, o que e - coerente
com a cl assi fic ação dos indiví duos ~ê!m seçoes de casamento. É
o - • lo ""'
c oerente com a nominaçao, uma vez q ue os 1n01v1duos a quem se
aplicam os me smos termos de parentesco recebem os :mesmo s nomes
pessoais. Um home m recebe. o seu nome de seu avô paterno e uma
mulher recebe o seu, da irma o - :,
GCJ pai d_,e seu pai. A terminologia
"

é t2.mbém coerente com a regra de casi:!.mento segund? -3. qual um ho


mem deve casar-se com a p1"ima cruzada. bilateI'.3.l.
f curioso que, ap6s apre sentar as principais regras de
casament o Kaxina.wã~ e autor de que estamos tratando reco nheç a
que elas i·; pare c em ter pouco impacto dire t o no comportamento dif
rio 11 deste grupo indígena (Kensinge r, ms 1:25). Trata-se aqui
de uma perspectiva antr•opolÓgica que procur a resgatar os r>a
drÕes culturais básicos, deixando de la do a complexibilida.de da
-90-

própria realidade social do grupo estudado. Em nenhum momento


o autor focaliza a atenç~o n a família Kaxinawá enquanto uma uni
dade de produção e consumo. A sua análise limita.-sc à constru -
ç~o de taxonomias e regras culturais ideais, deixando no l e itor
a impressão de uma sociedade que funciona dentro de uma práti:_
ca real perfeitamente lógica, à maneira de um relÓf,io ; talvez
isso seja decorrente da própria orientação teórica assumida pc
lo autor quando ele reconhece explicitamente as profundas infl~
~ncias dos ensinamentos e orientaç~o de Ward H. Goodenough, Ken
neth L. Pike e, Anathony Wallace, em seu pensamento~ ap6s a sua
longa e notável experiência de campo.
Do ponto de vista elos Kaxinawá que vivem em te·rritório
brasileiro, o que se pode dizer c om relati va segurança é que a
aldeia, as metades, as seções~ as regras de residência:- as tax~
n omia s e re gras de casamento etc~ apresentada s por Kensinger c52.
mo um modelo ideal da antiga sociedade Kaxinawá 5 parecem t~r].X)tl.
ca significação.
Os Kaxinawá do l ado brasileiro j~ nao vivem mais em al
deias, mas em 11
colo cações ,i de inúmeros seringais distribuídos
numa área imensa. Ew~ora eles ainda façam referência às meta
des 5 estas perderam a sua eficácia social . Em alguns rios da re
gia.o percorrida, devido à própria crônica da violên'cia do conta
to com as frentes de expansão da sociedade nacional, predomina
uma das metades, porque os indivíduos componentes da outra meta
de foram praticamente dizimados. No Jordão, por exemplo ~ uma.
percent agem mínima dos indivíduos recenseados pertenciam à me ta
de INUBAKEBU. Logo, se vê a sua pouca sig nificação em controlar
o casamento, segundo a antiga regra ideal da exogami a das meta
des. A grande maioria dos Kaxinawá desconhecia as antigas qua
tro s e ç6es de casamento. Os mais~elhos ainda recordam-se de du
as ... Há um número expressivo de casamentos entre primos paral~
los ou entre pess oas de conex~es ge n ea l6 gi cas outras do que as
da regra que idealizava o casamento entre primos cruzados. Por
outro l ado, isso não significa afirnar que não existe una c erta
. d.,
organização social deste grupo in ·l s e na d e ntro do contexto da
empresa seringalista e nem tampouco que as famílias dos serin
Kaxinawá não adotem uma estra.tégia para se adaptarem à
-91-

vida nos seringais, enquanto força de trabalho. É o que tentar~


mos mostrar a partir dos dados etnográficos obtidos junto aos
Kaxinawá que atualmente vivem no rio Jordão.

4. A Organização Sociàl Kaxinawá na Empresa Seringalista

Na impossibilidade de fazer uma descrição etnográfica


de todos os Kaxinawá que vivem do lado brasileiro, tomamos o
rio Jordão corno urna amostra representativa daqueles que ainda
continuam fundamentalmente engajados aos seringais da .-
regiao.
Neste rio~ encontra-se a maior concentração do grupo Kaxinawá
de toda a imensa bacia dos rios Juruá - Purus. Esta foi também
a área melhor conhecida durante a pesquisa de campo .
Os Kaxinawá não habitavam primitivamente este rio. Fo
ram levados para lá por um " amansador 11 "'"'como sao chamados na
região aqueles indivíduos que realizavam as correrias e• de nome
Felizardo Cerqueira, que desbravou inG.meros seringais das cabe
ceiras do Tarauacâ, Breu e Alto-Juruâ, graças ao seu bando de
Kaxinawá ·:; escravizados ii . Os homens mais velhos que ainda vivem.
no Jordão trazem a marca F.C. nos seus bra ços, como indicativo
de que eram de sua propriedade. Com a morte deste i n divíduo, os
'
Kaxinawá permaneceram no Jordão, espalhado s em inúmeras •; coloca
dos seringais. Trata- se, portanto , d e um grupo já total
integrado e com uma história já profundamente marcada P~.
empresa seringalista .
No Jordão existem atualment e sete sering ais: Empres a
/1
Bom Jardim, Fortaleza, Sorocaba, Transual e Revisão . Li

enas no primeiro, não vive n e nhuma família de sering ueiros Ka


inawá, que constituem, aliás, a maioria da força de trabalho da
sePingais .
Um me smo seringalista) conhe cido re g ionalme nte por
chefe ,·, , a.rrendou todo o rio , que perte nce a dois Únicos
roprietários que são grande s come rciantes esta belecidos na ci
de de Tarauac~. Um deles~ repr e sentante local do grande gr~
e conômico da Paranacre, atual pro p rietário de grandes exten
es de terras localizadas no rio Gregório e Acuraua. O arrenda
nto do seringal ~ pago ·pelo valor correspondente a 70 k g de
.,.g 2 •.

borracha por cada parelha de estrada efetivament2 ocupada por


seringueiros. Como todq seringueiro é obrigado a pa.gar esta
mesma quantidade de borra cha para poder corta r' s eringa , pode-se
concluir que o arrendamento destes sete seringais nada custa.
Com o contra to de arrendamento, e ste '' patrão-chefe 11 c on
se gue ma is vantagens J já que passa a s e r financiado p e l o Banco
da Amazônia S.A. (BASA), p odendo~assim, comprar merca dorias di
retame nte nas praça s de Manaus ou Be lém e até mesmo em São Pau
lo e revendê-las aos seringueiro s 5 tir a ndo lucros bastante
co nsideráveis( * ).
Com o domínio do rio Jordão, e ste 1
'patr-ão-d1efe 1' man
têm os seringueiros Kaxinawâ totalme nte subordinados a o esquema
de aviamento, controla do por ele próprio. Pa ra cada s e ringal 3

es tebelece o sistema de qgerentes a.viados 11


, ou seja ? inte rmediá
rios a quem fornece as mercadorias e de quem receb e toda a pro
dução da safra de borracha. Estes ngerent e s aviados 11
constituem
o Último elo da cadeia dos não produtores e por i sso mE:smo sao
colocados, pe los Kaxinawá, na categoria. dos p2.trões. Cada nge
pente a viado 1' controla dire tament e o s se ringue iros Kax inawá que
l á vivem e trabalham . Como estes e stão s empre endividados com
11
os 1
' gerentes aviàdos 1' e estes, alguma s ve ze s~ com o patrão -~ch~
fe ;v , a mudança de uma família àe seringuei ro Kaxn1aw,'3'. de um se
ringa l para outro torna -se pouco frequente. Isto só o corre
se um outro ' gerente a viado '' re sponsab ili zar- se pela dívida_ con
1

traída c om o anterior. Normalmente~ o nov o patrão cobra UJ;la co


miss ,2 0 de 30% sobre o valor da dívida. paga:i o que nao parece
ser vantajoso p a ra as famílias dos seringueiros Kaxinawá . Tudo
iss o contribui para manter imobiliza da a. f orça de trabalho des
.,.
tas familias nos s e ringais do Jordão
( ....,. )
n n

( ~'t) Podem obter financiamento no BASA, apenas os proprietários


ou arrendatários de s eringai s, sendo que estes Últi mos nec~
ssi tam apresentar a carta de arrE:~ndam0 nto com firma r econhe
cida em cart6rio. -
( ·H: ) Geralmente é o chefe do grupo doméstico Kaxina wá que perm2.
nece preso por dívida ao seringa l ; seus filhos ou o utro s
membros de seu grupo podem mudar sem que haja c onflito com
o patrão.
Quadro do funcionamento do siste ma de aviamento

(1) produtor direto; explorado tanto nos -ore ços das me rcadorias
como nos preços da borracha ; " r oubado' 7 no peso da borracha ) na
·· t ,:1raH ou ,;quebra 1·1 ; totalmente subordinado e dcminado pelos ;, g~
rentes aviados 11 e pelo "patrã.o- chefe 11 ; só pode comprar no barra
c ão dos gere ntes aviados~ não possui qualquer direito à t erra
em que ·trabalha; nao pode abandonar o seri:nga l enqu'anto não qui:_
tar as suas dívidas; não consegue a cumular saldo corn os ' 1 geren-
tes aviados ;i ; é obrigado a pagar 70 kg de borracha por cada P.:=!.:,
relha de estrada de seringa ocupada.

(2) controla diretamente o funcionamento de cada seringal, g~


nha comissão, tanto nos :)reços das mercadorias como nos preços
da borracha, junto ao patr-ao-chefe; recolhe a ren da das estra
das de seringa e a entrega ao patrão-chefe ao qual est~ subordi
nado; homem de confiança do pa trão -·chefe.

(3) recebe financiamento do Banco da Amazônia S .A ., para ü pro


dução d a saf:r'a de bor'racha; arrendatário de todo o rio Jor•dão i
paga o arrendamento dos seringais aos proprietários através da.
rc~nda recolhida pelas estradas de seringa ; usa de ameaças e do
apelo a for-ça :; possui 2 fontes de ganho : a majoração nos pr2ços
das mercadorias fornecida s aos , 1 gerentes aviados ·' ( de 100% a
-94-

150%) e a comissão que cobra sobre o valor d a borracha ; possui


crédito e capital (circulação de dinheiro),

(4) compra toda a produção da borracha dos 11


patrões-·chefesll e
revende às indústria s automobilística em São Paulo, toda a
transação é feita à dinheiro; estão localizados em Manaus ou Be
lém ; cada usineiro tem os seus cliente s garantidos; possuem -
f ei.

brica para laminação e limpeza da borracha,

( 5) transforma a matéria-prima en:t produtos industrializados e


fornec e o produto acabado p ar,?.. o consumo ,

A compreensão do sistema do avi amento é de fundamental


importância para se compreender as relações sociais e a e strutu
ra de classe, dentro ela empresa seringalista , 1: essencial para.
se explicar a situaçã.o dos Kaxinawá inco1'"'P orados, como força
de trabalho,~ frent e extrativista da borracha .
Um seringal é formado por várias unidades produt:i,.vas,
chamada s colocações. Dentro de cada co loc a.'; ão é que se distri
1
buem os grupos domésticos Kaxinawá( ~), Nos seringais do rio lJor
dã.o hil uma varia ção de um a cinco grupos domésticos por coloca
çâo, Os indivíduos que vivem dentro de cada colocaç~o es tão li
gados por relações de parentesco e ajudam-·se reciproc a mente nas
ta1"efas diárias. Dent:ro da colocação, cada grupo do méstico po_~
sui o seu r'oçado próprio e, idealmente , deveriam ocupar uma pa
:celha de estrada de seringa, Isso nem sempre oco rre~ rras em re
gra geral o número efe tivament e existente das estradas de s erin
ga condiciona a quantidade de grupos dom~sticos que podem se es

( ~·;) Ca 1..,doso de Oliveira dá a se g uinte defi.:r..iç20 de grupo domé_§_


tico : 11 representam uma uni dade concreta das mais significa-
tivas, pois abran g em t odo o grupo r e s idencial, incluindo a
família (elementa r ou extensa) e os a g r egados '1 ( Oliveira)
1951: 6) ~ a explicação do autor s ob r e a questão de qual a. im
1)o rtâ ncia do ~rupo doméstico para se estudar o caso Terêna
~ feita atrav~s de M, Fortes (1958), Eis que o autor cita
de Fo3:tes ~ destacando os aspectos mais imp or•tantes des te
conceito:
a) 'd em todas as socied :1des humanas , a fábric a. d a re produção
0

soci a l é o grupo doméstico 1: (M. For'TE!S~ 1958:2) ;


=95-

tabelecer dentro de cada colocação . Embor•a os seringueiros Kaxi


nawá visitem frequentemente os seus parentes das colocações pr~ -
ximas de um ou v ,i rios seringais~ a solidariedade rnaJ_or que os
une é com aqueles que habitam a mesma colocação. t dentr·o da.
mesma colocação que os grupos domésticos Kaxinawá manté1:1. as
suas principais r-elações sociais. Quando um homem mata uma ca
ça ~ esta ê distribuída por todas as unidades dor:1ésticas da co
locação, Eniliora cada grupo possua o seu roçado próprio, COODG

1~am · entre si na feitura do mesmo, principalmente n.=.1.s et2.p,1s da


~
11
"broca!! dos matos rasteiros e na "derrubada · das grandes arvo
.
1~es. A s pescarias co 1 e t·ivas, com .,' wa.k·a ""~ ta mb-
em envo 1 vem todos
os indi vÍduos que vi vem dentro da mesma colocação ( t':) •

Cada grupo doméstico necessita traba.Ui,:-1r nas estradas


de seringa, porque só assim os seus membros podem adquirir os
bens manufaturados que não produze m, mas d,) que já nao podem
mais prescindir para gara ntir a sua sobrevivência, Os patrões
são os ~nicas que disp6em destes produto s e para adquiri-los, a
Única alternativa é a pro dução da borracha. A rel a.ção com o pa
trão individualiza CA.da grupo doméstico, já que cada chefe de
grupo mantém a sua própria conta com aquele. Mas quando o chefe
de um grupo doméstíco torna-se impossibilitado de produzir a bo
'
la de borTacha da quinzena, por motivo de doença, os outros a
judam trabétlhando em seu lugar. Caso não ha.ja uma parelha de es
tradas para o chefe de um determinado grupo que vive na mesma co
locação, os outros permitem que ele trab a. lhe nas suas estradas

b) nos Dadrõ e s residenciais sã.o, em um certo momento, a crfa


talizaç~c de um processo de d e s envolvimento dos tipos ou
formas de família.\; (M. Fortes~ 1958: 3 ) e
c) 1 ias transformações que sofre o grupo domésticc são, a u:rr,
só t empo, um 1proces s o dentro d o s is te rna interno ( rela ções
socL-"-is ~· institui~Ões e atividades) e um movir:1.ent<? ~o:7e:,rn~~
d,J por sua.s relaçoes com o campo extcrrvJ {campo Jur:1 dico -
político) '; (M. Fortes, 1958:2).
( t: ) Nas colo cações ocupadas p,:;los grupos dsmésticos Kaxinaw,'i não
residem seringueiros regionais. : =: stes ul·timos ocupam o utr2 s
colocações do ser ingal, marcando assir.1. uma separação tamb6r,
1

espacial entre ambos.


PareY'-tesco e Y\, tre
Q r i·".'~d e. ~ece31-<'o os <..~<2.-fes elos Gru.p

B o~~ ~W\. JLLre'W\a 3 Lj 5 ljij


clowte's t1co>

b . 1
.,.
•·

S 12te Vo~t'3S ?> L\ 3


B o ·W\_ i
Ar.aC.UdY\. L J.
Bocà J.1s J lol ,l<; e).. 1
Na5--o-es J-

Pdraiãi'o { J. 1 ~ 9
E x1re. l'IA-a 3 J.. 3 ~
v -- Á- - ()
Ba1ay0 4 J 4 q__ - -~ 4 C;
l

Ar.a e.a t~ J J_ J-

C.ocae_ J- J- J..
Á
~v..ra<...o J- J- J-
~

Se d~ 6 y ~

· 'Sacctclo d- ~
L-5
He'V\l"'lTu.e. '?> J_ 3
u~
Se2J~ 1 1 ~
ro <.. 4 b d
e.a c.hor~ o Grcl'V\d e L{
~ q ~-- ·-'L_S> - - "-
' ) ~j' - f
1-\ '1
. - r
As Q.ue·,YY\d Jas '1

As Para.~ bas J..


b

L\
3

J-
u~ =
~ - -º~•
_L __ __
.:i

1)i a beea 3 (, :)
i y.., - -e=-~
I

~~
A-r~ç.a :, .6 3
e chegam mesmo a combinar uma estratégia e1-:t que um se
uma semana 5à prover a alimentação pela c aç a ou pei:,ce,
o outro se dedica. exclusiva.mente à extraçao da s e rin ga ,
tendo as atividades na outra semana. .
A c o loc2ç~o ~, pois, a unida de social que permite
nir dois oc:. mais grupos domésticos. Embora estes g rupos,
d.issemos anteriormente, sejam relacionados pelo parentesco!
nálise sincró nica. das genealogias de todas as ncolocações ·
que vivem os ser ingueiros Kaxinawá do ~cio Jordão não nos
1

te vislumbrai, os tipos de composição que se destac ,±m como


frequentes. Estes tipos são bastante
firmar que estes grupos domésticos sc'!j am patrilocais o u
cais. Somente uma anéilise diacrônic a da composição de
colocaç6es, em duas ou mais geraç~es, nos permitiria apont=
tipo ou os tipos de c o mposição predominantes, Infelizmente_
dispomos de dados pêtra realizar, uma tal análise º
o qua~- drº ªJ.:la l• x,J
r e mos +-,_ra a· '-'-'-s
C1u" ,. :.; ..; +~r 1· 1-, .. - ~ '
,.J ,Ul<:,iciC dos grupos
cos~ as estra das de seringa existentes, o
as relaç6e s de parentesco entre os ch e fes
que residem nas n c o locações n dos Sl~is seringais do rio
on de r e alizamos o r e censeamento da populaçà~ Kaxinawá
mais seringais só apresentamos aquelas colocações efetiv
ocupadas pE;l0s grupos domésticos Kaxinawá.
- 9 7··

No quadro apre sentado acima, percebE-:--se que ~ p2ra c ada.


grupo domés t i c o';) existe um r·oçado próprio . f~ do Y'C'(:; ado que o
g rup o doméstic o Kaxinawá retira a bas e de sua al im2nt aç 3.0. Ele
6 es trat~gi co p a ra o consumo famili ar . O roçado, co mo a c riaç~o
doméstica, é de propriedade da mu lher. Se o homem é c a s ado c on
duas mulheres que habitam unidades r es idenciais dife rente s, mas
deYJ.tro da mes ma colocação~ ele é dividido pr'oporc:i..onalmente 2.0

n 1:imero de filhos de cada urna de suas du as mulheres. Se o h ome m


..,.1 • • •
a. b anco
1 na a ~0..mi_ia
-F par a. ir vi ve r" em outra de
dife r e nte, a mulh er e o s fil hos continuam d·: mos do roça do,
criaç ?ío d oméstica de gali nh a s e porcos S1c;rv e para coE1p le:G.:=:n t J.r
a dieta. n o s me ses em que a caç e. torna -·se es cassa , prin c i ;:->a. l men
te no auge do inverno. A venda dos produtos ag ríc o l as ~ pouco
1
frequent e; o me smo ocorre com a criw;ão , já qw~ o ' pa.tr3.o- che-
f e ·. : do J·ordã.o impede que o s p ,2gatões subam e ste rio.
Para um serin gueiro - Ka x inaw~ pro du zir borracha, ele
nec1;c.0s.,_
... '.'.:)C
t..a t-,
.;-1-. 1. a
b a 11-::, ,Y'! "' "
.. l c.,r, no ".inimo ? em ri-.. . u a s c.:·~ e+ ~ -~·j-7ic
a LI'ct ,~.:., r 1 c,
-..t\., ser_,_i
:)
.ga.
; ....,

quadro ac ima n ão ap res enta uma cor' respon ctê,,1cia de urn par d e es
tr'adas por grupo do méstico. Acontec e~ que 01:; che fes destes gr~
po s que
-
sao
. .
r.1.a1s J.doso s 5 nào t êm mais
t:1. r seringan e a judam aos outros dedicando-s (~ me,i.s às ·t2.ref.3.s 2,
.,
g rJ.CO.u3. S
7
e ã
C c ar:a
-'::; . Ec::ta--
~ ·u~l ti .ma. ativi ,.'iade e xi ,,
2'e ' mui t o i:''---" mpo
- '·· . de
declicaçao, De forma que é sempre estratégico ter um o utro hori.'.E:m.
que se dediqu,;, exclusi vameni:e a ca.çar . J-,. caça ai nda continua s eR
do a principal f onte de pr>oteína. do grupo, Hoje c m dia. ;)é~ra gus
- .o
5

possarn ca çar J e n cce ss<J..ri que tarnb;;'1r c o rt eEt serin ga. ~ UD,J.

vez que precis am c ompr~ar do pa trão a munição ; arco e f l ec:h a. sa o -


coisas do pass ado~ não .são utiliza dos n em mesmo n:.:is pesca.ri.as
de verao - 1
-
quan do a agua e mais - -
crist a lin a ,
Trab. cl h=i.r na p r cdu ção da bo:c•racha e , 2:, tu,J. l me r
0 - ., ~ fu nd~
ment:al para que os diversos grupos domésticos KaxiLdv.Já p oss am
r ep rodu z ir-s e como tal . De s ta depe n di~n cia ,. s a i lucra ndo o p~
tra o 5 pon1 u e a.s sim p ode aume ntar a ano a exploração ela forç.a. d e
trabalho dos s e ringueiro s Kaxi ~awi, majorit5ria na &reado ri o
J or dão"
Com base n a s n o·tas de c ompras feitas po z' um se rin guei:_
~
ro Kaxinawi , chefe de um do s tres - .
gru~os domesticas da coloca.
-98-

çao Diabela do seringal Transual ~ apresentaremos o qua.dro abai


xo , discriminando seus principais Ítens àe consuno dos prc dut o s
comprados ao patrão no decorrer do ano de 19 75, Est,2s dado s fo
ram coleta dos em fins de dez0mbro e só foi possível compor este
o rçamento devido ao cuidado com que o chefe deste grupo do mésti
co Kaxinawá guar~dava as notas de t odas as compras reali zadas
com o patrao 1 porque, como ele próprio 2. firmava, ela s se consti
11 11
tuem no único documento do sc,ringueiro desta front e ira :

ESTIVAS (~·e)

. - ~
- muniça.c
• espoleta 160 unidades 1 6 0 ,0 0
. pólvora 650 gramas 149,50
• chumbo 1,550 g rame.s
. cartucho 25 unidades 240;00

64-5,00

- s o. l 29 kg 194500
-· sabão 12 barras 14-4300 '
.,.
- açucaY' 8 kg 80~0 0
- caf8 1 kg 60,00
- farinha 424 litros 636~00
- Óleo comestível 2 latas 60,00
- queros e n e: 9 litros 9 0,00
-· fósforo 7 maços 42,00
- t abaco 2, 5 kg 76 :i OO
- papelim lQ" l_ivros
. 26 , 00
- cachaça 8 garrafas 245,0 0
.
- rum 5 litros 1+00 ,00
- rapadura. 3 kg 2 1+500
·= gilcte 5 lâminas 10,00
piJ.ha de lanterna 14 uni dades 9 8 500

t o tal parcial 2.830,00 (64,14 %)

estiva é o nome que se enprega, no seringal, para tod2s as rnercadorias


dcstinttdas a o consurro :i.rredia to.
- 99-

- vestuário:
- chita 15 metros 375,00
·- mescla 6 m.(=.tros 180 .. 0 0
-- amorim 3 me-'cros 60 5 CO
- algodão 2 metros 50,00
-· brim 1 metro 30300
- botão 2 dúzias 12,00
- linha 2 tubos 14,00
~· rede 1 unidade 280,00
- coberta l unidade 80 500

total parcial 1.081~00 (24,5 0% )

-
.. s a.ude :
·· sulfato ferroso 70 cápsulas 2 8, 00
- melhoral 12 envelope s lS,00
. - melhoral :infaí:ltil 10 envelopes 10,00
a1"'alem 18 envelopes 5 4,00
- carnibuclin -- 1 vidro 25, 0 0
-~ tussareto 1 vidro 25}00
~· pílula elo ID3.to 10 envelope s 5300
··· tetr ex
1
10 torpedos 3 5 , o.o
- meracilina. 10 torpedo s 20,00
- da raprim 5 torpedo s lD,00
·- cibalena 4 envelope s 650 0

total parcial 236,00 ( 5 ,34%)

instrumentos de tra balho:


= faca de seringa ')
,__ unidades 5 O ~ OO
.. balde de seringa l unidade 2 5 , DO
- terçado l unida de 70 , OO
- machado 1,J.. unicli3.de 120 5 00
total parcial 2 65,00 ( 6 , 02%)

TOTAL GERALººººººººººº "º ""ººººººº Cr$ Lt,412~00

preço do kg da borruc..ha: 1975 produção da borracha àeste se


ringueiro l<.axinawá - 310 kg.-
-100-

. ...
Percebe - se, pela leitura do quadro acima? aue o ite m
referente~ estiva representa o maior percentual (64 , 14%) das
compras realizadas com o patrão, destacando···se aí , principalme.12
te, os gastos co·m a munição e com a farinha, Trata - se de dois
itens fund amenta. is para garantir d ireta e indiretamente a base
fundamental da alimentação do seringueil"o. A compra de htrinha.
n:io é uma característica comum ' a todos os g rup os domésticos Ka
xinawá do Jordão. Isso ocorre apenas para aquele seringueiro
Kaxinawá que p1"ocura. se dedicar exclusivamente ao corte d12: se
ringa, dispondo de pouco tempo para aumentar o s~u roçado. Se
guem d epois os gastos com o vestuário (24,50%). Cada mulher Ka
xinawá costura para os membros de seu grupo doméstico. Os fª§.
tos com a reposição dos instrumentos de trabalho 2 com a saúde,
6 ,02% e 5, 34 9ó, r es pectivamente, encerram os Ítens do orçamento
do grupo dom~stico. Estes podem aumentar , na me dida em que mem
br'os do grupo doméstico encontrem-se em si tu.ações de doenças
graves, que exuja.m longo período de convalescência,
O total geral dos gastos anuais efetuados, Cr,$ 4-,1+12,00,
~ considerave lmente alto, principalmente se se lev~ em conta o
preço pago pe lo quilo de borracha nesta mesma época. Em 1975,
1
o patrão do seringal Transual 9 o 11
ge rente aviado : G'. 'I'. , estabe-
l e ceu o preço de Cr$ 9,00 p o r quilo de borracha . O serin g ueiro
Kaxinawá de que estamos tratando, tinha produzido durante aqu~::
la safra a considerável quantidade de 310 kg de borra.cha , o que'!
si gnific Q, em t e rmo s monetários, uma quantidade correspondente
a Cr$ 2.790,00. A sua dívida com o patr~o era , port a nto , de
Cr$ 1 .6 22,00, Manter os seringueiros sempre endividados e a - es
tratégia adotada pelos patrões para conseguir i mo bilizar a for
ça de trabalho dos Kaxinawá nas colocações~ j ,:Í prevendo a r epr~
duç,.?,o da nova safra de borracha. Dívida gr-3.nde com o pa:trão ta.!!];
bém implica em trabalhar na n diária :i p apa ele, desde que para.
isso sej a requisitado. Se o patrão quer abrir um novo roçado,
11 11
se deseja varejadores para uma viagem, se precisa de carrega-
dores para traze r borracha às costas das colocações 9ara o bar
racâo, para descer em balsas de borracha at~ a cida de de Taraua
cá etc, ele esco lhe entre aqueles serin gue iros que es tão mais
e ndividados. Quanto ma.ior a dÍ vida, dizem os s e rin g ueiros Kaxi
-101-

nawá, maior é a "sujeição 11 ao patrão. Dur2nte a pesquisa dee m


po, através da. leitura das antigas n contas corrente s :· com r) pa
trão, nunca observamos um seringueir'o Kaxina.wá que tivess e sal
do positivo com o patrão.
Esta situação de exploração de sua. força de trapalho \\ .
tem levado os seringueiros Kaxinawá a r0pr esentar o 1
tr2.balhc
na seringa como um trabalho unicamente para o patrão, para ,~nri
caro patrão que a cada ano aumenta o seu rebanho de gado, com
,
pra uma nova casa na cidade, desfruta de um melhor pac1rãc) de vi
da. 5 sem dispender nenhum esforço , Apenas controlando o Únic o
bem escasso da região, a saber, o cr&dito e o acesso ao s b ens
manufaturildos, já fundamentais para a sobrevivência e a r e pro du
ção dos grupos domésticos Kaxinawá, o p a trão, cttualmente, os
mantém totalmente integrados a. empresa seringa.lista como força
de trabalho .
Esta forma de organização social dos grupos domésticos
.J

Kaxinawá, distribuídos nas várias colocações dos s e ringais do


Jordão, tende a se aproximar da mesma organização social das fa
mÍlias dos seringueiros regionais. A àiferença mais significa.-
tiva entre a primeira e a segunda reside, principa lmente, na
composição dos grupos domésticos. A composição elos grupos domés
ticos dos seringueiros regionais tende a r,2produzir o padrão da.
família elementar. Raramente encontramos nuraa mesma colocaç ão
mais de dois destes grupos. Mas as mesmas relações com os p~
trões são reproduzidas 9 em ambos os grupos domésticos. O serin
gueiro regional está submetido ao mesmo sistema de exploração.
Se existe alguma diferença 5 esta é apenas de grau e não qua.lita
tiva. A diversificaçeo das atividades de trabalho é talve z a
..
u
nica grande diferença. Enquanto o seringueiro regional é tido
como um melhor produtor de borracha e dedica a maior parte de
s-eu tempo à extração da seringa; os seringueiros Kaxinawá sao
requisitados para inúmeras tarefas no seringal quando o patrão
necessita fazer uma viagem 9 abrir uma colocação que se encontra
va abandonada~ colocar um roçado, descer em balsas de borracha
e tc. A estratégica do patrão é nunca. ocupar em outras tarefas a
forç,=3. de trabalho dos seringueiros regionais. Destes Últimos
ele exige a dedicação total na extração da seringa.
e--
-102-

Para o seringueiro Kaxinawá há, portanto, uma diversi


ficação das atividades de trabalho. Al&m do roçado da família e
d o trabalho na seringa, os Kaxinawá do Jordão distinguem um ou
tro tipo de atividade, a saber, o trabalho na 11
diária'!, para o
patrão. Neste Último trabalho , o seringueiro Kaxinawá pratica -
mente nada ganha.; é um meio de que o patrão dispõe para diminu
ir suas contas. Quando são requisitados para este tipo de traba
lho~ os seringueiros Kaxinawá sabem que vão voltar de mãos va
zias, sem nada ganhar, porque o patrão apenas desconta a ins i ~
nificante quantia de Cr$ 15,00 por dia~ na dívida sempre alta
que os primeiros têm com ele.
Em suma~ para entender a atual organização dos Kaxin-:1
wâ inseridos como força de trabalho na empresa seringalista, d e
ve-se partir da compreensão dos rios em que eles atualmente vi
vem, da situação dos seringais dentro de cada rio e, no nível
mais concreto de análise, das colocações onde encontramos viven
do e trabalhando os inúmeros grupos domésticos dos seringueiros
Kaxinawâ.

5. O Seringal de "Caboclon

Desde a primeira crise da produção de bo~racha, no inf


cio da década de 20, que o pequeno seringal Fortaleza passou a
ser conhecido, tanto pelos regionais quanto pelos Kaxinawá, pe
lo nome de seringal de llcaboclo 11 , Durante o decorrer desta cri
se, quando a maioria dos seringueiros nordestinos começa ram a
abandonar o rio Jordão, a antiga p1.,oprietâria do Fortaleza pa~
sou a movimentá-lo apenas com seringueiros Kaxina.wâ. Receosa de
que também eles a abandonassem, ela. prometeu que após a sua mor
te o então chefe do grupo, um Kaxinawá conhecido pel o nome de
Chico Curumim, ficaria com a posse de seu seringal, Para demon~

trar a sua boa vontad0~ conseguiu convencer aos proprietários
dos seringais vizinhos de que o Fortaleza seria um seringal so
mente de \j caboclo 11
• De fato, apôs a sua morte, aqueles patrões
respeitara m a vontade da 1
'Negra Marcolinan ~ como era conhecida
no tJordão, não incorporando o Fortaleza aos seus seringais como
era a prática entre os primeiros proprietários que fal e ciam
-103-

sem deixar herdeiros. Para continuar movimentando o seringal, o


chefe do grupo Kaxinawá passou a arranjar mercat=:o:i:"':La. c om o s pa
trões vizinhos e a ssim mobilizar a força de trabi.üho dos demai s
Kaxinawá para produzir borEacha.
Com a. corte de Chico Curumim, os Kaxinawá dispersaram-
- se pelos vários seringa is do Jordão e Breu e o grupo descarac!_e
rizou-se enquanto tal . A partir daí , o seu filho Alfredo Suei
ro p a ssou a controlar e-Ste seringal 5 não mais como um chefe ,
segundo a a ntiga tradição mas como u m patrão da mesma categ2
ria dos "g<= 1..,entes aviados 11

Com o arrendamento do Jordão ao atual patrão-chefe C. F .,


Sueiro cons eguia até 1975, a s poucas mercadorias n e cessária s pa
ra fornecer aos seus seringueiros Kaxinawá .
Sua casa, construída à maneira do barracão dos patrões
r e::g ionais, é também conhecida por este nome. O bar,racão d •" ·Su
eiro é o ponto de encontro dos vários g~upos domésticos disper-
so s nas colocações, e freque nteme nte, até dos que não r c si derr,
d1'=ntro do seringal. fortaleza. Há um pequeno quarto co m pratele:i:
r a s onde e l e guarda as poucas mercado r'ias que conse gu t:; junto ao
patrão-chefe ou que ele compra com o dinhe iro de sua aposent e.do
ria. pelo Funrural. Possui também um velho livro de contas o nde
debita as dívidas de seus fregu~ses. E a ti reseh teme nte, ele c2
br·a va a r enda das e stradas como faz todos os :; gerentes avi ados ' 1
d o ~Tordão . Enfim, Suei1"0 ou '' p a trão --caboclo 11 , corno é mais c o nhe
ci do neste rio Jordão :, passou a reproduzir internamcmte ( ao
grupo Kaxinawá) as mesma s relaçees de aviamento típica s da em
presa serin ga lista. Como t odo patrã.o da r eg i a o, e l e também ga
nha tanto no preço das mercadorias como n o preço da borr a ch a de
seus seringueiros Kaxinawá. Ele próprio s e representa como U ffi

pat:r.J.o, mas como um "bom patrão ' : porque, diz ele, trata b em a
to dos os s e us seringueiros ; nunca a ç o itou um freguês , leva os
doentes para se tra tar no hospital da cidade de Taraua c~, apo -
s e nta os velhos seringueiros Kaxinawii pelo Funrural, oferece a
limentos a t odos que visitam seu barracão e·t c.
No Fo rtaleza encontram-se distribuídos 22 grupos dom.é s
tic os Ka xinaw~ em apenas 8 colocaç~es~ numa m~d ia de 2 e strada s
de S(2 ringa para cada uma destas. A sua. c a paci d ade p rodutiva é re
- 104-

lativamente pequena'.) alcançando, no máximo, ti.000 k g de borra


cha por ano.
Ao contrário dos àemais seringais do Jord~o , nem todos
os chefe s de grupos domésticos Kaxin awá do Fort a.lez a se dedicam
à extração da seringa. Não há estraêas de seringa suficientes
para. todos e les. Aliás, este seringal é uma al c:.-.~rnati va para 2.

queles que não encontram colocações em outros seringais e são


obrigados a viver ao modo de vida dos barranqueiros 9 adquirindo
os produtos manufat...ira dos como a munição~ o sal, o querosene
etc, a. través do tra balho na diária par a os dois patrões-·c h efes
que vi vem na Fo z do Jordão ou para os o utros n ge1-.e n t es avia à.os 11
O próprio Sue iro tawém os requisita para o seu grande H)Çaào ,
11 71
pagando a diária de Cr$ 15 ,00, no sistema do troco •

Os que são d e fato seringue iros ; representam apenas 1 6


chefes de grupos domésticos. Estes, consi de ram-se e são c o nsid_~
rados por SUoiro como freguêses. Para eles, não há difererça signi
ficativa entre o ,:patrão cariu 11 e o ;1 pa trã.o caboclo 11 • Nos dis
cursos sobre a pi---.ática e conômica na empresa seringali s ta do Jor
ctão p e rcebe-se que 5 t a nt o o primeiro como o segundo fazem par
t e da mesma catego ria ampl a de patrão; a di ferença é marcada P!::_
la · quantic1ade de me rcadoria que um e outro tem acesso. Co co e r a
de se esperar, a quantidade de merc a dor'ia ,; semp:r;,e infe rior, no
caso do Hpatrão caboclo 11 :

11
P a trão c a boclo e patrão cariu é um pelo outro , Tendo
mercadoria é tudo a mesma coJ.sa.. Com o patrão caboclo
~ mais dificultoso porque tem pouc a mercadoria Tudo
engana os freguêsµ. ·
A partir de 1976, quando os seringais começaram a ser
novamente rearticula dos na região~ c om o Banco da Ama zôni a S ,A .
(Bl\SA) facilitando consideravelmente o s financiamento pa ra a
p1...,odução da safra de borracha e reabertura de nova.s coloc,1çÕes 5

1
Sueiro trocou de '' patrão-chefe ; , como a Ún ica alternativa possí
vel para dispor de mais me rcadoria ( *), Com o novo "patrão·~ che=

Uf) Não possuindo o título de propriedade do FortalE-:; za 5 m.?..s un_i:


camente o de posse deste seringal , Sue iro n~o te m con diç5e s
de obter financiamentos do BASA.
-105~

fe", também localizado na_foz do d"ordão e dominando o Alto-Ta -


rauacá, Sueiro conseguiu adq uirir rnaiores quantidades de :r:-ierca-
do ria , passando a comprar, a. produção de b orracha não apenas de
seus freguêses do Fortaleza., mas de quaBe t odos os seringuei -
ros Kaxinawá de outros seringais do Jordão. Para estes 3 Sueiro
pass ou a representar o papel de reg,3.:tão ~ uma vez que através do
Fortaleza eles l)Odem agora desviar parte de sua produção de bo!:
racha e assim dispor de maiores quantidades de mercadorias par2.
1

o consumo de seus r e spectivos grupos domés ticos. t: também at:;:>a


vês de Sti.eiro que estes seringueiros Kaxinawá do J ordão cor.sé -
guem adquirir aqueles bens representado s como " cois a dG v alor ;,"
a S a .b e r • ::
, uma -n o va espingarcia, um ra-d.10~ um re~ogio
1 _,,_ • , uma.
- __ d,=>_~
I_'l_Hu~~

roupa, enfim, objetos que nao são de consumo imediato e que são
.. nb o.Los
slL ~ ,_.e prE:s t...
,..1 . e s t a tus d entro d e um grupo d ornes
ie;io - t·ico Ke_
x.inawá. Tais objetos são adquiridos sobr'etudo, na cidade de Ta
-
rauaca 3 graças ao dinheiro que Sueiro receb e de sua aposenta-
doria pelo . runrural e de algumas bol as de borr.-::1.cha que ele leva
para vender diretamente a diversos comerciantes compradores de
borracha.
A liderança de Sueiro entre os Kaxinaw~ do Jord~o tem
como base ,não os valores tradicionais dtc~ seu grupo, mas o pap,31
intermediário que desfruta junto aos patrões regiona.is. l'~esTID 1\
ganhando uma comiss ã o em todas essas transaçc,es, Sueiro proc1~ra
vender para os seringueiros Ka xinawá de outros seringais do Jcr
II
dão a. preços mais baratos que os dos ge r e ntes aviado s H a que
estão submetidos. A nova atuação de Sueiro tem s e dado, sobretu ,,..
/

do, is custas de graves conflitos com o antigo patrâo- che fe do


Jordão que se:rr'ce ass im o seu domínio ser quebrado dentro daqu~
le rio. Tais conflitos tem se traduzido , algumas vezes , em ame~
ças de violência e morte por parte do antigo :-patrão-chefe 1 · 3 que
promete tomar toda a produção de borracha do Fortaleza caso c on
tinue ocorrendo desvio da produção dos out:r.os Kaxin,;1wá do Jor
c.1.ão que não vi vEm naquele sering2..l. A es tes, os i;gerente
dos n ameaçam cOJTtO a e xpulsão elas colocações.
Assim podem.os concluir que Sueiro representa, para os
Kaxinawá do Jordão ~ mais um ngürente aviadon do que prop1-iiamen-
te um chefe~ segundo os valores da tradição cultural desse grupo.
-106-

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao encerrar este trabalho 1 tentarenos 5 de forma basta~


te s umé:ria, apresentar uma discussão e ntre a s situações de elas
ses e as identidade s engendradas a partir do cariter das duas
frentes, a ex-trativa e a agropecuária que incorporaram os Kaxi
nawa- nos proJctos
, • ~-
e realizaçoes •
da sociedade b ras1.le1ra
• • ( -'·-,
e)
"
A frente extrativista da bo rrac h a; ao ocup a r a . -
re giao
em que viviam os Ka x inawá constituia-sr-~ num todo hete rio gê::i.20TTB.r

( * ) I a nni coloca a e sse respeito , que um do s postulados d a sci;n


cias sociais é o fato de que as relações sociais nas sociedades de
classe n ••• São goverradas por dois p:rincipios comp l ementa r es · bâ
sicos: ( a ) o regime de propriedade privada dos meios de pro
duç.ão, ou seja, o modo dt~ apropriação do pro duto d o traba ·
lho social; e (b) as relaç6es d e dominaç~o - subordina ç ~c ~
geradas pelas condições, :manifes taçõ e s e tendê n cias da. divi
são do tra.b2lho s oc ial, mas fun dadas~ Gm Última instâ nc ia~
nos t ip os de apropriaç~ o do s produtos do traba lho col e tivo .
:t: com base n esse s dois princípios que se organizam e S '~ 2.l
teram. .
as relaç3es entre as pess o a s, os grupos e as cl ass e s
. j ,._ . -
sociais~ ain. 1.'1 que as substa ncias de ss as r e laçoes s i:~ apre
sentem comumente sob as formas r:-,a. is díspares e com 2.pa1"2~
cias significativamente diversas. Em co nsequência 3 as re l a
lÕ8s entre determinados grupos h umanos s urgem ' à obse rva,;:ã·o
sup erficial c ono re lações de nat ure z a racial ou cultural, co
mo se e ssas esfr2ras da realidade social possuíss em ,::rnt ono
mia. e signific açõ e s determinantes e nã o derivadas, Então 5 co
locam-se os p roblemas e m têrmos de preconceitcs, barreira.s ~-
ide o lo g i as r acia is~ como se ness a uriivers o limitado f3sse '
p o ssíve l descobrir conexões signifi ca t ivas capaze s d e e luc i
dar a natur e za da s relações soci a is restritivas ou t e nsas en
tre grupos é tnico-culturais ou r a cia is relativamente homoge
neos. Em outn.1s palavras~ como a verdadeira natureza da s r·c
lações entre esses grupos não é racial ou cultural, a sua
explicaç~o científica n~o pode restringir-se a es s a esfe r a.
Ainda que sej am imprescindíveis à anál i se os elementos ofe
recidos pc;las manifestacões cult u r ais, pelos caracte r es e t
nicos ou I'aciais , bem c~mo por c e rtos e lementos da estrutu·: :
ra demográfica. e també:m as relações sociais e manifestações
psíquicas~ é fundamental que a explicação não s e a te n d a a
essas esferas~ procurando, ao co n tr5.ri o 3 situar···se na tota
li dacle social. Some nte quando ins e rimo s o fenômeno} com to
das as suas exp:r.es soes - .
singulares~ .
no sistema g .J.o,)a~
1- 1
e,.. que
a análise realizará a. síntese explicativa final, a.panhan :.:'io
a s suas vári as e às vezes díspares significações ,; . ( Ianni ~
1966 ; 42-lt3).
- 107-

cado pela oposição entre classes sociais: de u:m lado a dos :nao - -
produtores, formada basicamente pelos patr32s, propriet~rios de
. .
seringais e de outro a dos produtores, composta • -: , 4--
p r inc ..1..pa J.men ... e
de imigrantes cearens8s~ os seringueiros, No início do contato,
qu.J.ndo o fundamental erJ. a ocupação e a forma ç.ão dos pr.irn.e1.ros
seringais tantos eis patrões como os se1°in.5 uciros atuavam de m:.~
J

do bastante uniforine em relação aos Índios Kaxinawâ. Trata v,1-se


de expulsá-los de seus antigos habitat e garantir, pelo uso
de rnt3todos violentos} a terra necessária a impl2.ntação d esta
fr,ente de expansão. No início do contato~ portanto, a linha :.le
classe e a linha étnica mantinharn··se radic ,~ lmente s eparad:is. O
conteúdo da linha é·tnica. era atualizado atriavés de u m I:L2.rc2.ào
etnocentrismo, Os Índios eram compar2.dos aos animais f erozes, a
seres diferentes do humano etc, come forma de justificar éJS vi~
~ .
1 encias . a as p2 J_os organizadores das . corre ria
cometi o ' . 1 .., d. ,.
s ce i n 10 · ,
tendo sempre por trás a figura do patrão qus as justificava co
- .
mo a unica a 1 ternativa
. .,
possJ_vcl .
para gart1. nt1r a. sc~gurança de
seus seringueirosº O esc1uerna abaixo ;; sugestivo do c1ue col o ca
mos acima:

na.o produtores: o patrão se


ringalista-

.,,.,opri~tários d~s me ios ~le 1


.,,.,oduçao : estraaas de serin
g a, acesso ao crédito , maio;j 11
fndios brabos 11
l ~e - transpoPte etc .

.
____ oposiça.o -
de classes _ _ _ Kaxinawi e demais
grupos Pano e Aruak
produtoi- es; o1
seringueiro da s b ~ cias dos rios
D ()r1 de:s~tin.c\
1 Juru~ e Purus da
1
1 AraazÔtLia Oc:.derital
força de -tr':lbalho domina
a e sub~rd~n:da pelo siste
a de a viamE.n LO
-108-

Nesta primeira etapa de implantação da frente ertrati


vista~ a linha étnica. é a mais importante, se tomamos o ponto
de vista dos grupos indÍgene.s que vivi.--CJ.m anteriormente na re
gi~o. Mas nas etapas seguintes, quando da incorpora ç~o dos Kaxi
-
nawa como força de trabalho na empresa seringalista 1 encontra
mos uma superposição de dois classificadores sociais : de um la
do, a classe que ordena os indivíduos ao nível da produção (p~
trão X seringueiro), de outro, a emergência de identidades étni
cas ou ideologias étnicas expressas na oposição ,;cariÚ '°' e ''cabo
clo!l. Trata-se da persistência da linha étnica como uma i. d eolo
gia. E como tal ela deve estar sempr'e referida a uma
social que a ,2ngendra. O esquema abaixo sugere a
. -
incorporaçao
elos Kaxinawâ~ enquanto força de trabalho, na empresa seringali~
ta:

patrões s e ringali.stas

oposição1 de classe .
í
i
i
n:l

ser1ingueiro
CJ
·r-l
i::
.
se ringue J.. l"O
.
fJ
'(1)
nordestino J.<a.}:inavi á
]
'' caboclo ii

A persistência da linha étnica só pode ser compree ndi-


da se relacionada ao sistema produtivo do scringa.l. Ao nível da
produção~ o seringueiro "caboclon e o seringueiro
. . 1
'cariu' 1 rea.li
zam as müsmas atividades . .Ambos são extratores d2 seringa e man
têm as mesmas r e lações sociais com os l_)c:ttrõ2s J manifestas atra
v~s do siste ma de aviamento. O patr~o os explora t anto no alto
preço das mer>cadorias fornecidas como no baixo preço ; pago '' 1
p~
la borracha fabricada. Tanto o seringueiro ,; cariu:; como o serin
gueiro 11
caboclo 1' mantêm-se constante mente endividados com os pa
troes que deste modo conseguem imobilizá-los nos seus seringais,
-109-

assegurrm<b assim a reprodução da mva safra da borracha.


Não se pode dizer, objetivamente, que a mE.o-de-obra ~oa
bocla 1' seja menos qualificada que a 11 cariu 11 1 no tocante a extra
ção da seringa. Qual é, então, a eficácia ãessa lini-ia étnica na
reprodução do sistema do seringal? Há uma série de atividades de
trabalho nos seringais, outras que n a.o a Gxtrativa, nas quais
os patrões utilizam apenas a mão-de-obra dos seringueiros ,: cabo
elosª (quando necessitam abrir o seu roçado, carregar a bor
racha do alto dos rios para as cidades próximas ) transportar as
bolas de borrachas das colocações pa ra o barracão, fazer viagem
a varejão etc). Como estêtS atividades são pouco lucrativas , co::n
paradas à extração da borr::i.cha, o patrão n;:cessita criar tc c!a
uma crosta de estereótipos que qualifica o seringueiro ·caboc o 1

como um "mau seringueiro 11 , tais como~ são mais 11 p reguiços o s º que


os seringueiros 11 cariu 11 , são ,: menos amb icio sos " em melhora r a
sua qualidade de vida etc, para justificar uma maior exploração
de sua força de trabalho. Assim, podemos concluir que a linha
étnica. persiste poq_ue pode ser manipulada pelos patrões para en
cobrir a sobre -exp loração da força de trab ~lho de seus serL~guei
ros 11 caboclos '': .
Os seringueiros 11 cariu' 1 , por outro lado~ manipulam a
mesma linguage m ideológica dos patrõe s para. mar car a sua dife
rença com os seringl!eiros ncaboclos il. Através da comparaç aa co:rr.
estes Últimos, consideram-se 11 bons s eringueiros 11 e, portanto,
c om mais ' 1 direitos '.·, junto_ ao patrão , i:ais como assist&ncia nas
doenças, aposent.3.dori a pelo Funrural , maiori quantidade de rne rca
doria , maior compreensão em caso de pouca p rodução de borra cha.
dura nte uma deb:or'fflinada safra, ausência de fraudes no pe s o de
suas bolas de borracha, a não mc1.nipulação das contas correntes':
11

etc.
Percebe-se assim, que a existência do seringueiro ;, ca
boclo 11 , que incorpora todos os estereótipo s, permite a reafir--
maçao das relações de classe em termos do patrão/seringueiro ' 1c~
riu".
A linh:1 étnica persiste, r eforçando ao nível idt;o lógi
co, através da manipulação das identidades Pcariu;; / "caboclo :; ~
as rel a ções de cla sse dentro da empresa s e ringalista,
fi
A imp lantaçao das modernas a gI'opecua r1.a s , carac t e r i~ ti
o - - •

cament:e capitalistas no decorre r d-3. déc a da de 70 ~. possib ili t o u


5

um 1, esvaziam2ntc ;1 da linha étnica e um fort a l c ci:r!!S:m to da lin_ti


oe c 1 a sse ( *'1'.
l
A
,, -F
J.rente • •
pJ_oneJ_ra e n g en o., r ou e,s 1
i
ºde n tiuaCJ.es
. , -

lista;' e ªacre a no 11 • i\. primeira categoria repres e nta a cla sse dos
novos propriet~rios tanto o
seringueiro •1 car iu 11 como o seringueiro ·n c a boclo ii , O esque 1;: a
1
a.
baixo mostra o de saparecimento da linha étnica:

proprie târio da terra Fp a u listas :,

gralde s e mp1°a s a s nacis


nais e multinaciona is ;
ace s s o a o s cr&ditos e
financiame ntos para im
pla nta ç~o dos projetos
ag:r~ope cuários via SUDA!·i
BASA e B.B,

. - de cla s s G
op o siçao

pe oes ( serin g ue i r 0 'H ca 1 ;' acreanosi'


1 riu ' e S<::rin gue}
ro n c a.boclo 1' ) ·-
1
ven da da f or ç a ele tra
balho nos desmatame n -
tos

.,., '
(
\ ú'I> } e arnoso ~
0e 1 (, •
J ~i vcira,•
tec a rap ...
i do corne n ~ari. - •
o s 00rc ..
o _,,, n- r o. 1--.
v_7 ~e----
ma da superposiç ão da. linha de c1 a s ~,c c om a l i n h a e tnJ_ c a. 1
-J:10S t r c:i-..d
y·ct,-.,...,., ,.1Ue
r. ::. ~,
º, . ;;
,, e~ -... ~ • ~ ··..f
,;.;:SJ•-Cl · · i ~-.:1
~ .J_ClQ,~'-42 h -is--l-:'.,,,."
,_<._ ) 1.J_
1 . .~
c·-
d ,... e~ s..;..!-u
~L ,'"...:'l 0.,,. a.v
.::j:':) -; ,.. ...

enco n trada q ue irá de t e r mina r qual das c ontrad ições 2 a f u~


damental , A experi~ncia etno-sociol6gica indica que s e n a s
eta pas
... i n ici .
a" i s do contato
..,.
inter5 tnic o a . o p osição .....
Índio .-b-r a!2
co e a ma J.s irredutivel, nas eta :;::, as s 12gu1nt fc-~ S e a o p o s~çao
1
clas s e a lta/cla sse baixa 1 que corúeç a a ganhar consistenc ia'
( O1 i ve ira ) 19 7 2 '. 1 O8 ) •
-111-

As novas identidades perderam o carát~r é tnico , e:x--pre s


sando u:r:1 conteúdo m2.rcadamente de classe. A contr-a ( içào ma.is po
derasa passa a ser entre a classe do s propriet~rios da terra, de
um lado, e traba lha dores ou 11
peõe s !í ~ de out_ro , Da Ótica. dos "pa~
11
listas , não i mporta que seus trabalha ,:: ores s e jar1 Índios ou re
gionais, A linguagem que expressa as relaçõ e s socia is n~o s er&
mais de uma ide ologia étnica e sim d.e uma ideo lo g ia de cl a.sse,
Os proprietários das terras mani~)ulam, agora, os mes
mos estereótipos de 11
preguiçoso 11 ,
11
atrcLSado'~~ 11
sem a mbição '·
11
sem futuro 1i etc, que o patrão sering alist:1 a ntes a tribuÍa 2.0
11
seu s e ringueirio n caboclo ' 1 , para qualificar os :, ,3.cr e ano s 38

sim, justificar a exploração de sua forç a de trabalho.


A s ident idades 11
paulista 1? / •
1
2Lcreano 11 expressam uma lin
guagem das r e laç õe s sociais estruturadas p·3 lo colon i alismo q ue
se insinuu. diretamente na frente p i one ira , tal como coloca Mar
t ins ( 19 7 5 : 5 O) ,
Do ponto de vista das fre ntes , vemos que e l a s eng,~n _,_
dram tanto as r3laç~es sociais como as i d entidade s que _ marcam
profundamente o pr\o ce sso de incorp o r ação dos Kaxina.wá á es trut u
ra de class es soc ia is da sociedade brasileira~ em situações es
pecíficas de fronteira.
As idE,n·t:idades 11
cariu 11 / '
1
cabo clo" s 11
paulista.' 1 / 11,:1cr2ano';
-
so sera o e ntendida s 1 u a ndo as analis ar mos n o contexto das estru 1

turas s5cio-econ3micas geradas no interior da fre nt e extrativis


ta da bor1"acha 1:: da moderna fren-te agropecuc:Íria.
BIBLIOGRAFIA

ABREU, Capistrano
.•
19 76 - 11· 0. s caxinauas,
. .. 11 in
• ENS ' IOQ "~.t.. "L ,_,C' ,.,,UDOS
,1 A.:., 1 .10 d e
, R"

J a neiro - Civilização Brasil e i ra


AQUINO, T. Valle de
197 6 - Relatório sobre os Índios Kaxinawá ent regue
à Fundação Nacional do !ndio, em abril/75
(sem título)
1977 - Propo s ta para dua s r e serva s Kaxinawá da ba
eia do Tara uacá-Ac re entregue Fundação Naci~
nal do !ndio em julho/77 (s em título).
BRPJ-J CO, J. M. Brandão Castello
19 2 2 - uo Juruá Federal i? ~ i n Re vista do Instituto
Histórico e Ge ogr á f i c o Brasileiro. Tomo e ~
pecial, Rio de J a neiro -- Imp r'ensa Na c io na l ,
1947 - ncaminhos do Acre'' ~ in Revista do Instituto
Histórico e Geo gráfico Brasileiro j vo l 1 96 .
Rio de Janeiro ·- Imprensa Naciona l.
1950 - " O Gentio Acreano 11 in Revi s t a do Institu
-

t o Hist6rico e Geo grá fi c o Brasileiro , vo l.


207~ Abril/Junho. Ri o de Jane iro - Imp rens a
Naciona l ,
COINTE, Paul l e
1922 - L'Amazonie Brésilie nne , Paris - Livra irie
Maritime e t Colo n i ale,
CUNHA, Euclide s da
1976 - Um Paraisa Perdi do~ Re união de Ensaios Ama
zônicos. Co leção Dimensõe s do Brasil, l, Pe
tr6pol i s - Vozes,
FURTADO~ Celso
1959 - Forma ção Econômica do Brasil , Rio de Janei
ro - Fundo de Cul tura .
IANNI , Otávio
1966 - Racas e Classes Sociais no Bras il, Ri o de
Janeiro ~ Civilização Bra sile :l. r.-=.t,

KESINGER , Kenne th Mº e outros


1969 - " The Population Structur1e of the Peruvian
Cashinahua: Demographic, Genetic and Cultu
ral Interrelationships 11 , .in Huma n Bio1ogy_,
vol. 41.
11
1975 - Studying the Cashina h ua 1' , in ThE: Cashi.TL:ihu1.
of Eastern }?erl!: ~ ox'ganizado p or J a ne Po"Nell
Dwyer, 'I'he Haffenreffe1-i Museum of Anth ro p~
logy and Material Culture. Br1own Unive rsity

msl ·- ncashinahua Marria. ge ii , capítulo para o li


vro Harriage Pr2ctice s in LowJ.and So uth Arn e
rican Societie s ,organizado pelo autorº
11
ms2 Panoan Social Organization ': , comunicação
apresenta da no s impôs io ,. / rn Overview of Pa
11
noan Research , no 74th Annua l Meetins of
the American Anthrop o lo g i.cal Associatio n, e m
• S~5 Francisco, Calif6rniaJ 6oÍ2.1975º
?ffiRTINS, Jos6 de So uza
J. 0_., 7,..o ·· Ca piºt a..1..J.smo
1 •
~ T r aa"'ºic iona
. 1·ismo,. São Pa ulo

Livraria Pioneira .

MELATTI , J 11lio Cezar


ms ~- " Estrutura Social MarÚbo : Um Si stema Aust:ra
- •
.11ano na 1-;maz
A
o- nia

'"! , a sr.1ir no Anuári o 1\ntro
poJ.Ógico/19 76. Rio de J a neiro -~ Te mpo Br asi 1

leiroo

OLIVEIRJ'i.; Robert o Card oso ele


-i= 196 '7 ... 11
Pro blernas e Hipóteses Relativa s à Fricção
Interé tnica: Sugestõe s p a ra uma Metodo logià;
Ri o de Janeiro - Revista do Instituto de Ci
ências Socia is, vo l. IV ~ n91 .
1972 - O Índio e o Mundo dos Brancos: ,-\ Situação
dos Tukuna do Alto Solimões, São Paulo
Livraria Pioneira, 2a. ediç~o.
1976 - Identidade, Etnia e Estrutura Social, São
Paulo - Livraria Pioneira.

OLIVIERA FILHO, João Pacheco


ms ~~ i;campesinato Indígena; Caracterização His
tórica e Perspectivan, pa.pel apresentado
na disciplina Sociologia Rural do curso d&
'?Pós-graduação ele Antropolo gis. ~ Univer si
dade de Brasília n .

19 7 7 - 1
'As Facções e a Orde m PolÍ tic-:=t em una Re
serva Tukuna , dissertação de mestrado a
11

presentado no Curso de P6s-Graduação em


Antropologia da Unive1 siclade d<2. Brasília.
1

RIBEIRO, Darcy
19 5 7 -- 11
Cul turas e Línguas Indígenas do Brasil 11 ,
in Revista de Educação e Ci~ncias Sociais
n9 6, Rio de Janeiro, CBPE.
1970 - Os Índios e a Civilizacão, Rio de Janeiro
Civilização Brasileira ,
ROCHA, Adauto
195 2 - Introducão à Econor.tift .r'\rnazônica - Ens a i o s
sobre a Recuperação Econômica da Amazônia
Manaus - Oficinas Gr5ficas da Escola T5c
nicao

SCHULTZ e CHIARA
1955 - ::Informações sobre os fndios do Alto Rio
Purus " . São Paulo. Revista do Museu Pau
lista 3 nova s~rie, vol. 9.
SOUZA, José Bonifácio de
1960 - Quixadá de Fazenda a ~idadeº Rio àe J a nei
.
ro, Instituto de Geogra- fia
. e E~stat1st1ca,
~ .

Conselho Nacional de Geogr~fia.


1 9 25 =
11
Le Fle uve Muru - Ses Ha.bita.nts. Crayances
e t Moe rs K2china.uwá • - 11:-, ;<t:.!l
I.JLl.. ~-,,"_.~grc:p -· a noO 4- - 5
- ·...:1i._
-~ º
"'
_!\. LI I I º , Paris
lo me v~ . , S ociete
. - ae , ~ ,::ieograp,
,.., h_ie.
.

1928 - 11
Le Rio z inho da Liberda de 11 Geogr.:1.phi8
• La
n9 3-4-. Tome XLI X. Pa ris. Sa ciet& de Gc o gra
phie.
TOC 1 TI NS, Le andro -
19 71 - _Formaç ão Histórica do ,;cre , Rio ds J ane i :"":;,
Editora Conquista,

VARESE, Ste f a n o
1973 La. Sal d(~ lo s
Mundo Campa -· Li.ma. Re tablo de PaP.el - 22..
ec~i ,,-;o
1.- '-s '..J..
o

VELHO, Otávio
l Sf, 7 - HAn2l ise Pr el i minar de uma Expans a o d:.:1. So
ciedé..de Brasile ir2 n . Rio de J -:ineiro, Re vis-
t a do I n stituto de Ci ~ncias Sociais v o l .4 ,
n9 1 .

197 2 - Fre ntes de Expan s~o e Es trutura Agr ~r ia,Rio


de Janeiro.) Z,::Jw.r .

WAGNER 1 Alf1.., edo e Es terci , Ne ide


rns ·· :,quixadá : A formação d.:J Po voado e o Acesso
à Terra pelos peq u e n o s P rod u t o res ;;; Rio de
J a neiro, Museu Naciona l .

WAIBEL, Lêo
19 55 -~ "As Zo n ,J.s Pionoiras do Brasil ·-·: º Revista Bra
sile ira de Gcogr5fia. Ano XVII, n9 4 . Rio
de J a n e iro .

SILVEIRA, Edson Martins da


ms Depo imen t o sobr e a. situaçã o fun diária do Es
-
tado d o Acre~ apresentado a CPI d.a Tc::rr>a em
a go sto de 1977.

Centres d'intérêt liés