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REVISTA DO NUFEN: phenomenology and interdiciplinary

O ESSENCIAL É SABER VER: A ATITUDE FENOMENOLÓGICA


REVELADA NA POESIA DE ALBERTO CAEIRO

BEING ABLE TO SEE IS ESSENTIAL: THE PHENOMENOLOGICAL


ATTITUDE REVEALED THROUGH THE POETRY OF ALBERTO
CAEIRO

ES ESENCIAL SABER VER: UNA ACTITUD FENOMENOLÓGICA


REVELADO EN LA POESÍA DE ALBERTO CAEIRO
O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar, saber
ver quando se vê, e nem pensar quando se vê, nem ver
quando se pensa.
Alberto Caeiro

Jean Marlos Pinheiro Borba.


Simone Batista de Souza,

RESUMO: Este artigo é resultado da leitura das poesias de Alberto Caeiro,


heterônimo de Fernando Pessoa (1888-1935), à luz da Fenomenologia. A partir da
análise de quatro poemas representativos da obra de Caeiro, buscou-se traçar
pontos de aproximação e afastamento entre sua didática ou “ciência de ver” de
inspiração filosófica e a proposta metodológica da fenomenologia de Edmund
Husserl (1859-1938). É na radicalidade do olhar de Alberto Caeiro e na afirmação
da liberdade do homem de acessar diretamente os fenômenos que se revela uma
forma de viver plena de fenomenologia. Caeiro, em seu modo de fazer poesia, nos
orienta a redescobrir o caminho que leva de “volta às coisas mesmas”, enunciado
por Edmund Husserl.
Palavras-chave: Alberto Caeiro; Fernando Pessoa; Poesia; Fenomenologia; Ver
direto.
ABSTRACT: This article is the result from the readings of Alberto Caeiro’s poems
having the Phenomenology as the theoretical basis. Closer and farther links
between Caeiro’s Didactics or “Science of seeing” and the method of
phenomenology proposed by Edmund Husserl (1859-1938) were drawn from the
analysis of four representative poems selected from Caeiro's work. It is in the
radical eyes of Alberto Caeiro and in the statement of man's freedom in directly
access the phenomena that a way of life full of phenomenology is revealed. Caeiro
in his way of making poetry guides us to rediscover the path that leads "back to
things themselves", enunciated by Edmund Husserl.
Keywords: Alberto Caeiro, Fernando Pessoa; Poetry; Phenomenology; Direct view.
RESUMEN: Este artículo es el resultado de la lectura de los poemas de Alberto
Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935), a la luz de la Fenomenología.
A partir del análisis de cuatro poemas representativos de la obra de Caeiro, hemos
intentado trazar puntos hacia y desde su didáctica o "ciencia de ver" la inspiración
filosófica y aspectos metodológicos de la fenomenología de Edmund Husserl (1859-
1938). Es radical en los ojos de Alberto Caeiro y la afirmación de la libertad del
hombre para acceder directamente a los fenómenos que revela un modo de vida
completo de la fenomenología. Caeiro, en su forma de hacer poesía nos lleva a
redescubrir el camino que lleva "de nuevo a las mismas cosas", enunciado por
Edmund Husserl.
Palabras clave: Alberto Caeiro; Fernando Pessoa; Poesía; Fenomenología; Ver
recta.

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INTRODUÇÃO A fenomenologia
pensada por Edmund Husserl
A crise experimentada
(1859-1938) emerge nesse
na Europa e no mundo -
cenário assumindo uma posição
preferencialmente pelas
contrária ao naturalismo5 e ao
ciências do espírito4 - no final
psicologismo6. Sua intenção é
do século XIX, refletiu-se no
apontar a possibilidade de
campo da Psicologia exata
construir um conhecimento
moderna deflagrando as
científico de rigor que possa dar
limitações metodológicas e as
conta dos fenômenos humanos
críticas tecidas por diversos
através da concessão de um
intelectuais quanto à aplicação
lugar especial à subjetividade, à
do método científico
compreensão das vivências
experimental na compreensão
subjetivas.
dos fenômenos humanos.
O método
A transposição do
fenomenológico criado por
método das ciências naturais
Husserl aborda a questão da
para as ciências humanas
subjetividade colocando-a como
desencadeou a separação
constituinte da forma humana
consciência - mundo da vida,
de ser-no-mundo. Com isso, a
precipitando uma reação por
fenomenologia relega o
parte da fenomenologia e,
paradigma da neutralidade
posteriormente, das filosofias
científica, pois “recusa a fazer
da existência, que visava o
da subjetividade uma instância
rompimento com o paradigma
separada” (DUFRENNE, 2008,
positivista e a introdução de
p.188). Tal postura contrasta
“um novo estilo no discurso
com o que a ciência aos moldes
filosófico” (DUFRENNE, 2008,
p.187). 5
Visto como atitude natural ou ingênua por
Husserl.
6
Absolutização do fato psicológico. Psique é a
chave da decifração de todos os mistérios que
4
Termo utilizado por W. Dilthey (2008) para se envolvem a existência humana. (GUIMARÃES,
referir as ciências humanas. 2012, p.30)

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positivista determina em Perseguimos o


relação à subjetividade, isto é, objetivo proposto do seguinte
que é necessário expurgá-la a modo: após a introdução,
todo custo da investigação discorremos sobre os (des)
científica, posto que seus caminhos da poesia de Alberto
vestígios ferem os ideais de Caeiro e suas semelhanças com
imparcialidade e neutralidade a atitude fenomenológica. Na
que legitimam os resultados seção seguinte, apresentamos o
alcançados. fenômeno da heteronímia
pessoana, destacando a
É com intuito de
biografia de Alberto Caeiro e,
resgatar o mundo da vida e
finalmente, nos lançamos à
revelar que tudo que o homem
leitura das poesias deste
descreve e produz está a ele
último, buscando possíveis
misturado, ou seja, perpassado
aproximações e
pela “subjetividade
distanciamentos entre os
constituinte” (Ibid., p.187) que
modos de ver o mundo da vida
a fenomenologia se mobiliza.
adotados por Fernando Pessoa
Assim, a atitude
e pela fenomenologia.
fenomenológica orientou essa
análise à medida que permitiu
ver diretamente na obra de OS (DES) CAMINHOS DA
Alberto Caeiro – enquanto POESIA COMO PROPOSTA
revelação do ser-no-mundo de METODOLÓGICA
Fernando Pessoa – experiências
A proposta
vivenciais que possibilitaram a
metodológica adotada nessa
compreensão da atitude
investigação é na verdade um
fenomenológica como a
caminho no qual convergiram à
sabedoria do olhar que mira de
intuição, o acesso à literatura
forma direta os fenômenos
fenomenológica e às obras do
humanos.
poeta Fernando Pessoa. Esses
elementos nos permitiram

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enxergar nas vivências poéticas um saber constituído,


de Alberto Caeiro momentos de dogmático ou hermético. Nele
sintonia com o “ver direto da dormita uma forma de
fenomenologia” (GUIMARÃES, comunicação plural e
2010, p.16). multiforme.

A poesia de Alberto Por essa razão,


Caeiro se apresenta como admite-se que ler um poema
reduto da construção e não é só decodificar as palavras
desconstrução de olhares que lhe dão corpo. “A
através da palavra e se comunicação com um poema
converte em terreno fértil à pertence mais à ressonância, à
compreensão do movimento cumplicidade, à atenção
levantado pela fenomenologia empática, à lenta maturação ou
que nos incita a buscar um a fulgurante evidência. Em
conhecimento válido e evidente suma, ao existencial”
acerca do mundo, retornando (JOLIBERT, 1994, p.195).
ao imediato da experiência, A linguagem poética
7
desnaturalizando a forma adotada por Caeiro noticia um
humana de olhar aquilo que mundo atravessado pela
está à volta. experiência subjetiva. Um
“É que a poesia é mundo sentido, experimentado,
espanto, admiração, como de cheirado, tateado, ouvido,
um ser tombado dos céus, a falado e saboreado. Assim é o
tomar plena consciência de sua mundo em que vivemos e no
queda, atônito diante das qual construímos diariamente
coisas” (PESSOA, 1990, p.20). nossa forma de existir. É essa
No poema não há lugar para valorização do colorido íntimo
que damos as coisas que
fundamenta a fenomenologia e
7
Desnaturalizar no sentido fenomenológico
significa retirar aquilo que naturaliza, ou seja,
aquilo que envolve e torna o olhar humano a escrita poética. Ambas nos
mecânico e naturalizado, fazendo o homem
perceber dinâmica do fluxo da consciência e do permitem clarificar a visão
movimento do homem no mundo.

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turva que tomamos como da perspectiva de Alberto


referência no cotidiano. Caeiro.

Todo o potencial da O enlace da poesia de


poesia explorado por Fernando Caeiro à fenomenologia foi
Pessoa através do heterônimo pensado como uma forma
Alberto Caeiro – aqui vívida, didática e não apenas
representado a partir de quatro retórica de abordar o
poemas selecionados da obra referencial fenomenológico
Poesia Completa de Alberto enquanto método e atitude
Caeiro, publicada pela filosófica. Assim, admitimos
Companhia das Letras - tem que:
como fim último nos fazer
voltar a enxergar que a
(...) compreender fenomenologia
experiência vivencial é uma apenas explicitando seus conceitos
básicos sem se dispor a mudar a
forma legitima e autêntica de forma de olhar o mundo, sem de fato
praticá-la, seja tão difícil quanto
conhecer o mundo. O essencial conhecer o sabor de um bolo a partir
é saber ver, nos ensina Caeiro das informações contidas na receita, a
respeito dos seus ingredientes e da
em um de seus poemas. forma de misturá-los. (...) É
obviamente muito importante
entender todos esses conceitos, mas
Para compreender a
de pouco adianta saber tudo isso, e
atitude fenomenológica, a não compreender de fato o que
significa viver fenomenologicamente.
epoché tão discutida por (STRUCHINER, 2007, p.243)

Husserl, dentre outros


conceitos relevantes ao estudo “Munidos” da ausência
da fenomenologia, nos de pressupostos e saberes
dispomos a apresentar em cada dominantes, enfim, libertos
um dos quatro poemas pela poesia, podemos agora
selecionados, versos que buscar compreender como
descrevem com riqueza o que Fernando Pessoa por meio dos
significa viver heterônimos expressou seu
fenomenologicamente a partir modo de ver o mundo.

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HETERÔNIMOS: “amigos que seus heterônimos, cada um dos


8
ouço,sinto, vejo” quais com um estilo e atitude
que os distingue dos demais”.
Ao referir-se ao poeta
Na carta endereçada ao amigo
Fernando (António Nogueira)
Adolfo Casais Monteiro10,
Pessoa, Saraiva (1999, p.141)
Pessoa revela que desde
o coloca como um “gênio que a
criança teve a tendência para
si próprio definia como
criar em seu entorno um
indisciplinador de almas e que
mundo fictício, de se cercar de
exerceu sobre os que dele se
amigos e conhecidos que nunca
aproximavam uma fascinação
existiram. Dentre os “amigos”
quase sobrenatural”. A obra de
que criou para acompanhá-lo
Fernando Pessoa (1888-1935)
em vida, destacamos nesse
inscreveu-se na literatura
trabalho Alberto Caeiro da
portuguesa e mundial de forma
Silva.
única, sendo fortemente
marcada pelo fenômeno da O sentimento de
heteronímia9. multiplicidade experimentado
intimamente por Pessoa
Saraiva (Ibid., p.142)
externou-se através de cada
considera a obra de Fernando
heterônimo criado. O primeiro
Pessoa como uma “literatura
deles, emergindo ainda na
inteira, isto é, um conjunto de
meninice – seis anos de idade,
autores a quem ele chamou os
– chamava-se Chevalier de Pas.
8
A fala referida nesta nota encontra-se na carta Na carta a Casais Monteiro,
de Fernando Pessoa endereçada ao amigo
Adolfo Casais Monteiro a 13 de janeiro de 1935 consta que o poeta e seu
(PESSOA, F.; Alguma prosa. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1990).
heterônimo dialogavam através
9
O que Fernando Pessoa escreve pertence a de correspondências. Nas
duas categorias de obras, a que podemos chamar
ortônimas e heterônimas. Não se poderá dizer palavras do próprio Pessoa,
que são anônimas e pseudônimas, porque
deveras o não são. A obra pseudônima é do registra-se: “escrevia cartas
autor em sua pessoa, salvo no nome que assina;
a heterônima é do autor fora de sua pessoa, é de
uma individualidade completa fabricada por ele,
como seriam os dizeres de qualquer personagem
10
de qualquer drama seu (PESSOA, 1928 apud PESSOA, 1990.
MARTINS, 2010).

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dele a mim mesmo”. (PESSOA, forma de ser de Pessoa.


1990, p.51) Destaca o poeta, em um
prefácio para a edição
Na referida carta de
projetada de suas obras12, que
janeiro de 1935, Pessoa atribui
os heterônimos serão sempre
a origem dos heterônimos a um
bem vindos à sua vida interior,
“fundo traço de histeria”
onde convivem melhor com ele
presente em sua personalidade.
do que o próprio consegue
Assim, temos:
conviver com a realidade
Começo pela parte psiquiátrica. A
origem dos meus heterônimos é o externa.
fundo traço de histeria que existe em
mim [...]. A origem mental dos meus Ainda nas reflexões
heterônimos está na minha tendência
orgânica e constante para a contidas no suposto prefácio,
despersonalização e para a simulação.
Estes fenómenos – felizmente para Pessoa expressa, em tom de
mim e para os outros - mentalizaram-
se em mim; quero dizer, não se fino gracejo, o fenômeno da
manifestam na minha vida prática,
heteronímia como saída para a
exterior e de contato com outros;
fazem explosão para dentro e vivo-os falta de uma literatura bem
eu a sós comigo. (Ibid., p. 51)
composta em sua época, tendo
Possivelmente, pelas
ele, portanto, que converter-se
razões acima expostas,
por si só em uma literatura
justifiquem-se as palavras de
inteira. Diante do sentimento
Álvaro de Campos11 ao
de intensa inadequação social e
considerar Fernando Pessoa
falta de pessoas “coexistíveis”,
“um novelo embrulhado para o
pergunta-se: o que pode um
lado de dentro” (Ibid., p.62).
homem fazer se não criar seus
O sentimento de próprios amigos?
inadequação social, a
Tamanhas são a
incompatibilidade profunda com
genialidade e a complexidade
os outros, a introspecção e a
psíquica de Fernando Pessoa
dramaticidade são
que conseguiu delinear para
características que marcam a
11 12
Heterônimo criado por Fernando Pessoa. PESSOA, F.; Alguma prosa. Rio de Janeiro:
Álvaro de Campos foi engenheiro naval, poeta Nova Fronteira, 1990.
urbano e futurista.

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cada heterônimo linhas Alberto Caeiro datam de março


13
fisionômicas, traços de caráter, do ano de 1914. Zenith nos
a vida, a ascendência, em traz que Pessoa se refere ao dia
outros casos até mesmo as em que Caeiro veio ao mundo
circunstâncias da morte. Todo como um “dia de revelação e
“personagem” era visualizado, revolução”, posto que, como
ouvido, sentido, em outras justifica Teresa Rita Lopes, “no
palavras, intensamente universo de Pessoa o tempo se
vivenciado. Possivelmente, por dividiu em duas eras: Antes de
essa razão, Pessoa em vários Caeiro e Depois de Caeiro”
momentos duvidou de sua (apud ZENITH, 2005, p.212)14.
personalidade, enquanto algo Assim, tem-se que Alberto
uno e coeso. Caeiro tornou-se na vida e obra
de Fernando Pessoa um divisor
Os heterônimos são
de águas.
fruto de uma escrita intuitiva e
dramática, posto que o próprio O “nascimento” de
Pessoa dizia-se essencialmente Caeiro foi um dia único na vida
um dramaturgo. Referindo-se de Pessoa, no qual aquele que
ao fato de valer-se do recurso posteriormente designaria
da heteronímia, Pessoa (1990, como o seu mestre revelou-se
p.42), assume: em um estado de êxtase.

(..) que essa qualidade no escritor Arrebatou-lhe uma febre


seja uma forma da histeria, ou da criativa da qual resultaram
chamada dissociação da trinta e poucos poemas escritos
personalidade, o autor desses livros
seguidamente. Nesse dia
nem o contesta, nem o apoia. De
triunfal, de pé – a acolher
nada lhe serviriam escravo como é da
multiplicidade de si próprio. solenemente a visita do novo
amigo - escrevia Pessoa o que
ALBERTO CAEIRO: uma das
ditava Caeiro. Pessoa narra o
faces de Fernando Pessoa

Os primeiros poemas em 13
Escritos dos editores. CAEIRO, 2005.
que Fernando Pessoa dá voz a 14
Ibidem.

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acontecido na carta a Casais uns pequenos rendimentos. Vivia com


uma tia velha, uma tia-avó (Ibid.,
Monteiro: p.54).

Lembrei-me um dia de fazer uma Acerca da obra de


partida ao Sá-Carneiro – de inventar
um poeta bucólico, de espécie Alberto Caeiro, Ricardo Reis15 a
complicada, e apresentar-lho, já me
define como “um progresso de
não lembro como, em qualquer
espécie de realidade. Levei uns dias a sensações, ou, antes, de
elaborar o poeta, mas nada consegui.
Num dia em que finalmente desistira maneiras de as ter, e uma
– foi em 8 de março de 1914 –
acerquei-me de uma cômoda alta, e, evolução íntima de
tomando um papel, comecei a
escrever, de pé, como escrevo pensamentos derivados de tais
sempre que posso. E escrevi trinta e
sensações progressivas” (Ibid.,
tantos poemas a fio, numa espécie de
êxtase cuja natureza não conseguirei p.65).
definir. Foi o dia triunfal da minha
vida, e nunca poderei ter outro assim.
(PESSOA, 1990, p. 52)
Em relação aos
aspectos formais de sua poesia,
Descobridor da
Caeiro distancia-se dos
natureza, Colombo das
cânones. Utiliza-se largamente
sensações verdadeiras e
do verso-livre, sem rimas, e de
revelador da realidade. Essas
uma linguagem simples e
são algumas das alcunhas
fluida, em tom prosaico, para
conferidas a Alberto Caeiro que,
apresentar-nos o real através
na biografia traçada por
da paisagem natural que
Fernando Pessoa, é louro sem
conclama a ação dos sentidos.
cor, olhos azuis, natural de
Lisboa, tendo nascido em 16 de Zenith16 considera que
abril de 1889 e falecido em em sua poesia se destaca a
1915, acometido por valorização da “estética
tuberculose, na mesma cidade. baseada na força íntima, de um
Mais informações constam na novo olhar diante da
carta a Casais Monteiro: simplicidade complexa da

Caeiro viveu quase toda sua vida no 15


Heterônimo criado por Fernando Pessoa.
campo, numa quinta do Ribatejo. Não Ricardo Reis foi médico e poeta. Sua poesia era
teve profissão, nem educação quase marcada pelo tradicionalismo. Expatriou-se para
alguma – só instrução primária; o Brasil.
morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e
16
deixou-se ficar em casa, vivendo de Escritos dos editores. CAEIRO, 2005.

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natureza, (...) e do permitirão traçar pontos de


sensacionismo, entendido como aproximação clara com os
a percepção direta e imediata aspectos filosóficos que
da realidade”. Adianta-se que embasam a proposta
alguns desses elementos nos fenomenológica.

UM ENCONTRO ENTRE O MUNDO DA VIDA E A POESIA:


possíveis aproximações entre a obra de Alberto Caeiro e a
fenomenologia

POEMA IX

Sou um guardador de rebanhos.


O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la


E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor


Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto com todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

O poema IX de O missão que traçou para si


Guardador de Rebanhos enquanto em vida: conduzir sua
apresenta como figura central o percepção/olhar a um
pastor e mestre Alberto Caeiro refinamento; e ensinar a seus
que está a tanger com o cajado discípulos – os outros
um rebanho que não é heterônimos – uma nova forma
legitimamente de ovelhas, mas de se relacionar com o mundo.
que é todo de pensamentos e A posição peculiar
sensações. O pastor, em sua deste guardador de rebanhos é
serenidade, está a cumprir a
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a de “recusa a uma longa ela. O cheiro característico da


tradição de topoi que levam os flor, o colorido exuberante de
poetas a enquadrar a natureza suas pétalas é que lhe
de uma forma já codificada” caracterizam enquanto
(MARTINS, 2010, p.318). Seu fenômeno.
desejo é poder vê-la com um E o que a composição
olhar novo. poética de Alberto Caeiro quer
A natureza, nos mostrar com isso? Que o
representada no poema pela conhecimento traz como
flor, o fruto, as ervas do componente estruturante, o
campo, é descrita a partir das resgate do colorido das
sensações que desperta em seu vivências. Cada experiência que
observador. Essa natureza guardamos está fundada em
instigante, provocativa, incita o elementos objetivos e
pastor a desvendá-la através subjetivos que compõem um
da visão (olhos), da audição todo e nos permitem diferenciá-
(ouvidos), do tato (mãos e la das demais. Isto é, Caeiro
pés), do olfato (cheiro) e do compreende que é a
paladar (sabor). As experiência que o autoriza a
informações captadas pelos falar com propriedade e riqueza
sentidos, afirma Caeiro, é que de cada fenômeno sobre o qual
são a matéria do pensamento. lança seu olhar. É esse recurso
Assim, pensamento e sensação em especial, utilizado para
estão intimamente relacionados construir seus poemas, que nos
em sua forma de compreender permite buscar uma conexão
o mundo. com a proposta da
fenomenologia.
Como Caeiro pensa
uma flor? A partir das A fenomenologia
impressões visuais e olfativas pensada por Husserl se coloca
relacionadas à experiência como uma ciência que busca o
proveniente do contato com conhecimento das essências,

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compreendendo os “fenômenos vida. A proposta husserliana é


humanos em seu teor vivido” resgatar “a noção de que o
(ZILLES, p.29). Seguindo o mundo científico é secundário –
raciocínio de Goto,(2008), a ele é produzido a partir de
tarefa a qual a fenomenologia impressões e vivências
se propõe é, pois, estudar a subjetivas dos próprios
significação das vivências da cientistas” (STRUCHINER,
consciência. 2007, p.243).

A fenomenologia Assim, tal qual Alberto


surge mostrando efetivamente Caeiro, a fenomenologia nos
que o ponto de partida para o ensina a exercitar uma nova
conhecimento não são os fatos forma de pensamento e
objetivos em sua pureza e percepção, como afirma
integralidade, mas a Struchiner (Ibid., p.244), fala-
experiência vivencial pré- se de “percepção num sentido
reflexiva do sujeito. Poderíamos amplo, englobando todos os
buscar compreender, por seus modos: visual, auditivo,
exemplo, o sentido de uma flor, tátil, etc”. A percepção e a
como propõe Caeiro. Esse consciência são indissociáveis
sentido não vem prontamente numa perspectiva
delimitado em um conceito fenomenológica e ambas não se
científico atribuído a flor, mas é referem apenas aos sentidos,
algo que se constrói a partir da mas aos atos perceptivos e
depuração das vivências de reflexivos que ocorrem
cada sujeito. simultaneamente. “Consciência
significa que, enquanto nós
Este aspecto é o cerne
olhamos, nos damos conta de
da questão em que Husserl
que estamos vendo, ou que,
(2002; 2006; 2012) enaltece o
enquanto tocamos, nos damos
que antes fora negligenciado
conta de tocar” (ALES BELLO,
pela investigação científica: a
2006, p.32-33).
vivência subjetiva, o mundo da

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Retomando o poema, comprovado, posto que repousa


Caeiro nos mostra ainda nos seu alicerce na evidência da
primeiros versos que experiência.
pensamento e sensação são Como ilustra o
indissociáveis chegando à penúltimo verso, Caeiro sente
igualdade: pensar é sentir essa verdade de que fala com o
(pensar = sentir). Pensar na corpo todo deitado na
visão de Caeiro é abertura de realidade, imerso no real. Esse
sentido, é deixar-se afetar é também o caráter do saber
pelos estímulos que os sentidos almejado pela fenomenologia,
captam, por aquilo que a um saber integrado ao mundo
consciência enquanto “fluxo de da vida (Lebensvelt) e não
vivências intencionais” visa apenas teorizado, abstrato.
(GOTO, 2008, p.68).
Por isso, é que ao final
Saraiva (1999, p.143) de um dia de calor, ao deitar o
esclarece que o verso “o que corpo sobre a relva e fechar os
em mim sente está pensando” olhos quentes, Caeiro diz
é uma das chaves para sentir-se triste. Essa tristeza
compreender Alberto Caeiro. não é melancolia, pelo
Também nos alerta para a contrário, é sossego, é natural
ocorrência de que “o pensar é e justa, posto que aproveitou o
já a forma que toma o sentir”. aqui-agora, o presente, da
A sensação e a melhor forma que lhe foi
intuição são recursos de que se possível, olhando tudo
vale o pastor para compreender nitidamente e captando a cada
o que se mostra a sua volta. momento aquilo que nunca
Essa forma de apreciar o antes tinha visto. Isso é viver
mundo o conduz a um fenomenologicamente.
conhecimento verdadeiro que
pouco necessita recorrer ao
plano das abstrações para ser

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POEMA II

O meu olhar é nítido como um girassol.


Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo comigo
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...

Creio no mundo como num malmequer,


Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...


[...]

O poema II de O naturais percebe a luz do


Guardador de Rebanhos mundo. Sua relação com a
apresenta logo no verso inicial natureza é tão profunda que
uma comparação bastante essa aparece nos poemas não
significativa. Em “o meu olhar é como cenário ou uma paisagem
nítido como um girassol”, bucólica a ser contemplada,
Caeiro faz menção a essa mas como figura introjetada,
vistosa flor amarela que incorporada e estruturante do
acompanha o movimento do próprio pensamento.
astro-rei, com o intuito de Percebe-se no
representar sua forma de ver o poema, que o pastor Alberto
mundo que é dinâmica e capaz Caeiro, por mais que se habitue
de capturar as transformações a andar pelas estradas mantém
do real. Caeiro é como essa flor o frescor da visão, a nitidez.
que com seus grandes olhos Seu olhar é sempre de um
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viajante, ou seja, de alguém uma nova atitude diante do


que está em contato com o mundo.
desconhecido, e guarda em si o A fenomenologia
desejo da descoberta. Seu admite que orientado pela
olhar não é o de constatação atitude natural o homem
mecânica do real, mas nele há perceba o mundo como algo
sempre certo estranhamento dado, fadado à repetição. Como
que lhe impede de passar afirma Goto (2008, p.77), “na
indiferente em relação às atitude natural permanecemos
variações da paisagem e dos presos em uma atitude
fenômenos. dogmática”. A atitude
Essa é, pois, a maior fenomenológica nos permite
lição que temos a aprender com suspender juízos de valor e
Caeiro. Seu olhar sabe voltar- pré-conceitos, dando liberdade
se para o que se revela a cada aos fenômenos para
momento. Não é “cansado”, apresentarem-se em seus
costumeiro, apesar de o diversos aspectos. Permitindo
caminho às vezes o ser. Como que algo original possa nos
ilustra o oitavo verso, o poeta surpreender.
sabe ter o pasmo consigo, e o Assim, a forma de
que vê a cada momento, é olhar do fenomenólogo é o seu
aquilo que nunca antes tinha diferencial. Sendo por essa
visto. É outra nuance revelada. razão o que há de mais
Talvez sejamos nós desafiante no seu fazer.
todos míopes, em nosso modo Conservar o olhar de
de ser cotidiano. E devamos descoberta, de estreia, de
aprender com Caeiro e com a surpresa, é essencial para que
fenomenologia a retomar o se possa enxergar as
pasmo infantil através de uma singularidades e movimentos
nova forma de posicionamento, sutis dos fenômenos, buscando
seus possíveis significados.

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REVISTA DO NUFEN: phenomenology and interdiciplinary

O olhar é importante, pois capta o científico, a vivência pré-


mundo ao redor e capta também as
incessantes mutações pelas quais reflexiva do sujeito, “às coisas
passa esse mundo. A essência do sol
continuará a mesma, as percepções mesmas”, para compreender os
desse mesmo sol variarão para
sempre, apesar das “verdades”
fenômenos.
apregoadas por filósofos e poetas.
Caeiro busca alcançar uma Antes de trazer um
objetividade absoluta, num processo
de constante depuração das arcabouço teórico que enviesa e
variações, tentando livrar a essência
direciona o olhar, melhor é
das coisas de suas variantes
imaginativas (SANTOS, 2004, p.10). preservar a limpidez da visão e
Mas, surge o observar seguidamente o
questionamento: como manter fenômeno em suas nuances. É
o olhar casto, puro, “inocente”? nesse sentido, que pensar é
Ao que Caeiro responde: “a fechar os olhos diante do que
única inocência é não pensar”. se tem à vista e turvar a visão
Na segunda estrofe, Caeiro embriagando-a com o que foi
mostra sua voracidade ao percebido no passado.
afirmar que “pensar é não
A quarta estrofe do
compreender”. Tal é a
poema iniciada com o verso “eu
radicalidade de seu olhar, que
não tenho filosofia: tenho
chega a afirmar que “pensar é
sentidos”, corrobora o que foi
estar doente dos olhos”. Como
exposto acima, enaltecendo a
compreender essa afirmação
negação de Caeiro a qualquer
categórica?
pensamento deveras
Uma possível leitura sistematizante, organizativo e
seria a de que não há a abstracionista. Assim, “aos
necessidade de buscar olhos de Caeiro, o mundo é
explicações ou fundamentos como é; os olhos enxergam o
científicos acerca de um que é e não o que deveria ser”
fenômeno quando esse pode (SANTOS, 2004, p.10). O olhar
ser diretamente acessado. Está alcança o mundo, antes mesmo
ao alcance. Por essa razão, das páginas lidas.
Caeiro (tal qual Husserl) nos
A fórmula inicial da fenomenologia
propõe retornar ao pensar não não tem a pretensão de negar o

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REVISTA DO NUFEN: phenomenology and interdiciplinary

conhecimento construído na ciência e conhecimento estabelecido,


na filosofia, apenas requer para si o
direito de excluir qualquer perspectiva para as referências que
teórica sobre as coisas para que se
possa ir espontânea e livremente até antecederam e orientaram seu
elas, i.e., deixar aparecer à coisa
mesma. (GOTO, 2008, p.74)
caminhar, é que o pastor segue
a vida. Assim como o
Por isso é que,
fenomenólogo.
“olhando para direita e para a
esquerda, e de vez em quando
olhando para trás”, para o
POEMAS INCONJUNTOS

Mas para quê me comparar com uma flor, se eu sou eu


E a flor é a flor?

Ah, não comparemos coisa nenhuma; olhemos.


Deixemos analogias, metáforas, símiles.
Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa.
Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela.
Cada coisa só lembra o que é
E só é o que nada mais é.
Separa-a de todas as outras o abismo de ser ela
(E as outras não serem ela).
Tudo é nada sem outra coisa que não é.
(...)

O poema acima díspares ou dissimiles, e não as


compõe a terceira parte da obra semelhanças. Admite que na
de Alberto Caeiro, denominada autenticidade de cada coisa, é
Poemas Inconjuntos. Logo no que repousa sua essência. Por
primeiro verso, mas também isso, nos propõe abandonar as
nos seguintes, é clara a analogias, metáforas e símiles,
rejeição do poeta a articulação visto serem elementos
de comparações. Caeiro nos dispensáveis a revelação do
questiona a razão de traçarmos que simplesmente é – a
analogias entre as coisas, se o essência.
que as identifica são Se observados
exatamente seus aspectos atentamente os aspectos

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REVISTA DO NUFEN: phenomenology and interdiciplinary

formais da poesia de Alberto descobrir sua “espantosa


Caeiro, vê-se que o uso de realidade” (CAEIRO, 2005,
recursos estilísticos como as p.91).
figuras de linguagens, por Observemos, pois, e
exemplo, são pouco suspendamos17 as
recorrentes. O que demonstra comparações, analogias,
que o próprio Caeiro evitou metáforas e símiles que nos
fazer comparações distanciam do que se revela e
desnecessárias ou criar nos conduzem a abstrações
metáforas que ampliassem os aprisionantes. Libertemos nosso
verdadeiros traços do real. olhar, e nos contentemos em
Além disso, sua educação “ver com os olhos e não com as
apenas elementar, o impedia de páginas lidas” (Ibid., p.145) ,
empreender certas ousadias diz ele em outro poema.
linguísticas. Voltemos “às coisas mesmas”
As comparações, como propõe Husserl.
analogias, e no caso do texto, O imperativo exposto
as figuras de linguagem são no poema é a máxima
artifícios, floreios, de que nos husserliana, qual seja: “voltar
valemos para mediar o que às coisas mesmas”. Husserl
sentimos ou expressamos em chama atenção para “a
situações comunicativas. E necessidade de voltar às coisas
como o que Caeiro deseja mesmas no sentido de deixar
alcançar é a simplicidade das ver, por si mesmo, o que
coisas, a intuição livre e aparece na experiência” (GOTO,
espontânea que fazemos delas, 2008, p.74). Assim, percebe-se
não lhe cabe encobrir os que o método fenomenológico
elementos essenciais com um criado por Husserl, pode ser
véu qualquer, quando o que se compreendido de forma
quer é retirar o véu que
encobre as coisas no cotidiano,
17
Esta é a mesma proposta da epoché
para que então possamos husserliana (Cf. Husserl, 2006).

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REVISTA DO NUFEN: phenomenology and interdiciplinary

coerente, a partir das diretrizes coisa pelo que é. A essência


contidas no poema de Caeiro. seria, nas palavras de Caeiro,
aquilo que separa uma coisa de
A intenção de Husserl
todas as outras, e a define
(2002) ao propor o método
enquanto fenômeno único e
fenomenológico é pensar um
distinto dos demais que se
novo caminho para orientar as
apresentam. A essência é
ciências na busca de um
sempre idêntica a si própria,
conhecimento válido e
não importando as
evidente. A fenomenologia se
contingências em que possa a
constitui como ciência da
vir manifestar-se.
essência do conhecimento,
exatamente por buscar os Portanto, como nos
fundamentos primeiros das coloca Caeiro, não se faz
coisas. necessário que comparemos
coisa alguma para chegar às
Nesse sentido, a volta
essências. Lembremos que
às coisas mesmas, consiste no
quando um fato se revela a
retorno não aos “objetos que
consciência, juntamente com
estão externa ou internamente
ele captamos a sua essência.
em nosso conhecimento, e sim,
Nesse sentido, Zilles nos ensina
tudo aquilo que podemos intuir
(2002, p.19): “as essências são
de forma livre e espontânea, ou
as maneiras características do
seja, aquilo que é intuído
aparecer dos fenômenos. Não
diretamente da experiência”
são resultados de uma
(ibid., p.74-75). A intenção de
abstração ou comparação de
Husserl é mostrar que as
vários fatos”.
vivências são o fundamento das
coisas objetivas e subjetivas. Sintetizando o
exposto, temos que a
Nas vivências,
fenomenologia ocupa-se da
encontram-se as essências
busca pelas essências intuídas
intuídas, isto é, a matéria que
que são os fundamentos do
nos permite identificar cada

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REVISTA DO NUFEN: phenomenology and interdiciplinary

conhecimento. Mas, em que ver o mundo ensinada por


consiste o caminho – método - Caeiro? A apreciação do poema
apontado por Husserl para seguinte nos permitirá buscar
chegar às essências? Ou ainda, possíveis respostas a esses
como funciona a nova forma de questionamentos.

POEMA XXIV

O que nós vemos das cousas são as cousas.


Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seriam iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,


Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),


Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são freiras eternas
E as flores penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
Nos versos iniciais do de apreender a realidade
poema XXIV de O Guardador de imediata das coisas.
Rebanhos, Alberto Caeiro nos É no imediato do real
estimula a pensar sobre qual que captamos intuitivamente as
seria a verdadeira função dos essências dos fenômenos. E se
sentidos: comunicar-nos a entendemos por fenômeno
realidade ou iludir-nos? aquilo que aparece e que se
Desenvolvendo seu revela, e se deixa conhecer
pensamento, Caeiro nos orienta como é, principalmente pelo
a recuperar a confiança nos olhar – acredita Caeiro – então,
sentidos, visto serem capazes “não precisamos duvidar dos
nossos sentidos, embora

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REVISTA DO NUFEN: phenomenology and interdiciplinary

saibamos que as coisas não se Martín (1986 apud GOTO,


mostram por completo” 2008).
(STRUCHINER, 2007, p.245). O primeiro elemento
Conferindo um lugar constituinte do método
privilegiado ao sentido da visão fenomenológico é a epoché. A
no verso “o essencial é saber palavra grega epoché significa
ver”, o mestre Caeiro anuncia a “ter sobre”, e pode ser
lição fundamental que tem a compreendida como o
compartilhar com os momento em ocorre a
heterônimos e com os demais suspensão, a colocação entre
leitores de sua poesia: que o parênteses, a abstenção dos
segredo da felicidade está em juízos, pré-conceitos e filosofias
saber ver as coisas. Às coisas, para que seja possível acessar
basta-nos: o fenômeno em absoluta

Apenas vê-las; integridade e pureza. A epoché


Vê-las até não poder pensar nelas; seria a “desconexão com a
Vê-las sem tempo, nem espaço, atitude natural” (GOTO, 2008,
Ver podendo dispensar tudo menos o
que se vê.
p.77) que abre o caminho para
É esta a ciência de ver, que não é que possamos “ver sem estar a
nenhuma.
pensar”, tornando possível o
(CAEIRO apud MARTINS, 2010,
p.879). encontro com as coisas
mesmas. Porém, isso não é o
A “ciência do olhar” bastante para se chegar ao
enunciada na segunda estrofe conhecimento das essências
do poema XXIV aproxima-se da (eidos), presentes nas
fenomenologia à medida que vivências.
nos oferece uma descrição
É necessário também
bastante contundente, embora
que se faça uso de outro
genérica, dos elementos
elemento: a redução eidética -
constitutivos do método
redução às essências - como
fenomenológico husserliano,
orienta San Martín (1986 apud
conforme referidos por San

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REVISTA DO NUFEN: phenomenology and interdiciplinary

GOTO, 2008), ou melhor, Caeiro, nos mostram que


sucessivas reduções para que “imagem não é apenas
os elementos das vivências presença das coisas de que se
sejam “filtrados”, restando dá conta, mas também da
18
apenas aquilo que é visado no presença de quem as vê” .
contato imediato com o Isto é, a imagem visada é
fenômeno. prova de um fundamento
subjetivo que caracteriza a
O último elemento a
forma humana de conhecer.
compor o método, seria a
redução fenomenológica ou Tudo se funda,
transcendental que nos permite portanto, na experiência
chegar ao que se mostra subjetiva, ou seja, no
comum, invariável, universal movimento intencional que a
em cada fenômeno. Assim, com consciência tem em direção às
a redução transcendental, coisas. A fenomenologia nos
Husserl conseguiu acessar aponta que a consciência
“uma nova camada nas intencional nada mais é que um
vivências, ou seja, possibilitou- fluxo que coloca em relação
lhe alcançar o centro sujeito e objeto do
sintetizador (ego) que vai além conhecimento, possibilitando
das nossas vivências individuais assim, a produção de sentidos.
ou particulares, o centro egóico A consciência seria,
que se funda em um saber em outras palavras, nossos
válido para todos” (GOTO, olhos. A lente através da qual
2008, p. 84). enxergamos e significamos o
mundo. Ela está sempre
A “ciência do olhar”
voltada a um objeto, sendo por
enunciada no verso “o essencial
essa razão adjetivada
é saber ver” ou mesmo o
intencional. A intencionalidade
fascínio pela visão e pelas
da consciência nos ensina a
imagens captadas pelos olhos
que marcam a poética de
18
Notas dos editores. CAEIRO, 2005.

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REVISTA DO NUFEN: phenomenology and interdiciplinary

“retornar às coisas mesmas” Desaprender a aceitar


para melhor compreendê-las, o mundo como algo dado, como
vê-las, senti-las, antes mesmo uma realidade que nos é
de pensá-las ou tentar imposta. Aprendendo, por outra
aprisioná-las em qualquer via, a transitar da atitude
sistema filosófico, paradigma, natural para a atitude
teoria ou modelo explicativo. fenomenológica que implica em
Para “retornar as considerar o mundo sob o signo
coisas mesmas”, nos apoiamos da mudança, do dinamismo, da
no método fenomenológico que transformação. Não ser mais
objetiva através de seus penitente de um só dia, como
elementos despir “a alma que as flores e as estrelas, sempre
trazemos tristemente vestida”, vistas de forma canônica no
posto estar encoberta por discurso poético.
juízos, crenças e pré-conceitos. A fenomenologia,
A tristeza da alma está em assim como Alberto Caeiro,
permitir que o pensamento, deseja nos trazer de volta a
representado pela atitude liberdade de olhar que fora
natural, alcance as coisas antes sequestrada pela ciência
mesmo do olhar. E paralise-as natural. Ambos querem livrar-
como em uma fotografia. nos do pesado fardo de
Por isso, a lucidez dimensionar o presente
para Caeiro está radicalmente somente a partir do que foi
associada a não pensar. E não experimentado no passado, na
pensar, fenomenologicamente lembrança, e nos convidar a
seria equivalente a: suspender despertar os sentidos para o
temporariamente o pensamento que se revela na paradoxal
organizador antes que ele se novidade cotidiana.
ocupe de enquadrar as coisas.
Porém, é evidente que
Essa tarefa é a que no exige
a proposta de Husserl vai além
árduo empenho na
do que Caeiro formula como a
aprendizagem em desaprender.

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REVISTA DO NUFEN: phenomenology and interdiciplinary

ciência de ver (que não é ficava às escuras” (CAEIRO,


ciência nenhuma). Primeiro, 2005, p.60).
porque Husserl deseja delinear Segundo, porque
as bases para o alcance de um Husserl admite a realidade
conhecimento de rigor e imediata como ponto de partida
enxerga a necessidade de para a busca das essências
“buscar fundamentos não transcendentais. Já Caeiro, não
somente para a filosofia, mas concebe nada além da realidade
também para todos os saberes imediata das coisas. Isto é, sua
do domínio científico em geral, visão de mundo se abstém da
incluindo aí as então ideia de transcendência,
recentemente denominadas fixando-se no que se vê em
‘ciências do espírito’ ou da absoluto, no imanente. “Eu
cultura” (GUIMARÃES, 2010, nunca passo além da realidade
p.17). Já Alberto Caeiro, rejeita imediata. Para além da
completamente a ideia de realidade imediata não há
formular um sistema filosófico nada” (Ibid., p.101).
qualquer e de interpretar o real
Consideramos
pelo viés da ciência e da razão.
relevante aproximar a “ciência
Sua poesia configura-se como
do olhar” caeiriana ao “ver
sendo, antes de tudo, anti-
direto” proposto pela
filosófica e não há interesse de
fenomenologia pela inspiração
sua parte em dar qualquer
filosófica perceptível na poesia
contributo ao progresso das
de Alberto Caeiro “tratar-se de
ciências, sejam elas naturais ou
uma postura epistemológica
do espírito. “Se pensasse
afim da redução eidética da
nessas cousas, deixava de ver
fenomenologia husserliana”
as árvores e as plantas e
(MOISÉS, 2005, p.141). Porém,
deixava de ver a Terra, pra ver
diferente de Husserl, Caeiro se
só meus
atém somente a imanência das
pensamentos...Entristecia e
coisas e não à transcendência,

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REVISTA DO NUFEN: phenomenology and interdiciplinary

o que o torna um poeta de teorias ou de leituras de


animado pela filosofia, e não filósofos admiráveis, posto ser
um filósofo normativo ou um homem de pouca instrução.
fenomenólogo. Conclui-se, Mas, daquilo que ficou marcado
portanto, que a obra poética de no campo da experiência
Alberto Caeiro transita pela vivencial. Caeiro é feliz por
fenomenologia, tangenciando-a conhecer a verdade: sentir. São
apenas. as sensações que falam do
contato direto com o mundo
caracterizado pelo signo da
CONSIDERAÇÕES FINAIS
mudança. Elas são provas de
Fernando Pessoa que é possível construir um
apresenta-nos em sua obra o conhecimento válido e evidente
heterônimo Alberto Caeiro, um sobre o mundo, partindo da
pastor que se fez poeta ao experiência imediata pré-
expressar através de versos reflexiva do sujeito.
espontâneos uma forma
Os caminhos de
particular de compreender o
Alberto Caeiro e Husserl se
mundo. É na radicalidade do
cruzam ao propor a retomada
olhar de Alberto Caeiro e na
da subjetividade enquanto
afirmação da liberdade do
elemento constituinte da forma
homem de acessar diretamente
humana de ser-no-mundo.
os fenômenos, que se revela
Assim, admite-se que ambos
uma forma de viver plena de
contribuam significativamente
fenomenologia. Caeiro, em seu
no que diz respeito: (1) Ao
modo de fazer poesia, nos
reposicionamento do homem
orienta a redescobrir o caminho
frente ao mundo em que o
que leva de “volta às coisas
conhecimento científico
mesmas”, enunciado por
artificializou o seu modo de
Edmund Husserl.
ver; (2) A desnaturalização do
A sabedoria de Caeiro olhar humano, refém do
não provém do conhecimento mecanicismo cotidiano.
39
REVISTA DO NUFEN: phenomenology and interdiciplinary

Contudo, seus Psicologia Descritiva e Analítica.


Traduzido por Artur Morão.
caminhos afastam-se à medida
Covilhã: Universidade da Beira
que Caeiro mantém preso ao Interior/ Lusosofia: Press.
(Coleção textos clássicos de
imanente. E Husserl vislumbra
filosofia).
o transcendente. Por meio do
DUFRENNE, Mikel. (2002).Arte
método fenomenológico, deseja
e semiologia. In: DUFRENNE,
alcançar o que há de universal M. Estética e filosofia. São
Paulo: Perspectiva. p.103-211.
nas vivências individuais,
fundando um saber válido para GOTO, Tommy Akira.(2008)
Introdução à psicologia
todos.
fenomenológica: a nova
Nasci sujeito como os
psicologia de Edmund Husserl.
outros a erros e a defeitos, São Paulo: Paulus.
Mas nunca ao erro de GUIMARÃES, Aquiles
querer compreender Côrtes.(2010) Para uma teoria
demais, fenomenológica do direito – I.
Nunca ao erro de querer Cadernos da EMARF,
compreender só com a Fenomenologia e Direito. Rio de
inteligência, Janeiro, v.3, n.1, p.15-26,
Nunca ao defeito de exigir abr./set. Disponível em:
do mundo http://www.ifcs.ufrj.br/~sfjp/re
Que fosse qualquer cousa vista/downloads/para_uma_teo
que não fosse o mundo. ria_fenomenologica_do_direito.
pdf>.
(CAEIRO, 2005, p.118)
______. (2012).O conceito de
mundo da vida. Cadernos da
EMARF, Fenomenologia e
REFERÊNCIAS
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p.29-45, abr./set. Disponível
ALES BELLO, Angela (2006). em: <
Introdução à Fenomenologia. http://www.ifcs.ufrj.br/~sfjp/re
Bauru, SP: Edusc. (Coleção vista/downloads/o_conceito_de
Filosofia e Política). _mundo_da_vida.pdf>.

CAEIRO, Alberto (2001, 2005). HUSSERL, Edmund (1901,


Poesia completa de Alberto 2006). Ideias para uma
Caeiro. São Paulo: Companhia fenomenologia pura e para uma
das Letras. (Edição de Fernando filosofia fenomenológica.
Cabral Martins e Richard Tradução por Márcio Suzuki.
Zenith). Aparecida, SP: Ideias e Letras.
(Coleção Subjetividade
DILTHEY, Wilhelm (1894, Contemporânea).
2008). Ideias acerca de uma

40
REVISTA DO NUFEN: phenomenology and interdiciplinary

______ (1907,2008). A ideia da na palavra de Alberto Caeiro e


fenomenologia. Tradução por Manoel de Barros. In:
Artur Morão. Lisboa: Edições CONGRESSO INTERNACIONAL
70. DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA
DE LITERATURA COMPARADA,
______ (1936,2012). A crise 4. Évora. Atas...Évora, v.1, p.1-
das ciências europeias e a 16. Disponível em:
fenomenologia transcendental: <http://cecbase.comparatistas.
uma introdução à filosofia edu.pt/index.php?option=com_
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crianças produtoras de textos. 246. Disponível
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(Coord.) (2010). Dicionário de
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Fernando Pessoa e do
Modernismo português. São
ZILLES, Urbano.(2002) A
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MOISÉS, Carlos Felipe (2005). radical In.: HUSSERL, Edmund.
Fernando Pessoa: almoxarifado A crise da humanidade europeia
de mitos. 1.ed. São Paulo: e a filosofia. Introd. e trad.
Escrituras Editora. (Ensaios Urbano Zilles. 2. ed. Porto
transversais). Alegre: EDIPUCRS. (Coleção
PESSOA, Fernando filosofia; 41).
(1976,1990). Alguma prosa.
5.ed. Rio de Janeiro: Nova Nota sobre os autores
Fronteira. (Organização de Jean Marlos Pinheiro Borba: Instituição/Afiliação:
Cleonice Berardinelli). UFMA - Curso de Psicologia. Professor Adjunto II do
curso de Psicologia da UFMA. Líder do Grupo de
RIBEIRO JR., João (1991).
Estudos e Pesquisas em Fenomenologia e
Fenomenologia. São Paulo:
Psicologia Fenomenológica. Membro da Associação
Pancast. Brasileira de Psicologia Fenomenológica e
colaborador do Círculo Latino Americano de
SANTOS, Rosana Cristina Fenomenologia – CLAFEN.
Zanelatto. (2001,2004) A
fenomenologia da imaginação Simone Batista de Souza: Instituição/Afiliação:
UFMA – Curso de Psicologia. Acadêmica do curso

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REVISTA DO NUFEN: phenomenology and interdiciplinary

de Psicologia, 10° período. Membro do Grupo de Recebido em março de 2014


Estudos e Pesquisas em Fenomenologia e
Aceito em agosto de 2014
Psicologia Fenomenológica. E-mail:
simoneufma@gmail.com

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