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REVISTA
E ATUALIZADA
1° Reimpressão
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Capa: aeroestudio
Preparação de originais: Agnaldo A. Oliveira
R~isão: Carmen Tereza da Costa
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A trajetória deste livro, ao longo das últimas três déca- '/
Nenhuma parte ~esta' obra pode ser reproduzida ou duplicada sem aUlOrizaç.ll.o.expressa ,J
do autor e do edItor. . das, foi acompanhada e sustentada pelo apoio cdrinhoso li
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-.de minha faml1ia. Aproveito então o ensejo do iança- ,'~,
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OAnt6nio Joaquim Severirw
, mento desta nova edição; para reiterar, de público, meu
Direitos para cst'~ediçao
CORTEZ EDITORA agradecimento especial a minha esposa Francisca, pela I~

Rua Monte Alegre, 1074 - Perdizes dedicada parceria e rica contribuição humana e inteiec- t
05014-001-S11oPaulo_SP
T<I.: (11) 3864-<)1 11 Fax: (i i) 3864-4290
E.mail: corteZ@cortezeditorn.com.br
tuaI ao longo de nossa convivência. A meus {ilhos> noras rf,
www.cortezeditoracom.br
e netos - Guilherme, Adriana, Sofia e Carolina; Orestes, #
Cristiane, Lucas e Vinício; Estevão e Sir/ane - mett reco~ "
Impresso no Brasil- março de 2008
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nhecimento pela torcida solidán"a. •,,.
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PREFAcIO À 23' EOIÇÃO 13

INTRODUÇÃO 17

CAPíTULO I. UNIVERSIDADE, CIÊNCIA


E FORMAÇÃO ACADÊMICA 21
1.1. Educação superior como formação
científica, profissional e política 22
1.2. A produção do conhecimento como , ,
construção do objeto 24
1.3. Pesquisa, ensino e extensão na Universidade 27
1.3.1. Do compromisso da Universidade
com a construção do conhecimento 27
1.3.2. Da impropriedade da Universidade
só se dedicar ao ensino... 29
1.3.3. Da necessidade do envolvimento
da Universidade com a extensão 31
8 ANjON10 JOAQUlM SEVERINO
METODOLOGIA DO TI<ABAlHO CIE:-."T!F:!co 9

CAPíTULO 11. O TRABALHO ACADÊMICO:


ORIENTAÇÕES CERAIS PARA O ESTUDO 2.4. Diretrizes para a realização de um seminário 89
NA UNIVERSIDADE 37 2.4.1. Objetivos 89
2.4.2-:-0 texto-roteiro didático
2.1. Organização da vida universitária 38
a.1. Material a ser apresentado
2.1.1. Os instrumentos de trabalho 39
previamente pelo coordenador 90
2.1.2. O aproveitamento das aulas 43
a.2. Material a ser apresentado no dia
2.1.3. A disciplina do estudo 46
da realização do seminário ~3
2.2. Leitura e documentação 49
2..:t3.. O tex.to=.tot.ez:wjnte retativ.o-----93 _
2.4.4. O texto-roteiro de questões 95-
e interpretação de textos 49
2.4.5. Orientação para a preparação
La. Delimitação da unidade de leitura 5-3 do seminário 96
1.b. A análise textual 54
2.4.6. Esquema geral de desenvolvimento
1.c. A análise temática 56
do seminário 97
1.d. A análise interpretativa 59
1.e. A problematização 62
CAPíTULO 111.TEORIA E PRÁTICA CIENTíFICA 99
1.f. A síntese pessoal 62
çao como meto o e estudo 3.1. O méto o como caminho do conhecimento
pessoal 66 cientifico 100
2.a. A prática da documentação 67 3.2. Os fundamentos teórico-metodológicos
l.b. A documentação temática 68 da ciência 106
2.c. A documentação bibliográfica 70
3.3. A formação das ciências humanas e os novo~._.
2.d. A docuIlleI].tação.geral .7J
parãdigmas epistemológicos 111 ----
Le. Documentação em folhas :;.
de diversos tamanhos 72 3.4. Modalidades e metodologias de pesquisa I

2.£. Vocabulário técnico-lingüístico 74 científica 117 .L


2.3. A estrutura lógica do texto 74 3.4.1. Pesquisa quantitativa, pesquisa qualitativa 118
2.3.1. A demonstração 78 3.4.2. Pesquisa etnográfiea 119
2.3.2.- O 'raciocínio 81 3.4.3. Pesquisa participante 120
2.3.3. Processos lógicos de estudo 82 3.4.4. Pesquisa-ação 120
3.a. A formação dos conceitos 83 3.4.5. Estudo de caso 121
3.b. A formação dos juizos 87 3.4.6. Análise de conteúdo 121
3.c. A elaboração dos raciocínios 87 3.4.7. Pesquisa bibliográfica, pesquisa documental,
pesquisa experimental, pesquisa de campo 122

10 ANTÔNIO JOAQUIM SEVERINO METODOLOGIA 00 TRABALHO crEl'ITÍFIco 11

3.4.8. Pesquisa exploratória, pesquisa explicativa 123 f.l. A elaboração da referência


3.4.9. Técnicas de pesquisa 124- bibliográfica 182
f.2. Observações referentes
CAPíTULO IV. A PESQUISA NA DINAMICA à indicação do autor 184
DA VIDA UNIVERSITARIA 127 f.3. Observações quanto ao título
4.1. Elaborando o projeto de pesquisa 129 dos escritos 187
4.1.1. A estrutura do projeto enquanto texto 129 f.4. Observações quanto à edição .\
4.2. Desenvolvendo o processo de investigação 133 do documento 190
4.2.1. Levantamento das fontes e documentos 133 f.5. Observações quanto ao local
1.a. As fontes bibliográficas 134 de publicação 190
1.b. A Internet como fonte de pesquisa 136 f.6. Observações quanto à editora 191
£.7. Observações quanto à data 192
h.1. Pesquisa científica na Internet 140
b.2. O correio eletrônico: f.8. Observações quanto
a comunicação via e-mai! 142 à indicação do número
4.2.2. A atividade de pesquisa e a prática de páginas 192
da documentação 144 £.9. Observações gerais sobre
4.2.3. Análise dos da.dos e a construção alguns casos especiais 193
do raciocínio demonstrativo 148 f.l0. Referenciação bibliográfica
3.a. A redação do texto 150 de documentos registrados
3.b. A construção do parágrafo 151 em fontes eletrônicas 194
3.c. Conclusão 152
CAPíTULO V. AS MODALIDADES DE TRABALHOS
4.3 Relatando os resultados da pesquisa 152 CIENTíFICOS 199
4.3.1. Aspectos técnicos da redação 152
..5.1. Trabalho científico e monografia 200 '.f,
La. Apresentação gráfica geral do trabalho 152
5.2. Os trabalhos didáticos 201
l.b. A forma gráfica do texto 155
b.1. Textos datilografados 155 5.3. O TCC - Trabalho de Conclusão de Curso 202
b.2. Textos digitados 156 5.4. O relatório da pesquisa de iniciação científica 203
l.c. As citações 175 5.5. Resenhas e resumos 204
'-',
I.d. As notas de rodapé 176 5.6. O ensaio teórico 206
1.e. Referências no corpo do texto 179 5.7. Os relatórios técnicos de pesquisa 207
I.f. A récnica bibliográfica 181 S.8.-Artigos científicos 208
5.9. Resumos técnicos de trabalhos científicos 209
12 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO

CAPíTULO VI. A ATIVIDADE CIENTiFICA


NA PÓS.CRADUAÇÃO 211 ., PREFÁCIO À 233 EDiÇÃO
'~

6 1 Perf.il da preatlção CiCIllífica- 214 'j


1
6.1.1. Características qualitativas 214
6.1.2. Ciência, pesquisa e pós-graduação 218
6.1.3. A tese de doutorado 221
6.1.4. A dissertação de mestrado 221
6.1.5. Caráter monog!áfic_o.._e
coerência df? texto 223
6.2. Formatação das teses e dissertações 224
6.3. O processo de orientação 233
6.4. O exame de qualificação e a defesa pública
da tese e dissertação 237
6.5. A expansão da vida acadêmico-científica 239
Estou apresentando aos professores e estudantes universitários uma no-
6.5.1. Participação de eventos 239
va edição, bastante reformulada, do Metodologia do Trabalho Científi-
6.5.2. Curriculum Vitae e Memorial 243
6.5.3. Associações científicas, Grupos co. As alterações introduzidas decorrem do constante esforço de aprimo-
de Trabalho, Grupos de Estudos 246 rar cada vez mais este que já se tornou um instrumento muito utilizado

6.6. As agências de fomento e de apoio à pesquisa 248 pelos acadêmicos deste país para a condução de seus estudos no ensino
superior. Além disso, estou acolhendo novas demandas, sugestões e crí-
CAPiTULO VII. DA DOCÊNCIA UNIVERSITÁRIA 261 ticas que me foram repassadas por parte de colegas e de leitores aten-

7.1. Planejando o ensino 262 tos. Uma demanda que procurei atender é a de que o livro fornecesse

7.2. Envolvendo o aluno na prática da pesquisa 265 também algumas conceituações e orientações relacionadas à prática da

-7.3. A avaliação fundamentada 270 pesquisa, bem como a -sua fundamentação epistemológica, e que entras~

7.4. A carreira docente 273 se igualmente na esfera de uma reflexão filosófica sobre a ciência. Foi o
que procurei fazer ao reestruturar o conteúdo do livro. Parti então da
CONCLUSÁO 279 convicção de que a construção do conhecimento, tal qual se realiza pel~
ciência, envolve três grandes dimensões: uma dimensão epistemológica,
BIBLIOCRAFIA COMENTADA 283
uma dimensão metodológica e uma dimensão técnica. Estas três pers-
iNDICE DE ASSUNTOS 299 pectivas deveriam ser apresentadas conjuntamente para que a iniciação
científica dos estudantes não ficasse incompleta. Assim, sem perder sua
finalidade originária, que era aquela de fornecer diretrizes bem práticas
~
.

14 ANTONIO jOAQlJJM SEVERlN'O


METODOLOGIA DO TRABAUiO C1EN11FIco 15

para a condução da vida acadêmica, esta edição traz alguns elementos processo de construção de conhecimento, o que só pode ocorrer se ele
epistemológicos de fundamentação da ciência, bem como de seu proce- conseguir aprender apoiando-se constantemente numa atividade de pes-
dimento metodológico e de aplicação de técnicas operacionais necessá- quisa, adotando uma postura investigativa. Ajudar o estudante univer-
~
rias para a implementação dos métodos de investigação científica. Com 'I sitário a adquirir essa postura é o objetivo central deste livro.
li
isso, o livro amplia sua finalidade buscando contribuir para uma inicia- !'
Evidentemente, todo o investimento teórico e prático com vistas
ção mais sistemática à prática aplicada da pesquisa. ~ a uma qualificada formação universitária só encontra sua legitimação
Retomei o esforço de atualização das diretrizes de ~ormatização no compromisso com uma educação que seja efetivamente uma força
técnica do trabalho didático-científico, bem como busquei ampliar os emancipatória. Seu compromisso fundamental é com a construção da
subsídios relacionados à utilização dos recursos computacionais, sem- cidadania, qualidade de vida humana digna .. A formação universitá-
pre dentro dos limites de minhas parcas habilidades no manuseio dessa ria não se faz apenas como habilitação técnica, profissional e científi-
poderosa tecnologia. Mas acredito que suficiente para os fins acadêmi- ca , no sentido estrito dessas expressões. Está necessariamente em pauta
cos. Em função dos recursos que a informática coloca à disposição de também wna dimensão ético-política. Trata-se de um equacionamento
todos, estou retirando do livro, a partir desta edição, os anexos des- propriamente filosófico, ou seja, impõe-se explicitar qual o sentido pos-
tinados ao cadastro das revistas e outros instrumentos bibliográficos, sível da existência do homem brasileiro como pessoa situada na sua
pois essas informações encontram-se facilmente acessíveis nos portais comunidade de tais contornos e em tal momento histórico. O desafio
da rede mundial de computadores - Internet, o que torna desnecessário mais radical que cabe à educação brasileira é o questionamento do pró- ~.'
e repetitivo o registro dos dados dos diversos periódicos. O mesmo se prio significado do projeto civilizatório do Brasil. O país vive uma cri-
aplica à literatura especializada nas metodologias aplicadas às diversas se total de civilização e todo esforço para a articulação de rnn projeto
áreas. Igualmente, a Editora cuidou de aprimorar o layout do texto, político e social para a população brasileira pressupõe a discussão de
visando torná-lo mais atraente e funcional ao trabalho didático-cientí- questões básicas relacionadas à dignidade humana,. à liberdade, à igual-
fico. Aliás, é oportuno relembrar que, em se tratando de obra eminen- dade , ao valor da existência comunitária, às perspectivas de um destino
temente instrumental, é um recurso para o trabalho acadêmico e deve comum. O projeto educacional universitário precisa ser também um
ser usado em situações de consulta, cada vez que a necessidade de rea- projeto político, sustentado por um projeto antropológico. É por isso
lização das diferentes tarefas o exija. Não é um livro de leitura analítica que não bastará à Universidade dar capacitação técnica e científica, se
corrida, mas uma ferramenta a ser utilizada quando necessário. Apenas não contribuir significativamente para levar seus formados a uma nova
sugiro que, antes dessa utilização prática do livro, sejam lidos a Intro- consciência social.
dução e o primeiro capítulo, pois são dois momentos importantes para Assim, é também por exigência ética' que a educação deve se conce-
o entendimento da proposta do livro.
ber e se realizar como investimento intencional sistematizado na conso-
Com as considerações de ordem epistemológica ora introduzidas, lidação das forças construtivas das mediações existenciais dos homens.
fica ainda mais legitimada e fundamentada minha intenção de subsidiar É isto que lhe dá, aliás, a sua qualificação ética. É por isso também
o estudante no sentido de que seu aprendizado se torne um criterioso que o investimento na formação e na atuação dos profissionais dos di-
r--
,
I

16 ANTÔNIO JOAQUIM SEVERINO ~:


,
, versos campos não pode, pois, reduzir-se a urna suposta qualificação
, puramente técnica. Ela precisa ser também política, isto é, expressar
,
",'1
INTRODUÇÃO
- -- <:en-"ibili.dad.e.....àL.CO.ndiçÕ-eS-_hi.stóriGe soeiais -da existência doç SUjeItos j
:1 "1
envolvidos na educação. E é sendo política que a educacão e a cult ura
j 3 ,
se tornarão intrinsecamente éticas. O futuro da sociedade brasileira está "
-,''Ie
'!:, na dependência da sua transformação em uma sociedade menos exclu-
dente. E nesse processo, a educação, diretamente vi~culada à produção
- , econômica L. à dinârp)~~ p-Qlíric.a,terá Odoelr.ele¥ante .. - ..
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Ge responder aos desafios da alta modernidade.
Construir o futuro, a meu ver, implica investir na educação, mas
sempre na perspectiva de uma política educacional intrinsecamente vol- I

tada para os interesses humanos da sociedade, visando à superação in- i


tencional e planejada de suas forças de exclusão social. Isso nos permite
I Este livro tefi por objetivo apresentar aos esrudantes universitários al-
aduzir que o desenvolvimento da educação numa sociedade historica-
mente determinada como a nossa, não é questão apenas do domínio guns subsídios teóricos e práticos para o enfrentamento das várias tare-
r
e da aplicaçao de novos saberes e de tecnologia~ sofisticadas. E nesse ~ fas que lhes serão solicitadas ao longo do desenvolvimento do processo

compromisso da educação com a construção do futuro da sociedade ensino/aprendizagem de sua formação acadêmica. Trata-se, pois, de uma
brasileira, a Universidade tem papel fundamental. E ela só poderá exer- iniciação teórica, metodológica e prática ao trabalho científico a ser de~
cê-lo se transformar em centro de ensino e extensão fundados na pes- sencadeado desde o limiar da fteqüentação universitária. Mas, pela sua
quisa. Só assim responderá aos desafios da alta modernidade. Mas para própria narureza, será eficiente ferramenta para o trabalho docente em
"
sua interface com a aprendizagem dos alunos, podendo configurar-se ca- I:
'; construir a Universidade do futuro, é preciso investir na Universidade
do presente. mo um bom roteiro para a intervenção didático-pedagógica dos professa- I
,-
I
Subsidiar, pois, uma competente preparação técnico-científica fina-
!idade deste manual, é apenas uma mediação para um fim mais el;vado
res, quaisquer que sejam suas áreas ou matérias de ensino. Além dos ele-
mentos conceituais que definem e explicam a natureza do conhecimento
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e necessário: despertar os jovens para unI sentido maior de sua existên- científico, são apresentadas diretrizes para o entendimento e a aplicação
cia e para a solidariedade com todos OS seres humanos. das atividades lógic~~' e técnicas relacionadas com a ..prática cientínca. 1.<

,
;
Antônio Joaquim Severino
Com esses instrum~ntos,
maior aprofundamento
os estudantes e professores .poderão conseguir
na ciência, nas artes e na filosofia, o que, afinal, é
I;
,
, Junho de 2007 o objetivo central do ensino e da aprendizagem na Universidade. ,
Trabalho científico é tomado aqui num sentido abrangente, envol-
; : vendo múltiplas' perspectivas. De modo geral, refere-se ao processo de ;'.

I 1:

1,
18 ANTONIO JOAQUL\-l SEVERINO METODOLOGIA DO l1tAlIALHO ClENlinco 19

produção do próprio conhecimento científico, atividade epistemológica vinculação entre fundamentos epistemológicos, procedimentos metodo-
de apreensão do real; ao mesmo tempo, refere-se igualmente ao conjun- lógicos e recursos técnicos, nos processos de pesquisa. _
to de processos de estudo, de pesquisa e de reflexão que carâeterizam a .~ O quarto capítulo destina-se a apresentar a dinâmica da pesqUIsa,
,
vida intelectual do estudante; refere-se ainda ao relatório técnico que re- começando com a elaboração do projeto de investigação, passando pelo
gistra dissertativamente os resultados de pesquisas científicas, caso em desenvolvimento da pesquisa e chegando à construção do relatório da
que significa a própria monografia científica. O contexto esclarecerá em pesquisa, sob a modalidade da monografia científica. Serão aí apresen-
que sentido a expressão está sendo usada em cada etapa do livro. tadas toda.s..as diretrizes metodológicas e técnicas para a elaboração do
Este objetivo geral explica o movimento desenvolvido para a cons- trabalho científico, destacando suas etapas, seus aspectos redacionais e
trução do texto. No primeiro capítulo; são apresentadas considerações suas diversas modalidades, no contexto mais amplo da vivência acadê-
sobre o sentido da formação universitária, que é entendida Como ten- mica. O livro traz referências às fontes e aos recursos viabilizados ho-
do uma tríplice dimensão. Ela é simultaneamente formação científica, je pelas novas tecnologias informatizadas da.pesquisa, particularmente
profissional e política. Visa equipar o estudante com um competente pela Internet e pelo computador.
domínio do conhecimento científico, habilitá-lo tecnicamente para o Já no quinto capítulo, são apresentadas as principais modalidades
exercício de uma profissão e desenvolver nele uma consciência social , que os trabalhos científicos assumem concretamente em nosso contexto
de cunho analítico e crítico. Para atingir esses objetivos intrínsecos, a acadêmico, desde o trabalho didático até a tese de doutorado. Todas es-
formação universitária conta com a ferramenta do conhecimento, a ser sas modalidades desenham-se sobre uma estrutura lógica comum, mas
entendido e praticado como um processo de construção dos objetos que adquirem feições específicas, ~evando-se em conta suas finalidades, ní-
constituem a realidade. veis e configurações.
No segundo capítulo, o livro trata dos principais hábitos de estu- O capítulo sexto destaca a especificidade de situações da vivência
do, oferecendo diretrizes bem operacionais sobre como organizar a vi- nos cursos de pós-graduação, dadas as exigências próprias desse nível
da acadêmica, com destaque para os processos da leitura analítica , da de ensino, em termos de profundidade, de sistematicidade e de rigor
leitura de documentação, das atividades didáticas, como o seminário. científico.
Enfim, trata da utiJização adequada dos instrumentos de aprendizagem O capítulo sétimo, tratando da docência universit~ria, pretende ex-
que o ambiente universitário coloca à disposição dos estudantes. plicitar a interface do ensino com a aprendizagem frente à necessária
O terceiro capítulo aborda a fundamentação epistemológica do co- unidade do processo de construção do conhecimento. Deste ponto de
nhecimento científico, tratando da teoria e da prática científi~as. Está vista, a idéia básica do capítulo é a ÍJ;ltima relação entre ensino e pes-
em pauta uma discussão filosófica, necessariamente sucinta, sobre a na- quisa, ou seja, do mesmo modo que o aluno só aprende construindo ó
tureza do método científico, sobre suas diferentes manifestações, sobre conhecimento, também o professor só ensina eficazmente fundando sua
os fundamentos epistemológicos da ciência, aspectos abordados tanto atividade docente numa constante postura investigativa.
pelo ângulo de sua formação histórica como pelo ângulo de sua cons- Em algumas etapas do texto, conceitos e categorias. foram destaca-
tituição teórico-conceitual. Estas considerações visam mostrar a íntima das para enfatizar sua significação e ~elevância. Ao final, constam um
20 ANTONIO JOAQUIM SEVEll,tNO

Índice remissivo dos principais temas abordados ao longo do livro para CAPiTULO I
facilitar sua localização. Além disso, o .livro traz uma bibliografia co.
menrada, ampliando as referêDcias..sobI.e.text-os--eongêneres;-que~pmfem UNIV-ERSIDADE.,-CIÊNCIA >" .
complementar as orientações aqui apresentadas. f
E FORMAÇÃO ACADÊMICA r
,f,
Dado o seu caráter instrumental, este livro deve ser paulatinamente
abordado, na medida em que as solicitações vão surgindo, e continua-
mente retomado até que se adquira a familiaridade com as várias nor~ ~
mãs e se consálidem adequados _há!:>itp.s_de.~s_tudo,.tomando- _
, ,~- __ o

---al5""- lcaz c gratl lcante. No entanto, a leitura do capítuJo primeiro é t


muito importante antes de se utilizar os recursos técnicos e metodológi-
cos disponibilizados pelo livro, f,
I
~

t,
I ,

~
As condições específicas do ensino superior é que constituem O con- ~
!"J
texto para o desenvolvimento do trabalho cientifico, objeto..:temáti- 'I
,
co d o IlurO.
"t" -
permt lTaosz
Da,"a.'"necessidàde
'tuar'
. as'
_
prop'ostas
de se explicitar essas refetêne:ias
concretas
. de atividades
. .. que
'acadêmicas.
.. ' _ . _
lii
",
o objetivo d~ste capítulo é. pois, explicitar o senttd~ das r~laç~es
entre ensino,- aPrendizagem. conhecimento e eduClZ~o, no ambJto
da vida ~niversitária, descrevendo o contexto em que se insere a t.,
atividade científica dos estudantes. '
12 ANTONIO JOAQUIM SEVElUNO
METODOLOGIA DO TRABAlliO a:ENl1Flco 23

1.1. EDUCAÇÃO SUPERIOR COMO FORMAÇÃO CIENTíFICA


humana em sociedade. A Universidade, em seu sentido mais profundo,
PROFISSIONAL E POLíTICA '
deve ser entendida como uma entidade que, funcionária do conheci-
mento, destina-se a prestar serviço à sociedade no contexto da qual ela
o ingresso no Curso superior implica uma mudança substantiva na for
se encontra situada ...
:;e como p~ofessores e alunos devem conduzir os processos de ensin~ Este compromisso da educação, em ge-
. aprendlz~gem. Mudança muito mais de grau do que de natureza ral, e da Universidade, em particular, com a
pOIS todo ensmo e t d d' '

,
d d o a apren lzagem, em qualquer nível e modalida- construção de uma sociedade na qual a vida
e, d~~endem das mesmas condições. No entanto, embora sendo essas individual seja marcada pelos indicadores
cou lçoes comuns t d d .
_ . a o o ato e ensmo/aprendizagem, a sua implemen- da cidadania, e a vida coletiva pelos indica-
taçao no ensmo s' . .
upenor preCIsa ser mtencionalmente assumida e £ t'.

I
dores da democracia, tem sua gênese e seu
vamente 'd ele I t :
d pratIC~": sob pena de se comprometer o processo, fazendo-o fundamento na exigência ético-política da
per er sua conslstencia e eficácia. solidariedade que deve existir entre os homens. É a própria dignidade
~.
O ensino superior, tal qual se consolidou humana que exige que se garanta a todos eles o compartilhar dos bens
historicamente, na tradição ocidental visa naturais, dos bens sociais e dos bens culturais. O que se espera é que,
f.
;~

atin' ~ '. ' ~


glI tres obJetIvos, que são obviamente no limite, nenhum ser humano seja degradado no exercício do trabalho,
articulados entre si. O primeiro objetivo é o seja oprimido em suas relações sociais ao exercer sua sociabilidade ou
da formação de profissionais das diferentes seja alienado no usufruto dos bens simbólicos, na vivência cultural.
áreas aplicadas, mediante o ensino/aprendi- Para dar conta desse compromisso, a Universidade desenvolve ati- .'-'
;agem ~e habi~da~es e competências técnicas; o segundo objetivo é o da vidades específicas, quais sejam, o ensino, a pesquisa e a extensão. Ati-
dorm;çao do C~entlstamediante a disponibilização dos métodos e conteú- vidades essas que devem ser efetivamente articuladas entre si, cada uma
. os . e conhecimento das diversas especialidades do conhecimento' assumindo uma perspectiva de prioridade nas diversas circunstâncias
tercelIO b" , ,eo histórico-sociais em que os desafios humanos são postos. No entanto,
o Jetlvo e aquele referente à formação do cidadão pelo est'" ul
deumat d d ' Im o no âmbito universitário, dada a natureza específica de seu processo, a
. ~ .orna a e consciência, por parte do estudante, do sentido de sua
eXIstencla histórica ,pessoa 1 e SaCIa.
. I Neste objetivo está em pauta le educação superior precisa ter na pesquisa o ponto básico de apoio e de
o aluno d . _ var sustentação de suas outras duas tarefas, o ensino e a extensão.
... a ent~n er sua mserçao nã.o só. em Sua sociedade concreta 'mas
tam bem no selO da própria h wnaru"da d e. Trata-se de despertar no e tu- De modo geral, a educação pode ser mesmo conceituada como o
dante um 'A. • S processo media11:te.o qual o conhecimento se produz, se reproduz, se
, _ a consclencla socIal, o que se busca fazer mediante u~a série de
conserva, se sistematiza, se organiza, se transmite e se universaliza, dis-
ffidediaç.oespedagógicas presentes nos currículos escolares e na interação
e ucaclOnal que , espera-s~, OCorra no espaço/tempo universitário. seminando seus resultados no seio da sociedade. E esse tipo de situação
se caracteriza então, de modo radicalizado, no caso da educação uni-
Ao se . propor atingir esses objetivos ,upenor
a eciucaça.o s . expressa
versitária. No entanto, a tradição cultural brasileira privilegia a con-
sua d estlllação última que é 'b . .
Contn UIr para o aprimoramento da vida dição da Universidade como lugar de ensino, entendido e sobretudo
24 A."JTONlO JOAQULI,[ SEVER.'NO
METODOLOGIA DO TRABALHO CIENTiFICO 2S

;:;
praticado como transmissão de conteúdos acumulados de pr~dutos do ou seja, mediante nossa capacidade de reconstituição simbólica dos da-
conhecimento. Mas, apesar da importância dessa função, em nenhuma dos de nossa experiência, apreendemos os nexos pelos quais os objetos
circunstância ode~sedeixar de ellt@Il!Ícra--Bn1ve!sidade
iguahnente co----~----m--a-n--"if~e-;:st::a::m=-;::se"'n;::tI::.do
para nós, sujeitos cognoscentes ... Trata-se, pois, de
mo lugar priorizado da produção do conhecimento. A distinção entre as redimensionar o próprio processo cognoscitivo, até porque, em nossa
funções de ensino, de pesquisa e de extensão, no trabalho universitário, tradição cultural e filosófica, estamos condicionados a entender o co-
é apenas uma estratégia operacional, não sendo aceitável conceber-se os nhecimento corno mera representação mental. O que se deve concluir é Fi
processos de transmissão da ciência e da socialização de seus produtos, que o conceito é uma-representação mental, mas esta não é po~_~o_
de °
desvinculados de seu processo 4e geraÇ.ão~ , -- ---- -- , m
- --- a propna extensão uni~ersitária deve ser entendida co- complexo processo de constiroição e reconstituição do sentido do obje-
mo o processo que articula o ensino e a pesquisa, enquanto interagem to que foi dado à nossa experiência externa e interna.
conjuntamente, -criando um vínculo fecundante entre a Universidade e Por sua vez, a atividade de ensinar e aprender está intimamente
a sociedade, no sentido de levar a esta a contribuição do conhecimento vinculada a esse processo de construção de conhecimento, pois ele é a
para Sua transformação. Ao mesmo tempo que a extensão, enquanto implementação de uma equação de acordo com a qual educar (ensinar e
ligada ao ensino, enriquece o processo pedagógico, ao envolver docen- aprender) significa conhecer; e conhecer, por sua vez, significa construir
tes, alunos e comunidade num movimento comum de aprendl"zagem, " h' '- f . ..
O objeto; mas CODstOJlr o o ]era slgnuca pesqUisa>;,
enri uece o r pOlitic0 as se relaciona! Com a pesqUIsa, dando Em decorrência disso, o processo de en-
alcance social à produção do conhecimento. ,
sino/aprendizagem no curso supenor tem
Na Universidade, ensino, pesquisa e extensão efetivamente se ar- seu diferencial na forma de se lidar com o
ticulam, mas a partir da pesquisa, ou seja: só se aprende, só se ensina, conhecimento. Aqui, o conhecimento de-
pesquisando; só se presta serviços à comunidade, se tais serviços nasce- ~ d
rem e se nutrirem da pesquisa,l ve ser adquirido não mais atraves e nh
seus
produtos mas de seus processos. O co e-
cimento deve se dar mediante a construção
1_2_ A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO COMO CONSTRUÇÃO dos objetos a se conhecer e não mais pela representação desses objetos.
DO OBJETO Ou seja, na Universidade, o conhecimento deve ser construído pela ex-
periência ativa do estudante e não mais ser assimilado passivamente,
Mas o que vem a ser produzir conhecimento? O que se quer dizer é como ocorre o mais das vezes nos am~ientes didático-pedagógicos do
que conhecimento se dá como construção do objeto que se conhece, ensino básico,
Sendo o conhecimento construção do objeto que se conhece, a ati-
vidade de pesquisa toma-se elemento fundamental e imprescindível no
1 É claro qu~ .n~o ~c.t.c:J.tade confundir a Univ~rsidad~ com os institutos esp~ciafu.ados d~ pesquisa. O qu~ estou de- processo de ensino/ap~endizagem. O professor precisa da prática da
fe~d~[\do aqu,1 ~ a ld,,;a ~"que O proce"o de aprend,~agem significariva, bem corno a pc.stação d~ serviços ~ensio-
na,s a comunIdade, so sao fecundos e dicaz.s se decorrentes d~ uma atitude jllv~stiga[;va .
pesquisa para ensinar eficazmente; o aluno precisa dela para apre~der ;.
26 ANTONIO JOAQtJlM S£VEIUJIlO METODOLOGIA DO TIWlALHO o:ENT1Aco 27

eficaz c significativamente; a comunidade cial dos homens. Aliás, O conhecimento é mesmo a única ferramenta de
precisa da pesquisa para poder dispor de . que o homem dispõe para melhorar sua existência.
produtos do conhecimento; e a Universida- Tendo a educação superior seu núcleo energético na construção do
de precisa da pesquisa para ser mediadora conhecimento, impõe-se uma prática pedagógica condizente, apta a su-
da educação. perar a pedagogia do ensino universitário tradicional, apoiado na trans-
Assim, ensino. e aprendizagem só se- missão mecânica de informações. O ensino/aprendizagem na Universi-
rão motivadores se seu processo se der co- dade é tão-somente uma mediação para a formação, O que implica muito
mo processo de pe~quisa. Daí estarem cada mais do que o simples repasse de informações empacotadas. Não se trata
vez mais reconhecidas e implementadas as de se apropriar e de armazenar produtos, mas de apreender processos.
modalidades de atividades de iniciação ao procedimento científico, en- Do ponto de vista do estudo, o que conta não é mais a capacidade de de-
volvendo os estudantes em práticas de construção. de conhecimento, corar e memorizar milhares de dados, fatos e noções, mas a capacidade
mediante participação em projetos .de investigação. É o que ocorre com i
de entender, refletir e analisar os dados, os fatos e as noções.
o Programa de Iniciação Científica (PlBIC) e com a exigência da reali-
i
L
zação dos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC). Alêm de eventual '"r
contribuição de seus conteúdos, executar esses trabalhos é praticar a 1.3. PESQUISA, ENSINO E EXTENSÃO NA UNIVERSIDADE
pesquisa, iniciar-se à vida científica e vivenciar a forma mais privilegia- 1
da de aprender.
1.3.1. DO compromIsso da UnIversidade com a construção t
Desse modo, na Universidade, a pesqui- do conhecimento f
) .
sa assume uma tríplice dimensão. De um
lado) tem uma dimensão epistemológica: a O conhecimento é o referencial diferenciador do agir humano em re-
rr"
,
:
"

perspectiva do conhecimento. Só se conhe- lação ao agir de ouuas espécies. O conhecimento é a grande estratégia
ce construindo O saber, ou seja, praticando da espécie. Sem dúvida, refiro-me aqui ao conhecimento ainda em sua
l
~'

a significação dos objetos. De outro Jado, generalidade, antecipando-me assim a um~ crítica que levantasse a efe- 1
j.
assume ainda uma dimensão pedagógica: a tiva"determinação de nosso agir a partir de formas ambíguas e de inten-
perspectiva decorrente de sua relação com a
~
cionalizações deficientes e precárias, ,como ocorre nos casos do senso
aprendizagem. Ela é mediação necessária e .comum, da idcoloçia et~. Mas mesmo' nestas suas formas enviesadas, o
eficaz para o processo de ensino/aprendiza- conhe~imentó já se rc'vela co.mo.9 :grande instrumento estratégico dos
gem. Só se aprende e só se ensina pela"efe- homens) testemunhando sua imprcscindibilidade c sua irreversibilidade
tiva prática da pesquisa. Mas ela tem ainda em nossa história.
uma dimensão soci~l: a perspectiva da e>ctensão. O c~nhecimento só se O conhecimentO é, pois, elemento específico fundamental na cons-
legitima se for mediação da intenciona1ida~e da existência histórico-so- trução do destino da humanidade. Daí sua relevância e a importância
I
,I
I
METODOLOGIA DO TItAflAlltO ClENT1FlCO 29
28 Al'ITO~O JOAQlJIM SEVERINO

, da educação, uma vez que sua legitimidade nasce exatamente de seu investigações possam se traduzir em contribuições para a mesma, o que
vínculo íntimo com o conhecimento. De modo geral) a educação pode vai se realizar através das atividades de extensão.

--I seI lI1eSIliO-COnteltuaâa como O processo mediante o qual o conheci.


mento se produz, se reproduz) se conserva, se sistematiza, se organiza, 1.3.2. Da impropriedade da UniversIdade só se dedicar
se transmite e se univcrsaliza. E esse tipo de situação se caracteriza en-
.1
ao ensino ...
tão, de modo radicalizado, no c~so da educação universitária.
A pesquisa é co-extensiva a todo o tecido da instituição universitá. A implantação em nosso pais de escolas superiores totalmente desequi-
~L.' _. ~.. _ _ _ __ • _ . -- _ - - __ . -~- - _.._A. _

: .. 'T'--c
que seja mtegrada num sistema articulado. Tanto quanto o ensino, a
pesquisa precisa ser organizada no interior da Universidade. Cabe assim
r
pesquisa, destinadas, de acordo com a proclamação
profissionalizar
corrente, apenas a
mediante o repasse de informações, de técnicas e habili-
aplaudir as Universidades que ultimamente vêm buscando oferecer con- tações pré-montadas, testemunha o profundo equívoco que tomou conta
dições objetivas para a instauração de wna tradição de pesquisa, seja da educação superior no Brasil. Na realidade, tal ensino superior não
mediànte alguma forma mais sistemática de efetivo apoio à formação profissionaliza, não forma, nem mesmo transmite adequadamente os co-
pó.s-graduada de seus docentes em outras instituições, seja mediante a nhecimentos disponíveis no acervo cultural. Limita-se a repassar infor-
criação de instâncias internas de incentivo 'p-lan~ei.am.en.to...~cnor.de.naççã",o:>- Jf]lações fragmentadas e a confe~ir uma certificação burocrátic:,t~ªl +- _
da pesquisa, seja mediante a implantação de cursos de pós-graduação de uma determinada habilitação, a ser, de fato, testada e amadurecida
stricto sensu e de Programas de Iniciação Científica, seja ainda tornan- na prática. Sem dúvida, a habilitação profissional que qualifica hoje o
do exigência curricular a atividade de elaboração de Trabalhos de Con- trabalhador para a produção, no contexto da sociedade atravessada pela
clusão de Curso. terceira revolução industrial, era da informatização generalizada, precisa
Urna Universidade efetivamente comprometida com a proposta de ir além da mera capacitação para repetir os gestos do taylorismo clássico.
criação de uma tradição de pesquisa não pode mesmo deixar de investir Hoje a atuação profissional, em qualquer setor da produção econômica,
na formação continuada de seus docentes como pesquisadores. Por ou- exige capacidade de. resolução de problemas, com criatividade e riqueza .~

tro lado, não poderá deixar de colocar os meios necessários em termos de iniciativas, em face da complexidade das novas situações. i
de condições objerivas e de infra-estrutura técnica, física e financeira, Desse modo, O ensino superior entre nós. lamentavelmente, não está
j
para que P?s~"aatingir esse fim. Na verdade,"cabe:!hc delin.ear uma po- c;Ç>llseguindocumprir nenhuma 'de suas atribuições intrínsecas. Desempe-
lítica de pesquisa no âmbito da qual possam ser el;borad~s e d'~envo]- nb.ando seu papel quase"que exclusivamente no nível burocrático-formal,
vidos pla"nos, programas e projetos de pesquisa. só pode mesmo reproduzir p'srelações sociais vigentes na sociedade pelo
Por outro lado. pesquisa básica ou aplicada', não se pode perder de repasse mecânico de técnicas de produção e de valores ideologizados.
: vista q"ue ela precisa ser relevante: daí a necessária atenção ao campo O ensino superio~ assim conduzido, está mesmo destinado a fra-
de seus objetos. De modo especial, a identificação dos problemas que cassar. Tudo indica que a grande causa da ineficácia do ensino uruver- ;
digam respeito à comunidade próxima, de modo que os resultados das sitário, no seu processo interno, com relação ao atingimento de seus J
METODOLOGIA DO TRABALHO CIENTlFico 31
30 ANFONlO JOAQUIM SEVERINO
',....-,

objetivos, tem a ver fundamentalmente com esta inadequada forma de se diferencia de uma Instituição Assistencial. O que está em pauta, em

.~
se lidar com o conhecimento, que é tratado como se fosse mero produto
, verdade, é que sua atividade de ensino, mesmo quando se trata de uma
e não um processo. simples faculdade isolada, deve ser realizada sob uma atitude investiga-
Sem dúvida, a prática da pesquisa no âmbito do trabalho universi- tiva, ou seja, sob uma postura de produção de conhecimento. É claro
tário contribuiria significativamente para tirar o ensino superior dessa .j que isto vai custar mais do que colocar milhares de professores fazendo
sua atual irrelevância. É bem verdade que a ausêncÍa de tradição de 'I conferências para milhões de ouvintes passivos, que pouco ou nada vão
aproveitar do que estão ouvindo, independentemente da qualidade ou
pesquisa não é a única causa da atual situação do ensino universitário.
Há causas mais profundas, decorrentes da própria política educacio-
nal desenvolvida no país que, aliás, já explicam a pouca valorização
i do mérito daquilo que está sendo dito ... Mas, não vai custar o mesmo
que custa um Instituto de Pesquisa, com o qual a Universidade não está
da própria pesquisa como elemento integrante da vida universitária. I competindo, concorrendo, no mau sentido.
Tenho por hipótese, no entanto, que a principal causa intramuros do I
i
fraco desempenho do processo de ensino/aprendizagem do ensino su- i 1.3.3. Da necessIdade do envolvImento da UnIversIdade
com a extensão
perior brasileiro parece ser mesmo uma enviesada concepção teórica e
uma equivocada postura prática, em decorrência das quais pretende-se I A Universidade não é Instituto de Pesquisa, no sentido estrito, mas nem
lidar, com o conhecimento sem construí-lo efetivamente, mediante uma
atitude sistemática de pesquisa, a ser traduzida e realizada mediante por isso pode desenvolver ensino sem adotar uma exigente postura inves-
procedimentos apoiados na competência técnico-científica. tigativa na execução do processo ensino/aprendizagem; também não é
Muitos teóricos, especialistas em edu- Instituição de Assistência Social, mas nem por isso pode desenvolver suas
Em Quaiqu~r das -moda-lidadeSdé ... atividades de ensino e pesquisa sem se voltar de maneira intencional para
cação, assim como muitas autoridades da peffls d~ !~_S:tfiúiçãóurivefs~r'ia:_~.
área, não conseguem entender a necessida- q,€nslno, j:}ara_ter eficâçia-e .:_Y:::~ .. a sociedade que a envolve. A única exigência é que tudo isso seja feito a
: ~qualldadé:'requér sempre 'umi-'
de da postura investigativa como inerente : ":peqagógia furi8àda mú:na 'Postura' partir de um sistemático processo de construção de conhecimento,
ao processo do ensino. Daí inclusive de- :,.in.vestiga~ .. '_ ,',." - •. A extensão se torna exigência intrínseca do ensino superior em de-
fenderem a existência de dois tipos de uni- corrência dos compromissos do conhecimento e da educação com a so-
versidades: as universidades de ensino e as ciedade, uma vez que tais processos só se legitimam, inclusive adquirin-
l}niversidades de pesquisa. Esse ponto de vista vem sendo vitorioso no do sua chancela ética, se expressarem envolvimento com os interesses
contexto da política educacional brasileira, eis que a nova LDB consa- objetivos da população como um todo. O que se desenrola no interior
grou, dando-lhe valor legal, essa dicotomia. Assim, os Centros Univer- da Universidade, tanto do ponto de vista da construção do conhecimen-
to, sob O ângulo da pesquisa, como de sua transmissão, sob o ângulo do
-
c

sitários, por exemplo, deverão cuidar apenas de ensino, enquanto as


Universidades cuidariam de ensino e pesquisa. ensino, tem a ver diretamente com os interesses da sociedade.
Não se trata de transformar a Universidade em InstÍtuto de Pesqui- À medida que privilegia o ensino transmissivo, a Universidade des-
sa. Eh tem natureza diferente do Instituto de Pesquisa tanto quanto ela prioriza não só a pesquisa mas também a extensão. Na verdade, esse
32 A:-rrONlO JOAQUIM SEVEl'UNO
'r- I

I
METODOLOGIA DOTlV.SA.(J-lOar~'lTIrrco 33

I
I
centralismo no ensino comete dois graves equív,QCOS: um, epistemológi- j qualificando-o para ser um competente profissional, isso não é suficien-
,i, co, ao negligenciar a exigência da postura investigativa, c ouero, social, I tc. Ele nunca sairá da Universidade apenas como um profissional, como
~I ao negligenciar a ex.te_nsão..~ed.agóg.iCQ-nãG-se-susten£g-sem~.es~[~e-s--~---u-m~p"u"r"o'"""a=g=en=t;;e;-;:recmco. le será necessariamente um agente político,
"

i
dois pilares. um cidadão crítica ou dogrnaticamente, consciente ou alienadamente
"
Com efeito, é graças à extensão que o pedagógico gan,ha sua di- formado ..
mensão política, porque a formação do universitário pressupõe também A extensão se relaciona à pesquisa, tornando-se relevante para a
uma inserção no social, despertando-o para o entendimento do papel de produção do -conhecimento, porque .esta.produção deve -ter..como refe-
todo saber na instauração do social. Ejg;_q_não se__
dá_a enas_ ela. rnc.___ -- -- -- ---
- laça0 o co~~eito~-em-que ~;;;-imprescin:dibilidadc-do-saôcrteorlco vida -cia-sociedad~ envolvente. A relevância temática dos objetos de pes-
sobre a dinâmica do processo e das .relações políticas. É que se espera quisa é dada pela significação social dos mesmos. É o que garante que a
do ensino superior não apenas o conhecimento técnico-científico, mas pesquisa não seja desinteressada ou neutra ...
também uma nova consciência social por parte dos profissionais forma- Por sinal, a prática da extensão deve funcionar como cordão um-
dos pela Universidade. A formação universitária, com efeito, é o [oeus bilical entre a Sociedade e a Universidade, impedindo que a pesquisa
mais apropriado, especificamente destinado para esta tomada de cons- prevaleça sobre as outras funções, como função isolada e altaneira na
ciência. Só a pedagogia universitária, em razão de suas características -------------------------t----
sua proeminêfl.!:~i..ªa~.
. ~e mterpelar o Jovem quanto ao necessário compromisso É no contexto dessas colocações sobre a natureza do conhecimento
político. Esta interpelação se dá pelo saber, eis que cabe agora ao saber e do caráter práxico da cultura que se tornam claros os compromissos
equacionar o poder. éticos da educação e dos educadores, bem como das instituições uni-
Deste modo, a extensão tcm grande alcance pedagógico, levando o versitárias. Compromissos que se acirram nas coordenadas histórico-
jovem estudante a vivenciar sua realidade social. É por meio dela que o sociais em que nos encontramos. Isto porque as forças de dominação,
sujeito/aprendiz_irá formando sua nova consciência social. A ex:tensão de degradação, de opressão e de alienação se consolidaram nas estrutu-
cria então um e$paço de formação pedagógica, numa dimensão própria ras sociais, econômicas e culturais. As condições de trabalho são ainda
e insubstituÍvel. muito degradantes, as relações de poder muito opressivas e a vivência
Quando a formação universitárja se Ii- cultural precária e alienante. E a distribuição dos bens naturais, dos
mita ao ensino como mero repasse de in- bens políticos e dos bens simbólicos é muito desigual. f
formações ou conhecimentos está colocan- "j,
'.
do o saber a serviço apenas .do fazer. Eis aí CONCLUSAO De todas estas consideraçõ~, impõe~se concluir que as fun-
a idéia impl~cita quando se vê seu objetivo ções da Universidade - ensino, pesquisa -eextensão - se articulam intrin-
i
apenas como profissionalização. Por me-
II lhor que seja o domínio que se repassará ao
secamente e se implicam mutuamente, isto é, cada uma destas funções
só se legitima pela vinculação direta às outras duas, e as três são igual-
II universitário dos conhecimentos científicos e das habilidades técnicas, mente substantivas e relevantes.
:1
I,.
I!
\:-
34 ANTONIO JOAQU'lM Sl:VElUNO METOOO1.QÇJA DOTRABAlJiO aENTtFlCO 3S

Com efeito, a pesquisa é fundamental, à prática da pesquisa e à prática do ensino, não se legitimaria então, se
uma vez que é através dela que podemos não decorresse do conhecimento sistemático e rigoroso dos vários pro-
gerar o conhecimento, a ser necessariamen- blemas enfrentados pelas pessoas que integram determinada sociedade
te entendido como construção dos objetos ou parte dela.
de que se precisa apropriar humanamente.
Consu:uir o objeto que se necessita conhecer
é processo condicionante para que se possa
Ainda que formalmente
na interior
se imponha,
da institUlçao univcrsItana,
divisão técnica entre estas funções, elas se
implicam mutuamente. Não haveria o que
a

I ,
i:

I
exercer a função do ensino, eis que os processos de ensino/aprendizagem
pressupõem que tanto o ensinante como o aprendiz compartilhem do ensinar e nem haveria ensino válido se o
processo de produção do objeto. Do mesmo modo, a pesquisa é fun- conhecimento a ser ensinado e socializado
damentai no processo de extensão dos produtos do conhecimento à não fosse construído mediante a pesquisa; mas, não haveria sentido em
sociedade, pois a prestação de qualquer tipo de serviços à comunida- pesquisar, em construir O conhecimento novo, se não se tivesse em vista :I
f :
de sócial, que não decorresse do conhecimento da objetividade dessa o benefício social do mesmo, a ser realizado através da extensão, direta t ,
< '
comunidade, seria mero assistencialismo, saindo assim da esfera da ou indiretamente. Por outro lado, sem o ensino, não estaria garantida a f
competência da Universidade. disseminação dos resultados do conhecimento produzido e a formação ,
I
_., I

Por outro lado, O conhecimento produzido, para se tornar ferra- dos novas aplicadores desses resultados. i;
menta apropriada de intencionalização das práticas mediadoras da A extensão como mediação sistematizada de retorno dos benefí-
existência humana, precisa ser disseminado e repassado, colocado em cios do conhecimento à sociedade exige da comunidade universitária
condições de unive.rsalização. Ele não pode ficar arquivado. Precisa en- imaginação e competência com vistas à elaboração de projetos como \
tão transformar-se em conteúdo dc ensino, de modo a assegurar a uni- canais efetivos para este retorno. Chega a ser um escárnio e, no fundo, ~
,
•,
versalização de seus produtos e a reposição de seus produtores. Tal a uma tremenda injustiça, a omissão da instituição universitária em dar
função do ensino. um mínimo que seja de rerorno social ao investimentO que a socieda- ,
I 1.
Mas os produtos do conhecimento, instrumentos mediadores do de faz nela. Este retorno deveria se dar mediante O desenvolvimento
li,. existir humano, são bens simbólicos que precisam ser usufruídos por de projetos de grande alcance social, envolvendo toda a população ~,
todos os integrantes da comunidadc, à qual se vinculam as instituiçÕes universitária do país. E isto deveria ser fcito de modo sistemático e '.
produtoras e disseminadoras do conhecimento. É a dimensão da exten- competente, não se tratando de iniciativas de caráter compensatório, ~:
;£,.
são, devolução direta à mesma dos bens que se tornaram possíveis pela de cunho assistencialista.
<1~
pesquisa. Mas, ao assim proceder, devolvendo à comunidade esses bens Por outro lado, a extensão tem que ser intrínseca ao exercício peda-

gógico do trabalho universitário. Não se trata de uma concessão, de um
?~
a Universidade o faz inserindo o processo extensionista num processo f
pedagógico, mediante o qual está investindo, simultaneamente, na for- diletantismo, mas de uma exigência ~o processo formativo. Toda institui- I:" ,
ção de ensino superior tem que ser extensionista, pois só assim ela estará
mação do aprendiz e do pesquisador. A função extensionista, articulada ,i
!

II "
I
I ! lf

36 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO

dando contá da formação integral do jovem universitário, investindo-Q CAPíTULO 11


pedagogicamente na construção de sua nova consciência social.
pressar a g@ll@sedC--p-repóSt
social, buscando e sugerindo caminhos de transformação para a socie- o TRABALHO ACADÊMICO:
dade. Pensar um novo modelo de sociedade, nos três eixos das práticas ORIENTA(:ÕES GERAIS
humanas: do fazer, do poder e do saber, ou seja, levando a participação
formativa dos universitários no mundo da produção, no mundo da po-
PARA O ESTUDO
litica e no mundo da culturª~ó_as.sim o_conhe.cimento--f:S.tará_ 5e---GQ.l-.-
cando a serviço destas três dimensões mediadoras de nossa existência.
E só assim a universidade estará cumprindo a sua missão.

No ensino superior, os bons resultados do ensino e da aprendi-


zagem vão depender em muito do empenho pessoal do aluno no
cumprimento das atividades acadêmicas, aproveitando bem os
subsídios trazidos seja pela intervenção dos professores, seja pela
disponibilidade de recursos pedagógicos fornecidos pela instituição
de ensino. Para tanto, é muito importante que o aluno adquira há-
-.. o texto e o mundo. bitos apropriados e eficazes na condução ~e sua vida acadêmica.
Este capítulo destaca alguns pontos referer:tes às principaís -moda-
"... a leitura do mundo precede a leitura da palavra e a leitura desta im-
lidades de estudo, fundamentais para todos os. momentos de sua
plica a continuidade da leitura daquele .. ,. este movimento do mundo à
formação universitária. Após tratar da organização geral da vida
palavra e da palavra ao mundo está sempre presente. Movimento em que
de estudo, será dado destaque à leitura, à escrita e ao debate como
a palavra dita flui do mundo mesmo através da leitura que dele fazemos",
mediações imprescindíveis e valiosas para um bom aproveitamento
(Paulo FREIRE, A importância do ato de ler. São Paulo: CortezlAutores
dos cursos.
Associados, 1982. p. 22).

,
38 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO MEtODOLOGIA DO TRAJW.HO cIENTÍFIco 39

2.1. A ORGANIZAÇÃO DA VIDA UNIVERSITÁRIA de suas mãos. É com o auxílio desses instrumentos que o estudante
se organiza na sua vida de estudo e disciplina sua vida científica. Es-
Ao iniciar essa nova etapa de sua formação escolar, a etapa do en- te material didático e científico serve de base para o estudo pessoal e
sino superior, o estudante dar-se-á conta de que se encontra diante para a complementação dos elementos adquiridos no decurso do pro-
de exigências específicas para a continuidade de sua vida de estudos. cessO coletivo de aprendizagem em sala de aula. Dado o novo estilo
Novas posturas diante de novas tarefas ser-Ihe-ão logo solicitadas. de trabalho a ser inaugurado pela vida universitária, a assimilação de
Daí a necessidade de assumir prontamente essa nova situação e de conteúdos já não pode mais ser feita de maneira passiva e mecânica
tomar medidas apropriadas para enfrentá-la. É claro que o processo como costuma ocorrer, muitas vezes, nos ciclos anteriores. Já não bas~
pedagógico-didático continua, assim como a aprendizagem que dele de- ta a presença física às aulas e o cumprimento forçado de tarefas me-
corre. No conjunto, porém, as suas posturas de estudo devem mudar cânicas: é preciso dispor de um material de trabalho espedfico de sua
radicalmente, embora explorando tudo o que de correto aprendeu em área e explorá-lo adequadamente.
seus estudos anteriores.
Em primeiro lugar, é preciso que o es-
A apr~ndilagéní, e~hí~~i
' 2.1.1. Os instrumentos de trabalho
tudante se conscientize de que doravante o universitlrio. "sóse"-(~aülá
resultado do processo depende fundamen- mediante o esForço.--
individualizadoe autó~omo ," A formação universitária acarreta quase
talmente dele mesmo. Seja pelo seu próprio Essaf~nd~~~rÍtatão teóricadas '.
do"aluno, sempre atividades práticas, de laboratório , 'dências: das artes e das"téCncis
desenvolvimento psíquico e intelectual, seja ou de campo, culminando no fornecimento éjuStificatNa essencial desse nível
de ~nsino. ~ é por ai que se inida
pela própria natureza do processo educa- de algumas habilidades profissionais pró- . a ta(efa de aprendizagem na ~
l ...
cional desse nível, as condições de aprendizagem transformam-se no prias de cada área. Naturalmente, as várias , ~nivers!daq~.

sentido de exigir do estudante maior autonomia na efetivação da apren- áreas exigem, umas mais, outras menos, es-
i:1
dizagem, maior independência em relação aos subsídios da estrutura do sa prática profis~ional. Contudo, antes de aí chegar, faz-se necessário
ensino e dos recLUSOS
institucionais que ainda continuam sendo ofere- um embasamento teórico pelo qual responde, fundamentalmente, o en-
cidos. O aprofundamento da vida científica passa a exigir do estudante sino superior.
uma postura de auto-atividade didática que precisa ser crítica e rigo- A assimilação desses elementos é feita através do ensino em classe
rosa. Todo o conjunto de rec.ursos que está na base do ensino superior propriamente dito, ~as aulas, mas é garantida pelo estudo pessoal de ca-
não pode ir além de sua função de fornecer instrumentos para uma da estudante. E é" por isso que precisa ele dispor dos devidos instrumentos
atividade criadora. de trabalho q~e, em nosso meio, são funda.~entalmente bibliográficos.
Em segundo lugar, convencido. da especificidade dessá situação, Ao dar irúcio a sua vida universitária, o estudante precisa começar a
deve o estudante empenhar-se num projeto de trabalho altamente in- formar sua biblioteca pessoal, adqu{rindo paulatinamente, mas de ma-
dividualizado, apoiado no domínio e no manejo de uma série de ins- neira bem sistemática, os livros fundamentais para O desenvolvimento
trumentos que devem estar co'ntÍnua e per:manentemente ao alcance de seu estudo. Essa biblioteca deve ser especializada e qualificada. As
• l##,
, i
';0 ANTÓNIO JOAQVI.'ol SEV£RR.IO l METOOOLOCIII DO TRABALHO ClE.NTIRCO 41 I
I
J
obras de referência geral, os textos c1ás~icos
.com a reVqlueão da inform:itia,
I saS elaboradas pelos vários especialistas com os quais o estudante deverá
1
esgotados, são encontrados nas bibliotecas dispomos hoje. a1éÕ\das ••. ,'
conviver por muit9 tempo. Numa fase mais avançada de seus estudos, e
----iIL-----da '-s-universidauer,dn>'ânas faculãaãcs ou bibliOteCas fiSiciS tl"adiêlôõais;:...: t sobrerodo durante sua vida profIssional, esses textos formarão a bibliote-
de 'bibliotecas virtUais.'POdetôsos :1
1 de Outras instituições. . cel)D"OS de inforrnacóes . •.. _. Cado estudante, lançando as linhas mestras do seu pensamento científico
E, no momento oportuno, essas bibliote- . bibliogrãflC3S. ê!cessive1s atr'avés ' organicamente estruturado. Nesse momento, os textos introdutórios só
da In,temeL E deSd~ié oiécisO ':
cas devem ser devidamente exploradas pelo lembrarQUefIlOOao~. >..:' serão utilizados para cobrir eventuais lacunas do processo seqüencial de
mas nãl)ml.J(b a' finaf!dade dos ".'
estudante. O estudanre precisa munir-se de setviços de bib/lo~eea'. ',' . aprendizagem. Frise-se, porém, que, na universidade, não se pode passar
textos básicos noc~ A.D<".A~_Á. _ u u u~ -~

pecífica, tais como um dicionário , um texto ções, ~bora) pelo menos nas aruais condições, iniciar o curso superior
introdtttório, um texto de história, algum possível tratado mais amplo, al- única e exclusivamente com textos especializados, sem nenhwna prope-
gumas revistas especializadas, todas obras específicas à sua área de esrudo dêutica teórica, seja um empreendimento de resultados pouco convincen-
e a áreas afins. Posteriormente, à medida que o curso for avançando, deve tes. Embora essa concepção de muitos professores universitários decorra
adquirir os textos monográficos e especializados referentes à matéria. do esforço para criar maior rigor científjco, tal prática não se recomenda
Esses textos básicos aqui assinalados têm como norma geral. Seus resultados históricos são, em alguns casos) bri-
por finalidade única criar um COntc.x"!Oum :-A_atMdad._ •. llÓ<En ••... "'_ .. -<_ -:.-_',,'
-ci- Jllhantes) £----
maSnno b-d T - ~ multaS
11os com sacr"oo..ue - porenm,~ -j;-'ia<
"lcs-qu.o----f----
. ,u~êõõ5tffi:ií. "-,.":,
quadro teórico geral a partir do qual se po- ':~pfOásciã'~iS$ão~eciniCa',.1 se perderam neste salve-se-quem-puder que acaba agravando a situação
deinfcniiacóeS:elú. mufui m3is 1
de desenvolver a aprendizagem, assim como ,ulnaâtividadede~o,;.: ~ . : de discriminação e de seleção de nosso ensino superior. O universitário
a maruração do próprio pensamento. Esses deve poder passar por um encaminhamento lógico que o inicie ao pensar)
textos exercem, portamo, papel meramente por mais que o professor não goste de executar essa tarefa. Ao profes-
/.
propedêutico, situando-se numa etapa provjsória de jniciação. Não,se tra- sor não basta ser um grande especialista: é preciso dar-se conta de que é
ta de maneira alguma de restringir o estudo aos manuais ou, pior ainda, também um professor e mestre, conseqüentemente, um educador inserido
l-
às apostilas. Eles se fazem necessários, contudo, nesse momento de ini- nwna situação histórico-cultural de um país que não pode desconhecer. i
Isto não quer dizer que o professor sabe tudo: mas que deve saber, pelo ~
ciação, sobretudo para complementar as exposições dos professores em
classe, para servir de base de comparação com algum texto porventura menos, conduzir os alunos a descobrirem as vias de aprendizagem. O uso
I.
utilizado pelos professores, enfim, para fornecer o primeiro instrumental inteligente desses textos auxiliares não prejudicará, em hipótese alguma,
I " de trabalhq nas várias nreas, o vocabulário básico, os elementos do código a qualificação do ensino.
das'várias disciplinas. Esses textos desempenham, pois, o papel de fontes A esta altura das consideraçõ~s sobre os instrumentos de trabalho

I
I,
de consultas das primeiras categorias a partir das quais se desenvo(v~rão
os vários discursos científicos. Naturalmente, à medida do avanço e do
de que o estudante universitário de;ve munir-se, é preciso dar ênfase às
revistas, as grandes ausentes do dia-a-dia do trabalho acadêmico em

I aprofundamento do estudo) serão progressivamente substituídos pelos


textos especializados, pelos estudos monográficos resultames das pesqui-
nossO meio universitário. A assinatura de periódicos especializados é há-
bito elementar para qualquer estudante exigente. Tais revistas mantêm
,
I'

..--: I~
'.
c

'42 ANTONIO JOAQUIM SEVElUNO METODOLOGIA DOTRAMUiO aENTtFlco <43

atualizada a informação sobre as pesquisas defme °


núcleo central de sua especializa-
que se realizam nas várias áreas do saber, ção é de se nocar que sua formação exigi-
l

assim como sobre a bibliografia referente às rá igualmente abertura c;lecomplementação


mesmas. Em algumas áreas, acompanham para áreas afins com o objecivo de ampliar
essas revistas repertórios bibliográficos, ou- o referencial teórico. Por isso é importan-
tro indispensável instrumento do trabalho te familiarizar-se com o material relativo a
científico. A função da revista enquadra-se na vida intelectual do es- essas disciplinas afins. Assim, não só cex-
tudante enquanto lhe permite acompanhar O desenvolvimento de Sua toS básicos, mas também revistas de áreas
ciência e das ciências afins. complementares à da sua especialização, devem, paulatina e siscemati-
Com efeito, ao fazer o curso superior, o estudante é levado a tomar camente, ser adquiridos, na medida do possível.
conhecimento de todas as aquisições da ciência de sua especialidade, ob- Dentre os instrumentos para O trabalho científico dispo,níveis atu-

tidas durant~ toda sua formação. Esse acervo culnrral acumulado, porém, almente, cabe dar especial destaque aos recursos eletrônicos gerados
pela tecnologia informacional. De modo especial, cabe referir à rede
continua desenvolvendo-se dinamicamente. Por isso, além de asslmilar
mundial de computadores, a Internet, e aos muitos recursos comunica-
essas aquisições, deve passar a seguir sua solução, que estaria a cargo ,j •
cionais da mulcimídia, como os disquetes e CD-ROMs. Também sobre " .
dessas publicações periódicas. O mínimo que wna revista fornece são '1 .
o uso desses recursos se falará adiante, subsidiando o estudante para 'I
informações bibliográficas preciosas, além de resenhas e de outros dados f¥
utiüzá-los adequadamente. (p. 136-142)
sobre a vida científica e cultural. Deve ser iguahnente estimulada entre os
:1
universitários, de maneira incisiva, a participação em acontecimentos ex- 'I1,.
2.1.2. O aproveitamento das aulas
tra-cscolares, tais como simpósios, congressos, encontros, semanas etc. I~.
f;
Graças às informações trazidas pelo curso, às indicações dos profes-
sores, ao intercâmbio acadêmico e aos programas de busca na Internet,
Esse material didácico científico deve ser considerado e cratado pelo 'II:
estudante como base para seu estudo pessoal, que complementará os ,(
os estudantes poderão conhecer os periódicos, nacionais c estrangeiros,
dados adquiridos através das atividades de classe. Uma vez documen- 1
representativos de sua área de estudo. É de todo recomendável a assi-
tada a matéria abordada em aula, devem ser igualmente documenta-
natura de algum periódico específico de seu campo de conhecimento e
dos os elementos complementares a essa macéria e que são levantados
formação.
mediante a pesquisa feita sobre este material de base. É que mui-
Quando se fala aqui desses instrumentos teóricos especializados,
tos csclarecirnenros só se encontram atra vés desses estudos pessoais
livros ou revistas, considerados como base para o estudo, e pesquisa
extra classe. As técnicas e a prática da documentação são expostas na
dos fatos e categorias fundamentais do saber atual, não se quer fazer
próxima seção. I
apologia da hiperespecialização, hermética e isolada. Pelo contrário, a
interdisciplinaridade é um pressuposto básico de toda formação teórica. \
!~

\
As disciplinas não se isolam no contexto teórico: se o curso do aluno I Cf. p. 66.74.
jl
"

i I
I •••• ------------------------------- ••••••••••••
;;,;;;;;;;o---==d~'
I
,
44 ANTÓNIO JOAQUL\Il SEVERlNO Jl,IETODOLOGIA DO ~BAl.HO CIENTIFICO 45 I

A documentação como prática do trabalho científico é a maneira Ao ir registrando essas categorias, deve-se separá-las por barra
mais adequada e sistemática de "tomar apontamentos". As informa- transversal/o Ao retomar, em momento posterior, esses aponta~entos,
as aulas expositivas, nos deBates em grupo, nos seminá- o ouvinte que esteve atento conseguirá recompor a síntese relevante do
rios e conferências são assinaladas, num primeiro momento, de maneira discurso, bem em cima do eixo essencial da reflexão.
precária e provisória, nos cadernos de anotações. Ao retomar, em casa, Tratando-se de dados objetivos ou de conceitos precisos que fi-
as anotações, o estudante submetê-Ias-á a um processo de correção, de caram incompletos, é hora de recorrer aos instrumentos pessoais de
i

• complementação e de triagem após o qual serão transcritas nas fichas


,duocum.e1tta ã _L
ção, muitas idéias acabam ficando truncadas: é preciso reconstruí-las.
.
pesquisa, às obras b~sic~:
---------text~:~~~lementando-o
_refer~nc~~~r~~_~ra-seaS?}!!1_!.t:~?}~QQor
_q_
com esclarecimentos pertinentes que vão aju-
dar a compreender melhor as informações prestadas. Recuperadas as
f

O contexto ajudará tanto mais que o que im_ porta reter não é o texto da fu d . I
informações, os elementos TI amentals, aque es que merecem ser as-
exposição do professor, mas as idéias principais. d
similados, são passados para as fichas de documentação, sintetiza os I'
Cabe lembrar que para tomar notas de
pessoalmente pelo aluno.
uma aula, de uma palestra, de um deba-
,.-DocumentLIriregis6--a;c;.;, ':::
.' .' . ". I
-' elem.entoscolhidos,median~e", " Observe-se que ao proceder assim o aluno está trabalhando de manei-
te, não é preciso gravar a exposição nem atividãde de estvdo,oú pesqúiscl' .

taquigrafar o discurso feito, alavra or 'dasdive~sasfonte~.-> "J' - ra inteligente e racional, realizando simultaneamente todas as dimensões
da Não há, nesses casos, necessidade
pa Iavra. aprendizagem. Em nenhum momento está preocupando-se com o "de-
de registrar o texto integral da fala, pois tal tarefa, além de difícil tec- corar", com o "memorizar" ... Está tão~somente pensando nas idéias que
nicamente, atrapalha a concentração do ouvinte para pensar no que está manipulando. Está pensando à medida que se esforça para construir
está sendo dito. o sentido dos conceitos ou das idéias em jogo. Está ainda pesquisando,
O que melhor se faz é ir registrando palavras ou expressões que comparando, informando-se. Através desse conjunto de atividades que
traduzam conteúdos conceituais, geralmente categorias substantivas ou envolve com o pensamento, facilitando as tarefas físicas e psíquicas do I

verbais. Portanto, vai-se registrando urna seqüência de categorias, sem estudo, o aluno adquire maior familiaridade com o assunto por mais di-
a estruturação lógico-redacional explícita da frase. Não é preciso preo~ fícil e estranho que possa parecer à primeira vista. Ademais não é preciso
cupar-se com a falta do texto completo nem com a ausência de muitos esperar que domine já dessa feita todo o conteúdo e seus desdobramentos.
dos detalhes da exposição do professor ou. do palesttante. ~ preferível O próprio desenV:-0lvimento
do curso e esse sistema de docwnentação irão
e mais 'diciente concentrar-se nas idéias fu~dame~i:ais, procurando ex- lhe proporcionar outras oportunidades para a retomada desses temas que,
pressá-las mediante algumas categorias básicas e. investi~na compreen- nas sucessivas apresentações, já estarão cada vez mais familiares.
são, na apreensão das idéias do orador. A orientação para a revisão da matéria vista em aula pode ser adap-
tada às outras situações criadas para o estudante no caso da participa-
46 ANTONIO JOAQlIfM SEVERINO 47

ção do trabalho em grupo, J da prepara.ção do seminário4 e da elabora-


ção do trabalho de pesquisa.5 Nessas situações, o procedimento básico
de estudo é o mesmo, apesar das diferenças de objetivo. O estudante
analisa o material proposto fazendo as devidas anotações sob forma de
documentação.6
-- .,

1
-'-'",

2.1.3. A disciplina do estudo

Apesar da aparente rigidez desta proposta de metodologia de estudo,


ela é, sem dúvida, a mais eficiente. Pressupõe um mínimo de organiza-
ção da vida de estudos, mas, em compensação, torna-se sempre mais
produtiva. Em virtude de os universitários brasileiros, na sua grande ~.

maioria, disporem d_epouco tempo para seus cursos e exercerem fun-


ções profissionais concomitantes ao Curso superior, exige-se deles orga-
II
~.~
nização sistemática do pouco tempo disponível para o estudo em casa,
indispensável para um aproveitamento mais inteligente do seu curso de
%,:.:r..;~.2
~
o ~
".
o o
,.
graduação, com um mínimo de capacitação qualitativa para as etapas Xiu
::>
posteriores tanto numa eventual seqüência de seus estudos, como na ~
continuidade de suas atividades profissionais definidas e oficializadas
i pelo seu curso.
i Não se trata de estabelecer uma minuciosa divisão do horário de
:1
estudo: o essencial é aproveitar sistematicamente o tempo disponível,
I com uma ordenação de prioridades. Também não vem ao caso discu-
il tir as condições de ordem física e psíquica que sejam melhores para
ii'! o estudo, m~ito dependentes das características pessoais de cada um,
sendo difícil estabelecer normas gerais que acabam caindo numa tipo-
logia artificial.

3 d. p. 48-49.
4 Cf. p. 96-97.
5 Cf. p. 133ss.
6 Cf. p. 66-67.
Figura 1. Fluxograma da vida de estudo.
r
48 ANTONIO JOAQlJl."l SEVElUNO METODOLOGIA DO TRABALHO oENT1FlCO 49

Feito o levantamento do tempo dispo- dido" no meio de informações aparentemente dispersas. Tratando-se de
nível, predetermina-se _um horário para o
----1----""'"'''''' .rdo_<lD..-casa.Luma_vez-e"""belec-i<le-e
Para QU~Íraga borls' i~
, ',' ,. . -
...
, a 'partidoocào na aula preds3 ,. ,
seminários ou debates, mais necessária se faz ainda a preparação prévia
-7."-.""'---'---'d"o'-;;q"ucPe's"'e-tfat'ã"fá uhenormenle.
í
horário, é necessário começar sem muitos
• 'ser~~~~.
acomD2nháda no ato e revisada . "f
. ~.~te ..faz.~o-~~a. A revisão da aula situa-se como a primeira etapa de personalização
rodeios c cumpri-lo rigorosamente, man. documentaç;10dos elementos da matéria estudada. É o momento em que se retOmam os apontamen- I
fuOOáment3is'aoresentadose.
tendo um ritmo de estudo. Vencida a fa- eflscut:ldOS,defonnáãitlanadá-'. toS feitos apressadamente durante a aula e se dá acabamento aos infor-
se de aquecimento e seguindo as diretrizes ãP~racaod3~úiasegtiinte~ " mes, recorrendo-se aos instrumentos complementares de pesquisa, após
. ap!~.sentada~ para a c.xploraç.ão .do material _ • _L ~"... - .' ,. • . .. "_I. .
neste e nos próximos capítulos, a produção do trabalho torna-se efi- de documentação. Não há necessidade de decorar os apontamentos:
ciente, fluente e até mesmo agradável. basta transcrevê-los, pensando detidamente sobre as idéias em causa e
Tais diretrizes são aplicáveis igualmente ao estudo em grupo. Uma buscando uma compreensão exata dos conteúdos anotados. Rever es-
vez reunidos no horário combinado, os elementos do grupo devem de- sas fichas como preparação da aula seguinte é medida inteligente para
sencadear o trabalho sem maiores rodeios, definindo-se as várias tarefas, o paulatino domínio de seu conteúdo.
as várias etapas a serem vencidas e as várias formas de procedimento.
,•
Quando o período de estudo ultrapassar duas horas, faz-se regra
geral um mtervalo de meia hora para alteração do ritmo de trabalho. 2.2. LEITURA E DOCUMENTAÇÃO
Esse intervalo também precisa ser seguido à risca.
Recomenda-se distribuir um tempo de estudo para os vários dias 2.2_1.Diretrizes para a leitura, análise e Interpretação
da semana, com objetivo de revisar a matéria ou preparar aulas das de textos
várias disciplinas nos períodos imediatamente mais próximos às suas
aulas. Caso haja necessidade de um período maior de concentração, a Os maiores obstáculos do estudo e da aprendizagem, em ciência e
distribuição do tempo para as várias matérias levará em conta a carga em filosofia, estão diretamente relacionados com a corresponden-
de trabalho de cada uma e o grau de dificuldade das mesmas. te dificuldade que o estudante encontra na exata compreensão dos
textos teóricos. Habituados à abordagem de textos literários, os e;-
CONCLUSAo Para acompanhar o desenvoJvimento do seu curso, O aluno tudantes, ao se defrontarem com textos científicos ou filosóficos, en-
çieve preparar e rever aulas. O cronog:ama de estudo possibilita ao alu- contram dificuldades logo it.dga,dasinsuperáveis e que reforçam. uma
no maior proveitO da aula, seja ela expositiva, um debate ou um semi- atitude de desânimo e 'de des~canto, geralmen.té ac~mpan.hada de
nário. Tratando-se de aula expositiva, até a tomada de apontamentos um juízo de valor depreciativo em relação ao pensamento teórico.
torna-se mais fácil, dada a familiaridade com a matéria que está sendo í
exposta; conseqüentemente, há melhores condições de selecionar o que
é essencial c que deve ser anotado, evitando-se a sensação de "estar per- 7 Cf, p. 89-98.
,I.

50 ANTÔNIO JOAQUIM SEVUUNO
METODOLOGIA DO TRABALHO ClENTíFlco 51

Em verdade, os textos de ciência e de filosofia apresentam obstáculos


teoria geral da comunicação, estabelecen-
específicos, mas nem por isso insuperáveis. É claro que não se pode contar
do-se assim algumas justificativas psicoló-.
com os mesmos recursos disponíveis no estudo de textos literários, cuja
gicas e epistemológicas fundamentais para
leitura revela uma seqüência de raciocínios e o enredo é apresentado den-
tro de quadros referenciais fornecidos pela imaginação, onde se compre-
a adoção destas normas metodológicas e
técnicas, tanto para a leitura como para a
~:~~7!f~i~~=rd!f~;~7
ende o desenvolvimento da ação descrita e percebe-se logo o encadeamen-
redação de textos.
to da história. Por isso, a leitura está sempre situada, tornando-se possível
Embora sem aprofundar a questão do significado e função do texto
entender, sem maiores problemas, a mensagem transmitida pelo autor.
neste nível, que ultrapassaria os objetivos deste trabalho, serão apresen-
No caso de textos de pesquisa positiva, acompanha-se o raciàCÍnio
tadas aqui algumas considerações para encaminhar a compreensão dos
já mais rigoroso seguindo a apresentação dos dados objetivos sobre
vários momentos do trabalho científico.8
os quais tais textos estão fundados. Os ,dados e fatos levantados pela
Pode-se partir da consideração de que a comunicação se dá quando
pesquisa e organizados conforme técnicas específicas às várias ciências
da transmissão de uma mensagem entre um emissor e um receptor. O
permitem ao leitor, devidamente iniciado, acompanhar o encadeamento
emissor transmite uma mensagem que é captada pelo receptor. Este é o
lógico destes fatos.
Diante de exposições teóricas, como em geral são as encontradas
em textos filosóficos e em textos científicos relativos a pesquisas teó-
ricas, em que o raciocínio é quase sempre dedutivo, a imaginação e a
esquema geral apresentado pela teoria da comunicação.9
Para fins didáticos, pode-se desdobrar este esquema, o que fornecerá
mais elementos para a compreensão da origem e finalidade de um texto.

Com efeito, considera-se o emissor como uma consciência que trans-
experiência objetiva não são de muita valia. Nestes casos, conta-se tão-
mite uma mensagem para outra consciência que é o receptor. Portanto,
somente com as possibilidades da razão reflexiva, o que exige muita dis-
a mensagem será elaborada por uma consciência e será igualmente as-
ciplina intelectual para que a mensagem possa ser compreendida com o
similada por outra consciência. Deve ser, antes de mais nada, pensada e
devido proveito e para que a leitura se torne menos insípida.
depois transmitida. Para ser transmitida, porém, deve ser antes media-
Na realidade, mesmo tratando-se de assuntos abstratos, para o lei-
tizada, já que a comunicação entre as consciências não pode ser feita
tor em condições de "seguir o fio da meada" a leitura torna-se fácil,
diretamente; ela pressupõe sempre a rnediatização de sinais simbólicos.
agradável e, sobretudo, proveitosa. Por isso é preciso criar condições
Tal é, com efeito, a função da linguagem.
de abordagem e de inteligibilidade do texto, aplicando alguns recursos
Assim sendo, o texto-linguagem significa, antes de tudo, o meio in-
que, apesar de não substituírem a capacidade de intuição do leitor na
termediário pelo qu.ai duas consciências se comunicam. Ele é o código
apreensão da forma lógica dos raciocínios em jogo, ajudam muito na
que cifra a mensagem.
análise e interpretação dos textos.

Antes de abordar as diretrizes para a leitura e análise de textos,


8 Essa~considerações são v~litb.s também.para a c:Iaooraç:iiotb. monografia cientifica, entendida como um trabalho
recomenda-se atentar para a função dos mesmos em termos de uma de codificação de UllllI mensagem. Cf. esp«ialrnente Cap. IV. _ .
9 Cf. DANCE, F. E. (arg.). Teoria da comll.nkaçiio humana. Sao Paulo: Cultl"lJt,1973.
52 METODOLOGIA DO TIU\BALHO CIENTIFICO 53

Ao escrever um texto, portanto, o autor (o emissor) codifica sua


2a. "
o mensagem que, por sua vez, já tinha sido pensada, concebida 10 e o lei-
.t
"
&
~ tor (o receptor), ao ler um texto, decodifica a mensagem do autor, para
então pensá-la, assimilá-la e personalizá-la, compreendendo-a: assim se
completa a comunicação.

,to
_!::?~
___
;eo J
E___ _E
J~ .E
Em todas as fases desse processo, o homem, dada sua'- condição
existencial de empiricidade c-liberdade, sofre uma série de interferências

O>
c O>
" ,g :s .ü
c
~ ~
~ ~ c
~
~
E
c e
o .!!
, .8 É por ISSO que se fazem necessárias certas precauções que garantam
~ ."o ~~ o ~
o
~,f.
0J
~ "
:E ~
u ~ maior grau de objetividade na interpretação dessa comunicação.
Tal a justificação fundamental para a formulação de diretrizes para
~'lj,
o trabalho científico em geral e para a leitura e composição de textos
r r r r em particular.
o
O processo de realização do trabalho científico pode ser visualizado
o o '" ,g '~
.2 O>
~.~li DO fluxograma ao lado
" D
~ ~ g.
..
.0 E
U
~~
As diretrizes metodológicas que são apresentadas a seguir têm ape-

/) I
1>0 ." J r
nas objetivos práticos. Esta seção visa fornecer elementos para uma
melhor abordagem de textos de natureza teórica, possibilitando uma

j',l
oo J>
•... E o leitura mais rica e mais prov.eitosa. Frjse-se ainda que tais recursos me-
'o ..c E E
C
Ql
cn ~ todológicos não podem prescindir de certa preparação geral relativa à
\.r
"
O>
c "E .~
•o ~~
~
~ c
~
v
área em que o texto se situa e ao domínio da língua em que é escrito.
~ o ~ "g
c o
w-c~ "
:E "
:E
u ~
"
o-
r 1.a. Delimitação da unidade de leitura

V
'%~~
A primeira medida a ser tomada pelo leitor é o estabelecimento de
uma unidade de leitura. Unidade é um setor do texto que forma uma
"
c totalidade de sentido. Assim, pode-se considerar um capítulo, uma
~ "
."E
w
';C:"
~
•• seção ou qualquer outra subdivisão. Toma-se uma parte que forme

10 o pensamento é um processo de ordem epistemológica muito complexo. OUtrOS pormenores são apr~nt<ldos na
Figura 2. Esquema geral da comunicação humana. seção 2.3 .
:;.
;-.

METODOLOGIA DO TRABA1J-IO clENl1FIco 55
54 ANTONlO JOAQUIM SEVERmO

,
veis de dúvida e que exijam esclarecimentos que condicionam a compre-
certa unidade de sentido para que se possa trabalhar sobre ela. Dessa t
.;
maneira, determinam-se os limites no interior dos quais se processará ensão da mensagem do autor.
~
a disciplina do trabalho de leitura e estudo em busca da compreensão O primeiro esclarecimento a ser buscado são os dados a respeito do "tt
~.
da mensagem. autor do texto. Uma pesquisa atenta sobre a vida, a obra e o pensamen- /:
~
De acordo com esta orientação, a leitura de um texto, quando feita to do autor da unidade fornecerá elementos úteis para uma elucidação :'"

das idéias expostas na unidade. Observe-se, porém, que esses esclare- i1~
para fins de estudo, deve ser feita por etapas, ou seja, apenas termina- i~:'
da a análise de uma unidade é que se passará à seguinte. Terminado o cimentos devem ser assumidos com certa reserva, a fim de que as in- I:
]t,
processo, o leitor se verá em condições de refazer o raciocínio global do terpretações dos comentadores não venham prejudicar a compreensão :~
I~,
livro, reduzindo a urna forma sintética. objetiva das idéias expostas na unidade estudada. j~"
Deve-se assinalar, a seguir, o vocabulário: trata-se de fazer um le- i1
A extensão da unidade será determinada proporcionalmente à aces-
vantamento dos conceitos e dos termos que sejam fundamentais para a
f
sibilidade do texto, a ser definida por sua natureza, assim como pela i~

familiaridade do leitor com o assunto tratado. compreensão do texto ou que sejam desconhecidos do leitor. Em toda
O estudo da unidade deve ser feito de maneira contínua, evitando- unidade de leitura há sempre alguns conceitos básicos que dão sentido r-
à mensagem e, muitas vezes, seu significado não é muito claro ao leitor :.
se intervalos de tempo muito grandes entre as várias etapas da análise. ,

1.b. A análise textual


numa primeira abordagem. É preciso eliminar todas as ambigüidades
desses conceitos para que se possa entender univocamente o que se está
f
, ~,

~
Ii'-
A análise textual: primeira abordagem do texto com vistas à preparação lendo.
da leitura. Por outro lado, o texto pode fazer referências a fatos históricos, a
Determinada a unidade de leitura, o estudante-leitor deve proceder outros autores e especialmente a ~utras doutrinas, cujo sentido no texto ,}

a uma série de atividades ainda preparatórias para a análise aprofun- é pressuposto pelo autor mas nem sempre conhecido do leitor.
dada do texto. Todos esses elementos devem ser, durante a primeira abordagem, 1~.
Procede-se inicialmente a uma leitura seguida e completa da uni- transcritos para uma folha à parte. Percorrida a unidade e levantados
5
I dade do texto em estudo. Trata-se de uma leitura atenta mas ainda todos os elementos carentes de maiores esclarecimentos, interrompe-se
a leitura do texto e procede-se a uma pesquisa prévia no sentido de se
corrida, sem buscar esgotar toda a compreensão do texto. A finalidade ..'.
~.

I, da primeira leitura é uma tomada de contato com toda a unidade, bus- buscar esses informes. .;;
t,
I cando-se uma visão panorâmica, uma visão de ~onjunto do raciocínio Es~es esclarecimentos são encc;mtrados em: dicionários, textos de à~
;~\

,
'I
dO.ilutor. Além disso, o contato geral permite ao leitor sentir O estilo e história, manuais didáticos ou monografias especializadas, enfim, em "f
i
método do texto. obras de referência das várias especialidades. Pode-se também recorrer ~
I a outros estudiosos e especialistas da área. ç.
I Durante o primeiro contato deverá ainda o leitor fazer o levanta-
,,
mento de todos aqueles elementos básicos para a devida compreensão Note-se que a busca de esclarecimentos tem tríplice vantagem: em
do texto. Isso quer dizer que é preciso assinalar todos os pontos passí- primeiro lugar, diversificando as atividades no esrndo, torna-o menos

,
,-F •
56 ANTONIO JOilQl1lM SEVERINO METODOLOGIA DO 11l.ASALHO CIF..N"I"tl'ICO 57

I
m~nótono e cansativo; em segundo lugar, propicia uma série de inIor- texto uma série, de perguntas cujas respostas fornecem o conteúdo da
mações e conhecimentos que passariam despercebidos numa leitura as. mensagem.
sistemática;-em-tcf-€€-i-r-o-lugaí,reffiftOOO-o-texto-mais-daro;-sua-leitura--------E'm lugar busca-se sabcrao que a a o texto. A resposta
i
I
pnrnClfO

ficará mais agradável e muito mais enriquecedora. a esta questão revela o tema ou assunto da unidade. Embora aparen-
A análise textual pode ser encerrada com uma esquematização do temente simples de ser resolvida, essa questão ilude muitas vezes. Nem !
I
I
texto cuja finalidade é apresentar uma visão de conjunto da unidade. O sempre o título da unidade dá uma idéia fiel do tema. Às vezes apenas I
I
I
esquema organiza a estrutura redacional do texto que serve de suporte o insinua por associação ou analogia; outras vezes não tcm nada que {
ma.terial .a9_raciocínio. ~__ .
Muitos confundem essa esquematização com o resumo do texto. De está falando não de um objeto, dc um fato determinado, mas de rela- I
fato, a apresentação das idéias mais relevantes do texto não deixa de ções variadas entre vários elementos; além dessa possível estruturação, í
ser uma síntese material da unidade, mas ainda não realiza todas as exi-
gências para um resumo lógico do pensamento expresso no texto, que é
atingido pela análisc temática, como se verá no item seguinte.
A utilidade do esquema está no fato de permitir uma visualização
é preciso captar a perspectiva de abordagem

tes determinados.
do autor: tal perspectiva
define o âmbito dentro do qual o tema é tratado, restringindo-o a limi-
i
~
,
Avançando Um pouco mais na tentativa da apreensão da mensagem
global do texto. A melhor maneira de se proceder é dividir inicialmente do autOr ca ta-se a rob/ematiza _~odo tema,..p.o.rq.u.e..nã..o..se.pode-i.a.ku
.11
a uni ade nos três momentos redacionais: introdução, desenvolvimento
c conclusão. Toda unidade completa comporta necessariamente esses
coisa alguma a respeito de um tcma se ele não se apresentar como um
problema para aquele que discorre sobre ele. A apreensão da problemá-
I;
i
três momentos. Depois são feitas as divisões exigidas pela própria reda- tica, que por assim dizer "provocou" o autor, é condição básica para
ção, no interior de cada uma dessas etapas. se entender devidamente um texto, sobretudo em se tratando de textos
Tratando-se de unidades maiores, retiradas de livros ou revistas, ca- filosóficos.
da subdivisão é referida ao número da página em que se situa; tratando- Pergunta-se, pois, ao texto em estudo: como o assunto está proble-
se de tcxtos não paginados, deve-se numerar previamente os parágrafos matizado? Qual dificuldade deve ser resolvida? Qual o problema a ser

I1
para que se possa fazcr as devidas referências. solucionado? A formulação do problema nem sempre é clara e precisa
no texto, em geral é implícita, cabendo ao leitor explicitá-la.
1.c. A análise temática Captada a problemática, a terceira questão surge espontaneamente: o
De posse dos instrumentos de expressão usados pelo autor, do sen- que o autor falá sobre o tema, ou seja, como responde à dificuldade ao
o o" ..'

tido unívoco.dco'todos os conceitOs e conhecedor de todas as referências problema levarit~do? Que posição assume, que idéia defende, o que quer
e alusõe~ utilizadas por ele, o leitor passará, numa segunda abordagem, demonstrar? A resposta a esta questão téve1a a. idéia central, proposição
,I
à etapa da compreensão da mensagem global veiculada na unidade.
A análise temática procura ouvir O autor, apreender, sem intervir
fundamental ou tese: trata-se sempre da idéia mestra, da idéia principal
defendida pelo autor naquela unidade. Em geral, nos textos logicamentc
1
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nele, o conteúdo de sua mensagem. Praticamente, trata-se de fazer ao estruturados, cada unidade tem sempre uma única idéia central, todas as j

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•..•.._-------------~-_•..-------_ •...•---------~.:' !
MTIOOOLOGlA DO TRABALHO ClL"Il1FlCO 59
58 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO

demais idéias estão vinculadas a ela ou são apenas paralelas ou comple- Note-se que é esta análise temática que serve de base para o resumo
mentares. Daí a percepção de que ela representa o núcleo essencial da ou síntese de um texto. Quando se pede o resumo de um texto, o que se
mensagem do autor e a sua apreensão torna o texto inteligível. Normal- tem em vista é a síntese das idéias do raciocínio e não a mera redução
mente, a tese deveria ter formulação expressa na introdução da unida- dos parágrafos. Daí poder o resumo ser escrito com outras palavras,
de, mas isto não ocorre sempre, estando, às vezes, difusa no corpo da desde que as idéias sejam as mesma~ do texto.
É também esta análise que fornece as condições para se construir
unidade.
Na explicitação da tese sempre deve ser usada uma proposição, tecnicamente um roteiro de leitura como, por exemplo, o resumo orien-
uma oração, um juízo .completo e nunca apenas uma expressão, como tador para seminários e estudo dirigido.

ocorre no caso do tema. Finalmente, é com base na análise temática que se pode construir o
A idéia central pode ser considerada inicialmente como uma hipó- organograma lógico de uma unidade: a representação geometrizada de
tese geral da unidade, pois que é justamente essa idéia que cabe à uni- um raciocínio.
dade demonstrar mediante o raciocínio. Por isso, a quarta questão a
se responder é: como o autor demonstra sua tese, como comprova sua 1.d. A análise interpretativa
posição básica? Qual foi o seu raciocínio, a sua argumentação? A análise interpretativa é a terceÍra abordagem do texto com vistas à
É através do racioCÍnio que o autor expõe, passo a passo, seu pen- sua interpretação, mediante a situação das idéias do autor.
samento e transmite sua mensagem. O raciocínio, a argumentação, é o A partir da compreensão objetiva da mensagem comunicada pelo
conjunto de idéias e proposições logicamente encadeadas, mediante as texto, o que se tem em vista é a síntese das idéias do raciocínio e a com-
quais o autor demonstra sua posição ou tese. Estabelecer o raciocínio preensão profunda do texto não traria grandes benefícios. Interpretar,
de uma un.idade de leitura é o mesmo que reconstituir o processo lógico, em sentido restrÍto, é tomar uma .posição própria a respeito das idéias
segundo o qual o texto deve ter sido estruturado: com efeito, o raciocí- enunciadas, é superar a estrita mensagem do texto, é ler nas entrelinhas,
nio é a estrutura lógica do texto. é forçar o autor a um diálogo, é explorar toda a fecundidade das idéias
A esta altura, o que o autor quis dizer de essencial já foi apreendi- expostas, é cotejá-las com outras, enfim, é dialogar com o autor. Bem
do. Ocorre, contudo, que os autores geralmente tocam em outros temas se vê que esta última etapa da leitura analítica é a mais difícil e delica-
paralelos ao tema central, assumindo outras posições secundárias no da, urna vez que os riscos de interferência da subjetividade do leitor são
decorrer da unid:;1de.Essas idéias são como que intercaladas e não são maiores, além de pressupor outros 'instrument9s culturais e formação
indispensáveis .~oraciocínio, tanto que poderiam ser até eliminadas sem específica. .

truncar a seqüência lógica do texto. Associadas às idéias secundárias, A primeira etapa de interpretação consi~.teem situar o pensamento
de conteúdo próprio e independente, complementam o pensamento do desenvolvido na unidade na esfera mais ampla do p~-nsamento.geral do

autor: são subtemas e sub teses. autor, e em verificar como as idéias expost~s na unidade se relacionam
Para levantar tais. idéias, basta ler o texto perguntando se a unidade com as posições gerais do .pensamento teórico do autor, tal como é co-
ainda é questão de outros assuntos. nhecido por outras fontes.
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60 ANTONIO JO!\Qú1M SEVERINO ",LETODOLOGlA DO n,AllALHO CJ£.NT1FICO 61

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A seguir, o pensamento apresentado na unidade permite situar o au- Tal avaliação tem duas perspectivas: de um lado, o texto pode ser I
tor no contexto mais amplo da cultura filosófica em geral, s_it_u_a_'
-_l_o_p_o_r j~l~ado levando-se em conta s~_acoerência interna; de outro_l_a_d_o~,_p_o_d_e
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suas posições aí assumidas, nas várias orientações filosóficas existentes, ser julgado levando-se em conta sua originalidade, alcance, validade e a
mostrando-se o sentido de sua própria perspectiva e destacando-se tan- contribuição que dá à discussão do problema.
to os pontos comuns como os originais. Do primeiro ponto de vista, busca-se determinar até que ponto o I
Nas duas primeiras etapas, busca-se ao mesmo tempo o relaciona- autor conseguiu atingir, de modo lógico, os objetivos que se propusera I
menta lógico-estático das idéias do autor no conjunto da cultura daque- aIcan5~ergunta-.~e ª_t_é
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q!1.~-pontoo JaciocíniQ Jpi ..eficaz_na demons-
a area, aSSImcomo o re aCIOnamento OglCO- marnICo e suas I elas traça0 da tese proposta e até que ponto a conclusão a que chegou está
com as posições de outros autores que eventualmente o influenciaram realmente fundada numa argumentação sólida e sem falhas, coerente
ou que foram por ele influenciados. Em ambos os casos, trata-se de uma com as suas premissas e com várias etapas percorridas.
abordagem genérica. A partir do segundo ponto de vista, formula-se um juízo crítico so-
Depois d~sso,já de um ponto de vista estrutural, busca-se uma COffi- b I
re o raciocínio em questão: até que ponto o autor consegue uma co a-
preensão interpretativa do pensamento exposto e explicitam-se os pres-
cação original, própria, pessoal) superando a pura retomada de textos
supostos que o texto implica. Tais pressupostos são idéias nem sempre
de ontros aJ1tores, até que ponto --O
tratamento dispeAEaGe
per~-<aa<8e------+-+---
claramente expressas no texto, são princípios que justificam, muitas
tema é profundo e não superficial e meramente erudito; trata-se de se
vezes, a posição assumida pclo autor, tornando-a mais coerente dentro
saber ainda qual o alcance, ou seja, a relevância e a contribuição espe-
de uma estrutura rigorosa.
cífica do texto para o estudo do tema abordado.
Em outro momento, estabelece-se uma aproximação e uma asso-
Resta aludir aqui a uma possível crítica pessoal às posições defen-
ciação das idéias expostas no texto com outras idéias semelhantes que
didas no texto. Porque exige maturidade intelectual, essa é a fase mais
eventualmente tenham recebido outra abordagem, independentemente
delicada da interpretação de um texto; é viável desde o momento em
de qualquer tipo de influência. Faz-se uma comparação com idéias te-
que a vivência pessoal do problema tenha alcançado níveis que per-
máticas afins, sugeridas pelos vários enfoques e colocações do autor.
mitam o debate da questão tratada. Observa-se ainda que o objetivo
Uma leitura é tanto mais fecunda quanto mais sugere temas para a re-
último da formação filosófica é o amadurecimento da reflexão pessoal
flexão do leitor.
O próxirnQ passo da interpretação é a crítica. Não se trata aqui do para O tratamento, autônomo dessas questões.' A .a'ti,,:idade ,£i~osófjca

trabalho metodológico da crítica externa e interna, adotado na pes- começa no momento em que se explica a própria experi?ncia. Para
quisa científica. O que se visa, durante a leitura analítica, é a formu- alcançar tal objetivo esbarra-se na aborcla'gem dos textos deixados
lação de um juízo crítico, de urna tomada de posição, enfim, de uma pelos autores. É por isso que a leÍtura analítica metodologicamente
avaliação cujos critérios devem ser delimitados pela própria natureza realizada é instrumento adequado e eficaz para O amadurecimento
do texto lido. intelectual do estudante.

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62 ANTOf'.'10 JOAQUL"'t SEVERINO

1.e. A problematização
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Como a problematização,
METODOLOGIA DO TRABALHO CIENílflCO

esta etapa se apóia na retomada de pontos


63

A problematizaç~o é a quarta abordagem da unidade com vistas ao le- abordados em todas as etapas anteriores.
vantamento dos problemas para a discl;l.ssão,sobretudo quando o estu-
do é feito em grupo. Retoma-se todo o texto, tendo em vista o levanta- CONCLUSÃO A leitura analitica desenvolve no estudante-leitor uma série
mento de problemas relevantes para a reflexão pessoal e principalmente de posturas lógicas que constituem a via mais adequada para sua pró~
para a discussão em grupo. pria formação, tanto na sua área específica de estudo quanto na sua
Os problemas podem situar-se no nível das três abordagens ante- formação filosófica em geral.
riores; desde problemas textuais, os mais objetivos e concretos, até os Com o objetivo de fornecer uma representação global da leitura
mais difíceis problemas de interpretação, todos constituem elementos analítica, assim como permitir uma recapitulação de todo o processo,
válidos para a reflexão individual ou em grupo. O debate e a reflexão são apresentados a seguir um esquema pormenorizado com suas várias
são essenciais à própria atividade filosófica e científica. atividades e um fluxograma com suas principais etapas.
Cumpre observar a distinção a ser feita entre a tarefa de determi-
nação do problema da unidade, segunda etapa da análise temática, e a ESQUEMA Recapi~ulando: a leitura analítica é um método de estudo que
problematização geral do texto, última etapa da análise de textos cien- tem como objetivos:
tíficos. No primeiro caso, ° que se pede é ° desvelamento da situação 1. favorecer a compreensão global do significado do texto;
de conflito que provocou o autor para a busca de uma solução. No 2. treinar para a compreensão e interpretação crítica dos textos; ~-

presente momento, problematização é tomada em sentido amplo e visa 3. auxiliar no desenvolvimento do raciocínio lógico;
levantar, para a discussão e a reflexão, as questões explícitas ou implí- .4. fornecer instrumentos para o trabalho intelectual desenvolvido nos
citas no texto. seminários, no estudo dirigido, no estudo pessoal e em grupos, na
confecção de resumos, resenhas, relatórios etc.
1.f. A sintese pessoal
A discussão da problemática levantada pelo texto, bem como a reflexão Seus processos'básicos são os seguintes:
a que ele conduz, devem levar o leitor a uma fase de elaboração pessoal L Análise textual: preparação do texto;
ou de síntese. Trata-se de uma etapa ligada antes à construção lógica trabalhar sobre unidades delimitadas (um capítulo, uma seção, ~.
de uC?~redação do que à leitura como tal. De qualquer modo, a leitura \lIDa parte etc., sempre um trecho com um pensamento comple-
bem~feita d"evepossibilitar ao estu~ioso progredir no de"senvolvimento to); fazer uma leitura rápida e atenta da unidade para se a~quirir
das idéias do autor, be~ como daqueles elementos relacionados com uma visão de conjunto da mesma; levantar esclarecimentos rela-
elas. AdemaÍs, o trabalho de síntese pessoal ~ sempre exigido no con- tivos ao autor, ao vocabulário específico, aos fatos, doutrinas e
texto das atividades didáticas, quer como tarefa específica, quer como autores citados, que sejam importantes para a compreensão da
parte de relatórios ou de rotei"ros de seminários. Significa também va- mensagem; esquematizar o texto, evidenciando sua estrutura re-
lioso exercício de raciocínio - garantia de amadurecimento intelectua1. dacional.
64 METODOLOGIA 00 TRABALHO CIENTIFICO 65

2. Análise temática: compreensão do texto;


Preparaçõo do texto
--------------------~v~l-sõoctéCõfljiJmo determinacQ.j~ma-problema a idéia central e as idéias secundárias
Busco de esclarecimento da unidade;
Vocabulário refazer a linha de raciocínio do autor, ou seja, reconstruir o proces-
ANÁLISE TEXTUAL
Doutrinas
Fatos so lógico do pensamento do autor;
Autores : 1.-".
evidenciar a estrutura lógica do texto, esquematizando a seqüência
.Esquemotizoção do .texto . ,i! . das idéias.
3. Análise interpretativa: interpretação o texto;
situar o texto no contexto da vida e da obra do autor, assim como l.
Compreensão da mensagem .do -autor
no contexto da cultura de sua especialidade, tanto do ponto de vista
Tema
ANÁLISE histórico como do ponto de vista teórico;
TEMÁTiCA
Problema
Tese
Raciocinio
explicitar os pressupostos filosóficos do autor que justifiquem suas ri
Idéias secundárias posturas teóricas;
aproximar e associar idéias do autor expressas na unidade com ou- I
tras I elas re aCIOna as a me ma ma lca;
Interpretação da mensagem do autor exercer uma atitude crítica diante das posições do autor em termos de:
Situação filosófica e influências
ANÁLISE a) coerência interna da argumentação;
INTERPRETATIVA Pressupostos
b) validade dos argumentos empregados;
r
Associação de idéias
Criticas c) originalidade do tratamento dado ao problema;
d) profundidade de análise ao tema;
e) alcance de suas conclusões e conseqüências;
levantamento e discussões
PROBLEMATlZAÇÂO --~.. de problemas relacionados f) apreciação e -juízo pessoal das idéias defendidas.
com a mensagem do autor
4. Problematização: discussão do texto;
levantar e debater questões explícitas ou implicitadas no texto; de-
bater questões afins sugeridas pelo leitor. 11
Reeloboroção da mensagem 5. Síntese pessoal: reelaboração pessoal da mensagem;
SíNTESE
com base no reflexão pessoal
desenvolver a mensagem mediante retomada pessoal do texto e ra-
ciocínio personalizado;

11 A leinua analítica é também fonte essencial da documentaçiio, conforme será visto às p. 145 $S. Cada uma das etapas
Figura 3. Esquema de leitura analítica. fornece elementos que, de acordo com as necessidades de cada um, podem ser transcritos pua a ficha de dOcumUIWçãO .
66 ANTONIO JOAQ1JlM SEVIJlJNO
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METODOlOClA 00 11lABALHO ClEN11FiCO 67
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elaborar um novo texto, com redação própria, com discussão c re-
flexão pessoais.
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2.3. A prática da documentação
As considerações que seguem visam tão-so-
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mente sugerir formas concretas para o es-
2.2.2. A documentação como método de estudo pessoal tudo pessoal, sem se preocupar em delinear
uma teoria e uma técnica muito sofisticada
o estudo e a aprendizagemJ em qualquer área do conhedmentOJ de documentação. Ressaltar a importância
são plenamente eficazes somente quando criam condições para da técnica da documentação como forma
uma contínua e progressiva assimilação pessoal dos conteúdos es- de estudo (talvez já conhecida e praticada
tudados. A assimilaçãoJ por sua vez, preâsa ser qualitativa e inte- por muitos, mas nem sempre com a devida
ligentemente seletiva, dada a complexidade e a enorme diversidade correção) é o único objetivo aqui visado.
das várias áreas do saber atual. O saber constitui-se pela capacidade de reflexão no interior de de-
terminada área do conhecimento. A reflexão, no entanto, exige o do-
Daí a grande dificuldade encontrada pelos estudantes, cada dia mínio de uma série de informações. O ato de filosofar, por exemplo,
mais confrontados com uma cultura que não cessa de complexificar-se reclama um pensar por conta própria que é atingido mediante o pensa-
e se utilizar de acanhados métodos de estudo que não acompanham, no mento de outras pessoas. A formação filosófica pressupõe, dialética e
mesmo ritmo, a evolução global da cultura e da ciência. Alguns acre- não mecanicamente, a informação fllosófica. Do mesmo modo alguém
ditam que é possível encontrar na própria tecnologia os recursos que
possibiJitem superar tais dificuldades da aprendizagem. Os recursos mi-
se torna grande poeta ou escritor e, como tal, altera com seu gênio sua
língua e sua cultura. Antcs, porém, de aí chegar será influenciado por
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lagrosos da tecnologia, no entanto, estão ainda para ser criados e tes- essa cultura e se comunicará através da língua que aprendeu submissa- L
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tados; os métodos acadêmicos tradicionais, baseados na assimilação, mente. Afinal, o homem é um ser culturalmente situado.
passiva, já não fornecem nenhum resultado eficaz. Assim sendo, a posse de informação completa de sua área de es-
O estudante tem de se convencer de que sua aprendizagem é uma pecialização é razoável nas áreas afins, assim como certa cultura geral
tarefa eminentemente pessoal; tem de se transformar num estudioso que é uma exigência para qualquer estudante universitário cujos objetivos
enconua no ensino escolar não um ponto de chegada, mas um Jimiar a signifiquem algo mais que um diploma.
partir do qual constitui toda uma atividade de estudo e de pesquisaJ que Essa informa~ão só se pode adquirir atra vés da documentação rea-
lhe proporciona instrumentos de trabalho criativo em sua área. É inútil .1izada "criterios~mente. O dida~ismo tem ctiado uma série de vício.s que
retorquir que isto já é óbvio para qualquer estudante. De fato, n':l0ca se a"rraigaram na vida escolar dos estudantes desde a escola primária,
se agregou tanto como hoje a importância da cria,tividade nos vários esterilizando os resultados do ensino.
momentos da vida escolar. Mas o fato é que os ,hábitos correspondentes o Não traz resultados positivos para o estudo ouvir aulas, por mais
não foram instaurados e, na prática de ensino, os resultados continuam b'rilhantes que sejam, nem adianta ler livros clássicos e célebres. Isso só
insatisfatórios. tem algum valor à medida que se traduzir em documentação pessoal,

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611 ANTO"f10 IOAQ\JlM SEVERll'lO METODOLOGIA DO TRA!lALHO OENl1nco 69

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ou seja, à medida que esses elementos puderem estar à disposição do conferências e dos seminários. As idéias pessoais importantes para qual-
estudante, a qualquer momento de sua vida intelectual. quer projero futuro também devem ser transcritas nas fichas, para não
A prática da documentação pessoal deve, pois, [Ornar-se uma cons- se perderem com o passar do tempo.
tante na vida do estudante: é preciso convencer-se de sua necessidade e Quando se transcreve na ficha uma citação literal, essa citação virá
utilidade} colocá-la como integrante do processo de estudo e criar um entre aspas, terminando com a indicação abreviada da fonte; quando a
conjunto de técnicas para organizá-la.l2 transcrição contiver apenas uma síntese das idéias da passagem citada,
A documentação de tudo o que for jul- dispensam-se as aspas, mantendo-se a indicação da fonte; quando são
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gaao rmportanrc e uU! em runçao aos estu- e enqUantO~tDdo pessoal ge ~I"anscn~as luelas PC"SVd.1.:J, nav", n•..•..
~~ano usar nem aspas nem lTIulCa-
dos e do trabalho profissional deve ser feita , estudo. POde;-Sefalarem trêS _ ções de fonte, nem sinais indicativos, pois a ausência de qualquer refe-
formaS de documentado:
em fichas. Tomar notas em cadernos é um ã dOcumentacao tem.weâ. rência revela que são idéias elaboradas pelo próprio autor.
hábiro desaconselhável devido à sua pouca
a
documentacâiJ bibflÕgráfica
O fichário é constituído primeiramente pelas Fichas de Documen-
~ "e a ~tae:ão geral.
funcionalidade. tação Temática. Baseia-se nos conceitos fundamentais que estruturam
determinada área de S3 ber. Cada estudante pode formar seu fichário de
2.b. A documentação temática documentação temática relacionado ao curso que está seguindo, a par-
---+----A 'd€L"",mefltaç-ã-o-t-emátiea-visa-<:--G-leta-r-e--l-e-mcntGs releJ/.anres
,pata o esOl_ ,iNhl-estftttttr1l-eUrÚeuffir-<k>-mesm<>cNesse-ease;-c~da-disÓplinn-corr'es------H---
do em geral ou para a realização de um trabalho em particular, sempre ponderia a um setor do fichário e suas partes essenciais determinariam -. !
dentro de determinada área. Na documentação temática, esses elemen- os títulos das fichas, enquanto os conceitos e elementos fundamentais
tos são determinados em função da própria estrutura do conteúdo da dessas partes corresponderiam aos subtítulos das fichas.1l
área estudada ou do trabalho em realização. Concretamente, no que diz respeito às
Dest!Qu~_~I"1l1efl¥ o "
Tal documentação é feita, portamo, se- au 1as, os estu d antes, ao reverem seus apoo- reqjstrodedadosdepessoas
A docUmentacão te~t1Cíl
guindo~se um plano sistemático, constituí- 'dcstina-:se"ao,registro"dós tamentos de classe, nos cadernos de rascu- ~a~, ~ ciefl~.' 1
I1Iz3o pela Qual POOe-se diSfingult. ,
do pelos temas e subtemas da área ou do ~.~tosQ,!ios_çirt:eudOs",'
, prrosam"ser'âPreenêfidoSParao". nho, passariam os tópicos mais imponan- as-Achas de DÔciJmeitaclo" " ,
trabalho em questão. A esses tcmas e sub- , "~ em Qi:ral e oora .~~~~~ " tes para as fichas, sistematizando as idéias a r da,o?cu~ntâCãOTemãoca" " , : ~f
~r.ffiéa, oomo suOCOrj)unto "",

remas correspondem os títulos e subtítulos - especific()s:mpa~ciJl<i~'.~ . .;


"t"'e!eme;'ltos;Podern ,*""CÇ!'q!ito!!.-" I serem retidas. Também assim deveriam ser ,.
que encabeçam as fichas, e formam um con- ". ,idéías. teorias. fatos. reflexões, .". estudadas as "apostilas" - enquanto dura-
:'. pessljãis. dádOs sótXe' autOres.
juntO geral de fichas ou fichário. " iltO!"1e5 h~lcos.etê " rem: far-se-ia uma documentação temática dos principais conceitos da
, •.•.•• -.;>-
Os elementos a serem transcritos nas matéria em pauta. Mesmo procedimento a ser adotado em relação aos
fichas de documentação temática não são livros cujo conteúdo tem inreresse direto ou complementar para o cur-
tirados apenas das leituras 'particulares, mas também das aulas, das

13 Deldo V. SALOMON, Como fllUF'"""" mo"orrilr~. p" 1'16.121, apfe$ellf.ll .lli&UMmoddos dt rl<:h4rios de doeu-
12 Odeio v. SALOMON, Como {o%n ll?mI mO'lQKra(ia. p. 107, lll"nução,
70 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO METODOLOGIA DO TRABALHO C1!:'NTfflco 71

so. Ig~almente, todas as leituras complementares devem traduzir-se em diante leituras mais aprofundadas, são feitos apontamentos mais rigo-
documentação, assim como todas as demais atividades escolares. 14 rosos. A melhor informação para esse tipo de ficha seria aquela que
sintetizasse a própria análise temática do texto.15
2.C.A documentação bibliográfica Observe-se que os diversos níveis não precisam ser feitos de uma só
Ê por isso que a documentação temática se vez. À medida que os contatos com os textos forem repetindo-se e apro-
completa pela documentação bibliográfica: fundando-se, em cada_oportunidade serão lançados novos elementos.
as Fichas de Documentação Bibliográfica Tal documentação pode ser feita também a .respeito de artigos, rese-
organizam-se de acordo com um critério de nhas, capítulos isolados etc. As várias informações devem ser seguidas
natureza temática. Assim, o livro é fichado pela indicação, entre parênteses, das p~ginas a que se referem.
tendo em vista a área geral e específica den- Do ponto de vista técnico, colocar-se-á no alto, à esquerda, a cita-
tro da qual se situa. ção bibliográfica16 completa do texto fichado; no alto, à direita, ficarão
O fichário de documentação bibliográfi- o título e os eventuais subtítulos.17
ca constitui um acervo de informações sobre livros, artigos e demais tra- Não há um tamanho padronizado para essas fichas de documenta-
balhos que existem sobre determinados assuntos, dentro de wna área do ção, ficando a critério de cada um o seu formato. Tanto mais que agora

saber. Sistematicamente feito, proporciona ao estudante rica informação elas podem ser digitadas em micro, formando documentos/arquivos,
diretórios e pastas. Quando precisar de cópia, o estudante as imprime
para seus esrudos.
em folhas comuns tamanho A4 ou Letter.
A documentação bibliográfica deve ser realizada paulatinamente, à
medida que o estudante toma contato com os livros ou com os informes
sobre os mesmos. Assim, todo livro que cair em suas mãos será 'ime-
2.d. A documentação geral
A documentação geral é aquela que organiza e guarda documentos úteis
diatamente fichado. Igualmente, todos os informes sobre algum livro
retirados de fontes perecíveis. Trata-se de passar para pastas, sistema-
pertinente à sua área possibilitam a abertura de uma ficha. Os informes
ticamente organiza.das, documentos cuja conservação seja julgada im-
sobre os-livros são encontrados principalmente nas revistas especializa-
portante. Assim, recortes de jornais, xerox de revistas, apostilas etc. são
das, nas resenhas, nos catálogos etc.
As informações transcritas na Ficha de Documentação Bibliográfica fontes que nem sempre são encontradas disponíveis fora -da época de

são compostas em níveis cada vez mais aprofundados. Primeiramente, sua publicação.
Tais documentos são arquivados sob títulos classificatórios de seu
apresenta-se uma visão de conjunto, um apanhado amplo, o que pode
conteúdo, formando um conjunto de textos relacionados com a área de
ser feito após um primeiro e superficial contato com o livro, lendo-se
apenas o sumário, as orelhas, o prefácio e a introdução. Depois, me- interesse do estudante.

15 Cf. p. 56.59.
16 Esta citação deve ser feira de acordo com a técnica bíbliogcific ••, como é apresent<1do às p. 181-196 desce livro.
14 Moddo de ficha de documentaçao temitica:à p. 75. 17 Modelo de Ficha de Documentação Bibliográfica à p. 76.
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71 ANTONIO JOAQUIM SEVERll':lO JI
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Quando, eventualmente, vierem a ser ~tt~1~st~W~~~ O universitário pode seguir como estrutura geral de seu fichário a
estudados em .fun ão de algum trabalho, ~;He.loiiéD~~,cm"-,",~
••,-,,\t,,'~"-- própria....estn1tur.a-C.lll'ric.ular-dc....selLC.urso~....P:a[a_cada..-e:lis -abr' ,
...;•..l; ••••.•
libf9i;:Ui~~~'lfi ~
esses documentos podem servir de base pa-
14~~_~~!f9~~~?~~J. uma pasta, um classificador. Cada seção será determinada pelos vários
ra a documentação temática ou mesmo bi- . . d
r"dé.dOCiJfnentoStmpr:essos.;1t'~~,
"'~~sióffib-t6:ilJéà"dE!:;'pgQl;;à~~~.l ".
toplCOSpnnclpals a re f"d
en a d"ISCIP"I"ma e ca d a f"JC h a trara,'" Slstematlca-
"
bliográfica, em se tratando de um texto de ~''''&i&~-a'é-5fnáá;,-....-,...-""q.t~ mente, o tema e o subterna das várias unidades que estão sendo anotados
~
maior valor científico. ~l~'¥.~if~i4~<~.'
, e docwnentados e que devem ser estudados. O procedimento técnico de
É sob a forma de documentação geral
anotação~q mesmo utilizado p:ara O outro ..-!.~ode ficha. Ressalve-se,
= contudo, que'neste caso o verso da folha não deve ser utilizado.
neira sistemática e organizada, as apostilas, os textos-roteiros dos semi-
Igualmente é possível fazer O mesmo tipo de fichário bibliográfico.
nários, os trabalhos didáticos, os textos de conferências erc.
A classificação dos livros pode acompanhar tam'bém a estrururação cur-
Para esse tipo de documentação são ucilizadas as folhas tamanho
ricular do seu curso.
ofício, sobre as quais são colados os recortes, deixando-se margens sufi-
Todo este trabalho de documentação deve ser feito à medida que o
cientes para os títulos e demais referências bibliográficas, como O nomc
estudante desenvolve seus estudos. Como se viu no segundo capítulo,
do jornal ou revista de onde foram tirados, a data e a página.
ao fazer a revisão da aula anterior, os elementos selecionados entre o
2.e. Documentação em folhas de diversos tamanhos matena Visto em c asse sao transcntos para as lC as. mesmo sera
Embora a documentação temática e bibliográfica utilize as fichas de feito com eventuais elementos colhidos de pesquisas complementares
cartolina acima citadas, podem ser usadas igualmente as folhas comuns ou paralelas referentes aos temas estudados. Procedcr-sc-á igualmente
de papel sulfite, de diversos tamanhos, ou ainda as folhas pautadas, fei- com os livros: começando com os indicados pelo próprio curso e com
tas para classificadores escolares ("monobloco"). aqueles assinalados como bibliografia complementar. Para os demais
Embora dificulte a manipulação, a grande vantagem desse ripo de livros de interesse para seus estudos, inclusive informações colhidas de
ficha é permitir a substituição do fichário tipo caixa por pastas-arquivos, informes de revistas, repertórios, catálogos, ele abrirá urna Ficha de
classificadores, que facilitam o transport.e. Há ainda a vantagem de facili- Documentação Bibliográfica, que. não só fornecerá.informação sobre a
tar o trabalho de datilografia, quando se prefere fazer a documentação à existência de textos interessantes, como também aguardará a oportu-
máquina. A opção entre os vários tipos de fichas fica a critério do aluno, nidade de um estudo mais aprofundado do mesmo, ocasião em que 'os
que levará em conta sua maior adaptação a esses vários modelos. resultad~s do estudo serão progressivamente transcritos numa ficha.
Adotando-se as folhas, deve-se proceder de acordo com o mesmo Tratando-se de autores cujo pensamento é felevante para o estu-
esquema: no alto; à direita, uma chamada geral, com um título mais do da área de' especialização, deve-se abrir ~gualmcnte uma Ficha de
amplo que indique o tema principal, seguido, logo abaixo, por uma Documentação Biográfica só para o autor.15 Nessa ficha são anotados
chamada secundária, com um título mais específico que indique o sub-
terna abordado, a perspectiva, o enfoque sob o qual O tema é tratado ou
o critério sob o qual o assunto está sendo documentado. 18 CI. moddo;l. p. n.
74 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO 75

progressivamente, à medida que se tomarem disponíveis, os dados bio-


bibliográficos do autor, bem como os pontos mais importantes de seu
EPISTEMOLOGIA
pensamento.
CONCErTUAçAa

2.f. vocabulário técnico-lingüístico


Segundo Lalande, trata-se de uma filosofia das ciências, mas de modo
No contexto da documentação temática, recomenda-se que os estudan- especial, enquanto "é essencialmente o estudo crítico dos princípios, das
tes elaborem igualmente um glossário dos principais conceitos e catego- hipóteses e dos resultados das diversas ciências, destinado a determinar
rias que devem necessariamente dominar para levar avante seus estudos sua origem lógica (não psicológica), seu valor e seu alcance objetivo".
Para Lalande, ela se distingue, portamo, da teoria do conhecimento, da
em geral, assim como suas pesquisas e~ particular. Assim, o seu fichá-
qual serve, contudo, como introdução e auxiliar indispensável.
rio de documentação temática conteria wn vocabulário técnico-lingüís-
LALANDE, Voe. Tecn., 293
tico, com um conjunto personalizado de termos cuja compreensão é
necessária tanto para a leitura como para a redação. Nestas fichas, esses
"Por Epistemologia, no sentido bem amplo do termo, podemos con-
termos são sistematicamente transcritos e explicitados. siderar o estudo metódico e reflexivo do saber, de sua organização, de
Este fichário poderia incluir também a Ficha de Documentação Bio- sua formação,.de seu desenvolvimento, de seu funcionamento e de seus
gráfica, armazenando dados e informações biográficas sobre pensado- produtos intelectuais."
res que constituem referêncÍas diretas para os campos de formação dos jAPIASSU, In'r., 16
estudantes. Estes informes precisam ser periodicamente atualizados.
]apiassu distingue três tipos de Epistemologia:
L a Epistemologia global ou geral que trata do saber globalmente
2.3. A ESTRUTURA LÓGICA DO TEXTO considerado, com a virtualidade e os problemas do conjunto de sua
organização, quer sejam especulativos, quer científicos;
2. a Epistemologia particuLar que trata de levar em consideração um
Todo trabalho científico, a ser escrito ou a ser lido e estudado, tem a
campo particular do saber, quer seja especulativo, quer científico;
forma de wn discurso textual, ou seja, trata-se de um texto que é por-
3. a EpistemoLogia específica que trata de levar em conta uma disciplina
tador de uma mensagem codificada pelo seu autor e a ser decodificada intelectuahnente constituída em unidade bem definida do saber e de
pelo seu leitor. estudá-la de modo próximo, detalhado e técnico, mostrando sua or-
Mas tanto a codificação como a decodificação da mensagem inte- ganização, seu funcionamento e as possíveis relações que ela mantém
com as demais disciplinas.
gr'ante do conteúdo des~edi~curso, além das regras lingüísticas e grama-
ticais, pressupõem OUrIaS tantas regras lógicas. Elas expressam alguns
pré-requisitos lógicos de toda atividade intelectual.
O trabalho científico em geral, do ponto de vista lógico, é um dis-
curso completo. Tal discurso, em suas grandes linhas, pode ser narrati- Figura 4. Ficha de documentação temática.

-------~._,_._ ... _- --~-. -' t


""".
76 77

jAPlASSU, Hilton F. EPISTEMOLOGIA JAPIASSU


O mito da neutralidade científica Hilton Ferreira Japlassu
Rio de Janeiro, lmago, 1975 (Série Logoteca), 188 p. 1934-
Resenha" Reflexão I (2), 163-168. abro 1976.

I Revista Brasi/eira de filosofia 26 (102),252-253.

0_"_
~ a-
v teXlO Visa Iorn ••.•..•..
..
jun. 1976.

.,

a uma reflexão aprofundada e crítica sobre cenos problemas epistemo-


-... -- ---
'
Licenciou-se em Filosofia pela PUC do Rio de Janeiro,
.- - ____ .:.l!l_~~_-~_e.
em 1969; for-
~m_T~s>!~_gja,yelo 5cudium Gen~_ral~ Santo Tom~s de ~qui_no, de
;,ao r3UIO. rez o mestraao em 1'1105003, na area OC .epistemOlOgIa, na
-

Université des Sciences Sociales, de Grenoblc, na França, em 1970; nessa


lógicos (p. 15) e trata da questão da objetividade científica, dos pres- mesma Universidade, doutorou-se em Filosofia, em 1973. Fez pós-dou-
supostos ideológicos da ciência, do caráter praxiológico das ciências tarado em Stnisbourg, no período 84/85, também na área de Epistemo.
humanas) dos fundamentos epistemológicos do cientificismo, da ética do logia.
conhecimento objetivo, do problema da cientificidade da epistemologia Atualmente é docente de Epistemologia e de História das Ciências e de ,
,

e do papel do educador da inteligência. Filosofia da Ciência, nos cursos de pós-graduação em Filosofia, da Uni-
Embora se trate de capítulos autônomos, [Odos se inscrevem dentro versidade Federal do Rio de Janeiro.
de uma problemática fundamental: a das relacões entre a ciência obieri- Desenvolve suas p~uisas nas áreas de epistemo!oeia investieando as
va e alguns de seus pressupostos. relações entre ciência e sociedade, o sentido da interdisciplinaridade eo
O primeiro capítulo) "Objetividade
cos" (p. 17-47), coloca O problema da
científica e pressupoStOS axiológi-
objetividade da ciência e levanta ,
estatuto epistemológico das Ciências Humanas em geral, c da Psicologia
em particular.
Além da tradução de vários textos filosóficos e da publicação de muitos
tI
,.
,

os principais pressupostos axiológicos que subjazem ao processo de


constiruição e de desenvolvimento das ciências humanas. artigos, Japiassu já lançou os seguintes livros: Introdução ao pensamento I
No segundo capítulo, "Ciências humanas e praxiologia" (p. 49-70),
epistemológico, 1975; O mito da neutralidade cientifica, 1975; lnterdis- ,
ciplinaridade e patologia do saber, 1976; Para ler Bachelard, 1976, Nas-
é abordado o caráter intervencionista destas ciências: elas, nas suas
cimento e morte das ciências humanas, 1978; Introdução à epistemologia
condições concretas de realização, apresentam-se como técnicas de inter.
da Psicologia, 1978; A Psicologia dos psicólogos, 1979; Questões episte-
venção na realidade, participando ao mesmo tempo do descritivo e do
mológicas 1981; A pedagogia da incerteza, 1983; A rroolução científica ,
normativo.
l
,
I moderna) 1985; As paixões da ciência, 1991; Francis .Bacon: o profeta da 'c
No terceiro capítulo, "Fundamentos epistemológicos do cienrificis-
ciência moderna, 1995.
,
mo" (p. 71.96); 'o autO,r busca elucidar os fundamentos episrccnoló-
gicos respons"'áveis pela ~titude cientificista e mostra como, cf~étodo
experimental, racional e objetivo, apresentando.se como o único ins- ,
.'
\
trumcn.to particular da razão, assumiu um papel imperialista, a POntO
de identificar-se com a própria razão. ~
:
I

Figura 5. Ficha de documentação bibliográfica. Figura 6. Ficha de documentação biográfica.

,
,
[,

78 ANrONlO JOAQUIM SE\lERINO METODOLOGIA DO TR.AllALHO OENTÍFIco 79

vo, descritivo ou dissertativo. No sentido em que é tratado neste texto, numa afirmação assertiva. O problema, como já se viu,z°levanta uma dú.
o trabalho científico assume a forma dissertativa, pois seu objetivo é de- vida, coloca um obstáculo que precisa ser superado; opta-se, então, por
monstrar, mediante argumentos, uma tese, que é uma solução proposta uma das alternativas, na busca de uma evidência que está faltando.1I
para um problema, relativo a determinado tema. Para se colocar o problema, é preciso que seja formulado de manei-
A demonstração baseia-se num processo de reflexão por argumen- ra clara em seus termos, definida e delimitada. É preciso esclarecer os
tação, ou seja, baseia-se na articulação de idéias e fatos, portadores de termos, definindo-os devidamente. Daí a importância da definição.H Os
razões que comprovem aquilo que se quer demonstrar. Essa articulação limites da problematização devem ser determinados, pois não se pode
é conseguida mediante a apresentação de argumentos. Esses argumen- tratar de tudo ao mesmo tempo e sob os mais diversos aspectos.

tos fundam-se nas conclusões dos raciocínios e nas conclusões dos pro- A demonstração da tese é realizada mediante uma seqüência de ar-
gumentos, cada um provando uma etapa do discurso. A demonstração,
cessos de levantamento e caracterização dos fatos.
de modo geral, utiliza-se mais do processo dedutivo.
O raciocínio é um processo de pensamento pelo qual conhecimen-
Na demonstração de uma tese, pode-se proceder de maneira dir-eta, ,
tos são logicamente encadeados de maneira a produzirem novos conhe- ,

quando se argumenta no sentido de provar que uma proposta de so-


cimentos. Tal processo lógico pode ser dedutivo ou indutivo. Dedução
lução é verdadeira, sendo as demais falsas. E isto por decorrência das
e indução são, pois, processos lógicos de raciocínio.
premissas. Nesse caso, trata-se de encontrar as premissas verdadeiras,
O levantamento e a caracterização de fatos são realizados mediante
objetivamente verdadeiras, e depois aplicar-lhes os procedimentos lógi.
o processo de pesquisa, sobretudo da pesquisa experimental, de acordo
cos do raciocínio.
com técnicas específicas.19 "
A demonstração, porém, pode proceder de maneira indireta quan-
do se demonstra ser falsa a alternativa que se opõe contraditoriamente
2.3.1. A demonstração à tese proposta. Assim acontece quando se demonstra que da falsidade
de uma tese decorrem conseqüências falsas; sendo o conseqüente falso,
Uma monografia científica deve, pois, assumir a forma lógica de de-
o antecedente também é falso.13
monstração de uma tese proposta hipoteticamente para solucionar um
Também se demonstra a falsidade de um enunciado quando se mos-
problema. tra que ele se opõe diretamente ao princípio de não-contradição ou a
O problema é formulado sob a forma de uma enunciação de de-
outro princípio evidente. É o caso da redução ao absurclo. 24

terminado tema, proposta de maneira interrogativa, pressupondo, por- Contudo, o sentido desses termos, no presente capítulo, é mais res-
.tanto, pelo menos uma alternativa como resposta: é assim ou de outra trito. Dissertação é a forma geral do discurso e quer dizer que o discurso
maneira?; ou seja, pressupõe sempre a ruptura de harmonia existente

20a. p. 130.
21 Paolo CAROS!. C••rso d" (ilosofw, 1,p. 383.
19 Ca~ à rntlooologia da pesquisa cientifiu estabelecer os procedimentos técnicos a serem urilizados para tal inves- 22 a. p. 87, ainda L UARD, LógiCtl, p. 24; Othoo M. GARCIA, eo"..miCtlçDo mo /'Tosa moderna, p. 304.
tigação. Ademais, cada ci~n.ci~
delimita a aplicação das nonnas gerais do método científico ao objeto especifico de sua 23 Paolo CAROSI, Curso de Filosofia,!, p. 387.
I ' pesquisa. Cf. L IlARD, LOglCtl, p. 104-174. 24 Ibid., p. 387-9.
80 ANTÓNlOJ0;\.QUlM SEVERINO METODOLOGL-\. DO TRABALHO CIENl1F1CO 81

"
"
está pretendendo demonstrar wna tese me M
margens para dúvidas, devem ser examinadas eventualmente as razões
diante ar mentos. demonstra ão é ois o contrárias tentando-se refutar a tese e revenindo-se de ob.e ões.
conjunto seqüenciado de operações lógicas Esse processo é continuamente retomado e repetido no interior do if
que de conclusão em conclus.ão chega a uma discurso dissertativo que se compõe, com efeito, de etapas de levanta-
conclusão final procurada; argumentação é mento de fatos, de caracterização de idéias e de fatos, mediante proces-
entendida como uma operação, uma ati- sos de análise ou de síntese, de apresentação de argumentos lógicos ou
vidade executada durante a demonstração tatuais, de configuração doeconclusões.
----peI0~a-s-e-d0s_{lf'gumentos;=j'lÍ=r-ac-ioc-íniO'éum-- --tLa -.a- - ft acn -I J.C.O~ p_ _ __----'-'--_~_ ~_ ~__ __ ,--
processo lógico de conhecimento, operação pode ser representado, esquematicamente, da seguinte forma:
mental específica que pode servir inclusive
de argumento para a demonstração.
PROBLEMA
A argumentação, ou seja, a operação com argumentos, apresentados I
com objetivo- de comprovar uma tese, funda-se na evidência racional e na HlPÕTESE ',' '-•. ARGUMENTO -----.- ARGUMENTO -----.- ARGUMENTO ---+ mE DEMONS.

evidência dos fatos. A evidência racional, por sua vez, justifica-se pelos RociaciniO$

pnnC1plOS a ogica. ao se po e uscar un amentos maIS prlIIl1hvos.


kfêjqs

,-
~L~

A evidência é a certeza manifesta imposta pela força dos modos de atua-


ção da própria razão. Surge veiculada pelos princípios epistemológicos e
2.3.2. O raciocínio
lógicos do conhecimento humano, tanto por ocasião do desdobramento
do raciocínio, como por ocasião da presentificação dos fatos.
A apresentaçao dos fatos é a principal fonte dos ai:gi.Inieiltós cien-
o raciocínio é., pois, um dos ele~entos mais importantes da argumenta-
ção, porque suas conclusões fornecem bases sólidas para os argumentos.
tíficos. Daí o papel das estatísticas e do levantamento experimental dos
Trata-se de um processo lógico de pensamento pelo qual de conhe-
fatos; no campo ou no laboratório, a caracterização dos fatos é etapa
cimentos adquiridos se pode chegar a novos conhecimentos com o mes-
imprescindível da dissertação científica.
mo coeficiente de validade dos primeiros.
A argumentação formal que se desenvolve no discurso filosófico
Quanto à sua estrutura, o racioCÍnio é um todo complexo, formado
ou científico pressupõe devidamente analisadas as suas proposições em
que é por um encadeamento de vários juízos, que são, igualmente, con-
todos os elem~ntos, devendo.se têr sempre proposições afirmativas bem
juntos formados por vários conceitos.
definidas e dcv.i.dame.nteliriütad~s. De fato, é com_as p.r~pos.ições que se
De maneira geral, como já se viu,25 uma monografia científica pode
formam os argumentos.
ser considerada como um complexo de raciocínios que se desdobram
Argumentar consiste, pois, em apresentar uma tese~ caracterizá-la
devidamente, apresentar provas ou razões que estão a seu favor e con-
cluir, se for o caso, pela sua validade. Para evitar que fiquem abertas 25 Cf. p. 78.82.

t.

82 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO
.
:'~f
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'.i
'
METODOLOGIA DO TIWlALHO c!ENl1Flco 83

num discurso lógico, do qual o texto red.igido é simplesmente uma ex- aquilo que era composto e complexo. Trata-se, portanto, de dividir, iso-
pressão lingüística. lar, discriminar.
Neste sentido, a redação do texto med.iante signos lingüísticos é um A síntese é um processo lógico de tratamento do objeto pelo qual este
simples instrumento para a transmissão do pensamento elaborado sob objeto decomposto pela análise é recomposto reconstituindo-se a sua to-
a forma de raciocínios, juízos e conceitos. A composição do texto é um talidade. A síntese permite a visão de conjunto, a unidade das partes até
processo de codificação da mensagem. O texto-linguagem é o código então separadas num todo que então adquire sentido uno e global.
que cifra a mensagem pensada pelo autor. A análise é pré-requisito para uma classificação. Esta se baseia em
Decorre daí a prioridade lógica do raciocínio sobre a redação. Por caracteres que definem critérios para a distribuição das partes em deter-
outro lado, porém, o leitor não pode ter acesso ao raciocínio a não ser minadas ordens. Não é outra coisa que se manifesta quando um texto é
através dos textos. Por isso, na composição do texto, no trabalho de esquematizado, estruturado: as divisões seguem determinados critérios
codificação da mensagem pensada, todo o empenho deve ser posto no que não podem ser mudados arbitrariamente. Para se descobrir tais ca-
sentido de se garantir a melhor adequação possível entre a mensagem e racteres procede-se analiticamente.
o texto-código que servirá de intermédio entre o pensamento do autor Análise e síntese, embora se oponham, não se excluem. Pelo contrá-
, ,
rio, complementam-se. A compreensão das coisas pela inteligência hu-
[., e o pensamento do leitorY . ~:
Em função da importância do raciocínio, é necessano tratar de mana parece passar necessariamente por três momentos, ou seja, para
i,: alguns pontos básicos referentes à natureza dos processos lógicos do se chegar a compreender intencionalmente um objeto, é preciso ir além
li
l,li"I' pensamento e do conhecimento, subjacentes à expressão lingüística dos de uma visão meramente indiferenciada
a temos na experiência comum, uma consciência do todo sem a cons-
de sua unidade inicial, tal como
textos. Os aspectos gramaticais escapam aos limites deste trabalho.27 .~ I

11" ciência das partes; é preciso dividir, pela análise, o todo em suas partes "'.
'111 constitutivas para que, então, num terceiro momento, se tenha consciên-
I" 2.3.3. Processos lógicos de estudo
j! cia do todo, tendo-se plena consciência das partes que o constituem: é
li' o trabalho científico implica ainda outros processos lógicos para a re- a síntese. E o que afirma Saviani ao declarar que a análise é a mediação
1,1
alização de suas várias etapas. Assim, para abordar determinado tema, entre a sÍncrese e a sÍntese.28
!i
li.ii objeto de suas pesquisas, reflexão e conhecimento, o autor pode utili-
zar-se de processos analíticos ou sintéticos. 3.a. A formação dos conceitos
"

A análise é um processo de tratamento do objeto - seja ele um ob- O raciocínio é o momento amadurecido do pensamento; raciocinar é enca-
"

jeto material, um conceito, uma idéia, um texto etc. - pelo qual este dear juízos e formular juízos é encadear conceitos. Por isso, pode-se dizer

objeto é decomposto em suas partes constitutivas, tornando-se simples que o conhecimento humano inicia~se com a formação dos conceitosY
I
26 Voltar ao fluxograma cb p. 52. 28 Derrneval SAVlANl. Educação brasílrira, estrU-t,.,.a e sisumas, p. 28-9.
27 Par" os "spectos uatados pelas gramáticas, n:oom~nda-se o =Q de Othon M. GARCIA, Comu.nicação ~ PTOSIJ 29 O estudo aprofundado desta qnestão é objeto da ttoria do conhecimento, gnOS"ologia ou ~pistemologia, disciplina
rnodc=t. filosôfica que aborda os processos do conhCCÔlneoto humano.

1
T
84 ANTÚNIO JOAQUIM SEVERINO METODOLOCIA DO TRABALHQ CIENTIFICO 35

o conceito é a imagem mental por meio da qual se representa um terísticas exigidas para ser brasileiro, tem ou possui outra característica
objeto, sinal imediato do ob.eto re resentado_ O conceito arante uma es ecífica ara se definir como autista.30
referência direta ao objeto real. Esta referência é dita intencional no Essas considerações não são bizantinas, levando-se em conta que é
sentido de que o conceito adquirido por processos especiais de apreen- a compreensão do conceito que permite a elaboração da definição e a
são das coisas pelo intelecto, que não vêm a propósito aqui, se refere a extensão que permite elaborar a divisão ou a classificação.
coisas, a objetos, a seres, a idéias, de maneira representativa e substi~
tutiva. Este objeto passa então a existir para a inteligência, passa a ser DEFINiÇÃO E DIVISÃO A definição é um termo complexo e, como tal, des-
pensa o. ortanto, ° conceIto representa e su stltm a COIsano mve tma -se a es o rar to as as notas que compoem a compreensao o
da inteligência. conceito. 3l A divisão cabe expressar a extensão dos conceitos, classifi-
O conceito, por sua vez, é simbolizado pelo termo ou palavra, no cando-os, organizando-os em suas classes, de acordo com critérios de~
, ,
nível da expressão lingüística. Os termos ou palavras são os sinais dos terminados pela natureza dos objetos. A definição, embora tomando
conceitos, suas imagens acústicas ou orais. Por extensão, tudo o que se quase sempre a forma de uma proposição, de um juízo, é apenas um
disser dos conceitos, no plano da lógica, pode ser dito também dos ter- termo complexo, plenamente equivalente ao conceito definido. Para ser
mos ou palavras. correta, não deve ser maior nem menor que o termo que pretende defi-

li COMPREENSAo E EXTENSAO DOS CONCEITOS Assim, conceitos e termos podem A relevância da definição para o trabalho científico em geral está no
I

ser logicamente considerados tanto do ponto de vista da compreensão, fato de ela permitir exata formulação das questões a serem debatidas.
como do ponto de vista da extensão. A compreensão do conceito é o Discussões sem clara definição dos temas discutidos não levam a nada.
conjunto das propriedades características que são específicas do objeto Aprender a bem definir as coisas de que se trata no trabalho é uma exi-
pensado. São os aspectos, as dimensões, as notas que constituem um ser gência fundamental.
ou um objeto, um fato ou um acontecimento, que fazem deste ser ou
objeto, deste fato ou acontecimento que ele seja o que é e se distinga dos VOCABULÁRIO COMUM, TÉCNICO E ESPECfFICO Observa-se que nosso vocabulá-
demais; já a extensão é o conjunto dos seres e dos objetos que realizam rio - conjunto de termos ou palavras que designam as coisas ou objetos
determinada compreensão, ou seja, a classe dos indivíduos portadores através dos conceitos - pode encontrar-se em vários níveis: o primeiro é
de um conjunto de propriedades características. Observe-se .que quanto o nível do vocabulári.o COIr.ente,comum, que é o usado para nossa co-
mais limitada for a compreensão de um conceito, tanto mais ampla será municação social. Assimilado pela experiência pessoal da cultura, esse
a sua extensão e vice.versa. Assim, considerando-se os. conceitos "bra- vocabulário, embora o mais usado, não é adaptado à vida científica. De
sileiro" e "paulista", a extensão do conceito "brasileiro" é !Dais ampla fato, o conhecimento científico exige um vocabulário de segundo nível,
do que a do conceito "paulista", isto porque a compreensão de "brasi-
leiro" é mais limitada, mais pobre do que a compreensão de "paulista", 30 halo CAROSI, C"TSO de filosofia, I, p. 257-9.
311bid., p.169; Ochao M. GARCIA, Comunicação f!rJ1 prosamodnna, p. 304; L. Ll.'\.RD, Lógica, p. 24.
ou seja, para ser paulista, um indivíduo, além de possuir todas as carac- 32 Seao BELANGER, Teorúl e prática do d«bate, p. 87.
86 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO METODOLOGIA DO TRABALHO CIENl1FIco 87

ou seja, um vocabulário técnico. Para o pensamento teórico da ciência 3.b. A fOrmação dos juízos
ou da filosofia, não bastam os significados imediatos da linguagem co- Para pensar e conhecer não é suficiente "conceber conceituando". O co-
mum. Conceitos e termos adquirem significado unívoco, preciso e deli- nhecimento só se completa quando se formula um juízo que é "o ato da
mitado. Às vezes são mantidos os mesmos termos, mas as significaç.ões mente pelo qual ela afirma ou nega alguma coisa, unindo ou separando
são alteradas, com uma compreensão bem definida. Em certo sentido, dois conceitos por intermédio de um verbo" .35

estudar, aprender uma ciência é, de modo geral, aceder ao vocabulário O juízo é enunciado verbalmente através da proposição, sinal do
técni~o, familiarizanlo-se com ele, habilitando-se a manipulá-lo e supe- juízo mental. A proposição é, pois, a vinculação entre um sujeito e um
rando assim o vocabulário comum. predicado através de um verbo, que são os termos da proposição.
O vocabulário pode ainda atingir um terceiro nível: é o caso de con- Algumas proposições derivam da experiência, enunciam fatos da-
ceitos que adquirem um sentido específico no pensamento de determi- dos na experiência externa ou interna, que elas expressam diretamente;
nado autor ou sistema de idéias. Isto é muito comum nos trabalhos dos outras são formadas pela análise do conceito-sujeito e o predicado é
pensadores teóricos, na ciência e na filosofia. descoberto enquanto é uma nota da compreensão desse conceito.
Um trabalho científico de alta qualidade exige, portanto, o uso ade- Nos períodos compostos, encontram-se várias proposiçõesj esses
quado de um vocabulário técnico e, eventualmente, de um vocabulário períodos são formados por coordenação ou por subordinação. Na co-
específico. A percepção de tais significações diferenciadas é também con- ordenação, as proposições estão em condições de igualdade, ao passo
dição essencial para a leitura científica e para o estudo aprofundado.33 que na subordinação uma oração está em relação de dependência para
Na composição de um trabalho científico, o vocabulário técnico e o vo- com outras.
cabulário específico ocupam os pontos nevrálgi.cos da estrurura lógica do Essas várias relações têm importância à medida que fornecem maté-
discurso, ao passo que o vocabulário comum serve para as ligações das ria para o desenvolvimento da argumentação. A análise das proposições
várias partes. De fato, mesmo para expor idéias teóricas de nível técnico é tarefa prévia da argumentação formal.
ou específico, é preciso servir-se das idéias mais simples, do nível corren- O racioCÍnio que constitui o trabalho é uma seqüência de juízos e de
te, traduzindo as idéias de nível técnico de maneira acessível e gradativa. proposições que precisam ser bem elaborados, tanto do ponto de vista
O conceito é, pois, o result~do das apreensões dos dados e das re- sintático-gramaticaJ,36 como do ponto de vista lógicqY
lações de nossa experiência global, é O conteúdo pensado pela mente, o
. objeto do ,pensamento. É simples resultado dessa apreensão, não con- 3.c. A elaboração dos raciocínios
tendo ainda nenhuma afirmação. Elencando uma série de notas corres- O discurso científico é fundamentalmente raciocínio, ou seja, um enca-
pondentes à sua compreensão, o conceito e o termo se exprimem pela deamento de juízos feito de acordo com certas leis lógicas que presidem
definição.34 a toda atividade do pensamento humano.

35 lbid., p. 38.
33 Cf. diretriz"" para a leitura anali[ica, especialmen.e a análise [exrual, p. 54-56. 36 Omon M. GARCIA, Comwnicação mJ prosa modD7Ul, p. 132.
. 34 Jacqucs lvlARITA1N, LógiCil /'I1L"I1or, p. 20-25. 37Paolo CAROSI, Curso de filosofia, r, p. 287.]24.

f í
,I
METODOLOGiA DO TRABALHO CIL'""TtF1CO 89
88 ANTONIO JOAQI.llM SEVEllJNO

Também no raciocínio pode-se di..stinguir a operação mental, o rc- São exemplos clássicos do raciocínio dedutivo os silogismos da ló-
__ -j -'-su"-l"t-"a"-d"o-'d"eO>.!st~a-9.p_e!.:tçª_o
e o sinal externo desta operaçfub embora se use gica formal clássica,40 assim como as formas de explicação científica de
o mesmo termo para designar essas três dimensões: raciocínio. estrutura ripo explans-explanandum, da lógica simbólica moderna"l
Como último ato de conhecimento da inteligência, o raciocínio é A indução .ou o raciocínio indutivo é uma forma de raciocínio em
precedido pela apreensão, que dera lugar aos conceiros, e pelo juízo, que o antecedente são dados e fatos particulares e o conseqüente uma
que dera lugar às proposições. O raciocínio é, portanto, a ordenação de afirmação mais universal. Na realidade, há na indução urna série de
juízos e de conceüos.33 processos que não se esquematizam facilmente. Enquanto a dedução
"- .- -
U raCIOClnJO conSIS{C em DUlce um
-
IIVVU , a pai I •.•••.
- .'. ." . '.'. . . . .
um antigo, é a passagem de um conhecimento para outro. Portamo, experiência sensível e concreta, o que c1imina a siIl).plicidade lógica que
mostra a fecundidade do pensamento humano. Comporta sempre duas tinha a operação dedutiva.
fases: a primeira, em que se tcm algum conhecimento, e uma segunda, Da indução pode aproximar-se o raciocínio por analogia: trata-se,
em que se adquire outro conhecimento. então, de passar de um ou de alguns fatos a outros fatos semelhantes.
Os lógicos chamam essas duas fases, respectivamente, antecedente e No caso da indução de alguns fatos julgados caraeterIsticos e represen-
conseqüente: entre elas deve existir um nexo lógico cognoscitivo neces- tativos, generaliza-se para a totalidade dos fatos daquela espécie, atin-
__ -j,-- ~s,ário~O-antecedenre é 11m3 razãoJógiç.a_que leva ao conhecimento do gindo-se toda a sua .extensão.
conseqüente, como uma decorrência daquela razão. O resultado desse processo de observação e análise dos fatos con~
O antecedente compõe-se de uma ou várias premissas e o conse- eretos é uma norma, uma regra, uma lei, um princípio universal, que
qüente constitui-se de uma conclusão. A afirmação da conclusão é feita constitui sempre uma generalização. A indução pane, pois) de fatos
à medida que decorre ou depende das premissas. A relação lógica de particulares conhecidos para chegar a conclusões gerais até então .des-
conhecimentos prévios a conhecimentos até então não afirmados é uma conhecidas.
relação de conseqüência.

RACIOCfNIO DEDUTIVO E INDunvo O raciocínio divide-se, basicamente, em 2.4. DIRETRIZES PARA A REALlZAÇAo DE UM SEMINARIO
duas grandes formas: a dedução e a indução. O raciocínio dedutivo é um
.
raciocínio cujo antecedente é constituído de princípios universais, plena- 2.4.1. Objetivos "
mente inteligíveis; através dele se chega a um conseqüente menos univer-
sal. As afirmações do antecedente são universais e já previamente aceitas: O objetivo último de um seminário é levar todos os participances a uma
e delas decorrerá, de maneira lógica, necessária, a conclusão, a afirmação reflexão aprofundada de determinado p~oblema, a panir de textos e em
do conseqüente. 'Deduzindo-se, passa-se das premissas à conclusão.

40 Ibid., p. 338 IS.


11 Britun UMBERT,I"trodupo à /ilo,oflll da dbtciD. São P2ulo: Cultrix; Karl HEMP£L, Filosofia da dinda ruJ.
38 lbid., p. 315. hlral. Rio de J2Miro: Z:ah2r.
39 Ibid ••p. 326 .



90 ANTONIO JOAQtM-! SEVERINO METODOLOGIA DO TRAllALHO CIENT1FJco 91

equipe. O seminário é considerado aqui como um método de estudo e Quanto à apresentação temática do seminário, é de se observar que
41
atividade didática específica de cursos universitários. não se trata da análise temática como um todo, mas, para apresentar o
Para alcançar esse objetivo último, o seminário deve levar todos os tema do seminário, tal qual é determinado pelo texto, o responsável, em " ,
participantes: geral, recorre à primeira etapa dessa análise. 44

A um contato Íntimo com o texto básico, criando condições para A visão de conjunto é elaborada como foi estipulado quando da
uma análise rigorosa e radical do mesmo.
análise textua1.45 Assinalam-se, em grandes linhas, as várias etapas do
A compreensão da mensagem central do texto, de seu conteúdo
texto estudado. Não se apresenta um resumo, uma síntese lógica do ra~
temático. ~-
ciocínio, mas simplesmente são enunciados os vários assuntos aborda-
A interpretação desse conteúdo, ou seja, a uma compreensão da men- i-
! dos na unidade. Indica-se, entre parênteses, o número das páginas cujo
sagem de uma perspectiva de situação de julgamento e de crítica da
mensagem. conteúdo remete ao texto básico.
À discussão da problemática presente explícita ou implicitamente O esquema geral de que se trata aqui é a estr~tura redacional pelo

I!
i no texto. texto, o seu plano arquitetônico. Toma a forma de um Índice dos vários
'l Essas etapas devem ser preparadas e realizadas de acordo com as tópicos abordados. Para realizar esse esquema, divide-se o texto corno
f.
,i: diretrizes da leitura analítica,43 sendo que a análise textual, pelo menos se intitulassem os vários temas tratados.
;
'i em cursos avançados, deve ser realizada previamente por todos os par- Tais elementos constam do texto-roteiro como guia de visualização
ticipantes. da estrutura redacional do texto, o que facilitará aos demais participan-
tes sua posição diante do mesmo quando da preparação da leitura.
2.4.2. O texto-roteiro didático Situação da unidade estudada no texto de onde é tirada, na obra
I, do autor, assim como no pensamento geral do autor e no contexto his-
! Para facilitar a participação de todos, o coordenador do semmáno,
tórico cultural em que o autor estudado se encontrava. O responsável
através de preparação prolongada e pesquisa sistemática, fornece como
pelo seminário recorre à análise textual 46 e à análise interpretativa.'H A
material de trabalho, antes do dia da reunião do seminário, um texto-
compreensão do pensamento geral do autor favorece a compreensão do
roteiro, apostilado. Desse roteiro constam:
texto estudado.

a.1. Material a ser apresentado previamente pelo coordenador. Elaboração dos principais conceitos, idéias e doutrinas que tenham
Trata-se do texto-roteiro para o seminário com o seguinte conteúdo: relevância no texto. Trata-se de uma tarefa de documentação feita
48
apresentação da temática do seminário, breve visão de conjunto da uni- quando da análise textual e realizada de acordo com a técnica da do-
dade e esquema geral do texto.

44 Cf. p. 56 SS.
45 Cf. p. 54-56.
42 OutrOS Sl:'ntidos do ~~minário~ são encontudos em lmídeo G. NERlCI, Mttodologia do QUino supmor, p. 166-73. 46 Cf. p. 54-56.
Cf. tamb"m, neste livro, p. 241. 47 Cf. p. 59-60.
43 Cf. neste apírulo, p. 49-66. 48 Cf. p. 54-56.
I

92 ANTONtO JOAQUIM SEVERINO MFrODOlOClA DO TRABAlHO afl'l'11Flco 9)


I
cumentação .•9 Note-se que a pesquisa é fejta sobre outras fontes que bibliografia visa dar orientação aos demais participantes, caso lhes in-
não o texto básico e o texto complementar do seminário, uma vez que teresse aprofundar o esrudo do tema.
\
esses esclareCImentos VIsam tOrnar.a compreensao ao texto acessIve1. Se
o conceito já se encontra suficientemente esclarecido no texto, é desne- a.2. Material a ser apresentado no dia.(la realização dO seminário
cessário redefini.lo, exceto se i~to representa maior explic.itação. O coordenador apresenta ao grupo um texto com suas reflexões pesso. i
•;
Roteiro de leitura com síntese dos momentos lógicos essenciais do ais sobre o tema que estudou de maneira aprofundada. Tais reflexões
texto. Essa etapa é feita de acordo com a análise tem:íticaSO e compõe-
, .. • _ • • ..L

Note-se que a exposição será resumida, mais indicativa do que expli-


L. .' •. '.
VerS;lm

nhada
sobre os pr.inc.ipais problemas sent.idos pelo coordenador

ao grupo.
e con-
J •
I
citativa: não substitui a leitura do texto básico, mas, antes, exige-a. A I

finalidade do roteiro é permitir a comparação das várias compreensões 2.4.3. O texto-roteiro Interpretativo
pelos diferentes participantes.
A problematização que levanta questões importantes para a discus- Para grupos adiantados existe outra forma de texto-rotejro para um í
são das idéias veiculadas pelo texto. Observe-se que não é suficiente for- seminário. A forma anterior permite a execução de todas as etapas de ~I
__+ mll'u!<la'L:!
J)] 'l.e.I;gJlJll;asJa.cônicas:-ê.p£ecisQCllar.-contextoS-jlrllbJematizadOLes abordagem e tratamento de um texto. para uma exploração exaustiva.
.! .

que provoquem o raciocínio argumentativo


Orientação bibliográfica: o texto.roteiro
dos participantes.sl
fornece .finalmente uma
Contudo, tal forma exige a realização de muitas tarefas técnicas de pes-
quisa e de elaboração que podem despender muito tempo que poderia
l
I
bibliografia especializada sobre o assunto. Não indica apenas uma lis- ser destinado à reflexão. Devjdo a esse seu caráter abrangente, tal forma
ta de livros relacionados com o tema; acrescenta informações sobre O de roteiro é recomendada para os estudantes que se iniciam na análise
conteúdo dos mesmos, sobretudo aquelas passagens relacionadas com de textos, desde que sejam exigidas as várjas etapas numa seqüência
o tema da unidade. Na bibliografia comentada não aparecem o texto
básico e o texto complementar evenrualmente definidos para o seminá-
rio e que sejam de leitura obrigatória. Assinalam-se textos específicos
crescente.
Na realidade, qualquer que seja a forma do texto-roteiro
os objetivos do seminário .continuam os mesmos e, por isso, as etapas
do rotejro didático porventura não mais utilizadas ficam pressupostas,
adotada,
i,I
consultados pelo responsável durante sua pesquisa para a preparação.
do seminário. Também não constam dessa bibliografia as obras de refe-
rência geral, como enciclopédias, dicionários, tratados etc., nem mesmo
devendo. ser cumpridas num trabalho prévio de preparação,
se façam necessárias.
caso ainda ![
~.
aquelas obras de referência da área dentro da qua~ se situa o texto. Essa Pode-se elaborar igualmente o que se chama aqui texto-roteiro in- ft,
terpretativo, como forma alternativa para condução do seminário.

49 Cf. p. 1<16-148.
Basicamente, o responsável pelo seminário elabora ol;ltro texto, re-
ferente à temática do texto básico ou a determinada problemática pre-
It
>
.50 o. p. 56 •.59.
fixada, no qual os momentos da análise textual, da análise temática, da
SI Sobre a noção de problema, d. p. S7 c 130.

j
• ~ .......;t
94 ANTONIO JOAQUIM SEVERlN"O METODOLOGIA DO TRABAlHO CIENT1F1CO 95

análise interpretativa e da problematização se fundem nwn novo dis- vista do coordenador não será uma leitura lacônica, mas a apresentação
curso personalizado. O autor do novo texto expõe, globalmente, no de- de um raciocínio demonstrativo é acompanhada pelos demais partici-
senvolvimento de seu raciocínio, sua compreensão da mensagem, pre- pantes que estão, a esta altura, em condições de intervir numa discussão \
\

cisando os conceitos, apresentando sua interpretação, levantando suas aprofundada de todas as posições que surgirem. Teoricamente, todos
críticas, formulando os problemas que encontrou na sua leitura básica os participantes já fizeram leituras e pesquisas referentes ao terna como
e nas suas pesquisas complementares. De maneira explícita, o responsá- preparação para o semmário.
vel pelo seminário dedica-se à elaboração de um texto-roteiro no qual Geralmente nos simpósios que adotam este esquema de seminário,
mas partem tão-somente de problemas e não de textos, ocorre uma ~.
desenvolveu intencionalmente uma reflexão que, quanto mais pessoal _.i

for, maior contribuição dará ao grupo. variação nesta questão de distribuição de roteiro. São escalados pre- "
Quando não se parte de um texto básico, mas de determinado tema, viamente alguns debatedores que recebem o texto com antecedência e
sem especificação de bibliografia, o responsável constrói seu discurso são chamados a se pronunciar formalmente a respeito dos problemas.
compondo um texto portador dos problemas que quer ver discutidos Embora isso não seja necessário em turmas pequenas com certa homo-
pelo grupo que participará do seminário. geneidade de formação, este esquema pode ser aplicado mesmo para
Este tipo de texto-roteiro tem potencialidade para alimentar um fins didáticos.
seminário, mas o seminário para ser fecundo exige preparação dos par- Dessa forma se desenvolve durante o seminário o debate. Além da
ticipantes para o encontro de classe. Daí a necessidade, nos quadros do discussão dos problemas propriamente ditos, das questões levantadas ou
desenvolvimento de um curso, de que os demais participantes também implicadas pelo texto, referentes ao conteúdo, os participantes comen-
leiam, analisem e aprofundem o texto básico ou os escritos que c.ompo- tam o roteiro e ~ exposição do coordenador quanto a sua capacidade em
nham a bibliografia para a abordagem da problemática do seminário. apreender a idéia central, em explicitar os aspectos essenciais, quanto à
Não havendo tal preparação, o encontro corre O risco de ser transfor- capacidade de síntese, de raciocínio lógico, de clareza, quanto à capaci-
mado em aula expositiva e perder muito de suas virtualidades geradoras dade de distanciamento do texto, de fornecer exemplos, de levantar pro-
de discussões. Os participantes devem vir literalmente municiados de blemas, de assumir .f'0sições pessoais, de aprofundar as questões.
compreensão e interpretação do texto básico ou de posições définidas
acerca do problema para qúe possam confrontar-se com o expositor do 2.4.4. O texto-roteiro de questões
seminário, que será, então, questionado pelo grupo.
O seminário assim conduzido acarreta limitações também na sua Há ainda outro tipo de roteiro, de grandes possibilidades, para se con-
definição: reserva-se um tempo determinado para que o responsável duzir o seminário. Trata-se de um desdobramento do roteiro didático.
apresente sua reflexão, para que exponha sua comunicação, passando- Neste caso, pressupõem-se determinação e leitura de um texto básico
se em seguida aos debates. comum para todos os participantes. Cabe então ao responsável entre-
Mesmo que se entregue com antecedência esse texto-roteiro, a ex- gar aos demais, com certa antecedência, um conjunto de questões, de
posição sintética de introdução é prevista. A exposição dos pontos de problemas devidamente formulados. Não se trata de uma relação de
,
96 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO METODOLOGIA DO TRABALJ-rO CIEl'IT1FICO 97
I i

perguntas lacônicas, mas da criação de questões formadas num contex- Dos textos complementares eventualmente usados para a prepa-
to de problematização em que é posta uma dificuldade que exigirá pes- ração, textos escolhidos livremente pelos participantes, faz-se docu-
qUIsa e retIexao para que as mesmas sejam corretamente respondIdas e mentação temática ou bibliográfica.52 Igualmente, abrem-:"se ichas de
debatidas. documentação bibliográfica das obras comentadas na bibliografia do
Para fins didáticos, o responsável pelo seminário ex.ige que os par- texto-roteiro. Das conclusões elaboradas pelo grupo durante as discus-
ticipantes tragam por escrito suas abordagens e tratamentos das ques- sões, faz-se documentação temática, com anotações pessoaisY
tões, .devendo todos ter a oportunidade, dentro da dinâmica do seminá-

formas de encaminhamento enquanto trabalho em grupo, em classe.


6.1. Introdução pelo professor. I
2.4.5. Orientação para a preparação do seminãrio 6.2. Apresentação pelo coordenador:
6.2.1. das tarefas a serem cumpridas no dia, das orientações para
o texto-roteiro possibilita a participação no seminário. Com efeito, co- o procedimento a ser adotado pelos participantes durante a
mo o seminário é um trabalho essencialmente coletivo, de equipe, pres- realização do seminário e do cronograma das atividades em
supõe empenho de todos e não apenas do coordenador resJ!'1'o)Jn[]cs><á"v",e'll~e'll;;o'--- LLa&;e; + _
encaminhamento dos trabalhos no dia do seminário. Assim sendo, todos 6.2.2. de uma breve introdução para localização do tema do semi-
os participantes fazem um estudo do texto para poder exercer efetiva nário no desenvolvimento da temática geral dos seminários
participação nos debates do seminário. Cabe aos participantes comparar anteriores;
sua compreensão e interpretação do texto com a compreensão e inter- 6.2.3. de esclarecimentos relacionados com o texto-roteiro, even-
pretação do coordenador; levantar problemas temáticos e interpretati- tualmente reclamados pelos participantes. Nesse momento,
vos para a discussão geral; exigir esclarecimentos e explicações do coor- faz-se igualmente uma revisão de leitura para que não haja
denador e dos demais participantes a respeito das respectivas tomadas muitas dúvidas quanto à compreensão do texto.
de.posição. O seminário não se reduz a uma aula expositiva apresentada 6.3. Execução coordenada pelo responsável das várias atividades exe-
porwn colega e comentada pelo professor: é um círculo de debates para cutadas pelos participantes, conforme dinâmica definida pelo mo-
o qual todos devem estar suficientemente equipados. Por isso, exige-se delo de ~eminário escolhido pelo coordenador .
. que todos oS:'pa~cipantes estudem o texto com o rigor devid9. , 6.4.,.Apresentação introdutória à dis.~~ssão geral da reflexão pessoal,
A prepa!aç~o é feita da seguinte maneira': em primeiro lq.gar 'faz-se pelo coordenador.
leitura da documentação do texto básico e do texto' complementar; em 6.5. Síntese final de responsabilidade do professor.
seguida, fa~-se leitura analítica do texto bási'co; depois faz-se leitura de
docume.ntação do texto-roteiro do seminário. Essas três abordagens são
52 Cf. p. 66"67.
feitas de modo que se complementem mutuamente. 53 Cf. p. 66.67.
98 ANTÓNlO JOAQUIM SEVERlNO

CONCl{JsAo Tais diretrizes referem-se a seminários realizados com fins CAPíTULO 111

didáticos dentro da programação de um curso. Nesse caso, abordam-se.


temas com encadeamento lógico. Em tais seminários, o professor atua TEORIA E PRÁTICA
apenas como supervisor e observador dos trabalhos; no cronograma CIENTíFICA
deve ser previsto um intervalo, desde que o período do seminário ul-
trapasse duas horas; cabe ainda ao coordenador entregar ao professor
observações de avaliação da participação dos vários elementos compo-
nentes do grupo.
Quanto ao modo prático de realização do seminário, adota-se qual- Neste capítulo~ vamos fazer uma aproximação do significado da ci-
quer das técnicas do trabalho em grupo, sendo mais comuns as seguintes: ência como construção do conhecimento, mostrando sua formação
a) exposição introdutória, discussão em pequenos grupos; discussão histórica e sua constituição teórica. Vamos ver que a ciência surgiu
em pequenos grupos, discussão em plenário, síntese de conclusão; na modernidade, expressando uma ruptura crítica com o modo
b) exposição introdutória, discussão em pequenos grupos, discussão metafísico de pensar, típico da Antigüidade e da Idade Média, e
do grupo coordenador observada pelo grupo observador dos parti- se caracterizando como uma leitura da fenomenalidade do mundo
cipantes, síntese de conclusão; natural. Para tanto, além de ter que se apoiar em alguns pressupos-
c) exposição introdutória, discussão em grupos formados horizontal- tos filosóficos, a ciência precisa adotar práticas metodológicas e
mente, discussão em grupos formados verticalmente, síntese de con- procedimentos técnicos, capazes de assegurar a apreensão objetiva
clusão; dos fenômenos através dos quais a natureza se manifesta. Vamos
d) exposição introdutória, revisão de leitura em plenário, discussão da ver também que esse processo se sustenta apoiando-se em funda-
problemática também em plenário, síntese de conclusão. mentos epistemológicos, e que se realiza pela aplicação de uma
metodologia sistemática e se operacionaliza mediante procedimen-
Finalmente, cumpre acrescentar uma observação. Embora se tenh~ tos técnicos. No início, a ciência surge com a pretensão de ser um
feito constante referência, ao se falar do seminário, à leitura de trechos, saber único, a ser construído sob um único paradigma e conduzido
de passagens de unidade, das obras dos autores, é nece~sário que o es- por um único método. Foi o que garantiu a unidade do sistema das
~dante se empenhe na leitura da obra dos autores em sua totalidade. Ciências Naturais. No entanto~ quando se passou a estudar cienti-
. Leitura que pode ser feita por etapas, como sugere este capítulo, mas ficamente o homem, com suas peculiaridades, através das Ciências
que deve desdobrar-se sempre mais no conjunto da obra dos autores Humanas, rompeu-se esse monolitismo metodológico em função
estudados. Por outro lado, frise-se a exigência de se ler o próprio autor da rzecessidade e da possibilidade de referências a múltiplos para- :"
na fonte original ou em tradução confiável. digmas epistemológicos para se dar conta da integralidade de sua
condição.
100 ANTOt'110 JOAQUL••• SEVUUNO 'OI

3.1. O MÉTODO COMO CAMINHO DO CONHECIMENTO ;.~~I''''\


CIENTíFICO

Quando observamos a prática científica concreta, o que nos aparece de


forma mais evidente é a aplicação de atividades de caráter operacional
técnico. Uma ,infinidade de aparelhos tecnológicos enchem os laborató-
rios, desenvolvemwsc variados procedimentos de observação, de expe-
rimenta ão .de..coleta.de.dad de. r istc.os.de fatos de levantamento
identificação e catalogação de documentos históricos, de cálculos estaw
tísticos, de tabulação, de entrevistas, depoimentos, questionários etc.
Mas todo esse sofisticado arsenal de técnicas não é usado aleato-
riamente. Ao contrário, ele segue um cuidadoso plano de utilização, ou
seja, ele cumpre um roteiro preciso, ele se dá em função de um método.
A aplicação do instrumental tecnológico se dá em decorrência de um
processo metodológico, da prática do método de pesquisa que está sen-
do usado.
No entanto, não basta seguir um mé-
~.~.~ ~H~"~Uaiioo.
todo e aplicar técnicas para se completar ,:0 pesQuisador aboida 05 , .-.
o entendimento do procedimento geral da . feoeme~.a:H~ recu~ ..
j técnk:iJs;.segulndo'um' metodo
ciência. Esse procedimento precisa ainda ~apo~se_emfundâ!nentos," .,
referir-se a um fundamento epistemológico
que sustenta e justifica a própria metodo-
~~~~~~~~:-~,.~ ~~~
I
logia praticada. É que a ciência é sempre o t
enlace de uma malha teórica com dados empíricos, é sempre uma arti-
culação do lógico com o real, do teórico com o empírico, do ideal com
l
!
o real. Toda modalidade de conhecimento realizado por nós implica ,I
uma condição prévia, um pressuposto relacionado a nossa concepção •I
da relação sujeit%bjeto. Qual a contribuição de cada pólo desta rela-
ção: sujeito que conhece e objeto conhecido? São independentes um do
outro? Ou um depende do outro? Ou um se impõe ao outro? O resulta.
1
do do conhecimento é determinado pelo objeto, exterior ao sujeito ou, Figura 1. Estrutura lógica do método científico.
r
I.

102 ANTONIO JOAQUlM SEVERfr.lO METODOLOGIA DO TRABALHO OENI1FIco 103

ao contrário, o que conhecemos é mais a expressão da subjetividade do o problema se formula então como a questão pela causa dos fenô-
pesquisador do que o registro objetivo da realidade? menos observados, qual a relação causal constante entre eles. Aí entra
Mas antes de tratarmos dos paradigmas epistemológicos que fun- em ação novamente o poder lógico da razão: a razão, com sua criativi-
damentam as práticas científicas, vamos nos aproximar um pouco mais dade, formula uma hipótese~ ou seja, propõe uma determinada relação
da metodologia da investigação científica em geral. causal como explicação.
A ciência utiliza-se de um método que lhe é próprio, "ométodo cien- Newton, após observar os corpos caírem, levantou a hipótese de que
tífico, elemento fundamental do processo do conhecime~to realizado eles caíam em decorrência de uma atração recíproca, intuindo que pode~
pela ciência para diferenciá-la não só do senso comum, mas também ria ser uma força de atração proporcional às massas e às distâncias.
das demais modalidades de expressão' da subjetividade humana, como
~ Hipótese: proposição explicativa .provisória de relaçãe.s entre fenômenos, a ser co~-
a filosofia, a arte, a religião. Trata-se de um conjunto de procedimentos
~ provada ou infirmada pela expenmentação. E se confirmada, transfonna~se na leI.
lógicos e de técnicas operacionais que permitem O acesso às relações
causais constantes entre os fenômenos. O método científico pode ser
Formulada a hipótese, o cientista volta ao campo experimental
representado pelo quadro na página anterior.
para verificá-la. É o momento da verificação experimental~ do teste
Ao trabalhar com seu método, a primeira atividade do cientis'ta é
da hipótese. Isolam-se, em condições laboratoriais, as variáveis que se
a observação de fatos. Inicialmente, essa observação pode ser casual e
supõem em relação e observa-se o seu componamento. Se confirmada
espontânea, como, por exemplo: todos nós vemos cotidianamente os
a hipótese, tem-se então a lei. Trata-se de um princípio geral que uni-
objetos largados a si mesmos caírem no chão. Mas posso começar a
fica uma série ilimitada de fatos: vários fatos particulares se explicam
jogá-los no chão de maneira sistemática, planejada, organizada. O que
mediante um único princípio que dá conta assim de uma multiplicida-
interessa é que sejam os mesmos fatos, eventualmente em circunstâncias
de de fatos.
variadas.
Mas os fatos não se explicam por si sós. "'C" •• '.' Lei científica: enunciado de uma relação causal constante entre fenômenos ou ele-
,A percepção"de uma situaéãO.:
Por mais que vejamos objetos caírem, não mentos de um fenômeno. Relações necessárias, naturais e invariáveis. Fórmula geral
"problemàica Q~eenvôivé um que sintetiza um conjúnto de fatos naturais, expressando uma relação funcional
conseguimos observar por que eles caem!
:::
._~~~~~Ô~:~~~~~'~~~i~~~.:~~.~?'. constante entre variáveis. Variável: é todo fato ou fenômeno que se encontra numa
Aqui é preciso avançar uma consideração .\ '--'.:';; -".:~'".c;' -;';?,' .'. '._' ,;.' relação com outros fatos, enquanto submetido a um processo de variação, qualquer
que seja o tipo de variação com relação a alguma propriedade ou grau, a variação
complicadora: na realidade, "fatos brutos"
de um fato se correlacionando com a variação do outro. Exemplo: o calor dilatando
não existem, propriamente falando; não dizem nada: quando "obser- o metal.
vamos" fatos, já estamos "problematizados", sentindo alguma dificul-
dade e já de posse de algum esquema de percepção. Estamos querendo Por outro lado, pode ocorrer ainda que várias leis referentes a vários
exatamente saber por que tais fatos estão ocorrendo de.ssa maneira. Por setores de fenômenos têm a possi~ilidade de, por sua vez, ser unificadas
isso, não basta ver, é necessário olhar, e para tanto já é preciso estar pro- numa lei mais abrangente, -que é a teoria. Explica assim, num nível mais
blematizado e a presença do problema é de ordem racional, lógica. geral ainda, um conjunto maior de fatos aparentemente diferentes entre
,
!
I
•••tETODOl.OGlA DO TIl.AIlAlHO OE.."lTtFtco lOS
l().i ANTONIO JOAQUIM SEVERINO

si. Finalmente, várias teorias poderiam se resumir numa única teorial1ei Já quando, em função do conhecimento de que todos os homens
que explicasse todo o funcionamento do universo: tal seria o sistema, são monais, concluo que um determinado homem que encontro vai
morrer, estãcõrrdmm-esnrbdecida-pon:i-edução:-TTan-=se-dC"llm"a-pas-
que não foi estabelecido ainda, mas que é desejado pelos cientistas.
sagem do universal para O particular e para o singular. De um princípio
Teoria: conjunto de concepções, sistematicamente organizadas; síntes(: gt:ral qut: St: geral, deduzimos outros menos gerais até fatos particulares.
propõt: a explicar um conjunto de fatos cujos subconjuntos foram explicados pelas Ids.
Sistema: conjunto organizado cujas partes são intt:rdt:pendentes, obedecendo a um Dedução: procedimento l6gico, raciocínio, pdo qual se pode tirar dt: uma ou de vá-
único princípio, entendido estt: como uma lei absolutamente geral, uma proposição rias proposições (premisS3s)-uma conclusão que delas decorre por for~ puramente
fundamcnt:ll. 16 'ca._Aconclusãose e-sc necessariamente das_ remissas.

A ciência trabalha, pois, com raciocínios indutivos e com raciocí-


Se observarmos agora o esquema da Figura 1 no sentido horizon-
nios dedutivos. Quando passa dos fatos às leis, mediante hipóteses, está
tal, veremos que o método científico se compõe de dois momentos: o
trabalhando com a indução; quando passa das leis às tcorias ou destas
momento experimental e o momento matemático. O método científico
aos fatos, está trabalhando com a dedução.
é um método experimentaUmatemático, notando.se que no momento
O processo lógico-dedutivo está presente na ciência sobretudo na
experimental está em curso a fase indutiva do método, enquanto, no
sua matcmatização, pois a matemática é a sua linguagem por excelência
momento matemático, a ciência se constrói em sua fase dedutiva.
e-a IJlateIllática é"'U1ll3-1-inguagem-:lógico deduti
Indução e dedução são duas formas de raciocínio, isto é, procedi-
Foj esse o método adotado pelos cientistas que ,lhes permitiu cons-
mentos racionais de argumentação ou de justificação de uma hipótese.
truir uma imagem mecânica do mundo. O mundo narural é um con-
No caso do racioCÍnio indutivo, da indução, ocorre um processo de
junto de partículas em movimento, dotadas de energia, e que se ligam
generalização pelo qual o cientista passa do particular para O universal.
entre si de acordo com "leis fixas e imutáveis", gerando assim uma total
De alguns fatos observados (fatos particulares), ele conclui que a rela. regularidade do ,funcionamento do universo.
ção identificada se aplica a todos os fatos da mesma espécie, mesmo Com esse método, a ciência teve pleno
àqueles não observados (princípio universal). O que se constatou de êxito na era moderna. Esse sucesso explica-
uma amostra é estendido a toda a população de casos da mesma espé- tivo foi reforçado pelo seu poder em mani-
cie. Assim, após constatar que,. até o momento, 4m determinado nú- pular o mundo mediante a técnica, por cuja
mero de homens morreram, chega-se à conclusão, por indução, de que formação e desenvolvimento ela é a respon-
todos os homens são mortais! sá vel direta. A ciência se legitimou assim
por essa sua eficácia operatória, com a qual
Indução: procedimento l6gico pelo qual se passa de alguns fatos p~rticulares .a um
forneceu aos homens recursos reais elaborados para a sustentação de
princípio geral. Trata-se de um processo de generalização, fundado no pressuposto
filosófico do dererminismo universal. Pela indução, estabelece-se uma lei geral a sua existência material. A técnica serviu de base para a indústria, para a
partir da repetição constatada de regularidades t:m vários casos pàrticulares; da ob- revolução industrial, o que ampliou, sobremaneira, o poder do homem
"servação de reiteradas incidências de uma determinada regularidade, conclui.se pela
em manipular a natureza:
sua ocorrência em rodos os casos possíveis.

I \
106 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO METODOLOGIA DO TRAllAU-lO clENTlFlco 107

3.2. OS FUNDAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS DA CIÊNCIA A produção de conhecimentos científicos sobre o mundo natural,
com a aplicação do método experimentaUmatemático, possibilitou a
Na modernidade, a ciênCIa tornou-se ins- constituição das Ciências Naturais, formando assim o sistema das Ci-
tância hegemônica de conhecimento, ao se ências da Natureza. Esse método utiliza-se de técnicas operacionais que
propor como substituta da metafísica, área complementam e aprimoram as condições de observação, de experimen-
filosófica que pretendia ser um modo ver- tação e de mensuração, procedimentos que precisam ser realizados de
dadeiro e-universal de se conhecer o real. forma objetiva, sem influências deturpantes decorrentes de nossa sub-
Mostrando que essa pretensão não se sus- jetividade. Mas é bom observar que todo esse edifício pressupõe funda-
tentava, os modernos também çonceberam mentos filosóficos, de cunho ontológico e de cunho epistemológico. Isso
a ciência como sendo a única modalidade de conhecimento válido, por- quer dizer que, ao fazer ciência, o homem parte de uma determinada
tanto, também universal e verdadeiro. Por isso, a idéia deles é que tam- concepção acerca da natureza do real e acerca do seu modo de conhecer.
bém só existiria um único método. Essas "verdades" básicas não precisam ser demonstradas e nem mesmo
Foi sob essa perspectiva de unicidade metodológica que se formou conscientemente aceitas pelo cientista, mas elas são pressupostas. A sis-
e desenvolveu o sistema das Ciências Naturais. E foi também sob essa tematização dessas posições de fundo são os assim chamados paradig-
inspiração que vingou a proposta de se criar o sistema das Ciências Hu- mas - no caso do conhecimento, paradigmas epistemológicos. Para que
manas, uma vez que também o homem e suas manifestações deveriam o conhecimento produzido pela ciência tenha consistência, é preciso
ser tratados como fenômenos idênticos aos demais fenômenos naturais. admitir algumas verdades universais, ou seja, a ciência precisa apoiar-se
Com efeito, na visão dos inauguradores das ciências que tomavam o ho- em alguns pressupostos.
mem como objeto, ele é um ser natural como todos os demais (natura- Para a ciência, o real se esgota na ordem natural do universo físi-
lismo), submisso assim a leis de regularidade (determinismo), acessível co, à qual tudo se reduz, incluindo o homem e a própria razão, que é
portanto aos procedimentos de observação e de experimentação (ex- razão natural. O homem se constitui então como um organismo vivo,
perimentalismo). Daí a idéia cornteana de se criar uma "física social", regido pelas leis da natureza, tanto no plano individual como no social,
cujo objeto seria o homem, indivíduo ou sociedade. Conceber o real leis que determinam sua maneira de ser e de agir. Assim, os valores e
como sendo a natureza é uma posição metafísica, ontológica, dizendo critérios de sua ação se encontram expressos na própria natureza sob a
respeito ao modo de ser do mundo. É um pressuposto ontológico. Já: su- forma de leis de funcionamento que se pode conhecer pelas várias ciên-
por que só podemos ~er.ace~so a "essemundo mediante uma"~bordagem cias, aplicando-se o m~todo científico, simultaneamente experimental e
experimentalJmate~ática das "manifestações fenomênicas é um pressu- matemático.
pósto epistemo~ógiéo.
DOS PARADIGMAS EPlffiMOLOOICOS ••• Para os objetivos deste trabalho, va-
Determinismo universal: princípio segundo o qual todos os fenômenos da natureza
são rigidamente determinados e interligados entre si, de acordo com leis que expres-
mos tratar apenas dos paradigmas epistemológicos. O pressuposto epis-
sam relações causais constanres. temológico refere-se à forma pela qual é concebida a relação sujeito/ob-

( ,
II
108 I<l'lTOSlO JOAQUIM SEVfJlJl'olO MITODOLOClA DO TR,ABAlHO ClENTtFiCO 109

I
jeta no processo de conhecimento. Cada modalidade de conhecimento gia experimentaVrnatemática, e designou o
p.reSSUP-ÕkUffi_.tipJLdJ:
relação entre slljeico e objetO f, dependentem_e_o_te p_a_r_a_digmaepistemológico com os pressu- •r;~â'=~;~~
dessa relação, ternos conclusões diferentes. Assim, está implicada no postos das ciências naturais como "POslti~~~!~cJé~~I.ri -----
. •• . a Q~! o espIr'itQhLi~o teria
conhecimento científico uma afirmação prévia da parte que cabe a cada vIsmo . ~ pàssado.hlstoric:amente.Por
um desses pólos. Por isso. o pesquisador, ao construir seu conhecimen- O positivismo é uma expressão da filo- "três.-~ios:oteoíogico.o
: .me~e'~~.EnQ~~ .
to, está "aplicando" esse press~posto epistemológico c! por coerência sofia moderna que, como o próprio nome ."noestagloteológico,próprbda' '.-
t';~ndadahUmanidàde',o ....' ,
interna com_ele) vai utiliza~ recursos merodológic~s e técnicos pertinen- o diz, entende que o sujeito "põe" o conhe- ~~osedel~9uiarPela
tes e compatíveis com o para tgma que cata Isa esses pressupos :00
.prOprfoda adoIcscf!ndada
se falar de referencial teórico-metodológico. partir da experiência que tem da manifesta- ;~U~nidã9ê,oeSPirito:se~Utava.
No caso das pesquisas realizadas noâm- ---------- ção dos fenômenos. Entende que o mundo ,pelalmaginação,enoestáQio'
Se vodIqu/serap"rafundar '~ ~.?g.lkdoEisPlritoê_a'
bito das Ciências Naturais, há praticamente "aquestJo'dOS'p'ressupOrtór'\ é aquilo que ele se mostra fenomenalmen- \.~~.~~~~-o. _'
um único paradigma teórico-metodológico, ".fi!O~~~~_C?9J~~;;!'!Jirtr!.'
~ te) a apreensão de seus fenômenos sendo
l- qenríflco, pode lef._~_)~>
que é aquele representado pelo positivismo, H,F.lntToduçjáao',- .' 1 feita através de uma experiência controla-
pengmentoep~ni9iÓgico:.. • d di'. . d f
coetâneo à constituição da ciência. Mas no "'led.RiodeJaríelro:Francfsoo.'"'.. a, a qua são e lffilna as as inter erên-
caso da pesqUIsa em Clencias J=Iunrnna~~:1i1!::~."""';'í~. -- --<C:1ia.ss
..q'Jalitatiyas ..Daí a únicalorm_~~ra
, •• • I • • • Ep(rtemo/ogla;adentlflçldade '\
alem desse paradigma ongmano, constltu- .' erT!Qúé~ó:~~riaS:-~,"'1 de conhecimento ser aquela praticada pela
(ram-se paradigmas epistemológicos alter- \,:99l? . ," .'''vV ciência, que dispõe de instrumentos técni- ',~~~bf1Sb ..~~a .
. I'3Uo humana~ a essência.
nativos, donde se falar hoje de pluralismo cos aptos a superar as limitações subjetivas :~~
";';-
...
~ ~-.--,-'
~ .
.;'--;.~ ~#
paradigmático. Isso porque ao tcntar com- da percepção.
preenderlcxplicar cientificamente o que é o homem em sua cspecifici. A ciência, no sentido estrito em que a
dade, os pesquisadores se deram conta de que há várias possibilidades entendemos hoje, nasceu na modernidade,
de como se conceber a relação sujeit%bjeto, podendo-se ter também quando se fez uma crítica cerrada ao mo-
várias formas de compreensão/explic,ação do modo de ser do homem. do metafísico de pensar c de, supostamen-
Assim, no caso das Ciências Naturais, cujo modelo paradigmá- te, conhecer. Esse modo metafísico de co-
tic.o.é a físic~ clássica de',Newton, fica implícita nossa capacidade de nhecer era fundado na crença de que nós
conheCer o mundo .real mediante o entendimento prévio de que nossa podíamos, com as luzes da nossa razão, chegar à essência das coisas,
razão aborda o real graças a seu equipamento de observação expc- dos entes e objetos. Cada objeto tinha uma essência, uma natureza pró-
rimentaI e a seu equipamento lógico representado pela mensuração pria) ,imutável, responsável pela identidade específica desse objeto. Por
matemática. um processo epistêmico, a abstração) nós chegaríamos a essa essência,
A tradição filosófica apropriou-se da expressão "positivo", usada conjunto de características permanentes que realizavam a identidade de
por Comte, um dos responsáveis pela sistematização da metodolo- cada ser. Havia assim o pressuposto da capacidade da razão humana
110 ANTONIO JOAQUIM. SEVERINO METODOLOGIA DO TAABALHO OENl1F1CO 111 ,

para conhecer a essência das coisas. Cabe ao conceito expressar. me~- objeto é função Constante de outro determinado estado. O que se es-
talmente essa essência, e, à palavra ou termo, expressar simbolicamente tabelece é uma rela çao
- funCIonal
+. .
quantitativa. por e.xemp Io, quando
o conteúdo conceitual. se constata que a cada grau d e temperatura a que e' submetida uma
Esta era a concepção metafísica do real, barra de metal corresp on d e uma vanaçao
. - d e taman bo dessa barra l

que foi hegemônica nos longos períodos his- est~ se d~ze~do que a dilatação do metal é função da temperatura. E
tórico-culturais da Antigüidade e da Idade a dllataçao e medid a em Centlmetros
~ e a temperatura em graus, gra n -
Média. Mas, á partir do Renascimento, os dezas
. puramente ma t ematlcas.
~, ."
A clencia .
generalIza e conc Iw. que toda
modernos começaram a questionar essa ca- vez que uma barra de metal for submetida a uma variação de tempe-
pacidade, negando a possibilidade de nos- ratura, ela sofrerá uma dil ataçao,
- em d etermm3 . da pr oporção. Tem-se
so acesso à essência das coisas. Chegaram à então uma lei científica q ue expressa d essa maneIra,
. UJll3 relação cau-
conclusão de que só podemos conhece..; de sal
. _constante entre
_ os fe nOmenos.
- A's sensaçoes
- su b'Jetl.vasde calor e a
fato, os fenômenos, nunca as essências. Ou Vlsao
. .da extensao dos ob)'et os sao percepçoes qua J'tan'vas
- - 1 )
vivenciadas
seja, só podemos conhecer aquilo que é dado à experiência sensível que subJetIvamente.
nos revela um conjunto de relações entre os objetos, relações que podemos
ii
mensurar com os recursos da matemática, mas nunca chegar a suas even-
tuais essências. Nasce assim uma nova modalidade de conhecimento, o 3.3. A FORMAtA0 DAS CIÊNCIAS HUMANAS E OS NOVOS
modo científico de conhece..; a ciência, que se instaura aplicando um novo PARADIGMAS EPISTEMOLÓGICOS
,
método próprio, adequado para apreender as relações fenomenais e men- '.
surá-las quantitativamente. É o método experimental-matemático, cuja Com
" o sucesso do
, c on b eCIffiento
. . ~,
CIentIfIco para a exp I'lca ção dos fe-
aplicação possibilitará ao homem ampliar e aprofundar seu conhecimento nomenos naturaIS (astron-'omlcos, fiSICOS,
. b'10J"OgICOS
) e em decorrência
dos seus pressupostos filo 50'f"lCOS, a clenCIa
.".
,
da natureza, a tal ponto que passará a ter o poder de interferir nos objetos, passou a encarar também o I ~
transformando-o pela técnica. A ciência é simultaneamente um saber teó- homem como objeto de seu ccn h'ecrmento a ser a bordado da mesma ,'. ,
l'
rico (explica o real) e um poder prático (maneja o real pela técnica). forma que os outros fenômenos naturais. ~ homem seria um ser natu- '~
f
A ciência apreende seus objetos como fenômenos - ela se atém a ral como. todos os dema,' s (natura l')lsmo ) su b'rrusso a's mesmas leis de I
;;<

regulandade (determinism o ), aceSSlve


'l portanto aOSp rocedimentos de f
essa fenomenalidade, Busca estabelecer relações de causa a efeito en- ~
1t
~
tre os fenômenos. Tem como pressuposto que o universo é um sistema obs.ervação, experimentação e mensuração (experimentalismo e racio-
completo de regularidades e que, por isso, os fenômenos se compor- nahs~o? Co~o pretendia Cornte, é possível- e necessário - constituir
I, ~::
l"
i:..,'
uma fíSIca sacta!, análog • f' . . I
;~
'

tam sempre da mesma' maneira, eles seguem "leis", de tal modo que a a lSlca natura . ~.:1J;
as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos. Mas o sentido Assim, ao longo da modernidade e particularmente, a partir do 11 ,;
ti
da causalidade para a ciência é apenas aquele de uma relação funcio- século XIX, foram se Constituindo as Ci:ncias Humanas, com a preten-
são de se configurar de aco r d o com os mesmos para'metrOS das ciências I,:
nal entre os fenômenos, de tal modo que um determinado estado do I"
li'
i\,
li;
li!
,
~
• , '
,

I• i
METODOLOCIA DO 1lI.A.BAl.HO cl1J'lTtnco 11]
111 ANTONIO 10AQULI.i S£V£RJNO

naturais. Mas à medida que foram se desenvolvendo os estudos sobre rural. Para esse paradigma, a sociedade humana e a.cultura são como
os diferentes aspectos da fenomenalidade humana, os pesquisadores co- um organismo, cujas partes funcionam para acender as necessidades do
meçaram a perceber que não prevalecia O paradigma episte-m-o'lo-'-'
g-,~'c-o---------c-o-n-J'u-n-t-o-.-Io-d-a-a-tivlâade somi-e-ruituraf-é-funcion:a:!,on-sejê:l,-desem
único representado pelo positivismo, ou seja, os pesquisadores se dão penha uma função pré-determinada. Por isso, O papel. das Ciências Hu-
conta de que, no caso do estudo e conhecimento do homem, outros pa- manas é o de identificar objetivamente essas relações funcionais, des-
radigmas podem ser utilizados, com resultados igualmente satisfatórios crevendo seus processos e explicirando suas articulações no interior da
~o que concerne à. eficácia explicativa. Rompe-se então o monolitismo sociedade. Para tanto, elas precisam ser estabelecidas a panir de uma
O para Igma POSitiVistac outros pressup 'ados.
sumidos para fundamentar o conhecimento do homem. Esta a razão O Estruturalismo é ouua corrente epis-
de se falar, na contemporaneidade, de um pluralismo epistemológico, temológica, também inserida na tradição
ou seja, há várias possibilidades de se entender a relação sujeit%bjeto positivista, que muito marcou as Ciências
quando da experiência do conhecimento, configurando-se várias pers- Humanas, tendo como referência Junda-
pectivas epistemológicas. Por sua vez, essas novas posições epistemoló- mental a obra de Claude Lévi-Strauss. Na
gicas carregam consigo outros pressupostoS ontológicos, ou seja, outras verdade, teve sua origem mais imediata nos
formas de cosmuvisão que susteiltam-as-(;enc-epç-ões-ace"r c••
a~d"",a-,r"e"laa
.•. ••.
çãaou .!t!.ra!!!!b"a"lh",o~s!'...!d~eó2l!!.!in,güística
desenvolvidos por
sujeit%bjeto. Saussure, ao mOStrar que a língua é de fato
Na sua gênese, as Ciências Humanas procuraram praticar a meto- um sistema de signos que funciona indepen-
dologia experimental/matemática da ciência, assumindo os pressupostos cientemente das intervenções eve~tuais dos
ontológicos e epistemológicos do Positivismo. Mas as peculiaridades do sujeitos. Esta idéia de que a estrutura é um micros-sistema anterior à.
modo de ser humano foram mostrando a complexidade do fenômeno intervenção histórica dos sujeitos acabou se generalizando para todo
humano e a insuficiência da metodologia positivista para sua apreensão o âmbito da cultura, vista como um grande sistema de comunicação,
e explicação. Por isso, mesmo sem abandonar a inspiração da tradição como um grande sistema de signos, portador de suas leis e regras gerais
positivista, foram enriquecendo-a e aprimorando-a. que definem, aprioristicamente, as ações dos sujeitos;
Desse modo, as pesquisas em Ciências i'Nas~~nS'dõf~rÓm!ismO ~'1 Assim, o grand~ pressuposto ~o Estruturalismo é que todo sistema
Humanas passaram a se realizar sob a refe- ;.~~tram-Se~e' ',' ,,' '.I constitui um jogo e oposições, e presenças e ausências, formando
rência teóricqMInetodológica do Funciona- ~~~.QuCoPl}lt!Or.a~ ','. ~'l uma estrÍJr~raJ ~onstituindo,uma estrutura. e gerando urna interdepcn-
t.,"."brefud,!naSodorOQ.ia.mas. '.;:-:~ ' '
lismo. O funcionalismo apóia-se no pressu- i aCo05oliclaclodométôdo ..••. " dência ~n.t[:eas paneS, de tal forma que as ~lterações que ocorrerem
posto da analogia que aproxima as relações f:::~~~é'~,~~~~;-"~"::
:"~ num elemento acarretam alteração em cada um dos outros elementos
"existentes entre os diversos órgãos de um '.i...
t,MalinOwski.da<treada::', do sistema, atingindo todo o conjunto.
..

organismo biológico e aquelas existentes ;::!f:~V::.~:;~.r-~:~~~::~! O método estrutural assume a fenomenalidade empírica como ob-
• entre as formas de organização social e cul- jeto de investigação, mas os fatos empíricos devem ser abordados em
114 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO METODOLOGIA DOTIWlAlliO cIENTÍFIco 115

sua imanência, levando-se em conta sua inserção num sistema, sincro- objeto bem como toda afirmação da tradição, inclusive aquela da pró-
nicamente considerado como parte de um todo estruturado, no qual as pria ciência; positivamente, trata-se de ver todo o dado e de descrever o
relações pertencem a grupos de transformações, pertinentes a grupos de objeto, analisando-o em toda sua complexidade.
modelos correspondentes. Diretamente ligada à Fenomenologia, a Hermenêutica vai propor
Mas a epistemologia contemporânea tem também uma tradição que todo conhecimento é necessariamente uma interpretação que o su-
subjetivista que, ao contrário da tradição positivista) questiona a exces- jeito faz a partir das expressões simbólicas. das produções humanas,
siva priorização do objeto na constituição do conhecimento verdadeiro. dos signos culturais. Mas, como metodologia da investigação, apóia-se
E propõe um outro modo de conceber a relação de reciprocidade entre igualmente em subsídios epistemológicos fornecidos pela Psicanálise,
sujeito e objeto. É o caso da Fenomenologia) da Hermenêutica e da Ar- pela Dialética e pelo próprio Estruturalismo.
queogenealogia. A investigação antropológica, subjacente às Ciências Humanas,
A Fenomenologia, nascida principalmente na obra de Husserl, vai conduzida sob a inspiração hermenêutica, pressupõe que toda a rea-
referir-se a uma experiência primeira do conhecimento (a experiência lidade da existência humana se manifesta expressa sob uma dimensão
eidética, momento da intuição originária), em que sujeito e objeto são simbólica. A realidade humana só se faz conhecer na trama da cultura,
puros pólos - noético/noemáticos - da relação, não sendo ainda ne- malha simbólica responsável pela especificidade do existir dos homens,
nhuma coisa ou entidade. Pura atividade fundante de tudo que vem tanto individual quanto coletivamente. E) no âmbito cultural, a lingua-
depois. gem ocupa um lugar proeminente, uma vez que se trata de um sistema
Como paradigma epistemológico, a Fenomenologia parte da pres- simbólico voltado diretamente para essa expressão.
suposição de que todo conhecimento fatual (aquele das ciências fáticas Por isso mesmo, a análise da linguagem, nas diferentes formas d.e
ou positivas) funda-se num conhecimento originário (o das ciências ei- discurso, é atividade central na pesquisa hermenêutica.
déticas) de natureza intuitiva, viabilizado pela condição intencional de Cabe dar especial destaque a uma ten-
nossa consciência subjetiva. Graças à intencionalidade da consciência, dência ligada à tradição subjetivista e que
podemos ter uma intuição eidética, apreendendo as coisas em sua con- vem tendo marcante presença nos dias atu-
dição original de fenômenos puros, tais como aparecem e se revelam ais, que pode ser designada como Arqueo-
originariamente, suspensas todas as demais interveniências que ocor- genealogia, derivada que é de duas grandes
rem na relação ~ujeit%bjeto. O fenômeno s~ manifesta em sua origi- perspectivas da epistemologia contemporâ-
nariedade quando. a relação sujcit%bjctó se ."reduz" à relação bipolar nea: a arqueologia e a genealogia. Com efeito, alguns pensadores atuais,
noese/noema~ pólo noético/pólo noemático:., assumindo uma posição extremamente crítica com relação ao racio-
A atitude fenomenológica faz com que o método investigativo sob nalismo iluminista da modernidade, estão defendendo uma outra di-
sua insp.iração aplique algumas regras negativas e outras positivas. Ne- mensão para nossa subjetividade) buscando desidentificá-Ia da racio-
garivame~te, trara-se de excluir ou suspender, a colocar entre parênte- nalidade. Propõem substituir a economia da razão pela econ0n:ia do
ses, toda influência subjetiva, psicológica, toda teoria prévia sobre o desejo, ou seja, priorizar, inclusive na ordem do conhecimento, outras
116 Al""TO!'<10 JOAQUIM SEVERINO METODOLOGIA DO TRABALHO CIE,."IT!FlCO 117

dimensões que não aquela da lógica racionaL Falam de urna desterri- tória se constitui por uma luta de contrários, movida por um permanenre conflito,
imanente à realidade.
torialização do sujeito, querendo com isso ampliar os espaços da sub-
, , 'd d ~ ......1......1 P.mx.U àde: os acontecimentos os fenômenos da esfera humana estão articulados
)etlvl a e. Trata-se então de resgarnrmIrra:s uiYrren'SÕ-esul1-vivênti3-hu-------------~
entre si, na temporalidade e na espacialidade, e se desenvolvem através da prática,
mana, supostamente negligenciadas pelos filósofos modernos, como o sempre histórica e social, e que é a substância do existir humano.

sentimento, a paixão, a vitalidade, as energias instintivas. O homem Cieotificidade: toda explicação científica é necessariamente uma explicação que ex-
não se definiria mais como animal racional mas como urna verdadeira plicita a regularidade dos nexos causais, articulando, entre si, todos os elementos da
Ienomenalidade em estudo. Só que esta causalidade, para a perspeCtiva dialética, se
máquina desejante.
expressa mediante um processo histórico-social, conduzido por uma dinâmica geral

co. Esta tendência vê a reciprocidade sujeit%bjeto eminentemente co- Conaeticidade: prevalece a empiricidade real dos fenômenos humanos, donde de-
mo uma interação social que vai se formando ao longo do tempo his- corre a precedência das abordagens econômico-políticas, pois o que está em pauta é
tórico. Para esses pensadores, o conhecimento não pode ser entendido a prática real dos homens, no espaço social e no tempo histórico, práxis coletiva.

isoladamente em relação à prática política dos homens, ou seja, nunca é


R" ,",~"""=::'''''''..I'P
questão apenas de saber, mas também de poder. Daí priorizarem a prá- ~1~1,!:,,;j'õítf'~'i'.LJ
xis humana, a ação histórica e social, guiada por uma intencionalidade BOMBASSARO, Luiz C. As fTont~iras da epistemologia; como se produz o
conhecimento. Petrópolis: Vozes, 1994.
que lhe dá um sentido. urna finalidade intimamente relacionada com a
CARVAIRO;-lVl:"CecII18 de (Org:)-PmJlJigmZ!rflt~rmttrJ
transformação das condições de existência da sociedade humana. Papiros, 1989
O paradigma dialético é uma epistemologia que se baseia em alguns JAPIASSU, H. F. Introdução ao pen5am~nto ~ulemo16gico. 3. ed. Rio de Janeiro:
pressupostos que são considerados pertinentes à condição humana e às Francisco Alves,-1977.
OLIVA, Alberto (Org.) Epistemologia: a cientificidade em questão. Campinas: Papirus,
condutas dos homens.
1990,

Totalidade: a inteligibilidade das partes pressupõe sua arnculação com o todo; no


caso, o indivíduo não se explica isoladamente da sociedade.

Historicidade: o instante não se entende separadamente da totalidade temporal do


3.4. MODALIDADES E METODOLOCIAS DE PESQUISA
movimento, ou seja, cada momento é articulação de um processo histórico mais
abrangente. CIENTíFICA
Complexidade: o real é simultaneamente uno e múltiplo (unidade e toralidade).
multiplicidade de partes, articulando-se tanto estrutural quanto historicamente, de Como se viu, a ciência se constitui aplicando técnicas, seguindo um méto-
modo que cada fenômeno é sempre resultante de múltiplas determinações que vão
além da simples acumulação, além do mero ajuntamento. Um fluxo permanente de
do e apoiando-se em fundamentos epistemológicos. Tem assim elementos
transformações. gerais que são comuns a todos os processos de conhecimento que preten-
Dialericidade: o desenvolvimento histórico não é uma evolução linear, a história é da realizar, marcando toda atividade de pesquisa. Mas, além da possível
sempre um processo complexo em que as partes estão articuladas entre si de formas
divisão entre Ciências Naturais e Ciências Humanas, ocorrem diferenças
diferenciadas da simples sucessão e acumulação. As mudanças no seio da realidade
humana ocorrem seguindo uma lógica da contradição e não da identidade. A his- significativas no modo de se praticar a investigação científica, em decor-
METOOOLOGIA DO TRABAllIO mNl1flco 119
118 ANTONIO JOAQUlM SEVERrNo

rência da diversidade de perspectivas epistemológicas que se podem ado- Quando se fala de pesquisa quantitativa ou qualitativa, e mesmo
tar e de enfoques diferenciados que se podem assumir no trato com os quando se fala de metodologia quantitativa ou qualitativa, apesar da
objetivos pesquisados e eventuais aspectos que se queira destacar. liberdade de linguagem consagrada pelo uso acadêmico, não se está
Por essa razão, várias são as modalidades de pesquisa que se podem referindo a uma modalidade de metodologia em particular. Daí ser pre-
praticar, o que implica coerêll'Ciaepistemológica, metodológica e técni- ferível falar-se de abordagem quantitativa, de abordagem qualitativa,
ca, para o seu adequado desenvolvimento. pois, com estas designações, cabe referir-se a conjuntos de metodolo-
gias, envolvendo, eventualmente, diversas referências epistemológicas.

3.4.1. pesquisa quantitativa. pesquisa qualitativa São várias metodologias de pesquisa que podem adotar uma abordagem
qualitativa, modo de dizer que faz referência mais a seus fundamentos
Uma primeira diferenciação que se pode fazer é aquela entre a pesquisa epistemológicos do que propriamente a especificidades metodológicas.
quantitativa e a pesquisa qualitativa. Como vimos, a ciência nasce, no
início da era moderna, opondo-se à modalidade metafísica do conheci-
SANTOS FILHO, José C. dos. Pesquisa quantitativa versus pesquisa qualitativa: o
mento, fundada _napretensão do acesso racional à essência dos objetos
desafio paradigmático, p. 13-59.
reais e afirmando a limitação de nosso conhecimento à fenomenalidade SÁNCHEZ GAMBOA, Sílvio. Quantidade--qualidade: para além de um dualismo
do real. E esse conhecimento dos fenômenos, por sua vez, limitava~se técnico e de wna dicotomia epistemológica. In: SANTOS FILHO, José C. dos;
sÁNCHEZ GAMBOA. Sílvio. Pesquisa educacional; quantidade-qualidade. São Paulo:
à expressão de uma relação funcional de causa a efeito que só podia Cortez, 1995. (Cal. Questões da Nossa Época, v. 42), p. 84-110'-
ser medida como uma função matemática. Por isso, toda lei científica
revestia-se de uma formulação matemática, exprimindo uma relação
quantitativa. Daí a característica original do método científico ser sua 3.4.2. Pesquisa etnográfica
.~
configuração experimental-matemática. ;

A.pesquisa etnográfica ~isa compreender, na sua cotidianidade, os pro-


Esse modelo. de conhecimento científico, denominado positivista,
cessos do dia-a-dia.em suas diversas modalidades. Trata-sede um mer-
adequou-se perfeitamente à apreensão e ao manejo do mundo físico,
tornando-se assim paradigmático para a constituição das ciências, in- gulbo no_microssocial, olhado com uma lente. de aumento. Aplica 1D.é-

clusive daquelas que pretendiam cohhecer também o mundo humano. tqdos e técnicas compatíveis com a.abordagem qualitativa. Utiliza-se do

Mas logo os cientistas se deram conta de que o conhecimento desse método etnográfico,.descritivo por excelência.
mundo humano não podia reduzir-se, impunemente, a esses parâme-
I
tros e critérios. Quando o homem era considerado como um objeto
I puramente natural, seu conhecimento deixava escapar importantes as-
PEIRANO, Marisa. A {avo-r da etnografia. Rio de Janeiro: Relwne Dumará, 1994.

LAPLANTINE, F. Aprender antropologia. SoioPaulo: Brasiliense, 1994.


pectos relacionados com sua condição específica de sujeito; mas, para
LUDKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas.
garantir essa especificidade, o método experimental-matemático era 5. ed. São Paulo: EPU, 1986. 123 p.
ineficaz.
110 ANTONIO JOAQI1lM SEY£RlNO
METODOLOG1.~ DO TR..••BALHO CfENliRCO 121

3.4.3. Pesquisa participante 3.4.5. Estudo de caso.

É aql:1@laemque e pesE]:tl:isaeiôr,pa-ra-rea1izM-g--e"B"',,,en,,,,raa;,8ã"'GCH8l<G"'rcf,,e"fl"ôolJmffite.---------'P"e"s"'q""wsa
que se concentra no estu o e um caso partlcu ar, cons! era o
nos, compartilha a vivência dos sujeitos pesquisados, participando, de representativo de um conjunto de casos análogos, por ele significativa-
forma sistemática e permanente, ao longo do tempo da pesquisa, das mente representativo. A coleta dos dados e sua análise se dão da mesma
suas atividades. O pesquisador coloca-se numa postura de identificação forma que nas pesquisas de campo, em geral.
com os pesquisa dos. Passa a interagir com eles em todas as situações, O caso escolhido pa,r:aa pesquisa deve ser significativo e -bem repre-
..elGs:su'eit05_...:.0bse.CYand_Q_a-s
acom -a-nhandQ_tQdas_as_acões~-'.£:a-t-icaa-as_ _
manifestações dos sujeitos e as situações vividas, vai registrando descri-
situações análogas, autorizando inferências. Os dados devem ser cole-
tivamente todos os elementos observados bem como as análises e consi-
tados e registrados com o necessário rigor e seguindo todos os procedi-
derações que fizer ao longo dessa participação.
mentos da pesquisa de campo. Devem ser trabalhados, mediante análise
rigorosa, e apresentados em relatórios qualificados.

BRANDÃO, Carlos R. (Org.) Repensando a pesquisa participante. São Paulo:


Brasiliense, 1984.

DE:HO, Peàf6. ADesqtlisa patticipaate. sabez pe:iSllf e i:t,teRir jt:l


ANDRÉ Marli E. D. A. de. Estudo de caso em es uisa e avalia -o edu.cacional.
Livro, 2004. Brasília: Líber Livro, 2005
Ym, R. K. Estudo de caso_ Porto Alegre: Bookman-Anmed, 2001.

3.4.4. pesquisa-ação 3.4.6. Análise de conteúdo

A pesquisa ação é aquela que, além de compreender, visa intervir na si- É uma metodologia de tratamento e análise de informações constantes
tuação, com vistas a modificá~la. O conhecimento visado articula-se a de um documento, ~ob forma de discursos pronunciados em diferentes
uma finalidade intencional de alteração da situação pesquisada. Assim, linguagens: escritos, orais, imagens, gestos. Um conjunto de técnicas de
ao mesmo tempo que realiza um diagnóstico e a análise de uma determi- análise das comunicações. Trata-se de se compreender criticamente o
nada situação, a pesquisa-ação propõe ao conjunto de sujeitos envolvidos sentido manifesto ou oculto das comunicações.
mlldanç':l~ que levt;rn,a um aprimoramento das práticas analisadas ..
. . Envolve, portanto, a análise do conteúdo das mensagens, os
enunciados dos discursos, a busca do significado das mensagens. As lin-
guagens, a expressão verbal, os enunciados, são vistos como indicadores
BARBIER, Renê. A pesquisa-ação. Brasília; Liber Livro, 2004.
significativos, indispensáveis para a compreensão dos problemas ligados
lHlOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. 14 ed. rev. e aum. São Paulo:
Cortez,2005. às práticas humanas e a seus componentes psicossociais. As mensagens
podem ser verbais (orais ou escritas), gestuais, figurativas, documentais .
METODOLOGIA DOTRA!lALHO C1ENI1FTco 123
122 ANTONlO JOAQUiM SEVEIUNO

Sua perspectiva de abordagem se situa na interface da Lingüísti.ca gravações, documentos legais. Nestes casos, os conteúdos dos textos
e da Psicologia Social. Mas enquanto a lingüística estuda a língua, o ainda não tiveram nenhum tratamento analítico, são ainda matéria-pri-
sistema da linguagem, a Análise de Conteúdo atua sobre a fala, sobre ma, a partir da qual o pesquisador vai desenvolver sua investigação e
o sintagrna. Ela descreve, analisa e interpreta as mensagens/enunciados análise.
de todas as formas de discurso, procurando ver o que está por detrás Já a pesquisa experimental toma o próprio objeto em sua concretude
das palavras. como fonte e o coloca em condições técnicas de observação e manipu-
Os discursos podem ser aqueles já dados nas diferentes formas de lação experimental nas bancadas e pranchetas de um laboratório, onde
comunicação e interlocução bem como aqueles obtidos a partir de per- são criadas co~dições adequadas para seu tratamento. Para tanto, o pes-
guntas, via entrevistas e depoimentos. quisador seleciona determinadas variáveis e testa suas relações funcio-
nais, utilizando formas de controle. Modalidade plenamente adequada
'1- para as Ciências Naturais, é mais complicada no âmbito das Ciências
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1979. Humanas, já que não se pode fazer manipulaç-ão das pessoas.
FRANCO, M. Laura P. B. Análise do conteúdo. Brasília: Editora Plano, 2003. {Série N a pesquisa de campo, o objeto/fonte é a bordado em seu meio
Pesquisa em Educação, 6).
ambiente próprio. A coleta dos dados é feita nas condições naturais
em que os fenômenos ocorrem, sendo assim diretamente observados,
3.4.7. Pesquisa bibliográfica, pesquisa documental, pesquisa sem intervenção e manuseio por parte do pesquisador. Abrange desde
experimental, pesquisa de campo os levantamentos (surveys), que são mais descritivos, até estudos mais
analíticos.
Com referência à natureza das fontes utilizadas para a abordagem e tra- ~- ,

tamento de seu objeto, a pesquisa pode ser bibliográfica, de laboratório 3.4.8. Pesquisa exploratória, pesquisa explicativa
e de campo.
l~
p_t;.~q~J!:!Çl~lbliqgrâfica é aquela que se realiza a partir c!5?.r.egistro Quanto a seus objetivos, uma pesquisa pode ser exyloratória, descritiva
disponível, decorrente de pesquisas anteriores, em documentos i!TIF£,~S- ou explicativa.
sos, como livros, artigos, teses etc. Utiliza-se de dados ou de categorias A pesquisa exploratória busca apenas levantar informações sobre
teóricas já trabalhados por outros pesquisadores e devida.mente regis- um determinado objeto, delimitando assim um campo de trabalho, ma-
trados. Os textos tornam-se fontes dos temas <,l serem pesq~isados .. 0 peando as condições de manifestação desse objeto. Na verdade, ela é
pesquisador trabalha a partir das contribuições dos autores dos estudos uma preparação para a pesquisa explicativa:
analíticos constantes dos textos._ A pesquisa explicativa é aquela que, além de registrar e analisar
No caso da pesquisa documental, tem-se como fonte documentos os fenômenos estudados, busca identifi"car suas causas, seja através da
.no sentido. amplo, ou seja, não só de documentos impressos, mas so- aplicação do método experimentaUmatemático, seja através -da inter-
bretudo de outros tipos de documentos, tais como jornais, fotos, filmes, pretação possibilita.da pelos métodos qualitativos.
124 ANTONIO JOAQUL"t S£VER1NO
M£TOOOLOCI/\ 00 'T'RARAU-lO CLE1'tTtrtCO 125
i
3.4.9. Técnicas de pesquisa ~rrr~~.\fl?T~
.!lIÃ,O.aDIRETIVAS Por meio dt;las, colhem-se info~mações dos su-
j~itOs a partiJ; do seu discurso livre. O entrevistador mantém-se em escuta
-------_As-t-éc--ni€a-s-sã-o-Gs-procediment-es_opeI-ac--iGna-is-que-sc-r_vcm....de...medi-a~-. ~a~teuD~t~a7...registtando...todas-.asJnformações_e.sóinterYindo_discretamente.-pa
ção prática para a realizaçã~ das pesquisas. Como tais, podem ser uti- !a, eventualmente, estimular? depoente. De preferência, deve praticar um
lizadas em pesquisas conduzidas mediante diferentes metodologias e diálogo ~escontraído, deixando o informante à vontade para expressar sem
fundadas em diferentes e.p~~itemoJºgias. Mas, obviamente, precisam ser ~.nstrangimcntos suas representações.
comp~tíveis com os métodos adotados e com os paradigmas epistemo-
lá icos.ado.tados. ENTREVISTAS ESTRUT,!RADAS São aguelas em g~~uestões são direcionadas
e préviãrnente estabelecídas, COm detertninada articulação interna. Apro-
POCUMENTACAo É toda forma de registro e sistematizaçã;Ç) d,e.9-ª90s, io- xima-se mais do questionário, embora sem a impessoalidade deste. Com
.~~~~ções, c~~ocando-os em condições de análise por parte do. p~squi- questões bem diretivas, obtém, do universo de sujeitos, respostas também
s~º~r. Pode ser tomada em três sentidos fundamentais: como ~éc~.ica mais facilmente categorizáveis, sendo assim muito útil para o desenvolvi-
de coleta, de organização e conservação de documentos; como ciên~ia mento de levantamentos sociais.
que elabora. critérios para a coleta, organização, sistematização, co.n-
servação, difusão dos documentos; no contextO da realização de ut:na HISTÓRIA DE VIDA Coleta as informações da vida pessoal de um ou vários
pesquisa, é a técnica de identificação, levantamento, exploração ..qe Informantes. Po e aSSUlnIr ormas vana as: auto- lOgra la, memona ,
documentos fontes do objeto pesquisado e reg!stro das informaçQes crônicas, em que se possa expressar as trajetórias pessoais dos sujeitos.
retiradas nessas fontes e que serão utilizadas no desenvolvimento dg
trabalho. OBSERVAÇAo É todo procedimento que permite acesso aos fenômenos es-
tudados. É etapa imprescindível em qualquer tipo ou modalidade de
Documento: em ciência, documento ê todo objeto (livro, jornal, estátua, escultura, pesquisa.
edifício, ferramenta, túmulo, monumento, foto, filme, vídeo, disco, CD etc.) que
se torna suporte mlZt~ilZl (pedra, madeira, metal, papel etc.) de uma informaçiio
(oral, escri[a, gestual, visual, sonora etc.) que nde é fixada mediante técnicas espe. QUESTlONARIO Conjunto de questões, sistematicamente articuladas, que se
cia;s (escritura, impressão, ipcrustação, pinrura, escultura, consuução etc.). Nes. destinam a levantar informações escritas por parte dos sujeitos pesquisa-
53 condição, transforma.se em fonte durável de informação sobre 05 fenômenos
pesquisados. dos, com vistas a conhecer a opinião dos mesmos sobre os assuntos em
estudo. As questões devem ser pertinentes ao objeto c claramente formu-
,
!
.r
ENTREVISTA Técnica de coleta de informações sobre um determinado assun- l.adas,' de. modo a serem be'm c~~preendidas pelos sUJeit~s: A(~~estões ,.
to, diretamente solicitadas aos sujeitos pesquisados. Trata-se, portanto, de devem ser objetivas, de m9do a suscitar respostas igualmente.objetivas, .,.,
uma interação entre pesquisador e pesquisado. ?vluito utilizada nas pesqui- evitando provocar dúvidas, ambigüidades e respostas lacônicas.
sas da área das Ciências Humanas. O pesquisador visa apreender O que os Podem ser questões fechadas ou questões abertas. No primeiro caso, as
sujeitos pensam, sabem, representam, fazem e argumentam . respostas serão escolhidas dentre as opções pré-definidas pelo pesqui-
126 ANTON'O JOAQUIM SEVERJNO

sador; no segundo, o sujeito pode elaborar as respostas, com suas pró- CAPíTULO IV
prias palavras, a partir de sua elaboração pessoal.
De modo geral, o questionário deve ser previamente testado (pré-teste), A PESQUISA NA DINÂMICA
mediante sua aplicação a um grupo pequeno, antes de sua aplicação ao DA VIDA UNIVERSITÁRIA
conjunto dos sujeitos a que se destina, o que permite ao pesquisador
avaliar e, se for o caso, revisá-lo e ajustá-lo.
.~

CONCLUINDO ••• A ciência, como modalidade de conhecimento, só se pro-


cessa como resultado de articulação do lógico com o real, do teórico
com o empírico. Não se reduz a um mero levantamento e exposição de
fatos ou a uma coleção dados. Estes precisam ser articulados mediante
uma leitura teórica. Só a teoria pode caracterizar como científicos os
Este capítulo apresenta os processos operacionais do desenvol~
dados empíricos. Mas, em compensação, ela só gera ciência se estiver
vimento da pesquisa~ mostrando como se realiza a investigação
articulando dados empíricos científica. Serão abordadas aquelas diretrizes práticas e gerais que
Referências epistemológicas são, pois, necessárias para a produção do
se aplicam a todas as modalidades de trabalhos científicos~ inde-
conhecimento científico; no entanto, elas não seriam fecundas para a
pendentemente da área de conhecimento em que está realizando
realização de uma abordagem significativa dos objetos se não dispu-
a pesquisa.
sessem de mediações. técnico-metodológicas. Estas se constituem pelo
O desenvolvimento de um processo investigativo não pode reali- -~-
conj unto de recursos e instrumentos adequados para a exploração das (
zar-se de forma espontânea ou intuitiva; ele precisa seguir um pla-
fontes mediante procedimentos operacionais. Com efeito, a construção
no e aplicar um método. O sentido e o papel do método foram
de conhecimento novo pela ciência, entendida como processo de saber,
apresentados no capítulo anterior. Agora trata-se de sua prática
só pode acontecer mediante uma atividade de pesquisa especializada,
operacional.
própria às várias ciências. ~esquisas que, além de categorial epistemo-
No quadro 'a segui~ pode-se visualizar o desenvolvinJento metódi~
lógico preciso e rigoroso, exigem capacidade de domínio e de manuseio
co e planejado de uma investigação, constituído de uma seqüência
de um conjunto de métodos e técnicas específicos de cada ciência que
de momentos, compreendendo as seguintes etapas:
sejam adequados aos objetos pesquisados.
1. A elaboração do pro;eto de pesquisa;
2. O levantamento das fontes referentes ao objeto;
3. A atividade de pesquisa e a prática da documentação;
4. A análise dos dados e a construção do raciocínio demonstrativo;
5. A redação do relatório com os resultados da investigação.
I

128 METODOLOGIA DO TRABALHO afNl1Flco 129


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o 4.1. ELABORANDO O PROJETO DE PESQUISA


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E trabalho não só a respeito da ordem dos procedimentos lógicos e me-
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todológicos mas também em termos de organização e distribuição do
tempo. Constitui assim um eficaz roteiro de trabalho.

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r 4.1.1. A estrutura do projeto enquanto texto
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',~o .e~ Amadurecidos os pontos, pode-se explicitá-los por escrito, compondo o
o 0-"
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.-~., ." Projeto, com a seguinte estrutura:
1. Título: ainda que provisório, atribui-se um titulo ao Projeto,"o mes-
mo que se prevê dar ao trabalho final que relatará os resultados
r :!..~__
.E~~gu.i~a.O título deve expr~ssar, o mais fielment~ possível, o
,g .2 .g conteúdo te~ático do trabalho. Poderá, eventualmente, ser metafó-
;e"*",
o a-cp
g- rico, mas, nesses casos, dever-se-á acrescentar um subtítulo temati-
,.c o" a..
.,g ''1;J '4)
w _..-0_ .camente expre~sivo.
2. (ipresentação: inicia-se O Projeto com uma apresentação onde se
Figura 1. Fluxograma tia elaboração do trabalho científico . exporá sinteticamente cpmo se chegou ao tema de investigação,

130 AN,ONIO JOAQUIM SEVERrN"a METODOLOGLA DO TlI.AIIALHO CIENTtF1co 131

qual foi a gênese do problema, as circunstâncias que interferi:r;~~m ~s.9~~~, ..pertirtGm~~_'!.9_tegI~.eyipcp.lados ao desenvolvimento do
nesse processo, por que se fez tal opção, se houve anteceden.t~s. raciocínio. Objetivos .extrínsecos, obviamente, só ca~em na Apre-
Esta é a parte mais pessoal da exposição do projeto, único mo- sentação.
mento em que o pesquisador pode referir~se a motivos de or~em 6.. Quadro teórico: .cabe, nesta altur~, expor os referenciais teóú-
pessoal. co-metodológicos, ou seja, os instrumentos lógico-categoriais nos
l..,~_Qbjl!.tc:.e
_ prgbl~111;.q.da. pesql(lisa: retomando o que já foi anunçi-ª.,do qua~~._~~
apóia.p_<.'l:r~
conduzir o trabalho investigativo e o racioCÍnio.
na ApfeS,entação, procura-se, em seguida, com uma exposiçãQ.Utais Tsag:-se de escl~r:ecer as várias categorias que serão utilizadas para
objetiva e técnica, colocar o problema, ou seja, como o temfL~tá dar conta dos fenômenos a serem abordados e explicados. Muitas
problematizado e, conseqüentemente, por que ele precisa ain9a_ser v.ez~sessas categorias integram algum paradigma teórico específico,
pesquisado. Trata-se, portanto, de delimitar, circunscreverq _t~~a- 4e rp.odo explícito. Outras vezes, trata-se de definir bem as catego-
problema. O terna deve .ser problematizado e é preciso ter umajdéia das explicativas de que se precisa para analisar os fenômenos que
.muito clara do problema a ser resolvido. são objeto da pesquisa .
4. Justificativa: neste tópico do Projeto, cabe .adiantar a cO.fltril:miç.ão 7. Fontes, procedimentos e etapas: nesta etapa, devem ser anunciadas
que se espera dar com os resultados da pesquisa, justifica~d?-se as fontes (empíricas, documentais, bibliográficas) com que o pes-
assim a relevância e a oportunidade de sua realização, mediaI)t_~o g!!i~!!ºQr conta para _arealização da pesquisa e os procedimentos
desenvolvimento do projeto. Este é o momento de se referir então n:t~_~9do!ógicose técnicos que usará, deixando bem claro como é
aos estudos anteriores já feitos sobre o tema para assinalar S1,1as que vai _proceder. À vista dos objetivos perseguidos, da natureza do
eventuais limitações e destacar assim a necessidade de se continl.!-.?r o~jeto pesquisado e dos procedimentos possíveis, indique as etapas
a pesquisá-lo e as contribuições que o seu trabalho dará, just.ifi- de seu processo de investigação, tt:;ndo bem presente que os resulta-
cando-o desta .maneira. É o que denomina a revisão de literatura, ~os. de cada uma destas etapas é que constituirão as partes do rela-
processo necessário para que se possa avaliar o que já se produziu tório final do trab~l.1ho,ou seja, os seus capítulos:
sOQre o 9-s.suntoem pauta, situando-se, a partir daí, a contribuição ?,_._._.Çr9-n.ograma:
o pesquisador deve indicar no seu projeto as várias
que a pesquisa projetada pode dar ao conhecimento do objeto a ser etapas, distribuindo-as no tempo disponível para as atividades pre-
pesquisado. v)stas pela pesquisa, incluindo a redação final. Não confundir os
S--i--1ifl-Ó.teses e objetivos: em seguida, 0_ projeto deve explicitar: ..a.(s) .passos cronológicos com as etapas de investigação, de que se falou
h.ipótese(s) avançadas para a solução do problema. Lembre-s_~qe no item anterior.
que todo trabalho científico c,?nstitui um raciocínio demonstr.atiyo 9. Bibliografia=--_~~~~~~.1~,
~eip.pre de acordo com as normas técnicas
de alguma hipótese, pois é essa demonstração que soluciona o_prp- pertinentes, os títulos básicos a serem utilizados no desenvolvimen-
blema pesquisado. À hipótese se vinculam os objetivos, ou s.eja,__
os to da pesquisa, discriminando, se for o caso,. as fontes, os textos de
resultados que precisam s~r alcançados para que se constr~a .!9_çl~ referência teórica, os documentos legais etc. Ter bem claro que esta
a demonstraç~o. Aqui está se referindo aos objetivos. intrínsecos da bibliografia poderá.se ampliar ao final da pesquisa, já que novos
132 A.."JTÓl'<10 JOAQUl.~1 SEVERINO METODOLOGIA DO TRABALHO CIL"!TÍFlCO 133

ª-º-ç~!ilentos .p.9:~~rãos.er identi#s:ados. ~_mdec_Qr.çênciae no. desen- 4.2. DESENVOLVENDO O PROCESSO DE INVESTIGAÇÃO
volvimento do processo de investigação.
DistÍflguem se três fases fiO amadtireeimeflte de um tfaealho.-h-á
OBSERVAções: momento da invenção, da intuição, da descoberta, da formulação de
L O projeto, em seus vários pontos, pode ser alterado no decorrer hipóteses, fase eminentemente lógica em que o pensamen~o é provoca-
da pesquisa. Isto ~ normal e até positivo, uma vez que revela even- dor, o espírito é atuante; logo após parte-se para a pesquisa positiva,
tuais descobertas de dados novos e aprofundamento das idéias do seja experimental, seja de campo ou bibliográfica. Nesta et_apa, o es-
_ªJJ.t.Q{. írito d tD.£,_de_ou.tIas-.idéias'.há...a_oortunidade_de _
2. Também os itens deste roteiro podem ser reduzidos, ampliados ou cotejar as primeiras intuições com as intuições alheias ou com os fatos
estruturados em outra ordem, de acordo com a natureza da pes- objetivos. Do confronto nasce uma posição amadurecida. Abando-
quisa a ser desenvolvida. A estruturação é flexível e seus elementos nam-se algumas idéias, acrescentam-se novas, reforroulam-se outras.
devem ser distribuídos de conformidade com as exigências lógicas Isto quer dizer que a primeira formulação não é necessariamente defi-
da própria pesquisa. nitiva: inicialmente, do ponto de vista lógico, será tão-somente provi-
3. Por outro lado, projeto de pesquisa não deve ser confundido com sória. Já na terceira etapa, ou seja, no momento em que, amadurecida
plano de trabalho, de que se falará na página 146. Apesar do cará- uma posição, se parte para a composição do trabalho, então é preciso
ter de provisoriedade de ambos, neste último caso trata-se da pro- estar de posse de .~m-~
fo;~~lação definitiva, que poderá confirmar a
pria estrutura lógica da monografia, dividindo esquematicamente, primeira ou modificá-la.
como um sumário, os vários momentos do discurso, do ponto de Nas presentes diretrizes, estas fases não estão sendo consideradas
vista de seu conteúdo. distintamente, uma vez que são concomitantes nas várias etapas do tra-
4. Resta lembrar ainda a dintinção entre o projeto e o próprio traba- balho científico, considerado de um ponto de vista da técnica de sua
lho - dissertação ou tese. No projeto, o pesquisador deve ter muito elaboração.
claro o caminho a ser percorrido, as etapas a serem vencidas, os
instrumentos e as estratégias a serem utilizados. É para isto que, em 4.2.1. Levantamento das fontes e documentos
última análise, ele é feito; esta é a sua finalidade intrínseca. Mas não
é o projeto que vai ser publicado e sim a dissertação ou a tese. E aí o o traba~ho de pesquisa deverá dar conta dos elementos necessários para
que está em jogo é o resultado do trabalho desenvolvido de acordo o desenvolvimento do raciocínio demonstrativo, recorrendo assim a um
com o projeto. Distinguem-se, pois, um do outro, plano de pesquisa volume de fontes suficiente para cumprir essa tarefa, seja ela relaciona-
e plano de exposição. Assim, nem sempre é necessário escrever um da .com o levantamento de dados empíricos, com idéias presentes nos
capítulo para explicar qual é o quadro teórico: o importante é ba- textos ou com intuições e raciocínios do próprio pesquisador. No caso
sear-se nesse quadro teórico de maneira coerente. O leitor dar-se-á da pesquisa bibliográfica, além do critério de tempo disponível, da na-
conta em qual quadro teórico o autor se apoiou. tureza e objetivos do próprio trabalho, do estágio científico do pesqui-
,....- ..
1

134 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO METODOLOGIA DO TRABAlHO CIENl1FIco 135

sador, deve-se adotar um critério formal, cruzando duas perspectivas: to bibliográfico são os fichários das bibliotecas. Tais fichários catalo-
partir sempre do mais geral para o mais particular e do mais recente gam livros, seja pelo critério de autor, seja pelo critério de assunto. No
para o mais antigo, ressalvand~-se, obviamente, o caso dos documentos primeiro caso, através do nome de um autor identifica-se, pela ordem
clássicos. alfabética, as respectivas fichas; já no fichário por assuntos, as obras
Denomina-se heurística a. ciência, técnica e arte de localização e le- são classificadas de acordo com números-códigos estabelecidos por
vantamento de documentos. É constituída de uma série de procedimen- sistemas universais de classificação temática.1 Neste caso, identifica-
tos para a busca metódica e sistemática dos documentos que possam se o número sob o qual o assunto é classificado, para o que se deve
interessar ao tema que se pesquisa. consultar o Índice de assuntos que se encontra num pequeno arquivo
junto aos fichários gerais na ante-sala das bibliotecas e, em seguida,
1.a. ASfontes bibliográficas procuram-se no fichário de assuntos as respectivas fichas, pela ordem
Tais documentos se definem pela natureza dos temas estudados e pelas numérIca.
áreas em que os trabalhos se situam. Tratando-se de trabalhos no âmbi- As informações colhidas pela heurística devem ser transcritas pri-
to da reflexão teorica, tais documentos são basicamente textos: livros, meiramente nas fichas bibliográficas.2 Na face dessas fichas são trans-
artigos etc. critos os dados referentes ao documento em si, conforme as técnicas bi-
A bibliografia como técnica tem por objetivo a descrição e a classi- bliográficas. A seguir, assinalam-se com grande proveito os códigos das
ficação.dos livros e documentos similares, segundo critérios, tais como bibliotecas onde se encontra o documento, as resenhas do documento
autor, gên.ero literário, conteúdo temático, data etc. Dessa técnica re- e eventualmente alguma rápida apreciação. Como essas fichas são a
sultam repertórios, boletins, catálogos bibliográficos. E é a eles que se base de qualquer trabalho científico, todo estudioso deveria formar um
deve recorrer quando se visa elaborar a bibliografia especial referente fichário na sua especialidade, o que lhe seria de extrema utilidade no
ao tema do trabalho. Fala-se de bibliografia especial porque a escolha momento de qualquer pesquisa.3
das obras deve ser criteriosa, retendo apenas aquelas que interessem es- Todos esses dados constantes de catálogos e das demais fontes bi-
pecificamente ao assunto tratado. bliográficas já estão integrando, nos dias de hoje, os CD-ROMs, bem
Os repertórios, os boletins e os catálogos são obras especializadas como os bancos de dados da Internet. Esses CDs podem ser lidos em mi-
no levantamento das publicações, indistintamente de todas as áreas ou crocomputadores, graças a programas específicos. Os bancos de dados
restritas a áreas determinadas. Assim, existem repertórios de filosofia da Internet com fontes bi.bliográficas são acessáveis graças aos progra-
que só assinalam obras referentes à filosofia. O mesmo acontece com as
demais áreas do saber. 1 Os principais sistemas de clilSSificaçio sO:o a CDD e •. COU, a C1assificaçio De<;imal de Dewey e a. Classificação
Decimal Universal. Esta ú1rima é baseada na primeira, atx:rft:íçoando-a em alguns pontos. Ambas dividem o campo
Os estudiosos encontram também nas grandes enciclopédias, nos do saber humano em da. ireas., subdivididas, por sua vez, em dez 5ubáre-as que se subdividl:IIl sucessiv;omeDte. Estas
subdivisões s,io indicadas por mlmeros arábicos dentro das várias seçOes_ Assim, a FUosofi" recebeu o número 100. a
dicionários especializados, nas monografias, nos tratados, nos textos Psicologia, considerada subárea da Filosofia, o conjunto 150; a L6gica, 160. A Sociologia, 300, a Eclucaçijo, 370, a
História., 900, a História do Brasil, 981, a Conjlilllç.iio Mineira é classificada sob o n. 981.03. Cf. Heloisa de Almeida
didáticos, nas revistas informações bibliográficas para trabalhos de PRADO. Organize sua biblioteca. 2. ed. Sio Paulo: PoUgono, 1971, p. 129 5S.
2 Cf. p. 76.
cunho científico nas respectivas áreas. Outra fonte para o levantamen- 3 Cf. p. 66 ss.
136 AmONTO JOAQUIM SEVERINO METODOlOGL-\ DO TRAllA.lHO-CIENTtFiCO 13 7

mas de busca. Tal pesquisa facilita e enriquece enormemente o trabalho A Internet é um conjunto de redes de computadores interligados
de levantamento dessas fontes documentais. no mundo inteiro, permitindo o acesso dos ~teressados a milhares----d.e-_
Em ~-Bffe, destacam-se alguns sítes de granâe lmportãncla---------~in-f~o-r-m-ações que estão armazenadas em seus Web Sites. Permite a esses
para a pesquisa de referências bibliográficas: interessados navegar por essa malha de computadores, podendo con-
W\vw.capes.gov. br - Neste Portal da Capes, há possibilidade de sultar e colher elementos informativos, de toda ordem, aí disponíveis.
acesso a periódico~ de todas as áreas bem como a teses e dissertações Permite ainda aos pesquisadores de todo o planeta trocar mensagens e
defendidas nos Programas de Pós-_Graduação de todos os .Estados .do informações, com rapidez estonteante, eliminando assim barreiras de
_~s._--
www.scielo.br - Portal com todos os artigos das principais revistas É como um conjunto desse tipo que a Internet desenvolveu a "WWW
científicas especializadas de todo o mundo e de todas as áreas. (Wo-r1dWide Web, rede mundial de computadores), que pode ser aces-
sada através do protocolo HTfP (protocolo de transporte de hipertex~
www.usp.br/sibi - Portal que permite acesso a todos os acervos de
to), que é uma técnica utilizada pelos servidores da rede mundial de
todas as bibliotecas das Universidades interligadas em sistema de rede.
computadores para passarem informações para os Programas rastrea-
De modo geral, todas as Universidades têm hoje seus acervos do-
dores (browsers web).
cumentais disponibilizados em seus sites, podendo ser acessados pelo
Assim, entidades e pessoas interligam-se a essa red~_mediante U7.
público.
Sites, que se encontram alocados em "provedores", que são grandes
centros que articulam as redes de computadores, aos quais se articulam,
1.b. A internet como fonte de pesquisa
por sua vez, os "servidores", bem como os computadores pessoais dos
A Internet, rede mundial de computadores, tornou-se uma indispensável
usuános.
fonte de pesquisa para os diversos campos de conhecimento. Isso porque
Para que o usuário possa navegar na Internet, seu micro precisa
representa hoje um extraordinário acervo de dados que está colocado à
estar conectado a ela, e para isso ele necessita de um fax-modem, ou
disposição de todos os interessados, e que pode ser acessado com extre- seja, deve conter uma placa com um programa software que o liga via
ma facilidade por todos eles, graças à sofisticação dos atuais. recursos telefone ou outras redes de comunicação (as bandas largas como as da
inÍormacionais e comunicacionais acessíveis no mundo inteiro. TV a cabo) com seu provedor. O usuário deve contratar os serviços de
As diretrizes para sua utiliza"çãocomo tecnologia de acesso a valio- um provedor, tornando-se um assinante, e ter instalado em seu micro
sos bancos de dados científicos, aqui apresentadas, são apenas indica- um programa de navegação (browsers). Entre nós, o mais usad_o é o
ções operacionais para um usuário comum, não entrando nas questões Internet Explorer, da 'MiCrosoft. Este é um programa cujo ~~eS?bpode
técnicas, nem mesmo naquelas m-aissimples que certamente todo usuário ser desencadeado pelos seus Ícones de atalho eventualmente exibidos
da informática já tem condições de manusear. Pretende-se apenas trazer na área de trabalho do Windows ou então pela seqüê~cia normal- de
algumas indicações gerais que servirão de subsídios para as abordagens comandos através do menu Iniciar (fig. 2).
iniciais desse poderoso equipamento. Seu próprio l1S0 levará o pesquisa- Antes de se conectar ao provedor, o usuário deve criar/instalar uma
dor a dominar cada vez mais seus significativos recursos técnicos . conexão "dial up" dentro da pasta "Acesso à rede dia~ up""do Windows.
M.ETOOOLOGlA DO TRABALHO cl£NliFIco 139
138 ANTO!'<10 10~QUlM SEVERINO

\
\ Dessa forma, quando abrir o programa de navegação, será aberta uma por um pequeno ícone, de uma dupla de computadores, que fica pulsan-
janela de conexão. Assim que clicar no botão "Conectar", o micro vai do no canto direito da barra inferior da tela (fig. 3).
processar a discagem e realizar a conexão, que se dá abrindo a página Uma vez na tela inicial do Navegador, é só digitar o endereço procu-
inicial do provedor. No exemplo -a seguir, o provedor é o Universo On- rado e pressionar Enter. Ao fim de alguns segundos, abrir~'se-á a página
line, o VOL. inicial do site procurado, que terá vários "links/atalhos", indicando ou-
Se a conexão do micro for por banda larga (Speedy, Ajato, Virtua ...), tros arquivos que podem ser acessados mediante simples comando com
aceSS3-se imediatamente a "página inicial", não havendo necessidade de a seta do mouse, botão esquerdo.
discagem. Fica então instalado o Programa de navegação na rede. Todo endereço inicia-se com os prefixos http://, seguido de uma es-
Se a operação se realizar a contento, abre-se a página inicial do pecificação.particular que indica sua localização numa rede, num servi-
provedor, com o campo da URL (Localizado! Universal de Recurso) in-
dicando-o. A-efetivação e a manutenção da conexão ficam assinaladas
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Figura 2. Menu Iniciar. Figura 3. Página inicial do provedor.



l 140 ANTONIO JOAQL•.t.••• SEVEPJNO
METOOOLOC'" DOTRABAUiO OL'*l1F:rCO 141
i
I dor, num domínio e numa determinada Home Page, que é o documento ção, assim, informações de fontes bibliográficas a partir de seus acervos
central do 'Web Site. Uma vez acessado um Web Sitc, seu endereço fica documentais. Cabe assinalar que esses catálogos são encontrados tam-
arquivado numa ageilda oculta sob o campo da URL. Para nova pesqui- bém em CDs que podem ser consultados diretamente pelo usuário seja
sa no mesmo Web Site, basta clicar na setinha que fica no fin?il direito nos equipamentos de outras bibliotecas, seja em seu equipamento parti-
do campo e selecioná-lo, desloca~do:-o para o campo. cular, uma vez que tais CDs são comercializados como se fossem livros.
Uma vez acessado o sire, basta circular por suas páginas, seguindo Desse modo, está ocorrendo uma complementaridade entre os acervos
as orientações fornecidas pelos ícones ou denominações textuais, inte- informatizados e os acervos tradicionais das bibliotecas.
1agillâócõiii ãs hrfotllIaçÜÜ-que vau sEíluüàaaas:--- no
am em sao acesslvels, via ntcrnet, os cata ogos as c ar
Pode-se passar de um site para outro através de links, palavras exemplo, o endereço http://www.booknet.com.br/fornece informações
ou ícones que, uma vez acionados, levam o browser a uma nova pá- sobre os lançamentos editoriais, permitindo identificação de fontes bi-
gina ou endereço. A navegação permite um roteiro em cascata, um bliográficas.
site indicando muitos outros, complementares em relação ao -domínio
pesquisado. Para ir de uma página a outra, basta usar os comandos • vvvvvv.teses.usp.br
icônicos constantes da barra superior da tela: avançar, voltar, voltar à Traz regisrro de dissertações e teses, defendidas em rodas as áreas de
____ ~ ~p_á.gina-i-niQaJ-ctG c-enhec-imen...,.,...-<ii¥er.sas-tmidades-da Uni. ersidade-de-S-
• www.ibge.gov.br
".1. pesquisa clentffica na Internet
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísrica. Órgão do Ministério
O que se pode pesquisar na Internet? Como se trata de uma enorme re- do Planejamento, responsável pelo levantamento, sistematização e
de, com um excessivo volume de informações, sobre todos os domínios divulgação dos indicadores conjunturais relativos aos diversos cam-
e assuntos, é preciso saber garimpar, sobretudo dirigindo-se a endereços pos da atividade nacional, mantendo-os atualizados.
certOs. Mas quando ainda não se dispõe desse endereço, pode-se iniciar
• www.bireme.br
o trabalho tentando exatamente localizar os endereços dos sires relacio-
Centro Latino-americano e do Caribe de Informação em Ciências
nados ao assunto de interesse. Isso pode ser feito através dos Web Sites
da Saúde, criado pela OPAS - Organização Pan-Americana de Saú-
de Busca, assim designados programas que ficam vinculados ã: própria
de, sistematiza e divulga informação técnico-cientÍrica na área da
rede e que se encarregam de localizar os sites a partir da indicação de
. Saúde, incluindo a_Biblioreca virtual da área da Saúde e Banco de
palavras-chave, assuntos, nomes de pessoas, de entidades etc. Entre os
. Dados.
mais correntes e poderosos, citam-se o Google (www.google.com.br).
o Yahoo (www.yahoo.com), o Alta Vista (www.altavista.com), o Lycos • www.prossiga.ibict.br

(www.lycos.com), o Excite (www.excitc.com). Portal brasileiro que traz bases de dados, bibliotecas virmais, evenros
De particular interesse para a área acadêmica são os endereços das científicos e portais temáricos nas diversas áreas do conhecimento.
próprias bibliotecas das grandes universidades, que colocam à disposi- • www.lambda.maxwell.eJe.puc-rio.br

METODOLOGLA DO TRA1IALHO c!FNrtFIco 143
142 ANTONIO JOAQUIM S£VF.RINO

Banco de dados da PUC do Rio de Janeiro. Centro Digital de Re- o correio eletrônico é geralmente formado por um nome indicando
ferência com base na integração do ambiente de ensino assistido o usuário, seguido do símbolo @ (arroba), da indicação do provedor
por tecnologia de informação baseada na "WEBcom o ambiente de de acesso à Internet, de uma designação do domínio sob o qual ela se
biblioteca/arquivo/museu digital, recriando-se a associação de uma insere na rede. Assim, em maria@uol.com.br: "maria" é a identificação
instituição de ensino/pesquisa com uma biblioteca. do usuário; "@" é o símbolo que indica tratar-se de um endereço ele-

• www.ibict.br trônico; "uol" é a identificação do provedor de acesso (no caso, Uni-


Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. Como verso Online); "com" indica tratar-se do domínio "comercial" e "br" é
centro nacional de pesquisa, de intercâmbio científico, de forma-
çãp, treinamento e aperfeiçoamento de pessoal científico, tem por
finalidade contribuÍr para o avanço da ciência, da tecnologia e da '8''''
__ m. Ui Hª ~'." "118-. s
l__ ?t?m~ff~?1W-~~~JSJ~;,",.,,'-r:-
''''' ":""'-r:';i:, -,0 •••• __ :". ~.E'

inovação tecnológica do País, por intermédio do desenvolvimento ,,~ . ;.',:". @ _..' ~ ly:-i~.i~~~~~=:::::::= -----::====:=:::::=::::::':n~:!
:~{i;;:~=::~==: -
da comunicação e informação nessas áreas.
1_."""""" ••. :::JI
Il"",-",,",co fj1jJ_I~I_I_
li 1,,-1
Igualmente, jornais e revistas, instituições de pesquisas e entidades
culturais possuem seus endereços e podem ser acessados para os mes-
"
_~"".ft4\la !mL%i@'"",¥~@-u::,,~
~
L==..:-
. b"-l_""";''''''
mos fins. -::"1 -----c",~1 ---- r...............
S!:J:::=-
Para copiar os resultados da pesquisa julgados relevantes e que pre- r S_dlpla<la~ "" I""b 'eM~'

cisam ser guardados para ulterior exploração, basta clicar no comando "
correspondente. O programa de navegação vai perguntar se quer salvar
ou abrir o arquivo. Basta escolher a opção "Salvar em disco", e indique
a pasta onde ele deve ser arquivado.
O registro bibliográfico das fontes localizadas na rede Internet é
feito de acordo com normas especificas de referenciação, conforme in-
dicação nas páginas 194-196.

b.2. O correio eletrônico: a comunicação via e~mail


Já muito conhecido e utilizado, o Correio Eletrônico é um sistema de
4" _. do ••• _. do LO..' ~ -....._ <loUOlntl --.. soIic~~~_T"",., ",h.
comunicação via Internet, por meio do qual podemos trocar mensagens C11!E&2007UOl.-O •••••••••.-. T••••••• _ •••••••• <10>0

escritas com interlocutores espalhados pelo mundo inteiro. O nosso en-


dereço pessoal funciona como urna espécie de caixa postal, que vai re-
cebendo e guardando as mensagens que recebemos e que ficam arqui-
vadas a nossa disposição para consulta oportuna. Figura 4. Composição e envio de mensagens.
144 ANTOMOJOAQUl.'dSE~O METOOOlOClA 00 TR.\!ALHO ctE.'ITtFlco 145

a indicação do país, no caso Brasil. Todos os países são designados por de seu trabalho, anunciada no Projeto. Serão essas idéias que nortearão
apenas duas letras. a leitura e a pesquisa que se iniciam. A visualização dessas etapas, base
Para envIar uma mensagem, dica-se em "cnar e-mail", preeoc en- para a futura estruturação do trabalho final, é um valioso roteiro para
do, nos campos correspondentes, o endcrcço eletrônico do dcstinatário, o desenvolvimento da atividade investigativa. Obviamente, este plano
com cópias para eventuais outros destinatários, se for O caso, O assunto é sempre provisório, podendo ser alterado em decorrência do próprio
e, na janela principal, o texto da mensagem. Havendo arquivos para ser desenvolvimento da pesquisa.
enviados, clicar em "Anexar"; seguindo as solicit3ções de escolha do De posse de um roteiro de idéias, pane-se para a análise dos do-
rql1ing-Rg-gis'is- BFR "EJ:ue""S@-BR"6BR{f'B=e!=ma"R Etaa-EI EF""tr,j

feito, dá-se o comando "Enviar" (fig. 4). trahalho.


A operação tendo êxito, a mensagem enviada fica armazenada na A primeira medida, no entanto, é operar uma triagem em todo o
caixa "ítens enviados", onde pode ser recuperada a qualquer momento, material recolhido durante a elaboração da bibliografia. Nem tudo será
ficando registrada assim a comprovação da remessa. Caso, por algum necessariamente lido, pois nem tudo interessará devidamente ao tema
motivo, a mensagem não possa ser recebida pelo usuário, csta informa- a ser estudado. Os documentos que se revelarem pouco pertinentes ao
ção é devolvida sob a forma de mensagem vinda do provedor. tema serão deixados de lado. Para presidir a essa triagem, utilizem-se as
_________ Qlli!.l.guerme.nsagem,.roYiad-'UlJ.!Je.cebida,..jlQ.de.£cu.epassa.da.a..o1 ,- resenhas; que permitem avaliar a utilidade do doc"mento..em...qucstã.o
tros destinatários, bastando para tanto abri-la, em seguida clicar em Na falta delas, além da opinião de especialistas, o melhor caminho é
"encaminhar", indicar os novos destinatários e, ao final, dar o coman- tomar contato direto com a obra, lendo seu sumário, o prefácio, a intro-
do "enviar". dução, as "orelhas", assim como algumas passagens do seu texto, até o
Para responder a uma mensagem recebida, dar o comando" respon- momento em que se possa ter dela uma opinião.
der": é aberta uma janela com o endereço do remetente ora destinatá- Uma vez definidos os documentos a serem pesquisa dos, procede-
rio, com O assuntO já registrado. Para que a resposta seja dada a todos se à leitura combinando o critério de atualidade com o critério da ge-
os que receberam coletivamente a mensagem, escolher o comando "res- neralidade para o estabelecimento da ordem de leitura. Inicia-se pelos
ponder a todos". textos mais recentes, e mais gerais, indo para os mais antigos e mais
particulares. As obras recentes geralmente retomam as contribuições
4.2.2. A atividade de pesquisa e a prática da documentação significativas do passado, dispensando assim uma volta a textos supe-
rados. Observar, contudo, que obras clássicas dificilmente perdem seu
Terminado o' levantamento das fontes, é chegado o momento de se ini- valor de atualidade. Já na questão da generalidade, atentar para as con-
ciar o trabalho da pesquisa propriamente dita, o momento de leitura e dições de quem está fazendo o trabalho, levando em conta o nível em
da coleta de dados. que se encontra, a dificuldade do tema, a familiaridade do autor com O

EXPlORACAo DAS FONTES BIBUOGR.ÁFICAS Antes de começar a explorar suas assunto e com a área em que é tratado. Feitas essas ressalvas, a ordem
fontes documentais, o pesquisador deve ter presente a estrutura geral lógica é partir das obras gerais-enciclopédias, dicionários,_tratados etc.,
146 ANTONIO ]OAQUL"l SEVERINO METODOLOGIA DO TRABALHO cl:EI'lT!Flco 147

chegando às monografias especializadas e aos artigos de revista, muito pleta do texto que se lê, caso em que se deve transcrever ao pé da letra,

I importantes devido a sua atualidade.


A essa altura dá-se inicio à leitura. Note-se, contudo, que já não se
colocando-se tudo entre aspas e citando a fonte; em outros casos faz-se
apenas a síntese das idéias em questão; nesta hipótese, as aspas são dis-
trata de urna leitura analítica desses documentos em vista da recons- pensadas, mas mantém-se a citação da fonte. Conforme o hábito pesso-
tituição do processo do raciocínio do autOI. Mesmo quando a leitura al, a transcrição nas fichas será feita interrompendo-se a leitura (o que
11 integral do texto se fizer necessária, ela será feita tendo em vista o apro- é mais aconselhável) ou, então, primeiramente será feita uma leitura
veitamento direto apenas daqueles elementos que sirvam para articular completa do texto pesquisado, assinalando-se levemente as passagens
as idéias do novo racioCÍnio que se desenvolve. Os elementos a serem importantes, transcrevendo-as a seguir.
~ecolhidos visam ref~~çar, apoiar e justificar as idéias pessoais formula- As -fichas de documentação contêm, além do corpo da citação e re-
das pelo autor do trabalho. Esses elementos retirados das várias fontes ferências indicadoras da fonte, um título e um subtítulo que permitem
dão às várias afirmações do autor, além do material sobre o qual se identificá-las e classificá-las. Esses títulos, colocados no alto à direita,
trabalha, a garantia ~e maior objetividade fundada no testemunho e na são definidos pelas idéias diretrizes do roteiro provisório. Igualmente,
verificação de outros pensadores. quando surge urna idéia nova, um aspecto até então despercebido, lan-
ça-se um novo titulo nas fichas de documentação e o material passa a
A DOCUMENTAÇÃO À medida que se procede à leitura e que elementos im- fazer pane do plano de trabalho.
portantes vão surgindo, faz-se a documentação. Trata-se de tomar nota
A técnica da documentação em fichas 'rem, do ponto de vista di-
de todos os elementos que seria utilizados na elaboração do trabalho
dático, no contexto universitário brasileiro, a vantagem de permitir
científico.
eficiência no trabalho em equipe, garantindo a participação comple-
Quando se fala aqui de documentação, refere-se à tomada de apon- ',1:.
mentar de todos os membros do grupo. Com efeito, parte-se de um ro- ,,_'o
tamentos durante a leitura de consulta e pesquisa. Esses apontamentos
teiro comum e os integrantes da equipe pesquisam isoladamente, cada
servem de matéria-prima para o trabalho e funcionam como um pri-
um lendo e documentando textos diferentes. No fim das pesquisas, as
meiro estágio de rascunho. É desaconselhá vel tomar notas em cadernos,
fichas de fontes diferentes são agrupadas conforme os temas definidos
de maneira seqüencial, assim .como. também não é prático assinalar no
pelos títulos e subtítulos, faltando apenas a construção posterior do
próprio texto as passagens importantes que eventualmente serão apro-
trabalho. As fichas são redistribuidas de acordo com os vários mo-
veitadas através de citações na redação final do trabalho. Essa técnica,
me;ntos do trabalho, cabendo a cada participante da equipe compor
se tiver alguma utilidade, só a terá para a leitura analítica.
uma parte do trabalho.
Os, elementos julgados válidos devem ser transcritos nas fichas de
Durante a pesquisa, ou em outras circunstâncias da vivência inte-
documentação:!' Mas o quê exatamente e como se deve transcrever na
lectual, o leitor sempre pode ter idéias próprias sobre algum dos tópicos
ficha de documentação? Passa-se para a ficha alguma passagem COffi-
que está discutindo. As fichas de documentação servem também para
registrar essas idéias que, se não forem logo gravadas, acabam perden-
4 Cf. p. 76. do-se. Enfim, nesta fase do trabalho, tudo o que interessar ao mesmo
148 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO METODOLOGIA.DO TRARA1.HO Cl£Nl1FIC{) 149

deverá ser transposto para as fichas que formarão o acervo do material Do ponto de vista da estrutura formal, o trabalho tem três partes
com O quarse trabalhará na construção formal do novo texto. fundamentais: a introdução, O desenvolvimento e a conclusão. t,_den.tr.o, -!-~_--
desta eStrutura que se desenvolverá o raciocínio demonstrativo do dis-
4.2_3.Análise dos dados e a construção do raclocfnlo curso em questão.
demonstratIvo A introdução, quando for O caso, levanta o estado da questão, mos-
trando o que já foi escritO a respeito do tema e assinalando a relevância
Construção lógica ou síntese é a coordenação inteligente das idéias coo- e o interesse do trabalho. Em todos os casos, manifesta as intenções do
Jorme as .exigênciasJacionais da ..sistematiza";;o_ nró"'ria do.-tr .1l .. . - -- - --- --I...,.IV, - - -- ----
I ~t:U tema, seu proOlema,
Pode acontecer que, devido a desdobramentos ocorridos durante a pes- sua tese e os procedimentos que serão adotados para o desenvolvimento
quisa, se faça necessária uma reformulação do roteiro provjsório para O cio raciocínio. Encerra-se com uma justificação do plano do trabalho.
estabelecimento do plano definitivo. Lendo a introdução, O leitor deve sentir-se esclarecido a respeito do
A ordem lógica do pensamento de quem escreve pode não coincidir teor da problematização do tema do trabalho, assim como a respeito
com a ordem de descoberta e de intuição do autor. Isto é normal, já que da natureza do raciocínio a ser desenvolvido. Evitem-se intermináveis
o pensamento expresso não pode perder de vista a finalidade que tem retrospectos históricos, a apresentação precipitada dos resultados, os It
de comunicar ao leitor essas descobertas. Por isso, o que interessa antes discursos grandiloqüentes. Deve~r sjntética e versar 'ícica e exclusW..a.•.
--- ----,dhe,-,ttrurdd~f[rBigiÕItidade do textO.
mente sobre a temática intrínseca do trabalho. Note-se que é a última
A construção lógica do trabalho é o arranjo encadeado dos racio- parte do trabalho a ser escrita.
cínios utilizados para a demonstração da hipótese formulada no início. O desenvolvimento corresponde ao corpo do trabalho e será es-
Naturalmente, esses raciocínios, em trabalhos que comportem elemen- truturado conforme as necessidades do plano definitivo da obra. As
i tos de pesquisa positiva de bibliografia, como na maioria dos trabalhos subdivisões dos tópicos do plano lógico, os itens, seções, capítulos etc.
aca~êmicos, são formados a panir dos dados colhidos nas fontes con-
i sulcadas e a partir das idéias descobertas pela reflcxão do autor.
surgem da exigência da logicidade e da necessidade de clareza e não de
um critério puramente espacial. Não basta enumerar simetricamente
i Todo trabalho científico, seja ele uma tese, um texto didático, um
os vários itens: é preciso que haja subtítulos portadores de sentido. Em
I artigo ou uma simples resenha deve constituir uma totalidade de inte-
ligibilidade, estruturalmente orgânica, deve formar urna unidade com
trabalhos científicos, todos os títulos de capítulos ou de outros itens ,,.
devem ser temáticos e expressivos, ou seja, devem dar a idéia exata do
sentido intrínseco e autônomo para o leitor que não participou de sua conteúdo do setor que intitulam.
elaboração, que internamente as partes se concatenem logicamente.
A fase de fundamentação lógica do tema deve ser exposta e pro-
Concretamente, isto quer dizer que as partes do trabalho, seus capí- ,
vada; a reconstrução racional tcm por objetivo explicar, discutir c de- \
tulos e, no interior deles, os parágrafos devem ter uma seqüência lógica
monstrar.s Explicar é tomar evidente o que estava implícito, obscuro ou ~
rigorosa determinada pela eStrutura do discurso. Não basta que as pro-
posições tenham scntido em si mesmas: é necessário que o sentido esteja
logicamente inserido no contexto do discurso e da redação. s Oekio V.SAlOMON, (0""0 (a:u,. omra "!fl11(Jrrafia p. 273SJ. Ci. umbem p. 78-81 .
150 ANfONIO JOAQUlM. SEVF.R.INO METODOLOGIA 00 TRABALHO C1ENTtFIco 151

complexo; é descrever, classificar e definir. Discutir é comparar as várias Em trabalhos científicos, impõe-se um estilo sóbrio e preciso, im-
posições que se entrechocam dialeticamente. Demonstrar é aplicar a portando mais a clareza do que qualquer outra característica estilística.
argumentação apropriada à natureza do trabalho. É partir de verdades A terminologia técnica só será usada quando necessária ou em traba-
garantidas para novas verdades. lhos especializados, nível em que já se tornou terminologia básica. De
A conclusão é a síntese para a qual caminha o trabalho. Será breve qualquer modo, é preciso que o leitor entenda o raciocínio e as idéias
e visará recapitular sinteticamente os resultados da pesquisa elaborada do autor sem ser impedido por uma linguagem hermética ou esotérica.
até então. Se o trabalho visar resolver uma tese-problema e se, para tal, Igualmente evitem-se a pomposidade pretensiosa, o verbalismo vazio,
o autor desenvolver uma ou várias hipóteses, através do raciocínio, a as fórmulas feitas e a linguagem sentimental. O estilo do texto será

conclusão aparecerá como um balanço do empreendimento. O autor determinado pela natureza do racioCÍnio específico às várias áreas do
saber em que se situa o trabalho.
manifestará seu ponto de vista sobre os resultados obtidos, sobre o al-
cance dos mesmos.
3.b. A construção do parãgrafo
Quando o trabalho é essencialmente analítico e comporta uma pes-
De um ponto de vista da redação do texto~ é importante ressaltar a
quisa positiva sobre o pensamento de outros autores, esta conclusão
questão da construção do parágrafo. O parágrafo é uma parte do tex-
pode ser fundamentalmente crítica. Quando, porém, a crítica é mais
to que tem por finalidade expressar as etapas do raciocínio. Por isso, a
desenvolvida, entrará no corpo do trabalho como um capítulo.
seqüência dos parágrafos, o seu tamanho e a sua complexidade depen-
dem da própria natureza do raciocínio desenvolvido. Duas tendências
3.a. A redação do texto
são incorretas: ou o excesso de parágrafos - praticamente cada frase é
A fase de redação consiste na expressão literária do raciocínio desenvol-
tida como um novo parágrafo - ou a ausência de parágrafos. Corno a
vido no trabalho. Guiando-se pelas exigências próprias da construção
paragrafação representa, ao nível do texto, as articulações do racioCÍ-
lógica, o autor redige o texto, confrontando as fichas de documentação, nio, percebe-se então a insegurança de quem assim escreve. Neste caso,
criando o texto redacional em que vão inserir-se. Uma vez de posse do é como se as idéias e as proposições a elas correspondentes tivessem as
i encadeamento lógico do pensamento, esse trabalho é apenas uma ques- mesmas funções, a mesma relevância no desenvolvimento do discurso e
I tão de comunicação literária.
I como se este não tivesse articulações.
I Recomenda-se que a montagem do trabalho seja feita através de A mudança de parágrafo toda vez que se avança na seqüência do
uma primeira redação de rascunho. TermÍnada a primeira composição, raciocínio marca o fim de uma etapa e o começo de outra.
sua leitura completa permitirá uma revisão adequada do todo e a cor- A estrutura do parágrafo reproduz a estrutura do próprio trabalho;
reção de possíveis falhas lógicas ou redacionais. Apesar da clareza e efi- constitui-se de uma introdução, de um corpo e de uma conclusão.
ciência que o método de fichas possibilita para a redação do trabalho, Na introdução, anuncia-se o que se pretende dizer; no corpo, de-
muitos aspectos desnecessários acabam sobrando no mesmo e só depois senvolve-se a idéia anunciada; na conclusão, resume-se ou sintetiza-se
de uma leitura atenta podem ser eliminados. o que se conseguiu.

ri
I
152 ANTÓNlO JOAQUIM SEVERlJ'IO METOD~~?<:!A DO TRABA1.HO c'.,ENT1F1cO 153

I
Dependendo da natureza do texto e do raciocínio que lhe é subja- • Núcleo do trabalho:
I
cente, o parágrafo representa a exposição de um raciocínio comum, ou - Introdução
'-J' , .~.t" ~u:;ao.
,-vu ••. Desenvolvimento
Portanto, a articulação de um tex.to em parágrafos está intimamen- - Conclusão
te vinculada à estrutura lógica do racioCÍnio desenvolvido_ É por isso • Apêndices e anexos
mesmo que, na maioria das vezes, esses parágrafos são iniciados com • Bibliografia
conjunções que indicam as várias formas de se passar de uma etapa ló- • Capa final ou .quarta capa
gica à outra ..
A capa inicial contém apenas três elementos: no alto da página, o
3.C.Conclusão nome do autor na ordem normal com letras maiúsculasj no .centro da
A redação do trabalho exige o dOTIÚnioprático de todo um instrumen- página, o título do trabalho, grifado; embaixo, a cidade e o ano. Tudo o
tal técnico que deve ser utilizado devidamente. Como em outros setores mais é desnecessário pelo menos em se tratando de trabalhos didáticos.
da metodologia, aqui também há muitas divergências nas orientações_ A capa final ou quarta capa não comporta nenhum elemento.
As diretrizes que seguem pretendem ser as mais. práticas possíveis e vi- A página de rosto tem, no alto, o nome completo do autoI, even-
sam atingir os trabalhos didáticos mais comuns à vida universitária. São tualmente com rápida alusão à sua qualificação profissioºal; IlQ ffi@iG,

normas gerais que, no caso de trabalhos específicos, como as disserta- o título completo do trabalho; mais abaixo, à direita, será dada uma
ções de mestrado e as teses de doutoramento, precisam ser complemen- explanação referente à natureza do trabalho, seu objetivo acadêmico e à
tadas com as eXIgênCIasque lhes são específicas. Instltmção a que se destIna; embaiXO, cidade e ano. Exemplo ao lado.
O sumário esquematiza as principais divisões do trabalho: partes, se-
I
ções, capítulos etc., exatamente como aparecem no corpo do trabalho,
4.3. RELATANDO OS RESULTADOS DA PESQUISA indicando ainda a página em que cada divisão inicia. Indica ainda o prefá-
I
cio, as listas, tabelas e bibliografia. Vem logo depois da página de rosto.
4.3.1. Aspectos técnicos da redação Caso constem do .trabalho tabelas, figuras ou ilustrações, são ela-
boradas as respectivas listas que se situam com a respectiva paginação,
1.a. A apresentação grãfica geral do trabalho logo após o sumário.
Do ponto de vista da apresentação geral),.~m trabalho científico contém Na seqüência vem o núcleo do trabalho: a introdução, o desenvol-
as seguintes partes: vimento e a conclusão. As várias divisões em partes, seções e capítulos
" Capa inicial estruturam-se, no corpo do trabalho, de acordo com as necessidades do
CI Página de rosto raciocínio e da redação.6
e Sumário
• Lista de tabelas e figuras 6 Cf. p. 148-150 .
''fi<'"
I ','
"

154 1 METODOLOGIA DO TRABALHO aENTtflco 155


II
i
I.
Apêndice e anexos só se acrescentam quando exigidos pela nature-
I za do trabalho; os apêndices geralmente constituem desenvolvimentos
autônomos elaborados pelo próprio autor, para complementar o pró-
1 PEDRO SILVEIRA DOS SANTOS
prio raciocínio, sem prejudicar a unidade do núcleo do trabalho; já os
anexos são documentos, nem sempre do próprio autor, que servem de
complemento ao trabalho e fundamenta~ sua pesquisa.
A bibliografia final é apresentada segundo a ordem alfabética dos
autores, podendo ainda os títulos ser numerados. Caso comporte subdi-
A VISÃO ESTRUTURALISTA DA HISTÓRIA visões internas, no interior de cada uma destas divisões, segue-se ainda
a ordem alfabética. Em alguns casos, por exemplo, quando se assinala a
obra de um autor, usa-se o critério cronológico de publicação.
Quando devem ser assinaladas sucessivamente várias obras de um
mesmo autor, segue-se a ordem alfabética dos títulos dessas obras ou
então, se for o caso, a ordem cronológica da publicação; em ambos
os casos, substitui-se o nome do autor por um traço; caso se queira
citar a mesma obra em edições diferentes, substitui-se não só o nome
do autor, mas também todos os demais elementos que não sofreram
Trabalho de aproveitamento
modificação:
do curso de Metodologia
do Programa de Filosofia
\ da Educação da Universidade
Católica de São Paulo
Ex.: JAPIASSU, Hilton Ferreira. Introdução
Janeiro: Francisco Alves, 1975.
ao pensamento epistemológico. Rio de

-- 2. ed. ~-. 1976. 200 p.

\ 1.b. Aforma gráfica do texto


b.1. textos datilografados
Os trabalhos são datilografados em folhas de papel sulfite, lamanho
Letter ou A4, de um lado só, respeitando-se as seguintes margens:
São Paulo -1984 margem superior: 3 cm.
margem inferior: 2 cm.
margem esquerda: 3 em.
Figura 5. Modelo de página de rosto. margem direita: 2 em.

lJ6 A,."lTONlOJOA.QUL\.iSE.VERlNO METOOOlOCtA OOTRA!ALHO CfEN"liRCO 157

As páginas são numeradas a partir da página de rosto, sendo o nú- textos, tarefa na qual vêm substituindo, com enorme rapidez e com
mero colocado no alto da página. no meio o.u_d.qJ..r..ef.er..ência_à_d.ui[[fP:uirt<a'- -<wmawiot-eficácia,-a..datilogx,a£ia-uadiciona-L-ComG-é-a-ela~e-de-t-ex~---~-+----
{no canto direito superior}, sempre a 2 em da borda da folha e da pri- tos a atividade mais solicitada aos estudantes, e como 05 estudantes já
meira linha do texto. dispõem desse equipamento em casa ou na faculdade, com os trabalhos,
Os trabalhos são datilografados dentro dos limites acima estabe- em sua n:Iaioria, já sendo executados por esse meio, serão inseridas aqui
lecidos. com espaço dois, exigindo-se especial cuidado com a margem algumas orientações relacionadas à preparação dos textos, aproveitan-
direita, de maneira que fique cam~~m ret~ no s_entido vertical do te~? . do-st;.gs recursos '?.f~_r_c:::gdos
p.or.cssejnst{urncnro.
1 ~c: r nUt-u:; nU pe ua pagma, elas uevem llcar se- O computador desempenha suas funções comandado por um pro-
paradas do texto por um traço que avança até 1/3 da página, traço este grama, um software, que é por assim dizer o sistema de suas regras ló-
que fica distante 1 cm da última linha e da primeira nota. gico-operacionais. É esse programa que determina as operações técnicas
As notas de rodapé ficam com a mesma margem à esquerda e à que fazem a máquina, o hardware, funcionar e realizar determinadas
direita do texto, apenas o número de chamadas adentra-se 1 cm. Além tarefas.
disso, são datilografadas em espaço simples.
Os parágrafos iniciam-se a oito espaços para dentro em relação à
'USANDO O EDITOR DE TEXTOS WORD 2003 COM O WINDOWS XP Assim, para a
___ -l.. --"m"'a"'r"g"'e"'m"-"es"'g"'u••r£t~.
'"e elaboraçao de um texto, o micro usa um equipamento técnico-mecânico
Os capítulos devem sempre ser iniciados numa nova página mesmo
que funciona e opera comandado por dois tipos de programas: um sis-
que sobre espaço suficiente na página que termina o capítulo anterior,
tema operacional, no caso o mais conhecido entre nós é O Windows, e
situando-se os títulos, em maiúsculas, a 8 cm do limite superior, centra-
um programa editor de textos, no caso o mais conhecido é o Word, que
dos na folha, sendo numerados em aJgarismos romanos: Capítulo l.
\ já se encontra na versão 2000. O sistema operacÍonal Windows aparece
Os subtítulos e subdivisões são escritos de forma homogênea que os
em várias versões ainda em uso em nossos micros: Windows 3.1., Win-
realcem devidamente; os espaços que os separam dos textos são maiores
dows 95 e Windows 98, mais sofisticada. Do mesmo modo, também
\ e proporcionais; são também numerados conforme a técnica dos núme-
ros pontuados: 2.1, 2.1.1 etc. Não precisam iniciar-se em nova página. existem várias versões do programa Word, sendo a mais usada, no mo-
Para especificar tópicos no interior destas subdivisões usam-se alga- mento, a versão 97, embora já esteja sendo lançada a versão 2003.
rismos ou letras, fechados em meio-parênteses: 1) a) etc., evitando exa- O programa usado nestas orientações é o da versão Word 2003,
geros com a formação de séries de números pontuados muito Jongas. que funciona tanto com as versões do ambiente Windows 95 quanto ,
Atualmente, modelos similares dessas e de outras formas gráficas já com as posteriores. Trata-se de um dos editores de textos mais utiliza- •
constam da maior parte dos programas editOres de texto. dos atualmente. É de se registrar a velocidade com que são mudados es-
ses programas e as muitas inovações técnico-operacionais que os novos
b.2. telftos digitados sistemas vão trazendo. Ademais, existem vários sistemas alternativos,
Os microcomputadores já se tornaram ferramentas comuns para a rea- embora haja sempre uma certa analogia funcionaJ de base entre eles.
lização das tarefas acadêmicas, de modo especial para a elaboração dos Por causa disso, o usuário deve adequar-se às peculiaridades do sistema

ISS A1'lTONlO JOAQUiM SEVDUNO
r'
i
M£TOOOLOCtA DO l'RABAl.HO CIENl1FIco 1S9

de que dispõe, familiarizando-se


contar com alguma iniciação para lidar com seu computador,
com ele. Em qualquer caso, precisará
até por-
j A tela do Word pode ser aberta igualmente pela seqüência regular dos
comandos, sem utilização de Ícones de atalho que nem sempre estão visí-
que as presentes diretrizes foram elaboradas
aplicando-se à simples elaboração do texto, sem nenhuma pretensão de
por um usuário comum,
I, veis na tela. Neste caso, basta ir clicando e selecionando: Iniciar I Progra-
mas I Microsoft Word, clicando uma vez neste último.
dar coma de uma iniciação técnica ao uso do computador e de explorar i Na segunda faixa da tela aparece a Barra de Menus de operações
todos os valiosos recursos que esta tecnologia aparta. gerais, disponíveis no programa :Word. São elas: Arquivo, Editar, Exibir,
Ligado O micro, aparece no monitOr a te~a inicial do Windows com Inserir, Formatar, Ferramentas, Tabela, Janela, Ajuda. Cada uma dessas
os ícones de atalho dos Programas. Para conectar-se à Internet, pode- operações contém urna série de tarefas que detalham a operação maior.
se clicar no ícone do Navegador Internet Explorer, caso o ícone esteja Assim, por exemplo, clicando.se em Formatar, aparecerão na vertical as
disponível na tela, ou então clicar no botão Iniciar, no canto esquerdo operações que podem ser executadas: a escolha da fonte, a construção
da barra inferior. Depois clicar em Todos os Programas, escolhendo em do parágrafo, a definição de marcações, a inserção de bordas e sombre-
seguida o referido programa. amento, a inserção de colunas, de tabulação etc.
Em todas as operações, são numerosos os recursos disponíveis, po- I,
'PJ_="•.=_=_=-~",.• , ", ""_"",,,,,,,,,,,",::""~~~:,;~';.~ rém nem todos são regularmente usados nos trabalhos mais simples que
~'m.-
Ql$gd'li.tc:O
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.c.ó ••• NIJEJ"I~IlI~~.O.~.
se fazem na academia. Como esta não é uma iniciação à informática, ,. ,
'0 "'01 ~."o<o" mas apenas a apresentação de dicas ao usuário que precisa digitar um ,,

texto, serão apresentadas apenas aquelas operações mais comuns. Lem-


bre-se o usuário de que a cada comando o sistema apresentará outra
>
janela na qual constam outros comandos que devem ser acionados para i
que a tarefa seja executada.
Na terceira e quarta faixas encontram-se as barras de ferramentas
1
- a padrão e a de formatação com alguns ícones de atalho para a orga-
nização e formatação do texto a ser digitado.
Em seguida, na faixa superior da janela e na sua lateral esquerda,
encontram.se réguas que facilitam a mensuração da ocupação da pá-
gina que estará s~ndo digitada; na lateral direita, numa faixa vertical
aberta e fechada por pequenas setas, pode-se rolar a página para baixo
ou para cima. Já na faixa inferior há igualmente uma barra de movi- 1.
mentação para os lados, bem como campos informativos do andamento
da digitação: a página em que se encontra o texto, a seção, tamanho da
Figura 6. Tela inicial do programa editor de texto Word 2003. mancha, a linha, a coluna.
] 60 ."NTOr-nO JO"'QUL'I,j SEVERfNO
MET.ODOLOGIADOTRAB-ALHO.Of.NTlFlco J61
I
.I.

ABRINDO A ÃREA PARA A DIGITAÇAO Ao abrir o programa Word para dar inÍ-
cio à digitação do texto, o usuário tem diante de si, na tela do monitor,
t ~'::~~~~0,,:;:_~'~.~:::-~~~~~::~"R~~'«
;~~_ ••••. - -yy '" ~ ~

ço pala eScrever, a diamada "Jane a", emoldurada pelas barras e


colunas anteriormente mencionadas.
Na faixa superior, estará sendo exibido o nome dado ao arqu.Ivol
documento que está sendo digitado, sempre com a extensão "doe". Este
~om!: ~ubstit~-ª~2ÇP..J_e5_s-ªo_originaj_pa
drão" ':doGument-o-l ".,~d0çumen:.- ---
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- ;ª'~~::~"~"II
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_J92~etc._ :ão.a
- vo texto. O nome é dado ao documento assim que ele for "salvo" pela
primeira vez, mediante sua gra,,:~sãono disco rígido ou em disquete .. _ -::::: -~-----.
F-- ::J
--.

CONFIGURANDO A pAGINA A primeira iniciativa do digitador do texto é a


de configurar a página. Para tanto, na Barra de Menus, deve clicar em
Arquivo, selecio.nando o comando Configurar página. Clicando neste
comando, surgirá uma caixa onde consta uma guia para se determinar
e ou ra o taman o o pape ig. 8). O Word traz um
margeamento-padrão, estabelecendo as margens superior, inferior, di-
\ reita e esquerda. Caso queira mudar este margeamento, basta o usuário
i'!l

I aumentar ou diminuir os tamanhos mexendo nas setinhas que constam


dos respectivos campos. Recomenda-se, no entanto, por razões estéti-
cas, as seguintes margens:
Figura 7. Configuração da página: margens.

\
(fig. 8). Os tamanhos mais usados são o.A4 e o Letter. Pode-se adaptar
superior: 2,5 cm
a configuração para outros tamanhos, bastando para isso escolher as
inferior: 2,5 cm
medidas correspondentes, nos campos das medidas. Sugere-se usar o
esquerda: 3 em ',i

direita: 2 em tamanho A4, que atende muito bem às características de um texto dis-
.cursivo. Suas medidas são 21 x 29,7 cm.
Os outros campos desta caixa não precisam ser alterados. Nos Ainda na guia «Tamanho do papel", no campo "Orientação", de~
campos) do lado inferior direito da caixa de configuração, onde consta fine-se a disposição da mancha do texto na página: Retrato, se ela fi-
"A partir da margem", manter as medidas-padrão trazidas pelo' Word: car na posição vertical da folha de papel; Paisagem, se ficar na posição
1,25 cm. horizontal.
G Em seguida, abre-se, na mesma caixaj a guia «Ta1?anho do papel" Feitas as definições preferidas, basta clicar OK. Obviamente, deve
e escolhe-se, no campo indicado, o tamanho do papel que se utilizará ser o mesmo o tamanho do papel-que se encontra na bandeja da im-

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162 Al'I'ONlO JOAQillM SEVERlNO METODOLOGIA DO TRABALHO clENTÍFIco 163

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Figura 8. Configuração da página: tamanho do papel. Figura 9. Caixa da fonte.

Portanto; Formatar

\
pressora. Quando for imprimir o texto, aberta a caIXa de impressão,
no botão "Propriedades", é preciso configurar a impressora para esse Fonte: Aria112, normal, preta.
tamanho de papel (cL figo 18, p. 174).
Em seguida, o próximo passo é "formatar" o texto. Par"a tanto, Em seguida, dica-se no item Parágrafo. Aparecerá a caixa mostrada
dica-se no comando Formatar da Barra de Menus;. aí será escolhida a na fig" 10. "
fonte e configurados os parágrafos. Primeiro, dica-se no item Fonte: na Na cai?,á que aparece pode-se determina~ os "Recuos e espaçamen-
caixa surgida, escolhe-se a fonte que se quer (sendo 'as mais usadas a to" da mancha do texto que se escreve. ''um primeiro parâmetro é o
Times New Roman e a Arial), o seu estilo (normal, negrito, itálico), o "';'AlinhamentQ": ou seja, nas opções apresentadas, pode-se definir o ali-
tamanho da fonte (em geral prefere-se o tamanho 12), a cor da escrita nhamento do texto só do lado esquerdo, ou só do lado direito, dos dois
e quaisquer outras características, tais como sublinhado, maiúscula, ta- lados (justificado), ou centralizando-se o texto. O recomendado para os
chado etc. (fig. 9). trabalhos acadêmicos é o justificado.
:~-~.~
164 ANTÓNlOJOAQUlMSEVElUNO
*
-~ tvfETODOLOGI. .••DO TRAIlAl.HO CIENTiFICO 165

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.•.•;)~.D".,,;• .,.;:;;:.
.".4l---- . WI~@]•• '~"''''~!J.~.
...JijE
quanto Entre linhas indica a distância entre as linhas do mesmo pa-
rágrafo.
.." ..,.,.,., ... ..... •...,,"~,..••.,~,.'-
,"", ,
Para os trabalhos aca êmicos, sugere-se como melhor formatação:
Alinhamento: justificado
Recuos: esquerdo e direito: O
especial: 1~linha

..•.. '~'-
•.••-~---_
~
_-_._
~.---:s•..
.. .. Espaçamentos:3ntes:. 6 .pts.

entre linhas: 1,5

Os demais 'campõs- podem ser ignorados. Ao final, clicar OK. A


página está configurada e o texto será composto de acordo com as es-
pecificações.

A DIGITAÇAo Definidos estes parâmetros~ pode-se dar início à digitação do


texto, que Ira eu ao sen o automatICamente ormata o e acor o com
.... _.
~i.;!~',ja:.J"'"
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..•.... ,."",
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""~,'"
I~
~-' i•• -t-~'~"
dados fornecidos. Para alterar urna palavra, uma frase, um parágrafo,
uma seção do texto, de modo que tenha uma configuração diferenciada,
Figura 10. Configuração do parágrafo. deve-se selecionar a parte que se pretende modificar, arrastando o cur-
sor com o botão esquerdo do mouse pressionado sobre a área desejada.
Uma vez marcada a -área, basta soltar o botão do mouse e clicar no íco-
Depois vem o item "Recuo", de fato, as determinações do pará- ne das barras de ferramenta ou no comando dos menus corresponden-
grafo propriamente dito. Estabelece-se o recuo da mancha tanto à tes à operação que levará à modificação.
direita. como à esquerda, recuo que será definido para além daquele Para mover o texto de cima para. baixo, para avançar ou recuar,
já estabelecido pela margem. Num segundo campo, o do recuo "Es- pode~se usar tanto os botões com setinhas da barra de movimentação
pecial", pode-se definir se a primeira linha de cada parágrafo não da lateral direita, ou então o botão móvel que corre dentro dessa bar-
tem ~enhum recuo".~ica'ndo junto à margem, ou se ela avançar~, para ra, puxandó-o, 5::om. o botão esquerdo do .~óuse,. apertado, ou ainda
dentro da manch~ (p'rimeira linha) ou se serão as de'mais linhas do pa- comandan9-0 às teclas de setas que se encoritrám."'em dois setores do
rágrafo que avan'çarão, énquantó a primeira linha permanece junto à lado direito d~ teclado. Também pode-se usar as t'eelas Page Up e Page
margem (neste caso, opte-se po.r deslocamento). Down. Para mudar o cursor de lugar, ao longo do texto, usam-se as te-
c Na seqüência, definem-se os espaçamentos: o Antes e o Depo~s
referem-::se_aoespaçamento especial para separar os parágrafos, eo-
clas de set,as ou 'então o próprio mouse. Neste caso, quando a barrinha
indicativa do movimento do mouse estiver no lugar desejado, é só clicar
166 ANTONIO JOAQUIM SEVERíNO r

,,
.
~
METODOLOGIA DO TRAlW-H0 clF.NItFIco 167

'1
o botão esquerdo que o cursor se transferirá para lá, marcando o ponto Nos trabalhos acadêmicos, o modelo mais seguido é:
em que terá efeito a operação que estiver sendo acionada. 1! Posição:cabeçalho, parte superior da página, com alinhamento à

i
direita e sem exibição de número na primeira página.
A NUMERAÇÃO DAS pAGINAS Para que o texto tenha suas páginas numera- I

das, recorre-se ao menu Inserir. Escolhe-se o item Número de páginas. Quando se quiser mudar de página, antes de ela estar preenchida in-
Há três campos na caixa (fig. 11). O primeiro, "Posição", permite de- tegralmente, como, por exemplo, no caso de se iniciar um novo capítu-
finir se o número será grafado no cabeçalho .ou no rodapé; o segundo, lo, usa-se o mesmo menu Inserir, clicando o item Quebra; na caixa que
"Alinhamento", permite indicar se O número será grafado do lado direi- aparece (fig. 12), basta clicar no ponto "Quebra de Página" e dar OK.
to, do lado esquerdo, no centro, ou sempre do lado interno ou externo Ocorrerá mudança de página no ponto em que se encontrar o cursor.
da página. Finalmente, caso não queira que a numeração seja exibida É no menu Inserir que se encontram também os comandos para a
na primeira página, basta assinalar no terceiro campo, clicando a caixi- introdução das notas de rodapé, bem como de cabeçalhos, com datas
nha com a pergunta . e outras referências (fig. 13). Para os trabalhos acadêmicos, interessam

,~";..=_",_""_",.__ •__ .,••_•••_•••_••••••••• "",_,"""=••.,=="",,,,,,,,••,,~,,,,,,,,,,,,,{1iOO\iiSb"'"""-""j,;;:"2."~~:~~-~~~


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... _-"

•I.
Figura 11. Caixa para numeração das páginas. Figura 12. Caixa para quebra de paginação.
168 Al'.iÓt'<lO JOAQUIM SEVERINO
ME,ODOLOCLA;:;O TR.A!!ALHu CIEYIlFI(O 15.';1

notas devem situar-se mesmo nos rodapés e não no final do capítulo ou

l-~
d ____ i--------+---
~_do texto~J~~lembn~:-::~~
__
d~ue. a-tendência..atual--é--r€S€FV.ar---essas
notas
para comentários, esclarecimentos, traduções etc., as referências biblio-
I gráficas sendo inseridas no corpo do texto, conforme assinalado nas p.
181-83.
mu .._"
... U.:'
I
j ;;::-:.:,""J f" •••• _ = ALGUNS ATALHOS E OUTRAS ORIENTACÕES Os micros pessoais podem ser ajusta- ,I
l ~-.-_-._._ I

--
-
•......•.

--
-f',-.."-~

----_._.
••• _.
r-- ~ ..J
~-
f---
--
iN' ••••• _-i1
::J
dos para bêilitar o manuseio de to'dos os comandos referidos. Assim, a tela
pode ter uma configuração personalizada, com barras com Ícones de vá-
rios comandos, de modo a se dispor de um atalho sem precisar passar pelo
menu, bastando-se então apenas clicar no referido Ícone, que corresponde
aos diversos comandos. Para cada item de cada menu existe um Ícone que
<
'. ! pode ser transport~do para a barra de ferramentas, logo abaixo da Barra
, i de Menus. Esses ÍCones se encontram disponíveis em Ferramentas/per-

1
'j
- -t~o~~.,
--_-~
__ ~_~_~ t__
~t;~J~"'"''"'''''''.l- "'~ "", '''''''''' w~I~
-_-__==-__-,-----,---J
_
- .. '.
--suna-tizarfcomarrdos: basta então chcar com o mouse no irem-escolhi~-
e, mantendo apertado o botão esquerdo do mouse, arrastar o ícone pa-
ra um espaço da barra de ferramentas (fig. 14).
+I
Figura 13. Caixa para inserção de notas de rodapé e cabeçalhos. Para modificar partes do texto que se está digitando - por exemplo, i
\
quer se mudar o tamanho ou o estilo da fonte, o espaçamento entre as
linhas -, basta "selecionar'" a parte a ser alterada. Selecionar é marcar
particularmente as notas, que poderão aparecer no rodapé de cada pá-
com um destaque, criando um fundo para dar destaque ao texto, e apli-
gina ou então no final do texto. Para tanto, basta colocar ° cursor no
car a ela um comando a partir de um Ícone ou de um item do menu. 'I
ponto em que se deve inserir o número de chamada, clicar em Notas ,
Para selecionar parte do texto (pode ser um caractere, uma palavra, i.

e escolher o tipo de numeração. Dado o OK, o número de chamada é


uma frase, um parágrafo, um capítulo),. basta apertar o botão.esqu.erdo I,.
automaticamente inserido onde se encontra, no texto, o cursor, o qual é do .inouse e ir arrastando o cursór sobre a parte que se quer selecionar. ,
"

levado, em seguida, diretamente para o ponto escolhido, onde se redige 'O texto vai sendo marcado -eassim ficará até"que Se dê um toque com
então o teor da nota. Ao mandar fechar, o cursor volta ao seu ponto a setinha do mouse. Quando se precisa selecionar todo o texto íá redi- !
normal, para se continuar digitando o texto. gido, basta clicar, no menu Editar, o item Selecionar tudo. Todo o texto
Cada vez que for necessário inserir novas notas, procede-se da mes~ digitado será destacado, e em seguida deve-se dar o comando que se
ma maneira e os números irão se adequando automaticamente, o que pretende. Terminada a operação, dica-se no texto marcado com a seti-
permite voltar atrás para retirar ou incluir notas. De preferência, as nha do mouse e o texto voltará à situação normal (fig. 15).

, ____ :J
I
MErODOlOG1A DOTllAMLHO OD'õI1Frco 171
170 ANTONIO JOAQutM'sEVElUNO

!""=====:::lI __ ••• =_•..""'.••="""'''''''••••_ ••••'''''.__ ~ w.


~"....::;!S:.''M.W;'~ .•
6õlmmm~--;~~.:.k)
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s=lIIfOG "11 •.•3 -,.----

Figura 14. Caixa de ícones de comandos. Figura 15. Comandos do menu Editar.
j
" '
~-
ra análoga, mas comandando agora Copiar e não mais recortar, lem-
,
Quando se está produzindo um trabalho no micro, a última opera-
ção realizada pode sempre ser desfeita. Para tanto, ir ao menu Editar, brando-se de que recortar apaga o texto selecionado, que fica pouco
j
"

selecionar Desfazer operação. tempo disponível na área de transferência. ;,


Quando se. quer mud~r de lugar uma parte de texto, ou mesmo in- 1
SALVANDO OS TEXTOS••• Tão logo iniciada a digitação, O usuário deve dar
serit partes de .0utrOS arquivos, já digitados, no corpo do texto, basta
início ao salvamento do texto, evitando risco de perda das partes já di-
s~l~cionar a parte em questão:~ ir' ao r.:nenuEditar, selcçiona~ ~ecortar
gitadas. Ao mesmo tempo, isto permite dar um título ao arquivo; título
e, levando o cursor para O ponto em que se quer fazer a inserção, sele-
que deve ser discretamente registrado ao final do texto, para que se
cionar no mesmo menu Editar o item Co/ar e, então, dicar. Ou fazer o
possa, mais tarde, identificar a ,localização do arquivo nos diretórios e
mesmo trajeto clicando nos. Ícones correspondentes eventualmente pre-
discos onde ficará gravado.
sentes na barra de ferramentas.
O comando para salvar um texto encontra-se no menu Arquivo,
Se se quer transferir de um outro arquivo, de um outro texto, algu-
ma parte que será enxertada no novo texto, então procede-se de manei- sob a desi~ação Salvar como. É este o comando que deve ser usado
172 "_"TONlO JOAQUL\j SEVERJ'NO METODOLOGIA DO TRABALHO CIENTiFICO 173
i

____
quando se tratar do primeiro salvamento do texto e toda vez que se vai
gr_a_varpela primeira v~z num disquete. Quando se tratar de ir salva_n_d_o
as demais partes do texto, à medida que forem sendo digitadas, basta
servir-se do comando Salvar ou do correspondente
Observe-se que no campo superior deve ser informado
ícone (fig. 16).
o disco em
_
relacionados a esse assunto nesse diretório. Toda vez que esse diretório
é aberto, ele mostrará a relação dos arqujvos qne lá S~ {lflGOflt-~F~am

Em seguida, no penúltimo campo, inscreve-se o nome que se quer


dar ao arquivo. No último campo, escolhe-se o tipo do arquivo, clican-
do na setinha e escolhendo-se esse tipo da relação que lá se encontra,
__ ------
1-
que vai ser gravada a matéria, o diretório ou subdiretório. Convencio- lembrando-se de que os arquivos de textos devem ser do tipo "documen-
nalmente, o disco rígid~~esignad~ I~.o_~--=~:_,
enquanto os disq_uetes toS ~ü ~9rd" .:.

, r ou s reronos sao setores esses Iscas que per- Isso feito, é só apertar o botão Salvar, no alto à direita, que o texto
f
mitem classificar as matérias gravadas, de acordo com algum critério será salvo no diretório e no disco indicados.
,,
I

(
de sistematização adotado pelo usuário. Assim, se tiver aberto um di-
retório, no disco C, chamado "Aulas", ele gravará todos os arquivos FECHANDO E ABRINDO UM ARQUIVO A qualquer momento pode-se interrom- i

per a digitação e fechar o arquivo. Deve-se então salvar o documento 11:'

----~._' ~-
et.====",,:,,_Ol:,' "" ••••••.•.•.,,* ~"_"_""',","-"'&i.!t'S7c:;';1T..:tii:%::-:;:~:;;;:~'i..:.~~':.
.•.
~~.j ~ que está sendo digitado no estágio em que s.eencontra. Isso feito, _b_a_st_a
dar o comando Fechar, no menu ou no ÍCone. Caso o autor tenha se es~
~rr--

I~
Q~g,.;tl.a~:;'"l •••
o.'J.'- ... ",80i:'111i';;;':'l"_ -Ci •
\ .al~'!:le_ 'lj"a'_~._
queCldü dé'salvar o trabalho, o próprio Word ~brirá uma caixa pergun~
'""" ..
.,"
- ~. .-
tando se deseja salvar as últimas alterações feitas no texto. ~
Toda vez que for necessário voltar à digitação, pode-se retomar o l,
\ texto, reabrindo o arquivo. Dá~se o comando Abrir, no menu ou na barra ~
i
padrão, e vai-se irúormando o disco, o diretório e finalmente o arquivo,
que com dois toques será exibido na tela (fig. 17).

A IMPRESSÃO 00 TEXTO Uma vez terminada a digitação do trabalhü, feitas


as devidas correções e ajustes que couberem, o texto está pronto para ser
!..:J
!- impresso_ A impressora deve então ser ligada, e no menu Arquivo vai-se
I_~._m' --------~::::J~
=~._=,_~,---~"'__=__l
: _ _, __ ••••••••
c usar o comando Imprimir. Se o autor quiser ter uma visão antecipada de
• ~. '~

--- como ficará o resultado do trabalho impresso, no mesmo menu Arquivo


deve clicar o cümando Visualizar impressão; o Word mostrará, então, de
forma reduzida, corno se distribui o texto nas diversas páginas.
Em seguida, pode dar o comando Imprimir. Será aberta então a cai-
xa de impressão, onde estão .os campos para indicação de que páginas
Figura 16. Caixa para salvar os textos. devem ser impressas e em quantas cópias. Toda vez que se tratar de uma
'''T'' If/"

r:
174 ANTONIO JOAQUIM SEVElUNO M£TODOLOGtA DO 11WW.HO OENl1Rco 175 ;;
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Figura 17. Comando para abertura de arquivos. Figura 18. Caixa de comandos de impressão. ~,

primeira impressão, após ter sido ligada a impressora é preciso apertar o enriquecem o trabalho; o que não se pode admitir em hipótese alguma é a
1
botão Propriedades dessa caixa para que se possa compatibilizar a con- transcrição literal de uma passagem de outro autor sem se fazer a devida {-

figuração da impressora com aquela do rexto digitado (fig. 18). referência. !~

Como no caso da ficha, a citação, quando literal, deve ser copiada ;"

ao pé da letra e colocada entre aspas. Caso haja no texto citado algo íi'
1.c. As citações "

As citações são os elementos retirados dos documentos pesquisados du- que se julgue dever ser corrigido, algo que cause estranheza, coloca-se i,
á
rante a leitura de documentação e que se revelam úteis para corroborar logo em seguida à palavra um (sic!), entre .parênteses, para indi~ar que ,,"'.-
:;,
as idéias desenvolvidas pelo autor no decorrer do seu .racio~ínio. Tais ci- estava assim mesmo no texto de origem.
tações são transcritas a partir das fichas de documentação, podendo ser Quando no corpo de uma passagem citada literalmente já se en- f:{".
transcrições literais ou então apenas alguma síntese do trecho que se quer'- contram trechos entre aspas, estas se transformam em apóstrofos; para l~'
citar. Em ambos os casos, é necessário indicar a fonte, transpondo os da- indicar a omissão de trechos inclusos na passagem citada, mas que não ~
interessam à transcrição, usam-se reticências: entre espaços duplos, no
,i}
dos já presentes na ficha. Note-se que as citações bem escolhidas apenas 't~

~t.
"

li
I'
!\ii,;,
i,~
1
T--
176 1\..l'ITÚN10JOAQlJL\.( SEVERINO METODOLOGIA DO TRABALHO CIENI1FtCO 1 n

início e no fim das passagens citadas e entre parênteses quando o trecho 1. Indicam a fonte de onde é tirada uma citação, permitem uma even-
a omitir se encontrar no meio da passagem citada: " ... na casa onde mo- tual comprovação por parte do leitor e fornecem pistas pata u
rava aquele pensador, ( ) faltavam as condições necessárias para que retomada do assunto, revelando, por fim, o âmbito de pesquisa do
realizasse a sua missão ". autor.
Quando se pretende dar ênfase a alguma passagem de uma citação 2. Inserem no trabalho considerações complementares que, por exten-
literal, costuma-se gJ;"iÚí)a,sublinhá-la. Esta alteração deve ser assina- so, onerariam desnecessariamente o desenvolvimento do texto, mas
lada com a expressão o grifo é meu ou o grifo é nosso - seja colocada
que p?_dem ser ~~~is
ao le~~~rcaso q~~ira aprof!J_ndar 'Ú a~~~nto.
3. Trazem a versão original de -alguma citação traduzida no texto
chamada posta logo após a passagem grifada.
quando se fizer necessária e importante à comparação dos textos.
No caso de síntese das idéias, a transcrição é livre, devendo, contu-
do, traduzir fielmente o sentido do texto original. A indicação da fonte,
Normalmente, as notas de rodapé são datilografadas em espaço
neste caso, vem em seguida a um Cf., confira. Ex. Cf. SILVA, Pedro A.
simples, começando a 1 em da margem inferior e logo após o corres-
A descoberta científica, p. 15.
pondente número de chamada, na mesma lüÍ11ada margem esquerda.
Regra geral, os textos em língua estrangeira que aparecem no texto ,
i,.

são traduzidos no corpo do trabalho. Em casos especiais, podem ser Apenas o número tem uma pequena entrada de 1 CID. É desaconselhável
mantidos no original, como nos estudos lingüísticos especializados. Po- colocar as notas no fim do capítulo ou no fim do trabalho.
rém, é bom ter presente que uma tese, uma dissertação, uma monogra- No caso de notas de citação bibliográfica, observar o seguinte:
fia devem ser escritas numa única língua. Assim sendo, ainda quando elas devem conter apenas a referência do autor, o título da obra e o
a versão original tenha algum particular interesse, ela pode muito bem número da página, elementos suficientes para a localização da passa-
,.
figurar em nota de rodapé. gero citada.
Alguns autores recomendam que a citação que ultrapassar três li- Os demais dados da obra são encontr~dos na bibliografia final, sen-
nhas seja colocada em parágrafo especial, dispensando-se as aspas, já do, portanto, ocioso repeti-los a cada instante.
que, colocada recuada e em corpo menor, teria maior realce. Quanto à elaboração da citação de rodapé, seguir as normas seme-
Terminada a citação, coloca-se o número de.chamada, indicativo da lhantes às que presidem às referências bibliográficas, mas com algumas
nota de referência do rodapé. O número virá após os sinais de pontua- modificações. Além da eliminação dos elementos indicativos do livro
ção, acima da metade da .linha.
(cidade, ed~,tora, data etc.), fazer a entrada pelo nome e não pelo sobre-
.Os números de chamada seguem a ordem crescente 'no interior de
nome do autor, separando-se com vírgula os vários elementos.
cada capítulo, evitando-se asteriscos e a repetição de numetaçãó ~m cada
Ex.: 5. Lucien GOLDMANN, Ciências humanas e filosofia, p. 36.
página, ou uma numeração só para todo o trabalho.

1.d. As notas de rodapé Quando se tratar de uma citação de alguma obra de referência geral
As notas de rodapé têm tríplice finalidade: ou de obra citada através de outro escrito, então os dados bibliográficos

b
178 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO METODOLOCIA DO TRABAlHO CIFNI1FJco 179

completos podem constar da nota de rodapé, ficando entre parênteses. da obra e o número da página. Se no corpo do texto se encontra uma
Quando várias notas de rodapé se referem a uma mesma obra de chamada como segue" ... para Buber,(5) as linhas das relações, se pro-
um mesmo auto~ variando-se apenas a página, usa-se a expressão latina longadas, entrecruzam-se no TU eterno", a nota de. rodapé poderá re-
abreviada: ibid, sumir-se em:
Ex.: 4. Lucien GOLDMANN, Ciências humanas e filosofia, p. 10. 5. Eu e Tu, p. 87.

S. Ib;d., p. 16.
6. Ibid., p. 89. Quando se quer citar passagens não identificadas em determinadas
7. André DARTIGUES, O que é fenomenologia, p. 50. i páginas, mas fazer referência genérica a várias passagens do texto nas
8. Lucien GOLDMANN, Ciências humanas e (i/oso{ta, p. 32.
'-I
9. Ibid., p. 33. I quais um elemento é abordado, em vez de indicar a numeração dessas
i páginas, usa-se a expressão latina passim, que significa "em diversas
)
Igualmente, se a nota 6 caísse em nova página, seria necessário fazer I passagens" do texto referido.
a citação completa. i
-1
6. Martin BUBER, Eu e Tu, passim.

É muito praticado e recomendado por muitos autores o uso da ex-


A nota de rodapé com referência bibliográfica de passagens de pu-
pressão abreviada op. cito (;:::na obra citada), seguindo o no~e do autor,
blicações periódicas contém o nome do autor, o titulo do artigo, o nome
indicando-se com isto que se está referindo à obra deste autor citada pe-
da publicação, seu .número e a página. Os demais dados de identificação
la última vez no capítulo ou no trabalho. Apesar de consagrado, o uso
são encontrados na bibliografia final, que deverá assinalar todos os ar-
dessa expressão tem vantagens limitadas, podendo criar confusão quan-
tigos citados ou consultados e não apenas os títulos desses periódicos.
do se trabalha com várias obras do mesmo autor e, às vezes, forçando a
A essas notas se aplicam as mesmas regras relativas às expressões abre-
voltar atrás para se procurar qual foi a obra citada, sobretudo quando
viadas, pontuação,.forma de citar, ordem de citação etc.
o texto não é familiar ao leitor. Seu uso, contudo, não é errado.
Ex.: Francisco de PAULA SOUZA, O pensamento contemporâneo e a definição
A expressão idem substitui só o autor e é em seu lugar que deve apa- clássica de verdade, Reflexão, v. 1, n. 2; p. 91
recer nas notas sucessivas quando estão .sendo_citadas obras diferentes
de um mesmo autor. Na bibliografia final constará, no devido lugar, a citação completa
Ex.: 5. Martin BUBER, Eu e tu, p. 150. do artigo, da seguinte forma:
6. Idem, O socialismo utópico, p. 300, PAULA SOUZA, Francisco de. O pensamento contemporâneo e a definição .clás-
7. Idem, O problema do homem, p. 56. sica de verdade, Reflexão: revista do Instituto de Filosofia e Teologia da PUCC,
Campinas. Instituto de Filosofia e Teologia. PUC. v. 1, n. 2, p. 89.100, abro
1976.
Daí não ser necessário combinar as duas expressões idem, ibid., nu-
ma citação de rodapé, uma vez que ibid. subentende também o autor. Quando há necessidade de se citar alguma passagem a partir de ou-
Quando a chamada no texto é feita junto ao nome do autor, este tra fonte, isto é, citação de segunda mão, é preciso declará-lo. Contudo,
não precisa ser retomado na nota de rodapé,' ficando apenas o título esse recurso nos trabalhos científicos só é usado em caso de real neces-

I, b
180 ANTONIO JOAQUlM SEVERL'IO METODOLOGL .••.DO 1R~B"'LHO ClENTÍFlco 181

sidade, na falta de possibilidade de acesso à fonte primeira. A fonte se': "É evidente, em primeiro lugar, que a mais estreita relação de pa-
. I
gunda é precedida da expressão apud. rentesco é aquela que._também admite a mais geneq1izadJl £gr-ma de
reciprocidade." (Service, 1971, p. 29), ou I1

1.e. Referências no corpo do texto


São ainda adotadas outras maneiras de fazer citações no corpo do pró-
"É evidente, em primeiro lugar, que a mais estreita relação de pa- I,
rentesco é aquela que também admite a mais generalizada forma de I
prio trabalho~ dispensando-se as notas de rodapé. reciprocidade. "4
4. Elman R. SERVICE, Os caçadores, p. 29.
t
Partindo do fato de que as obr~s na bibliografia final estejam nu-
mera as, quando se quiser indicar a situação de uma -passagem basta O re O em ecorrenoa os processos e m ormatização para a-

indicar o número da obra citada e a página; o nome do autor, não cons- edição de textos, esta forma de colocar as indicações das fontes no inte-

tando do corpo do texto, pode ser acrescentado. rior do texto está se tomando cada vez mais comum. Pode portanto ser
adotada, ficando a critério do autor do texto esta escolha.
Outra maneira usada que dispensa igualmente a referência ao nú-
Nesta hipótese, as notas de rodapé serão usadas apenas para con-
mero sob o qual a obra aparece na bibliografia final: insere-se no texto,
siderações complementares, para transcrição de passagens em língua
entre parênteses, no fim da passagem citada, o nome do autor, o ano e a
estrangeira ou outros esclarecimentos.
página, acrescentando-se a inicial ao título do documento citado, quan-
do o autor citado publicou vários trabalhos no mesmo ano. Essas indica-
1.f. A têcnica bibliográfica
ções (Buber, 1914, p. 31) remetem à obra escrita por esse autor, no ano
A bibliografia levantada quando da elaboração do trabalho é transcrita,
I de 1914, cujos dados completos se encontram na bibliografia final.
iniciahnente, nas Fichas de Documentação Bibliográfica (p. 44). Concluí-
Também nestes casos, quando se tratar apenas de síntese da passa-
do o trabalho, com a conseqüente seleção das fontes aproveitadas, trans-
I gem que se quer citar, coloca-se um Cf. inicial. (Cf. Silva, 1970, p. 45)
Em síntese: supondo-se que na bibliografia final de um trabalho se
creve-se esta bibliografia, colocando-a no final do texto do trabalho.
Sua finalidade é informar o leitor a respeito das fontes que serviram
encontra indicada determinada obra, as citações de suas passagens no
I de referência para a realização da pesquisa que resultou no trabalho es-
corpo do trabalho são feitas de três maneiras:
crito. Essa bibliografia deve conter a indicação de todos os documentos
que foram citados ou consultados para a realização do estudo, forne-
I. BIBLIOGRAFIA,
34. SERVICE, Elman R. Os caçadores. Trad. Álvaro Cabral; rev. Francisca Isabél Viei. cendo ao leitor não só as coordenadas do caminhar do autor, mas tam- '1;
,:2.'
ra. Rio de Janeiro: Zahar, 1971. (Curso de Antropologia.Moderna). 152,p. bém um guia para umá'"eventuál reto.~ada e aprofun~£!.p!ento do tema t'~
ou revisão do Úa-balh.o; por parte do leitor.
2. CITAÇÕES, A designação dessa 'parte final do trabalho deve ser simplesmente l~

"É evidente, em primeiro lugar, que a mais estreita relação de pa- Bibliografia, preferencialmente à expressão, que muitas vezes é utili-
rentesco é aquela que também admite a mais generalizada forma de zada, de Referências Bibliográficas, uma vez que esta se reporta antes
reciprocidade." (34,29), ou ao modo de se fazer tecnicamente o registro. documental. No entanto,
I

I
! 7
182. ANTONlO JOAQUl.\1 SEVERlNO METODOLOGIA DO lllABAlHO ClENT!Fico 183

quando se usar esta designação, a relação de títulos deve conter apenas VlGOTSKI, Liev S. Teoria emétodo empsicologia. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

os documentos que foram efetivamente consultados e citados. Por outro VIGOTSKI, liev S. Teoria e método em psicologia. Trad. Claudia Berliner; revi-
são Elzira Arantes. São Paulo: Martins Fontes, 1996. (Col. Psicologia e Pedago-
lado, usa-se a designação Bibliografia quando se fazem levantamentos gia). Bibliografia. ISBN 85-336-0504-8.
genéricos de fontes sobre um determinado tema, independentemente de .' ~
súa vinculação direta a um trabalho escrito em particular. Observe-se que o sobrenome do autor e o título do documento
As orientações sobre a forma técnica de elaboração de registros bi- têm um destaque gráfico, ou seja, o sobrenome do autor que abre a re-
bliográficos aprese:qtadas aqui têm o objetivo de fornecer aos alunos ferência deve vir em maiúsculas ou caixa alta, enquanto o título prin-
i um mínimo de diretrizes para a confecção adequada da bibliografia cipal deve vir em itálico (grifado, quando o texto é datilografado). De

I quando da redação de seus trabalhos acadêmicos e científicos. Por isso,


elas se atêm aos elementos essenciais da referência bibliográfica, en~
tendidos como aqueles que são imprescindíveis para a identificação do
. acordo com as normas da ABNT, o título da publicação pode receber
um destaque mediant.e o uso de um recurso tipográfico diferenciado
(negrito, itálico ou grifo), ficando a critério do autor a escolha deste.
I, documento referenciado. Mas, uma vez definido o destaque, ele deve ser mantido uniforme em
todas as referências. Também não há necessidade de recuo nas linhas
\ f.1. A elaboraçào da referência bibliográfica da referência posteriores à primeira, mantendo-se o mesmo alinha-
Os parâmetros para a elaboração da referência bibliográfica, aqui apre- mento da primeira linha. Apenas a separação entre os títulos é que
sentados, retomam as normas do Projeto de Normas Brasileiras (NBR deve ser feita com um espaço maior. Para tanto, no caso da utilização
\ 6023:2002), que especifica os elementos a serem incluídos nas referên- do programa editor de texto Word, o espaço interlinear da referên-
cias destinadas a registrar a documentação de fontes de informação. cia deve ser o espaço simples, e o espaçamento entre parágrafos deve
Para os fins propostos, uma referência bibliográfica deve conter os ser formatado como "antes 6 pt" (cf. p. 167).
seguintes dados: autor, título do documento, edição, local da publica- Todos os elementos da referêncÍa bibliográfica são separados por
ção, editora e data. Estes são os elementos mais importantes, os elemen- pontos. O sobrenome de entrada do autor é separado dos demais ele-
tos essenciais, inclusive de acordo com norma da ABNT. Esta considera mentos de seu n0J.!le completo por vírgula; o nome completo do autor
elementos complementares aqueles que caracterizam melhor o docu- é separado do título do documento por ponto final; o subtítulo é se-
mento que' integra uma bibliografia: indicação de responsabilidade (or- parado do título por dois-pontos; o título é separado dos elementos
ganização, tradução, revisão), descrição física do documento (número seguintes por ponto final; a editora é separada da cidade, de acordo
de páginas, ilustrações, tamanho etc.), indicação de série ou de coleção, com norma da ABNT, por dois-pontos; todos os sinais de pontuação
notas especiais, número de registro de ISSN ou de ISBN. Assim, o autor são seguidos de dois espaços vazios; datas e páginas ligam-se por hífen;
do trabalho deverá cuidar para que todos os dados essenciais constem separam-se por barras transversais os elementos de períodos cobertos
de sua referência, ficando a seu critério' acrescentar alguns ou todos os por fascículo referenciado.
dados opcionais. Quando um dos dados bibliográficos não é identificável no docu-
I Eis um exemplo das duas situações: mento, ele pode ser substituído pelas seguintes abreviações: sJ. = sem

\ h
• i
I
184 A.t'<'TONJO JOAQUIM SEVERINO METODOLOGIA DO TItAllMl-!O CJF.Nl1FlCO 135
I

local de publicação; s.ed. ::;sem editor; s.d. ::;sem data; S.n. t. ::;sem no- Ex.: ASTI VERA, Armando
ACOSTA HOYOS, Luis E.
tas tipográficas, quando faltam todos os elementos.
Por outro lado, quando o elemento não é identificado diretamente
3. Autores brasileiros, de sobrenomes compostos
mas pode ser estimado por outros indícios, ele pode ser registrado .na re-
Esta exceção se aplica também a alguns casos de autores brasileiros I
ferência entre colchetes. Assim, [1990J quer d.izer que o texto foi publica-
cujos sobrenomes são compostos seja por formarem unidade se-
do nessa data, emb~ra a informação não se encontre no lugar adequado; mântica, seja por estarem ligados por hífen. f
I
se a data for apenas provável, acrescenta~se um sinal de interrog_~~ão: Ex.: ~~STELO BRANCO, Camilo I.
. , se a ata ar aprOXima a: ca. OLIVEIRA LIMA, Lauro de 1.-
FREIRE-MAIA, N. I
Registradas estas orientações gerais, tratar-se-á em seguida de si-
FROTA-PESSOA, O.
I.
tuações particulares referentes aos vários elementos de uma referência
bibliográfica.
4.
ESPÍRITO SANTO, M. de

Autores com sobrenomes designativos de parentesco


!
L
f_2. Obsef'vaçõ:es referentes à indicação do .autor Os elementos de designação de parentesco, tais como Júnior, Filho, f
1. Norma geral: caso de autor pessoal. Neto e outros, fazem parte integrante do sobrenome, não podendo
entra a a re erenCla 1 logra la e eita com o so renome o rencia i IOgra 1ca.
Ex.: PFROMM NEITO, Samuel
autor, a ser transcrito em maiúsculas; o nome do autor e os demais
LOURENÇO FILHO, M. B.
sobrenomes podem vir, na seqüência, abreviados ou não. Trata-se ]ORDÃO NETO, Antônio
do sobrenome que indica a filiação familiar do autor. No caso dos 5. Autores de sobrenomes compostos, consagrados pela literatura
nomes portugueses e brasileiros, recomenda-se transcrever o nome Em alguns casos, apesar de não haver unidade semântica ou outro I
principal e abreviar os outros eventuais sobrenomes, pois, em nossa motivo intrínseco, certos autores tiveram seus sobrenomes compos-
cultura, esses sobrenomes identificam pouco a pessoa do autor, uma tos pelo uso na literatura específica de seus escritos. E é como tais
vez que são muito comuns. que devem aparecer na entrada das referências bibliográficas.
Ex.: SALVADOR, Angelo D. Ex.: MACHADO DE ASSIS, José M.
SANTOS, Boaventura de S. MONTEIRO LOBATO, José B.

2. Autores estrangeiros, de sobrenomes compostos 6. Autores com sÇJbrenome especial privilegiado pelo uso
Às vezes, conforme índole das várias línguas, o sobrenome do autor Igualmente há casos em que um dos elementos do sobrenome, que
contém mais de um elemento. Isto se deve à herança de sobrenomes nem semp~e é o último, acaba ficando mais conhecido e consagrado
tanto paternos como maternos, sendo o penúltimo o sobrenome pelo USOj nesses casos, inicia-se a entrada por este elemento, poden-
herdado do pai e que, por isso, abre a referência. É o que ocorre do-se inclusive omitir o último sobrenome.
com muitos autores espanhóis e italianos: Ex.: PORCHAT PEREIRA, Oswaldo e não

7

1 &6 ANTÔNlO JOAQUL\.t SEVERINO METODOLOGIA DO TRABAlRO CIENTÍFIco 187

PEREIRA, Oswaldo Porehat ou ainda a tradução; só há exceções para autores clássicos cujos nomes já
PORCHAT, Oswaldo.
foram aportuguesados pela tradi,ção literária ou científica.
Trata-se de escrever sempre nas referências bibliográficas:
7. Autores com sobrenomes portadores d.e partículas
MARX, Karl e nunca: MARX, Carlos.
Nos sobrenomes em que entram partículas, portuguesas ou estran- SARTRE, Jean-Paul e nunca: SARTRE. João Paulo.
geiras - de, do, das, deI, de las, von, vau, della etc. -, essas partículas
Usa-se, porém, MAQUIAVEL, Nicolau.
são colocadas depois do nome, fazendo-se a entrada pelo sobrenome
simples. 10. Casos de obras sem autor declarado
Ex.: STEENBERGHEN, Fernand van
Às vezes, os escritos não contêm indicação de autor. Neste caso, in-
Quando a partícula faz parte do sobrenome, vem geralmente em dica-se o editor ou, na falta também deste, considera-se o escrito de
maiúsculas. autor anônimo. Neste caso, entra-se pelo título, como ocorre tam-
Ex.: VON ZUBEN, Newton A. bém em se tratando de obras clássicas, de cunho coletivo. Nessas
MAC DOWELL, João A.
entradas pelo título, a primeira palavra vem grafada em maiúsculas.
O termo "anônimo" nunca deve ser usado em substituição ao nome
8. Caso de vários Autores
de autor desconhecido.
a) Quando a obra é escrita até por três autores, são assinalados os
Ex.: MORGAN, Walter (ed.). O trabalho humano ..
três, na ordem em que aparecem na publicação, separando-se A BÍBLIA sagrada ...
seus nomes por ponto e vírgula. No caso de pseudônimos declarados, procede~se como se tratasse
Ex.: SILVEIRA, Paulo;_ALMEIDA, Ernesto de; SOUSA, José de.
de autor pessoal.
b) Quando são mais de três autores, indica-se apenas o primeiro, Se o autor é identificado por via indireta, colocar seu nome entre o.
acrescentando-se a expressão" et aI.", para designar os demais. colchetes. ~-

Em casos especiais, como em relatórios científicos, nos quais a Ex.: [DIAS, Gonçalves] Poemas obscuros
menção dos nomes é exigida para fins de certificação, é faculta-
}
tivo indicar todos os nomes. 11. Obras publicadas por entidades coletivas '~-.

Ex.: NAGEL, E. et aI. a) Obras public~das por entidades 'coletivas, tais como aSSOCIa-
C) No caso de obras coletivas, com vários autores, mas organiza- ções, in~titutos.e semelhantes, têm o nome delas no ltlgar do
das ou coordenadas por um deles, faz-se a entrada pelo nome nome do autor.
deste, acrescentando-se, entre parênteses, essa indicação. Ex.: ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS: Normalização da
Ex.: FRIGOTIO, Gaudêncio (Org.). Educaçiio e trabalho. documeniação no Brasil.
b) Quando as entidades estiverem ligadas a órgãos públicos, de~
9. Tradução de nomes de autores estrangeiros vem constar, nesta ordem, os seguintes elementos: país, órgãos,
Note-se que, em todos os casos, os nomes e sobrenomes dos autores repartição.
são mantidos em suas línguas e grafias originais, não se permitindo Ex.: BRASIL Ministério da Educação e Cultura, Plano ...

~ .....d --.I ?,

,
.i ,
188 A.L",ONIO JOAQUlI-I SEVERINO METODOLOGIA DO TRABALHO CIEN'T1F!CO 189

I
SÃO PAULO. Departamento de Educação. Chefia do Ensino Básico, Normas .. c) Quando se indica volume determinado de uma publicação se-
MARANHÃO. Superintendência do Desenvolvimento do Maranhão.
Departamento de Estatística. Programa Integrado de Pesquisa, Pes uisa
riada, sem que esse volume tenha título específico, procede-se
socioeducacional .. da seguinte maneira:
PRESENÇA FILOSÓFICA. Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, jan. 1976.
f.5. ObSilrVaçÕes quantrJ 20 t.itugr; do: escritos d) Quando o volume tem título, este é acrescentado:
1. Normas gerais VOZES. Concrettsmo. Petrópolis, v. 71, n. 1, jan./fev. 1977.
a) O título de livros é transcrito integralmente, em destaque gráfi-
co, grifo. itálico O_lJ n~grito.
b) Nos títulos e subtítulos todas as palavras, com exceção da pri- a) No caso de artigos assinados, a seqüência é a seguinte: autor,
"

meira letra inicial, são escritas em minúsculas, exceto quando titulo do .artigo em redondo, título da revista com destaque grá-
i
,
'" nomes próprios.
li fico, local da publicação, volume ou tomo, fascículo em redon-
I, c) O subtítulo é igualmente transcrito quando 'contiver informa-
do, páginas inclusivas, data, com a seguinte pontuação:
ção essencial para o entendimento do conteúdo do livro. Sepa-
li FERRAZ ]R., Tércio Sampaio. Curva de demanda, tautologia e lógica da ciência.

I ra-se do título por dois-pontos, não tendo destaque gráfico.


Ex.: SALOMON, Ddcio Vieira. Como fazer uma monografia:
metodologia do tiabalho ciemífico.
elementos de
Ciências Econômicas e Sociais, Osasco, v. 6, n. 1, p. 97-105, jan. 1971.

b) No caso de separata: faz-se a citação do artigo destacado, com


cidade, editora e data. Após um ponto, acrescentar Separata da
\ revista Vozes ... seguida dos dados acima indicados.
2. Os títulos de obras sem autores identificados iniciam a própria re-
1 ferência; a primeira palavra vem em letra maiúscula. Esta norma
I 5. Títulos de artigos de jornal
se apl.ica igualmente a documentos, tais como leis, portarias etc.
I Terminada a identificação do documento, indica-se sua eventual
Citar autor, título do artigo, título do jornal, cidade, data completa,
número ou titulo do caderno, seção ou suplemento, indicação da
fonte.
Exs :PROCESSO de evolução política .. página e eventualmente da coluna:
DECRETO n° 70.067, de 26 de janeiro de 1972. Adm. & Legisl. v. 1, n. 6, p. a) Tratando-se de artigo assinado:
35, fev. 1972. PINTO,]. N. Programa explora tema raro na TI. O Estado de S. Paulo, 8 fev.
RELATÓRIO de grupo de trabalho para a reforma do ensino de 1° e 2° graus.
1975, Caderno 2, p. 7.
LEI n° 5.766, de 20 de dezembro de 1971.
b) Tratando-se de artigo não assinado: .,,
ECONOMISTA recomenda investimento no ensino. O Estado de S. Patllo, p. 21,
3 ... Títulos de ,púiódicos 4-5 col., 24 maio 1977.
a) Quando.seindica uma publicação peIiódicaseriada,procede~seda C) Artigo em suplemento, caderno especial, após a data acrescen-
seguinte maneira: tar o título do suplemento, número, página e coluna.
REFLEXÃO. Campinas: Instituto de Filosofia e Teologia. rucc, 1975. Ex.: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 20 junho 1968. Caderno Internacional,
b) Sea publicação estiver encerrada, fecham-se as datas: 1967-1976. p. 3, 6 c.

b
rif

190 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO
METODOLOGIA DO TRABAll-IO clENI1FJ.co 191
r
"r
n'

d) Tratando-se de supiementos muito especiais, como é o caso do 3. Reimpressões de uma mesma edição não precisam_ser indicadas em
Suplemento Cultural de O Estado de S.Paulo, tal suplemento é trabalhos acadêmicos, uma vez que nesses casos não ocorrem alte-
assimilado a um periódico e passa a ser citado como tal. rações substanciais no texto como tal.
Ex.: SIMÕES, Gilda Naécia. A educação da vontade. Suplemento Cultural de
O Estado de S.Paulo, 31 out. 1976, V. 1, n. 3, p. 35. f.5. Observações quanto ao local de publicação
1. Dado importante para a identificação do texto, o nome da cidade
6. Títulos de escritos inseridos em publicações mais amplas em que o documento é editado indica-se como aparece no texto:
Neste caso, os dois textos devem ser indicados com os respectivos da- São Paulo, Stuttgart, New York. Em referências bibliográficas de
dos bibliográficos de forma que fiquem perfeitamente identificáveis: trabalhos científicos, não se aportuguesam os nomes de cidades es-
a) Caso de referência de parte de um texto do mesmo autor: trangeiras mesmo que existam correspondentes em português, no-
i GOLDMANN, Lucien. Expressão e Forma. In: Ciências humanas e fílosofia. mes aportuguesados que podem ser usados no corpo do texto ou
;
! 2. ed. São Paulo: Difel, 1970. p. 104.10.
! em referências de divulgação.
í..[ b) Caso de referência de contribuição de um autor em obra de ou-
~ tro autor. Neste caso, procede-se da seguinte maneira: 2. Ocorrendo nomes homônimos de cidades, acrescenta-se, abreviado,
I Kl.JHN", Thomas s. A função do dogma na investigação científica. In: DEUS, Jor- o nome dos respectivos países, na mesma língua:

I 1:
c)
ge Dias de (Org.). A crítica da ciência: sociologia e ideologia da ciência. Rio de
Janeiro: Zahar, 1978. (Textos Básicos de Ciências Sociais). p. 53-80.

Tratando-se de referência de contribuição assinada em enciclo-


San Juan, Chile.
San Juan, Puerto Rico.

~
>
! pédias, dicionários etc., indicar o autor. 3. Ocorrendo duas ou mais cidades, cita-se apenas o nome da primei-
d) Tratando-se de contribuição não assinada em enciclopédias, di- ra; contudo, citam-se todas quando em cada cidade situar-se uma .~

cionários etc.: editora diferente.


Porto Alegre-São Paulo: Globo-Edusp.
Indução: In: ABBAGNANO. N. Dicionário de filosofia. São Paulo: Mestre Jou,
1970. p. 529-33.
4. Não constando explicitamente ,o local da publicação, usa-se a ex-
f.4. Observações quanto à ediçã~do documento pre~são s.l. (sem local) para assinalar tal fato; sendo possível iden-
1. Só é indicada a partir da 2a edição, sempre imediatamente após o tificar de alguma maneira o local, deve constar d~ referência, entre
. título do documento da seguinte forma: 2. ed. colchetes~
CERVO, Amado L.; BERVIAN, Pedro A. Metodologia científica. 2. ecl. rev. ampl. São
Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1977. 146 p.
f.6. Observações quanto à editora
1. O nôme da editora consta da referência tal corno se apresenta no
2. Se, numa nova edição, tiverem ocorrido alterações substantivas,
documento, ~liminand~-se os elementos jurídicos ou comerciais !::
elas devem ser indicadas, de forma abreviada.
desnecessários à sua identificação. Em alguns casos mantém-se a
SEVERINO, Antônio J. Metodologia do trabalho cientifico. 21. ed. rev. e ampl. São
Paulo: Cortez., 2000. abreviação Ed.:
\

\
,
192 AN'TÓN1Q lOAQUl"l SEVE.'UNO METODOLOGIA DO TRABALHO CIlN"TÍFlCO 193

Anhembi. f.8. Observações Quanto à indicação do número de páginas


Ed. da Universidade de São Paulo.
1. O número total de páginas é a última informação de uma referência
Civilização Brasileira.
Cortez Editora. 1 logra ica, número que vem acompanhado da abreviatura p.
Ex. 350 p.

2. Havendo mais de uma editora, pode-se indicar apenas a primeira;


2. O número de páginas de um texto quando é parte de um outro tex- :~
contudo, é preferível indicar ambas. Isto ocorre também quando a
obra é publicada em co-edição ou com participação de outras.insti- to é indicado da seguinte maneira:
.2530
!Ui Õ~
LÉVI-STRAUSS, Claude. As estruturas elementares do parentesco. Petrópolis: Vozes-
EDUSP, 1976. 542 p.
f.9_observações gerais sobre alguns casos especiais
MORAIS, João Francisco Regis de. Ciência e tecnologia: uma introdução metodológi- 1. Enciclopédias, publicações de congressos etc.
ca e crítica. São Paulo-Campinas: Cortez & Moraes: Instituro de Filosofia e Teologia.
Quando se quer citar a obra como um todo, a entrada da referência
PUCC,1977. I:
é pelo próprio título, eliminando-se eventuais artigos ou partículas:
3. Mesmo nã~ constando explicitamente da obra, a editora, se identi- ENCICLOPÉDIA DELTA-LAROUSSE
ANAIS DO Il1 CONGRESSO NACIONAL DE mOSOFIA
ficada por alguma via indireta, pode ser citada entre colchetes; não
stíld i eo i ica a, co oca-se o nome o Impressor; a tan o tam- 2. Teses não publicadas
bém este, colocar: [s.n. ] entre colchetes, sine nomine.
Segue-se a mesma caracterização do livro, indicando-se, porém, sua
4. Quando a Editora é a mesma entidade responsável pela autoria da
I obra, não é necessário indicá-la.
natureza, instituição, entre parênteses, ao final:
BUFFA, Ester. Crítica histórica das ideologias subjacentes ao conflito escola partia/-

l
I
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Catálogo de teses. São Paulo, SP, 1998. 250 p.

f.7. ObservaçõestjW111t!' ã data


1. No caso de publicações em que se indica apenas o ano, usar algaris-
3.
lar-escola pública (1956-1961). 1975. 154 p_ Dissertação (Mestrado em Educação)
Unimep. Piracicaba.

Escritos mim.eografados
São citados em trabalhos científicos desde que suficientemente iden-
mos arábicos seguidos: 1977 e não 1977, 1.977 ou MCMLXXVIL
tificados, pressupondo-se seu valor intrínseco:
ROXO, Roberto M. História da filosofia: pré-socráticos e Sócrates. São Paulo: Fa-
2. Não sendo identificada a data, indica-se: s.d. Se a identificação for
culdad~s Associadas do Ipiranga, S.d. 53 p. (Mimeo)
indireta, colocar a data entre colchetes: [1920].
4. Citação de volume de uma coleção
3. Nas citações de publicações periódicas, os meses são resumidos
Quando se quer citar um volume com título específico de uma cole-
pelas três primeiras letras, excetuando-se "maio", que mantém as
ção de vários volumes, proceder da seguinte maneira:
quatro letras; quando se unem vários meses para se indicar um pe-
BOlNERESSE, J. e outros. O século XX. In: CHA TELET, François: História da fi-
ríodo, ligá-los por uma barra, conforme exemplo: jan. Imar. losofia: idéias e doutrinas. Rio de Janeiro: Zahar, 1974. v. 8,324 p.

\
L h
r'. 194 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO

Se o volume a ser citado não tiver título próprio, sendo ou não do


mesmo autor, proceder do seguinte modo:
ABBAGNANO, Nicola. HistórUJ da filosofUl. Lisboa: Editorial Presença, 1970. v. 5.
T,~;,.
o,~,"' O".",:~:',:=o:~:::
.~~
.~.
UAA, , •
deve ser pelo nome do autor da matéria, quando. existe. A data deve
constar do documento ou então deve-se indicar a data em que ele
320 p.
,
',I
...1
foi acessado. Para evitar fusão da data ao endereço, aconselha-se
colocá-la logo após o nome do autor ou da própria matéria, deixan-
5. Citação de trabalhos publicados em Anais ou Atas de Congressos etc.
'.~ do o endereço da localização na rede para o fim. Exemplos:
Proceder assim: -'":1J ~S.f.I.$,_~~nata P. L. Avali~r é humano, ayaliar,humaniza. Disponível em: http://
MORAIS, João Francisco Regis de. Cultura, conrraculnua e educação. In: fi SE- ;\ ~.ww..cbf~. co:n.brlreflexão.htm. Acesso em: 20 dez. 2001 ..
MANA INTERNACIONAL DE FILOSOFIA. Petrópolis. 1974. Atas. Filosofia e rea-
lidade brasileira. v. 2. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos,
~j CARLOS, Cássio S. (1997) As idéias do Norte. Disponível em: http:lwww.uoJ.com.

1976. p. 122-130.
'1 brlfsplmaisl {s121004.htm. Acesso em: 13 ago. 1999.
-:.1
MOURA, Gevilacio A. C. de (1996). Citações e referências a documentos eletrõ-
nicos. Disponível em: http://www.elogica.com.brluserslgmouralreferelhtml. Acesso
f.10. Referenciaçào bibliogràfica de documentos registrados em: 15 dez. 2000.
em fontes eletrônicas
Os meios tecnoeletrônicos e informáticos só podem ser usados e citados Observações:
como fontes de documentação científica quando produzidos sob forma 1. As referências, quando feitas ao longo do texto, devem ser re-
pública. Assim, um disquete particular, um vídeo, quando produzidos gistradas de modo análogo ao que se aplica quando de fontes
privadamente, não podem ser citados como fontes, pois sem as referên- impressas: (Moura, 1996. p. 5). Isto remete o leitor para a Bi-
cias públicas os outros pesquisadores não teriam como localizá-los e bliografia final, onde o texto de Moura deve aparecer junto aos
acessá-los. Toda fonte de referenciação científica precisa ser acessível títulos das outras fontes.
aos demais pesquisadores. Os dados constantes da referência devem 2. Para referenciar uma home page, como tal, sem estar-se citando
ser aptos a fornecer a via de acesso completa à fonte. Por isso, mensa- uma matéria em particular, deve-se dar a entrada seja pelo no-
gens constantes de e-mails, analogamente ao que acontece com as car- me da entidade a que se liga a página, seja pelo assunto geral da
tas pessoais, não devem ser referenciadas diretamente pelos mesmos: o página. Exemplos:
texto deve ser impresso e anexado ao trabalho, quando for o caso. GT-CURRICULO/ANPED. Disponível em: http://www.ufrgs.brl{acedlgtcurric.
No Projeto NBR 6023:2002, a ABNT estabeleceu as normas que Acesso em: 23 jun 2000.
Associação Nacional de Pós-Graduação em Educaçao: www.anped.org.br
regulam as referenciações de documentos de acesso exclusivo em meio
Universidade de São Paulo: www.usp.br
eletrônico. Trata-se das bases de dados, das listas de discussão, de ar-
3. Documentos podem ser referenciados quando dispo~íveis nas
quivos em disco ~ígido, em disquetes. As referências devem conter os
Listas de Discussão, pois, embora tendo a forma de correio ele-
elementos essenciais: autor, denominação do serviço ou produto, indi-
trônico, estas listas são coletivas e públicas e podem ser divul-
cações de responsabilidade, endereço eletrônico e data de acesso.
gadas. Exemplo:
1. Documentos e dados da Rede Internet DUARTE, Newton. Avaliação Capes. eduforum@Uerj.br.Acessoem:23ago.2001.

I
L b
196 A.t'ITÚNlQ JOAQUL."! SEVF.RIl'iO METODOLOGIA DO TRABAU-lO C!ENTtFlco 197

4. Em referências desta nature.za, onde as fontes se assemelham i


mais a jornais do que a livros ou periódicos, é melhor registrar
5.2. Quando se trata de citar apenas uma faixa:
Caetano Veloso. Carcará. In: Maria Bethania e Caetano
7128265.Ph-ilips-:-sM--------- --------------
Veloso ao vivo. N.
---~,
L -
a data eefllplaa, indieanae dia, mês c dno.

AS EXIGENCIAS ÉTICAS DA PESQUISA As pesquisas que envolvem seres huma-


2. Material gravado em CD-ROM
nos, além de dever cumprir as exigências éticas gerais de toda atividade
2.1.Quando se trata do conjunto do material gravado no CD:
Timbalada. Carlinhos Brown e Wesley Rangel. n. 518068-2 Philipsl Polygram.
científica e aquelas ligadas à ética profissional da área de atuação pro-
sil, s/do 1 CD-ROM ______ fission.~_c:I_opesquisa_~?_r, devem ateE-4~~_aind~ a a_sp~çtos éti_cos~ .e- .
cíficos, tais como estão especificados na Resolução 196, do Conselho
Anais/Resumos da 53~.Reunião AnualdaSBPC. Salvador: SEPe, 2001. 1 CD-ROM. Nacional de Saúde. Desse modo, ao preparar o seu projeto de pesqui- I
2.2.Quando se trata de citar apenas uma parte, uma música, por sa, quando envolvendo sujeitos humanos, o pesquisador deve pautar-se I

exemplo: igualmente nas diretrizes e normas dessa Resolução, uma vez que o seu r
Maria Bonita. Caetano Velaso. Fina Estampa. Faixa 3, n. 522745-2 Polygram.
"'d. 1 CD-ROM.
projeto passará por apreciação de um Comitê de Ética autônomo, cria- I
do nas Instituições para esse fim. O estabelecimento dessas diretrizes e a

l"
3. Material gravado em disquete criação dos comitês têm em vista "defender os interesses dos sujeitos de
, pesquisa em sua integridade e dignidade e contribuir no desenvolvimen-
:3.1.Quando se trata de uma umdade completa:
Anpedl20a. Rnmião AntUll. GT-17 Filosofia da Educação. Caxambu-MG, 1997. to da pesquisa dentro de padrões éticos" (Resolução 196, item II, 14).
1 disquete 3 paI.
De acordo com os termos da Resolução, a eticidade da pesquisa
3.2.Quando se trata de parte de gravação:
implica os seguintes quesitos: 1. autonomia: consentimento livre e es-
GALLO, Sílvio. Subjetividade, ideologia e educação. Arlped /20a. Reunião Anu-
al. GT 17. Filosofia da Educação. 1997. Diretório: GT 17 / Trabalhos / GaBo. clarecido dos indivíduos-alvo e a proteção a grupos vulneráveis e aos
doc. 1 disquete, 3 pol. legalmente incapazes, de modo que sejam tratados com dignidade, res-
peitados em sua autonomia, e defendê-los em sua vulnerabilidade; 2.
4. Material gravado em vídeo
beneficência: ponderação. entre riscos e benefícios, tanto atuais como
Exemplos: potenciais, individuais ou coletivos, comprometendo-se com o máximo


O enigma de Kaspar Hauser. Dir. Werner Herzog. Cinematográfica FJ. São Paulo,
1990. FJ-101.
de benefícios e o mínimo de danos e riscos; 3. não-maleficência: garan-
Conimbriga: ao encontro da história. Conimbriga, Portugal. Duvideo, junho. 1993. tir que danos previsíveis serão evitados; 4. justiça e eqüidade: fundar-se
n.353293E.
na relevância social da pesquisa.
O piano.Dir.]ane Campion. França/Austrália. VideotecaFolha,n. 3. São Paulo, 1992.
\ As instituições de qualquer natureza, nas quais se realizam pesqui-
I
i 5. Material gravado em fita cassete sas envolvendo pessoas, deverão constituir seu Comitê de Ética em Pes-
5.1.Quando se deve indicar a fita no seu conjunto: quisa. Caso ainda não esteja instalado, o pesquisador deve recorrer a
I.
Maria Bethania e Caetano Veloso ao vivo. N. 7128265. Philips. s/d Comitê de outra Instituição congênere. Inclusive as agências de finan-

\ n
r
f

I '
198 ANTONIO ]OAQUL\.J:5EVEIUNO

ciamento passarão a eXIgI! que os projetos sejam acompanhados de CAPiTULO V


parecer de aprovação por Comitê de Ética.
De sua parte, os pesquisadores - seja quando da real.ização de suas AS MODALIDADES
pesquisas para obtenção de títulos acadêmicos, seja quando fazendo in~
vesrigações institucionais - que envolvam pessoas humanas como sujei-
DE TRABALHOS CIENTíFICOS ,
,

~.
tos pesquisa dos devem providenciar o encaminhamento prévio de seus
projetos' para apreciação por parte do Comitê de Ética da instituição
onde a pesquisa se realizará.
i,
;. IV: CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
'~

o respeito devido à dignidade humana exige que toda pesquisa se processe


I1 após consentimento livre e esclarecido dos sujeitos, indivíduos ou grupos que
'.1
por si e/ou por seus representantes legais manifestem a sua anuência à partici-
i pação na pesquisa.
1 $
,
~ J
~ IV. 1. Exige-se que o esclarecimento dos sujeitos se faça em linguagem acessível 1
e que inclua necessariamente os seguintes aspectos:
a) a justificativa, os objetivos e os procedimentos que serão utilizados na pes- As diretrizes metodológicas aprese!ztadas neste livro, embora bas-
qUisa; !
i tante práticas, são gerais e podem presidir a qualquer trabalho de
b) os desconfortos e riscos possíveis e os benefícios esperados;
natureza científica. Como tais, são universais e devem ser aplicadas

"
'I c) os métodos alternativos existentes;
d) a forma de acompanhamento e assistência, assim como seus responsáveis;
a todos os escritos que se destinam à comunicação das descobertas
de informações científicas.
e) a garantia de esclarecimento, antes e durante o curso da pesquisa, sobre a
metodologia, informando a possibilidade de inclusão em grupo controle ou Todavia, apesar do caráter universal de estruturação lógica e de or-
placebo; ganização metodológica, os trabalhos científicos diferenciam-se em
f) a liberdade do sujeito se recusar a participar ou retirar seu consemimento, função principalmente de seus ob;etivos e da natureza do próprio
em qualquer fase da pesquisa, sem penalização alguma e sem prejulZO ao seu
cuidado;
g) a garantia do sigilo que assegure a privacidade dos sujeitos quanto aos da-
dos confidenciais envolvidos na pesquisa;
objeto abordado, assim como em função de exigências específicas
de cada área do saber humano.
Após a exposição das normas para qualquer trabalho científico,

I - h) as formas de ressarcimento das despesas decorrentes da participação na é conveniente fazer rápida referência aos principais tipos de tra-
\ pesquisa; e
i) as formas de indenização diante de eventuais danos decorrentes da pesquisa.
balhos científicos comumente solicitados nos vários momentos da
vida do estudioso e aos quais as várias normas, sobretudo as de
\ natureza técnica, devem adaptar-se adequadamente.
Resolução 196196, do Conselho Nacional de Saúde, Ministério da Educação.
I
i
I
I L

I \
200 ANTONIO JOAQUIM stV'ERDlO t~:
..
~:.~~
~.'rc:-
METODOLOGIA DO TRABALHO OENT1rtCO 201

..•. ~

5.1, TRABALHO CIENTiFICO E MONOGRAFIA ;i~'~. " , gráficas. Esses trabalhos são exigíveis e exigidos durante os cursos de
ú.
';', ~'. aduação, como parte do próprio processo didático, ao contrário das
o termo monografta oeslgna um tIpO especial e tra alho científico. '~11 dissertações, teses e ensaios que, embora possam ser trabalhos acadê-
Considera-se J!10nografia aquele trabalho que reduz sua abordagem a 1 micos, são resultados de uma .pesquisa ampla, profunda, rigorosa, au-
um único assunto, a um"único problema, com um tratamento especifi- .f tônoma e pessoal.
cada.l J
Por iss~>o-uso deste termo para de~ign~r u,maJs~_ied~ trabal~L_

incorreta generalização do conceito.


Os trabalhos científicos serão monográfi- Exigidos sobretudo nos .cursos de graduação como tarefas da própria es-
cos na medida em que satisfizerem à exigên- colaridade, são relatórios científicos de estudos realizados pelos alunos.
cia da especificação,2 ou seja, na razão direta Ainda fazem parte intrínseca da formação técnica ou cienófica do estudan-
de um tra tamento estruturado de um único te, já que levam os alunos a buscar, nas devidas fontes, elementos comple-
tema, devidamente especificado e delimita- mentares àqueles adquiridos no próprio curso. Esses trabalhos didáticos
do. O trabalho monográfico_c3r3_C1CJ:iza.:.Se ec dei xa dos.à..pur.a...espon(a-He.w.a~<-f-ia-t-iv-s--do-aluno.
mais pela unicidade e delimitação do tema fase, a exploração do patrimônio cultural e da rc.::Ilidade contextual. é
e pela profundidade do tratamento do que uma exigência imprescindível do processo didático-pedagógico do en-
por sua eventual extensão, generalidade ou sino superior. Como já se insistiu bastante nos capítulos anteriores, é
valor didático.J . através desse tipo de trabalho que o estudante, além de ampliar seus co-
No momento, são abordadas aquelas formas de trabalho exigidas nhecimentos, se iniciará no método da pesquisa e da reflexão. Um dos
dos alunos durame os cursos de graduação e mesmo de pós-graduação, intuitos deste livro é fornecer diretrizes para o ('trabalho de aproveita-
mas como partes das atividades do processo didático, integrantes do mento", "trabalho de pesquisa", (Cminimonografia~", tão solicitados
processo de escolaridade. t a estes trabalhos que devem ser aplicadas nas escolas superiores, mas que, por falta de orientação adequada, não
as diretrizes metodológicas, técnicas e .lógicas de que se tratou até ago- passam de colagens malfeitas de textos alheios.
ra. Tais são os assim chamados "trabaUlos de pesquisa", "trabalhos Dependendo do nível em que se encontra o estudante, dos objeti-
de aproveitamento", os relatórios de estudo, os roteiros de seminários, vos do curso e do próprio ttabalho, ele poderá ser mais ou'menos mo-
os resumos de capítulos ou de livros e as resenhas ou recensões biblio- nográfico. Não se exige originalidade nestes trabalhos: são geralmente ~.
recapirulativos, com síntese de posições encontradas em outros textos
ou em outras pesquisas. O que qualifica este tipo de trabalho é o uso
,t
1 De:lcioV.SALOMON. Comofaur •.•••••
mo"~. p .. 219. f
2 Ibid.. p. 219. ;
i 3 Ángdo D. SALVADOR, Mitodol r ticnit;#$dr ptJ't"w bibfiováfira, p. 167-168. "

\
b
[
('r I~
I"

202 ANTONIO JOAQUlM SEVERINO METODOLOGtA DO TlWlAUiO CENTtnco 203


I
,

correto do material preexistente, a maneira adequada de tratá-lo para


que traga alguma contribuição intelig~nte à aprendizagem. Nesta cate-
Pode ser um trabalho teóricoJ documental o~ de campo. Quaisquer
que sejam as perspectivas de abordagem, a atividade visa articular c
I;
goria são incluídos os chamados "comunicados científicos",. trabalhos consolidar O processo formativo do aluno pela construção do conheci-
1 baseados em pesquisas de campo ou experimentais. Com a mesma fina- mento científico em sua área.
I
Embora TCC tenha regulamentações específicas nas diversas ins-
tI' lidade didática, terão variados níveis de profundidade e o mesmo rigor O

tituições de ensino, em alguns casos, é prevista também apresentação e


na expressão. Igualmente, as "memórias" de fim de curso são trabalhos
! científicos de maior nível de a,profundamento e de pesquisa que reto- defesa públicas do trabalho, por banca examinadora própria, como via
mam a temática estudada durante U!TI curso de formação específica. de sua avaliação final.
O texto final do trabalho tem estrutura e apresentação de acordo
com os padrões gerais de todo trabalho científico (cap. IV), complemen-
j
\ 5.3. O TCC - TRABALHO DE CONCLUsAo DE CURSO
),
tadas por eventuais diretrizes específicas definidas pela própria institui-

I o Trabalho de Conclusão de Curso é parte integrante da atividade


;
j,
ção do curso.

I curricular de muitos cursos de graduação, constituindo assim uma


I
, iniciativa acertada e de extrema relevância para
dizagem dos alunos. Para a grande maioria, ele representa a primeira
experiência de realização de uma pesquisa.
O processo de apren-

Como vivência de pro-


i
!
I
5.4. O RELATÓRIO DA PESQUISA DE INICIACAo CIENTíFICA

Outra significativa experiência de atividade científica, que vem ganhan-


I do cada vez mais espaço no ensino de graduação, é aquela desenvolvida
dução de conhecimento, contribui significativamente para uma boa
I no âmbito do Programa de Iniciação Científica (PIBIC). Inicialmente,
aprendizagem.
lançado pelo CNPq, hoje é um programa que conta com a promoção
Deve ser entendido e praticado como um trabalho científico e as di-
de outras agências de fomento, particularmente pelas FAPs (Fundações
retrizes para a sua realização são as que foram apresentadas no capítulo
de Apoio à Pesquisa), estaduais, diferenciando-se pelo fato de que estão
quarto. Mas., contando com um orientador, o aluno terá também um
vinculadas a uma bolsa, subsídio financeiro para que O aluno possa se
acompanhamento personalizado e direro na condução de suas ativida-
dedicar mais intensamente à investigação, sendo também acompanha-
des de pesquisa. das e avaliadas por comissões especializadas.
Articulado ao próprio conteúdo do curso, as disciplinas e o conví-
No Programa de Iniciação Científica, o
vio com os professores, no ambiente acadêmico, O aluno terá oportuni- graduando ou desenvolve um projeto pes-
dade de formular o seu projeto e de desenvolvê-lo ao longo de alguns soal, sob a supervisão de um orientador, ou
anos, cumprindo um cronograma arriculado com o planejamento do então panicipa do desenvolvimento do pro.
próprio curso, de comum ac,?rdo com O orientador. jeto de pesquisa do próprio orientador, cum-
prindo um programa de trabalho inregrado
4 Ánl'clo D. SAlVADOR., MitodOJ ticniau d"pUqo<UD bjbljoxrá(KD. p. 161. a esse projeto.
':,
t

L

204 ANTÚt<lO JOM~UI."vlSEVEFJNO
'r'.
~~
:3
METODOLOGIA DO TRABALHO ClENTlF!co 205

Em ambos os casos, a atividade deve levar à condução de uma in-


'1 é através delas que se toma conhecimento prévio do conteúdo e do valor
vesti acão (u'o resultado será a elaboracão de um trabalho com a for- fi livro ue acaba de ser ublicado fundando-se nesta informa - ,~

matação do trabalho científico de acordo com as diretrizes tratadas no decisão de se ler o livro ou não, seja para o estudo seja para um trabalho
capítulo anterior. em particular. As resenhas permitem, como já se viu,5 operar uma tria-
gem na bibliografia a ser selecionada quando da leitur_ade documentação
para a elaboração de um trabalho científico. Igualmente, são fundamen-
5.5. RESUMOS E RESENHAS tais para a atualização bibliogrâfica do estudioso e deveriam, numa vida
- - -- --..:J-------- cient-f ica--orgamza a-,-passar-pa-ra-o -arqUIVO e- oc-umentaç-ão- i iográ-
Outro tipo de trabalho didático comumente exigido em escolas supe- fica ou geral da área de especialização do estudante.6
riores é o resumo ou síntese de textos, seja de toda uma obra ou de um Uma resenha pode ser puramente info.rmativa, quando apenas ex-
único capítulo. É o que se faz, muitas vezes, quando do fichamento põe o conteúdo do tex~o; é crítica quando se manifesta sobre o valor
de livro. e o alcance do texto analisado; é crítico-informativa quando expõe o
Não se trata propriamente de um trabalho de elaboração, mas de conteúdo e tece comentários sobre o texto analisado.
um ~rabalho de extração de idéias, de um exercício de leitura que nem A resenha estrutura-se em várias partes lógico-redacionais. Abre-se
por isso eIXa e er enorme li ii a e i cõ"1'IlunI cabeçalho, 110 qual são transcritos os cimos bibliográficos com-
científico. pletos da publicação resenhada; uma pequena infarmaçãa sabre o.autar
O resumo do texto é, na realidade, uma síntese das idéias e não do texto, dispensável se o autor for muito conhecido; uma expasição.
das palavras do texto. Não se trata de uma "miniaturização" do texto. sintética da canteúda da texto., que deve ser objetiva e conter os pontos
Resumindo um texto com as próprias pa~ principais e mais significativos da obra analisada, acompanhando os
lavras, o estudante mantém-se fiel às idéias capítulos ou parte por parte. Deve passar ao leitor uma visão precisa
do autor sintetizado. do conteúdo do texto, de acordo com a análise temática, destacando o
Não se deve confundir este resumol assunto, os objetivos, a idéia central, os principais passos do raciocínio
I slntese, muitas vezes exigido como traba- do autor.? Finalmente deve conter um camentária critica. Trata-se da
1
lho didático, com o resumo técnico-cien- avaliação que o resenhista faz do texto. que leu e sintetizou. Essa avalia-
1I ção crítica pode assinalar tanto os aspectos positivos quanto os aspec-
tífico de que se tratará mais adiante (p. 208, item 5.9.). Com aquele
I
~?rmato, o resumo é solicitado. em situa"çõe.:?acadêmicas .c_científicas tos negativos do mesmo. Ass~~l.p~de-se destacar a contribuição que o
especiais. ' textO traz para determinados setóres da cultura, sua qualidade científi-
, Resenha, recensáo de livros ou análí~e bibliográfica é uma síntese ou
'um comentário dos livros publicados feito em'fevistas especializadas das
várias áreas da ciência, das artes e da filosofia. As resenhas têm papel im- 5 Cf. p. 146.
6 Cf. p. 70,7l.
portante na vida científica de qualquer estudante e dos especialistas, pois 7 Cf. p. 56.59.
i'

h
206 ANrONlO JOAQUIM SEVERINO METODOLOGIA DO TRABALHO CIENT!FJco 207

ca, literária ou filosófica, sua originalidade etc.; negativamente, pode-se terísticas de ensaio que são bem aceitas devido a seu rigor e à maturidade
explicitar as falhas, incoerências e limitações do texto. do autor. De fato, o ensaio não dispensa o rigor lógico e a coerência de
Esse comentário é normalmente feito como último momento da argumentação e por isso mesmo exige grande informação cultural e mui-
resenha, após a exposição do conteúdo. Mas pode ser distribuído di- ta maturidade intelectual. Daí muitos dos grandes pensadores preferirem
fusamente, junto com os momentos. anteriores: expõe-se"c comenta-se esta forma de trabalho para expor suas idéias científicas ou filosóficas.
simultaneamente as idéias do autor.
As críticas devem ser dirigidas às idéias e posições do autor, nunca a
sua pessoa ou às suas condições pessoais de existência. Quem é criticado 5.7. OS RELATÓRIOS TÉCNICOS DE PESQUISA

é o pensador/autor e suas idéias, e não a pessoa humana que as elabora.


É sempre bom contextuar a obra a ser analisada, no âmbito do pen- Muitas vezes, no decorrer de sua vida acadêmica, o pesquisador é ins-
samento do autor, relacionando-a com seus outros trabalhos e com as tado a apresentar Relatório de andamento ou de conclusão da pesquisa
i
condições gerais da cultura da área, na época de sua produção. que vem fazendo ou que então está concluindo. Trata-se comumente de ,
\ Na medida em que o resenhista expõe e aprecia as idéias do autor, exigência institucional, oriunda, seja de agências de fomento - no caso >
\ ele estabelece um diálogo com os mesmos. Nesse sentido, o resenhista de bolsas ou de financiamento de projetos -, seja de órgãos da própria
instituição a que o pesquisador é vinculado. Pode ser solicitado também .
pode até mesmo expor suas próprias idéias, defendendo seus pontos de
.)
vista, coincidentes ou não com aqueles do autor resenhado. '\ em função de exames de qualificação, no caso de alunos de cursos de
pós-graduação.
Os Relatórios de pesquisa, assim como os Relatórios de outras ati-

\ 5.6. O ENSAIO TEÓRICO vidades, não devem ser confundidos com o Memorial. O Relatório,
além de se referir a um projeto ou a um período em particular, visa pura
~, .

o trabalho científico pode ainda asslUTlÍra forma de ensaio. Em nossos e simplesmente historiar seu desenvolvimento, muito mais no sentido de
I meios, este tipo de trabalho é concebido «como um estudo bem desenvol- apresentar os caminhos percorridos, de descrever as atividades realiza- :f

I vido, formal, discursivo e concludente",S consistindo em exposição lógica das e de apreciar os resultados - parciais ou finais - obtidos. Obviamen-
I
I e reflexiva e em argumentação rigorosa com alto nível de interpretação te deve sintetizar suas conclusões e os resultados até então conseguidos,
I
e julgamento pessoal. No ensaio há maior liberdade por parte do autor, sem, no entanto, a necessidade de conter análises e reflexões mais de-
no sentido de defender determinada posição sem que tenha de se apoiar senvolvidas, como é o caso no MemoriaL
no rigoroso e objetivo aparato de documentação empírica e bibliográfica, O Relatório pode se iIÚciar com uma retomada dos objetivos do
como acontecia nos tipos anteriores de trabalho. Às vezes, são encontra- próprio projeto, passando, em seguida, à descrição das atividades reali-
das teses, sobretudo de livre-docência e mesmo de doutorado, com carac- zadas e dos resultados obtidos. Se couber, como no caso dos Relatórios
de andamento, deve ser encerrado com a p~ogramação das próximas
8 Ângelo D. SALVADOR, Mirados e th"icas de pesquisa bib/iográfie4, p. 163. etapas da continuidade da pesquisa. E não basta dizer que a pesquisa
208 ANTONIO JOAQUL."'15EVERll'lO )l,lETODOlOGIA DO TRABALHO ClE."Jl1AÇO 209

terá prosseguimento, é preciso detalhar e discriminar as várias ativida- teor do documento analisado, fornecendo, além dos dados bibliográfi-
des distribuídas nas várias etapas desse prosseguimento. cos do documento, todas as informações necessárias para que o leitor/
CópIas dos-produtos parciais -como transcriçoes de entrevIstas, ca- pesquisador possa fazer uma primeira avaliação do texto analisado e
pítulos já elaborados, dados registrados e tabulados - podem ser anexa- dar-se conta de suas eventuais contribuições, justificando a consulta do
das ao Relatório, no qual devem ter sido sintetizados, não sendo, pois, texto integraL
necessário que tais produtos integrem o texto do Relatório em si. O que deve conter o Resumo? Atendo-se à idéia central do traba-
lho, o Resumo deve começar informando qual a narureza do trabalho,
r r nClas eoncas
5.8. ARTICOS CIENTíFICOS de apoio, os procedimentos metodológicos adotados e as conclusões/
resultados a que se chegou no texto. Responde assim às questões: De
Destinados especificamente a serem publicados em revistas e periódi- que natureza é o trabalho analisado (pesquisa empírica, pesquisa teó-
1 cos científicos, esta modalidade de trabalho tem por finalidade regis- rica, levantamento documental, pesquisa histórica etc.)? Qual o obje-
1, trar e divulgar, para público especializado, resultados de novos estu- ro pesquisado/estudado? O que se pretendeu demonstrar ou constatar?
I dos e pesquisas sobre aspectos ainda não devidamente explorados ou Em que referências teóricas se apoiou o dese.TIvolvimento do raciocínio?
I
_______ ~~_expressando ooy..D.S-
esclarecimento.s sobre questÕes em discussão no Mediante q!la is procedimeIltQ5 m~tgQglógic-e&--e--re-£-n-i€O epefaeieflats-se
meio científico. procedeu? Quais os resultados conseguidos em termos de atingimento
O artigo tem a estrutura comum ao trabalho científico em geral, dos objetivos propostos?
mas quando relacionado aos resultados de uma pesquisa, deve destacar Qual o perfil do Resumo? O texto do Resumo deve ser composto
os objetivos, a fundamentação e a metodologia da mesma, seguindo-se de um único parágrafo, com uma extensão entre 200 e 250 palavras, ou
a análise dos dados envolvidos e as conclusões a que se chegou, comple- seja, de 1400 a 1700 caracteres, computando-se todos os seus elemen-
tando-se com o regi-?tro das referências bibliográficas e documentais. tos. Limitando-se a expor objetivamente o conteúdo do texto, não deve
Quanto à formatação técnica do texto, as revistas e periódicos costu- conter opiniões ou observações avaliativas, nem conter desdobramen-
mam estabelecer normas específicas_para a_publicação dos artigos, caben- tos explicativos. Inicia-se com a referenciação bibliográfica do docu-
do ao autor se inteirar delas antes de enviar seu trabalho à editaria. mento e se encerra com a indicação dos cinco unitermos temáticos mais
significativos do texto. A formatação do texto (indicação da fonte, do
tipo de letra, seu tamanho, espaço interlinear, margens etc.) fica a crité-
5.9. RESUMOS TÉCNICOS DE TRABALHOS CIENTíFICOS. rio dos organizadores e na dependência do tipo de publicação em que
os Resumos serão divulgados.
o Resumo em questão consiste na apresentação concisa do conteúdo
de um trabalho de cunho científico (livro, artigo, dissertação, tese etc.)
e tem a finalidade específica de passar ao leitor uma idéia completa do

L
( ,
210ANT0N1010AQ~S~O

CAPfTULO VI
A RESENHA BIBLIOGRÁFICA

Uma resenha comporta várias partes lógíco-redacionais:


_Cabeçalho: transcreve os dados bibliográficos completos da publicação resenhada.
A ATIVIDADE CIENTíFICA
_Pequena Informação sobre o autor do texto. Dispensável se o autor for muito conhecido.
_ Exposição sintética do conteúdo do texto. Esta exposição deve ser objetiva e comer os
NA PÓS-CRADUACÃO
~: pontos principais e mais significativos da obra analisada. pode seguir capirulo ou parte por

, parte. Deve passar ao leitor urna visão precisa do teor do texto.


o Comentário critico. Trata-se da avaliação que o resenhista faz do texto que leu e sinteti-
I:lt zou. Essa avaliação crítica pode assinalar moto os aspectos posrtivos quanto os aspectos
ti negativos. Assim, pode-se destacar a contribuição que o texto está trazendo para determi-
nados setores da culrura, sua qualidade científica, lirerária ou filosófica, sua originalidade
! etc; negativamente, pode-se explicitar as falhas, incoerências e limitações do texto.
As críticas devem ser dirigidas às idéias e posições do autor, nunca a sua pessoa ou às suas

\
condições pessoais de existência. Quem é criticado é o pensador/autor e suas idéias e não
sua pessoa. É sempre bom contextuar a obra a ser analisada, no ãmbito do pensamento do
autor, relacionando-a com seus outroS trabalhos e com as condições gerais da cultura da

I 1 área, na época de sua produção.


Na medida em que o resenhista expõe e aprecia as idéias do autor; ele estabelece um diálo-

: 1 go com o mesmo. Nesse sentido, o resenhista pode até mesmo expor suas próprias idéias,
defendendo seus pontos de vista, coincidentes ou não com aqueles do autor resenhado.
Como construir a resenha?
1
Com relação à elaboração de uma resenha, ter presente as seguintes orientações:
O cabeçalho é composto pelos dados bibliográficos do livro, a fim de se ter a identificação
do texto a ser resenhado. Transcritos esses dados, construir a resenha dando os passos que Nos últimos vinte anos consolidou-se o desenvolvimerltÓ' dos cur-
I se seguem. Não há necessidade de capas, páginas de rosto, etc.
Fazer algumas considerações introdutórias, contextuantes, para se criar um clima, dando
sos de pós-graduação no Brasil~ nos moldes da legislação eSfjecífi- ,,
a entender qual o âmbito do problema que o livro vai discutir. ca. Regulamentada a matéria pelas várias instituições~ observa~se
Em seguida trazer algumas informações sobre o autor: quem é ele, qual sua área de forma- que~ em todos os modelos adotados, se faz presente particular aten-
ção e de especialização, se já publicou outras obras, quais suas principais posições, para
que escreve o atual livro, etc.
ção às tarefas _depesquisa em sentido abrangente. A pós~graduação
Num mamemo seguinte, reramar e expor os principais elementos do conteudo do livro, foi instituída com o objetivo de criar condições para a pesquisa ri-
acompanhando o raciocínio do autor. Não é preciso detalhar muito. Se for o caso, destacar
I algum ponto mais relevante.
Cond.uir com algumas 'considerações finais, inclusive críticas. Trata-se de tim livro im-
gorosa nas várias áreas do saber, desenvolvendo
teórica, a reflexão" o levantamento
a fundamentação
rigoroso de dados empíricos
i portante? Por quê? Traz alguma contribuição? Para quem? Vale a pena ser lid,?? Por quê?
da realidade~ objetivo das várias ciências, assim como o melhor
Quem deve lê-Ia? As posições do autor são coerentes, sólidas? São origin~is"ou o 'autor é
I repetitivo? Etc. ' conhecimento desta realidade. Enfim~ a ciência se faz em todas as
No decorrer do texto, pode-se inserir pequenas passagens, quando r~l~vantes e ilustrativas, frentes e não apenas se transmite. Com isto se visa fundamental-
\ colocando-as entre aspas c citando a pâgina de onde foram tr3:nscritas. Mas não se deve
I
fazer citações de outras fontes nem inserir outras referências bibliográficas. Também os
mente à qualificação do corpo docente do ensino superior, assim
I
comentários e apreciações podem ser distribuídos ao longo do texto, quando oportuno. como a preparação de pesquisadores e profissionais de alto nível.

,
,

L I~

1 \
2J2 ANT6NlO JOAQUIM SEVERINO METODOLOGL'" DO TRABALHO CIENTíFICO ?-13

A legislação básica para pós-graduação no Brasil encontra-se nos balhos científicos, geram exigências maiores de disciplina, de rigor, de ~
\
pareceres 977/65 e 77/69, do Conselho Federal de Educação. seriedade, de metodicidade e de sistematização de procedimentos. Ade- I
. ~~---
Atualmente, cabe a CAPES (Coordenaçao de Aperfeiçoamento
---~~
do
--~--- ----
mais, pressupõem, da parte do pós-graduando, maturidade intelectual
" I
~-

Pessoal de Nível Superior) açompanhar e avaliar o desempenho desse e autonomia em relação às interferências dos processos de ensino. Em
setor do sistema educacional. No Portal dessa agência (\VW'W.capes.gov.
br), encontram-se disponíveis todas as informações sobre os Programas
dec;orrência disso, as diretrizes apresentadas neste livro aplicam-se, com
maior razão, a essas atividades. II I
de Pós-Graduação bem como toda a legislação pertinente, incluindo o
P-laM---Naci£ma.! tk-Pós.&adU2?Q) F~WC ~-eº5WIQ- - ti-
Tanto no mestrado como no doutorado,
sensu como é aqui considerada,
a pós-graduação,
exige, além do cumprimento
stricto
de de- II
terminada escolaridade, a realização de uma pesquisa que se traduza,
i I
respectivamente~ na dissertação e na tese. Trata-se de concretizar os
I
objetivos justificadores deste nível de ensino: abordar determinada pro-
A luz de uma concepção crítica do processo de conhecimento, de
_____ ~ __
blemática mediante exige!lte trabalho de pesquisa e de reflexão, apoia-
d_o_n_um
esforço de fundamentação teórica a seLassegurada através dos ensino e de......4pnmdizageJ14...tD.da~sp-afe5-de-ensil!G 3tt
t
I,
I instrumentos fornecidos pela escolaridade. perior deveriam estar perspassados pela postura e pelas práticas inves-
II
~ A ciência se faz através de trabalhos de pesquisa especializada, pró- tigativas. Com maior razão ainda, no âmbito da pós-graduação, essa
1\ pria das várias ciências; pesquisa que, além do instrumental epistemo- postura é absolutamente imprescindível, pois, a prática sistematizada
lógico de alto nível, exige capacidade de manipulação de um conjunto da investigação científica encontra aro seu lugar natural, uma vez que
de métodos e técnicas específicos às várias ciências. sua atividade específica é a própria pesquisa.
A escolaridade de pós-graduação, em todas as áreas, via de regra, A realização de uma pesquisa científica está no âmago do investi-
II oferece cursos de "métodos e técnicas de pesquisa", aplicados às vá- mento acadêmico exigido pela pós-graduação e é o objetivo prioritário
rias áreas, além da orientação metodológica fornecida pelos professores dos pós~graduandos e seus professores. Até mesmo o processo de ensino!
orientadores e pelos exercícios e seminários de preparação de tese. aprendizagem nesse nível é marcado por essa finalidade: desenvolver urna
Este capítulo trata dos aspectos específicos da atividade acadêmico- pesquisa que realize, efetivamente, um ato de criação de conhecimento
científica nesse nível, sem .sair do espírito do texto, intencionalmente di- novo, um processo que faça avançar a ciência na área. Pouco importa se
dático. Aplica~se, pois, o que já foi dito a respeito do trabalho .científico as preocupações imediatas sejam com o aprimoram~n~~ -a; qualificação
em geral, nos capítulos anteriores, aos trabalhos normalmente solicita- do docente de 3 o grau ou do profissional. Em qúalquer hipótese, esse
dos -nos cursos de pós-graduação. aprimoramento passará necessan"amente por umá prática efetiva da pes-
As tarefas de estudo, de pesquisa e de elaboração, solicitados nos quisa científica. Aliás, é preparando o bom pesquisador que se prepara o
cursos de pós-graduação, constituindo formas por excelência de tra- bom professor universitário ou qualquer outro profissional.

b
'f7'f'T
I ;
I 214 ANfONlO JOAQUIM SEVF.RJNO METODOLOGLA DO TRABAlRO ClENT1.FJco 215

6.1. PERFIL DA PRODUçAo CIENTíFICA dizer respeito. Não, obviamente, num nível puramente sentimental, mas
na nível da avaliação da relevância e da significação dos problemas
Tais são os assim chamados trabalhos de grau, uma vez que resultam abordados para o próprio pesquisador, em vista de sua relação com o
em trabalhos que visan: também à aquisição de um grau acadêmico, de universo que o envolve. A escolha de um tema de pesquisa, bem como
um título universitário: a dissertação de mestrado, a tese de doutora- a sua realização, necessariamente é um ato político. Também, neste âm-
mento e a tese de livre-docência. A esses podem ser equiparados, dado o bito, não existe neutralidade.2
nível comum de exigências, o ensaio teórico e as monografias científicas Ressalte-se que o caráter pessoal do trabalho do pesquisador tem
especializadas. uma dimensão social, o que confere o seu sentido político. Esta exigência
Neste último caso, está-se referindo a trabalhos monográficos re- de uma significação política englobante implica que, antes de buscar-se
sultantes de pesquisas elaboradas com finalidades não necessariamen- um objeto de pesquisa, o pós-graduando pesquisador já deve ter pensado
te acadêmicas. E óbvio que não é só nas universidades que se fazem no mundo, indagando-se criticamente a respeito de sua situação, bem co-
trabalhos científicos de alto nível. Como sempre, na linha de uma rica mo da situação de seu projeto e de seu trabalho, nas tramas políticas da
tradição histórica, trabalhos de grande valor, tanto em termos de pes- realidade social. Trata-se de saber bem, o mais explicitamente possível, o
quisa como em termos de reflexão, são realizados em instituições não que se quer, o que se pretende no mundo dos homens.

I universitárias e até por pensadores isolados. A insistência intencional


em se referir aos trabalhos acadêmicos decorre apenas da preocupação
Trabalho autônomo quer dizer que ele é fruto de um esforço do
próprio pesquisador. Autonomia esta que não significa desconhecimen-

\ didática. to ou desprezo da contribuição


um inter-relacionamento
alheia mas, ao contrário, capacidade de
enriquecedor, portanto dialético, com outros
6.1.1. Características qualitativas pesquisadores, com os resultados de outras pesquisas, e até mesmo com
os fatos.
\ Quaisquer que sejam as distinções que se possam fazer para caracterizar
as várias formas de trabalhos científicos, é preciso afirmar preliminar-
Este inter-relacionamento é dialético na medida em que ele nega, ao
mesmo tempo que afirma, a relevância da contribuição alheia. Esta só
mente que todos eles têm em comum a necessária procedência de um é válida quando incrementa a instauração da autonomia de pensamen-
trabalho de pesquisa e de reflexão que seja pessoal, autônomo, criativo to do pesquisador ..É reconhecendo e assumindo, mas simultaneamente
\ e rigoroso. negando e superando
se constitui.
o legado do outro, que o pensamento autônomo

\ Trabalho pessoal no sentido em que "q~alquer pesquisa, em qual-


quer nível, exige do pesquisador um envolvimento tal que seu objetivo Aqui se coloca o complicado problema das relações com o orienta~
de investigação passa a fazer parte de sua vida";l a temática deve ser dor, no caso das pesquisas feitas para os fins acadêmicos dos cursos de
realmente uma problemática vivenciada pelo pesquisador, ela. deve lhe pós-graduação, do qual se tratará no item seguinte.

IA. M. M. CINTItA. D~t~rmillação do (~,"a de pc\.quisa. Ciincic. da. [••formação. 11 (2): 15. 2 Ibid., p. 14.
216 AHTO:-<lO JOAQUL'.t SEVElUNO METODOLOGIA DO TR.AMLHO C1l'..NT1JICO 217

J
i
I Com relação a esta questão de autonomia, o orientando deve se da uma certa cautela, uma atitude de prudência ao evitar precipitação.
i
convencer de que é preciso ter até mesmo um pouco de audácia, ou se- O doutorando, por sua vez, pressupõe-se, já passou por esta escola,já
ja, arriscar-se a avançar IdeIas novas, eventualmente nascidas de suas deve ter plena autonomia intelectual, cabendo-lhe, pois, maior audá-
imuições pessoais, sem que se aurocensure por medo das críticas quer cia e maior capacidade de originalidade e de inventividade 1
bem como
do orientador quer de seus examinadores, quer ainda de seus futuros maior clareza e firmeza quanto às significações assumidas no âmbito de
leitores. É preciso soltar-se, criar, avançar e não ficar apenas num eter- um projeto político-existencial. Pressupõe-se igualmente maior elabo-
no repetir de ,idéias e descobertas já feitas. Tem-se vistO trabalhos de ração no que se refere ao domínio teórico. Enquanto o mestrando pode
u ora0 o Ja evena
transcrições ou de repetição de idéias já conhecidas. Como já se disse estar interagindo com a teoria constituinte. Suas relações com O orien-
no capítulo V, a citação e a transcrição são válidos instrumentos de tador serão, necessariamente, ainda mais igualitárias e livres.
trabalho ciemífico desde que se constituam na manifestação de um De qualquer modo, cabe ao pósMgraduando em geral, e com maior
diálogo crítico com os autores e dos autores entre si. ao relatarem os razão ao doutora~do, desenvolver seu trabalho de reflexão e pesqui-
resultados de suas pesquisas. sa do interior deste projeto político-existencial, em consonância com o
Com referência ao aproveitamento das idéias ou contribuições de momento histórico vivido pela sua sociedade concreta. Projeto que re-
autores. sobretudo uando ertencentcs a escolas diferentes e concreti- ve.la..a..sensibi lidade do-pós=gr~dua-nOO-às-c-endi~õeHtue-sua-socie
zadas através das citações, é preciso estar atento para não misturar po- vive e às exigências de sua transformação, em vista de seu crescimento
sições divergentes. Em posições divergentes) não .há como fundamentar constante.
argumentações. As citações dos autores podem ser trazidas em abono às Estas considerações já antecipam mais
posições defendidas pelo pesquisador. Mas é preciso ter presente que eSM uma característica do trabalho científico,
te apoio não pode decorrer de um posicionamento contraditório. MesM em nível de pós-graduação: ele deve cada
mo quando) apesar das oposições entre os autores, alguma colocação vez mais ser criativo. Não se trata mais de
vem a ser aproveitada, é preciso explicitar esta contradição. Tal deve ser apenas aprender, de apropriar-se da .ciência
o critério para O aproveitamento da bibl.iografia, de modo a que não se acumulada, mas de colaborar no desenvol-
apóie incoerentemente em autores e obras cujas posições vão em dire- vimento da ciência, de fazer avançar este
ção incompatível com a direção seguida pelo pesquisador. conhecimento aplicando-se o instrumental da ciência aos objetos e situ-
Deste ponto de vista, cabe ressaltar uma certa diferenciação entre o ações, buscandoMsc seu desvendamento e sua explicação. Embora não
trabalho do .mcstrando e do doutorando, pelo menos em nossas condi- se possa falar de criatividade sem um rigoroso domínio do instrumental
ções brasileiras. científico, uma vez que o conhecimento humano não se dá por esponta-
O mestrando está ainda numa fase de iniciação à pesquisa, à vida neidade ou por acaso, é bem verdade também que nao basta conhecer
científica. Está vivenciando uma experiência nova e dele não se pode técnicas e métodos. É preciso uma prática e uma vivência que façam
exigir a plenitude da criação original) justificando.se, de sua parte, ain- convergir estes dois vetores, de modo que os resultados possam ser por-

, '
218 ANTÔNlO JOAQUIM SEVERINO METODOLOGIA DO 1RA1lAlHO CIENI1FIco 219

tadores de descobertas e de enriquecimento. Aqui, conseqüência fecun~ Tais são a tese de doutorado e a dissertação de mestrado. Obviamente,
da da correlação entre razão e paixão, parafraseando Rousseau. trabalhos científicos de menor porte ~ão exigidos e reallzados no decor-
É bom esclarecer que originalidade não quer dizer novidade. A ori- rer dos cursos de pós-graduação; mas não são específicos deste nível e se
ginalidade diz respeito à volta às origens, explicitando assim um escla- regem pelas diretrizes gerais da elaboração do trabalho científico, tendo
recimento original ao assunto, até então não percebido. A descoberta sido descritos no capítulo anterior.
original lança novas luzes sobre o objeto pesquisado, superando, assim, Mas qualquer que seja a forma do trabalho científico, é preciso re~
seja o desconhecimento seja então a ignorância. lembrar que todo trabalho desta natureza tem por objetivo intrínseco a
Mas o trabalho científico em nível de pós-graduação deve ser ainda demonstração, o desenvolvimento de um raciocínio lógico. Ele assume
extremamente rigoroso. Esta exigência não se opõe à exigência da cria- sempre uma forma dissertativa, ou seja, busca demonstrar, mediante
tividade, antes a pressupõe. Não há lugar, neste nível, para o espontane- argumentos, uma tese, que é uma solução proposta para um problema.
ísmo, para o diletantismo, para o senso comum e para a mediocridade. Fatos levantados, dados descobertos por procedimentos de pesquisa e
Aqui se define a exigência da logicidade e da competência. Além da dis- idéias avançadas se articulam justamente como portadores de razões
ciplina imposta pela metodologia geral do conhecimento e pelas meto- comprovadoras daquilo que se quer demonstrar. E é assim que a ciência
dologias particulares das várias ciências, exige-se ainda a disciplina do se constrói e se desenvolve.
compromisso assumido pela decisão da vontade. Não se faz ciência sem Entretanto, são vários os modos de se levantar os fatos, de se pro-
esforço, perseverança e obstinação. Ao pós~graduando, como. a qual- duzir as idéias e de se articular uns aos outros. Várias são as formas de
quer pesquisador, impõem-se um empenho e um compromisso inevitá- procedimento técnico e lógico do raciocínio científico. Por isso mesmo,
veis, sem os quais não há ciência e nem resultado válido. Assim sendo, são também vários os caminhos para se desenvolver um trabalho cien-
a realização de um trabalho de pós-graduação exigirá muita dedicação tífico como uma tese.
ao estudo, à reflexão, à investigação. Exigirá muita leitura, muita par- A ciência, enquanto conteúdo de conhecimentos, só se processa co-
ticipação nos debates, formal ou informalmente promovidos. Ele só se mo resultado da articulação do lógico com o real, da teoria com a rea-
concretizará e amadurecerá na medida em que o pós~graduando criar lidade. Por isso, uma pesquisa geradora de conhecimento científico , e ,
um contexto de vida científica sistemática, mantida com insistente per-
severança, sempre em busca de uma imprescindível fundamentação teó-
conseqüentemente, uma tese destinada a relatá~la, deve superar necessa-
riamente o simples levantamento de fatos e coleção de dados, buscando I~
rica, tanto científica como filosófica. a~iculá~los no nível de uma inte~pretação teórica.
Por isso,. fazer uma tese implica dois movimentos, com uma única
6.1.2. Ciência, pesquisa e pós-graduação significação, uma vez que são dialeticament~ unificados. Com efeito, a
ciência depende da confluência dos dois ~ue, considerados isoladamen-
Neste capítulo são mencionados, ainda que esquematicamente, como ti~ te, só têm sentido formal. Só a teoria pode dar "valor" científico a da-
pos de trabalhos científicos apenas aqueles desenvolvidos em função de dos empíricos, mas, em compensação, ela só gera ciência se estiver em
. sua vinculação às exigências acadêmicas dos cursos de pós-graduação. interação articulada com esses dados empíricos .

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METODOLOGl.-'\ DO TRABALHO CIENTíFICO 111
no AmOMO JOAQUIM 5EVEluNO

Vários são os recursos utilizáveis para o levantamento e a confi- episiemológi~cas se encontram nas obras de metodologias de pesquisa
guração dos dados empíricos; os métodos e as técnicas empÍricas de científica e em obras de filosofia. !
____ -+- ~G~ll"jda~a~l'"litl."'ca""ç~a as •árias--formas de in li cstigação
p_es~q'"'~Ü~'dar' i I
científica. Assim, a pesquisa experimental, a pesquisa bibliográfica, a 6.1.3. A tese de doutorado [ i
pesquisa de campo, a pesquisa documental, a pesquisa histórica, a pes-
quisa fenomenológica, a pesquisa clínica, a pesquisa lingüística etc. Já A tese de doutorado é considerada o tipo mais representativo do traba-
lho científico monográfico. Trata-se da abordagem de um único tema ,
f I
no plano desta elaboração dos processos metodológicos e técnicos para
__ ._-~
.
o lev.antamen!º-do:Ldados-e cos em_como-na Slla_a lica ão-con----
ereta, se .faz ativa a intervenção da atividade teórica. Mas é sobretudo instrumentos metodológicos específicos. Essa pesquisa pode ser teórica,
mediante o processo de interpretação destes dados empíricos que se de campo, documental, experimental, histórica ou filosófica, mas sem-

I faz presente e significativa esta atividade teórica. Trata~se do momento pre versando sobre um tema único, específico, delimitado e restrito.
l principal de articulação e de confluência do lógico com o real, quando Com maior razão do que no caso dos demais trabalhos científicos,

,
\, ocorre a efetivação do conhecimento científico.
Mas do mesmo modo como existem vários processos de levanta-
uma tese de doutorado
blema demonstrando
deve realmente colocar e solucionar
hipóteses formuladas e convencendo
um pro-
os leitores

I mento de dados empíricos, existem igualmente vários modos de inter-


pretação lógica destes dados. Trata-se dos vários métodos epistemoló-
mediante a a resenta ão de razões fundadas na evidêB€i-a--àes-fatos
coerência do raciocínio lógico.3
e na

I
gicos utilizáveis para a compreensão significativa dos dados reais. Por. Além disso, exige-se da tese de doutorado contribuição suficiente-
isso, a ciência não pretende mais atingir uma verdade única e absoluta: mente original a respeito do tema pesquisado. Ela deve representar um
suas conclusõe~ não são consideradas como verdades dogmáticas mas progresso para a área científica em que se situa. Deve fazer crescer a
1 como formas de conhecimento, conteúdos inteligíveis que dão um sen- ciência. Quaisquer que sejam as técnicas -de pesquisa aplicadas, a tese
tido a determinado aspecto da realidade. visa demonstrar argumentando e trazer uma contribuição nova relativa
A multiplicidade de aspectos pelos quais a realidade se manifesta ao tema abordado.
abre igualmente uma multiplicidade de métodos de configuração dos
dados fenomenais, bem como uma multiplicidade de métodos episte- 6.1.4. A dissertação de mestrado
mológicos. Só para registrar os mais gerais e presentes no momento
atual do desenvolvimento das teorias científica$, pode-se .r~ferir às me- Também a dissertação de mestrado deve cumprir as exigências da mo-
todologias epistemológicas mais ger"ais:as metodologias positivista, neo- nografia científica. Trata-se da comunicação dos resultados de uma pes-
positivista, estruturalista, fenomenológica e- dialética., cada uma com quisa e de uma reflexão, que versa sobre um tema igualmente único e
princípios e leis lógicas e com seus fundamentos filosóficos próprios,
dando delimitações características às explicações científicas que geram. 3 Âng.l0 D. SALVADOR, Métodos ~ ticn.icas dI! pesquisa bibliogrdfica, p. 169. S~bastian A. MATCZAK Resl!arch
cmd composition in phl1omphy, p. 16. '
Explanações sobre estes processos técnicos e sobre estas metodologias

L
r
III
222 A:m"ONlO JOAQUIM SEVF.lUNO ri
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~i
METODOLOGIA DO TRABALHO CIENT!FJco 223

delimitado. Deve ser elaborada de acordo com as mesmas diretrizes ':, em teses acadêmicas. É válido aceita,r esses tipos de trabalhos justamen-
;',1
metodológicas, técnicas e lógicas do trabalho científico, como na tese

II de doutoramento. I, te por permitirem a formação de um material básico de documentação


de onde partirão outros estudos interpretativos.? Apenas quer-se insistir
A diferença fundamentaI. em relação à tese de doutorado está no !, que toda monografia científica deve ser necessariamente inte.rpretativa,

I caráter de originalidade do trabalho. Tratanclo.se


da vinculado a uma fase de .iniciação à ciência, de um exercício dire-
tamente orientado, primeira manifestação de um trabalho pessoal de
de um trabalho ain- argumentativa, dissertativa e apreciativa. Pesquisa experimental e refle-
xão racional complementam-se necessariamente
cia. Afinal, o objetivo de uma pesquisa é fundamentalmente
na elaboração da ciên-
a análise e

I
II
pesquisa, não se pode exigir da dissertação de mestrado o mesmo nível
de"originalidade e o mesmo alcance de contribuição ao progresso e de-
interpretação do material coletado. É na consecução desse objetivo que
se podem aferir os resultados da pesquisa e avaliar o avanço que ela re-
'I senvolvimento da ciência em questão.4 presentou para o crescimento científico da área.
Ê difícil eliminar da dissertação de mestrado o seu caráter demons-
I
trativo.5 Também ela deve demonstrar uma proposição e não apenas 6.1.5. Caráter monográfico e coerência do texto
explanar um assunto. Esta parece ser uma exigência lógica de todo tra-
balho desde que tenha objetivos de natureza científica bem definidos. Com relação à natureza dos trabalhos de pós-graduação, cabem ainda

I Tanto a tese de doutorado


pois, monografias
como a dissertação
científicas que abordam
de mestrado
temas únicos delimitados,
são, duast observações:
1. Na elaboração de uma tese ou dissertação, não se deve pretender
servindo-se de um raciocínio rigoroso, de acordo com as diretrizes lógi- falar de rudo, de todos os aspectos envolvidos pela problemática tratada.
cas do conhecimento humano, em que há lugar tanto para a argumen- O caráter monográfico do trabalho é um significativo aval de sua quali-
tação puramente dedutiva, como para o raciocínio indutivo baseado na dade e de sua contribuição ao desenvolvimento científico da área. O im-
observação e na experimentação.6 portante é ater-se ao substancial da pesquisa, não se perdendo em gran-
Às vezes, a dissertação de mestrado e até mesmo as teses de douto- des retomadas históricas, em repetições, em contextuações muito amplas.
rado são reduzidas a um levantamento puramente experimental de da- Não se pode falar de tudo ao mesmo tempo numa mesma tese. A estes
dos observados e quantitativos, fundados em procedimentos prioritária aspectos pode-se referir, citando-se as fontes competentes, sem necessida-
ou unicamente estatísticos. Mas sem uma reflexão interpretativa que de de reproduzi-las a cada novo trabalho visando ao mesmo tema.
procede inclusive por dedução, não se prova nada e não há nenhuma 2. A coerência interna do texto é imprescindível e ela se impõe em
hipótese demonstrada. Com esta afirmação não se quer negar o valor de dois níveis: primeiro, a coe~êntia lógico-estrutural da articulação do
uma série de pesquisas, sobretudo referentes a temas pouco explorados raciocínio, as etapas do processo demonstrativo se sucedendo dentro

4 [bid., p. 17. . .. d . b.h/'


5 Quanm a is<o aqui há divtrgi:ncia com a posição dt Ângdo D. SALVADOR, M"todo~ e teC1llcas "pesq ••,sa I 10-
7 Cf. Dtrmtval SAVlANl, Filosofia da eduwção brasileira (Rio dt Janeir~, c1vilizaç:io Brasiltira, 1983), p. 43-44,
gráfie4. p. 169. onde [~ce cOllS"idtraçõts sobn: a imporrância t O significado dest:u monografias de bast cujo lugar natural são os
6 Cf. o C3pírulo N. cursos dt pós-gradll:l.çao.
224 ANTONIO ]OAQU[\1 SEVERINO METODOLOGI.~ DO TRAlIALHO CIENTiFICO 125

de uma seqüência da articulação lógica;S segundo, a coerência caril as • Página de aprovação


premissas metodológicas adotadas. Este aspecto da opção metodoló- • Sumário
____ ~ g~jc-a--reeIlOOfltra
a ql:lesti-e-OOfefefefieial teóÚco do trabalho, pois este ti usta de taaelas elou hguras
implica igualmente uma opção epistemológica básica. Adotada esta , • Resumo
é preciso que as várias etapas do raciocínio sejam coerentes com estas • Corpo do trabalho com:
estruturas epistemológicas do método: por exemplo, se o método ado- - Introdução
tado é estruturalista, não se pode argumentar diretamente de forma - Desenvolvimento
fenome.lJ.QLógica._
• Apêndices
• Anexos
6.2. FORMATAÇÃO OAS TESES E DISSERTAÇÕES • Bibliografia
• Página de créditos do autor
As monografias científicas a serem desenvolvidas nos cursos de pós-gra- • Capa
duação, seja a dissertação de mestrado, seja a tese de doutoramento ou
demais trabalhos de alto nível, seguem as normas metodológicas gerais -Sãomantidas as partes principais dos trabalhos científicos em geral,
que foram apresentadas para o trabalho científico, no capítulo IV. As- sendo específicas a estas monografias acadêmicas, em contraposição
sim, por exemplo, a técnica bibliográfica a ser seguida é a mesma, mas aos trabalhos didáticos comuns, as seguintes partes: a página de dedica-
sempre com maior exigência de rigor e completude. A bibliografia deve tória, a página de aprovação e o resumo. Quase todas as dissertações e
ser mais rica e mais bem explorada. teses contêm tabelas e quadros, às vezes figuras, e na maioria dos casos
Todavia, ~lgumas características técnicas são específicas desses traba- contêm igualmente apêndices e anexos.
lhos e é importante realçá-las, uma vez que, também no que diz respeito à A capa inicial das teses de dissertações traz a indicação da natureza
forma, se cobra sempre maior rigor e precisão na sua apresentação. do trabalho, de seu objetivo acadêmico, da instituição a que está sendo
Quanto à apresentação geral do trabalho, a monografia científica apresentada e do nome do orientador. Do ponto de vista material, as
que se elabora como dissertação ou tese contém as seguintes partes: capas são de cartolina diferente do papel usado para o resto do traba~
lho_ No alto, o nome do autor, no centro, o título do trabalho, mais

I • Capa abaixo, à direita, a explanação da natureza do trabalho e, embaixo, a


instituição, a cidade e a data.9 A página de rosto retoma os dados da ca-
I • Página de rosto
pa inicial; caso esta já tenha especificado a natureza do trabalho, faz-se
I • Página de dedicatória
desnecessário repeti-Ia nessa página.

I 8 Ver capítulo 11, p. 74-82. 9 Cf. modelo à página 227.

,'o
\ ••
L
rI 226 ANrONlO JOAQUIM SEVERINO

"~,o

As páginas de dedicatória aparecem em teses acadêmicas de mes-


227

II trado, de doutoramento, de livre-docência e em trabalhos


blicados, desde que se queira prestar alguma homenagem ou manifestar
algum agradecimento a outra pessoa. Nas teses de mestrado e de dou-
a serem pu-

FRANCISCA ELEODORA SANTOS SEVERINO


I,
, toramento é praxe agradecer pelo menos ao orientador. Evitam-se ex~-
~ geras na manifestação de homenagens e agradecimentos.
A página de avaliação aparece nas teses acadêmicas: ~ preciso pre-
~ ver espaço com tantas linhas quantos forem os membros da Comissão Imagens jornalísticas: a imagem
I Julgadora1o que assinarão alguns exemplares da tese. Na parte inferior da violência como espelhamento das
metamorfoses da sociedade brasileira
i da página:

Comissão Julgadora
em processo de globalização.

I
,
li Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação

I Em geral, dada a natureza dessas monografias, elas contêm qua-


em Ciência da Comunicação, da Escola de Comunicação
e Artes, da Universidade de São Paulo, como parte dos re-
quisitos para a obtenção do título de Doutora em Ciências da
dros, tabelas, apêndices e anexos. Todos esses elementos constam do Comunicação, sob a orientação do Pro£. Waldenyr Caldas
sumário sob forma de listas, e ainda são organizadas em sumários espe-
ciais: lista de tabelas, lista de figurasY
Apêndices e anexos só se acrescentam quando exigidos pela nature-
za do trabalho; os apêndices geralmente constituem desenvolvimentos
autônomos elaborados pelo próprio autor, para complementar o racio.-
doia, sem prejudicar. a unidade do núcleo do trabalho; já.os anexos são
documentos, nem s~'mpre do autor, que servem 'de complemento. ao tra- i UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
balho e fundam~ntam sua' pesqliisa.e ~utros instrumentos de trabalho Escola de comunicação e Artes / Doutorado
usados na pesquisa, como os questionários. I São Paulo - 2001

10 Silo três examinadores nas dd"""s de dissertação de mestrado e cinco nas ddes.as de tese de doutorado e de livre-
docrncia.
11 Cf. p.l29. Figura 1. Modelo de capa e página de rosto.

,
b
:\l!!'f,,' ,
-:~
228 229

,
!
,
! .i
,l I
., Capo 1. Da fotografia como objeto de pesquisa: TABELAS (CAP. lI):
p
n
representação alegórica e realidade social ,
rntrodução 01 ! I. História da Educação Brasileira:
r estudos realizados, 1812.1973 (Classificação Geral) ......... 12

I,
1. A sociedade humana em mudança:
um novo contexto histórico-social 03
11. História da Educação Brasileira:
I~
1.1. Octávio lanoi: a globalização e a crise teórica , estudos realizados, 1812-1973 I
i das ciências sociais 03 I,
(Classificação Metodológica) ... o •••••••••••••••••••••• "'.'. _, ••••••• ... 12
'\ 1.2. Martin-Barbero: a mudança social na América Latina 10
I,, ."

1.3. Frederic Iame;;;OIl..:.e_aJd::.Í.tica


uós~_de-£nidade-- --l2
,
1.4. DavId Harvey: um novo ciclo TABELAS (CAP. IV):
i de compreensão do tempo/espaço 21
I
I 2. Arte e sociedade 27 , I. Números de escolas segundo a dependência
2.1. José Guilherme Merquior e a estética benjaminiana 27 administrativa ................................................................... 38

I 2.2. Lukàcs e a estética 40


54 lI. Discriminação das despesas dos poderes

__ L
3. A fotografia: o signo antropológico e a realidade !
públicos pelos serviços de educação ................................... 40 !
3.1. A fotografia como linguagem épica: Barthes 55 J

3.2. A abordagem estética de Aumont 67 ,


, m. Receita e despesa efetuada pela [
3.3. A abordagem epistêmica de Dubois
•.A. GiseIe Frewid c a fotografia/testemwlho
70
I~
Uni~QJdiruihu.ição ................. ----r' --

IV. Distribuição percentual das despesas da União .................. 42 r


Capo 2. Por uma abordagem hermenêutica
V. Despesas fixadas pelos Estados .......................................... 43
do processo social de transformação:
o homem no tempo da reprodutibilidade técnica da arte 01 Vl. Despesas municipais totais e com a educação .................... 44
Introdução 01 !
1. Do objeto fotográfico e sua essência 04 VII. Número total das unidades escolares de todo o pais ..... :.... 45
05 I'
1.1. A fotografia como expressão do real
1.2. Fotografia, cinema e surrealismo:
VlIl. Crescimento real da rede escolar ..... ................................. 45